CASA DA RÉSSA: Um mosaico de terroirs

CASA DA RÉSSA

Alexandre Dias é um empresário de sucesso em Paris e um enófilo inveterado, que não prescinde de degustar o que de melhor se faz em Portugal e além-fronteiras. Um dia teve a ideia romântica de comprar um pedaço de terra no Douro, que tivesse uma vista deslumbrante sobre o vale e o rio, para lá […]

Alexandre Dias é um empresário de sucesso em Paris e um enófilo inveterado, que não prescinde de degustar o que de melhor se faz em Portugal e além-fronteiras. Um dia teve a ideia romântica de comprar um pedaço de terra no Douro, que tivesse uma vista deslumbrante sobre o vale e o rio, para lá construir o que pudesse, receber os amigos e abrir umas boas garrafas de vinho enquanto se contempla a imensidão da paisagem e se desfruta do som do silêncio.

O que Alexandre Dias não contava é que não estava a comprar apenas um pedaço de terra no Douro, não. Esse pedaço de três hectares tinha vinha também. Por isso, reza esta curta história, que um dia se transformará em lenda, que não foi Alexandre que encontrou a vinha, foi antes a vinha que o encontrou. Falamos da ‘Vinha das Lages’, o epicentro da Casa da Réssa. E, de repente, foi como se a música dos The Mammas & The Pappas ecoasse naquele silêncio duriense entre vinhas velhas de altitude e o perfume do pinho, do eucalipto e da mata. ‘Stars shinin’ bright above you / Night breezes seem to whisper, “I love you” / Birds singin’ in the sycamore tree / Dream a little dream of me’…

“Réssa”, palavra antiga do Douro e Minho, significa réstia de sol, aquela luz suave e intensa que resiste e ilumina. Neste caso, podemos dizer que iluminou o caminho de Alexandre Dias, o qual iniciou em 2019. Foi o princípio de um caminho sem mapa, feito de procura, de aprendizagem com os locais, de caminhar pelas encostas da margem sul do Douro, comprando parcelas esquecidas, vinhas de qualidade excepcional, algumas com 150 anos e castas que nem os melhores especialistas conseguem identificar, cada uma com a sua alma e identidade, como se colhesse fragmentos de uma história antiga espalhada pela serra.

 

O palco duriense

Cerca de cinquenta escrituras depois, Alexandre Dias teceu uma manta de retalhos, a sua manta de retalhos, feita de encostas, matas, vinhas velhas e solos resilientes: 40 hectares de terra, 25 hectares de vinha. Nada mau para quem só queria um sítio para receber os amigos. Mas a responsabilidade também se tornou outra. Diz que pensar grande e pensar pequeno dá o mesmo trabalho. Portanto, porque não pensar em grande?

Pois pensar grande foi precisamente o que fez quando decidiu a quem iria entregar a enologia. Pessoalmente, arrisco em dizer que terá sido a verdadeira pedra de toque da Casa da Réssa. Referimo-nos a Paulo Nunes, que trouxe consigo João Costa, com quem já tinha trabalhado, para ocupar o cargo de enólogo residente; e rapidamente se tornou um pilar fundamental deste projecto.

Mas se a escolha por parte de quem tem a responsabilidade de o fazer parece óbvia é, por conseguinte, fácil, já que se trata de um dos melhores e mais consagrados enólogos nacionais, já a decisão do mesmo em aceitar a enologia desta ‘manta de retalhos’ vinícola não parece tão óbvia. Mas é.

“Foi o vinho que fez o Douro, porque o Douro, antes do vinho, era muito pouco o que é hoje. Até as montanhas são diferentes. Não foi o Douro que fez o vinho. Foi o homem que fez o vinho. O homem, as suas técnicas e o mercado. De volta, o vinho fez o Duriense. Condicionou-o, influenciou-o”, escreveu, um dia, António Barreto.

Paulo Nunes, que todos conhecemos mais associado ao Dão, é precisamente um duriense, natural da Folgosa. Feito de vinho do Douro, portanto. A Vinha das Lages avista-se da casa de seus pais. Conhece todo o emaranhado de vinhas, de parcelas, com vertentes voltadas a Nascente, a Norte, a Poente e a Sul. Em criança, até jogava à bola nessas mesmas vinhas, então um bocadinho menos centenárias.

“Eram as parcelas do Sr. Manel, do Sr. Joaquim, do Sr. António, e de outros que tais, que faziam vinho para eles beberem”, conta Paulo Nunes.

E continua: “mas atenção, que havia uma certa cultura de fazer vinho bom, e até uma competição saudável sobre quem fazia, no fim, o melhor vinho. E os field blends das vinhas depois replicavam precisamente essa cultura e os resultados dessas competições. As varas das parcelas que davam os melhores vinhos eram enxertadas nas parcelas dos outros amigos, e originavam estas preciosidades que nos chegam até aos dias de hoje.” E “não há castas dominantes na Réssa. Há uma heterogeneidade muito grande”, sublinha o enólogo.

“Mas eram vinhos sem palco, que se bebiam depois a jarro nas tabernas do Porto. Quando aceitei este projecto também foi para poder prestar a minha homenagem a esses vinhos do Sr. Manel, Joaquim e António, para tentar voltar a fazê-los e, agora sim, dar-lhes o merecido palco”, confessa Paulo Nunes. “O Alexandre embarcou nesta minha visão, ou loucura, e deu-me carta branca.” Qual será o mais louco? O futuro o dirá.

CASA DA RÉSSA
Alexandre Dias

 

“Réssa”, palavra antiga do Douro e Minho, significa réstia de sol

 

Vinhos de parcela

A ideia original do vinho da Réssa parte da crença firme de que o Douro, por mais que se queira, ou por mais conveniente que seja, não tem um padrão definido. É completa e absolutamente heterogéneo. Por conseguinte, nesta Casa, a ordem de trabalho incide, cada vez mais, em isolar as parcelas, para fazer vinhos de parcela. O objectivo desta acção consiste em evidenciar a diversidade do Vale do Douro predominantemente xistoso e pouco ventilado, que dá origem a mais calor e humidade, e ao planalto, denominado Monte Raso, caracterizado pelos solos de granito e noites frias. Assim, as uvas vindimadas nas cotas mais baixas apresentam um perfil mais quente, de maior extracção, enquanto as colhidas mais acima resultam em vinhos com uma componente mais fresca e uma acidez mais marcante.

Já no Vale de Naçarães, os solos vermelhos de argilas secundárias, resultantes da decomposição secular, recebem águas das serras adjacentes, tornando este terroir verdadeiramente único, apesar de unanimemente considerado pouco nobre, daí que esteja em último lugar na Classificação das Parcelas para Vinho do Porto.

“Fazer vinhos do Douro, no meu entender, não é a mesma coisa que fazer vinhos do Porto. Deveria haver duas regiões demarcadas e, claro, as três sub-regiões Baixo e Cima Corgo e Douro Superior estão mais que obsoletas”, defende Paulo Nunes. “Fazemos 40, 50, 60 vinificações, parcela a parcela. A vinificação maior é de quase quatro toneladas; a mais pequena é de apenas 150 quilos.”

São ainda tempos de ensaio, tentativa-erro. Tudo é testado e analisado ao detalhe, mas os resultados, leia-se os vinhos, apresentados têm sido brilhantes, com atributos claramente distintivos. Solos diferentes, exposições diferentes, altitudes diferentes, crus diferentes, lieux-dits, no topo da encosta, a meio da encosta, na planície… soa-nos familiar, certo? Não é preciso dizer o óbvio.

E se não for suficientemente familiar, além das vinificações feitas por parcela, existe todo um trabalho de precisão na escolha de barricas. A selecção baseia-se em queimas, tostas e grãos diferentes. “Não temos duas barricas iguais da mesma tanoaria”, afirma Paulo Nunes. E na complementaridade do engaço. “Gosto de utilizar engaço, porque dá-me mais camadas, texturas, ângulos, que me agradam particularmente”, continua o enólogo.

 

CASA DA RÉSSA

 

Não há castas dominantes na Réssa; há uma heterogeneidade muito grande.

 

Vinho do Porto “civilizado”

Mas na Casa da Réssa também se faz Vinho do Porto. Aqui, o conceito é criar pequenos movimentos disruptivos, não alinhados com os perfis de Vintage das grandes casas clássicas. Não que haja algo de errado com esses vinhos, longe disso; são parte integrante da história do Douro e do Vinho do Porto, e merecem todo o respeito que lhes é devido, mas o desejo de criar algo distinto e distintivo é muito forte.

Utilizar menos aguardente na fortificação, deixar as uvas maturar mais tempo na vinha, para ganhar mais açúcares, manter o grau no limite inferior mínimo para Vinho do Porto Vintage (19%) são alguns desses pequenos movimentos disruptivos.

Depois, há que dispor no mercado os Vintage quando já estão verdadeiramente “bebíveis” e “minimamente civilizados”. Em ano de Declaração, “o Vintage 2024 da Casa da Réssa só sairá para o mercado daqui a seis anos, se calhar”, reforça Paulo Nunes.

O recém-lançado Vintage 2023 é um exemplo perfeito. É um vinho estruturado, profundo e elegante, pronto para a longa guarda, mas também muito “civilizado” para se beber desde já e desfrutar em novo.

E se, quiçá, a moda pega? Na verdade, alguém tem sempre de ser o primeiro. No mundo do vinho é famosa a frase de que o que custa mais são os primeiros duzentos anos. Mas também é verdade que essa frase já foi dita há muito tempo, e, hoje, temos muito mais experiência e tecnologia de apoio à produção vínica. Por conseguinte, creio que não vai ser preciso esperar tanto tempo para consagrar a Casa da Réssa no grande palco dos grandes vinhos durienses e de Portugal. E do Mundo, porque não? Mas o futuro, esse, a Deus pertence.

(Artigo publicado na edição de Setembro de 2026)

CIM Douro leva a região pelo mundo

CIM Douro

Com o propósito de dar um novo passo na afirmação além-fronteiras, a Comunidade Intermunicipal do Douro (CIM Douro) está a criar uma academia internacional, com o objectivo de formar, em diferentes países, profissionais capazes de conhecer, interpretar e valorizar a identidade da região, os seus vinhos, a gastronomia e o património. Este projecto foi apresentada […]

Com o propósito de dar um novo passo na afirmação além-fronteiras, a Comunidade Intermunicipal do Douro (CIM Douro) está a criar uma academia internacional, com o objectivo de formar, em diferentes países, profissionais capazes de conhecer, interpretar e valorizar a identidade da região, os seus vinhos, a gastronomia e o património. Este projecto foi apresentada sob a designação provisória de Douro Identity Academy (DIA), em Tóquio, no âmbito da Douro Week 2026, iniciativa que envolveu 34 formadores das áreas da gastronomia e dos vinhos, nove representantes dos meios de comunicação social, importadores e responsáveis de restaurantes, além de representantes de organizações ligadas ao vinho e ao turismo. O programa incluiu iniciativas na Embaixada de Portugal, uma recepção na residência do Embaixador e uma masterclass dedicada à cozinha e aos vinhos do Douro.

Sobre a futura academia, estão previstos níveis progressivos de aprendizagem, desde a introdução à identidade da região à formação avançada de profissionais, com o intuito de a divulgar e a valorizar nos respectivos países. A finalidade é estabelecer uma rede internacional de profissionais e embaixadores do território, de modo a firmar a permanente ligação entre o Douro e os mercados externos. O desenvolvimento da Academia contempla a Escola de Hotelaria e Turismo do Douro-Lamego e prevê a cooperação com instituições públicas, entidades de formação, organizações sectoriais e parceiros privados. No alinhamento destas acções, a CIM Douro está a preparar a articulação com o Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto, o Turismo do Porto e Norte e o Turismo de Portugal, entre outros.

CIM Douro

“Esta academia representa uma aposta coletiva na qualificação, na valorização dos nossos recursos e na capacidade de levar o Douro mais longe, através de quem conhece e sabe transmitir aquilo que nos distingue”, declara, em comunicado, João Gonçalves, Presidente da CIM Douro. Miguel Santos, Secretário Executivo Intermunicipal da CIM Douro afirma, por sua vez, o seguinte: “estamos a desenvolver um projecto coletivo, que mobiliza conhecimento, instituições e agentes económicos em torno de uma ambição comum. A experiência no Japão permitiu testar esta abordagem junto de profissionais com capacidade para transmitir a identidade do Douro. Queremos dar continuidade a esse trabalho, criando uma plataforma de formação e cooperação internacional que produza resultados para o território”.

Por conseguinte, está previsto um programa intensivo no Douro, com profissionais japoneses em Maio de 2027, de forma a proporcionar-lhes o contacto directo com produtores, chefes, unidades turísticas, instituições e comunidades locais.

Black & White Photography Competition com a Dow’s

Dow’s

A Dow’s, marca de Vinho do Porto da família Symington, lança mais uma edição do Black & White Photography Competition, cujas inscrições estão abertas até 2 de Janeiro de 2027 a maiores de 18 anos, de qualquer nacionalidade e em qualquer parte do mundo. O tema é “Generations”. O objectivo consiste em incitar os participantes […]

A Dow’s, marca de Vinho do Porto da família Symington, lança mais uma edição do Black & White Photography Competition, cujas inscrições estão abertas até 2 de Janeiro de 2027 a maiores de 18 anos, de qualquer nacionalidade e em qualquer parte do mundo. O tema é “Generations”. O objectivo consiste em incitar os participantes a interpretar o conceito de gerações, das relações humanas à passagem do tempo, da memória ao património e da tradição à contemporaneidade, através da fotografia a preto e branco.

No final de Janeiro, o júri composto por Filipe Braga, artista e fotógrafo profissional na Fundação de Serralves, João Porfírio, fotojornalista do Observador, e Nuno Moreira, fotógrafo e director de arte português, fará a selecção das 15 melhores fotografias. Estas serão apresentadas em Fevereiro de 2027, numa exposição de duas semanas, na Da Vinci Gallery, no Porto. O anúncio do vencedor será feito durante um dos dias da exposição.

O primeiro classificado terá a oportunidade de viver uma experiência fotográfica exclusiva no Douro e em Vila Nova de Gaia, com acesso às propriedades da Symington e a diferentes perspetivas sobre a paisagem duriense. O segundo classificado receberá uma garrafa de Dow’s Vintage Port 1994 e o livro “100 Leica Stories”, enquanto o terceiro classificado será distinguido com um Dow’s Vintage Port 2003 e o livro “100 Leica Stories”. Os 20 fotógrafos selecionados para a shortlist terão ainda os seus trabalhos compilados num livro comemorativo deste concurso, criado como registo desta edição.

As candidaturas deverão ser realizadas através da página dedicada ao concurso (https://photography.dows-port.com/). Para mais informações, basta contactar dowsblackandwhite@symington.com.

QUINTA DOS FRADES: Postal ilustrado do Douro

Quinta dos Frades

A história da Quinta dos Frades funde-se com a própria história do Douro, tendo sido, desde logo, incluída nas Demarcações do Douro, realizadas entre 1757 e 1761, e levadas a cabo pela então Companhia da Agricultura dos Vinhos do Alto Douro. A quinta possui, inclusive, um marco Pombalino classificado como IIP (Imóvel de Interesse Público) […]

A história da Quinta dos Frades funde-se com a própria história do Douro, tendo sido, desde logo, incluída nas Demarcações do Douro, realizadas entre 1757 e 1761, e levadas a cabo pela então Companhia da Agricultura dos Vinhos do Alto Douro. A quinta possui, inclusive, um marco Pombalino classificado como IIP (Imóvel de Interesse Público) muito bem conservado. Está associada, ainda, com a afirmação da própria freguesia da Folgosa do Douro. Por isso, lhe chamaram, em tempos, a Quinta da Folgosa e, ainda hoje, os populares a designam de “universidade dos grandes homens da Folgosa”.

A propriedade está a caminho dos oito séculos de história. As origens remontam ao século XIII, aquando da sua doação aos monges do Mosteiro de Santa Maria de Salzedas, em 1256. Administrada durante séculos pelos monges, Jerónimo de Almeida Brandão e Souza, 1.º barão da Folgosa, arrematou-a em hasta pública em 1841. A Quinta dos Frades é, sem sombra de dúvida, uma das maiores e mais belas propriedades do Douro Vinhateiro. “A beleza é a única coisa preciosa na vida. É difícil encontrá-la, mas quem consegue descobre tudo”, disse um dia Charles Chaplin.

Em 1941, o Comendador Delfim Ferreira descobriu-a e logo não tardou em adquirir esta propriedade duriense. Foi um homem notável, um importante industrial e impulsionador da economia portuguesa no século XX, que investiu em fábricas têxteis e na produção de energia eléctrica, tendo fundado, inclusive, em 1953, a Hidro Eléctrica do Douro. Homem de visão, criou e deixou um imenso património, que incluía a icónica Casa de Serralves, no Porto, onde, aliás, vivia, e ordenou a construção do emblemático hotel Infante Sagres situado na cidade ‘Invicta’. Os descendentes continuaram a investir em várias áreas de negócio, sendo a mais notória a dos sabonetes de luxo, bem conhecida em todo o mundo, a Ach. Brito.

 

 

Quinta dos Frades
Diogo Lopes e Aquiles de Brito

 

20 hectares de vinha centenária

“Sempre que passava naquele troço da EN 222 o mais normal era virar-me para o pendura do dia e repetir-me: ‘Olha para esta propriedade incrível, a Quinta dos Frades. Um património de vinhas velhas brutal, quilómetros junto ao rio, exposições diversas, uma história incrível. Uma das grandes quintas do Douro. E um dia fazer vinhos aqui? Um sonho!’, confessa o enólogo Diogo Lopes. Em 2023, o sonho tornou-se realidade. “Conheço bem a Quinta dos Frades, onde o mestre Anselmo Mendes está há muitos anos. Acompanhei-o lá muitas vezes, nas suas incursões de trabalho e ficava deliciado com os vinhos que provávamos”, continua.

Diogo Lopes afirma que se trata “de uma das mais importantes e imponentes propriedades do Douro” e é conhecida “pelo seu potencial para fazer vinhos grandiosos. A fórmula vencedora é simples e única: detém um dos mais extensos patrimónios de vinha velha do Douro, com 20 hectares e mais de 100 anos”. Esta mancha específica é constituída por mais de 20 variedades tradicionais, originando field blends, expressão muito associada à viticultura duriense.

A presença da Touriga Francesa destaca-se nas vinhas velhas como a grande casta do Douro, adaptada tanto a vinhos de mesa, como a fortificados. Algumas das dezenas de variedades dominantes são Touriga Nacional, Tinta Roriz, Touriga Francesa, Tinta Branca, Tinta Amarela, Tinta Carvalha, Donzelinho e Rabigato. Já a exposição das vinhas, a nascente e a poente, é determinante para a obtenção de equilíbrio nos diferentes anos agrícolas, conferindo aos vinhos uma variedade de aromas, sabores e estrutura que garantem a singularidade da produção da Quinta dos Frades. Diogo Lopes acrescenta a relevância da “exposição Norte, os lagares tradicionais de granito, a frente de rio. Enfim, uma incrível classificação 100% vinhas de Letra A”.

“Com o convite da família proprietária para assumir a enologia, em parceria com Anselmo Mendes, concretiza-se, então, um sonho antigo, de acompanhar o meu grande mestre e integrar uma equipa e propriedade tão especial. E agora, mãos à obra, porque numa quinta com este percurso a responsabilidade é grande. É para continuar a fazer história”, afirma Diogo Lopes.

A aquisição da Quinta dos Frades resultou num processo de reabilitação, modernização de infraestruturas de produção e de lazer. A começar pela vinha, cujo método de plantação em declive livre substituiu as tradicionais vinhas em socalcos murados.

 

A Quinta do Castelo

Em 1941, o Comendador Delfim Ferreira adquiriu não só a Quinta dos Frades, mas também a Quinta do Castelo. Com uma forte reputação centenária, marcada pela actividade agrícola, em particular pela produção de vinhos e azeites, esta propriedade localizada em Santa Marta de Penaguião, na sub-região do Cima Corgo, tem 43 hectares, dos quais 35 estão ocupados por vinha, com um património de castas tradicionais durienses, brancas e tintas.

Evidencia um terroir de altitude e proporciona condições de maturação mais lenta, derivadas da amplitude térmica e da diversidade de exposições. Estes dois factores potenciam a expressão de vinhos marcados por elegância, frescura, precisão e grande equilíbrio. Conhecendo nós Anselmo Mendes e Diogo Lopes, óbvio se torna que, desde logo, a Quinta do Castelo foi, e tem vindo a ser, afinada, sobretudo para a produção de vinhos brancos, e alguns tintos, é certo, marcados pela pureza aromática e pela acidez natural.

No fundo, pretende-se um complemento aos vinhos da Quinta dos Frades, que se diferenciam pela estrutura, profundidade e complexidade, em expressão de um terroir marcado por field blends durienses de vinhas velhas e parcelas centenárias.

Quinta dos Frades

 

A Quinta dos Frades “detém um dos mais extensos patrimónios de vinha velha do Douro, com 20 hectares e mais de 100 anos”, afirma o enólogo Diogo Lopes

 

As granjas monásticas e o solar

E foram precisamente esse terroir, essas parcelas centenárias, essas vinhas velhas, esses declives acentuados, capazes de causar vertigem às gentes mais urbanas, que Aquiles de Brito, bisneto do fundador da Quinta dos Frades e responsável da família pelo negócio do vinho, e Diogo Lopes nos deram a conhecer num passeio pela propriedade.

Subimos até ao Marco Pombalino do século XVIII, a partir do qual pudemos desfrutar da vista deslumbrante sobre as vinhas e o Douro; subimos mais um pouco até ao mirante em forma de castelo, mandado construir pelo Barão de Folgosa. Passámos pelas matas plantadas pelos monges do Mosteiro de Salzedas – as granjas monásticas, como é o caso da Quinta dos Frades, possuíam todos os recursos para serem autossuficientes. Parámos na lindíssima Casa de Chá desenvolvida entre 1943 e 1945, de acordo com o projeto da autoria do arquitecto Rogério de Azevedo, e localizada num ponto estratégico da propriedade, proporcionando uma vista panorâmica sobre a paisagem e o rio em especial.

Seguimos caminho até ao jardim do solar projetado por Jacinto de Mattos, um dos maiores jardineiros paisagistas portugueses da primeira metade do século XX. Trata-se de um jardim ao estilo romântico italiano, que se apresenta a partir da escadaria de granito de acesso ao solar, com canteiros forrados a azulejos, bancos em granito, sebes de buxo e esculturas de Soares dos Reis de finais do século XIX.

A referida escadaria em granito permite o acesso ao solar da Quinta dos Frades, o qual data de meados do século XIX e onde outrora esteve implantado o edifício habitacional destinado aos Monges de Salzedas.

Quinta dos Frades

 

São seis os novos vinhos que assinalam um dos momentos mais relevantes do percurso recente da propriedade

 

Sexteto de vinhos e de rótulos

Sob o tecto de madeira da sala, composta por mesa e cadeiras senhoriais, foi provado o que de novo foi feito, por dentro, e por fora da garrafa, que os olhos também bebem. O enfoque esteve na apresentação da nova imagem institucional e da nova gama de vinhos da Quinta dos Frades. Foram seis novos rótulos e seis novos vinhos já disponíveis no mercado, os quais assinalam um dos momentos mais relevantes do percurso recente da propriedade.

O lançamento marca a conclusão de um processo de renovação, que teve início em 2023, desencadeado pela família proprietária, com o objectivo de reforçar a identidade de uma das mais antigas quintas do Douro. Paralelamente, foi feito o reforço do posicionamento da marca através da reformulação da identidade visual, dos rótulos e da própria arquitectura da gama. Esta mudança coincidiu com a entrada de Diogo Lopes na liderança enológica da Quinta dos Frades. Ao mesmo tempo, a nova gama está desenhada para integrar e valorizar a Quinta do Castelo.

“A nova identidade surge como uma evolução em continuidade. O logótipo foi renovado, mantendo os símbolos históricos associados à propriedade – a cruz e a esfera armilar presentes no emblemático solar da Quinta dos Frades –, agora interpretados através de uma linguagem gráfica mais contemporânea, elegante e impactante. A nova tipografia serifada firma a ligação à história e ao património da propriedade. “No fundo, estamos a fazer o que sempre nos propusemos enquanto família: preservar o legado e preparar o futuro, honrando uma identidade e um património absolutamente únicos”, sublinha Aquiles de Brito.

A renovação da imagem estende-se igualmente à reorganização da gama, que abandona designações coexistentes com a marca principal, como Vinha dos Deuses e Vinha dos Santos, de modo a evidenciar o protagonismo da identidade Quinta dos Frades em todas as referências. A arquitectura da gama é alinhada, sobretudo, com a estratégia de valorização da marca-mãe e com o nome da propriedade, para criar maior consistência e afirmar notoriedade.

Além da marca principal, surge, agora, a linha Frades alinhada com a mesma identidade. Esta integra, por exemplo, o potencial de vinhos brancos provenientes da Quinta do Castelo, uma vez que na Quinta dos Frades a produção cinge-se exclusivamente nos vinhos tintos.

São seis os novos vinhos: Frades Colheita branco 2024, Frades Colheita tinto 2023, Frades Reserva branco 2024; Quinta dos Frades rosé 2024, Quinta dos Frades Reserva tinto 2021 e o Quinta dos Frades Vinhas Centenárias Grande Reserva tinto 2017.

“Com os vinhos Frades Colheita propomos uma abordagem a um Douro de maior frescura e elegância. Nesta referência, sem perder a identidade Frades, conseguimos potenciar, também, as melhores uvas brancas que produzimos na segunda propriedade da família, a Quinta do Castelo, no terroir de altitude de Santa Marta Penaguião. Todas as restantes referências potenciam as uvas tintas da Quinta dos Frades, em particular a expressão do património de vinhas velhas e vinhas centenárias, que se impõem com toda a autenticidade e todo o carácter. O nosso objectivo é conhecer e concretizar toda a riqueza destas vinhas, field blends de exposições diversas, com mais de 20 castas identificadas; um Douro genuíno, que construiu a reputação de vinhos de topo da Quinta dos Frades e que pode vir a dar-nos ainda mais referências de excelência”, resumiu Diogo Lopes.

Da minha parte, creio que a finalidade está mais do que conseguida. Falta agora iniciar ou, de certo modo, continuar melhor dizendo, todo aquele longo processo de consistência, ano após ano, colheita após colheita, junto do consumidor, para que este, toda e cada vez que abra uma garrafa de Quinta dos Frades, possa verdadeiramente sentir, desfrutar e saborear o terroir e identidade verdadeiramente únicos de que são feitos estes vinhos.

(Artigo publicado na edição de Setembro de 2026)

Alexandre Fortin é o Master of Port Canada 2026

Master of Port

O Master of Port Canada 2026, competição promovida pelo Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto. (IVDP), em parceria com a Canadian Association of Professional Sommeliers (CAPS), já tem um vencedor. Trata-se de Alexandre Fortin, do Quebec, e o anúncio foi feito em Calgary, cidade canadiana, dois dias após as provas dedicadas ao conhecimento […]

O Master of Port Canada 2026, competição promovida pelo Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto. (IVDP), em parceria com a Canadian Association of Professional Sommeliers (CAPS), já tem um vencedor. Trata-se de Alexandre Fortin, do Quebec, e o anúncio foi feito em Calgary, cidade canadiana, dois dias após as provas dedicadas ao conhecimento sobre a sua produção, à capacidade de análise sensorial e às competências de serviço.

Alexandre Fortin, Alexandra Allardyce, de Manitoba, e Nathan Hooper, de Ottawa, foram os três finalistas deste desafio, que teve início a 26 de Outubro. Já a semifinal reuniu cinco sommeliers seleccionados nas fases de qualificação: Alexandra Allardyce, Alexandre Fortin, Marc Smolinski, Nathan Hooper e Corinne Keddie. A avaliação esteve a cargo de um júri internacional constituído por quatro especialistas: Paulo Russell-Pinto, provador e formador do IVDP, Domer Rafael, antigo presidente nacional da CAPS e Head Sommelier do Manitoba Club, Tom Firth, jornalista especializado em vinhos, consultor e jurado de concursos internacionais, e Margaux Burgess, Co-Presidente da CAPS Alberta e especialista em formação e educação vínica.

Além da vertente competitiva, o programa incluiu uma masterclass e uma prova comentada de Vinhos do Porto, proporcionando aos participantes e convidados a oportunidade de aprofundar o conhecimento sobre a diversidade, o carácter e a versatilidade deste vinho.

“Através desta competição, o IVDP, IP reforça a sua aposta na formação e na valorização do conhecimento especializado, promovendo uma compreensão mais aprofundada das características distintivas do Vinho do Porto e contribuindo para consolidar a sua notoriedade no mercado canadiano”, declara, em comunicado, Gilberto Igrejas, Presidente do IVDP.

 

Bolsas de Estudo Barca-Velha

bolsas de estudo

A Casa Ferreirinha anunciou as vencedoras da edição de 2026 das Bolsas de Estudo Barca-Velha Golden Vines MW®, desenvolvidas em parceria com a Fundação Gérard Basset e a Liquid Icons. O cartaz é constituído por Christy Fuhrman, formadora de vinhos nos Estados Unidos, e Loreto Pancorbo, directora técnica, produtora e formadora em Espanha. Cada uma […]

A Casa Ferreirinha anunciou as vencedoras da edição de 2026 das Bolsas de Estudo Barca-Velha Golden Vines MW®, desenvolvidas em parceria com a Fundação Gérard Basset e a Liquid Icons. O cartaz é constituído por Christy Fuhrman, formadora de vinhos nos Estados Unidos, e Loreto Pancorbo, directora técnica, produtora e formadora em Espanha. Cada uma receberá um apoio financeiro de cerca de €40.000, complementado por um programa de mentoria, estágio e contacto direto com alguns dos mais reconhecidos produtores de vinho e espirituosos a nível mundial. O programa inclui ainda uma experiência de aprendizagem junto da Sogrape e da equipa técnica da Casa Ferreirinha, em Portugal.

A selecção de ambas foi efectuada por um júri internacional composto por algumas das personalidades mais respeitadas do sector do vinho, como Jancis Robinson OBE Master of Wine (MW), Nina Basset, hoteleira, restauradora e entusiasta de vinho, Richard Bampfield MW ou Neil Tully MW. António Graça, Director de I&D, e Joana Pais, Directora de Fine Wine, representaram a Sogrape.

“Na Casa Ferreirinha acreditamos que a excelência se constrói através do conhecimento, da dedicação e da vontade de partilhar o que aprendemos com os outros. A Christy e a Loreto representam estes valores, aliando a ambição pessoal a um compromisso genuíno com o desenvolvimento de futuras gerações de profissionais do vinho. É uma visão que também está presente no legado de Dona Antónia Adelaide Ferreira e que continua a inspirar a forma como olhamos para o futuro do sector”, afirma, em comunicado, Joana Pais.

Relembramos que a iniciativa apoia profissionais com talento excecional no percurso rumo ao título de Master of Wine, uma das qualificações mais exigentes e prestigiadas do sector vitivinícola.

ENOTURISMO: MONÇÃO E MELGAÇO

Monção e Melgaço

A sub-região de Monção e Melgaço não se oferece de imediato, nem se deixa compreender pela pressa. Exige tempo, silêncio e disponibilidade interior. Talvez porque tudo ali pareça nascer de uma negociação antiga entre forças contrárias: Alto Minho e Galiza, montanha e rio, granito e vinha, calor e frescura, memória e experimentação. Durante três dias, […]

A sub-região de Monção e Melgaço não se oferece de imediato, nem se deixa compreender pela pressa. Exige tempo, silêncio e disponibilidade interior. Talvez porque tudo ali pareça nascer de uma negociação antiga entre forças contrárias: Alto Minho e Galiza, montanha e rio, granito e vinha, calor e frescura, memória e experimentação.

Durante três dias, encetei um itinerário destinado à contemplação de um território divino, localizado no extremo norte da Região dos Vinhos Verdes, convicto que tinha sido bafejado pela sorte dos deuses. Aproveitei para usufruir do Open Cellars Edition, designação administrativa que pouco dizia sobre o que realmente tive o prazer de experienciar. Não foi apenas uma sucessão de visitas, provas e refeições. Foi uma aproximação lenta a uma paisagem que parece ter sido desenhada para produzir vinho e, ao mesmo tempo, reflexão.

Ao longo do caminho, houve queijos de cabra e vinhos de montanha, provas verticais e colheitas antigas, piqueniques entre vinhas, museus, ioga ao ar livre, jantares demorados e conversas com produtores que falaram sobre o vinho como quem fala de um filho, de uma herança ou de uma promessa. No final, tornou-se difícil separar o que vinha da terra do que vinha das pessoas.

 

A fronteira como princípio

À medida que me aproximava de Melgaço, o território adensava-se. As encostas tornavam-se mais presentes, a vegetação mais compacta e o verde multiplicava-se. O rio Minho corre nas proximidades, separando países e unindo modos de vida.

Durante séculos, a fronteira foi simultaneamente limite e passagem. Separou administrações, mas não impediu a circulação de pessoas, palavras, mercadorias, hábitos e afetos. Entre o Alto Minho e a Galiza, a identidade foi sempre mais fluida do que as linhas desenhadas nos mapas. Os segredos das pessoas amontoavam-se, na penumbra da noite, que, durante décadas, assistiram ao passar do rio, em silêncio, em permanente troca de produtos que faziam falta do lado de cá.

Monção e Melgaço cresceram nesse cenário de contacto. Ambas partilham a história que se cruza com a própria formação de Portugal, numa relação íntima com o rio Minho e a paisagem marcada pelo trabalho persistente das suas comunidades. O território foi sendo moldado pela agricultura, pelas pequenas propriedades, pelos caminhos rurais e pelas vinhas que se adaptaram às encostas, aos vales e aos solos de granito.

Mas a fronteira não é apenas geográfica. Também existe no vinho. Só de pensar que esta era uma região de vinhos tintos, ficamos naturalmente incrédulos, pois, hoje, é um território de brancos, graças a uma casta que despontou, para se tornar a rainha: a Alvarinho.

Em Monção e Melgaço, a Alvarinho não é simplesmente uma casta. É uma forma de interpretar o mundo, de sentir a terra, de respirar a pureza das vinhas, os aromas que exalam frescura. É uma variedade que, aqui, nasce de um ponto de tensão entre maturação e frescura. A montanha protege o vale dos ventos atlânticos mais intensos, enquanto os verões quentes e secos favorecem a concentração organolética da uva. As noites mais frescas ajudam a preservar a acidez. Essas condições são particularmente adequadas à casta, permitindo a produção de vinhos elegantes, complexos e com capacidade de envelhecimento. Mas já lá iremos, até porque a chegada ao The Vinea Collection Hotel marca o início formal da viagem, durante a qual as casas dispersas, os campos cultivados e as montanhas, que parecem vigiar o vale, desenham a paisagem. O quadro é idílico.

Monção e Melgaço
Queijaria Prados de Melgaço

A delicadeza das cabras felizes

Chegado ao destino, o roteiro começava com uma visita à Queijaria Prados de Melgaço. A experiência teve um nome desarmante: “Cabrinhas Felizes”. Há títulos que parecem concebidos para simplificar aquilo que é complexo. Este faz o contrário. Por detrás da leveza da expressão existe uma reflexão séria sobre o bem-estar animal, a produção artesanal, a identidade rural e a relação com o território. Afinal, as cabras não são uma atração decorativa. Fazem parte de um sistema. Alimentam-se, crescem e produzem leite numa paisagem específica, sob determinadas condições e integradas numa economia local que depende do conhecimento ao longo de várias gerações.

À mesa, os queijos de cabra eram apresentados em harmonização com vinhos das Quintas de Melgaço. O encontro revelava uma afinidade evidente: a acidez do vinho limpava a textura do queijo, a mineralidade encontrava os sabores mais terrosos e a frescura prolongava a intensidade láctea. Se mais não houvesse, este início de itinerário celestial já me tinha conquistado. Beber e comer, lado a lado, não é apenas uma questão de harmonização técnica. É uma forma de reconhecer que os produtos de um território raramente existem isoladamente. Conversam entre si, são moldados pelo mesmo clima e chegam à mesa através de comunidades que partilham ritmos semelhantes.

A gastronomia local não procura impressionar pela exuberância, mas sim pela precisão. Um queijo bem feito, um vinho servido à temperatura certa, pão, tempo e conversa constituem uma experiência mais profunda do que qualquer encenação.

 

A noite e arte da mesa

Ao anoitecer, a viagem prosseguiu rumo ao centro histórico de Melgaço. Destino: Adega Regional Sabino. Aqui, atravessamos uma porta que conduz a várias camadas de tempo. O presente senta-se à mesa com o passado, com a cozinha a preservar discretamente a memória e o vinho a manifestar-se um grande companheiro.

A história desta casa remonta a 1939, quando Maria José Saraiva e João António Marinho abriram uma pequena tasca. Décadas depois, o espaço tornou-se casa de pasto, servindo petiscos: cozido à portuguesa, sardinha assada, entre outros. Em 1993, após obras de remodelação e ampliação, Manuel Augusto de Castro, mais conhecido por Sabino, e Odete Amorim Costa deram um novo impulso ao restaurante, consolidando uma identidade dedicada à gastronomia tradicional do Alto Minho. Esta sucessão de vidas fica no limite entre quem recebe e quem chega, na ausência de cerimónias desnecessárias, no rumor das conversas e na convicção de que a comida deve alimentar antes de impressionar.

Na Adega do Sabino, a tradição não parecia exposta como peça de museu. Continua a ser cozinhada. À mesa chegavam entradas de porco Bísaro, símbolo da ruralidade e dos ritmos lentos de um território onde, durante muito tempo, quase nada era desperdiçado, o cabrito do monte reforçava a identidade de montanha, e o bacalhau servido com broa, um ‘fiel amigo’ que, apesar de vir de longe, faz parte da memória portuguesa com a intimidade das coisas que foram adotadas há séculos. Por encomenda, há pratos ligados ao ciclo das águas e das estações: lampreia, salmão e sável do rio Minho. Além do arroz de cabidela, ou “pica no chão”. Nas sobremesas, o bucho doce e a tacinha da casa prolongam uma refeição feita de reconhecimento e continuidade. A mesa criava um pequeno mundo provisório, dentro do qual os desconhecidos podem aproximar-se e as histórias encontram espaço para ser contadas.

Monção e Melgaço
Adega Sabino

Irreverência e a serenidade

Foi nessa atmosfera que a Adega do Sabino recebeu um dos jantares do itinerário por Monção e Melgaço. Os vinhos de Márcio Lopes e Dona Paterna acompanharam a cozinha da casa, construindo uma narrativa feita de sabores e conversas e colocando, frente a frente, duas maneiras de compreender o mesmo território, duas velocidades da tradição e duas gerações ligadas por laços familiares. De um lado, Márcio Lopes, o genro, com uma irreverência respeitosa, inquieta e experimental. Do outro, Carlos Alberto Codesso, da Dona Paterna, o sogro, com uma serenidade moderna inerente ao que o tempo já demonstrou.

Márcio Lopes representa a vontade de deslocar ligeiramente os limites sem romper com a origem. A sua irreverência nasce da curiosidade perante tudo aquilo que ela ainda pode oferecer. Há, nos seus vinhos, uma energia interrogativa. Que outras expressões pode assumir a casta Alvarinho? Que novas leituras podem surgir de vinhas antigas, parcelas específicas, técnicas menos convencionais ou tempos distintos de vindima e estágio? É uma irreverência respeitosa. Não procura o gesto gratuito nem a diferença pela diferença. Avança, porque estudou o caminho anterior. Experimenta, porque reconhece a força da matéria-prima e acredita que a identidade de um território não se fragiliza quando é questionada com inteligência. Pelo contrário, pode tornar-se mais nítida.

Por sua vez, Carlos Alberto Codesso ocupa outro lugar nesse diálogo. Na Dona Paterna, a tradição não surge como peso nem como nostalgia, mas como tranquilidade. É a confiança de quem sabe afirmar uma identidade. A sua modernidade manifesta-se na precisão, na consistência e na capacidade de fazer chegar ao presente uma herança sem a congelar. Há uma serenidade particular em quem trabalha a partir de referências sólidas, compreendendo que evoluir não significa necessariamente romper. Nos vinhos da Dona Paterna, a tradição parece ter encontrado uma forma contemporânea de respirar.

No final do jantar, a oposição inicial parecia dissolver-se. Havia duas formas legítimas de cuidar da mesma herança. A noite terminava sem conclusões definitivas. Se as “cabras” já me tinham conquistado, o vinho consolidou o meu pensamento: vou ser muito feliz.

Monção e Melgaço
Quinta de Soalheiro

Poético tempo em garrafa

Na manhã seguinte, a primeira paragem foi na Quinta do Louridal. Aqui o vinho começa numa encosta voltada para o rio Minho, entre solos graníticos, montanhas protetoras e vinhas dispostas em anfiteatro. Começa também numa memória familiar que atravessa séculos. Ali, em Melgaço, a Alvarinho assume uma forma poética. O nome da marca não é apenas uma escolha estética. Resume uma determinada maneira de produzir, familiar e profundamente ligada ao lugar.

A propriedade encontra-se na mesma família há várias gerações. Segundo a história divulgada na quinta, os antepassados trabalhavam, desde o século XVI, com a casta Alvarinho. Hoje, a sexta geração continua a atividade, dedicando cada colheita aos ascendentes. A paisagem não é apenas o lugar onde se produz o vinho. É um dos seus ingredientes.

Foi nesse cenário que a visita da Open Cellars Edition encontrou um dos momentos mais reveladores do itinerário, uma prova vertical do Poema Reserva. Colocar diferentes colheitas lado a lado permitiu observar não apenas a evolução do vinho, mas a passagem do tempo sobre o território. Numa prova vertical, cada copo documentava o respetivo ano de colheita e as suas consequências – a influência da chuva e do calor, a maturação das uvas e as decisões tomadas na vinha e na adega. A identidade mantém-se, mas nunca se repete por inteiro. Havia colheitas mais tensas, com a fruta a elevar-se, a par com a energia própria dos vinhos mais jovens, enquanto noutras a mineralidade ou a textura ocupavam o centro da narrativa. Conclusão? A Alvarinho de Monção e Melgaço não precisa de viver apenas da juventude. O Poema Reserva parecia justificar o nome, já que cada ano representava um verso escrito em condições diferentes traduzidas numa obra mais ampla.

Em suma, a Alvarinho de Monção e Melgaço demonstrava capacidade de se transformar e ganhar complexidade. Envelhecer bem não significa apenas resistir ao tempo, significa saber dialogar com ele. E um território não se define porque produz sempre o mesmo vinho. Define-se porque, mesmo variando, continua reconhecível.

Monção e Melgaço
Quinta de Soalheiro

Laboratório de tradição

O itinerário avançou para a Quinta de Soalheiro. A prova foi dedicada às interpretações mais experimentais da casa, num percurso em que cada vinho parecia testar uma nova possibilidade. Mais do que apresentar um conjunto de referências, a experiência revelava um método de trabalho assente na curiosidade – observar a vinha, identificar diferenças e perceber até onde a mesma casta pode ser conduzida sem perder a ligação ao lugar.

Inovação tornou-se uma das palavras mais repetidas. Serviu para descrever processos, tecnologias e produtos. No vinho, porém, inovar não significa necessariamente substituir o que existe por algo mais vistoso ou inesperado. Pode significar observar nova e aprofundadamente para aquilo que se julgava conhecido.

Na Quinta de Soalheiro, a tradição não surgia como uma fronteira destinada a impedir o avanço, funcionava como um território de investigação. O conhecimento acumulado ao longo dos anos permitia experimentar com maior precisão. Altitude, orientação das parcelas, composição dos solos, momento da vindima, fermentações e estágio tornavam-se instrumentos, para revelar diferentes identidades dentro da mesma uva.

A Alvarinho, tantas vezes apresentada como uma assinatura regional facilmente reconhecível, desdobrava-se em várias vozes. Podia mostrar tensão ou volume, contenção ou exuberância, juventude imediata ou vocação para permanecer em garrafa. A unidade não desaparecia, mas deixava de ser uniforme. A questão era descobrir quantas Alvarinhos podem existir dentro do mesmo território.

Essa inquietação constitui uma das forças da Quinta de Soalheiro. A experiência não procurava contrariar a história da região, mas ampliar o seu vocabulário. Cada ensaio parecia partir de um princípio simples: uma tradição que deixa de fazer perguntas corre o risco de se transformar numa fórmula.

A verdadeira inovação começa, por isso, antes da adega. Nasce da leitura das parcelas, da atenção às variações do clima e da consciência de que uma vinha nunca responde exatamente da mesma maneira. O produtor não impõe apenas uma ideia à matéria-prima, procura compreender o que cada lugar está disponível para oferecer.

O piquenique interrompeu o ritmo analítico da prova. Depois dos copos observados com concentração, das comparações e das explicações técnicas, o vinho regressou ao espaço para o qual, em última instância, sempre foi feito, a mesa. Ao ar livre, desaparecia parte do cerimonial associado à degustação. Essa mudança não diminuía a experiência, tornava-a mais completa. Entre as vinhas, o vinho recuperava a sua dimensão territorial. O que estava dentro do copo podia ser reconhecido na inclinação das encostas, na vegetação, no movimento do ar, na luz variável e na sucessão de relevos que define Monção e Melgaço. O piquenique mostrava também que um vinho experimental pode ser rigorosamente pensado e, ainda assim, cumprir a missão de acompanhar uma refeição e aproximar pessoas.

Talvez tenha sido esse o contraste mais revelador da visita. Na prova, os vinhos surgiam como resultado de pesquisa, decisões e riscos calculados. À mesa, tornavam-se naturais, quase inevitáveis. O trabalho desaparecia atrás da fluidez da experiência.

A passagem pela Quinta de Soalheiro revelou, assim, uma casa onde o património vitivinícola da região é assumido como ponto de partida para avançar sem apagar as pegadas do caminho. A tradição oferece a memória necessária para saber de onde se parte. A experimentação permite imaginar outros destinos.

Monção e Melgaço
Restaurante Monte da Mina

A vila construída pelo vinho

O centro histórico de Monção também passou a protagonista deste roteiro, com a visita ao Museu do Alvarinho e pelo Museu Monção e Memória, espaço de interpretação da história da sub-região e do papel do vinho na construção da identidade local, e de oferta de outra perspetiva. Mostrou que o vinho não é apenas agricultura nem apenas bebida. É economia, símbolo, património e linguagem coletiva.

Ao longo do tempo, a Alvarinho ajudou a organizar a paisagem, definiu ciclos de trabalho, influenciou relações comerciais e projetou o nome de Monção para além das suas muralhas. Tornou-se parte da forma como a comunidade se reconhece e se apresenta.

Nos espaços museológicos, os objetos ganhavam uma densidade particular. Ferramentas agrícolas e demais objetos, documentos e imagens antigas recordavam que a realidade, hoje associada ao enoturismo, à excelência e ao prestígio comercial, nasceu de trabalho físico, repetitivo e frequentemente anónimo. Antes de o vinho ser servido em copos finos, foi transportado em cestos, pisado, prensado, guardado, negociado e defendido. Antes de se tornar narrativa, foi sobrevivência. Essa memória impede que seja reduzido a um produto de luxo desligado da terra. Mesmo nas suas expressões mais sofisticadas, permanece ligado ao esforço de quem podou no inverno, tratou a vinha na primavera, esperou durante o verão e vindimou quando chegou o momento. A história do vinho é também a história de corpos inclinados sobre a terra, de mãos marcadas, de ombros carregados, de gerações que trabalharam sem saber que, um dia, os visitantes percorreriam estas paisagens em busca de autenticidade. E esta, porém, não é um adereço turístico. É o rasto deixado pelo tempo.

 

Ioga entre vinhas

Na Quinta de Santiago, o itinerário abandonou por instantes a linguagem habitual do vinho. Antes dos copos, das colheitas e das explicações técnicas, houve uma sessão de ioga entre vinhas. A proposta poderia ter parecido apenas mais uma experiência desenhada para responder às novas tendências do enoturismo. No entanto, naquele momento do percurso, adquiriu outra densidade. Depois de dois dias a observar a paisagem, a provar vinhos, a registar imagens e a ouvir produtores, faltava conhecer o território através do corpo. Entre as videiras, o ritmo alterou-se. A respiração tornou-se mais consciente, os movimentos abrandaram e a atenção afastou-se da sucessão de estímulos que acompanha qualquer viagem, o chão deixou de ser apenas superfície, o ar ganhou temperatura, as folhas fizeram-se ouvir, a paisagem, até então contemplada como cenário, começou a ser percebida como presença.

O silêncio não era absoluto. Havia vento, aves, insetos e o ruído discreto da vegetação. Mas esses sons já não competiam entre si, formavam uma composição lenta, capaz de devolver ao lugar uma dimensão que as palavras, por vezes, não alcançam.

Terminada a sessão, a prova vertical de Sou ganhou uma leitura inesperada. O nome parecia ultrapassar a identidade comercial do vinho e transformar-se numa afirmação mais ampla. “Sou” remetia para origem, presença e reconhecimento. Diferentes colheitas permitiam acompanhar a passagem dos anos sobre uma mesma identidade. O vinho conservava uma linha de continuidade, mas nunca se repete por inteiro. Cada vindima transportava as condições de um ciclo, as decisões tomadas na vinha e na adega e a transformação ocorrida dentro da garrafa.

Se o “Sou” colocava em cena a permanência, “Rascunho” introduzia a possibilidade. Provar um vinho em primeur é como entrar numa narrativa antes da revisão final. O vinho ainda não tinha chegado à forma com que será apresentado ao mundo. Conservava arestas, movimentos e direções que podiam vir a acentuar-se ou a desaparecer. O nome “Rascunho” traduzia com precisão esse estado intermédio, uma obra em construção. A prova em primeur também contrariava a ideia de que o valor depende sempre de uma forma definitiva. Num setor que procura apresentar garrafas irrepreensíveis, identidades facilmente reconhecíveis, mostrar um vinho ainda em desenvolvimento é admitir que a criação inclui dúvida.

Na Quinta de Santiago, a sequência da experiência revelou uma coerência discreta. O momento dedicado ao ioga preparou o corpo para a atenção, o “Sou” falou de identidade e continuidade, e o “Rascunho” abriu espaço à transformação.

Monção e Melgaço
Quinta da Torre

Capacidade gastronómica no prato e no copo

O segundo dia terminou no restaurante Monte da Mina, com um jantar harmonizado por vinhos da Quinta das Pereirinhas, onde a mesa assumiu uma função maior do que a de encerrar o programa, tornou-se o lugar onde todas as experiências do dia encontraram sentido. O restaurante revelou-se à altura desse momento. Na cozinha, havia rigor sem ostentação, técnica sem excesso e uma leitura segura dos sabores do território. Cada prato chegava com identidade própria, deixando espaço para o vinho respirar.

Os vinhos da Quinta das Pereirinhas apresentaram-se com clareza, elegância e consistência. Havia neles frescura, estrutura e uma definição que permitia acompanhar a refeição sem se apagar diante dos pratos. Em vez de funcionarem como simples complemento, participavam ativamente na construção do jantar, prolongando sabores, criando contrastes e abrindo novas leituras a cada serviço.

À volta da mesa reuniram-se produtores, técnicos, comunicadores e anfitriões. Cada um observava o vinho a partir de um lugar diferente. Para uns, tudo começava na vinha. Para outros, na adega, na garrafa, na comunicação ou no serviço. Havia quem pensasse no clima, quem falasse de mercado e quem reparasse apenas no instante exato em que um vinho encontrava o prato certo. Mas, naquela noite, toda esta comunidade se tornou visível.

Esse é um dos sinais de excelência de uma casa, como o Monte da Mina: saber que a experiência não depende apenas da qualidade isolada de cada elemento, mas da forma como todos se relacionam. Os vinhos da Quinta das Pereirinhas beneficiaram desse cuidado, mas também o justificaram. Mostraram equilíbrio, personalidade e capacidade gastronómica. Eram vinhos que não procuravam dominar a refeição, mas também não aceitavam ficar em segundo plano. Entravam neste diálogo com segurança, preservando as origens. Primeiro, observados. Depois, comparados. Mais tarde, partilhados. A análise técnica dava lugar à conversa, e a conversa tornava-se cada vez menos técnica. Davam voz à vinha e os convidados completavam o circuito ao provar, comentar e guardar memória. Tudo convergia para o copo. No final, sobravam pratos vazios, garrafas abertas e conversas que ainda não tinham encontrado um ponto de conclusão. Era sinal de que o jantar tinha cumprido a sua função.

 

Geografia em estado líquido

Na manhã do terceiro dia, a Quinta do Hospital, da Falua, surgiu como a abertura do último capítulo do itinerário. A paisagem já não era apenas observada, começava a ser reconhecida, e também o vinho deixara de ser recebido como uma sucessão de novidades.

Nos primeiros momentos da viagem, cada copo valia sobretudo por si. Era uma descoberta autónoma, ligada a um produtor, a uma parcela, a uma opção de adega. À medida que o percurso avançava, essa leitura isolada tornava-se impossível. Os vinhos começavam a formar relações entre si, como páginas de uma mesma narrativa territorial. Uma textura evocava uma colheita mais antiga, uma acidez mais firme parecia trazer consigo a frescura de uma encosta. Notas minerais faziam regressar o granito observado ao longo da estrada. O território, antes exterior ao copo, passava a existir dentro dele.

Conhecer uma região vitivinícola é construir, lentamente, uma espécie de arquivo sensorial. Esse arquivo organiza-se por associações, impressões e permanências. Um vinho pode chamar outro à memória precisamente por revelam diferenças. A prova deixa de ser um instante fechado, tornando-se um processo acumulativo.

Na Quinta do Hospital, essa aprendizagem tornou-se particularmente evidente. A visita permitiu perceber que Monção e Melgaço possui uma identidade forte. A origem comum não apaga as variações internas, torna-as mais interessantes. Mudam a altitude, a exposição solar, a proximidade do rio, a circulação do vento e a composição dos solos, mudam também as decisões humanas: o momento da vindima, o modo de prensagem, a fermentação, o estágio e o tempo concedido ao vinho antes de chegar à garrafa.

É nessa combinação entre natureza e interpretação que uma região se torna verdadeiramente legível. O território fornece a matéria, mas não escreve sozinho, precisa do olhar de quem cultiva, da experiência de quem decide e da sensibilidade de quem transforma a uva sem lhe retirar a origem. E uma garrafa não guarda o passado de forma imóvel, reorganiza-o ao longo do tempo. Na Quinta do Hospital, os copos mostravam que a identidade de Monção e Melgaço não depende da repetição de um modelo. Reconhece-se antes numa energia que atravessa expressões distintas. Há vinhos mais diretos e outros mais reservados, alguns de leitura imediata e outros que exigem tempo. Todos, porém, pertencem a uma única geografia.

Monção e Melgaço
Adega Sabino

Em prol do envelhecimento

A Quinta da Torre marcou a última grande paragem do itinerário. Ligada ao produtor Anselmo Mendes, traduziu-se num encontro centrado com o que o vinho consegue fazer com o passado. Envelhecimento foi, portanto, o tema. Abrir uma garrafa com vários anos continua a ser um gesto de expectativa. Por mais conhecimento que exista sobre a origem, a colheita ou o modo como o vinho foi guardado, há sempre uma margem de incerteza. A rolha é retirada, o vinho chega ao copo e o tempo, finalmente, mostra o resultado do seu trabalho. Porém, nem todas as garrafas envelhecem da mesma forma. Algumas ganham profundidade, umas aproximam-se do silêncio, outras encontram uma nova voz.

Um vinho antigo não é apenas um resistente, é uma matéria transformada. A fruta mais imediata recua, os aromas tornam-se menos óbvios e a textura pode adquirir outra gravidade. Surgem notas de cera, ervas secas, especiarias, frutos secos ou mel. A acidez, quando permanece firme, sustenta o conjunto e impede que o vinho se entregue ao cansaço. Provar colheitas antigas de Alvarinho era confrontar uma perceção ainda demasiado comum, a de que a casta deve ser lida sobretudo pela juventude, pela fruta e pela frescura imediata. Não nos esqueçamos de que estamos no território de Anselmo Mendes, o ‘Senhor Alvarinho’, que leva muito a sério o trabalho na vinha. O rigor é o seu mote no que a esta casta diz respeito e com a qual tudo é possível fazer, desde que seja feito com respeito.

A prova não celebrava a idade por si só. Uma garrafa antiga não é automaticamente uma grande garrafa. O valor estava na forma como alguns vinhos atravessaram os anos sem perder identidade. Envelhecer bem, naquele contexto, significava transformar-se sem desaparecer.

Vivemos cercados por produtos e imagens pensados para causar impacto no primeiro contacto. Contudo, o vinho envelhecido exige o oposto, não se explica depressa. Pede atenção, silêncio e disponibilidade. Obriga a abandonar a expectativa de aromas evidentes e a aceitar que a complexidade pode chegar por camadas. Por isso, a mesa da Quinta da Torre adquiriu um significado particular. O almoço prolongava a prova e retirava-lhe qualquer rigidez excessiva. Os vinhos deixavam de ser apenas objetos de análise e passavam a acompanhar a comida, a conversa e o ritmo natural da refeição.

A Quinta da Torre ofereceu, assim, uma das imagens mais completas de todo o percurso. De um lado, a paisagem e a origem. Do outro, a passagem dos anos. Entre ambas, o trabalho humano, a decisão de vindimar, vinificar, guardar e esperar. Implica resistir à pressa comercial, aceitar a imobilização de garrafas e confiar que o tempo acrescentará mais do que retira. Nem sempre é assim, mas, quando acontece, o resultado ultrapassa a simples conservação.

Após três dias entre vinhas, produtores, refeições e diferentes interpretações da casta Alvarinho, as colheitas antigas funcionavam como uma espécie de síntese. Tudo o que tinha sido observado regressava ali sob outra forma. A paisagem surgia convertida em aroma, a acidez recordava as noites frescas, a textura falava da maturação. Na realidade, as diferenças entre os anos mostravam que um território nunca se repete.

Fui profundamente feliz… voltarei.

(Artigo publicado na edição de Setembro de 2026)

ADEGAS COOPERATIVAS: Tintos de topo em ascensão

Adegas Cooperativas

Cooperar é uma boa ideia. Mesmo os biólogos, seguindo as ideias de Darwin sobre a selecção natural e a competição, com o propósito de perpetuar os próprios genes, não deixam de enfatizar que muitas espécies passam 1% do seu tempo nessa competição, enquanto os outros 99% servem para assegurar colectivamente a segurança e o alimento […]

Cooperar é uma boa ideia. Mesmo os biólogos, seguindo as ideias de Darwin sobre a selecção natural e a competição, com o propósito de perpetuar os próprios genes, não deixam de enfatizar que muitas espécies passam 1% do seu tempo nessa competição, enquanto os outros 99% servem para assegurar colectivamente a segurança e o alimento do grupo. Cooperar significa que o grupo no seu conjunto é mais forte do que os seus indivíduos separados ou somados. Significa que em conjunto se podem assegurar recursos que podem ser usados pelo grupo, mas que cada um dos membros dificilmente conseguiria adquirir sozinho. Um exemplo simples: uma linha de engarrafamento privada só se justifica para um produtor que faça pelo menos 300 000 garrafas de vinho anualmente. Verifique na caixa abaixo a dimensão média dos viticultores, para perceber que esse é um número muito longínquo.

Desde sempre, os grupos cooperaram. Cooperar não é uma ideia de esquerda nem de direita. É apenas uma boa ideia. Uma ideia inevitável. No mundo do vinho, a primeira cooperativa registada é a Adega Regional de Colares, fundada em 1931. Em Colares, a ideia foi mais além do que unir forças, embora a especificidade do sítio bem o exigisse. Micro-terroirs e nano-produções tornavam imperativa a cooperação. Ninguém consegue fazer vinho de forma competente a partir de 15 quilos de uvas, e ainda hoje, passados quase 100 anos, é essa a quantidade que alguns produtores entregam. A adega teve, com base na lei, o direito a recolher toda a produção da DOC (antes de se designar DOC) e o dever de assegurar todas as obrigações ligadas à manutenção dos cânones ancestrais: Ramisco/Malvasia, pé-franco, chão de areia. Só assim os vinhos de Colares sobreviveram até ao presente, quando, a pouco e pouco, voltam a estar na moda, ao mesmo tempo que a sua qualidade, apoiada pela competência e sabedoria que a adega soube manter, vai melhorando a olhos vistos.

Porém, nem todas as cooperativas desempenharam este papel. Muitas outras, espalhadas por grande parte do país vitícola, foram fundadas na década de 1950. Eu mesmo, diga-se de passagem, nasci em frente a uma adega cooperativa, a das Cortes (Leiria), e lembro-me bem de ficar à janela a ver chegar as uvas, ou de acompanhar os trabalhos de recepção, há muitos, muitos anos. Entretanto, fechou e já foi demolida. Fechou, porque, à semelhança de outras cooperativas, entraram em crise. À medida que o mundo português do vinho se modernizava e melhorava em todos os capítulos, muitas adegas foram ficando para trás. Cada uma terá a sua história, no entanto acredito que a tentação dos proprietários de vinhas desenvolverem as suas próprias marcas tirou muitas uvas de qualidade das adegas. Alguns dos cooperantes passaram a guardar as melhores uvas, escoando o resto da produção para a cooperativa. Com as piores massas vínicas à disposição, e com maiores dificuldades de gestão e competição na contratação de pessoal qualificado, fazer bons vinhos tornou-se uma missão mais árdua.

 

Muitas vezes, são vinhos de excelente relação qualidade/preço, perfeitos para pedir num restaurante

 

Entrada em cena

A boa ideia continuou boa e algumas adegas mantiveram a chama acesa. Muitas cooperativas estão, agora, a festejar o 75º aniversário, uma idade bem bonita. Recordemos o Baron Philippe de Rothschild, o único que conseguiu promover um château da classificação de 1855 de deuxième cru para premier cru, com o seu Mouton-Rothschild, promovido em 1973 (aliás, péssima colheita, mas muito procurada, graças ao rótulo do Picasso); ele disse: “o mais difícil são os primeiros 100 anos.” As cooperativas estão a chegar lá. Portanto, está na altura de estar sob a ribalta.

Em palco, estiveram algumas das melhores. Quem segue os prémios anuais da Revista Grandes Escolhas sabe bem quais são. Participei muitas vezes nas reuniões onde esses prémios eram decididos e sei bem que a escolha rodeava, na maioria das vezes, as mesmas candidatas. Contudo, há alguns anos, o cenário mudou. Começaram a aparecer outras cooperativas a trabalhar muito bem e a entregar vinhos de grande qualidade, em todos os segmentos de preço. Os prémios começaram a diversificar. E ainda bem.

Exemplo das primeiras? A Adega Cooperativa de Borba, constantemente na vanguarda. Segundo Óscar Gato, administrador responsável pela enologia, poderiam ter enviado qualquer um de seis vinhos para esta prova de tintos topos de gama. Exemplo das segundas: Adega Cooperativa de São Mamede da Ventosa. Trata-se do maior produtor de vinho do país, com cerca de 20 milhões de litros anuais, e que continua a focar-se no granel. Todavia, desde 2022, sob a batuta da direcção de Nuno Silva, transformou-se. Já vende cinco milhões de litros embalados e tem planos para aumentar a quota. Além disso, a enologia de António Ventura assegura a qualidade de topo, com vinhos ambiciosos e bem definidos.

Esta prova que concebi e executei tem um pressuposto que pretendi demonstrar. Não vamos tapar o sol com a peneira, pois estas adegas mantêm o estigma: se é de cooperativa, o vinho não pode ser bom. Mas urge ultrapassá-lo. Ora, sempre vi qualidade em crescendo nos vinhos produzidos nestas cooperativas, em particular nos seus topos de gama, graças, também, ao facto de terem uma quantidade enorme de massas vínicas à disposição. Muitas vezes, são vinhos de excelente relação qualidade/preço, perfeitos para pedir num restaurante, onde o markup nos afasta dos rótulos da moda. Sejamos nós consumidores a definir o rumo do mercado.

Números

A dimensão das cooperativas em número de associados activos e total de hectares de vinha controlados:

Adega Regional de Colares:12 associados • 14 hectares

Adega Cooperativa de Borba: 220 associados • 2200 hectares

Adega Cooperativa de Cantanhede: 600 associados • 1000 hectares

Adega Cooperativa do Cartaxo: 160 associados • 820 hectares

Adega Cooperativa de Dois Portos: 100 associados • 420 hectares

Adega Cooperativa de Mangualde: 240 associados • 270 hectares

Adega Cooperativa de Penalva do Castelo: 1000 associados • 1200 hectares

Adega Cooperativa de Santo Isidro de Pegões: 100 associados • 1000 hectares

Adega Cooperativa de São Mamede da Ventosa: 400 associados • 1800 hectares

Adega Cooperativa de Silgueiros: 500 associados • 600 hectares

Adega Cooperativa da Vidigueira, Cuba e Alvito: 236 associados • 1200 hectares

CARMIM: 400 associados • 3000 hectares

 

(Artigo publicado na edição de Setembro de 2026)