QUINTA DA ROMEYRA: Um novo capítulo para Bucelas

Quinta da Romeyra

Se há região portuguesa subvalorizada na atualidade é Bucelas. O que é incompreensível perante a qualidade dos vinhos brancos e a vetusta história por detrás da denominação. Incompreensível, mas não sem explicação, sendo que anos de aposta num produto mais barato e comercial apenas serviram para banalizar um vinho – o Arinto de Bucelas e, […]

Se há região portuguesa subvalorizada na atualidade é Bucelas. O que é incompreensível perante a qualidade dos vinhos brancos e a vetusta história por detrás da denominação. Incompreensível, mas não sem explicação, sendo que anos de aposta num produto mais barato e comercial apenas serviram para banalizar um vinho – o Arinto de Bucelas e, concretamente, o Branco Velho de Bucelas –, que tinha tudo para manter-se como um néctar clássico de nicho. Mais recentemente, mas nos últimos anos apenas, assistimos a um reerguer da região, inclusivamente com novos produtores a disputar os poucos solos da ondulante e florestal região vinhateira. A Quinta da Romeyra não é um desses novos produtores. Por isso, e pela sua história e dimensão, tem ainda mais responsabilidade na região. Com origens documentadas desde 1218, o nome foi testemunha de episódios marcantes – da passagem do Duque de Wellington, durante as Invasões Francesas, à instituição do Morgado de Santa Catherina, em 1703.

Num contexto em que a Sogrape tem vindo a afirmar projetos em diversas regiões vitivinícolas, Bucelas surge, agora, como território de renovada ambição. Conhecida pelos seus brancos frescos, tensos e marcados por solos calcários únicos, a região começa a querer viver um momento de redescoberta. Esperemos, e tudo indica ser esse o futuro, que a Quinta da Romeyra se assuma como peça central dessa estratégia.

 

Conhecida pelos seus brancos frescos, tensos e marcados por solos calcários, Bucelas surge, agora, como território de renovada ambição

 

 

Nova grafia, novos vinhos

A nova grafia que recupera o original – com a utilização letra ‘y’, simultaneamente clássica e sofisticada – e as novidades do portefólio recentemente apresentadas, expressam, com clareza, essa visão: valorizar a Arinto e devolver a Bucelas o protagonismo que historicamente lhe pertence enquanto única denominação de origem portuguesa exclusivamente dedicada a vinhos brancos. Os vinhos apresentados espelham efetivamente um equilíbrio entre tradição e inovação, procurando interpretar Bucelas a partir da diversidade da própria propriedade: diferentes solos, diversas exposições, distintas expressões da mesma casta. No centro de tudo, a casta Arinto.

Entre as novidades do portefólio da Sogrape no que toca ao vinho produzido em Bucelas, destaca-se o Quinta da Romeyra Colheita 2025, com parte fermentada em barrica de 500 litros, e que se quer posicionar como expressão fiel e versátil da propriedade, o verdadeiro porta-estandarte do projeto.

Num registo mais ambicioso, surge também como boa nova um verdadeiro topo de gama, o Vinha dos Fósseis 2021, elaborado apenas em anos verdadeiramente notáveis. Como o nome indica, é proveniente de solos jurássicos ricos em fósseis marinhos, apresentando uma mineralidade intensa e grande complexidade. Lançado com cinco anos de evolução, assume-se como um gesto ousado que invoca os brancos velhos de antigamente e ombreiam com grandes brancos nacionais e não só.

Ainda sobre a gama dos vinhos, mantêm-se as referências emblemáticas, agora com nova imagem, caso do Prova Régia e do Espumante Bruto Quinta da Romeyra e, ainda, do neoclássico Morgado de Santa Catherina, marca que acompanhou mais do que uma geração de enófilos portugueses no que a brancos com estágio de madeira diz respeito.

A enologia está a cargo de Luís Cabral de Almeida, que destaca os investimentos feitos na adega e a renovação de grande parte da vinha. Para o experiente enólogo, a maior riqueza da propriedade é permitir-lhe explorar a casta Arinto em diversas derivações, sempre com detalhe.

Terminamos como começámos: num setor onde tradição e inovação se cruzam constantemente, renovamos os votos para que este novo capítulo da Quinta da Romeyra represente mais do que um relançamento e a apresentação de novos vinhos. Esperamos que seja um marcador do regresso ao futuro radioso de Bucelas.

 

A nova grafia da Quinta da Romeyra e as novidades do portefólio expressam a vontade de valorizar a Arinto e devolver a Bucelas o protagonismo que historicamente lhe pertence

Quinta da Romeyra

(Artigo publicado na edição de Junho de 2026)

 

Exposição Student Prize 2026 na Howad’s Folly em Estremoz

Howard's Folly

Entre 8 de Agosto e 31 de Outubro de 2026, a Howard’s Folly, em Estremoz, recebe a Exposição Portuguese Student Prize da Sovereign Art Foundation (SAF). Esta mostra reúne as 30 obras finalista, no sentido de dar visibilidade a jovens artistas portugueses até aos 18 anos e, ao mesmo tempo, sensibilizar o público para a […]

Entre 8 de Agosto e 31 de Outubro de 2026, a Howard’s Folly, em Estremoz, recebe a Exposição Portuguese Student Prize da Sovereign Art Foundation (SAF). Esta mostra reúne as 30 obras finalista, no sentido de dar visibilidade a jovens artistas portugueses até aos 18 anos e, ao mesmo tempo, sensibilizar o público para a missão social da fundação, através do programa de arteterapia Make It Better, que apoia crianças e jovens em situação de vulnerabilidade social e emocional.

Os 30 finalistas foram seleccionados por um painel de jurados, através das obras submetidas por professores de escolas de todo o país. O Prémio do Júri distingue o estudante com a classificação mais elevada, atribuindo um prémio de 500 euros ao vencedor e de 1500 euros à respectiva escola. Paralelamente, o Prémio do Público distingue a obra mais votada pelos visitantes, atribuindo 300 euros ao estudante vencedor e 800 euros à sua escola.

Qualquer pessoa pode participar na votação pública online assim como licitar as peças através do leilão solidário disponível no site da Sovereign Art Foundation. Metade das receitas angariadas reverterá para o financiamento do programa Make It Better.

“Para a maioria destes jovens artistas, esta será a primeira vez que os seus trabalhos são expostos numa galeria profissional. É muito gratificante observar a sua reação quando vêem as suas obras expostas neste tipo de ambiente e, sobretudo, quando alguém decide comprá-las”, expõe Howard Bilton, fundador da Howard’s Folly e presidente da Sovereign Art Foundation, em comunicado.

Os horários da exposição são os seguinte: Segunda e Terça-feira, entre as 09h00 e as 13h00 e das 14h00 às 18h00 (entrada pela Adega Howard’s Folly); de Quarta-feira a sábado, das 10h00 às 22h00; e aos domingos entre as 12h00 e as 17h00.

Tomate Coração de Boi novamente em festa

Tomate

No dia 21 de Agosto, a Quinta do Mourão, propriedade da Falua, em Cambres, Lamego, acolhe a 11.ª edição da Festa do Tomate Coração de Boi do Douro. Assim, este ano, o evento acontece à beira-rio, num lugar histórico e com património de Vinho do Porto. Objecto de prova, no sentido de eleger o melhor […]

No dia 21 de Agosto, a Quinta do Mourão, propriedade da Falua, em Cambres, Lamego, acolhe a 11.ª edição da Festa do Tomate Coração de Boi do Douro. Assim, este ano, o evento acontece à beira-rio, num lugar histórico e com património de Vinho do Porto. Objecto de prova, no sentido de eleger o melhor tomate da temporada, este produto volta a unir, no núcleo de jurados, chefes de cozinha de referência, enólogos, jornalistas e outros actores na área da gastronomia. À semelhança das edições anteriores, a partir das 18h00, há jantar volante (€90), onde o tomate coração de boi é rei a par com os vinhos das quintas concorrentes.

Para completar esta experiência, a Quinta de Mourão organiza duas provas especiais na cave Port Knox, local onde estagiam e envelhecem os seus Vinhos do Porto. Assim, durante os dias 21 e 22 de Agosto, estarão disponíveis duas provas de Vinhos do Porto antigos, com 20% de desconto: a prova Silver, focada em Vinhos do Porto Tawny e White envelhecidos (€70) e a prestigiada prova Mothers & Sons, que inclui referências de Portos de 30 e 40 anos e as históricas colheitas Mother Wine de 1972 e 1948 (€212€). As provas estão agendadas para as 11h00, as 12h30, as 14h30 e as 16h00, em ambos os dias. As vagas são limitadas.

As inscrições para o encontro, bem como para as provas especiais, são limitadas e requerem reserva e pagamento prévios através do seguinte e-mail greengrape@greengrape.pt.

Alargado a todos os municípios da região do Douro, o festival “Tomate à mesa (a)gosto” conta com mais de 30 restaurantes, para saborear o tomate coração de boi na sua plenitude. Ou seja, ao longo deste mês de Agosto, os restaurantes de referência da região incluem, nas respectivas ementas, pratos inspirados neste produto (lista mais abaixo).

O programa inclui ainda o encontro Tomate à Capella, na praça da Capela Barroca de Arroios, dia 22 de Agosto, a partir da 17h30. Trata-se de um mercadinho e convívio, com uma prova de tomate, azeite e flor de sal. Também haverá música, animação e petiscos, provas de degustação e venda de vinhos DOC, Douro e Porto, produtos locais e regionais e muito tomate à venda.

Restaurantes aderentes

Chaxoila — Vila Real

Caisdavilla — Vila Real

Bons Tempos — Vila Real

O Lagar — Torre de Moncorvo

Salma Rio — Mesão Frio

Terra Quente — Murça

Restaurante do Sá — Murça

Taberna da Helena — Carrazeda de Ansiães

Cinta D’Ouro — Freixo de Espada à Cinta

Peto Real, Hotel Verdeal — Moimenta da Beira

Taberna Fornos do Rei — Penedono

Casa do Avô — Sernancelhe

Santa Marta — Santa Marta de Penaguião

Tasquinha do Matias — Tarouca

Taberna da Julinha — Vila Nova de Foz Côa

Vale Abraão, Hotel Six Senses — Lamego

Seixo by Vasco Coelho Santos, Quinta do Seixo — Tabuaço

Taberna do Carró — Moncorvo

Cais da Ferradosa — S. João da Pesqueira

Toca da Raposa — S. João da Pesqueira

Cantina de Ventozelo, Quinta de Ventozelo — S. João da Pesqueira

DOC — Armamar

Castas e Pratos — Peso da Régua

Cêpa Torta — Alijó

Bomfim 1896, Quinta do Bomfim — Pinhão, Alijó

S. Luiz by Vítor Oliveira, Quinta de S. Luíz — Tabuaço

The Wine House, Quinta da Pacheca — Lamego

Panorâmico, Quinta de S. José do Barrilário — Armamar

Calça Curta —Foz do rio Tua, Carrazeda de Ansiães

Casa das Pipas, Quinta do Portal — Sabrosa

Rabelo, The Vintage House Hotel — Pinhão, Alijó

Alentejo e Dão apontam para aumento na produção

Alentejo

A Comissão Vitivinícola Regional do Alentejo (CVRA) estima uma produção de 108 milhões de litros de vinho na campanha de vindimas de 2026, o que representa um crescimento de cerca de 20% face a 2015, ano em que a região registou uma produção de 87 milhões de litros. Estes dados resultam do estudo desenvolvido em […]

A Comissão Vitivinícola Regional do Alentejo (CVRA) estima uma produção de 108 milhões de litros de vinho na campanha de vindimas de 2026, o que representa um crescimento de cerca de 20% face a 2015, ano em que a região registou uma produção de 87 milhões de litros. Estes dados resultam do estudo desenvolvido em parceria com a Universidade do Porto, os quais apontam para uma campanha favorável, tanto em termos quantitativos, como qualitativos, graças às condições climatéricas favoráveis registadas ao longo do ciclo da vinha.

Em comunicado, Luís Sequeira, Presidente da CVRA., declara o seguinte: “Estes resultados reforçam a confiança dos produtores e a capacidade do Alentejo em continuar a afirmar-se pela qualidade dos seus vinhos.” No Alentejo, as vindimas assumem particular relevância, já que, de acordo com a CVRA, a “região representa cerca de 40% do valor total das vendas de vinhos certificados em Portugal, reforçando o peso económico e estratégico dos Vinhos do Alentejo no panorama nacional”.

Alentejo e dão
Dão – Boas Quintas

De acordo com o Boletim de Evolução Intercalar do Ano Vitícola 2026, elaborado pelo Polo do Dão do CoLAB VINES & WINES, em parceria com a Comissão Vitivinícola Regional do Dão (CVR Dão), estima-se um aumento até cerca de 5%, face ao ano anterior, da produção de vinho. Esta previsão está associada à melhoria da qualidade das uvas, graças às condições climáticas favoráveis, condição que contribuiu positivamente no âmbito do plano fitossanitário.

Para Manuel Pinheiro, presidente da CVR Dão, “esta estimativa representa um sinal de confiança para a região e para os produtores do Dão. Uma previsão de crescimento da produção, ainda que moderado, é positiva para o sector, sobretudo quando está associada a boas perspectivas de qualidade, já que as uvas do ano estão excelentes e estamos, portanto, na expectativa de grandes vinhos.”

O Boletim de Evolução Intercalar do Ano Vitícola 2026 resulta do acompanhamento técnico e científico realizado pelo Polo do Dão do CoLAB VINES & WINES e constitui uma ferramenta de monitorização das condições meteorológicas, fenológicas e fitossanitárias da Região Demarcada do Dão.

MOUCHÃO: Tonel Nº 3-4, a expressão suprema de uma casta e de um lugar

mouchão

À entrada da Herdade do Mouchão, localizada em Casa Branca, no concelho de Sousel, tudo transmite uma sensação rara de permanência. Não há ostentação; parece um lugar que nunca teve pressa em modernizar-se para impressionar quem chega. Os edifícios agrícolas alinham-se com uma simplicidade austera: paredes grossas caiadas a branco, janelas pequenas, para proteger do […]

À entrada da Herdade do Mouchão, localizada em Casa Branca, no concelho de Sousel, tudo transmite uma sensação rara de permanência. Não há ostentação; parece um lugar que nunca teve pressa em modernizar-se para impressionar quem chega. Os edifícios agrícolas alinham-se com uma simplicidade austera: paredes grossas caiadas a branco, janelas pequenas, para proteger do calor o interior do edifício, telhados de telha escurecidos pelo tempo. A arquitectura é rural e profundamente alentejana, feita para resistir aos verões quentes e a uma história secular.

Foi aqui que um ramo da família inglesa Reynolds consolidou o projecto agrícola iniciado no Alentejo, ainda no século XIX, primeiro ligado à cortiça e depois ao vinho. Em 1901 foi construída a ala nascente da adega, ano gravado em cima da entrada –significa que este ano a Herdade do Mouchão celebra 125 anos. No entanto, a propriedade soma mais de 150 anos de viticultura. “Por isto, na altura, foi chamada ‘a adega nova’”, explica Iain Reynolds Richardson, que representa a sexta geração da família.

O tempo deixou marcas na herdade. Depois da Revolução de Abril de 1974, o Mouchão foi expropriado e devolvido à família apenas em meados da década de 1980, já bastante degradado. A adega foi recuperada e a vinha teve de ser replantada a partir do material genético original da propriedade.

A franja capilar garante que as raízes mais profundas conseguem alcançar reservas hídricas

 

O berço da Alicante Bouschet

Na Herdade do Mouchão, com 900 hectares, que incluem olival e montado, a vinha ocupa, hoje, 47 hectares. A maior parcela, com seis hectares, conhecida como Vinha dos Carapetos, está plantada com Alicante Bouschet e Trincadeira. É precisamente aqui que se encontram as raízes da casta protagonista do icónico Mouchão Tonel Nº 3-4, tanto na vinha como na história do Alentejo, num território que lhe oferece o terroir ideal.

A paisagem da propriedade assenta numa vasta planície de sedimentos do Cenozoico, que preencheu uma antiga bacia e originou uma superfície relativamente plana. Durante o Quaternário, esta planície foi sendo progressivamente entalhada pela acção do rio, que esculpiu os vales que actualmente marcam o território.

Adrian Mellin, geólogo com uma longa carreira na Shell, tem um fascínio particular pelo terroir do Mouchão e ajuda a compreender as suas particularidades. Na herdade distinguem-se dois vales principais: o Almadafe Molhado e o Almadafe Seco. Os respectivos nomes reflectem o seu comportamento hidrológico: o primeiro apresenta uma área de drenagem mais activa, concentrando e conduzindo a água ao longo do eixo do vale, enquanto o segundo tem um regime muito mais limitado, com escoamento reduzido e caudais pouco persistentes. Em ambos os casos, as águas provenientes das encostas alimentam o fundo dos vales, onde, durante milhares de anos, em zonas de estrangulamento do curso do rio, se acumulam aluviões, formando várzeas.

O próprio nome “mouchão” está ligado ao terroir e designa pequenos bancos de terra, lodo ou areia que se formam no leito dos rios ou estuários, resultantes da acumulação de aluviões. Segundo Iain, nos mapas de 1894, o rio que moldou o vale apresentava um traçado em ziguezague, dando origem a vários mouchões ao longo desta paisagem.

Passando muito tempo, na herdade, e medindo a água nos poços a 40 e a 80 centímetros de profundidade, Adrian observou uma relação interessante entre a precipitação e o comportamento do lençol freático. Em períodos de chuva significativa, a recarga do solo é intensa, alimentando a zona freática que soube entre duas a três vezes o nível de água que recebe. Cria-se uma zona de saturação capilar mais ampla, que se torna particularmente importante nos períodos secos prolongados e de maior calor, cada vez mais frequentes. Para suportar as temperaturas elevadas, a planta precisa de transpirar e, para isso, necessita de água disponível. A franja capilar garante que as raízes mais profundas conseguem alcançar reservas hídricas, mantendo a planta funcional.

Cria-se um pouco de tensão, um stress controlado, suficiente para equilibrar o desenvolvimento da videira sem comprometer os estados fenológicos. Atinge-se uma maturação completa, mas equilibrada, com menor degradação de ácidos, mantendo a tão preciosa frescura, que encontramos no Tonel Nº 3-4.

Os dados registados ao longo de três anos pela estação meteorológica instalada no vale mostram que as temperaturas máximas são muito semelhantes às de Évora. Já as temperaturas mínimas aproximam-se mais das de Portalegre, cerca de 200 metros acima, uma diferença explicada pela localização da herdade no fundo do vale, onde o ar frio tende a acumular-se durante a noite. O regime de precipitação também segue um padrão mais próximo do de Portalegre do que do de Estremoz ou Évora.

Na vinha, explica Iain, é feita uma monda em verde, removendo parte dos pâmpanos, com o objetivo de abrir a copa, melhorar a ventilação e reduzir a necessidade de tratamentos. O trabalho fitossanitário baseia-se quase exclusivamente em cobre e enxofre, embora, em situações excepcionais, possam ser utilizados outros tratamentos de recurso. Em meados de Julho, realiza-se igualmente a monda de cachos, para ajustar o potencial produtivo da vinha.

Nos últimos 12 anos, a produção média tem sido de cerca de quatro toneladas por hectare, descendo, em alguns anos, para valores próximos das duas toneladas. Em 2015, a produção atingiu 4,5 toneladas por hectare.

Mouchão vs. Tonel 3-4

Após o período de ocupação, quando a herdade regressou às mãos da família, já não havia vinho; tinha sido todo vendido. Para restaurar os grandes tonéis, os tanoeiros chegaram a viver na propriedade durante dois anos. Segundo Iain, os tonéis 3 e 4 são construídos a partir de diferentes madeiras (castanho, carvalho, macacaúba e mogno), com aduelas a rondar os 60 anos e topos a aproximarem-se dos 100 anos.

O primeiro vinho Tonel Nº 3-4 surgiu na colheita de 1996. Desde então, foram lançadas apenas sete edições, correspondendo à oitava a de 2015, a ser lançada agora.

Iain esclarece que esta referência só é produzida em anos em que “o Alicante Bouschet é fantástico” e está disponível em “quantidade suficiente, para assegurar também o Mouchão”. Se a primeira razão é óbvia, a segunda tem a ver com a filosofia da casa. Há anos em que, do ponto de vista qualitativo, seria possível produzir o Tonel Nº 3-4, mas tal não acontece, devido à reduzida quantidade de uva que não permite assegurar simultaneamente os dois vinhos.

“Nós somos conhecidos pelo Mouchão. Esse é o nosso fio de estabilidade ao longo dos últimos 70 anos e não queremos que este vinho sofra a custo do outro vinho […], o Mouchão, para nós, é o principal. Depois temos um enorme prazer, em anos como este, de lançar uma coisa absolutamente fantástica, completamente fora dos moldes do Mouchão.”

O enólogo Hamilton Reis resume, de forma poética, a relação entre os dois topos de gama da herdade, mas simultaneamente muito precisa. O Mouchão não é um segundo vinho da propriedade: “reúne numa garrafa o património e a identidade de duas famílias – os Reynolds, na sexta geração enquanto proprietários, e os Alabaça, na terceira geração enquanto adegueiros –, bem como as diferentes parcelas de Alicante Bouschet e Trincadeira”. Por sua vez, o Tonel Nº 3-4 vive numa realidade diferente. É, nas suas palavras, “um vinho egoísta”, “a expressão máxima de uma casta que encontrou o seu território perfeito” e “um produto absolutamente único que fala de si”.

Normalmente, a primeira noção de que poderá haver um Tonel surge ainda durante a vindima. O longo estágio permite adiar a decisão até ao momento em que já não restam dúvidas. A produção varia de ano para ano. O Mouchão é produzido na ordem das 35-40 mil garrafas. O Tonel Nº 3-4 de 2015 resultou em 11 mil garrafas. A produção total da herdade ronda as 150 mil garrafas.

 

Mini-vertical

Antes de conhecer o vinho que deu origem a este lançamento especial, provámos duas colheitas anteriores – 2001 e 2005 –, com o objetivo de evidenciar a capacidade de envelhecimento do Tonel Nº 3-4. João Alabaça explicou que “o ano 2001 teve alguma falta de água, mas viveu no que deixou o ano anterior. O 2005 foi o primeiro ano do ciclo de seca entre 2005-2008, mas o 2004 foi o ano de água, o que acabou por criar um equilíbrio”, resumiu.

Na prova, o Tonel Nº 3-4 2001 mostrou-se muito profundo no aroma, balsâmico, com couro fino e azeitona preta, alguma tinta-da-china, mas com fruta ainda fresca a lembrar amora e cereja bem madura. Muita frescura em evolução, firmeza de tanino e textura de linho. O 2005, ligeiramente mais fechado, revelou também fruta como a amora e a cereja preta, muito couro e eucalipto, pimenta e um fundo terroso com apontamentos de petrichor. Surgiram ainda nuances de açúcar mascavado e, com tempo no copo, especiaria doce. Musculado, muito fresco e ainda com uma energia jovem e uma ligeira nota verde do engaço, que acrescenta tensão. Nenhum dos dois se mostra pesado ou cansado; ambos projectam uma grande presença e afirmação de estilo e carácter.

O Tonel 3-4 2015

Segundo João Alabaça “o ano 2014 fechou com muita chuva e, quando começou o 2015, tornou-se um inverno extremamente seco e muito frio. A primavera foi mais amena, choveu pontualmente, mas a chuva estava com uma boa intensidade, por isto a água ficou no solo. A fase da primavera, com excelentes temperaturas. Em finais de Junho, princípio de Julho, tivemos um grande problema com temperaturas muito altas durante uma semana e nesta altura perdemos muita fruta queimada. Isto desenvolveu um cacho mais aberto, com as uvas mais pequenas, que resultou em concentração e muito equilíbrio no próprio cacho e na vinha. O verão correu plenamente, não muito quente, oscilações de noite e dia muito agradáveis até praticamente a vindima. Não tivemos nem pragas nem doenças na vinha, quase sem tratamento. A colheita das uvas na Vinha dos Carapetos, aconteceu entre o dia 9 e o dia 11 de Setembro. As uvas estavam fantasticamente sãs, com um equilíbrio muito grande entre a maturação alcoólica e a maturação fenólica. Os engaços estavam completamente maduros.”

Esta última referência aos engaços é particularmente relevante, uma vez que a filosofia de vinificação da propriedade se mantém inalterada desde sempre: fermentação em lagares de mármore, com pisa a pé e sem desengace. Após cerca de sete dias, o vinho é trasfegado para os tonéis, onde realiza a fermentação maloláctica e estagia durante três a quatro anos.

Depois do engarrafamento, o estágio continua por mais seis anos antes do lançamento para o mercado. Em princípio, a partir deste momento o vinho está num ponto óptimo para ser apreciado, mas facilmente aguentará mais uma década (ou mais) em garrafa.

(Artigo publicado na edição de Junho de 2026)

31 de Julho – 1.º Dia Nacional da Vinha e do Vinho

31 de Julho

No dia 31 de Julho, em que o Instituto da Vinha e do Vinho, I.P. (IVV) comemorou 40 anos sobre a sua criação, através de Despacho do Senhor Ministro da Agricultura e Mar, foi instituído o 1.º Dia Nacional da Vinha e do Vinho. A partir de agora, esta data será marcada pela celebração anual […]

No dia 31 de Julho, em que o Instituto da Vinha e do Vinho, I.P. (IVV) comemorou 40 anos sobre a sua criação, através de Despacho do Senhor Ministro da Agricultura e Mar, foi instituído o 1.º Dia Nacional da Vinha e do Vinho.

A partir de agora, esta data será marcada pela celebração anual e afirmação pública do valor civilizacional do vinho e da centralidade da vinha na paisagem, na história, na economia, na iconografia e na cultura de Portugal.

Ao longo de quatro décadas, o IVV afirmou-se como a autoridade nacional responsável pela coordenação e controlo do sector vitivinícola, pela gestão das denominações de origem (DO) e indicações geográficas (IG) e pela valorização do património vitivinícola nacional – pilar da identidade, da economia e da cultura portuguesas. Nas palavras do Presidente do IVV, Francisco Toscano Rico, os primeiros 40 anos foram de afirmação e os próximos 40 serão de ambição.

A noite da celebração reuniu, na sede do IVV, representantes do sector, do Governo, da academia, da cultura e do corpo diplomático. Neste âmbito, decorreram várias actividades relacionadas com o tema vínico, como a mostra e degustação das 14 regiões vinhateiras nacionais, em colaboração com a ANDOVI e com os Escanções de Portugal; a mostra de vinhos estagiados na Adega do Mar, submergidos pela ECOALGA, explorando o conceito de «Marroir»; o projecto gastronómico «Menus com História» e os «Livros de Culto da Cozinha Portuguesa»; uma exposição de pintura, com destaque particular para Roque Gameiro; uma exposição de faiança de Bordallo Pinheiro alusiva à Vinha e ao Vinho; um percurso de literatura vínica que inclui o «Portugal Vinícola», de Cincinnato da Costa (original do IVV, levado à Exposição Universal de Paris, em 1900), a colecção privada de rótulos de Abel Pereira da Fonseca associada à figura de Fernando Pessoa, e a obra contemporânea «Viti, Vini, Vici», com excertos declamados pelo autor, Thomaz Vieira da Cruz; o concerto «In Vino Veritas», com o Ensemble Vocal Introitus; e o núcleo «A Ciência por detrás da Vinha e do Vinho», na Biblioteca do IVV.

Com esta efeméride, o IVV reafirmou a importância da vinha e do vinho na civilização mediterrânica e o seu papel central na identidade portuguesa.

Na mesma ocasião, foram lançados o novo Portal da Vinha e do Vinho e o Anuário 2025 de Vinhos e Aguardentes de Portugal, já disponível para consulta.

Domaine Pierre Damoy na Roederer Collection

Roederer Collection

O Domaine Pierre Damoy já faz parte da prestigiada casa de Champagne Roederer Collection. Com esta aquisição, a emblemática propriedade de GevreyChambertin, situada no Côte de Nuits, na Borgonha francesa, começa a escrever um novo capítulo da sua história. Paralelamente, esta aquisição assinala um marco para a Louis Roederer, que concretiza a sua primeira aquisição […]

O Domaine Pierre Damoy já faz parte da prestigiada casa de Champagne Roederer Collection. Com esta aquisição, a emblemática propriedade de GevreyChambertin, situada no Côte de Nuits, na Borgonha francesa, começa a escrever um novo capítulo da sua história. Paralelamente, esta aquisição assinala um marco para a Louis Roederer, que concretiza a sua primeira aquisição na referida regiãoo vitivinícola no ano em que celebra o seu 250.º aniversário.

A propriedade reúne um património vitivinícola considerado singular, graças à elevada proporção de vinhas velhas e à excepcional diversidade genética, factores que, de acordo com o comunicado, se associam à filosofia da Roederer Collection: “preservar, cuidar e transmitir propriedades vitivinícolas de excelência, cada uma com uma identidade própria, profundamente enraizada no seu território e assente num profundo respeito pela natureza.”

No total, o Domaine Pierre Damoy reúne cerca de oito hectares de vinhas classificadas como Grand Cru, maioritariamente localizadas nas denominações Chambertin, Chambertin-Clos de Bèze e Chapelle-Chambertin, bem como o Clos Tamisot, vinha situada em GevreyChambertin.

Sobre a Roederer Collection, é de realçar o roteiro vitivinícola que possui pelo mundo, de Champagne a Bordéus, da Vale do Rhône à Provence e do Douro à Califórnia.

Roederer Collection

Frédéric Rouzaud, CEO da Louis Roederer, afirmou, em comunicado o seguinte: “Este passo reflecte profundamente aquilo que somos: uma casa independente e familiar, comprometida com o longo prazo, com a terra, com o saber-fazer paciente e com a transmissão às gerações futuras. Foi precisamente o Domaine Pierre Damoy que nos levou a dar este passo, por reunir tudo aquilo que mais valorizamos: terroirs excecionais, um património vitícola ímpar, uma identidade forte e uma das histórias mais emblemáticas da Borgonha. A nossa missão é agora acompanhar esta propriedade com humildade e elevado sentido de exigência, dando continuidade ao extraordinário trabalho desenvolvido pela família Damoy, preservando tudo o que a torna verdadeiramente única.”

Caves Burmester com nova experiência museológica

Burmester

A Burmester, fundada em 1750 por Henry Burmester e John Nash, agora pertencente à Kopke Group, reabre as portas em Vila Nova de Gaia, com um novo projeto museográfico. Entre balseiros centenários, corredores de pedra granítica e vinhos que envelhecem há várias gerações, há o convite para embarcar numa viagem pela memória, tradição e identidade […]

A Burmester, fundada em 1750 por Henry Burmester e John Nash, agora pertencente à Kopke Group, reabre as portas em Vila Nova de Gaia, com um novo projeto museográfico. Entre balseiros centenários, corredores de pedra granítica e vinhos que envelhecem há várias gerações, há o convite para embarcar numa viagem pela memória, tradição e identidade desta casa históricas do Vinho do Porto.

Aqui, património e tecnologia cruzam-se através de fotografias antigas e de aromas, bem como de conteúdos audiovisuais, instalações luminosas e elementos interactivos que revelam a história da família Burmester e a sua ligação com o Vinho do Porto. Várias questões vão surgindo ao longo do percurso num diálogo constante entre passado e presente. “Com quase três séculos de história, a Burmester continua, assim, a afirmar o seu carácter elegante, cosmopolita e profundamente ligado ao Douro, preparando-se para entrar no seu tricentenário sem perder a autenticidade que a tornou uma referência incontornável no universo do Vinho do Porto”, salienta, em comunicado, Maria Manuel Ramos, Directora de Turismo do Kopke Group.