Tintos de 2014: A perfeição num ano imperfeito

O ano em si até nem correu mal. De vários relatórios do ano vitícola concluímos que as temperaturas se mantiveram relativamente amenas, com alguma oscilação, mas sem ondas de calor no verão. A Sogrape, que tem produção no Douro, Alentejo, Dão e Vinhos Verdes refere que “a chuva foi uma constante ao longo do ano, […]
O ano em si até nem correu mal. De vários relatórios do ano vitícola concluímos que as temperaturas se mantiveram relativamente amenas, com alguma oscilação, mas sem ondas de calor no verão.
A Sogrape, que tem produção no Douro, Alentejo, Dão e Vinhos Verdes refere que “a chuva foi uma constante ao longo do ano, marcando também presença na época de vindima na maior parte das regiões vitivinícolas”.
A humidade elevada originou uma maior pressão de doenças criptogâmicas (míldio, oídio e podridão), obrigando à realização de um maior número de intervenções na vinha (desfollha, desponta) e tratamentos fitossanitários.
O mês de Agosto foi particularmente seco, mas boas reservas de água no solo permitiram que as videiras não entrassem em stress hídrico, ao mesmo tempo que as temperaturas amenas e noites frescas contribuiram para uma boa e equilibrada maturação das uvas e até faziam esperar uma vindima fantástica. A chuva de Setembro é que estragou as expectativas de muitos viticultores.
Em alguns locais choveu o dobro da média ou mais. Aqui, factores como a proximidade do litoral e orografia podem complicar ainda mais. Na Bairrada, por exemplo, não foi um ano feliz. Alguns dos produtores habituais nesta prova não mandaram vinhos. A Baga não teve hipótese de amadurecer antes das chuvas.
Antes ou depois da chuva
Tive a sorte de acompanhar a vindima de 2014 com as mãos na massa, na Quinta do Vallado. Durante duas semanas fiz controlo de maturação, selecção de uvas no tapete de escolha, remontagens manuais, pisa a pé, controlo de fermentações, análises de mostos e tudo que se faz numa adega. Lembro-me que cheguei à quinta no dia 8 de Setembro e já tinha chovido dois dias antes. A apanha de uva foi intermitente em função das chuvas. No tapete de escolha a selecção foi exigente, mas dependia muito dos locais e das parcelas de onde vinha a uva. E isto claramente constitui o factor diferenciador, sobretudo no Douro, onde as diferentes altitudes e exposições modificam significativamente as condições da região.
De um modo geral, a vindima 2014 ficou dividida em antes e depois da chuva. E aqui o terroir e a casta tiveram um papel preponderante.
O produtor e enólogo Rui Reguinga, que tem as vinhas no calhau rolado em Almeirim, não teve qualquer problema na vindima. Explica que aquela zona “é muito quente, ainda por cima o calhau rolado acaba por acelerar a maturação, o que permitiu colher as uvas maduras e em óptimas condições antes das chuvas”.
Na Herdade do Mouchão, no Alentejo, começou a chover a partir da segunda semana de Setembro, mas o melhor Alicante Bouschet da vinha dos Carapetos, implantada em solos de aluvião bem drenados, foi vindimado antes das primeiras chuvas. Estas uvas são a espinha dorsal do Mouchão 2014, que mostrou uma qualidade estrondosa nesta prova.
Francisco Olazabal conta que na Quinta do Vale Meão, Douro Superior, começou a chover no dia 7 de Setembro, mas eles conseguiram apanhar a maior parte das parcelas que entram no lote entre o 29 de Agosto e 6 de Setembro. As uvas apanhadas mais tarde estavam maduras e não foram muito afectadas pelas chuvas. O resultado está na prova.
2014 foi o ano em que vingou o terroir e as decisões acertadas.
Decisões acertadas
Mas nem todos tiveram a sorte de apanhar as uvas antes das chuvas e tiveram que gerir a vindima em função do estado da maturação das uvas e do seu sexto sentido, tomando decisões rápidas e, por vezes, arriscadas.
Sandra Tavares (Wine & Soul) relata que o ano estava a correr muito bem. As uvas para o Pintas foram apanhadas antes da chuva, mas as vinhas da Quinta da Manoella ficam numa zona mais fresca e ainda não tinham sido colhidas. Quando souberam da previsão das chuvas, fizeram mais desfolha para os cachos ficarem mais expostos e secarem mais rápido. Optaram por vindimar à chuva e nunca pararam a vindima. O objectivo era colher tudo o mais depressa possível, porque as uvas demoram a absorver a água. Os solos drenam bem e as uvas não ficaram muito diluídas. O facto de serem vinhas velhas também ajudou. “Acabam por ser mais calibradas, mais resistentes às adversidades do tempo”. Tiveram atenção redobrada na selecção de uvas, naturalmente.
Segundo o enólogo da Quinta do Noval, Carlos Agrellos, no caso deles as uvas provêm das vinhas expostas a sul e a poente e, com esta localização, estavam quase maduras. A primeira parcela de Touriga Nacional foi colhida a 14 de Setembro e outra parcela no dia seguinte – as duas juntas fazem 80% do lote. A chuva não as afectou muito. Pela Touriga Franca tiveram que esperar até dia 5 de Outubro. Foi colhida já depois das chuvas. Conseguiu recuperar. “Era o risco total, mas valeu a pena”. Diria que estamos perante “um ano mais sóbrio, do que full-bodied” – conclui Carlos. Na adega fizeram delestage mais vezes para extrair mais estrutura (as uvas que entraram no lote estavam em óptimas condições sanitárias).
Jorge Moreira (Poeira) partilha a sua experiência da vindima 2014. “Quando os bagos começaram a rachar com as chuvas, primeiro pensei vindimar, mas depois resolvi esperar porque as uvas ainda não estavam maduras”. Com as vinhas viradas a norte, confessa que nunca consegue vindimar antes de 20 de Setembro. “Os vinhos acabaram por ter um pouco de diluição” – continua – “mas no Douro, com a tradição do Porto Vintage, medimos a qualidade pela concentração, estrutura e um pouco de sobrematuração. Nos anos 90 era o que procurávamos, mas o tempo ensinou-nos que os anos mais frescos, com pH mais baixo, evoluem melhor, pois temos estrutura na mesma. Por isto, no Douro é preferível ter maturação a menos do que a mais. Nos anos menos maduros tem de se ter mais cuidado com as extracções para não extrair taninos verdes.”
Manuel Vieira, enólogo consultor na Caminhos Cruzados, conta que também tiveram que esperar que a chuva passasse. A Touriga Nacional (maior parte das vinhas velhas do Teixuga) é uma casta importante no Dão, porque tem elasticidade suficiente na película para aguentar as chuvas sem rebentar (ao contrário da Alfrocheiro, por exemplo). Com vindima adiada para os finais de Setembro, obtiveram mostos com pH baixo, acidez alta e grau alcoólico mais baixo o que é normal.
Uma década depois
Há duas conclusões fundamentais que podemos retirar desta prova. Primeiro, as generalizações são sempre uma abordagem redutora no que toca à produção de vinho, porque muitas vezes o terroir sobrepõe-se às condições climatéricas, e ainda mais nos anos difíceis. Agora, passada uma década e com os vinhos provados, podemos constatar que mesmo num ano imperfeito como o 2014, existem muitos vinhos próximos da perfeição, cheios de vida e força. Depois, concluímos que com pH mais baixo e acidez mais alta estes vinhos acabam por ter uma evolução mais lenta (alguns parecem bem mais novos do que uma década de vida sugeriria), não pecam por falta de estrutura, e mesmo, perdendo algum corpo, vencem pela elegância.
Domínio do Açor e Herdade da Cardeira: Os produtores revelação do ano

A história começou em 2020, quando um grupo de amigos brasileiros, apreciadores e colecionadores de vinho, se juntaram na ambição de encontrar uma elegância borgonhesa em Portugal. Onde iriam parar? Ao Dão, claro. A tarefa de encontrar o local certo coube a Guilherme Corrêa, experiente sommelier brasileiro há alguns anos sedeado no nosso país onde […]
A história começou em 2020, quando um grupo de amigos brasileiros, apreciadores e colecionadores de vinho, se juntaram na ambição de encontrar uma elegância borgonhesa em Portugal. Onde iriam parar? Ao Dão, claro. A tarefa de encontrar o local certo coube a Guilherme Corrêa, experiente sommelier brasileiro há alguns anos sedeado no nosso país onde já lançou vários negócios. A outrora chamada Quinta Mendes Pereira, situada em Oliveira do Conde, Carregal do Sal, foi o alvo selecionado. Rodeada de floresta, com um importante património de vinhas velhas, tinha tudo o que ambicionavam. Com o apoio de consultoria do famoso especialista de solos, o chileno Pedro Parra, e do enólogo Luís Lopes, com provas dadas no Dão, lançaram-se a criar brancos e tintos assentes na elegância, mais do que na potência. Os primeiros vinhos sob a marca Domínio do Açor nasceram em 2021 e desde logo conquistaram os apreciadores com vinhos de perfil “artesanal”, muito cuidados, e que expressam um Dão leve, fresco e vibrante como poucos.
Entre Oliveira do Conde (Carregal do Sal) e Orada (Borba) há um mundo de distância em termos de terroir e perfis de vinho. Mas a busca incondicional da excelência está sempre lá.

O projecto da Herdade da Cardeira, localizada em Orada, Borba, iniciou-se dez anos antes. Mas o casal suíço Erika e Thomas Meier levou tempo a fazer desta propriedade de 100 hectares, hoje com 21ha de vinha, aquilo que hoje é. Logo após a aquisição, Erika iniciou um curso de três anos em viticultura e enologia, e tornou-se a principal força motriz da Cardeira. O casal vê a propriedade como muito mais do que um simples investimento. É o seu espaço, o seu canto de felicidade, onde participam em todos os trabalhos que o vinho implica, da vinha à adega. A produção com a marca da casa iniciou-se apenas em 2016, contando com Filipe Ladeiras como enólogo residente e Paulo Laureano como consultor. As uvas da Cardeira, sempre vindimadas à mão, são objecto de muita seleção de modo a manter a produtividade baixa, não excedendo as quatro a seis toneladas por hectare. No total, enchem apenas 50 mil garrafas por ano, vendidas para Suíça e Luxemburgo, sobretudo, só recentemente iniciando a distribuição mais alargada em Portugal. A tremenda consistência qualitativa dos seus varietais (Verdelho e Touriga Franca) e Reservas branco e tinto, para além de um espumante e um “Talha”, impressionaram fortemente os nossos provadores. L.L.
Francisco Antunes: O enólogo do ano

Deixem-me abrir, desde já, com uma declaração de interesse: sou desde há mais de trinta anos amigo de Francisco Antunes. Talvez por isso mesmo, ele não tenha recebido mais cedo, como justamente mereceria, o reconhecimento “oficial” por parte das revistas que tive o privilégio de dirigir. A sua personalidade discreta no plano profissional (que contrasta […]
Deixem-me abrir, desde já, com uma declaração de interesse: sou desde há mais de trinta anos amigo de Francisco Antunes. Talvez por isso mesmo, ele não tenha recebido mais cedo, como justamente mereceria, o reconhecimento “oficial” por parte das revistas que tive o privilégio de dirigir. A sua personalidade discreta no plano profissional (que contrasta com a exuberância pessoal, sobretudo quando falamos/vemos futebol…) também terá contribuído alguma coisa. O “Xico”, é verdade, não se põe em bicos de pés. E também não precisa, não apenas pela sua envergadura física como pela dimensão enquanto enólogo: os seus pares têm um respeito enorme pelo Francisco Antunes e muitos “famosos” não têm problema em confessar que a ele recorrem quando se deparam com um problema técnico invulgar.
Aos 64 anos de idade, Francisco Antunes alia uma sólida base teórica (engenharia agrícola pela Universidade de Évora, Diploma Nacional de Enólogo pelo Instituto de Enologia de Bordéus, entre muitos outros “canudos”) à experiência de inúmeras vindimas em diferentes regiões. O pai, médico, era produtor de vinho em Azeitão, e ali começou a interessar-se por este mundo. A carreira profissional passou por Pegões, Extremadura espanhola e Douro, até aterrar definitivamente na Aliança (depois integrada na Bacalhôa) enquanto director de enologia, tendo aí responsabilidades em regiões tão distintas quanto Douro, Dão, Alentejo e Bairrada. Paralelamente, nunca abdicou de ensinar, tendo pelas suas turmas da Escola de Viticultura e Enologia da Bairrada passado centenas de jovens profissionais.
Porém, este não é um prémio de carreira. O que aqui destacamos é o presente, não o passado. Em 2023, fruto do trabalho, conhecimento e talento de Francisco Antunes, a Grandes Escolhas teve oportunidade de provar extraordinárias aguardentes (Aliança XO 20 e 40 anos), soberbos espumantes (Aliança Grande Reserva branco 2018 e Aliança Grande Reserva Pinot Noir branco 2018) e, talvez o mais inesperado, um notável Bairrada Bical de 2021 (Bacalhôa 1931 Vinhas Velhas) que acabámos por votar como o melhor branco do ano. Digam lá: se não fosse agora, quando seria a vez de Francisco Antunes? L.L.
Editorial Abril: Doce

Editorial da edição nrº 84 (Abril 2024) Dizem os especialistas do gosto que, dos distintos sabores primordiais, o doce é aquele que mais fácil e imediatamente cativa o ser humano. Há quem explique essa atracção (não propriamente fatal, se comedida) pelo facto de ser doce o primeiro sabor experimentado pelo recém-nascido ao beber o leite […]
Editorial da edição nrº 84 (Abril 2024)
Dizem os especialistas do gosto que, dos distintos sabores primordiais, o doce é aquele que mais fácil e imediatamente cativa o ser humano. Há quem explique essa atracção (não propriamente fatal, se comedida) pelo facto de ser doce o primeiro sabor experimentado pelo recém-nascido ao beber o leite materno. Mesmo que a relação não esteja cientificamente comprovada é, pelo menos, uma boa desculpa para os mais gulosos.
Porém, no que aos vinhos doces respeita (o que em Portugal significa quase sempre licorosos), os ventos parecem não ir de feição. Em grande parte do mundo assiste-se a um certo afastamento dos consumidores relativamente aos vinhos doces, atingindo mesmo os não fortificados, Sauternes incluído. Até o vinho do Porto, que parecia imune à erosão de mercado sentida por muitos dos outros célebres congéneres (caso do Jerez, por exemplo), entrou numa lenta, mas inexorável, decadência de consumo, perdendo 20% em volume nas últimas duas décadas. Em 2023, de novo, caiu em quantidade e valor face ao ano anterior. No vinho Madeira essa tendência é menos evidente, mas existe: de 2022 para 2023, decresceu em quantidade, ainda que ganhando muito ligeiramente em valor. Paradoxalmente, é o mais doce (e, porventura, o mais subvalorizado) de todos os fortificados nacionais, o Moscatel de Setúbal, tema de capa desta edição da GE, que melhor se tem “aguentado”. Partindo embora de uma base muito mais pequena, nas últimas duas décadas quase duplicou o volume certificado. E as vendas mostram uma certa estabilidade, com crescimentos moderados. O que não deixa de espantar, se pensarmos que mais de 90% do negócio é feito em Portugal. E, mais interessante ainda, ao invés do que acontece com Porto e Madeira, o consumo em território nacional é feito sobretudo por portugueses, não por turistas estrangeiros. Já agora, comportamento muito semelhante tem o Moscatel do Douro, este com uma fatia um pouco maior de exportação. Significa isto que os portugueses são particularmente gulosos?
Dizia a minha avó (e aposto que muitas avós) que o que é doce nunca amargou. Eu nunca fui por aí. Prefiro os amargos, ácidos e salgados, um pastel de nata de quando em vez já é extravagância. Mas se o aforismo estiver certo, a verdade é que os grandes licorosos do mundo, de uma forma geral, não estão a ganhar muito com isso, antes pelo contrário. Resumindo, o que parece doce e é doce, está na mó de baixo. Mas, estranhamente, o que não parece doce e é doce, continua em alta e sem indícios de perder a boa onda. A esmagadora maioria dos vinhos tintos (portugueses, espanhóis, italianos, franceses, chilenos, argentinos, etc.) de preço moderado e médio, vendidos na Europa, Ásia e Américas, tem uma quantidade apreciável de MCR (mosto concentrado rectificado) adicionada. Ou seja, são, enfim, a modos que…docinhos.
Nada contra, é absolutamente legal e, quase diria, necessário, vai ao encontro do que o mundo pede, ou melhor, exige. E atenção, não são só os consumidores “de supermercado”, supostamente menos “conhecedores”, que os adoram. Muitíssimos destes vinhos são crónicos vencedores de concursos internacionais, onde são provados por sommeliers, enólogos, jornalistas, e ali batem concorrentes bem mais ambiciosos. Assim sendo, talvez o problema dos doces e licorosos não esteja, afinal, na doçura. A minha avó tinha outra na manga para estas ocasiões: “todo o burro come palha, é preciso saber dar-lha”.
Editorial Março: Os Melhores

Editorial da edição nrº 83 (Março 2024) Quando se fala de vinhos, poucas coisas haverá mais discutíveis do que reduzir aromas e sabores a um número. Mais difícil ainda será partir de uma lista com idênticas classificações e escolher um vinho em detrimento de outro. Para sermos, tanto quanto possível nestas circunstâncias, justos, na Grandes […]
Editorial da edição nrº 83 (Março 2024)
Quando se fala de vinhos, poucas coisas haverá mais discutíveis do que reduzir aromas e sabores a um número. Mais difícil ainda será partir de uma lista com idênticas classificações e escolher um vinho em detrimento de outro. Para sermos, tanto quanto possível nestas circunstâncias, justos, na Grandes Escolhas procuramos que esta responsabilidade seja partilhada entre todos os provadores, através de uma eleição. Mas mesmo assim não é fácil. E no final, é mais do que certo, ninguém sai satisfeito. Nem os produtores que não viram os seus vinhos destacados como “os melhores” (seja lá o que isso for…); nem os provadores que não obtiveram “votos” suficientes nos vinhos que propuseram e defenderam.
Apenas duas coisas acalmam, de alguma forma, os naturais desapontamentos (pelo menos, os nossos). Primeiro, a noção de que fizemos tudo para sermos rigorosos, independentes, justos; segundo, a absoluta certeza de que, quer os 30 vinhos eleitos como “os melhores do ano”, quer os cinco apontados como vencedores em cada categoria, são indiscutivelmente grandíssimos vinhos. Adjectivo que se ajusta por inteiro aos nomes vencedores: o espumante Murganheira Assemblage Grande Reserva 2006, o branco Bacalhôa 1931 Vinhas Velhas Bical 2021, o rosé Quanta Terra Phenomena 2022, o tinto Quinta do Crasto Vinha Maria Teresa 2019 e o fortificado Dalva Tawny 50 anos.
Se destacar vinhos grandes entre os grandes tem sempre uma elevada subjectividade, esse grau multiplica-se quando se trata de avaliar pessoas, empresas, instituições.
A reunião anual da redacção para escolher “Os Melhores”, espaço onde cada um apresenta as suas propostas, depois submetidas a debate e votação, é sempre o momento mais tormentoso do ano. As discussões são épicas e duram horas. A coisa fica tão feia que, normalmente, organizamos o jantar de Natal da empresa nessa mesma noite, na esperança de que o espírito natalício e umas belas garrafas de vinho promovam as reconciliações. Normalmente, resulta.
O mais importante é que, quando na noite dos Melhores do Ano subimos ao palco para anunciar os nomes vencedores, cada um de nós assume essa escolha colectiva como sua e defende-a intransigentemente.
Mais uma vez, e como acontece com os vinhos, como seria possível de outra forma, face à qualidade dos premiados? Senão vejamos. No que à gastronomia respeita, este ano pontificam os restaurantes Pedro Lemos, Três Pipos e Soão, todos eles referência no seu estilo de cozinha, a loja gourmet Comida Independente, que com poucos anos de vida já deixou marca, e a historiadora e investigadora Isabel Drumond Braga, com importante obra feita na área. No retalho e serviço de vinhos, três nomes incontornáveis: o wine bar Mind The Glass, a garrafeira Imperial e o talentoso sommelier Filipe Wang. Wine in Moderation e Algarve Wine Tourism são outros conceitos/projectos em evidência. Quanto a produtores, destacamos as boas surpresas do Domínio do Açor e da Herdade da Cardeira, a singularidade de Baías e Enseadas, a consistência da Adega Cooperativa de Ponte de Lima, a ambição da Menin Wine Company, o pioneirismo da Barbeito e a excelência clássica da Fundação Eugénio de Almeida. Na vinha e na adega, há que “tirar o chapéu” a Álvaro Martinho Lopes, Manuel Henrique Silva e Francisco Antunes. E, por fim, grande aplauso para um autêntico Senhor do Vinho, António Soares Franco.
Foram as escolhas certas? Cada qual que decida. Foram as nossas escolhas e estamos muito satisfeitos com elas.
Editorial Fevereiro: 35 Vindimas

Editorial da edição nrº 82 (Fevereiro 2024) Nascido e criado no meio urbano, a primeira vez que assisti a uma vindima já era jornalista encartado, quase cinco anos a coordenar revistas de computadores e automóveis todo-o-terreno, entre outras. Tinha 28 anos feitos quando, por dever de ofício (íamos lançar uma publicação de vinhos) vi entrar […]
Editorial da edição nrº 82 (Fevereiro 2024)
Nascido e criado no meio urbano, a primeira vez que assisti a uma vindima já era jornalista encartado, quase cinco anos a coordenar revistas de computadores e automóveis todo-o-terreno, entre outras. Tinha 28 anos feitos quando, por dever de ofício (íamos lançar uma publicação de vinhos) vi entrar uvas numa adega.
Parece que foi ontem, mas já passou muito tempo. Cumpri no ano que passou a minha 35ª vindima. Não foram vindimas a fazer vinho, nem nada que se pareça. Não possuo a formação necessária e, ao contrário de alguns, acredito que para fazer vinho com qualidade e consistência é preciso ter conhecimentos técnicos e científicos. Também, confesso, não tenho especial interesse em “meter as mãos na massa”. Se algum dia podei cepas, colhi uvas, pisei lagares, lavei prensas, trasfeguei depósitos e vasilhas, foi unicamente para perceber como se fazia, não porque tivesse grande vontade de o fazer.
Uma coisa faço, porém, com enorme prazer pessoal e empenho profissional. Em cada uma dessas 35 vindimas percorro dezenas de adegas, procurando acompanhar de perto aqueles que sabem do seu mister, totalmente focado em ver, ouvir, perguntar, aprender. E, dois ou três meses mais tarde, faço questão de provar os vinhos nas cubas e barricas.
Ter boa memória ajuda. Lembro-me dos primeiros brancos fermentados com temperaturas controladas, revelando um mundo novo de aromas e sabores a enólogos e consumidores, maravilhados com tanta fruta. Lembro-me da chegada da barrica nova ao estágio de tintos e fermentação de brancos, e daquelas baunilhas, tostas e fumos que nós, inocentemente, associávamos a vinhos luxuosos. Lembro-me de dezenas de produtores, apostados em fazer vinhos de maior qualidade, a abandonar auto-vinificadores, cubas de cimento, tonéis de madeira, talhas de barro, lagares, prensas verticais (e hoje a recuperar tudo isso…). Lembro-me de passar dias no Dão a provar vinhos brancos sem ouvir mencionar a casta Encruzado. Lembro-me de estar uma semana no Douro, a visitar quintas, e ninguém me apontar uma vinha velha como sendo algo de especial. Lembro-me de como se fazia a selecção dos vinhos base para espumante, com as amostras dos lavradores alinhadas, a passarem no crivo do chefe de cave, “este serve, aquele não serve”. Lembro-me dos ciclos de amor e ódio à Trincadeira, no Alentejo, e de como estes alternavam entre os anos quentes e secos e frescos e húmidos. Lembro-me de ter aterrado na Bairrada em pleno levantamento das “forças vivas” contra a Baga e dos muitos que queriam substituí-la, definitivamente, por Cabernet Sauvignon. Lembro-me de um orgulhoso produtor do Tejo me mostrar um Fernão Pires com 17 graus acabadinho de fermentar. Lembro-me de estar à beira de um tegão de recepção, ainda Lisboa era “Estremadura, conhecida por Oeste”, e durante uma vindima de chuva inclemente o reboque largar as uvas numa nuvem de pó cinzento que cobriu tudo. E o enólogo ter de fazer (e fez mesmo) um vinho decente com aquilo.
Enfim, lembro-me de muitos, muitos mais momentos e conversas na azáfama da colheita que não cabem ou não é próprio mencionar aqui. Lembranças de 35 vindimas significam, é claro, que não vou para mais novo. Essa é a parte má. A parte boa é o prazer de cruzar o histórico acumulado com a prova dos vinhos, sabendo de onde vieram, como nasceram e cresceram, que decisões foram tomadas, relacionando assim inúmeras variáveis. Acreditem, é um exercício entusiasmante que suscita intensa reflexão e de onde surgem, por vezes, conclusões interessantíssimas. De tal modo que, ainda os cestos estão a lavar, e já anseio pela 36ª vindima. Tenho coisas para aprender e dúvidas para esclarecer.
Editorial Janeiro: Fama

Editorial da edição nrº 81 (Janeiro 2024) A chegada de amadores (no sentido daquele “que ama”) ao sector do vinho é relativamente recente, o fenómeno teve o seu “boom” já no século XXI. Gente financeiramente bem-sucedida noutras áreas de actividade, mas completamente desconhecida do grande público, viram nesta bebida uma forma de satisfazer um hobby […]
Editorial da edição nrº 81 (Janeiro 2024)
A chegada de amadores (no sentido daquele “que ama”) ao sector do vinho é relativamente recente, o fenómeno teve o seu “boom” já no século XXI. Gente financeiramente bem-sucedida noutras áreas de actividade, mas completamente desconhecida do grande público, viram nesta bebida uma forma de satisfazer um hobby e, ao mesmo tempo, alimentar o ego de forma saudável. Quem pode ser criticado por gostar de ver o seu nome (ou da sua empresa) no rótulo de uma garrafa? E, com sorte e trabalho, alcançar os ambicionados “15 minutos de fama”?
Mais difíceis de entender serão as razões que levam alguém que já tem dinheiro e espaço nos media a enveredar pelo mundo do vinho. Apesar de glamouroso, o vinho nunca poderá competir com a notoriedade que se alcança enquanto profissional do cinema, da música ou do desporto, por exemplo. Nunca ninguém rico e famoso vai ficar mais famoso por investir no vinho. E vai, quase de certeza, ficar menos rico.
Apesar disso, pessoas a quem pediríamos autógrafos na rua continuam a entrar neste universo vínico, bem mais pequeno e limitado do que aquele de onde vieram. Os exemplos são incontáveis e surgem, sobretudo, dos Estados Unidos da América (mas não só) com gente do cinema à cabeça. Francis Ford Coppola foi pioneiro com a sua marca, em 1979, (em Napa Valley, depois Sonoma, mais tarde Oregon) e o que mais longe chegou no ultrapassar dos naturais preconceitos dos “conhecedores”, tornando-se um produtor de vinho bastante respeitado enquanto tal. Muitos outros e outras o seguiram: George Lucas (Skywalker Vineyards – só podia… – em 1991) Drew Barrymore, Emilio Estevez, Sam Neil, Cameron Diaz, Brad Pitt, Angelina Jolie, Kurt Russell, Goldie Hawn, Antonio Banderas e, até o hoje tão discutido – pelas piores razões – Gérard Depardieu, são apenas alguns dos nomes da sétima arte que possuíram ou possuem adegas e vinhas, nos EUA, Espanha, França, Itália ou Nova Zelândia. Do mundo da música, Cliff Richards (que teve a Adega do Cantor no Algarve), será o exemplo mais próximo. Mas também Dave Matthews, Mary Blige, Brandi Carlile, Mick Fletwood, Kylie Minogue, Sting, Pink e Snoop Dogg fazem parte da lista. Lista essa que se estende ao desporto, com o basquetebolista Yao Ming, o piloto Mario Andretti, os golfistas Nick Faldo e Greg Norman e os futebolistas David Ginola, Ronaldo “Fenómeno” e Andrés Iniesta, entre vários.
Como já perceberam pela capa desta revista, abordo o tema por causa de Francisco Costa, o Costinha do futebol. Quando nos cruzámos pela primeira vez, há quase duas décadas, já Costinha era um apreciador de vinhos, gosto que ganhou no Mónaco, para onde foi jogar com 20 e poucos anos. Hoje, é um profundo conhecedor do que de melhor se faz em Portugal e no mundo. E também um pequeno produtor que participa activamente em todo o processo, na vinha e adega, e engarrafa um vinho de excelência.
Chegados a este ponto, talvez percebamos melhor o que é que o vinho tem, capaz de atrair ricos e famosos a este mundo tão particular. Não é certamente a razão que os move, antes o coração. A paixão, o prazer da descoberta, a exaltação dos sentidos, não coisas que se expliquem. O vinho tem tudo isso e Costinha sabe-o bem.
PS: A peça sobre o novo desafio de Costinha foi a última escrita nesta revista pela jornalista Mariana Lopes. Também ela troca de profissão, mas, felizmente, mantém-se ligada ao mundo vínico. O seu talento vai agora estar do “outro lado”, onde o vinho nasce. No seu lugar, a partir da edição de Fevereiro, coordenando a redacção da Grandes Escolhas, estará o experiente jornalista José Miguel Dentinho, com muitos anos de escrita nesta área. A ambos desejo muita sorte e sucesso.
Editorial Dezembro: Na caixa

Editorial da edição nrº 80 (Dezembro 2023) Nunca gostei de ver pessoas ou conceitos arrumados por categorias. Tudo o que é complexo não pode, por natureza, ser confinado numa caixa hermética, imune a influências, nuances, estados de espírito. Poucas coisas são absolutamente brancas ou pretas, há uma infinidade de matizes que podem e devem ser […]
Editorial da edição nrº 80 (Dezembro 2023)
Nunca gostei de ver pessoas ou conceitos arrumados por categorias. Tudo o que é complexo não pode, por natureza, ser confinado numa caixa hermética, imune a influências, nuances, estados de espírito. Poucas coisas são absolutamente brancas ou pretas, há uma infinidade de matizes que podem e devem ser desvendados.
Vejamos o caso dos vinhos. Nos últimos anos, assiste-se a uma tendência, por parte de algumas franjas de mercado, para catalogar os vinhos consoante a forma como são elaborados ou até, no limite do disparate, consoante a “filosofia” que lhes está subjacente (como se uma forma de ser ou estar na vida tivessem um caderno de encargos, uma checklist a ser verificada ponto por ponto).
Cuba inox, lagar, cimento, barro, plástico, barrica nova, barrica usada, tonel, foudre, sulfuroso, flor de castanheiro, ácido tartárico, leveduras seleccionadas, clara de ovo, bentonite, etc. estão entre as muitas ferramentas que se encontram ao dispor do enólogo/produtor, algumas delas com milénios de utilização na transformação da matéria-prima (uva) em produto final (vinho). Maceração longa, maceração curta, maceração carbónica, fermentação com engaço, bica aberta, curtimenta, maloláctica, bâtonnage, remontagem, são algumas das muitas práticas utilizadas no intuito de realizar essa prodigiosa transformação. Do mesmo modo que produção integrada, orgânica, biodinâmica (quando devidamente certificados, atenção!) configuram distintos modelos de produção de uvas/vinhos, nenhum objectivamente melhor ou mais respeitável do que o outro.
Nada disto é absolutamente estanque, permitindo combinações infinitas. Posso ser orgânico, adicionar sulfuroso e usar uma rolha de microaglomerado de cortiça; posso ter vinha e adega em produção integrada e fermentar com engaço e leveduras indígenas; posso ser biodinâmico, fazer macerações muito longas e estagiar o vinho 36 meses em barrica 100% nova.
As únicas categorizações que, a meu ver, se justificam no vinho, são aquelas que implicam a conjugação de dois factores: primeiro, uma certificação absolutamente clara e inequívoca; segundo, um mercado onde essa certificação orienta uma intenção de compra. Por exemplo, seria absurdo chegar a uma loja e ver os vinhos divididos por “barrica nova” ou “barrica usada”. Mas faz todo o sentido haver uma prateleira (ou uma loja!) só para vinhos orgânicos. Do mesmo modo que haverá uma prateleira (ou uma loja) só para vinhos Alentejo. Já um espaço orientado e comunicado como exclusivo para “vinhos de baixa intervenção” seria apenas publicidade enganosa, uma vez que não há qualquer definição, fiscalização ou certificação do modelo/produto. É o mesmo que vender uma pulseira que transmite uma “boa onda”. Acredita quem quer e não vem daí mal ao mundo, somente à carteira dos incautos.
Aqueles que se intitulam “fora da caixa” (sem perceberem que assim se inserem, desde logo, numa caixa e num rótulo) são, frequentemente, os que mais se esforçam por colocar todos os outros vinhos e produtores em caixinhas muito bem fechadas, catalogadas e arrumadas num canto, de preferência escuro e longínquo. Como se o mundo do vinho se resumisse a “nós” e “outros”. Felizmente, para quem aprecia a extraordinária diversidade e complexidade que o Vinho encerra, este é bem mais, bem maior e bem melhor do que isso.




