GRANDE PROVA LOUREIRO: Uma casta superstar

Segundo o Instituto do Vinho e da Vinha (IVV), a Loureiro é uma casta indígena do território dos Vinhos Verdes, provavelmente autóctone. É uma casta de maturação precoce, prefere solos profundos e de média fertilidade, e dá-se bem com a humidade do ar. Contudo, precisa de protecção do vento. A casta tem especial expressão na […]
Segundo o Instituto do Vinho e da Vinha (IVV), a Loureiro é uma casta indígena do território dos Vinhos Verdes, provavelmente autóctone. É uma casta de maturação precoce, prefere solos profundos e de média fertilidade, e dá-se bem com a humidade do ar. Contudo, precisa de protecção do vento. A casta tem especial expressão na região de Ponte de Lima. O site do IVV acrescenta, então, que os vinhos devem ser bebidos jovens. Porém, após esta prova, parece-me que vai ser preciso fazer uma actualização.
Os primeiros vinhos estremes de Loureiro que provei há uns 30 e tal anos tinham características muito específicas. Frescos, citrinos, de baixo teor alcoólico, acidez viva e algum gás a equilibrar uma doçura residual significativa. Este estilo jovem e frívolo era, muitas vezes, porta de entrada para os jovens no mundo vínico. Eram realmente vinhos que convinha beber novos e era esse o hábito face a muitos vinhos brancos em Portugal.
A pouco a pouco, o estilo foi mudando. Começaram a aparecer uns mais sérios e ambiciosos. O processo de melhoria global dos vinhos feitos a partir de Loureiro pode chamar-se de uma profecia auto-realizável. Para perceber esta evolução consultei o enólogo Anselmo Mendes, por vezes conhecido por Sr. Alvarinho, mas com igual propriedade se pode chamar Sr. Loureiro.
Para melhores resultados, apanha-se, por vezes, apenas o primeiro cacho da vara atempada, o qual detém maior concentração das componentes essenciais para a produção do vinho
Viticultura ambiciosa e desvelo na adega
Segundo Anselmo Mendes, a grande melhoria dos vinhos e o aumento da sua longevidade tem origem numa viticultura muito mais cuidada. Acrescento eu que a enologia portuguesa também evoluiu muito e os vinhos brancos beneficiaram dos melhores processos dentro da adega. Disse-me ainda que a Loureiro é uma variedade muito produtiva, chegando facilmente às 25 toneladas de uva por hectare.
Para garantir a qualidade, é preciso limitar severamente a produção, no máximo pode chegar-se às 15 toneladas. Para o seu Private, o mais bem pontuado desta prova, a produção da vinha velha é de oito toneladas. Para melhores resultados, a escolha é feita na vinha, apanhando, por vezes, apenas um cacho, o primeiro da vara atempada. Assim, este cacho vai ter uma maior concentração das componentes essenciais para a produção do vinho. Medições do extracto seco em várias amostras demonstram que esta estratégia é vencedora.
Para além do próprio vinho, Anselmo Mendes foi, durante muitos anos, enólogo da Quinta do Ameal, projecto que se tornou icónico na região. Quando foi comprado pelo Esporão, organizou uma prova vertical dos Quinta do Ameal e Quinta do Ameal Escolha, prova essa que mudou completamente a minha visão sobre a longevidade dos vinhos produzidos a partir de Loureiro. Provámos referências vínicas com mais de 20 anos, e a acidez vincada e afiada assegurou que o vinho estava bem vivo, oferecendo uma prova cheia de carácter e prazer.
Foi com projectos como este que a profecia se foi cumprindo. Houve pessoas que acreditavam no potencial da casta, praticavam uma viticultura cada vez mais ambiciosa, os vinhos melhoravam, evoluíam de forma muito positiva, o que justificava mais investimentos e de querer ir mais além. Um vinho que anteriormente se bebia no próprio ano, quase que o mais cedo possível, passou a tornar-se objeto de guarda. Lembro-me bem de os produtores se queixarem de não conseguirem vender o vinho do ano anterior. Tempos já idos.
Um vinho que anteriormente se bebia no próprio ano, quase que o mais cedo possível, passou a tornar-se objeto de guarda
Para todos os gostos
Dos 24 vinhos que vieram a esta prova, apenas seis são de 2025. Há oito de 2024, seis de 2023, três de 2022 e um de 2021. A justificação para a aposta em referências com idades variadas prende-se com o facto dos vinhos elaborados com a casta Loureiro terem sempre um grau alcoólico relativamente baixo e uma acidez precisa e vigorosa, que os torna bons companheiros à mesa. O uso de madeira para os estagiar é bastante raro, e muda um pouco o carácter fresco e divertido do vinho. Os aromas de frutos cítricos, como lima e limão, são frequentes, mas pode aparecer laranja e toranja. É frequente um lado vegetal a folhas de louro, talvez daí o nome da casta. Notas minerais aumentam a complexidade e algum trabalho com as borras pode ajudar a dar alguma textura cremosa ao vinho. Ainda existe o estilo frizante, com algum açúcar, um perfil que ainda encontra apreciadores. Os mais secos podem ter a acidez muito em evidência, e ficam bem com ostras – as ostras agradecem sempre os vinhos secos. Já os mais ‘ambiciosos’, com uma acidez suave bem integrada, podem acompanhar peixes e mariscos, bem como carnes, como pato assado.
O tempo passa e a nossa percepção em relação ao vinho vai mudando. A Loureiro foi levada a sério por pessoas que acreditaram e construíram um produto único, sensacional, com uma leveza e frescura irrepetíveis. À medida que cada vez mais Loureiros ambiciosos forem aparecendo, tenho a certeza de que ainda vamos ter muito boas surpresas com esta casta. Podemos apostar ainda em guardar umas garrafas para desfrutar mais tarde da sua evolução.
Nota: A Grande Prova Loureiro realizou-se em prova cega.
(Artigo publicado na edição de Junho de 2026)
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Ameal
Branco - 2024 -

Tojeira Unoaked
Branco - 2023 -

Quinta de S. Salvador da Torre
Branco - 2023 -

Pequenos Rebentos Vinhas Velhas
Branco - 2023 -

Inspir’ar
Branco - 2024 -

Contacto
Branco - 2024 -

Camaleão Barrel Aged
Branco - 2023 -

Borges
Branco - 2024 -

Barão do Hospital
Branco - 2023 -

Parcela do Convento
Branco - 2024 -

Germinar Vinhas Velhas
Branco - 2022
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Terras de Felgueiras
Branco - 2025 -

Casa de Vila Verde
Branco - 2025 -

Quinta da Lixa
Branco - 2025 -

Gábia
Branco - 2024 -

Adega Coop. de Ponte de Lima
Branco - 2025 -

Quinta do Tamariz
Branco - 2023 -

Quinta d’Amares Claustrum
Branco - 2022 -

Quinta de Linhares
Branco - 2025 -

Paço de Teixeiró
Branco - 2024 -

Maria Bonita
Branco - 2025 -

Aphros Daphne
Branco - 2022
Concurso Vinhos de Lisboa: Os melhores da região

De acordo com o resultado da XVI edição do Concurso de Vinhos de Lisboa, promovido pela Comissão Vitivinícola da Região de Lisboa (CVRL), foram distinguidos 44 vinhos de produtores deste território. Do total de referências vencedoras, nove arrecadaram as Grandes Medalhas de Ouro, 25 os galardões de Ouro e dez os de Prata. Foram eleitos […]
De acordo com o resultado da XVI edição do Concurso de Vinhos de Lisboa, promovido pela Comissão Vitivinícola da Região de Lisboa (CVRL), foram distinguidos 44 vinhos de produtores deste território. Do total de referências vencedoras, nove arrecadaram as Grandes Medalhas de Ouro, 25 os galardões de Ouro e dez os de Prata. Foram eleitos ainda o Melhor Arinto, o Melhor Vital, o Melhor Branco, o Melhor Tinto e o Melhor Leve. No total, foram aferidas 147 amostras em prova cega por um painel constituído por 32 jurados, distribuídos por dois grupos, entre enólogos, sommeliers, jornalistas e wine educators.
“O concurso é um importante instrumento de valorização dos nossos produtores e da diversidade da região, distinguindo vinhos que representam o melhor que hoje se faz em Lisboa e reforça a notoriedade junto dos consumidores e dos mercados”, declara, em comunicado, Bernardo Gouvêa, Presidente da CVRL.
Lista dos vencedores por categoria
Melhor Tinto AdegaMãe Reserva 2019 (AdegaMãe)
Melhor Branco Casa das Gaeiras Fernão-Pires 2021 (Tapada das Gaeiras)
Melhor Arinto Madame Pió Reserva 2022 (Cas’amaro)
Melhor Vital Casa das Gaeiras Reserva 2024 (Tapada das Gaeiras)
Melhor Leve Azulejo 2025 (Casa Santos Lima)
Grande Ouro
Villa Oeiras Superior, Vinho Licoroso Superior (Município de Oeiras)
Figurativo 627539, Aguardente Vínica Extra Old/XO (Adega Coop. da Lourinhã)
Património Aguardente Vínica (António Francisco Bonifácio & Filhos)
AdegaMãe tinto Reserva 2019 (AdegaMãe)
Madame Pió Reserva branco 2022 (Cas’amaro)
AdegaMãe tinto 2017 (AdegaMãe)
Touriz tinto 2020 (Casa Santos Lima)
Quinta do Gradil Reserva tinto 2022 (Quinta do Gradi)
Guarita da Chocapalha Reserva Tinto 2017 (Casa Agr. das Mimosas)
Ouro
Adega d’Arrocha Arinto Reserva branco 2023 (Arribas & Parcelas)
Casa das Gaeiras Fernão-Pires branco 2021 (Tapada das Gaeiras)
Casa das Gaeiras Vital, Reserva branco 2024 (Tapada das Gaeiras)
Casa Santos Lima Colheita Tardia branco 2024 (Casa Santos Lima)
Carlota a Imperatriz Sauvignon-Blanc branco 2025 (QVBFG – Sociedade de Vinhos da Estremadura)
Carlota a Imperatriz Arinto Reserva branco 2023 (QVBFG – Sociedade de Vinhos da Estremadura)
CH by Chocapalha Arinto Reserva branco 2022 (Casa Agr. das Mimosas)
Confraria Espumante Grande Reserva, Arinto e Chardonnay branco 2017 (Adega Coop. do Cadaval)
Decreto 14676 Arinto branco 2022 (Next Corner)
Galodoro Reserva tinto 2024 (Casa Santos Lima)
Mi Hijo Grande Reserva branco 2024 (Nuno Filipe Galvão Carvalho Duarte)
Peripécia Arinto Grande Reserva branco 2022 (Quinta do Cerrado da Porta)
Pica-Pau Reserva tinto 2021 (Casa Santos Lima)
Quinta do Boição Arinto Reserva branco 2022 (Enoport)
Quinta do Boição Arinto Reserva branco 2024 (Enoport)
Quinta do Espírito Santo Reserva tinto 2022 (Casa Santos Lima)
Quinta de Pancas Grande Reserva tinto 2021 (WineStone Group)
Quinta de S. Francisco Vital branco 2025 (Companhia Agr. do Sanguinhal)
Quinta do Sanguinhal Grande Escolha branco 2022 (Companhia Agr. do Sanguinhal)
Quinta das Setencostas tinto 2022 (Casa Santos Lima)
Quinta da Vassala Arinto Reserva branco 2023 (Vassala Wines)
Sem Reservas Reserva tinto 2024 (Casa Santos Lima)
Stagiaire Arinto Premium branco 2022 (Casa Agr. Horácio Nicolau)
Vingrand Reserva Especial tinto 2019 (Adega Coop. de Azueira)
Villa Oeiras branco (Município de Oeiras)
Prata
Adega da Murnalha branco 2024 (Frutas Nobres -Soc. de Comércio Agrícola)
Alma de Lisboa Reserva branco 2024 (Adega Coop. de São Mamede da Ventosa)
Adega da Vermelha Reserva Especial tinto 2017 (Adega Coop. de São Mamede da Ventosa)
Casa Santos Lima branco 2025 (Casa Santos Lima)
Correio Mor branco 2024 (Agro Rio)
Encostas de Xira branco 2024 (Município de Vila Franca de Xira)
Influente Espumante rosé Reserva 2023 (Adega Coop. do Cadaval)
Quinta de Pancas Reserva tinto 2022 (WineStone Group)
Reserva D’Amizade Friendship Fado tinto Reserva 2023 (Paço das Cortes)
Valmaduro Premium tinto 2021 (Casa Santos Lima)
RESTAURANTE MAPA: Miguel Laffan, take 2

É um local especial para a memória do Chef Miguel Laffan, porque foi ali que conquistou a sua primeira estrela Michelin e a deixou como herança quando dali saiu, em 2019. Muita água correu debaixo da ponte desde então e o restaurante do L’AND Vineyards, em Montemor-o-Novo, passou por várias fases e conheceu outras lideranças, […]
É um local especial para a memória do Chef Miguel Laffan, porque foi ali que conquistou a sua primeira estrela Michelin e a deixou como herança quando dali saiu, em 2019. Muita água correu debaixo da ponte desde então e o restaurante do L’AND Vineyards, em Montemor-o-Novo, passou por várias fases e conheceu outras lideranças, embora nem sempre se tenha mantido no zénite. Mas valha a verdade reconhecer que o momento é feliz: estrela dada, estrela devolvida. Pouco antes de voltar a Montemor, viu o Mapa voltar a ostentar a cobiçada distinção, mercê do trabalho de David Jesus, que deixou inesperadamente o restaurante um mês após a sua recuperação.
O ponto de partida é agora, por isso, outro. A ambição não se resume à manutenção do estatuto alcançado, mas, quem sabe, superá-lo. Em entrevista recente ao semanário Expresso, Miguel Laffan não tem pejo em afirmar: “se alguém no Alentejo tem condições para chegar a uma segunda estrela, sou eu.”
Contudo, não será preciso esperar pela segunda estrela para apreciar, desde já, a criatividade do Chef. O que nos é oferecido agora, no Mapa, com os dois menus disponíveis – “Caminhos 9 Momentos” (€175) e “Caminhos 5 Momentos” (€145), a que acrescem as propostas de harmonização (€115 e €90, respectivamente) – é mais que suficiente para apreciar a visão muito pessoal da gastronomia de Miguel Laffan, assente em memórias, viagens, trajectos e experiências vividas de um caminho que já é longo e rico. Para quem teve contactos anteriores com a cozinha do Chef, há elementos que se mantêm, seja a forte influência do Oriente, constante em todo o menu, seja a omnipresença do mar e dos seus produtos, seja ainda a preferência por certos ingredientes, em especial pelas especiarias, que assumem justificado protagonismo, seja, finalmente, pelo suave perfume que exalam as suas composições, sempre servidas por um apurado aprumo estético.
No menu Caminhos, mais alargado, e que tivemos o privilégio de provar, a fusão entre as referências asiáticas, as técnicas clássicas da cozinha francesa e o produto nacional resulta bastante evidente. Que melhor exemplo disso que a composição do lírio dos Açores, em que a delicadeza do peixe combina com as algas marinhas e o perfume do mar nos enche os sentidos? Ou no prato chamado Laksa, essa sopa malaia, que serve de base à “nossa” lula, onde o sabor pungente do ouriço do mar é suavizado pelas notas de bergamota? Ou ainda pela gamba vermelha do Algarve, tingida pelo açafrão, perfumada pela lima, e onde o caviar e o mexilhão dão a melhor sequência ao diálogo? Disruptivo, o pato real (o único prato de carne deste menu), apresentado em duas versões/momentos: primeiro na forma de um bolinho a vapor, com raspas de foie gras e jus, e depois, numa tranche com cogumelos morilles e pak choi.
Cozinha personalizada e fortemente identitária esta. “A minha cozinha é o resultado daquilo que sou. Hoje em dia sei quem sou: sou um criativo e a minha forma de expressar é na cozinha”, proclama Laffan em forma de um statement. Não se espere encontrar aqui, portanto, alguma concessão à chamada “cozinha de território”, em que o peso do lugar assume protagonismo. Apenas num dos snacks servidos no princípio da refeição, em que um pequeno apontamento com cabeça de xara e lagostins evoca a anterior passagem de Laffan por este restaurante.
O Mapa está no Alentejo, mas podia estar em Lisboa, em Paris ou noutro lugar. O Mapa é, hoje, a expressão de uma cozinha criativa, fortemente personalizada e vincadamente afirmativa.
Mapa
L’AND Vineyards; Herdade das Valadas, 4, Montemor-o-Novo
Tel.: 266 242 400
Horário: de Quarta a Domingo das 13h00 às 16h00 e das 19h00 às 23h00
O VINHO PORTUGUÊS CHEGA AO CINEMA NO CURTAS VILA DO CONDE

O vinho português ganha uma nova forma de ser contado através do cinema. Gerações, a primeira curta-metragem portuguesa inteiramente dedicada ao universo do vinho, estreia a 18 de Julho, no Curtas Vila do Conde – Festival Internacional de Cinema. Filmada em Melgaço, a obra leva ao grande ecrã a história das pessoas, do território e […]
O vinho português ganha uma nova forma de ser contado através do cinema. Gerações, a primeira curta-metragem portuguesa inteiramente dedicada ao universo do vinho, estreia a 18 de Julho, no Curtas Vila do Conde – Festival Internacional de Cinema. Filmada em Melgaço, a obra leva ao grande ecrã a história das pessoas, do território e do conhecimento que estão na origem de cada vinho.
Realizada por Manuel Sá, Gerações acompanha, ao longo de um ano, o ciclo de criação de um vinho através do quotidiano dos enólogos Luís e Manuel Cerdeira, pai e filho. Entre a vinha e a adega, a curta revela como o conhecimento é transmitido entre gerações e como tradição e inovação convivem na construção da identidade de um vinho.
A estreia integra a programação da 34.ª edição do Curtas Vila do Conde, reforçando o compromisso do festival com obras que exploram novas perspetivas sobre a realidade e promovem o diálogo entre o cinema e diferentes dimensões da cultura contemporânea. Ao receber Gerações, o festival abre espaço ao vinho enquanto tema cinematográfico, revelando uma dimensão cultural e humana ainda pouco explorada no grande ecrã.
«O Curtas Vila do Conde procura dar visibilidade a filmes que desafiam o olhar do público sobre temas que fazem parte da nossa identidade. Gerações é um exemplo dessa capacidade do cinema para revelar universos que conhecemos, mas raramente vemos desta forma, dando protagonismo às pessoas e às histórias que existem por detrás do vinho português”, afirma Nuno Rodrigues, diretor artístico do festival.
A estreia de Gerações acontece no dia 18 de Julho, às 19h00, no Teatro Municipal de Vila do Conde, integrada na programação da 34.ª edição do Curtas Vila do Conde – Festival Internacional de Cinema.
EDITORIAL: Quando a temperatura sobe…

Editorial da edição nrº 111 (Julho de 2026) … o vinho desmaia. E, com ele, toda a experiência sensorial fica inevitavelmente comprometida. Parece óbvio, mas é espantoso como esta questão continua actual e como, tantas vezes, mesmo nas apresentações, os vinhos são servidos à temperatura que calha e não à que deviam servir. E o […]
Editorial da edição nrº 111 (Julho de 2026)
… o vinho desmaia. E, com ele, toda a experiência sensorial fica inevitavelmente comprometida.
Parece óbvio, mas é espantoso como esta questão continua actual e como, tantas vezes, mesmo nas apresentações, os vinhos são servidos à temperatura que calha e não à que deviam servir. E o vinho tinto costuma sofrer mais. Com os brancos, rosés ou espumantes isto não acontece tanto, pois é de senso comum que estes devem ser servidos mais frescos. Agora, os tintos… Eu já nem falo no hábito de “chambrear um vinho” ou no conceito desactualizado de “temperatura ambiente”, refiro-me ao desleixo no simples cuidado de fazer chegar o vinho tinto à mesa a 16–18° C, ou até mais fresco, porque, dependendo da temperatura da sala, pode aquecer mais ou menos depressa.
Nas tascas, costumo pedir vinhos brancos por defeito, porque sei que estes vêm do frio e que, com um tinto, posso não ter essa sorte. E nem os eventos vínicos dirigidos por profissionais escapam a este inconveniente. E quanto maiores forem, pior, uma vez que as organizações simplesmente não conseguem arranjar frigoríficos para uma grande quantidade de garrafas.
Há pouco tempo estive num jantar comemorativo de considerável dimensão, onde foram servidos muitos vinhos. Os brancos estavam dentro de frappés com gelo, enquanto os tintos permaneciam simplesmente em cima das mesas. Não acredito que estivesse pelo menos uma pessoa naquela sala que não soubesse a temperatura de serviço do vinho tinto. 16–18° C? Certo, mas foi servido à temperatura ambiente, que naquela noite marcava 26° C.
Podemos criar muito glamour à volta dos copos, aplaudir as apresentações de Maximilian Riedel, apurar os formatos que melhor realçam as virtudes dos diferentes tipos de vinho, explicar porque um Chardonnay não deve ser bebido no copo de um Sauvignon Blanc, mas, se falharmos numa coisa tão básica como a temperatura de serviço, podemos arruinar toda a experiência. Afinal, se um vinho tinto for servido à temperatura de uma sopa morna, não há copo, por muito perfeito que seja, que redima a situação, nem há virtude que resista.
A temperatura funciona no vinho como um equalizador. O frio faz sobressair a acidez e a estrutura tânica, deixando os aromas e a doçura em segundo plano. O calor, por sua vez, amplifica a expressão da fruta, mas, com ela, faz emergir também o álcool, que facilmente passa a dominar o conjunto. Vários estudos de análise sensorial demonstram que o contexto térmico em que o vinho é provado altera significativamente a forma como ele é percebido. O aumento da temperatura intensifica a volatilidade dos compostos aromáticos: moléculas mais leves evaporam primeiro, o que faz com que o vinho possa parecer mais intenso no início, mas menos complexo pouco tempo depois. Em paralelo, o etanol, que também é volátil, torna-se mais presente na fase gasosa, mascarando aromas mais delicados.
Em palavras menos técnicas: bastam alguns graus a mais para comprometer uma prova. Não há temperatura capaz de transformar um vinho mediano num grande vinho. Mas há temperaturas erradas capazes de impedir um grande vinho de se mostrar. E isso é particularmente frustrante, uma vez que, entre todos os factores que influenciam a experiência, este é talvez o mais simples – e o menos dispendioso – de controlar. V.Z.
Projecto 260g recebeu o Red Dot: Best of the Best 2026

O projecto 260g, responsável pelo desenvolvimento da garrafa de vinho mais leve do mundo, foi distinguido com o Red Dot: Best of the Best 2026 na categoria Sustainable Design, graças à capacidade de conciliar inovação, sustentabilidade e excelência em design. Ou seja, o resultado traduziu-se numa garrafa de vinho de 75 centilitros com apenas 260 […]
O projecto 260g, responsável pelo desenvolvimento da garrafa de vinho mais leve do mundo, foi distinguido com o Red Dot: Best of the Best 2026 na categoria Sustainable Design, graças à capacidade de conciliar inovação, sustentabilidade e excelência em design. Ou seja, o resultado traduziu-se numa garrafa de vinho de 75 centilitros com apenas 260 gramas, a qual foi feita a partir de 80% de vidro reciclado, já com o objectivo de “reduzir substancialmente o consumo de matérias-primas, aumentar a eficiência do transporte, permitindo transportar mais 115 garrafas por palete, e diminuir a pegada carbónica ao longo de toda a cadeia de valor”, de acordo com o comunicado. Com esta garrafa é possível “reduzir em cerca de 40% as emissões de dióxido de carbono associadas à embalagem”, sem desvirtuar os padrões de qualidade, a resistência do produto final e o desempenho definido pela indústria.

Quanto ao prémio maior atribuído pelo Red Dot Design Award, neste caso, premiou a ideia materializada pelo LiDA – Laboratório de Investigação em Design e Artes, da Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha (ESAD.CR) da nova Universidade de Leiria e Oeste (Politécnico de Leiria), em colaboração com a Vidrala – Santos Barosa.
“Este reconhecimento demonstra o potencial transformador da investigação em design quando desenvolvida em estreita colaboração com a indústria. O projecto 260g evidencia que os desafios da sustentabilidade exigem conhecimento interdisciplinar, experimentação e confiança entre parceiros, permitindo desenvolver soluções que conciliam excelência técnica, inovação e impacto ambiental positivo”, declara Renato Bispo, Director do LiDA, por comunicado.
VINHOS ITALIANOS: Como um produtor português se abre ao mundo

Na economia e na política, há momentos de transição discreta que dizem mais sobre o futuro de um país do que grandes anúncios de investimentos estratégicos. No vinho – mundo tantas vezes ancorado na tradição, no orgulho legítimo das origens e na defesa da identidade – esses momentos são raros. Mais raros são no “velho […]
Na economia e na política, há momentos de transição discreta que dizem mais sobre o futuro de um país do que grandes anúncios de investimentos estratégicos. No vinho – mundo tantas vezes ancorado na tradição, no orgulho legítimo das origens e na defesa da identidade – esses momentos são raros. Mais raros são no “velho mundo”, onde Portugal, Espanha, França e Itália olham essencialmente para dentro e quase sempre com desconhecimento sobre o contexto vínico do “vizinho do lado”. Mas, de quando em vez, esses momentos pivot acontecem. E quando acontecem, devem ser reconhecidos pelo que realmente são: sinais de maturidade, de visão e, acima de tudo, de confiança. A decisão de um grupo como o Grupo Amorim de integrar, no seu universo, o olhar e ação de um dos mais respeitados enólogos italianos, Riccardo Cotarella é, a nosso ver, um desses momentos.
Como é sabido, Portugal sempre se distinguiu pela riqueza das suas castas e dispersão territorial da plantação da vinha, diversidade dos seus terroirs e por uma cultura vínica profundamente enraizada. Agora, com este movimento do Grupo Amorim, esperamos que o mundo vínico português recupere a capacidade de se abrir ao exterior. É verdade que Portugal nunca esteve totalmente fechado, sendo disso bom exemplo alguns enólogos estrangeiros que se radicaram no nosso país, caso de Peter Bright, e, depois, David Baverstock, ambos australianos. E também é certo que tivemos outros nomes internacionais, sonantes até, que, pontualmente, cruzaram o nosso caminho, mas sempre sem destaque maior. Veja-se o caso de Michel Rolland, o mais célebre dos flying winemakers e uma das figuras mais influentes da enologia contemporânea.
Michel Rolland teve presença global avassaladora, trabalhando com centenas de produtores em mais de duas dezenas de países. No entanto, ao contrário do que aconteceu na Argentina, em Itália ou na Califórnia, EUA, a sua marca em Portugal foi ténue, quase periférica, sem nunca se traduzir numa aposta estruturada ou num projeto com impacto sistémico. Maior influência no nosso país, mas mesmo assim sem consolidar um impacto determinante no Portugal vínico moderno, teve o enólogo Pascal Chatonnet. Com uma ligação mais concreta ao país, colaborou, desde os anos 90 do século XX, com projetos no Douro, como a Quinta do Portal, e, mais tarde, desempenhou um papel menos esporádico na Bairrada e noutras regiões através do ex-grupo IdealDrinks, ainda exercendo a sua atividade pelo nosso país. Foram e são contributos importantes, sem dúvida, mas, ainda assim, inseridos em contextos específicos e sem o peso simbólico de uma opção estratégica assumida por um grande grupo nacional.
De fora para dentro
Pois bem, é esse movimento de fora para dentro que Luísa Amorim quer potenciar para os seus projetos localizados de norte a sul do país. Para tal, a produtora destaca a amizade de longa data da sua família com a família Cotarella, afirmando que tal não se trata de um detalhe biográfico, mas antes a base emocional e cultural de uma relação que transcende negócios ou estratégias. Para confirmar esse posicionamento, ou melhor, essa ponte entre os dois países, foi organizada uma prova de vinhos italianos, uma verdadeira imersão dedicada aos vinhos de Itália, no Instituto Superior de Agronomia em Lisboa.
O local não terá sido escolhido ao acaso, explorando a ligação à academia (Riccardo Cotarella colabora como professor de Enologia na Universidade da Tuscia), com vários alunos presentes, quer das licenciaturas de Engenharia Agronómica e Engenharia Alimentar, quer do Mestrado em Engenharia de Viticultura e Enologia.
Antes da prova propriamente dita, Riccardo Cotarella destacou, numa breve palestra, a forte cultura de vinho em Portugal – revelando até uma certa surpresa sobre a importância do vinho para os portugueses –, a diversidade de castas portuguesas, e a complexidade dos nossos lotes.
Mais do que termos muitas castas diferentes (em Itália existem ainda mais variedades), Riccardo Cotarella constatou que os enólogos portugueses têm uma capacidade quase intuitiva de equilibrar identidade e inovação, e, neste aspeto temos, de nos orgulhar quando alguém com o percurso de Riccardo Cotarella encontra, em Portugal, algo único e que não carece de ser corrigido, antes enaltecido. Talvez por isso, a consultoria do enólogo italiano é apresentada como uma colaboração apenas, sendo que ao seu lado estão os enólogos portugueses responsáveis pelas propriedades do Grupo Amorim, todos eles conhecedores dos seus territórios e com anos na casa – caso de António Bastos, na Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo (Douro), Rodrigo Costa, na Taboadella (Dão) e António Cavalheiro, na Herdade Aldeia de Cima (Alentejo).
Em suma, a apresentação do novo consultor internacional para o Grupo Amorim é, esperemos, um sinal de que o vinho português não se fecha ao exterior. No fim, talvez seja isso que verdadeiramente importa. Não se trata de trazer um grande nome da enologia italiana para Portugal, mas de ser capaz de mostrar que o nosso país pode dar-se ao luxo de se expor, porque quem sabe o que vale, não tem receio de partilhar e até de melhorar.
Os clássicos e a elegância no copo
Na masterclass, comentada por Riccardo Cotarella, o destaque, nos brancos, foi todo para o clássico Cervaro della Sala 2024, da Tenuta Castello della Sala (Grupo Antinori), que revelou a complexidade calcária do terroir de Umbria, localizada no centro de Itália, e muita precisão mineral. Também foram provados o fresco Il Punto 2023 (Lazio), o exuberante Vintage Tunina 2023, do produtor Jermann e da região norte Friuli‑Venezia Giulia, e o intenso Quartz Sauvignon 2024 do produtor Cantina Terlan do Adige Terlano (Val d’Aosta). Nos tintos, brilhou o Gran Selezione San Lorenzo 2021, do produtor Castelo di Ama, a provar que os Chianti Classicos seguem como os mais elegantes tintos italianos, lado a lado com a potência e juventude do Tenuta Nuova 2020, do produtor Casanova di Neri, em Brunello di Montalcino, e do carismático e rústico Montevetrano 2022, da Colli di Salerno, entre outros.
(Artigo publicado na edição de Junho de 2026)
ERVIDEIRA: Operação Invisível

No ano de 2010, quando o boom dos vinhos brancos ainda nem sequer tinha começado e sobre o branco de uvas tintas ainda não se ouvia falar, a Ervideira lançou o seu primeiro Invisível 2009, o vinho branco feito de Aragonez. Parecia mentira. Como se não bastasse, o lançamento foi marcado para o dia 1 […]
No ano de 2010, quando o boom dos vinhos brancos ainda nem sequer tinha começado e sobre o branco de uvas tintas ainda não se ouvia falar, a Ervideira lançou o seu primeiro Invisível 2009, o vinho branco feito de Aragonez. Parecia mentira. Como se não bastasse, o lançamento foi marcado para o dia 1 de Abril. Tal como hoje, mas há 16 anos, tornou-se uma tradição.
A surpresa do consumidor era grande e a curiosidade também. As 9000 garrafas esgotaram rapidamente e não era um vinho barato. À época, custava cerca de oito euros. O sucesso era absoluto e crescia de ano para ano. E, por muito que a produção aumentasse, a procura foi sempre superior, de maneira que em Julho todo o Invisível ficava mesmo invisível, demonstrando a apetência do mercado para absorver mais.
A curiosidade é um bom estímulo para experimentar um vinho. Uma vez. Não é suficiente para manter o nível de procura apenas com marketing adequado; o vinho tem que ter argumentos próprios, para manter o interesse do consumidor, como foi o caso. Assim, a edição de 2025 atingiu 180 000 garrafas. É o vinho mais vendido da Ervideira e não é o mais barato, custando agora 14,50 euros. Pela informação que conseguiram apurar na empresa no que toca aos vinhos tranquilos, o Invisível é o Blanc de Noirs mais vendido do mundo. Nada mau para um vinho de nicho. É um autêntico case study. 90% do Invisível é vendido no mercado nacional, 5% no Brasil e 5% em alguns países europeus.
É o vinho mais vendido da Ervideira e não é o mais barato
Um percurso Invisível
Recuando no tempo para lá do primeiro lançamento, estamos antes da vindima de 2008. A ideia foi, como sempre, de Duarte Leal da Costa, administrador da Ervideira, que trouxe, entusiasmado, vários Blanc de Noirs estrangeiros, para convencer o responsável de enologia, Nelson Rolo, a criar algo semelhante na Ervideira. O enólogo não partilhou o entusiasmo e disse que os vinhos que provou eram “uma treta”. “Então, vamos fazer um vinho que não seja uma treta”, concluiu Duarte.
E qual seria a casta escolhida para um papel tão importante? Várias foram as opções, no entanto, todas apresentavam algumas fraquezas. A Touriga Nacional era boa, mas precisavam dela para os vinhos tintos; Cabernet Sauvignon conferiu um aroma muito vegetal, enquanto os ensaios com a Trincadeira e a Moreto não tinham graça. A única casta que passou no casting com todos os requisitos foi a Aragonez.
Desde então, plantaram três vinhas novas e aumentaram a adega por três vezes para dar resposta ao aumento da produção do Invisível especialmente para a produção do Invisível. Actualmente estão a planear uma quarta alteração.
Paralelamente, o estilo também foi-se alterando um pouco ao longo dos anos, de acordo com o gosto do consumidor. Os primeiros vinhos tinham mais álcool (13-13,5%) e cerca de cinco gramas por litro de açúcar residual; agora são secos e não ultrapassam os 12,5%.
É um vinho muito exigente em termos técnicos, sobretudo a nível de frio, para não extrair a cor. Têm as vinhas em duas zonas do Alentejo: em Reguengos e na Vidigueira. Vindima-se tudo à máquina e à noite. A uva da Vidigueira vai logo para uma câmara frigorífica. Em Reguengos, como a vinha fica muito perto da adega, circulam dois tractores, a transportar rapidamente a uva até à adega, sempre de madrugada. A uva segue logo para a prensa, para minimizar o contacto com as películas.
Fazer o Invisível é como construir um puzzle, pois trata-se de um lote de Aragonez não só de várias parcelas, mas também apanhado em alturas diferentes. A vindima começa no final de Julho, ainda antes das uvas destinadas para a base de espumantes. As primeiras uvas que entram, asseguram a acidez. Nesta altura, os aromas ainda não estão desenvolvidos. Por isso, é preciso ir construindo as camadas do vinho, incluindo as uvas vindimadas mais tarde, por vezes quase com um mês de diferença. Há várias fermentações separadas e o lote final é construído a partir de múltiplos ingredientes, com cuidado especial e o objectivo bem definido, rejeitando aqueles em que ou há cor a mais ou acidez a mais, ou sabem a verde.
Fazer o Invisível é como construir um puzzle, pois trata-se de um lote de Aragonez
Invisível com bolhas
Estas são bem visíveis, já que se trata da versão espumante bruto natural, ou seja, sem adição de açúcar no licor de expedição. Aqui, à Aragonez juntou-se a Syrah e até em quantidade superior, pois não sobra muito do Invisível original. É feito por método clássico, com segunda fermentação em garrafa durante nove meses. As 12 000 garrafas produzidas do primeiro espumante esgotaram-se na empresa em cinco semanas. A segunda edição, que ainda está em cave a estagiar, já conta com 30 000 garrafas.
(Artigo publicado na edição de Maio de 2026)















