João Paulo MartinsOpinião

Será que há coragem e vontade política?

Hoje temos o país mapeado. As regiões estão definidas, sabe-se onde se pode fazer vinhos DOC e onde apenas se podem fazer vinhos regionais. Sabemos as castas que podemos usar e as que não têm direito de cidadania. Esse trabalho bem que precisava de uma profunda revisão, mas hoje, aqui, tratamos de outro assunto.

JOÃO PAULO MARTINS

Depois das demarcações pombalinas e as outras de início do séc. XX, tivemos de esperar até 1979 para que se iniciasse o novo movimento de demarcação das regiões portuguesas. A história um dia contará as peripécias dessas demarcações e as patetices que presidiram a muitas das decisões então tomadas. O 25 de Abril não estava longe e todo o poder e sabedoria era entregue às forças vivas locais para decidirem em conformidade com os interesses regionais. Consegue-se pensar no que aconteceu e aconteceu muito mais do que conseguimos imaginar. As tais forças vivas tiveram o trabalho hercúleo de repensar as regiões, numa época em que o império colonial se tinha finado e, com ele, o nosso principal mercado de exportação. O mundo estava a mudar, a tecnologia estava a chegar, os novos técnicos estavam a sair das universidades e todo o antigo universo de adegueiros e curiosos, de uma viticultura assente em castas paga-dívidas e noutras que produziam bem, mas não tinham nem aroma nem sabor, esse mundo, estava a desabar. É fácil imaginar uma reunião destas onde as boas vontades não chegavam para resolver os problemas. O que é que vamos plantar? Onde é que termina a sub-região de Torres Vedras e começa Alenquer? O que é que vamos considerar justo em ter¬mos de produção por hectare para um vinho ter DO? E se a vinha for no outro lado da estrada já não é DOC? É o quê? O tempo urgia e, algo empiricamente, mas com boa vontade, fez-se o trabalho. Quando as reivindicações das forças vivas e do regionalismo feroz acalmaram, lá se conseguiram medidas de bom-senso, como seja, a existência de uma única Comissão Vitivinícola para toda a Estremadura (agora Lisboa) ou para o Ribatejo (agora Tejo). Em algumas zonas as forças vivas não desarmaram e o Alentejo ainda hoje vive a situação caricata de uma imensidão de vinhos não terem direito ao designativo DOC porque…o Conselho Geral, dominado pelas cooperativas locais, não autoriza. São os restos do PREC que, para o prestígio da região, não acrescentam nada.

NÃO É PLANO B MAS PODE SER A FASE B

Olhando para o actual mapa das regiões e conhecendo os vinhos, não nos ficam dúvidas que há trabalho por fazer. Diriam os sociólogos que se tratará então de olhar a realidade com uma malha mais fina que permita detectar as pequenas diferenças e as particularidades que, por agora, se encontram metidas dentro do mesmo saco. Em todas as regiões é possível encontrar zonas com características que mereciam ser consideradas, ao mínimo, como sub¬-regiões. Os argilo-calcáreos da Bairrada não são diferentes dos barros ou dos argilo-arenosos? Se sim, por que razão estão todos no mesmo “chapéu” Bairrada, sem mais indicação? O mesmo é possível detectar no Douro onde, em razão da enorme extensão da região, não faz qualquer sentido falar de um Douro do Vale da Vilariça como sendo igual ao de Covas do Douro ou os douros dos altos se comparados com os outros da beira-rio. O trabalho é enorme? Será com certeza, mas se Álvaro Moreira da Fonseca calcorreou toda a região para classificar as parcelas e foi dessa classificação que se estabeleceu o benefício para o vinho do Porto, não será credível que agora não se possa também fazer um novo trabalho de mapea¬mento. Mas creio que estaria também na altura de se fazer uma hierarquização dos vinhos, um pouco à imagem do que se fez em Bordéus (em 1855) e nas restantes regiões francesas nos anos 30 do século passado. A hierarquização podia-se fazer por classe – A, B, C, D, E, F – e a renovação dela far-se-ia com uma periodicidade a deter¬minar, sendo de 10 em 10 anos uma periodicidade muito aceitável. Tal como se fez em 1855, também aqui vários factores se levariam em conta, desde os preços no mercado até aos anos de presença no mercado e, claro, com prova cega dos vinhos para que a consistência de qualidade fosse levada em conta. Para ser classificado um vinho teria de ter, por exemplo, seis ou oito colheitas no mercado, prevenindo-se assim que, com uma primeira colheita, um vinho tivesse de imediato direito a classificação. Mas é apenas uma sugestão.
Tal hierarquia teria, entre outras vantagens evidentes, permitir perceber se os vinhos caros têm uma correspondência em termos de qualidade e qual a consistência dessa qualidade. Seria um estremeção no Douro, é provável, e não faltaria gritaria mas a região tinha muito mais a beneficiar com isso do que com a situação actual em que qualquer new kid on the block se acha no direito de vender os vinhos a €80 porque ah e tal, as vinhas são velhas ou porque foi o meu avô que plantou. A maturidade pode doer um pouco, mas não há outra maneira de chegar a adulto. Acabamos como começámos: será que haverá coragem e vontade política? Não será isso muito mais importante para a região do que se andar a propagandear que fulano de tal faz a dança da chuva em frente ao lagar e outros desmandos do género?

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