MENIN: Legado do tempo em prova

Menin

Há cerca de um ano, a Menin Douro Estates lançou 10 vinhos do Porto em simultâneo: cinco brancos e cinco tawnies, com entre os 10 e os 50 anos de envelhecimento. Um feito difícil, que parecia impossível de superar. “Sentimos que tínhamos de dar seguimento a esses vinhos de excelência”, começa por dizer Tiago Alves […]

Há cerca de um ano, a Menin Douro Estates lançou 10 vinhos do Porto em simultâneo: cinco brancos e cinco tawnies, com entre os 10 e os 50 anos de envelhecimento. Um feito difícil, que parecia impossível de superar. “Sentimos que tínhamos de dar seguimento a esses vinhos de excelência”, começa por dizer Tiago Alves de Sousa, enólogo consultor desta casam, “dando um passo ainda maior em frente com o lançamento de dois Portos de 80 anos, um branco e um Tawny”.

São de facto dois vinhos monumentais, com precisão, equilíbrio e uma complexidade notáveis, que foram servidos antes da refeição servida no DOP, restaurante localizado no centro da cidade do Porto. O objetivo deste desafio conjugou-se com a atenção e o destaque merecidos, já que nos foi permitido que ambos permanecessem nos copos durante toda a refeição, para irmos apreciando os aromas inebriantes e as sucessivas nuances que foram apresentando com a passagem do tempo.

No final do almoço, foi fantástico constatar que, mesmo com a temperatura mais elevada, os dois vinhos do Porto são realmente de outra dimensão, pois mantiveram totalmente intacta a singularidade e equilíbrio de cada um. Notável! E que perfume permaneceu na sala. “Estes dois vinhos do Porto 80 anos que agora lançamos são um pedaço de história do Douro, um tesouro, uma peça de ‘relojoaria’, para ser admirada com a reverência que merece”, sublinha Tiago Alves de Sousa.

 

“Estes dois vinhos do Porto 80 anos que agora lançamos são um pedaço de história do Douro, um tesouro, uma peça de ‘relojoaria’”, afirma o enólogo Tiago Alves de Sousa

 

Em busca da excelência no Douro

A Menin nasceu de um sonho: produzir grandes vinhos do Douro e colocá-los no mundo. Este sonho passou a tornar-se realidade em 2018, pelas mãos de Rubens Menin, um dos maiores empresários brasileiros, com uma diversidade de negócios que vai desde a CNN Brasil à banca, passando pela detenção da maior construtora do continente americano. “Tive oportunidade de conhecer todas as regiões vinícolas do mundo e a mais bonita é o Douro”. Beleza que alia a “uma qualidade super especial nos vinhos de mesa, que, no Douro, são relativamente novos e de elevado potencial”, destaca.

Na Menin Douro Estates, com vinhos produzidos em Gouvinhas, na Quinta da Costa de Cima e Quinta do Sol, e na H.O Horta Osório, cujos vinhos são feitos a partir das uvas vindimadas na região do Baixo Corgo, em Santa Marta de Penaguião, a filosofia é a mesma, isto é, totalmente reforçada pela visão de Fásia Braga. Para a diretora-geral da empresa, para quem é crucial produzir vinhos de gama alta, que espelhem o terroir duriense, privilegiando a qualidade ao invés da quantidade. “Estes dois vinhos com 80 anos não são apenas a continuação de um trabalho especial.

São uma afirmação clara do nosso compromisso com a excelência e com o legado duriense. Representam um passo em frente, e ao mesmo tempo, um regresso à origem, à memória, à tradição, à essência do Vinho do Porto”, salienta Fásia Braga.

 

Foram engarrafadas apenas 200 garrafas de meio litro de cada variedade vendidas em caixa de madeira, com o branco ‘vestido’ de prata e o Tawny de ouro

 

Dois hinos à região

Com total carta branca por parte da empresa, e o acesso a lotes muito especiais, a equipa de enologia da Menin Douro Estates, constituída por Tiago Alves de Sousa e Manuel Saldanha, no papel de enólogo residente, lançou-se num trabalho de composição, tendo como base vinhos identificados e adquiridos a pequenos viticultores, para perpetuarem o estágio e, posteriormente, serem trabalhados para o lote final.

A idade mínima de todos os vinhos que compõem os lotes é de 80 anos, traduzindo-se numa complexidade rara, que encerra na riqueza das notas caracterizadas pelas diferentes fases pelas quais o Douro passou no último século. “São dois vinhos que têm a idade a aproximá-los, mas, depois, têm, efetivamente, muitas outras dimensões que, naturalmente, os separam, conferindo a cada um uma identidade muito especial, muito própria”, descreve Tiago Alves de Sousa. O Porto Tawny 80 anos é de facto impressionante. Denota uma complexidade incrível, com notas de caramelo salgado, especiarias exóticas, noz-moscada e laranja confitada. Na boca, é pura harmonia – acidez vibrante, textura sedosa, final interminável. O Vinho do Porto branco não lhe fica atrás. Ainda mais raro, transporta toda a frescura do Baixo Corgo, de onde provém a maior parte dos lotes. Com uma elegância desconcertante, apresenta notas de casca de citrino, flores secas e um toque iodado.

É um vinho com um final interminável. Em suma, ambos são tão complexos, que as notas de prova não lhes fazem provavelmente jus.
Foram engarrafadas apenas 200 garrafas de meio litro de cada variedade vendidas em caixa de madeira, com o branco ‘vestido’ de prata e o Tawny de ouro, honrando, assim, a sua preciosidade e raridade. Durante o almoço foram também servidos três (belíssimos) vinhos Douro DOC, de que daremos nota de prova nesta peça.

(Artigo publicado na edição de Dezembro de 2025)

ASSOCIAÇÃO VIGNERONS: ‘As nossas uvas, os nossos vinhos’

Vignerons

De acordo com o Instituto da Vinha e do Vinho (IVV), entende-se como vitivinicultor-engarrafador “a pessoa singular ou coletiva que elabora vinho a partir de uvas frescas produzidas exclusivamente na sua exploração vitícola, em instalações próprias e exclusivas e que engarrafa nas mesmas ou nas de outrem, em regime de prestação de serviços, assumindo-se como […]

De acordo com o Instituto da Vinha e do Vinho (IVV), entende-se como vitivinicultor-engarrafador “a pessoa singular ou coletiva que elabora vinho a partir de uvas frescas produzidas exclusivamente na sua exploração vitícola, em instalações próprias e exclusivas e que engarrafa nas mesmas ou nas de outrem, em regime de prestação de serviços, assumindo-se como único responsável do produto engarrafado, e de mosto concentrado e mosto concentrado retificado”.

“Se a lei existe, devemos fazê-la cumprir.” Foi com base nesta premissa que Mário Sérgio Nuno, rosto maior da Quinta das Bágeiras, avançou com um movimento que, atualmente, reúne 10 vitivinicultores-engarrafadores de seis regiões do país, para passar dar a conhecer a definição deste ofício, conhecido, em França, como vignerons-independents. A ideia surgiu em junho de 2024, por ocasião dos 35 anos da referida casa bairradina localizada em Sangalhos, no concelho de Anadia. “Grande parte dos produtores que convidei disse que este grupo deveria continuar.” Foi o que fez, criando, a par com os demais produtores envolvidos, os Vignerons de Portugal, sob o lema ‘as nossas uvas, os nossos vinhos’.

Objetivo? Realçar o trabalho realizado com afinco na terra, o cuidado criterioso com as uvas próprias e a atenção aprimorada na feitura do produto final. “Há que falar da nossa genuinidade e da autenticidade dos nossos vinhos. Não são melhores, nem piores do que os vinhos feitos pelos produtores que compram uva ou vinho. Mas o conhecimento que temos das vinhas onde nasceram é único, refletindo-se na forma como as trabalhamos. E isso faz diferença no que entra na garrafa”, elucida Mário Sérgio Nuno.

Trata-se de um trabalho diferenciado quando comparado com o papel desempenhado pelo produtor-engarrafador, o négociant, na língua francesa, que pode comprar uva ou vinho. Mas os Vignerons de Portugal não é um grupo fundado “para ser contra qualquer coisa. No fundo, é para defendermos o nosso conceito e o nosso vinho, e também para promover as marcas de cada um”, adianta o vigneron da Quinta das Bágeiras. Tudo está a ser feito a favor “dos consumidores esclarecidos. Quanto mais claros nós formos na forma como comunicamos, mais perto estamos do sucesso.”

Guardiões de vinhedos

A apresentação decorreu em Lisboa. Marcaram presença as seguintes casas: Vale dos Ares, da região dos Vinhos Verdes, Casas Altas, da Beira Interior, Quinta do Perdigão, Casa da Passarella e Quinta da Alameda, do Dão, Quinta das Bágeiras, da Bairrada, Quinta de Chocapalha, de Lisboa, Quinta da Atela, do Tejo, Rui Reguinga, do Tejo e de Alentejo, e Tapada de Coelheiros, do Alentejo.

Porquê estes 10 vitivinicultores-engarrafadores? É uma forma de mostrar as especificidades de cada região representada pelos elementos que fazem parte deste movimento.
Luís Patrão, enólogo na Tapada de Coelheiros, exploração agrícola localizada em Arraiolos, no Alentejo, levanta uma questão pertinente: “no imaginário das pessoas, quando falamos de um produtor, pensa-se que este trabalha só com uva própria, o que não é a realidade.” Por conseguinte, justifica a necessidade de se afirmarem como “produtores que trabalham exclusivamente com uvas próprias.

Este trabalho exclusivo centra-se no detalhe e isso reflete-se na qualidade do vinho”. Já Rui Reguinga, vitivivinicultor-engarrafador e enólogo, enaltece a figura do vigneron enquanto guardião das vinhas, “a parte mais importante de todo este processo”. O proprietário de 12 hectares de vinhas “muito antigas e visitáveis” com localização privilegiada na serra de São Mamede, distrito de Portalegre, enfatiza a necessidade de cuidar e salvaguardar os aglomerados de videiras, para que estas continuem a ser preservadas pelas gerações futuras. Por tudo isto, salienta a necessidade de traçar a diferença entre o produto final feito a partir de uvas próprias e “os lotes de vinhos comprados com origens que, muitas vezes, não conhecemos”.

Compromisso com a terra

Sandra Tavares da Silva, representante da Quinta de Chocapalha, propriedade vinhateira da família, com localização privilegiada na Aldeia Galega da Merceana, em Alenquer, concelho pertencente à região dos vinhos de Lisboa, vai mais longe. Além de ser “uma forma de estar no mundo dos vinhos”, um vigneron prima por demonstrar “um compromisso muito grande com a terra, o respeito pelo solo e pela água” e o facto de produzir vinho com uvas vindimadas em videiras que estão na sua posse, permite criar “uma identidade muito própria de cada vinho que produzimos”.

Por sua vez, só se torna possível assegurar um resultado de qualidade, “se produzirmos desde a uva até ao vinho”, argumenta Luís Diogo Abrantes, coproprietário da Quinta da Alameda, localizada em Vilar Seco, no concelho de Nelas, Dão. Engenheiro do Ambiente de formação, eleva o profundo respeito pela ecologia e a biodiversidade, e fala sobre as limitações que a decisão de ser vitivinicultor-engarrafador acarreta, uma vez que, “em anos menos bons, temos de garantir a qualidade das vinhas”.

 

“Antes de ser produtor e enólogo” Miguel Queimado é viticultor e agrónomo, daí que as vinhas do projeto familiar Vale dos Ares, na sub-região de Monção, na região dos Vinhos Verdes, continuam a ser cuidadas, mesmo em anos de crise, como o que se vive atualmente no sector do vinho. “Ser vitivinicultor-engarrafador em Portugal não é fácil”, acrescenta Mário Sérgio Nuno, exemplificando que, perante o excesso de vinho na adega, “nós não podemos mandar uma carta a nós próprios a dizer que não queremos mais uvas”. E o inverso também é verdade: “quando, num ano mau, não temos uva suficiente para as nossas necessidades, não podemos comprar ao vizinho”. No entanto, “se queremos crescer, crescemos com os nossos investimentos”, até porque o zelo que se tem com a vinha, “não é nada mais que engarrafar o nosso terroir para o nosso consumidor”, reforça Miguel Queimado. Melhor ainda. Para este nosso entrevistado proveniente do território vitivinícola situado mais a nordeste do país, a agricultura é apenas o início de tudo. Afinal, “quando compram um vinho nosso, estão a apoiar a agricultura e estão a contribuir para que este equilíbrio e esta coesão territorial se mantenha.” Por tudo isto, os Vignerons de Portugal querem prosseguir com esta missão, “especialmente por uma questão de transparência para o consumidor”, assume Luís Diogo Abrantes.

Como “a ideia é rodar por todas as adegas”, segundo Mário Sérgio Nuno, está previsto um evento aberto ao consumidor em geral, na casa de um destes 10 vitivinicultores-engarrafadores, no primeiro sábado de junho do próximo ano.

(Artigo publicado na edição de Dezembro de 2025)

Blanc de Noirs: Quando as tintas viram brancas

Blanc de Noirs

A designação Blanc de Noirs, que surge nos rótulos das garrafas, identifica vinhos brancos feitos com uvas tintas. Nesses rótulos, não se nomeiam as castas usadas, que podem ser várias, sendo mais interessante verificar o resultado do que as uvas utilizadas na feitura do vinho. A técnica (se assim se pode chamar) é tão antiga […]

A designação Blanc de Noirs, que surge nos rótulos das garrafas, identifica vinhos brancos feitos com uvas tintas. Nesses rótulos, não se nomeiam as castas usadas, que podem ser várias, sendo mais interessante verificar o resultado do que as uvas utilizadas na feitura do vinho. A técnica (se assim se pode chamar) é tão antiga como o próprio Champagne, uma vez que, quer Dom Pérignon, quer o seu sucessor, o Frère Pierre, se preocuparam em descobrir como poderiam fazer um vinho branco a partir das uvas disponíveis, no caso a tinta Pinot Noir. O famoso monge beneditino ficou para sempre “coroado” como criador do champanhe. Não é verdade, até porque o que mais o preocupava era, a contrario, perceber como poderia eliminar a efervescência que notava nos vinhos, na Primavera a seguir à colheita.

Deixemos-lhe os louros e vamos em frente. Foi, então, a partir de finais do século XVII, que a técnica se desenvolveu, usada para fazer champanhes ao gosto da época, com elevado teor de açúcar residual. Foi preciso esperar até 1874, para que Louise Pommery colocasse, no mercado, uma autêntica bomba: o primeiro Champagne realmente seco, algo inédito e inusitado para a época. O rosé, que em Champagne resulta de um lote de vinhos branco e tintos, vinificados separadamente, ainda hoje é um produto mais raro e mais caro que o branco.

A designação Blanc de Noirs pouco se usa em Champagne, porque a grande maioria é mesmo feita segundo essa técnica, sobretudo a partir de Pinot Noir, mas também de Pinot Meunier.
Entre nós, e sobretudo depois de 2015, quando foi criada a categoria “Baga-Bairrada”, começou a ver-se com mais frequência nos rótulos a designação Blanc de Noirs.

Na Bairrada, a categoria Baga-Bairrada contempla vinhos brancos ou rosados feitos a partir da casta Baga, sujeitos a regras especiais (cor, estágio, etc.) e com essa distinção a ter de vir indicada no rótulo. Até um espumante tinto feito de Baga poderia entrar na categoria, mas, segundo Pedro Soares, Presidente da Comissão Vitivinícola da Bairrada, “até hoje não houve nenhum”. Há, actualmente, 33 referências Baga-Bairrada activas, inicialmente com um desenvolvimento rápido após a criação da categoria, mas, “agora menos, a partir do momento que se alterou o tempo de estágio obrigatório, de nove para 18 meses”. De qualquer forma, com a designação Baga-Bairrada, estamos a falar de 400 000 garrafas por ano, o que é obra.

Na prova que fizemos foi evidente uma grande diversidade de estilos, não sendo evidente, de todo, um padrão aromático que possa identificar a categoria

 

Estilos bem diversos

Na restauração, a categoria Blanc de Noirs não tem um estatuto que mereça destaque. Raramente se propõe um espumante ao cliente por ser desta categoria ou o cliente o pede com esta designação. Foi o que nos contou Gonçalo Patraquim, sommelier, actualmente a trabalhar nos Açores, no Double Tree by Hilton, Lagoa, S. Miguel. Em vez de “pensar” o espumante em função da cor ou do perfil, Gonçalo Patraquim entende que olha mais “de fora”, ou seja, em função do menu ou do gosto que percepciona no cliente, tanto pode propor um Blanc de Noirs, como um branco de castas brancas (o que é mais habitual). Já no caso de haver um pairing de carácter regional, aí sim, faz mais sentido propor um vinho desse tipo, para ligar melhor com o prato escolhido.

É verdade que nem sempre é fácil distinguir um branco de um Blanc de Noirs. Gonçalo Patraquim, aponta “uma maior percepção de fruta vermelha e menos citrina neste tipo, e será por aí que poderemos tentar adivinhar que estamos perante um Blanc de Noirs. Mas não é fácil”, conclui.

Na prova que fizemos foi evidente uma grande diversidade de estilos, não sendo evidente, de todo, um padrão aromático que possa identificar a categoria. Enquanto na Bairrada a presença da Baga pode ser padrão para vários vinhos, já no Dão ou no Douro, com outras castas e outros tempos de estágio, a diversidade é maior. Com um leque de escolhas assim, e com uma enorme diversidade de preços, o consumidor tem muito por onde escolher.

Uma questão de cor

Ao usar uvas tintas para fazer um espumante branco, temos sempre alguma tonalidade rosada que resulta da prensagem. Pode ser maior ou menor conforme o teor de cor das uvas usadas e da prensagem que se efectuou. Vulgarizou-se a prática da descoloração do mosto, tornando-o com um aspecto mais citrino e menos rosado. Os métodos são vários, desde o carvão vegetal no vinho, bentonite no mosto ou bentonite-caseína no mosto.

O método mais radical denomina-se PVPP (polivinilpolipirrolidona), mas é menos usado por retirar muitos dos bons compostos aromáticos do vinho, ficando o vinho muito “rapado”, termo geral usado para este efeito. Sem usar qualquer produto para retirar cor, a solução é fazer uma prensagem muito, muito suave, sendo normal uma muito leve tonalidade rosada nos espumantes Blanc de Noirs. Para se ter uma ideia do que se obtém de uma prensagem suave, podemos dizer que, a partir de 4000 quilos de uva que entram na prensa, se obtêm 2050 litros da cuvée, a melhor das três partes que resultam da prensagem, descartando-se a primeira e a última, mais rústicas e tânicas, e usadas para outros fins.

(Artigo publicado na edição de Dezembro de 2025)

*Nota: A ordem dos vinhos apresentados é aleatória

GRANDE PROVA: TINTOS DO DOURO

Douro

A história recente do Douro, no que a vinhos DOC diz respeito, é conhecida, mas não só merece que a ela voltemos, como serve de explicação para a nossa principal conclusão. Já lá iremos. É um Douro moderno, que começou, timidamente, nos anos 90 do século XX, ou seja, há pouco mais de três décadas, […]

A história recente do Douro, no que a vinhos DOC diz respeito, é conhecida, mas não só merece que a ela voltemos, como serve de explicação para a nossa principal conclusão. Já lá iremos. É um Douro moderno, que começou, timidamente, nos anos 90 do século XX, ou seja, há pouco mais de três décadas, com o aparecimento de produtores e marcas a aproveitar parte das uvas, anteriormente destinadas ao Vinho do Porto, para elaborarem vinhos tintos singulares.

Sim, existia um punhado de marcas anteriores, das quais sempre resultou a ideia de que esta região poderia vir a fazer mais e melhores tintos tranquilos – Reserva Ferreirinha, Quinta do Côtto, Quinta do Confradeiro, Quinta da Pacheca –, mas referências, hoje clássicas, como Duas Quintas, Redoma, Quinta da Leda, Quinta da Gaivosa e Quinta do Crasto, surgiram apenas na primeira metade dessa década de noventa. Pouco depois, seguiu-se a estreia de outras marcas que se tornaram igualmente emblemáticas, como Quinta do Vallado, Quinta de Roriz e Quinta Vale D. Maria, entre outros.

Foi a chegada do novo milénio e a primeira década de 2000, que serviram de contexto para a explosão do DOC Douro, sempre com ênfase em tintos, por regra, robustos e concentrados. Tratou-se de uma época de grande crescimento económico, alimentada por uma nova moeda, fundos europeus e uma crescente abertura ao exterior, durante a qual muitos, no Douro, passaram a optar por vindimar uva para produzir vinhos tranquilos. A tendência que já se verificava em relação ao decréscimo do consumo e venda de Vinho do Porto (tirando um ou outro fenómeno comercial alicerçado numa grande colheita, como a de 2000 ou 2003) acelerou a transição no vale do rio que empresta o nome a este território vitivinícola, onde a vinha era praticamente uma monocultura.

Se a tudo isto juntarmos mais do que uma fornada de enólogos talentosos, quase todos residentes (nem que seja por alguns anos) na região, algo pouco habitual nas anteriores gerações, a descoberta recente dos vinhos brancos em altitude, e a confirmação de um enoturismo de gama alta, temos todos os ingredientes que nos conduziram à situação atual.

E que situação é essa? Uma imensidão de vinha – alguma a ser arrancada por estes dias, tamanha é a abundância –, centenas de marcas, milhares de produtores e muitas dezenas de enoturismos de qualidade superior. Atualmente, contabilizam-se mais de 60 milhões de garrafas DOC, vinhos esses responsáveis pelo processamento de mais de metade da matéria-prima produzida na região. O colapso das vendas do Vinho do Porto, com o registo de descida de 34% desde 2000, e a ausência de medidas, como o ‘benefício’ (goste-se ou não do ‘benefício’), para o DOC Douro, fez com que houvesse, no presente, um excesso sistémico de uvas no Douro, sendo o preço pago aos agricultores quase sempre abaixo do custo de produção (calculado entre €0,95 e €1,50), custo este justificado pela viticultura de montanha e baixa produção das vinhas.

No entanto, aquilo que é um pesadelo ao nível de modelo económico e social faz com que não faltem bons vinhos DOC no Douro. Aliás, estamos certos de que nunca houve um período com tão bons DOC do Douro e Vinhos do Porto como neste em que vivemos.

Qualidade inquestionável

Nesta prova, reunimos mais de 50 referências vínicas. Grande parte são verdadeiros topos das respetivas gamas, provenientes das três sub-regiões do Douro (Baixo Corgo, Cima Corgo e Douro Superior). Como temos vindo a escrever, com tanta uva, e tanta uva boa, não admira a qualidade com a qual nos confrontámos. Aliás, a par de Bordéus e Rioja, o Douro é, hoje, uma das regiões do mundo com maior número de produtores de excelência e de vinhos verdadeiramente brilhantes. Muitas regiões existem, é certo, com vinhos únicos, e algumas regiões produzirão os melhores do mundo, mas no Douro atual são várias as dezenas de referências, cuja qualidade é inquestionável sob qualquer padrão.

A confirmá-lo, tivemos no nosso painel cerca de 40 vinhos com pontuações acima de 18 e não faltou muito para termos quase uma dezena com 19 e 19,5 de pontuação. Em suma, os números falam por si e há poucas regiões como esta!

Porém, ainda existem grandes desafios. Por um lado, salvar os agricultores e reerguer um novo modelo económico, por outro, consolidar as boas marcas existentes, aumentar o seu valor e ampliar a projeção junto dos mercados internacionais. Sobre esta matéria, foi importante analisarmos, mais uma vez, perfis diferentes, de vinhos e de produtores, apesar da consistência da qualidade. Quase sempre com base em vinhedos com bastante idade, encontrámos evidentes nuances nos vinhos provados, mesmo considerando as diferentes colheitas em prova.

Mantém-se aqueles em que a personalidade das vinhas, anteriormente para Vinho do Porto (importa não esquecer), vinga quase sem maestro num produto intenso, profundo e de tanino vigoroso e saboroso. De um lado, há vinhos de absoluto pormenor, feitos a partir de uva vindimada em parcelas inferiores a um hectare e esculpidos pela enologia até ao último detalhe. E vislumbramos outros também, mais experimentais, aqui e ali, com alguma casta esquecida (ou até estrangeira), elaborados com fermentação das uvas em cachos intactos, à procura por menor extração ou maior frescura.

Tudo isto é Douro, desde que, em todos os seus matizes, cheirem e saibam a Douro. Cheirem e saibam a fruta madura condimentada com urze e esteva, a chá earl-grey da Touriga Nacional, a rosas da Touriga Franca, a fruta abundante da Tinta Roriz, sem esquecer a magia caleidoscópica dos lotes com dezenas de castas misturadas.

Que o Douro é, presentemente, uma das regiões favoritas dos consumidores nacionais, ninguém tem dúvidas. Que os seus vinhos estão entre os mais valorizados no país, também. Contudo, é preciso caucionar que o necessário arranque de vinhas não faça desaparecer patrimónios vitícolas únicos, que as populações sejam recompensadas pelo legado das vinhas velhas, cuja presença no território tem garantido, e que sejam ainda mais – e não menos – os vinhos verdadeiramente excecionais desta excecional região. No que a nós diz respeito, foi um privilégio prová-los a todos.

(Artigo publicado na edição de Dezembro de 2025)

*Nota: a ordem das garrafas é aleatória

5ª edição do Concurso de Cocktails Blend Series

Cocktails

Todos os bartenders e mixologistas do mundo inteiro estão convocados a inscrever-se, até ao dia 13 de Fevereiro, na 5ª edição do Concurso de Cocktails Blend Series, uma iniciativa da Symington Family Estates. Objectivo? Criarem cocktails elaborados com os vinhos do Porto Blend Nº5 Branco e Blend Nº 12 Ruby. Para o efeito, basta indicar […]

Todos os bartenders e mixologistas do mundo inteiro estão convocados a inscrever-se, até ao dia 13 de Fevereiro, na 5ª edição do Concurso de Cocktails Blend Series, uma iniciativa da Symington Family Estates. Objectivo? Criarem cocktails elaborados com os vinhos do Porto Blend Nº5 Branco e Blend Nº 12 Ruby. Para o efeito, basta indicar o nome do cocktail, escrever uma descrição e a receita detalhada, e incluir uma fotografia do resultado.

Após o período das inscrições, esta iniciativa avança para as Competições Nacionais, a terem lugar nos meses de Fevereiro, Março e Abril de 2026, nos seguintes países: Reino Unido, Lituânia, Holanda, Alemanha, Portugal, Coreia do Sul, República Checa, Cazaquistão, Islândia, Brasil e Canadá. A nomeação de cada vencedor é entregue a um painel internacional de jurados especialistas convidados a participar na Final Global. Esta etapa está agendada, por sua vez, para o período entre 10 e 12 de Maio de 2026, no Porto, e incluirá experiências no universo da Graham’s, com atividades em Vila Nova de Gaia e no Vale do Douro. O vencedor receberá um prémio no valor de €2.000, stock de Graham’s Blend Nº5 e Blend Nº12 e um convite para representar a marca Graham’s num Guest Shift organizado.

As inscrições na 5ª edição do Concurso de Cocktails Blend Series e outras informações podem ser encontradas aqui (Graham’s – Blend Series).

Cocktails

 

“Exportação como Motor de Valor”

exportação

Eis o nome do programa de apoio estratégico criado no âmbito da parceria estabelecida entre Comissão Vitivinícola Regional Alentejana (CVRA) e a AICEP – Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal. Objectivo? Incitar todos os produtores e empresas de vinhos da referida região vinhateira a reestruturarem a presença fora de portas, de modo […]

Eis o nome do programa de apoio estratégico criado no âmbito da parceria estabelecida entre Comissão Vitivinícola Regional Alentejana (CVRA) e a AICEP – Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal. Objectivo? Incitar todos os produtores e empresas de vinhos da referida região vinhateira a reestruturarem a presença fora de portas, de modo a melhorarem a posição nos diferentes mercados e reforçarem as exportações dos Vinhos do Alentejo além-fronteiras.

O programa “Exportação como Motor de Valor”, parte integrante do Plano Estratégico dos Vinhos do Alentejo 2026–2031, arranca no próximo dia 13 de Janeiro, na Rota dos Vinhos do Alentejo. Além de assinalar o arranque de uma nova fase na abordagem da região face ao mercado externo, tem com finalidade duplicar as exportações ao longo desse período.

Sobre esta matéria, Paulo Rios de Oliveira, Administrador da AICEP, afirma o seguinte: “Com este programa, a AICEP reforça o seu compromisso em apoiar os produtores do Alentejo na construção de uma presença internacional mais estruturada, competitiva e geradora de valor sustentável para o país.” Por sua vez, Luís Sequeira, presidente da CVRA sublinha que “esta parceria vem reforçar a internacionalização como um pilar estratégico, colocando a região numa trajetória clara de expansão internacional e de valorização económica”.

Ainda a respeito do Plano Estratégico dos Vinhos do Alentejo 2026–2031, é de salientar a importância de afirmar internacionalmente a região através de uma abordagem mais lata, integrando não só o vinho, mas também o receituário, o azeite, a cultura e a autenticidade territorial.

 

Viagem ao Centro de Portugal

viagem

O ruído à volta da atual crise do setor vitivinícola é demasiado sonoro, obrigando-nos a repensar fórmulas e estratégias que permitam, de algum modo, ultrapassar este período que desejamos que seja apenas um ciclo e não um declínio estrutural e definitivo de um negócio que emprega milhares de pessoas e faz parte da nossa cultura. […]

O ruído à volta da atual crise do setor vitivinícola é demasiado sonoro, obrigando-nos a repensar fórmulas e estratégias que permitam, de algum modo, ultrapassar este período que desejamos que seja apenas um ciclo e não um declínio estrutural e definitivo de um negócio que emprega milhares de pessoas e faz parte da nossa cultura. O último ano tem sido bastante conturbado, sucedendo-se manifestações de preocupação transversais a agricultores, produtores, distribuidores e retalhistas. Os dados oficiais são inequívocos a transmitir-nos uma diminuição do consumo nacional, com uma discrepância que se agrava entre o consumo e a oferta. Os relatórios internacionais mais recentes não auguram um futuro auspicioso, sinalizando que o consumo mundial cai todos os anos.

Contudo, o vinho com mais de 4000 anos de história entre nós, pelo peso cultural e económico que detém, é demasiado importante para que nos resignemos perante um declínio acentuado. Sensível a esta crise e com o intuito de contribuir para a busca de respostas e alternativas, a Grandes Escolhas trouxe a Portugal duas dezenas de profissionais do setor, entre importadores de média dimensão, de mercados e produtos de nicho, detentores de clubes de vinhos exclusivos, operadores turísticos dos mercados premium e super premium, e jornalistas da área de vinhos e gastronomia que, durante três dias, diagnosticaram o território das Beiras, com passagens pelas regiões vitivinícolas da Beira Interior, Dão e Bairrada.

Despertar da Beira Interior

A viagem a partir de Lisboa faz-nos entrar na Beira Baixa pelo sul. O Tejo surge-nos à direita, atravessando a Serra das Talhadas, onde, através do majestoso desfiladeiro rochoso das Portas do Ródão, o rio se estreita. A A23 traça-nos o caminho e, ao longe, num reflexo dourado, surge a Adega 23, arrojado projeto que tem o vinho como pretexto, mas um propósito muito mais amplo. Em 2024, integrado na exposição intitulada “O que faz falta”, destinada a celebrar os 50 anos do 25 de Abril na arquitetura, o projeto de Sarnadas do Ródão é distinguido como uma das 50 obras mais relevantes das últimas cinco décadas da democracia portuguesa. Manuela Carmona, reputada médica oftalmologista, tem as suas raízes neste local.
Com a Serra de São Mamede como linha do horizonte, Manuela Carmona criou de raiz uma adega, onde a história, a cultura e a arte são um forte complemento à produção vitivinícola de vinhos e espumantes. O projeto de arquitetura é delineado pelo Atelier RUA, para o qual os arquitetos conjugaram a cortiça, que reveste todo o edifício de nuances douradas. Localizado na cota mais elevada da propriedade de 12 hectares, é o elemento que mais se destaca a quem circula na A23, a autoestrada que contribui com o nome à vontade materializada de Manuela Carmona investir na sua região berço.

O interior do edifício foi, igualmente, desenhado com o cuidado de quem compreendeu que, além do vinho, há toda uma outra possibilidade de rentabilização de espaço e conceito. Da varanda panorâmica, olhamos o Alto Alentejo, as Talhadas e a Serra da Estrela. As áreas sociais do edifício acolhem exposições, eventos culturais e sociais, provas vínicas em almoços e jantares, e não é alheio ao sucesso da loja que, atualmente, já corresponde a uma fatia importante da faturação. Em vinhas de solos xistosos e quartzo, estendeu-se um compromisso entre as castas mais tradicionais – Rufete, Síria e Fonte Cal – e as nacionais Alicante Bouschet e Arinto, bem como as internacionais Syrah e Viognier. A produção ronda cerca de 30 mil garrafas, centrando-se a venda, sobretudo, na restauração de Lisboa e nalguns pontos exclusivos no país. Sendo um projeto ainda muito recente – a primeira vindima ocorre apenas em 2017 – as vendas de vinho decorrentes do enoturismo e atividades da adega ainda representam apenas 5% do total de faturação. No entanto, José Hipólito, enólogo da Adega 23, está consciente que o futuro passa pelas virtudes do turismo à porta de casa, centrado num edifício que foi criado para bem receber.

Regressados à estrada, rumamos ao norte, até Belmonte, onde, nas franjas da Serra da Estrela, encontramos a Quinta dos Termos. Foi a partir das parcelas do pai e das vinhas plantadas na década de 1940, que João Carvalho, empresário têxtil de sucesso e professor universitário, fez crescer um dos mais notáveis projetos da Beira Interior. A propriedade nos Termos conta já com mais de 60 hectares, possuindo, no total, nas Beiras, 130 hectares, a que somou, mais recentemente, uma propriedade no Douro, a Quinta do Pocinho.

Na Quinta dos Termos, localizada a uma altitude média de 500 metros, apostou-se na diversidade e experimentação. A par das nacionais Touriga Nacional, Trincadeira, Rufete, Jaen, Tinta Roriz, Marufo, Tinto Cão, Alfrocheiro e Baga, foram plantadas a Syrah, a Petit Verdot e a Sangiovese. Nas brancas, entre as locais, constam a Fonte Cal e a Síria, fazem-se experimentações, com bons resultados, com Arinto, Verdelho e Riesling. A vertente do turismo é levada muito a sério. Num universo de produção de cerca de 800 mil garrafas, o turismo ainda só corresponde a 5% da faturação total desta propriedade. A região está a dar os primeiros passos nesta vertente e a Quinta dos Termos quer fazer parte desse mercado cada vez mais significativo. Ao longo do ano, são as visitas com prova e os eventos organizados com jantares que conferem a dinâmica na propriedade, com notória repercussão nas vendas.

São já mais de 10 mil visitantes que, por ano, se deslocam a este produtor modelo da Cova da Beira, com maior incidência no verão, mas a encurtar distâncias nos meses ditos de época baixa, destacando-se um turismo sénior a partir de setembro e outubro. O investimento em infra-estruturas é constante e, a par com a adega, os espaços dedicados a albergar grupos têm crescido. O facto de a Quinta dos Termos ser, pela expressividade das vendas, a marca mais reconhecida da Beira Interior, potencia a curiosidade e as visitas, não se ignorando o fator natureza e sustentabilidade, selo que a propriedade de João Carvalho ostenta com orgulho de ser a primeira adega em Portugal a garantir a certificação em sustentabilidade. As vendas na, ainda, pequena loja da quinta, representam 150 mil euros de faturação anual, com tendência a um crescimento. O mercado externo somente agora começa a ter alguma tração nas vendas, sobretudo Brasil e China. A estratégia tem sido, até recentemente, de forte implementação no mercado nacional. No fundo, são cerca de 1500 os espaços de restauração onde a marca está presente no território nacional. Para o futuro, a equação pode passar por novas valências na área turística, não estando, por ora, prevista a criação de unidade de alojamento.

A Beira não se faz sem a gastronomia de conforto e, após a travessia da Serra da Estrela para as suas franjas, a norte, fomos ao encontro, noite dentro, da pequena povoação de Galegos, situada nas cercanias da forte, fria, fiel formosa e, à mesa, farta cidade da Guarda. Aqui, encontrámos poiso no Restaurante Colmeia, conduzido desde 1983 por Max Gonçalves e pela sua mulher, Teresa. A justa fama de ser uma das melhores casas de bem comer da região serve-se à mesa, na extrema competência de confeção de pratos serranos, com o polvo, o cabritinho e os nacos a marcarem presença assídua, complementados por uma doçaria muito competente. De louvar, a carta de vinhos preenchida, sobretudo, por referências certificadas da Beira Interior, também com destaque para os mais pequenos e recentes projetos da região. Lugar incontornável numa viagem pelas Beiras.

A pernoita teve lugar na cidade-falcão, Pinhel. Recentemente inaugurado em pleno centro histórico da localidade, o Brasão Dourado, um solar do século XVIII, que emprestou a sua imponência ao alojamento local, dispõe de 21 quartos, incluindo três suítes. Catarina Dourado, a proprietária, tem neste projeto a materialização do sonho de criança. O edifício foi adquirido pelos seus pais, um ourives e uma professora, o qual foi objeto de vultuosas obras de remodelação. Tendo aberto portas este ano, este alojamento vem colmatar uma necessidade de há muitos anos em Pinhel, uma vez que se trata de uma unidade hoteleira com maior capacidade de alojamento do concelho.

O Dão nobre

O segundo dia leva-nos até um Dão, onde o enoturismo é já uma realidade robusta, beneficiando de uma história que cruza o vinho com solares imponentes e famílias ancestrais. Com berço na Bairrada e quatro décadas de presença no Dão, Casimiro Gomes tem, em Nelas, o quartel-general da Lusovini, empresa que, após conquistar mercados sólidos em países de expressão portuguesa, sobretudo Angola e Brasil, expandiu influência e vendas por mercados europeu, norte-americano e asiático. Com um investimento superior a cinco milhões, ali nasceu, há quase uma década, um centro logístico, adega, cave de espumante e armazém para stock das linhas premium. Com ele também surgiu o restaurante, atualmente, uma das melhores referências regionais, o Taberna da Adega.

Vocacionada para a internacionalização, que representa cerca de 80% de todo o volume de produção, na Lusovini avalia-se muito seriamente o enoturismo. Atualmente, representa cerca de 25% de todo o volume de faturação. Aquando da abertura do restaurante, em 2016, não havia sequer a expetativa de um resultado tão positivo. A grande maioria dos clientes são provenientes de fora da região e é a diversidade de serviços que o torna tão apelativo. Dispondo de salas para reuniões, zona de receção com condições para trabalho remoto, criaram-se as mais-valias que cativam e atraem clientes de negócios e lazer. A articulação e as dinâmicas existentes com as unidades hoteleiras da região, resultantes de parcerias informais, mostram efeitos positivos para todas as partes. Com cozinha à vista, é a confeção dos pratos regionais que cria fidelidade.

Casimiro Gomes lamenta que Nelas ainda não estimule o registo de um maior número de dormidas. O fator distância deixou de ter relevância. As acessibilidades de hoje permitem que Lisboa, Porto e Coimbra fiquem cada vez mais perto. Nelas possui espaço para atrair mais unidades hoteleiras, até porque, não havendo ainda especulação de preços, torna-se mais atrativa que o litoral. Contudo, ainda se falha na criação de roteiros consistentes e variados, que estimulem a pernoitar mais. Casimiro Gomes, deixou ainda uma referência à hotelaria de luxo já existente na região. E foi rumo a ela que viajámos neste segundo dia de périplo pelas Beiras.

A vila de Santar, com cerca de 1000 habitantes, mesmo no contexto do Dão, é um mundo à parte. As ruas debitam tradição, herança e, ali, vários foram os momentos marcantes da nobreza e da monarquia nacional que transformaram a história de Portugal. Numa antiga residência real, pertencente a D. Miguel Rafael de Bragança, irmão de D. Duarte Pio, ergue-se o Valverde Santar Hotel & Spa, unidade hoteleira de cinco estrelas cercada por jardins frondosos e vinhedos antigos. O interior transporta-nos para um passado longínquo da realeza, com toda a formalidade desenhada nas amplas salas iluminadas pelos lustres dourados, pinturas a óleo originais, poltronas antigas e madeiras esculpidas. Os quartos e suítes renderam-se à modernidade e oferecem o máximo conforto. É um dos mais belos hotéis portugueses, oferecendo um Spa de última geração, instalado na antiga adega, e o acesso a uma impressionante biblioteca. Localizado a 90 minutos do Porto, este hotel é, acima de tudo, procurado por turistas estrangeiros, possuindo uma taxa de ocupação muito elevada durante todo o ano, igualmente graças aos programas especiais desenhados para as datas festivas e à possibilidade de ser reservado na sua totalidade, a preços que se iniciam nos €7.500 por noite.

A cerca de cinco quilómetros de Viseu está a Quinta de São Francisco, propriedade familiar adquirida em 1996, que deu lugar à marca Chão de São Francisco. O centro nevrálgico é o solar beirão, erguido no século XVIII, testemunho de um legado da fidalguia da época, ali albergando a capela de Nossa Senhora dos Escravos, esta erigida antes da construção do solar (1660). Onde outrora existiam avelaneiras, hoje deitamos a vista sobre oito hectares de vinha ocupada pelas castas preferidas do proprietário: Touriga Nacional, Tinta Roriz e, por uma tradição infelizmente quase abandonada na região, a Baga. A pretensão inicial foi a produção de vinhos com a indelével marca do Dão, possuindo a adega a capacidade de vinificar e armazenar cerca de 100 mil litros de vinho. Atualmente, selecionam a melhor uva e produzem 35 mil litros para produção própria e engarrafamento. A restante uva é cedida.

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Quinta de São Francisco, Dão

O enoturismo da Quinta de São Francisco, com componente de alojamento, surge mais tarde e teve por inspiração o encanto dos jardins e das diversas fontes da propriedade, criando um ambiente intimista com todos os recantos e mesas de pedra. A proximidade de Viseu e a os programas taylor made têm vindo a contribuir para a procura por parte de uma camada eclética de turismo, cujo tour prévio nos embala pela história de fidalguia da quinta. Aquele termina com uma prova obrigatoriamente acompanhada por queijos e enchidos regionais. O alojamento abriu portas há cerca de dois anos e tem sido uma mais-valia em diversos aspetos. Não apenas convida a permanecer na região por mais tempo, como também tem sido um fator de captação de novos clientes para a exportação. Não sendo o outono e o inverno ainda um barómetro do que aí vem, a verdade é que o enoturismo representa uma fatia substancial das vendas e a tendência prevê o crescimento das experiências, com o foco na ‘prova’ do território, num ambiente afável e familiar.
Já a saída de Viseu se faz debaixo de uma chuva copiosa. O último destino do dia e da região leva-nos até Penalva do Castelo, onde nos espera um coberto cinzento e húmido. À chegada encontramos a imponência da Casa da Ínsua, conjunto arquitétonico que alberga um hotel de cinco estrelas, vocacionado para o segmento de luxo, proporcionando uma multiplicidade de experiências que abrangem a componente histórica.

O atual Parador Casa da Ínsua nasce da reabilitação do solar erigido no século XVIII, por Luis Albuquerque de Mello Pereira e Cáceres, Capitão-General de Mato Grosso, Brasil. A preservação da traça original da imponente fachada e do interior finamente decorado com azulejaria barroca, tetos trabalhados, lareiras belamente esculpidas e armas indígenas brasileiras, cria um ambiente de viagem no tempo, para uma época de glória lusitana, permitindo aos hóspedes uma revisitação de domínio e riqueza da nobreza portuguesa. Com quartos personalizados com a história da casa e jardins de inspiração francesa, repletos de árvores exóticas trazidas pelo primordial proprietário, o espaço dispõe ainda os vinhos de produção própria e o Queijo Serra da Estrela DOP ali produzidos diariamente por artesãs que seguem à risca toda uma arte secular.

O Dão, com esta amostra de locais visitados, revela que está uns passos à frente no modo como coloca o enoturismo na vanguarda de um negócio que, cada vez mais, está muito para além do ato de comercializar um líquido engarrafado.

Uma Bairrada a dois tempos

O terceiro dia deste roteiro leva-nos à elevação que separa a região granítica do Dão da Bairrada, da argila e do calcário, a Serra do Buçaco. No ponto mais alto, marcado por uma cruz de Cristo, nos aguardava uma representação da dinâmica associação Rota da Bairrada. Daquele promontório, em dias de céu limpo, é-nos permitido ter uma vista desafogada das cercanias da cidade de Coimbra, da Serra da Boa Viagem, que encobre a Figueira da Foz, da Ria de Aveiro, da Serra do Caramulo e do Atlântico, que nos ilumina o horizonte. A meio caminho da descida até ao sopé da Serra, embrenhamo-nos entre muros. Falamos na Mata do Buçaco, onde, desde o século XVII, reside uma mancha florestal plantada pela Ordem dos Carmelitas, que confere um ambiente luxuriante, albergando diversas fontes, caminhos pedonais e uma das mais completas Vias Sacras do mundo cristão. Vencido o manto verde, surge-nos, o Palace Hotel do Buçaco, edifício neo manuelino projetado pelo cenógrafo Luigi Manini e construído entre 1888 e 1907, para servir de Paço de caça ao rei D. Carlos. Porém, conta-se que, se ali alguma vez pernoitou, não terá sido para caçar. Com a queda da Monarquia, o palácio real dá lugar ao hotel, encontrando-se, desde 1917, nas mãos da família Alexandre de Almeida.

O conceito de hotel, com salas faustosas, frescos de caça e azulejaria, entre outros elementos, evocativa dos Descobrimentos, insere-se mais num conceito de revisitação histórica do que propriamente no conforto associado à hotelaria contemporânea, facto bem explícito no site. Se procura uma experiência de fausto real, em que os 60 quartos e as quatro suítes mantêm o mobiliário original, os cortinados de veludo e uma natural decadência, fruto da passagem do tempo, encontram aqui a verdadeira cápsula do tempo. Quem desejar o conforto de design e a mais alta tecnologia, aconselham-se outras paragens. A maior surpresa estava reservada para o restaurante do palácio, centrado na prática de uma cozinha contemporânea de inspiração francesa, com menus de degustação constituídos por sete momentos, harmonizados com os raros e míticos vinhos do Buçaco, guardados a sete chaves na cave do edifício, podendo ali ser encontradas colheitas, se a memória não me falha, desde 1929. Peças de elevada raridade!

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Francisco Batel Marques, proprietário da Quinta dos Abibes, Bairrada

Descendo a serra, sem a perder de vista, rumámos a Aguim, aldeia do concelho de Anadia, onde encontramos o projeto que o professor universitário Francisco Batel Marques ergueu dos escombros a partir de 2003, a Quinta dos Abibes. No início, esperavam-no 10 hectares de abandono. A pouco e pouco, e vencendo as dificuldades burocráticas, ergueu uma propriedade modelo, com a plantação de castas portuguesas Baga, Touriga Nacional e Arinto, e as internacionais Cabernet Sauvignon e Sauvignon Blanc. Entretanto, introduziu a Bical e a Syrah. O enoturismo faz-se sobretudo através das visitas às vinhas e à adega, de provas e jantares vínicos no salão do edifício principal, com vista para os vinhedos e a Serra do Buçaco.

Uma das maiores vantagens da Bairrada para ‘turistar’ são as boas acessibilidades e a proximidade entre locais a visitar. Entre Aveiro e Coimbra, por auto estrada, não demoramos mais de 40 minutos, a cumprir os limites de velocidade. Pelo meio, temos o coração da Bairrada, o espumante, o leitão e outras virtudes merecedoras de visita e/ou pernoita. É o caso do Curia Palace Hotel, igualmente integrado no grupo Alexandre de Almeida. A aldeia da Curia era, durante quase todo o século XX, um local de termalismo sério, onde milhares de utentes permaneciam durante longos períodos, selecionando, consoante a bolsa, uma das muitas pensões ali existentes ou no exclusivo Curia Palace. Construído de raiz para hotel e a funcionar desde 1926, é o epíteto dos loucos anos 20 do século XX, do luxo e vanguardismo associados a uma sociedade que convivia de perto com as influências estrangeiras e as replicava localmente. Alvo de obras profundas de remodelação, esta unidade mantém a patine de outrora, tendo sido palco, nos últimos dois anos, do Millésime, a festa do espumante nacional por excelência, recriando os primórdios festivos do hotel, na região que o viu nascer há 135 anos.

A escassos 500 metros, está o edifício da Rota da Bairrada, sede da associação homónina criada para coordenar, inicialmente, os produtores de vinho da região, mas logo alargada a unidades de alojamento, restauração, hotelaria e assadores de leitão. Se há um trabalho modelo em prol do território, é aqui que é realizado. Contando com quase uma centena de associados, dos quais 45 são produtores vitivinícolas, a associação tem pautado a atividade na coordenação de eventos dentro de portas e de cariz nacional, representando o território no exterior. O que aqui é realizado é verificável pelas estatísticas do aumento dos visitantes a toda a região que abarca, não apenas as principais capitais de distrito, Aveiro e Coimbra, mas o coração de uma região, onde é o espumante e o leitão quem mais ordenam.

Por falar em espumante, ao entardecer tomámos o caminho em direção às Caves São Domingos, empresa da pequena aldeia de Ferreiros, fundada pelo industrial de madeiras Elpídio Martins Semedo, em 1937. Com uma estrutura societária familiar, hoje é uma das líderes na produção de espumantes, exclusivamente elaborados pelo Método Clássico desde os seus primórdios. Logo nos anos 30 do século passado, foi aberto, a golpes de picareta, um rendilhado de galerias subterrâneas onde, ainda hoje, estagiam cerca de três milhões de garrafas. É nos subterrâneos que se vivem os momentos mágicos das visitas, que, a par com as provas, são os principais fatores de atração e, claro, o espumante que, ali, conta com 16 referências. A vertente de produção e comercialização sempre foi o foco primordial. Todavia, é com o sangue novo de Duarte Amorim, que se olha para um futuro focado no investimento, sobretudo na criação de uma sala de provas com vista para uma vinha pedagógica, onde estão plantadas mais de cinco dezenas de castas diferentes.

Para o final desta viagem, guardámos as Caves São João, a, outrora, empresa familiar que, é ela mesmo, repositório de toda a história da região da Bairrada dos últimos 100 anos. Aqui, e para falarmos de enoturismo sem componente alojamento, percebemos que há um conceito a que os britânicos chamam de heritage. Mais do que património e vinhos, bebe-se a história de uma Bairrada moderna, nascida com a indústria dos espumantes em 1890, pela mão de Tavares da Silva, o técnico, e de Justino Sampaio Alegre, o visionário industrial. Aliado a um espólio valioso de vinhos antigos, provavelmente o maior do país em vinhos tranquilos, com cerca de 400 mil garrafas armazenadas, pratica-se o bom gosto que transforma a visita, as provas e os jantares, em experiências inolvidáveis, como o foi para a vintena de estrangeiros que a puderam vivenciar. Célia Alves, atual gerente da empresa, coloca uma tónica especial nesta vertente, a qual já não pode ser dissociada da mera venda de vinhos.

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Célia Alves, gerente da Caves São João, Bairrada

Nas Caves São João, vende-se hoje uma imersão no território, na história e nos sabores e aromas de uma região que vai tomando o turismo como um filão ao alcance de todos. Se os visitantes ali encontraram território bairradino, também encontraram memórias e laços com Champagne, através dos espumantes produzidos como nos primórdios da região, com as castas Pinot Noir e Chardonnay, nos Cabernet Sauvignon dos anos 90 do século XX, uva plantada, pela primeira vez, na Quinta do Poço do Lobo, no início dos anos 1980, no colheita tardia reconheceram Bordéus, nas aguardentes vínicas dos anos 60, reconheceram Cognac. Foi esta experiência sensorial que os sensibilizou para a qualidade dos grandes vinhos portugueses, ávidos de serem parte importante das nossas exportações.

Em jeito de conclusão, muitas ilações e lições podem ser retiradas desta viagem, durante a qual o vosso cronista foi auscultando cada um dos importadores, operadores turísticos e jornalistas. Possuímos singularidade, identidade, gentes que valorizam o território. Necessitamos, talvez, de perceber que o nosso mercado de enoturismo deve procurar um segmento premium e, para isso, temos de oferecer condições e, acima de tudo, ter uma boa capacidade de comunicação… em inglês.

(Artigo publicado na edição de Dezembro de 2025)

HERDADE DO MONTE DA RIBEIRA: O mosaico vivo da Vidigueira

RIBEIRA

A Herdade do Monte da Ribeira, à qual foi, posteriormente, anexada a Herdade do Farrobo, constitui uma área total de 1100 hectares, localizados em Marmelar, na Vidigueira, sub-região do território vitivinícola do Alentejo. Este número está distribuído pela serra do Mendro, com 600 hectares, o olival, com 210, e a vinha, com 43, entre outras […]

A Herdade do Monte da Ribeira, à qual foi, posteriormente, anexada a Herdade do Farrobo, constitui uma área total de 1100 hectares, localizados em Marmelar, na Vidigueira, sub-região do território vitivinícola do Alentejo. Este número está distribuído pela serra do Mendro, com 600 hectares, o olival, com 210, e a vinha, com 43, entre outras zonas que compõem a manta de retalhos desta enorme extensão de terra. Há uma imensa paisagem a explorar na companhia de Mariana Carmona e Costa, diretora agrícola e oleóloga da Casa Agrícola HMR, e descendente da família proprietária, Nuno Elias, enólogo e diretor de produção, e António Maria Aleixo, responsável pela produção agrícola. A Casa Agrícola HMR, à qual pertence esta propriedade, faz parte da Fundação Carmona e Costa.

A introdução é feita por Nuno Elias, que começa por explicar a origem da referida extensão de montanhas, que se prolonga no lado norte da propriedade. “É uma zona de encontro de mini falhas tectónicas, que deram origem a esta elevações, com cerca de 400 metros de altitude e é nesta correnteza que está a barragem do Alqueva.” A serra do Mendro forma uma barreira natural que impede a passagem do vento, situação benéfica para a vinha, uma vez que “a junção de temperatura alta com a deslocação do ar seca tudo”, explica o nosso cicerone. Mesmo no verão, quando o termómetro regista altas temperaturas, “mesmo que haja aqui uma nortada, ela não entra. Então, só temos calor e forma-se uma humidade natural relativa matinal, mas como não há deslocação de ar, mantém-se e as cepas sofrem menos”, afirma o enólogo. No inverno, os nevoeiros tomam conta da paisagem até perto das 10h00. “Felizmente, isso já não é comum a partir do ciclo da planta, a partir de maio. Portanto, temos boas condições para que não se formem tantos fungos nas plantas”, continua Nuno Elias.

A respeito do míldio, a escassez de chuva no Alentejo durante o período vegetativo é vantajosa. “No caso do oídio este precisa de mais humidade relativa aqui existem condições matinais que são propícias e necessitam de um acompanhamento mais efetivo”, informa. Em contrapartida, as chuvas registadas na primavera deste ano de 2025 deram origem a condições favoráveis à vinha, “quer ao nível da hidratação, reposição de trabalho de campo, como lhe chamamos, quer ao nível das pragas. Não se previa que o efeito das chuvas fosse tão benéfico”, reforça Nuno Elias, já que abundância pluvial suprimiu a reprodução da cigarrinha e do aranhiço, dois inimigos das plantas.

António Maria Aleixo, responsável pela produção agrícola, Mariana Carmona e Costa, directora agrícola e oleóloga, e Nuno Elias, enólogo e director de produção.

 

Eficiência hídrica

São três as barragens da Herdade da Ribeira do Monte, as quais favorecem a autonomia na rega. Este passo foi dado após a compra desta propriedade alentejana por Vítor Carmona e Costa, fundador da atual Casa Agrícola HMR – então Companhia Agrícola de Desenvolvimento – e tio-avô de Mariana Carmona e Costa. A estreia aconteceu com a barragem de Marmelar, construída no curso da ribeira de Marmelar, com localização próxima à adega. Possui uma bacia de 50 km2.

Numa quota de 100 metros situada na outrora Herdade do Farrobo, está outra barragem, que “raramente atinge a quota máxima”. Próximo do limite da propriedade está a Barragem dos Patos. Funciona quase como reserva e não raras vezes, a partir de meio de setembro, quando surge a ameaça da escassez das chuvas, é necessário recorrer a esta para regar o olival. O transvase de água efetuado de umas barragens para as outras é efetuado através da energia produzida pelos painéis solares. “Neste momento, as restantes barragens são complementares e isso permite-nos ter autonomia entre os 80% e os 90% em área de regadio, isto é, para a vinha e para o olival”, elucida a nossa anfitriã.

“A chuva faz a diferença na agricultura”, pronuncia-se Nuno Elias, para quem “um fruto que seja acompanhado com hidratação durante o período do amadurecimento tem mais qualidade do que o fruto que ficou à míngua do amadurecimento”. Mariana Carmona e Costa acrescenta as vicissitudes inerentes à competição existente entre a cobertura do solo com a videira em anos de um menor registo de pluviosidade. Nos anos em que chove, essa luta é inexistente, mas impera o corte quase sucessivo da cobertura, “devido à quantidade de água da chuva no solo, que fez com que cresça em demasia”.

Por outro lado, face às temperaturas muito altas associadas a solos pobres e a secas cíclicas, o envelhecimento prematuro das videiras tem vindo a tornar-se um problema. Segundo Nuno Elias, a rega, mesmo gota a gota, adia esta realidade. A água permite que se mantenham “vivas durante a hibernação, que vai até março, e tenham energia para refazerem a sua camada foliar. Para manter uma empresa ativa e lucrativa, temos um ponto de substituição, daí já não termos plantas tão antigas.” A vinha plantada inicialmente, em finais da década de 1980, foi convertida. A vinha mais velha data de 1998. “Se o Alentejo não estiver na região produtora de vinhos mais extrema, está perto!”

Solos diferentes

“Apesar de não ter uma altitude considerável”, a serra do Mendro “deu origem a tipos de solos diferentes”, continua Nuno Elias. De acordo com o enólogo, alguns solos contêm magma e muitos minerais na composição. “Temos manganês fora da escala e o manganês é antagonista do potássio. Por isso, há que ter cuidado com algumas castas. Com o tempo, conseguimos lidar com estas especificidades dos solos que aqui temos.” Por outro lado, os solos são maioritariamente pobres, característica que compromete o aporte nutricional das plantas. Como consequência, “praticamente todo o nosso encepamento produz pouco”.

A contraposição a este cenário acontece na Vinha do Pivot, de 15 hectares, localizada no sopé da serra. Chama-se assim, “porque existia ali um pivot de milho de 30 hectares, que posteriormente se dividiram, em partes iguais, em vinha e em olival”, expõe. É composta por solos de aluvião, com argila ali depositada graças à erosão dos solos da serra do Mendro. “É um solo mais rico, mais fértil e a vinha tem mais vigor. Temos boa capacidade de campo, porque, quando chove, a água fica retida e fica disponível por mais tempo para as plantas”, sublinha.

A Vinha do Farrobo, de oito hectares e cujo nome que se deve Herdade do Farrobo, a segunda propriedade adquirida e anexada à Herdade do Monte da Ribeira, apresenta “uma espécie de solo intermédio”, com calhau rolado e “algum aluvião”, o que leva Nuno Elias a considerar que, em tempos, a ribeira de Marmelar, um afluente do rio Guadiana, passou por ali. “É um solo bastante permeável e com boa drenagem”, destaca. O solo muito pobre está na área da vinha mais velha, submetida a várias replantações. “Era terra de azinho, de difícil trato, daí a opção por várias técnicas de campo, como coberturas, enrelvamentos”, revela o enólogo.

Mudanças, ensaios e perseverança

Sobre as castas, Nuno Elias refere os momentos mais marcantes, ao longo dos quais o fator qualidade é determinante. O primeiro ocorre no final da década de 1980, com a estreia da vinha sob recomendação da Direção-Geral da Agricultura. Segundo António Maria Aleixo, esta cultura ocupa, inicialmente, 50 hectares. “Estavam divididos ao meio, com as castas tintas no lado esquerdo e as brancas no lado direito”.

As castas eleitas para a vinha inicial eram comuns ao Ribatejo e Alentejo, como as tintas Castelão, Aragonez e Trincadeira. Quanto às brancas, a aposta recai nas variedades locais, como Antão Vaz, Tamarez, Trincadeira das Pratas, Alicante Branco. A enologia fica nas mãos de João Portugal Ramos e são plantadas a Cabernet Sauvignon, a Arinto e a Alicante Bouschet. Mantém-se um rácio de 80% de castas autóctones, com a Alfrocheiro, a Trincadeira, a Moreto e a Aragonez, nos tintos; a Tamarez, a Antão Vaz e a Roupeiro, nas brancas. Introduzem-se algumas experiências, como a Cabernet Sauvignon, um caso de sucesso, e a Riesling. Esta “não vingou, porque o clima era demasiado seco, o que interferia na acidez natural da casta. Foi convertida a Arinto”, reforça o enólogo. Entretanto, na década de 1990, a adega é construída de raiz e equipada com o sistema de operações por gravidade. “Foi muito pioneira na altura e por aconselhamento de João Portugal Ramos”, reforça Mariana Carmona e Costa. Com a passagem do tempo, são incluídas novas máquinas, para dar resposta às exigências de cada fase. António Maria Aleixo ingressa na equipa em 1998 e, no ano seguinte, é a vez de Nuno Elias entrar no universo da Casa Agrícola HMR.

Por volta do ano 2010, a administração da Fundação Carmona e Costa transita para os sobrinhos de Vítor Carmona e Costa e Maria da Graça Carmona e Costa. É registada a admissão de Luís Duarte, que ainda hoje assume a função de enólogo consultor. O encepamento é submetido a ajustes. Nas castas brancas, à Antão Vaz, Roupeiro e Arinto, junta-se a Alvarinho e a Verdelho; nas tintas, aumentam, gradualmente, a área da Alicante Bouschet, “que se tem revelado muito interessante em anos quentes”, salienta Nuno Elias. Mantém-se a Cabernet Sauvignon, plantada em 1998.

No âmbito das experiências positivas, Nuno Elias enaltece a Petit Verdot. Plantada em 2011, confere longevidade ao vinho tinto. “No Alentejo, os vinhos tintos têm uma tendência de iniciarem a sua vida logo muito macios, porque a maturação é mais extensa ou, às vezes, vão para a sobrematuração, e os taninos ficam logo muito maduros. Se o vinho é totalmente bebível em novo, cedo vai cair o potencial de guarda elevado. Por isso, precisamos de castas que, no início, tenham um tanino fino, mas domável, e que esteja lá mais tarde. A Petit Verdot foi uma das castas que melhor triunfou neste contexto e é usada em 30% ou 40% em lotes com estágios”, esclarece. Aqui, dá como exemplo o Marmelar tinto, referência topo de gama do portefólio vínico da casa.

Sub-região de brancos

Nos encepamentos mais recentes da Herdade do Monte da Ribeira, constam a Sousão e a Tinta Miúda. A respeito da primeira, há uma parcela de vinha denominada Ensaio 1, pois “é preciso perceber como a casta se comporta neste terroir e também verificar se, agronomicamente, se torna ou não um problema”, adianta Mariana Carmona e Costa. Em relação à segunda, o enólogo denota otimismo relativamente “ao comportamento da planta e ao resultado da vinificação. Portanto, o futuro trará novidades para mostrar”.

Apesar das castas tintas ocuparem a vinha em 75%, Nuno Elias está convicto de que a sub-região da Vidigueira apresenta condições especiais para vinhos brancos. O destaque vai para a Antão Vaz. “Embora seja um fruto que, analiticamente, não é muito interessante, porque carece de acidez, depois, expressa uma série de características no copo, as quais dificilmente se consegue obter com outras castas.” Ao volume de boca, o enólogo aponta a consistência, de ano para ano, desta variedade, mesmo sob as oscilações térmicas. “Não é uma casta para os mais fracos, já que, muitas vezes, se chega a meio da vindima e regista 10 graus. É preciso que a fase final do ano agrícola seja favorável, ou seja, que não chova até meados de setembro, para que a maturação se complete.”

Não obstante a tipicidade da Antão Vaz, a Arinto é muito importante no encepamento da Herdade do Monte da Ribeira. Representa sucesso, quer a solo, quer em lote com a casta-rainha da Vidigueira, devido à acidez que lhe é característica. A Alvarinho, uma das favoritas do enólogo, porque dá corpo a vinhos longevos, também entra nesta linha, embora produza metade das demais brancas. Em suma, “prevejo que, para bons casos de sucesso, esta região mantenha a Antão Vaz sempre presente, para manter a sua identidade, mas sempre com uma casta nobre, que a ajude, de forma a chegar ao mercado de forma consistente.”

A terceira fase da Casa Agrícola HMR está a dar os primeiros passos num momento controverso para o universo do vinho. “É tudo volátil, cíclico. O que hoje é bom, amanhã muda. Estamos num mercado que depende de gostos, que é de modas. Durante 20 anos, falamos da passagem de brancos para tintos. Agora, passamos de tintos para brancos. É preciso entrar numa constante mudança. Ao mesmo tempo, é necessário ter os pés bem assentes na terra, porque o que estamos a fazer mal agora, a seguir vai estar bem”, reflete Nuno Elias.

A vindima e o vinho

A Casa Agrícola HMR é um bom exemplo de vitivinicultor: possui vinha e produz vinho com uvas próprias na adega da Herdade do Monte da Ribeira, onde é engarrafado. A vindima é manual e mecânica. “Curiosamente, estamos muito satisfeitos com os resultados da vindima mecânica, que nos permite fazer 100% vindima noturna, com temperaturas de chegada à adega muito inferiores à da vindima diurna, e é mais rápida”, confessa Nuno Elias. Em cerca de 15 minutos, a matéria-prima colhida na vinha está no tegão. “As uvas são descarregadas, desengaçadas, passam pelo permutador, para arrefecer até aos 10 graus, sejam brancas ou tintas e nenhum vinho leva engaço.”

Na gama de entrada, a Pousio Selection, constituída por branco, tinto e rosé, Nuno Elias destaca este último, uma vez que é feito a partir de mosto de lágrima de uvas tintas. Esta segue para as cubas de inox, onde é submetida, por um mês, a bâtonnage. “É 100% seco, tem zero açúcar residual e é muito gastronómico. Embora seja gama de entrada, este rosé é equivalente a muitas altas gamas”, revela o enólogo. Os Pousio Reserva branco e tinto são caracterizados pelos estágios em madeira, respectivamente, de seis e 12 meses. Os lotes são feitos após a prova final.

As edições limitadas, composta por varietais e lotes, resultam de “um Alicante extraordinário” da colheita 2020, conhecido por Parcela 98, que desperta a atenção para outras variedades de uva. É o caso da Arinto, elaborada a solo para um vinho branco, bem como a dar corpo a um lote, ao lado da Alvarinho. A Touriga Nacional e a Syrah são tidas, igualmente, em consideração na versão monocasta.

Fora da gama Pousio, está a “super-premium” Marmelar, nome eleito “em homenagem à terra onde está a propriedade”. São um branco e um tinto “muito especiais”, remata Nuno Elias.

RIBEIRA

Do olival tradicional à sebe

A compra da Herdade do Monte da Ribeira ocorre a 8 de agosto de 1986 e a Herdade do Farrobo é adquirida no princípio da década seguinte, por Vítor Carmona e Costa, tio-avô de Mariana Carmona e Costa. “Era um agro-industrial com uma paixão enorme pela terra. Costumo dizer, por brincadeira, que a propriedade é o prolongamento da horta que tinha na casa de Alcabideche”, no concelho de Cascais. A partir de então, refugia-se na herdade juntamente com a mulher, Maria da Graça Carmona e Costa, “uma apaixonada e uma expert em arte contemporânea em Portugal. Foi mecenas da arte no país”. Os sobrinhos são igualmente bem-vindos, sobretudo no verão.

Ainda a vinha não estava plantada, já o olival tradicional de sequeiro da Herdade do Monte da Ribeira, com cerca de 110 hectares e composto por muitas árvores milenares, mostra o seu vigor. As variedades são, maioritariamente, Galega, além de Bico de Corvo, “mix entre o Zambujeiro e a Galega, meio alongada e não se retira muito azeite”, em conformidade com a nossa anfitriã, e Verdeal. Em 2000, chega a vez da plantação do olival intensivo de regadio, um total de 76 hectares, “com, maioritariamente, Cobrançosa e apontamentos de Cordovil e Picual”. O olival de sebe de Arbequina foi plantado em 2003 e 2008, correspondendo a uma área de 24 hectares. “Está distribuído por duas parcelas: na Herdade do Monte da Ribeira, com 14 hectares, e na Herdade do Farrobo com 10 hectares”, afirma Mariana Carmona e Costa. Esta decisão é tomada com base no aumento da capacidade de armazenamento de água, o qual se deve às barragens existentes na propriedade.

Eis o outro mundo de Mariana Carmona e Costa, profunda conhecedora de todos os recantos da propriedade, serra do Mendro inclusive, onde estão dispostos dois apiários de um apicultor de Moura. “Em troca, recebemos uma parte do mel de rosmaninho por ano.” Em 2003, começa a pós-graduação em olivicultura, azeitona e azeitona de mesa, no Instituto Superior Agrónomo, de Lisboa, já depois de terminar a formação em viticultura e enologia na Universidade de Évora.

A par com o sucessivo aumento da área total de olival, hoje com 210 hectares, passam de produtores de uva, para produtores de azeite e azeitona vendidos a granel. Quando se apercebe do potencial do produto, a nossa anfitriã questiona sobre a eventual feitura de um lote deste líquido dourado. O nome? Pousio, predominante no portefólio vínico da casa. O lote experimental sai em 2013. Três anos depois, avança para o mercado, com o Pousio Premium e, em 2019, surge o Pousio Clássico. A empresa aposta forte na venda do azeite embalado num garrafão escuro, com capacidade de três e cinco litros. Em 2022, aparece Pousio Homenagem Oliveiras Centenárias, aquando do projeto Olivares Vivos, que incide na atribuição do certificado europeu face ao compromisso dos olivicultores a respeito da preservação da biodiversidade. Todo o azeite é extra virgem.

Líquido dourado

Antes da produção, é efetuada a monitorização das amostras de todas as variedades de azeitona. O objetivo é “avaliar o teor de matéria seca, a gordura e a humidade, para vermos se estão no ponto”, informa Mariana Carmona e Costa, que permanece muito tempo no campo, contando com o desempenho de António Maria Aleixo. A campanha começa com a apanha da Arbequina dos olivais em sebe, a qual demora cinco dias. A Galega também é colhida muito cedo, em outubro, para obter uma azeitona mais verde e com sabores “a frutos secos, como a amêndoa, mais amargos”. No geral, conseguem-se “notas mais positivas nos nossos azeites e também temos mais a certeza que têm uma acidez mais baixa. Quanto mais tarde é a apanha, maior é o grau de acidez”, assegura a nossa anfitriã. Morosa, a campanha termina entre dois meses e os dois meses e meio, com a Cordovil, a Cobrançosa e a Picual, pelo meio, concluindo com as parcelas de Verdeal do olival de sequeiro.

O transporte adequado e assegurar as condições do lagar são imperativas em prol da produção de um azeite de qualidade. O lagar está na Vidigueira, para onde são levadas por variedade. A extração do azeite é feita a frio. Depois “fica tudo separado por depósitos por variedades e por zonas da propriedade. Mesmo dentro das Arbequinas, separamos as das duas parcelas, porque conferem particularidades diferentes às azeitonas”, garante. Segue-se a prova sensorial de todos os depósitos, com o diretor de lagar e o mestre lagareiro. Traçados os perfis, Mariana Carmona e Costa avança para os blends. A média anual é de aproximadamente 800 toneladas.

“Equiparo o azeite ao sumo de laranja, em que o ponto ótimo é o momento da extração. A partir daí, vai perdendo, a pouco e pouco, as propriedades, ao contrário da maior parte dos vinhos. Por isso, é importante preservar o azeite da melhor maneira, em local escuro”, aconselha. Estes cuidados permitem minimizar a degradação do azeite, produto “rico em antioxidantes, em polifenóis e clorofila”. A estas recomendações, Mariana Carmona e Costa soma a importância da literacia ligada ao azeite. É crucial “que as pessoas experimentem azeites de norte a sul, porque o clima muda muito, as terras mudam muito, para verem o que mais gostam com determinados pratos e, acima de tudo, educarem os filhos, porque é uma gordura super saudável”

Ao contrário do vinho, o negócio do azeite revela maior desperdício, daí que o custo de produção seja maior. A seleção do recipiente é igualmente relevante, pois há que preservar o produto. Uma embalagem bonita chama a atenção, sobretudo para oferecer, mas convém que se esteja ciente da durabilidade do azeite, ou não fosse o extra virgem ideal para finalizar um prato: “o mais intenso, para a massa ou um gaspacho, o mais plano, para peixe de mar fresco, assado no forno, e os mais picantes para a batata, o queijo fresco de cabra ou a salada.”

RIBEIRA

Regeneração e biodiversidade

“Temos um mosaico e uma diferenciação bastante grande” na propriedade, tal como se comprova do alto do miradouro da serra do Mendro, virado para a Herdade do Monte da Ribeira, onde o rio Guadiana corta e planície deste Alentejo quase sem fim. Mariana Carmona e Costa quer preservar este património da melhor maneira, para “deixar, às futuras gerações, melhor do que encontramos aqui, quando viemos para aqui trabalhar”.

A transição para a agricultura de sustentabilidade com práticas regenerativas marca a nova era da Herdade do Monte da Ribeira, para tornar os solos mais resilientes e de modo a evitar a erosão. A introdução do rebanho de ovelhas, prática iniciada há quatro anos, é outra das práticas com resultados positivos, assim como a utilização de maquinaria adequada a esta iniciativa. Ao mesmo tempo, “é preciso manter o ecossistema, preservar o mosaico que temos em prol da qualidade, temos olival, vinha, zonas de mato, de azinho, caça, a serra, linhas de água”, enumera António Maria Aleixo. A flora e a fauna do Mendro estão a ser analisados, com o apoio de consultores, a favor da biodiversidade.

O desvelo estende-se aos trabalhadores do campo. “Tentamos ter, ao máximo, pessoas das aldeias vizinhas e priorizar os filhos e as famílias, para lhes darmos trabalhos a eles, mas as gerações mais novas não querem trabalhar no campo, os mais velhos estão a reformar-se e os pais não querem os filhos a trabalhar na agricultura. Somos forçados a recorrer a prestações de serviço. Estamos num momento de viragem”, remata a nossa anfitriã.

(Artigo publicado na edição de Novembro de 2025)