Dez anos é tempo suficiente para definir o patamar de grandeza de um vinho tinto. A fruta da juventude transforma-se em aromas e sabores mais complexos e requintados, os taninos afinam, o vinho ganha profundidade e requinte. Foi isso tudo que encontrámos nesta prova de tintos com uma década de idade.

 

TEXTO João Afonso FOTOS Ricardo Palma Veiga

COSTUMO dizer que o vinho é, fundamentalmente, “tempo”: o tempo que criou as suas uvas, o tempo de transformação e estágio na adega, o tempo de evolução em garrafa e, por fim, o tempo que o demoramos a beber. Os grandes vinhos medem-se a partir deste “tempo”. Quanto maiores as primeiras medidas e mais pequena a última, mais exaltada será a garrafa de vinho.

Os grandes Porto são Vintages ou Tawnies Velhos; os grandes Bordéus ou Borgonha, ou grandes marcas espanholas e italianas, aquelas garrafas que atingem fortunas em leilões, são vinhos velhos. Há inclusivamente muito investidor que ganha bom dinheiro a adquirir garrafas de grandes marcas quando as novas colheitas são lançadas no mercado, para as revender alguns anos mais tarde pelo dobro ou triplo do dinheiro investido. É um excelente negócio este, o dos grandes vinhos… “velhos”. O escândalo das falsificações abate-se muitas vezes sobre eles. O documentário “Sour Grapes”, disponível na Netflix, aborda este nefando tema. Entristece, saber os muitos milhões de dólares que se roubam todos os anos, em nome das colheitas antigas de grandes vinhos.

Tivemos em Portugal, até ao surgimento da modernidade enológica e do advento das técnicas do Novo Mundo focadas em vinhos jovens, intensos e cheios de fruto, uma cultura do vinho velho. Tanto tinto, como branco. Recordo rótulos Conde de Aguieira da década de 60 com a menção de “Branco Velho”. Recordo os famosos vinhos do Dão do Centro de Estudo de Nelas, que eram engarrafados no quinto ou sexto ano após a vindima para durarem depois décadas em garrafa. Recordo ainda os Garrafeiras da Carvalho Ribeiro & Ferreira ou das Caves Aliança, cujo mais ou menos gigantesco lote ia sendo engarrafado à medida da necessidade do mercado. Duravam décadas, pareciam jovens. Dois dos tintos mais marcantes da minha vida foram os Garrafeiras das Caves Aliança 1948 e CR&F 1955, provados já neste século. Estavam absolutamente divinos!

Como se depreende, os grandes vinhos velhos são os troféus do provador experimentado, ou do colecionador ou, em boa verdade, de todos os enófilos. São o clímax emotivo. O tempo e a idade associados à alta qualidade e à raridade dentro de um copo de vinho. Elemento líquido (sem prazo de validade) que, longe de ser inocente ou estar moribundo, resplandece de vida e comunicação, e à mesa de prova provoca acesas discussões de gosto e razão.

E é assim a prova dos tintos com 10 anos: expectativa, discussão, comparação, deleite e emoção. É bem verdade que a idade está para um grande vinho como os diamantes para as jóias…

Sabia que…
Os vinhos velhos não se compram, os vinhos velhos encontram-se; os mais antigos, nalguns leilões, em mercearias ou garrafeiras e por vezes a preços bem interessantes…

A colheita de 2008
De memória retenho o ano de 2008 como o último Verão “fresco” que tivemos, ou seja, sem ondas de calor (2007 tinha sido igual). Mas, embrenhando-me um pouco mais a fundo nos boletins meteorológicos do IPMA, lembro mais qualquer coisa.

O ano vitícola começou com um Outono muito seco e frio (o mais seco do século XXI e o 6º mais seco desde 1931). Registaram-se também alguns recordes de temperatura mínima em Novembro. O Inverno de 2008 entrou e o quadro pluviométrico não mudou. De um modo geral a seca continuou mais ou menos activa em todo o território, durante todo o ano, apenas com os meses de Abril e Maio a superarem claramente a média do mês. O Inverno muito seco registou um recorde de temperatura máxima. A Primavera foi morninha e muito chuvosa, o que trouxe, como é óbvio, problemas no controlo dos fungos da vinha – míldio e principalmente oídio – e também algum desavinho nas inflorescências, com consequente perda de produção logo no início do ciclo vegetativo. O Verão foi seco e sem ondas de calor, e Setembro e Outubro tiveram um ou outro episódio de chuva tempestuosa que trouxe algum atraso nas vindimas da Bairrada e parte do Douro e Trás-os-Montes.

As noites frescas e as orvalhadas matinais trouxeram algumas complicações sanitárias no controlo do oídio na fase final da maturação, fungo que foi o principal responsável por alguma perda de produção nesta colheita. Mas a vindima foi calma. Sem excesso de calor, houve uma colheita devidamente escalonada, programada e quase perfeita, não fora a quebra de produção e os achaques do oídio.

É um ano seco e ameno, portanto, à partida, produtor de vinhos frescos com bons níveis de acidez, cores vivas, muito aroma e grande finura de taninos. Ainda estávamos no tempo dos teores alcoólicos elevados, mas este é o ano em que tudo se alinhou para produzir finura e complexidade. Houve muitos que o conseguiram, tal como o mostram as notas de prova destes grandes tintos de 2008. E se não os puder provar (ou beber) a todos, não perca a oportunidade de pelo menos travar relações com um par deles. Garanto que não se vai arrepender.

A prova de Valéria Zeferino
Foi uma prova fantástica. Prefiro tintos velhos a tintos jovens e nunca tinha tido a oportunidade de provar tantos juntos. Esperava encontrar mais vinhos do Dão e da Bairrada e não tantos vinhos do Douro.

Os meus preferidos foram Quinta das Bágeiras, Quinta do Vale Meão, Quinta dos Roques Garrafeira e Mouchão Tonel 3-4.

E também tenho uma pequena história associada a vinhos com mais idade: num Natal, o meu cunhado lembrou-se de abrir os vinhos velhos que tinha lá em casa e um deles era um Esteva dos anos 80. Nunca mais me esqueci desse vinho. Todos os outros estavam cansados e sem interesse, mas aquele Esteva foi uma enorme surpresa, um tinto extraordinário, foi mesmo um Feliz Natal.

O carácter de um tinto velho
No aconchego da garrafa, o aroma de fruto é substituído por uma paleta multivariada de nuances; na prova torna-se menos espesso, mais elegante, macio e complexo. Oxidações e reduções juntam a cor ao tanino antes de estes se precipitarem na forma de “borras”. Ácidos largam a glucose, componentes aromáticos reagem com taninos e antocianas e o bouquet vai-se formando. A oxidação de aldeídos e a formação de ésteres também traz novos aromas ao vinho, que perde acidez e adstringência. Tudo melhora, apura e enriquece. E a qualidade da rolha é crucial no acompanhamento destas reacções. Sem a colaboração dela, nada feito!

19

Barca Velha

Douro tinto 2008
Sogrape

Um tinto fino e poderoso. Imenso, com muita personalidade, fruto rico acompanhado por múltiplas e complexas nuances de especiarias. Taninos muito sólidos na boca, coeso e compacto e com notável frescura, tudo ainda muito jovem. Começou, faz pouco tempo, o seu verdadeiro percurso em garrafa… (14%)

19

Quinta do Vale Meão

Douro tinto 2008
F. Olazabal & Filhos

Notas de pederneira, fumados, terra, fruto bonito, cereja fresca, tosta muito elegante, chá preto, tinta-da-china. Na boca é de uma frescura surpreendente. Fruto fresco, tanino cheio de fibra e garra, especiado, lindo, longo e perfeito para beber ou ainda guardar mais uns bons anitos. (14,5%)

18,5

Batuta

Douro tinto 2008
Niepoort

Muito bouquet com muitas notas e complexidade a dar muito prazer e leveza, tinto cintilante, leve, saboroso e misterioso. Fino na textura, com tanino muito firme mas delicado, tudo num registo subtil com um certo lado enigmático, muito sedutor e totalmente afinado. Um tinto muito original. (13,5%)

18,5

Quinta das Bágeiras

Bairrada Garrafeira tinto 2008
Mário Sérgio Alves Nuno

Resinas e vegetal com caruma, pimento, pinhão, cedro, vinoso, muito carácter e força, mas também muita elegância. Grande desenvoltura na boca, com excelente acidez, alguma evolução nobre de madeira exótica, muita especiaria e complexidade, um Baga de enorme calibre. Fantástico. Para beber de joelhos. (13,5%)

18

Cortes de Cima

Reg. Alentejano Reserva tinto 2008
Cortes de Cima

Chocolate, cacau, fruta preta, intenso e perfumado, flores cristalizadas, uma seta no coração. Na boca é untuoso com algum alcaçuz, tanino seguro e guloso, textura amanteigada e muito macia, final cheio de vida e profundidade. (14,5%)

18

Esporão Private Selection

Alentejo Garrafeira tinto 2008
Esporão

Aroma maduro e opulento com notas de licorados, ameixa, nougat com café, algum cacau, muita especiaria, rico na paleta. Na boca tem ainda fruto fresco de ameixa, algum fruto em passa, fumado/ mineral, taninos finíssimos, patina e muita complexidade. Num grande momento de consumo. (14,5%)

18

Mouchão Tonel nº3-4

Reg. Alentejano tinto 2008
Vinhos da Cavaca Dourada

Aroma clássico, alguma casca de árvore, resinas balsâmicas bonitas, fruto sóbrio, muita complexidade com frescura. Na boca, groselha preta e framboesa, leve nota de baunilha, cheio de tanino aveludado, muito músculo e finura num tinto autêntico e original. (14,5%)

18

Pintas

Douro tinto 2008
Wine & Soul

Maciço, cheio de fruto e dimensão, algum toque de xisto e barro, leve floral, perfil impressionante. Na boca mostra muito volume, enche o palato, com muito bom tanino, alguma amêndoa amarga, leve tostado, apimentado e vigoroso final. Um super tinto. (14,5%)

18

Poeira

Douro tinto 2008
Jorge Moreira

Notas balsâmicas com resina perfumada, algum cravinho, fruto com leve evolução, alguma amêndoa, nota terrosa, intrincado e fechado. Na boca revela muita frescura, taninos fortes e finos, ainda algum fruto, fumados e mineral, a abrir e crescer durante toda a prova. (14%)

18

Quinta do Noval

Douro tinto 2008
Quinta do Noval

Leve e sedutora nota redutiva, carne, grafite, fumado, algum tabaco, resina balsâmica. Todo em força e contenção. Muito bem na boca, muito sabor e largura de prova, taninos de primeira, fruto em camadas, cheio de determinação, substância e matéria. (14,5%)

18

Quinta da Pellada

Dão tinto 2008
Quinta da Pellada

Notas perfumadas com o mentol e o floral a dominar, muito fresco e cítrico, delicado e atraente. Fino e tenso na boca, todo em elegância e leveza, mas carregado com taninos seguros e longevos. Enorme harmonia e sofisticação, capaz de encantar um leque alargado de consumidores. (13,5%)

18

Quinta dos Roques

Dão Garrafeira tinto 2008
Quinta dos Roques

Perfil austero e tenso, muito mineral, nota vidrada, fruto sóbrio, especiaria, contido, potente e pleno de autenticidade. Sisudo, mas muito seguro e insinuante na boca, nota de carne, alguma resina, estruturado, musculado, personalizado, perfeito para beber ou guardar mais alguns anos. (13,5%)

18

Quinta do Vallado Field Blend

Douro Reserva tinto 2008
Quinta do Vallado

Lado balsâmico de vegetal fresco com levíssimo e elegante mineral, cacau, uno e cheio de bouquet, excelente frescura e complexidade de aroma. Na boca tem tanino muito dinâmico, alguma paprika com leve tom salino, excelente comportamento de prova. Termina muito longo e fino. (14,5%)

17,5

Calda Bordaleza

Bairrada tinto 2008
Manuel S. Campolargo

Notas de couro e marroquinaria com algum fruto silvestre bem maduro, leve baunilha. Cremoso e tenso na prova de boca, taninos muito firmes, bastante estruturado, um bloco firme e maciço, pleno de sabor e carácter. (14,5%)

17,5

Chryseia

Douro tinto 2008
Prats & Symington

Caramelo, baunilha, nota de café, alguma fruta em passa, num conjunto com muito boa complexidade. Na boca surge alguma ameixa seca, num perfil aveludado e elegante, leve patina e muito encanto, no ponto para beber e desfrutar. (14%)

17,5

Duas Quintas

Douro Reserva tinto 2008
Ramos Pinto

Aroma bem maduro com noz moscada, toque de cravinho, muito fruto, alguma compota, dinâmico e substancial. Muito tanino, estruturado, algum calor de boca, muita matéria, textura quase granulada, ameixa em passa, coeso e denso, a mostrar muito futuro. (15%)

17,5

Hexagon

Reg. Península de Setúbal tinto 2008
José Maria da Fonseca

Vegetal e lenho no primeiro impacto, o fruto vem em segundo plano. Boa estrutura de boca, estilo austero e firme, mas seguro e convincente. A especiaria domina sobre o fruto, muito bom tanino, secura e sobriedade num final longo, bastante gastronómico. (13,5%)

17,5

Marquês de Borba

Alentejo Reserva tinto 2008
J. Portugal Ramos

Notas de pirazina com pimento vermelho, frescura e especiaria dominam um aroma cheio, fresco, com fruto perfumado e notas tostadas delicadas. Na boca está muito afinado, com tanino polido, num perfil maduro e elegante, com final longo e completo. (14%)

17,5

Palácio da Bacalhôa

Reg. Península de Setúbal tinto 2008
Bacalhôa Vinhos

Muito focado no registo do Cabernet Sauvignon, pirazina, pimento verde, bagas do bosque, apara de lápis, todo bem desenhado, de perfil moderno. Cremoso, amanteigado, com taninos muito seguros e musculados, final fino, fresco e cheio de classe. (14,5%)

17,5

Tributo

Reg. Tejo tinto 2008
Rui Reguinga

Aroma balsâmico com notas sofisticadas de couro, toque quase floral, cereja, regaliz, café com leve caramelo. Muito jovem na prova de boca, ainda com fruto fresco, perfil moderno, com bom tanino, madeira subtil e discreta, prova cheia de nervo, especiada e dinâmica. Tinto muito bem desenhado. (14%)

17,5

Quinta do Crasto Old Vines

Douro Reserva tinto 2008
Quinta do Crasto

Aroma fino com leve toque de couro, ainda algum fruto fresco de amora, cereja e suas geleias. Bem maduro na boca, textura maciça e elegante, algum tabaco, amêndoa torrada, rico, clássico, num momento óptimo de consumo. (14%)

17,5

Quinta do Monte d’Oiro

Reg. Lisboa Reserva tinto 2008
José Bento dos Santos

Aroma especiado, café, caruma, alguma azeitona preta doce, tabaco. Na boca tem muita especiaria, taninos de primeira linha, assumindo um perfil carnudo e cheio, todo em sabor e largura, feito para impressionar. (14%)

17

O. Leucura Cota 200

Douro Reserva tinto 2008
Duorum Vinhos

Jovem e carnudo no aroma. Cheio na entrada no nariz, muita fruta fresca ainda com alguma barrica, leve ginja, fumados elegantes, muito franco e polido, mas cheio de volume e intensidade. Na boca tem muito bons taninos, alguma barrica, muita força ainda por domar. (14%)

17

Quinta de Foz de Arouce

Reg. Beiras tinto 2008
Conde de Foz de Arouce

Notas florais num bouquet ainda com muito fruto, uma boa paleta aromática, com bela complexidade, mas ainda cheio de juventude e agilidade. Na boca ainda com muito para dar, bons taninos, algum fruto e especiaria, tudo em perfeita harmonia. (14%)

17

Quinta da Gaivosa

Douro tinto 2008
Domingos Alves de Sousa

Aroma com um certo lado selvagem, algum mato rasteiro, fruto em passa, com patina sedutora e interrogativa. Na boca está muito fresco, aberto na textura fina, taninos acetinados, quase leve no porte mas profundo, pronto a beber e a encantar. (14,5%)

17

Scala Coeli

Reg. Alentejano tinto 2008
FEA

Azeitona preta em passa com notas doces, fruto de ameixa bem madura, sugestões de musgo e casca de árvore. Muito tanino, alguma compota, num estilo maduro, intenso e cheio de substância, com final gordo, intenso e seco. (14,5%)

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