Vinhos Verdes apostam na Inteligência Artificial

Vinhos Verdes

O EVAG – Centro de Estudos da Região dos Vinhos Verdes / Quinta Campos do Lima, em parceria com a Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes (CVRVV) e com o Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência (INESC TEC), criaram o SMARTLabel – Plataforma Inteligente para a Pré-Validação de Rótulos de […]

O EVAG – Centro de Estudos da Região dos Vinhos Verdes / Quinta Campos do Lima, em parceria com a Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes (CVRVV) e com o Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência (INESC TEC), criaram o SMARTLabel – Plataforma Inteligente para a Pré-Validação de Rótulos de Vinhos. Este projecto, cujo processo de desenvolvimento iniciou em Janeiro deste ano de 2026, tem a capacidade de ler um rótulo, identificar as menções obrigatórias e assinalar o que está em falta ou apresentado de forma incorrecta, de modo a agilizar processos e a orientar os produtores mediante a sua aprovação na entidade certificadora. Por sua vez, estes procedimentos estarão concluídos até ao final de 2027.

No âmbito deste trabalho, o desenvolvimento dos algoritmos de análise de imagem está a cargo do INESC TEC, enquanto a CVRVV contribui com o conhecimento do processo de apreciação e com rótulos reais da Região dos Vinhos Verdes, sob coordenação da EVAG. Co-financiado pela União Europeia através do programa NORTE 2030 – FEDER, esta plataforma de inteligência artificial e certificação tem como objectivo reduzir até 80% o tempo médio de resposta aos produtores, o que se traduz em maior celeridade também para quem exporta.

Dora Simões, Presidente da CVRVV, declara, em comunicado, o seguinte: “este é um importante passo na optimização do processo de certificação, uma vez que cada garrafa de vinho verde certificada passa pela etapa de aprovação da rotulagem. Tendo em vista que cada vez há mais referências de vinhos e o número de rótulos para aprovação tem incrementado na região, aprovando-se anualmente mais de 7000 rótulos, estamos muito expectantes quanto ao impacto extremamente positivo que o SMARTLabel terá no dia-a-dia dos produtores e dos técnicos, permitindo-lhes focar apenas na informação fundamental.” 

Vinhos Verdes

INFINITUDE: Perspectivas infinitas

Infinitude

Para Maria d’Assunção Osório de Vasconcelos, da Távora-Varosa, e Jorge Jardim Gonçalves, da Madeira, o cultivo da vinha fazia parte da tradição familiar. Por influência destas memórias, na propriedade que adquiriram em Galamares, a Quinta da Azenha, plantaram também vinha, em 2000. As castas foram escolhidas ao gosto pessoal da família: Pinot Noir e Merlot. […]

Para Maria d’Assunção Osório de Vasconcelos, da Távora-Varosa, e Jorge Jardim Gonçalves, da Madeira, o cultivo da vinha fazia parte da tradição familiar. Por influência destas memórias, na propriedade que adquiriram em Galamares, a Quinta da Azenha, plantaram também vinha, em 2000. As castas foram escolhidas ao gosto pessoal da família: Pinot Noir e Merlot. Inicialmente pensada como elemento do jardim, e não com o propósito de produzir vinho para comercialização, a vinha acabou, como tantas vezes acontece, por dar origem a um negócio e a uma marca: Infinitude.

Mas vamos por partes. Os primeiros vinhos foram produzidos a partir de 2010, ainda exclusivamente para consumo da família. Em 2017, a Infinitude apresentou as suas primeiras referências no mercado. Dos cinco filhos do casal, o mais novo, Rodrigo Jardim, acompanha o projecto desde o início.

Com o tempo, o projecto foi amadurecendo e tornou-se evidente a necessidade de integrar uma pessoa com experiência nas áreas da enologia e da viticultura, a tempo inteiro, que assumisse responsabilidades e contribuísse para a definição da sua estratégia e posicionamento. Em 2024, João Lino assumiu as funções de director-geral e enólogo, dando um novo impulso à profissionalização do projecto.

No ano seguinte, a produção passou de cerca de 5000 para 16 000 garrafas. “Sempre houve mais uva, mas nunca se engarrafou tudo o que se produzia”, explica João Lino, adiantando que, este ano, poderão chegar às 40 000 garrafas. O aumento da escala é, para o director-geral, também uma forma de ganhar visibilidade: “tem que haver alguma massa crítica para as pessoas começarem a conhecer a marca.” O objectivo é que essa notoriedade chegue ao consumidor, para que passe a procurar os vinhos da Infinitude: “eventualmente, o momento-chave é quando o consumidor final começar a pedir o nosso vinho, não só a restauração.”

Infinitude
Jorge e Rodrigo Jardim Gonçalves

Devoção a castas francesas

As cinco vinhas representam pouco mais de cinco hectares, a maior parte dos quais ocupados por castas estrangeiras. E é aqui que se impõe uma breve digressão histórica, pois existe a pressuposição de a presença de variedades francesas na zona de Sintra e Colares ser mais antiga do que se pensa.

O historiador Visconde de Juromenha, na sua obra Cintra pinturesca, ou Memória descritiva das villas de Cintra, Colares e seus arredores, de 1838, refere a intenção de D. Afonso III de promover a cultura da vinha, em 1255, na região de Sintra e Colares, numa altura em que o rei administrava e reorganizava activamente o património régio desta zona. Juromenha conjectura que, nessa ocasião, o monarca poderá ter introduzido cepas originárias de França.

Embora não possa ser dada como comprovada, a hipótese encontra algum fundamento indirecto no contexto histórico. Antes de subir ao trono, D. Afonso III viveu vários anos na corte francesa e a sua primeira mulher, D. Matilde II, era uma aristocrata pertencente à linhagem dos reis de França. O seu reinado assim ficou marcado pela influência francesa, o que torna plausível a possibilidade de castas oriundas daquele país terem chegado à região ainda no século XIII.

Voltando às vinhas, tudo começou na Quinta da Azenha. São cerca de dois hectares, plantados em chão rijo, onde predominam Pinot Noir e Merlot. Seguiu-se a Quinta do Torrado, não muito longe dali, com cerca de 2,5 hectares plantados em 2019. Para além de Pinot Noir e Merlot, a parcela inclui ainda Riesling, Sémillon e Chardonnay. Com apenas meio hectare, a vinha do Casalinho, plantada em 2000 apenas com Merlot, está rodeada por pinheiros, sobreiros, cedros e eucaliptos. A uva daqui, com um perfil mais fresco, é destinada à produção de rosé.

Na encosta da Serra de Sintra fica a pequena vinha da Boca da Mata, na aldeia do Penedo, a cerca de 100 metros de altitude. É a mais elevada de todas, está em agricultura biológica e é exclusivamente plantada com a casta Sémillon.

 

Praia seca de Ramisco e Malvasia

E, por fim, há um hectare de chão de areia, com Malvasia e Ramisco, a menos de um quilómetro do mar. O terreno foi adquirido precisamente com a finalidade de plantar estas castas e incluir, no portefólio, uma referência que represente a cultura vitivinícola da região.

A vinha passou a ser conhecida como ‘Praia Seca’, nome dado pelos filhos de Rodrigo Jardim, que viam a areia sem o mar. Foi plantada em 2020, de forma tradicional, em pé-franco, abrindo-se valas com cerca de cinco metros de profundidade. Um processo trabalhoso, que exige tempo até as videiras se estabelecerem e começarem a produzir.

Em 2024, aqui fizeram a primeira vindima, mas a produção foi ainda muito reduzida e as plantas apresentavam bastante heterogeneidade. “No ano passado, só fizemos cerca de uma tonelada por hectare. Mas sinto que este será um ano de maior produção”, afirma João Lino.

A produção em modo biológico aqui não funciona. O director-geral refere-se à praga do pulgão que afecta as folhas da videira: “se fosse em biológico, não conseguíamos dar a volta, quase que tínhamos de estar aqui dia sim, dia não a tratar a vinha”. Outra dificuldade são os pinheiros à volta da parcela, cujas raízes prejudicam as videiras devido à competição por água e nutrientes. Nas vinhas novas, plantadas em solo de areia, esta disputa deixa as videiras em desvantagem. A solução passa pela poda regular das raízes dos pinheiros, de forma a proteger a vinha.

 

Infinitude

Para ser sustentável, a vinha tem de produzir o máximo possível, desde que não comprometa a qualidade dos valores da marca

 

Qualidade sustentável

Dada a dimensão e a topografia das vinhas, quase todos os trabalhos de viticultura na Infinitude são manuais, com excepção da mobilização do solo e do corte da erva. No que toca à produção de vinho, ambição e pragmatismo não são conceitos contraditórios; pelo contrário, complementam-se. É isso mesmo que ressalta da conversa com João Lino e da prova dos vinhos.

Na viticultura, não seguem uma abordagem fundamentalista, privilegiando antes uma visão pragmática da sustentabilidade, como explica o enólogo: “a qualidade tem de ser top. Mas a produção tem de ser sustentável. Tem de se pagar, tem de criar emprego. E tem de haver uva. Porque, se estamos a tratar a vinha, a gastar gasóleo, produtos fitossanitários, mão de obra e de repente não sai uva… Então nem é ambiental.”

Há vinhas que produzem 12 toneladas por hectare, outras produzem oito, e as do chão de areia ainda nem chegam a duas toneladas por hectare. A produtividade varia bastante em função das características de cada vinha, mas a lógica é a mesma em todas: “para ser sustentável, a vinha tem de produzir o máximo possível, desde que não comprometa a qualidade e os valores da marca.”

O momento-chave é quando o consumidor final começar a pedir o nosso vinho

 

Adega à medida

No início do projecto, os vinhos eram vinificados na Adega Regional de Colares, sob a orientação enológica de Francisco Figueiredo. Mais tarde, porém, tornou-se evidente a necessidade de dispor de uma adega própria, que permitisse maior controlo sobre todo o processo de vinificação.

Como não havia espaço na propriedade para construir uma nova adega, e a burocracia na região de Sintra não facilitaria o processo, aproveitaram duas garagens, que foram unidas e devidamente equipadas. Nasceu, assim, uma adega à medida do projecto, com capacidade para vinificar 50 000 litros por ano, número mais do que suficiente para a meta de 40 000 garrafas previstas para este ano. Privilegiou-se a funcionalidade em detrimento da beleza. Os depósitos foram dimensionados para o espaço e dispostos de forma a permitir “que uma pessoa sozinha, sem a ajuda de outra, consiga facilmente trabalhar aqui”.

No fundo, o Infinitude é um projecto garagista requintado, já com alguma dimensão que, agora, exige uma estratégia comercial à altura.

 

De Sintra, de Colares e os Indie

A estratégia assenta em três gamas de vinhos bem definidas. A primeira é a Infinitude, com um conjunto alargado de referências, todas provenientes de chão rijo. São vinhos de castas internacionais que “espelham muito bem a região de Sintra” apresentados em blends ou, nos topos de gama, em versões monovarietais. São bases da marca que abrangem diferentes perfis de consumidor.

A segunda, com raízes na tradição vitivinícola da região, é dedicada aos vinhos DOC Colares produzidos a partir de Ramisco e Malvasia em chão de areia. A terceira reúne referências ‘Indie’: vinhos independentes, de capricho e fora da caixa, que não têm de seguir as regras das linhas essenciais da marca, “mas são coisas que achamos que podem fazer sentido”, explica João Lino.

Entre chão rijo e chão de areia, tradição e experimentação, abre-se uma infinitude de perspectivas, não fosse este, afinal, o nome da marca.

(Artigo lançado na edição de Setembro de 2026)

QUINTA DAS HERÉDIAS: Entre o passado e o futuro

Quinta das Heredias

Há lugares na Região Demarcada do Douro onde o silêncio não é apenas a ausência de som, mas sim uma densa acumulação de história, sussurrada pelo vento que corre entre os vales alcantilados. Quando nos aproximamos das encostas abruptas que desenham o vale do rio Távora, no concelho de Tabuaço, deparamo-nos com uma paisagem que […]

Há lugares na Região Demarcada do Douro onde o silêncio não é apenas a ausência de som, mas sim uma densa acumulação de história, sussurrada pelo vento que corre entre os vales alcantilados. Quando nos aproximamos das encostas abruptas que desenham o vale do rio Távora, no concelho de Tabuaço, deparamo-nos com uma paisagem que desafia a gravidade e a própria persistência humana. Na freguesia de Granjinha, onde se ergue a Quinta das Herédias, uma propriedade mítica de 108 hectares de área total que, após enfrentar anos de esquecimento, abandono e pilhagens, vive agora, em pleno ano de 2026, o seu definitivo e mais ambicioso renascimento vitivinícola e patrimonial.

Longe de ser apenas a recuperação convencional de uma marca de vinhos, o que aqui se testemunha é uma autêntica operação de arqueologia agrícola e de resgate cultural. Na linha da frente deste ressurgimento está Carlos Lucas, uma das figuras mais consagradas e respeitadas da enologia nacional. Secundado por uma equipa determinada, o reputado enólogo liderou um processo que testou os limites do isolamento humano, tudo com um objetivo claro: devolver o brilho e a dignidade a um terrunho de exceção que o tempo e o abandono teimavam em apagar.

Nesta reportagem, mergulhámos nas profundezas históricas de uma propriedade que já foi o sustento de monges cistercienses, pertenceu a famílias ligadas ao regicídio e à coroa, e hoje posiciona-se na vanguarda do setor, com um investimento robusto focado na elegância, no dinamismo, na excelência vínica e na fulgente hotelaria.

Quinta das Heredias

 

Numa ironia genealógica sem paralelo, a árvore da família une o sangue de um conspirador do regicídio de 1908 e a representação da família real portuguesa

 

O manto de Cister e os senhores de Távora

Para compreender a história e o espírito da Quinta das Herédias, é obrigatório recuar no tempo, até à época em que as fundações de Portugal ainda se consolidavam. A análise toponímica e os pergaminhos eclesiásticos revelam que a atual povoação de Granjinha nasceu diretamente sob a égide e a influência económica dos monges cistercienses, do Mosteiro de São Pedro das Águias.

O que começou por ser uma estrutura rústica e rudimentar, estritamente destinada a garantir a autossuficiência alimentar do mosteiro, expandiu-se com o passar das décadas, ganhando relevância demográfica e económica até se transformar numa paróquia autónoma.

A transição para a esfera secular começou a desenhar-se nos séculos seguintes. No ano de 1537, de acordo com os registos históricos, estes terrenos e o antigo concelho de Paradela, no qual a localidade da Granjinha se inseria, encontravam-se sob o domínio senhorial de Luís Álvares de Távora. Estendendo a sua influência por quatro séculos, a propriedade conhecida como Quinta das Herédias foi identificada nos arquivos históricos por diferentes nomenclaturas, dependendo dos contratos e das famílias que a exploravam. Surgiu frequentemente documentada como “Quinta do Aranda” ou “Quinta de Pontezellos”.

Durante este vasto período, o Mosteiro de São Pedro das Águias manteve a propriedade direta da terra, mas adotou a estratégia de arrendar sistematicamente as suas parcelas a famílias nobres e a lavradores influentes da região. Foram estes homens e mulheres que, desafiando a inclinação vertiginosa das encostas, testaram as primeiras e primitivas técnicas de armação do terreno em socalcos. Sem a maquinaria moderna, erguendo pedra sobre pedra em muros de xisto seco, tornaram viável a cultura sistemática da vinha e do olival em declives de extremo rigor geométrico, moldando a paisagem que hoje define a identidade visual do Douro.

 

Política, regicídio e sangue real

A transição da propriedade para a estrutura fundiária moderna e a consequente atribuição do nome pelo qual é reconhecida hoje nos mercados internacionais, Quinta das Herédias, ocorreram na sequência da extinção das ordens religiosas em Portugal, decretada pelo governo liberal em 1834. Com a nacionalização em massa dos bens da Igreja Católica, a antiga Quinta do Aranda foi colocada à venda em hasta pública pelo Estado, transitando definitivamente para o domínio da alta aristocracia secular.

A primeira proprietária privada da propriedade foi D. Leonor Amália Falcão Sarmento, descrita de forma unânime nos arquivos paroquiais e nos registos genealógicos da Beira Douro como a última legítima descendente do ramo da família Herédia que se estabelecera naquela região. O apelido Herédia foi originalmente introduzido em Portugal por D. António de Herédia, natural de Ávila, em Castela. Este capitão militar entrou no país no ano de 1580, integrando o exército do Duque de Alba, durante a crise de sucessão dinástica. Ao longo dos séculos subsequentes, os seus descendentes dividiram-se em fações ideológicas opostas, oscilando entre a lealdade cega à coroa absolutista e o republicanismo radical, gerando figuras de enorme relevância histórica nacional. Francisco Correia de Herédia Júnior, elevado a 1.º Visconde da Ribeira Brava, foi um destacado e influente político republicano na transição do século XIX para o século XX. Rompendo com as origens monárquicas da sua linhagem, tornou-se um dos conspiradores ativamente envolvidos no planeamento e na execução do regicídio de 1908, o atentado no Terreiro do Paço que vitimou o rei D. Carlos I e o Príncipe Real D. Luís Filipe.

Numa ironia genealógica e histórica sem paralelo, a bisneta do revolucionário Visconde da Ribeira Brava, Isabel de Herédia casou-se, em 1995, com Duarte Pio de Bragança, o atual pretendente ao trono português, assumindo o título de Duquesa de Bragança. Os seus descendentes unem de forma indissociável na mesma árvore genealógica o sangue da antiga aristocracia proprietária de terras no Douro, o legado histórico de um conspirador regicida e a representação contemporânea da antiga família real portuguesa.

Quinta das Heredias

 

Com o país paralisado pela pandemia, a equipa viveu em isolamento absoluto na quinta, dedicada exclusivamente a resgatar vinhas centenárias

 

A era de Carlos Lucas

A entrada de Carlos Lucas na história da Quinta das Herédias marca o início de uma das operações de resgate agrícola, enológico e patrimonial mais complexas e dispendiosas da história recente da Região Demarcada do Douro. Carlos Lucas, natural de Coimbra e licenciado em Enologia, é uma figura amplamente consagrada no panorama vinícola nacional, acumulando mais de 25 anos de experiência.

Após fundar, com sucesso, a empresa Magnum – Carlos Lucas Vinhos, na região do Dão, o enólogo decidiu expandir a sua filosofia de intervenção e preservação do património vitícola antigo para a sub-região do Cima Corgo. Em 2018, iniciou as negociações e a intervenção direta na Quinta das Herédias, cuja aquisição formal foi selada no arranque de 2019.

Quando a equipa técnica da Magnum assumiu o controlo operacional da propriedade, o cenário encontrado era de quase total ruína agrícola e desolação. A propriedade estivera votada ao abandono contínuo durante cerca de quatro anos. Muros centenários de xisto, construídos com a técnica tradicional de pedra seca, tinham desmoronado sob o peso das chuvas e da falta de manutenção. O mato rústico e as infestantes tinham invadido as parcelas, sufocando as videiras e as infraestruturas residenciais e agrícolas tinham sido alvo de saques e vandalismo, com o roubo de vários objetos de valor histórico e material.

Carlos Lucas identificou de imediato que a autêntica joia da propriedade residia num núcleo duro de nove hectares de vinhas centenárias mistas. O enólogo descreveu estas parcelas sobreviventes como verdadeiros “diamantes em bruto”, que corriam o risco iminente de morrer por sufocamento vegetativo, caso não houvesse uma intervenção cirúrgica e imediata.

Para liderar esta espinhosa e dramática operação de resgate no terreno, o desafio assumiu contornos quase épicos e dramáticos, quando coincidiu com o rebentamento da crise sanitária global e o consequente primeiro confinamento da pandemia da COVID-19. Com o país paralisado, a equipa de Carlos Lucas optou por viver em isolamento absoluto na remodelada Casa do Senhorio. Totalmente privados de televisão ou de ligação à internet, dedicaram-se exclusivamente aos trabalhos de recuperação da vinha. Estes envolveram a reconstrução manual dos suportes de arame, a replantação minuciosa das falhas vegetativas nas vinhas velhas e a condução rigorosa de uma poda de recuperação estrutural para devolver a produtividade às cepas velhas.

Como símbolo vivo deste período de reconquista, isolamento e resiliência face aos elementos, a quinta passou a ser protegida e vigiada por um imponente exemplar da raça Cão de Gado Transmontano, batizado apropriadamente com o nome de “Baton”. A presença protetora, a lealdade e a imponência física do animal no meio dos socalcos isolados foram de tal forma marcantes para toda a equipa fundadora que inspiraram o nome da primeira marca comercial da propriedade, o vinho Baton, cujo lançamento no mercado assinalou o novo capítulo da empresa.

Quinta das Heredias
Diogo e Carlos Lucas

 

Proibido de construir novas adegas industriais, devido à proteção patrimonial, Carlos Lucas adotou um modelo dual e ambiciona atingir um milhão de garrafas

 

O mapeamento do território agrícola

Sob a direção técnica e o planeamento estratégico de Carlos Lucas, a propriedade de 108 hectares foi submetida a um rigoroso, científico e sistemático ordenamento do território agrícola, dividindo-se em parcelas claramente diferenciadas pelo seu potencial geológico e microclimático.

As vinhas da Quinta das Herédias estão distribuídas ao longo de encostas com altitudes que variam entre os 120 e os 400 metros. Esta variação altimétrica expõe as videiras a diferentes amplitudes térmicas e níveis de maturação. No plano geológico, as plantas enfrentam uma transição de solos atípica e rara no Douro: a matriz predominante de xisto duriense é abruptamente cortada por afloramentos e veios de granito subjacente, o que confere aos vinhos um perfil muito específico.

O verdadeiro coração enológico da propriedade é constituído por nove hectares de vinhas com mais de um século, comprovadamente acima dos 130 anos. Nestas parcelas heróicas, as castas encontram-se misturadas na mesma linha de plantação, seguindo o método tradicional de field blend implementado pelos antigos lavradores do Douro. Caminhar por estas linhas é fazer uma viagem pela ampelografia esquecida da região, detetando-se a presença de variedades raras e de baixa produtividade, mas de enorme complexidade organolética, tais como a Malvasia Preta, a Tinta Francisca, a Tinta Pomar e a Rufete, entre outras.

Historicamente, a Quinta das Herédias era uma propriedade devotada de forma quase exclusiva à vinificação de uvas para a produção de vinhos do Porto. Contudo, ao identificar o enorme potencial de frescura mineral e a preservação de acidez oferecidos pelas manchas de solo granítico e pela circulação de ventos frios no vale do rio Távora, Carlos Lucas tomou a decisão estratégica de plantar, no ano de 2020, quatro novos hectares de castas brancas nos locais mais altos da propriedade. A aposta recaiu nas variedades autóctones de maior prestígio da região: a Viosinho, a Rabigato e a Gouveio.

Na cota mais baixa da propriedade, estendendo-se colada à margem espelhada do rio Távora, a uma altitude que pouco ultrapassa os 100 metros, localiza-se uma mancha contínua de 35 hectares de olival tradicional constituído por árvores centenárias. Esta imensa parcela é plenamente aproveitada para diversificar a atividade económica da quinta, através da produção e comercialização de um azeite virgem extra de extração estritamente a frio, que capta a essência daquele microclima ribeirinho.

Engenharia enológica e o património

Um dos maiores e mais complexos segredos operacionais da transição da Quinta das Herédias para a era moderna reside na gestão inteligente das restrições legais e urbanísticas que incidem sobre a propriedade. Devido ao rigoroso estatuto de proteção patrimonial e paisagística que impende sobre a quinta, classificada como imóvel de interesse municipal e integrada na área protegida do Douro, as autoridades administrativas locais, os organismos de tutela do património e as entidades ambientais proíbem terminantemente a edificação de qualquer nova estrutura industrial, armazém de betão ou adega de grande volumetria.

Para contornar este bloqueio logístico e legal sem descaracterizar a identidade da marca, Carlos Lucas desenhou um modelo de vinificação dual, dividindo a produção em dois polos complementares. A adega original de xisto da propriedade foi totalmente recuperada e equipada de forma minimalista e cirúrgica. Ali funcionaram alguns lagares de granito tradicionais que deram origem ao primeiro vintage do projeto, mas rapidamente foram desativados devido à falta de capacidade para processar toda a produção. Com o intuito de contornar as limitações físicas da propriedade original e otimizar o circuito logístico, o produtor adquiriu, em 2023, vários lotes de terreno na zona industrial de Sabrosa. O investimento resultou numa área de implantação de 3500 metros quadrados, onde foram edificados 2000 destinados a sustentar um plano de negócios de grande escala. As novas instalações concentram agora todas as etapas críticas do negócio: a vinificação, o engarrafamento e a expedição.

De resto, a meta imediata está traçada: a colheita de 2026 será a primeira a ser totalmente vinificada nesta nova infraestrutura, que estará plenamente operacional e dotada de todas as condições logísticas para a vindima. O investimento responde às metas ambiciosas traçadas pela administração. Atualmente, o projeto coloca no mercado 250 mil garrafas, com um portefólio que inclui brancos, tintos e vinhos do Porto, além de uma forte aposta nos espumantes: 50 mil garrafas distribuídas por três referências distintas. O objetivo a curto prazo, contudo, é quadruplicar o volume e atingir a fasquia de um milhão de garrafas.

Além do reforço da capacidade industrial, os planos de expansão estendem-se à área do turismo. Para um futuro muito próximo, está já projetado o lançamento de um programa de enoturismo próprio. A nova centralidade do projeto em Sabrosa irá abrir portas ao público com uma oferta integrada de visitas guiadas, provas orientadas e uma loja física para a compra direta de vinhos.

 

Num mercado global, onde o verdadeiro luxo passou a ser o espaço, o tempo e o silêncio, o novo refúgio aposta numa experiência ultra exclusiva de 11 quartos

 

Novo refúgio de luxo

As ruínas da antiga casa do senhorio e dos seus edifícios anexos, que outrora marcaram a paisagem da Quinta das Herédias, deram lugar a um ambicioso projeto de hotelaria de charme. As obras iniciaram-se formalmente em setembro de 2024, após um meticuloso trabalho de recuperação do património edificado, que no passado tinha sido fustigado por saques. O projeto promete devolver a dignidade histórica à propriedade num cenário de total renovação, cumprindo a promessa dos seus promotores: devolver a dignidade histórica e a imponência arquitetónica a uma propriedade que parecia condenada ao esquecimento. Cada pedra recuperada e cada viga restaurada contam, agora, uma narrativa de resiliência.

Num mercado global, onde o verdadeiro luxo passou a ser o espaço, o tempo e o silêncio, a Quinta das Herédias lança uma proposta de valor clara e cirúrgica. Com um conceito focado inteiramente no segmento premium, o hotel conta com 11 quartos. Esta escala reduzida foi uma escolha deliberada, para garantir aos hóspedes uma experiência de alojamento ultra exclusiva, caracterizada pela privacidade absoluta e por uma profunda imersão na natureza circundante. Afinal, as janelas abrem-se para o anfiteatro natural das vinhas e para a serenidade que caracteriza o Douro profundo.

Para lá do alojamento de excelência, o complexo turístico foi desenhado para ser um polo de atração por direito próprio. A propriedade inclui uma magnífica piscina exterior, estrategicamente posicionada para potenciar as vistas sobre o vale, e um restaurante que nasce com uma ambição assumida: converter-se numa das principais referências gastronómicas de toda a região duriense. A carta privilegia os produtos endógenos e a harmonização com os vinhos locais.

Com esta boa nova, a Quinta das Herédias reforça, de forma significativa, a oferta de turismo de qualidade na região. O projeto demonstra que é possível aliar a preservação rigorosa da memória histórica ao conforto contemporâneo e às exigências do viajante do século XXI. O Douro ganha, assim, um novo guardião da sua herança cultural.

Desta forma, a região continua a afirmar-se como um dos destinos mais vibrantes e magnéticos do turismo de luxo mundial, e o próximo capítulo desta história de sucesso está a ser escrito. As ruínas, que outrora marcaram de forma melancólica a paisagem da Quinta das Herédias, deram, finalmente, lugar a um ambicioso e sofisticado projeto de hotelaria de charme.

Quinta das Heredias

O ano de todas as decisões

Depois de anos de planeamento silencioso, reconstrução de muros de xisto, microvinificações experimentais, isolamento em períodos pandémicos e reestruturação financeira complexa, o ponto de viragem histórico e definitivo para esta propriedade está formalmente agendado para 2026. Aliando de forma inteligente a produção vinícola de excelência a um projeto hoteleiro disruptivo que promete fixar e reter um turismo de qualidade internacional na sub-região do Cima Corgo, este investimento de dez milhões de euros cumpre uma dupla função social e económica no Douro. Não só reabilita, limpa e dignifica um espaço físico e patrimonial outrora saqueado, votado ao abandono e à mercê do mato rústico, mas coloca uma nova e orgulhosa marca na linha da frente do panorama vitivinícola nacional.

A Quinta das Herédias, que já sobreviveu às convulsões políticas do regicídio, prova, em 2026 que o xisto e o granito, quando moldados pelo talento e pela persistência humana, continuam a produzir alguns dos vinhos mais emocionantes e profundos do mundo. Para os enófilos e colecionadores de todo o planeta, resta apenas aguardar que o conteúdo destas garrafas, agora produzidas com todas as condições de excelência, chegue aos copos, para ditar o veredicto final. Uma coisa é certa: o gigante do vale do Távora acordou e o seu brilho voltou a iluminar o Douro.

(Artigo publicado na edição de Setembro de 2026)

CVR Alentejo apresenta Garrafa Leve fora de portas

CVR Alentejo

A Comissão Vitivinícola Regional Alentejana (CVRA) lançou a Garrafa Leve, uma solução industrial traduzida em 390 gramas e concebida especificamente para linhas de engarrafamento de alto rendimento, de utilização transversal e opcional para os produtores. Segundo o comunicado, trata-se de “uma iniciativa pioneira a nível mundial” que contribui para a redução do consumo de matéria-prima, […]

A Comissão Vitivinícola Regional Alentejana (CVRA) lançou a Garrafa Leve, uma solução industrial traduzida em 390 gramas e concebida especificamente para linhas de engarrafamento de alto rendimento, de utilização transversal e opcional para os produtores. Segundo o comunicado, trata-se de “uma iniciativa pioneira a nível mundial” que contribui para a redução do consumo de matéria-prima, da energia necessária à produção do vidro e das emissões associadas ao fabrico e ao transporte. Sobre este último aspecto, “permite poupar cerca de 1500 toneladas de vidro e 1200 toneladas de CO2 por cada 50 milhões de garrafas”. Paralelamente, a CVRA estima que esta nova garrafa representa cerca de 2% a menos no custo comparativamente ao das opções disponíveis no mercado.

Para Luís Sequeira, Presidente da CVRA, “a disponibilização desta garrafa de 390 gramas demonstra como a região consegue liderar pelo exemplo, alinhando a sustentabilidade com a eficiência económica e criando soluções reais que beneficiam os nossos produtores e reforçam o posicionamento do Alentejo no mundo.”

A boa nova foi apresentada recentemente no fórum Sustainability in Drinks (SID), em Londres, dando a conhecer, neste palco global e deste modo, mais uma solução firmada na sustentabilidade, já que sucede ao lançamento, da caixa de transporte Re:Boxed (solução produzida a partir da reciclagem do suporte de silicone da fita dos rótulos) decorrido na edição anterior do certame.

Por sua vez, João Barroso, Director de Desenvolvimento Sustentável e I&D nos Vinhos do Alentejo, explica que a garrafa vem dar resposta a exigências técnicas e ambientais do Programa de Sustentabilidade dos Vinhos do Alentejo (PSVA), uma vez que “no PSVA, a redução da pegada de carbono passa necessariamente pela desmaterialização dos componentes da embalagem. Com esta solução de 390 gramas, oferecemos aos Agentes Económicos uma ferramenta concreta para reforçar o seu perfil de maior sustentabilidade de forma simples e com impacto imediato, sem interferir com as certificações existentes e provando que é possível atingir uma maior eficiência ambiental. sem comprometer a eficiência industrial em linhas de engarrafamento de grande velocidade e a máxima segurança do produto.”

Quinta Vale D. Maria já tem espaço de enoturismo

enoturismo

História, paisagem e património vitivinícola são os três pilares do enoturismo criado na Quinta Vale D. Maria, propriedade da Aveleda localizada em Ervedosa do Douro, na sub-região do Douro Superior. Entre os principais elementos diferenciadores encontra-se a Adega Expositiva – Guardiã das Vinhas Velhas, projecto da autoria do Arquitecto Diogo Aguiar, espaço que convida os […]

História, paisagem e património vitivinícola são os três pilares do enoturismo criado na Quinta Vale D. Maria, propriedade da Aveleda localizada em Ervedosa do Douro, na sub-região do Douro Superior. Entre os principais elementos diferenciadores encontra-se a Adega Expositiva – Guardiã das Vinhas Velhas, projecto da autoria do Arquitecto Diogo Aguiar, espaço que convida os visitantes a compreender a importância das vinhas velhas na identidade da Quinta Vale D. Maria e na narrativa da região. Afinal, “a arquitectura é parte integrante na forma como contamos a história da Quinta Vale D. Maria, das suas Vinhas Velhas, dos vinhos aqui criados e do património que preservamos”, salienta Martim Guedes, co-CEO da Aveleda.

A oferta contempla provas de vinhos, onde se incluem referências icónicas, como o Quinta Vale D. Maria Vinhas Velhas, o Quinta Vale D. Maria Vinha da Francisca ou o Quinta Vale D. Maria Vinha do Rio, bem como masterclasses dedicadas às vinhas velhas e aos Portos Vintage. Há ainda a possibilidade de reservar uma prova com o enólogo. Todas as harmonizações, bem como os piqueniques, são confeccionadas com produtos locais, como o azeite, o tomate coração de boi ou a amêndoa. Mediante consulta, pode ainda agendar almoços preparados pelo Chef duriense Miguel Monteiro.

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Segundo Ildefonso Martins, Director de enoturismo, “a oferta foi pensada para proporcionar experiências exclusivas, com um carácter muito personalizado. No segmento dos fine wines, tanto os visitantes nacionais como os estrangeiros procuram e valorizam experiências que lhes permitam conhecer o terroir, a história e as pessoas que estão na origem dos vinhos que apreciam. É precisamente essa proximidade que queremos proporcionar na Quinta Vale D. Maria.”

O horário de funcionamento é de Segunda-feira a Domingo, entre as 09h30 e as 18h00, encerrando à Quarta-feira. A Sala Rio, destinada às provas comentadas, tem capacidade para 24 pessoas. A reserva é feita através deste link (https://fareharbor.com/embeds/book/quintavaledmaria/items/?flow=1637207&full-items=yes ).

GARE RESTAURANT: Carne Arouquesa com vista para o Tejo

GARE RESTAURANT

Num espaço carregado de memórias, que vão desde o acolhimento de refugiados em transição para as Américas durante a última Grande Guerra, dolorosas partidas de soldados para a Guerra Colonial e, mais recentemente, palco de eventos culturais, corporativos e de moda, o edifício projectado pelo arquitecto Porfírio Pardal Monteiro continua a impressionar pelos seus traços […]

Num espaço carregado de memórias, que vão desde o acolhimento de refugiados em transição para as Américas durante a última Grande Guerra, dolorosas partidas de soldados para a Guerra Colonial e, mais recentemente, palco de eventos culturais, corporativos e de moda, o edifício projectado pelo arquitecto Porfírio Pardal Monteiro continua a impressionar pelos seus traços modernistas e uma linguagem estética entre a Arte Déco e o Monumentalismo da primeira metade do século XX.

O Grupo Visabeira, que tomou conta do espaço, percebeu a jóia que tinha em mãos e teve em conta o enquadramento, e a história do espaço. A inspirada decoração do restaurante, recentemente inaugurado, respeita esse legado e remete para um diálogo vivo entre o passado e o presente. A preocupação com o conforto do cliente, as cadeiras ergonómicas, o jogo entre a luz que vem de fora filtrada pelos vetustos vitrais e a que é espalhada pelo impressionante candeeiro de bolas suspenso sobre a sala, e o bar à vista em forma de onda, contribuem para uma sensação de bem-estar, que convida ao prolongamento da estadia.

A bem dizer, este convite começa bem antes da refeição, porque o espaço é um verdadeiro dois em um. A entrada no restaurante faz-se pela esplanada debruçada sobre o cais de Alcântara e onde a Martini foi desafiada a reconstruir a sua conhecida Terrazza, que já teve outros poisos em Lisboa. Com cerca de 100 lugares, é o local ideal para experimentar um cocktail no fim da tarde, um aperitivo antes da refeição, uns pregos ou uns snacks. Por isso, o Gare Restaurant e a Terrazza Martini funcionam em conjunto.

No que à refeição diz respeito, o Gare não dispensou a consultoria do conhecido restaurante Casa Arouquesa, em Viseu, propriedade do mesmo grupo, do qual copiou o estilo e a ementa (um pouco curta), baseada nas carnes e nos vinhos da também sua Casa de Ínsua, no Dão. Para os almoços, está disponível um menu executivo (€20) composto por entrada e prato principal ou prato e sobremesa. Ao jantar, as refeições têm naturalmente outro ritmo e é aí que podemos explorar com mais profundidade a cozinha do Gare.

Podemos começar, por exemplo, por uns Croquetes de Vitela (€7,90/5 unidades), com redução de vinhos branco, suculentos no interior e crocantes por fora, ou o Carpaccio de Vitela com mostarda antiga, rúcula e parmesão, fresca e bem temperada. Nas entradas, ainda provámos com prazer uma Burrata com Carpaccio de tomate, pesto, rúcula e flor de sal. Como pratos principais, entramos no domínio das carnes, já que a oferta de produtos do mar e vegetariana é exígua, à excepção do Bacalhau à Arouquesa, do Camarão Tigre e do Risotto de Cogumelos, e pouco mais. Como especialidades são anunciados o Bife da Alcatra (€26,90), Bife da Vazia (€28,90), Bife do Lombo (€35) e Costelão (€57 Kg). Todos grelhados, servidos fatiados e com batata frita e arroz branco. Garantida a qualidade da carne, atestada pela origem da raça Arouquesa e acertando o ponto de cozedura de acordo com o pedido do cliente, não haverá, por certo, margem para errar. O mesmo não se passa com dois best sellers do restaurante de Viseu e que aqui se repetem como pratos de assinatura: a clássica Vitela Assada no forno (€27,50/1 pessoa; €44,50/2 pessoas), com batata assada, e o Filé à Jefferson (€33), corte do lombo com molho trufado e acompanhado por Tagliatelle com queijo Grana Padano ralado e natas. Aqui, onde se nota um maior labor da cozinha, as expectativas não saem defraudadas e a combinação resulta saborosa, embora um pouco pesada no último caso. A lista de sobremesas é extensa e variada e assegura um final doce para uma refeição que dificilmente ficará por menos de meia centena de euros.

GARE RESTAURANT

 

Gare Restaurant & Terrazza Martini

Gare Marítima de Alcântara, Lisboa

Tel.: 967 505 320

Horário: de Terça a Quinta-feira, das 11h00 às 23h00, Sexta-feira e Sábado, até à 01h00, e ao Domingo, até às 18h00

Encerra: Segunda-feira

Preço médio: €45

Editorial: Os amigos do vinho

Editorial

Editorial da edição nrº 114 (Outubro de 2026)   Imaginem um restaurante com todas as mesas cheias. Com grupos de amigos, com casais, com pessoas de idades diferentes, de nacionalidades diferentes. E em todas as mesas bebem vinho. Mesmo naquelas com duas pessoas, vê-se uma garrafa, ou um frapé ao lado, e dois copos. You […]

Editorial da edição nrº 114 (Outubro de 2026)

 

Imaginem um restaurante com todas as mesas cheias. Com grupos de amigos, com casais, com pessoas de idades diferentes, de nacionalidades diferentes. E em todas as mesas bebem vinho. Mesmo naquelas com duas pessoas, vê-se uma garrafa, ou um frapé ao lado, e dois copos. You may say I’m a dreamer. E, no entanto, já vi isto acontecer.

Estive com uns amigos em Vila Nova de Milfontes, onde fomos jantar a um restaurante típico e bem conhecido desde 1990. Estou a falar da Tasca do Celso. Éramos seis. Comemos várias entradas e partilhámos pratos. A casa tem uma grande garrafeira, mas o que mais me impressionou foi a forma como, organicamente, o vinho é envolvido no serviço.

O escanção, que julgo ser também o chefe de sala, era antes de tudo um verdadeiro anfitrião: conversava com os clientes em cada mesa de maneira descontraída e afável, mostrava-se disponível para ajudar na escolha de vinhos, com convicção, mas sem superioridade. Conseguia criar uma relação de confiança, quase de cumplicidade, com quem estava à mesa. Recebeu-nos logo com um Cava, depois sugeriu alguns brancos e tintos, praticamente um vinho para cada prato, e um Madeira no final. Percebendo que gostávamos de vinho, trouxe duas garrafas às cegas. Tudo servido em bons copos, adequados para cada vinho.

Observei as mesas à minha volta, umas com estrangeiros, outras com portugueses. Todos tinham vinho nos copos. A certa altura fui ver a outra sala. A mesma coisa: cheia de gente e todos com vinho. Por momentos, pensei que a crise não tinha chegado até aqui. Lembrei-me de alguns restaurantes em Lisboa e noutras localidades do país, até em zonas vitivinícolas, onde se via gente a acompanhar a refeição com água ou imperiais.

 

Uma casa amiga do vinho é onde existe curadoria humana. Vai para além de uma extensa carta de vinhos e preços adequados. Tem a ver com a forma como o vinho chega à mesa e pela relação de confiança que se cria à sua volta

 

No final, esperava uma conta bem alta. Pagámos apenas 50 euros por pessoa. Um preço mais do que razoável por tudo o que comemos e bebemos, pela qualidade da comida e dos vinhos e, sobretudo, pelo que sentimos à mesa e pelo serviço.

O tema dos preços dos vinhos na restauração é polarizante. Não pretendo entrar por esta via, porque o exercício dos preços tem de ser feito com uma calculadora na mão, contemplando todas as variáveis, caso a caso. Não me cabe dizer aos proprietários de restaurantes como devem gerir o seu negócio. O mercado encarrega-se de corrigir os erros: ou os vinhos não vão rodar, ou o restaurante não consegue cobrir os custos e criar lucro. Por isso, uns duram décadas e outros fecham as portas quando a moda passa. E também por isso que admiro quem consegue encontrar um equilíbrio nos preços, para que o restaurante seja sustentável e o cliente não se sinta roubado.

Ora, se este restaurante se considera um amigo do vinho, quais não o são? Novamente, a questão não se resume apenas ao preço. Diria que são os que não se interessam pelo vinho como componente gastronómica, por preguiça ou falta de critério. Aqueles que trabalham sempre com quatro ou cinco marcas e nem sequer experimentam algo novo, porque “em equipa que ganha não se mexe”. Ou, pelo contrário, os que estão prontos a tirar um vinho da carta, só porque alguém ofereceu outro cinco cêntimos mais barato.

Oxalá haja mais restaurantes onde exista curadoria humana. Pois o segredo vai muito para além de uma extensa carta de vinhos e preços adequados. É preciso conhecer a casa, conhecer a comida, conhecer os clientes, ou rapidamente perceber o que procuram e ter vontade genuína de arranjar o vinho certo para esta ou aquela mesa. É mais do que serviço, é verdadeira hospitalidade vínica. V.Z.

GRANDE PROVA MOSCATEL: Das abelhas e dos pássaros

MOSCATEL

Não é assunto que nos roube o sono. Por isso, sem investigações aturadas e reflexões profundas, vamos aceitar que a origem da casta Moscatel se situa no Médio Oriente, talvez mesmo no Egipto. A expansão por toda a zona envolvente do Mediterrâneo, da Sicília a Málaga, de Hamburgo a várias zonas da França, bem como […]

Não é assunto que nos roube o sono. Por isso, sem investigações aturadas e reflexões profundas, vamos aceitar que a origem da casta Moscatel se situa no Médio Oriente, talvez mesmo no Egipto. A expansão por toda a zona envolvente do Mediterrâneo, da Sicília a Málaga, de Hamburgo a várias zonas da França, bem como por todo o império, terá sido obra de romanos que, tal como as abelhas, lhe apreciavam a doçura e o gosto. Sabemos, porém, que a Moscatel é, das poucas castas usadas para fazer vinho, a que tem a particularidade de ter o mesmo sabor, comendo-se os bagos ou provando o vinho. Porquê?

Acontece que esta variedade é especialmente rica em monoterpenos, compostos que são responsáveis pelo perfume de alguns frutos e das flores, os quais estão em grande concentração nesta variedade. Com estes atributos não é difícil perceber que até à África do Sul, mais propriamente à zona do Cabo, tenha chegado a Moscatel, dando aí origem a um dos vinhos que, durante séculos, foi ultrafamoso. Esteve à mesa de reis e mesmo no exílio de Napoleão. Refiro-me ao vinho de Constância, região de vinhedos bem próxima da cidade do Cabo. Para lá foi levada pelos holandeses, que colonizaram a zona no século XVII.

Com esta antiguidade toda, é natural que a casta tenha sofrido mutações. Por conseguinte, conhecemos múltiplas variantes, ainda que haja as que dispõem de vários sinónimos. Algumas das principais variedades incluem o Muscat à Petits Grains, Muscat of Alexandria, Muscat Ottonel, entre outros; por cá, Moscatel Galego (igual a Muscat à Petits Grains), no Douro, sobretudo em Favaios, Moscatel Graúdo (ou de Alexandria), em Setúbal e, ainda em Setúbal, o Moscatel Roxo, que é uma mutação do Moscatel do Douro.

Falamos, então, de uma variedade que gosta de climas quentes e de terrenos arenosos, tudo o que em Azeitão há em abundância. Não se estanha assim a grande implantação que teve no século XIX nesta região. Ainda que não se faça a distinção, há duas zonas diferenciadas para a produção: as areias de Palmela e Poceirão e os argilo-calcários da Serra da Arrábida. São diferentes, ainda que todos com a mesma Denominação de Origem.

Muito divulgada no século XIX na região de Setúbal, a Moscatel era acompanhada por outra variedade que gerava um licoroso muito apreciado, o Bastardinho de Azeitão. Em tímida recuperação, a Bastardo foi casta muito plantada, desde o Barreiro até Alcochete, e o vinho destacado por Ferreira Lapa (Memória Sobre os Processos de Vinificação, Lisboa, 1867), que dizia dele, “espécie licorosa fina e balsâmica, como não se produz melhor n’outras partes” e identificava, como melhores zonas para a produção, Barreiro, Samouco, Moita e Seixal!

Actualmente, e enquanto se espera pela recuperação da variedade (a que acresce o longo tempo de estágio), o melhor mesmo é provar as últimas garrafas, ainda à venda, pertencentes à José Maria da Fonseca, as quais estão disponíveis em garrafeiras e na loja da empresa, em Azeitão.

A uva do sol e do calor

No mesmo texto de Ferreira Lapa se anota a prática antiga, em Setúbal, de colocar os cachos de Moscatel ao sol (de uma semana a 12 dias), para, através da desidratação, concentrarem açúcares e, consequentemente, aumentarem o potencial alcoólico. Hoje, a prática parece ter desaparecido, mas esta casta é sempre a última a ser vindimada. Sim, esta é a última. Contudo, a Moscatel Roxo é, de longe, a primeira, normalmente ainda em Julho, com a finalidade de evitar os ataques da passarada. Neste caso, talvez Plínio lhe chamasse Uvae avium (vinha dos pássaros). Em Setúbal, falamos de cachos e bagos grandes, de película rija; no Douro, com Moscatel Galego temos um cacho e bagos mais pequenos e de pele mais fina. Já o Moscatel Roxo adquire, em plena maturação, uma tonalidade rosada (daí o nome).

A produção segue a mesma prática de todos os licorosos: fermentação em contacto com as películas, adição da aguardente (geralmente, a 77% volume) a meio do processo fermentativo, para o interromper. Nesta fase, procura-se conferir ao vinho um teor em torno dos 16º de álcool, deixando o restante para acertos finais ao longo do processo de envelhecimento. O vinho fica, então, por via da morte das leveduras “afogadas” em aguardente, com açúcar residual, podendo este ir dos 90 aos 200 gramas por litro, e registar um teor alcoólico final em torno dos 17 ou 18%. Findo o processo de fermentação, o vinho continua em contacto com as películas por vários meses, mais propriamente de três a quatro meses na José Maria da Fonseca, conferindo mais complexidade ao vinho. Segue-se o estágio em barricas usadas; no caso da Bacalhôa, sem atesto dos cascos ao longo do envelhecimento.

 

O torna-viagem

A empresa José Maria da Fonseca, a mais antiga da região a fazer Moscatel, ainda tem, em casco, vinhos da colheita de 1900 e vários do século passado. Ao todo, serão cerca de 500 000 litros de vinhos com mais de 20 anos. Nesta empresa, está em curso a produção de vinhos Torna-Viagem, resultantes de uma cooperação com o navio-escola Sagres que, nas suas viagens, leva, no convés, pipas com Moscatel, sujeitas a oscilações de temperatura e agitação do vinho dentro do casco. Este era o conceito inicial dos vinhos torna-viagem, igualmente usado na Madeira para os vinhos que eram exportados e regressavam.

Actualmente, e após o regresso, os cascos ficam em repouso na sede da José Maria da Fonseca, em Azeitão. Estamos a falar de cerca de 50 000 litros. Com o propósito de proteger a zona onde estão os cascos, foi preciso colocar uma parede de vidro, porque a circulação de ar (correntes de ar?) estava a provocar uma evaporação de 12% por ano contra os normais 3%. Para quando o engarrafamento? Domingos Soares Franco (DSF), durante décadas enólogo da referida empresa, é peremptório: “isso é assunto para a sétima geração!”

Na colecção DSF, a empresa mantém também a originalidade do uso de aguardentes das regiões francesas Cognac e Armagnac para os moscatéis. São dois vinhos diferentes com indicação na garrafa do tipo de aguardente usada. Para vinhos que se pretende que envelheçam (20 anos, digamos) Domingos Soares Franco comenta: “prefiro a de Cognac porque, com o tempo, faz realçar as notas de frutos secos e citrinos confitados.”

Os ensaios da Bacalhôa

A Bacalhôa tem plantados cerca de 52 hectares de Moscatel de Alexandria e 4 hectares de Moscatel Roxo, sobretudo na Serra da Arrábida, em encostas viradas a norte. Para a entrada de gama, a empresa adquire também uvas na zona arenosa de Palmela. O mercado interno absorve cerca de 40% da produção.

O estágio em madeira é feito com base em métodos diferentes nas duas empresas com mais tradição na produção do generoso. Na Bacalhôa, entre outras, ainda se usam barricas que têm origem na Escócia e serviram anteriormente ao whisky. A importação destas barricas está, para já, suspensa. A aposta é, agora, estagiar este fortificado em barricas que serviram anteriormente a vinhos tintos, depois moscatéis de entrada de gama, e só então, os de gama superior. Existe uma estufa exterior, onde estas barricas são dispostas para envelhecimento. Com as variações de temperatura e os grandes calores estivais (que originam uma pequena, mas significativa, variação de temperatura dentro da barrica), o vinho adquire mais complexidade e riqueza aromáticas sem atesto dos cascos ao longo do envelhecimento. Reproduz-se, assim, o método de canteiro usado na Madeira, em que os cascos começam o seu envelhecimento nos sótãos dos armazéns e vão transitando, de anos em anos, para os andares de baixo, até ao nível térreo. Na estufa da Bacalhôa, as variações de temperatura, medidas no vinho, oscilam entre os 10º no Inverno e os 28º no Verão.

Em curso, estão ensaios com barricas de Jerez (Oloroso) e também ensaios de aguardentação mais tardia, visando a produção de moscatéis com menor teor de açúcar. Para já, segundo João Ramos, enólogo da Bacalhôa, ainda é cedo para conclusões, porque, nestas barricas de Jerez só têm vinhos de dez anos a estagiar há três meses. São dez barricas de 300 litros, com muito uso, que chegaram de Jerez ainda húmidas, favorecendo, deste modo, a permuta de aromas e sabores. Quanto tempo lá vão ficar? Depende das provas que se façam ao longo do tempo.

Este Moscatel em barricas de Oloroso será sempre usado numa colecção de experiências e não para integrar lotes gerais. Prática antiga na região, e que aqui se reproduz, é manter as borras no fundo da barrica, ou seja, esta nunca se esvazia por completo e o vinho novo é colocado sobre as borras do vinho velho. Também não se atestam totalmente as barricas, deixando-se dois a três dedos, para evitar que, com o calor, o vinho saia da barrica.

Um outro projecto que está agora no início é a conservação em vidro de vinhos muito velhos, já com exagerada concentração, a serem usados para bases e não para serem vendidos como Colheita. Serem mantidos em casco não tem, dizem-nos, qualquer vantagem.

 

Favaios e Alijó

No Douro, destaca-se, desde há décadas, a região de Favaios e Alijó como as zonas onde a casta melhor se expressa, graças à altitude. No entanto, sem a delimitação da zona de Favaios, os rótulos do Douro indicam genericamente “Moscatel do Douro”, que pode ser ou não de Favaios, mas não há distinção oficial.

Em Favaios sobressai a Adega Cooperativa fundada em 1952 e que se assume como principal produtor de Moscatel do Douro, com 80% da produção da região. Possui, segundo informação da própria adega, 52% da quota de mercado a nível nacional. Com o lançamento da marca Favaíto, em minúsculas garrafas, a cooperativa deu um grande salto em termos de negócio, vendendo, actualmente, 32 milhões de unidades por ano, o que corresponde a 61% das vendas de Moscatel desta adega. Os stocks atingem os 9,5 milhões de litros em madeira, ou seja, o triplo das vendas anuais.

Pelos resultados da prova se percebe que o “universo” Moscatel contempla tipos de vinho muito variados. O fluxo de vinhos para prova chegou-nos, sobretudo, de Setúbal, apesar do Douro ter, aqui, uma boa representação. Ainda que seja possível encontrar vinho licoroso de Moscatel noutras zonas do país, como Tejo e Lisboa, a verdade é que foram poucos os produtores que enviaram amostras. Uma conclusão se impõe: são vinhos de enorme qualidade, que dão muito prazer na prova e que têm um preço bem convidativo. Como se diz no anúncio de uma marca de café bem conhecida: ‘What else?’

No que diz respeito ao consumo, este é um generoso ao qual o epíteto de bom e barato se aplica na perfeição. Servido ligeiramente refrescado no final da refeição, acompanha, em modo de excelência, sobremesas que incluam doces de ovos, a começar pelas tortas de Azeitão e pelo pão-de-ló de Ovar, prosseguindo pelos doces de ovos de Aveiro, os pastéis de Tentúgal, os travesseiros de Sintra, num desfilar de parcerias sem fim. Bebê-lo é dignificar um produto secular, um dos nossos três reis-magos dos vinhos fortificados. E, ao contrário do que se diz em relação aos livros que “o mais difícil é lê-los”, aqui, em relação ao Moscatel, é o inverso: o mais fácil é bebê-lo!

Os reinos da Moscatel

A demarcação da região da Península de Setúbal data do início do século XX, incluída na primeira vaga de demarcações após a da região do Douro. As vinhas da casta aptas à Denominação de Origem estendem-se pelos concelhos de Palmela (68%), Setúbal (17%), Montijo (13%) e Sesimbra, além dos ligeiros aumentos (2%). A área de vinha tem-se mantido estável, com poucas oscilações.

Existem duas Denominações:

Setúbal: o vinho tem de ter no mínimo 67% da casta.

Moscatel de Setúbal: a percentagem obrigatória sobe para os 85%.

O Moscatel Roxo de Setúbal corresponde, actualmente, a cerca de 66 hectares de vinhas (em 1999 seriam apenas sete hectares, então considerado à beira da extinção) e distribuem-se pelos quatro concelhos referidos. Também em relação a esta casta se mantêm as mesmas regras: para DO Setúbal o vinho tem de ter 67% da casta e, para Moscatel Roxo de Setúbal, 85%.

A produção oscila entre os 2 e os 2,5 milhões de garrafas. O crescimento do plantio de Moscatel prende-se, segundo a Comissão Vitivinícola Regional da Península de Setúbal, com o renovado interesse na casta para a produção de vinhos tranquilos. A legislação permite a comercialização de vinhos com data de colheita ou com indicação de idade – 5, 10, 15, 20, 25, 30, 35 e 40 anos. Estranhamente, também permite o uso simultâneo das mesmas indicações – idade e data –, como se pode confirmar pelos vinhos provados.

A produção na região do Douro está concentrada na zona de Favaios, destacando-se, entre todos os operadores, a Adega Cooperativa de Favaios, gestora de uma área de vinha que, em dez anos, passou de 545 para 623 hectares. Em termos de produção, é responsável por 82,7% de quota de mercado, de acordo com os registos de 2025 (a maior percentagem desde há 15 anos). As vendas cresceram, de 2015 a 2025, cerca de 40%. Em 2025, dos cerca de quatro milhões de litros comercializados como Moscatel do Douro, a Adega de Favaios foi responsável por pouco menos de 3 300 000 litros. As castas aqui plantadas são a Moscatel Galego e Moscatel Galego Roxo.

Nota – A Grande prova Moscatel realizou-se em Prova Cega por: João Paulo Martins, Valéria Zeferino e Luís Antunes

(Artigo publicado na edição de Setembro de 2026)