SOGRAPE: Ferreira, Sandeman e a “mão de Deus”

A apresentação dos vintages da Sogrape foi um momento de celebração e, claro, de regozijo. É que desde 2018 que a Ferreira não declarava um Vintage Clássico. O termo clássico, muito caro às empresas inglesas e muito negligenciado por muitas outras, é aqui empregue, porque foi nesses termos que Luís Sottomayor, chefe da equipa de […]
A apresentação dos vintages da Sogrape foi um momento de celebração e, claro, de regozijo. É que desde 2018 que a Ferreira não declarava um Vintage Clássico. O termo clássico, muito caro às empresas inglesas e muito negligenciado por muitas outras, é aqui empregue, porque foi nesses termos que Luís Sottomayor, chefe da equipa de enologia da Sogrape, se referiu à edição de 2024 dos vintages da empresa.
Recordemos que, para os ingleses, clássico significa que se trata de um ano excepcional em que são editados vinhos com o próprio nome da empresa, como Fonseca, Taylor’s, Graham, etc. A distinção faz-se em relação aos anos não clássicos, para os quais a comunidade inglesa criou a designação single quinta, vintages com nomes das quintas, bem mais baratos e, em princípio, sem a profundidade e longevidade dos clássicos.
O ano de 2014 é um ano clássico e todo o sector está a declarar com as principais marcas. Isso já não acontecia desde o último Clássico, o de 2017. Curiosamente, e teimosamente, a Ferreira, optou por não declarar o 2017, mas sim o 2018. E Luís Sottomayor não se arrepende, tal como deixou transparecer recentemente, reafirmando o seguinte: “no futuro, ainda me vão dar razão de ter declarado o 18 e não o 17!”
Em relação aos mais recentes anos realmente declarados por todos (2011), poderia haver a tentação de uma comparação com o 2024. No entanto, o 2011 foi um ano muito mais quente. Gerou vinhos poderosos, mas mais gordos e cheios, ao contrário do 2024 que, beneficiando de um clima favorável, originou vinhos muito mais elegantes e finos. Percebe-se, assim, melhor o comentário do enólogo: “o vintage [20]24 tem uma classe que o [20]11 não tinha!”
Duas casas, diferentes tempos e estilos
As uvas vêm da mesma região, por vezes de zonas bem próximas, e com elas podem fazer-se perfis de Vinho do Porto bem diferenciados. No caso da Ferreira e da Sandeman, esse aspecto é relevante. O facto de, em novos, os vinhos serem mais ou menos robustos não condiciona necessariamente a evolução em cave. Se no momento do nascimento forem feitos com equilíbrio e bom balanço, podem atingir o mesmo nível de qualidade. Na Ferreira fazem-se vinhos que nascem com elegância, no seguimento do estilo criado por Fernando Nicolau de Almeida, sempre bem distinto do estilo dos ingleses; já na Sandeman são vinhos mais rijos, com taninos bem presentes, feitos com muito engaço, para terem aromas um pouco mais herbáceos e vegetais.
A Sandeman só entrou para o universo Sogrape em 2002 e houve uma mudança de estilo uma vez que, segundo Luís Sottomayor, sobretudo nos anos 80 do século XX, os vinhos estavam em perda de definição. Em 1994 o vinho mostrou uma recuperação de perfil que se concretizou, depois, no de 1997, ora provado. Tradicionalmente, a Sandeman abastecia-se em pequenos produtores, em Celeirós, Pinhão e Rio Torto; a primeira propriedade que esta casa possuiu foi a Quinta do Vau. No fundo, todas as empresas ainda compravam (e compram) vinho feito, sobretudo em adegas cooperativas, para suprir as lacunas em vinho e, ao mesmo tempo, cumprir o benefício.

Feitas as apresentações, importa falar acerca da prova de vintages, momento em que foram revisitadas algumas edições antigas das duas empresas. Da Ferreira, provámos o Vintage de 1952, nascido numa década muito parca em bons vintages. O grande ano Clássico dos anos 50 foi o Vintage de 1955; nos outros anos, aqui e ali, houve vintages interessantes. O de 1952, nascido provavelmente em vinhas de field blend, teria uvas da Quinta do Seixo, Eira Velha (propriedade que, hoje, pertence à Fladgate), Quinta de Roriz e, talvez, algum vinho da Quinta do Vesúvio. As uvas eram vinificadas nas propriedades do Douro. Os lotes eram feitos em Gaia. Este Vintage de 1952 mostrou-se acastanhado na cor, com uma delicadeza aromática estonteante, uma riqueza de pequenas nuances, onde já se revelavam alguns frutos secos ao lado de notas licoradas e fruta em calda, caramelo e leite-creme, com perfeito equilíbrio na boca (19,5). Este Vintage nasceu no mesmo ano do primeiro Barca Velha e Luís Sottomayor fez questão em salientar: “ainda está aqui com capacidade para viver, e bem, em garrafa!”
Provou-se também o Vintage Sandeman 1963, um ano verdadeiramente marcante na história do Vinho do Porto. Foi o primeiro fôlego positivo depois do ambiente depressivo do pós 2ª Guerra, em que o vinho não se vendia e as empresas estavam descapitalizadas. Foi também o último ano que, no Douro, todo o Vinho do Porto foi feito a lagar. A partir de 1964 começaram a usar-se os auto-vinificadores e o Douro não voltou a ser o mesmo. O Vintage de 1963 que, em conjunto com o de 1966, formam os dois anos clássicos da mesma década, mostrou ainda bons tons avermelhados (ao contrário do Ferreira de 1952), com muito boa presença aromática, muito fino, a notarem-se com evidência os tradicionais aromas de garrafa. Licorado na boca, ainda com atractiva austeridade (19).
Da Sandeman provámos também o 1997. Aqui também falamos de um ano Clássico. Mostrou-se com muita cor, aroma com leve oxidação, mas boa fruta vermelha em compota. Ainda com taninos firmes, combinando estrutura com suavidade. Nesta época seria seguramente a Quinta do Vau a base das uvas para este Vintage (18).
Para completar esta prova, que antecedeu a dos 2024, ainda provámos o Ferreira Vinhas Velhas 2018. O vinho mostrou-se extraordinário, com grande estrutura, vigoroso, doce, mas no ponto certo, a revelar uma saúde de ferro e um equilíbrio a que a acidez deu forma. Logo na altura da pisa a pé, nos lagares da Quinta do Seixo, Luís Sottomayor afirmou, ao provar o mosto do 2018 que não se lembrava de ter provado um vinho de vindima com aquela qualidade; a mesma sensação foi evidente em 2024. São vinhos com um açúcar que ronda os 100 gramas por litro, embora essa doçura não seja evidente, permanecendo escondida pela complexidade do vinho.
Nos Vintage Ferreira, encontramos sobretudo Touriga Nacional, Touriga Francesa e Sousão, tudo vinificado em conjunto. Nos Sandeman, temos uvas de vinha velha, Touriga Nacional, Touriga Francesa e mais Sousão, com mais peso do engaço.
O facto da Sogrape dispor de 600 hectares de vinha na região do Douro permite identificar as parcelas que poderão contribuir para o estilo de cada uma das casas. Podemos afirmar que o backbone da Sandeman é a Quinta do Seixo (margem esquerda) e o da Ferreira é a Quinta do Porto (margem direita). Também foi declarado o Vintage Offley que terá, sobretudo, expressão em alguns mercados externos, como a Dinamarca. Não foi objecto de prova.
Os vinhos novos são colocados em tonéis não atestados, com algum ar e é isso que permite verificar quais os que aguentam esse embate. Os que oxidarem rapidamente mostram que não têm garra para aguentar o futuro. É um teste fundamental. Estes, cremos, têm um longo futuro pela frente. Os preços são indicativos e não vinculativos.
(Artigo publicado na edição de Agosto de 2026)
O senhor tomate e suas nobres declinações

Estamos na época dele. Consumido cru em salada, integrado em caldos ou no fundo de cozinhados longos, este é o momento certo de lhe fazer a justa homenagem. Portugal tem fortes responsabilidades no consumo do fruto que se vende na secção de legumes. Não é o maior amigo do vinho, mas há caminhos bons para […]
Estamos na época dele. Consumido cru em salada, integrado em caldos ou no fundo de cozinhados longos, este é o momento certo de lhe fazer a justa homenagem. Portugal tem fortes responsabilidades no consumo do fruto que se vende na secção de legumes. Não é o maior amigo do vinho, mas há caminhos bons para o explorar.
O que temos como certo é que é coisa recente na história da Europa. Há 400 anos apenas, o tomate ainda era tratado como coisa rara, apenas ao alcance da realeza e da corte espanhola. Hoje, nem nos atrevemos a pensar que o tomate pode faltar nas nossas hortas e nas nossas mesas. Foram os descobridores espanhóis que lhe pressentiram a utilidade e, mesmo assim, de forma renitente. Vieram da América do Sul com a designação que lhes foi então comunicada, de zitomatl, como incas e astecas se lhe referiam.
Os irrequietos mercadores turcos terão divulgado com mais eficácia o produto, limando as arestas à grafia original. Nasceu assim o “tomato” e o tomate, que é atualmente como conhecemos o nosso amigo. Volta diferente levou por Itália, já que aí entrou como “fruta dourada” ou pomo d’oro. Em italiano, o produto ficou imortalizado como pomodoro, e é assim que se diz tomate em Itália.
Por cá, ficámos numa situação intermédia, mas é inequivocamente tomate o que lhe chamamos. Solanum lycopersicum é o nome científico que lhe é internacionalmente atribuído. Quer dizer que é um legume do grande grupo das solanáceas, no qual encontramos também a batata, o pimento e a beringela, entre muitos outros. É possível, no entanto, considerá-lo como fruto do tomateiro. No supermercado, encontramo-lo inequivocamente entre os legumes, mas ligações ao tomate cereja e a doçura que adoramos no tomate coração de boi fazem-nos pensar que não é assim tão óbvio. O assunto é tão apaixonante quanto fraturante. Há que assumir, contudo, essa dualidade, se lhe quisermos sondar a dualidade que evidentemente tem.
Produção mundial e por cá
O maior produtor de tomate é a China, onde a produção total ultrapassa 67 milhões de toneladas anuais. Número impressionante, com a qual talvez não contássemos. Em segundo lugar surge a Índia, com os incríveis 21 milhões de toneladas anuais. A Turquia é o terceiro maior na produção deste fruto, com 13 milhões de toneladas a seu cargo, no quadro global. Os EUA produzem dez milhões de toneladas. A Itália é responsável pela produção de sete milhões de toneladas, seguida do Egito (6,2 mil toneladas) e Espanha (4,7 mil toneladas). Portugal ocupa um honroso 15º lugar, com a surpreendente produção de 1700 toneladas.
O cenário muda muito quando olhamos para a produção per capita. Aí, podemos dizer que Portugal é campeão mundial, já que a produção anual no nosso país é de cerca de 170 quilos por pessoa. A Turquia ocupa o segundo lugar, com 160 quilos por pessoa, e a Itália o terceiro, com 110 quilos por pessoa. O Ribatejo concentra a maioria da produção do tomate português, e a Unilever sabe-o bem.
Numa longa conversa que tive há uns anos com o presidente desse industrial da alimentação mundial, confidenciou-me que a referida empresa é o maior comprador de tomate do nosso país. Também me disse que era para sopa de tomate Knorr, líder absoluta de vendas e muito do gosto de todo o mundo. Tive o raro privilégio de visitar uma unidade de produção na Alemanha que mudou a forma. Como olho para o mercado global. No caso vertente, com admiração imensa, claro. E passei a ser cliente desta sopa de tomate. Ainda hoje utilizo o muito que aprendi com os chefs que produzem delícias a partir desta simples sopa de pacote.
É bom para a saúde
Sabemos, por experiência própria, que o tomate apresenta uma acidez fixa notável. E aprendemos que contém boa doçura. Na sua época, podemos comê-lo à dentada, como se de uma maçã se tratasse ou de um fruto ainda mais doce. O tomate é, de facto, um fruto notável, e atinge o seu auge exatamente nesta altura do ano. Conhecemo-lo em cores e pontos de maturação variáveis e utilizamo-lo intensamente, em diversas aplicações.
Em jeito de voo rasante, vale a pena olhar para o seu perfil nutricional e energético. Começa por ser benéfico para o coração. Por ser rico em elementos antioxidantes, mantém veias e artérias mais limpas, favorecendo muito a circulação. Além disso, é precioso na regulação da tensão arterial. O licopeno, componente importante do tomate, juntamente com vitamina C e outros antioxidantes, contribui muito para a saúde e condição do sistema cardiovascular. Encontram no potássio parceiro forte nessa tarefa.
Outro aspeto para o qual tendencialmente olhamos menos, o consumo regular de tomate ajuda a manter uma pele macia e corretamente hidratada. Minimiza os poros dilatados e ajuda a regular com maior eficácia a perda excessiva de líquidos. A visão também beneficia muito com o consumo de tomate. A riqueza em vitaminas A e C é determinante para esse efeito e, sobretudo, os betacarotenos, que, entre outros, combatem o surgimento de perturbações, como as cataratas. Tornam-nos mais eficazes na ação anti-inflamatória de que precisamos todos os dias. A composição dos ossos é favorecida com a presença forte de vitamina K. Na forma direta, faz frente a maleitas crónicas, como a osteoporose.
Tem trono na cozinha portuguesa
Praticamente todas as preparações de caldos e fundos de cozinha portugueses utilizam o tomate como base. A mais evidente é o gaspacho, a sopa fria de que tanto gostamos. Podemos fazê-lo à moda andaluza, com base triturada de tomate e ervas aromáticas, depois gelada e consumida como se de um refresco se tratasse. Juntamos-lhe brunesa apertada de pepino e outros hortícolas e temos uma fonte rica e sápida que na canícula nos salva a vida.
O gaspacho alentejano é mais explícito neste aspeto nutritivo, pois é estritamente baseado no corte dos ingredientes crus; o resto é feito pela alquimia a que a boa cozinha alentejana nos habituou. Confesso a minha preferência por esta abordagem, pois aprecio particularmente a interação com os diferentes componentes frios na mastigação. Se acrescentar uns pedaços de presunto, cria mais uma dimensão na perceção do gosto. Gosto muito de harmonizar o gaspacho com um Chardonnay de Lisboa sem madeira. A riqueza aromática do vinho vai combinar na perfeição com o património de ervas aromáticas que utilizar.
Um bom fundo de caldo para estufar ou assar uma peça de carne também gosta e agradece a presença de bom tomate. O processo de cozedura prolonga-se por mais tempo, e o proveito é maior, em termos de sabor. Aliás, é muitas vezes aqui que está a transição para vinho tinto no momento de harmonizar. Uma perdiz estufada à portuguesa precisa e gosta de um tinto encorpado, ainda que elegante. Por outro lado, um pargo assado fica muito valorizado com uma cama de legumes que inclua tomate. Está aqui a combinação ótima para tomate chucha. Com um piso de orégãos e alho por debaixo, o sabor vai mais longe, assim como o prazer.
Na cozinha de inspiração italiana o tomate é fundamental. Pegue num tomate e escalde-o ligeiramente, para que pelá-lo se torne tarefa mais simples. Pique um alho bem picado, junte-lhe azeite numa sertã, folhas frescas de manjericão e faça um fundo para massas que, juntamente com o tomate salteado e cortado, vai dar origem a um fundo que pode congelar em porções a utilizar a gosto quando precisar. Na ligação com o vinho, não se esqueça de que talvez resulte melhor um tinto ligeiro ou mesmo um rosé do que um branco, por ser mais acídulo. Ideal é um tinto alentejano pouco extraído, sem estágio em madeira.
Um galo estufado em vinho tinto precisa e merece bom tomate na composição do fundo. Trata-se de um prato de gosto internacional que não vive sem tomate na composição do fundo de cozinha utilizado. Uma boa base de partida é o maravilhoso capão à Freamunde, que, hoje, já se garante ao longo de todo o ano. Uma perna de capão assada no forno faz-se e aguenta da mesma forma que se faz um pernil de porco. A gordura que tem na sua estrutura vai-se libertando lentamente e nós vamos esperando pacientemente, num jogo que dura três horas, a última das quais passada na companhia de tomate, em fusão perfeita de sabores e texturas. Do caldo do assado faz-se um ótimo arroz e do tomate que restou faz-se uma bela salada caprese. Corta-se o tomate em rodelas e junta-se queijo mozarela fresco e rega-se com bom azeite virgem extra. É a glória e o triunfo da autêntica cozinha mediterrânea.
Em compota, iguaria de deuses
Estava eu na escola primária quando a professora Beatriz, num dia para mim inesquecível, se apresentou logo de manhã com um frasco de doce de tomate e bolachas de água e sal. Apenas duas colegas minhas de família ribatejana conheciam, e adoravam. Todos os outros, meninos da cidade, estavam completamente no escuro neste assunto. Nessa altura, eu fugia do tomate como o diabo da cruz e foi a medo que provei um pouco do doce de tomate da Beatriz. A minha reação foi tão efusiva que, mais tarde, tive direito a um frasco inteiro para levar para casa e dar a provar à minha família. Tinha o sabor do tomate, mas explorava apenas o lado frutado, nada de amargos nem acidez que provocasse sequer a mínima rejeição. Depois conversámos durante algumas aulas sobre o tomate e fiquei rendido. Passei a gostar de tomate maduro em salada e em sopa. É com despertares destes que verdadeiramente despertamos para a vida. E o doce de tomate da minha querida e primeira professora Beatriz ficou-me marcado na memória como o melhor do mundo. Até hoje, não foi destronado, o que quer dizer que fui bem iniciado.
Tenho tido, nos últimos anos, o grato prazer de provar tomate coração de boi do Douro. Aconteceu ocasionalmente a iniciação como acompanhamento de um excecional cabrito numa quinta da referida região, com os olhos postos no rio Távora e na torreira do sol. Achei excelente e quis visitar a horta, no que fui atendido, mas no final da tarde, porque a temperatura ultrapassava os 50º C.
O tomate coração de boi é universal, mas no Douro tem expressão particular. Tanto, que um grupo de produtores se junta atualmente em evento e concurso dedicado ao copioso fruto. Hoje, temos concursos para tudo, e ainda hoje não estou convencido de que se deva fazer tal aproveitamento de um produto excecional como é o tomate coração de boi do Douro. A festa que acontece e a dinamização cultural que com os anos consolidou, no entanto, justificam vastamente que se aprofunde o assunto.
Seco, pelado e em creme
Quando a família dinamarquesa Jorgensen decidiu fixar-se no Alentejo, dedicou-se a duas produções muito especiais: o tomate seco e a meloa. Só conheci a Carrie e o Hans Jorgensen anos mais tarde, quando ambos os negócios tinham sido derrotados pela voracidade da grande distribuição e por resistência à mudança; e quando o consultor de viticultura australiano Richard Smart os estava a assistir na plantação das que viriam a ser as vinhas de Cortes de Cima.
No entanto, em casa consumiam e utilizavam tomate seco em muitas aplicações. Hoje, a filha Anna Jorgensen é a responsável pelos vinhos e já diversificaram as vinhas, a ponto de terem produção junto ao mar. Fazem belíssimos vinhos e o assunto do tomate seco ficou devidamente arquivado. Como sou do contra, continuo a utilizá-lo em saladas e num lombo de porco assado que faço em casa. Confesso que lamento o abandono prematuro da produção. Porém, vou-me consolando com o que vou encontrando no Apolónia, no Algarve, e no El Corte Inglés, em Lisboa.
O já referido gaspacho andaluz pode ser feito com tomate pelado de lata, desde que se escolha bem o produtor. Falei sobre ele na conversa longa que tive com o presidente da Unilever, e é sem dúvida um produto premium que Portugal tem , mas pode não estar a utilizar em pleno. Por outro lado, está omnipresente em soluções culinárias de menos qualidade. Importante é reter que não temos de estar à espera do tempo do tomate para ter um bom gaspacho na mesa. A indústria já tratou disso. Tanto, que até temos hoje bisnagas de creme de tomate prontas a utilizar. No Apolónia existe em várias marcas, todas ótimas. Para enriquecer uma massa italiana ou para fazer um arroz rápido, funciona perfeitamente.
Histórias e estórias com tomate
Não posso deixar de partilhar algumas petites histoires com o fruto de que temos estado a falar. E algumas glórias que guardarei para sempre na memória. Quando vamos ao maravilhoso Manjar do Marquês, em Pombal, damos com uma grande casa capaz de albergar centenas de comensais. A cozinha tem ótimos profissionais, mas continua a ser Maria de Lurdes Graça, a proprietária, a fazer o arroz de tomate. A grande senhora confidenciou-me, há muitos anos, que o dito arroz é feito em nunca mais de dois quilos de cada vez, para manter intactos o cereal e o sabor. O arroz é carolino, como tem de ser, mas o segredo maior está no tomate. É que em cada campanha, a casa abastece-se de tomate e mantém-no em câmaras frigoríficas brutais, instaladas por debaixo de todo o espaço do restaurante.
Em Lisboa, no restaurante Galito, faz-se a melhor sopa de tomate que conheço. Henrique Galito e seu filho Leonardo produzem o que outrora só existia na Serra d’Ossa, perto do Redondo. Falo da sopa de tomate com garoupa e ovo escalfado, absolutamente redentora. Foi Gertrudes Forte, mãe de Henrique Galito e avó de Leonardo, que lançou as bases desta maravilha, que continua a fazer-se. E a fazer-nos mais felizes.
Também pelo Alentejo, pulsa bem forte um coração inquieto e desinstalado, no peito do enorme chef António Nobre. Neste momento da sua vida, está retirado das lides profissionais, mas é a ele que devo uma das maiores surpresas à mesa. Falo das coxas de rã de tomatada, iguaria que devia constar da bandeira nacional. Nem toda a gente gosta, sobretudo quem nunca provou e tem aversão a provar. Quem provou, quer e deseja. Equilíbrio notável de sabores, comem-se à mão uma a seguir à outra, e nada nem ninguém nos faz parar. Devemos todos muito a António Nobre, por delícias como esta, que soube aprimorar como ninguém. E viva o tomate!
(Artigo publicado na edição de Agosto de 2026)
PAULO TEIXEIRA VINHOS: Projeto de família em Ponta Delgada

“Tudo isto nasce de um sonho, de querer fazer algo diferente.” As palavras de Paulo Teixeira, proferidas na inauguração da nova loja Paulo Teixeira Vinhos, revelam a enorme paixão manifestada pelo próprio em relação ao mundo dos vinhos, pelo qual enveredou nos anos 90 do século XX. Situado no Caminho da Levada, “a dois quilómetros, […]
“Tudo isto nasce de um sonho, de querer fazer algo diferente.” As palavras de Paulo Teixeira, proferidas na inauguração da nova loja Paulo Teixeira Vinhos, revelam a enorme paixão manifestada pelo próprio em relação ao mundo dos vinhos, pelo qual enveredou nos anos 90 do século XX. Situado no Caminho da Levada, “a dois quilómetros, em linha reta, do centro de Ponta Delgada”, este espaço dedicado aos vinhos, bebidas espirituosas e azeites marca o novo capítulo da história da família, ou não estivesse o filho mais velho, “Paulo Teixeira Júnior”, inteiramente focado neste novo desafio.
A nova loja ocupa uma área de 157 metros quadrados, permitindo a capacidade para a expor 12 500 garrafas de meia centena de produtores nacionais e de todas as regiões vitivinícolas de Portugal, inclusivamente de cinco ilhas do arquipélago açoriano, além do armazém, com 150 metros quadrados. Itália, França e Espanha são outros dos países representados neste espaço amplo e com uma decoração sóbria e contemporânea traçada pelo bom gosto, e devidamente climatizada.
Carlos Farinha, Diretor Regional do Turismo da Secretaria Regional do Turismo, Mobilidade e Infraestruturas dos Açores, presente na inauguração, salientou a importância que este espaço representa para o turismo da região. O representante do Turismo do Governo Regional dos Açores evidenciou ainda a preponderância “da sala de provas e de formação” da Paulo Teixeira Vinhos, “onde se vão realizar formações ligadas ao vinho, particularmente numa altura em que tanto se fala da necessidade de qualificação da nossa oferta turística”.
Loja com sala de provas
Para assumir a missão de conduzir provas as vínicas na sala de provas, Paulo Teixeira reuniu “três pessoas com curso de formação de formadores e grande conhecimento sobre vinhos”. O porquê desta decisão? “Temos consumidores atentos, clientes fiéis e consumidores que querem provas, formações, que querem aprender mais sobre vinho”, justifica.
Além dos cursos de iniciação à prova, um de duas horas e outro de quatro horas, sendo que, este último, inclui um jantar no final, estão desenhadas provas de vinhos regionais, seja de Portugal Continental, seja das ilhas, por forma “a mostrar a diversidade sobre o que se faz nos Açores”. Sem esquecer a Madeira. Por último, mas não menos importante, há a vertente de formação para os profissionais de restauração e hotelaria. Para o nosso anfitrião, é fundamental aprimorar o conhecimento na área da hotelaria e da restauração: “como vender vinho, como sugerir vinho, como articular o vinho com a gastronomia.”
“Quero que o espaço seja versátil”, acrescenta Paulo Teixeira. O proprietário destaca a vontade de a garrafeira abrir portas a apresentações de livros sobre vinhos, de um vinho topo de gama, de uma bebida de excelente qualidade, de uma moto, de uma máquina agrícola ou a uma exposição de pintura. “Por que não fazê-lo na ilha de São Miguel?”
“Tudo isto só é possível quando há clientes, quando há mercado, quando há uma economia que responde, e à vontade de fazer”, declara Paulo Teixeira, revelador da arte de bem receber e saber ler o que o cliente pretende. Afinal, a experiência neste setor já o acompanha há cerca de três décadas, quando de um cargo ligado à distribuição de vinhos passou a pôr em prática a venda direta ao público, numa garrafeira em Ponta Delgada. Daí a “traçar o próprio caminho”, com uma distribuidora em nome próprio, foi quase um passo.
Viajar para conhecer
Foi o que aconteceu a 1 de fevereiro de 2010, data marcada pelo arranque da Paulo Teixeira Vinhos no então armazém, agora reconvertido em loja de vinhos com o mesmo nome. “Trabalhei sozinho durante quatro anos: comprar, vender, cobrar, entregar e pagar. De 2010 a 2014.” No final de 2014, admitiu o primeiro funcionário.
Pelo meio, frequentou e concluiu cursos associados à prova de vinhos. Inicialmente, não “Nesta altura, não tinha um nariz tão evoluído como tenho hoje. Era o grande desgosto que eu tinha. Cheguei a estar uma semana inteira em Lisboa, só para fazer um curso de iniciação à prova”, mas assegura que concluiu cada curso com distinção, muito à conta das provas sistemáticas que foi fazendo, para conseguir atingir a perfeição. Ia às feiras nacionais e visitava produtores.
“Fiz provas que marcaram a minha vida” e convites para visitar adegas não faltam, “mas não visitei todas, por não ter tempo disponível para o fazer. Montei uma empresa do zero e precisei de ir construindo e solidificando relações, parcerias e portefólio, ser criterioso e sentir o projeto”, sublinha. Visitou feiras internacionais, como a Vinexpo, a Prowein e a Vinitaly, para ampliar conhecimento.
“Ultimamente, tenho investido muito em formação de vinho estrangeiro. Tenho ido lá fora para provar em Itália, França, Espanha, Austrália, Chile. Quero trazer mais vinhos do mundo para cá. Os açorianos merecem ter este conhecimento e terem acesso a vinhos que se produzem lá fora”, afirma Paulo Teixeira, que, no novo espaço, abre o leque das diversidades no contexto das bebidas espirituosas. “Já foi a Cuba provar runs, a Inglaterra, para ver como se faz gin, ao Brasil pela cachaça, a Cognac…” O propósito é ir às raízes, para perceber como são as bebidas originais, “poder vender com conhecimento e adequar o produto à necessidade do cliente. Há que ser profissional na área”, evidencia o nosso anfitrião, que mantém a operação de distribuição, a partir do armazém inaugurado a 1 de fevereiro de 2025, no Pico D’Agua Park, com 560 metros quadrados. Sobre este tema, Paulo Teixeira informa que distribui para perto de 50 restaurantes da ilha de São Miguel, para além dos que reúne nas ilhas das Flores, do Faial, da Graciosa, da Terceira e de Santa Maria.
VENTOZELO APOSTA EM COSMÉTICA NATURAL, EM PARCERIA COM A OLIÓFORA

Ventozelo Hotel & Quinta reforça a aposta na sustentabilidade e na valorização dos recursos locais através de uma parceria com a Oliófora, marca artesanal de cosmética natural sediada em Amarante e fundada por Daria Maximova. Iniciada em 2022, com a criação de sabonetes naturais, a colaboração evoluiu em 2026 para um projeto de economia circular que […]
Ventozelo Hotel & Quinta reforça a aposta na sustentabilidade e na valorização dos recursos locais através de uma parceria com a Oliófora, marca artesanal de cosmética natural sediada em Amarante e fundada por Daria Maximova. Iniciada em 2022, com a criação de sabonetes naturais, a colaboração evoluiu em 2026 para um projeto de economia circular que integra a produção de amenities e demais produtos, inspirados nos aromas e nas matérias-primas e com com ingredientes naturais provenientes do Ventozelo.
A alfazema ali cultivada, assim como os resíduos de citrinos, cuja produção abunda na Quinta, foi incorporada nas formulações desenvolvidas em exclusivo para esta unidade hoteleira, dando origem a produtos que evocam o Jardim dos Aromas e a paisagem natural de Ventozelo Hotel & Quinta.
Esta parceria assenta num modelo de aproveitamento e troca de recursos: Ventozelo fornece à Oliófora alfazema seca, colhida anualmente na propriedade, bem como resíduos de limão e laranja, utilizados na produção dos amenities do hotel e de outros artigos da marca, como sabonetes e sais de banho; por seu lado, a Oliófora disponibiliza farinha de amêndoa, um subproduto da produção dos seus óleos de amêndoa adquirida a produtores do Douro, que é posteriormente utilizada na Cantina de Ventozelo na confecção da tradicional Tarte de Amêndoa e dos biscoitos oferecidos como cortesia aos hóspedes do hotel e clientes do restaurante.
Esta iniciativa integra uma estratégia mais ampla de sustentabilidade que privilegia a valorização das produções da Quinta, a colaboração com produtores locais (como já é o caso do pão e dos enchidos servidos em Ventozelo, por exemplo) e o reaproveitamento de matérias-primas.
Os amenities e demais produtos desenvolvidos no âmbito desta colaboração estão disponíveis na Mercearia de Ventozelo e, em alguns casos, também na loja online do grupo Granvinhos ( www.cave360.pt ), incluindo sabonetes naturais, fragrância exclusiva de Ventozelo, spray de alfazema para almofada, saquinhos de alfazema, sais de banho e um conjunto de amenities inspirado nos aromas da propriedade.
A oferta permite aos visitantes prolongar a experiência sensorial de Ventozelo além da sua estadia, levando consigo produtos que refletem a identidade da Quinta e a sua ligação ao território.
PRODUTOS DISPONÍVEIS:
Gel de cabelo e corpo
Disponível como cortesia nos quartos.
À venda na Mercearia de Ventozelo em embalagem individual de 100 ml. PVP: 18€.
Loção corporal
Disponível como cortesia nos quartos.
À venda na Mercearia de Ventozelo em embalagem individual de 100 ml. PVP: 18€.
Amaciador de cabelo
Disponível como cortesia nos quartos.
À venda na Mercearia de Ventozelo em embalagem individual de 100 ml. PVP: 18€.
Sabonetes naturais
Disponíveis como cortesia nos quartos.
À venda na Mercearia de Ventozelo e em www.cave360.pt . Pack 6 unidades. PVP: 12.99€.
Fragrância de Ventozelo
Micado aromático, utilizado em diversos espaços da propriedade.
À venda na Mercearia de Ventozelo. PVP: 30€
Good Night Pillow Spray
Spray difusor à base de óleo essencial de alfazema.
À venda na Mercearia de Ventozelo. PVP: 18€.
Saquinho de Alfazema
É utilizado para perfumar os vários espaços de Ventozelo.
À venda na Mercearia de Ventozelo e em www.cave360.pt . PVP: 9.50€
Sais de banho
À venda na Mercearia de Ventozelo. PVP: 18€.
Pack de amenities do quarto
Bolsa composta por: 1 embalagem de 50 ml de gel de cabelo e corpo, 1 embalagem de
50 ml de loção corporal e 1 embalagem de 100 ml de condicionador de cabelos.
À venda na Mercearia de Ventozelo e em www.cave360.pt . PVP: 40€.
Adega do Cartaxo lança dois vinhos sem álcool

Absolvido é uma nova marca de vinhos desalcoolizados da Adega do Cartaxo na versão de um branco e um espumante. Ambos são produzidos a partir das castas aromáticas Moscatel Graúdo e Fernão Pires e contêm menos de 0.5% de álcool. Segundo Pedro Gil, diretor de enologia da Adega do Cartaxo, “foi um desafio grande avançar […]
Absolvido é uma nova marca de vinhos desalcoolizados da Adega do Cartaxo na versão de um branco e um espumante.
Ambos são produzidos a partir das castas aromáticas Moscatel Graúdo e Fernão Pires e contêm menos de 0.5% de álcool.
Segundo Pedro Gil, diretor de enologia da Adega do Cartaxo, “foi um desafio grande avançar com este projeto, porque ainda é tudo muito recente e queríamos ter a garantia de oferecer um produto de qualidade e que não defraudasse no paladar. Estamos conscientes das alterações de consumo e que há cada vez mais momentos em que queremos um copo de vinho, mas não queremos – ou não podemos – consumir álcool. É desse espaço entre o “não beber” e o prazer de brindar que nasceu Absolvido, espumante e vinho branco desalcoolizado que pretende trazer uma escolha diferente à mesa portuguesa. O Absolvido chega num momento em que as escolhas de consumo estão a mudar e em que restaurantes, bares e consumidores procuram propostas sem álcool capazes de ocupar o mesmo lugar à mesa que uma garrafa de vinho.”.
Os vinhos estão a chegar ao mercado, mas já se encontram disponíveis na loja on-line da Adega do Cartaxo em caixas de seis garrafas.
Memórias à mesa em património

O Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos (CECH) da Universidade de Coimbra procura cadernos de receitas de família, manuscritos, antigos ou recentes, para os transformar numa exposição. Pode ser um caderno de uma avó, um bloco repleto de anotações e recortes alusivos a receitas, ou folhas soltas com ou sem indicações acrescentadas ao longo dos […]
O Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos (CECH) da Universidade de Coimbra procura cadernos de receitas de família, manuscritos, antigos ou recentes, para os transformar numa exposição. Pode ser um caderno de uma avó, um bloco repleto de anotações e recortes alusivos a receitas, ou folhas soltas com ou sem indicações acrescentadas ao longo dos anos, em receitas de família.
O foco está na história de cada receita, de cada caderno. Quem escreveu? Quem as ensinou e as aprendeu? Como é que essas receitas chegaram às mãos de quem o guarda? Qual o significado desse objecto para o seu guardião? O apelo é dirigido a qualquer pessoa residente em Portugal, independentemente da nacionalidade e do idioma em que estão escritas as receitas.
Para o efeito, basta preencher, até 5 de Outubro, o formulário de participação disponível na página desta iniciativa (www.uc.pt/cech/cadernos-de-receitas-de-familia/). Os cadernos selecionados serão cedidos temporariamente para integrarem a exposição, sendo posteriormente devolvidos aos respetivos proprietários.
Sob o título “Cadernos de Receitas de Família”, esta mostra estará patente entre 21 de Outubro e 20 de Novembro de 2026, na Sala do Catálogo da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra.
Alentejo vínico em destaque nas 7 Maravilhas de Portugal

O património vitivinícola do Alentejo está duplamente representado na lista dos sete vencedores da edição de 2026 das sete maravilhas eleitas no nosso país, com as Ruínas de São Cucufate, em Vila de Frades, Vidigueira, e Tiago Cabaço Winery, em Estremoz. A primeira está localizada na sub-região de Vidigueira, uma das oito sub-regiões da Denominação […]
O património vitivinícola do Alentejo está duplamente representado na lista dos sete vencedores da edição de 2026 das sete maravilhas eleitas no nosso país, com as Ruínas de São Cucufate, em Vila de Frades, Vidigueira, e Tiago Cabaço Winery, em Estremoz.
A primeira está localizada na sub-região de Vidigueira, uma das oito sub-regiões da Denominação de Origem Alentejo e consta na categoria História, traduzindo-se no testemunho da presença romana no território e da longa história da produção de vinho no Alentejo. Já a segunda, eleita na categoria Século XXI e consiste na expressão mais actual da relação entre vinho e território, distinguindo-se pela arquitectura contemporânea, projectada em forma de meia-lua, como se da paisagem fizesse parte.
Para a Comissão Vitivinícola Regional Alentejana (CVRA), a eleição das duas candidaturas constitui um reconhecimento particularmente relevante da dimensão cultural e patrimonial da região. “O facto de duas das sete novas Maravilhas de Portugal estarem no Alentejo e terem uma ligação tão evidente ao vinho é um reconhecimento muito significativo para a nossa região. São duas realidades muito diferentes, mas que mostram a mesma relação profunda entre o vinho, o território e a identidade alentejana”, afirma, através de comunicado, Luís Sequeira, presidente da CVRA.
Produtores no Douro Superior: A eclética sub-região duriense

O Douro Superior é a sub-região duriense mais oriental, localizada entre o Cachão da Valeira e a fronteira com Espanha, e reúne a maior extensão de terra, cerca de 110 000 hectares, de acordo com os dados do Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto. É considerado o território vinhateiro mais quente, quando comparado […]
O Douro Superior é a sub-região duriense mais oriental, localizada entre o Cachão da Valeira e a fronteira com Espanha, e reúne a maior extensão de terra, cerca de 110 000 hectares, de acordo com os dados do Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto. É considerado o território vinhateiro mais quente, quando comparado com o Cima Corgo e o Baixo Corgo. Do rio ao topo da montanha, o desnível é acentuado, chegando aos 700 metros de altitude. O clima denuncia verões muito quentes e secos, sendo a pluviosidade, que decresce à medida que se aproxima a zona raiana, um dos fatores que mais contribui para este cenário de extremos.
No entanto, os guardiões do Douro Superior mantêm a atividade de produção de uva nos mais de 10 000 hectares de vinha plantada nesta sub-região. E os produtores de vinho integram uma lista eclética, desde quem preserva um legado secular aos investidores mais recentes, passando pelas adegas cooperativas, onde os agricultores desempenham um papel fundamental. Eis precisamente três exemplos de visita efetuada por ocasião da edição de 2026 do Festival dos Vinhos do Douro Superior, iniciativa organizada pelo Município de Vila Nova de Foz Côa e produzida pela Revista Grandes Escolhas
“A Quinta da Silveira é uma das quintas mais antigas do Douro Superior”, declara Manuel Maria Martinho
Em busca de terras livres
“A Quinta da Silveira é uma das quintas mais antigas do Douro Superior.” A apresentação é iniciada por Manuel Maria Martinho, médico da especialidade de cirurgia plástica reconstrutiva e estética, em Lisboa, anfitrião, produtor de vinho e enólogo. Segue a explicação: “O Douro Superior nasceu da necessidade dos produtores do Baixo Corgo e Cima Corgo deslocarem as suas vinhas quando houve a filoxera, da procura por terras que estivessem livres e que estivessem mais longe do ataque da filoxera, ou seja, onde não houvesse vinhas.” No entanto, António Caetano d’Oliveira, o trisavô de Manuel Maria Martinho, não era proveniente de nenhuma das duas sub-regiões do Douro acima referidas. “Era de Moncorvo.” Portanto, nascera no Douro Superior.
Quando, em tempos idos, surgiu a oportunidade de plantar vinha nesta sub-região, António Caetano d’Oliveira decidiu adquirir terrenos no Vale da Vilariça, no concelho de Torre de Moncorvo, e criou a Quinta da Silveira, com o rio Sabor a um quilómetro de distância. A propriedade, com localização perpendicular ao rio Douro, que dista seis quilómetros dali, é do século XIX e está na família desde 1851. Em 1871, são erigidos os armazéns e a adega em granito. A primeira estrutura da casa também é iniciada nesse ano.
Aquando do falecimento da avó do nosso anfitrião, os descendentes herdaram a quinta e, posteriormente, os netos: Ana Maria Martinho, mais conhecida pelo público, sobretudo pelos leitores de palmo e meio, por Ana Maria Magalhães, Tozé Martinho, ator e argumentista da ficção televisiva nacional (atualmente representado pelos filhos) e Manuel Maria Martinho. Perante tamanho desafio, Manuel Maria Martinho decidiu complementar o conhecimento inerente à medicina com as formações na Escola Profissional Agrícola D. Dinis e na Faculté D’Oenologie, da Universidade de Bordéus, em França, e o mestrado em viticultura e enologia no Instituto Superior de Agronomia, em Lisboa.
Solos, exposições e vindima
Atualmente, a área total de vinha é de 65 hectares, dos quais 25 hectares estão na Quinta do Tourão, a outra propriedade da família, localizada a seis quilómetros dali, também no Vale da Vilariça. Contando com a Quinta da Silveira, a produção incide nos Douro DOC e no Vinho do Porto. Numa era em que o mercado se afirma na competição, Manuel Maria Martinho faz questão de enaltecer os atributos da Quinta da Silveira. “É que nestes 65 hectares de vinha, temos montanha, temos a terra mais fértil do país, que é a parte baixa do Vale da Vilariça, considerada, juntamente com os Barros de Beja e a Veiga de Chaves, uma das três partes mais férteis do país. E isso, não tem uma grande vantagem aparente para as vinhas, porque as vinhas querem terreno com muita pedra”, descreve.
Junto à Ribeira da Vilariça, as vinhas estão a 100 metros de altitude; até ao muro da propriedade, estão até aos 150 metros de altitude; atrás do casario, estão em socalcos e vão até aos 300 metros de altitude. No caso da Quinta do Tourão, onde o xisto predomina nos solos, as vinhas, em patamares, vão dos 100 aos 200 metros de altitude. Por conseguinte, todas as videiras deste produtor estão contempladas com várias exposições, além de que as temperaturas variam desde a cota mais baixa à mais alta. Os vinhos brancos, por exemplo, são feitos a partir de uvas vindimadas nas vinhas situadas a 100 metros de altitude.
As vinhas mais velhas têm 45 anos, ou seja, não remontam ao tempo em que a Quinta da Silveira foi fundada, e as castas estão separadas, e não misturadas em campo, tal como se fazia outrora. O vinho é produzido apenas a partir das uvas das duas propriedades e a colheita ocorre quando a matéria-prima atinge o ponto de maturação “que nós queremos. Isso só acontece quando temos as castas separadas”. Viosinho, Gouveio, Arinto, Rabigato, Códega de Larinho e Malvasia Fina estão contempladas na lista das variedades brancas, enquanto, nas tintas, constam Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Barroca, Sousão e Tinta Amarela. “São estas que usamos mais”, acrescenta Manuel Maria Martinho.
Lagares em granito
Os edifícios originais da propriedade permanecem de pé e “o vinho continua a ser feito onde sempre foi”, afirma o nosso anfitrião, embora a parte técnica tenha sido melhorada à medida que as exigências com a produção foram evoluindo. No interior da adega, estão sete lagares, cada um com 20 metros quadrados. “Todos em granito”, reforça Manuel Maria Martinho, onde as uvas são esmagadas a pé, no primeiro dia. “Depois trabalha-se com as remontas de bomba”. O mosto é retirado para a lagareta (pequena pia em granito instalada na parte exterior dos lagares) e, posteriormente, “remontado para cima ou por baixo, dependendo se queremos ou não baixar a manta”, elucida.
Da sala dos lagares, o acesso ao espaço onde estão instaladas as barricas do vinho Douro DOC e os tonéis do Vinho do Porto é feito por uma escada. Muito do Vinho do Porto aqui produzido era vendido diretamente às casas exportadoras. Nos anos 90 do século XX, o fortificado passou a ser engarrafado. Os Douro DOC um pouco mais tarde. Na enologia, Manuel Maria Martinho conta com o apoio do enólogo Rodrigo Martins (mentor do projeto Espera Wines e consultor em outras propriedades). “Ajuda a fazer os lotes comigo e provar – prova muito bem”, reforça. A dois passos dali, num vetusto armazém, estão guardadas pipas bem antigas, a respeito das quais Manuel Maria Martinho deixa a garantia que jamais as venderá!
Em 2019, João Carvalho comprou a Quinta do Pocinho, no concelho de Vila Nova de Foz Côa, cujas vinhas ocupam uma área de 23 hectares
Antes do Douro
A 13 quilómetros da Quinta da Silveira, rumo a norte, está a Quinta do Pocinho, de João Carvalho, nome indissociável à Quinta dos Termos, na região da Beira Interior. “Foi lá que nasci, foi lá que fui criado e, quando fui para a universidade disse ‘adeus e não me apanhas cá mais’”, afirma o engenheiro têxtil e proprietário da referida propriedade vitivinícola com 60 hectares de vinha localizada em Belmonte, mais concretamente nos termos dos distritos de Castelo Branco e Guarda. Com uma área total de cerca de 200 hectares, e situada entre os 500 e os 550 metros de altitude, abrange dois concelhos e três freguesias, e está na família há mais de 300 anos – foi vendida no final do século XIX e recomprada, em 1945, pelo pai, Alexandre Carvalho. No mesmo território vitivinícola, detém, desde 2015, a Herdade do Lousial, em pleno Campo Albicastrense, também no distrito de Castelo Branco, localizada a aproximadamente 450 metros de altitude e com 53 hectares de vinha, aos quais, em 2027, serão somados 7,5 hectares.
Apesar da multidisciplinaridade da química, amplamente apreendida na época universitária, João Carvalho manifesta-se um defensor do “conceito da terra, conceito da natureza”. Ou seja, “nós somos totalmente avessos a químicos em qualquer uma das quintas”, à exceção dos herbicidas de contacto. Esta ação contribuiu para o facto de a Quinta dos Termos ter sido, no início da década de 2000, “a primeira adega, em Portugal, certificada em sustentabilidade” e a única com este selo durante uma década. Porém, “se recuarmos dez, 12 anos no tempo, não utilizávamos qualquer tipo de herbicida. Mantinha um batalhão de gente, desde princípios de abril a finais de junho. Hoje, já não é possível”.
Pelas castas tradicionais
Em 2019, investiu na sub-região do Douro Superior. Destino? A Quinta do Pocinho, na aldeia do Pocinho, no concelho de Vila Nova de Foz Côa, propriedade certificada com o selo oficial de certificação de sustentabilidade. Quanto ao pocinho, apesar da sentença muitas vezes lida, permanece na propriedade.
A zona mais alta desta quinta regista entre 380 e 400 metros de altitude. As boas práticas estendem-se para esta aquisição recente, cujas vinhas ocupam uma área de 23 hectares – serão plantados mais 3,5 hectares –, mas a rega é nula. “Em desespero, regamos por aspersão, mas temos de retirar as ervas”, para evitar a competição com as videiras. “Limpamos a erva do meio do talude para baixo, do meio do talude para cima e deixamos uma faixa com revestimento, para proteger o ecossistema, e temos várias manchas de mato, que deixámos ficar, para a natureza falar por si”, esclarece João Carvalho. E “quando é necessário, faço monda de cachos”, acrescenta. Sobre as castas, o proprietário mencionou a Rabigato e a Viosoinho, nas brancas; Touriga Franca, Touriga Nacional, Tinto Cão e Tinta Roriz, nas tintas.
No seguimento da recuperação das castas antigas – com a Fonte Cal a ter o primeiro campo de seleção clonal próprio na Quinta dos Termos e um outro mais desenvolvido, na Herdade do Lousial – aqui, esta ação estará centrada na variedade tinta Cornifesto, missão essa a pôr em prática em 2027 ou 2028. À semelhança das duas quintas acima referidas, João Carvalho garante o desvelo com a fauna e a flora local, e mantém o olival, que contabiliza mais de 200 anos, ocupando seis hectares de terra – em Castelo Branco, são 18 hectares. “Está em bom estado”, assegura.
Aproveitamento térmico
A nova adega, construída de raiz, está pronta para a vindima deste ano, a qual é feita à mão, tal como acontece nas duas outras propriedades que João Carvalho possui na Beira Interior. Com a forte aposta no enoturismo, o edifício tem loja e sala de provas, com uma varanda imensa virada para o ondulante rio Douro, onde os serpenteantes socalcos cravejados de videiras complementam a paisagem.
Ainda neste andar, há uma janela envidraçada para a sala ocupada pelas cubas, onde, ao fundo, está à vista o núcleo afeto à receção das uvas. Já a cave de barricas, também instalada no piso inferior, está “enterrada” a cinco metros de profundidade. Na sala contígua a esta há uma mina, “que bifurca e tem cerca de 200 metros de profundidade”. Segundo o nosso anfitrião, a água mantém-se entre os 14,5 e os 15,5º C, preservando o ambiente, de todo este espaço, naturalmente fresco.
Sobre os vinhos do Douro, a primeira colheita é de 2019. Os Reserva branco são submetidos a estágio em barrica com grão extrafino, sem tosta. Já os tintos envelhecem em barricas de tosta média. “De uma forma geral, produzimos vinhos com leveduras indígenas”, remata.
Cooperativa em mudança
A cerca de 17, 5 quilómetros de distância está a Cooperativa de Freixo de Numão, originalmente de viticultores e olivicultores, localizada em Vila Nova de Foz Côa. Segundo o presidente, José Ferreira, até há três anos, “esta casa estava fechada ao exterior. Só vendia, praticamente, vinho a granel”. A partir de 2023, ano em que assumiu a referida função, até hoje, o portefólio aumentou para mais de uma dezena de referências vínicas engarrafadas, entre generoso branco e tinto, licor branco e tinto, amuado, vinho de mesa, Reserva, Grande Reserva e DOC Douro. Escorna Bois, nas versões de branco, rosé e tinto, e Castelo Velho, branco e tinto, constituem a dupla de vinhos mais badalados desta casa, e o Numantino, o licor de uva cuja produção incide na paragem antecipada da fermentação com a adição de aguardente vínica, permanece na lista da exclusividade.
Para firmar esta mudança, Alexandre Chéu, enólogo da Cooperativa de Freixo de Numão, em consonância com José Ferreira, implementou a regra de que quem entregasse uvas em mau estado seria penalizado em 50%. O regulamento foi cumprido. O resultado traduz-se em €450 por pipa, valor correspondente ao pagamento efetuado a alguns sócios, cujo total, respeitante ao setor do vinho, se traduz em aproximadamente cinco centenas.
Em 2027, haverá o lançamento de um Grande Reserva chamado ‘Colheita dos Sócios’ a distribuir, primeiramente, pelos sócios por ocasião do 70º aniversário da Cooperativa de Freixo de Numão. Na lista das boas novas consta a venda de Vinho do Porto, nas categorias Tawny e Ruby, aqui produzidas, assim como o ensaio realizado com a casta Alicante Bouschet, apresentado no Festival do Vinho do Douro Superior. Esta variedade tinta foi submetida a um estágio de oito meses ocorrido em barricas diferentes. “As madeiras foram escolhidas em prova cega”, conta Anastácia Morais, enóloga da Cooperativa de Freixo de Numão e braço direito de Alexandre Chéu, das quais foram selecionadas cinco. Destas, três dividem-se em carvalho francês, americano e nacional, às quais se somaram as de acácia e de cerejeira. O objetivo deste desafio consistiu, desde o início, em mostrar as características que diferem relativamente a cada tipo de madeira que aporta no vinho, bem como dar a conhecer uma Alicante Bouschet sem madeira. O resultado? Seis monovarietais
As uvas entregues da Cooperativa de Freixo Numão são provenientes de 1000 hectares de vinha espalhada pela sub-região do Douro Superior
1000 hectares de vinha
Do passado, permanecem de pé as cubas em betão, outrora usadas na fermentação. Hoje, há duas salas reservadas a esta fase do processo. No entanto, a fermentação não pode exceder muito para lá de uma dezena de dias, uma vez que, durante a vindima, a receção de uva é uma ação constante. “Todas as uvas são selecionadas à entrada”, assegura Alexandre Chéu e todas são provenientes de 1000 hectares de vinha espalhada pela sub-região do Douro Superior. As principais castas são a Touriga Nacional, a Touriga Francesa e a Sousão, para além da Tinta Roriz e da Tinta Barroca, nas tintas, que, no total, ocupam 60% da área de vinha; a Rabigato, a Viosinho, a Arinto e a Malvasia Fina, nas brancas.
De acordo com o nosso cicerone, o ano de 2025 registou uma produção de cinco milhões de litros de vinho, a qual foi totalmente vendida; em 2026, foram produzidos três milhões e meio. Em maio, tinham apenas 60 000 litros de vinho. Alexandre Chéu destacou ainda a reformulação das marcas e o melhoramento da imagem como fórmula de firmar o novo caminho traçado por quem lidera e faz parte da equipa da Cooperativa de Freixo de Numão. “Estamos a crescer e é isso que queremos.”
200 mil litros de azeite
Alexandre Chéu afirma que, no âmbito do azeite DOP Trás-os-Montes, a Cooperativa de Freixo de Numão é “o maior lagar do Douro Superior”. Cobrançosa, Verdeal, Picoal, Galega e a Negrita, esta última “com uma percentagem muito reduzida”, são as variedades de azeitona colhidas em olivais centenários e entregues nesta casa por cerca de centena e meia de associados. A campanha inicia em novembro. A produção deste líquido dourado resulta em 200 mil litros por ano. Chama-se Casa Grande. “É todo extra virgem e fazemos algum biológico.”
Para obter a qualidade superior da matéria-prima, o enólogo sublinha que o lagar funciona 24 horas por dia e todos os dias da semana, asseverando o alto padrão de higiene do lagar. “Toda a azeitona é controlada, é feita a desinfeção, tudo é lavado quando mudamos de um biológico para outro azeite e ali só entram os funcionários”, acrescenta. Terminada a extração, a 22º C, o azeite é transferido para a cuba, onde, à temperatura de 15º C, é feita a decantação por três, quatro meses. Findo este período, “é engarrafado e não leva qualquer tipo de aditivo”. Ou seja, “o azeite que sai da azeitona é o que vai para a garrafa”, afirma.
Este ano, o investimento está a ser feito igualmente neste produto, “com um preço apelativo”. A finalidade é fazer frente ao valor médio estipulado por litro. Em maio, “as nossas vendas de azeite já chegaram aos €15 000, o que é muito bom”, declara o enólogo. A respeito do consumidor, Alexandre Chéu enaltece o mercado além-fronteiras, com a Noruega e a Dinamarca no topo da lista, quão grandes apreciadores do azeite Casa Grande.
(Artigo publicado na edição de Agosto de 2026)




























