CVD – Companhia dos Vinhos do Douro estreia a JM ALMEIDA FAMILY

JM ALMEIDA FAMILY

Para um pai, poucas alegrias se comparam à de ver o filho seguir o seu caminho. Talvez apenas uma seja maior: poder caminhar ao seu lado. José Miguel Almeida é enólogo e empresário, fundador e principal rosto da CVD – Companhia dos Vinhos do Douro, tendo na marca Oboé a sua principal referência. Concluída a […]

Para um pai, poucas alegrias se comparam à de ver o filho seguir o seu caminho. Talvez apenas uma seja maior: poder caminhar ao seu lado.

José Miguel Almeida é enólogo e empresário, fundador e principal rosto da CVD – Companhia dos Vinhos do Douro, tendo na marca Oboé a sua principal referência. Concluída a formação em Enologia, em 1993, estagiou na Symington e integrou a equipa da Quinta do Crasto, antes de fundar a sua própria empresa, em 2001. Seis anos mais tarde adquiriu a Quinta do Cabeço, em Tabuaço, na margem esquerda do Douro, onde o projecto ganhou a configuração actual. Com cerca de 30 hectares de vinha, produz hoje mais de 200.000 garrafas por ano.

José Miguel Almeida, o filho, nasceu com o projecto, cresceu entre as vinhas e a adega, acompanhando desde cedo o trabalho do pai e tudo o que envolve a produção de vinho. Por isso, não foi de estranhar: enveredou pelo mesmo caminho. Concluiu a licenciatura em Bioengenharia, com especialização em Engenharia Alimentar, prosseguindo depois para o mestrado na mesma área, na Universidade Católica Portuguesa, no Porto. Actualmente frequenta uma pós-graduação em Enologia, formação que complementa com o curso de especialização em Wine Management, no ISAG, e com o curso de nível intermédio em Vinificações da AgroB Business School.

O novo projecto JM Almeida mostra um pouco das duas gerações da família. A colheita da estreia é de 2020, em que o João Miguel, estando ainda na faculdade, participou de corpo e alma. Em plena pandemia, com as aulas online, pôde acompanhar o trabalho na adega, ajudando, aprendendo e contribuindo com a sua opinião. Os lotes foram feitos de forma a que os dois se identificassem com o resultado final.

Ambos os vinhos resultam de um field-blend de várias castas. O branco estagiou 12 meses em barricas de carvalho francês e a produção traduz-se em 1.430 garrafas standard, 50 magnums e 35 garrafas de 3 litros. O tinto foi vinificado em lagar, com pisa a pé, fermentou em cubas de inox e estagiou depois 12 meses em barricas de carvalho francês, das quais 40% novas. Foram produzidas 1.275 garrafas, 72 magnums e 35 garrafas de 3 litros.

(Artigo publicado na edição de Julho de 2026)

Geradora, o novo restaurante do Esporão

Geradora

Na histórica Tapada da Ajuda, um edifício industrial centenário reabre a 18 de setembro, no meio de um cenário campestre, com árvores frondosas, dando lugar ao projecto do Esporão na cidade de Lisboa, a Geradora. O Chef Manuel Liebaut, cujo currículo soma várias experiências em restaurantes reconhecidos (ao lado de Ferran Adrià, em Barcelona, n’ […]

Na histórica Tapada da Ajuda, um edifício industrial centenário reabre a 18 de setembro, no meio de um cenário campestre, com árvores frondosas, dando lugar ao projecto do Esporão na cidade de Lisboa, a Geradora. O Chef Manuel Liebaut, cujo currículo soma várias experiências em restaurantes reconhecidos (ao lado de Ferran Adrià, em Barcelona, n’ O Viajante, em Londres, no Noma, em Copenhaga, e no Burnt Ends, em Singapura), promete uma cozinha de produto, sazonal e cheia de sabor. O conceito? Contemporaneidade, mas simultaneamente descomplicada e confortável.

A ligação com o vinho é feita de forma descontraída. Para já, ao almoço. Há a oportunidade de fazer uma prova vínica, ideal para aprofundar o conhecimento inerente a uma região ou a uma colheita. Ou simplesmente beber um copo. Mas o melhor é visitar a garrafeira e cave da Geradora, onde pode escolher uma garrafa, para acompanhar a refeição, ou simplesmente descobrir as referências das diferentes regiões em que o Esporão produz vinho.

Geradora

Além do restaurante, a Geradora inclui uma loja e um núcleo museológico. É, também, um pólo ligado às artes, com uma programação regular de música, cinema e exposições. Soma-se a proximidade e a relação com o Instituto Superior de Agronomia, ou não fosse a agricultura, a biodiversidade, a ciência e o conhecimento transversal a este projecto. “Queremos que a Geradora seja um lugar aberto e vivo, onde as pessoas possam chegar por razões diferentes e acabar por descobrir mais do que vinham à procura. Vir para almoçar com família ou amigos e encontrar uma exposição, participar numa prova e ficar para um concerto, ou simplesmente passar tempo na Tapada. Mais do que criar um novo espaço, queremos criar um lugar que faça parte de Lisboa e ao qual apeteça voltar”, afirma, em comunicado, João Roquette, Presidente do Conselho de Administração do Esporão.

A título de curiosidade, sabia que o edifício da Geradora, localizado na outrora Tapada Real de Alcântara, criada no século XVIII, por D. João IV, foi construído com o propósito de produzir electricidade para o Palácio da Ajuda, mas acabou por nunca cumprir verdadeiramente a função para a qual tinha sido projectado.

 

Geradora

Reservas Restaurante Geradorahttps://www.sevenrooms.com/explore/geradora/reservations/create/search/

Horário de Quinta a Segunda-Feira

Morada Tapada da Ajuda, Lisboa

APCOR: a cortiça está no coração de Nova Iorque

APCOR

A campanha internacional Cork.Connect, promovida pela Associação Portuguesa da Cortiça (APCOR), marca presença na Times Square, Nova Iorque, nos Estados Unidos, através da mensagem Drink Responsibly. Choose Wine with a Natural Cork. exibida, até 22 de Novembro, num dos ecrãs mais emblemáticos da cidade, durante praticamente 24 horas por dia. Para além do reforço do […]

A campanha internacional Cork.Connect, promovida pela Associação Portuguesa da Cortiça (APCOR), marca presença na Times Square, Nova Iorque, nos Estados Unidos, através da mensagem Drink Responsibly. Choose Wine with a Natural Cork. exibida, até 22 de Novembro, num dos ecrãs mais emblemáticos da cidade, durante praticamente 24 horas por dia. Para além do reforço do consumo responsável de vinho, “acreditamos que esta campanha contribui para uma valorização crescente da cortiça enquanto vedante de excelência para o vinho, integrada numa estratégia mais ampla de afirmação da cortiça e do seu potencial para responder aos desafios da sustentabilidade, da inovação e da criação de valor”, acrescenta, em comunicado, Paulo Américo Oliveira, presidente da APCOR.

Esta iniciativa reforça, assim, a aposta da indústria da cortiça num dos principais mercados do sector. Ao mesmo tempo, está alinhada com a estratégia internacional de comunicação da indústria do vinho, no sentido de reforçar a notoriedade, o posicionamento e a diferenciação da cortiça em diversos mercados. Por outro lado, esta mensagem estará activa em Times Square durante a realização de alguns dos mais relevantes eventos de vinho em Nova Iorque – Wine Spectator Wine Experience, o New York Food & Wine Festival e o Great Wines of Italy, de James Suckling, entre outros –, constituindo uma oportunidade adicional para chegar a diversos líderes de opinião particularmente relevantes no mercado americano.

Em 2025, os Estados Unidos representaram 14% das exportações portuguesas de cortiça, posicionando-se no top 3 dos mercados de destino. A dimensão desta acção em Nova Iorque acompanha, assim, a relevância do mercado norte-americano para a cortiça e a sua capacidade de influenciar tendências globais no setor do vinho.

APCOR

ANSELMO MENDES: O lado Loureiro do Senhor Alvarinho

Anselmo Mendes

O universo minhoto de Anselmo Mendes estende-se de Monção e Melgaço até ao Vale do Lima e abrange mais de 130 hectares. Destes, 61 situam-se em Monção e Melgaço e 75 no Vale do Lima. A maior área dedicada ao Loureiro, aliada ao seu maior rendimento por hectare, faz com que o volume desta casta […]

O universo minhoto de Anselmo Mendes estende-se de Monção e Melgaço até ao Vale do Lima e abrange mais de 130 hectares. Destes, 61 situam-se em Monção e Melgaço e 75 no Vale do Lima. A maior área dedicada ao Loureiro, aliada ao seu maior rendimento por hectare, faz com que o volume desta casta seja bastante superior ao do Alvarinho. A relação de Anselmo Mendes com o Loureiro também é mais antiga do que muitos imaginam. Remonta a 2005, quando começou a recuperar as vinhas de antigas quintas senhoriais do Vale do Lima.

É preciso recuar ainda mais no tempo para perceber o contexto da produção de vinho na região. Nos anos 80 do século XX, surgiu o conceito de vinho de quinta. Empresários ligados ao têxtil, à construção civil e a outros sectores, com capacidade financeira para investir em propriedades com solares, criaram marcas próprias e começaram a engarrafar os seus vinhos. Como recorda Anselmo Mendes, no final da década existiriam cerca de 30 a 40 vinhos de quinta. Investiu-se em adegas, bem equipadas à época, e nasceram marcas ambiciosas, que conquistaram alguma notoriedade no mercado. Na altura, “o normal era um vinho custar cem escudos; estes já custavam 500 ou 600 escudos”, refere o produtor. Contudo, produzir vinhos secos, sérios e expressivos não era tarefa fácil, e muitos nunca conseguiram descolar-se dos Vinhos Verdes “clássicos”, adamados e gaseificados. Segundo Anselmo Mendes, “o que falhou, foi a viticultura”, mais precisamente, a falta de conhecimento nesta área não permitiu dar o salto qualitativo. No fundo, “sem uma boa viticultura não há hipótese nenhuma de atingir vinhos de excelência”.

Anselmo Mendes
Quinta da Ferreira

 

O Loureiro consegue manter um bom nível qualitativo até cerca das dez toneladas por hectare

 

Vale do Lima

Toda a vinha que Anselmo Mendes explora no Vale do Lima assenta em contratos de arrendamento. A razão é simples: muitos proprietários das antigas quintas estão dispostos a vendê-las, mas estas propriedades são pouco aliciantes do ponto de vista prático para quem vive da viticultura. Têm “muita casa e pouca terra”, uma característica que encarece as quintas, enquanto um viticultor procura sobretudo terra com vinha, sem o “peso” dos imóveis.

Das várias propriedades que integram o projecto de Anselmo Mendes no Vale do Lima, visitámos a Quinta da Ferreira, situada em Gondufe. Aqui, uma boa parte da vinha está implantada numa encosta que atinge cerca de 150 metros de altitude, contrastando com outras quintas em cotas muito baixas. Uma delas encontra-se mesmo dez metros abaixo do nível do mar.

Os anos de trabalho em duas sub-regiões próximas, mas distintas, permitem-lhe comparar, a partir da sua própria experiência, as condições de cada uma delas. Na sub-região do Lima há menos problemas de geadas do que em Monção, onde o ar frio, por vezes, drena mal e se acumula nos vales. No Lima, o vale é mais aberto, permitindo uma melhor circulação do ar, e a maior influência atlântica contribui para um clima mais moderado. A amplitude térmica também é diferente. No Vale do Minho, no final de Agosto, é possível registar 35º C durante o dia e temperaturas próximas dos 12º C à noite. No Vale do Lima, as máximas não atingem valores tão elevados, mas as temperaturas nocturnas também não descem tanto.

A pluviosidade anual na região é comparável à de Bordeaux, mas a distribuição da precipitação ao longo do ano é diferente. “No nosso caso, em Julho e Agosto não chove. Aliás, os grandes anos são aqueles em que chovem 30 milímetros em cada um desses meses. Isso é o ano perfeito. E depois não chove na vindima. Mas isso não existe”, lamenta o nosso anfitrião.

Estas condições tornam a rega uma necessidade, sobretudo nas vinhas jovens e em situações extremas que possam comprometer a sobrevivência das plantas, uma questão que continua a dividir os viticultores. Para Anselmo Mendes, porém, não há dúvidas: “instalámos rega praticamente em todas as vinhas. Sabendo regar de acordo com a textura do solo, estamos a poupar água no futuro. Temos vinhas com quatro e cinco anos que já não regamos.”

Segundo Anselmo Mendes, o que verdadeiramente distingue esta quinta é a conjugação de vários factores: a altitude, a boa drenagem e uma eficaz colonização subterrânea das vinhas. Esta última depende, em grande medida, das características do solo e da densidade de plantação. “Optámos sempre por uma densidade maior. Aqui estamos nas 3 300 a 3 500 plantas por hectare. A densidade, por si só, não diz nada sobre a qualidade, mas há um mínimo. Menos de 2 500 plantas comprometem a colonização subterrânea das vinhas”, explica. A lógica é simples: uma competição moderada entre videiras obriga as raízes a explorar um maior volume de solo, favorecendo o desenvolvimento do sistema radicular. Já o extremo oposto, com 10 000 plantas por hectare, também não faz sentido, sobretudo nos solos menos férteis, porque, a partir desse ponto, a competição entre videiras torna-se excessiva e deixa de ser benéfica.

 

Sem uma boa viticultura não há hipótese nenhuma de atingir vinhos de excelência

 

A natureza da Loureiro

Há duas características que definem o Loureiro: a elevada produtividade e a exuberância aromática. Foram precisamente estas duas características que Anselmo Mendes procurou contrariar.

Na reestruturação das vinhas, a escolha de material policlonal seguiu dois critérios: evitar clones muito produtivos e excessivamente terpénicos. Apesar de ser esse o perfil que o mercado mais associa à casta, Anselmo Mendes confessa que “os Loureiros amuscatelados” não fazem parte das suas preferências.

A questão da produtividade vai muito além das preferências pessoais, porque condiciona diretamente a qualidade do vinho. Ao contrário do Alvarinho, cuja produção ronda naturalmente entre as sete e as oito toneladas por hectare, o Loureiro chega facilmente às 15 toneladas e, em alguns clones, pode atingir as 29 toneladas por hectare. Não há milagres: nestas condições, a maturação resulta apenas numa “solução hidroalcoólica” pouco definida, verde e ácida.

Para Anselmo Mendes, o Loureiro consegue manter um bom nível qualitativo até cerca das dez toneladas por hectare. Nos seus vinhos da gama Private procura não ultrapassar as oito toneladas. Mas também aqui não existe uma relação direta de causa e efeito: produções muito baixas nem sempre se traduzem em vinhos melhores. “Temos vinhas que não passam das cinco toneladas. Vamos reestruturá-las porque não é viável. E mais impressionante é que o resultado não nos impressiona. Ou seja, o facto de ter aquela produção baixa não aumenta a qualidade.”

O Loureiro é uma casta particularmente sensível à podridão e, em anos de chuva durante a vindima, a qualidade da produção pode ficar comprometida. Anselmo Mendes explica que prefere evitar os tratamentos convencionais com fungicidas e aposta antes no controlo da traça-da-uva através da confusão sexual. Os difusores instalados na vinha libertam feromonas que confundem os machos e dificultam o acasalamento, reduzindo a postura de ovos e o desenvolvimento das larvas. Assim, evitam-se perfurações nos bagos, que funcionam como portas de entrada para fungos.

Como o Loureiro frutifica muito bem nos gomos mais próximos da base do sarmento e apresenta um crescimento vigoroso, adapta-se bem à condução em cordão ascendente e à poda a talão e vara. Esta opção permite controlar o vigor e ajuda a manter uma copa equilibrada. Mas o equilíbrio da videira não se constrói apenas no inverno. Ao longo do ciclo vegetativo, é através da intervenção em verde que se ajusta a relação entre vegetação e produção.

Anselmo Mendes
Quinta da Ferreira

Intervenção em verde

Ir com Anselmo Mendes à vinha é como ter uma aula de viticultura, com explicação e demonstração ao vivo. As práticas culturais têm uma influência directa na qualidade das uvas. Para o produtor, há quatro operações fundamentais na gestão da vinha: supressão, orientação, desponta e desfolha. E têm que ser executadas rapidamente, porque “com boa temperatura e água no solo, isto chega a crescer mais de cinco centímetros por dia”.

“Suprimir é tirar aquilo que não interessa, mesmo que tenha um cacho”, exemplifica o mestre, removendo os lançamentos “que nem dão para o ano seguinte e estão a contribuir para a má qualidade global”. É fundamental criar “buracos” na parede vegetal para garantir o arejamento e criar um bom microclima junto dos cachos.

Numa casta vigorosa como o Loureiro, que tende a desenvolver muita vegetação, a orientação dos lançamentos é essencial para construir uma parede vegetal equilibrada, evitando sobreposições e excesso de densidade, e tendo em conta que a variedade é sensível à desnoca – quebra de sarmentos.

A desfolha tem a vantagem de expor precocemente os cachos à luz, permitindo que se adaptem gradualmente à radiação solar. Mais tarde, a desponta promove o aparecimento de folhas novas, que nas palavras do produtor “trabalham bem” e reduzem a exposição direta dos cachos. Ao mesmo tempo, ajuda a controlar o vigor, evita que a vegetação tombe e contribui para um melhor equilíbrio entre folhas e cachos. “Feito isto, é meio caminho andado para ter qualidade”, resume Anselmo Mendes.

 

Anselmo Mendes confessa que “os Loureiros amuscatelados” não fazem parte das suas preferências

 

Loureiro ao longo dos 20 anos

Muros Antigos, é um blend das várias quintas. Não passa por barrica; as uvas são vinificadas apenas em inox e expressam a casta, a sub-região, o produtor e o ano. A influência deste último factor tem a ver com temperatura com que se vindima. O Loureiro vindimado à noite, sem ser sulfitado, oxida ao fim de 3,5 horas, enquanto vindimado a 25º C oxida ao fim da meia hora.

Para assinalar os 20 anos de Loureiro, provámos 18 vinhos monvoarietais, dos quais 12 Muros Antigos, desde a primeira colheita de 2005 até ao mais recente; e mais seis Loureiros de outras gamas de vários anos.

 

2024 – Mais discreto no aroma que o 2025, com folhas e erva-príncipe, menos floral; menos concentrado e menos salino, ligeiramente amargo e com muita tensão. (17); 2022 – Lima, limão, até alguma laranja, não propriamente aromático, tisanas, mineral em boca, muito mais seco e muito fresco. (16,5); 2019 – Muito bom no aroma, aquela evolução que não se sente, mas harmoniza o vinho; limão, parte floral bonita, manjericão e estragão; está muito bem na boca, tenso e extremamente fresco, sem transparecer a idade. (17,5); 2017 – Apetrolado ao ponto de fazer lembrar um Riesling; cogumelos, ervas aromáticas, resinoso, tem imensa força, vida, suculência e projecção de sabor; textura deslizante. (17,5); 2016 – Limão a passar para dourado; no aroma limão cristalizado, laranja, mel, muito fresco, concentrado no sabor e mais amplo. (17); 2014 – Limão dourado; laranja, limão cristalizado, tisanas, salino, talvez mais magro, mas não lhe fica mal; palato com laranja amarga, suculento, com toque de botrytis que até se enquadra bem. (17); 2013 – Dourado; cogumelos, manteiga, mel, a lembrar pêra, fruta em calda e ananás salgado; no palato balança entre o amargo e o salgado, firme e guloso. (16,5); 2011 – Dourado; fruta muito boa e fresca, cardamomo, notas de Riesling novamente, com muito vigor na prova, resinoso, caruma, limão cristalizado, lemon curd; boca espectacular, cheio, fresco, cremoso e longo. (17,5); 2010 – Dourado; xarope de limão, ananás, tisanas, austero em boca, pouco conversador, também algumas notas apetroladas. (16,5); 2008 – Doce de laranja, ananás, em caldo, muito bem projectado em boca, sem indícios de vinho velho, algum cogumelo; meloso mas com tensão. (16,5); 2005 – o ano de estreia; dourado; cogumelo, xaropes de limão e laranja, flores secas e tisanas, erva-príncipe, suculento e amplo, cremoso, levemente salino e ainda cheio de vida. (17,5)

 

Anselmo Mendes Private Loureiro 

Este vinho é o resultado de uma única vinha da Quinta da Ferreira, localizada numa encosta da margem esquerda do Rio Lima; também não vê a barrica, mas estagia durante nove meses em inox com bâtonnage, mais um ano em garrafa.

2021 – Limão Dourado; mais quente, mais fruta; quase fumado no nariz, pimenta branca, lima e limão maduro, alguma tília e louro; tenso, cremoso, mastigável, com muita estrutura e matéria. (18,5); 2020 – Limão leve; querosene, fumado, pimenta branca, pedra lascada e muita lima no sabor; acidez incisiva, mas bem coberta pela textura suculenta; salino e longo. (18,5); 2019 – Citrino dourado, fechado no nariz, ervas aromáticas, citrinos discretos, austero também na boca e com menos volume. (18,5); 2017 – Flores e querosene, menta e mentol, lima e limão e ainda caruma; austero na boca, com pedra raspada; prima pela tensão e frescura. (18,5)

Loureiro do Tiago 2020 – a interpretação de Tiago, filho de Anselmo Mendes. Fermentou em barricas usadas de 400 litros, onde depois permaneceu durante seis meses, e com um longo estágio de quatro anos em garrafa. Limão, ligeiro fumado, um toque mineral e caruma de pinheiro; discreto, mas completo, sem exuberância, muita textura, elegante, fino com barrica muito bem integrada. (18,5);

Anselmo Mendes Tempo Loureiro 2019 – Curtimenta total e estágio de 24 meses em barrica de carvalho francês de 400 litros com bâtonnage. Dourado. Ananás maduro, caruma, limão, xarope muito aromático, profundo, farmácia, tangerina, doce de laranja, mel fresco, a tensão de tanino bem coberta de textura e sabor muito sabor, amplo e preciso, atlanticamente salino, com acidez filigrana e flores caramelizadas. (19)

(Artigo publicado na edição de Setembro de 2026)

EDITORIAL Setembro: Acima de tudo, clássico

Editorial

Editorial da edição nrº 113 (Setembro de 2026)   O Porto Vintage é uma das poucas categorias de vinho em que uma declaração geral continua a ter um significado colectivo e histórico extraordinariamente forte. Geram-se expectativas, opiniões e até alguma polémica. Paradoxalmente, todo este movimento se concentra no topo da pirâmide, numa ínfima parte, cerca […]

Editorial da edição nrº 113 (Setembro de 2026)

 

O Porto Vintage é uma das poucas categorias de vinho em que uma declaração geral continua a ter um significado colectivo e histórico extraordinariamente forte. Geram-se expectativas, opiniões e até alguma polémica. Paradoxalmente, todo este movimento se concentra no topo da pirâmide, numa ínfima parte, cerca de 1%, de todo o Vinho do Porto produzido.

Lembro-me de que, na altura das declarações gerais consecutivas de 2016 e 2017, os comentadores estrangeiros mais críticos referiam, com algum sarcasmo, que o Vintage clássico agora era todos os anos. Com a declaração de 2018, a ‘acusação’ ressurgiu, embora esse ano, apesar de excelente, não tenha sido considerado clássico. Entretanto, em Portugal ganhou força a convicção de que o velho padrão de três grandes Vintage por década já não fazia sentido: o Vintage é quando o homem quiser. A natureza parece ter discordado. Foram precisos sete anos para que chegasse outro clássico: 2024.

Será que hoje, com viticultura de precisão, adegas bem equipadas, melhores aguardentes e muito conhecimento científico, não se consegue produzir um grande Vintage todos os anos? Sim, temos hoje essa capacidade. Mas não em todo o lado e não ao mesmo tempo. Mesmo nos anos péssimos, há sempre qualidade algures. São vitórias de terroir. E a decisão de declarar um Vintage cabe ao produtor. As grandes casas podem encontrar condições óptimas numa ou noutra propriedade para um Single Quinta Vintage; os produtores mais pequenos interpretam o ano a partir das suas próprias vinhas. Se a Câmara de Provadores do IVDP aprovar, Vintage será.

O que verdadeiramente distingue um ano bom de um ano extraordinário é a qualidade transversal e generalizada. Quando tudo acontece no timing certo e na medida certa, ou quando um excesso é compensado por outro factor, como por exemplo, a falta de água no Verão, pela precipitação generosa no Inverno. Nestes anos, os Vintage das grandes casas são um lote de vinhos de várias propriedades sob o nome da marca principal – Graham’s, Dow’s, Taylor’s, Fonseca, Ferreira, Sandeman, Kopke – e não de uma só quinta. O resultado vai para além da soma das partes.

Foi o que aconteceu em 2024. Depois de anos muito secos, marcados por ondas de calor e precipitação errática, este veio com humidade suficiente no solo, sem vagas de calor prolongadas e com noites frescas, permitindo uma maturação lenta e uniforme de diversas castas em variadíssimas vinhas.

O barómetro do Vinho do Porto é sempre o desempenho da Touriga Franca. Em 2024, porém, muitos produtores destacam a Touriga Nacional. Até as castas mais complicadas, como a Tinta Roriz ou a Malvasia Preta, entregaram uma qualidade acima da média, como referiram vários enólogos na recente prova de 40 Vintages 2024 organizada pela Associação das Empresas de Vinho do Porto (AEVP). Esta prova, entre outras realizadas este ano, permite identificar alguns traços do Vintage 2024: pureza excepcional da fruta, muita frescura de boca, taninos sedosos e um charme imediato, mas com o potencial de envelhecimento.

Também foram partilhadas impressões sobre os vinhos de 2025 em estágio, muito opacos e densos, já uma grande promessa. Há indícios de que poderemos ter novamente uma declaração generalizada. Talvez seja essa a ironia: podemos estar cada vez mais preparados para fazer grandes Vintage, mas ainda não podemos comandar o ano. Podemos discutir quantos anos clássicos cabem numa década, mas a natureza continuará a decidir quando eles acontecem. (V.Z.)

GRANDE ENTREVISTA: LUÍS SOTTOMAYOR

Luis Sottomayor

“O Legado nasce na terra, o Barca Velha, na sala de provas”   O que te levou a enveredar pela enologia? Nasci no Porto, mas, na verdade, sou natural de Moreira da Maia. Na altura, a quinta onde eu vivi a minha infância e juventude era campo. A cidade da Maia ainda não tinha lá […]

“O Legado nasce na terra, o Barca Velha, na sala de provas”

 

O que te levou a enveredar pela enologia?

Nasci no Porto, mas, na verdade, sou natural de Moreira da Maia. Na altura, a quinta onde eu vivi a minha infância e juventude era campo. A cidade da Maia ainda não tinha lá chegado. E vivíamos ao ritmo das estações, da apanha das batatas, das ceifas, do gado, do corte da lenha na mata para os fogões e para o aquecimento. E fazia-se lá um vinho, um Verde de uvas de ramadas. Desconfio que não seria grande coisa, pois lembro-me de ouvir o meu pai, que era enólogo – foi, aliás, dos primeiros portugueses a ir estudar enologia para fora, em Dijon – dizer que era intragável, algo que enfurecia muito a minha avó materna, a matriarca da casa. Era um tinto de lagar e eu lembro-me bem de todo esse processo, a vindima, a prensagem, a preparação das pipas e tonéis…

 

O teu pai teve influência na tua orientação profissional?

Sim, claro, mas não só. Ele era enólogo numa empresa de Vinho do Porto, mas a família também tinha propriedades no Douro. Por exemplo, a Quinta do Seixo foi construída pelo meu trisavô paterno e a Quinta do Bom Retiro pertenceu à minha família até 1919. Todas essas raízes e vivências tiveram influência na minha decisão de seguir enologia. Eu via fotos do meu pai, de bata na sala de provas, rodeado de copos e garrafas, e lembro-me que, desde miúdo – para além da fase comum a todas as crianças de querer ser jogador de futebol, bombeiro, etc. –, tive o sonho de mexer com vinhos.

 

Estudaste em França e na Austrália, duas escolas completamente distintas, senão opostas. Quais foram, para ti, os principais ensinamentos que recolheste de cada uma delas?

A escola francesa de Dijon, nos anos 80, era ainda muito tradicionalista. A enologia era muito desligada da viticultura, por exemplo. Mas era excelente em termos de prova e de trabalho de adega. O curso que fiz depois pela Universidade Charles Sturt, uma escola especializada no ensino à distância, foi feito na Universidade Católica do Porto, durante dois anos, e terminou com uma viagem de estudo à Austrália, durante um mês e meio. Aí, a componente vitícola era bastante mais intensa. Os australianos já tinham um entrosamento grande entre a viticultura e a enologia.

 

“Sou apaixonado por aquela quinta. A funcionalidade da adega, a diversidade da vinha, a beleza esmagadora da paisagem, aquele Douro Superior austero e quase selvagem. Sempre que posso, fujo para a Leda…”

Luis Sottomayor

Até entrares na Ferreira, em 1989, por onde andaste?

Quando vim de França, em 1988, fui fazer a vindima para a João Pires, na Península de Setúbal. O pai da minha então namorada, hoje minha mulher, conhecia o António Francisco Avillez e arranjou forma de ele me receber como estagiário na vindima de 1988. E acabei por ficar mais algum tempo. Foi extremamente interessante para a minha aprendizagem, pois o responsável era o Peter Bright, um enólogo australiano que tinha uma ideia totalmente diferente do que era a enologia portuguesa da época. Foi uma excelente escola para mim, um período riquíssimo em ensinamentos. O Peter Bright tinha uma enorme intuição, olhava para as uvas e percebia de imediato o perfil de vinho que podia fazer com elas. Embora o período na João Pires tenha sido muito curto, marcou-me bastante, e, ao longo da carreira, procurei usar vários dos conceitos que ali apreendi.

Depois, num fim de semana que vim passar a casa, o meu pai disse-me que tinha falado em mim às pessoas da Ferreira e fui chamado para uma conversa com José Maria Soares Franco. Voltei a Lisboa, nunca mais pensei no assunto, mas passado algum tempo, recebi de José Maria o convite para vir trabalhar na Ferreira, já integrada na Sogrape desde 1987. E por cá fiquei.

 

Quando chegaste, em 1989, a Sogrape já tinha Barca Velha, Vinha Grande, Esteva, Planalto. Mas nessa época a dimensão do negócio DOC Douro nada tinha a ver com o que é hoje. Que impacto teve para ti, enquanto enólogo, o crescimento do “Douro para além do Porto”?

A dimensão é hoje muito maior, é verdade. Mas, apesar de tudo, a Ferreira já tinha bastante DOC Douro. Para mim, o mais marcante, foi a diferença de cultura entre uma empresa de vinhos tranquilos com algum fortificado (João Pires) e uma empresa de fortificados com algum vinho tranquilo (Ferreira). Na João Pires, em 1988, eu andava com um ajudante numa camionete, com uma prensa e um esmagador, a fazer a vindima em Carcavelos, por exemplo, carregando mangueiras de um lado para o outro, muito “à australiana”. Na Ferreira, na vindima de 1989, se agarrava numa mangueira vinha logo alguém a correr tirá-la da minha mão. Para o funcionário de adega, era quase um insulto eu estar a fazer um trabalho que deveria ser dele. Mas o fortificado, o Porto, era, de longe, o mais importante. Primeiro fazia-se o Porto, que representava três quartos de tudo o que fazíamos, e só depois vinha o momento de fazer Douro.

 

Quando é que sentiste que a vinha começou a entrar no dia a dia da enologia do Douro?

Quanto entrei na Sogrape, em 1989, a empresa era proprietária, no Douro, da Quinta do Seixo, Quinta do Porto e Quinta da Leda, que tinha, na altura, trinta e poucos hectares de vinha. E havia, claro, muitos lavradores com quem trabalhávamos. Mas o “ir à vinha” não era assim uma coisa tão significativa para a enologia. Havia pessoas que tratavam disso, não era propriamente o enólogo. Conversávamos com quem acompanhava a vinha, havia um controlo da maturação, marcava-se a vindima, mas não havia consciência da importância de estarmos “por dentro” da vinha. Da diferença que era fazer um vinho Tinta Roriz com monda ou sem monda, por exemplo. Ou da diferença que fazia ter uma casta plantada no local indicado para ela. Isso foi algo que fomos adquirindo com o tempo. A “escola australiana” foi, para mim, fundamental para ganhar essa percepção. Paralelamente, a partir de 1992, a Sogrape começou a adquirir propriedades no Douro, começando com a Quinta do Caêdo. À medida que novas propriedades se juntavam às quintas da Ferreira, e que se faziam reestruturações e plantações, a vinha começou a ganhar peso na Sogrape e no dia-a-dia da enologia.

Luis Sottomayor

“Quando cheguei, em 1989, não podia entrar livremente na sala de provas. José Maria Soares Franco e Manuel Vieira estavam lá dentro, juntamente com o senhor Fernando Nicolau de Almeida. Eles provavam, e eu ficava à porta, à espera”

 

Quando entraste na Sogrape era mais adega ou sala de provas?

O período de vindima era muito intenso e concentrado, dominado pelos ritmos da produção de Porto, 24 sobre 24 horas. Depois, o resto do ano era muito mais sala de provas. Mas a sala de provas era um espaço muito especial, não se chegava lá de imediato. Eu cheguei em 1989 e até meados de 1991 não podia entrar livremente na sala de provas. José Maria Soares Franco e Manuel Vieira estavam lá dentro, juntamente com o senhor Fernando Nicolau de Almeida que, embora reformado, ia todos os dias à Sogrape. Eles provavam e eu ficava à porta, à espera. Só quando acabavam de provar é que abriam a porta. Eu entrava e explicavam o que tinham feito. E eu ficava a ouvir. E só passado uns meses me deixaram provar.

Esse processo de integração, a dada altura, avançou rapidamente, porque a Sogrape tinha acabado de comprar a Quinta dos Carvalhais, estava a construir a adega, e Manuel Vieira e José Maria Soares Franco passavam muito do seu tempo no Dão. Por outro lado, um dos provadores principais faleceu inesperadamente. Como resultado, fiquei sozinho na sala de provas a ter de tomar decisões sobre os lotes. A minha sorte foi o senhor Fernando Nicolau de Almeida. Nessa altura, socorri-me da sua experiência e conhecimento, aprendi muitíssimo com ele na elaboração dos lotes, não apenas de vinho do Porto, mas também dos vinhos do Douro, sobretudo o chamado Douro Especial, a base do Ferreirinha Reserva Especial e do Barca Velha. E a Fernando Nicolau de Almeida, dava um prazer imenso, apesar de reformado, continuar a ser chamado por José Maria Soares Franco, para participar nas decisões sobre o Douro Especial.

 

Falemos então – é incontornável – do Barca Velha, um vinho que desde a sua criação, em 1952, só teve três enólogos responsáveis. Quando o testemunho do “Douro Especial” passa de mãos, como passou de Fernando Nicolau de Almeida para José Maria Soares Franco e deste para ti, e como irás passar ao teu sucessor, qual deve ser a postura do novo enólogo? Mais conservadora, de continuidade, ou mais inovadora, introduzindo mudanças, mesmo que pequenas?

Eu diria que deve ser uma postura mais conservadora. Porque se dermos um passo em falso, corremos o risco de estragar um trabalho de mais de 70 anos. É evidente que devemos tirar partido dos desenvolvimentos qualitativos na vinha e na adega, para conseguirmos fazer Barca Velha mais vezes e em maior volume. Mas atenção: há limites. Com as vinhas e adegas de que dispomos actualmente, poderíamos fazer uma grande quantidade de Barca Velha. Só que, hoje, somos bem mais exigentes do que éramos nos anos 70 e 80. Porque o mundo mudou, o Douro mudou. A concorrência no “campeonato” dos grandes vinhos é muito maior. Se nós facilitamos um pouco, corremos o risco de ser ultrapassados. Há belíssimos vinhos no Douro e em Portugal. Por isso, o nosso nível de autoexigência tem de ser altíssimo, impondo a nós mesmos critérios cada vez mais apertados. E dá-nos imenso prazer perceber, nas provas comparativas que fazemos, que o Barca Velha continua a destacar-se. E, obviamente, também registamos com muito agrado, que o apreciador reconhece esse estatuto.

 

Sei que tens um carinho muito particular pela Quinta da Leda, uma propriedade que viste crescer, em todos os sentidos. O que é que a Leda tem de tão especial?

A Leda é importantíssima, é crucial para o projecto Sogrape no Douro. E digo isto racionalmente, mesmo sabendo que o meu apreço pela Leda tem alguma componente emocional, porque foi para a Leda que fui trabalhar quando entrei na Sogrape. Assisti às enormes mudanças que ocorreram desde então e participei em todas elas, com menor grau de responsabilidade primeiro, com muito maior peso depois. A construção da adega da Quinta da Leda, em 2001, foi um momento absolutamente histórico, revolucionário. Estive lá recentemente com José Maria Soares Franco, que deixou a Sogrape em 2006 e que, 20 anos depois, revisitou a adega da qual foi primeiro responsável, e chegámos à mesma conclusão: ainda hoje a adega da Leda continua a ser a mais prática e funcional que nós conhecemos. E conhecemos muitas! A adega da Leda tem algo que a distingue das outras: apesar de fazer dois milhões de quilos, tem uma dimensão humana. O enólogo sente o pulsar da adega, nada do que ali acontece lhe escapa.

E depois, há a vinha…

Sou apaixonado por aquela quinta. Não é que não goste das outras propriedades da Sogrape no Douro, antes pelo contrário, cada uma tem características fascinantes. E com a Quinta do Seixo até tenho um histórico familiar. Mas a Leda é diferente de tudo. Eram menos de 40 hectares de vinha quando cheguei, hoje são 160, fruto de sucessivas, muito pensadas e bem planeadas plantações. E, para além da dimensão, a diversidade: são 16 tipos de solo já estudados, variadas altitudes e exposições solares. Tudo isso empresta às uvas da propriedade uma complexidade fora do comum. E finalmente, a beleza esmagadora da quinta, a paisagem, aquele Douro Superior austero e quase selvagem. Sempre que posso, fujo para a Leda…

 

Apesar do potencial da quinta e da enorme qualidade dos vinhos ali produzidos, o Quinta da Leda tinto ainda não alcançou no mercado a notoriedade que merece. Ter acima dele, na hierarquia Ferreira, nomes como Reserva Especial ou Barca Velha é demasiado peso?

Eu não sou especialista em marketing, longe disso. Mas sei que o Quinta da Leda tinto é feito com todos os cuidados, na propriedade onde nasce o Barca Velha e o Reserva Especial. E parte das uvas até são as mesmas. Sei que a sombra desses ícones pesa e, de algum modo, abafa a notoriedade do Quinta da Leda. Mas acho igualmente que, quando lançámos o Quinta da Leda como blend, na colheita de 1997, não fomos suficientemente ambiciosos no seu posicionamento em termos de preço e de marca. O vinho merecia mais. E depois de tantos anos, é difícil reposicionar.

 

Deixa-me mudar a conversa para os vinhos brancos. Existe o histórico Planalto, que já ultrapassou os 3 milhões de litros, algo impensável há alguns anos. Há também o mais recente Vinha Grande branco. Mas não parece ter havido grande interesse em criar um branco de topo. Algo que contrasta com o crescente interesse do mercado pelos brancos durienses de primeira grandeza. Como avalias o potencial do Douro para a criação de grandes brancos? E para quando um branco de topo na Ferreira?

O potencial é bem evidente no reconhecimento que os melhores brancos do Douro têm vindo a alcançar junto dos apreciadores. A região tem esta capacidade única e maravilhosa: é possível fazer vinhos de grande maturação a baixas altitudes e vinhos de enorme leveza, elegância e acidez – mas sempre com concentração e sabor – nas zonas altas. E os vinhos brancos do Douro têm tido o reconhecimento merecido.

Sem querer fugir à pergunta sobre o “grande branco da Ferreira”, deixa-me dizer que, tal como acontece com o Quinta da Leda, o Vinha Grande branco também entrega muito mais do que aquilo que se paga por ele. Para mim, é um branco de primeira linha.  nós sabemos possuir todas as condições para fazer vinhos brancos ainda mais ambiciosos. E estamos a trabalhar para isso. Em breve haverá novidades.

 

A base desse branco de topo será a Quinta do Sairrão?

Será um mix entre uvas do Sairrão e de zonas mais altas do Douro Superior. Mas, sobre isso é tudo o que posso dizer por agora…

Luis Sottomayor

Um dos maiores casos de sucesso dos últimos anos foi o Papa Figos, um vinho de grande impacto comercial que ditou tendências e se tornou o padrão do segmento. E que foi criado por ti de raiz. Quando o projecto Papa Figos começou a ser construído, o que é que te foi pedido pela administração?

Pediram-me para fazer um vinho diferente do Esteva – marca com longa história e perfeitamente consolidada –, claramente mais ambicioso, mas também fácil de beber, jovem, atraente, guloso. E, sobretudo, com o carácter Douro bem vincado. A experiência ajuda-nos muito. E conhecendo a região e a origem da grande maioria das uvas do Esteva, foi fácil perceber o caminho a seguir: é ir para o Douro Superior. Não para zonas demasiado baixas, para evitar sobrematurações, mas de média encosta, onde encontramos uvas com boa maturação, mas ainda cheias de fruta e com aqueles taninos naturalmente gordos e polidos que caracterizam o Douro Superior.

 

E como lidaste com o enorme crescimento da marca em volume? Tem sido fácil encontrar a matéria-prima com as características pretendidas?

O Papa Figos, na colheita de 2010, nasceu com 110 mil garrafas. Hoje estamos a falar em cerca de 2 milhões de litros, 2 milhões e 600 mil garrafas em números redondos. É evidente que este crescimento implica desafios, mas tem sido relativamente fácil resolvê-los. Não esqueçamos que a Sogrape tem 600 hectares no Douro. Logo aí temos uma boa âncora de uvas que nos sobram depois de fazermos o Porto e os vinhos de maior prestígio. Essas uvas representam entre 30 a 40% do que precisamos para o Papa Figos. Depois temos mais de 1000 lavradores, com quem trabalhamos há muito tempo, sabemos quem pode disponibilizar as uvas que precisamos. Escolhemos sobretudo lavradores do Douro Superior, cujas uvas são vinificadas na Leda e na Adega de Vila Real, recentemente modernizada e preparada para fazer volumes com grande qualidade. Com uva própria e adquirida, cobrimos praticamente 100% das necessidades do Papa Figos. Mas se ainda assim não for suficiente, temos fornecedores que conhecemos bem e que nos podem entregar lotes de vinho com o perfil que pretendemos. Deste modo, temos conseguido manter o perfil e qualidade estabelecidos para o Papa Figos, apesar do grande aumento de volume.

 

Como enólogo, és conhecido, sobretudo, pelos vinhos Douro, com o Barca Velha à cabeça. Mas o vinho do Porto continua a ser incontornável no teu trabalho. E assististe de perto à transição ocorrida no final dos anos 80, com o provador clássico de Gaia a dar lugar ao enólogo, com formação científica. O que é que o segundo aproveitou da arte do primeiro?

Eu acredito que os vinhos do Douro beneficiaram imenso com o conhecimento e a prática do vinho do Porto. Desde logo, a fermentação. No Porto não se falava de castas, a fermentação era feita em conjunto. Nós, para muitos vinhos Douro, continuamos a utilizar essa filosofia: o lote começa a ser feito na vinha, misturando origens mais do que castas. Depois, o lote final. O facto de estarmos todos os dias na sala de provas, a fazer lotes de Porto, ajuda-nos muito a identificar e diferenciar as componentes dos lotes para Callabriga, Vinha Grande ou Quinta da Leda, a perceber qualidades e perfis, como vinhos de distintas parcelas ou origens se complementam. A arte do lote que os provadores clássicos tinham acabou por transitar para o vinho do Douro, com enormes vantagens.

 

Nos anos 90, dizia-se que as casas de origem inglesa eram especialistas de Vintage e as casas portuguesas faziam os melhores Tawny. Como se enquadra a casa Ferreirinha nesse histórico?

Quando entrei, em 1989, havia realmente essa ideia estabelecida. Mas devo dizer que, já nessa altura, quem assim pensava estava errado. Hoje, eu provo Ferreira Vintage 1934 ou Vintage 1952 e encontro vinhos absolutamente extraordinários. E já em 1989 provava excelentes tawnies velhos de casas inglesas, Symington por exemplo. Creio que esse conceito de casa inglesa versus casa portuguesa tem a ver sobretudo com o mercado. O mercado britânico queria sobretudo Vintage e, naturalmente, privilegiava as casas de origem inglesa; e o mercado português queria sobretudo Tawny e privilegiava as casas portuguesas.

O que sempre houve, isso sim, foram distintos perfis de Vintage. Eu estou à vontade para falar nisso, porque a Sogrape é, desde 2002, proprietária da Sandeman, casa de origem britânica. O Vintage Sandeman era o paradigma do clássico, robusto e potente, e o Ferreira era orientado para a harmonia e elegância. Hoje, podemos provar um Sandeman 1963 e um Ferreira do mesmo ano e estão ambos em grande forma, um não evoluiu melhor do que outro. E ainda hoje os perfis distintos caracterizam estas marcas. Portanto, essa ideia de que os ingleses eram bons em Vintage e os portugueses em Tawny não tem qualquer razão de ser.

Luis Sottomayor

“Com as vinhas e adegas de que dispomos, poderíamos fazer uma grande quantidade de Barca Velha. Só que, hoje, somos bem mais exigentes do que éramos nos anos 70 e 80. Porque o mundo mudou, o Douro mudou”

 

Vou deixar-te um conjunto de perguntas curtas para respostas concisas, no plano profissional e pessoal. Primeiro, ao Luís Sottomayor enólogo. Touriga Nacional ou Touriga Francesa, e porquê?

O que eu gosto é do blend das duas. Num ano frio, mais Touriga Francesa e menos Nacional. Num ano mais quente, mais Nacional e menos Francesa.

 

Blend de Tourigas, Nacional e Francesa ou Vinhas Velhas? Ou, se quiseres, Barca Velha ou Legado?

Isso é como perguntares se gosto mais de caçar perdizes ou galinholas… Gosto muito de ambas e de ambos os vinhos, em perfis completamente diferentes. Mas, simplificando, podemos dizer que uma vinha velha faz o vinho, o vinho já nasce ali feito. Por outro lado, num vinho de base Nacional e Francesa vamos buscar o que aprendemos com o vinho do Porto, o lote. O Legado vem da terra, é aquilo que ali está; o Barca Velha vem da sala de provas, como se fosse um Vintage. Um Reserva Especial ou um Barca Velha nunca poderia vir de vinhas velhas. Seria um outro vinho, sem nada a ver com o estilo da marca.

 

Vintage ou Tawny velho?

Resposta difícil. Mas acredito que um grande Vintage muito velho, com os aromas e sabores criados com o tempo de garrafa, é imbatível. É para beber de joelhos…

 

E agora, para o Luís Sottomayor apreciador de vinhos, alguns desafios. Aí vai o primeiro: uma região de brancos e uma de tintos fora de Portugal?

Tintos, pode ser Borgonha. E brancos também…

 

É a escola de Dijon a deixar marca… A mesma pergunta, mas agora em Portugal e deixando de fora o Douro, senão já saberia a resposta…

Brancos, o Dão. Nos tintos, acho que Trás-os-Montes pode ter uma relevância extraordinária.

 

Um branco e um tinto do Douro que aprecies particularmente. E Ferreirinha não conta…

Gosto muito do tinto Chryseia. E gosto muito do branco Guru.

 

E qual o Barca Velha que mexe mais contigo, que corresponde melhor ao teu perfil de apreciador?

O 2008. Pela contenção, austeridade e potencial de longevidade.

 

Última pergunta. Ainda faltam uns anos para a tua reforma, mas sei que uma das tarefas de que é incumbido um responsável de enologia na Sogrape é formar e designar os seus sucessores, deixando o futuro preparado. Que conselhos darias aos mais jovens, com quem trabalhas, e que te irão suceder um dia?

Há poucos dias organizei um encontro entre os elementos da minha equipa e os profissionais que já aqui estavam antes de mim, e que tiveram um papel fundamental não apenas na Ferreira, mas também na região do Douro. Portanto, o conselho é este: muito mais do que ter boa formação e ser-se bom enólogo, é preciso conhecer em profundidade a história, a cultura, a geografia, o carácter da região e dos vinhos que fazemos. E para isso é preciso falar com as pessoas que cá estiveram e é preciso saber ouvir.

(Artigo publicado na edição de Agosto de 2026)

 

RESTAURANTE CIRO: No princípio era o fogo

Restaurante Ciro

Falamos do Ciro, a nova aposta do grupo Vila Vita, que é já o seu quinto restaurante aberto fora daquele resort de luxo e o décimo quarto da cadeia! Tivemos a oportunidade de o conhecer ainda antes da sua abertura ao público que aconteceu nos primeiros dias de Agosto. O Ciro começa por impressionar pelo […]

Falamos do Ciro, a nova aposta do grupo Vila Vita, que é já o seu quinto restaurante aberto fora daquele resort de luxo e o décimo quarto da cadeia! Tivemos a oportunidade de o conhecer ainda antes da sua abertura ao público que aconteceu nos primeiros dias de Agosto. O Ciro começa por impressionar pelo arranjo do espaço. Está instalado numa grande vivenda, totalmente remodelada, mesmo no centro urbano de Guia, no concelho de Albufeira, e tem uma capacidade de 120 lugares. Mas, apesar da sua dimensão, consegue a proeza de permitir criar vários ambientes distintos, alguns deles mesmo bastante cosy. São dois bares, um terraço magnífico, dois pátios ao livre e duas salas distribuídas por dois pisos. Em vez da monotonia de um único lugar, o restaurante permite acomodar desde grupos grandes, com refeições demoradas, a simples momentos casuais de partilha, conversas íntimas, reuniões de amigos ou de família.

Mas é na proposta da sua cozinha que está a verdadeira essência do Ciro. A assinatura “Mediterranean Fire Cooking” permite adivinhar ao que vamos. No centro de tudo está, pois, o fogo… e a inspiração mediterrânea, sem a qual podíamos pensar estar perante uma churrasqueira! Longe disso: sob a batuta do Chef Francisco Barbosa, o que nos é dado a provar é uma cozinha que alia a tradição gastronómica algarvia com os sabores frescos da cozinha mediterrânea. Numa cozinha à vista em que sobressai a bela peça da grelha com três andares, todos os pratos, de uma forma ou outra, tiveram na passagem pelo fogo um passo no seu processamento. Isso é visível logo no couvert com um belo pão de trigo de massa mãe, acompanhado por manteiga fumada, baba ganoush com pimentos assados e queijo de cabra com za’atar. As entradas são marcadas pelos aromas fumados do peixe curado, como a cavala ou o sargo, ou pelo rosbife com cebola caramelizada com emulsão de botarga e pelos legumes grelhados combinados com lacticínios, ervas aromáticas e notas ácidas.

Nos pratos principais, as sugestões vão desde a vegetariana beringela com emulsão de tahini, granola de sementes e sumac, passando pelo peixe do dia, grelhado com couve kale, feijão branco, molho de manteiga e limão, pela lula, bem marcada pela grelha, com espinafres e nabos salteados, pelas presas de porco ibérico, com arroz de enchidos e pickles, ou pela sempre vistosa espetada de novilho com guanciale, harissa, molho chimichurri acompanhada de batata de frita. Para os amantes irredutíveis da carne não falta o impressionante tomahawk com molho de assinatura e as inevitáveis batatas fritas. E não falta a devida homenagem à Guia, com o frango à Ciro, uma metade desossada com azeite de malagueta, agrião, tzatziki de coentros, acompanhado de pão de iogurte.

Tanto as sobremesas, como a carta do bar, não fogem à filosofia do fogo e dos sabores mediterrâneos, havendo sempre algum ingrediente que passou pelo fumo ou mesmo pelas brasas. A carta de vinhos é diversificada e tem opções que se adequam às propostas gastronómicas, com o habitual senão de carregar mais a conta final.

Quer seja para desfrutar um cocktail de assinatura, uns petiscos informais ou uma refeição completa, o espírito de partilha à mesa é comum a todos estes momentos que fazem do Ciro um local especial e muito agradável dentro do panorama da oferta do Algarve.

 

Ciro – Mediterranean Fire Cooking

Rua General Humberto Delgado, 16-18, Guia, Albufeira

Tel.: 282320337

Horário: de Quarta-feira a Domingo, das 18h00 às 22h30.

Encerra: Segunda-feira e Terça

Preço médio: €50

 

Quinta do Vallado com novo CEO

vallado

Joe Álvares Ribeiro assume a liderança da centenária Quinta do Vallado, na Região Demarcada do Douro. O objectivo consiste em reforçar a continuidade de um legado versado no alinhamento entre o passado e a forte aposta no futuro, com o foco nos mercados nacional e d’além fronteiras, através do compromisso associado ao vinho, à hotelaria, […]

Joe Álvares Ribeiro assume a liderança da centenária Quinta do Vallado, na Região Demarcada do Douro. O objectivo consiste em reforçar a continuidade de um legado versado no alinhamento entre o passado e a forte aposta no futuro, com o foco nos mercados nacional e d’além fronteiras, através do compromisso associado ao vinho, à hotelaria, com a Quinta do Vallado Wine Hotel, em Peso da Régua, no Baixo Corgo, e o Casa do Rio Wine Hotel, em Foz Côa, no Douro Superior, e, consequentemente, ao enoturismo de qualidade.

A nomeação de Joe Álvares Ribeiro para CEO da Quinta do Vallado advém da sua sólida experiência em diferentes áreas de gestão e do conhecimento consolidado no sector vínico, comprovados por meio da administração executiva em marketing, vendas, distribuição e enoturismo em um dos grupos de vinhos nacionais.