VINEADOURO: Vinhas antigas, a herança da terra

O local escolhido para o lançamento não é comum entre os produtores de vinho, mas fazia todo o sentido no contexto da Vineadouro. A apresentação teve lugar numa sala do Laboratory for Sustainable Land Use and Ecosystem Services (TERRA), do Instituto Superior de Agronomia, em Lisboa. Trata-se de um laboratório associado dedicado à produção de conhecimento científico e evidência socioecológica aplicada à gestão […]
O local escolhido para o lançamento não é comum entre os produtores de vinho, mas fazia todo o sentido no contexto da Vineadouro. A apresentação teve lugar numa sala do Laboratory for Sustainable Land Use and Ecosystem Services (TERRA), do Instituto Superior de Agronomia, em Lisboa. Trata-se de um laboratório associado dedicado à produção de conhecimento científico e evidência socioecológica aplicada à gestão sustentável do território.
A Quinta da Vineadouro localiza-se em Numão, uma pequena povoação com cerca de 200 habitantes, no concelho de Vila Nova de Foz Côa. A paisagem envolvente é marcada por vinhas e olivais, áreas de mato e pelo Castelo de Numão, implantado no topo de uma longa crista xistosa que, durante séculos, funcionou como ponto de controlo visual do território. Vista à distância, essa crista ondulante, rodeada por uma muralha, faz lembrar a silhueta de um dragão adormecido.
A presença da família Moutinho de Gouveia em Numão remonta ao século XVIII, estando documentada a produção de vinho na quinta desde o final do século XIX, com a conclusão da adega datada em 1890. O edifício funcionava como solar, com a família a residir no piso superior e a adega instalada no piso térreo, sendo as uvas da propriedade destinadas à produção de Vinho do Porto. Actualmente, é a sétima geração da família que explora os 140 hectares da propriedade e que, a partir de 2014, assumiu a recuperação do património edificado e das vinhas. A escala vitícola mantém-se reduzida: pouco mais de quatro hectares, distribuídos por quatro parcelas, onde a vinha mais jovem tem cerca de 50 anos e a mais velha é centenária.
Em 2019, nasceu a marca Vineadouro. O nome deriva da junção de duas palavras em latim: vinea, que significa “vinha”, e douro, que remete a algo precioso. Em 2020, foram lançados os primeiros vinhos: um tinto de 2017 e um branco de 2019. A enologia está a cargo de Manuel Malfeito Ferreira e Virgílio Loureiro, nomes com longa ligação ao ensino e à investigação vitivinícola e microbiológica, o que explica a abordagem técnica rigorosa. A consciência de sustentabilidade leva a aplicarem práticas ambientais sempre que possível, incluindo a implementação da gestão cuidadosa de água, energia e resíduos, promovendo a biodiversidade. Em setembro de 2024, abriram um pequeno hotel vínico, as Casas da Vinha, o primeiro EchoTech Resort sustentável dedicado ao enoturismo.
A família é representada pelo casal Teresa e Carlos Correia de Lacerda e as três filhas-gémeas. Apesar de todos terem outras profissões, estão profundamente envolvidos no projecto. Por este motivo, o lançamento do Vineadouro Grande Reserva é um acontecimento de grande importância para a família, reforçando a herança em prol da continuidade.
O vinho nasceu na parcela chamada Vinha da Coitadinha, plantada em socalcos tradicionais, a cerca de 450 metros de altitude. Trata-se de uma vinha centenária, constituída por castas misturadas, com presença de Rufete, Touriga Franca, Casculho, Tinta Amarela, Bastardo e Tinta Roriz, num conjunto mais vasto de variedades, difícil de quantificar com precisão. A fermentação decorreu em lagares de granito com leveduras indígenas; seguiu-se maceração prolongada e estágio de 18 meses em barricas novas de carvalho francês de tosta média. Foram produzidas cerca de 3.000 garrafas. Ao mesmo tempo foi apresentada a nova colheita do branco Vineadouro Vinhas Antigas, da mesma vinha, o qual inclui Síria, Folgazão, Gouveio, Trincadeira Branca, Malvasia Fina, Malvasia Rei, Rabigato e Carrega Branco. Vinificado só em inox para realçar a delicadeza das vinhas velhas.
(Artigo publicado na edição de Março de 2026)
A Organização do ano é…. Vignerons de Portugal

O nome vigneron identifica um produtor que apenas produz vinhos com as suas próprias uvas. Este termo, ainda que francês, vulgarizou-se por cá, uma vez que a palavra portuguesa correspondente é complicada e ainda diz pouco aos consumidores: vitivinicultor-engarrafador. Será esta a designação que engloba todo o produtor que não compra a terceiros, apenas laborando […]
O nome vigneron identifica um produtor que apenas produz vinhos com as suas próprias uvas. Este termo, ainda que francês, vulgarizou-se por cá, uma vez que a palavra portuguesa correspondente é complicada e ainda diz pouco aos consumidores: vitivinicultor-engarrafador. Será esta a designação que engloba todo o produtor que não compra a terceiros, apenas laborando as próprias uvas que transforma em vinho. Na linguagem dos apreciadores de vinho está bem estabelecida a noção de produtor-engarrafador, mas essa designação não obrigava ao uso exclusivo das próprias uvas, algo que acontece agora com os Vignerons de Portugal.
Até aqui não existia uma associação com estas características e esta acabou por surgir por iniciativa de Mário Sérgio, rosto da Quinta das Bágeiras que reuniu, em 2024, na sua adega, na Bairrada, a propósito dos 35 anos da empresa, um primeiro grupo e que, em finais de 2025, se apresentou ao público, em Lisboa. São dez produtores de seis regiões diferentes e todos assumem o compromisso de serem responsáveis por todos os processos de elaboração dos seus vinhos, da uva à garrafa. É essa a razão de ser do lema do grupo: “As nossas uvas, os nossos vinhos”.
Falamos de produtores que têm as suas propriedades em várias regiões, desde os Vinhos Verdes até ao Alentejo. O conceito é exigente, porque obriga a que cada um apenas utilize o que as suas uvas produzem. Mas se por um lado não é uma garantia absoluta da qualidade, por outro podemos ficar com a certeza que é a expressão das uvas e do trabalho, na vinha e na adega, deste ou aquele produtor. O vigneron sofre quando tem falta de uvas e tem de resolver o problema quando as tem em excesso, mas esse é o desígnio a que está obrigado. O hábito do consumidor adquirir vinhos na propriedade está a crescer, por conta do enoturismo e isso ajuda à melhor compreensão do conceito de vigneron: é aquele produtor, são aquelas vinhas e aquele vinho. É uma ligação a desenvolver e é isso que este grupo se propõe a fazer através de eventos anuais abertos ao público, uma vez em cada quinta. J.P.M.
O Prémio Organização do ano é patrocinado por: DIAM / Oenotech
(Artigo publicado na edição de Março de 2026)
Fladgate Family Wines declara 2024 um ano Vintage

No alinhamento da tradição da Fladgate Family Wines, hoje, Dia de São Jorge, a divisão de vinhos do grupo The Fladgate Partnership anuncia o lançamento de Vintage 2024 da Taylor’s (com duas edições, uma das quais o Taylor’s Sentinels Vintage Port), Croft e Fonseca. Trata-se da primeira declaração conjunta das três centenárias casas desde 2017. […]
No alinhamento da tradição da Fladgate Family Wines, hoje, Dia de São Jorge, a divisão de vinhos do grupo The Fladgate Partnership anuncia o lançamento de Vintage 2024 da Taylor’s (com duas edições, uma das quais o Taylor’s Sentinels Vintage Port), Croft e Fonseca. Trata-se da primeira declaração conjunta das três centenárias casas desde 2017. De acordo com o comunicado, este acto representa “um momento histórico, não apenas pela convergência entre Taylor’s, Croft e Fonseca, mas sobretudo porque representa a mais limitada declaração de sempre destas casas”.
Adrian Bridge, Director-Geral da Fladgate Family Wines, sublinha a “qualidade excecional” e a “incrível profundidade e complexidade” do quarteto de vinhos do Porto Vintage, cujos números representam menos quantidade. Mas a “qualidade compensa a matemática”, assegura, em comunicado, David Guimaraens, director de enologia da Fladgate Family Wines, até porque “declarar um ano clássico é uma enorme responsabilidade”.
Como é do conhecimento dos entendidos nesta matéria, cada casa se afirma através de uma expressão muito própria do seu terroir duriense. Em comunicado, no Taylor’s Vintage 2024, lote produzido a partir das uvas das vinhas da Quinta de Vargellas, da Quinta da Terra Feita e da Quinta de Junco, “os taninos firmes e musculados são equilibrados, com sabores de fruta vivos e delicadas notas herbais, resultando num vinho vibrante e complexo, com a elegância e a precisão típicas”. Já o Taylor’s Sentinels Vintage Port 2024, elaborado a partir das uvas das propriedades históricas no Douro, revela um “perfil mais direto e generoso”. O Croft Vintage 2024, cujas base é feita com uvas da Quinta da Roêda, denota “equilíbrio entre opulência e contenção”, enquanto o Fonseca Vintage 2024, lote de uvas vindimadas na Quinta do Panascal, “revela a sua habitual profundidade, intensidade e generosidade de fruta, conjugada com uma mineralidade muito apelativa e um final fresco”.
Os Vintage 2024 da Taylor’s, Croft e Fonseca vão para o mercado em setembro de 2026, com distribuição exclusiva da Heritage Wines.
O Prémio de Viticultura do ano é….Lusovini

O projeto desenvolvido pela Lusovini em torno do estudo e recuperação de castas autóctones do Dão é um bom exemplo da ligação profunda entre viticultura, conhecimento adquirido e visão estratégica. Esta iniciativa nasce de uma inquietação antiga de Casimiro Gomes, fundador da Lusovini, e da constatação de que muitas castas históricas da região existiam apenas […]
O projeto desenvolvido pela Lusovini em torno do estudo e recuperação de castas autóctones do Dão é um bom exemplo da ligação profunda entre viticultura, conhecimento adquirido e visão estratégica. Esta iniciativa nasce de uma inquietação antiga de Casimiro Gomes, fundador da Lusovini, e da constatação de que muitas castas históricas da região existiam apenas na memória dos viticultores, sem caracterização agronómica consistente nem expressão enológica que permitisse avaliar o seu real potencial. Desde os anos 1980, quando fundou a empresa no Dão, ouviu falar repetidamente dessas variedades quase desaparecidas. Em vez de esperar por estudos oficiais, decidiu avançar e criar as condições para as conhecer no terreno.
A oportunidade surgiu em 2015, com a aquisição da Vinha da Fidalga, em Carregal do Sal, uma propriedade com origem no século XVIII. Instalou-se ali uma vinha experimental de cerca de 3,5 hectares dedicada a castas minoritárias e em risco de extinção, tendo envolvido, inicialmente, 22 castas, com aproximadamente mil plantas de cada uma. Ao longo dos anos, o acompanhamento rigoroso em vinha permitiu observar o ciclo vegetativo, a resistência a doenças, a adaptação ao solo e ao clima e definir práticas de condução adequadas, num contexto em que praticamente não existia informação técnica disponível.
Deste trabalho resultaram 12 castas mantidas em estudo, entre as quais Barcelo, Uva Cão, Douradinha, Luzidio, Malvasia Preta, Monvedro, entre outras pouco conhecidas. Entre 2020 e 2023 realizaram-se microvinificações, com uma abordagem enológica deliberadamente neutra, pensada para revelar as uvas no seu estado mais direto. O objetivo foi gerar conhecimento: compreender perfis sensoriais, níveis de acidez, equilíbrio e potencial de evolução. Nos últimos dois anos foram apresentados alguns dos vinhos, já na vertente comercial, mas em edições muito limitadas.
Este investimento excede a dimensão patrimonial. Ao criar conhecimento vitícola consistente, a Lusovini contribui para o seu próprio futuro e para o futuro da região, assegurando que estas castas deixam de ser apenas memória, para voltarem a ter um papel ativo na viticultura de amanhã. V.Z.
O Prémio Viticultura do ano é patrocinado por: Vieirinox
(Artigo publicado na edição de Março de 2026)
Costa Boal reforça estratégia de sustentabilidade na viticultura

No âmbito do Dia da Terra, celebrado hoje, dia 22 de Abril, a Costa Boal Family Estates enfatiza o compromisso com uma viticultura sustentável traduzida em práticas agrícolas consistentes e conscientes no que ao meio ambiente diz respeito. “Na Costa Boal, acreditamos que o futuro da viticultura passa por uma relação mais inteligente com os […]
No âmbito do Dia da Terra, celebrado hoje, dia 22 de Abril, a Costa Boal Family Estates enfatiza o compromisso com uma viticultura sustentável traduzida em práticas agrícolas consistentes e conscientes no que ao meio ambiente diz respeito. “Na Costa Boal, acreditamos que o futuro da viticultura passa por uma relação mais inteligente com os recursos disponíveis. Valorizar o que já existe na vinha é uma forma concreta de reduzir impacto, aumentar eficiência e reforçar a autenticidade dos nossos vinhos”, declara, em comunicado, António Boal, produtor e CEO da empresa.
Uma das acções em destaque consiste no desenvolvimento de estimulantes e fungicidas biológicos naturais feitos a partir de folhas, lenha recolhida na época da poda e mostos. Estas matérias-primas são ricas em compostos fenólicos, que ajudam a reforçar o equilíbrio das funções orgânicas da vinha, por forma a aumentar a sua capacidade de resposta face às condições climáticas adversas. Paralelamente, contribuem para a diminuição de produtos químicos em prol de um solo mais são.
Eis a estratégia desenvolvida em articulação com o Instituto Politécnico de Bragança, que tem a investigadora Sandrina Heleno como responsável pela coordenação científica dos ensaios: “A valorização de subprodutos vitícolas constitui uma abordagem alinhada com os princípios da economia circular, permitindo a reintegração de biomassa residual em novos ciclos de valor. Esta colaboração evidencia a importância da transferência de conhecimento científico para a indústria, promovendo soluções sustentáveis, tecnicamente validadas e ajustadas às necessidades reais do sector.”
No Dão, às 17h00?

Até Outubro, as tardes de Sábado estão reservadas para uma nova iniciativa conjunta em torno do enoturismo. Chama-se “No Dão às 5h” e tem como objective invadir, de forma ordeira e munida de curiosidade, quintas desta região vitivinícola localizada no Centro do país, para explorar os bastidores e ouvir as histórias de quem faz vinho […]
Até Outubro, as tardes de Sábado estão reservadas para uma nova iniciativa conjunta em torno do enoturismo. Chama-se “No Dão às 5h” e tem como objective invadir, de forma ordeira e munida de curiosidade, quintas desta região vitivinícola localizada no Centro do país, para explorar os bastidores e ouvir as histórias de quem faz vinho neste território, onde a cultura e a paisagem acompanham o tempo, lado a lado.
De portas abertas para esta acção estão os seguinte produtores: Adega de Vila Nova de Tazem (comercial@adegatazem.pt / WhatsApp: 914 588 590), Quinta da Giesta – Boas Quintas (wines@boasquintas.com / WhatsApp: 935 739 898), Paço dos Cunhas (enoturismo.santar@1990.pt / WhatsApp: 915 351 558), Pedra Cancela (pedracancela@gmail.com / WhatsApp: 961 307 232), Soito Wines (winetourism@soitowines.com / WhatsApp: 963 034 140 ou 928 368 234), Taboadella (taboadellawinetourism@amorimfamilyestates.com / WhatsApp: 967 116 877) e Quinta do Gato (geral@quintadogato.pt / WhatsApp: 914 871 646). As visitas são gratuitas, com reserva prévia junto de cada propriedade, começam às 17h00 e têm duração entre 30 a 45 minutos.
Este movimento colectivo foi impulsionado pela Taboadella e assume-se como “uma plataforma aberta e agregadora, pensada para crescer ao longo do tempo e envolver um número crescente de agentes da região”, esclarece Luisa Amorim, CEO da Taboadella. Envolvidas estão ainda entidades institucionais, como a Comissão Vitivinícola Regional do Dão.

ESPECIARIAS: Caril, açafrão e outras orientalidades

Por muitas voltas que demos ao assunto, haverá sempre quem tenha dúvidas acerca do caril, e de praticamente todas as outras especiarias, e o tempo que passou provocou uma total miscigenação. Troca as voltas a todos os aparentes donos da verdade e torna humildes os mais poderosos. Certo é que desde 1498, quando chegámos à […]
Por muitas voltas que demos ao assunto, haverá sempre quem tenha dúvidas acerca do caril, e de praticamente todas as outras especiarias, e o tempo que passou provocou uma total miscigenação. Troca as voltas a todos os aparentes donos da verdade e torna humildes os mais poderosos. Certo é que desde 1498, quando chegámos à Índia, assentámos praça. Por efeito do Tratado de Tordesilhas, o Brasil passou para o lado português, e a intensidade das relações com a gigante península indiana fortaleceu-se enormemente. Na segunda década do séc. XVI, os portugueses dominavam inteiramente a origem de todas as especiarias, sobrepondo-se à rota até então estabelecida. Dispenso-me do rigor estritamente histórico, para dar um salto gigante até Goa, pelo reduto culinário e gastronómico que representa toda a Índia. Jamais se deixou “invadir” pela restante Índia. Levámos o funcho da Madeira, que encontrou acolhimento junto do anis indiano. Também da América do Sul, via Brasil, fizemos chegar tomate, ananás e batatas, entre outros produtos. E Portugal conseguiu o feito notável de interferir na enorme tradição indiana de cozinhar. O pão e as açordas criaram raízes fortes nessa praça distante. E as massalas – leia-se misturas de especiarias em pó – começaram a viajar com força e aceitação total entre o cantinho luso e o magnífico mundo novo e rico que Goa representava. A malagueta só entrou nos nossos costumes no século XIX. Era “coisa do diabo”. Mesmo assim, influenciou fortemente as bases da cozinha alentejana, tal como a conhecemos e praticamos hoje.
O fabuloso mundo das especiarias
Historicamente, é da Índia que vem a mais abundante e rica utilização de ervas aromáticas e especiarias que conhecemos. No domínio das ervas, sobressaem duas: a folha de coentros, que nós, felizardos ocidentais, conhecemos simplesmente como coentros; e a hortelã pimenta. O grosso da coluna provém da prodigiosa oferta de especiarias que a Índia encerra. As especiarias são, ao fim e ao cabo, uma diversidade grande de elementos secos. Sementes, bagos, vagens, cápsulas, cascas, folhas, botões, pétalas, estigmas ou estames, configuram especiarias que podem valer mais do que ouro. Olhemos para os casos mais comuns, exercício que raramente fazemos.
Folha de louro. Nasce de um arbusto e dá-se bem em toda a parte. Funciona em diversas aplicações, mormente em conjunto com azeite e alho, no caso do inefável bife à portuguesa.
Cardamomo. É uma semente que é indissociável do sabor indiano autêntico. Dá-se bem no sul da Índia, em Ceilão, Tailândia e Guatemala, e confere um sabor forte e ligeiramente balsâmico a todas as aplicações. Produz um óleo viscoso de sabor intenso, um cineol flexível em termos de aplicação. Esta semente tem uma de duas configurações possíveis: cardamomo negro, componente nuclear da massala garam, e cardamomo verde, também conhecida como a rainha das especiarias. Esta última é uma das mais caras e aromáticas especiarias do mundo. É muito utilizado em doçaria.
Cássia e canela. A cássia e a canela são, por assim dizer, as cascas das respetivas árvores. Infelizmente, o consumidor é frequentemente levando a consumir uma e outra indistintamente, mas não pode haver maior logro. A cássia provém da China, enquanto a canela é originária do Ceilão. Claro que há muitas semelhanças e, claro, que uma e outra especiarias podem vir de outras partes do globo. No entanto, atentando à forma mais pura e valiosa, o sistema é este. Ilhas Seycheles, Brasil e Indonésia produzem excelente canela, mas o ideal é mesmo conseguir chegar ao nível máximo.
Malagueta. Da família capsicum, provém originalmente da América do Sul e viajou para toda a parte, ganhando forma e função entre os diferentes povos. Oscila entre veneração e condenação, e é estruturante na cozinha indiana. Na Tailândia também é muito importante. Utilizado como intensificador de sabor, é mais saudável do que o sal. E entre outras virtudes, permite uma certa profilaxia geral em relação a algumas doenças. Nos piripiris que faço, jamais retiro as sementes; elas fazem parte.
Cravinho. Provém de uma árvore, toda ela muito aromática. Consumimos o cravinho seco e o nome que lhe damos decorre da configuração de prego. É fundamental utilizar com moderação nos cozinhados, pois tende a dominar todo o sabor. Um dente de cravinho é suficiente para um tacho médio de ensopado de borrego, por exemplo.
Sementes de coentros. É a especiaria mais abundante da Índia, da qual o país exporta mais de 80 mil toneladas por ano. Secas e passadas pelo almofariz, exala impressões cítricas impressionantes. É, por isso, um excecional intensificador de sabor. Utilizo juntamente com um pouco de cardamomo, para produzir um substituto doméstico do sal. Passadas pelo forno quente, ganham uma dimensão exótica muito saborosa.
Cominhos. Utilizamo-los na produção de vários enchidos tradicionais, em particular de morcelas e chouriços de sangue. São especiarias muito antigas. Há mais de 4.500 anos que a Síria e o Egito a produzem com abundância e proveito. É duradoura: há relatos de sementes presentes nos túmulos dos faraós que estavam ainda em boas condições de consumo. São excelentes como componentes de marinadas diversas.
Folha de caril. Em termos aromáticos, a semelhança com o pó de caril é muito grande e, como pasta, chega a fazer as vezes. Funciona muito bem com peixe fresco; gosto particularmente de utilizar com ovas grelhadas ou cozidas. Fresca, a folha de caril pode utilizar-se até com manteiga. É impressionante a sua flexibilidade.
Funcho. Especiaria de raiz eminentemente europeia. É doce e fortemente aromática. Além disso, é hiperabundante, encontramo-la pelas bordas dos caminhos de campo. Temos rebuçados e mezinhas diversas à base de funcho. Quando seco, integra muito bem misturas de especiarias como o caril. Tem de ser utilizado em pequenas proporções.
Feno-grego. Utilizada com abundância no norte da Índia, é uma especiaria de que se aproveita tanto as sementes, como as folhas. Nas províncias do Gujarate e Punjab, tem diversas aplicações na saúde e é considerada como fundamental em estufados longos de carne. Rogan Josh, por exemplo, não vive sem esta especiaria.
Levístico. Provém de uma planta de flores vermelhas e perfume intenso, semelhante ao tomilho. Não convivemos muito com a planta, mas seguramente já lhe sentimos o cheiro em marinadas, molhos e pratos cozinhados.
Noz moscada. Está presente em todas as configurações de caril e damos-lhe uso muito frequente em purés e massas. Na doçaria nacional, também tem as suas utilizações usuais.
Sementes de mostarda. Também se chama grãos de mostarda e é, nas variantes amarela e branca, utilizada para produzir o condimento de mostarda. Pode ser mais ou menos pungente, consoante os acrescentos que lhe damos.
Pimenta. É a especiaria das especiarias na cozinha indiana. O mundo inteiro utiliza a pimenta a par com o sal nas suas cozinhas domésticas. Ombreia com a malagueta na popularidade e ainda é fonte importante de rendimento para a Índia. Há diversos sucedâneos e todos eles fazem parte dos ingredientes fundamentais das nossas casas.
Açafrão. Ingrediente chave e nobre nas melhores misturas de especiarias. Obtém-se em quantidades muito reduzidas a partir dos filamentos da flor crocus sativus. Para ter a noção da raridade, são precisas 70 mil flores para obter meio quilo de açafrão. É mais cara e mais exótica do que a trufa branca, por exemplo. Custa oito euros por grama. Apesar de tradicional na culinária portuguesa, espanhola, italiana e indiana, caiu em desuso, optando-se pela curcuma. Mas, claro, que não é a mesma coisa.
Sementes de sésamo. Utiliza-se muito em óleo, farinha e diretamente. Na utilização direta, vale a pena aquecê-la no forno ou numa sertã seca. Tem um poder aromático forte.
Vamos ao caril?
Posto que entendemos que um caril é feito a partir de massalas ou misturas de especiarias, podemos passar a algumas configurações frequentes. Percorremos, numa primeira instância, as formas mais frequentes de caril indiano. O tikka masala é um dos mais populares e consiste de pedaços grelhados de frango, com um molho cremoso e suave. Tem um sabor cítrico e não é normalmente picante. Um branco de Fernão Pires do Tejo pode resolver bem a contenda.
Já o vindaloo é um prato goês, feito com vinagre, malagueta e alho. O nome decorre de uma corruptela de vinha de alhos, uma preparação bem portuguesa, que pode ser picante. Aqui pode ser instrumental um Castelão da Península de Setúbal. A questão do picante leva-nos a ter algumas precauções quanto à harmonização vínica. Mas, basicamente, quando intensificamos o picante, devemos também aumentar o grau alcoólico do vinho, isto porque a perceção do picante na boca resulta em micro-feridas e o álcool vai permitir sará-las de imediato. A água nada resolve e até pode ser contraproducente.
A preparação korma é suave, cremosa e aromática, e utiliza iogurte, natas ou nozes na sua base. Regressamos, por isso, ao vinho branco, para chegar à harmonização feliz. Deve ter estágio em madeira e, de preferência, ser jovem. Um Arinto de Bucelas fermentado em barrica pode ser uma excelente ideia. Importante é que espevite a selva aromática que está no prato.
O caril de Madras é vermelho e é feito com malagueta, cominhos e sementes de coentros. Pode ser muito picante, e cabe ao vinho debelar esse capital avassalador. Sugiro um Cabernet Sauvignon de Lisboa, as experiências que tenho feito com os vinhos da Quinta do Sanguinhal têm resultado. Denotam, além disso, um perfil balsâmico que tem muito a ver com a cozinha indiana. O caril goês de frango é feito com leite de coco, pode ser ou não picante e é delicioso. É, de resto, o que se faz nos lares portugueses com mais frequência. A solução vínica que melhor funciona é um Touriga Nacional jovem do Dão. Frescura e de novo a selva aromática de que precisamos.
O Rogan Josh, que já referi, é um prato complexo e profundo da região de Caxemira. É feito com borrego e tem a particularidade de incluir feno-grego na composição. Aprendi com um grande mestre indiano, que produziu a mistura à minha frente, e depois cozinhou-o na perfeição. É normalmente picante, dependendo da tolerância dos comensais. Aconselho um tinto do Douro com madeira, com alguma idade. A ligação é garantida. O caril Saag é quase vegan e tem por base folhas verdes de espinafres, pelo que aconselho vivamente um vinho branco da casta Fonte Cal. Alguns produtores da Beira Interior estão a fazer vinhos que parecem ter sido concebidos para este caril. O caril Dhamsala, de forte influência peruana, é outro grande prato e é feito com lentilhas e vegetais. Este sim, é inteiramente vegano e curiosamente gosta de vinho tinto. Um Jaen novo do Dão faz uma excelente harmonização.
Um pulo até à Tailândia
Na grande e estreita língua de território que é a Tailândia, o caril é um caso muito sério. Aliás, todo o país é um caso muito sério. Leite de coco e erva-príncipe estão na base de quase todos, o que, do ponto de vista da harmonização, é um tremendo desafio. O caril verde é o mais rico em especiarias e é feito com malaguetas verdes, manjericão e sementes de coentros. Não é demasiado picante, mas temos de estar preparados para o caso – quase sempre – de isso acontecer. Dado o património aromático contido no caril verde, optamos por um Sauvignon Blanc de Colares. Complexidade e exotismo garantidos e, além disso, o toque salino, que é sempre bem vindo.
Um caril tailandês é altamente calórico. O caril vermelho é o mais picante de todos e, na base, encontramos malaguetas vermelhas fortes, erva-príncipe e gengibre. Precisa, por isso, de um tinto bem copioso, pelo que o Alentejo é a opção correta. A casta Alicante Bouschet pode ser um bom caminho. O segredo é, como sempre, provar e medir forças com a solução encontrada. Boas experiências!
(Artigo publicado na edição de Março de 2026)
O Enólogo de vinhos generosos do ano é…. Francisco Albuquerque

Francisco Albuquerque nasceu em 1964 numa família ligada ao Vinho Madeira, com vinhas e produção de vinho. O avô explorava a Quinta do Arco, localizada no concelho de Santana, no norte da ilha da Madeira. As uvas eram fornecidas à H.M. Borges, empresa de outros familiares. Essa imersão no mundo do vinho levou-o à Escola […]
Francisco Albuquerque nasceu em 1964 numa família ligada ao Vinho Madeira, com vinhas e produção de vinho. O avô explorava a Quinta do Arco, localizada no concelho de Santana, no norte da ilha da Madeira. As uvas eram fornecidas à H.M. Borges, empresa de outros familiares. Essa imersão no mundo do vinho levou-o à Escola Agrária de Santarém, mas a escolha recaiu na produção animal, para complementar os conhecimentos sobre o universo vitivinícola trazidos do berço. Segundo o enólogo, foi um “conceito romântico sobre os agrónomos, uma ideia que vinha da Quinta da Anita.” O romantismo não o afastou do vinho. Pelo contrário, Francisco Albuquerque concluiu vários cursos na Estação Vitivinícola Nacional em Dois Portos, localizado em Torres Vedras, e uma pós-graduação em Agricultura Biológica e Enologia. Em 1990, fez um estágio de vindima iniciado no Douro e terminado na Madeira, durante o qual absorveu toda a experiência que a equipa da família Symington trouxe para o Vinho Madeira. A partir de 1993, teve carta branca para liderar a enologia na Madeira Wine Company, aliando o saber empírico dos madeirenses, tanto na vinificação como no envelhecimento, com os estudos científicos, nos quais colaborou com a Universidade da Madeira, em especial a partir de 1996.
Muitos conhecimentos estavam pouco sistematizados. Por isso, os processos que Francisco Albuquerque e os colegas foram desenvolvendo destinavam-se a perceber melhor o processo de envelhecimento, em particular através do isolamento dos factores e catalisadores. Com 16 armazéns de envelhecimento distribuídos entre o Funchal e o Caniçal, na ilha da Madeira, são inúmeros os parâmetros a estudar, para decifrar o puzzle dos grandes e imortais vinhos Madeira. Exemplo das descobertas: os mais secos envelhecem melhor no Funchal e os mais doces preferem o Caniçal. Contudo, os secos com mais de cinco anos são mais compatíveis com as condições climáticas do Caniçal, já que, no Funchal, ficam mais concentrados e balsâmicos, mas menos complexos. Francisco Albuquerque também tem grandes contributos na defesa da viticultura e na melhoria da vinificação. Há um paradoxo aparente: o vinho deve ser vinificado com todo o cuidado, para evitar a oxidação e a acidez volátil, por forma a preservar os factores que desencadeiam um bom envelhecimento oxidativo.
Ao fim de 37 anos na Madeira Wine Company, Francisco Albuquerque é um dos grandes responsáveis pela preservação de tradições centenárias, agora iluminadas pelo rigor do conhecimento científico. E, ano após ano, é o autor de algumas das mais preciosas pérolas do universo Vinho Madeira. L.A.
O Prémio Enólogo de vinhos generosos é patrocinado por: Casa Ermelinda Freitas
(Artigo publicado na edição de Março de 2026)






















