PINOT NOIR: Da vulnerabilidade nasce a grandeza

pinot noir

Há poucas descrições tão felizes da Pinot Noir como a que chegou ao grande público através de Sideways (2004), filme que permanece vivo na memória de tantos enófilos. Num determinado momento desta longa metragem, frente a frente a uma mulher que deseja, Miles descreve a casta como quem se confessa e suplica: apelida-a de sensível, […]

Há poucas descrições tão felizes da Pinot Noir como a que chegou ao grande público através de Sideways (2004), filme que permanece vivo na memória de tantos enófilos. Num determinado momento desta longa metragem, frente a frente a uma mulher que deseja, Miles descreve a casta como quem se confessa e suplica: apelida-a de sensível, frágil, caprichosa, exigente. Retrata-a como uma uva que pede cuidado constante, atenção demorada na videira e quase uma forma de devoção. A metáfora, em tom de subcontexto (Miles fala de si, evidentemente), permanece eficaz, porque toca um traço essencial da Pinot Noir: é uma casta que não se entrega de imediato; pede tempo para ser compreendida, guiada e revelada.

É precisamente dessa vulnerabilidade que nasce a sua grandeza. No quase monólogo de Miles, a Pinot Noir surge em contraste com a robusta Cabernet Sauvignon, “que prospera com aparente indiferença”, como se uma encarnasse a força e a outra (a Pinot) a delicadeza extrema. Mais do que uma descrição técnica, é uma sugestão e imagem de perfeição, uma verdadeira ética do desvelo, da paciência e do lugar na elaboração de um vinho.

Aromas, solo e clima

Originária da Borgonha, no nordeste de França, a Pinot Noir é uma casta antiga, muito ligada à ideia de elegância, de finesse e à possibilidade de gerar vinhos de grande subtileza aromática. Ao contrário dos vinhos dos fidalgos, geralmente nobre de Bordéus, os Pinot dos camponeses da Borgonha revelavam-se de película fina e baixa concentração tânica, dando quase sempre origem a vinhos de cor aberta, por vezes translúcida, de corpo leve a médio, como se a matéria cedesse espaço à nuance.

No plano aromático, move-se entre dois grandes registos. Num extremo, os frutos encarnados – cereja, framboesa, morango, por vezes em forma de rebuçado – quase sempre acompanhados por um sopro floral. No outro, sobretudo em ambientes mais frios, um perfil mais seco, terroso e vegetal, com sugestões de sub-bosque, folhas caídas, cogumelo e turfa, como se o vinho trouxesse consigo a memória húmida da floresta.

Esta sensibilidade ao clima e ao solo ajuda a explicar por que razão a Pinot Noir atinge a sua expressão máxima em poucos lugares do mundo. A Borgonha continua a ser a grande referência, mas há exemplos notáveis noutras regiões, como Ahr, na Alemanha, Marlborough, na Nova Zelândia, Oregon, nos Estados Unidos, e Casablanca, no Chile. É essa exigência – quase caprichosa – que a distingue de castas como a Cabernet Sauvignon, a Syrah ou a Merlot (o ódio de estimação de Miles no filme já citado), muito mais resistentes e difundidas à escala global.

Na Borgonha, a casta encontrou um dos seus destinos maiores. O clima continental fresco, com invernos rigorosos e verões moderadamente quentes, contribui para uma maturação lenta, quase paciente. Já os solos calcários, pobres, bem drenados e ricos em fósseis marinhos, ajudam a moldar vinhos de notável elegância e mineralidade. O resultado é um mosaico de pequenas diferenças, em que parcelas contíguas podem dar vinhos profundamente distintos, como se cada pedaço de terra falasse uma inflexão própria da mesma língua.

Pinot Noir

Diz-se muitas vezes que a Pinot Noir é uma casta de transparência e não apenas por causa da sua cor no copo

 

Adaptação exigente por cá

Em Portugal, a Pinot Noir enfrenta um contexto muito diferente. O clima, globalmente mais quente e seco, e a diversidade de solos colocam desafios claros à sua expressão. Fora alguns casos especiais – muitos deles ligados à produção de bases para espumante, como sucede na Bairrada, no Dão e, mais recentemente, em Távora-Varosa –, a sua presença continua a ser relativamente limitada.

À primeira vista, e se aceitarmos as generalizações mais correntes sobre o clima e os solos portugueses, poder-se-ia concluir que a casta não foi feita para o nosso país. Mas essa leitura é apressada. Portugal guarda uma diversidade rara de terroirs, onde se cruzam influências atlânticas e continentais, altitudes distintas e composições de solo que mudam em poucos metros, e é justamente nessa diversidade que a Pinot Noir encontra, aqui e ali, a possibilidade de se afirmar. É, por isso, que algumas regiões – sobretudo aquelas onde a frescura, a influência atlântica ou a altitude atenuam as temperaturas mais elevadas – têm demonstrado verdadeira aptidão para a Pinot Noir.

A Bairrada é, talvez, o território onde a Pinot Noir mais se aproxima de um registo clássico. A influência atlântica, feita de humidade persistente e temperaturas moderadas, preserva a acidez e alonga a maturação. Os solos argilo-calcários que, por momentos, fazem lembrar a Borgonha, favorecem o surgimento de vinhos tensos, de fruta encarnada fresca, estrutura leve a média e uma evidente vocação gastronómica. Lisboa surge como outra região particularmente sugestiva. Também aqui a escolha de solos calcários, muitas vezes ricos em fósseis marinhos, se revela determinante. Nas zonas mais próximas do mar, as brisas atlânticas moderam o calor estival e prolongam o ciclo vegetativo, permitindo que dali saiam alguns dos mais convincentes Pinot Noirs portugueses. Os vinhos mais pontuados na nossa prova vieram, precisamente, da Bairrada e de Lisboa.

No Dão, embora a tradição esteja mais ligada a castas autóctones, a Pinot Noir não é uma desconhecida. Em parcelas mais altas, encontra condições favoráveis e tende a ganhar estrutura e frescura, num perfil elegante, por vezes mais austero e menos exuberante na fruta. A sua presença histórica na região, muitas vezes associada à produção de bases para espumante, está documentada, por exemplo, nos registos da Casa da Passarella desde 1930.

Já a altitude é o fator decisivo no Douro. Numa região de verões quentes, a casta exige uma procura criteriosa de microclimas, com preferência por cotas elevadas, exposições a norte ou proximidade de cursos de água. Para rosés e espumantes, já demonstrou muito bons resultados. Nos tintos, os exemplos continuam ratos e quase experimentais, mas revelam qualidade, em particular na definição do fruto e na elegância de boca, sendo disso um bom exemplo a versão monovaritel da casta nas marcas Aneto e Quinta do Cidrô.

 

A Pinot Noir está muito ligada à possibilidade de gerar vinhos de grande subtileza aromática

 

Transparência e imprevisibilidade

Diz-se muitas vezes que a Pinot Noir é uma casta de transparência e não apenas por causa da sua cor no copo. A expressão é feliz, porque esta variedade funciona, acima de tudo, como um marcador de terroir. Com efeito, poucas variedades expõem com tanta nitidez as virtudes e os limites de um lugar; poucas devolvem com semelhante fidelidade a paisagem de onde vieram.

Foi precisamente essa constatação que nos levou a rever a ambição inicial desta seleção de vinhos. Assumimos que partimos com alguma reserva quanto à qualidade dos Pinot Noirs portugueses, mas os resultados obrigam a corrigir esse ceticismo. Embora Portugal não ofereça a consistência dos grandes territórios clássicos da casta, há nichos muito bem definidos, com produtores atentos e condições naturais capazes de lhe dar expressão convincente. Imaginar Pinot Noir no Douro Superior, no Tejo ou na planície entre Évora e Beja pode continuar a parecer improvável, apesar de termos bons vinhos nessas localizações.

Mas já o mesmo não se diga da costa vicentina, das imediações da serra de Sintra, das zonas altas e graníticas próximas da Serra da Estrela, ou de outras zonas onde o frescor e o solo favorecem a sua delicadeza natural. Talvez resida aí a sua maior sedução: a Pinot Noir nunca é inteiramente previsível, raramente é banal, mas, quando tudo se alinha, oferece vinhos fantásticos com muita personalidade e diferentes no perfil mais habitual das castas nacionais autóctones, daí que mereçam mais atenção e consumo.

(Artigo publicado na edição de Julho de 2026)

Alentejo: Vinhas Velhas e Centenárias e certificação do Vinho de Talha

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A Comissão Vitivinícola Regional Alentejana (CVRA) criou as designações “Vinhas Velhas” e “Vinhas Centenárias” e alargou a possibilidade de certificação do Vinho de Talha a toda a região do Alentejo. No primeiro caso, é estabelecido o um enquadramento específico para a valorização de vinhos provenientes de parcelas de vinha com características associadas à sua idade, […]

A Comissão Vitivinícola Regional Alentejana (CVRA) criou as designações “Vinhas Velhas” e “Vinhas Centenárias” e alargou a possibilidade de certificação do Vinho de Talha a toda a região do Alentejo. No primeiro caso, é estabelecido o um enquadramento específico para a valorização de vinhos provenientes de parcelas de vinha com características associadas à sua idade, aplicando-se a primeira denominação a vinhas com, no mínimo, 35 anos, enquanto a segundo é atribuída a vinhas com registo anterior a 1931.  
As novas medidas, aprovadas por unanimidade em Conselho Geral da CVRA, têm como finalidade contribuir para a preservação de um património vitivinícola geracional, reconhecendo o valor das vinhas mais antigas da região e reforçando a identidade dos Vinhos do Alentejo.
Quanto ao Vinho de Talha, a principal novidade passa pela possibilidade de certificação do Vinho de Talha produzido em qualquer uma das sub-regiões deste território vitivinícola, com o intuito de proteger esta tradição. A regulamentação, agora aprovada, resulta de um trabalho desenvolvido pela CVRA através do seus grupos técnicos e de enólogos, especialistas nesta tipologia de vinho, historiadores e outros profissionais do sector.

Segundo Luís Sequeira, Presidente da CVRA, o reconhecimento do valor das vinhas mais antigas e a definição do método de produção do Vinho de Talha, enfatiza a preservação de “um património único e a criar condições para o desenvolvimento de vinhos premium, reforçando a diferenciação, a competitividade e a criação de valor para os Vinhos do Alentejo.” 
De acordo com o comunicado, as novas medidas integram o Plano Estratégico dos Vinhos do Alentejo 2026-2031, que pretende enaltecer a capacidade dos Vinhos do Alentejo para responder às tendências actuais e afirmar-se nos mercados internacionais.

Já temos Master of Wine!

tiago macena

Tiago Macena é o primeiro português a tornar-se Master of Wine, título atribuído pelo Institute of Masters of Wine, uma das mais prestigiadas e superlativas qualificações profissionais internacionais do mundo do vinho. Para o sector vitivinícola nacional é considerado um marco importante, na medida em que reforça a presença de profissionais portugueses nos principais circuitos […]

Tiago Macena é o primeiro português a tornar-se Master of Wine, título atribuído pelo Institute of Masters of Wine, uma das mais prestigiadas e superlativas qualificações profissionais internacionais do mundo do vinho. Para o sector vitivinícola nacional é considerado um marco importante, na medida em que reforça a presença de profissionais portugueses nos principais circuitos internacionais de conhecimento, avaliação e comunicação de vinho.

Recordamos que o enólogo Tiago Macena iniciou o percurso no Institute of Masters of Wine em 2012, retomando os estudos em 2017, contando, durante parte deste processo, com a orientação brasileiro Dirceu Vianna Junior MW. Ciente do impacto que a existência de um Master of Wine português poderia ter na projeção internacional do sector, a ViniPortugal acompanhou e apoiou Tiago Macena, que, em 2023, se tornou o primeiro português a superar a componente prática do exame final.

Paralelamente, nos últimos anos, Tiago Macena tem colaborado em iniciativas da Wines of Portugal em diferentes mercados, através de provas comentadas, acções dirigidas a profissionais e actividades de formação dedicadas aos vinhos portugueses, bem como enquanto jurado do Concurso Vinhos de Portugal.

Frederico Falcão, Presidente da ViniPortugal, declarou em comunicado que “o conhecimento, a credibilidade e a rede internacional associados ao título podem contribuir para aumentar o reconhecimento dos nossos vinhos e para promover a diversidade das regiões, das castas e dos produtores portugueses a públicos profissionais cada vez mais qualificados”, acrescentando o seguinte: “este resultado tem também um significado importante para uma nova geração de profissionais portugueses. Demonstra que existe, em Portugal, conhecimento técnico, experiência e capacidade para alcançar os níveis de exigência mais elevados do sector internacional do vinho. Esperamos que este percurso incentive outros profissionais a procurar qualificações desta natureza”.

Licenciado em Engenharia Agronómica pelo Instituto Superior de Agronomia, com especialização em Viticultura e Enologia, Tiago Macena desenvolveu a sua carreira como enólogo e consultor, com actividade em diferentes regiões vitivinícolas portuguesas. Com o intuito de aprofundar conhecimento, apostou ainda na componente de formação, comunicação e apresentação dos vinhos portugueses em Portugal e no estrangeiro. A obtenção deste título permite a Tiago Macena integrar oficialmente o Institute of Masters of Wine e utilizar a designação Tiago Macena MW.

Trafaria (Com) Prova está de volta dias 4, 5 e 6 de Setembro

trafaria

Trafaria (com) Prova está de regresso para três dias de festa com degustação de vinhos e petiscos, provas de vinho comentadas, visitas guiadas ao centro histórico e animação de rua no passeio ribeirinho da Trafaria. 4,5 e 6 de Setembro – Entrada livre com opção de compra de copo de degustação por 5€ Exposição e degustação […]

Trafaria (com) Prova está de regresso para três dias de festa com degustação de vinhos e petiscos, provas de vinho comentadas, visitas guiadas ao centro histórico e animação de rua no passeio ribeirinho da Trafaria.

4,5 e 6 de Setembro – Entrada livre com opção de compra de copo de degustação por 5€

Exposição e degustação de vinhos | degustação de tapas e petiscos | espaço cultural e exposições | animação de rua | DJ

Com a presença de empresas produtoras de vinhos representativas do melhor da produção nacional e de restaurantes locais, com oferta de pequenos pratos de petiscos, de acordo com o receituário habitual da casa.

Provas comentadas e gratuitas (mediante inscrição) por críticos da revista Grandes Escolhas.

Crónica: O Douro em brancos a chamar por nós

douro

Em Murça, estamos em terras de brancos. Por aqui, são eles que marcam o compasso dos dias. Isso é claramente uma virtude numa época em que a tendência aponta mais para este tipo de vinhos. Daí a importância crescente do evento Brancos na Praça, que teve este ano a 4ª edição. Não será fácil dividir […]

Em Murça, estamos em terras de brancos. Por aqui, são eles que marcam o compasso dos dias. Isso é claramente uma virtude numa época em que a tendência aponta mais para este tipo de vinhos. Daí a importância crescente do evento Brancos na Praça, que teve este ano a 4ª edição.

Não será fácil dividir o Douro em zonas estanques, do tipo aqui brancos, ali tintos, aqui Touriga Francesa, acolá Rabigato. Ainda assim, começa a fazer sentido falar de áreas onde algumas castas e alguns tipos de vinho ganham mais preponderância. Isso é visível quer em zonas especialmente vocacionadas para produzir certos tipos de vinho do Porto, como o Cima Corgo, quer em áreas onde os brancos se dão especialmente bem. Historicamente, sabemos que a região sempre produziu muita uva branca que se destinava ao Porto branco, mas a História também nos disse que esse tipo de Porto nunca foi devidamente valorizado, uma vez que preenchia objectivos simples, destinando-se a ser servido como aperitivo, algo muito valorizado pelo mercado francês, por exemplo. Mas os tempos mudaram e a região, que nasceu para os DOC Douro, muito associada aos vinhos feitos com as uvas que não preenchiam o benefício, foi, aos poucos, descobrindo que as mesmas uvas brancas usadas para fazer o simples Porto branco, afinal também poderiam originar vinhos de muito boa qualidade. Foi assim que, em meados dos anos 90, várias empresas de Vinho do Porto se abalançaram a fazer vinhos brancos, secos e cheios de personalidade, com técnicas até então pouco ou nada utilizadas, como a fermentação em barrica, o estágio também em madeira, descobrindo virtudes em castas até então menosprezadas.

 

Varietais de Arinto no Douro são raros. Este é particularmente aromático na boca. A colheita anterior parece ter evoluído rapidamente

 

Uma nova febre tomou conta da região e os brancos começaram a surgir como se, até aí, estivessem escondidos debaixo das pedras. A febre não foi passageira e veio para ficar; e, hoje, o número de marcas e de produtores que se interessam pelos brancos não cessa de aumentar. Foi neste quadro de busca das melhores zonas e parcelas mais originais que Murça emergiu como zona com condições perfeitas para a produção de vinhos brancos: localização que joga com a altitude e o clima mais ameno, boa quantidade de vinhas velhas de castas misturadas (que continua a ser o maná para os grandes vinhos) e boa disponibilidade de uvas. Não tardou que vários produtores se começassem a interessar por Murça, vindo aqui comprar uvas para elaborarem os seus melhores lotes.

E foi do interesse dos produtores pela região e do empenho da Câmara Municipal que nasceu o evento Brancos na Praça, totalmente dedicado aos vinhos brancos e a que responderam quer os produtores locais, quer as empresas que nesta zona também se abastecem de uvas. O evento vai na 4ª edição e decorreu a 29 e 30 de Maio últimos.

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Um dos pontos de interesse do certame são duas provas de vinhos brancos orientadas pelo autor destas linhas. Com uma assistência (mediante inscrição) que tem crescido em número todos os anos, organizam-se duas provas de brancos: uma de vinhos de Douro/Murça versus grandes vinhos do mundo e outra, mais específica, de brancos de Murça versus brancos originais do resto do país. Mas o certame não se esgota nestas provas: há um workshop sobre azeites de Murça (Francisco Vilela) e há percursos comentados nos vários stands orientados por Teresa Gomes. O espaço, desta vez bem mais amplo, acolheu uma população muito interessada, que também pôde comprar vinhos, algo sempre muito apelativo para os consumidores.

Murça está a fazer o seu trabalho, procurando o reconhecimento da valia dos seus vinhos no conjunto dos brancos do Douro. Tal reconhecimento não pode deixar de passar pela valorização do preço das uvas. Não há meio termo. Essa é a condição sine qua non para que o prestígio do vinho tenha correspondência na valorização do trabalho e na qualidade de vida de quem o produz. E a resposta-refúgio que muitas vezes se ouve a quem compra uvas, tipo “estou a pagar acima do preço do mercado”, não é suficiente, uma vez que no Douro se pagam as uvas a preços que não compensam o granjeio. A frase não é “pagar acima”, é pagar três ou quatro vezes o preço habitual do mercado. E quem começar a fazer isso vai perceber que a concorrência não poderá deixar de acompanhar a tendência. E, a ser assim, até se percebe melhor que as garrafas dos grandes brancos de Murça custem 100 ou mais euros. De outra forma, é um pouco escandaloso, convenhamos. (JPM)

MADALENA: Capital do vinho dos Açores

Madalena

Há três constantes – ou condicionantes – na ilha do Pico: a montanha, ao centro, o mar, à sua volta, e os quilómetros de pedra que os separam. O chão, formado por extensos campos de lava solidificada, impróprio para o cultivo de cereais, ao contrário do que acontecia nas restantes ilhas do arquipélago, punha em […]

Há três constantes – ou condicionantes – na ilha do Pico: a montanha, ao centro, o mar, à sua volta, e os quilómetros de pedra que os separam. O chão, formado por extensos campos de lava solidificada, impróprio para o cultivo de cereais, ao contrário do que acontecia nas restantes ilhas do arquipélago, punha em causa a sobrevivência da população. Mas a necessidade aguça o engenho e o picaroto encontrou uma forma de plantar as videiras nas fendas da rocha, preenchidas com terra trazida do Faial. A vinha vingou, tal como as figueiras, até ao ponto de o vinho e a aguardente de figo terem sido utilizados como moeda de troca.

A escassez de recursos era compensada pela riqueza de espécies marinhas e pela forte vertente piscatória desenvolvida entre a população. A caça à baleia é outra forte realidade histórica que terminou em meados da década de 1980, no contexto da entrada de Portugal na União Europeia.

A ilha tem uma beleza austera e dramática, onde as cores vivas das casas e das antigas adegas contrastam com o basalto e trazem vida e uma certa alegria ao olhar. A realidade do povo, entre o mar, o vulcão e o fogo, nunca foi fácil, o que acabou por forjar o carácter do picaroto.

 

O picaroto encontrou uma forma de plantar as videiras nas fendas da rocha, preenchidas com terra trazida do Faial.

Os currais são construídos em pedra seca, sem uma única gota de argamassa ou cimento. As pedras encaixam-se simplesmente umas nas outras.

 

O concelho com o nome de uma santa

A origem do nome remonta aos primeiros tempos do povoamento da ilha. Os pioneiros que chegaram ao Pico no final do século XV ergueram uma ermida dedicada a Santa Maria Madalena. Em torno dessa ermida formou-se o núcleo habitacional, que passou a ser conhecido como Madalena. Mais tarde, o primitivo espaço de culto foi substituído pela actual Igreja Matriz de Santa Maria Madalena. Quando foi criado o concelho, este adoptou o nome da freguesia principal.

É no concelho da Madalena que se impõe a Montanha do Pico, que culmina a 2.351 metros de altitude, o ponto mais alto de Portugal. Embora seja visível de grande parte da ilha (e até das ilhas vizinhas), é mais fotogénica quando vista da costa ocidental, junto à vila da Madalena, onde a sua silhueta desenha um cone quase perfeito. É também neste município que se produz três vezes mais vinho do que no resto da ilha.

História cravada no basalto

No concelho da Madalena há dois lugares incontornáveis para conhecer a história do vinho do Pico: a Criação Velha e o Museu do Vinho.

Na Criação Velha encontra-se a maior concentração de vinha da ilha, numa paisagem única, classificada como Património Mundial da UNESCO em 2004. Vista do alto, faz lembrar uma manta de retalhos, desenhada pelos labirintos dos currais – pequenos muros rectangulares de basalto, com áreas que variam entre os três e os nove metros quadrados. São construídos em pedra seca, sem uma única gota de argamassa ou cimento. As pedras encaixam-se simplesmente umas nas outras.

Em cada curral desenvolvem-se entre quatro e seis videiras, conduzidas rente ao chão e protegidas dos ventos dominantes e da maresia. Mas nada consegue eliminar a influência marítima por completo. A pedra negra basáltica tem ainda outra vantagem: absorve o calor do sol durante o dia e liberta-o lentamente durante a noite, promovendo elevada concentração de açúcar e originando vinhos generosos de grande qualidade.

Entre o século XVIII e o início do século XIX, os vinhos do Pico alcançaram renome internacional, num período áureo de exportação. As grandes famílias do Faial eram, na prática, as proprietárias da produção vitivinícola, para quem trabalhavam os picarotos. Era pelo porto da Horta que o vinho partia para o mundo.

Madalena

A montanha do Pico domina a paisagem e magnetiza o olhar

 

Ao passear ao longo da costa, pode-se encontrar rampas talhadas na pedra, chamadas “rola-pipas”, que serviam para facilitar o transporte das pipas até ao mar. Outros vestígios desse passado são as “rilheiras”, gravadas nas lajes de lava pelo vai-e-vem dos carros de bois, o único meio de transporte de então para os produtos agrícolas.

Junto à zona costeira, as pequenas adegas serviam para que o viticultor pudesse aí permanecer quando se aproximava a altura das vindimas, período em que o trabalho na vinha se intensificava. Eram casas de apoio ao trabalho agrícola, com um quarto onde se podia pernoitar e onde as crianças chegavam a passar férias de verão.

Hoje, a vinha ocupa no Pico cerca de 1.100 hectares, aproximadamente cinco vezes menos do que antes da filoxera. Com apenas 14 mil habitantes, a mão de obra é escassa e a mecanização é impossível (pelo menos nas vinhas tradicionais). A produção é baixa e o trabalho continua a ser difícil e exigente, marcado por um clima ameno e húmido e por uma forte pressão de doenças, sustentado pela persistência dos produtores locais.

 

Fé, Espírito Santo e as lições de partilha

Conta o comendador Manuel Serpa, ex-padre, professor e político, grande conhecedor da história e contador de histórias, que foram os povoadores que trouxeram a devoção ao Espírito Santo na segunda metade do século XV. Uma prática que, nessa época, ressurgia na Europa, associada a uma maior proximidade aos pobres. Com o tempo, em muitos lugares esta devoção esmoreceu, enquanto nos Açores cresceu de forma extraordinária. Ainda hoje se mantém viva nas comunidades com descendentes açorianos espalhadas pelas Américas, de norte a sul.

Mas por que razão é que esta devoção cresceu e se manteve nos Açores? A resposta pode estar nos terramotos, nas tempestades e nos ciclones que, ao longo do tempo, foram sacudindo as ilhas. Nessa realidade marcada pela incerteza, o povo encontrou na fé uma forma de resistência e de força.

Em 1718, uma grande erupção vulcânica assolou a zona oeste da ilha. Perante a ameaça da lava, foi feita uma promessa: se as populações, casas e animais fossem poupados, seriam oferecidas rosquilhas a todos os que por ali passassem. Diz-se que a lava acabou por parar e que daí resultou o Mistério de São João, uma das quatro grandes escoadas de lava da ilha, assim chamadas porque as erupções vulcânicas eram, para as populações, fenómenos misteriosos e difíceis de compreender. A promessa passou a cumprir-se desde então e mantém-se até aos dias de hoje.

As rosquilhas são, assim, um dos símbolos gastronómicos das Festas do Divino Espírito Santo no Pico. Apesar do nome, não se assemelham às rosquilhas tradicionais do continente, sendo antes um pão doce em forma de argola, distribuído gratuitamente durante os arraiais, como expressão de partilha e hospitalidade.

Portanto, o grande dia de festividades nos Açores, para além do 10 de Junho, é o Dia da Região Autónoma dos Açores, que se celebra na segunda-feira do Espírito Santo, sete semanas depois da Páscoa. A festa dura quatro dias, de sexta a terça-feira, e é a única em que há uma forte participação dos jovens, juntamente com várias gerações das famílias, conta o nosso historiador.

 

Pico Vineyards – montanha, vinhas e conforto

No verão passado, abriu portas o Boutique Hotel Vinícola de quatro estrelas, integrado na Unlock Boutique Hotels, um grupo de gestão hoteleira em Portugal. Situado na freguesia de Bandeiras, o projecto nasceu no local onde funcionava o conhecido turismo rural Cancela do Porco, que também dá nome a uma marca de vinhos, mas já lá vamos.

O Pico Vineyards foi desenvolvido pela FCC Arquitectura, do norte de Portugal, fundada por Fernando Coelho e Ana Loureiro. Este gabinete é também responsável pela arquitectura do Cella Bar, no Pico, onde, quem o visita, encontrará certamente alguns traços comuns.

A montanha do Pico assume aqui um grande protagonismo, domina a paisagem e magnetiza o olhar. Nem sempre é possível vê-la por inteiro, pois muitas vezes esconde o cume nas nuvens ou desaparece quase por completo atrás do véu da neblina. Por isso, convém reservar vários dias para aumentar as hipóteses de a encontrar.

Com o Pico no horizonte, o hotel inscreve-se na paisagem de forma discreta. Inspirado na viticultura típica da ilha, o conjunto de unidades de alojamento (umas com terraços, outras com piscina privada) é composto por casas independentes, construídas em pedra e rodeadas por currais com vinha. No interior, combinam-se o basalto com a criptoméria, uma espécie abundante nas florestas do arquipélago açoriano, bem adaptada ao clima ameno e húmido. As paredes libertam um leve aroma amadeirado, discreto e relaxante. Existe ainda uma piscina interior aquecida e uma zona de spa.

Quanto ao vinho, o hotel dispõe de duas salas subterrâneas destinadas a provas ou jantares vínicos. A “Pedra & Vinho”, de formas arredondadas, tem as paredes revestidas em criptoméria e uma impressionante mesa monolítica de basalto. A pedra foi encontrada durante a construção. “Pesava 3,5 toneladas”, conta Pedro Saraiva, um dos empresários à frente da unidade hoteleira, lembrando o esforço necessário para a encaixar no interior da sala. Mesmo assim, depois de trabalhada, manteve 2.700 kg e ficou definitivamente fixada no espaço. Esta decoração cria um ambiente ecológico, sofisticado e acolhedor.

Desta sala parte uma porta que conduz à “Alma da Gruta”, esculpida na rocha que serve simultaneamente de estrutura e decoração. Um espaço misterioso, dedicado às provas mais intimistas, com uma garrafeira secreta, guardada em bolsas lávicas naturais, sem qualquer entrada de luz e com temperatura e humidade constantes.

O acesso às salas de prova faz-se por um túnel revestido a madeira que faz lembrar uma grande barrica e funciona como galeria, preparada para acolher exposições de diferentes artistas. Na altura em que estive lá presente, nesta passagem esteve instalada uma colecção fotográfica de Ricardo Lopes, autor do livro Arquipélago, uma obra que retrata os Açores através de um olhar atento e artístico.

Gastronomia à moda do Pico

Barriga de atum lascada, tártaro de atum, atum marinado… tudo isto foi preparado pelo chef Vítor Sobral a partir de um único peixe. É, de facto, um produto muito versátil e a principal matéria-prima da indústria conserveira, como ficou claro na visita à fábrica Conseran, na ilha do Pico, uma das mais recentes e tecnologicamente mais avançadas unidades de produção de conservas de peixe em Portugal. Actualmente, processa entre 7 a 8 toneladas de atum por dia. Existe capacidade para mais, mas falta mão-de-obra. A maior parte da produção é exportada, cerca de 60-80%, mas infelizmente, nos países de destino o consumidor final nem se apercebe que é um produto de Portugal.

A maior parte da produção é exportada, entre 60% e 80%, mas, nos países de destino, com marcas próprias, o consumidor final raramente se apercebe de que se trata de um produto português, a menos que observe com atenção a lata e repare nas discretas letras “PT”.

Uma das marcas de conservas chama-se Chamarrita, em homenagem à maior roda de Chamarritas do mundo, organizada pelo Município da Madalena, que entrou por duas vezes no Livro de Recordes do Guinness, em 2015 e 2023, como Largest Portuguese Folk Dance.

Há muitos outros tipos de peixe na ilha, como boca-negra, congro, garoupa, goraz, lírio e raia, não sendo esta lista exaustiva. Não é por acaso que um dos pratos típicos é o caldo de peixe à moda do Pico. “É o fruto da nossa pobreza”, recorda o comendador Manuel Serpa, explicando: “não tínhamos outras soluções; lembro-me de que, na minha meninice, carne de vaca, nesta ilha, havia três vezes por ano: no Natal, no dia do padroeiro e no dia do Espírito Santo.” O prato tradicional desta época são as sopas do Espírito Santo, que têm como base um caldo rico de carne de vaca, temperado com hortelã e especiarias, vertido sobre pão caseiro em terrinas. Servem-se acompanhadas de carnes cozidas, enchidos e legumes, num prato de partilha típico das festas do Divino Espírito Santo. O pão de massa sovada é também um elemento típico destas festas. Diz-se que era difícil de amassar, razão pela qual os homens ajudavam as mulheres na sua preparação.

Andando pelas ruas da Madalena, nas tascas típicas, podem encontrar-se as favas da festa – cozidas até rebentar e apuradas num refogado com cebola, alho, salsa, louro e polpa de tomate. Ficam macias e cheias de sabor.

Todos conhecemos o Queijo de São Jorge, mas na ilha do Pico também se produz queijo com denominação DOP, a partir de leite cru de vaca. Tem um sabor suave, ainda que característico, com uma pasta cremosa no interior e uma casca firme e comestível.

Vinho do Pico, o novo capítulo

E, voltando ao vinho, agora no seu capítulo mais recente, importa referir dois produtores com um denominador comum: a consultoria e acompanhamento do enólogo Paulo Laureano.

Marco Faria representa hoje o projeto Curral Atlantis, do qual o seu pai, o Sr. Manuel, foi um dos grandes impulsionadores, juntamente com Jorge Böhm, da Plansel. Em 1995, plantou-se um campo experimental com 24 castas. A partir de 1997, o enólogo Paulo Laureano passou a envolver-se nesta “aventura” e começou a deslocar-se ao Pico com regularidade.

O enólogo refere que o míldio é o principal problema da vinha no Pico, a par com doenças do lenho. “Não foi fácil”, recorda: “houve anos em que não tivemos um único bago de uva, mas ele [Manuel Faria] acreditou sempre… O ano passado foi bom e permitiu recuperar as vinhas.” E este inverno, com temperaturas baixas (menos de 10 ºC), também contribuiu nesse sentido.

De entre os vinhos provados, sobretudo Verdelho e lotes de Verdelho/Arinto de vários anos, destaco o “Vinha do Avô” 2020, com origem numa vinha centenária de Verdelho e Arinto dos Açores, a que se juntou Boal plantado mais tarde. Mostra grande complexidade, carácter e equilíbrio, com notas de mel e maresia, laranja e cardamomo, lima e ananás; é envolvente, longo e saboroso, sem nada comprometer, deixando ainda muito por revelar e evoluir.

Outro projecto tem a ver com o empresário Pedro Saraiva, restaurador, hoteleiro e produtor de vinho, com a marca Cancela do Porco, antigamente vendida exclusivamente no seu restaurante. O Verdelho de 2014, de tonalidade quase acobreada, surpreende pelo aroma inesperadamente fresco, composto e complexo, com notas de geleia de tangerina, alperce, maçã assada e ananás salgado, além de um toque de estragão, iodo, notas florais e apetroladas. Envolvente e com acidez salivante, evidencia que o tempo lhe conferiu cremosidade sem lhe retirar a sua vitalidade vibrante.

E assim, finalizamos com um brinde à ilha do Pico com o seu temperamento difícil e à força do espírito picaroto que a domou e dela fez o seu lar, produzindo alguns dos vinhos com mais identidade e carácter.

(Artigo publicado na edição de Julho de 2026)

Quinta do Crasto abre as portas para uma série de jantares vínicos exclusivos

quinta do crasto

A Quinta do Crasto decidiu abrir as portas da sua casa para uma experiência vínica exclusiva, reservada a um número muito restrito de convidados que a queiram descobrir por inteiro. Numa série de apenas três jantares vínicos, conduzidos por quem todos os dias contribui para escrever a história desta propriedade, os participantes terão a oportunidade […]

A Quinta do Crasto decidiu abrir as portas da sua casa para uma experiência vínica exclusiva, reservada a um número muito restrito de convidados que a queiram descobrir por inteiro.

Numa série de apenas três jantares vínicos, conduzidos por quem todos os dias contribui para escrever a história desta propriedade, os participantes terão a oportunidade de conhecer as pessoas e a visão que deram origem a alguns dos vinhos mais emblemáticos da Quinta do Crasto.

O jantar de harmonização, irá juntar à mesa membros da família Roquette e das equipas de viticultura, enologia e enoturismo, para partilhar memórias e curiosidades.

A primeira edição acontece já no dia 20 de Agosto, com um menu cuidadosamente elaborado para harmonizar com uma seleção de vinhos do Douro e do Porto, que incluem algumas das referências mais conhecidas da Quinta do Crasto e também colheitas especiais. O menu e as harmonizações mudam em todas as datas, tornando cada experiência única.

quinta do crasto

À mesa, com os convidados, estarão Miguel Roquette, administrador da Quinta do Crasto, Tiago Nogueira, responsável pela viticultura, Cátia Barbeta, enóloga, e Gilberto Rodrigues, diretor de turismo, para apresentar cada um dos vinhos e abrir caminho a perguntas, comentários e reflexões.

Tudo isto acontece na casa de família e o terraço panorâmico, debruçado sobre o vale do Douro, numa atmosfera descontraída, onde o vinho, a gastronomia e o ambiente de partilha que naturalmente se cria à volta da mesa dão origem a conversas informais sobre o Douro, a filosofia da Quinta do Crasto e a responsabilidade – mas também o privilégio – de produzir vinho numa paisagem classificada como Património Mundial pela UNESCO.

Os jantares vínicos repetem-se nos dias 24 de Setembro e 22 de Outubro, sempre com menus distintos e diferentes convidados da equipa da Quinta do Crasto, permitindo aos participantes descobrir novas histórias, novos vinhos e diferentes perspetivas sobre a propriedade. Para garantir o ambiente intimista que se pretende, as sessões estão limitadas a 20 pessoas.

Cada jantar tem o custo de 175€ por pessoa e para participar é necessária marcação prévia, que pode ser feita através do e-mail enoturismo@quintadocrasto.pt ou do contacto telefónico +351 937 760 572. Para saber mais sobre a Quinta do Crasto e os seus vinhos, consultar www.quintadocrasto.wine ou www.heritagewines.pt.

RESTAURANTE LAURENTINA: Onde o amigo continua fiel

Laurentina

É o caso do restaurante Laurentina – O Rei do Bacalhau, que acaba de comemorar o seu cinquentenário. O Laurentina será provavelmente o mais antigo restaurante de Lisboa em actividade dedicado ao bacalhau. Tudo começou quando  o então jovem António Pereira, natural do Fundão, com fortes raízes na Beira Baixa e com pouco mais de […]

É o caso do restaurante Laurentina – O Rei do Bacalhau, que acaba de comemorar o seu cinquentenário. O Laurentina será provavelmente o mais antigo restaurante de Lisboa em actividade dedicado ao bacalhau. Tudo começou quando  o então jovem António Pereira, natural do Fundão, com fortes raízes na Beira Baixa e com pouco mais de 20 anos, partiu para Moçambique onde, passado algum tempo, fundou um restaurante em Lourenço Marques (hoje Maputo). Ali desenvolveu durante duas dezenas de anos uma paixão pela gastronomia. Começou por aperfeiçoar a preparação do bacalhau, inspirando-se nas receitas da sua terra natal, com alguma influência dos sabores africanos. Quando, após a independência da ex-colónia, regressa à metrópole, em 1976, é natural que a opção fosse continuar a actividade, replicando e desenvolvendo o conceito que tinha criado.

Aparece assim, em Lisboa, já na Avenida Valbom, a poucos metros onde, hoje, se encontra o Laurentina. O nome é uma homenagem aos habitantes da capital moçambicana (os laurentinos), ao mesmo tempo que evocava a mais popular cerveja da terra. É quando se muda para a porta ao lado, com o n.º 71 A, em 1986, que assume orgulhosamente a designação “O Rei do Bacalhau”. Para além de assinalar uma evidência – o restaurante ganhou fama entre os clientes pela forma como o ‘fiel amigo’ era ali venerado –, a designação assume um compromisso sério de máximo respeito pela matéria-prima, procurando os melhores fornecedores e garantindo uma consistência que desafiou o tempo. Os filhos, actualmente, à frente do negócio, fazem questão de mostrar como as couves, o azeite, as batatas, as frutas, entre outros ingredientes, continuam a vir da Beira Baixa, honrando assim o legado do fundador.

Com a deterioração da saúde do Pai António, os filhos, Marco e Rita, assumem a direcção do restaurante por volta dos anos 2004/2005. Não lhes foi difícil o encargo, já que ali cresceram e desde pequenos ali comeram e praticamente viviam no dia-a-dia. Marco e Rita Pereira depressa perceberam que a melhor maneira de preservar a obra do Pai e a sua identidade é fazer evoluir o projecto. Sem nunca comprometerem a herança, respeitando receitas e saberes acumulados, foram introduzindo novos pratos e, sobretudo, remodelado totalmente o espaço. Quem entra no Laurentina não deixa de se sentir confortável, com a qualidade da amesendação, a simpatia do atendimento, a decoração clássica do espaço, em que as paredes com um jardim vertical emprestam uma sensação de frescura e sofisticação. O espaço é suficientemente amplo e diversificado para o cliente sentir-se à vontade. Com 60 lugares no rés-do-chão, 100 na cave a que se juntam mais 40 na frondosa esplanada, não faltam opções.

A oferta do menu é bastante ampla. Cobre algumas das mais populares receitas que eram esperadas num restaurante temático e também dispõe de alternativas em peixes frescos da costa, polvo, carnes e opções vegetarianas. Mas é de facto em torno do ‘fiel amigo’, aqui exclusivamente proveniente das águas frias e cristalinas da Islândia, que a ementa se desdobra em declinações tentadoras. Em recente visita, tivemos a oportunidade de provar as pataniscas, servidas como aperitivo, finas, de formato redondo, crocantes, secas de óleo e com bom equilíbrio entre massa, cebola, salsa e lascas. De segunda a sexta-feira, há pratos do dia com preços mais moderados (à volta de €18). O destaque vai, contudo, para os pratos de resistência que, na ocasião, tivemos oportunidade de experimentar. A saber:  O popular bacalhau à Brás, húmido quanto baste, com o ovo cremoso e envolvente e batata palha muito crocante feita na casa; o bacalhau alto assado (duas pessoas/€58), um posta do lombo de altura absolutamente descomunal, com batata a murro e verdura salteada; a couvada de bacalhau à Pereira da Laurentina (duas pessoas/€52), prato de assinatura e especialidade maior da casa, confeccionado à maneira da Beira, com produtos da região, em que as couves e batatas servem de cama a outra peça do lombo gigante, tudo envolvido dentro de um tacho de barro fumegante; e, não podia faltar, o arroz de bacalhau ao estilo malandrinho, bago carolino gordo e bem envolvido numa calda com espinafres e tomate. Há outras opções clássicas como o à Minhota, com broa, natas e espinafres, o lascado especial (preços médios a rondar os €25). Os sabores moçambicanos continuam presentes, com a moqueca de bacalhau (€26,50) e os camarões tigre à moçambicana (€45). Uma das inovações introduzidas recentemente foi uma carta de sobremesas ambiciosa e uma lista de vinhos bem adequada à oferta gastronómica.

 

Laurentina – O Rei do Bacalhau

Av. Conde de Valbom, 71 A, Lisboa

Tel.: 962 959 725 / 217 960 260

Horário: de Segunda-feira a Sábado, das 12h00 às 16h00 e das 19h00 às 23h00 Encerra: Domingos e feriados

Preço médio: €40