A calma deste homem é desarmante. Mas a sua argúcia é quase lendária. Tal como o seu prestígio. Com 25 anos de vinhos em seu nome, Domingos Alves de Sousa é uma figura incontornável do Douro. E os seus vinhos também!

 

TEXTO António Falcão NOTAS DE PROVA Luis Lopes FOTOS Ricardo Palma Veiga

EM 1992, um produtor duriense fazia o seu primei­ro vinho tinto DOC Douro, que lançou alguns anos depois com o nome de Quinta da Gaivosa. Desde aí, Domingos Alves de Sousa passa de completo desconhecido do grande público para um sólido estrelato na região do Douro (e não só). Pelo meio está um percur­so com milhentas estórias e grandes vinhos durienses.

Tradição familiar
A família de Alves de Sousa tem longas tradições na pro­dução de Vinho do Porto. Pelo menos século e meio. Tal como os seus colegas produtores, esta casa vinificava as suas uvas e vendia o vinho às grandes casas de Vinho do Porto. A tradição é longa mas persistia o anonimato, porque não havia qualquer marca. A história começou a dar a volta nos anos 80 do século passado, quando Do­mingos teve de assumir, por doença de seu pai, as rédeas da gestão da propriedade familiar, a Quinta da Gaivosa, no Baixo Corgo.

A terminar o curso de engenharia civil e posteriormente o estágio, Domingos vivia na altura no Porto. A gestão era feita, portanto, a alguma distância da terra. Surge então a hipótese de adquirir uma vinha contígua, a Quinta do Vale da Raposa. Domingos fala com a mulher e decidem avançar, no pressuposto de que não seria mais possível controlar o negócio a partir do Porto. O casal muda-se então para o Douro, corria o ano de 1987. A ideia era fazer uma ‘campanha’ a dez anos. Com os pés e mãos no xisto duriense, Domingos teve de alterar radicalmente a sua vida. Agora era a sério…

Com os pés no Douro
Na verdade, não havia assim tanta coisa de novo para Domingos Alves de Sousa: “Foi aqui que nasci, e foi aqui que estudei”, relembra ele. Videiras, vindimas e adegas não eram para ele fenómenos estranhos. Mais importante ainda era o sonho que começava paulatinamente a nascer na mente do produtor. Fazer vinho próprio, com a sua marca. Poderia ter sido Vinho do Porto mas a crise dos anos 90 neste sector levou-o ainda mais para o caminho do vinho do Douro.

Inicia a reestruturação de algumas vinhas e, com apoios comunitários, amplia e renova a adega, preparando-a para o futuro. Faltava o conhecimento: “A partir daí resol­vi fazer alguma formação profissional nesta área, inclusive um pequeno curso na UTAD [Universidade de Vila Real] de viticultura e enologia, e um master de vinhos na Uni­versidade Católica; conjuguei isso com visitas ao estran­geiro, em especial à região de Bordéus, para ver alguns châteaux”, revela-nos. E pensa: “Se eles conseguem, por­que não nós, que temos um património que é o Vinho Porto, um dos melhores vinhos do mundo?”

Absorve muitos conhecimentos, forma ideias, consolida o projecto ainda em forma de sonho. O problema era montar tudo numa região que conhecia muito bem como fazer um fortificado mas pouco histórico tinha na produ­ção de vinhos DOC… Alves de Sousa tomou como refe­rência uma marca histórica da região e pensou assim: “Se possível, queríamos ser tão bons ou melhores que eles”. Quem era? Domingos não revela… Mas não é difícil adi­vinhar, a fasquia estava muito alta.

Os primeiros vinhos
Domingos Alves de Sousa reconhece que este empreen­dimento, para ter sucesso, precisa de know-how técnico: “O melhor que eu tive foi a consciência de que sabia pouco. Assim, quis rodear-me de profissionais que, com a minha orientação, compensaram as minhas ignorâncias.” Contratou assim um técnico de vinha – Jorge Dias – e um jovem enólogo pouco conhecido, de seu nome Anselmo Mendes. O material de marketing foi também entregue a profissionais.

Domingos sabia, no seu íntimo, que as uvas tinham muito potencial mas nunca tal havia sido testado. Começam en­tão as experiências de vinificação: em 1992 sai o primeiro Quinta da Gaivosa. Este vinho conseguiu ser num evento em Londres o melhor vinho português; e nas listas do crí­tico Oz Clark ficou nos 30 ‘best buys’ do mundo. “Foi um grande estímulo”, relembra Domingos. Numa feira para importadores, em Vila Real, investe num stand único, que parecia uma casa, e consegue três mercados de uma as­sentada. O seu maior cliente foi logo a exportação, um feito inédito no Douro e, em muita medida, no restante Portugal vínico. “Diria mesmo que o nosso mercado co­meçou de fora para dentro. Não foi propositado, mas a oportunidade surgiu e foi aproveitada”, revela o produtor.

Outras colheitas vão surgindo, incluindo brancos. O pri­meiro Branco da Gaivosa veio da vindima de 1996. Neste período, o negócio estava ainda sustentado na venda de Vinho do Porto. Mas Domingos opta antes por vender as uvas, ganhando uma maior capacidade de vinificação para os DOC Douro. Calha bem porque Alves de Sousa vai adquirindo mais vinhas a familiares: primeiro a Quinta da Estação, depois a Quinta da Aveleira (onde, aliás, nas­ceu); de seguida a Quinta das Caldas, junto ao Douro, e finalmente a Quinta da Oliveirinha, no Cima Corgo, a úni­ca quinta fora da sua sub-região. “E pelo meio nem con­tabilizo as pequenas parcelas”, diz-nos. No final, Alves de Sousa gere um património com mais de uma centena de hectares de vinha.

Sabia que…
A Gaivosa já era destacada pela qualidade dos seus vinhos em documentos do século XVIII, redigidos pelo pároco de Santa Marta de Penaguião.

Solidificação do projecto
Apesar dos meios modestos, Alves de Sousa não para e os vinhos vão saindo, ano após ano, da velha adega da Gaivosa. E marcas. Os prémios também. Em 1999, a “Re­vista de Vinhos” atribui-lhe o título de Produtor do Ano, uma efeméride que Domingos não esquece: “Cometi o sacrilégio (mas foi sentido) de dizer, no meio de 400 pessoas, ‘eu mereço’. Nos dias seguintes tive de ouvir os meus colegas (risos).”

Afinal, repetiu o feito em 2006. Nessa altura já estava com ele o filho Tiago, recém-saído do curso de enologia da UTAD. Fazendo parceria com Anselmo Mendes, Tia­go foi dar a folga que o pai precisava para alargar a sua curiosidade natural: diz ele que, “para além da tradição, gosto de inovar”. E começaram mais experiências: pri­meiro com vinhos monovarietais e bivarietais. A intenção era preparar o perfil dos vinhos para o futuro, quando as vinhas velhas acabassem.

A inovação foi também para outro ramo, com a vinifica­ção de parcela por parcela, vinha por vinha. E começaram assim a sair os primeiros vinhos de vinha: Vinha do Lor­delo e Abandonado são os casos paradigmáticos. Este último, diz Domingos, já foi muito iniciativa de Tiago, que não deixou arrancar a vinha ‘abandonada’. O próprio Al­ves de Sousa Reserva Pessoal tinto é, parcialmente, um vinho de vinha e tem a particularidade de só sair para o mercado um mínimo de 7 anos após a vindima. O mes­mo acontece com a versão em branco, um vinho muito especial, fermentado em processo oxidativo. Domingos graceja com o toque ‘revolucionário’ do vinho: “Não é para toda a gente e devia ser vendido com um manual de instruções.” Estes vinhos só aparecem em anos excep­cionais mas, quando a natureza ajuda, a empresa conse­gue um feito incrível: apresentar 8 ou 9 novos vinhos de muito alta qualidade (e preços a condizer). O principal responsável é a Gaivosa, a jóia da coroa do clã Alves de Sousa. Esta quinta possui características únicas: vinhas em altitude na zona mais fresca do Douro e uma mistura de vinhas novas com outras de idade abaixo dos 100 anos. A enologia da casa é tradicionalmente minimalista, deixan­do falar as uvas.

O Vinho do Porto
Faltava dar o derradeiro passo: depois de décadas a pro­duzir Vinho do Porto (e a deixar alguns em stock), Alves de Sousa acaba por fazer o seu primeiro em 1999, um LBV Quinta da Gaivosa. O primeiro Vintage da marca é de 2003 e só bem mais tarde vieram os Tawny 10 e 20 anos. Com alguns Ruby, de mais baixo preço, pelo meio, e com a marca Quinta das Caldas. Para breve estará um Tawny 30 anos. Tiago diz-nos que este pas­so seria inevitável: “Douro e Porto são duas expres­sões da mesma região; e queremos estar em ambas.”A produzir cada vez mais e melhor, a equipa vai aumen­tando, com a inclusão de mais membros da família. Dois irmãos de Tiago prestam assistência na área do design. Outros três elementos da família trabalham nas instala­ções da nova adega da Gaivosa, que começou a funcionar na vindima de 2015. Esta obra foi, sem dúvida, o realizar de um grande sonho. Depois das vinhas, Domingos pode finalmente fazer nascer a adega com que sonhava, com equipamentos de topo e outras condições de trabalho. Segundo ele, “permite-nos ir um bocado mais longe”.

Epílogo
Necessariamente reduzida, esta peça contou a história de um verdadeiro pioneiro do Douro moderno, um ex­poente da região, cujo nome leva a todo o mundo. Em 25 anos, Alves de Sousa e a sua família e equipa criaram um projecto de excelência que, acreditamos, está longe de ter atingido o cume. A curiosidade e a vontade de inovar continuam por cá e serão mesmo reforçadaa pela inevitável entrada de sangue novo. Mas mesmo o ‘pai Domingos’, como os filhos carinhosamente lhe chamam, está aí para durar. Com os seus 68 anos, Domingos não hesita: “Sinto-me com muita força e tenciono continuar presente enquanto isto me der prazer.”

 

25 anos de Gaivosa

Nascido na colheita de 1992, o tinto Quinta da Gaivosa é a “bandeira” da casa Alves de Sousa, o seu vinho mais conhecido e prestigiado dentro e fora de portas. Vinte e cinco anos passados sobre a sua criação, uma prova vertical de todos os Gaivosa mostra bem a consistência e singularidade de um dos mais notáveis vinhos do Douro.


LEMBRO-ME
bem do primeiro Quinta da Gaivosa, de 1992. Também seria difícil esquecê-lo. Naquela época, os vinhos de qualidade do Douro não eram tantos assim. Para além das marcas da Ferreira, do Côtto, da Pacheca, que simbolizavam o “Douro clássico”, o “Douro moderno” dava os primeiros passos neste iní­cio dos anos 90 através, sobretudo, do Duas Quintas, da Quinta de La Rosa e do Quinta da Gaivosa. Só em final da década, em 1999, esse movimento teria continuidade com a Quinta do Vallado, Redoma, Vale Meão, e a emer­gência dos chamados Douro Boys.

Do Gaivosa de 1992, recordo a fruta elegante, a frescu­ra e também a barrica impositiva, até excessiva. 25 anos passados, a madeira esbateu-se e a finura e elegância permaneceram, com muito boa acidez a segurar o con­junto (17). Mais cheio e concentrado está o 1994, sólido, austero, com grande frescura de boca, firme, vibrante, ainda em muito boa forma (17,5). O 1995 está fantástico. Quando surgiu no mercado, foi várias vezes vencedor das provas em que eu participei, e hoje mantém intactos to­dos os seus predicados: cheio, envolvente, com taninos de seda, excelente equilíbrio, profundo, pleno de classe (18,5). 1997, foi outro grande ano de Gaivosa, o vinho está super aveludado, cheio de presença e complexida­de, com o carácter elegante e fresco da marca bem vinca­do, longo, sofisticado (18). Curiosamente (ou talvez não, porque a colheita foi bem diferente), o 1999 está mais evoluído do que o anterior, mas ainda a dar muito prazer a beber, polido, equilibrado, fresco (17).

Oriundo de um ano muito prometedor, o Gaivosa 2000 era aguardado, quando do seu lançamento no mercado, com grande expectativa, mas recordo que as primeiras amostras que recebi foram uma desilusão: o vinho estava contaminado por brettanomyces, micro-organismo que pode provocar os desagradáveis aromas a couro molha­do, o vulgarmente chamado “suor de cavalo”. Vim de­pois a saber que havia dois engarrafamentos desse vinho e o segundo, provado uns meses mais tarde, revelou um Gaivosa 2000 esplendoroso e sem traços de “brett”. Pro­vado agora, o 2000 (do segundo engarrafamento, claro!), manteve o perfil: opulento, acetinado, ainda com bastan­te fruta, profundo e rico, um grande vinho (18).

O ano de 2003 marcou uma viragem no processo de cria­ção do tinto da Quinta da Gaivosa. O vinho sempre foi feito das vinhas velhas da propriedade (hoje com mais de 80 anos, plantadas com cerca de 20 castas diferentes), mas até aí o Gaivosa resultava apenas da escolha das me­lhores barricas de cada ano. A partir da vindima de 2003, as diversas parcelas de vinha da quinta passaram a ser vinificadas em separado, em depósitos mais pequenos. Os diferentes vinhedos começaram assim a evidenciar as suas particularidades e os enólogos (Anselmo Mendes, desde o início, e a partir daqui já com o contributo de Tiago Alves de Sousa) puderam selecionar as mais indi­cadas para a manutenção do estilo Gaivosa, assente na elegância e frescura. Destacaram-se então as parcelas das cotas mais altas (400/500 metros) e expostas a poente, que ainda hoje constituem a base do vinho.

O clima de 2003 mostra o seu lado quente no Gaivosa, profundo e apimentado, encorpado, mas ainda assim com acidez suficiente para manter harmonia e longo fim de boca (17). Já o 2005 é outra música, apesar de ter sido um ano seco. Ainda com muito fruto, bagas e compotas, esteva, pimentas, tabaco, concentrado mas fresco, muita presença (18). Saltamos três anos (curiosamente, não hou­ve 2007, um bom ano no Douro) para o 2008, um tinto cheio de cor, fruto ainda jovem e exuberante, elegantes notas florais e vegetais, taninos sedosos, muito bonito e expressivo (18). Já o 2009 é um perfeito contraste, fecha­do, austero, concentrado, com sugestões terrosas, cre­moso mas a passar por uma fase indecisa, a precisar de mais algum tempo para mostrar para onde vai (17,5). O 2011 é um portento, um tinto que tirou o máximo parti­do de um ano de invulgar qualidade: muito jovem ainda, cheio de cor, bastante complexo de aromas e sabores (amoras, ervas do campo, balsâmicos, terra), com taninos perfeitos, enorme profundidade e elegância, um vinho de guarda por excelência (19). No conjunto, doze vinhos de elevado nível que espelham todo o carácter de um gran­de nome do Douro.

 

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