Editorial Agosto: A crise, outra vez

Editorial

Editorial da edição nrº 88 (Agosto 2024) “Isto está mal”, dizem produtores de vinho, distribuidores, donos de restaurantes e garrafeiras. A culpa é da crise, da perda de poder de compra, da falta de confiança, do receio de gastar em produtos supérfluos. Mas será “A Crise” (com maiúsculas…) a única culpada das dificuldades que o […]

Editorial da edição nrº 88 (Agosto 2024)

“Isto está mal”, dizem produtores de vinho, distribuidores, donos de restaurantes e garrafeiras. A culpa é da crise, da perda de poder de compra, da falta de confiança, do receio de gastar em produtos supérfluos. Mas será “A Crise” (com maiúsculas…) a única culpada das dificuldades que o sector do vinho atravessa?

Estou convencido que a crise veio apenas avolumar os efeitos de um vasto conjunto de deficiências crónicas que o sector possui. O sector do vinho em Portugal é pesado, pouco criativo, pouco atento ao mercado e ao consumidor e (ainda) pouco profissional.

Apesar de não existirem estatísticas sobre essa matéria, certamente não irei errar se disser que bem mais de metade dos agentes económicos ligados à produção de vinho não são profissionais. Ou seja, não fazem do vinho a sua actividade principal e não possuem escala para criar e manter uma estrutura profissional. Uma situação confrangedora quando se compara com a realidade espanhola ou francesa, para já não dizer americana ou australiana, onde o vinho é encarado como uma indústria, um negócio, e não como a “concretização de um sonho”.

Na verdade, uma parte considerável dos novos produtores surgidos em Portugal na última década é constituída por profissionais liberais, industriais, comerciantes, que herdaram ou compraram vinhas, que durante algum tempo venderam uvas e que a dada altura quiseram ver o seu nome ou da sua quinta numa garrafa. A sobrinha que tem jeito para o desenho deu uma ajuda no rótulo, o restaurante onde come todos os dias prometeu vender umas caixas, os amigos que dizem que o vinho é uma maravilha vão ficar com algum e, portanto, não haverá dificuldade alguma em vendê-lo, até porque são só 50 mil garrafas. Pois é… O mercado nacional acabou inundado de produtores que têm 50 mil garrafas para vender. Mas o mercado não é infinito e, naturalmente, quando há menos dinheiro disponível, retrai-se. Resultado: está (quase) toda a gente a vender menos do que esperava.

A solução, dirá qualquer profissional, está em procurar novos mercados. Mas quantos destes produtores “amadores” têm disponibilidade para passar meses viajando pelo mundo, fazendo contactos, procurando distribuidores, promovendo o seu vinho? Se nem em Portugal têm tempo ou vontade para abordar pessoalmente ou acompanhar vendedores a garrafeiras e restaurantes, preferindo esperar que o vinho se venda por si! Está difícil vender? Mas porque é que havia de ser fácil? Se até para os que vivem disto dá muito trabalho…

Não há mal nenhum em satisfazer uma paixão, mesmo uma paixão cara como é a produção de vinho. Aliás, alguns dos grandes vinhos do mundo são propriedade de pessoas que ganharam dinheiro noutras áreas e chegaram ao vinho movidos pela simples paixão. Mas que só foram bem-sucedidos porque tiveram dimensão ou meios para criar uma estrutura profissional capaz de levar o negócio avante. Os outros ficaram pelo caminho, fartos de perder dinheiro todos os anos num negócio que tem exigências a que não conseguiam corresponder. Algo que, inevitavelmente, virá a acontecer a muitos produtores portugueses.

É que, no vinho, a paixão e o negócio são coisas diferentes, ainda que complementares. E se é verdade que o negócio do vinho precisa de paixão para se desenvolver, a paixão, só por si, não garante nada. Na maior parte dos casos, aliás, só garante dissabores…

 

Nota: Fiz uma pesquisa nos mais de 400 editoriais mensais que escrevi desde 1989 e a “Crise” foi tema 7 vezes, com vários anos de intervalo. O texto que em cima reproduzo foi publicado em Agosto de 2003, faz precisamente agora 21 anos. É assustador perceber que continua actual e que em mais de duas décadas não aprendemos nada.

Porto com twist

Porto

O Dia Nacional do Cocktail, que é celebrado a 18 de Maio, foi o pretexto para o Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto antecipar a efeméride, abrindo, no dia 10 de maio passado, as portas do Wine Bar do IVDP, dando a conhecer novas formas de consumo do clássico vinho do Porto que, […]

O Dia Nacional do Cocktail, que é celebrado a 18 de Maio, foi o pretexto para o Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto antecipar a efeméride, abrindo, no dia 10 de maio passado, as portas do Wine Bar do IVDP, dando a conhecer novas formas de consumo do clássico vinho do Porto que, face aos novos desafios e necessidade de conquistar novos consumidores, se dessacraliza e reinventa.

E porque não em cocktails frescos e ousados?
Após a aposta vencedora do Porto tónico, é tempo de dar palco aos mixologistas na criação de novas e coloridas propostas que cativem um público mais jovem e urbano. E foi pelas mãos do bartender José Mendes, do bar portuense “Torto”, que nasceram o “Gomo”, numa base de Porto White Dry e Tangerina, e o “Baga”, ousada abordagem de um Porto Tawny 10 anos, com Aguardente Velha, jus de romã, chocolate negro e drop de noz. A conduzir esta ação, esteve Paulo Russel Pinto, que chefia o Serviço de Comercialização e Marketing do IVDP.
Bebida de meditação, que se bebia após a refeição pelos nossos pais e avós, ou como aperitivo, o Vinho do Porto estava desligado, em termos comunicacionais, da mesa propriamente dita. Assim, durante os últimos anos, a estratégia de comunicação do Vinho do Porto direcionou-se para a restauração, propondo-o à refeição, com sobremesas, inicialmente, complementando os outros vinhos servidos à refeição, descobrindo-se uma versatilidade que não era, até então, muito conhecida. Vinho do Porto associado às sobremesas com chocolate, ou aos vários tipos de queijos, de pasta mole, pasta dura, de cabra, vaca ou ovelha, como também à doçaria tradicional portuguesa, nomeadamente a conventual (ovos, caramelizados, amêndoas) é hoje, um lugar mais comum.

 

 

Após a aposta vencedora do Porto tónico, é tempo de dar palco aos mixologistas na criação de novas e coloridas propostas que cativem um público mais jovem e urbano.

 

 

Asas à criatividade
Vencido esse desafio, outros se avizinham, nomeadamente, alcançar novos consumidores, mostrando-lhes propostas inovadoras, em tempos desafiantes onde o seu consumo se ressente. O consumidor que se pretende hoje alcançar será mais jovem, numa faixa etária acima dos 25 anos, e que se afasta de uma outra categoria que comunga de ideias pré-concebidas acerca do vinho do Porto. E é aqui que entra este novo padrão de público que se identifica com o cocktail e com a mixologia. Nesta nova comunhão com novos apreciadores, houve uma necessidade de adaptação comunicacional por parte do IVDP. Há uma linguagem que é necessário dominar para se ser mais eficaz a comunicar novos momentos de consumo e dinâmicas associadas a este novo público. A nova onda de mixologia rompe com o passado. Já não é executada nos bares por um austero bartender, mas por jovens urbanos e descontraídos que dominam um sector em franco crescimento, a consumir bebidas de alto valor acrescentado. E aqui entra o Porto não apenas como ingrediente para dar sabor a um cocktail, mas com os mixologistas e bartenders atuais a dar-lhe relevância de protagonista principal, incutindo-lhe um cunho personalizado e autoral, à semelhança do que fazem hoje os chefs de cozinha. E, claro, a “portugalidade”, tendo no vinho do Porto uma identidade e representação nacional. Nesta nova etapa, procura-se mostrar a enorme versatilidade do Porto, que possui quase 20 categorias, permitindo-se desta abrangência dar asas à criatividade e imaginação.

(Artigo publicado na edição de Junho de 2024)

Adega José de Sousa cria programa de vindimas tipicamente alentejano

Adega José de Sousa

O programa pode ter início na vinha, onde os visitantes têm a oportunidade de cortar os cachos ou, se a vindima estiver numa fase avançada, na adega com a prova de mosto ou com a pisa a pé. Adicionalmente, os participantes podem participar nas atividades a decorrer. Este programa inclui, ainda, uma visita às duas […]

O programa pode ter início na vinha, onde os visitantes têm a oportunidade de cortar os cachos ou, se a vindima estiver numa fase avançada, na adega com a prova de mosto ou com a pisa a pé. Adicionalmente, os participantes podem participar nas atividades a decorrer. Este programa inclui, ainda, uma visita às duas adegas – a Adega Nova e a Adega dos Potes – com uma prova de vinhos e degustação de produtos regionais. E para aqueles que desejam encerrar o dia com uma experiência completa, há a opção de desfrutar de um almoço exclusivo, com os sabores típicos do Alentejo: gaspacho, empadas de galinha, queijos e enchidos, acompanhados de vinhos José de Sousa.

O programa está disponível mediante disponibilidade e marcação prévia. Pode fazer a sua reserva antecipada pelo e-mail josedesousa@jmfonseca.pt ou pelo contacto telefónico através do número 918 269 569.

Programa de vindimas Adega José de Sousa

Datas: 15 de Agosto a 15 de Setembro

OPÇÃO SEM ALMOÇO:

11h00 – Welcome drink

11h15 – Visita guiada à Adega Nova e Adega dos Potes, com participação nas atividades a decorrer*

12h15 – Prova de 3 vinhos e degustação de produtos regionais (enchidos, queijo, pão e azeite)

13h00 – Final do programa

Oferta de t-shirt e chapéu da vindima

Programa disponível de 2 a 16 pessoas

Preço por pessoa: 28 euros (IVA incluído)

Crianças até 10 anos: grátis (sem oferta de t-shirt e chapéu)

Jovens dos 11 aos 17 anos: 13,00 euros

Preço família (2 adultos + 2 jovens): 74,00 euros

 

OPÇÃO COM ALMOÇO:

11h00 – Welcome drink

11h15 – Visita guiada à Adega Nova e Adega dos Potes, com participação nas atividades a decorrer*

12h15 – Almoço de petiscos regionais: gaspacho, empadas de galinha, folhados de carne, queijos, enchidos variados, azeite, pão regional, azeitonas, compota, biscoitos tradicionais e fruta da época, acompanhado por vinhos José de Sousa.

14h30 – final do programa

Oferta de t-shirt e chapéu da vindima

Programa disponível de 2 a 16 pessoas.

Preço por pessoa: 62 euros (IVA incluído)

Preço crianças (4-8anos): 16,00 €

Jovens dos 9 aos 17 anos: 30,00 euros

Preço família (2 adultos + 2 jovens): 166,00 euros

 

* A atividade a desenvolver depende da data e da fase em que a vindima se encontrar.

 

Geórgia: Onde tudo começou

Geórgia

Parece que os primeiros viticultores no nosso planeta eram os povos que habitavam o território da Geórgia há mais de 8000 anos. Durante diferentes escavações arqueológicas foram descobertas as sementes fossilizadas de videira e os fragmentos de vasos de barro com sedimento (sais) de ácido tartárico que remontam à era neolítica. As evidências arqueológicas sugerem […]

Parece que os primeiros viticultores no nosso planeta eram os povos que habitavam o território da Geórgia há mais de 8000 anos. Durante diferentes escavações arqueológicas foram descobertas as sementes fossilizadas de videira e os fragmentos de vasos de barro com sedimento (sais) de ácido tartárico que remontam à era neolítica. As evidências arqueológicas sugerem que as práticas de vinificação naquela região datam de 6000 a.C., ou seja, 3000 anos antes da invenção da escrita e 5000 anos antes do início da Idade do Ferro. As palavras ocidentais como “vinho”, “vino”, “vin” e outras, muito provavelmente provêm da palavra Geórgiana “ghvino”.
Em termos vitivinícolas Geórgia é um paradoxo. Por um lado, alega ser um “berço” de vitivinicultura na face da terra, por outro, é um player muito recente no âmbito mundial vínico. O seu principal mercado até há bem pouco tempo era a Rússia, para onde ainda em 2021 se exportava mais de metade de vinhos georgianos (Comtrade, Geostat). Eram de qualidade medíocre, com bastante açúcar – um tributo ao gosto do consumidor da União Soviética. Os hoje famosos vinhos feitos em qvevri – ânforas de barro – não eram conhecidos naqueles tempos. E mesmo actualmente, o vinho que representa o grande orgulho e identidade da indústria vitivinícola georgiana, corresponde apenas a 10% de produção nacional. É um nicho de inestimável importância, que trouxe uma grande projecção internacional aos vinhos georgianos, para além das descobertas arqueológicas, implementação de denominações de origem, regulamentos e controlo interno, bem conseguidos acordos internacionais, investimentos oportunos, e uma inteligente campanhia de marketing junto dos mercados estratégicos.

A geografia, o clima e as principais regiões
Situada entre Europa, Ásia e Médio Oriente, a Geórgia é ladeada pela Turquia, Arménia e Azerbaijão a sul. A norte, as montanhas do Cáucaso fazem fronteira com a Rússia, oferecendo protecção natural dos ventos frios, enquanto as planícies costeiras a oeste são abertas aos movimentos do ar húmido e quente do Mar Negro. O clima da Geórgia é diversificado, devido à sua topografia complexa. Na parte leste é seco e continental, com verões quentes e invernos amenos; a humidade e a precipitação são baixas, e a nebulosidade e as amplitudes térmicas são grandes. No oeste, o país possui um clima subtropical húmido, com pequena variação de temperaturas e precipitação alta.
A região vitivinícola mais importante da Geórgia, em termos quantitativos, qualitativos e históricos é Kakheti, na parte mais oriental do país, onde são cultivadas aproximadamente 65-70% de vinhas, situadas entre 400 e 700 metros de altitude. Em 2023, das 221 mil toneladas de uva processada em todo o país, 204 mil toneladas foram da região de Kakheti.
Imereti é uma das regiões mais diversificadas da Geórgia, quer pelas condições climáticas, quer pela composição do solo, o que se reflecte na grande variedade dos vinhos. Kartli é mais uma região vinícola notável, conhecida pelo seu estilo mais moderno e pelos espumantes de alta qualidade. Racha-Lechkhumi distingue-se de outras regiões pela sua beleza paisagística e escassez de vinhas (cerca de 1600 ha), devido ao clima mais agreste, associado a maior altitude, e castas raras. Meskheti, no sul do país, é uma das regiões vitivinícolas mais altas no mundo: as vinhas encontram-se a 900-1700 metros acima do nível do mar. Outras quatro regiões situadas ao longo do Mar Negro – Guria, Samegrelo, Abkhazeti e Adjaria – partilham um clima húmido tropical.

Geórgia
O Tradicional Método de Vinificação em Qvevri é considerado Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO.

Castas autóctones
De acordo com o Cadastro de Vinhas da Geórgia, a área de vinha compreende 48.700 hectares. Embora a Geórgia tenha mais de 500 castas indígenas, apenas quatro dezenas são utilizadas com sucesso comercial e só algumas delas são conhecidas fora do país. A maioria dos vinhos exportados trazem nos rótulos nomes Saperavi, Rkatsiteli, Mtsvane, Kisi e pouco mais. Algumas castas internacionais também são cultivadas no país.
Saperavi é casta tinta muito antiga e mais identitária da Geórgia, responsável por 10% de plantações (cerca de 4.000 ha) e disseminada por todas as regiões. É uma casta tintureira, cujo nome significa “tingir”, “manchar”, com todas as características em alta – cor, tanino e acidez. É capaz de produzir boa qualidade mesmo quando o rendimento é alto, sendo usada desde os vinhos de entrada até os exemplos mais expressivos, cheios de carácter e com potencial de guarda.
Rkatsiteli é a casta branca nativa de Kakheti, que predomina nas plantações do país, com 43% (cerca de 20.000 ha). Sendo pouco exigente em termos de local, é amiga do viticultor. Mesmo quando chega ao teor de açúcar elevado, consegue preservar a acidez. Quando vinificada no estilo moderno (internamente chamado de “europeu”), a Rkatsiteli oferece aromas florais subtis com notas cítrinas, marmelo e maçã. Se vinificado em qvevri, o vinho mostra-se mais poderoso, moderadamente tânico, com acidez nítida. No estágio oxidativo desenvolve aromas de mel, casca de laranja seca, especiarias, damasco e outras frutas de caroço.
Mtsvane Kakhuri é outra variedade muito antiga, significa “Kakheti verde” e é comummente referida apenas como “Mtsvane” (não confundir com Goruli Mtsvane). Facilmente acumula açúcar, mantendo elevados níveis de acidez. Daí a sua capacidade de produzir vinhos doces e fortificados. Quando vinificado num estilo convencional, o vinho branco jovem apresenta frequentemente um tom palha esverdeado e transmite aromas frescos de pêssego, florais, cítrinos e tropicais, com leve tom mineral. Fica bastante escuro e apresenta mais carácter de damasco e frutas de caroço quando vinificada em qvevri. Oxida com facilidade e, a menos que seja vinificada em qvevri, requer um manuseamento com protecção do oxigénio. Alternativamente, pode ser loteada com outras castas.
A casta Khikhvi foi salva de extinção. Em 2004 havia apenas um único hectare desta variedade registado em todo o país. As plantações aumentaram consideravelmente desde meados da década de 2010 e a casta está a ganhar popularidade entre os produtores e os consumidores. A sua assinatura aromática é distinta: notas florais de buxo e flores silvestres, frutos amarelos maduros e damasco. Os vinhos são produzidos de acordo com técnicas europeias e em qvevri. Nestes últimos acentua-se o carácter de frutos secos e flores. Com níveis moderados de álcool e acidez suave, Khikhvi pode ser interessante também em lotes.

 

A Vaziani

A Vaziani, localizada em Kakheti, foi fundada em 1982. O ponto de viragem foi em 2012, com investimento em modernização da adega e aquisição das vinhas próprias. A gama de vinhos feitos em qvevri sai sob o nome Makashvili Wine Cellar, relacionada com a propriedade Makashvili datada do século XV. Os vinhos são importados e destribuidos em Portugal pela Atlantikdynamic, que já há muitos anos distribui vinhos da Moldova no nosso país. 

 

Geórgia
Geórgia tem mais de 500 castas indígenas.

O famoso Qvevri
Qvevri é o nome mais popularmente conhecido. Mas existem muitos outros nomes dados aos recipientes de barro para armazenamento de vinho, em função dos tamanhos e formas diferentes: churi, dergi, lagvini, lagvani, lagvinari, kvibari, kubari, lakhuti, chasavali, khalani e kotso.
A forma de qvevri Georgiano que existe hoje remonta ao III milénio a.C. Antes deste período, eram comuns principalmente os pequenos qvevris, de 1-1,5 m de altura, que tinham uma base plana e uma barriga larga. Qvevri em forma de ovo é actualmente o mais comum.
A capacidade varia de algumas centenas de quilos de uva a várias toneladas, sendo a capacidade mais comum de uma a duas toneladas. A região Kakheti distingue-se pelos grandes qvevris, com seis a oito mil litros.
O qvevri fica enterrado no solo, o que garante uma temperatura ideal e estável para o envelhecimento e armazenamento do vinho. No século III a.C., os produtores começaram a enterrá-los na terra, primeiro até aos ombros, e por volta do século quarto d.C., até ao pescoço.
A qualidade do vinho feito em qvevri é altamente influenciada pela qualidade da sua limpeza, que deve ser feita todos os anos. O recipiente é lavado com limpadores de ervas e água e depois desinfectado com enxofre. A superfície interna às vezes é forrada com cera de abelha e a superfície externa é tradicionalmente coberta com cal. Em 2013, a UNESCO introduziu o Tradicional Método de Vinificação em Qvevri na lista de Património Cultural Imaterial da Humanidade.
O vinho feito em qvevri envolve geralmente a vinificação e o estágio com certa quantidade de películas e engaço, chamado “chacha” (o mesmo nome também é dado a uma aguardente bagaceira, tradicional na Geórgia). A quantidade de bagaço e o tempo de estágio têm uma variação regional. Por exemplo, na região de Kakheti usa-se chacha na totalidade, enquanto na região de Imereti corresponde no máximo a um terço de mosto em qvevri. A casta, a duração da fermentação alcoólica, as condições ambientais, etc., são factores que determinam o período que o mosto permanece com chacha. A duração do vinho tinto em qvevri pode ser igual ao período de fermentação alcoólica, ou de sete a 10 dias, ou ser prolongada até duas semanas depois da fermentação. No caso das uvas brancas, o vinho é guardado com a chacha até a primavera.
Os vinhos georgianos feitos em qvevri precisam de conversa. Talvez não seja por acaso que existem os famosos longos brindes georgianos que permitem aos vinhos, sobretudo brancos, abrir no copo. A temperatura de consumo destes vinhos ronda os 14 e os 18˚C, também para desfrutá-los na sua plenitude.

 

(Artigo publicado na edição de Junho de 2024)

 

 

Mirabilis: O tempo de construção de um ícone

Mirabilis

A escolha do “Encanto”, um dos mais recentes espaços de experienciação gustativa de José Avillez, no Chiado, para o lançamento da mais recente colheita do Mirabilis branco não foi casuística. Aqui, onde dominam a sazonalidade dos vegetais, as cores, texturas e emoções, quis criar-se uma ligação entre o vinho e a terra, vivenciando a sua […]

A escolha do “Encanto”, um dos mais recentes espaços de experienciação gustativa de José Avillez, no Chiado, para o lançamento da mais recente colheita do Mirabilis branco não foi casuística. Aqui, onde dominam a sazonalidade dos vegetais, as cores, texturas e emoções, quis criar-se uma ligação entre o vinho e a terra, vivenciando a sua origem num copo que nos transmite as sensações de calcorrear as pequenas parcelas de vinhas durienses, de pisar cada parcela onde a dureza e condições extremas testam as capacidades e a força daqueles que, no dia a dia, as cuidam e acarinham. O carisma Mirabilis branco, nascido há 11 vindimas atrás, é composto de várias premissas, sendo a principal gizada por Luísa Amorim, traduzida na vontade de, numa região sem tradição de brancos, criar um vinho que transcendesse a Quinta Nova e se afirmasse como um símbolo do Douro, região de inúmeras aptidões, entre elas vinhos brancos de eleição.

O caminho, aqui, sempre se fez de procura e estudo. A busca da uva que pudesse dar maior garantia de exclusividade foi, desde início, feita em pequenos lavradores e pequenas parcelas de vinhas velhas. A observação da evolução do clima, na última década, leva-os para outras altitudes, privilegiando as vinhas localizadas entre os 650 e 750 metros do planalto de Alijó. Não há alternativa quando o ano de 2022 foi o mais quente das últimas três décadas. Daí que o recurso a vinhas velhas se revista de uma escolha acertada. Mais resilientes, com maior resistência às elevadas temperaturas, as suas raízes rasgam as profundezas dos solos de transição dos xistos para o granito e encontram a água e os nutrientes necessários para providenciar uma maturação lenta e equilibrada da uva. O papel da viticultura é cada vez mais fundamental para a definição de vinhos que se desejam ser a mais límpida e cristalina expressão do seu ano, das vinhas velhas, algumas centenárias, e, naturalmente da mão que embala o berço e acolhe a sua maturação. E é na decisão do ponto perfeito da sua vindima que se define cada colheita. À enologia cabe, atualmente, um papel interpretativo das virtudes da uva, cabendo-lhe uma função menos interventiva e mais contemplativa, permitindo, ao tempo, esculpir o virtuosismo do néctar, fiel intérprete dos vinhos de montanha, de caráter único e inimitável.

 

O papel da viticultura é cada vez mais fundamental para a definição de vinhos que se desejam ser a mais límpida e cristalina expressão do seu ano.

 

Um vinho irrepetível
Na senda do que são as novas tendências mundiais, a Quinta Nova busca agora a elaboração de vinhos de maior expressividade natural e menor influência de elementos externos, mostrando, já nesta colheita Mirabilis, um pouco do que o futuro reserva. E, a verdade, é que a edição de 2022 pode ser a melhor de sempre, marcando também um fim de um ciclo, uma vez que foi a última vinificação na adega antiga que, este ano, deu lugar a um novo e remodelado espaço interior, onde dominará uma nova filosofia na arte de fazer vinho, em que a madeira se torna, a partir de agora, um elemento menos fundamental no processo de estágio dos vinhos.
“Entrar no mundo Mirabilis é transcender a territorialidade, é criar com energia e convicção um vinho irrepetível, que se perpetua no tempo. Uma promessa de descoberta”, defende Luísa Amorim, ceo da Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo. “O tempo de espera em garrafa mostrou-se benfeitor, ao conceder ao vinho uma camada extra de complexidade e elegância, com destaque para a frescura, estrutura e acidez”, salienta.

(Artigo publicado na edição de Junho de 2024)

Viúva Gomes, restaurando Colares

Viúva Gomes, a clássica marca de Colares fundada em 1808 e adquirida em 1988 pela família Baeta, continua a renovar-se com os olhos colocados na tradição. Ou, como dizem, José e Diogo Baeta, pai e filho, “a fazer o futuro com o passado”. Desta vez, esse revisitar da história passou pela plantação de uma nova […]

Viúva Gomes, a clássica marca de Colares fundada em 1808 e adquirida em 1988 pela família Baeta, continua a renovar-se com os olhos colocados na tradição. Ou, como dizem, José e Diogo Baeta, pai e filho, “a fazer o futuro com o passado”. Desta vez, esse revisitar da história passou pela plantação de uma nova vinha, em pé-franco, como não poderia deixar de ser.

A chamada Vinha Grande, já contribuiu outrora para a produção de Colares, tendo sido arrancada há cerca de meio século e substituída por pinhal. Localizada em Fontanelas, a 350 metros das arribas atlânticas, consiste em 1 hectare de solo arenoso, agora preparado e plantado com Ramisco e Malvasia de Colares sem recurso a porta-enxerto. Para iniciar o processo foi necessário realizar sondas em vários pontos do terreno, com o intuito de avaliar a espessura da camada de areia assente sobre a rocha-mãe argilo-calcária. Esta profundidade raramente é linear, pelas movimentações dunares ao longo dos anos. Assim, com alturas de areia compreendidas entre 1,5m e 2,5m, a plantação foi realizada com recurso a uma retroescavadora que permitiu abrir trincheiras até ao chamado “solo rijo”. Aqui foram “unhadas” as videiras de seleção massal das longas varas de poda do ano anterior. E assim se mantém viva a história de Colares.

Inscrições abertas para o Concurso de Fotografia Vinhos do Tejo

concurso

Os amantes de fotografia – que não sejam fotógrafos profissionais – e do mundo do vinho podem começar a preparar as suas máquinas, porque está de volta mais uma edição do Concurso de Fotografia Vinhos do Tejo. Promovido pela Comissão Vitivinícola Regional do Tejo (CVR Tejo), em parceria com a Confraria Enófila Nossa Senhora do […]

Os amantes de fotografia – que não sejam fotógrafos profissionais – e do mundo do vinho podem começar a preparar as suas máquinas, porque está de volta mais uma edição do Concurso de Fotografia Vinhos do Tejo. Promovido pela Comissão Vitivinícola Regional do Tejo (CVR Tejo), em parceria com a Confraria Enófila Nossa Senhora do Tejo e a Rota dos Vinhos do Tejo, tem como objectivo captar a atenção para a região, em especial para a paisagem vitivinícola, de forma sensorial através do olhar fotográfico.

“Da vinha ao vinho” dá mote ao tema da 3.ª edição do Concurso de Fotografia Vinhos do Tejo. São assim esperadas fotos relacionadas com região dos Vinhos do Tejo, que versem vinhas, trabalhos na vinha e na adega, ambiente de vindima e enoturismo. A inscrição pode ser feita até ao fim do mês de Agosto, mas as fotos podem chegar à organização até dia 31 de Outubro, permitindo assim captarem a altura mais dinâmica e animada para quem trabalha no sector do vinho – as vindimas – que, no Tejo, podem começar já no final de Julho e prolongar-se até Outubro, no caso de vinhos para colheita tardia.

As inscrições são gratuitas. Para o efeito, os participantes devem aceder ao site da Confraria, em www.confrariadotejo.pt, consultar o regulamento do concurso e preencher a ficha de Inscrição, que deve ser enviada para o endereço eletrónico confraria.enofila.tejo@gmail.com. É também para este e-mail que, até dia 31 de Outubro, devem seguir as fotografias a concurso – que têm de ser originais e inéditas e num máximo de seis por cada concorrente (a cores ou a preto e branco).

concurso

O júri do Concurso é composto por três fotógrafos profissionais, que vão avaliar as três melhores fotografias de cada participante. São atribuídos prémios ao 1.º, 2.º e 3.º lugar. Do 4.º ao 10.º são entregues diplomas de menção honrosa. Para usufruir por duas pessoas, o primeiro prémio é uma “Experiência na Região dos Vinhos do Tejo”, que inclui um passeio de barco no rio Tejo, com a Ollem Turismo (em Valada do Ribatejo), um jantar no restaurante Copo 3 (no Cartaxo) e uma noite, com pequeno-almoço, no D’Vine Country House (em Vale da Pedra); o segundo, uma “Experiência no Produtor” Vinhos Franco, com participação nas vindimas (Casais Penedos, Pontével); e o terceiro, uma “Experiência na Garrafeira”, que inclui prova de vinhos na Arinto & Touriga by Renata Abreu (em Santarém).

Os resultados serão conhecidos em 2025, sendo os prémios e os diplomas entregues na Gala Anual Vinhos do Tejo. Posteriormente são divulgados na newsletter e site da Confraria, dos Vinhos do Tejo e da Rota, assim como nas redes sociais dos parceiros e junto da comunicação social.

Abegoaria Wines: O regresso do Terras do Suão

Abegoaria

Fundada em 1952, a Cooperativa da Granja tem mais de 70 anos a produzir azeite e vinhos, numa zona tradicionalmente seca e muito quente do Alentejo, na margem esquerda do Guadiana, agora amenizada pela influência da albufeira da barragem do Alqueva. Hoje faz parte do Grupo Abegoaria, que relançou este ano a sua marca mais […]

Fundada em 1952, a Cooperativa da Granja tem mais de 70 anos a produzir azeite e vinhos, numa zona tradicionalmente seca e muito quente do Alentejo, na margem esquerda do Guadiana, agora amenizada pela influência da albufeira da barragem do Alqueva. Hoje faz parte do Grupo Abegoaria, que relançou este ano a sua marca mais conhecida, Terras do Suão, com duas referências de vinho branco e duas de tinto.
O evento decorreu na Casa do Alentejo, em Lisboa, associação alojada num dos edifícios mais atractivos e distintos da capital. Trata-se de um palácio dos finais do século XVII, cujo interior foi parcialmente remodelado, no princípio do século XX, para a arquitectura que tem hoje, a do primeiro casino da capital, o Magestic Club, e o seu esplendor ainda perdura nos nossos dias.

Um vinho da margem esquerda
Não podia haver local mais apropriado para o relançamento de uma marca de vinho alentejano da Cooperativa da Granja reconhecida no mercado. De tal forma, que, nas últimas décadas do século passado, podia ser encontrada um pouco por todo o lado. “Terras do Suão foi a primeira marca da margem esquerda do Guadiana”, salientou o presidente do Grupo Abegoaria, Manuel Bio, durante a cerimónia de apresentação dos novos vinhos da Cooperativa da Granja. “O seu relançamento tem, como objectivo, que a marca volte a ser uma das referências do Alentejo”, destacou, num evento onde esteve também presente António Saramago, o enólogo mais antigo em actividade em Portugal, que foi o primeiro responsável pela produção destes vinhos. “Na altura em que foram lançados, os Terras do Suão estavam presentes em quase todos os melhores restaurantes de Lisboa”, recordou este último.

Abegoaria

Ex-libris da casa
Os vinhos actuais são feitos sob a responsabilidade do enólogo António Braga, que salientou que as referências tintas apresentadas, incluem as castas tradicionais do Alentejo, em particular a Moreto, um ex-libris da casa que atinge, nesta zona do Alentejo, a sua expressividade máxima. Esta é uma casta de ciclo longo e maturação tardia, ideal para esta sub-região alentejana particularmente cálida no verão, onde as vinhas mais tradicionais se adaptaram. O contributo dos agricultores tem sido, também, essencial para isso, já que as conduzem em formatos mais baixos, que ajudam, as plantas, a resistir melhor a um estio atenuado, hoje, pelo efeito sobre o clima do maior lago artificial da Europa, o Alqueva. Para garantir a frescura e a expressividade aromática dos brancos, as uvas das castas destinadas a produzir o Vento do Suão e o Terras do Suão Reserva a brancos são vindimadas em junho, com o primeiro a passar apenas por inox e o segundo também por madeira.

(Artigo publicado na edição de Junho de 2024)