“Vigneron” é em Junho, nas Bágeiras

Os franceses chamam vigneron Ă quele que faz o vinho exclusivamente com as uvas que cria na sua propriedade. No paĂs onde o conceito nasceu, o chamado “vigneron independant” recolhe, junto do mercado e do consumidor, um estatuto de singularidade e exclusividade muito especiais. Em Portugal, essa qualificação existe igualmente na lei, embora com um nome […]
Os franceses chamam vigneron Ă quele que faz o vinho exclusivamente com as uvas que cria na sua propriedade. No paĂs onde o conceito nasceu, o chamado “vigneron independant” recolhe, junto do mercado e do consumidor, um estatuto de singularidade e exclusividade muito especiais. Em Portugal, essa qualificação existe igualmente na lei, embora com um nome bastante mais rebuscado e pouco “sexy”: vitivinicultor-engarrafador. O problema Ă© que ninguĂ©m sabe o que isso Ă©. Pior: nos Ăşltimos anos, por desconhecimento ou aproveitamento, vários agentes do sector tĂŞm usado o designativo de vigneron para assim qualificar os produtores de pequena dimensĂŁo, muitos deles nĂŁo possuindo sequer vinha ou adega. Mário SĂ©rgio Nuno, da Quinta das Bágeiras, há muito que se revolta contra aquilo que considera, nas suas palavras, “abuso e publicidade enganosa”. E manifesta frequentemente essa atitude na comunicação institucional das Bágeiras, onde faz questĂŁo de explicar o que Ă©, efectivamente, um vigneron. O produtor bairradino nĂŁo está sozinho nessa luta e, ciente disso, resolveu organizar um evento que congrega “verdadeiros vigneron” em torno de uma causa comum: “valorizar o que há de mais pessoal e genuĂno no mundo do vinho – fazĂŞ-lo somente com uvas prĂłprias.”
O evento “Vigneron, As Nossas Uvas, Os Nossos Vinhos”, está assim agendado para o próximo dia 22 de Junho, na Quinta das Bágeiras, Fogueira, Sangalhos. O propósito de Mário Sérgio é acolher, na sua adega, cerca de duas dezenas de produtores que partilham a mesma filosofia – inscritos na categoria vitivinicultor-engarrafador do Instituto da Vinha e do Vinho – que irão apresentar os vinhos aos visitantes (consumidores, imprensa, profissionais de restaurantes e lojas especializadas) num evento onde as provas comentadas e a gastronomia também marcam presença. “Ser vigneron”, diz, “significa conhecer cada parcela, cada casta, cada videira, acompanhar o ciclo da vinha, faça sol, chuva, frio ou calor.” Além disso, acrescenta, “um vigneron trabalha sem rede: fazemos mais vinho quando temos mais uva, ou ficamos sem vinho se nos acontecer uma desgraça na vinha. Ao contrário de outros que compram a uva e o vinho que quiserem e onde quiserem, nós, por vontade própria, não o podemos fazer. Isso tem de valer alguma coisa. Um vinho de vigneron é, verdadeiramente, a cara de quem o fez, de quem tomou todas as decisões, da cepa até à garrafa.”
Mas, no copo, o que distingue estes vinhos dos outros? Mário SĂ©rgio tem tambĂ©m resposta para isso: “NĂŁo sĂŁo melhores nem piores, sĂŁo diferentes. Criamos vinhos genuĂnos, vinhos de que sabemos exactamente a origem, vinhos que espelham a forma como trabalhámos a vinha e os efeitos que o ano climático teve naquelas uvas. SĂŁo vinhos sem compromissos, vinhos que sĂŁo tĂŁo nossos quanto as nossas uvas. Acreditamos que isso faz a diferença”, remata.
Os nomes já confirmados metem respeito, e abarcam casas de diferentes dimensões – “vigneron nĂŁo tem a ver com tamanho, tem a ver com princĂpios, com uma forma de estar no mundo do vinho”, acentua o organizador – e distintas origens, de norte a sul do paĂs. Por ordem alfabĂ©tica, vĂŁo marcar presença os produtores AntĂłnio Selas, Casa de Cello, Casa da Passarella, JosĂ© Madeira Afonso, JĂşlio Bastos, Quinta da Alameda, Quinta da Atela, Quinta das Bágeiras, Quinta da Boa Esperança, Quinta de Chocapalha, Quinta da Falorca, Quinta da Pedreira, Quinta do PerdigĂŁo, Rui Reguinga, Tapada de Coelheiros e Vale dos Ares. A coisa promete… L.L.