ENOTURISMO: MONÇÃO E MELGAÇO

A sub-região de Monção e Melgaço não se oferece de imediato, nem se deixa compreender pela pressa. Exige tempo, silêncio e disponibilidade interior. Talvez porque tudo ali pareça nascer de uma negociação antiga entre forças contrárias: Alto Minho e Galiza, montanha e rio, granito e vinha, calor e frescura, memória e experimentação. Durante três dias, […]
A sub-região de Monção e Melgaço não se oferece de imediato, nem se deixa compreender pela pressa. Exige tempo, silêncio e disponibilidade interior. Talvez porque tudo ali pareça nascer de uma negociação antiga entre forças contrárias: Alto Minho e Galiza, montanha e rio, granito e vinha, calor e frescura, memória e experimentação.
Durante três dias, encetei um itinerário destinado à contemplação de um território divino, localizado no extremo norte da Região dos Vinhos Verdes, convicto que tinha sido bafejado pela sorte dos deuses. Aproveitei para usufruir do Open Cellars Edition, designação administrativa que pouco dizia sobre o que realmente tive o prazer de experienciar. Não foi apenas uma sucessão de visitas, provas e refeições. Foi uma aproximação lenta a uma paisagem que parece ter sido desenhada para produzir vinho e, ao mesmo tempo, reflexão.
Ao longo do caminho, houve queijos de cabra e vinhos de montanha, provas verticais e colheitas antigas, piqueniques entre vinhas, museus, ioga ao ar livre, jantares demorados e conversas com produtores que falaram sobre o vinho como quem fala de um filho, de uma herança ou de uma promessa. No final, tornou-se difícil separar o que vinha da terra do que vinha das pessoas.
A fronteira como princípio
À medida que me aproximava de Melgaço, o território adensava-se. As encostas tornavam-se mais presentes, a vegetação mais compacta e o verde multiplicava-se. O rio Minho corre nas proximidades, separando países e unindo modos de vida.
Durante séculos, a fronteira foi simultaneamente limite e passagem. Separou administrações, mas não impediu a circulação de pessoas, palavras, mercadorias, hábitos e afetos. Entre o Alto Minho e a Galiza, a identidade foi sempre mais fluida do que as linhas desenhadas nos mapas. Os segredos das pessoas amontoavam-se, na penumbra da noite, que, durante décadas, assistiram ao passar do rio, em silêncio, em permanente troca de produtos que faziam falta do lado de cá.
Monção e Melgaço cresceram nesse cenário de contacto. Ambas partilham a história que se cruza com a própria formação de Portugal, numa relação íntima com o rio Minho e a paisagem marcada pelo trabalho persistente das suas comunidades. O território foi sendo moldado pela agricultura, pelas pequenas propriedades, pelos caminhos rurais e pelas vinhas que se adaptaram às encostas, aos vales e aos solos de granito.
Mas a fronteira não é apenas geográfica. Também existe no vinho. Só de pensar que esta era uma região de vinhos tintos, ficamos naturalmente incrédulos, pois, hoje, é um território de brancos, graças a uma casta que despontou, para se tornar a rainha: a Alvarinho.
Em Monção e Melgaço, a Alvarinho não é simplesmente uma casta. É uma forma de interpretar o mundo, de sentir a terra, de respirar a pureza das vinhas, os aromas que exalam frescura. É uma variedade que, aqui, nasce de um ponto de tensão entre maturação e frescura. A montanha protege o vale dos ventos atlânticos mais intensos, enquanto os verões quentes e secos favorecem a concentração organolética da uva. As noites mais frescas ajudam a preservar a acidez. Essas condições são particularmente adequadas à casta, permitindo a produção de vinhos elegantes, complexos e com capacidade de envelhecimento. Mas já lá iremos, até porque a chegada ao The Vinea Collection Hotel marca o início formal da viagem, durante a qual as casas dispersas, os campos cultivados e as montanhas, que parecem vigiar o vale, desenham a paisagem. O quadro é idílico.

A delicadeza das cabras felizes
Chegado ao destino, o roteiro começava com uma visita à Queijaria Prados de Melgaço. A experiência teve um nome desarmante: “Cabrinhas Felizes”. Há títulos que parecem concebidos para simplificar aquilo que é complexo. Este faz o contrário. Por detrás da leveza da expressão existe uma reflexão séria sobre o bem-estar animal, a produção artesanal, a identidade rural e a relação com o território. Afinal, as cabras não são uma atração decorativa. Fazem parte de um sistema. Alimentam-se, crescem e produzem leite numa paisagem específica, sob determinadas condições e integradas numa economia local que depende do conhecimento ao longo de várias gerações.
À mesa, os queijos de cabra eram apresentados em harmonização com vinhos das Quintas de Melgaço. O encontro revelava uma afinidade evidente: a acidez do vinho limpava a textura do queijo, a mineralidade encontrava os sabores mais terrosos e a frescura prolongava a intensidade láctea. Se mais não houvesse, este início de itinerário celestial já me tinha conquistado. Beber e comer, lado a lado, não é apenas uma questão de harmonização técnica. É uma forma de reconhecer que os produtos de um território raramente existem isoladamente. Conversam entre si, são moldados pelo mesmo clima e chegam à mesa através de comunidades que partilham ritmos semelhantes.
A gastronomia local não procura impressionar pela exuberância, mas sim pela precisão. Um queijo bem feito, um vinho servido à temperatura certa, pão, tempo e conversa constituem uma experiência mais profunda do que qualquer encenação.
A noite e arte da mesa
Ao anoitecer, a viagem prosseguiu rumo ao centro histórico de Melgaço. Destino: Adega Regional Sabino. Aqui, atravessamos uma porta que conduz a várias camadas de tempo. O presente senta-se à mesa com o passado, com a cozinha a preservar discretamente a memória e o vinho a manifestar-se um grande companheiro.
A história desta casa remonta a 1939, quando Maria José Saraiva e João António Marinho abriram uma pequena tasca. Décadas depois, o espaço tornou-se casa de pasto, servindo petiscos: cozido à portuguesa, sardinha assada, entre outros. Em 1993, após obras de remodelação e ampliação, Manuel Augusto de Castro, mais conhecido por Sabino, e Odete Amorim Costa deram um novo impulso ao restaurante, consolidando uma identidade dedicada à gastronomia tradicional do Alto Minho. Esta sucessão de vidas fica no limite entre quem recebe e quem chega, na ausência de cerimónias desnecessárias, no rumor das conversas e na convicção de que a comida deve alimentar antes de impressionar.
Na Adega do Sabino, a tradição não parecia exposta como peça de museu. Continua a ser cozinhada. À mesa chegavam entradas de porco Bísaro, símbolo da ruralidade e dos ritmos lentos de um território onde, durante muito tempo, quase nada era desperdiçado, o cabrito do monte reforçava a identidade de montanha, e o bacalhau servido com broa, um ‘fiel amigo’ que, apesar de vir de longe, faz parte da memória portuguesa com a intimidade das coisas que foram adotadas há séculos. Por encomenda, há pratos ligados ao ciclo das águas e das estações: lampreia, salmão e sável do rio Minho. Além do arroz de cabidela, ou “pica no chão”. Nas sobremesas, o bucho doce e a tacinha da casa prolongam uma refeição feita de reconhecimento e continuidade. A mesa criava um pequeno mundo provisório, dentro do qual os desconhecidos podem aproximar-se e as histórias encontram espaço para ser contadas.

Irreverência e a serenidade
Foi nessa atmosfera que a Adega do Sabino recebeu um dos jantares do itinerário por Monção e Melgaço. Os vinhos de Márcio Lopes e Dona Paterna acompanharam a cozinha da casa, construindo uma narrativa feita de sabores e conversas e colocando, frente a frente, duas maneiras de compreender o mesmo território, duas velocidades da tradição e duas gerações ligadas por laços familiares. De um lado, Márcio Lopes, o genro, com uma irreverência respeitosa, inquieta e experimental. Do outro, Carlos Alberto Codesso, da Dona Paterna, o sogro, com uma serenidade moderna inerente ao que o tempo já demonstrou.
Márcio Lopes representa a vontade de deslocar ligeiramente os limites sem romper com a origem. A sua irreverência nasce da curiosidade perante tudo aquilo que ela ainda pode oferecer. Há, nos seus vinhos, uma energia interrogativa. Que outras expressões pode assumir a casta Alvarinho? Que novas leituras podem surgir de vinhas antigas, parcelas específicas, técnicas menos convencionais ou tempos distintos de vindima e estágio? É uma irreverência respeitosa. Não procura o gesto gratuito nem a diferença pela diferença. Avança, porque estudou o caminho anterior. Experimenta, porque reconhece a força da matéria-prima e acredita que a identidade de um território não se fragiliza quando é questionada com inteligência. Pelo contrário, pode tornar-se mais nítida.
Por sua vez, Carlos Alberto Codesso ocupa outro lugar nesse diálogo. Na Dona Paterna, a tradição não surge como peso nem como nostalgia, mas como tranquilidade. É a confiança de quem sabe afirmar uma identidade. A sua modernidade manifesta-se na precisão, na consistência e na capacidade de fazer chegar ao presente uma herança sem a congelar. Há uma serenidade particular em quem trabalha a partir de referências sólidas, compreendendo que evoluir não significa necessariamente romper. Nos vinhos da Dona Paterna, a tradição parece ter encontrado uma forma contemporânea de respirar.
No final do jantar, a oposição inicial parecia dissolver-se. Havia duas formas legítimas de cuidar da mesma herança. A noite terminava sem conclusões definitivas. Se as “cabras” já me tinham conquistado, o vinho consolidou o meu pensamento: vou ser muito feliz.

Poético tempo em garrafa
Na manhã seguinte, a primeira paragem foi na Quinta do Louridal. Aqui o vinho começa numa encosta voltada para o rio Minho, entre solos graníticos, montanhas protetoras e vinhas dispostas em anfiteatro. Começa também numa memória familiar que atravessa séculos. Ali, em Melgaço, a Alvarinho assume uma forma poética. O nome da marca não é apenas uma escolha estética. Resume uma determinada maneira de produzir, familiar e profundamente ligada ao lugar.
A propriedade encontra-se na mesma família há várias gerações. Segundo a história divulgada na quinta, os antepassados trabalhavam, desde o século XVI, com a casta Alvarinho. Hoje, a sexta geração continua a atividade, dedicando cada colheita aos ascendentes. A paisagem não é apenas o lugar onde se produz o vinho. É um dos seus ingredientes.
Foi nesse cenário que a visita da Open Cellars Edition encontrou um dos momentos mais reveladores do itinerário, uma prova vertical do Poema Reserva. Colocar diferentes colheitas lado a lado permitiu observar não apenas a evolução do vinho, mas a passagem do tempo sobre o território. Numa prova vertical, cada copo documentava o respetivo ano de colheita e as suas consequências – a influência da chuva e do calor, a maturação das uvas e as decisões tomadas na vinha e na adega. A identidade mantém-se, mas nunca se repete por inteiro. Havia colheitas mais tensas, com a fruta a elevar-se, a par com a energia própria dos vinhos mais jovens, enquanto noutras a mineralidade ou a textura ocupavam o centro da narrativa. Conclusão? A Alvarinho de Monção e Melgaço não precisa de viver apenas da juventude. O Poema Reserva parecia justificar o nome, já que cada ano representava um verso escrito em condições diferentes traduzidas numa obra mais ampla.
Em suma, a Alvarinho de Monção e Melgaço demonstrava capacidade de se transformar e ganhar complexidade. Envelhecer bem não significa apenas resistir ao tempo, significa saber dialogar com ele. E um território não se define porque produz sempre o mesmo vinho. Define-se porque, mesmo variando, continua reconhecível.

Laboratório de tradição
O itinerário avançou para a Quinta de Soalheiro. A prova foi dedicada às interpretações mais experimentais da casa, num percurso em que cada vinho parecia testar uma nova possibilidade. Mais do que apresentar um conjunto de referências, a experiência revelava um método de trabalho assente na curiosidade – observar a vinha, identificar diferenças e perceber até onde a mesma casta pode ser conduzida sem perder a ligação ao lugar.
Inovação tornou-se uma das palavras mais repetidas. Serviu para descrever processos, tecnologias e produtos. No vinho, porém, inovar não significa necessariamente substituir o que existe por algo mais vistoso ou inesperado. Pode significar observar nova e aprofundadamente para aquilo que se julgava conhecido.
Na Quinta de Soalheiro, a tradição não surgia como uma fronteira destinada a impedir o avanço, funcionava como um território de investigação. O conhecimento acumulado ao longo dos anos permitia experimentar com maior precisão. Altitude, orientação das parcelas, composição dos solos, momento da vindima, fermentações e estágio tornavam-se instrumentos, para revelar diferentes identidades dentro da mesma uva.
A Alvarinho, tantas vezes apresentada como uma assinatura regional facilmente reconhecível, desdobrava-se em várias vozes. Podia mostrar tensão ou volume, contenção ou exuberância, juventude imediata ou vocação para permanecer em garrafa. A unidade não desaparecia, mas deixava de ser uniforme. A questão era descobrir quantas Alvarinhos podem existir dentro do mesmo território.
Essa inquietação constitui uma das forças da Quinta de Soalheiro. A experiência não procurava contrariar a história da região, mas ampliar o seu vocabulário. Cada ensaio parecia partir de um princípio simples: uma tradição que deixa de fazer perguntas corre o risco de se transformar numa fórmula.
A verdadeira inovação começa, por isso, antes da adega. Nasce da leitura das parcelas, da atenção às variações do clima e da consciência de que uma vinha nunca responde exatamente da mesma maneira. O produtor não impõe apenas uma ideia à matéria-prima, procura compreender o que cada lugar está disponível para oferecer.
O piquenique interrompeu o ritmo analítico da prova. Depois dos copos observados com concentração, das comparações e das explicações técnicas, o vinho regressou ao espaço para o qual, em última instância, sempre foi feito, a mesa. Ao ar livre, desaparecia parte do cerimonial associado à degustação. Essa mudança não diminuía a experiência, tornava-a mais completa. Entre as vinhas, o vinho recuperava a sua dimensão territorial. O que estava dentro do copo podia ser reconhecido na inclinação das encostas, na vegetação, no movimento do ar, na luz variável e na sucessão de relevos que define Monção e Melgaço. O piquenique mostrava também que um vinho experimental pode ser rigorosamente pensado e, ainda assim, cumprir a missão de acompanhar uma refeição e aproximar pessoas.
Talvez tenha sido esse o contraste mais revelador da visita. Na prova, os vinhos surgiam como resultado de pesquisa, decisões e riscos calculados. À mesa, tornavam-se naturais, quase inevitáveis. O trabalho desaparecia atrás da fluidez da experiência.
A passagem pela Quinta de Soalheiro revelou, assim, uma casa onde o património vitivinícola da região é assumido como ponto de partida para avançar sem apagar as pegadas do caminho. A tradição oferece a memória necessária para saber de onde se parte. A experimentação permite imaginar outros destinos.

A vila construída pelo vinho
O centro histórico de Monção também passou a protagonista deste roteiro, com a visita ao Museu do Alvarinho e pelo Museu Monção e Memória, espaço de interpretação da história da sub-região e do papel do vinho na construção da identidade local, e de oferta de outra perspetiva. Mostrou que o vinho não é apenas agricultura nem apenas bebida. É economia, símbolo, património e linguagem coletiva.
Ao longo do tempo, a Alvarinho ajudou a organizar a paisagem, definiu ciclos de trabalho, influenciou relações comerciais e projetou o nome de Monção para além das suas muralhas. Tornou-se parte da forma como a comunidade se reconhece e se apresenta.
Nos espaços museológicos, os objetos ganhavam uma densidade particular. Ferramentas agrícolas e demais objetos, documentos e imagens antigas recordavam que a realidade, hoje associada ao enoturismo, à excelência e ao prestígio comercial, nasceu de trabalho físico, repetitivo e frequentemente anónimo. Antes de o vinho ser servido em copos finos, foi transportado em cestos, pisado, prensado, guardado, negociado e defendido. Antes de se tornar narrativa, foi sobrevivência. Essa memória impede que seja reduzido a um produto de luxo desligado da terra. Mesmo nas suas expressões mais sofisticadas, permanece ligado ao esforço de quem podou no inverno, tratou a vinha na primavera, esperou durante o verão e vindimou quando chegou o momento. A história do vinho é também a história de corpos inclinados sobre a terra, de mãos marcadas, de ombros carregados, de gerações que trabalharam sem saber que, um dia, os visitantes percorreriam estas paisagens em busca de autenticidade. E esta, porém, não é um adereço turístico. É o rasto deixado pelo tempo.
Ioga entre vinhas
Na Quinta de Santiago, o itinerário abandonou por instantes a linguagem habitual do vinho. Antes dos copos, das colheitas e das explicações técnicas, houve uma sessão de ioga entre vinhas. A proposta poderia ter parecido apenas mais uma experiência desenhada para responder às novas tendências do enoturismo. No entanto, naquele momento do percurso, adquiriu outra densidade. Depois de dois dias a observar a paisagem, a provar vinhos, a registar imagens e a ouvir produtores, faltava conhecer o território através do corpo. Entre as videiras, o ritmo alterou-se. A respiração tornou-se mais consciente, os movimentos abrandaram e a atenção afastou-se da sucessão de estímulos que acompanha qualquer viagem, o chão deixou de ser apenas superfície, o ar ganhou temperatura, as folhas fizeram-se ouvir, a paisagem, até então contemplada como cenário, começou a ser percebida como presença.
O silêncio não era absoluto. Havia vento, aves, insetos e o ruído discreto da vegetação. Mas esses sons já não competiam entre si, formavam uma composição lenta, capaz de devolver ao lugar uma dimensão que as palavras, por vezes, não alcançam.
Terminada a sessão, a prova vertical de Sou ganhou uma leitura inesperada. O nome parecia ultrapassar a identidade comercial do vinho e transformar-se numa afirmação mais ampla. “Sou” remetia para origem, presença e reconhecimento. Diferentes colheitas permitiam acompanhar a passagem dos anos sobre uma mesma identidade. O vinho conservava uma linha de continuidade, mas nunca se repete por inteiro. Cada vindima transportava as condições de um ciclo, as decisões tomadas na vinha e na adega e a transformação ocorrida dentro da garrafa.
Se o “Sou” colocava em cena a permanência, “Rascunho” introduzia a possibilidade. Provar um vinho em primeur é como entrar numa narrativa antes da revisão final. O vinho ainda não tinha chegado à forma com que será apresentado ao mundo. Conservava arestas, movimentos e direções que podiam vir a acentuar-se ou a desaparecer. O nome “Rascunho” traduzia com precisão esse estado intermédio, uma obra em construção. A prova em primeur também contrariava a ideia de que o valor depende sempre de uma forma definitiva. Num setor que procura apresentar garrafas irrepreensíveis, identidades facilmente reconhecíveis, mostrar um vinho ainda em desenvolvimento é admitir que a criação inclui dúvida.
Na Quinta de Santiago, a sequência da experiência revelou uma coerência discreta. O momento dedicado ao ioga preparou o corpo para a atenção, o “Sou” falou de identidade e continuidade, e o “Rascunho” abriu espaço à transformação.

Capacidade gastronómica no prato e no copo
O segundo dia terminou no restaurante Monte da Mina, com um jantar harmonizado por vinhos da Quinta das Pereirinhas, onde a mesa assumiu uma função maior do que a de encerrar o programa, tornou-se o lugar onde todas as experiências do dia encontraram sentido. O restaurante revelou-se à altura desse momento. Na cozinha, havia rigor sem ostentação, técnica sem excesso e uma leitura segura dos sabores do território. Cada prato chegava com identidade própria, deixando espaço para o vinho respirar.
Os vinhos da Quinta das Pereirinhas apresentaram-se com clareza, elegância e consistência. Havia neles frescura, estrutura e uma definição que permitia acompanhar a refeição sem se apagar diante dos pratos. Em vez de funcionarem como simples complemento, participavam ativamente na construção do jantar, prolongando sabores, criando contrastes e abrindo novas leituras a cada serviço.
À volta da mesa reuniram-se produtores, técnicos, comunicadores e anfitriões. Cada um observava o vinho a partir de um lugar diferente. Para uns, tudo começava na vinha. Para outros, na adega, na garrafa, na comunicação ou no serviço. Havia quem pensasse no clima, quem falasse de mercado e quem reparasse apenas no instante exato em que um vinho encontrava o prato certo. Mas, naquela noite, toda esta comunidade se tornou visível.
Esse é um dos sinais de excelência de uma casa, como o Monte da Mina: saber que a experiência não depende apenas da qualidade isolada de cada elemento, mas da forma como todos se relacionam. Os vinhos da Quinta das Pereirinhas beneficiaram desse cuidado, mas também o justificaram. Mostraram equilíbrio, personalidade e capacidade gastronómica. Eram vinhos que não procuravam dominar a refeição, mas também não aceitavam ficar em segundo plano. Entravam neste diálogo com segurança, preservando as origens. Primeiro, observados. Depois, comparados. Mais tarde, partilhados. A análise técnica dava lugar à conversa, e a conversa tornava-se cada vez menos técnica. Davam voz à vinha e os convidados completavam o circuito ao provar, comentar e guardar memória. Tudo convergia para o copo. No final, sobravam pratos vazios, garrafas abertas e conversas que ainda não tinham encontrado um ponto de conclusão. Era sinal de que o jantar tinha cumprido a sua função.
Geografia em estado líquido
Na manhã do terceiro dia, a Quinta do Hospital, da Falua, surgiu como a abertura do último capítulo do itinerário. A paisagem já não era apenas observada, começava a ser reconhecida, e também o vinho deixara de ser recebido como uma sucessão de novidades.
Nos primeiros momentos da viagem, cada copo valia sobretudo por si. Era uma descoberta autónoma, ligada a um produtor, a uma parcela, a uma opção de adega. À medida que o percurso avançava, essa leitura isolada tornava-se impossível. Os vinhos começavam a formar relações entre si, como páginas de uma mesma narrativa territorial. Uma textura evocava uma colheita mais antiga, uma acidez mais firme parecia trazer consigo a frescura de uma encosta. Notas minerais faziam regressar o granito observado ao longo da estrada. O território, antes exterior ao copo, passava a existir dentro dele.
Conhecer uma região vitivinícola é construir, lentamente, uma espécie de arquivo sensorial. Esse arquivo organiza-se por associações, impressões e permanências. Um vinho pode chamar outro à memória precisamente por revelam diferenças. A prova deixa de ser um instante fechado, tornando-se um processo acumulativo.
Na Quinta do Hospital, essa aprendizagem tornou-se particularmente evidente. A visita permitiu perceber que Monção e Melgaço possui uma identidade forte. A origem comum não apaga as variações internas, torna-as mais interessantes. Mudam a altitude, a exposição solar, a proximidade do rio, a circulação do vento e a composição dos solos, mudam também as decisões humanas: o momento da vindima, o modo de prensagem, a fermentação, o estágio e o tempo concedido ao vinho antes de chegar à garrafa.
É nessa combinação entre natureza e interpretação que uma região se torna verdadeiramente legível. O território fornece a matéria, mas não escreve sozinho, precisa do olhar de quem cultiva, da experiência de quem decide e da sensibilidade de quem transforma a uva sem lhe retirar a origem. E uma garrafa não guarda o passado de forma imóvel, reorganiza-o ao longo do tempo. Na Quinta do Hospital, os copos mostravam que a identidade de Monção e Melgaço não depende da repetição de um modelo. Reconhece-se antes numa energia que atravessa expressões distintas. Há vinhos mais diretos e outros mais reservados, alguns de leitura imediata e outros que exigem tempo. Todos, porém, pertencem a uma única geografia.

Em prol do envelhecimento
A Quinta da Torre marcou a última grande paragem do itinerário. Ligada ao produtor Anselmo Mendes, traduziu-se num encontro centrado com o que o vinho consegue fazer com o passado. Envelhecimento foi, portanto, o tema. Abrir uma garrafa com vários anos continua a ser um gesto de expectativa. Por mais conhecimento que exista sobre a origem, a colheita ou o modo como o vinho foi guardado, há sempre uma margem de incerteza. A rolha é retirada, o vinho chega ao copo e o tempo, finalmente, mostra o resultado do seu trabalho. Porém, nem todas as garrafas envelhecem da mesma forma. Algumas ganham profundidade, umas aproximam-se do silêncio, outras encontram uma nova voz.
Um vinho antigo não é apenas um resistente, é uma matéria transformada. A fruta mais imediata recua, os aromas tornam-se menos óbvios e a textura pode adquirir outra gravidade. Surgem notas de cera, ervas secas, especiarias, frutos secos ou mel. A acidez, quando permanece firme, sustenta o conjunto e impede que o vinho se entregue ao cansaço. Provar colheitas antigas de Alvarinho era confrontar uma perceção ainda demasiado comum, a de que a casta deve ser lida sobretudo pela juventude, pela fruta e pela frescura imediata. Não nos esqueçamos de que estamos no território de Anselmo Mendes, o ‘Senhor Alvarinho’, que leva muito a sério o trabalho na vinha. O rigor é o seu mote no que a esta casta diz respeito e com a qual tudo é possível fazer, desde que seja feito com respeito.
A prova não celebrava a idade por si só. Uma garrafa antiga não é automaticamente uma grande garrafa. O valor estava na forma como alguns vinhos atravessaram os anos sem perder identidade. Envelhecer bem, naquele contexto, significava transformar-se sem desaparecer.
Vivemos cercados por produtos e imagens pensados para causar impacto no primeiro contacto. Contudo, o vinho envelhecido exige o oposto, não se explica depressa. Pede atenção, silêncio e disponibilidade. Obriga a abandonar a expectativa de aromas evidentes e a aceitar que a complexidade pode chegar por camadas. Por isso, a mesa da Quinta da Torre adquiriu um significado particular. O almoço prolongava a prova e retirava-lhe qualquer rigidez excessiva. Os vinhos deixavam de ser apenas objetos de análise e passavam a acompanhar a comida, a conversa e o ritmo natural da refeição.
A Quinta da Torre ofereceu, assim, uma das imagens mais completas de todo o percurso. De um lado, a paisagem e a origem. Do outro, a passagem dos anos. Entre ambas, o trabalho humano, a decisão de vindimar, vinificar, guardar e esperar. Implica resistir à pressa comercial, aceitar a imobilização de garrafas e confiar que o tempo acrescentará mais do que retira. Nem sempre é assim, mas, quando acontece, o resultado ultrapassa a simples conservação.
Após três dias entre vinhas, produtores, refeições e diferentes interpretações da casta Alvarinho, as colheitas antigas funcionavam como uma espécie de síntese. Tudo o que tinha sido observado regressava ali sob outra forma. A paisagem surgia convertida em aroma, a acidez recordava as noites frescas, a textura falava da maturação. Na realidade, as diferenças entre os anos mostravam que um território nunca se repete.
Fui profundamente feliz… voltarei.
(Artigo publicado na edição de Setembro de 2026)
ADEGAS COOPERATIVAS: Tintos de topo em ascensão

Cooperar é uma boa ideia. Mesmo os biólogos, seguindo as ideias de Darwin sobre a selecção natural e a competição, com o propósito de perpetuar os próprios genes, não deixam de enfatizar que muitas espécies passam 1% do seu tempo nessa competição, enquanto os outros 99% servem para assegurar colectivamente a segurança e o alimento […]
Cooperar é uma boa ideia. Mesmo os biólogos, seguindo as ideias de Darwin sobre a selecção natural e a competição, com o propósito de perpetuar os próprios genes, não deixam de enfatizar que muitas espécies passam 1% do seu tempo nessa competição, enquanto os outros 99% servem para assegurar colectivamente a segurança e o alimento do grupo. Cooperar significa que o grupo no seu conjunto é mais forte do que os seus indivíduos separados ou somados. Significa que em conjunto se podem assegurar recursos que podem ser usados pelo grupo, mas que cada um dos membros dificilmente conseguiria adquirir sozinho. Um exemplo simples: uma linha de engarrafamento privada só se justifica para um produtor que faça pelo menos 300 000 garrafas de vinho anualmente. Verifique na caixa abaixo a dimensão média dos viticultores, para perceber que esse é um número muito longínquo.
Desde sempre, os grupos cooperaram. Cooperar não é uma ideia de esquerda nem de direita. É apenas uma boa ideia. Uma ideia inevitável. No mundo do vinho, a primeira cooperativa registada é a Adega Regional de Colares, fundada em 1931. Em Colares, a ideia foi mais além do que unir forças, embora a especificidade do sítio bem o exigisse. Micro-terroirs e nano-produções tornavam imperativa a cooperação. Ninguém consegue fazer vinho de forma competente a partir de 15 quilos de uvas, e ainda hoje, passados quase 100 anos, é essa a quantidade que alguns produtores entregam. A adega teve, com base na lei, o direito a recolher toda a produção da DOC (antes de se designar DOC) e o dever de assegurar todas as obrigações ligadas à manutenção dos cânones ancestrais: Ramisco/Malvasia, pé-franco, chão de areia. Só assim os vinhos de Colares sobreviveram até ao presente, quando, a pouco e pouco, voltam a estar na moda, ao mesmo tempo que a sua qualidade, apoiada pela competência e sabedoria que a adega soube manter, vai melhorando a olhos vistos.
Porém, nem todas as cooperativas desempenharam este papel. Muitas outras, espalhadas por grande parte do país vitícola, foram fundadas na década de 1950. Eu mesmo, diga-se de passagem, nasci em frente a uma adega cooperativa, a das Cortes (Leiria), e lembro-me bem de ficar à janela a ver chegar as uvas, ou de acompanhar os trabalhos de recepção, há muitos, muitos anos. Entretanto, fechou e já foi demolida. Fechou, porque, à semelhança de outras cooperativas, entraram em crise. À medida que o mundo português do vinho se modernizava e melhorava em todos os capítulos, muitas adegas foram ficando para trás. Cada uma terá a sua história, no entanto acredito que a tentação dos proprietários de vinhas desenvolverem as suas próprias marcas tirou muitas uvas de qualidade das adegas. Alguns dos cooperantes passaram a guardar as melhores uvas, escoando o resto da produção para a cooperativa. Com as piores massas vínicas à disposição, e com maiores dificuldades de gestão e competição na contratação de pessoal qualificado, fazer bons vinhos tornou-se uma missão mais árdua.
Muitas vezes, são vinhos de excelente relação qualidade/preço, perfeitos para pedir num restaurante
Entrada em cena
A boa ideia continuou boa e algumas adegas mantiveram a chama acesa. Muitas cooperativas estão, agora, a festejar o 75º aniversário, uma idade bem bonita. Recordemos o Baron Philippe de Rothschild, o único que conseguiu promover um château da classificação de 1855 de deuxième cru para premier cru, com o seu Mouton-Rothschild, promovido em 1973 (aliás, péssima colheita, mas muito procurada, graças ao rótulo do Picasso); ele disse: “o mais difícil são os primeiros 100 anos.” As cooperativas estão a chegar lá. Portanto, está na altura de estar sob a ribalta.
Em palco, estiveram algumas das melhores. Quem segue os prémios anuais da Revista Grandes Escolhas sabe bem quais são. Participei muitas vezes nas reuniões onde esses prémios eram decididos e sei bem que a escolha rodeava, na maioria das vezes, as mesmas candidatas. Contudo, há alguns anos, o cenário mudou. Começaram a aparecer outras cooperativas a trabalhar muito bem e a entregar vinhos de grande qualidade, em todos os segmentos de preço. Os prémios começaram a diversificar. E ainda bem.
Exemplo das primeiras? A Adega Cooperativa de Borba, constantemente na vanguarda. Segundo Óscar Gato, administrador responsável pela enologia, poderiam ter enviado qualquer um de seis vinhos para esta prova de tintos topos de gama. Exemplo das segundas: Adega Cooperativa de São Mamede da Ventosa. Trata-se do maior produtor de vinho do país, com cerca de 20 milhões de litros anuais, e que continua a focar-se no granel. Todavia, desde 2022, sob a batuta da direcção de Nuno Silva, transformou-se. Já vende cinco milhões de litros embalados e tem planos para aumentar a quota. Além disso, a enologia de António Ventura assegura a qualidade de topo, com vinhos ambiciosos e bem definidos.
Esta prova que concebi e executei tem um pressuposto que pretendi demonstrar. Não vamos tapar o sol com a peneira, pois estas adegas mantêm o estigma: se é de cooperativa, o vinho não pode ser bom. Mas urge ultrapassá-lo. Ora, sempre vi qualidade em crescendo nos vinhos produzidos nestas cooperativas, em particular nos seus topos de gama, graças, também, ao facto de terem uma quantidade enorme de massas vínicas à disposição. Muitas vezes, são vinhos de excelente relação qualidade/preço, perfeitos para pedir num restaurante, onde o markup nos afasta dos rótulos da moda. Sejamos nós consumidores a definir o rumo do mercado.
Números
A dimensão das cooperativas em número de associados activos e total de hectares de vinha controlados:
Adega Regional de Colares:12 associados • 14 hectares
Adega Cooperativa de Borba: 220 associados • 2200 hectares
Adega Cooperativa de Cantanhede: 600 associados • 1000 hectares
Adega Cooperativa do Cartaxo: 160 associados • 820 hectares
Adega Cooperativa de Dois Portos: 100 associados • 420 hectares
Adega Cooperativa de Mangualde: 240 associados • 270 hectares
Adega Cooperativa de Penalva do Castelo: 1000 associados • 1200 hectares
Adega Cooperativa de Santo Isidro de Pegões: 100 associados • 1000 hectares
Adega Cooperativa de São Mamede da Ventosa: 400 associados • 1800 hectares
Adega Cooperativa de Silgueiros: 500 associados • 600 hectares
Adega Cooperativa da Vidigueira, Cuba e Alvito: 236 associados • 1200 hectares
CARMIM: 400 associados • 3000 hectares
(Artigo publicado na edição de Setembro de 2026)
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Caves Dois Portos
Tinto - 2020 -

Castelo de Azurara
Tinto - 2023 -

Vila de Frades 1656
Tinto - 2025 -

Adega de Penalva
Tinto - 2020 -

Adega de Pegões
Tinto - 2021 -

Foral de Cantanhede Gold Edition
Tinto - 2013 -

Desalmado
Tinto - 2020 -

Arenae
Tinto - 2017 -

Reguengos Garrafeira dos Sócios
Tinto - 2021 -

Havendo Tempo
Tinto - 2021 -

D. Daganel
Tinto - 2021 -

Adega São Mamede
Tinto - 2019
Na contagem decrescente para o Natal

Com a época natalícia à porta, a Quevedo Wines, produtora de vinhos do Douro e do Porto, com vinhas e adega em São João da Pesqueira, e sala de prova na zona ribeirinha de Vila Nova de Gaia, criou o próprio calendário do advento. Uma longa história vínica distribuída por 24 generosos capítulos. Na prática, […]
Com a época natalícia à porta, a Quevedo Wines, produtora de vinhos do Douro e do Porto, com vinhas e adega em São João da Pesqueira, e sala de prova na zona ribeirinha de Vila Nova de Gaia, criou o próprio calendário do advento. Uma longa história vínica distribuída por 24 generosos capítulos. Na prática, a composição da caixa, devidamente ornamentada com motivos alusivos à referida festa do ano, contém 24 garrafas de 50 mililitros dos vinhos do Porto mais vendidos desta casa formalmente criada em 1993.
Como já é sabido, o desafio consiste em abrir cada uma das portas e janelas, entre 1 e 24 de dezembro. O objectivo é descobrir e partilhar os 24 vinhos do Porto da Quevedo Wines. Depois há que desfrutar, com familiares e amigos. As 12 referências estão disponíveis em dose dupla no interior: branco, rosé, Lágrima Reserva, 30 Anos branco, Ruby, Ruby Reserva bio, LBV 2020, Tawny, Tawny Reserva, Tawny 10 Anos, Tawny 20 Anos e Colheita 2008. Qual é o preferido?
Pode adquirir este e outros produtos da Quevedo Wines AQUI.
Ruinart abre o primeiro corner em Lisboa

A Maison Ruinart, datada de 1729, está instalada no terraço da Oficina Mustra, uma referência da alfaiataria masculina em Lisboa localizada no n.º 81 da Rua Rodrigues Sampaio, em Lisboa, e fundada em Fátima e Veríssimo Mustra. Este novo projecto apresenta a mais antiga casa de Champagne num contexto pouco habitual, mais concretamente no jardim […]
A Maison Ruinart, datada de 1729, está instalada no terraço da Oficina Mustra, uma referência da alfaiataria masculina em Lisboa localizada no n.º 81 da Rua Rodrigues Sampaio, em Lisboa, e fundada em Fátima e Veríssimo Mustra. Este novo projecto apresenta a mais antiga casa de Champagne num contexto pouco habitual, mais concretamente no jardim secreto deste imóvel.
Além de um atelier de alfaiataria por medida, a Oficina Mustra possui uma marca própria de pronto-a-vestir feita por alfaiates de Nápoles e uma selecção de casas italianas. A filosofia assenta na sprezzatura: uma elegância sem esforço aparente, em que o rigor do corte nunca se impõe a quem o veste.
Mas qual o motivo para esta aliança? Com a passagem do tempo, a clientela fiel passou a funcionar quase como um clube. Portanto, o Ruinart Corner resulta desta afinidade. Terá um serviço permanente das três cuvées non-vintage, incluindo o Ruinart Blanc de Blancs, bem como o Ruinart Rosé e “R” de Ruinart, distribuídos exclusivamente pela Empor Spirits, empresa 100% nacional dedicada à representação e distribuição de bebidas. O referido trio está disponível a copo e à garrafa. O horário de funcionamento é das 10h00 às 19h30.
MÉDICOS PRODUTORES – Operação cirúrgica: vinha e vinho

Há semelhanças a apontar entre a medicina e a produção de vinho? É possível conciliar a prática clínica com os ciclos da vinha? Em que medida o dia a dia de um médico influencia a forma como trata as suas uvas? Quão similar é o cuidado que põe em prática no âmbito da sua especialidade […]
Há semelhanças a apontar entre a medicina e a produção de vinho? É possível conciliar a prática clínica com os ciclos da vinha? Em que medida o dia a dia de um médico influencia a forma como trata as suas uvas? Quão similar é o cuidado que põe em prática no âmbito da sua especialidade e o trabalho efetuado na adega? É um negócio autossustentável? Estas e outras perguntas foram feitas a médicos que complementam a prática clínica com a atividade vitivinícola. Outros há que se entregaram inteiramente à vinha e à produção vínica.
Entre as respostas, a capacidade de observação e o rigor são palavras-chave, para poder atuar com consistência e consciência na vinha. Acresce a higienização, tema preponderante no contexto da adega, e o fator tempo, primordial face à melhoria de um paciente e, por outro lado, à gestão da vinha, indissociável aos contratempos associados ao clima e aos ciclos da natureza, bem como, e como não poderia deixar de ser, à evolução do vinho.
No entanto, há quem se afaste da postura de médico, para encarar com serenidade as contradições intrínsecas à de um produtor, seja a viticultura a sequência de um legado traduzido numa ode aos antepassados, seja o resultado de uma paixão despertada e transformada em realidade.
Vamos conhecer António José Rodrigues, da Quinta do Mascanho (Vinhos Verdes), Jorge Tenreiro, da Quinta do Cume (Douro), António Canto Moniz, da Quinta da Leira (Dão), Manuela Carmona, da Adega 23 (Beira Interior), Lúcia e Américo Ferraz, da Souvall (Beira Interior), José Madeira Afonso, do projeto Casas Altas (Beira Interior), e Nuno Monteiro Pereira, da Quinta do Cerrado da Porta (Lisboa).
António José Rodrigues
Médico de ortopedia e produtor-engarrafador
Alvarinho é a casta eleita em exclusivo pela Ceivinhas, a sociedade vitivinícola familiar de António José Rodrigues, cuja especialidade em ortopedia foi exercida em regime de exclusividade no Serviço Público. A casta ocupa quatro hectares de vinha distribuídos por duas propriedades. Uma está localizada no lugar da Valinha, na freguesia de Ceivães, concelho de Monção, e a outra no lugar de Mascanho, freguesia de Vila e Roussas, no concelho de Melgaço. “80% das parcelas sempre pertenceram à família, tendo sido uma pequena parte, entretanto, adquirida” e “os vinhos são comercializados sob a marca Quinta do Mascanho”.
A cultura da vinha e do vinho é a atividade complementar à carreira de médico de António José Rodrigues, desde 1994. O ano coincide com o término da formação da especialidade e o regresso ao meio rural, às origens. Com esta mudança, adquire casa de família no lugar da Valinha, onde reside, e terrenos de produção de cereais e vinhas. “Com incentivo financeiro existente para reconversão de vinhas, foi efetuado o projeto de plantação de acordo com as boas práticas”, dando continuidade ao cultivo da vinha, “que vem das gerações anteriores, devidamente adaptado aos novos tempos”, explica. A comercialização dos vinhos começou em 1997 e, em 2015, acrescenta o espumante feito a partir da casta Alvarinho ao portefólio vínico Quinta do Mascanho.
“Ser médico é cuidar da vida. Ser produtor de vinho é cuidar da terra”
“Ser médico é cuidar da vida. Ser produtor de vinho é cuidar da terra.” Ambas as missões permitem o encontro do “equilíbrio entre a ciência e a tradição, entre o rigor da medicina e a arte da vitivinicultura”. E acrescenta: “produzir vinho é muito mais do que elaborar uma bebida. É preservar uma herança, valorizar o território e criar momentos de partilha à volta de uma mesa.” É, no fundo, uma enorme paixão de António José Rodrigues.
Paralelamente, o ortopedista e produtor de vinho faz a analogia do reconhecimento atribuído pelos pacientes no que às cirurgias e aos tratamentos efetuados diz respeito com a qualidade dos vinhos que produz. E o tempo é factor preponderante nas duas profissões, ou não fosse este primordial na melhoria dos pacientes e, por outro lado, necessário para o afinamento dos vinhos. “A produção do vinho é autossustentável. Evidentemente que só por si os proveitos não seriam dignos para viver”, remata.
Jorge Tenreiro
Cirurgião vascular e produtor de vinho
Da juventude, recorda o gosto pelo mundo rural, em particular pela vinha e pelas pessoas do Douro, das férias passadas numa propriedade familiar da referida região vinhateira, cuja venda deixou saudades. Anos mais tarde, concretizou o sonho de adquirir uma propriedade duriense, com cerca de três hectares, localizada no cume de Provesende, freguesia pertencente ao concelho de Sabrosa, “um terreno que muitos consideravam improvável para produzir grandes vinhos”. Um desafio, que, com o apoio da mulher, Claudia Cudell, deu início à Quinta do Cume, no final da década de 90 do século passado.
Com a passagem do tempo, adquire parcelas vizinhas, privilegiando sempre as vinhas em altitude e com diferentes exposições. Objectivo? “Construir um património vitícola diversificado e representativo do Douro”, esclarece. Atualmente, a área total da propriedade é de 25 hectares, dos quais 15 são de vinha. Rabigato, Gouveio, Viosinho e Malvasia Fina são as castas brancas em destaque. Estão plantadas em maior altitude, factor que proporciona “excelentes condições para produzir vinhos de grande frescura, precisão e longevidade”, descreve Jorge Tenreiro. Nas cotas mais baixas, estão as tintas, com especial evidência para Touriga Franca, Touriga Nacional, Tinta Roriz e Alicante Bouschet, pois é aí que “expressam muito bem a identidade do Douro elegante, quando trabalhadas com equilíbrio”, acrescenta.
A Quinta do Cume “é um projeto economicamente sustentável”, graças ao investimento efetuado no princípio, “muito antes de existirem resultados”. A par com paciência, persistência e visão de futuro, conta, desde sempre, com Claudia Cudell, responsável pela área comercial e “pela notoriedade que a Quinta do Cume tem vindo a ganhar, tanto no mercado nacional, como no internacional”.
“A medicina permite-me cuidar das pessoas. O vinho permite-me criar algo que reúne pessoas à mesa”
No entanto, a medicina permanece como a profissão principal, sendo a produção de vinho um complemento da realização pessoal de Jorge Tenreiro. Apesar das “devidas diferenças, há uma enorme responsabilidade”, avança, pois “tanto um doente como uma vinha dependem de escolhas feitas no momento certo”. Organização e uma equipa competente são vetores cruciais a considerar em ambos os casos. Afinal, “a vinha exige acompanhamento permanente, mas também exige o estímulo e a confiança nas pessoas que trabalham diariamente no terreno”, afirma Jorge Tenreiro, que faz questão de marcar presença nas vindimas, “mas o sucesso resulta sempre de um trabalho coletivo”, enaltece.
Persistência, disciplina, rigor e capacidade de observação são os princípios apreendidos no âmbito da medicina e aplicados na viticultura. “Na vinha, tal como na medicina, muitas vezes, a melhor intervenção consiste apenas em acompanhar atentamente a evolução natural e intervir quando é realmente necessário”, elucida. Na cirurgia vascular, tal como na adega, “a precisão faz toda a diferença”. Neste contexto, Jorge Tenreiro refere “o momento da colheita, a temperatura da fermentação, o tempo de estágio ou a seleção dos lotes”. Aliás, o tempo é determinante, seja na melhoria de um doente, seja na evolução de um vinho, assim como o acompanhamento e o ato de proporcionar as “condições certas, para atingir o seu melhor potencial”, embora no caso do paciente, a recuperação seja idealmente atingida o mais rapidamente possível, enquanto no vinho a evolução é lenta, quando se pretende que ganhe complexidade ao longo dos anos.
Em suma, “a medicina permite-me cuidar das pessoas. O vinho permite-me criar algo que reúne pessoas à mesa, celebra momentos especiais e transmite a identidade de um território. São formas diferentes de contribuir para a qualidade de vida”.
António Canto Moniz
Médico cirurgião oncológico e produtor de vinho
Quinta da Leira é o nome da propriedade de António Canto Moniz. Está localizada na freguesia de São João de Lourosa e estende-se para Silgueiros, no concelho de Viseu, pertencente ao território vinhateiro do Dão. A área total de vinha, com exposição norte-nascente, ronda os dez hectares. Aqui, prevalecem as castas tradicionais. “Touriga Nacional, Alfrocheiro Preto e Jaen, que são as três castas clássicas do Dão, e Tinta Roriz”, afirma. Nas brancas, constam a Encruzado, a Malvasia Fina e a Gouveio.
“A designação Quinta da Leira já é muito antiga. Vem do tempo do meu trisavô, um senhor que também se dedicou à vinha e a fazer vinho”, descreve António Canto Moniz, que refere a cultura da vinha e do vinho como dominante no passado, na região. No seguimento da história da família, a propriedade passa para o avô, Silvério Abranches, deputado na I República e o primeiro presidente eleito da Federação dos Viticultores do Dão, e, mais tarde, para a mãe, Maria da Paz Othon. Porém, é o pai de António Canto Moniz, igualmente médico cirurgião e com o mesmo nome, quem continua o legado da vinha e do vinho, tendo assumido ainda a função de presidente de uma adega cooperativa. “O meu pai fazia vinho cientificamente. Tinha tudo na adega para calcular a acidez, para calcular tudo. Apesar de não ser um analista, estudou o assunto. Aprendi a fazer vinho com o meu pai”, revela. Por conseguinte, “a história de eu, como médico, fazer vinho, é muito simples: segui a tradição dos donos das terras, que, ou continuavam ou as vendiam”, afirma. “Conheci muitos médicos filhos de antigos agricultores, porque havia uma certa tradição nos agricultores ter um filho médico, doutor. Isto no século XX”, afiança. Portanto, “ser médico e fazer vinho é mais uma relação do que se herda”, resume, assumindo que “não há relação entre medicina e entre ser vinhateiro. Tenho amor à terra, à tradição”.
Quando António Canto Moniz passa a tomar conta da Quinta da Leira, preserva a venda a granel, pois “era mais simples do que o engarrafar”. Contudo, houve quem convencesse o médico cirurgião oncológico a dispor o vinho em garrafa. Miguel Viegas Louro, proprietário da Quinta do Mouro e produtor de vinho, em Estremoz, “foi um dos que me convenceu a fazer vinho” em nome próprio “e começamos a usar barricas, que não se usavam no Dão”. Com este passo, em 2002 surge o primeiro Vinha Paz, em homenagem à mãe do produtor – o rótulo Vinha Othon está igualmente neste alinhamento.
“Fazer vinho não é muito difícil. É preciso ter boas cepas no local certo e isso já as tinha eu”
Contudo, a carreira de cirurgião oncológico permanece como atividade principal de António Canto Moniz, um dos fundadores do IPO do Porto e, posteriormente, médico do Hospital da Prelada, no Porto. “Como médico trabalhava 12 horas por dia e ainda tinha funções associativas na direção da Ordem dos Médicos, e o governo requisitava-me para entidade reguladora da saúde.” Como tinha tempo para tudo isto? “Ao fim de semana lá ia eu para Viseu, mas a cultura do vinho não era tão difícil. Hoje, sim, porque há falta de pessoal, e como não utilizamos herbicidas, mais complicado é. Mas quando se quer, consegue-se.” Além disso, “fazer vinho não é muito difícil. É preciso ter boas cepas no local certo e isso já as tinha eu”, sublinha.
No alinhamento da passagem de testemunho entre gerações, numa sociedade constituída com os filhos, a meio da primeira década do século XXI, entrega a pasta a Henrique Canto Moniz, que “há, mais ou menos, 15 anos passou a tomar conta do negócio”, isto é, assume o cargo de gerente. “Agora, é o meu filho que trata de tudo”, contando com o apoio de João Paulo Gouveia, na viticultura, e de Carlos Silva, na enologia. É ainda responsável pela exportação para a América, Suíça, Bélgica, Noruega, países nomeados por António Canto Moniz, que considera o negócio do vinho autossustentável, “na medida em que dá emprego ao meu filho e concretiza dinheiro que se reinveste na vinha”.
Em suma, ser produtor de vinho tem a ver com “uma certa devoção à minha infância”, declara António Canto Moniz, recordando-se que em setembro, ia para a quinta, por ser a época das colheitas. “E na altura da vindima também, enquanto o mês de agosto era passado na praia. Lembro-me do meu pai fazer a vindima em outubro. Eu também fiz vindima em outubro, mas agora é tudo muito mais precoce.” Nas palavras do médico cirurgião oncológico, esta mudança deve-se às alterações climáticas. E face à atual crise no vinho? “Nós cá vamos aguentando.”
Manuela Carmona
Médica oftalmologista e produtora de vinho
A proximidade de uma autoestrada, a A23 é o mote para o nome da casa produtora de vinhos de Manuela Carmona, a Adega 23. Está localizada no limite dos concelhos de Castelo Branco e de Vila Velha de Ródão, e a inauguração acontece em 2018. Mas a ligação à região vitivinícola da Beira Interior remonta ao seu nascimento, sendo Manuela Carmona natural de Castelo Branco, onde viveu até concluir o liceu. Apesar da formação em medicina acontecer em Lisboa, com os anos acaba por conquistar uma relação permanente com as suas origens, mediante as quais o vinho é feito apenas para consumo próprio.
Portanto, a paixão pela cultura do vinho surge anos mais tarde, após ter recebido Le Grand Larousse du Vin. Com tempo e dedicação, o gosto por este produto evoluiu para o desenvolvimento do projeto Adega 23, em 2013. Em 2015, são plantadas as primeiras vinhas e, dois anos depois, são lançadas as primeiras colheitas. Inicialmente, o negócio do vinho teve a medicina como pilar no contexto financeiro. “Hoje, está equilibrado e autossustentavel”, assegura.
“Provar os vinhos das cubas e analisar a sua evolução é um fantástico exercício para estimular os sentidos e a memória”
“É como viver intensamente várias vidas numa só. Uma forma de descansar de uma profissão com uma atividade diferente. É salutar e refrescante”, começa por explicar Manuela Carmona a forma como vivencia os dois mundos, o da medicina com o do vinho. Ainda a respeito deste último, faz questão de salientar a eficácia desta cultura: “andar no campo pelo meio da vinha, aceitar a natureza e o seu tempo é retemperador. Provar os vinhos das cubas e analisar a sua evolução é um fantástico exercício para estimular os sentidos e a memória.”
Para a médica oftalmologista, tanto a medicina como a vitivinicultura “existem a pensar nas pessoas”. A primeira incita “a resolver problemas, encontrar soluções e decidir rapidamente, e, muitas vezes, sob pressão”, argumenta, acrescentando a viabilidade dessa aprendizagem, a qual lhe permite encarar os problemas na vinha e na adega. De uma forma geral, “são duas áreas desafiantes”, na medida em que exigem rigor e atenção a cada pormenor. Contudo, “não há dois doentes iguais nem duas vindimas iguais”, o que obriga Manuela Carmona a conviver com a imprevisibilidade e a diversidade.
Por outro lado, enquanto médica, destaca o rigor, a segurança e a rapidez face a cada diagnóstico, destacando o valor da saúde, pois “o erro tem consequências” e a perda “pode ser devastadora”. Este comportamento repete-se frente aos imprevistos na vinha e na adega, mas Manuela Carmona prefere encarar estas contrariedades de forma serena.
O desvelo na adega é comparável com o que põe em prática no âmbito da especialidade, em particular no bloco operatório. Organização, rigor e higiene estão no topo da lista das exigências estabelecidas em ambos os casos, pois “a saúde depende muito do que fazemos – alimentação, estilo de vida, hábitos”. Por conseguinte, o trabalho de campo é proporcionalmente primordial para a qualidade do vinho, ou não fossem necessários ter “vinha saudável, boas uvas, vindima manual e no momento certo”.
Em jeito de conclusão, Manuela Carmona fala sobre o papel do vinho em várias áreas, ao longo de milénios, bem como na atualidade: “na medicina foi desinfetante, anestésico, analgésico, anti depressivo. Na oftalmologia , as propriedades antioxidantes recomendam-no para prevenir o envelhecimento da retina.”
José Madeira Afonso
Médico radiologista e produtor de vinho
Casas Altas é nome indissociável a José Madeira Afonso. Natural de Coimbra, passa muitas das férias de verão ao Souropires, no concelho e sub-região de Pinhel, distrito da Guarda, pertencente ao território vinhateiro da Beira Interior, onde mantém a casa de família, onde, em tempos idos, viveu a avó materna, e as propriedades da família.
A formação em medicina ocorre na cidade natal e em Lisboa, mas primeiramente estudou na Escola de Regentes Agrícolas de Coimbra e de Santarém. Com o canudo na mão, vive e exerce medicina na Noruega, tendo sido a Escandinávia o ponto de partida para o gosto pelo vinho. O primeiro vinho produzido data de 1994; é feito a partir de uvas vindimadas na propriedade da família, então na posse do pai.
A sustentabilidade financeira do negócio do vinho é visto “com muita dificuldade. A jardinagem é um luxo que não sei se será possível sustentar”
Dos solos graníticos e às grandes amplitudes térmicas, José Madeira Afonso tira os proveitos, para dar primazia às castas regionais – Fonte Cal, Síria, Verdelho e Malvasia, nas brancas; Rufete, Baga e Touriga Nacional, nas tintas –, pois estão mais adaptadas e “são as que dão menos problema”. A estas, junta variedades d’além-fronteiras: Chardonnay e Riesling. Ainda acerca da vitivinicultura, não considera esta missão um complemento ou uma alternativa à medicina. “É, antes, a procura do ‘paraíso’ na terra, criando o local paradisíaco, as vinhas” e “uma fuga ao quotidiano”. Finda a atividade médica há cerca de cinco anos, a vitivinicultura passa a ser uma missão “a tempo inteiro”, tarefa apaixonante, com destaque para a origem das uvas, o estado de maturação, o processo de fermentação, entre outras etapas de cada processo na vinha e na adega. No entanto, “na vinha e na adega não sou médico, sou viticultor”, embora haja necessidade de “diagnosticar os problemas ou doenças em tempo útil, e tratar de forma adequada, sobretudo sem causar mais mal”, afirma. E tal como na medicina, “a adega também exige calma, reflexão e muita higiene”. Quanto à evolução de um vinho, “é preciso ter condições” para melhorar com o tempo.
Porém, a sustentabilidade financeira do negócio do vinho é visto “com muita dificuldade. A jardinagem é um luxo que não sei se será possível sustentar. Claro, que este problema não é só dos médicos”, remata.
Lúcia e Américo Ferraz
Médicos dentistas e produtores de vinho
A história começa com Álvaro Ferraz e Maria Fernanda Ferraz, pais de Américo Ferraz, e as suas vinhas em Vale Flor, na União das Freguesias de Vale Flor, Carvalhal e Pai Penela, concelho de Mêda, distrito da Guarda e integradas na região vitivinícola da Beira Interior. Esta profunda ligação à terra, à vinha e ao vinho é “familiar, emocional e identitária” e “representa uma herança feita de terra, trabalho, memórias e valores”, descreve Lúcia Ferraz. Por outro lado, “a produção de vinho é uma atividade real, exigente e com responsabilidades muito concretas”.
Com precisão, dedicação, responsabilidade e atenção ao detalhe, o casal Lúcia e Américo Ferraz decide “dar uma nova dimensão a essa herança” através da construção de uma adega moderna e da criação das condições necessárias, para desenvolver um projeto vitivinícola centrado na produção de vinhos “com maior rigor, consistência e identidade”.
Porém, a medicina dentária permanece no epicentro da atividade profissional de ambos: “não se tratou de abandonar a medicina dentária, mas de fazer coexistir duas vocações: cuidar de pessoas e cuidar de um património familiar e agrícola.” Mesmo assim, Lúcia Ferraz anuncia a existência de mais semelhanças entre ambas as profissões, com a condição de “observar, interpretar, prevenir e intervir no momento certo”. Isto é, “um médico não pode olhar apenas para um sintoma isolado; tem de compreender a pessoa no seu todo”. Na vinha, também é fundamental conhecer o todo: “o solo, o clima, a exposição solar, o comportamento de cada casta e a evolução de cada parcela ao longo do ciclo vegetativo.” Lúcia Ferraz enfatiza o conhecimento científico, a experiência e a capacidade de decisão como fatores comuns às duas missões do casal, mas impera sempre o respeito pelo tempo: “podemos acompanhar, orientar e criar melhores condições, mas temos de respeitar os seus ritmos.”
Conciliar a medicina com os ciclos da vinha é tarefa que carece de “planeamento e uma equipa de confiança”. Afinal, as fases de trabalho na vinha não podem ser adiadas, exigindo disponibilidade no momento da poda, dos tratamentos, do controlo do desenvolvimento vegetativo e da vindima, “pelo que procuramos antecipar cada fase do calendário vitivinícola e acompanhar de perto as decisões mais importantes”, informa Lúcia Ferraz. Para o efeito, são distribuídas responsabilidades, mantida a comunicação com a equipa e feito o acompanhamento da evolução de cada etapa. O mesmo se aplica na medicina dentária no que há disponibilidade diz respeito. Como complemento, Lúcia e Américo Ferraz implementaram a necessidade de observar, fazer uma leitura minuciosa das causas e apostar na prevenção. “Tal como na saúde, prevenir é, geralmente, mais eficaz do que tentar corrigir um problema numa fase avançada”, justifica a médica dentista, daí que cada casta seja tratada de forma diferente e se procure compreender as necessidades de cada parcela. Em contrapartida, “prática clínica exige concentração permanente, decisões rápidas e uma grande responsabilidade perante cada pessoa”; enquanto a vinha ensina a esperar em função do ritmo das estações. “Esse contacto com a terra ajuda-nos a recuperar energia e a relativizar algumas das tensões do quotidiano clínico”, resume, embora haja uma constante incerteza em relação ao clima, à mão de obra e às decisões de investimento inerentes à atividade agrícola.
“Tal como na saúde, prevenir é, geralmente, mais eficaz do que tentar corrigir um problema numa fase avançada”
Na adega, e à semelhança do desempenho profissional do casal, “trabalhamos frequentemente à escala do milímetro. A precisão, a higiene, o controlo dos procedimentos e a escolha dos materiais são determinantes para o resultado final”. Além de que, a qualidade do vinho depende, para Lúcia Ferraz, da prática estabelecida no momento da vindima e do procedimento na adega. “Um pequeno desvio numa destas fases pode alterar significativamente o resultado”, destaca. Sem descurar a estética comum às duas práticas: “na medicina dentária procuramos aliar saúde, função e harmonia; no vinho procuramos equilíbrio, autenticidade e prazer sensorial.”
Sobre a sustentabilidade financeira, Lúcia Ferraz afirma que o projeto “ainda não atingiu plenamente esse objetivo”, pois depende da atividade na medicina dentária para suportar os custos inerentes à vinha e à produção de vinho. “O nosso objetivo é que o projeto se torne progressivamente autossustentável, preservando uma visão de longo prazo. Mais do que produzir em quantidade, queremos consolidar uma marca credível, associada à qualidade, à família e ao território da Beira Interior”, sustenta.
No contexto odontológico, Lúcia Ferraz aponta para o facto de o vinho ser uma bebida ácida. Logo, “a exposição frequente ou prolongada aos seus ácidos pode contribuir para a erosão do esmalte dentário. No caso dos vinhos tintos, os pigmentos e os taninos também podem contribuir para o aparecimento de manchas superficiais, sobretudo em pessoas com maior predisposição ou com acumulação de placa bacteriana.” Por conseguinte, após a ingestão de vinho, Lúcia Ferraz aconselha a beber água e escovar os dentes 30 minutos depois, bem como recorrer regularmente ao médico dentista. “O vinho pode fazer parte de momentos de convívio, gastronomia e cultura, mas deve ser sempre consumido com moderação.”
Nuno Monteiro Pereira
Médico urologista e produtor de vinho
“A reviravolta começou quando tinha cerca de 45 anos. Exercia urologia em Lisboa, com uma atividade muito intensa entre o hospital público e a prática privada. Senti então a necessidade de equilibrar essa vida profissional com um projeto completamente diferente, que me permitisse fugir ao ritmo da cidade e concretizar um antigo sonho: produzir espumantes e vinhos tranquilos.” Tomada a decisão, Nuno Monteiro Pereira procurou, durante um ano, pela propriedade ideal, “com potencial vitícola e espaço para construir uma casa, uma adega e plantar a minha vinha”, de preferência próxima da capital. A extensiva procura levou o médico urologista a optar, em dezembro de 1996, pela aquisição de uma casa rural do século XVIII, “então bastante degradada, rodeada por cerca de quatro hectares de terreno, incluindo uma velha vinha”, conta. Está localizada no lugar da Patameira, concelho de Sobral de Monte Agraço, pertencente ao território vinhateiro dos Vinhos de Lisboa. Chama-se Quinta do Cerrado da Porta.
O projeto vitivinícola começou em 2011. As vinhas são plantadas em 2012 e 2013 e as castas “selecionadas em função da orografia, da exposição das encostas e das características do clima atlântico da região”: Arinto, Chardonnay, Moscatel Graúdo, Touriga Nacional, Pinot Noir, Syrah, Merlot e Castelão. A estreia na vindima ocorre no ano de 2015 e no engarrafamento acontece em 2016. Um ano mais tarde é dado início à comercialização. A vinha ocupa uma área de 13 hectares. O portefólio vínico divide-se em quatro rótulos: Troviscal (vinhos tranquilos e grandes reservas), Peripécia (monocastas), Quinta do Cerrado da Porta (espumantes) e Capicua (licorosos e colheita tardia).
Sobre os pontos comuns entre a medicina e a produção de vinho, refere a necessidade de ter “paciência, respeito pelos seus ritmos e a consciência de que nem tudo pode ser acelerado”. Paralelamente, há um exigente “estudo permanente, a atualização técnica, o rigor, a disciplina e uma grande capacidade de adaptação”, sendo as pequenas decisões cruciais, uma vez que “podem ter consequências importantes”. Por esse motivo, durante o período em que conciliou a medicina com a prática agrícola teve de instituir “uma gestão muito rigorosa do tempo”, porque “a vinha não espera”. Perante esta realidade, durante muitos anos, recorre a empresas especializadas.
“Na medicina lutamos contra o tempo. No vinho aprendemos a trabalhar com ele”.
A mesma necessidade imperiosa ocorre na época das vindimas, o que o obriga a reagendar consultas, entre outros compromissos profissionais. Atualmente, acompanha e põe em prática as recomendações do viticultor Amândio Cruz, “e isso permite-me um controlo muito mais próximo e fiável”, salienta. E acompanha o trabalho de campo e na adega sob a orientação da enóloga Alexandra Mendes. “Quando olho para trás, pergunto-me, com alguma surpresa, como consegui conciliar durante tanto tempo duas atividades tão absorventes.”
“Observar, estudar, medir e decidir com base na evidência disponível” fazem parte da prescrição de Nuno Monteiro Pereira face à viticultura. Apesar de ter igualmente maleitas, não faz questão “de olhar para a vinha como um doente”, pois há que respeitar o próprio ritmo da videira. E à semelhança do que acontece no bloco operatório, a higiene “é uma condição absoluta” no que toca ao trabalho efetuado na adega. “A limpeza, o controlo microbiológico e o respeito pelas boas práticas são determinantes para o resultado final”, independentemente dos objetivos.
A respeito das semelhanças encontradas entre a medicina e a produção de vinho, Nuno Monteiro Pereira é peremptório: “felizmente poucas e isso é uma boa notícia.” O fascínio advém precisamente das diferenças que encontra neste mundo do vinho: “a medicina, e particularmente a cirurgia, intervém e transforma na permanente procura de devolver a saúde às pessoas; a produção de vinhos procura respeitar e valorizar aquilo que a natureza produz.” Em relação ao fator tempo, enquanto médico, o objetivo é o doente recuperar “melhor e o mais depressa possível. Já um grande vinho necessita de tempo para revelar toda a sua complexidade. Na medicina lutamos contra o tempo. No vinho aprendemos a trabalhar com ele”, elucida.
Em todo o caso, Nuno Monteiro Pereira manifesta preocupação com o consumo excessivo de álcool, uma vez que “aumenta a produção de urina e pode agravar sintomas urinários em algumas pessoas”, daí que defenda a integração moderada de vinho “numa alimentação equilibrada e num estilo de vida saudável”. Portanto, “enquanto médico, sempre aconselhei moderação. Enquanto produtor, continuo a defender exatamente o mesmo”.
No âmbito da sustentabilidade financeira deste negócio associado ao vinho, Nuno Monteiro Pereira declara que a medicina “permitiu suportar os maiores investimentos na vinha e na adega. Já reformado, o projeto procura ser economicamente sustentável”, com uma produção entre 1300 e 5000 garrafas por referência, as quais se destinam “exclusivamente ao mercado nacional, através de garrafeiras e restaurantes selecionados”.
(Artigo publicado na edição de Setembro de 2026)
Wine Destination Portugal em prol do enoturismo

O Wine Destination Portugal regressa ao Alentejo entre 16 e 20 de Novembro, com actividades em Beja e encerramento em Évora, reunindo cerca de 30 produtores nacionais de 30 profissionais de mercados além-fronteiras, como os Estados Unidos, Brasil, Canadá, Reino Unido, Espanha, França, Itália, Alemanha e Países Baixos, incluindo operadores especializados na vertente do enoturismo, […]
O Wine Destination Portugal regressa ao Alentejo entre 16 e 20 de Novembro, com actividades em Beja e encerramento em Évora, reunindo cerca de 30 produtores nacionais de 30 profissionais de mercados além-fronteiras, como os Estados Unidos, Brasil, Canadá, Reino Unido, Espanha, França, Itália, Alemanha e Países Baixos, incluindo operadores especializados na vertente do enoturismo, bem como travel designers premium, empresas de gestão de destinos (DMC) e agências boutique. O objectivo é dar a conhecer a diversidade da oferta nacional e criar oportunidades de negócio junto de profissionais que procuram experiências diferenciadoras para os seus clientes.
Ao longo de cinco dias, o programa combina reuniões B2B previamente organizadas, momentos de networking e as uncorking experiences, visitas que permitem aos compradores conhecer projectos vitivinícolas, provar os seus vinhos e descobrir os territórios onde são produzidos.
Bruno Gomes, responsável pela organização do evento, anuncia em comunicado o seguinte: “existe uma oportunidade muito concreta para os produtores portugueses crescerem através do enoturismo e dos mercados internacionais. O nosso objetivo é facilitar esse encontro, colocando frente a frente quem tem uma oferta diferenciadora e quem procura novas experiências para os seus clientes.”
Vinhos Verdes apostam na Inteligência Artificial

O EVAG – Centro de Estudos da Região dos Vinhos Verdes / Quinta Campos do Lima, em parceria com a Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes (CVRVV) e com o Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência (INESC TEC), criaram o SMARTLabel – Plataforma Inteligente para a Pré-Validação de Rótulos de […]
O EVAG – Centro de Estudos da Região dos Vinhos Verdes / Quinta Campos do Lima, em parceria com a Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes (CVRVV) e com o Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência (INESC TEC), criaram o SMARTLabel – Plataforma Inteligente para a Pré-Validação de Rótulos de Vinhos. Este projecto, cujo processo de desenvolvimento iniciou em Janeiro deste ano de 2026, tem a capacidade de ler um rótulo, identificar as menções obrigatórias e assinalar o que está em falta ou apresentado de forma incorrecta, de modo a agilizar processos e a orientar os produtores mediante a sua aprovação na entidade certificadora. Por sua vez, estes procedimentos estarão concluídos até ao final de 2027.
No âmbito deste trabalho, o desenvolvimento dos algoritmos de análise de imagem está a cargo do INESC TEC, enquanto a CVRVV contribui com o conhecimento do processo de apreciação e com rótulos reais da Região dos Vinhos Verdes, sob coordenação da EVAG. Co-financiado pela União Europeia através do programa NORTE 2030 – FEDER, esta plataforma de inteligência artificial e certificação tem como objectivo reduzir até 80% o tempo médio de resposta aos produtores, o que se traduz em maior celeridade também para quem exporta.
Dora Simões, Presidente da CVRVV, declara, em comunicado, o seguinte: “este é um importante passo na optimização do processo de certificação, uma vez que cada garrafa de vinho verde certificada passa pela etapa de aprovação da rotulagem. Tendo em vista que cada vez há mais referências de vinhos e o número de rótulos para aprovação tem incrementado na região, aprovando-se anualmente mais de 7000 rótulos, estamos muito expectantes quanto ao impacto extremamente positivo que o SMARTLabel terá no dia-a-dia dos produtores e dos técnicos, permitindo-lhes focar apenas na informação fundamental.”
INFINITUDE: Perspectivas infinitas

Para Maria d’Assunção Osório de Vasconcelos, da Távora-Varosa, e Jorge Jardim Gonçalves, da Madeira, o cultivo da vinha fazia parte da tradição familiar. Por influência destas memórias, na propriedade que adquiriram em Galamares, a Quinta da Azenha, plantaram também vinha, em 2000. As castas foram escolhidas ao gosto pessoal da família: Pinot Noir e Merlot. […]
Para Maria d’Assunção Osório de Vasconcelos, da Távora-Varosa, e Jorge Jardim Gonçalves, da Madeira, o cultivo da vinha fazia parte da tradição familiar. Por influência destas memórias, na propriedade que adquiriram em Galamares, a Quinta da Azenha, plantaram também vinha, em 2000. As castas foram escolhidas ao gosto pessoal da família: Pinot Noir e Merlot. Inicialmente pensada como elemento do jardim, e não com o propósito de produzir vinho para comercialização, a vinha acabou, como tantas vezes acontece, por dar origem a um negócio e a uma marca: Infinitude.
Mas vamos por partes. Os primeiros vinhos foram produzidos a partir de 2010, ainda exclusivamente para consumo da família. Em 2017, a Infinitude apresentou as suas primeiras referências no mercado. Dos cinco filhos do casal, o mais novo, Rodrigo Jardim, acompanha o projecto desde o início.
Com o tempo, o projecto foi amadurecendo e tornou-se evidente a necessidade de integrar uma pessoa com experiência nas áreas da enologia e da viticultura, a tempo inteiro, que assumisse responsabilidades e contribuísse para a definição da sua estratégia e posicionamento. Em 2024, João Lino assumiu as funções de director-geral e enólogo, dando um novo impulso à profissionalização do projecto.
No ano seguinte, a produção passou de cerca de 5000 para 16 000 garrafas. “Sempre houve mais uva, mas nunca se engarrafou tudo o que se produzia”, explica João Lino, adiantando que, este ano, poderão chegar às 40 000 garrafas. O aumento da escala é, para o director-geral, também uma forma de ganhar visibilidade: “tem que haver alguma massa crítica para as pessoas começarem a conhecer a marca.” O objectivo é que essa notoriedade chegue ao consumidor, para que passe a procurar os vinhos da Infinitude: “eventualmente, o momento-chave é quando o consumidor final começar a pedir o nosso vinho, não só a restauração.”

Devoção a castas francesas
As cinco vinhas representam pouco mais de cinco hectares, a maior parte dos quais ocupados por castas estrangeiras. E é aqui que se impõe uma breve digressão histórica, pois existe a pressuposição de a presença de variedades francesas na zona de Sintra e Colares ser mais antiga do que se pensa.
O historiador Visconde de Juromenha, na sua obra Cintra pinturesca, ou Memória descritiva das villas de Cintra, Colares e seus arredores, de 1838, refere a intenção de D. Afonso III de promover a cultura da vinha, em 1255, na região de Sintra e Colares, numa altura em que o rei administrava e reorganizava activamente o património régio desta zona. Juromenha conjectura que, nessa ocasião, o monarca poderá ter introduzido cepas originárias de França.
Embora não possa ser dada como comprovada, a hipótese encontra algum fundamento indirecto no contexto histórico. Antes de subir ao trono, D. Afonso III viveu vários anos na corte francesa e a sua primeira mulher, D. Matilde II, era uma aristocrata pertencente à linhagem dos reis de França. O seu reinado assim ficou marcado pela influência francesa, o que torna plausível a possibilidade de castas oriundas daquele país terem chegado à região ainda no século XIII.
Voltando às vinhas, tudo começou na Quinta da Azenha. São cerca de dois hectares, plantados em chão rijo, onde predominam Pinot Noir e Merlot. Seguiu-se a Quinta do Torrado, não muito longe dali, com cerca de 2,5 hectares plantados em 2019. Para além de Pinot Noir e Merlot, a parcela inclui ainda Riesling, Sémillon e Chardonnay. Com apenas meio hectare, a vinha do Casalinho, plantada em 2000 apenas com Merlot, está rodeada por pinheiros, sobreiros, cedros e eucaliptos. A uva daqui, com um perfil mais fresco, é destinada à produção de rosé.
Na encosta da Serra de Sintra fica a pequena vinha da Boca da Mata, na aldeia do Penedo, a cerca de 100 metros de altitude. É a mais elevada de todas, está em agricultura biológica e é exclusivamente plantada com a casta Sémillon.
Praia seca de Ramisco e Malvasia
E, por fim, há um hectare de chão de areia, com Malvasia e Ramisco, a menos de um quilómetro do mar. O terreno foi adquirido precisamente com a finalidade de plantar estas castas e incluir, no portefólio, uma referência que represente a cultura vitivinícola da região.
A vinha passou a ser conhecida como ‘Praia Seca’, nome dado pelos filhos de Rodrigo Jardim, que viam a areia sem o mar. Foi plantada em 2020, de forma tradicional, em pé-franco, abrindo-se valas com cerca de cinco metros de profundidade. Um processo trabalhoso, que exige tempo até as videiras se estabelecerem e começarem a produzir.
Em 2024, aqui fizeram a primeira vindima, mas a produção foi ainda muito reduzida e as plantas apresentavam bastante heterogeneidade. “No ano passado, só fizemos cerca de uma tonelada por hectare. Mas sinto que este será um ano de maior produção”, afirma João Lino.
A produção em modo biológico aqui não funciona. O director-geral refere-se à praga do pulgão que afecta as folhas da videira: “se fosse em biológico, não conseguíamos dar a volta, quase que tínhamos de estar aqui dia sim, dia não a tratar a vinha”. Outra dificuldade são os pinheiros à volta da parcela, cujas raízes prejudicam as videiras devido à competição por água e nutrientes. Nas vinhas novas, plantadas em solo de areia, esta disputa deixa as videiras em desvantagem. A solução passa pela poda regular das raízes dos pinheiros, de forma a proteger a vinha.
Para ser sustentável, a vinha tem de produzir o máximo possível, desde que não comprometa a qualidade dos valores da marca
Qualidade sustentável
Dada a dimensão e a topografia das vinhas, quase todos os trabalhos de viticultura na Infinitude são manuais, com excepção da mobilização do solo e do corte da erva. No que toca à produção de vinho, ambição e pragmatismo não são conceitos contraditórios; pelo contrário, complementam-se. É isso mesmo que ressalta da conversa com João Lino e da prova dos vinhos.
Na viticultura, não seguem uma abordagem fundamentalista, privilegiando antes uma visão pragmática da sustentabilidade, como explica o enólogo: “a qualidade tem de ser top. Mas a produção tem de ser sustentável. Tem de se pagar, tem de criar emprego. E tem de haver uva. Porque, se estamos a tratar a vinha, a gastar gasóleo, produtos fitossanitários, mão de obra e de repente não sai uva… Então nem é ambiental.”
Há vinhas que produzem 12 toneladas por hectare, outras produzem oito, e as do chão de areia ainda nem chegam a duas toneladas por hectare. A produtividade varia bastante em função das características de cada vinha, mas a lógica é a mesma em todas: “para ser sustentável, a vinha tem de produzir o máximo possível, desde que não comprometa a qualidade e os valores da marca.”
O momento-chave é quando o consumidor final começar a pedir o nosso vinho
Adega à medida
No início do projecto, os vinhos eram vinificados na Adega Regional de Colares, sob a orientação enológica de Francisco Figueiredo. Mais tarde, porém, tornou-se evidente a necessidade de dispor de uma adega própria, que permitisse maior controlo sobre todo o processo de vinificação.
Como não havia espaço na propriedade para construir uma nova adega, e a burocracia na região de Sintra não facilitaria o processo, aproveitaram duas garagens, que foram unidas e devidamente equipadas. Nasceu, assim, uma adega à medida do projecto, com capacidade para vinificar 50 000 litros por ano, número mais do que suficiente para a meta de 40 000 garrafas previstas para este ano. Privilegiou-se a funcionalidade em detrimento da beleza. Os depósitos foram dimensionados para o espaço e dispostos de forma a permitir “que uma pessoa sozinha, sem a ajuda de outra, consiga facilmente trabalhar aqui”.
No fundo, o Infinitude é um projecto garagista requintado, já com alguma dimensão que, agora, exige uma estratégia comercial à altura.
De Sintra, de Colares e os Indie
A estratégia assenta em três gamas de vinhos bem definidas. A primeira é a Infinitude, com um conjunto alargado de referências, todas provenientes de chão rijo. São vinhos de castas internacionais que “espelham muito bem a região de Sintra” apresentados em blends ou, nos topos de gama, em versões monovarietais. São bases da marca que abrangem diferentes perfis de consumidor.
A segunda, com raízes na tradição vitivinícola da região, é dedicada aos vinhos DOC Colares produzidos a partir de Ramisco e Malvasia em chão de areia. A terceira reúne referências ‘Indie’: vinhos independentes, de capricho e fora da caixa, que não têm de seguir as regras das linhas essenciais da marca, “mas são coisas que achamos que podem fazer sentido”, explica João Lino.
Entre chão rijo e chão de areia, tradição e experimentação, abre-se uma infinitude de perspectivas, não fosse este, afinal, o nome da marca.
(Artigo lançado na edição de Setembro de 2026)



























