QUINTA DA VACARIA: Na margem certa do Douro

Quinta da Vacaria

A eterna discussão entre a margem esquerda e a direita de Bordéus, que apaixona enófilos por este mundo fora, e sobre qual nelas se produzem os melhores vinhos, não tem grande paralelo no Douro. Na margem esquerda do rio Garonne e do Estuário de Gironde, o solo é rico em cascalho e os vinhos são […]

A eterna discussão entre a margem esquerda e a direita de Bordéus, que apaixona enófilos por este mundo fora, e sobre qual nelas se produzem os melhores vinhos, não tem grande paralelo no Douro. Na margem esquerda do rio Garonne e do Estuário de Gironde, o solo é rico em cascalho e os vinhos são mais austeros, estruturados e potentes, com grande capacidade de guarda; são elaborados a partir da casta predominante, a Cabernet Sauvignon, logo seguida pela Merlot, sendo as principais apelações Margaux, Pauillac, Saint-Julien, Saint-Estèphe entre outras. Na Margem Direita, por seu turno, os solos são predominantemente argilo-calcários. Ali produzem-se vinhos mais macios, frutados e sedosos, talvez mais sedutores e fáceis de beber quando jovens, com a predominância das castas Merlot e Cabernet Franc. Saint-Émilion e Pomerol são, neste caso, as cabeças de cartaz.

Já a escolha entre a margem direita (Norte) e a margem esquerda (Sul) do Douro depende mais do objectivo a que nos propomos, do que propriamente por ter uma influência directa nos vinhos produzidos. Por outras palavras, a margem direita, com mais sol, é tradicionalmente mais vinícola e turística, enquanto a esquerda oferece paisagens mais rurais, históricas e íngremes. No entanto, ambas são verdadeiramente deslumbrantes.

Geralmente mais ensolarada, a margem direita, alberga muitas das quintas mais famosas da região e a zona histórica de Peso da Régua; é onde o Sol incide com mais intensidade durante o dia, factor ideal para a maturação das uvas. Além disso, é ainda marcada por afluentes importantes, como o Corgo, o Tua e o Sabor. Já a margem esquerda oferece vistas incríveis sobre a margem direita e áreas rurais muito cénicas, com declives acentuados em xisto.

À direita do rio

A Quinta da Vacaria está situada na margem direita do Rio Douro. Localizada no coração do Baixo Corgo, próximo de Peso da Régua, a propriedade estende-se na confluência dos rios Corgo e Douro e apresenta altitudes que variam entre os 50 e os 300 metros. Beneficia de um clima ameno, favorável para o desenvolvimento gradual e maturação da uva, de um solo inclinado, difícil e agreste, repleto de pedras lascadas em consequência da degradação do xisto. A parte vegetativa da videira tira partido desta rocha xistosa, já que o subsolo é permeável, permitindo que as raízes das videiras consigam encontrar, a uma grande profundidade, os nutrientes e a humidade essenciais ao vigor e à produtividade da planta. Com 42 hectares, é constituída por inúmeras parcelas de vinha. Há duas muito antigas na Vinha do Corgo e do Vale Bastardo. Ainda sobre a primeira e nas encostas suaves, estão as novas vinhas instaladas em fileiras verticais sob a técnica de “vinha ao alto”, enquanto nas encostas mais íngremes, a implantação das videiras foi feita de acordo com a técnica do chamado novo modelo de socalco. Junto à nova adega, optou-se pelo modelo de patamares estreitos de 1,5 metros, no seguimento de uma viticultura sustentável.

Planear a viticultura para o futuro é um dos objectivos traçados pela equipa desta casa, daí a necessidade de se implementar uma estratégia de reconversão do encepamento, no sentido de se seleccionar castas mais resistentes à seca e/ou às doenças resultantes das actuais condições climáticas. A viticultura sustentável regida pelas boas práticas agrícolas e em prol do ecossistema, por forma a se atingir a harmonia entre produção e território.

Quanto à enologia, esta arte está sob a responsabilidade de Jean-Hugues Gros, francês radicado no Douro desde 1999 e que dispensa apresentações, e de João Menezes. Ambos assumem o objectivo de consolidar um projecto que quer elevar o reconhecimento do Douro enquanto região vitivinícola, através das melhores práticas agrícolas e de vinificação, tendo como inspiração a diversidade deste vetusto terroir.

Mais de 400 anos de história

A Quinta da Vacaria colocou no mercado os primeiros tintos da colheita de 2022, com destaque para o Reserva tinto, com 18 mil garrafas e grandes formatos até 27 litros, e o Touriga Nacional, com 2500 garrafas e formatos de até aos cinco litros. Num ano vitivinícola marcado por temperaturas elevadas no Douro, a colheita de 2022 resultou em vinhos de “maior concentração de fruta”, mantendo “elegância, frescura e equilíbrio”, explica Miguel Esteves, gestor de negócio da Quinta da Vacaria. “São tintos que revelam intensidade com precisão e tensão, refletindo uma leitura contemporânea da região”, acrescenta. As restantes referências da colheita 2022, deverão chegar ao mercado em breve, reforçando o portefólio da Quinta da Vacaria no segmento premium, assente na “autenticidade, tipicidade e expressão fiel do Douro”.

Sobre a história da Quinta da Vacaria, aquela tem sido contada a partir de 1616, ano em que foi incorporada no património da Companhia de Jesus, por intermédio de D. Frei Luís Álvares de Távora, que mandou erigir uma casa com cinco salas, no piso superior, e três lagares e duas adegas, no térreo. Cerca de 150 anos depois, por volta de 1760, a memória descritiva da propriedade revela a existência de vinhas, oliveiras, montes, ribeiras, azenhas, uma casa e adega, lagares de vinho e azeite, cardanho para os trabalhadores e, próximo deste, uma capela da invocação de Nossa Senhora do Bom Sucesso, com retábulo dourado. O património edificado era complementado por um armazém de sal e casas de recolha dos barqueiros.

Volvidos mais de quatro séculos desde o início da história contada sobre a propriedade, decorre a abertura da unidade hoteleira Torel Quinta da Vacaria, em 2024, marco importante nesta narrativa, tornando este um local de referência, não apenas para a produção de vinhos, mas também para a hospitalidade e o turismo de excelência na região do Douro, com a mais-valia de o restaurante de fine dining, o Schistó, ao comando do Chef Vítor Matos, ter sido distinguido com uma estrela Michelin na edição 2026 do Guia Michelin Portugal.

Em suma, a Quinta da Vacaria é mais do que uma propriedade, é um símbolo de permanência no coração da mais antiga região demarcada do mundo. A qualidade excepcional e o reconhecimento no universo vitivinícola não acontecem da noite para o dia, exigem séculos de aprimoramento. Afinal, “produzir vinho é relativamente simples, só os primeiros 200 anos são difíceis” foi a frase mais célebre da Baronesa Philippine de Rothschild. Pois na Vacaria já lá moram mais de 400 anos!

(Artigo publicado na edição de Maio de 2026)

Rodolfo Tristão preside o Top 100 Sommeliers Portugal

Top 100 Sommeliers

Fundado pela comunidade online de escanções Sommelier Edit em 2023, no Reino Unido, a iniciativa Top 100 Sommeliers chegou este ano ao nosso país, onde adoptou a designação Top 100 Sommeliers Portugal, que recentemente anunciou a eleição de Rodolfo Tristão para Presidente. O desempenho deste papel centra-se não apenas na organização estratégica, mas também no […]

Fundado pela comunidade online de escanções Sommelier Edit em 2023, no Reino Unido, a iniciativa Top 100 Sommeliers chegou este ano ao nosso país, onde adoptou a designação Top 100 Sommeliers Portugal, que recentemente anunciou a eleição de Rodolfo Tristão para Presidente. O desempenho deste papel centra-se não apenas na organização estratégica, mas também no apoio na selecção e “desenvolvimento dos principais sommeliers de Portugal”, bem como nas relações com o comércio mundial do vinho”.

“Hoje, o escanção afirma-se cada vez mais como uma peça essencial no restaurante. A crescente valorização desta profissão reflecte a importância do serviço de vinhos e do aconselhamento na experiência do cliente à mesa. Com esta iniciativa, pretende-se reforçar o reconhecimento dos escanções, aumentar a sua presença e dar maior visibilidade à riqueza e à relevância desta profissão”, explica Rodolfo Tristão à Revista Grandes Escolhas.

Por cá, o Top 100 Sommeliers Portugal é organizado em parceria com a Taylor’s Port e tem como objectivo criar um ranking de escanções do país. A inscrição é feita através do link https://sommelieredit.com/pt/top-100-sommeliers/nomeacoes/.

O Top 100 Sommeliers já reúne outras edições em outros países, como Espanha (2024, 2025 e 2026) e Nova Zelândia (2025 e 2026), além de Portugal e Austrália (2026), com previsão para rumar a outras latitudes em 2027.

 

ISA: inovação tecnológica e sustentável

ISA

Com o intuito de dar resposta aos novos desafios da agricultura, da floresta, do ambiente e da sustentabilidade, num contexto em que a alimentação volta a ser tema de debate e de preocupação na Europa, o Instituto Superior de Agronomia (ISA), em Lisboa, implementou uma reforma curricular, quer nas licenciaturas, quer nos mestrados, liderada pela […]

Com o intuito de dar resposta aos novos desafios da agricultura, da floresta, do ambiente e da sustentabilidade, num contexto em que a alimentação volta a ser tema de debate e de preocupação na Europa, o Instituto Superior de Agronomia (ISA), em Lisboa, implementou uma reforma curricular, quer nas licenciaturas, quer nos mestrados, liderada pela presidente do Conselho Científico, Teresa Ferreira, e implementada pelo Conselho da Gestão do ISA.

Uma das apostas recai na tecnologia. A inteligência artificial, os drones, os sensores ambientais e os robôs agrícolas fazem parte do dia-a-dia dos estudantes na cadeira de Sistemas Inteligentes e Robótica, transversal a várias licenciaturas. Esta actividade permite antecipar pragas, otimizar a rega e melhorar a gestão dos recursos naturais em prol da biodiversidade. Está associada ao AgriTechEdu, hub de aprendizagem iniciado em 2024, com o objectivo de, por um lado, prover o ISA com tecnologia de ponta e, por outro, fomentar as competências digitais e tecnológicas nas Ciências Agrárias.

O AgriTechEdu está, por sua vez, integrado no Living Lab da Tapada da Ajuda, o primeiro integrado numa instituição de ensino superior portuguesa e ligado à Rede Europeia de Living Labs, para que empresas, investigadores e estudantes possam testar tecnologias verdes e digitais em contexto real. “A formação tecnológica estende-se também à sociedade através do Open Campus do ISA, iniciativa lançada em 2023”, segundo o comunicado.

Esta acção conjunta contribui para a consolidação da empregabilidade dos estudantes formados próxima dos 100%. “Há empresas como a Corticeira Amorim ou a The Navigator Company que procuram ativamente engenheiros florestais de excelência, como os que aqui são formados”, informa, através de comunicado, Madalena Lordelo, Vice-Presidente do Conselho de Gestão e do ISA, que tem a alumnISA, a associação de antigos alunos do ISA, colo elo de ligação entre a escola e o mundo empresarial.

Em suma, o ISA assume-se como o epicentro da formação de profissionais com capacidade de resposta face a alguns dos temas mais prementes do século XIX; produção de alimentos, gestão de florestas, preservação e protecção da biodiversidade, e utilização de tecnologias que favoreçam os recursos naturais.

Granvinhos inaugura a Adega do Cedro

Granvinhos

Em Peso da Régua, região do Douro, a Granvinhos abre oficialmente as portas daquela que chama de ‘adega do futuro’. Trata-se da Adega do Cedro, erguida da Quinta do Cedro, cujo investimento total ascendeu a 27 milhões de euros, dos quais cerca de 19% teve a comparticipação do Plano de Recuperação e Resiliência. Com a […]

Em Peso da Régua, região do Douro, a Granvinhos abre oficialmente as portas daquela que chama de ‘adega do futuro’. Trata-se da Adega do Cedro, erguida da Quinta do Cedro, cujo investimento total ascendeu a 27 milhões de euros, dos quais cerca de 19% teve a comparticipação do Plano de Recuperação e Resiliência.

Com a finalidade de processar 8000 toneladas de uva e a função de produção de vinhos do Porto e Douro, reúne “um conjunto de inovações tecnológicas que permitem maximizar o potencial qualitativo das uvas provenientes de cerca de 800 viticultores, distribuídos por oito concelhos da Região Demarcada do Douro, que nos confiam a sua produção”, nas palavras de Jorge Dias, Director-Geral do grupo. Dentro das acções inovadores desta unidade industrial, destacam-se a automatização e o desenvolvimento de processos, que, ao mesmo tempo, incrementam a segurança e minimizam a dependência de mão de obra; a reutilização de 50% das águas residuais; a instalação de uma central de energia fotovoltaica; e a implementação equipamentos que contribuem para a redução até 40% das necessidades energéticas da adega. O objectivo é reforçar o compromisso com a sustentabilidade no âmbito do sector vitivinícola nacional. Paralelamente à funcionalidade, este edifício de grande dimensão, cujo projecto é projeto assinado pelo arquiteto Alexandre Burmester, cumpre os critérios de enquadramento paisagístico.

Recorde-se que o grupo Granvinhos integra no universo dos vinhos do Porto, do Douro, Verdes, de Lisboa e da Madeira, a par com o enoturismo, o qual converge com o grupo francês La Martiniquaise Bardinet, detido pela família Cayard.

POÇAS: Da história se faz o vinho

Poças

Em tempos idos, quando os barcos Rabelo, carregados de pipas com vinho, desciam o rio que empresta o nome à região, o sável, abundante, subia o Douro, para ali desovar. A necessidade de se alimentar fez do tanoeiro pescador e cozinheiro. Já depois de amanhado e limpo, dispunha o peixe migratório, proveniente do mar, numa […]

Em tempos idos, quando os barcos Rabelo, carregados de pipas com vinho, desciam o rio que empresta o nome à região, o sável, abundante, subia o Douro, para ali desovar. A necessidade de se alimentar fez do tanoeiro pescador e cozinheiro. Já depois de amanhado e limpo, dispunha o peixe migratório, proveniente do mar, numa grelha de arames antecipadamente atravessada no interior de uma barrica de carvalho sem fundo e suspensa em quatro pés, para deixar o ar entrar e onde colocava o serrim, para defumar o sável.

Inspirada nesta história, a Poças tem vindo a desenvolver um trabalho muito interessante no tocante à recuperação da tradição de fumar o sável em barricas de Vinho do Porto. “Antigamente, o processo era muito mais moroso porque o rio era completamente diferente, não havia barragens e, por isso, faziam várias viagens. Era uma altura de muita dificuldade e aproveitavam exatamente esse momento, já que estavam no barco, para tentar a sua sorte e ir pescar, e assim que apanhavam esses peixes para comer, era também uma forma de os preservar, para poder levar para casa no final da viagem e alimentar as suas famílias. Atualmente a receita mudou um pouco. Nós fizemos a nossa interpretação e, hoje, vamos ver o resultado”, conta o enólogo André Barbosa. Trata-se do “Sável à Poças”, que, para além da importância histórica, também assume uma excecional importância social e económica pela variedade e relevo das atividades que lhe estão ligadas.

Poças

Vinhos Fora da Série

Da preparação do sável, nasce o rosé Fora da Série Cold Smoke 2025, como nos explica o enólogo: “Cold Smoke pretende expressar uma fumagem a frio, ou seja, depois de uma muito leve prensagem das uvas, o líquido resultante vai para umas cubas isotérmicas, onde faz uma estabilização a frio por mais de 11 dias, o que ajuda a concentrar aromas. Após esse período, ainda com uma temperatura muito baixa (cerca de 5 ºC, entra nas barricas de carvalho francês, acácia e cerejeira, onde a temperatura sobe gradualmente até ao ponto de ser inoculado para fermentação. Este processo faz com que o mosto receba os aromas da tosta ainda a frio (cold smoke), que é muito semelhante à fumagem do sável a frio, sem brasa. Desta forma, os aromas ficam mais concentrados no mosto, mais delicados e bem integrados. Fermenta e estagia nessas barricas por seis meses.”

A utilização de barricas de carvalho francês, feitas a partir de cerejeira e acácia, complexificou ainda mais o conjunto deste rosé, uma das estrelas do almoço. Agora, faz parte dos mais de 20 exemplares da gama Fora da série, uma espécie de “jardim da criatividade do enólogo”, que tem carta branca para lançar vinhos diferenciados, edições especiais, experiências, por vezes, únicas e, noutros casos, que vieram para ficar, como, pensamos, virá a ser o caso deste rosé ou do Vinho da Roga, entre outros, entretanto repetidos.

A gama Fora da Série está assente em três pilares: alterações climáticas, sustentabilidade e o cliente final. André Barbosa explica: “por um lado, as alterações do clima, a falta de água, a incerteza que hoje temos (parece que nem temos estações do ano), afetam a maturação das uvas e, por consequência, o perfil dos vinhos; por outro lado, é muito importante sermos uma empresa mais sustentável e, finalmente, o consumidor que, hoje, procura vinhos mais versáteis (para diferentes tipos de harmonização), com menos teor alcoólico, mais complexos e com personalidade.  A gama Fora da Série tenta abranger todos estes temas”.

Valorizar o produto local

O que mais impressiona no trabalho de André Barbosa é a mesma consistência que aplica nos Colheita, nos Reserva e nos Grande Reserva da casa, bem como na criação de vinhos diferenciadores, expressões de grande personalidade da referida gama Fora da Série. No total, são produzidas entre 1.5 a 1.8 milhões de garrafas de vinhos do Porto e DOC Douro num universo constituído por três propriedades vinhateiras, uma em cada uma das sub-regiões do Douro. Trata-se da Quinta das Quartas, localizada no Baixo Corgo, que passou a integrar o património da Poças em 1932 e onde se encontra localizado o centro de vinificação, bem como o primeiro armazém de envelhecimento; da Quinta de Vale de Cavalos, em Numão, no Douro Superior, adquirida em 1987; e da Quinta de Santa Bárbara, em Ervedosa do Douro, no Cima Corgo, adquirida nos anos 90 do século XX.

“Vale de Cavalos é onde temos maior altitude e solos de transição de xisto para granito; Santa Bárbara é a zona mais quente, com vinha velha, onde vou buscar concentração e estrutura; a Quinta das Quartas tem mostrado um perfil muito elegante e equilibrado, sempre com uma frescura incrível onde vou buscar o ingrediente secreto para equilibrar alguns lotes. Esta diversidade, esta multiplicidade de terroirs permite-nos ter o portefólio que temos atualmente, incluindo os Fora da Série. O projeto vive muito da interpretação de vários locais do Douro”, remata André Barbosa.

Em curso está a implementação da vertente de enoturismo na Quinta das Quartas, com o objetivo de levar as pessoas ao Douro. “Esta abertura ao turismo na Quinta das Quartas também passa por valorizar mais os produtos da própria região, ou seja, olhar para o território e não apenas para o vinho. O Douro produz azeite – que já deu um salto enorme, mas também tem amêndoas, tem laranjas, tem figos. Enfim, transmitir um pouco dessa história e achamos que será mais fácil fazê-lo lá, pois quem vai ao Douro, também já vai mais com essa abertura”, salienta Pedro Pintão, presidente do Conselho de Administração da Poças e um dos quatro primos à frente desta empresa secular e familiar, que já se faz representar pela quarta geração.

À mesa tivemos oportunidade de provar um desses exemplos, o azeite de bordadura Fora da Série, feito a partir de azeitona apanhada no olival tradicional que rodeia a vinha. Foram ainda apresentadas as novas colheitas do Poças Reserva branco 2025 e do Poças Branco da Ribeira 2024, que, juntamente com o rosé, acompanharam na perfeição o delicioso menu preparado pelo chef Pedro Braga, do restaurante Mito, no Porto. A refeição fechou em grande com o Poças Vintage 2024, um Vinho do Porto de grande nível, para celebrar os 100 anos do lagar da Quinta das Quartas. Que bela experiência!

(Artigo publicado na edição de Maio de 2026)

DUORUM: Tributo à “família” de vinhos

Duorum

Foi com a vindima de 2025 que se inaugurou a nova adega da empresa, situada em Foz Côa. Até então, as uvas eram vinificadas em adega alugada, em Ervedosa. São muitas as vantagens: maior proximidade em relação à Quinta de Castelo Melhor, o epicentro do projeto, mais disponibilidade de mão-de-obra, que não está sujeita a […]

Foi com a vindima de 2025 que se inaugurou a nova adega da empresa, situada em Foz Côa. Até então, as uvas eram vinificadas em adega alugada, em Ervedosa. São muitas as vantagens: maior proximidade em relação à Quinta de Castelo Melhor, o epicentro do projeto, mais disponibilidade de mão-de-obra, que não está sujeita a deslocações, com a poupança que daí advém, e painéis solares e ETAR de última geração, com a reciclagem monitorizada por TV. Nesta adega recebem ainda as uvas que compram para a marca Tons de Duorum.

Com espaço para crescer se necessário e com boas vias de acesso, a adega é funcional, cumprindo todos os requisitos, à excepção do engarrafamento, assunto sempre melindroso para João Portugal Ramos, que não entende a proibição de se fazer os engarrafamentos em Estremoz, onde a empresa tem todas as condições para efectuar esta tarefa. São as regras da Denominação de Origem. O enoturismo, a desenvolver, será na Quinta de Castelo Melhor, com apiário e onde as preocupações ambientais são uma constante, ou não houvesse o registo de um grande aumento das espécies locais, “mais do dobro do que quando começámos”, relembra João Portugal Ramos. A actividade turística poderá incluir mesmo alguns quartos bem perto do rio Douro, junto à antiga linha de comboio.

Duorum

Mudanças no perfil

É na marca Duorum Colheita que mais se aposta. Esta já representa cerca de 200 000 garrafas, enquanto a Tons anda pelas 600 000. A finalidade é ir invertendo gradualmente estes números, com o intuito de crescer no Colheita. O tinto Reserva representa cerca de 15 000 garrafas e o topo de gama O. Leucura fica-se pelas 3000. O portefólio inclui igualmente as marcas Altitude, Vinha dos Muros e Vinha das Abelhas. Mas o filho, João Maria Ramos não quer alargar mais, porque “na distribuição é muito complicado estar sempre a inovar, não se consegue criar marca dessa forma”.

Aos comandos da enologia, João Perry Vidal reconhece que muito mudou desde o início do projecto – cresceram em importância algumas castas, como a Alicante Bouschet e a Sousão, e mudou-se um pouco o perfil dos tintos, apontando para vindimas mais antecipadas (alguma já mecânica), mais maceração pré-fermentativa, por forma a obter mais elegância e menos álcool. Reconhece que “nos Reserva e nos vinhos especiais poderá haver mais maceração, para maior extracção de taninos”.

Por outro lado, “ainda não nasceu o nosso grande branco, mas estamos a trabalhar no assunto. Aqui na zona há boas vinhas velhas e muita gente quer nos fornecer uvas”. Entretanto, foi descartado a Viosinho que, por aqui, não dava grande resultado, tal como a Verdelho. As duas variedades são adquiridas agora na sub-região do Cima Corgo. Códega do Larinho? “Também temos”, diz-nos, “mas ainda não nos convenceu totalmente. A aposta é sobretudo em Arinto, Rabigato e Gouveio. Depois há as castas de tempero”, acrescenta.

O tinto O. Leucura é muito atractivo para consumidores brasileiros, que o adquirem na loja do aeroporto

 

Boas novas no portefólio

Dos vinhos provados de novo e, dos que foram revisitados, há notas a tomar. Nas novidades há que dizer que sobre o Reserva tinto se fizeram 14 666 garrafas. É um tinto que tem origem em uvas de vinhas velhas, algumas com 50 anos; após a fermentação e 18 dias de cuvaison, estagia em barrica (70% nova).

O ex-libris da empresa, O. Leucura, apenas foi editado em anos especiais – 2008, 2011, 2012, 2015 e agora 2017. Segundo o produtor, há três colheitas em cave à espera de decisão, sendo que há a vontade de repetir este intervalo de espera entre a colheita e o lançamento, tal como se fez nesta edição. Comparando com as anteriores, percebe-se que o objectivo é fazer um tinto com uvas colhidas mais cedo, menos macerado na fermentação, mais elegante e fino, seguindo as tendências do gosto. Curiosamente é um tinto bem aceite, sobretudo no mercado interno e por consumidores brasileiros, que o adquirem na loja do aeroporto.

No próximo ano, em jeito de comemoração dos 20 anos do projecto, tenciona lançar um Porto Colheita 2007, entrando, deste modo, no “universo tawny” de que estavam arredados até agora.

Já ao almoço revisitaram-se vários vinhos: Duorum 2012 em magnum, Vinho dos Muros brancos 2023 e 2024. No final, o Porto Vintage 2011 (para mim um dos grandes vintages dessa declaração clássica) foi servido em magnum e mostrou-se perfeito na concentração e no perfil denso, muito especiado, com anos e anos pela frente.

(Artigo publicado na edição de Maio de 2026)

THE GLENROTHES: Um escocês e tanto

The Glenrothes

Comecemos pelo princípio. O que temos na mesa de prova é um whisky escocês com origem em Speyside, uma das cinco zonas distintas do whisky de malte. As outras são Highlands, Islay, Lowlands e Campbeltown. Speyside é, no entanto, a mais importante, uma vez que ali se localizam cerca de 1/3 de todas as destilarias […]

Comecemos pelo princípio. O que temos na mesa de prova é um whisky escocês com origem em Speyside, uma das cinco zonas distintas do whisky de malte. As outras são Highlands, Islay, Lowlands e Campbeltown. Speyside é, no entanto, a mais importante, uma vez que ali se localizam cerca de 1/3 de todas as destilarias da Escócia (150), mas muitas delas executam essa tarefa para clientes (e marcas) diferentes. Após a destilação, o spirit é estagiado em madeira de carvalho. Por norma, o que conhecemos melhor são os whiskies que já tiveram o seu estágio em carvalho, mas, sempre que é possível e havendo a oportunidade, é uma grande experiência provar um whisky antes de ir para o casco. É aí que se percebe que o destilado e a madeira são indissociáveis e que o spirit sem a madeira fica totalmente descasado, e, diga-se, sem grande graça.

Muitas das marcas que conhecemos estão conotadas com uma destilaria. Contudo, convém recordar que há marcas de whisky de empresas sem destilaria e que funcionam como loteadores: compram whiskies em variados locais, depois loteiam e envelhecem. Podem tornar-se marcas muito procuradas por coleccionadores e apreciadores, como Gordon & MacPhail, empresa cuja fundação remonta ao século XIX e que também se localiza em Speyside. São verdadeiros arqueólogos do whisky, disponibilizando produtos raros, antigos e muito procurados por coleccionadores.

Um pouco à semelhança do que acontece no sector vinícola, também o whisky conhece actualmente um movimento de criação ou renascimento de pequenas destilarias, apontando para produtos de boutique, originais e editados em quantidades muito limitadas. O coleccionismo atinge, neste universo, o nível de quase doença, com a busca incessante “daquela garrafa” que ainda não consta na colecção. Mesmo para apreciadores normais, categoria em que me coloco, um passeio na rua principal de Edimburgo é desconcertante: são lojas umas a seguir às outras e as montras estão recheadas de marcas e nomes que não conhecemos. Percebemos de imediato que é um outro mundo que nos escapa.

A Glenrothes foi fundada em 1878 por James Stuart, que já trabalhava na vizinha Macallan. Com história conturbada e várias catástrofes pelo meio, interessa-nos a mais recente. Desde 2018, pertence ao grupo que detém a Macallan e a Highland Park. No caso da Macallan, estamos a falar de uma marca verdadeiramente icónica, que pode atingir preços de ourivesaria, qualquer coisa como dezenas de milhar de euros por edições datadas, sobretudo dos anos 50.

As maturações do whisky da Glenrothes são feitas em cascos de Jerez. Há empresas que preferem outro tipo de cascos, nomeadamente de Vinho do Porto, para a fase final do estágio. Neste caso, surge no rótulo a indicação “Port Finish”, como acontece com algumas marcas conhecidas, como Balvenie ou Glenmorangie. Existe também um intercâmbio entre Moscatel de Setúbal e whisky: há cascos a irem para lá e outros a virem de lá para cá, com o propósito de serem utilizados no envelhecimento do moscatel, como acontece na Bacalhôa, em Azeitão.

Este The Glenrothes 15 Anos é um Single Malt, ou seja, resulta de maltes destilados numa única destilaria. Em tempos, encontrava-se no mercado garrafas com a indicação Pure Malt (lote de destilados de várias origens). Porém, o termo está fora de uso, tendo sido substituído por Blended Malt.

(Artigo publicado na edição de Maio de 2026)

Estão apurados os galardoados do Concurso de Vinhos dos Altos e do Concurso de Azeites da Feira dos Vinhos & Sabores dos Altos, iniciativa da Câmara Municipal de Alijó. O evento que teve lugar nos dias 19 e 21 de junho, no Parque da Vila de Alijó, no Alto Douro Vinhateiro, recebeu cerca de 5000 visitantes, reuniu cinco dezenas de produtores e teve novidades.

Mas falemos, primeiro, das duas competições. De acordo com o resultado obtido no Concurso de Vinhos dos Altos, que teve lugar na Casa dos Noura, em Alijó, e foi presidido por Valéria Zeferino, diretora da Revista Grandes Escolhas, a distinção de “Melhor Vinho” foi atribuída a três referências: FozTua Reserva 2023 (Foz do Tua), Lacrau Garrafeira 2019 (Secret Spot Wines) e Costa Boal Porto Tawny 30 anos (Costa Boal Family Estates), respectivamente, nas categorias de Branco, Tinto e Fortificado. Este trio de referências está incluído na lista dos 30 galardoados, com os Espumantes a destacarem-se apenas com uma medalha de Prata, os vinhos Brancos a dividirem-se entre cinco Ouros e cinco Pratas, em ex aequo com os Tintos, os Rosés com um Ouro e duas Pratas, enquanto os Fortificados arrecadaram três Ouros. As 97 referências vínicas inscritas foram aferidas em prova cega por um conjunto de 17 jurados, entre jornalistas, importadores, distribuidores, representantes de garrafeiras e consultores. (consultar lista no final)

Já o Concurso de Azeites 2026 decorreu no Centro Interpretativo D’Olival ao Azeite D’Ouro, em Castedo, e foi presidido por Francisco Pavão, presidente da APPITAD – Associação de Agricultores de Portugal e especialista em azeites. Dos 14 azeites avaliados em prova cega, os dez elementos do júri medalharam o Quinta de Rio Pequeno Azeite Virgem Extra com a insígnia de “Melhor Azeite”. As restantes sete distinções dividem-se em duas distinções de Ouro, quatro de Prata e uma Menção Honrosa. (consultar lista no final)

Às duas competições, somaram-se três provas de vinhos comentadas: a prova focada nos brancos foi conduzida por Sérgio Lopes, crítico de vinhos da Revista Grandes Escolhas, enquanto os vinhos tintos e os fortificados foram concretizadas por Valéria Zeferino. No contexto dos “Azeites do Concelho de Alijó”, a prova contou com a oratória de Francisco Pavão.

No capítulo das novidades, cabem o Wine Bar Experience e o Buyers Lounge. O Wine Bar Experience esteve nas mãos da dupla de bartenders Pedro Margarido e Nazar Vershynin, da Piratas de Rio, empresa especializada na feitura de bebidas e cocktails. Ambos criaram uma carta constituída por cinco cocktails protagonizados por vinhos, moscatéis e espumantes produzidos neste território vitivinícola. O Buyers Lounge foi o espaço reservado a reuniões e encontros agendados, respectivamente, entre os produtores e cinco compradores internacionais da Eslovénia, Espanha, Letónia, Noruega e Reino Unidos, assim como com oito profissionais nacionais.

Concurso de vinhos

Concurso de Vinhos dos Altos 2026

Melhores Vinhos

Branco

FozTua Reserva 2023 (Foz do Tua)

Tinto
Lacrau Garrafeira 2019 (Secret Spot Wines)

Fortificado
Costa Boal Porto Tawny 30 anos (Costa Boal Family Estates)

 Espumantes

Medalha de Prata

Uivo Cronológico Ancestral 2018, Folias de Baco

Brancos

Medalha de Ouro

Águia Moura Gouveio Grande Reserva 2021 (Casa Agr. Águia de Moura)

Lacrau Superior 2023 (Secret Spot Wines)

Olgas 2023 (Maçanita Vinhos)

Venera 2023 (Quinta dos Loivos)

Viós 2024 (Newton’s Dynamic GPU)

Medalha de Prata

Circa 2021 (Faustino Meireles Moreira)

Grimalde 2025 (José Carlos Sousa Pimentel)

Guru 2024 (Wine & Soul)

Quinta Sanradela Velha Grande Reserva 2022 (Sabor de Pétalas Wine)

Vale do Tábua Reserva 2022 (Vale do Tábua)

Rosés

Medalha de Ouro

Venera Reserva 2023 (Quinta dos Loivos)

Medalha de Prata

Costa Boal Homenagem 2024 (Costa Boal Family Estates)

Quinta Sanradela Velha 2023 (Sabor de Pétalas Wine)

Tintos

Medalha de Ouro

Circa Reserva 2018 (Faustino Meireles Moreira)

Fragulho Reserva 2022 (Casa dos Lagares)

Quinta da Pedra Alta 2022 (Quinta da Pedra Alta)

Submerso Touriga Nacional 17 2024 (Submerso Vinhos)

Vale do Tábua D’Outrora Grande Escolha 2020 (Vale do Tábua)

Medalha de Prata

Costa Boal Superior 2022 (Costa Boal Family Estates)

Herança 2017 (D’Origem)

Lugar da Corredoura Touriga Nacional Reserva 2022 (Casa do Piàska)

Quinta do Jalloto 2024 (Faustino Meireles Moreira)

Rio Pequeno Field Blend Reserva 2020 (Quinta de Rio Pequeno)

Fortificados

Medalha de Ouro

Adega de Favaios Moscatel do Douro 2007 (Adega de Favaios)

Secret Spot Moscatel do Douro 20 anos (Secret Spot Wines)

Tapada de Favaios Moscatel do Douro (Vinhos de Favaios)

 

2º Concurso de Azeites

Melhor Azeite

Quinta de Rio Pequeno (Quinta de Rio Pequeno)

Medalha de Ouro

Cartageno’s (Cartageno’s – Serviços & Produtos)

Pintas (Wine & Soul)

Medalha de Prata

Águia Moura (Casa Agr. Águia Moura)

Fragulho (Casa dos Lagares)

Porca de Murça Biológico (Coop Agr. dos Olivicultores de Murça)

Uivo (Folias de Baco)

Menção Honrosa

Porca de Murça DOP (Coop Agr. dos Olivicultores de Murça)