LUGARES: Vinhos e perfumes na Mezzanine

Nos últimos meses, a Mezzanine do Bairro Alto Hotel, localizado no Chiado, em Lisboa, tornou-se palco de eventos vínicos mensais. A primeira iniciativa, com o tema “Vinhos e Perfumes”, teve lugar em fevereiro, sob a batuta do Head Sommelier do hotel, Wilian Botignon, que também é perfumista. Em Março, o tema será “Mulheres do Vinho”, […]
Nos últimos meses, a Mezzanine do Bairro Alto Hotel, localizado no Chiado, em Lisboa, tornou-se palco de eventos vínicos mensais. A primeira iniciativa, com o tema “Vinhos e Perfumes”, teve lugar em fevereiro, sob a batuta do Head Sommelier do hotel, Wilian Botignon, que também é perfumista. Em Março, o tema será “Mulheres do Vinho”, com uma prova de vinhos produzidos por mulheres e conduzida por uma sommelière. No dia 8 de Abril, o “Blend do Vinho” é explorado num workshop com o sommelier Gonçalo Mendes. Já para 6 de Maio, João van Zeller, com a colaboração do chef de pastelaria da referida unidade de cinco estrelas, Guilherme Santana, vai preparar uma prova com harmonização intitulada “Vinhos do Porto e Chocolate”.
Mas voltando aos vinhos e perfumes, e à sessão a que assisti, gostaria de partilhar algumas impressões. Como sabemos, ambos os universos são altamente sensoriais e, tanto perfumistas, como provadores de vinho, utilizam o olfato como principal ferramenta de avaliação. Quem trabalha com vinho recorre também ao palato, mas grande parte do sabor resulta dos aromas e da percepção retronasal. É evidente que a concentração aromática no vinho é muito inferior, por vezes ténue, quando comparada com a de um perfume. Nesta experiência, os compostos aromáticos estavam preparados a cerca de 20%, evidenciando essa disparidade. A abordagem sensorial difere e é precisamente esta diferença que torna o exercício particularmente desafiante.
A sessão centrou-se na identificação e associação de matérias-primas da perfumaria e o seu reconhecimento no vinho. A casta escolhida para fazer esta comparação foi a Sauvignon Blanc pelos seus aromas característicos conhecidos por muitos. Para explorar as várias expressões da casta, Wilian trouxe quatro vinhos de diferentes origens: um Pouilly-Fumé Bonnard, de França; um Casillero del Diablo, do Vale Central do Chile; um Villa Maria, de Marlborough, na Nova Zelândia; e um português da Vicentino.
Os participantes foram encorajados a comparar os aromas identificados nos vinhos com aqueles presentes nas tiras olfativas borrifadas com compostos aromáticos correspondentes a cada exemplar. Identificaram, partilharam e discutiram as notas de limão e toranja, fruta tropical como manga, maracujá, ananás e melão, bem como aromas vegetais e verdes de relva cortada, folha de tomate, pimenta verde, sálvia branca e ainda groselha verde. Esta última é muito característica da Sauvignon Blanc, mas o fruto em si é pouco conhecido em Portugal, o que tornou o exercício especialmente interessante para muitos participantes. Outro exemplo curioso foi o gálbano, uma resina aromática extraída de uma planta, que apresenta um aroma intenso, verde, balsâmico e amadeirado ao mesmo tempo. É possível identificar esta nota em alguns vinhos de Sauvignon Blanc.
A experiência teve um feedback muito positivo por parte dos convidados e, certamente, repetir-se-á, tornando-se um evento recorrente na Mezzanine.
Apenas uma nota final: a sensação que tive neste espaço foi a de entrar numa sala de estar – sóbria, elegante, cuidadosamente decorada e iluminada, com uma sofisticação discreta, mas sem qualquer luxo intimidante. É um espaço onde apetece sentar e relaxar, tomar um copo e conversar sem pressa, ou até ler. Mesmo sem nenhum evento associado, é uma zona de conforto de onde não apetece sair.
Praça Luís de Camões, 2, 1200-243 Lisboa
E-mail: guest.service@bairroaltohotel.com
Tel.: 213 408 288
Experiência vínica: €45 (por pessoa)
Horário: das 18h00 às 19h30
Nota: Requer reserva
Os “Melhores do Ano” do Concurso Vinhos de Portugal 2026

Foram desvendados os vencedores da 13ª edição do Concurso Vinhos de Portugal, promovido pela ViniPortugal. O destaque maior é direccionada para os “Melhores do Ano”, distinção atribuída aos vinhos que mais se evidenciaram entre as 1.170 referências que fizeram parte desta competição. Neste alinhamento, constam os seguintes: o Chryseia 2023, da Symington Family Estates, no […]
Foram desvendados os vencedores da 13ª edição do Concurso Vinhos de Portugal, promovido pela ViniPortugal. O destaque maior é direccionada para os “Melhores do Ano”, distinção atribuída aos vinhos que mais se evidenciaram entre as 1.170 referências que fizeram parte desta competição. Neste alinhamento, constam os seguintes: o Chryseia 2023, da Symington Family Estates, no Douro (Melhor do Ano), o Andreza Espumante Brut Nature 2020, da Lua Cheia, Saven, no Douro (Espumante), o Encontro 1 Arinto , da Quinta do Encontro, na Bairrada (Varietal Branco), o Quinta do Noval Touriga Nacional 2021, da Quinta do Noval, no Douro (Varietal Tinto), o Quinta das Bágeiras Fogueira 2023, da Quinta das Bágeiras, na Bairrada (Vinho Branco – blend), o Chryseia 2023 (Vinho Tinto – blend) e o Henriques & Henriques Boal 30 anos, da Henriques & Henriques, da região da Madeira (Licoroso).
No total, foram entregues 351 prémios distribuídos por 30 de Grande Ouro, 87 de Ouro e 234 de Prata, sendo o Douro a região mais premiada, com um total de 98 medalhas. De acordo com o comunicado da ViniPortugal, “os vinhos distinguidos com medalhas de Grande Ouro e Ouro garantem presença em eventos internacionais organizados pela ViniPortugal, ao longo do ano, o que reforça o papel do Concurso como plataforma estratégica de promoção internacional”.
O Concurso Vinhos de Portugal 2026 representou o culminar de três dias de provas técnicas realizadas entre 4 e 6 de Maio, envolvendo a avaliação efetuada por 141 especialistas – enólogos, sommeliers, jornalistas e wine educators –, dos quais 24 internacionais. As referências distinguidas com Medalha de Ouro e reconhecidas como os Melhores do Ano foram submetidas a uma nova aferição, papel desempenhado pelo Grande Júri constituído por Bento Amaral, Dirceu Júnior MW, Luís Lopes, Paulo Nunes, John Sumners e Victoria Mackenzie MW.
“Este Concurso tem um papel muito relevante na forma como os vinhos portugueses são percebidos lá fora. Ao reunir jurados internacionais com diferentes perfis, desde sommeliers a jornalistas e líderes de opinião, estamos a criar uma rede de embaixadores que conhecem de perto a qualidade, a diversidade e a autenticidade do que se produz em Portugal. Esse contacto directo é decisivo para aumentar a confiança e a presença dos nossos vinhos nos mercados externos”, declarou Frederico Falcão, Presidente da ViniPortugal.
A lista completa dos premiados pode ser consultada no site do Concurso Vinhos de Portugal em: https://concursovinhosdeportugal.pt/.
Editorial: Na dúvida, beba rosé

Editorial da edição nrº 109 (Maio de 2026) Vamos assumir: os rosés chegaram à liga dos campeões do vinho. Há 20 ou 25 anos, nem eram tema de conversa. Bebiam-se, quando muito, mas não se lhes dedicava tempo, painéis de prova ou capas de revista. Primeiro, porque não havia muitos; depois, porque raramente tinham qualidade. […]
Editorial da edição nrº 109 (Maio de 2026)
Vamos assumir: os rosés chegaram à liga dos campeões do vinho. Há 20 ou 25 anos, nem eram tema de conversa. Bebiam-se, quando muito, mas não se lhes dedicava tempo, painéis de prova ou capas de revista. Primeiro, porque não havia muitos; depois, porque raramente tinham qualidade. Hoje falamos e discutimos estilos de rosés, se devem ter mais acidez ou menos tanino, se é um disparate beber um rosé com quatro anos de estágio ou, pelo contrário, um sinal de elevação do produto. Nem de todos os confrontos de ideias nasce a verdade, mas, no mínimo, servem para chamar a atenção e talvez reflectir.
Foi em 1682, em Argenteuil, na região de Île-de-France, que o termo “rosé” surgiu pela primeira vez, não como invenção de um novo estilo de vinho, mas como nome tardio para uma prática muito mais antiga. Também em França foi criada a primeira designação de origem exclusiva para rosés: a Tavel AOC, em 1936. Os vinhos rosados já se produziam na região; o estatuto apenas veio formalizar uma identidade existente. E não eram vinhos pensados como leves ou de ocasião. Muitos exemplares apresentavam estrutura, corpo e capacidade de envelhecimento, sendo historicamente vistos como rosés “sérios”, com lugar à mesa, bem antes da vaga moderna de vinhos pálidos e descomplicados.
Os rosés da Provence quase não ultrapassavam as fronteiras regionais e estavam longe de ser uma referência aspiracional. Aliás, antes das décadas de 1980 e 1990, talvez o único rosé verdadeiramente global fosse o nosso Mateus Rosé, que iniciou a sua marcha pelo mundo em 1942. A partir dos anos 2000 começa a construção de imagem de um rosé: cor pálida, garrafa elegante, um imaginário mediterrânico associado, tudo orientado para um consumo visual. Provence torna-se, então, praticamente sinónimo de rosé no mercado global.
Hoje há rosés para todos os gostos e para todas as carteiras. Existem profissionais do sector que se especializaram no tema, como por exemplo a britânica Elizabeth Gabay, uma das maiores autoridades mundiais em rosé. Também na Grandes Escolhas, temos vários colegas que são verdadeiros advogados da categoria. O Concours Mondial de Bruxelles (CMB) organiza, desde 2022, uma sessão dedicada exclusivamente a rosés. O concurso “Escolha do Mercado” da Grandes Escolhas, que terá lugar a 18 de Maio, acrescentou este ano, uma categoria específica para rosés, a par com brancos e espumantes.
No entanto, continua a existir uma tensão de fundo, que mantém o rosé um passo atrás de outras categorias. Já ouvi várias versões de uma afirmação, cujo sentido se resume a isto: “há sempre um branco ou um tinto melhor”. Foi repetida tantas vezes que quase se confunde com um senso comum. Talvez porque temos uma tendência para hierarquizar – melhor ou pior, acima ou abaixo. Na minha experiência, porém, quando não apetece nem um branco nem um tinto, há sempre espaço para um rosé. Lá em casa, estes vinhos não duram. Não porque não resistam ao tempo, mas porque ninguém lhes resiste a eles.
Nesta edição, propomos uma selecção que ronda as quatro dezenas de rosés de grande qualidade, com preços particularmente apelativos. Vale também a pena ler o texto de Nuno Oliveira Garcia que é uma ode e, ao mesmo tempo, uma reflexão sobre este mundo cor-de-rosa. E mais importante, a peça inclui excelentes sugestões de harmonização. É mesmo uma boa altura para dizer: não é branco, nem tinto. É rosé! V.Z.
GRANDE PROVA: Arinto de Norte a Sul

Casta muito vetusta em Portugal, foi descrita pela primeira vez em 1712 por Vincenzo Alarte, na obra Agricultura das Vinhas, onde é referida como uma variedade serôdia. A sua grande variabilidade intravarietal, sobretudo na região do Oeste, com destaque para Bucelas, não deixa dúvidas quanto à sua antiguidade e provável origem nacional. Ao longo do […]
Casta muito vetusta em Portugal, foi descrita pela primeira vez em 1712 por Vincenzo Alarte, na obra Agricultura das Vinhas, onde é referida como uma variedade serôdia. A sua grande variabilidade intravarietal, sobretudo na região do Oeste, com destaque para Bucelas, não deixa dúvidas quanto à sua antiguidade e provável origem nacional. Ao longo do tempo, foi-se espalhando por várias regiões do país, sendo mencionada por diversos autores na Beira, no Douro, na Estremadura e no Minho (1790), em Évora, Arruda, Torres Vedras, Colares e Carcavelos (1866/67), e em Portalegre (1900).
Os progenitores da Arinto continuam, oficialmente, a ser um mistério genético. Segundo a explicação do investigador e curador do INIAV – Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, Jorge Cunha, embora existam estudos baseados em nove marcadores moleculares (chamados microssatélites), estes permitem estabelecer compatibilidades genéticas, mas não são suficientes para confirmar, de forma inequívoca, um parentesco directo. Em bases de dados científicos, como o Vitis International Variety Catalogue (VIVC), a Arinto permanece sem pedigree confirmado. Apesar de ter adquirido algumas sinonímias em terras por onde se espalhou é, ainda assim, mais conhecida pelo seu nome original. Pode mencionar-se apenas um sinónimo relevante, Pedernã, oficialmente reconhecido na região do Minho, embora, actualmente, muitos produtores prefiram usar Arinto nos rótulos. O mais importante é não a confundir com outras castas homónimas: a Arinto do Interior, no continente, e a Arinto dos Açores (igual à Terrantez da Terceira), com as quais não tem qualquer ligação genética.
Historicamente gloriosa
Esta casta branca foi outrora muito famosa, fortemente associada à zona da sua origem, Bucelas. No século XIX, exportava-se vinho feito a partir de Arinto para Inglaterra, o qual era vendido nos pubs a copo, ao mesmo nível do Vinho do Porto, Xerez, Champagne ou Claret, como descreve o comerciante e escritor britânico Charles Tovey, no seu livro Wine and Wine Countries, em 1862.
A referência aos vinhos de Bucelas também surge no livro do escritor e jornalista britânico Henry Vizetelly, Facts about Port and Madeira, publicado em 1880, caracterizando-os como “notavelmente frescos no sabor, com um ligeiro tom esverdeado na cor (…) os vinhos mais antigos eram mais redondos e aromáticos; o seu sabor, mais pronunciado, deixava um final macio, com notas de amêndoa. Certamente não é fácil encontrar vinhos mais puros do que estes. Sendo os melhores vinhos da sua classe, eram enviados para Inglaterra sob a designação El Rey – Royal Bucellas Hock”. O mesmo autor, viajando até Bucelas, recorda-se de provar “um Arinto muito seco e com carácter de noz, com um final agradavelmente picante.”
Hoje, não só em Bucelas, mas em toda a região vitivinícola de Lisboa, embora não seja a casta mais plantada, a Arinto continua a ser muito importante em termos de qualidade e é apreciada por numerosos produtores, que a utilizam em vinhos monovarietais.
Expansão territorial
Uma das grandes vantagens da casta é que ela não se importa de viajar para outras paragens e consegue adaptar-se a solos e condições mais diversos: desde os argilo-calcários, nas regiões de Lisboa e da Bairrada, aos xistosos, no Douro, passando pelos graníticos, no Minho e pelos de natureza mais variada, no Alentejo. Por onde passa, leva sempre o seu cartão de visita: a capacidade de construir vinhos com uma estrutura ácida vibrante, mesmo em climas mais quentes, onde esta característica é particularmente apreciada.
Na região do Tejo, a Arinto é parceira frequente da Fernão Pires que, por vezes, carece de frescura natural. Antonina Barbosa, enóloga e Directora-Geral da Falua, confessa ser uma grande defensora da casta e já há mais de dez anos que produz os vinhos Reserva com Arinto, reconhecendo a sua aptidão para criar grandes vinhos, bem como o seu potencial de envelhecimento. Sabe também que esta casta pode revelar-se muito diferente consoante o local: um vinho de Arinto da sub-região do Campo distingue-se do da Vinha do Convento, com calhau rolado e uma boa drenagem.
Na Bairrada, mostra o seu lado mais salino e calcário, com uma frescura nervosa, criando um perfil mais vertical e austero do que em Bucelas. E isto sentiu-se bem na prova. O produtor Carlos Campolargo também sempre apreciou a casta, desde que, ainda jovem, provou os vinhos trazidos em garrafões de Bucelas.
No Alentejo, a Arinto é absolutamente indispensável como team player, sendo campeã na acidez entre as suas parceiras alentejanas: Antão Vaz, Roupeiro, Perrum e outras.
O produtor Julian Reynolds conta a sua história de “namoro” com a casta. Provou Arinto numa tasca em Portalegre, no início dos anos 2000, e ficou encantado, pensando logo em plantar. No entanto, um conhecido da área de distribuição desaconselhou-o, dizendo que era “uma casta vulgar e que fazer um vinho com ela estragaria o nome Reynolds”. Felizmente, ignorou o conselho, percebendo que “o perfil da serra lhe imprime uma expressão diferente da de outras zonas”.
Nuno Elias, enólogo da Casa Agrícola HMR, sublinha a consistência da Arinto, uma característica que, na sua opinião, é extremamente importante para um vinho monovarietal. “A casta tem de dar um óptimo resultado, pelo menos, oito em 10 anos; com Arinto, eu tenho o histórico de bons vinhos, tenho a qualidade hoje e sei que amanhã também a terei”, afirmou.
No Douro, a Arinto não é tão difundida quanto as variedades típicas da região, como Rabigato, Códega, Viosinho, Códega do Larinho e Gouveio, entrando estatisticamente na categoria de “outras castas”. Provavelmente por isso, quando a Menin lançou o seu primeiro Arinto Grande Reserva, houve dúvidas sobre se faria sentido colocar o nome da casta no rótulo. A verdade é que o vinho sempre se mostrou muito aromático e com imenso carácter, convencendo os enólogos e o produtor de que era justo colocar o nome da casta no rótulo, contou o enólogo consultor da casa, Tiago Alves de Sousa.
Na região dos Vinhos Verdes, embora a Arinto esteja bem presente, em termos de notoriedade tem de competir com duas estrelas, a Alvarinho e a Loureiro, que a ultrapassam em plantação e fama. Por isso, o Arinto surge com menos protagonismo nos rótulos, embora seja frequente em lotes. Desempenha muito bem o seu papel nas sub-regiões um pouco afastadas da influência atlântica directa, como Basto e Baião, onde entra em blends com Azal.
Na vinha
Casta muito vigorosa, que, se não for controlada pelo porta-enxerto ou pela baixa fertilidade do terreno, desenvolve grande expressão vegetativa. Devido às folhas grandes, beneficia da desfolha precoce, evitando a compactação da folhagem. “Não é tão produtiva como a Antão Vaz, mas também não há aflição, como no caso da Alvarinho ou Verdelho”, explica Nuno Elias. A produtividade, naturalmente, depende do clone, mas, em geral, é generosa se for bem conduzida. Caso contrário, a videira investe na produção de lenha, podendo tornar-se aneira. A produção recomendada varia entre os 4500 e 8000 litros por hectare.
Em alguns clones, produz particularmente mal nos gomos basais (na base do sarmento). Por isso, o tipo de poda tem que ser adaptado, sendo preferível optar por poda longa ou mista, o que implica maior exigência em mão de obra. Os cachos são grandes, mas poucos por cepa, com bagos pequenos e muito compactos. Para além do míldio, do oídio e de outras doenças criptogâmicas (provocadas por fungos e organismos semelhantes), a casta é muito sensível à cigarrinha verde e à traça. No Alentejo, ainda é sujeita aos ataques do aranhiço amarelo, que, tal como a cigarrinha verde, representa um problema nas regiões quentes e secas. “Desparram as plantas”, conta Nuno Elias, referindo-se à diminuição da área foliar funcional. “Mas no ano passado, com as chuvas intermitentes durante o verão, correu melhor.”
A Arinto prefere solos bem drenados e é relativamente resistente ao stress hídrico. “Película rija, resiste à falta de água”, afirma Antonina Barbosa. Porém, “sendo sensível ao escaldão, a gestão da folhagem é importante”, acrescenta António Maçanita, que trabalha com a casta no Alentejo, no Douro e na região de Lisboa. “Não fica em passa, mas sim uma uva verde escaldada”, exemplifica. Durante o período entre o pintor e a maturação, o enólogo costuma provar os bagos, onde “primeiro aparece fruta neutra, que não sabe a uva, podia ser qualquer outra fruta”. Espera até que o sabor fique definido. Antonina também prefere decidir a data de vindima pela prova do bago, mesmo que analiticamente a uva já esteja pronta. Ao contrário da Fernão Pires, que perde a acidez e queima aromas em 48 horas, a Arinto pode esperar até atingir o equilíbrio na componente aromática, sem comprometer a sua frescura ácida, pois, quando ainda está ligeiramente verde, é muito neutra.
A vindima no Tejo e no Alentejo ocorre, geralmente, desde a última semana de Agosto até à primeira de Setembro. No Douro, realiza-se entre a primeira e a terceira semanas de Setembro, dependendo do ano. Na região de Lisboa, acontece no final de Setembro, já depois de algumas castas tintas.
A famosa acidez
A frescura ácida é o cartão de visita da Arinto. Mas, mais do que isso, é a qualidade da acidez e a capacidade de a preservar que merece destaque. Carlos Campolargo, comparando a Arinto com outra casta bairradina, a Cercial, nota que esta última tem maior acidez, mas “a da Arinto é mais rica e constante”. Em estudos comparativos com outras castas alentejanas, como Antão Vaz, Roupeiro, Perrum e Rabo de Ovelha, a Arinto apresenta consistentemente valores de acidez total significativamente mais altos e pH mais baixos, mesmo quando o seu teor de álcool provável também é elevado. Noutras castas, a acidez tende a ter uma forte correlação inversa com o teor de álcool, ou seja, só pode ser elevada em vinhos com baixos teores alcoólicos.
Curiosamente, os mesmos estudos revelaram que a Arinto apresenta relativamente baixo teor de ácido málico, mas um teor elevado de ácido tartárico. Esta distinção é importante: o ácido málico tende a degradar-se durante a maturação da uva, principalmente através da respiração das células do bago, o que se acentua em ambientes quentes. Em contraste, o ácido tartárico é muito mais estável, o que permite à casta conservar a sua frescura ácida mesmo em períodos de maturação avançada, conferindo consistência e equilíbrio aos vinhos produzidos.
Na adega
A Arinto há muito que conquistou os enólogos e produtores pela sua plasticidade. Como define Nuno Martins da Silva, enólogo consultor em várias casas da região de Lisboa, “é uma variedade interpretativa, que permite múltiplas abordagens. Tolera bem uma gestão criteriosa do oxigénio e pode beneficiar de curtimentas, desde que suportadas por matéria-prima adequada. Adapta-se e expressa-se com consistência em diferentes vasilhas – inox, cimento ou madeira”. Esta opinião é agregadora e geralmente partilhada por quem conhece bem a casta.
Não sendo exuberante, a Arinto “é uma casta muito pura em termos aromáticos”, descreve Sandra Tavares, enóloga consultora na Quinta da Chocapalha. Possui ainda muitos precursores aromáticos nas películas, pelo que a maceração pelicular pré-fermentativa faz todo o sentido, enfatizando a expressão olfactiva.
Normalmente, com o pH muito baixo (e na Arinto isto não é difícil), a sensibilidade à oxidação é baixa. Contudo, e apesar de ser uma casta branca, pode apresentar teores relativamente elevados de compostos fenólicos, especialmente se houver extracção mais intensa na prensagem ou contacto prolongado com as películas. Estes fenólicos são os principais responsáveis pelo escurecimento ainda em mosto (do amarelo-dourado ao acastanhado) e criam o potencial de oxidação ao longo do tempo. Mas há uma maneira de evitar isto: em vez de proteger o mosto do oxigénio, é deixá-lo oxidar ligeiramente no início, permitindo que os compostos instáveis precipitem logo. Por isso, António Maçanita não adiciona o sulfuroso até ao fim da fermentação, deixando que esta oxidação inicial controlada cumpra o papel de estabilização natural do mosto.
O grau alcoólico provável do mosto é variável consoante o local onde a vinha se encontra instalada, apresentando uma média de 11% em regiões com influência marítima e de 13% em regiões mais quentes, mantendo sempre a acidez firme. O enólogo da Adega Mãe, Diogo Lopes, considera que a Arinto “é bem talhada para fermentação e estágio em barrica, mesmo a madeira nova não se sobrepõe”. Sandra Tavares prefere barricas muito usadas, praticamente neutras e estágios longos, sendo neste caso 24 meses, e mais 12 em garrafa. Carlos Campolargo trabalha com barricas usadas de 5 a 6 anos e muito usadas de 10 a 12 anos, e fermenta com leveduras indígenas. Não se importa se, em algumas barricas, ocorre fermentação maloláctica “se lhe apetecer”. Chama a Arinto de “casta deliciosa” e lembra que também é excelente para a base de espumante.
Nuno Martins da Silva também procura “fermentações espontâneas, lentas, a temperaturas em torno dos 20 °C, em casco, seguidas de estágio nesses mesmos cascos sobre borras finas e intermédias.” Vê “a fermentação maloláctica como uma decisão estruturante e dependente do perfil que se procura em cada vinho”. Muitos recorrem a bâtonnage para aumentar a estrutura e a textura do vinho.
Em suma, embora a Arinto tenha sido fortemente associada a Bucelas, pouco a pouco foi perdendo essa dependência histórica e geográfica, afirmando-se noutros territórios vitivinícolas pelo seu próprio mérito. Por outras palavras, temos uma grande casta a nível nacional, capaz de interpretar a região sem perder o seu carácter, cuja qualidade deriva das suas virtudes intrínsecas e da habilidade do produtor em a trabalhar.
Arinto em números
A nível nacional, é a segunda casta branca mais plantada, a seguir à Fernão Pires. Segundo dados recentes do Instituto da Vinha e do Vinho, ocupa 6084 hectares, o que corresponde a cerca de 4% da área de vinha.
Na viragem do século, a Arinto ainda não figurava entre as 15 castas mais plantadas e praticamente não tinha protagonismo nas regiões vitivinícolas do país, incluindo a Estremadura (actual região de Lisboa), onde reinava a Fernão Pires, acompanhada por Vital, Malvasia Rei, Seara Nova e Alicante Branco. Apenas no Minho, a Arinto tinha alguma preponderância, ocupando 3171 hectares (8%).
Hoje, a casta apresenta-se com destaque em várias regiões: no Minho ocupa 2788 hectares (12%), sendo a terceira casta mais plantada, depois da Loureiro e da Alvarinho; no Alentejo é a segunda, ocupando 1042 hectares (5%), a seguir à Antão Vaz; na região de Lisboa mantém-se no segundo lugar das castas mais plantadas, com 538 hectares (3%), enquanto a Fernão Pires continua a assumir a liderança incontestável, com 11% das plantações; no Tejo ocupa 239 hectares (2%), sendo igualmente a número dois na lista das variedades mais plantadas, logo a seguir à Fernão Pires, apresentando valores muito semelhantes na Beira Interior. No Douro e noutras regiões, estatisticamente, a sua presença não tem expressão significativa.
(Artigo publicado na edição de Abril de 2026)
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Regenerative Wine Fest regressa à Herdade das Servas

No dia 16 de Maio, das 16h00 às 18h00, a Herdade das Servas, propriedade vitivinícola localizada a escassos quilómetros da cidade de Estremoz, é palco de conversas de campo, debates, vinho e gastronomia. Trata-se da 3ª edição do Regenerative Wine Fest, que, este ano, reúne especialistas, curiosos e 15 produtores que passaram a optar pela […]
No dia 16 de Maio, das 16h00 às 18h00, a Herdade das Servas, propriedade vitivinícola localizada a escassos quilómetros da cidade de Estremoz, é palco de conversas de campo, debates, vinho e gastronomia. Trata-se da 3ª edição do Regenerative Wine Fest, que, este ano, reúne especialistas, curiosos e 15 produtores que passaram a optar pela viticultura regenerativa. O objectivo deste encontro tem como base repensar modelos agrícolas mais resilientes e sustentáveis, com benefícios diretos para as vinhas e para o ecossistema agrícola, em prol do futuro da produção vitivinícola no país.
O evento começa com uma conversa intitulada “Regenerativa: prática real ou narrativa?” Maria João Cabrita, docente no Departamento de Fitotecnia da Universidade de Évora e Investigadora no MED – Instituto Mediterrâneo para a Agricultura, Ambiente e Desenvolvimento, David de Brito, co-fundador e General Manager na Terramay, João Barroso, Director de Sustentabilidade, Investigação e Desenvolvimento dos Vinhos do Alentejo, e Paula Bragança, Directora de Viticultura e Enologia no Monte da Raposinha são os intervenientes.
Seguem-se as primeiras “Conversas de Campo”, cujo desafio é conduzir os participantes pelo terreno, para fazer uma leitura directa das práticas regenerativas implementadas na Herdade das Servas. A experiência prolonga-se ao almoço de partilha, assinado pelo chef Ricardo Gonçalves, do Legacy Winery Restaurant, instalado na Herdade das Servas, uma vez que os pratos são confecionados com produtos de origem regenerativa.
Para a tarde, está agendada a conversa “Quem paga a transição regenerativa?” Georgete Félix, Consultora na área da sustentabilidade e ESG, Pedro Santos, Director-Geral na Consulai, João Raposeira, representante da Vinha Viva, Associação Portuguesa de Viticultura Regenerativa, e Filipa Saldanha, Directora de Sustentabilidade no Crédito Agrícola, vão falar sobre os desafios económicos e estruturais da mudança de paradigma.
Ao longo de todo o dia, estão disponíveis para prova vinhos dos 15 produtores associados à iniciativa: Adega Mayor (Alentejo), Família Nicolau Wines (Lisboa), Herdade das Servas (Alentejo), Herdade dos Grous (Alentejo), Monte da Raposinha (Alentejo), ODE Winery (Tejo), Paulo Coutinho (Douro), Pupa Vinhos (Alentejo), Quinta da Costa do Pinhão (Douro), Quinta da Covela – Lima & Smith (Vinhos Verdes), Reynolds Wine Growers (Alentejo), Tapada de Coelheiros (Alentejo) e Vale dos Ares (Vinhos Verdes), Fita Preta (Alentejo) e Quinta de Adorigo (Douro).
Após o debate, são retomadas as “Conversas no Campo”. O dia termina com um momento de convívio e música, enquanto a noite é brindada com um Menu de Degustação Regenerativo ao jantar.
Os bilhetes (20€ por pessoa / inclui copo, prova de vinhos e acesso ao evento)
já estão disponíveis no site deste encontro (https://www.regenerativewinefest.pt/), com preços especiais para reservas efetuadas até 10 de Maio. Há ainda a opção do pack constituído por bilhete e jantar (65€ por pessoa).
BAGA FRIENDS: Em nome da casta rainha da Bairrada

O Dia Internacional da Baga “recorda uma vez por ano a grandeza desta casta”. Assim começa esta peça, com palavras de Luís Pato, o produtor da Bairrada mais reconhecido dentro e fora de portas, graças ao trabalho que tem vindo a realizar no âmbito dos vinhos produzidos no referido território vitivinícola, mais concretamente em relação […]
O Dia Internacional da Baga “recorda uma vez por ano a grandeza desta casta”. Assim começa esta peça, com palavras de Luís Pato, o produtor da Bairrada mais reconhecido dentro e fora de portas, graças ao trabalho que tem vindo a realizar no âmbito dos vinhos produzidos no referido território vitivinícola, mais concretamente em relação à casta tinta rainha da região. Essa data, assinalou-se no primeiro sábado de maio, motivo pelo qual os oito produtores da edição de 2026 prepararam as respectivas adegas, para se manterem abertas das 10h00 às 18h00. São eles Giz by Luís Gomes, Filipa Pato, Luís Pato, Quinta da Vacariça, Quinta das Bágeiras, Quinta de Baixo – Niepoort, Vinhos Sidónio de Sousa e Vadio Wines. Na lista de ações, constam provas de vinhos, petiscos tradicionais e variados momentos, incluindo um arraial no Centro Social, Recreativo e Cultural da Poutena, em Vilarinho do Bairro, no concelho de Anadia.
Parcela, a alma de cada vinho
Por que razão a Baga está intrinsecamente ligada à Bairrada? Será que a região possui as condições ideais para esta casta? François Chasans, produtor francês proprietário da Quinta da Vacariça, em Tamengos, no concelho de Anadia, frisa o seguinte: “no contexto climático atual, a Bairrada apresenta uma das melhores oportunidades de se tornar uma das melhores regiões do mundo. A sua razão principal é a acidez dos vinhos.” Tal atributo resulta da amplitude térmica registada na região e da proximidade ao oceano Atlântico. “Por exemplo, devido a estas condições a Bairrada apresenta uma temperatura média mais baixa 8 ºC do que a região de Bordéus.” Acresce a humidade, que impõe uma atenção redobrada face à viticultura orgânica e biodinâmica. François Chasans refere ainda a complexidade geológica heterogénea, ponto assente na diferença de estilos de cada casa vinhateira.
Mas de que forma podemos aferir o potencial da Baga, sobretudo quando é feita a partir de uvas colhidas em vinhas velhas? A resposta foi dada por Paulo de Sousa, da Vinhos Sidónio de Sousa, que, no evento da apresentação do Dia Internacional da Baga, em Lisboa, esteve representado pelo filho, Afonso de Sousa: “a vinha velha de Baga revela-se pela elegância e harmonia que proporciona no copo de quem degusta. As suas raízes profundas e os seus troncos grossos e desalinhados são testemunho de outro tempo, levando a que, no copo, estejamos perante um verdadeiro museu. Antigo, mas nunca ultrapassado pois a acidez e frescura da casta imprimem longevidade e juventude.” A plasticidade desta variedade tinta autóctone da Bairrada também foi analisada, pois dá corpo a “rosés frescos e jovens, rosés de guarda e gastronómicos, rosés base para espumante rosé de variados estilos, base para espumante tinto, vinhos tintos para se beberem jovens ou néctares longevos”, acrescenta. Apesar da agressividade dos primeiros anos, estes vinhos têm o tempo como aliado, revelando “uma grandiosidade que muito poucos conseguem alcançar”.
Daniel Niepoort, rosto da sexta geração da Niepoort, reforça a versatilidade da Baga, “porque é uma grande casta do mundo” e revela a capacidade que tem em expressar o terroir, ou seja, “traduz o local onde são plantadas e cultivadas as vinhas”. A respeito desta matéria, François Chasans engloba solo, clima, “as pessoas e os empirismos das mesmas”, características que “revelam a alma da parcela através da visão de cada vinhateiro”, realça o produtor da Quinta da Vacariça. O resultado sente-se por meio “de vinhos com características tão díspares”, continua Daniel Niepoort. Até mesmo particularidades, como as que estão associadas aos vinhos Giz, de Luís Gomes, para quem os solos de natureza calcária das vinhas centenárias e o clima atlântico da Bairrada “são cruciais na obtenção do perfil característico dos vinhos Giz, repletos de frescura, tensão e mineralidade, plenos de individualidade e carácter”. Sem descurar a “elegância” e “o perfil de fruta vermelha fresca e de grande concentração e complexidade que a Baga das vinhas velhas proporciona”, enaltece.
Luís Patrão, da Vadio Wines, dá como exemplo o trabalho que tem vindo a desenvolver com a Baga: “no caso do Vadio Espumante Branco Perpetuum, a base vem de uma solera que integra, atualmente, cerca de 18 colheitas. A Baga entra nessas soleras, sobretudo para bases de espumante, tanto no Perpetuum, como no Finuum, onde normalmente cerca de 30% do lote é Baga.” Para o efeito, o produtor bairradino vindima as uvas “relativamente cedo”, com o intuito de obter uma matéria-prima com “boa acidez natural e pH mais baixo. Isso ajuda bastante a manter os vinhos estáveis ao longo do tempo e a controlar melhor um eventual aumento de acidez volátil, que é sempre um dos riscos quando se trabalha com soleras”.
Tempo é, portanto, um factor preponderante na feitura de um tinto feito a partir de Baga que, conforme François Chasans, “é um vinho que transmite emoção ao nível de uma grande pintura ou música, mas para exprimir o seu potencial total é preciso dois anos no mínimo em tonel e 12 anos em garrafa”.
Passado e presente na comunicação
“Historicamente, a Baga é uma casta difícil”, afirma Mário Sérgio Nuno, nome inteiramente ligado à Quinta das Bágeiras, localizada em Sangalhos, no concelho da Anadia. Segundo Luís Pato, na década de 90 do século XX, a Baga era vista como “uma casta que só criava grandes vinhos de cinco em cinco anos, esquecendo-se que criava grandes vinhos. Logo a culpa não era da casta, mas de quem a trabalhava”. Com a passagem do tempo, a casta tinta tem vindo a conquistar o consumidor, ação reforçada pelos Baga Friends, na opinião de Luís Pato, que, graças à fundação deste grupo de produtores da região, em 2012, se tornou respeitada. Para o produtor da Quinta das Bágeiras, a crescente importância da casta tem a ver com a escolha “do sítio certo, bem como o acompanhamento e o carinho certos tornam o trabalho de elevar a casta possível”. Graças a esta dedicação, o vinho feito a partir de Baga tem vindo a traduzir-se em um produto gastronómico e “com uma grande diversidade de perfis”, na opinião de Luís Pato, dando como exemplo os vinhos produzidos pelos Baga Friends: “vinhos elegantes, que sobrevivem ao tempo”, a mostrar “como são os grandes vinhos do mundo”, enfatiza o decano da produção vitivinícola da Bairrada. Mário Sérgio Nuno partilha da mesma opinião no que ao papel desempenhado pelos Baga Friends diz respeito.
Além-fronteiras, e com a mais-valia de os vinhos monovarietais serem mais facilmente comunicados, Filipa Pato acredita: “quando uma casta está profundamente ligada a um lugar, ela própria se torna a melhor intérprete desse território”. Tal acontece com a Baga da referida produtora bairradina, proprietária de 20 hectares de vinha em Óis do Bairro e em Silvã, no concelho de Anadia, divididos em 37 parcelas trabalhadas em modo biodinâmico e cujos solos são calcários e de origem jurássica. Para facilitar a informação fora de portas, a produtora dá como exemplo comparativo a italiana Nebbiolo, de Piemonte, ou a francesa Pinot Noir, em Borgonha. “Curiosamente, são também regiões onde os solos calcários desempenham um papel fundamental, permitindo às castas alcançar um equilíbrio notável entre estrutura, frescura e longevidade”, acrescenta. Apesar da identidade forte, “na adega, a Baga pede delicadeza”, daí que o casal Filipa Pato e William Wouters opte por “extrações suaves, intervenção mínima e recipientes que respeitam o vinho, como ânforas, pipas de carvalho usadas ou tonéis de grande capacidade, evitando o excesso de madeira”.
Espreite as notas de provas que aqui lhe deixamos, para acicatar a curiosidade…
Luís Pato Vinha Pan tinto 2021 – rubi aberto, no nariz uma expressão típica da Baga, com elegância e sedosidade, fruta vermelha, como framboesa e morango selvagem, em combinação com mentol e caruma, apontamento de aneto; estrutura flexível, denso, nada pesado, com a sua frescura intrínseca, longo e sedoso. (18,5);
Giz Vinha das Cavaleiras tinto 2021 – Baga das vinhas velhas, resultou num vinho impressionante, muito bonito e complexo, com fruta vermelha, abrunhos, caruma, resina e folha de louro, uma nota cítrica e noz-moscada; densidade fluida, tanino bem presente e certamente polido, textura aveludada (18,5);
Quinta das Bágeiras Garrafeira tinto 2021 – fiel a si próprio, com fruta austera, balsâmico e resinoso, com algum musgo, não propriamente encorpado, mas denso; Baga no seu estilo clássico, com grande estrutura e acidez a manter a frescura (18,5);
Sidónio de Sousa Baga Especial Cuvée Espumante rosé 2022 – interessante no nariz, com notas de menta e morango e mais fruta vermelha, muito vivo e suculento, ligeiramente amargo que lhe confere certa garra, com final saboroso (17);
Niepoort Água Viva Baga Espumante Bruto 2020 – cor de rosa muito leve, aroma delicado e bonito, muito bem traçado, com profundidade e complexidade delicada a revelar caroço de cereja, brioche, amêndoa torrada e apontamento vegetal; bolha finíssima, muita cremosidade e frescura (17,5);
Vadio Baga Espumante rosé 2023 – proveniente de uma zona mais húmida, de barro, fermenta em barrica usada, 18 meses de estágio sobre borras; rosa salmão, fruta quase madura a lembrar morango fresco, menta, manjericão, uma nota de gengibre também, fresco, mas cremoso, com bolha bastante fina, delicado no trato, com apontamento mineral e de framboesa (17);
Filipa Pato Post-Quercus Baga tinto 2024, com fermentação e estágio em ânforas; aromático, cativa imediatamente pela fruta nítida, notas de framboesa, morango selvagem e um floral delicado; fino e guloso, apetece beber sem parar (18).
Quinta da Vacariça Baga tinto 2016 – cheira a Baga, pouco corpo e muita estrutura, pouca fruta e muito tanino, denso e directo, carácter vincado, cheio de vida, a chamar à mesa (17).
(Artigo publicado na edição de Abril de 2026)
Estão abertas as candidaturas para as Bolsas Barca-Velha Golden Vines® MW 2026

A Casa Ferreirinha, produtora histórica do Douro e marca do portefólio Sogrape, anuncia, em parceria com a Fundação Gérard Basset, a abertura das candidaturas para as Bolsas Barca-Velha Golden Vines® MW 2026, acção que se prolonga até à à meia-noite de 14 de junho de 2026. Esta iniciativa, que “simboliza o compromisso com a excelência […]
A Casa Ferreirinha, produtora histórica do Douro e marca do portefólio Sogrape, anuncia, em parceria com a Fundação Gérard Basset, a abertura das candidaturas para as Bolsas Barca-Velha Golden Vines® MW 2026, acção que se prolonga até à à meia-noite de 14 de junho de 2026. Esta iniciativa, que “simboliza o compromisso com a excelência e o futuro do conhecimento no sector do vinho”, segundo o comunicado, destina-se a apoiar candidatos ao título atribuído pelo The Institute of Masters of Wine.
Cada vencedor receberá o financiamento de 35.000 libras (GBP), apoio destinado a suportar os custos do curso de Master of Wine e de um programa de estágio personalizado. Este é, por sua vez, elaborado “com o apoio de um painel internacional de mentores e desenvolvido junto de algumas das mais reputadas propriedades de vinho e bebidas espirituosas a nível global”. A somar este financiamento, cada bolseiro é convidado a visitar as propriedades da Sogrape no Porto, no Douro e noutras regiões vitivinícolas do país, na companhia da respectiva equipa técnica.
Richard Bampfield MW, Nina Basset FIH, da Fundação Gérard Basset, António Graça, Director de Investigação e Desenvolvimento da Sogrape, Joana Pais, Directora de Marcas Prestige da Sogrape, Jancis Robinson OBE MW e Neil Tully MW, em representação do The Institute of Masters of Wine constituem o painel de jurados responsável pela selecção dos vencedores.
Para informações detalhadas sobre o processo e o acesso ao formulário de candidatura, consulte: https://gerardbassetfoundation.org/scholarships/the-barca-velha-golden-vines-mw-scholarships-in-wine
Na foto, estão as vencedoras da edição de 2025 – Svitlana Karamshuk, ucraniana residente no Reino Unido, e a Leila Killoran, de origem iraniana e também radicada no Reino Unido –, e Fernando da Cunha Guedes, Presidente e CEO da Sogrape.
Comissão Vitivinícola do Algarve reforça enoturismo

A 2ª edição da Feira de Enoturismo, decorrida no passado dia 27 de Abril, e a iniciativa Road to Wine 2026, que tiveram lugar a 25 e 26 do mesmo mês, ambas organizadas pela Comissão Vitivinícola do Algarve (CVA), com o apoio do Município de Lagoa, foram determinantes para posicionar o Algarve no centro das […]
A 2ª edição da Feira de Enoturismo, decorrida no passado dia 27 de Abril, e a iniciativa Road to Wine 2026, que tiveram lugar a 25 e 26 do mesmo mês, ambas organizadas pela Comissão Vitivinícola do Algarve (CVA), com o apoio do Município de Lagoa, foram determinantes para posicionar o Algarve no centro das atenções de produtores, operadores turísticos, restauração, hotelaria e público em geral.
Para além das provas vínicas, o certame foi palco de partilha de informação sobre experiências e demais actividades desenhadas no âmbito da oferta turística ligada ao vinho. Já o Road to Wine conduziu profissionais numa viagem pelo território, por forma a dar a conhecer o trabalho que tem vindo a ser desenvolvido na região no âmbito da cultura da vinha e do vinho, bem como mostrar diferentes projectos de enoturismo.
De acordo com o comunicado da CVA, “a crescente adesão de profissionais e público confirma o dinamismo do sector e o interesse crescente pelo enoturismo, consolidando estas iniciativas como plataforma-chave para a promoção da região e para a criação de novas oportunidades de negócio”.


































