THE FLADGATE PARTNERSHIP: Encontro intimista com o Douro

Numa época em que o consumo do vinho, em particular do Vinho do Porto, regista uma diminuição significativa no país, o enoturismo é considerado uma fórmula eficaz na retoma do incremento do sector vitivinícola, mas com a salvaguarda óbvia: ‘beba com moderação’. Até porque, vale a pena percorrer parte da ‘melhor estrada do mundo’, designativo […]
Numa época em que o consumo do vinho, em particular do Vinho do Porto, regista uma diminuição significativa no país, o enoturismo é considerado uma fórmula eficaz na retoma do incremento do sector vitivinícola, mas com a salvaguarda óbvia: ‘beba com moderação’. Até porque, vale a pena percorrer parte da ‘melhor estrada do mundo’, designativo atribuído ao troço curvilíneo, com cerca de 30 quilómetros, da Estrada Nacional 222. Aquele liga a cidade de Peso da Régua ao Pinhão, acompanha a margem do rio Douro e oferece uma vista singular para os patamares serpenteantes característicos da região demarcada mais antiga do mundo, à qual foi dado o nome do referido curso fluvial.
Estrada fora, ninguém fica indiferente à beleza paisagística que muda de tom consoante a estação do ano. Do verde da primavera aos tons dourados e avermelhados do outono, passando pelo salpicar de cores várias pontuadas pelo movimento formigante dos ranchos, aquando da vindima, a marcar a época de estio, terminando nas tonalidades escuras das cepas espalhadas pelos montes, desde a quota mais baixa ao topo das colinas, onde tudo muda a bel-prazer da natureza entre equinócio e solstício. À boleia da The Fladgate Partnership – grupo detentor de casas do Vinho do Porto e com um portefólio recentemente complementado por vinhos tranquilos das regiões do Douro, Vinhos Verdes, Dão e Bairrada –, fomos conduzidos a quatro propriedades concentradas no Alto Douro Vinhateiro, onde, acima de tudo, o Vinho do Porto está na base do enoturismo. São elas a Quinta do Panascal e a Quinta da Roêda, as unidades The Manor House Celeirós e The Vintage House Hotel, para além do The Yeatman, o hotel vínico localizado fora deste circuito.
Sobre as duas primeiras, tudo indica que o número de visitantes deverá chegar, respectivamente, perto dos 90 000 visitantes e dos 17 000 visitantes, o que representa um aumento de 20% registado nos últimos três anos. O The Vintage House Hotel é o complemento das duas quintas e pode tornar-se indissociável da The Manor House Celeirós, que está a iniciar um novo processo enoturístico dentro da The Fladgate Partnership. O The Yeatman é, por sua vez, a imagem do cliente de nicho curioso com a visita privada à Quinta da Roêda e a refeição intimista na Quinta do Panascal. Mas vamos por partes.
Quinta do Panascal, o diamante duriense
Ao longo do passeio de carro, impera o pequeno desvio de pouco mais de 1,5 quilómetros até à Quinta do Panascal, localizada na freguesia de Valença do Douro, no concelho de Tabuaço. “Temos um dos vales mais antigos do Douro, onde está o Mosteiro de São Pedro das Águas, um mosteiro da era do Românico, fundado no século XIII pelos monges cistercienses. À época, já se produzia vinho e eles próprios adicionavam aguardente, como forma de conservar o vinho”, conta Miguel Campos, coordenador das equipas de enoturismo das quintas do Panascal e da Roêda, e do Centro de Visitas do hotel The Manor House Celeirós, que, juntamente com Paulo Santos, responsável pelo Turismo no Douro, no âmbito da The Fladgate Partnership, aguardam a nossa chegada a esta propriedade de 70 hectares, de portas abertas ao turismo desde 1992. Pertence à The Fladgate Partnership desde 1978 e tem como representante David Guimaraens, diretor técnico de enologia do grupo e rosto da sexta geração desta secular casa de vinhos do Porto da Fonseca, fundada em 1815. O encontro ocorre sob a sombra da esplanada ampliada em 2024, onde são feitas provas com a chancela da casa, a Fonseca. Afinal, estamos no território em que o Vinho do Porto é uma herança cultural a preservar, e onde há uma forte ligação com o vale do rio Távora, que atravessa duas regiões vitivinícolas: Douro e a vizinha Távora-Varosa, separando a Quinta do Panascal – localizada na margem direita deste curso de água – da propriedade situada no lado oposto.
Para conhecer a monumentalidade dos terraços empedrados representativos do Alto Douro Vinhateiro, fez-se a visita guiada de 30 minutos, às vinhas, de 50 hectares. A visita com áudio-guia, disponível em nove idiomas, é a alternativa e realiza-se em 40 minutos. “Há aqui vinhas desde o início do século XX”, avança Miguel Campos, indicando os patamares mais estreitos e com muros toscos, onde, agora, estão plantadas oliveiras. Já a vinha está distribuída por socalcos mais largos, embora o património genético do Douro prevaleça por aqui. Hoje, mais do que nunca, a mudança centra-se nas castas. Segundo o nosso cicerone, estas são selecionadas em função da adaptabilidade relativamente ao solo e à orientação solar. Na lista, constam Tinta Amarela, Touriga Francesa, Tinta Roriz, Touriga Nacional, Tinta Barroca e Tinto Cão. Na época da vindima, as uvas colhidas em vinhas velhas são submetidas a pisa a pé nos lagares em granito instalados no piso térreo da casa principal da Quinta do Panascal, para extrair o mosto. A fermentação é interrompida por meio da adição de aguardente. O vinho é transportado, posteriormente, para os balseiros de mogno e tonéis de carvalho francês, dispostos no espaço contíguo à sala dos lagares. O resultado deste trabalho traduz-se em três tipos de Vintage: o Clássico, o Quinta do Panascal e o Guimaraens.
A herança gastronómica duriense traduz-se na comida dita de conforto confecionada na Quinta do Panascal
O programa de enoturismo vai além de uma das nove provas de vinhos, da ‘Classic’ à ‘Signature’, bem como da ampla loja instalada na casa secular da propriedade, entre outras sugestões, como o workshop de Vinho do Porto ou o passeio de barco no rio Douro e no rio Távora. Na propriedade, e com o intuito de dar resposta à crescente procura da gastronomia duriense por parte dos turistas, decidiu-se abrir a sala contígua, tornando-a maior, para receber dois grupos e servir entradas diferentes. Cabrito e o bacalhau assados, e o arroz de pato constam na lista das sugestões, além dos bolos de bacalhau e dos rissóis, protagonistas do início de cada refeição.
“Aqui não há fine dining e a ficha técnica é a mão. É uma experiência verdadeiramente regional, com comida de conforto, feita por duas senhoras locais e que transmite cultura e o amor que têm na cozinha e transmitem todo o saber que foram herdando ao longo do tempo”, reforça o coordenador de enoturismo do grupo, referindo-se aos dotes culinários de D. Lúcia e D. Emília, que mantêm este ofício há, respectivamente, 40 e 20 anos, na The Fladgate Partnership. Ambas preservam o serviço personalizado, com reserva obrigatória efetuada, no mínimo, com 24 horas de antecedência, com a garantia de um serviço traduzido na herança cultural no prato.
Quando o tempo não está de feição, a refeição é servida na Sala Fonseca, instalada logo à entrada da casa principal da propriedade. Nos dias soalheiros, o almoço é servido sob a pérgola do terraço, ao ar livre.
Na pacata aldeia de Celeirós
Chegada a hora da despedida, rumamos até à The Manor House Celeirós, unidade de alojamento anexada, em março de 2024, ao portefólio hoteleiro da The Fladgate Partnership. A aquisição reforça a aposta nos vinhos tranquilos – esta compra inclui ainda as Quinta do Confradeiro, com 55 hectares de vinha, e Abelheira, onde está concentrado o encepamento de castas estrangeiras.
Instalado em Casal de Celeirós, no concelho de Sabrosa, este alojamento é constituído por Casa Principal, Casa do Lagar, Casa das Pipas Restaurant e Centro de Visitas de Celeirós. Apesar da estrutura estar montada, foi necessário fazer o levantamento sobre a história e a identidade desta propriedade, para criar a marca e a lançar no mercado. Foi como começar do zero.
A Casa Principal dispõe de 12 quartos. Cada um apresenta uma decoração diferente. Em todos os espaços do interior deste edifício, as alterações passaram a favorecer a entrada de luz natural, desde o piso térreo ao primeiro andar. “Foi preciso libertar do sufoco do mobiliário”, afirma Paulo Santos. Os sofás foram revestidos com novos tecidos de tons mais suaves, para contrastar com a madeira escura predominante no teto e nos armários distribuídos pela casa. “O que interessa está lá fora”, continua o responsável pelo Turismo no Douro da The Fladgate Partnership, chamando a atenção para parte dos 17 hectares de vinha, que preguiça pela propriedade. Em contrapartida, onde outrora havia um lagar de azeite e outro de vinho, está a Casa do Lagar. Esta foi submetida a uma intervenção mais profunda. Aos quatro quartos já existentes somaram outros três, incluindo uma suíte com kitchenette e acesso direto à pacata aldeia de Celeirós. Aliás, dos sete quartos, dois são familiares. “A The Manor House Celeirós é ideal para os hóspedes que gostam de estar ligados à parte da natureza”, resume Paulo Santos. Neste contexto, encaixam as caminhadas pela vinha e pela aldeia, e os passeios de bicicleta. Espaço ao ar livre não falta para os mais novos, bem como a aguardada tranquilidade, requisito tão apreciado pelos casais.
The Manor House Celeirós é o mais recente hotel da The Fladgate Partnership, onde o restaurante e o Centro de Visitas dispõem de todo o portefólio de vinhos tranquilos do grupo
A vista privilegiada para a vinha estende-se à Casa das Pipas Restaurant. Espaçoso e luminoso, este edifício foi ligeiramente intervencionado, no sentido de o tornar mais funcional, e ganhou mais vida com a exposição fotográfica alusiva à temática do Douro de outrora. A cozinha permanece nas mãos do chef Milton Ferreira, ofício partilhado no The Vintage House Hotel, com localização privilegiada no Pinhão. “O chef Milton estava na Quinta do Portal e aceitou o desafio de transmitir a identidade do Douro à mesa do restaurante”, resume Paulo Santos. O foco está nos produtos locais e regionais, e a inspiração tem como base as receitas tradicionais. Porém, o chef Milton Ferreira não se inibe em aliar influências de outras latitudes culinárias aos pratos confecionados neste espaço de restauração. A carta de vinhos engloba todo o portefólio vínico da The Fladgate Partnership, com referências do Douro, do Dão, da Bairrada e dos Vinhos Verdes. Para Miguel Campos, esta realidade é uma mais-valia. “Temos todos os vinhos do grupo para prova, para além dos vinhos da Taylor’s e do Portal”, exemplifica.
No Centro de Visitas de Celeirós, onde o xisto e a cortiça coabitam com o betão, a entrada é feita pela loja de vinhos e de produtos regionais, com porta de acesso para a cave de envelhecimento destinada ao Vinho do Porto e ao moscatel. Já o vinho tranquilo descansa a nove metros abaixo da terra, onde os 12º C são uma constante e a humidade prevalece nos 80%. No piso superior, há uma sala de provas complementada por uma área técnica – copa e zona de apoio – e porta envidraçada de acesso ao terraço, com vista para um Douro sem fim. A ideia é destinar este espaço exterior para provas vínicas, ao mesmo tempo que se oferece a envolvente paisagística predominada pelos vinhedos e a morfologia durienses. Os hóspedes do The Manor House Celeirós têm 50% de desconto na visita e prova de vinhos no Centro de Visitas de Celeirós.

Quinta da Roêda, a joia da coroa
A manhã soalheira abre caminho à curta viagem até à Quinta da Roêda, com uma área que ultrapassa os 100 hectares. É, desde 1889, a casa da Croft, com localização privilegiada na vila do Pinhão e tem como insígnia o lendário Croft Vintage 1945 ou a eterna relíquia, o Vintage Roêda 1914. A paisagem circundante carregada de vinhas (cerca de 70 hectares) empresta as cores da estação a esta propriedade duriense, adquirida, em 2001, pelo grupo Taylor Fonseca, ano esse em que o grupo passa a designar-se The Fladgate Partnership.
Face ao tamanho do estacionamento, admite-se a popularidade da Quinta da Roêda, cuja “estrutura está centrada no Vinho do Porto”, salienta Miguel Campos. Aqui, o enoturismo é implementado em 2016 e “a partir de 2018, 2019 houve uma explosão enorme de visitas. Atualmente, está em velocidade cruzeiro, mas temos de estar muito atentos, porque o mercado é muito dinâmico e a oferta no Douro é muito maior do que há oito anos”, continua o nosso cicerone. Entre maio e outubro, a Quinta da Roêda tem muita procura, com as manhãs muito requisitadas por grupos grandes. “Da parte da tarde, separo os grupos, de maneira a que as pessoas tenham visitas mais privadas.” Só na época de estio recebe entre 400 a 500 pessoas por dia. “Entre outubro e abril, podemos oferecer aqui visitas praticamente privadas”, acrescenta o coordenador de enoturismo da The Fladgate Partnership.
A cidade do Porto é o ponto de partida para a maioria dos visitantes, dos quais 90% são estrangeiros. “Aqui, 98% das visitas são guiadas”, informa Miguel Campos, mas também há espaço para o self-guided tour, para o qual basta aceder ao QR Code desenhado para o efeito. Ou seja, a aposta no enoturismo tem vindo a ser reforçada, graças ao aumento de turistas de vários pontos do mundo. Segundo Paulo Santos, “2022 foi o ano da recuperação e 2023 foi o ano do grande arranque”. Setembro de 2025 é o mês com a maior receita de sempre.
Entre o vinhedo que se estende colina abaixo, há três hectares de um património vitícola preservado nas vinhas da Ferradura, da Benedita e do Forno, o qual remonta ao início do século XX, isto é, à fase pós-filoxera, onde estão plantados os primeiros exemplares da casta tinta Touriga Francesa, resultante do cruzamento da Mourisco e da Touriga Nacional. O legado estende-se aos patamares desse período da história do Vinho do Porto. As vinhas com mais de 40 anos ocupam 30% da plantação.
O regresso ao Centro de Visitas, instalado nos antigos estábulos restaurados de acordo com a traça tipicamente duriense, ocorre à hora do almoço. A escolha reparte-se entre o buffet regional e o barbecue, servidos no interior ou no terraço do casario. Ambos são preparados para grupos, com o mínimo de 30 pessoas. O piquenique na quinta é a alternativa. É apresentado em formato tradicional nas versões ‘Cesto Clássico’, ‘Cesto Premium’ e ‘Cesto Vegetariano’, e pode ser saboreado com vagar em um dos muitos sítios espalhados pela propriedade. As experiências passam ainda pelas nove provas, que vão da ‘Roêda’ à ‘Commoisseur’, sempre com Vinho do Porto Croft. Em época de vindima, há a possibilidade de somar à visita a degustação de quatro vinhos do Porto e pisar as uvas num dos três lagares tradicionais em granito, na Casa dos Lagares.
Mais abaixo, está outra casa datada dos anos 1920, com tetos em madeira e paredes em xisto, ideal para eventos para grupos grandes, que arrecadam daqui momentos gastronómicos cingidos ao receituário da região do Douro. “Há um constante trabalho relacionado com a memória, porque estiveram numa quinta onde é produzido o vinho que experimentaram no local”, sublinha Miguel Campos.
A Quinta da Roêda preserva três hectares de um património vitícola dividido pelas vinhas da Ferradura, da Benedita e do Forno, o qual remonta ao início do século XX, isto é, à fase pós-filoxera
Hotel de charme à beira-rio
Com a memória fotográfica bem viva, agraciada pela beleza paisagística impregnada de socalcos e de um verde infinitos, e mais saber acerca do Vinho do Porto, partimos para o The Vintage House Hotel, situado a 1,7 quilómetros da Quinta da Roêda. Contíguo à estação de comboio do Pinhão, este cinco estrelas tem registado um acréscimo em termos de procura. O facto de não fechar as portas desde o verão de 2021 comprova o sucesso. Vale pela presença do rio Douro, do qual é separado apenas pela rua sobranceira a este curso de água, e pela vista para as colinas durienses. A decoração clássica em tons suaves e o conforto complementam a lista de preferências.
A propriedade tinha, em tempos há muito idos, um armazém de vinhos. Pertencia às famílias de Adrian Bridge, CEO da The Fladgate Partnership, e de David Guimaraens. Em 1998, foi transformado numa unidade de charme em pleno Douro vinhateiro, com 43 quartos. Pouco tempo depois, passou por duas empresas hoteleiras e, em 2015, voltou para o grupo. Um ano mais tarde, com as mudanças estruturais no edifício, a oferta passou para 50 quartos. Destes, quatro são master suítes e estão instaladas no piso acima da zona da receção transposta, nesse ano, para o local atual. Com a passagem do tempo, decidiu-se pela instalação, ao ar livre, da estrutura disposta sobre as mesas do Restaurante Rabelo, a par com a fonte construída de raiz. À semelhança do Casa das Pipas Restaurant, a cozinha deste espaço de restauração é da responsabilidade do chef Milton Ferreira, com a primazia dos sabores durienses no prato e uma aposta clara na apresentação contemporânea. Já o Salão do Rio, sobranceiro ao curso de água com o nome da região, é palco do pequeno-almoço. O Bar Library é ideal para uma refeição mais descontraída ou um brinde, antes de seguir para Restaurante Rabelo, ou beber um chá pela tarde, na companhia de um livro, à lareira, nos dias frios de inverno. Aproveite para se informar sobre as experiências vínicas disponíveis no hotel.
Os mercados americanos, inglês e português são de de valor acrescentado para o The Vintage House Hotel, bem como o brasileiro, segundo Paulo Santos. “Trabalhamos muito com grupos. É uma fatia muito importante da nossa faturação”, sobretudo em termos de food & beverage (F&B). “Os meses mais impactantes são abril e maio, setembro e outubro”, continua o responsável pelo Turismo no Douro da The Fladgate Partnership. Quanto a 2026, Paulo Santos mostra-se otimista, revelando que ainda “bebemos muito do turista que passa pela cidade do Porto”.
Montra de vinhos raros e exclusivos
O número de garrafas aproxima-se das 40 000 divididas por 1400 referências vínicas, das quais 97% são nacionais, existentes na Garrafeira, considerada uma das maiores caves de vinhos portugueses do mundo, reservada a provas cegas, masterclasses ou jantares vínicos exclusivos, entre outras experiências desenhadas para hóspedes e visitantes do The Yeatman, o hotel vínico urbano com 15 anos de história, localizado entre caves de Vinho do Porto, em Vila Nova de Gaia. “A Garrafeira é o nosso showroom”, afirma Elisabete Fernandes, diretora de vinhos deste cinco estrelas pertencente ao grupo The Fladgate Partnership. É a responsável pela formação das equipas na The Yeatman Wine School e, por conseguinte, pelos seis escanções da unidade, bem como pela elaboração do vasto programa associados ao vinho, como os jantares vínicos a ter lugar à quinta-feira de cada mês, as cartas de vinhos nos bares e restaurantes, o Christmas Wine Experience, que decorre anualmente no início de dezembro, ou os sunsets de verão.
“O facto de termos parceiros associados ao hotel filtra muito”, explica Elisabete Fernandes referindo-se aos mais de uma centena de produtores, cujos nomes estão distribuídos por cada quarto do The Yeatman. Cada vinho é provado antes de constarem no The Wine Book. Além de referências nacionais e internacionais, esta lista inclui a seleção de edições raras e exclusivas feita pela diretora de vinhos. “As edições muito exclusivas já vêm alocadas ao restaurante gastronómico”, onde a harmonização do menu de degustação muda com regularidade. Falamos do multipremiado espaço centrado na cozinha do chef executivo aveirense Ricardo Costa, onde, desde o início, tem apostado na valorização do receituário regional do país e da matéria-prima nacional, através de uma ação baseada na contemporaneidade e na criatividade. No entanto, não é descurar a carta de vinhos do The Orangerie, restaurante familiar de comida designada de conforto. Por outras palavras, cada espaço tem uma lista específica no que às edições vínicas diz respeito. Sem esquecer as linhas de copos escolhidos a dedo por Elisabete Fernandes, ação reveladora do rigor implementado, desde o primeiro momento, no The Yeatman, um anfiteatro alusivo aos socalcos do Douro, com vista para o rio Douro e a ‘Invicta’. Inicialmente com seis pisos e 82 quartos, número que cresce para 10 pisos e 109 quartos a partir de 2019, oferece, na maioria dos casos, terraços privados de jardins relvados. “Todos os pisos acompanham a morfologia do terreno”, sintetiza Claire Aukett, diretora de comunicação e relações públicas do hotel.

A filosofia do hotel é visível nas exposições distribuídas pelo hotel, inclusive nas escadas de acesso a cada andar do edifício, com o propósito de cruzar a cultura do vinho e as artes, desde a fotografia à escultura, passando pela pintura. Douro, Porto, Portugal, viagens, cortiça e vinho são temas abordados nesta mostra cultural extensível ao The Yeatman Wine Spa, onde a uva desempenha o papel principal e o vinho tinto partilha protagonismo com a própria matéria-prima a partir da qual é feito.
(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2026)
TINTOS DO DÃO: O Dão para além da Touriga

A Touriga Nacional continua a ter um papel central na imagem do Dão, sendo responsável por 21,3% da área da vinha na região. Impositiva por natureza, mas quando bem integrada, a casta contribui com estrutura, profundidade aromática e identidade. Por isso, não fazia sentido excluí-la completamente desta prova; limitámos apenas a sua presença de forma […]
A Touriga Nacional continua a ter um papel central na imagem do Dão, sendo responsável por 21,3% da área da vinha na região. Impositiva por natureza, mas quando bem integrada, a casta contribui com estrutura, profundidade aromática e identidade. Por isso, não fazia sentido excluí-la completamente desta prova; limitámos apenas a sua presença de forma a não ultrapassar os 50% do lote.
O que é um blend tradicional do Dão?
Eis uma questão que só pode ser respondida sob um prisma histórico. O lote das quatro magníficas – Touriga Nacional, Tinta Roriz, Alfrocheiro e Jaen –, que, entendemos hoje, como “tradicional”, certamente não o foi antes da filoxera, nem em meados do século passado. A composição das vinhas e dos vinhos foi-se alterando conforme modas, estudos científicos que privilegiaram umas castas em detrimento de outras, avanços na viticultura, alterações climáticas e outros factores.
A Touriga Nacional passou por um período de abandono antes de alcançar o novo estrelato. A Jaen, que mal surgia nos registos, domina hoje as plantações. A Tinta Roriz, que aterrou na região nos anos oitenta do século XX, ascendeu rapidamente à liga das castas recomendadas. A Baga, outrora dominante, aparece agora em field blends ou como raridade monovarietal. Algumas variedades perderam-se pelo caminho; as mais sortudas foram resgatadas do oblívio, graças ao esforço de produtores, como a Lusovini.
De acordo com a Ampelografia Portuguesa de 1865, antes da praga da filoxera, três castas tintas presentes em praticamente todos os concelhos da atual região do Dão eram a Touriga Nacional (à época conhecida como Tourigo ou Mortágua), o Alvarelhão e o Bastardo. Para além destas, são mencionadas Amaral, Baga, Tinta Amarela, Tinta Carvalha e Tinta Francisca, bem como outras variedades cujos nomes hoje são pouco conhecidos, como Coração de Galo ou Pilongo.
Em 1953, Tourigo e Alvarelhão eram obrigatórias nas novas plantações, com um mínimo de 10%. Em 1985, a Touriga Nacional passou a ser a única obrigatória com um mínimo de 20% das novas plantações; as castas Alfrocheiro, Bastardo, Jaen, Tinta Pinheira, Tinta Roriz e Rufete podiam chegar até 80%, enquanto Alvarelhão, Tinta Amarela e Tinto Cão não deviam ultrapassar 20% das plantações.
Em 1993, as castas foram divididas em “autorizadas” e “recomendadas”. As primeiras incluíam o quarteto principal, para além de Alvarelhão, Bastardo, Rufete (Tinta Pinheira), Tinto Cão e Tinta Amarela. Foram ainda mencionadas as variedades que não podiam ultrapassar 40% do conjunto: Alicante Bouschet, Cabernet Sauvignon e Pinot (Noir, presume-se).
Os estilos de vinificação também recebiam as influências de cada época. No início dos anos 2000, os produtores do Dão sentiam-se tentados a apanhar a onda do Novo Mundo, com muita cor e concentração, procurando maior valorização no palco internacional. Isso criava uma certa incoerência com o perfil dos vinhos da década de 1960, quando o Dão era visto como a “Burgúndia de Portugal”. Não sou adepta destas alusões a regiões extra-lusas, mas percebe-se que o termo apelava à ideia de elegância. Hoje, temos produtores antigos, como a Casa da Passarella, ou mais recentes, como a Dona Sancha e o Domínio do Açor, que privilegiam este lado subtil e delicado, em detrimento da extração e opulência.
Há já quase 15 anos, três grandes enólogos do Douro — Jorge Moreira (Poeira), Francisco Olazabal (Quinta do Vale Meão) e Jorge Borges (Wine & Soul) — criaram no Dão o projecto conjunto com a abreviatura M.O.B. “Nos vinhos do Douro há sempre sensação de calor; no Dão também se consegue maturação fenólica, mas os vinhos são energéticos, tensos, com muita frescura e adquirem equilíbrio com menos extração”, explica Jorge Moreira.
Jaen: perfume e macieza
É uma casta de nacionalidade dupla: por um lado, é filha de progenitores portugueses, a Alfrocheiro e a Patorra; por outro, apresenta maior variabilidade genética em Espanha, onde é identitária nas denominações de origem Bierzo e Ribeira Sacra. Supõe-se que andou pelos caminhos de Santiago e atravessou fronteiras através das práticas de intercâmbio agronómico. As primeiras referências surgem em 1886 e 1889, nas regiões de Mangualde e Penalva do Castelo. Em 1973, a casta era permitida nas novas plantações até 30, 40% em alguns concelhos da região. Sendo produtiva, mereceu atenção dos viticultores, que entregavam uvas às adegas cooperativas. Outra vantagem era o grau alcoólico provável mais elevado, o que se reflectia na remuneração, ao contrário da Baga, que perdeu esta corrida a partir das décadas de 1950 e 1960.
A Jaen é quase exclusiva do Dão, onde lidera as plantações com 22,8%, segundo os dados oficiais da comissão vitivinícola da região. Porém, a sua presença dominante no encepamento, não se traduz em valorização. Nem sempre é plantada nos sítios mais adequados, não é pensada para brilhar, como em Bierzo. Sendo muito sensível ao terroir, não apresenta comportamento homogénio dentro da região e acaba por ser pouco consensual. Produz muito, sobretudo em terrenos férteis, mas é susceptível ao míldio e ao oídio, e apodrece com facilidade, o que obriga a evitar zonas mais húmidas. Resiste bastante bem ao stress hídrico, mas não gosta de calor em excesso.
Com produções entre seis e oito toneladas por hectare, e desde que esteja plantada no sítio certo, a Jaen é capaz de originar vinhos de qualidade. Em contexto de lote, pode ir até às dez toneladas por hectare.
A maturação é precoce, mas é difícil apanhá-la no ponto, porque a maturação fenólica é desfasada da acumulação de açúcar. A situação agrava-se, quando a casta é plantada em solos com maior humidade, porque com calor e água disponíveís, a maturação dispara e facilmente entra em sobrematuração. A janela de oportunidade é curta e crítica: quase de um dia para outro passa de rústica, com taninos verdes e aromas de sardinheira, para borracha queimada e acidez baixa. A Jaen contém a segunda maior concentração (após Touriga Nacional) de compostos terpénicos, apresentando, nos primeiros meses, um perfume intenso e delicado a flores, evoluindo, depois, para o aroma a fruta madura, a lembrar morangos e framboesas.
É frequentemente, para não dizer sobretudo, utilizada nos vinhos de entrada de gama, pois confere macieza e um perfume bonito e personalizado. Os vinhos arredondam depressa e ficam prontos a beber ainda jovens. O monovarietal nem sempre é possível e não em qualquer sítio. Numa recente apresentação dos vinhos da Dona Sancha, o enólogo Paulo Nunes explicou que só foi possível fazer Jaen em extreme com uvas de uma vinha com altitude mais elevada, numa zona mais fresca, onde se vindima mais tarde, pois o frio contraria o carácter primário da casta.
A idade da vinha também tem o seu impacto na produção e na maturação. Francisco Olazabal, do trio M.O.B., nota que “a Jaen das vinhas velhas parece outra casta”.
Alfrocheiro: frescura e elegância
A Alfrocheiro é uma das variedades mais fascinantes do Dão. Ausente nas referências ampelográficas do século XIX, revelou-se, mais tarde, como uma verdadeira “mãe genética” de várias castas portuguesas, incluindo o próprio Jaen. A sua designação actual surgiu no início do século XX, tendo sido conhecida, no passado, por outros nomes, como Tinta Bastardeira, Tinta Bastardinha e Tinta Francesa de Viseu. Em terras espanholas é conhecida como Bruñal, em Arribez del Duero, Caiño Gordo, na Galiza, Albarín Tinto, nas Astúrias, e Baboso Negro, nas ilhas Canárias.
Está disseminada por toda a região, sendo a quarta casta mais plantada, representando 5,9% do encepamento no Dão. Embora esteja presente noutras regiões do país, a nível nacional, não ultrapassa 1% da área de vinha. É uma casta exigente, irregular e difícil de prever. Sensível ao calor, ao stress hídrico e à insolação excessiva, não segue regras fixas: não há anos claramente “bons” ou “maus” para a Alfrocheiro. Em contrapartida, quando bem trabalhada e quando lhe apetece, oferece um equilíbrio notável entre álcool, taninos e acidez. Das quatro magníficas, revela-se mais fresca, mais elegante e mais subtil, produzindo vinhos de boa cor, taninos firmes, mas delicados e uma acidez natural mais pronunciada. Jorge Moreira vê semelhanças com Pinot Noir, mas reconhece que precisamos de 200 anos para a elevar ao mesmo nível de reconhecimento.
Tinta Roriz: omnipresente e controversa
É a casta ibérica mais conhecida internacionalmente como Tempranillo. A nível nacional é líder absoluto, ocupando 10% da área total da vinha. No Dão, surgiu no final do século passado, após o reconhecimento das suas aptidões pelo Centro de Estudos de Nelas. Em 1983, a par com a Tinto Cão, era a variedade com menor expressão na região (apenas dois hectares) e hoje ocupa 17,6% da área plantada, posicionando-se no terceiro lugar. Embora tenha registado um crescimento exponencial e esteja omnipresente nos lotes, é uma casta polémica, considerada por muitos um erro de casting. Funciona como uma verdadeira “fábrica de açúcar”, sem que a maturação fenólica acompanhe esse ritmo, o que conduz ao desequilíbrio: ou taninos verdes e adstringentes, ou teores alcoólicos elevados com baixíssima acidez. Prefere solos profundos e bem drenados. Facilmente produz quilos de uva com bagos grandes, muito líquido e muita polpa. Neste caso, perde drasticamente a qualidade. O controlo de produção é, por isso, indispensável.
Em anos favoráveis, pode dar vinhos intensos, estruturados e complexos; noutros, a qualidade é difícil de extrair. Exige decisões rigorosas na vinha e na adega. Alguns produtores optam por vindimas fracionadas, destinando parte da uva para a produção de rosé ou espumante, de forma a preservar frescura e equilíbrio. Outros preferem arrancá-la e substituí-la pelas castas mais ajustadas à região. Em anos favoráveis, pode originar vinhos intensos, estruturados e complexos; noutros, a qualidade é difícil de extrair.
Outras castas
A Tinta Pinheira (3,1% das plantações) é o nome local da Rufete. Queima-se com o sol e apodrece com a chuva, duas das razões pelas quais perdeu popularidade. É uma casta de perfil vegetal, mas delicada, que requer igual delicadeza na vinificação. Os vinhos não apresentam acidez particularmente elevada, mas transmitem sempre energia e frescura natural, segundo a informação dada por Luís Lopes, enólogo da Domínio do Açor. Na adega, optam pelo desengace total e por uma extracção muito ligeira, quase como de uma infusão se tratasse. Outro cuidado prende-se com o uso da barrica: se a Jaen “consegue mastigar a madeira”, a Tinta Pinheira é muito mais sensível. O estágio prolonga-se por dois anos em barricas com três a quatro anos de uso, de modo a que a madeira não se faça notar no vinho.
A Baga (4,9% das plantações) foi, em 1983, a casta com maior encepamento na região, totalizando 3.142 hectares. Em 2008 ainda mantinha uma presença significativa, mas, sendo de ciclo longo e sensível à podridão, não tinha qualquer hipótese. Como explica Paulo Nunes: “Nos anos 80 e 90, quem mandava na viticultura era o São Pedro, e as chuvas no equinócio aconteciam oito em cada dez anos. Hoje já é possível empurrar a decisão da vindima para dentro de Outubro.” Em algumas vinhas, realizam duas a três vindimas faseadas, em função do destino das uvas.
A Malvasia Preta resulta do cruzamento natural entre Alfrocheiro e Sarigo. Com a primeira referência datada de 1866, está mais presente no Nordeste de Portugal. Transmite acidez bastante elevada e aroma com fruta mais imediata e fácil de gostar.
A casta Monvedro é mais uma descendente do Alfrocheiro. Está presente na região em quantidades diminutas (em 1986 representava menos de 0,01% do encepamento). Medianamente produtiva, abrolha cedo e amadurece tardiamente. Mostra-se bastante sensível às vagas de calor, pelo que necessita de ser plantada em zonas mais frescas e sombrias. É uma variedade pouco consensual, bastante rústica e austera, com acidez e taninos elevados. Por sua vez, a Tinta Carvalha já teve alguma presença na região, mas, por apresentar pouca matéria corante e baixa produção de açúcar, deixou de ter expressão, não se adequando à imagem dos vinhos idealizados na década de 1990. Hoje, segundo Paulo Nunes, apresenta um perfil que “respira o Dão”.
Se as castas isoladas ajudam a compreender a região, os blends permitem interpretá-la. A essência do Dão reside na complexidade dos lotes, construídos na adega pelas mãos e sensibilidade humana ou na vinha com castas misturadas e, por vezes, centenárias.
Field blend e vinhas velhas
Não tendo nada a ver com a conotação romantizada de “field blend” de hoje, na época em que surgiram, estes lotes eram uma solução meramente prática, baseada no conhecimento empírico. Não se estudavam as castas a fundo do ponto de vista agronómico e enológico; plantava-se o que estava mais à mão ou, mais próximo de verdade, o que os enxertadores tinham disponível. O field blend funcionava como uma espécie de apólice contra as adversidades climáticas: com muitas variedades à mistura, colmatava-se a insegurança e conseguia-se estabilidade, tanto na produção, como na qualidade.
O desafio das vinhas velhas, com uma grande variedade de castas, consiste em garantir um controlo eficiente da maturação e definir a data de vindima. Às vezes, é possível identificar uma ou duas videiras que reflectem o nível de maturação da vinha toda, como faz Paulo Nunes, ou realizar várias passagens na vindima, como refere Álvaro de Castro, o proprietário da Quinta da Pellada.
As vinhas antigas são igualmente mais difíceis em termos fitossanitários e muito exigentes em trabalhos na vinha. É preciso conhecer bem não apenas a parcela, mas também as videiras, para podar cada uma de forma adequada. Nesta prova, tivemos alguns vinhos das vinhas velhas. Quinta da Pellada Vinhas com 70 anos, com predominância das castas Jaen, Alvarelhão, Tinta Pinheira, Tinta Carvalha, Bastardo, entre outras, e reduzida expressão de Touriga Nacional, Português Azul e Negro Mouro. O nome da parcela “Alto” é autoexplicativo, pois fica a 550 metros de altitude, em solo granitico com linhas de argila e areia.
Da Casa Américo veio um vinho de uma vinha centenária da Quinta da Cerca, localizada na sub-região da Serra da Estrela – desengace parcial e fermentação em lagar aberto com uma primeira pisa a pé. A partir daqui apenas molharam a manta uma vez por dia. O fim da fermentação e o estágio de 24 meses ocorreram em depósito de cimento, aos quais se somaram 24 meses em garrafa.
Tivemos uma boa amostra de monovarietais de Alfrocheiro (sete) e Jaen (quatro) e ainda um de Tinta Pinheira e um de Tinta Roriz. As castas estrangeiras, como é o caso de Syrah e Cabernet Franc, não são permitidas para denominação de origem, mas podem entrar nos vinhos regionais de Terras do Dão.
(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2026)
*Nota: A ordem das garrafas é meramente aleatória
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Morgado de Silgueiros
Tinto - 2023 -

Dom Vicente
Tinto - 2021 -

Conde de Anadia
Tinto - 2022 -

Castelo de Azurara
Tinto - 2017 -

Caminho
Tinto - 2023 -

Tazem
Tinto - 2022 -

Soito
Tinto - 2017 -

Taboadella
Tinto - 2021 -

Pedra Cancela
Tinto - 2020 -

Adega de Penalva
Tinto - 2020 -

Quinta Madre de Água
Tinto - 2019 -

Quinta dos Carvalhais Edição Especial
Tinto - 2019 -

Quinta do Perdigão
Tinto - 2018 -

Quinta de Lemos
Tinto - 2015 -

Quinta da Vegia
Tinto - 2019 -

Opta Imperatriz do Dão
Tinto - 2018 -

Dom Bella
Tinto - 2015 -

Desalinhado
Tinto - -

Cabriz Edição Especial
Tinto - 2018 -

Borges
Tinto - 2023 -

Vinha Negrosa
Tinto - 2021 -

O Estrangeiro Single Vineyard
Tinto - 2023 -

O Fugitivo Vinhas Centenárias
Tinto - 2019 -

M.O.B.
Tinto - 2023 -

Líquen
Tinto - 2022 -

Domínio do Açor
Tinto - 2022 -

Quinta da Pellada Alto
Tinto - 2019 -

Envelope
Tinto - 2018 -

Casa Americo Vinhas Centenárias
Tinto - 2018 -

Quinta das Corriças
Tinto - 2018
Tejo Gourmet em ação!

Até ao dia 31 Março, 55 restaurantes de Portugal Continental e da ilha da Madeira criam menus de harmonização com Vinhos do Tejo, no âmbito da 12ª edição do Tejo Gourmet, iniciativa que inclui 17 novos espaços de restauração. Este evento gastronómico, organizado pela Comissão Vitivinícola Regional do Tejo (CVR Tejo) e pela Confraria Enófila […]
Até ao dia 31 Março, 55 restaurantes de Portugal Continental e da ilha da Madeira criam menus de harmonização com Vinhos do Tejo, no âmbito da 12ª edição do Tejo Gourmet, iniciativa que inclui 17 novos espaços de restauração. Este evento gastronómico, organizado pela Comissão Vitivinícola Regional do Tejo (CVR Tejo) e pela Confraria Enófila Nossa Senhora do Tejo, é mais do que um concurso, com direito a um painel de jurados, entre gastrónomos e especialistas na matéria, com a missão de avaliar o alinhamento constituído por entrada, prato, sobremesa e referências vínicas da referida região vitivinícola. É, também, o convite aberto ao público em geral a experimentar as novidades dos 56 restaurantes aderentes (espreite AQUI a lista) e conhecer o pairing selecionado entre vinhos certificados DoTejo e Vinho Regional Tejo. Na lista de inscritos para esta edição, a maioria está localizada no centro do país, seguindo-se Porto e Norte, Alentejo, Algarve e Madeira.
A 22 de Maio, no espaço IVV, em Almeirim, onde terá lugar a Gala Tejo 2026, será revelado o melhor restaurante da competição, assim como os que se destacaram pela carta de vinhos e pela harmonização. Sem esquecer os mais bem classificados nos conceitos gastronómicos a que se candidatam: casa de petiscos, cozinha tradicional, cozinha de autor e cozinha internacional. Em cada categoria, serão ainda entregues diplomas de grande ouro, ouro e prata.
O Tejo Gourmet teve início em 2010, com o objetivo de promover os Vinhos do Tejo. De uma competição de índole regional passou a contemplar, dois anos mais tarde, os restaurantes de lés-a-lés do país.
Prémios Grandes Escolhas «Os Melhores do Ano» dia 6 de Março no Estoril

Os Prémios Grandes Escolhas definem-se como a celebração do que melhor se faz em cada ano na área dos vinhos e da gastronomia em Portugal. Têm como objectivo o reconhecimento da excelência do trabalho no sector, premiando anualmente os melhores vinhos, os melhores profissionais, empresas, produtores,restaurantes, garrafeiras e instituições que mais se distinguiram, segundo os critérios editoriais […]
Os Prémios Grandes Escolhas definem-se como a celebração do que melhor se faz em cada ano na área dos vinhos e da gastronomia em Portugal.
Têm como objectivo o reconhecimento da excelência do trabalho no sector, premiando anualmente os melhores vinhos, os melhores profissionais, empresas, produtores,restaurantes, garrafeiras e instituições que mais se distinguiram, segundo os critérios editoriais da revista.
Em 2026 o Jantar de Gala volta a realizar-se em Lisboa, mais especificamente no Centro de Congressos do Estoril, com centenas de convidados presentes no dia 6 de Março.
No que se refere aos vinhos, a grande espectativa é mais uma vez revelar o Top 30, aqueles que o conjunto de provadores e críticos da Grandes Escolhas consideram serem os 30 melhores vinhos absolutos provados durante o ano 2025, e dentro destes, qual o melhor espumante, o melhor vinho branco, rosé, tinto e fortificado. Ainda nos vinhos são também anunciados os melhores em cada região, aquilo que a revista designa como “Os Melhores de Portugal”.
Já no que se refere aos Troféus Grandes Escolhas, serão anunciados no final do jantar os 20 Prémios Especiais, cobrindo as áreas da viticultura, da enologia, da performance dos produtores e das empresas, com assim como sommeliers e restaurantes. Em qualquer destes domínios a equipa da Grandes Escolhas escolhe por consenso os premiados que mais se distinguiram no ano transacto nas seguintes categorias:
Esta cerimónia de anúncio dos Prémios Grandes Escolhas relativos ao ano 2025 continuará a ser divulgada online (pode assistir AQUI) e poderá ser seguida em directo por todos os interessados. Fica desde já o convite!
RUINART: A quintessência do espírito de Champagne

Acedemos ao 4 Rue de Crayères através de um caminho como que escondido, parecendo esculpido directamente no calcário. As primeiras impressões são fortemente sensoriais, desde a brancura do giz ao azul do céu, passando pelo verde das copas das árvores. À medida que percorremos esse caminho, emerge o Pavilhão Nicolas Ruinart, desenhado pelo arquitecto japonês […]
Acedemos ao 4 Rue de Crayères através de um caminho como que escondido, parecendo esculpido directamente no calcário. As primeiras impressões são fortemente sensoriais, desde a brancura do giz ao azul do céu, passando pelo verde das copas das árvores. À medida que percorremos esse caminho, emerge o Pavilhão Nicolas Ruinart, desenhado pelo arquitecto japonês Sou Fujimoto, um magnífico edifício calcário, todo ele aerodinâmico, com curvas suaves, longas linhas horizontais, inspirado na evanescência das bolhas de champagne, esculpidas pela luz. O telhado, assimétrico, forma uma curva e lembra a redondeza de uma bolha de champagne. Mudando gradualmente do transparente para o subtil opaco, criando a impressão do borbulhar num copo de champagne. A janela imensa emoldura a vista do pátio principal, para as maravilhosas fachadas do século XIX da Maison Ruinart.
Mas, sob toda esta beleza e grandiosidade, estão as caves, as famosas Crayères, classificadas como Património Mundial da UNESCO, e nada nos prepara verdadeiramente para tão grande monumentalidade. As caves estão a 38 metros de profundidade e possibilitam o acesso a oito quilómetros de túneis, pedreiras desactivadas, de pedra calcária e giz, algumas datadas da Era Medieval. Aqui, o ar é fresco e húmido, o som que se ouve é apenas o murmúrio do tempo. É onde milhares, ou milhões, de garrafas alinhadas – a Ruinart nunca revela os números de garrafas produzidas ou em cave – aguardam, pacientemente, os seus momentos de fama.
Expressão artística
Fundada em 1729, em plena Era das Luzes, a Maison Ruinart nasceu da ideia pioneira de fazer do champagne uma expressão cultural e uma arte de viver. Nicolas Ruinart, inspirado pelas visões de seu tio, o monge beneditino Dom Thierry Ruinart, fundou a primeira casa, da região de Champagne, oficialmente dedicada a este vinho com bolhas mágicas, que então passou a ser servido nas coroações dos Reis de França e no Palácio Real, e a encantar as demais cortes europeias.
Ao longo da história, a Maison Ruinart sobreviveu a crises e guerras, incluindo o bombardeamento das suas vinhas e edifícios durante a ocupação alemã, para além do roubo e delapidação quase total do seu stock de garrafas. Contudo, sempre conseguiu erguer-se e estar à altura dos desafios, sem nunca perder de vista a inovação e o desenvolvimento tecnológico, sempre numa busca incessante pela excelência e perfeição dos seus champagnes.
Dirigida pela família Ruinart até 1963, integra, desde 1987, o grupo do segmento de luxo LVMH (Louis Vuitton Moet Hennessy). A luz, o branco e a transparência tornaram-se símbolos da sua estética e do seu vinho, e a Chardonnay, casta que define a sua assinatura, é trabalhada como metáfora dessa luminosidade: um reflexo líquido da elegância e da precisão. A Ruinart conseguiu construir uma linguagem e um estilo muito próprios e distintos, sempre alicerçados na mais completa harmonia entre tradição, vanguarda e criatividade.
O ‘Petit R’ é, claramente, disso um exemplo maior. Trata-se de uma experiência gastronómica e visual, um show multimédia, imersivo e esteticamente encantador, que pudemos desfrutar durante o jantar na Maison. Ao mesmo tempo, é uma visão contemporânea de acontecimentos passados, da história de Champagne vista através da Maison Ruinart. Através da personagem ‘Petit R’, criada pelo artista japonês Kanako Kuno – sempre a tal ligação à arte, presente em todos os momentos definidores –, a história é contada em cima da mesa, literalmente. O mundo inteiro cabe no prato, a toalha transforma-se num ecrã gigante, onde tudo se desenvolve. As figuras dos animais e das pessoas ganham tridimensionalidade, saltam do prato, rodopiam, contam histórias. Tudo funciona de forma sincronizada até ao ponto em que ‘Petit R’ abre uma garrafa de champagne e se ouve o som bem real da rolha a saltar: é um sommelier que abre uma garrafa, verdadeira, em perfeita sincronia de tempo!
Caroline Fiot, a primeira mulher com a função de Cellar Master na região de Champagne, liderou o estudo do impacto da luz no Blanc de Blancs e a criação da Second Skin Case
A segunda pele
Na alvorada dos seus 300 anos – a Maison Ruinart celebrará o seu tricentenário em setembro de 2029 –, dois factores importantíssimos são alvo de dedicação máxima na Maison Ruinart: sustentabilidade e impacto das alterações climáticas em Champagne. Quanto ao primeiro, destaca-se a criação do estojo Second Skin, literalmente uma ‘segunda pele’ para a garrafa Ruinart, que as envolve à sua forma. De acordo com a marca, esta é “composta por 99% de papel (1% é cola), feito de fibra de madeira proveniente de florestas geridas ecologicamente na Europa, e é nove vezes mais leve que a anterior geração de gift boxes, reduzindo a pegada de carbono das embalagens em 60%.” Além da componente ecológica, a Second Skin protege o vinho da luz, é resistente à humidade e “permanece intacta num frapê de gelo até três horas”, refere a Ruinart. De cor branca, tem um padrão em relevo a invocar as Crayères, as caves calcárias da Maison.
Uma palavra é devida a Caroline Fiot, nova Cellar Master da Ruinart, que sucede a Frédéric Panaïotis, falecido este ano, num contexto delicado. Entrou na Ruinart em 2016, participou no comité de prova, supervisionou fermentações e liderou projetos de investigação, como o estudo do impacto da luz no Blanc de Blancs e a criação da Second Skin Case, embalagem sustentável que substitui o tradicional estojo em papel. É, também, a primeira mulher a desempenhar tais funções na história da região de Champagne.
História e inovação
Hoje em dia, talvez mais do que nunca, seja na região de Champagne, seja no mundo, torna-se necessário (re)pensar os nossos estilos de vida, a nossa cultura enraizada e, talvez, questionar o nosso conhecimento. E em vez de querermos que a natureza se adapte às nossas necessidades, talvez seja bom pensarmos em adaptar-nos àquilo que a natureza tem para nos oferecer.
Esta foi a grande mensagem que eu retive nesta minha viagem a Reims e à Ruinart. Há, de facto, trabalho muito sério a ser feito para adaptar a região às alterações climáticas, que vieram para ficar, e quando vemos uma das regiões vínicas mais fortes e mais unidas do mundo a trabalhar em conjunto para alcançar um determinado objectivo, vemos que a coisa é mesmo para levar a sério. No entanto, já havia sinais. É uma coisa antecipada, e que vem sendo pensada e testada há já vários anos, basta estarmos atentos ao que nos rodeia, o que, na maioria das vezes, se revela o mais difícil.
Ora vejamos. Grande parte do sucesso de Champagne deve-se à utilização mais ou menos generalizada do estilo non-vintage, expressão traduzida na mistura entre vinhos de reserva e o vinho da colheita mais recente, uma espécie de receita seguida pela grande maioria dos produtores de Champagne, das Big Marques aos pequenos vignerons. No fundo, pretende-se mitigar ou eliminar o mais possível o efeito colheita, ou seja, nos anos mais frios, quando as uvas são mais ácidas, porque não conseguem atingir pontos de maturação adequados, incorpora-se mais vinhos de reserva no blend, de modo a adicionar estrutura e complexidade à frescura e energia da nova colheita, ao passo que, em anos mais quentes, se incorpora menos vinhos de reserva, pois pretende-se manter a juventude da nova colheita.
De um modo geral, tem sido este o caminho percorrido na região até há bem pouco tempo. Porém, o impacto das alterações climáticas têm vindo a traduzir-se num registo consecutivo de fruta mais madura, ano após ano, e num aumento médio real de 1,2% de álcool nas uvas nos últimos 30 anos.
O novo normal
A grande diferença de uma região como Champagne é que, ao invés de olhar para as alterações climáticas como uma ameaça, decidiu encará-las como uma oportunidade. E, de repente, o estilo non-vintage, e até a própria dosage, deixaram de fazer tanto sentido, ou nenhum mesmo. Atualmente, é quase tudo produzido em estilo vintage, com nuances introduzidas pelas Reservas Perpétuas quando utilizadas, e, graças aos maiores níveis de açúcar nas uvas, Champagnes Brut Nature ou Extra Brut são a nova normalidade.
Assim, tudo nos começa a fazer sentido, quando a Krug criou o estilo multi-vintage das suas Grand Cuveés, quando Charles Heidsieck começou a identificar o ano base no contra-rótulo, a Laurent-Perrier criou a Cuvée Ultra Brut num estilo super seco e, mais recentemente, a icónica Maison Louis Roederer abandonou definitivamente o estilo non-vintage da sua Cuvée Brut Premier, criando a Collection, um blend de multi-vintages identificados.
E a Ruinart? Aí está a Cuvée Blanc Singulier, por enquanto só disponível em França, mas que, provavelmente, num futuro não muito longínquo, talvez venha a ser a nova normalidade da Ruinart, enquanto que a de hoje, o icónico Blanc de Blancs, talvez passe a ser a excepção. Aguardemos com serenidade e sempre com champagne no copo!
(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2026)
Editorial: Vinho? Nem vê-lo!

Editorial da edição nrº 106 (Fevereiro de 2026) Imaginem o mundo sem vinho. Um mundo onde séculos de cultura, economia e conhecimento agrícola e enológico seriam descartados em prol de um zelo sanitário. Nada de brindes ou convívios, nada de partilha ou harmonização de vinho e comida. Apenas uma sensação de satisfação de que conseguimos […]
Editorial da edição nrº 106 (Fevereiro de 2026)
Imaginem o mundo sem vinho. Um mundo onde séculos de cultura, economia e conhecimento agrícola e enológico seriam descartados em prol de um zelo sanitário. Nada de brindes ou convívios, nada de partilha ou harmonização de vinho e comida. Apenas uma sensação de satisfação de que conseguimos reduzir um ou dois por cento de risco estatístico comunicado pelas instituições oficiais, incluindo a Organização Mundial da Saúde, que tanto se preocupam com o nosso bem-estar. Nesta realidade, eu ficaria sem trabalho, é certo, mas será que o mundo realmente se tornaria mais saudável?
O “tsunami” de campanhas anti-álcool, que atingiu a indústria vitivinícola no último ano, promove uma narrativa que demoniza o vinho ao colocá-lo indiscriminadamente no mesmo saco de todas as bebidas alcoólicas, como se fosse o responsável directo por uma extensa lista de doenças, ignorando contextos culturais, padrões de consumo e diferenças entre produtos.
Longe vai o tempo em que beber vinho era, em termos sanitários, menos arriscado do que beber água (embora, em alguns países, ainda seja verdade). Hoje, o vinho é tratado como inimigo da saúde pública; ao mesmo tempo, a cannabis é reabilitada e ressurge quase como uma nova panaceia da indústria do bem-estar. Não sou apologista de teorias de conspiração, mas não posso ignorar a realidade: as vendas do vinho continuam a descer a nível mundial, enquanto a indústria legal da cannabis movimenta quase 70 mil milhões de dólares por ano, alimentada por grandes investidores, farmacêuticas e multinacionais de bebidas. Os setores tradicionais, como a vitivinicultura, tornam-se alvos convenientes para campanhas alarmistas. E como normalmente acontece com temas polémicos, poucos se dão ao trabalho de ir além dos títulos sensacionalistas. Leem na diagonal, veem os bonecos de infográfica e retêm os slogans do género “o vinho provoca cancro”, que depois se propagam como fogo nas redes sociais. Raramente alguém lê os estudos originais, que muitas vezes nem estão disponíveis ao público. Mas o que está sempre ao alcance são artigos anti-álcool repletos de números assustadores que, muitas vezes, distorcem a realidade pela forma como os riscos estão apresentados. A maior parte das publicações que relacionam vinho e doenças apoia-se em estudos que identificam correlações estatísticas, mas não demonstram a causalidade directa. Estes estudos não controlam de forma suficiente variáveis como dieta, sedentarismo, fatores socioeconómicos, poluição, estilo de vida, outras doenças ou medicação associada. A medicina não é uma ciência exacta, como física ou matemática, porque o corpo humano é complexo e nem sempre previsível. O conhecimento evolui à medida que novas investigações surgem, muitas vezes para corrigir ou contrariar conclusões anteriores. As organizações governamentais e reguladoras, com as suas agendas políticas, acabam inevitavelmente por influenciar a forma como estes estudos são comunicados.
Não quero negar o óbvio: o vinho contém álcool, cujo consumo abusivo é, realmente, prejudicial à saúde, tal como o consumo abusivo de açúcar, sal e até água. Existe uma diferença abismal entre beber vodka, para cair redondo no sofá, e desfrutar uma experiência enogastronómica, em que o vinho é um elemento cultural, social, sensorial e intelectual, se quiserem, e não um atalho para a embriaguez. A moderação é essencial e tem raízes na cultura gastronómica e vínica, que pode e deve ser ensinada. Neste mundo – ainda com vinho, felizmente – continuamos a precisar de bom senso e, ocasionalmente, de um bom copo para enfrentar a realidade. Aliás, alguém já se lembrou de estudar o impacto do vinho na felicidade humana? V.Z.
ESTIVE LÁ: A COLMEIA HERITAGE

Foi a iniciativa e o arrojo de Fernando Neves, cuja visão não se encerra nos apertados limites de uma ilha no meio do Atlântico, que levou o empresário, na viragem do século, a comprar o belo e vetusto edifício onde em jovem estudou, no centro de Ponta Delgada, e a o transformar num hotel. Nasceu […]
Foi a iniciativa e o arrojo de Fernando Neves, cuja visão não se encerra nos apertados limites de uma ilha no meio do Atlântico, que levou o empresário, na viragem do século, a comprar o belo e vetusto edifício onde em jovem estudou, no centro de Ponta Delgada, e a o transformar num hotel. Nasceu assim o Hotel do Colégio. Nesta unidade quis fazer um restaurante, que marcasse a diferença face ao panorama cinzento da restauração açoriana à época.
A Colmeia, que recusou ser um simples complemento do serviço a hóspedes, mas antes um sítio de encontros e partilhas, aberto à comunidade, um ponto de confluência de apreciadores, para a celebração dos produtos e sabores açorianos, mas sempre com uma preocupação de alargar horizontes a outras influências. Foi nessa Colmeia que, em 2005, Fernando Neves voltou a inovar, promovendo o primeiro jantar vínico, facto inédito na época, convidando, para tal, o produtor (na altura apenas duriense) Rui Roboredo Madeira. Do sucesso desse jantar resultaram duas coisas: uma amizade para a vida entre estes dois protagonistas e a afirmação da Colmeia como restaurante de referência no que toca à oferta de vinhos e à excelência no serviço.
Passados 20 anos, o restaurante reinventa-se e passa a chamar-se A Colmeia Heritage, com um conceito alargado, assente no respeito pela tradição açoriana (justamente sublinhado no nome), mas com uma aposta permanente na inovação e na procura equilibrada de novas apostas, ao introduzir técnicas exógenas, que valorizam a excelência dos produtos endógenos dos Açores. E para celebrar a renovação do espaço e a abertura a novos sabores, nada como recriar esse memorável jantar vínico, com o mesmo produtor, agora também ele com uma presença alargada à região da Beira Interior, onde faz vinhos com uma identidade muito própria.
Nesse momento, e em outras duas refeições que tivemos a oportunidade de participar, A Colmeia Heritage revelou-se um restaurante surpreendente na forma como trabalha os produtos locais, com destaque para o fabuloso atum-rabilho, presente em várias composições, o delicadíssimo lírio e outros peixes do riquíssimo mar dos Açores ou como recria uma bem conseguida versão açoriana do italiano vitello tonatto, com a designação “do mar ao prado”, na qual finas fatias de lombo de novilho são envolvidas num sápido molho de atum e alcaparras, aqui bem complementada com o vinho Beyra Pinot Noir, de Rui Madeira.
À criatividade do Chef residente, Filipe Estrela Rego, contrapõe-se as muito apreciadas opções orientais de que o restaurante também foi um precursor na ilha de São Miguel, nomeadamente no shushi e no sashimi, fazendo-se valer da frescura irrepreensível da matéria-prima e do corte preciso da preparação, pela mão do talentoso Sushiman. Tradição e modernidade estão de mãos dadas num restaurante elegante, onde o prazer da mesa e a qualidade do atendimento falam mais alto.
A Colmeia Heritage
Travessa do Colégio, 9500-610 Ponta Delgada, Açores
Almoço e jantar todos os dias, das 12h00 às 15h00 e das 18h00 às 22h00
Tel.: 296306610
QUINTA DO PESSEGUEIRO: O Douro gracioso

Graciosidade talvez seja a palavra que melhor define a Quinta do Pessegueiro no seu conjunto, aqui englobando vinhos, arquitectura, imagem, forma de estar e receber. Localizada em Ervedosa do Douro, concelho de São João da Pesqueira, a propriedade foi adquirida, em 1991, por Roger Zannier, empresário francês que criou um gigante têxtil orientado para a […]
Graciosidade talvez seja a palavra que melhor define a Quinta do Pessegueiro no seu conjunto, aqui englobando vinhos, arquitectura, imagem, forma de estar e receber. Localizada em Ervedosa do Douro, concelho de São João da Pesqueira, a propriedade foi adquirida, em 1991, por Roger Zannier, empresário francês que criou um gigante têxtil orientado para a moda infantil e que acabou por conhecer o Douro no âmbito das suas visitas profissionais a Portugal, ali decidindo deixar a sua “marca”. Em 2003, com o apoio do genro Marc Monrose, borgonhês de gema, ligado à terra e ao vinho, Zannier deu início à reconversão das vinhas existentes e à plantação de novas áreas, com sucessivas intervenções em 2007, 2008, 2011 e, mais recentemente, em 2021. A construção da adega, localizada numa zona mais alta da propriedade, arrancou em 2008, ficando terminada em 2010, ano da primeira colheita. Trata-se de um projecto arquitectónico arrojado da autoria de Artur Miranda e Jacques Bec, com a área de vinificação e armazenagem a estender-se por cinco pisos, de forma a aproveitar ao máximo a gravidade e a excluir a bombagem de massas e líquidos, contando, para tal, com a ajuda de uma cuba elevatória.
A casa principal é também um alojamento de charme, aberto ao turismo, integrando-se na rede de unidades Zannier Private Estates e Hotels
Em 2012 terminou a reconstrução do edifício principal da quinta, localizado a três quilómetros da adega. Esta bela casa integra-se perfeitamente na paisagem, num estilo que une a tradição duriense com um design mais moderno, acima de tudo ao nível de interiores. Além de apoiar a estrutura de trabalho da propriedade, o edifício é também um alojamento de charme, aberto ao turismo, integrando-se na rede de unidades Zannier Private Estates e Hotels, espalhadas por França, Espanha, Namíbia, Maurícias, Cambodja e Vietname.
No dia-a-dia da Quinta do Pessegueiro, sobretudo a partir de 2008, e com impacto decisivo no que toca à estratégia, da arquitectura, da imagem e, claro, dos vinhos, têm estado envolvidas três outras pessoas: Célia Varela, Directora-Geral, que acompanhou o nascimento e desenvolvimento do projecto; João Nicolau de Almeida, enólogo responsável pelos vinhos da casa desde a primeira hora; e Hugo Helena, Director de Viticultura e Enologia que, desde 2010, trabalha em estreita colaboração com o enólogo.
Três parcelas
As vinhas da Quinta do Pessegueiro abrangem 28 hectares em produção, distribuídos por três propriedades distintas. A Teixeira é a maior e mais próxima da adega, com 18 hectares, exposta a noroeste, com uma altitude que varia entre 75 e 418 metros. Parte das vinhas foram plantadas no início dos anos 80 do século XXI e, desde 2011, decorreram novas replantações com inúmeras castas. Ali foram igualmente recuperados socalcos pré-filoxera e plantado meio hectare com mais de 30 castas, que deverá originar, no futuro, um field blend muito especial. A seguir vem a vinha do Pessegueiro, propriamente dita, de nove hectares de vinhedos em encostas íngremes viradas a oeste, entre os 197 e os 355 metros de altitude. Vinhas velhas com mais de 110 anos (1,5 hectares) e vinhas plantadas há mais de 40 anos compõem esta área, onde as uvas amadurecem mais tarde. Finalmente, a Afurada tem apenas um hectare, acima dos 500 metros de altitude e com exposição sul.
Em termos de encepamento, predomina, nos tintos, a Touriga Nacional, seguindo-se Touriga Franca, Tinta Roriz, Sousão e Tinto Cão. Numa fase mais recente, plantaram-se outras tintas tradicionais mais raras (Tinta da Barca, Tinta Amarela, Rufete, Alicante Bouschet) e apostou-se decididamente nas uvas brancas, com destaque para Rabigato, pouco comum nesta zona do Cima Corgo, mas que os dois enólogos apreciam particularmente pela vivacidade e frescura, e Folgasão. Todas as plantações foram feitas a partir de seleção massal própria, não foi utilizada seleção clonal.
As três propriedades possuem também, como é habitual no Douro, velhas oliveiras, com as variedades Madural, Cobrançosa, Verdeal, Picual e Carrasquenha. Da apanha manual com extração a frio, a quinta produz um azeite de superior qualidade. E na Teixeira, algumas colmeias permitem, igualmente, uma pequena produção de mel, reforçando, assim, a biodiversidade do terroir, contribuindo, ao mesmo tempo, para o equilíbrio do ecossistema.
Pureza e elegância
A abordagem vitícola e enológica de João Nicolau de Almeida, aqui totalmente apoiada por Hugo Helena, é bem conhecida: vinha velha sempre que seja boa, agricultura biológica, vinificação clássica. Assim se tem feito na Quinta do Pessegueiro, onde, por exemplo, herbicidas não entram nas vinhas, um desafio acrescido face aos diferentes modelos de plantação existentes, que vão dos patamares de um bardo à vinha ao alto, passando por parcelas não mecanizadas com muros tradicionais.
Tradicional é também a vinificação, com a fermentação a decorrer com leveduras indígenas, privilegiando-se lagares de granito com pisa a pé, balseiros de madeira para os tintos e cubas inox e pipos de 600 litros para os brancos. Na adega, os vinhos são separados por parcelas, permitindo exaltar cada uma das suas singularidades, depois conservadas em cubas de pequena dimensão. A ausência total de bombagem (a cuba elevatória é preciosa) permite manter a fruta no seu estado mais puro.
A pureza da fruta é precisamente aquilo que mais marca, e impressiona, os vinhos da Quinta do Pessegueiro. Numa produção relativamente pequena – cerca de 100 mil garrafas, entre Douro e Porto –, esta expressão de fruta é transversal às várias referências, acompanhada de evidente frescura, leveza, equilíbrio e elegância. Estes vinhos, brancos ou tintos, não se destacam pela grande estrutura ou potência, antes pela notável finura e pela absoluta proporção. Parece estar tudo no sítio certo. É esta precisão, esta graciosidade, que define a forma de ser e estar da Quinta do Pessegueiro. Num mercado onde a oferta é gigante e onde não é fácil conjugar qualidade e diferença, isto tem de valer alguma coisa.
(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2026)
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Quinta do Pessegueiro
Fortificado/ Licoroso - 2021 -

Quinta do Pessegueiro
Fortificado/ Licoroso - -

Quinta do Pessegueiro
Fortificado/ Licoroso - -

Quinta do Pessegueiro
Tinto - 2021 -

Quinta do Pessegueiro
Tinto - 2022 -

Quinta do Pessegueiro
Tinto - 2023 -

Quinta do Pessegueiro
Tinto - 2019 -

Pessegueiro
Tinto - 2022 -

Pessegueiro Aluzé
Tinto - 2020 -

Quinta do Pessegueiro
Branco - 2024 -

Quinta do Pessegueiro
Branco - 2024 -

Pessegueiro
Branco - 2024 -

Pessegueiro
Branco - 2024





































