RUINART: A quintessência do espírito de Champagne

Ruinart

Acedemos ao 4 Rue de Crayères através de um caminho como que escondido, parecendo esculpido directamente no calcário. As primeiras impressões são fortemente sensoriais, desde a brancura do giz ao azul do céu, passando pelo verde das copas das árvores. À medida que percorremos esse caminho, emerge o Pavilhão Nicolas Ruinart, desenhado pelo arquitecto japonês […]

Acedemos ao 4 Rue de Crayères através de um caminho como que escondido, parecendo esculpido directamente no calcário. As primeiras impressões são fortemente sensoriais, desde a brancura do giz ao azul do céu, passando pelo verde das copas das árvores. À medida que percorremos esse caminho, emerge o Pavilhão Nicolas Ruinart, desenhado pelo arquitecto japonês Sou Fujimoto, um magnífico edifício calcário, todo ele aerodinâmico, com curvas suaves, longas linhas horizontais, inspirado na evanescência das bolhas de champagne, esculpidas pela luz. O telhado, assimétrico, forma uma curva e lembra a redondeza de uma bolha de champagne. Mudando gradualmente do transparente para o subtil opaco, criando a impressão do borbulhar num copo de champagne. A janela imensa emoldura a vista do pátio principal, para as maravilhosas fachadas do século XIX da Maison Ruinart.

Mas, sob toda esta beleza e grandiosidade, estão as caves, as famosas Crayères, classificadas como Património Mundial da UNESCO, e nada nos prepara verdadeiramente para tão grande monumentalidade. As caves estão a 38 metros de profundidade e possibilitam o acesso a oito quilómetros de túneis, pedreiras desactivadas, de pedra calcária e giz, algumas datadas da Era Medieval. Aqui, o ar é fresco e húmido, o som que se ouve é apenas o murmúrio do tempo. É onde milhares, ou milhões, de garrafas alinhadas – a Ruinart nunca revela os números de garrafas produzidas ou em cave – aguardam, pacientemente, os seus momentos de fama.

Expressão artística

Fundada em 1729, em plena Era das Luzes, a Maison Ruinart nasceu da ideia pioneira de fazer do champagne uma expressão cultural e uma arte de viver. Nicolas Ruinart, inspirado pelas visões de seu tio, o monge beneditino Dom Thierry Ruinart, fundou a primeira casa, da região de Champagne, oficialmente dedicada a este vinho com bolhas mágicas, que então passou a ser servido nas coroações dos Reis de França e no Palácio Real, e a encantar as demais cortes europeias.

Ao longo da história, a Maison Ruinart sobreviveu a crises e guerras, incluindo o bombardeamento das suas vinhas e edifícios durante a ocupação alemã, para além do roubo e delapidação quase total do seu stock de garrafas. Contudo, sempre conseguiu erguer-se e estar à altura dos desafios, sem nunca perder de vista a inovação e o desenvolvimento tecnológico, sempre numa busca incessante pela excelência e perfeição dos seus champagnes.

Dirigida pela família Ruinart até 1963, integra, desde 1987, o grupo do segmento de luxo LVMH (Louis Vuitton Moet Hennessy). A luz, o branco e a transparência tornaram-se símbolos da sua estética e do seu vinho, e a Chardonnay, casta que define a sua assinatura, é trabalhada como metáfora dessa luminosidade: um reflexo líquido da elegância e da precisão. A Ruinart conseguiu construir uma linguagem e um estilo muito próprios e distintos, sempre alicerçados na mais completa harmonia entre tradição, vanguarda e criatividade.

O ‘Petit R’ é, claramente, disso um exemplo maior. Trata-se de uma experiência gastronómica e visual, um show multimédia, imersivo e esteticamente encantador, que pudemos desfrutar durante o jantar na Maison. Ao mesmo tempo, é uma visão contemporânea de acontecimentos passados, da história de Champagne vista através da Maison Ruinart. Através da personagem ‘Petit R’, criada pelo artista japonês Kanako Kuno – sempre a tal ligação à arte, presente em todos os momentos definidores –, a história é contada em cima da mesa, literalmente. O mundo inteiro cabe no prato, a toalha transforma-se num ecrã gigante, onde tudo se desenvolve. As figuras dos animais e das pessoas ganham tridimensionalidade, saltam do prato, rodopiam, contam histórias. Tudo funciona de forma sincronizada até ao ponto em que ‘Petit R’ abre uma garrafa de champagne e se ouve o som bem real da rolha a saltar: é um sommelier que abre uma garrafa, verdadeira, em perfeita sincronia de tempo!

Ruinart

Caroline Fiot, a primeira mulher com a função de Cellar Master na região de Champagne, liderou o estudo do impacto da luz no Blanc de Blancs e a criação da Second Skin Case

 

A segunda pele

Na alvorada dos seus 300 anos – a Maison Ruinart celebrará o seu tricentenário em setembro de 2029 –, dois factores importantíssimos são alvo de dedicação máxima na Maison Ruinart: sustentabilidade e impacto das alterações climáticas em Champagne. Quanto ao primeiro, destaca-se a criação do estojo Second Skin, literalmente uma ‘segunda pele’ para a garrafa Ruinart, que as envolve à sua forma. De acordo com a marca, esta é “composta por 99% de papel (1% é cola), feito de fibra de madeira proveniente de florestas geridas ecologicamente na Europa, e é nove vezes mais leve que a anterior geração de gift boxes, reduzindo a pegada de carbono das embalagens em 60%.” Além da componente ecológica, a Second Skin protege o vinho da luz, é resistente à humidade e “permanece intacta num frapê de gelo até três horas”, refere a Ruinart. De cor branca, tem um padrão em relevo a invocar as Crayères, as caves calcárias da Maison.

Uma palavra é devida a Caroline Fiot, nova Cellar Master da Ruinart, que sucede a Frédéric Panaïotis, falecido este ano, num contexto delicado. Entrou na Ruinart em 2016, participou no comité de prova, supervisionou fermentações e liderou projetos de investigação, como o estudo do impacto da luz no Blanc de Blancs e a criação da Second Skin Case, embalagem sustentável que substitui o tradicional estojo em papel. É, também, a primeira mulher a desempenhar tais funções na história da região de Champagne.

História e inovação

Hoje em dia, talvez mais do que nunca, seja na região de Champagne, seja no mundo, torna-se necessário (re)pensar os nossos estilos de vida, a nossa cultura enraizada e, talvez, questionar o nosso conhecimento. E em vez de querermos que a natureza se adapte às nossas necessidades, talvez seja bom pensarmos em adaptar-nos àquilo que a natureza tem para nos oferecer.
Esta foi a grande mensagem que eu retive nesta minha viagem a Reims e à Ruinart. Há, de facto, trabalho muito sério a ser feito para adaptar a região às alterações climáticas, que vieram para ficar, e quando vemos uma das regiões vínicas mais fortes e mais unidas do mundo a trabalhar em conjunto para alcançar um determinado objectivo, vemos que a coisa é mesmo para levar a sério. No entanto, já havia sinais. É uma coisa antecipada, e que vem sendo pensada e testada há já vários anos, basta estarmos atentos ao que nos rodeia, o que, na maioria das vezes, se revela o mais difícil.

Ora vejamos. Grande parte do sucesso de Champagne deve-se à utilização mais ou menos generalizada do estilo non-vintage, expressão traduzida na mistura entre vinhos de reserva e o vinho da colheita mais recente, uma espécie de receita seguida pela grande maioria dos produtores de Champagne, das Big Marques aos pequenos vignerons. No fundo, pretende-se mitigar ou eliminar o mais possível o efeito colheita, ou seja, nos anos mais frios, quando as uvas são mais ácidas, porque não conseguem atingir pontos de maturação adequados, incorpora-se mais vinhos de reserva no blend, de modo a adicionar estrutura e complexidade à frescura e energia da nova colheita, ao passo que, em anos mais quentes, se incorpora menos vinhos de reserva, pois pretende-se manter a juventude da nova colheita.

De um modo geral, tem sido este o caminho percorrido na região até há bem pouco tempo. Porém, o impacto das alterações climáticas têm vindo a traduzir-se num registo consecutivo de fruta mais madura, ano após ano, e num aumento médio real de 1,2% de álcool nas uvas nos últimos 30 anos.

O novo normal

A grande diferença de uma região como Champagne é que, ao invés de olhar para as alterações climáticas como uma ameaça, decidiu encará-las como uma oportunidade. E, de repente, o estilo non-vintage, e até a própria dosage, deixaram de fazer tanto sentido, ou nenhum mesmo. Atualmente, é quase tudo produzido em estilo vintage, com nuances introduzidas pelas Reservas Perpétuas quando utilizadas, e, graças aos maiores níveis de açúcar nas uvas, Champagnes Brut Nature ou Extra Brut são a nova normalidade.

Assim, tudo nos começa a fazer sentido, quando a Krug criou o estilo multi-vintage das suas Grand Cuveés, quando Charles Heidsieck começou a identificar o ano base no contra-rótulo, a Laurent-Perrier criou a Cuvée Ultra Brut num estilo super seco e, mais recentemente, a icónica Maison Louis Roederer abandonou definitivamente o estilo non-vintage da sua Cuvée Brut Premier, criando a Collection, um blend de multi-vintages identificados.

E a Ruinart? Aí está a Cuvée Blanc Singulier, por enquanto só disponível em França, mas que, provavelmente, num futuro não muito longínquo, talvez venha a ser a nova normalidade da Ruinart, enquanto que a de hoje, o icónico Blanc de Blancs, talvez passe a ser a excepção. Aguardemos com serenidade e sempre com champagne no copo!

(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2026)

Champagne Ruinart apresenta Second Skin, um packaging eco-responsável

Ruinart Second Skin

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[vc_row type=”in_container” full_screen_row_position=”middle” scene_position=”center” text_color=”dark” text_align=”left” overlay_strength=”0.3″ shape_divider_position=”bottom”][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/1″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][vc_column_text]A tempo deste Natal, a casa de champagne Ruinart dispensou as caixas de presente tradicionais e lançou Second Skin, um embrulho eco-responsável (e estiloso) para as garrafas, em linha com o seu auto-proclamado conceito de “luxo disruptivo”, com uma abordagem sustentável.

O novo estojo Second Skin da Ruinart pretende ser precisamente o que indica o seu nome, uma “segunda pele” para as garrafas, que as envolve à sua forma. Segundo a marca, esta é “composta por 99% de papel (1% é cola), feito de fibra de madeira proveniente de florestas geridas ecologicamente na Europa. É nove vezes mais leve que a anterior geração de ‘gift boxes’, reduzindo a pegada de carbono das embalagens em 60%, de acordo com o ADEME’s BEE método”. 

Além da componente ecológica, a Second Skin protege o vinho da luz, é resistente à humidade e “permanece intacta num frapê de gelo até três horas”, diz a Ruinart. De cor branca, tem um padrão em relevo a invocar as “Crayéres”, as caves calcárias da Maison Ruinart, em Reims, França.

Com importação e distribuição Empor Spirits, as garrafas com Second Skin encontram-se exclusivamente à venda no Club Gourmet do El Corte Inglés, em versão Ruinart Rosé e Ruinart Blanc de Blancs, ambas de 0,75l e com p.v.p. de €97,50.

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Ruinart, classe e elegância num eterno art de vivre

A sua garrafa distinta, o estilo inconfundível, a ligação histórica e cultural e a inovação constante mostram como a casa mais antiga da região de Champagne consegue ser também a mais contemporânea. TEXTO Valéria Zeferino A Maison Ruinart foi pioneira em muitos aspectos. Fundada em 1729 especificamente para produzir vinhos espumantes (a região de Champagne […]

A sua garrafa distinta, o estilo inconfundível, a ligação histórica e cultural e a inovação constante mostram como a casa mais antiga da região de Champagne consegue ser também a mais contemporânea.

TEXTO Valéria Zeferino

A Maison Ruinart foi pioneira em muitos aspectos. Fundada em 1729 especificamente para produzir vinhos espumantes (a região de Champagne ainda não era demarcada), também foi a primeira a estrear o estilo rosé e a utilizar as caves subterrâneas para guardar as suas garrafas. E continua a ser inovadora na sua maneira de comunicar com o mundo. A colaboração artística desde 1895 e a recente experiência multimédia “Petit R” são grandes exemplos desta abordagem moderna.
A história começa no século XVII, quando vários produtores faziam vinhos tranquilos à volta de Reims e experimentavam fazer vinhos espumantes. O monge beneditino Dom Thierry Ruinart, proveniente de uma família bem sucedida no negócio de têxteis, era perspicaz e previu o sucesso que os vinhos efervescentes produzidos na região iriam ter no futuro.
No início do século XVIII, o seu sobrinho Nicolas Ruinart agarrou no negócio idealizado pelo tio e em 1729 fundou a empresa com o propósito de produzir e comercializar vinhos espumantes. O novo negócio foi tão bem sucedido que em 1735 Ruinart deixou os têxteis de lado e dedicou-se exclusivamente à produção de Champagne.
Alguns anos mais tarde lançou o primeiro Champagne Rosé. Talvez isto tenha acontecido por acaso e deixaram o mosto em contacto com películas durante mais tempo, mas contra factos não há argumentos. Os livros contabilísticos da casa comprovam que em 1764 Ruinart vendeu 120 garrafas, das quais 60 tinham vinho de cor Oeil de Perdrix (olho de perdiz, que na realidade tem uma cor rosada).
Actualmente, Ruinart integra o universo da indústria de luxo da holding LVMH (Moët Hennessy Louis Vuitton), mas distanciando-se das marcas mais populares, como Moёt & Chandon e Veuve Clicquot, e ao mesmo tempo não sendo tão comercialmente ostensivo como Dom Pérignon ou Krug; é uma marca mais discreta, mas de grande classe.

As caves, o coração da casa

As caves da Ruinart são das mais impressionantes do mundo. É fácil perdermo-nos neste labirinto, estendido por 8km debaixo da terra, chegando a 38 metros de profundidade, onde milhares e milhares de garrafas, repousadas em silêncio absoluto, passam de 3 a 12 anos à espera do seu momento de glória efervescente.
Surpreendentemente, não foram construídas com este propósito. Há quase 2000 anos, começaram a ser exploradas como pedreiras (“crayères”), para extrair calcário para construção da cidade de Reims. À medida que escavar mais fundo se tornava perigoso, iam sendo abandonadas.
Em 1768, Claude Ruinart, o filho do fundador, teve a ideia de adquirir galerias subterrâneas para guardar as garrafas, onde durante o seu estágio prolongado estariam protegidas da luz e da vibração, com constante temperatura de cerca de 10-11˚C e nível de humidade de 90%. Isto tornou a Ruinart na primeira casa de Champagne a utilizar as pedreiras calcárias para lhes dar um novo propósito.
Na altura da I Guerra Mundial, a parte mais profunda das caves serviu de abrigo. Nos anos 50 e 60 do século passado, o espaço tornou-se num local de festas, frequentado por estrelas de cinema, escritores e desportistas, que contribuiram para o espírito cultural deste espaço.
Esta impressionante obra humana, esculpida no próprio solo da região e preservada no tempo, é considerada um monumento histórico de França e em 2015 foi reconhecida como património mundial da UNESCO. Quando se toca numa fria e húmida parede de giz, toca-se na história ao mesmo tempo.

Petit R, uma experiência gastronómica e visual

Petit R é uma visão contemporânea dos acontecimentos passados; uma imersão original na história de Champagne através da Maison Ruinart. Trata-se de uma personagem inventada, criada pelo artista japonês Kanako Kuno. A história é contada em cima da mesa. O mundo inteiro cabe no prato. A toalha transforma-se num ecrã, onde tudo se desenvolve. As figuras dos animais e das pessoas parecem tridimencionais, saltam do prato, andam a volta, contam histórias. Tudo funciona de uma forma sincronizada até ao ponto em que, quando Petit R abre uma garrafa de Champagne, ouve-se um som bem real. É um sommelier que abre uma verdadeira garrafa ao mesmo tempo! Os pratos servidos, o Champagne a borbulhar, a história continua.
Para além da uma refeição saborosa, esta experiência alimenta também a emoção. Acaba por ser mais do que um jantar, mais do que um show multimédia. É emocionalmente imersivo e esteticamente encantador.
Um almoço ou jantar na Maison Ruinart pode ser reservado por um grupo de 8-12 pessoas. O preço será a partir de 350 euros por pessoa em função de algumas variáveis, como o menu, o chef e o acompanhamento escolhido.

“O estilo Ruinart não é oxidativo, antes fresco, puro e elegante”

O charmoso e bem-disposto Frederic Panaïotis é o chef de caves da Ruinart. Estudou viticultura e enologia em França, trabalhou algum tempo na Califórnia, regressou e desde 2007 está a aplicar o seu conhecimento na Ruinart. É uma pessoa interessante e interessada, não pára de aprender e fala várias línguas, incluindo mandarim e russo.
Como correu a vindima de 2018 em Champagne?
Foi um ano fantástico! Nesta região muitas vezes temos problemas com geadas na Primavera. Este ano não houve nenhuma, apenas algum míldio. Durante a floração o tempo estava excelente, com muito sol. Colhemos fruto de ótima qualidade e em grande quantidade.
Um mau ano representa um desafio para si?
O desafio é ser consistente. Num ano excelente não posso fazer o Champagne demasido bom e num ano mau tenho que fazer o melhor que consigo para manter a consistência.
As regiões frias beneficiam com o aquecimento global. Como vê estas alterações em Champagne?
Acho que este benefício não é a longo prazo. A partir de 2007 a vindima passou a ser feita em Agosto, o que não é normal. Antes do século XXI isto aconteceu apenas duas vezes, em 1899 e 1976, e neste século já tivemos cinco vindimas em Agosto.
Qual é a idade máxima das vinhas?
Temos que replantar mais ou menos a cada 20 anos, por causa do clima e da carga de doenças.
Como define o perfil de Champagne Ruinart?
Frescura, pureza e elegância. Não procuramos Champagne “tradicional”, no sentido de desenvolver um caráter muito “easty” (de leveduras em autólise) ou oxidativo. A nossa abordagem é manter o vinho mais próximo da fruta, preservar e potenciar a frescura e a riqueza aromática que as uvas nos dão.
Como atingem este perfil?
Aqui não há grande segredo, mas existem muitos detalhes, sobretudo relacionados com a protecção do vinho do contacto com oxigénio em todas as fases. O vinho base fermenta sempre em inox e nunca em barricas; utilizamos gás inerte em várias fases para evitar o contacto com oxigénio. Tempo de fermentação também conta: quando mais lenta, mais evoca o perfil oxidativo, que nós não queremos.
Para fazer o Ruinart Rosé preferem lotear o vinho branco com o vinho tinto em vez de o obter através da maceração pelicular. Porquê?
Porque a maceração, para além da cor, deixa passar mais tanino e dá aromas de vinho tinto, enquanto nós procuramos o estilo mais elegante e fresco.
Sabendo que o enólogo numa casa de Champagne não é a estrela, mas um guardião da tradição e do estilo da casa, não se sente limitado de experimentar, inovar?
Não. Nós estamos sempre a experimentar. Por exemplo, com diferentes formas de aplicar leveduras para segunda fermentação, ou com vedantes durante o estágio. Nos últimos 12 anos andamos a fazer provas comparativas dos vinhos que durante o estágio estavam fechados com rolhas de cortiça e outros com a habitual carica. Chegámos à conclusão de que para os vinhos que estagiam mais tempo (7-8 anos) as rolhas de cortiça são as mais adequadas, porque acrescentam complexidade, embora exijam mais trabalho na altura do dégorgement. Ou seja, evolução é inevitável, temos que “ouvir” o feedback das pessoas. Por exemplo, estamos a reduzir gradualmente a dosagem. Antigamente era 12-13 g/l de açúcar, agora temos cerca de 7,5 g/l.
Qual é a sua sugestão para temperatura de serviço de Champagne?
Eu prefiro o não datado a 8-10˚C e datado ligeiramente menos frio, a 10-12˚C. Mas temos sempre de ajustar a temperatura de serviço à temperatura do ambiente.
Existe a opinião que quando uma garrafa de Champagne é aberta sem muito barulho, é sinal de profissionalismo de quem a abriu. Partilha desta opinião?
(sorriso) Eu gosto do barulho, faz com que pessoas pensem em Champagne!

 

Edição nº20, Dezembro 2018