Editorial: Os Melhores do Ano

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Editorial da edição nrº 107 (Março de 2026) Março é o mês dos prémios Grandes Escolhas, este ano na sua 9ª edição. Na verdade, para vários dos membros desta equipa redactorial, em particular os mais antigos, esta é a 29ª vez que passamos por este momento, sempre tão especial, em que escolhemos vinhos, pessoas, empresas […]

Editorial da edição nrº 107 (Março de 2026)

Março é o mês dos prémios Grandes Escolhas, este ano na sua 9ª edição. Na verdade, para vários dos membros desta equipa redactorial, em particular os mais antigos, esta é a 29ª vez que passamos por este momento, sempre tão especial, em que escolhemos vinhos, pessoas, empresas e projectos, premiando o talento, a iniciativa, o pioneirismo, a visão, o saber fazer.

Os muitos anos que já levamos a desempenhar esta tarefa não atenuam, longe disso, a dificuldade da escolha. Pelo contrário: parece que é cada vez mais complicado destacar este em detrimento daquele; parece que, no final, apurados os vencedores, ficam cada vez mais nomes de fora, nomes para os quais olhamos com a sensação de que a sua ausência da lista de premiados é, de alguma forma, injusta. Resta-nos o conforto de saber que isso se deve à abundância de qualidade no sector do vinho em Portugal. E a consciência de que, dentro da subjectividade da escolha, demos o nosso melhor, com rigor e independência.

Entre os muitos milhares de vinhos provados em 2025 destacamos o já habitual Top30. E aos provadores foi dada a tarefa adicional de propor e votar os vencedores em cada categoria. Ficaram cinco nomes em quase cinco mil! Nomes inquestionáveis, sem dúvida, pela sua qualidade e personalidade: o espumante Quinta das Bágeiras Grande Reserva 2020; o branco Anselmo Mendes A Torre 2019; o rosé Phenomena 2024; o tinto Casa da Passarella Vindima 2014; o fortificado Kopke Tawny 80 anos.
Vinhos que ganham em ser servidos a uma boa mesa e por mãos sabedoras. Mesas como as dos restaurantes SÁLA, em Lisboa, Colmeia, na Guarda, ou Amassa, em Santarém, vencedores nas suas categorias. E mãos como as da somellière Nádia Desidério, que faz do serviço de vinhos uma arte. A garrafeira A Casa, em Alcobaça, acentua a descentralização dos espaços de excelência dedicados aos apreciadores, enquanto a loja Mercearia Criativa e o wine bar Prova mantêm Lisboa e Porto no mapa das coisas boas.

A investigadora Olga Cavaleiro viu o seu vasto trabalho em torno da cozinha portuguesa merecedor do prémio “David Lopes Ramos”. Já a Rota da Bairrada colocou uma região a pensar o enoturismo de forma integrada e o grupo Vignerons de Portugal passou uma mensagem de grande impacto: fazer vinhos apenas com as nossas uvas, na nossa adega, faz diferença. Diferença também evidente nos vinhos açorianos Materramenta, prémio Singularidade. Pelo trabalho de recuperação das castas antigas do Dão (já provaram o branco de Luzidio ou o tinto de Coração de Galo?) foi destacada a Lusovini.

No que a produtores respeita, em apenas dois anos, a família Leitão Machado trouxe Altas Quintas de regresso à ribalta; a Quinta da Rede revelou-nos o lado mais “atlântico” do Douro, fresco e vibrante; a histórica Borges reafirmou-se com uma dinâmica e consistência invejáveis; com o projecto Raízes, a CARMIM revelou ambição e posicionamento invulgares numa adega cooperativa; e a Real Companhia Velha apresentou um notável portefólio de tawnies.

Por fim, aqueles que fazem acontecer os vinhos. Pessoas como a enóloga Marta Lourenço, que faz a ponte entre o passado e o futuro nas emblemáticas Murganheira e Raposeira; ou Francisco Albuquerque, criador e guardião de inesquecíveis Madeira; ou o grande, enorme Senhor do Vinho, pelo conhecimento, responsabilidade, forma de estar na vida, que é António Ventura.
Termino com uma nota pessoal.

Este é o meu último editorial, enquanto director de uma publicação de vinhos. Como apontamento curioso, tem o número 433, correspondendo a outros tantos meses. Terei agora mais tempo para escrever crónicas, artigos de opinião, reportagens, notas de prova, entrevistas. Vai saber-me muito bem. L.L.

Editorial: Vinho? Nem vê-lo!

Editorial

Editorial da edição nrº 106 (Fevereiro de 2026) Imaginem o mundo sem vinho. Um mundo onde séculos de cultura, economia e conhecimento agrícola e enológico seriam descartados em prol de um zelo sanitário. Nada de brindes ou convívios, nada de partilha ou harmonização de vinho e comida. Apenas uma sensação de satisfação de que conseguimos […]

Editorial da edição nrº 106 (Fevereiro de 2026)

Imaginem o mundo sem vinho. Um mundo onde séculos de cultura, economia e conhecimento agrícola e enológico seriam descartados em prol de um zelo sanitário. Nada de brindes ou convívios, nada de partilha ou harmonização de vinho e comida. Apenas uma sensação de satisfação de que conseguimos reduzir um ou dois por cento de risco estatístico comunicado pelas instituições oficiais, incluindo a Organização Mundial da Saúde, que tanto se preocupam com o nosso bem-estar. Nesta realidade, eu ficaria sem trabalho, é certo, mas será que o mundo realmente se tornaria mais saudável?

O “tsunami” de campanhas anti-álcool, que atingiu a indústria vitivinícola no último ano, promove uma narrativa que demoniza o vinho ao colocá-lo indiscriminadamente no mesmo saco de todas as bebidas alcoólicas, como se fosse o responsável directo por uma extensa lista de doenças, ignorando contextos culturais, padrões de consumo e diferenças entre produtos.

Longe vai o tempo em que beber vinho era, em termos sanitários, menos arriscado do que beber água (embora, em alguns países, ainda seja verdade). Hoje, o vinho é tratado como inimigo da saúde pública; ao mesmo tempo, a cannabis é reabilitada e ressurge quase como uma nova panaceia da indústria do bem-estar. Não sou apologista de teorias de conspiração, mas não posso ignorar a realidade: as vendas do vinho continuam a descer a nível mundial, enquanto a indústria legal da cannabis movimenta quase 70 mil milhões de dólares por ano, alimentada por grandes investidores, farmacêuticas e multinacionais de bebidas. Os setores tradicionais, como a vitivinicultura, tornam-se alvos convenientes para campanhas alarmistas. E como normalmente acontece com temas polémicos, poucos se dão ao trabalho de ir além dos títulos sensacionalistas. Leem na diagonal, veem os bonecos de infográfica e retêm os slogans do género “o vinho provoca cancro”, que depois se propagam como fogo nas redes sociais. Raramente alguém lê os estudos originais, que muitas vezes nem estão disponíveis ao público. Mas o que está sempre ao alcance são artigos anti-álcool repletos de números assustadores que, muitas vezes, distorcem a realidade pela forma como os riscos estão apresentados. A maior parte das publicações que relacionam vinho e doenças apoia-se em estudos que identificam correlações estatísticas, mas não demonstram a causalidade directa. Estes estudos não controlam de forma suficiente variáveis como dieta, sedentarismo, fatores socioeconómicos, poluição, estilo de vida, outras doenças ou medicação associada. A medicina não é uma ciência exacta, como física ou matemática, porque o corpo humano é complexo e nem sempre previsível. O conhecimento evolui à medida que novas investigações surgem, muitas vezes para corrigir ou contrariar conclusões anteriores. As organizações governamentais e reguladoras, com as suas agendas políticas, acabam inevitavelmente por influenciar a forma como estes estudos são comunicados.

Não quero negar o óbvio: o vinho contém álcool, cujo consumo abusivo é, realmente, prejudicial à saúde, tal como o consumo abusivo de açúcar, sal e até água. Existe uma diferença abismal entre beber vodka, para cair redondo no sofá, e desfrutar uma experiência enogastronómica, em que o vinho é um elemento cultural, social, sensorial e intelectual, se quiserem, e não um atalho para a embriaguez. A moderação é essencial e tem raízes na cultura gastronómica e vínica, que pode e deve ser ensinada. Neste mundo – ainda com vinho, felizmente – continuamos a precisar de bom senso e, ocasionalmente, de um bom copo para enfrentar a realidade. Aliás, alguém já se lembrou de estudar o impacto do vinho na felicidade humana? V.Z.

Editorial: 2026

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Editorial da edição nrº 105 (Janeiro de 2026) O primeiro editorial do ano é, normalmente, dedicado àquele exercício de adivinhação que os cronistas adoram fazer, apontando padrões e tendências para os 12 meses que se seguem. Para não fugir à tradição, aqui fica a minha antevisão do mercado do vinho em Portugal, sabendo bem que, […]

Editorial da edição nrº 105 (Janeiro de 2026)

O primeiro editorial do ano é, normalmente, dedicado àquele exercício de adivinhação que os cronistas adoram fazer, apontando padrões e tendências para os 12 meses que se seguem. Para não fugir à tradição, aqui fica a minha antevisão do mercado do vinho em Portugal, sabendo bem que, como dizia um conceituado futebolista, os prognósticos mais acertados são feitos no final do jogo.

O consumo – o vinho, em termos gerais, está a ficar menos “cool”, em Portugal e no mundo, e a tendência parece ser para continuar. Não é tanto o álcool (perguntem aos jovens da tão falada geração Z que, nas noites de sexta-feira, bebem qualquer zurrapa que os desiniba), é mesmo o vinho. O preço nos restaurantes é desmotivador, claro, mas olhem para as mesas cheias de jarros de sangria a €25…

As cores – ainda assim, a quebra não acontece por igual. É mais acentuada nos vinhos tintos, tendo os rosés estabilizado (quem pensava que ia vender rosé aos contentores, desiluda-se) e os brancos estão em franco crescimento. De tal forma que a queda de produção nesta vindima levou, em algumas regiões, à procura desenfreada de uva branca e de brancos a granel, com os preços a atingir valores recorde.

Os perfis – tirando vinho mau, vale quase tudo. É evidente que nos segmentos de entrada, coisas como acidez, vegetal ou taninos mais ríspidos continuam a ser inaceitáveis. Mas mesmo nos vinhos de €2,99 podemos ter estilos diversos, desde os super docinhos aos secos (mas macios, claro, e, de preferência, com 14% álcool). A partir dos €15, a tolerância à acidez e ao tanino é muito maior, mas, ainda assim, não tenhamos dúvidas: a procura de vinhos tintos abertos, com pouco álcool e bastante acidez continuará a ser um super nicho. A esmagadora maioria dos consumidores que paga €30 numa loja por uma garrafa de tinto quer um vinho encorpado e poderoso, que impressione os amigos.

Espumantes – há 30 anos, um bairradino, infelizmente já desaparecido, dizia-me muitas vezes: “um dia, o espumante vai conquistar o mundo”. E o mundo veio a dar-lhe razão, a categoria continua e continuará em alta. Na verdade, tem tudo para dar certo: é leve, é fresco, é alegre, é sexy. Dos mais simples pet-nat aos mais sofisticados “método clássico”, com vários anos de cave, as bolhas estão na moda.

“Naturais” – o balão parece estar a esvaziar-se. Lojistas e sommeliers dizem que a onda grande passou e que, num tempo em que cada euro conta, os clientes procuram marcas de confiança, não querem surpresas desagradáveis. E não querem pagar por algo que não lhes sabe bem só porque alguém, supostamente mais entendido, lhes diz que aquilo é suposto ser assim.

Amadores – se isto está difícil para os profissionais, o que dizer dos amadores? E amadores são todos aqueles que investiram numa empresa de vinho sem lhe poderem entregar dedicação total (a sua vida é outra), nem possuem escala para montar uma estrutura profissional. São muitos, muitos mesmo, e ou a sua actividade principal aguenta o prejuízo da acessória, ou grande parte vai fechar ou vender a loja nos próximos anos.

Turismo – 2025 foi, de novo, ano recorde para o turismo em Portugal. Mais de 30 mil milhões de euros entraram nos cofres, euros que, para a economia nacional, valem o dobro, porque vieram de fora. E só as gargantas sedentas dos turistas explicam que Portugal tenha o maior consumo per capita do mundo. Aproveitar este fluxo de pessoas para os levar aos locais de produção, é fundamental. O enoturismo justifica, cada vez mais, a mesma atenção e investimento do que a vinha ou a adega. Em condições ideais, a loja da marca deverá ser o principal e mais rentável ponto de venda do produtor. Não perceber isto, é não perceber nada.

 

 

Editorial: My precious

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Editorial da edição nrº 104 (Dezembro de 2025) Serão as festividades o momento certo para abrir grandes vinhos? Chega a época festiva e instala-se o habitual desfile: produtores com “sugestões imperdíveis”, supermercados e garrafeiras com caixas de “oportunidades únicas” e revistas a apresentarem os vinhos mais pontuados. E lá vamos nós revistar a garrafeira, à […]

Editorial da edição nrº 104 (Dezembro de 2025)

Serão as festividades o momento certo para abrir grandes vinhos?

Chega a época festiva e instala-se o habitual desfile: produtores com “sugestões imperdíveis”, supermercados e garrafeiras com caixas de “oportunidades únicas” e revistas a apresentarem os vinhos mais pontuados. E lá vamos nós revistar a garrafeira, à procura daquele tesouro esquecido que, supostamente, só deve ser aberto quando os astros se alinham. É grande a tentação de provar, finalmente, aquela garrafa rara, guardada cuidadosamente durante anos à espera do momento perfeito.

Ora o que pode acontecer. Entre confirmar se há guardanapos suficientes e se a carne está no ponto, resolver as últimas tarefas e responder às dúvidas existenciais das crianças sobre o Pai Natal, é difícil controlar a temperatura a que o vinho é servido e, sobretudo, a que é realmente consumido. A conversa anima-se, soltam-se as gargalhadas e o vinho vai aquecenddo no copo, a não ser que festeje o Natal num convento medieval, onde a temperatura ambiente não ultrapassa 12-14ºC.

A azáfama de uma festa raramente permite prestar a atenção desejada ao que está no copo. Um vinho mítico pode acabar por perder todo o protagonismo e, quando damos por ele, resta apenas um gole no fundo do copo e nem nos lembramos bem de como era. Eu própria caí nesse erro há muitos anos, num almoço em minha casa: tinha amigos de Moscovo a visitar-me e, por coincidência, os meus pais estavam de férias em Portugal. Os amigos apareceram com uma garrafa de Quinta do Ribeirinho, de Luís Pato (compraram o vinho mais caro que havia numa loja) e eu coloquei-a na mesa. No turbilhão do almoço, mal tive oportunidade de parar e desfrutar o vinho. Acabei por ter de marcar um novo encontro com este grande Baga para o conhecer como merecia. Valeu muito a pena, mas isto dará uma outra história.

Desde então, estou convencida que um vinho excepcional deve ter um momento próprio, só para ele, fora de qualquer outro contexto.

Este ano, vi, na Netflix, uma minissérie norueguesa chamada La Palma. Retrata um desastre natural na ilha com o mesmo nome, no arquipélago das Canárias: um sismo que desencadeia um tsunami e uma erupção vulcânica. Há um momento particularmente marcante, pouco antes de um tsunami devastar o arquipélago, em que Álvaro Pérez, o chefe do observatório sísmico (interpretado por Jorge de Juan), partilha com um colega uma garrafa de Pingus 2013, que lhe foi oferecido no aniversário e ficou guardado. “As pessoas acham que precisam de uma ocasião especial para abrir um grande vinho. Estão enganadas. O vinho é a ocasião”, diz ele e eu subscrevo por completo. Na iminência de morrer na catástrofe, os dois saboreiam o vinho, o último prazer genuíno no meio do dramatismo. E, numa das cenas finais, os sismólogos, em fatos à prova de fogo, aproximam-se da cratera em erupção. Um deles leva a garrafa para acabar o vinho e ambos desaparecem na lava, a desfrutar o derradeiro gole de Pingus.

Não é preciso esperar pelo fim do mundo para abrir uma tal garrafa, mas também não vale a pena desperdiçá-la numa festa agitada. Para uma celebração em casa, costumo abrir vinhos que conheço bem e que garantidamente me darão prazer, mesmo quando a atenção está dividida, deixando os mais raros e especiais que não conheço para momentos em que realmente posso apreciá-los. Porque estes não precisam de um motivo especial, eles próprios o são.

Valéria Zeferino

Editorial: Renovar

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Editorial da edição nrº 103 (Novembro de 2025)   A renovação é essencial ao desenvolvimento e à própria sobrevivência das organizações. O que é válido para o mundo académico ou empresarial, é-o mais ainda para os media em geral e para a imprensa em particular, onde novas e diferentes formas de experienciar e comunicar o […]

Editorial da edição nrº 103 (Novembro de 2025)

 

A renovação é essencial ao desenvolvimento e à própria sobrevivência das organizações. O que é válido para o mundo académico ou empresarial, é-o mais ainda para os media em geral e para a imprensa em particular, onde novas e diferentes formas de experienciar e comunicar o mundo são condição de sucesso.

A entrada, no passado mês de julho, da jornalista Patrícia Serrado para a chefia de redacção da Grandes Escolhas, marca o início de um processo de renovação que teve, em outubro, um outro momento determinante, com a nomeação de Valéria Zeferino, colaboradora desta revista desde a primeira hora, para sub-directora. São duas profissionais de grande gabarito, que encaram com entusiasmo o desafio que têm pela frente e que, para o superar, contam com um quadro de colaboradores sem paralelo em termos de experiência e conhecimento da temática do vinho. Pretende-se, assim, uma transição suave, sem sobressaltos, que conduza a uma revista mais abrangente em termos de público-alvo, dando resposta às necessidades de informação quer dos leitores mais clássicos, quer daqueles que privilegiam o ecrã do telemóvel como transmissor de conteúdos.

Fui contratado como director de publicações periódicas aos 23 anos, ainda a concluir a universidade. Durante cinco anos dirigi, simultaneamente, revistas especializadas em diversas áreas (com destaque para informática e automóveis) até lançar a Revista de Vinhos em 1989, nascendo aí uma paixão pelo tema, que me obrigou a abandonar tudo o resto. Com 64 anos de idade, atingi 41 anos de direcção ininterrupta de revistas mensais. Acho eu, acham a minha família e os meus amigos, que já é suficiente. Quando, dentro de alguns meses, o processo de transição estiver concluído na Grandes Escolhas, poderei fazer finalmente o que há muito ambiciono: escrever e falar sobre o vinho e o seu mundo, sem qualquer outra responsabilidade, além daquela que o rigor e a consciência me ditam.

Luís Lopes

 

Pretende-se uma transição suave, sem sobressaltos, que conduza a uma revista mais abrangente em termos de público-alvo, dando resposta às necessidades quer dos leitores mais clássicos quer daqueles que privilegiam o ecrã do telemóvel como transmissor de conteúdos.

 

Valeria Zeferino

 

Com origens moscovitas, passei quase metade da minha vida em Portugal. Sou formada em Gestão e trabalhei nessa área até descobrir o melhor que este país tem: o vinho. E, quando gosto de alguma coisa, dedico-me profundamente ao tema. Estou ligada ao mundo dos vinhos desde 2012 e, com a primeira edição da Grandes Escolhas, em maio de 2017, comecei a minha colaboração com a revista. Antes disso, era assinante e fiel leitora da Revista de Vinhos, de onde toda a equipa saiu naquela altura, para fundar um novo projeto.

Tenho a sorte de trabalhar com colegas que admiro e com quem aprendi muito: João Paulo Martins, o grande guru e “papa dos vinhos”, com a sua visão crítica e impressionante consistência na prova; Nuno Oliveira Garcia, com nariz apurado e afiado sentido de humor; e Luís Antunes, que escreve maravilhosamente bem. E, claro, Luís Lopes, que considero o meu mentor e tem sido a minha referência em tudo o que faço profissionalmente.

Sem estas pessoas, eu não seria quem sou hoje. Mas também o sou porque nunca deixei de aprender. Tirei o Diploma da WSET, em Londres, que me abriu horizontes. Mas quis ir mais a fundo. Fiz o Mestrado em Viticultura e Enologia no ISA. A área a que mais me dedico é a análise sensorial, tema da minha tese, que espero concluir em breve.

O desafio é grande. Enorme, mesmo. E farei tudo para estar à altura. Nunca serei como o Luís Lopes – é impossível. Serei, sim, diferente, mas trarei as minhas qualidades, competências e dedicação à revista e aos nossos leitores, para que as escolhas sempre sejam grandes. Este é o meu novo começo, que, no fundo, é uma continuidade do caminho que me trouxe até aqui. Valéria Zeferino

 

 

Editorial: Atreva-se a descobrir

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Editorial da edição nrº 102 (Outubro de 2025) No meu círculo de amigos serei, certamente, um dos que menos recorre às chamadas redes sociais. Utilizo apenas Instagram, onde publico uma foto por mês, se tanto, e nunca sobre vinhos. Os temas que me apetece fotografar/comentar têm quase sempre a ver com carros, cães, pesca, caça […]

Editorial da edição nrº 102 (Outubro de 2025)

No meu círculo de amigos serei, certamente, um dos que menos recorre às chamadas redes sociais. Utilizo apenas Instagram, onde publico uma foto por mês, se tanto, e nunca sobre vinhos. Os temas que me apetece fotografar/comentar têm quase sempre a ver com carros, cães, pesca, caça e, tirando raríssimas excepções (e sempre com autorização prévia) família e amigos nunca são envolvidos nos conteúdos. Serve isto unicamente para dizer que estou muito longe de poder ser considerado um especialista em redes sociais, e bem assim da linguagem, regras, códigos, que lhes são inerentes.

No entanto, e por dever de ofício, ao longo dos últimos anos tenho acompanhado bastante mais de perto as plataformas digitais e redes sociais das empresas ligadas ao mundo do vinho. Estou atento ao desempenho, à forma, ao conteúdo, e reconheço a crescente importância que as redes sociais têm na estratégia de comunicação de uma marca, operando como complemento dos outros formatos e modelos.

Ao visualizar as publicações de dezenas de empresas, distintas nos seus perfis, conceitos e cliente alvo, é impossível não reparar em, pelo menos, dois denominadores comuns: primeiro, o desconhecimento generalizado do tema (vinha, vinho, mercado) e também da cultura e especificidades do proprietário da conta, originando arrepiantes “gaffes”, sobretudo quando se fala de castas, vindima, vinificação ou consumo (a excepção está, naturalmente, nas raras ocasiões em que é o produtor a encarregar-se do conteúdo); segundo, a absurda quantidade de lugares comuns, clichés, verbos, advérbios e adjectivos repetidos até à exaustão, amontoados de palavras sem significado algum, formando frases surreais.

Assim, pelo que leio nas redes sociais, não posso, simplesmente, querer beber um vinho. Tenho de me “atrever” a isso. E, de preferência, ficar “surpreendido” com o resultado. E como não, se todos os vinhos são “únicos” e “prometem” coisas? Além de que estão cheios de “segredos desafiantes” para “descobrir”. De tal forma “fascinantes” e “inesquecíveis” que deixam de ser uma bebida e se transformam numa “experiência”, feita de “aromas de partilha” e “sabores de tradição”. Apetece “brindar” pois então, “à vida, aos amigos, ao verão”.

Sei perfeitamente que uma publicação deste tipo se quer curta e apelativa, numa linguagem simples, acessível, sem complicações, de apreensão imediata. Mas tantas e tantas vezes, o que leio é algo como isto: “Atreva-se a experienciar o nosso terroir único. Convidamo-lo a mergulhar num momento fascinante e inesquecível, juntando paixão e tradição. Descubra os segredos de vinhos que prometem surpreender pela sua frescura e brinde à amizade num ambiente repleto de natureza”.

Não pretendo, de modo algum, ver numa conta empresarial do Facebook ou Instagram a linguagem de um jornalista ou romancista. Mas gostaria de deparar-me com uma escrita um pouco mais criativa, inteligente e conhecedora. A verdade é que, após ler as mesmas frases replicadas de marca para marca, fico com a sensação de que a esmagadora maioria das pessoas que escreve estes conteúdos nem sequer bebe ou gosta de vinho. O que, convenhamos, não será o melhor cartão de visita, se o propósito da publicação for levar um potencial consumidor a “atrever-se” a abrir uma garrafa… L.L.

Editorial: Então é assim

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Editorial da edição nrº 101 (Setembro de 2025) É uma das mais clássicas interrogações do jornalismo: até que ponto a isenção é condicionada pelos gostos ou preferências de quem escreve? A deontologia profissional exige que o jornalista seja independente e isento. Mas o jornalista não deixa de ser uma pessoa. E podendo e devendo salvaguardar, […]

Editorial da edição nrº 101 (Setembro de 2025)

É uma das mais clássicas interrogações do jornalismo: até que ponto a isenção é condicionada pelos gostos ou preferências de quem escreve? A deontologia profissional exige que o jornalista seja independente e isento. Mas o jornalista não deixa de ser uma pessoa. E podendo e devendo salvaguardar, com afinco, a sua independência, dificilmente consegue assegurar a completa isenção.

Os jornalistas escondem, sempre, as suas preferências. Na tradição europeia, os que escrevem sobre política nunca dirão em quem votam nem apelarão a um sentido de voto. E, no entanto, enquanto apaixonados pelo tema, é certo que se identificam com determinadas ideias, pessoas e partidos. E rejeitam outras e outros. Pode então a sua análise aos méritos deste ou daquele político, ou desta ou daquela proposta, ser inteiramente isenta?

Algo quase impossível no jornalismo desportivo, sobretudo no futebol, onde o adepto é irracional por natureza. Não existe uma razão para se ser deste ou daquele clube. É-se, simplesmente. Sendo os jornalistas desportivos também adeptos, com que isenção avaliam um jogo ou um jogador?

Já quem escreve sobre gastronomia (ou vinhos) não vê o mundo a duas cores. É normal apreciar sabores muito distintos ou estilos bem diversos. Ainda assim, terá favoritos e ódios de estimação. Se um jornalista detestar abóbora (é o meu caso…) com que rigor vai avaliar um prato baseado naquele fruto?

Felizmente, não escrevo sobre comida. Mas escrevo sobre vinhos. E tal como os jornalistas de outras áreas, tenho as minhas preferências. E tal como eles (ou, acredito, a maioria deles) esforço-me ao máximo por impedir que os meus gostos influenciem o meu julgamento. Sei que, conscientemente, não beneficio ou prejudico um vinho em função de apreciar mais este ou aquele estilo ou região. Mas não posso garantir, com toda a certeza, que nunca o faça sem dar por isso. Essa garantia, nenhum ser humano pode dar.

Um crítico de vinhos (ou comentador político) não é suposto ser isento. Mas um crítico de vinhos que seja, ao mesmo tempo, jornalista, tem a obrigação de, a todo o custo, procurar sê-lo. E embora entenda que a exposição pública possa ser mal interpretada, seria bem melhor para o profissional do jornalismo, qualquer que seja a sua área, se os seus leitores soubessem para onde o seu coração (ou cabeça, ou estômago…) se inclina.

Não me importo de dar o primeiro passo. Então é assim. Sou bastante eclético, aprecio vinhos muito distintos no perfil. Mas nos tintos, gosto de garra tânica, estrutura e boa acidez. E nos brancos, sou pela untuosidade, elegância e frescura crocante. Não sou fã da fruta exuberante, prefiro os aromas e sabores vegetais de bosque ou frutos citrinos, às framboesas, groselhas e frutos tropicais. Entre vinhos de igual qualidade, escolho beber os menos alcoólicos. Mas detesto vinhos de uvas verdes (uma moda ridícula que, espero, passe depressa). A barrica em nada me incomoda se for boa e discreta. Nos varietais tranquilos, vou nos Encruzado, Baga, Alvarinho, Loureiro, Alicante Bouschet e Cabernet e passo Viognier, Merlot, Moscatel, Pinot e Gewurztraminer. Adoro espumantes “bruto zero” e com longo estágio em cave (aqui o Pinot é muito bem-vindo) e dispenso Pet Nat, Late Harvest e destilados.

Regiões? Na minha garrafeira estão todas bem representadas. Mas se fosse possível aferir as favoritas pelas garrafas que espreitam nas prateleiras, poderia dizer que, em tintos, prevalecem Bairrada, Douro e Alentejo, em partes quase iguais. E em brancos, Monção e Melgaço (dominante), Bairrada e Dão. Nos licorosos, Porto (bem maioritário), Madeira e Setúbal. Para terminar esta declaração de interesses, devo acrescentar que gosto imenso de tintos Barolo e Bordeaux e brancos Mosel, Bourgogne e Jerez mas, infelizmente, não abundam cá em casa… L.L.

Editorial: Nº 100

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Editorial da edição nrº 100 (Agosto de 2025)   100 meses, 100 edições. Um número bem redondinho que assinala um percurso bonito, iniciado em maio de 2017, recheado de desafios (um covid 19 pelo meio, parece que foi há um século…) e superações. Foram também 100 editoriais, publicados nesta página. Revisito aqui alguns deles, abrindo […]

Editorial da edição nrº 100 (Agosto de 2025)

 

100 meses, 100 edições. Um número bem redondinho que assinala um percurso bonito, iniciado em maio de 2017, recheado de desafios (um covid 19 pelo meio, parece que foi há um século…) e superações. Foram também 100 editoriais, publicados nesta página. Revisito aqui alguns deles, abrindo uma cápsula do tempo de memórias vínicas destes quase oito anos e meio.

 

“Número 1. Gosto deste algarismo e dos seus múltiplos significados. Pode querer dizer o primeiro, no sentido qualitativo do termo, mas também início e único. Acredito que todos eles se aplicam à revista que agora apresentamos. V Grandes Escolhas, é o seu nome.” (Maio 2017)

“A viticultura sustentável não é uma moda ou uma tendência, antes uma necessidade. E uma necessidade de que muitos produtores estão conscientes, sobretudo aqueles que querem deixar algo para as gerações vindouras (as suas e as dos outros).” (Dezembro 2017)

“Fico zangado com a rolha quando esta me deixa ficar mal, quando frustra as minhas expectativas, quando mata um vinho que acarinhei durante anos para um momento de glória que afinal não foi. Mais do que arruinar o vinho, o TCA destrói o momento.” (Dezembro 2018)

“A Touriga Nacional é a minha casta favorita? Não, de todo. Mas é a melhor que temos e a mais bem colocada para representar a grandeza vinícola de Portugal. É exuberante, vaidosa, impositiva, egocêntrica? Sim, claro. O Cristiano Ronaldo também.” (Maio 2019)

“Existem muitas definições para o chamado factor X. Aquela de que mais gosto explica-o desta forma: “Uma variável, numa dada situação, que pode vir a ter o impacto mais significativo no resultado”. No caso do vinho, não tenho qualquer dúvida: a variável principal, o factor X, é o factor humano.” (Setembro 2019)

“O salto digital foi gigantesco para todos. Veio para ficar? Vai ser assim de agora em diante? Vai substituir a conversa cara a cara, o aperto de mão, o abraço, o tocar dos copos? O take-away e a venda online não salva restaurantes, lojistas e produtores, tal como o WhatsApp não resolve as saudades da família e dos amigos. É um compromisso pífio e frustrante. Mas ajuda.” (Maio 2020)

“Só quem sabe muito de viticultura e enologia se pode dar ao luxo de abdicar da segurança e correr riscos. Mas só correndo riscos se criam vinhos que nos seduzem e impressionam pela sua qualidade, originalidade, personalidade. E mesmo com todo o conhecimento, talento e atenção, quem caminha na linha vermelha, sabe que, por vezes, as coisas correm mal.” (Fevereiro 2021)

“Gosto discute-se, qualidade não. A qualidade é imediatamente reconhecível, mesmo por quem não é especialista ou conhecedor. Se um vinho cheira mal, não há quem me convença de que cheira bem. Uma couve podre é uma couve podre, um guisado queimado é um guisado queimado. Não há volta a dar.” (Janeiro 2022)

“Agora que toda a gente sabe o que é Vinho de Talha Alentejo, seria bom não esquecermos os amadores (no verdadeiro sentido da palavra, ‘aqueles que amam’) que, teimosamente, ao longo das últimas décadas, mantiveram vivos não apenas a tradição como o conhecimento, o saber fazer.” (Julho 2023)

“Aqueles que se intitulam ‘fora da caixa’ (sem perceberem que assim se inserem, desde logo, numa caixa e num rótulo) são, frequentemente, os que mais se esforçam por colocar todos os outros vinhos e produtores em caixinhas muito bem fechadas, catalogadas e arrumadas num canto, de preferência escuro e longínquo. Como se o mundo do vinho se resumisse a ‘nós’ e ‘outros’.” (Dezembro 2023)

“Quantas vezes assisti, em sessões de prova, ao arrasar de um vinho com o singular argumento de que se ‘sente a madeira’. (…) Curiosamente, quem diaboliza a mais leve sugestão de fumado ou especiaria da barrica, é capaz de acolher embevecido e lacrimejante de prazer o aroma a pez da talha ou o sabor taninoso do engaço verde no lagar.” (Junho 2024)

“Melhores vinhos. De todos os ‘prognósticos’ para 2025, este é o que podemos tomar como garantido. A cada ano que passa, nascem em Portugal melhores vinhos, brancos, rosados e tintos. Não sei quando o mundo vai verdadeiramente reconhecer (e pagar) a grandeza destes vinhos. Mas pouco importa, eu sei onde os encontrar.” (Janeiro 2025) L.L.