A herança de Michel Rolland: entre o vinho limpo e o palato globalizado

Michel Rolland

Michel Rolland (1947-2026) Foi, sem sombra de dúvida, o grande arquiteto da enologia contemporânea, o homem que dividiu o mundo do vinho em duas fações de contornos quase religiosos. De um lado, os acérrimos defensores que o percecionaram como o salvador iluminado portador da higiene às trevas das adegas sujas. Do outro, os detratores que […]

Michel Rolland (1947-2026)

Foi, sem sombra de dúvida, o grande arquiteto da enologia contemporânea, o homem que dividiu o mundo do vinho em duas fações de contornos quase religiosos. De um lado, os acérrimos defensores que o percecionaram como o salvador iluminado portador da higiene às trevas das adegas sujas. Do outro, os detratores que o diabolizaram como o grande destruidor da alma do “terroir” e o mercenário da padronização.

Hoje, afastados do calor das paixões mais imediatas que marcaram o início do milénio, torna-se imperativo separar o homem da sua caricatura pública e a ciência enológica do panfleto ideológico.

O homem e a lente

Para dissecarmos o “fenómeno Rolland”, somos obrigados a recuar ao abalo provocado por Mondovino, lançado em 2004. Realizado pelo luso-americano Jonathan Nossiter com uma câmara numa mão trémula. Este filme, nomeado para a Palma de Ouro, abalou as fundações da indústria. Mas sejamos claros, a película tratou-se de um manifesto cinematográfico e de um panfleto ideológico quase visceral contra a globalização cultural, usando o vinho como metáfora.

A lente cirúrgica do realizador transformou o consultor no “Darth Vader” da enologia. Rolland raramente pisa a terra no filme e é cinematografado, quase em exclusivo, no banco de trás de um carro com motorista, rindo e fumando charutos enquanto salta de propriedade em propriedade, consolidando a imagem do burocrata mercenário. A sua ordem repetida por telemóvel para “micro-oxigenar” os vinhos tornou-se o símbolo da manipulação laboratorial. A sua arrogância imperial ficou selada quando desvalorizou os críticos com sorrisos condescendentes.

Nossiter teve o mérito de iniciar um debate sobre a perda de tipicidade, mas a sua obra pecou por omissão. A realidade que o filme escondeu é que o vinho tradicional europeu estava frequentemente minado por defeitos bacterianos e outros praticamente intoleráveis nos dias de hoje: a acidez agressiva, os taninos verdes e a temível brettanomyces (que se traduz num odor a estábulo). Na altura eram romanticamente indulgenciados como produtos do “caráter local”. Rolland não inventou uma “fórmula do mal”, mas erradicou estes defeitos, trazendo higiene e ciência às adegas que viviam ancoradas no romantismo de vinhos difíceis. Técnicas diabolizadas, como a micro-oxigenação, salvaram muitos produtores da falência em anos desastrosos.

O A-B-C de Peynaud

Para compreender Michel Rolland, temos de ler a cartilha do seu professor, Émile Peynaud, o verdadeiro “pai” da enologia moderna. Se Peynaud foi o profeta que separou a idade média da idade moderna no vinho, provando que as uvas precisavam de estar fenolicamente maduras e desmistificando a fermentação malolática, Rolland foi o seu mensageiro global. Este assimilou a lição de Peynaud e transformou-a no princípio basilar dos vinhos redondos e agradáveis tornando-a na sua inconfundível assinatura enológica e estilística.

Na Argentina, Rolland encontrou a sua tela em branco. Livre das leis europeias e de adegas infetadas, construiu uma verdadeira utopia enológica, em Mendoza com o projeto “Clos de los Siete”, iniciado no final da década de 1990. Dispondo de 850 hectares a grande altitude, que garantiam uma maturação fenólica perfeita, construiu adegas quase à imagem de blocos operatórios, com higiene imaculada e controlo térmico milimétrico.

Misturou a rústica casta Malbec argentina com a Merlot, Cabernet Sauvignon, Syrah e Petit Verdot. O resultado foi um verdadeiro fenómeno global de vendas ao apresentar um vinho polido e sem arestas, que os detratores acusaram de ter “sotaque argentino, mas que falava francês”.

A “Parkerização” e a guerra em Portugal

Seria ingénuo aplaudir Rolland sem escrutinar a sua hegemonia. No livro de 2012, “Le Gourou du Vin”, Rolland descarta a acusação de padronização, ignorando o seu vínculo estilístico e enológico com o crítico Robert Parker.

Este ditava os preços globais através do seu sistema de pontuação, premiando vinhos opulentos e fortemente amadeirados. Rolland desenhou exatamente esse perfil para os produtores que precisavam dessas notas. Ao forçar a sobrematuração e ao usar proporções massivas de barricas de carvalho novo francês mascarou a tipicidade sob camadas de baunilha, café e tosta.

O resultado foi a “Parkerização”, na qual os vinhos, de vindimas tardias e baixa acidez do Novo Mundo, sabiam exatamente ao mesmo das de um produtor europeu. A sua obstinação dogmática revelou-se ainda no ataque feroz ao movimento dos vinhos naturais, rotulando-os de instáveis resultado de pura incompetência mascarada de marketing.

Em Portugal, a sua intervenção também se manifestou em várias regiões, mas foi no Alentejo, no final da década de 1990 e início de 2000, que ela foi mais cirúrgica.

Rolland prestou consultoria à Fundação Eugénio de Almeida e em especial na referência Pêra Manca. A sua chegada gerou uma verdadeira guerra civil entre críticos “Rollandistas” fascinados pela modernidade e puristas aterrorizados com a descaracterização de um símbolo pátrio.

O legado de um enólogo mitológico

Michel Rolland foi um técnico dotado com uma fé cega de que a ciência corrigiria a natureza. A sua influência saturou o mercado com vinhos pesados e exaustivos. No entanto, temos de reconhecer que ele limpou o mundo vitivinícola, retirando as adegas do quase obscurantismo medieval. O nosso copo, hoje, é indiscutivelmente mais limpo e sedoso por causa das suas premissas enológicas. No entanto, à custa das suas extrações e excessos de madeira, aprendemos que o verdadeiro fascínio do vinho reside muitas vezes na sua imperfeição regional, no bater de coração irregular de um “terroir” que recusa submeter-se à ditadura da perfeição globalizada.

Michel Rolland partiu, mas as suas lições, os seus gloriosos acertos e os seus dolorosos erros, continuarão a definir as vindimas das próximas gerações.

P.P.

 

ALGARVE: Um mundo à parte

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Os três dias passados no Algarve em visitas aos produtores, em provas de vinhos e conversas com enólogos e com a Presidente da Comissão Vitivinícola do Algarve (CVA), Sara Silva, foram bastante elucidativos. Confirmou-se a sensação que tinha acerca de uma eventual grande mudança, uma (r)evolução em curso que deixa de ser silenciosa e passa a ser evidente no território […]

Os três dias passados no Algarve em visitas aos produtores, em provas de vinhos e conversas com enólogos e com a Presidente da Comissão Vitivinícola do Algarve (CVA), Sara Silva, foram bastante elucidativos. Confirmou-se a sensação que tinha acerca de uma eventual grande mudança, uma (r)evolução em curso que deixa de ser silenciosa e passa a ser evidente no território mais a sul do país.

Esta região, quente e árida, que no imaginário colectivo português pouco está associada a vinhos a sério, tem uma característica que mais nenhuma região do nosso país tem: o mercado à porta. O mercado que não se importa de pagar o preço bem mais alto do que no resto de Portugal, sem esmagar as margens aos produtores, como por hábito acontece na exportação. Por isso, hoje, como nunca, o Algarve atrai investimento na área vitivinícola. Já para não falar que cerca de 70% do vinho do Algarve se vende na região.

Em 2016 havia 30 agentes económicos registados na CVA e, numa década, esse número duplicou. O tecido empresarial é muito diverso, desde produtores algarvios que sempre estiveram por cá; um grande núcleo de produtores estrangeiros (o equivalente a 40%), alguns com o foco em potenciar o negócio, outros porque querem ter a sua vinha no quintal; e até grandes empresas que trouxeram o know how de outros regiões do país e uma visão estratégica, como é o caso da Aveleda e da Casa Santos Lima. E há espaço para todos.

 

Enoturismo e restauração

Eis dois grandes pilares de comercialização e promoção dos vinhos no Algarve. A maior parte dos projectos vitivinícolas na região já nascem com enoturismo pensado de raiz. Naturalmente, mais vocacionado para o público estrangeiro. O turista português não vai ao Algarve para provar vinhos, vai pelas praias e numa de relaxar. O estrangeiro quer tudo o que este território português banhado pelo sol oferece, vinho incluído.

O mercado dita as regras do jogo: há uma procura muito forte por brancos frescos, rosés de qualidade e espumantes. O turista do Algarve está acostumado ao Sauvignon Blanc e ao rosé francês. Este vende-se pela cor. Portanto, quanto mais clarinho, melhor. E a proximidade do mercado, quer com o consumidor final, quer com a restauração e agentes de enoturismo, faz com que o feedback recebido pelo produtor seja directo e quase imediato, o que lhe permite ir adaptando o seu portefólio.

Segundo Sara Silva, dos vinhos produzidos no Algarve, 60% são tintos, entre os 30% e 40% são brancos e o restante é rosé. A partir de 2020 também passaram a certificar espumantes e já têm 12 produtores a apostar em bolhas, utilizando, sobretudo, as castas Negra Mole e Arinto para esse efeito.

A forma como a restauração algarvia olha para os vinhos da própria região também mudou bastante nos últimos tempos. Há 20 anos a abertura era quase nula, os produtores eram praticamente expulsos dos restaurantes. É claro que, na altura, os vinhos dificilmente competiam com Douro ou Alentejo, mas o cenário mudou.

 

Cerca de 70% do vinho do Algarve vende-se na região.

DO vs. IG

As denominações de origem, no Algarve, foram demarcadas em 1980, seguindo um critério administrativo e não técnico. Basicamente, a cada adega cooperativa correspondia uma DO. E foram quatro: Portimão, Lagos, Lagoa e Tavira. O vinho regional Algarve só surgiu nos anos 2000, quando as adegas começaram a colapsar. A de Tavira e a de Portimão encerraram ainda no final do século passado e, mais tarde, a fusão da Adega Cooperativa de Lagoa com a Adega de Lagos deu origem à ÚNICA – Adega Cooperativa do Algarve. Literalmente.

As denominações de origem ficaram praticamente atrofiadas, enquanto, a partir de 2000, começaram a surgir produtores privados na região. Estes tinham noção quem era o principal consumidor deles – o turista estrangeiro – e preferiram plantar castas internacionais e nacionais mais conhecidas, como a Touriga Nacional. A IG (Indicação Geográfica) serviu perfeitamente para enquadrar vinhos produzidos com estas castas. E vamos mais longe: internacionalmente, o Algarve tem mais expressão do que qualquer das DO existentes. Coloca logo o vinho no mapa vínico do mundo.

Se mantivermos as antigas DO, de que identidade estamos a falar? As castas são praticamente as mesmas das já existentes nas outras regiões do país. Provavelmente, as variedades estrangeiras trazem mais identidade ao Algarve, do que as portuguesas, com algumas excepções. E são mais facilmente percebidas pelo consumidor, a quem pouco importa se a Sauvignon Blanc que tem no copo é de Lagos ou de Lagoa.

Agora fazia mais sentido unir as quatro DO dentro de uma só, para elevar o nome Algarve, e criar o Regional Algarvio, à semelhança de DO Alentejo e IG Alentejano, por exemplo. Mas administrativamente e burocraticamente não é fácil alterar estas nomenclaturas. A ver vamos.

 

Negra Mole com bagos de cores diferentes no mesmo cacho, dá vinhos de cor aberta e bastante leves.

 

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Negra Mole

Negra Mole: sunset no copo

Mal-amada durante décadas, a Negra Mole está a ser promovida, a pouco e pouco, a uma estrela ascendente no universo algarvio. Fruto dos investimentos mais recentes, não tem aumentado em termos de área, ainda mais por falta de bacelos para plantar.

É uma casta autóctone, típica da região e uma das mais antigas variedades portuguesas. Com bagos de cores diferentes no mesmo cacho, dá vinhos de cor aberta e bastante leves. Como refere Diogo Campilho “por muito que se tente extrair, a cor nunca vai muito além disto.”

Na década de 80 do século XX, a Negra Mole representava 75% da plantação da região. Mas a partir dos anos 90, este perfil de vinho tinto não era valorizado, tendo sido gradualmente posta de parte. Actualmente, ocupa o segundo lugar nos vinhedos da região, ocupando 15% da área, a seguir à Castelão, com 16%. Parece que chegou o seu momento. Por um lado, os produtores profissionalizaram-se e conseguem tirar o melhor proveito das particularidades desta casta; por outro, o consumidor também está mais aberto a este tipo de vinho.

Se há alguma casta tinta que identifica o Algarve, o seu perfil ligeiro e descontraído, com aquela cor que é só dela, que faz lembrar uma toranja, é, claramente, a Negra Mole. Ela própria é o sunset no copo: vermelho, com tons alaranjados. Esta, sim, deveria ser protegida no âmbito da denominação de origem do Algarve, seja ela qual for.

 

Dos vinhos produzidos no Algarve, 60% são tintos, entre os 30% e 40% são brancos e o restante é rosé.

 

Vinho, arte e turismo

A Quinta dos Vales, em Estômbar, no concelho de Lagoa, é bastante conhecida pela sua ligação à arte, da qual o fundador do projecto, o empresário alemão Karl Heinz Stock, era grande apreciador. Em 2024, a “quinta das esculpturas” mudou de mãos, sendo adquirida por um grupo de empresários do sector de hotelaria.

A produção de vinho manteve-se, tal como as marcas existentes: Marquês dos Vales e Grace. A equipa de enologia, jovem e dinâmica, é composta pela algarvia Rita Xavier, que durante o seu percurso profissional já passou por Alentejo, Douro e Argentina, e pelo chileno Rafael Merce, com vasta experiência internacional na Argentina, México, Estados Unidos e Brasil, para além do seu país natal. Ambos contam ainda com consultoria de Paulo Laureano.

“Estamos a cinco quilómetros do mar e a três do rio [Arade], em linha reta”, afirma Rita Xavier. “Os solos são argilo-calcários e, na vinha, estamos sempre a encontrar fósseis”, continua. Dos 44 hectares da propriedade, a vinha ocupa 19, dos quais três foram replantados recentemente. Para ir ao encontro do mercado, a Syrah foi reconvertida em Sauvignon Blanc e a Castelão em Arinto. “Adaptamo-nos um bocado à realidade em que estamos inseridos, porque tanto o branco como o rosé é o que mais se consome aqui”, justifica a enóloga. Cerca de metade da produção é dominada pelos vinhos brancos, 30% são tintos e 20% são rosé. Selecta é a gama de entrada, Duo, a gama média, que é sempre bivarietal, e a marca Grace representa a gama mais alta.

A adega tem capacidade de produção para 150 mil litros, mas, actualmente, produzem cerca de metade. Isto tem a ver com a reestruturação da vinha e com o facto de deixarem de ter uma vinha em Silves, que pertencia ao antigo proprietário.

A vertente de enoturismo é muito forte. Têm parcerias com hotéis, dispõem de alojamento próprio e de organização de eventos na quinta (casamentos, baptizados, jantares privados), os quais contribuem para a promoção das suas marcas de vinhos.

Uma oferta muito particular que desenvolveram na Quinta dos Vales é The Winemaker Experience. Pressupõe o aluguer de uma vinha com uma ou mais variedades em função do tipo de vinho que se pretende produzir. O contrato, normalmente, dura um ou dois anos e inclui todas as despesas com a vinha e acompanhamento enológico. Quanto mais cedo começar, mais interessante será o processo, porque a data de vindima e a abordagem na adega são definidas em parceria com a equipa de enologia. Basta imaginar que a mesma casta, como, por exemplo, a Syrah, pode originar um rosé, um blanc de noir, um tinto ligeiro ou um tinto com estágio em barrica; e cada opção envolve manuseamento diferente. Para a vindima de 2026 já fecharam as oportunidades, mas para 2027 há mais.

 

Vinho de autor

 

Quinta do Francês é uma das mais antigas quintas privadas no Algarve. Localizada no Vale da Ribeira de Odelouca, em Silves, esta pequena pérola pertence, desde 2000, a Patrick Agostini, de origem italiana, nascido em França. Médico de formação, radicado em Portugal, com a sua mulher Fátima, levou o projecto tão a sério, que tirou o curso de Enologia em Bordéus. Em 2002, plantaram a primeira vinha e, em 2008, estava pronta a adega. Hoje, contam com 12 hectares de castas, portuguesas e internacionais. A produção ronda as 80 000 garrafas por ano.

A propriedade está no sopé da Serra de Monchique e é marcada mais pela influência da serra do que do mar. “Quase todas as outras quintas apanham alguma maresia. Aqui, a influência marítima é quase nula, mas há sempre o ventinho da serra”, explica o enólogo Pedro Mendes. E no Inverno refere a diferença de 5º C para menos, comparativamente com a zona próxima da autoestrada, localizada a apenas a quatro quilómetros de distância.

Os solos também são fortemente marcados pela orografia. Na cota mais abaixo da quinta, onde o afluente do Arade, o Odelouca, cravou um vale, os solos são calcários, com uma percentagem de argila, zona conhecida no Algarve como Barrocal. No início da serra, nas colinas, já se nota a presença de xisto, mas quando chegamos a Monchique, muda para solos graníticos.

Vindima-se tudo à mão. A mecanização não é fácil e a dimensão relativamente pequena também não a justifica. A produção é reduzida, rondando as três toneladas por hectare. Tem a ver com os solos pouco férteis e, com o clima tão quente, “a videira também se protege um bocado para não produzir muito”, resume o enólogo.

A vinificação é separada casta por casta, para “ter mais ferramentas para trabalhar no final” e Patrick participa sempre nas decisões de lote. “Hoje em dia, estamos a usar mais as barricas de 500 litros, porque fazemos estágios mais prolongados”, justifica Pedro Mendes. A gama de entrada chama-se Odelouca e a gama superior ostenta o nome da quinta, com destaque para o Syrah Terrasses e Ianthis Cabernet Sauvignon.

O enoturismo é uma componente importante da oferta. Inclui visitas guiadas às vinhas e à adega, bem como diferentes provas de vinho, realizadas numa sala ou num pitoresco terraço, sombreado por vegetação trepadeira, com vista, naturalmente, para as vinhas.

 

O turista português não vai ao Algarve para provar vinhos, vai pelas praias e numa de relaxar.

 

Rigor e definição

 

O projecto Villa Alvor começou em 2019, quando a Aveleda adquiriu a propriedade em Alvor, no concelho de Portimão, e criou esta marca. “Já fizemos investimentos grandes na vinha e também vamos investir em grande a nível de enoturismo. É um projecto que nós gostamos e pelo qual temos um carinho enorme”, declara Diogo Campilho, Director de Enologia da Aveleda. Na sua equipa conta com o enólogo Rui Viana, que passou a acompanhar o Villa Alvor em 2024, e com Pedro Furriel, que ali começou a trabalhar como enólogo residente no ano passado.

O grande foco, neste momento, é organizar a área de produção, de modo a que o trabalho seja feito da forma mais eficiente possível, com o menor recurso a mão-de-obra. Para o ano, vão começar as obras, para compor a zona de enoturismo. Vai haver uma loja e um espaço criado para refeições ligeiras, que podem ser acompanhadas com vinhos, e uma grande esplanada.

A visita à vinha revelou solos são argilo-calcários, com muita pedra à vista. Entre as castas nacionais e internacionais há particular destaque para a Negra Mole, Moscatel Galego Roxo (da qual fazem um belíssimo rosé) e Crato Branco.

As vindimas de 2020 a 2022 foram feitas à mão, mas não é nada vantajoso apanhar uva à mão em 30 hectares, devido ao calor algarvio e à escassez de recursos humanos. Aqui, onde o terreno é bastante plano, a vindima nocturna à máquina é a melhor solução. A vantagem de ser uma empresa grande, permite aproveitar as sinergias. “Isto antes era impensável no Algarve. Agora fazemos controlo de maturação, provamos, decidimos, vem a nossa máquina da Aveleda, com o operador especializado para vindimar tudo no ponto”, refere Diogo Campilho com satisfação.

Atendendo às preferências do mercado, dos 200-250 mil litros por ano, metade são vinhos brancos, 30% rosés e 20% tintos. Os perfis dos vinhos são bem definidos entre todas as gamas e também se percebe a filosofia do produtor. “O nosso estilo é muito frutado e limpo, tudo protegido das oxidações. Com o tempo, vamos começar a criar aqui uns vinhos mais de autor, que eu acho que é interessante. Até lá, queremos cimentar a marca que temos”, resume o Director de Enologia.

No enoturismo, para além dos “casais que batem à porta”, têm visitas organizadas através das parcerias com as agências turísticas. E, de 15 em 15 dias, à sexta-feira, organizam uns sunsets.

 

Rio, ânforas e Negra Mole

 

Algarve
Arvad

 

Arvad é um projeto relativamente recente em Estômbar, Lagoa. Começou em 2016, com vinhas plantadas de raiz. Os proprietários da família Garcia de Matos compraram, em 2012, um monte e com os anos foram comprando os terrenos à volta. Neste momento, são 120 hectares.

“É um lugar muito bom para a plantação de vinha, porque nós estamos na curva do rio. De um lado, temos uma exposição a Norte. Quando está vento Norte, recebemos aqui nortadas frias. Do outro lado, estamos expostos a Oeste, de onde recebemos mais a influência do Oceano Atlântico. A outra frente do terreno está virada para a Serra de Monchique, que bloqueia os ventos do Norte, mas, ao mesmo tempo, temos um vale, onde corre a Ribeira de Odelouca, que afunila os ventos e concentra a frescura”, conta Mariana Canelas, responsável de vendas e exportação do Arvad.

No início do projecto, foi contratado um historiador, para saber mais sobre a história deste lugar. Parece que o nome do rio Arade provém da palavra “Arvad”, porque era a designação que os fenícios atribuíam a esta parte deste curso fluvial. Quer dizer “refúgio”, “porto seguro”, porque, naquela época, fugiam para dentro do rio, com o intuito de se refugiarem das tempestades e dos piratas. E foram os primeiros a introduzir vinho na Península Ibérica. Pensa-se que aqui, nesta zona, em Silves, foi a primeira região, onde se provou vinho, trazido pelos fenícios, em ânforas vinárias. Daí a grande aposta do produtor em ânforas.

O projecto foi pensado no enoturismo de raiz. Em 2016, plantaram nove hectares de vinha, com uma selecção de castas portuguesas e internacionais: Arinto, Alvarinho e Sauvignon Blanc, para os brancos; para os tintos, Touriga Nacional, Cabernet Sauvignon e Alicante Bouschet. Estrearam-se na vindima em 2019 e lançaram os primeiros vinhos em 2020, em plena pandemia. Correu tudo tão bem, que decidiram apostar na plantação de mais vinhas e, nessa altura, introduziram a Negra Mole. Primeiro alugaram cinco hectares de vinhas velhas desta casta, que ficam perto do Morgado do Quintão (outro produtor do Algarve), e depois plantaram parcelas novas. Neste momento, já contam com 12 hectares de Negra Mole, a protagonista de um tinto, um rosé, um blanc de noirs e um espumante.

Ainda ficaram com uma quinta em Alvor, com 27 hectares de vinhas, onde fizeram um projecto diferente, para um público diferente e uma abordagem diferente, e lançaram uma segunda marca, a Uca.

Em 2021, recuperaram as primeiras ruínas. Agora têm uma sala de estágio, uma sala de provas e uma sala de eventos. Segundo Mariana Canelas, o enoturismo tem corrido muito bem. Neste momento oferecem uma série de experiências, além das provas de vinho durante todos os dias do ano. As actividades incluem piqueniques nas vinhas: “os clientes podem vir de barco e provar vinhos ou almoçar no deck; podem fazer provas e almoços privados na casa do rio, com um chefe e show cooking.” Às quintas-feiras organizam o sunset com DJ ou com música ao vivo, “que é um sucesso”. O espaço é grande e bem decorado, e ainda dispõe de uma esplanada. Enche-se de gente alegre e de copos de vinhos brancos e rosés, maioritariamente.

“Neste momento o enoturismo é, sem dúvida, uma fatia grande da nossa faturação, mais de metade”, refere a anfitriã. Neste momento, estão a construir um hotel de cinco estrelas, com abertura prevista para o final de 2027.

“A exportação ainda é reduzida, mas eu posso dizer de uma forma geral o seguinte: 70% do vinho que é produzido no Algarve é vendido e consumido no Algarve. Cerca de 18%, creio eu, nem chega a 20%, é consumido noutras regiões do país. O resto, que é uma minoria, 1,8% mais ou menos, é para exportação.” Actualmente, estão a exportar em quantidades pequenas, para Alemanha, Áustria, Holanda, Inglaterra, e a Negra Mole para Ibiza.

 

biodiversidade como compromisso

 

Quinta dos Capinhas nasceu de uma história de amor. O alemão Horst Lieberwirth, depois de reformado, mudou-se para o Algarve, onde conheceu a sua futura esposa, Inês Capinha, portuguesa com raízes nestas terras. Casaram-se e adquiriram uma propriedade, em Porches, onde fundaram o projecto vitivinícola, em 2013, com o nome Quinta dos Capinhas.

A quinta tem cerca de 30 hectares, dos quais oito são de vinha plantada pelo casal, com castas portuguesas e internacionais: Cabernet Sauvignon, Chardonnay, Touriga Nacional, Alfrocheiro, Arinto, Verdelho. Mais recentemente acrescentaram a Negra Mole.

“Temos o mar ali à nossa frente a dois quilómetros. Depois, temos esta brisa, que é muito frequente, é óptima para não termos doenças nas plantas. Estamos no segundo ano de conversão para biológico e tem corrido bem. Não estamos com grandes problemas em comparação com o ano passado”, esclarece Sofia Saraiva, gestora do projecto.

A equipa é pequena, à dimensão do empreendimento. Para além do enólogo consultor Pedro Mendes, entrou recentemente o enólogo residente, Marco Crispim. Na parte do enoturismo, contratam uma pessoa de fora para a época alta. Felizmente, têm a possibilidade de lhe oferecer alojamento durante essa temporada. Durante o verão, praticamente todos os dias, têm provas de manhã e à tarde, organizam jantares vínicos com catering feito por um restaurante local. Há ainda três casas na propriedade, que podem ser arrendadas a turistas.

Para além de enoturismo, os vinhos vendem-se na restauração e em algumas garrafeiras. Uma pequena percentagem é exportada para a Alemanha, graças à ligação do dono da empresa a este mercado.

Os colheitas, ou entradas de gama, são sempre blends; depois há vinhos monovarietais em função do ano. Os best-sellers são a Alicante Bouschet e Antão Vaz. A novidade mais recente é um colheita tardia de Moscatel Galego, com podridão nobre. E ainda adquiriram um Moscatel produzido no Algarve nos anos 50 do século passado. Este não tem o nome da quinta. Chamam-no Testamento.

Praticamente em todos os rótulos existe um camaleão. Sofia Saraiva explica a razão: “esta zona do Algarve é uma das únicas zonas onde o camaleão não está em vias de extinção.” E, de tempos em tempos, o colega que trabalha no tractor, mostra fotografias dos camaleões que tem encontrado na vinha. “Mais uma razão para a transição para o biológico, porque nós estamos inseridos aqui nesta zona de grande biodiversidade. E para nós é mais do que uma certificação, é um objectivo de manter aqui o ecossistema da quinta equilibrado”, resume.

Nos planos, está a construção de uma adega na propriedade e o projecto já foi submetido para a câmara. Na colina, de onde se vê toda a vinha e o mar ao fundo, planeia-se a construção de um restaurante. Enfim, será bom voltar cá daqui a uns anos.

 

O projecto algarvio da Casa Santos Lima

 

Al-Lagar começou com dois hectares de vinha plantada numa propriedade que José Luís Santos Lima Oliveira da Silva,administrador e proprietário da Casa Santos Lima, adquiriu em 2008. À medida que ia comprando terrenos com casas para alojar as pessoas que precisava para trabalhar, ia plantando mais vinha. Depois investiu em adega própria, porque o volume de produção o justificava. Agora, a empresa possui cerca de 60 hectares, que é uma grande dimensão para o Algarve.

Segundo José Luís Santos Lima Oliveira da Silva, a Casa Santos Lima é não só o maior produtor de vinhos na região, como destacadamente o maior exportador de vinhos do Algarve, colocando, lá fora, 65% do vinho que produz neste território vitivinícola, estando presentes nos 30 mercados estrangeiros, com destaque para Reino Unido e Suécia, com dois vinhos registados no regime de monopólio; e depois desde a Ucrânia, à Tailândia e Nova Zelândia, só para nomear alguns.  Mas é na própria região, onde se consome mais o seu vinho – 35% do que produz –, porque existe um grande consumo doméstico.

Em 2025, produziu cerca de 320 mil litros, entre branco e rosé e, este ano, está a contar com o crescimento de 10%. Cerca de 25% são vinhos brancos, 5% rosé e o resto tintos. Entretanto, devido à grande procura pelos brancos e rosés, as próximas plantações irão contar com esta tendência em termos de castas.

A vinha é toda regada. A água é proveniente das barragens de Beliche e de Odeleite, próximas de Castro Marim. “Também temos uns furos, mas nunca faltou a água da barragem”, assegura o produtor.

Ao contrário de muitos produtores que nasceram já a pensar no enoturismo, para a Casa Santos Lima, que sempre se focou na produção, esta actividade é recente, mas no Algarve faz todo o sentido. Está em desenvolvimento um projecto de alojamento local, com 18 quartos, no meio da vinha, com uma vista fantástica para o mar e para Vila Real de Santo António; e Al-Lagar, é a marca do enoturismo já a funcionar. Brevemente também será lançado um vinho com esse nome. Era um antigo lagar dos anos 80 do século passado, recuperado e transformado em espaço de enoturismo. Durante a restauração, preservou ao máximo o traço antigo e ficou um blend perfeito entre o rústico e o moderno. Nesta sala, que se mantém naturalmente fresca no ambiente acalorado da Tavira, podem ser feitas provas de vinhos, acompanhadas de refeições ligeiras e também podem ser adquiridos os vinhos da casa, abrangendo todas as regiões do país, onde têm produção. Ao lado, no antigo edifício de apoio ao lagar, chamado Casa da Nora, totalmente recuperado, existem salas para eventos ou provas privativas.

Durante o Verão, organizam sessões de cinema ao ar livre, em parceria com a empresa local All Stars Cinema. “Ontem, tivemos, aqui, à noite, a projecção do Sideways. Estiveram cento e tal pessoas aqui sentadas ao ar livre”, recorda José Luís Santos Lima Oliveira da Silva. É uma experiência para repetir.

 

 

(Artigo publicado na edição de Agosto de 2026)

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Forno D’Oro

O Forno D’Oro, em Lisboa, do Chef Tanka Sapkota conquistou o 49º lugar no ranking mundial do 50 Top Pizza World 2026, representando uma subida no ranking mundial. Lembramos que no ano de 2025, o mesmo espaço de restauração do Chef nepalês alcançou o 61.º lugar e entrou, pela primeira vez, no Top 10 do […]

O Forno D’Oro, em Lisboa, do Chef Tanka Sapkota conquistou o 49º lugar no ranking mundial do 50 Top Pizza World 2026, representando uma subida no ranking mundial. Lembramos que no ano de 2025, o mesmo espaço de restauração do Chef nepalês alcançou o 61.º lugar e entrou, pela primeira vez, no Top 10 do 50 Top Pizza Europa, depois de ter ocupado a 73.ª posição mundial em 2024 e a 80.ª em 2023.

Estar no Top 50 das melhores pizzarias do mundo é um enorme orgulho e, acima de tudo, um reconhecimento do trabalho de toda a equipa. Trabalhamos todos os dias com a mesma ambição: fazer cada vez melhor, respeitando a tradição napolitana, a qualidade dos ingredientes e a técnica. É também uma enorme felicidade poder levar Lisboa e Portugal connosco e mostrar que podemos estar lado a lado com os melhores do mundo”, afirma, em comunicado, o Chef Tanka Sapkota.

Forno D’Oro

O Forno D’Ouro abriu em 2014, no nº 16 B, da Rua Artilharia 1, em Lisboa, e tem como foco a pizza napolitana. A massa é feita com base no processo que envolve a fermentação lenta, com 36 horas, e a cozedura, a cerca de 450 ºC e com duração de menos de um minuto, é feita num forno a lenha revestido a folhas de ouro, daí o nome do restaurante.

É de enaltecer a vertente de solidariedade social do Chef Tanka Sapkota, que, este ano, envolveu os seus quatro restaurantes (Forno D’Ouro, Come Prima, Il Mercato e Casa Nepalesa) em duas iniciativas de angariação de fundos: a primeira destinada a apoiar as vítimas na Venezuela e, mais recentemente, com as vítimas das cheias no Nepal, o seu país natal. Ambas dão continuidade a acções que têm vindo a marcar o seu percurso em Portugal.

Forno D’Oro

Relembramos que o Chef Tanka Sapkota recebeu, em 2022, pela Revista Grandes Escolhas, o galardão de “Melhor Cozinha do Mundo em Portugal” pelo trabalho desenvolvido no Come Prima.

Port Wine Day: Prémios Douro + Sustentável 2026

prémios

Nuno Pizarro de Magalhães, Pedro Coelho, Torel Quinta da Vacaria – Douro Valley e a Associação Bagos d’Ouro receberam os Prémios Douro + Sustentável 2026 atribuídos pelo Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto (IVDP), no âmbito das celebrações do Port Wine Day. Os galardões foram conferidos, respectivamente, nas categorias de Viticultura, Enologia, Enoturismo […]

Nuno Pizarro de Magalhães, Pedro Coelho, Torel Quinta da Vacaria – Douro Valley e a Associação Bagos d’Ouro receberam os Prémios Douro + Sustentável 2026 atribuídos pelo Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto (IVDP), no âmbito das celebrações do Port Wine Day. Os galardões foram conferidos, respectivamente, nas categorias de Viticultura, Enologia, Enoturismo e Revelação. O objectivo desta iniciativa consiste em valorizar o trabalho desenvolvido em diferentes áreas de atividade, bem como reconhecer acções que visem a dinâmica ligada à sustentabilidade, nas dimensões económica, social e ambiental, e enaltecer percursos e iniciativas que contribuem para a protecção e a projecção da Região Demarcada do Douro.

Vamos por partes. Professor Emérito da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Nuno Pizarro de Magalhães é autor de várias obras de referência e participou na formação de gerações de enólogos e viticultores, deixando um relevante contributo para a investigação, o ensino e a modernização da viticultura portuguesa.

Pedro Coelho é proprietário e enólogo da Pormenor Vinhos, projecto criado em 2013, assente em pequenas produções, e com um percurso que se traduz numa abordagem que associa identidade territorial e valorização da diversidade vitivinícola do Douro.

Inaugurado em 2024, o Torel Quinta da Vacaria – Douro Valley, em Peso da Régua, articula vinho, hotelaria, gastronomia, bem-estar e paisagem numa propriedade com mais de 400 anos de história, transformando esta quinta histórica no contributo para a afirmação turística do Douro.

O prémio atribuído à Associação Bagos d’Ouro destaca, por sua vez, o acompanhamento que tem vindo a ser feito a crianças e jovens de oito concelhos da região, desde a infância até à entrada no ensino superior ou no mercado de trabalho, evidenciando a importância da coesão social, da qualificação e da criação de oportunidades para as novas gerações.

CVD – Companhia dos Vinhos do Douro estreia a JM ALMEIDA FAMILY

JM ALMEIDA FAMILY

Para um pai, poucas alegrias se comparam à de ver o filho seguir o seu caminho. Talvez apenas uma seja maior: poder caminhar ao seu lado. José Miguel Almeida é enólogo e empresário, fundador e principal rosto da CVD – Companhia dos Vinhos do Douro, tendo na marca Oboé a sua principal referência. Concluída a […]

Para um pai, poucas alegrias se comparam à de ver o filho seguir o seu caminho. Talvez apenas uma seja maior: poder caminhar ao seu lado.

José Miguel Almeida é enólogo e empresário, fundador e principal rosto da CVD – Companhia dos Vinhos do Douro, tendo na marca Oboé a sua principal referência. Concluída a formação em Enologia, em 1993, estagiou na Symington e integrou a equipa da Quinta do Crasto, antes de fundar a sua própria empresa, em 2001. Seis anos mais tarde adquiriu a Quinta do Cabeço, em Tabuaço, na margem esquerda do Douro, onde o projecto ganhou a configuração actual. Com cerca de 30 hectares de vinha, produz hoje mais de 200.000 garrafas por ano.

José Miguel Almeida, o filho, nasceu com o projecto, cresceu entre as vinhas e a adega, acompanhando desde cedo o trabalho do pai e tudo o que envolve a produção de vinho. Por isso, não foi de estranhar: enveredou pelo mesmo caminho. Concluiu a licenciatura em Bioengenharia, com especialização em Engenharia Alimentar, prosseguindo depois para o mestrado na mesma área, na Universidade Católica Portuguesa, no Porto. Actualmente frequenta uma pós-graduação em Enologia, formação que complementa com o curso de especialização em Wine Management, no ISAG, e com o curso de nível intermédio em Vinificações da AgroB Business School.

O novo projecto JM Almeida mostra um pouco das duas gerações da família. A colheita da estreia é de 2020, em que o João Miguel, estando ainda na faculdade, participou de corpo e alma. Em plena pandemia, com as aulas online, pôde acompanhar o trabalho na adega, ajudando, aprendendo e contribuindo com a sua opinião. Os lotes foram feitos de forma a que os dois se identificassem com o resultado final.

Ambos os vinhos resultam de um field-blend de várias castas. O branco estagiou 12 meses em barricas de carvalho francês e a produção traduz-se em 1.430 garrafas standard, 50 magnums e 35 garrafas de 3 litros. O tinto foi vinificado em lagar, com pisa a pé, fermentou em cubas de inox e estagiou depois 12 meses em barricas de carvalho francês, das quais 40% novas. Foram produzidas 1.275 garrafas, 72 magnums e 35 garrafas de 3 litros.

(Artigo publicado na edição de Julho de 2026)

Geradora, o novo restaurante do Esporão

Geradora

Na histórica Tapada da Ajuda, um edifício industrial centenário reabre a 18 de setembro, no meio de um cenário campestre, com árvores frondosas, dando lugar ao projecto do Esporão na cidade de Lisboa, a Geradora. O Chef Manuel Liebaut, cujo currículo soma várias experiências em restaurantes reconhecidos (ao lado de Ferran Adrià, em Barcelona, n’ […]

Na histórica Tapada da Ajuda, um edifício industrial centenário reabre a 18 de setembro, no meio de um cenário campestre, com árvores frondosas, dando lugar ao projecto do Esporão na cidade de Lisboa, a Geradora. O Chef Manuel Liebaut, cujo currículo soma várias experiências em restaurantes reconhecidos (ao lado de Ferran Adrià, em Barcelona, n’ O Viajante, em Londres, no Noma, em Copenhaga, e no Burnt Ends, em Singapura), promete uma cozinha de produto, sazonal e cheia de sabor. O conceito? Contemporaneidade, mas simultaneamente descomplicada e confortável.

A ligação com o vinho é feita de forma descontraída. Para já, ao almoço. Há a oportunidade de fazer uma prova vínica, ideal para aprofundar o conhecimento inerente a uma região ou a uma colheita. Ou simplesmente beber um copo. Mas o melhor é visitar a garrafeira e cave da Geradora, onde pode escolher uma garrafa, para acompanhar a refeição, ou simplesmente descobrir as referências das diferentes regiões em que o Esporão produz vinho.

Geradora

Além do restaurante, a Geradora inclui uma loja e um núcleo museológico. É, também, um pólo ligado às artes, com uma programação regular de música, cinema e exposições. Soma-se a proximidade e a relação com o Instituto Superior de Agronomia, ou não fosse a agricultura, a biodiversidade, a ciência e o conhecimento transversal a este projecto. “Queremos que a Geradora seja um lugar aberto e vivo, onde as pessoas possam chegar por razões diferentes e acabar por descobrir mais do que vinham à procura. Vir para almoçar com família ou amigos e encontrar uma exposição, participar numa prova e ficar para um concerto, ou simplesmente passar tempo na Tapada. Mais do que criar um novo espaço, queremos criar um lugar que faça parte de Lisboa e ao qual apeteça voltar”, afirma, em comunicado, João Roquette, Presidente do Conselho de Administração do Esporão.

A título de curiosidade, sabia que o edifício da Geradora, localizado na outrora Tapada Real de Alcântara, criada no século XVIII, por D. João IV, foi construído com o propósito de produzir electricidade para o Palácio da Ajuda, mas acabou por nunca cumprir verdadeiramente a função para a qual tinha sido projectado.

 

Geradora

Reservas Restaurante Geradorahttps://www.sevenrooms.com/explore/geradora/reservations/create/search/

Horário de Quinta a Segunda-Feira

Morada Tapada da Ajuda, Lisboa

APCOR: a cortiça está no coração de Nova Iorque

APCOR

A campanha internacional Cork.Connect, promovida pela Associação Portuguesa da Cortiça (APCOR), marca presença na Times Square, Nova Iorque, nos Estados Unidos, através da mensagem Drink Responsibly. Choose Wine with a Natural Cork. exibida, até 22 de Novembro, num dos ecrãs mais emblemáticos da cidade, durante praticamente 24 horas por dia. Para além do reforço do […]

A campanha internacional Cork.Connect, promovida pela Associação Portuguesa da Cortiça (APCOR), marca presença na Times Square, Nova Iorque, nos Estados Unidos, através da mensagem Drink Responsibly. Choose Wine with a Natural Cork. exibida, até 22 de Novembro, num dos ecrãs mais emblemáticos da cidade, durante praticamente 24 horas por dia. Para além do reforço do consumo responsável de vinho, “acreditamos que esta campanha contribui para uma valorização crescente da cortiça enquanto vedante de excelência para o vinho, integrada numa estratégia mais ampla de afirmação da cortiça e do seu potencial para responder aos desafios da sustentabilidade, da inovação e da criação de valor”, acrescenta, em comunicado, Paulo Américo Oliveira, presidente da APCOR.

Esta iniciativa reforça, assim, a aposta da indústria da cortiça num dos principais mercados do sector. Ao mesmo tempo, está alinhada com a estratégia internacional de comunicação da indústria do vinho, no sentido de reforçar a notoriedade, o posicionamento e a diferenciação da cortiça em diversos mercados. Por outro lado, esta mensagem estará activa em Times Square durante a realização de alguns dos mais relevantes eventos de vinho em Nova Iorque – Wine Spectator Wine Experience, o New York Food & Wine Festival e o Great Wines of Italy, de James Suckling, entre outros –, constituindo uma oportunidade adicional para chegar a diversos líderes de opinião particularmente relevantes no mercado americano.

Em 2025, os Estados Unidos representaram 14% das exportações portuguesas de cortiça, posicionando-se no top 3 dos mercados de destino. A dimensão desta acção em Nova Iorque acompanha, assim, a relevância do mercado norte-americano para a cortiça e a sua capacidade de influenciar tendências globais no setor do vinho.

APCOR

ANSELMO MENDES: O lado Loureiro do Senhor Alvarinho

Anselmo Mendes

O universo minhoto de Anselmo Mendes estende-se de Monção e Melgaço até ao Vale do Lima e abrange mais de 130 hectares. Destes, 61 situam-se em Monção e Melgaço e 75 no Vale do Lima. A maior área dedicada ao Loureiro, aliada ao seu maior rendimento por hectare, faz com que o volume desta casta […]

O universo minhoto de Anselmo Mendes estende-se de Monção e Melgaço até ao Vale do Lima e abrange mais de 130 hectares. Destes, 61 situam-se em Monção e Melgaço e 75 no Vale do Lima. A maior área dedicada ao Loureiro, aliada ao seu maior rendimento por hectare, faz com que o volume desta casta seja bastante superior ao do Alvarinho. A relação de Anselmo Mendes com o Loureiro também é mais antiga do que muitos imaginam. Remonta a 2005, quando começou a recuperar as vinhas de antigas quintas senhoriais do Vale do Lima.

É preciso recuar ainda mais no tempo para perceber o contexto da produção de vinho na região. Nos anos 80 do século XX, surgiu o conceito de vinho de quinta. Empresários ligados ao têxtil, à construção civil e a outros sectores, com capacidade financeira para investir em propriedades com solares, criaram marcas próprias e começaram a engarrafar os seus vinhos. Como recorda Anselmo Mendes, no final da década existiriam cerca de 30 a 40 vinhos de quinta. Investiu-se em adegas, bem equipadas à época, e nasceram marcas ambiciosas, que conquistaram alguma notoriedade no mercado. Na altura, “o normal era um vinho custar cem escudos; estes já custavam 500 ou 600 escudos”, refere o produtor. Contudo, produzir vinhos secos, sérios e expressivos não era tarefa fácil, e muitos nunca conseguiram descolar-se dos Vinhos Verdes “clássicos”, adamados e gaseificados. Segundo Anselmo Mendes, “o que falhou, foi a viticultura”, mais precisamente, a falta de conhecimento nesta área não permitiu dar o salto qualitativo. No fundo, “sem uma boa viticultura não há hipótese nenhuma de atingir vinhos de excelência”.

Anselmo Mendes
Quinta da Ferreira

 

O Loureiro consegue manter um bom nível qualitativo até cerca das dez toneladas por hectare

 

Vale do Lima

Toda a vinha que Anselmo Mendes explora no Vale do Lima assenta em contratos de arrendamento. A razão é simples: muitos proprietários das antigas quintas estão dispostos a vendê-las, mas estas propriedades são pouco aliciantes do ponto de vista prático para quem vive da viticultura. Têm “muita casa e pouca terra”, uma característica que encarece as quintas, enquanto um viticultor procura sobretudo terra com vinha, sem o “peso” dos imóveis.

Das várias propriedades que integram o projecto de Anselmo Mendes no Vale do Lima, visitámos a Quinta da Ferreira, situada em Gondufe. Aqui, uma boa parte da vinha está implantada numa encosta que atinge cerca de 150 metros de altitude, contrastando com outras quintas em cotas muito baixas. Uma delas encontra-se mesmo dez metros abaixo do nível do mar.

Os anos de trabalho em duas sub-regiões próximas, mas distintas, permitem-lhe comparar, a partir da sua própria experiência, as condições de cada uma delas. Na sub-região do Lima há menos problemas de geadas do que em Monção, onde o ar frio, por vezes, drena mal e se acumula nos vales. No Lima, o vale é mais aberto, permitindo uma melhor circulação do ar, e a maior influência atlântica contribui para um clima mais moderado. A amplitude térmica também é diferente. No Vale do Minho, no final de Agosto, é possível registar 35º C durante o dia e temperaturas próximas dos 12º C à noite. No Vale do Lima, as máximas não atingem valores tão elevados, mas as temperaturas nocturnas também não descem tanto.

A pluviosidade anual na região é comparável à de Bordeaux, mas a distribuição da precipitação ao longo do ano é diferente. “No nosso caso, em Julho e Agosto não chove. Aliás, os grandes anos são aqueles em que chovem 30 milímetros em cada um desses meses. Isso é o ano perfeito. E depois não chove na vindima. Mas isso não existe”, lamenta o nosso anfitrião.

Estas condições tornam a rega uma necessidade, sobretudo nas vinhas jovens e em situações extremas que possam comprometer a sobrevivência das plantas, uma questão que continua a dividir os viticultores. Para Anselmo Mendes, porém, não há dúvidas: “instalámos rega praticamente em todas as vinhas. Sabendo regar de acordo com a textura do solo, estamos a poupar água no futuro. Temos vinhas com quatro e cinco anos que já não regamos.”

Segundo Anselmo Mendes, o que verdadeiramente distingue esta quinta é a conjugação de vários factores: a altitude, a boa drenagem e uma eficaz colonização subterrânea das vinhas. Esta última depende, em grande medida, das características do solo e da densidade de plantação. “Optámos sempre por uma densidade maior. Aqui estamos nas 3 300 a 3 500 plantas por hectare. A densidade, por si só, não diz nada sobre a qualidade, mas há um mínimo. Menos de 2 500 plantas comprometem a colonização subterrânea das vinhas”, explica. A lógica é simples: uma competição moderada entre videiras obriga as raízes a explorar um maior volume de solo, favorecendo o desenvolvimento do sistema radicular. Já o extremo oposto, com 10 000 plantas por hectare, também não faz sentido, sobretudo nos solos menos férteis, porque, a partir desse ponto, a competição entre videiras torna-se excessiva e deixa de ser benéfica.

 

Sem uma boa viticultura não há hipótese nenhuma de atingir vinhos de excelência

 

A natureza da Loureiro

Há duas características que definem o Loureiro: a elevada produtividade e a exuberância aromática. Foram precisamente estas duas características que Anselmo Mendes procurou contrariar.

Na reestruturação das vinhas, a escolha de material policlonal seguiu dois critérios: evitar clones muito produtivos e excessivamente terpénicos. Apesar de ser esse o perfil que o mercado mais associa à casta, Anselmo Mendes confessa que “os Loureiros amuscatelados” não fazem parte das suas preferências.

A questão da produtividade vai muito além das preferências pessoais, porque condiciona diretamente a qualidade do vinho. Ao contrário do Alvarinho, cuja produção ronda naturalmente entre as sete e as oito toneladas por hectare, o Loureiro chega facilmente às 15 toneladas e, em alguns clones, pode atingir as 29 toneladas por hectare. Não há milagres: nestas condições, a maturação resulta apenas numa “solução hidroalcoólica” pouco definida, verde e ácida.

Para Anselmo Mendes, o Loureiro consegue manter um bom nível qualitativo até cerca das dez toneladas por hectare. Nos seus vinhos da gama Private procura não ultrapassar as oito toneladas. Mas também aqui não existe uma relação direta de causa e efeito: produções muito baixas nem sempre se traduzem em vinhos melhores. “Temos vinhas que não passam das cinco toneladas. Vamos reestruturá-las porque não é viável. E mais impressionante é que o resultado não nos impressiona. Ou seja, o facto de ter aquela produção baixa não aumenta a qualidade.”

O Loureiro é uma casta particularmente sensível à podridão e, em anos de chuva durante a vindima, a qualidade da produção pode ficar comprometida. Anselmo Mendes explica que prefere evitar os tratamentos convencionais com fungicidas e aposta antes no controlo da traça-da-uva através da confusão sexual. Os difusores instalados na vinha libertam feromonas que confundem os machos e dificultam o acasalamento, reduzindo a postura de ovos e o desenvolvimento das larvas. Assim, evitam-se perfurações nos bagos, que funcionam como portas de entrada para fungos.

Como o Loureiro frutifica muito bem nos gomos mais próximos da base do sarmento e apresenta um crescimento vigoroso, adapta-se bem à condução em cordão ascendente e à poda a talão e vara. Esta opção permite controlar o vigor e ajuda a manter uma copa equilibrada. Mas o equilíbrio da videira não se constrói apenas no inverno. Ao longo do ciclo vegetativo, é através da intervenção em verde que se ajusta a relação entre vegetação e produção.

Anselmo Mendes
Quinta da Ferreira

Intervenção em verde

Ir com Anselmo Mendes à vinha é como ter uma aula de viticultura, com explicação e demonstração ao vivo. As práticas culturais têm uma influência directa na qualidade das uvas. Para o produtor, há quatro operações fundamentais na gestão da vinha: supressão, orientação, desponta e desfolha. E têm que ser executadas rapidamente, porque “com boa temperatura e água no solo, isto chega a crescer mais de cinco centímetros por dia”.

“Suprimir é tirar aquilo que não interessa, mesmo que tenha um cacho”, exemplifica o mestre, removendo os lançamentos “que nem dão para o ano seguinte e estão a contribuir para a má qualidade global”. É fundamental criar “buracos” na parede vegetal para garantir o arejamento e criar um bom microclima junto dos cachos.

Numa casta vigorosa como o Loureiro, que tende a desenvolver muita vegetação, a orientação dos lançamentos é essencial para construir uma parede vegetal equilibrada, evitando sobreposições e excesso de densidade, e tendo em conta que a variedade é sensível à desnoca – quebra de sarmentos.

A desfolha tem a vantagem de expor precocemente os cachos à luz, permitindo que se adaptem gradualmente à radiação solar. Mais tarde, a desponta promove o aparecimento de folhas novas, que nas palavras do produtor “trabalham bem” e reduzem a exposição direta dos cachos. Ao mesmo tempo, ajuda a controlar o vigor, evita que a vegetação tombe e contribui para um melhor equilíbrio entre folhas e cachos. “Feito isto, é meio caminho andado para ter qualidade”, resume Anselmo Mendes.

 

Anselmo Mendes confessa que “os Loureiros amuscatelados” não fazem parte das suas preferências

 

Loureiro ao longo dos 20 anos

Muros Antigos, é um blend das várias quintas. Não passa por barrica; as uvas são vinificadas apenas em inox e expressam a casta, a sub-região, o produtor e o ano. A influência deste último factor tem a ver com temperatura com que se vindima. O Loureiro vindimado à noite, sem ser sulfitado, oxida ao fim de 3,5 horas, enquanto vindimado a 25º C oxida ao fim da meia hora.

Para assinalar os 20 anos de Loureiro, provámos 18 vinhos monvoarietais, dos quais 12 Muros Antigos, desde a primeira colheita de 2005 até ao mais recente; e mais seis Loureiros de outras gamas de vários anos.

 

2024 – Mais discreto no aroma que o 2025, com folhas e erva-príncipe, menos floral; menos concentrado e menos salino, ligeiramente amargo e com muita tensão. (17); 2022 – Lima, limão, até alguma laranja, não propriamente aromático, tisanas, mineral em boca, muito mais seco e muito fresco. (16,5); 2019 – Muito bom no aroma, aquela evolução que não se sente, mas harmoniza o vinho; limão, parte floral bonita, manjericão e estragão; está muito bem na boca, tenso e extremamente fresco, sem transparecer a idade. (17,5); 2017 – Apetrolado ao ponto de fazer lembrar um Riesling; cogumelos, ervas aromáticas, resinoso, tem imensa força, vida, suculência e projecção de sabor; textura deslizante. (17,5); 2016 – Limão a passar para dourado; no aroma limão cristalizado, laranja, mel, muito fresco, concentrado no sabor e mais amplo. (17); 2014 – Limão dourado; laranja, limão cristalizado, tisanas, salino, talvez mais magro, mas não lhe fica mal; palato com laranja amarga, suculento, com toque de botrytis que até se enquadra bem. (17); 2013 – Dourado; cogumelos, manteiga, mel, a lembrar pêra, fruta em calda e ananás salgado; no palato balança entre o amargo e o salgado, firme e guloso. (16,5); 2011 – Dourado; fruta muito boa e fresca, cardamomo, notas de Riesling novamente, com muito vigor na prova, resinoso, caruma, limão cristalizado, lemon curd; boca espectacular, cheio, fresco, cremoso e longo. (17,5); 2010 – Dourado; xarope de limão, ananás, tisanas, austero em boca, pouco conversador, também algumas notas apetroladas. (16,5); 2008 – Doce de laranja, ananás, em caldo, muito bem projectado em boca, sem indícios de vinho velho, algum cogumelo; meloso mas com tensão. (16,5); 2005 – o ano de estreia; dourado; cogumelo, xaropes de limão e laranja, flores secas e tisanas, erva-príncipe, suculento e amplo, cremoso, levemente salino e ainda cheio de vida. (17,5)

 

Anselmo Mendes Private Loureiro 

Este vinho é o resultado de uma única vinha da Quinta da Ferreira, localizada numa encosta da margem esquerda do Rio Lima; também não vê a barrica, mas estagia durante nove meses em inox com bâtonnage, mais um ano em garrafa.

2021 – Limão Dourado; mais quente, mais fruta; quase fumado no nariz, pimenta branca, lima e limão maduro, alguma tília e louro; tenso, cremoso, mastigável, com muita estrutura e matéria. (18,5); 2020 – Limão leve; querosene, fumado, pimenta branca, pedra lascada e muita lima no sabor; acidez incisiva, mas bem coberta pela textura suculenta; salino e longo. (18,5); 2019 – Citrino dourado, fechado no nariz, ervas aromáticas, citrinos discretos, austero também na boca e com menos volume. (18,5); 2017 – Flores e querosene, menta e mentol, lima e limão e ainda caruma; austero na boca, com pedra raspada; prima pela tensão e frescura. (18,5)

Loureiro do Tiago 2020 – a interpretação de Tiago, filho de Anselmo Mendes. Fermentou em barricas usadas de 400 litros, onde depois permaneceu durante seis meses, e com um longo estágio de quatro anos em garrafa. Limão, ligeiro fumado, um toque mineral e caruma de pinheiro; discreto, mas completo, sem exuberância, muita textura, elegante, fino com barrica muito bem integrada. (18,5);

Anselmo Mendes Tempo Loureiro 2019 – Curtimenta total e estágio de 24 meses em barrica de carvalho francês de 400 litros com bâtonnage. Dourado. Ananás maduro, caruma, limão, xarope muito aromático, profundo, farmácia, tangerina, doce de laranja, mel fresco, a tensão de tanino bem coberta de textura e sabor muito sabor, amplo e preciso, atlanticamente salino, com acidez filigrana e flores caramelizadas. (19)

(Artigo publicado na edição de Setembro de 2026)