A Empresa de Vinhos Generosos do ano é… Real Companhia Velha

Real Companhia Velha

A história das empresas de Vinho do Porto, que chegaram até nós, é rica e complexa de explicar em poucas palavras. O que hoje conhecemos é o resultado de inúmeras fusões, aquisições e doações; famílias antigas que deixaram de produzir e outras que conseguiram manter o espírito de grupo e criaram algo de novo, com […]

A história das empresas de Vinho do Porto, que chegaram até nós, é rica e complexa de explicar em poucas palavras. O que hoje conhecemos é o resultado de inúmeras fusões, aquisições e doações; famílias antigas que deixaram de produzir e outras que conseguiram manter o espírito de grupo e criaram algo de novo, com base no espólio adquirido.

A Real Companhia Velha (RCV) é um caso paradigmático de empresa, que resulta da união de várias companhias e conserva, hoje, um carácter familiar. Os Silva Reis compraram a empresa Miguel de Souza Guedes em 1953 (e com ela a Quinta das Carvalhas) e, em 1960, a RCV. Com a aquisição da Real Vinícola, em 1963, a empresa tornou-se um gigante, mas não deixou de ser familiar. Actualmente, já há uma nova geração de Silva Reis empenhada na continuação deste legado. E o legado inclui muitos e extraordinários vinhos velhos que pudemos apreciar em 2025, tawnies que desafiam o tempo e revelam toda a apetência que o Vinho do Porto tem pelo “sono em cave”.

Real Companhia Velha

Pedro Silva Reis, CEO da empresa, ainda que nunca escondendo o seu gosto pelo Vinho do Porto e pela arte do blend, tem mostrado total abertura a novos rumos, nomeadamente nos DOC Douro, deixando, à nova geração, o poder de decisão sobre novos produtos e novas experiências, com base em uvas das várias quintas, sempre “abençoadas” pela mão segura de Álvaro Lopes e o “nariz” apurado do enólogo Jorge Moreira.

O portefólio dos vinhos velhos é muito completo, de que são bom exemplo os tawnies 50 e 80 anos provados, bem como os Very Old Tawny que não nos saem da memória. A conservação destes vinhos muito velhos reveste-se de grande dificuldade e um provador tem de ser formado ao longo de muitos anos. Não é assunto que se aprenda na Faculdade. E é esse saber antigo que as actuais empresas do sector têm de ser capazes de assegurar para as gerações futuras. A RCV já está a trabalhar nesse assunto. Pedro Silva Reis tem mostrado uma disponibilidade e uma abertura ao diálogo com a imprensa que é de registar: abre as portas, abre os livros, mostra os “segredos” e a conversa flui. Assim deveria ser sempre e na Real já é! J.P.M.

O Prémio Empresa de Vinhos Generosos do ano foi patrocinado por: BA Glass

(Artigo publicado na edição de Março de 2026)

 

PINHAL DA TORRE VINHOS: A identidade de um terroir do Tejo

A Pinhal da Torres Vinhos fica em terras planas, de lezíria, bem próximas do Rio Tejo e de Alpiarça, terra da Casa dos Patudos, a casa de José Relvas transformada em museu, que vale a pena visitar, e a Reserva Natural do Cavalo do Sorraia, onde se podem ver alguns exemplares daquele que era o […]

A Pinhal da Torres Vinhos fica em terras planas, de lezíria, bem próximas do Rio Tejo e de Alpiarça, terra da Casa dos Patudos, a casa de José Relvas transformada em museu, que vale a pena visitar, e a Reserva Natural do Cavalo do Sorraia, onde se podem ver alguns exemplares daquele que era o cavalo primitivo e autóctone do sul da Península Ibérica, segundo os escritos desta entidade. Paulo Saturnino Cunha, gestor do Pinhal da Torre, conta que a família produzia vinhos, na zona, há muitos anos. Lembra-se mesmo que os bisavôs que conheceu, três ao todo, tinham cada um uma adega, numa terra onde houve sempre produção de vinho a granel, como se fazia em quase todo o Portugal de outros tempos.

Pinhal da Torre
A sala de barricas da Pinhal da Torre, onde os vinhos estagiam entre três e quatro anos antes de saírem para o mercado

Volume e algumas coisas boas

O Ribatejo, hoje região vitivinícola do Tejo, era conhecido por produzir enormes quantidades de vinho, que abasteciam, principalmente, os restaurantes e as tabernas de Lisboa e as ex-colónias de África. As vinhas desenvolviam-se nos solos mais férteis e tinham produções elevadas, e as grandes casas agrícolas pretendiam obter o máximo rendimento, produzindo vinho de pouca qualidade, com o intuito de ser vendido a granel. A família de Paulo Saturnino Cunha chegou a ter 200 hectares de vinha com essa função, mas o pai “engarrafava algumas das coisas boas que produzia, para consumir em casa e dar aos amigos”, conta o nosso anfitrião. Nessa altura, a empresa familiar dedicava-se sobretudo à produção de morangos, para além das culturas de milho, tomate, entre outros produtos. Era o negócio principal. Ocupava 50 hectares de estufas e estufins na lezíria do Tejo, com uma produção média de cerca de 40 toneladas por hectare, parte exportada em fresco, em camiões, com destino a vários países europeus.

“Geadas tardias, que chegavam a dizimar toda a produção de morangos e obrigavam a esperar o nascimento de novos frutos, tornavam a actividade muito complicada”, conta o gestor. Outro problema era a mão de obra, em particular durante a colheita, época do ano em que podiam participar mais de 600 pessoas, que se tornou cada vez mais difícil de angariar na zona. Devido a este cenário, os seus antecessores chegavam a disponibilizar autocarros, para recolher pessoas em Alvaiázere e Pedrógão Grande, de modo a suprir as necessidades do negócio. Até que, em 1995, a casa suprimiu esta produção, por decisão familiar. “Nessa altura também vendíamos muito vinho a granel, e, quando se acabou com a produção de morangos, decidiu-se que iríamos apostar a sério na de vinho”, revela Paulo Saturnino Cunha, que vivia, na época, no Brasil.

Entretanto, o pai tinha tirado um curso na Estação Vitivinícola de Nelas. Influenciado talvez por isso e por ter mantido um relacionamento próximo com docentes, plantou nas suas terras clones do Dão da casta Touriga Nacional, bem como as brancas Cerceal-Branco e Bical, que “não vingaram, porque a qualidade dos vinhos a que deram origem não era muito boa”, declara, acrescentando que o primeiro engarrafamento de vinhos decorreu em 1999. No ano seguinte, foi produzido um “grande Touriga Nacional, que nunca perdeu uma prova às cegas com os melhores vinhos do mundo, incluindo os Mouton, Margaux e outros”, que os seus amigos organizavam enquanto esteve no Brasil.

Reconhecimento e notoriedade

A partir daí, os vinhos da empresa começaram a ganhar algum reconhecimento e notoriedade, sobretudo lá fora, “porque, em Portugal, tínhamos o problema de sermos da região que somos e, quando chegávamos a algum lugar para vender os nossos vinhos, os compradores mostravam-se desinteressados”, comenta Paulo Saturnino Cunha, referindo-se à reputação que a região tinha, o que não acontece hoje. Por isso, os responsáveis do Pinhal da Torre voltaram-se para o mercado externo, para onde chegou a ser vendida 93% da produção, sobretudo países como os Estados Unidos, Brasil, Inglaterra, China, Holanda, Luxemburgo e Suíça.

Foram dois os factores que levaram Paulo Saturnino Cunha a apostar no mercado externo. O primeiro foram as ‘reclamações’ que recebia dos amigos brasileiros, por não encontrarem os seus vinhos à venda, em Portugal, quando visitavam o país. O segundo foi a pandemia de Covid-19, que impediu as suas deslocações aos mercados externos para vender. A solução foi dedicar mais tempo ao nosso país a partir desse período.

“Dar mais atenção ao mercado nacional durante a pandemia, levou-nos a estarmos, hoje, presentes numa percentagem significativa dos melhores restaurantes de Portugal, do Algarve ao Norte, o que contribuiu para que tenhamos, hoje, uma disseminação muito grande no país, para onde vendemos, actualmente, 50% dos nossos vinhos”, conta o responsável pelo Pinhal da Torre, acrescentando que a distribuição é feita através de empresas de implantação regional. No exterior, o principal mercado, hoje, é o Brasil.

Pinhal da Torre
Apostar na oferta variada e diferenciada em termos de preço e perfis de vinho, tem sido fundamental para o negócio de Paulo Saturnino Cunha

 

Pelo menos, três anos em cave

Os vinhos são produzidos na Quinta de São João, na Quinta do Alqueve e em Águas Vivas, propriedades que perfazem um total de 40 hectares, dos quais 30 estão ocupados por vinha. A produção média é de cinco toneladas de uva por hectare, em resposta à obsessão de Paulo Saturnino Cunha por produzir vinhos com qualidade. É isso que o leva, e ao enólogo consultor da empresa, Mário Andrade, a guardar os vinhos em cave, pelo menos, três anos antes de os comercializar. É esse o tempo mínimo que as referências Antagonista e Protagonista, as de topo do portefólio da empresa, estão em madeira, nova e/ou usada, “que está presente, sem marcar o vinho, o que também tem a ver com o estilo do Mário Andrade”, informa o gestor.

Quanto a castas, são cerca de 20, com evidência para Verdelho, Arinto, Alvarinho, Fernão Pires e Malvasia Fina, que foi plantada o ano passado, nas brancas. Entre as tintas, refere Tinto Cão, Tinta Francisca, Sousão, Touriga Nacional, Touriga Franca, Alicante Bouschet, Ramisco e Baga. Ou seja, há uma grande panóplia de variedades para uma área não muito grande de vinha, com o intuito de disponibilizar uma oferta diferenciada.

“Um vinho, como nós o encaramos aqui, no Pinhal da Torre, não é um produto industrial”, defende, a propósito, Mário Andrade, acrescentando que é, sim exemplo de diferenciação, diversidade, “de uma conceptualização estética que implica ‘agarrar’ num solo, num clima, num sítio e interpretar isso de forma a ser reconhecido nos aromas e gostos do vinho que deitamos no copo e, de preferência, proporcionar prazer a quem o bebe”. E salienta que não é preciso fazer muito para isso acontecer.

 

Produzir uva pensando no vinho

Basta que a instalação da vinha tenha sido bem feita, adequada à produção de vinho e que “a sua nutrição obedeça a critérios enológicos, e não agrícolas”, que “não servem quando o objectivo do maneio da vinha é produzir uvas para vinho”. Para Mário Andrade, é necessário ir ainda mais ao pormenor, quando a finalidade é um vinho branco ou um vinho tinto, ou quando as castas são diferentes. “Se tenho um Aragonês e uma Trincadeira, estamos perante situações completamente diferentes, que implicam nutrir o solo para as condições mais adequadas à produção do vinho que queremos produzir, naquele terroir, a partir de cada uma das castas lá plantadas.” Depois é necessária alguma estratégia durante o ciclo vegetativo, para fornecer ar e luz à vinha e aos cachos. “Isto não significa luz directa nem correntes de ar, mas sim na medida certa conforme o ano”, explica o enólogo, acrescentando que é necessário ir adequando isso a cada ano vitícola.

Na produção de uva, o Pinhal da Torre segue um Plano Anual de Viticultura Biológica e Fertilização Sustentável, sem esquecer que as uvas têm de ser produzidas de forma a originar vinhos. “Para mim o papel da enologia começa no campo e acaba no copo do consumidor”, argumenta Mário Andrade. “Como a perfeição não existe e há contingências, vai-se tentando adaptar o caminho, tentando fazer o melhor possível”, assevera. Para o efeito, é importante que haja um bom planeamento na adega, de modo a “que as uvas sigam o seu processo natural na adega. Apenas é necessário fazer algum acompanhamento, provando os mostos durante a fermentação, para ver se fazemos mais ou menos maceração, de forma mais intensa ou menos, definir a altura de desencubar, juntar mosto de prensa ou separar e seguir isso naturalmente”, esclarece o enólogo.

“Apostarmos na produção de vinhos de qualidade numa região que não é fácil, como a do Tejo, e na criação de uma oferta variada e diferenciada em termos de preço e perfis de vinho, tem sido fundamental para nós e sente-se na forma como as pessoas reagem quando os provam”, diz, por seu turno, Paulo Saturnino Cunha. O gestor defende que ainda mantém o envolvimento, dedicação e esforço no negócio, “para não ser mais um. Quem prova os nossos vinhos, mesmo em provas comparativas, pode verificar isso”, continua o gestor, realçando o desempenho de Mário Andrade, cujo trabalho se afirma numa linha condutora, “uma identidade, que também se deve a usarmos apenas as nossas uvas para produzir os nossos vinhos”. O resultado desta acção traduz-se em, por vezes, em apenas três a quatro mil garrafas. “Apostamos na qualidade e não abrimos mão disso”, remata.

(Artigo publicado na edição de Março de 2026)

Conheça o TOP 30 dos Prémios Grandes Escolhas

TOP 30

Portugal é um país produtor de vinhos de excelência. E se alguém pode afirmá-lo com conhecimento de causa são os provadores da Grandes Escolhas: João Paulo Martins, José Miguel Dentinho, Luís Antunes, Luís Lopes, Miguel Ferreira, Nuno de Oliveira Garcia, Paulo Pimenta, Rui Caroço dos Santos, Sérgio Lopes e Valéria Zeferino. Ninguém, no nosso país, […]

Portugal é um país produtor de vinhos de excelência. E se alguém pode afirmá-lo com conhecimento de causa são os provadores da Grandes Escolhas: João Paulo Martins, José Miguel Dentinho, Luís Antunes, Luís Lopes, Miguel Ferreira, Nuno de Oliveira Garcia, Paulo Pimenta, Rui Caroço dos Santos, Sérgio Lopes e Valéria Zeferino. Ninguém, no nosso país, avalia tantos vinhos e tão diversos quanto esta equipa, que conjuga experiência e juventude, irreverência e sensatez, e tem, como denominador comum, o rigor, a isenção e o sentido de responsabilidade.

Quase 5.000 notas de prova, individuais e colectivas, foram sendo compiladas ao longo do ano, e a conclusão foi a esperada: os vinhos portugueses mostram uma qualidade média elevada, vincado carácter regional e, em muitos casos, aliam uma notável expressão de terroir à excelência qualitativa.

Identificar e premiar os vinhos que mais se destacaram em cada região, ou categoria, não foi, por isso, tarefa fácil. E seleccionar o nosso Top 30 foi mais árduo ainda. Para levar a cabo esta missão, de forma rigorosa e, tanto quanto possível, justa, estabelecemos critérios. Desde logo, não considerámos vinhos já premiados em anos anteriores. Depois, deixámos de fora os vinhos produzidos em quantidade inferior a 1.000 garrafas. E, adicionalmente, para ser elegível perante o exclusivo “clube” Top 30, o vinho em questão deverá ter sido provado e aprovado como merecedor por, pelo menos, três dos 10 provadores. Tal como habitualmente, optamos ainda por escolher o melhor entre os seus pares, nas categorias espumante, branco, rosé, tinto e fortificado.

Mas a excelência dos vinhos nacionais não se esgota nestes 30 exemplos. Muitos outros igualmente merecedores poderão ser encontrados nas páginas seguintes, agrupados por região e categoria. São todos eles vinhos de primeira grandeza, vinhos de sonho que espelham o Melhor de Portugal.

Nota: A ordem das imagens é aleatória e nada tem a ver com a pontuação dos vinhos. Consulte a nota de prova de cada referência clicando em cima das imagens das garrafas.

 

 

 

A empresa do ano é…. Sociedade dos Vinhos Borges

vinhos borges

A Sociedade dos Vinhos Borges foi criada em 1884 pelos irmãos António e Francisco Borges, fundadores do Banco Borges & Irmão, para a comercialização de vinho Verde e do Porto em Portugal, e para exportação. Mais tarde, no início do século XX, após a entrada de Artur Lello no capital da empresa e na sua […]

A Sociedade dos Vinhos Borges foi criada em 1884 pelos irmãos António e Francisco Borges, fundadores do Banco Borges & Irmão, para a comercialização de vinho Verde e do Porto em Portugal, e para exportação. Mais tarde, no início do século XX, após a entrada de Artur Lello no capital da empresa e na sua gestão, também foi impulsionado o negócio de produção de vinhos com a compra da Quinta da Soalheira, no Douro, em 1904. Segundo Gil Frias, Presidente da Comissão Executiva do grupo José Maria Vieira (JMV) e administrador responsável pela Borges, os anos mais prósperos decorreram desde o final da Segunda Guerra Mundial até ao período da revolução do 25 de Abril de 1974, quando a empresa passou para o Estado português, em conjunto com o banco Borges & Irmão, quando toda a banca foi nacionalizada. Só voltou para as mãos de privados em 1988, quando integrou o Grupo BPI.

A José Maria Vieira foi, desde os anos 70 até aos 90 do século XX, distribuidora da Borges de Coimbra para Norte de Portugal, quando o Grupo BPI decidiu alienar os seus activos não financeiros, incluindo a Sociedade dos Vinhos Borges. Constituído por sete empresas ligadas à produção de café e vinho, e distribuição, a “JMV viu aí uma oportunidade de entrar na produção de vinho, para verticalizar o negócio, da vinha quase ao copo do consumidor, estender a distribuição a todo o país e incorporar a carteira de clientes de exportação da Borges”, explica Gil Frias. A seguir, foi feito um “trabalho de reconstrução da empresa, da base ao telhado”.

Um dos pilares que sustenta o negócio é a produção. Inclui uma viticultura assente numa capacidade produtiva de cerca de 330 hectares e um sector de transformação, estágio e engarrafamento baseado em “adegas equipadas com a melhor tecnologia, para produzirmos vinhos como queremos”, salienta Gil Frias. Recentemente foi feito o remapeamento da vinha, com o intuito de colocar as melhores castas nas melhores parcelas e construída uma nova adega em Sabrosa, na região duriense, “melhor equipada tecnologicamente, a nível logístico, na recepção de uva, na forma de trabalhar e na capacidade em inox, mais adequada aos tipos de vinho que queremos fazer, o que nos permitiu ter um salto qualitativo muito grande em termos de vinhos do Douro”, acrescenta Gil Frias. Um investimento já recompensado pela qualidade dos vinhos que vão chegando ao mercado e pelo sucesso junto dos consumidores. J.M.D.

O prémio Empresa do ano é patrocinado por: Domino Portugal

(Artigo publicado na edição de Março de 2026)

Editorial: O valor da comunicação

editorial

Editorial da edição nrº 108 (Abril de 2026) Num recente podcast com Luís Gradíssimo surgiu uma reflexão que me parece pertinente e oportuna para partilhar: qual é, hoje, o papel de uma revista especializada na comunicação do vinho? Hoje em dia, todo o sector comunica com mais ou menos regularidade, com maior ou menor criatividade […]

Editorial da edição nrº 108 (Abril de 2026)

Num recente podcast com Luís Gradíssimo surgiu uma reflexão que me parece pertinente e oportuna para partilhar: qual é, hoje, o papel de uma revista especializada na comunicação do vinho?

Hoje em dia, todo o sector comunica com mais ou menos regularidade, com maior ou menor criatividade e com diferentes níveis de seriedade. Produtores contam as suas histórias, visão e princípios; agências de comunicação anunciam novas colheitas, mudanças de imagem e outros acontecimentos; garrafeiras apresentam novidades e organizam provas; bloggers e influencers promovem o vinho através do lifestyle. Tudo faz parte do ecossistema e tudo tem o seu alcance, e o seu propósito.

As redes sociais vieram dinamizar a mensagem e trouxeram uma enorme democratização da conversa sobre vinho. Hoje, qualquer pessoa pode partilhar livremente as suas experiências vínicas. Isso é positivo e ajuda o sector: o vinho é, por natureza, uma bebida social e faz todo o sentido que seja falado e apreciado em conjunto, tal como acontece com o cinema ou a música.

Mas, com a abundância de informação também aumenta a necessidade de fontes em que se possa confiar. A fragmentação e a rapidez com que a informação circula nem sempre favorecem a profundidade e a verificação de factos. É precisamente aqui que reside o valor de uma revista especializada: rigor, contexto e continuidade.

O nosso trabalho não se resume à divulgação de notícias (embora também haja espaço para isso no nosso site) nem a arbitragens baseadas em gosto pessoal. Ajuda a filtrar informação, a dar profundidade aos temas e a manter uma narrativa consistente sobre o que está a acontecer no sector. Contudo, não devemos ter a ilusão de que conseguimos convencer alguém que não quer, de todo, consumir vinho, seja porque não gosta do sabor ou porque acredita que uma vida saudável o exclui por completo. Tentar alcançar estas pessoas seria tão inútil como insistir em levar um agnóstico à igreja.

O que podemos fazer é ajudar a compreender o vinho a quem já se interessa por este tema, alimentando a sua vontade de saber mais. Não se trata de ditar o que escolher para beber, mas de encorajar escolhas conscientes, com base na informação e na análise que proporcionamos.

Não pretendemos dizer o que é bom ou mau, mas, sim, mostrar a ligação entre causas e consequências das diferentes abordagens enológicas, desmistificar certas noções e tendências, e fazer crítica comparativa, oferecendo contexto, retrospectiva e perspetiva. Cabe ao leitor tirar as suas próprias conclusões.

Se tivesse que resumir a nossa linha editorial numa pirâmide, diria que, na base, estão valores fundamentais, como conhecimento, credibilidade, rigor, consistência e isenção – aquilo que sustenta a confiança dos nossos leitores. No nível seguinte surge o nosso trabalho editorial: reportagens, análise, contexto e interpretação do que acontece no mundo do vinho. No topo fica a dimensão lifestyle: o prazer, a cultura, a descoberta e a experiência que o vinho proporciona; é a parte que aproxima as pessoas do vinho. Esta dimensão ganha vida nos eventos que a Grandes Escolhas organiza e que promovem o contacto directo com produtores, provas especiais e temáticas, experiências sensoriais e harmonizações gastronómicas.

Por fim, o melhor comunicador é o próprio vinho que está no copo a cada momento, independentemente do storytelling do produtor, da nossa pontuação ou do gosto de qualquer outra pessoa à mesa. V.Z.

A Adega Cooperativa do Ano é….. CARMIM

CARMIM

Fundada em 1971, a CARMIM é uma cooperativa gerida de forma altamente profissionalizada em todas as suas vertentes, da viticultura à enologia, da área comercial ao marketing. Sem nunca perder de vista que na base de tudo estão as pessoas e, em particular, os seus associados que, dia a dia, trabalham as vinhas de Reguengos. […]

Fundada em 1971, a CARMIM é uma cooperativa gerida de forma altamente profissionalizada em todas as suas vertentes, da viticultura à enologia, da área comercial ao marketing. Sem nunca perder de vista que na base de tudo estão as pessoas e, em particular, os seus associados que, dia a dia, trabalham as vinhas de Reguengos. Foram estes atributos, aos quais se adicionam uma oferta de vinhos bastante consistente, encimada pelo excelente Garrafeira dos Sócios, que justificaram a escolha para o Troféu da categoria Cooperativa relativo ao ano de 2024.

Acontece que, no final de 2025, a CARMIM apresentou ao mercado o projecto Raízes. Materializado em vinhos, claro, é bem mais do que isso. As palavras do Director-Geral João Caldeira, que fez a apresentação pública ao lado do presidente Miguel Feijão, dizem praticamente tudo: “Queremos acabar com o preconceito ligado ao vinho de cooperativa. Queremos mostrar que quem controla e conhece 3.000 hectares de vinha tem tudo para poder criar vinhos especiais e diferenciadores, que marquem presença nos mais conceituados restaurantes e garrafeiras”. Com a linha Raízes, a CARMIM posiciona-se assim num segmento de mercado que, tradicionalmente, uma adega cooperativa não se atreve a ambicionar. Não se trata apenas de preço. O que torna este projecto pioneiro é, sobretudo, o perfil dos vinhos e o storytelling que o acompanha, orientados para um nicho muito específico de consumidores.

Para alcançar a exclusividade e singularidade pretendidas, os enólogos Rui Veladas e Tiago Garcia buscaram as vinhas velhas, as castas históricas, e uma vinificação bastante respeitadora do terroir. Visitaram e avaliaram muitas das vinhas mais antigas dos associados para, no final, seleccionarem uma parcela plantada em 1979, por Leonel Franco, sócio nº4 da CARMIM. Sem rega, em solo granítico franco-arenoso, esta vinha teve acompanhamento diferenciado ao longo de todo o ciclo vegetativo. Na vindima de 2024 foi produzido um branco, um rosé e um tinto. O branco, de Arinto e Roupeiro, e o rosé, de Tinta Caiada, já estão no mercado, e impressionaram muito, pelo carácter, elegância e frescura. O tinto, feito de Trincadeira e Carignan, só deverá aparecer no final deste ano, mas a prova em ante-estreia mostra que segue o mesmo rumo de finesse e ainda com mais brilho. A linha Raízes é assim um grito de revolta contra as ideias feitas e ilustra uma certeza: se trabalhar com esse propósito, nada impede uma cooperativa de criar vinhos aspiracionais, raros e diferenciadores. L.L.

(Artigo publicado na edição de Março de 2026)

ACIBEV com novos órgãos sociais

ACIBEV

O mandato para o triénio 2026-2029 da ACIBEV – Associação de Vinhos e Espirituosas deu início no passado dia 23 de março, com a apresentação dos novos órgãos sociais da referida associação empresarial. De acordo com o organigrama, Nuno Cancella de Abreu (Sociedade Agrícola Boas Quintas) assume a Presidência da Mesa da Assembleia Geral. Leonor […]

O mandato para o triénio 2026-2029 da ACIBEV – Associação de Vinhos e Espirituosas deu início no passado dia 23 de março, com a apresentação dos novos órgãos sociais da referida associação empresarial. De acordo com o organigrama, Nuno Cancella de Abreu (Sociedade Agrícola Boas Quintas) assume a Presidência da Mesa da Assembleia Geral. Leonor Freitas (Casa Ermelinda Freitas) e Rita Nabeiro (Adega Mayor) são as eleitas para a função de secretário.

Na Direcção, António Maria Soares Franco (José Maria da Fonseca) passa a ocupar o cargo de Presidente. Os vogais são Eduardo Medeiro (Grupo Bacalhôa Vinhos de Portugal), Francisco Barata de Tovar (Quinta and Vineyard Bottlers), João Maria Ramos (Gestvinus), Jorge Monteiro (Aveleda), Luís Vieira (Grupo Parras), Pedro Lufinha (Quinta da Alorna Vinhos), Pedro Pereira Gonçalves (WineStone Group) e Raquel Seabra (Sogrape Vinhos). Já no Conselho Fiscal é Luísa Amorim (Grupo Amorim) quem está como Presidente, tendo Armindo Gomes (Ferreira Gomes & Filhos) e Carlos Mendes Gonçalves (Mendes & Gonçalves) como vogais.

No âmbito deste novo mandato, António Maria Soares Franco considera conjuntura actual um desafio, “cabendo à ACIBEV, enquanto associação mais representativa das empresas produtoras de vinho em Portugal, contribuir com as suas posições construtivas, consistentes e inovadoras, para a criação de um ambiente propício à valorização e crescimento do sector” e sublinha o “espírito de grande abertura e diálogo com toda a fileira vitivinícola”, no sentido de “reforçar a competitividade e reputação dos nossos vinhos, ajudando a criar condições, para que o sector se continue a afirmar com qualidade e ambição”.

Fundada em 1975, a ACIBEV é uma associação sem fins lucrativos, que representa os interesses dos seus 94 associados, bem como a promoção e defesa da indústria e do comércio de produtos do sector vitivinícola e das bebidas espirituosas, bem como vinagres e destilação de produtos vínicos, em Portugal e além-fronteiras.

ACIBEV

O Produtor do ano é….. Quinta da Rede

Produtor

Num Douro que nasceu para o Vinho do Porto, as suas zonas limítrofes foram quase sempre encaradas como de “terceira categoria”. Quando os vinhos não fortificados se começaram a impor no mercado, esse preconceito atenuou-se, mas não desapareceu. Porém, na última década, vindimas quentes associadas à crescente procura por vinhos mais leves e frescos, vão […]

Num Douro que nasceu para o Vinho do Porto, as suas zonas limítrofes foram quase sempre encaradas como de “terceira categoria”. Quando os vinhos não fortificados se começaram a impor no mercado, esse preconceito atenuou-se, mas não desapareceu. Porém, na última década, vindimas quentes associadas à crescente procura por vinhos mais leves e frescos, vão mudando a percepção. E a Quinta da Rede tem vindo a ganhar com isso.

O verão tórrido e seco de 2022, que em tantas zonas do Douro, sobretudo as mais próximas do rio, nos mostrou videiras sofridas, amareladas, ansiando por uma gota de água, revelou, aos olhos mais atentos, o carácter diferenciador daquele local e daquela propriedade, designada por Quinta da Rede desde antes da demarcação pombalina. Ali, à beira da região dos Vinhos Verdes, as vinhas preservavam o aspecto viçoso e saudável, mesmo no pico do calor. E nas outras parcelas da quinta, que se estendem pelas encostas do Marão até aos 500 metros de altitude, a diferença era (e é) ainda mais sensível.

José Alves comprou a propriedade em 1995 e ali foi residir com sua família. Nascido e criado em Mesão Frio, desde sempre trabalhou no mundo do vinho, ligado à produção e comércio a granel. Após adquirir a quinta que conhecia desde menino, foi ganhando “fôlego”, para cumprir o objectivo principal: produzir um vinho desde a videira até à garrafa e colocá-lo no mercado com a sua marca. Recuperou a vinha, mantendo as parcelas mais antigas, construiu adega, com lagares mecânicos e sala de barricas climatizada, e fez a primeira vindima em 2007. Hoje, José Alves trabalha as uvas provenientes dos 19 hectares de vinha, com o apoio de Jorge Cardoso, enólogo residente, e Paulo Nunes, enólogo consultor.

Não por acaso, os brancos da Quinta da Rede ganharam fama muito mais rapidamente do que os tintos. Mas também estes, num perfil onde a estrutura ácida é evidente, vão cada vez mais ao encontro do mercado que busca a diferença. O portefólio tem o primeiro degrau na referência Rede, brancos, rosés e tintos com assinalável relação qualidade/preço. Mas é na marca Quinta da Rede que as coisas se tornam ainda mais sérias. Em 2025 provámos, entre outros, os brancos Reserva 2023, Vinha do Pinheiro 2020 (a tal parcela do Marão), Grande Reserva 2020 e Reserva da Família 2019; o Reserva rosé 2024; e os tintos Sousão 2023 e Reserva da Família 2019. São vinhos marcantes, que aliam qualidade e personalidade a sentido de lugar. E que colocam a Quinta da Rede e este Douro de fronteira, mais vibrante e fresco, sob a atenção da crítica e dos apreciadores.

O Prémio Produtor do ano foi patrocinado por Copidata

(Artigo publicado na edição de Março de 2026)