Herdade do Gamito: Abegoaria no Norte alentejano

Herdade do Gamito

A Herdade do Gamito fica no Crato, distrito de Portalegre. A propriedade está hoje englobada no universo da Abegoaria Wines, grupo vitivinícola com produção de vinhos nas regiões de Açores, Douro, Lisboa, Tejo e Alentejo. Nesta última região, o maior polo produtivo está na Granja-Amareleja, onde se situa a casa mãe, Herdade da Abegoaria, e […]

A Herdade do Gamito fica no Crato, distrito de Portalegre. A propriedade está hoje englobada no universo da Abegoaria Wines, grupo vitivinícola com produção de vinhos nas regiões de Açores, Douro, Lisboa, Tejo e Alentejo. Nesta última região, o maior polo produtivo está na Granja-Amareleja, onde se situa a casa mãe, Herdade da Abegoaria, e as adegas/marcas associadas Cooperativa da Granja e José Piteira. Um terroir que não podia ser mais distinto daquele que encontramos na Herdade do Gamito, no coração do norte alentejano.

As vinhas da Herdade do Gamito foram inicialmente plantadas em 2003 e actualmente são 27 ha que estão à disposição da equipa que inclui Marcos Vieira como enólogo residente e António Braga como consultor. Além daqueles 27, há mais 7 ha arrendados bem perto da propriedade onde, entre outras, está plantada a casta Cabernet Sauvignon, da qual António Braga é grande apreciador, “até vou começar a usar mais porque a casta dá aqui vinho de muita qualidade”, disse. Depois há Alicante Bouschet, Touriga Nacional, Syrah e Petit Verdot. Os solos são graníticos, mas de textura variada, desde blocos enormes de pedra dura até terrenos quase arenosos que correspondem ao esfarelamento do granito antigo. Na adega, moderna e bem equipada, da Herdade do Gamito, são também processadas algumas uvas que chegam das vinhas da Granja. “Vamos fazer uns lotes especiais, mas só para o ano poderão ser apresentados, tal como acontecerá com os vinhos de Moreto de vinhas velhas em pé-franco que só daqui a algum tempo estarão disponíveis”, diz-nos Manuel Bio, administrador do grupo Abegoaria.

Herdade do Gamito
Manuel Bio

Na Granja é a Abegoaria que é responsável pela adega cooperativa, onde os 100 associados originais continuam a entregar aas uvas, “Creio que a breve prazo teremos de começar a pagar as uvas das vinhas velhas bem mais caras”, diz Manuel Bio, a propósito. “É que a produção por hectare é muito baixa e a tendência será de arranque das vinhas velhas com a consequente perda irreparável de património vitícola e genético”, confirma. A Abegoaria gere igualmente a produção da Adega Cooperativa de Alijó (Douro) e da Quinta de Vale Fornos (Tejo) e adquiriu as Caves Vidigal (Lisboa) onde produz um vinho de tremendo sucesso, o Porta 6. São quase 7 milhões de garrafas e, diz-nos Manuel Bio, “é marca líder de mercado, quer no Reino Unido quer nos Estados Unidos. E se descontarmos o Vinho do Porto, esta marca corresponde a 1/3 dos vinhos portugueses exportados para Inglaterra.”
Na Herdade do Gamito, Alicante Bouschet é a casta mais plantada, perto de 6 hectares. Recentemente, foram replantados 5 hectares onde entraram castas tradicionais da região (Tinta Caiada, Grand Noir, Trincadeira) e ainda Touriga Nacional.

Nos vinhos ora apresentados, o Verdelho corresponde a 5000 garrafas, é só feito em inox com bâtonnage sobre borras; do rosé são 3500 garrafas. Achámos que fazia sentido ter um rosé, não havia no portefólio”, diz António Braga. Já do Herdade do Gamito branco foram feitas 13 000 garrafas. A abordagem enológica iniciou-se na vindima de 2022, tendo influência directa já nos vinhos deste ano e também nos lotes finais das colheitas anteriores. Também houve mudança ao nível do desenho dos rótulos: a nova imagem acentua o lado granítico da do terroir da Herdade do Gamito. Na base da pirâmide dos vinhos ali produzidos, está a marca Terras do Crato
Para o futuro, em termos de perfil dos vinhos, António Braga é claro: “queremos mais tensão, queremos acentuar um pouco mais o lado dos taninos e da frescura e passar a ter menos preocupação com a cor e a concentração”. O crescendo de ambição estende-se igualmente, e de forma natural, ao conjunto do negócio, seja do Gamito, seja da totalidade das empresas que fazem parte do universo Abegoaria. “O nosso objectivo para 2024 é que 50% de toda a produção se destine à exportação, já que acreditamos que esse é o caminho que nos porá a salvo de sobressaltos do mercado interno”, remata Manuel Bio.

(Artigo publicado na edição de Agosto de 2023)

Vinhos & Sabores recebe Elizabeth Gabay MW

Elizabeth Gabay MW

De nacionalidade norte-americana a viver em Provence, no sul de França, Elizabeth Gabay é Master of Wine desde 1998 e  desenvolve actualmente um grande projecto em torno dos vinhos rosés: “Club Oenologique Premium Rosé Report”. Segundo Elizabeth Gabay MW, “Queremos mostrar ao mundo que o rosé é mais do que uma bebida de piscina – […]

De nacionalidade norte-americana a viver em Provence, no sul de França, Elizabeth Gabay é Master of Wine desde 1998 e  desenvolve actualmente um grande projecto em torno dos vinhos rosés: “Club Oenologique Premium Rosé Report”.

Segundo Elizabeth Gabay MW, “Queremos mostrar ao mundo que o rosé é mais do que uma bebida de piscina – pode ser um grande vinho. Vale a pena prestar atenção ao rosé premium e queremos mostrar o que há de melhor no mundo num relatório para o Club Oenologique”.

No âmbito deste trabalho que está a desenvolver juntamente com o seu filho e sócio Ben Barheim, propõe-se conhecer e testar os melhores vinhos rosés e destacar os 300 melhores rosés premium. Impressionada com a qualidade de alguns rosés portugueses a que teve acesso, Elizabeth Gabay MW e Ben Barheim estarão no evento Grandes Escolhas | Vinhos & Sabores para conhecer mais a fundo os nossos rosés e trocar impressões com os produtores portugueses.

Madeira Wine Company: Novidades e velhidades Blandy’s

Madeira Wine Company

Detesto o velho clichê de “os estrangeiros gostaram muito”, mas sempre lembrarei que foi com vinho Madeira que se brindou na assinatura da Constituição dos Estados Unidos da América. Foi em 1776. Onde há uma igreja católica há vinho, portanto, desde o séc. XV que há vinha na Madeira. As condições naturais da ilha não […]

Detesto o velho clichê de “os estrangeiros gostaram muito”, mas sempre lembrarei que foi com vinho Madeira que se brindou na assinatura da Constituição dos Estados Unidos da América. Foi em 1776.
Onde há uma igreja católica há vinho, portanto, desde o séc. XV que há vinha na Madeira. As condições naturais da ilha não favorecem o amadurecimento das uvas. Os terrenos são muito férteis, as temperaturas moderadas, as altitudes elevadas. Por outro lado, a acidez é excepcional, e, ao amuar a fermentação com álcool vínico a 96%, nasce um vinho que, sendo envelhecido em velhos cascos de madeira e sujeito às condições climáticas dos velhos sótãos, se torna indestrutível. A Blandy’s é uma empresa familiar, com mais de 200 anos de história na ilha, hoje dentro do universo da Madeira Wine Company, mas sempre com gestão familiar, desde 2010 personificada em Chris Blandy, jovem de 40 e poucos anos.

Gerir uma empresa antiga de Vinho Madeira é gerir um tecido de incrível complexidade. Na apresentação dos novos lançamentos, no restaurante Kabuki, em Lisboa, Chris e o seu enólogo principal e master blender, Francisco Albuquerque, foram sempre citando números: “De Bual há 14ha na ilha, com 104 viticultores na Calheta. A MWC tem 1 ha”. “A Madeira tem 22ha de Sercial, são 125 produtores”. E continuando. Vocês percebem, é só fazer as contas, como dizia o António Guterres. É preciso gerir as nossas vinhas, decidir os tratamentos e datas de colheita, acompanhar as vinhas dos outros (muitas dezenas de) viticultores, colher e separar todas as parcelas, com as castas separadas, já que na Madeira cada casta é também um estilo de vinho.

Francisco Albuquerque, que começou a carreira na Blandy’s em 1990 (e aliás, começou imediatamente a mudar o sector) disse-nos que experimentou fazer algumas castas ao estilo de outras (ou seja, com o nível de doçura “errado”) e descobriu que o resultado era horrível. Diz ele: a doçura está bem assim: Sercial seco com um máximo de 60g de açúcar por litro, Verdelho meio-seco com 60 a 75g de açúcar, Bual meio-doce com 75 a 100g e Malvasia doce com mais de 125g.

Mais um problema: fazer chegar as uvas ao Funchal. Muitas vinhas são em sítios bastante isolados. Há imensa pressão demográfica na Madeira, com apenas 13,5% dos terrenos com declives inferiores a 16%, as vinhas têm de lutar pelo seu espaço contra os hotéis e as habitações. Felizmente, a viticultura tem evoluído e os porta-enxertos aguentam cada vez mais altitude. 80% da ilha da Madeira está acima dos 700m.

Mas a complexidade não termina aqui: feitos os vinhos há que envelhecê-los. E segundo Albuquerque, o sítio onde fica o armazém de envelhecimento também determina o estilo dos vinhos. A Blandy’s tem 16 armazéns de envelhecimento, e em cada localização, as diferentes castas desenvolvem de forma diferente os ácidos orgânicos que dão ao Madeira o seu carácter. Por exemplo, o Caniçal é mais húmido do que o Funchal e há castas que envelhecem lá melhor. É preciso diminuir os factores aleatórios para manter o estilo de cada vinho.

Depois de mais de 30 anos de trabalho, Francisco Albuquerque conseguiu pela primeira vez fazer 4 vinhos do mesmo ano, os 2010 hoje apresentados. Para além desses, viajámos um pouco no tempo para provar alguns vinhos históricos, e comparar estilos da Blandy’s com a sua marca-irmã, Cossart-Gordon. Ao jantar, mais desafios: o IG Madeirense (“de mesa”) Atlantis, Verdelho da Fajã da Ovelha, feito em parceria com Rui Reguinga, e a provocação de harmonizar vinho Madeira com os pratos da cozinha japonesa, uma proposta desenhada com a ajuda de Victor Jardim, escanção do Kabuki e também ele madeirense. Sashimi de atum com Sercial, toro com Sercial e Verdelho, wagyu com Bual. Aposta ganha, num dia em que honrámos as tradições da Madeira com os seus vinhos de enorme delicadeza, etérea profundidade e eterna longevidade.

 

(Artigo publicado na edição de Agosto de 2023)

Graham’s lança Porto LBV 2018 com imagem renovada

Graham's LBV

A Graham’s vai lançar o Porto Late Bottled Vintage (LBV) de 2018 numa nova garrafa, que se distingue pela estrutura elegante e troncocónica. A nova apresentação alinha-se assim com o design dos restantes Portos Ruby premium produzidos pela Graham’s. No âmbito do compromisso da marca com a redução das emissões de carbono, a nova garrafa […]

A Graham’s vai lançar o Porto Late Bottled Vintage (LBV) de 2018 numa nova garrafa, que se distingue pela estrutura elegante e troncocónica. A nova apresentação alinha-se assim com o design dos restantes Portos Ruby premium produzidos pela Graham’s. No âmbito do compromisso da marca com a redução das emissões de carbono, a nova garrafa pesa 450g e é 18% mais leve do que a anterior comercializada pela Graham’s.

A marca renovou, também, o rótulo clássico (em forma de campânula) das garrafas de Porto LBV, inspirando-se nos tubos vibrantes de LBV já comercializados. Disponíveis nos tons de verde, laranja e roxo beringela da Graham’s, os três tubos são criados a partir de papel marmoreado trabalhado à mão, submerso em tinta para atingir padrões e texturas únicas e foram, também, alvo de pequenas alterações, nomeadamente a substituição da base de metal por uma base de cartão, de forma a simplificar o processo de reciclagem.

O Porto Graham’s LBV 2018 nasceu de um ano desafiante na região do Douro. O ciclo de crescimento ficou marcado por condições climáticas contrastantes: um inverno pautado pela seca, chuvas
torrenciais na primavera e ondas de calor em agosto, durante o período final de maturação. Felizmente, as temperaturas mais frescas durante a vindima possibilitaram vinhos equilibrados, com
bons níveis de acidez.

Depois de cinco anos de envelhecimento em balseiros de carvalho, nas Caves Graham’s, o Porto LBV 2018 foi engarrafado e disponibilizado para venda.

 

Arnozelo vs. São Luiz: os bons confrontos

Sogevinus

É sempre entusiasmante receber um convite destes: “Olha, podes no dia tal? Vamos fazer uma prova vertical de Quinta do Arnozelo e Quinta de São Luiz.” Acendem-se logo os sonhos. Estas poucas palavras, mais o autor do telefonema, colocam na mente do velho crítico os contextos todos em zoom próximo: falamos de Vinho do Porto; […]

É sempre entusiasmante receber um convite destes: “Olha, podes no dia tal? Vamos fazer uma prova vertical de Quinta do Arnozelo e Quinta de São Luiz.” Acendem-se logo os sonhos. Estas poucas palavras, mais o autor do telefonema, colocam na mente do velho crítico os contextos todos em zoom próximo: falamos de Vinho do Porto; falamos do grupo Sogevinus, aglutinador de algumas das mais antigas e prestigiadas marcas do sector; falamos da Burmester, pequena empresa de ourivesaria vínica, onde a Quinta do Arnozelo, no Douro Superior, zona da Ferradosa, é das mais acarinhadas; falamos da Kopke, a mais antiga empresa do sector, com fundação no século XVII (1636, a Burmester é muito mais recente, de 1750…), e da sua jóia maior, a Quinta de São Luiz, na frente de rio entre o Pinhão e a Régua. A palavra vertical é já mais ambígua, visto que nestas empresas específicas poderíamos estar a falar de uma prova de vinhos de vários anos e alguns deles poderiam ser muito, muito antigos, com mais de 100 anos. Mas a desambiguação vem da palavra “Quinta” e aí cheira-nos a Porto Vintage, em particular, a Single Quinta. No sector, nos melhores anos o Vintage é feito com a fórmula de misturar os vinhos de várias origens e quintas, originando os Porto Vintage normalmente chamados de clássicos. Single Quinta significa os outros anos, nos quais a longevidade poderá não ser tão prometedora, mas isso é compensado por uma maior ênfase no conceito de “terroir”, a origem geográfica dos vinhos, e também, porque não admiti-lo, por preços de venda mais moderados, e uma maior acessibilidade na sua evolução. Costuma-se resumir isto tudo na fórmula: vinhos para comprar e ir bebendo enquanto esperamos que os anos clássicos cheguem ao seu melhor, depois de pacientemente conservados no escuro e no frio. Tudo isto está já na minha cabeça quando dou a reposta óbvia: “sim, claro que vou, com muito prazer.”

 

Kopke fundada em 1638, Burmester fundada em 1750. Aqui, falamos da história do vinho do Porto.

 

O prazer ainda é maior quando chego ao pé da Ponte Luiz I e entro na belíssima cave que a Burmester tem em Vila Nova de Gaia, ali rente ao rio Douro. O edifício é comprido e desdobra-se em sucessivas salas, paredes de granito, vistas e entrevistas do Douro e do Porto. Lá no fundo, espera-nos o staff da Sogevinus, uma textura de copos, uma promessa de complexidade e prazer. Mistério agora completamente decifrado, não há surpresas, há uma mini-vertical paralela de Burmester Quinta do Arnozelo e Kopke Quinta de S. Luiz, Vintages dos anos 2009, 2012, 2015, 2019, e a apresentação ao público do 2021.

A Quinta do Arnozelo foi adquirida pela Burmester em 2004, e fica na fronteira entre o Douro Superior e o Cima Corgo. Tem 200ha dos quais 93 têm vinha. Tem ainda 38 de olival, 6 de amendoal, 2 de citrinos e mata. O encepamento foca-se na Touriga Nacional e Touriga Franca, as altitudes vão dos 110 aos 520m, e recentemente foi instalada rega para encarar os desafios climáticos. São Luiz fica no coração do Cima Corgo, na margem Sul do Douro, mesmo em frente à estação do Ferrão. Tem 125ha, dos quais 90 têm vinha, e a sua altitude vai dos 80 aos 450m. As suas vinhas são anteriores a 1930, com renovação do encepamento nos anos 1980. A sua exposição a Norte, com talhões também a Noroeste e Nordeste confere aos vinhos uma particular frescura ácida.

 

Burmester Quinta do Arnozelo e Kopke Quinta de São Luiz: os Porto Vintage 2021 da Sogevinus.

 

Cada ano é um ano, e cada provador um provador. Como disse acima, estes single quinta permitem-nos uma visão mais precoce da sua evolução, e alguns dos vinhos estavam já muito acessíveis. Mas os Vintages jovens dão também muito prazer, e em todos os vinhos encontrei qualidades para encarar uma tarte de maçã, um brownie de chocolate, ou uma tábua de queijos. Para os amantes de desporto, e encarando cada ano como um confronto amigável, direi que o Kopke ganhou 4-2.

 

(Artigo publicado na edição de Agosto de 2023)

Quinta do Barbusano: Na ilha, entre a floresta e o mar

Barbusano

Ilhas felizes. É este o significado etimológico de “Macaronésia”, palavra de origem grega que representa quatro arquipélagos do Atlântico Norte, a oeste do estreito de Gibraltar, onde se insere o da Madeira. Pela localização e condições edafo-climáticas, são ilhas de uma vegetação única e abundante, com elevadíssimo rácio de espécies vegetais endémicas. Mas havendo a […]

Ilhas felizes. É este o significado etimológico de “Macaronésia”, palavra de origem grega que representa quatro arquipélagos do Atlântico Norte, a oeste do estreito de Gibraltar, onde se insere o da Madeira. Pela localização e condições edafo-climáticas, são ilhas de uma vegetação única e abundante, com elevadíssimo rácio de espécies vegetais endémicas. Mas havendo a oportunidade de visitar a ilha da Madeira, sobretudo a parte norte, não é preciso ler muito sobre isto, é ela que nos mostra. A floresta Laurissilva, que ocupa cerca de 20% do território da ilha (aproximadamente 15 mil hectares), apresenta-nos uma paisagem de um verde intenso que se estende em altitude, numa presença imponente e mística, carácter que se acentua quando é abraçada pelos nevoeiros frequentes das manhãs húmidas e nubladas (quando a ilha está de “capacete”, como dizem os madeirenses…). No município de São Vicente, a Laurissilva — que se divide em três “comunidades” distintas — assume o nome Laurissilva do Barbusano, inspiração para a identidade da Quinta do Barbusano, que tem a floresta como pano de fundo, até aos 450m, e uma vista privilegiada para a capelinha de Nossa Senhora de Fátima, um dos símbolos de São Vicente, situada no topo de uma colina. A caminho da quinta, numa estrada que serpenteia pela montanha, não podemos evitar parar o carro num local já perto da propriedade: a floresta, feminina, enquadra o mar que aparece lá ao fundo, com um V formado por duas escarpas. V de verde, V de Verdelho.

 

O início

António Oliveira, natural de São Vicente, fundou a Quinta do Barbusano em 2006. Antes de fazer vinho ou de ter vinhas, trabalhava com produtos fitofármacos, numa empresa própria que os vendia aos produtores de uva e dava todo o tipo de apoio aos mesmos. Tinha, ainda, outra empresa de preparação de terrenos e plantações agrícolas. Paralelamente, era — e ainda é, embora em menor escala — “ajuntador de uvas”, conceito muito peculiar: as grandes empresas de vinho Madeira têm, em todos os concelhos da Madeira, alguém que fala com os viticultores para entrega de uvas. É como ter uma pessoa de confiança total, encarregue de ser mediador de uvas, entre os viticultores e a empresa. “Há mais de 30 anos que faço esse trabalho e continuo a fazê-lo, mas apenas para a Blandy’s. Nenhuma uva lá entra sem passar por mim e pela minha decisão”, explica António. Entretanto, durante um trabalho que estava a levar a cabo numas vinhas, desafiou o proprietário das mesmas a fazer com ele “algo diferente” em São Vicente, e foi aqui que arrancou o projecto do Barbusano.

 

BARBUSANO

 

Paulo Laureano foi o primeiro enólogo a fazer vinho não fortificado no arquipélago da Madeira

 

 

Na ilha da Madeira, há poucos produtores a fazer vinho não fortificado, e António Oliveira não só é um deles como é, hoje, o maior de todos. Os produtores mais conhecidos de vinho Madeira generoso — como Madeira Wine Company (Blandy’s), Barbeito ou Justino’s — têm as suas marcas de DOC Madeirense e elaboram estes vinhos nas respectivas adegas. Os restantes, incluindo o próprio Barbusano, utilizam a Adega de São Vicente, uma adega “comunitária” criada pelo Instituto do Vinho da Madeira (actual IVBAM – Instituto do Vinho, Bordado e Artesanato da Madeira), que presta serviços de vinificação, sob supervisão de um enólogo residente. Até à última vindima, os produtores a utilizar os serviços desta adega, para vinho não fortificado, eram cerca de 12.
Foi precisamente pela existência desta adega que António conheceu Paulo Laureano, hoje enólogo consultor da Quinta do Barbusano. Paulo foi o primeiro enólogo a fazer vinho não fortificado na Madeira, tendo sido também o primeiro enólogo consultor do Governo Regional, quando da criação da Adega de São Vicente. No projecto do Barbusano, está desde o início. “O Paulo conhece muito bem o terroir da Madeira, os solos, as castas, a maneira de trabalhar dos viticultores, e isto é tudo muito importante”, refere António Oliveira.

As vinhas do António

António é também o maior proprietário de vinha da ilha, com parcelas em várias zonas. A Quinta do Barbusano está rodeada por 12 hectares maioritariamente de Verdelho, a uva em que se focam os brancos do projecto, com alguma Tinta Negra que vai para o rosé. Tudo vinha conduzida em latada. “Na altura, estes 12 hectares tinham 88 parcelas pertencentes a 56 donos. Tive de negociar com todos eles e foi muito difícil”, revela o produtor. “Foi tudo feito em três fases, devido ao capital que era necessário, em primeiro lugar, e em segundo, eram terrenos abandonados, e quando as pessoas começaram a ver ali interesse, plantações e luz, o valor das parcelas circundantes subiu muito”, lembra. Depois de criar a base em São Vicente, António Oliveira alugou terrenos no Arco de São Jorge, parcialmente abandonados, para plantar 2,5 hectares de vinha com uma uva branca de que tinha falta, a Arnsburger (casta trazida da universidade alemã de Geisenheim para a Madeira e que funciona aqui muito bem em lote); outro hectare em Ponta Delgada, com Verdelho e Arnsburger; e na Ribeira da Janela, em Porto Moniz, tem entre 6 e 7 hectares com as tintas Touriga Nacional e Aragonez. Estas duas vão para os vinhos tintos da casa que, apesar de não serem a estrela do produtor (nem da Madeira, na verdade…), “o mercado local pede muito”, diz António. Mas antes de tudo isto estar operacional, durante os primeiros quatro anos, os vinhos do Barbusano foram feitos com uvas compradas. O primeiro de todos originou apenas 4 mil garrafas. Hoje, a empresa já produz 100 mil por ano, incluindo um espumante 100% Verdelho, bem interessante, feito com leveduras livres e remuage manual. Há pouquíssima produção de espumante na Madeira, mas “estão a surgir pequenas produções”, segundo António, que investiu agora no equipamento para dégorgement, que antes tinha de alugar no continente e transportar para a ilha.

 

A caminho da Quinta, numa estrada que serpenteia pela montanha, não podemos evitar parar o carro num local já perto da propriedade: a floresta, feminina, enquadra o mar que aparece lá ao fundo., com um V formado por duas escarpas.

 

O projecto do Porto Santo

Um dos grandes canais de venda dos vinhos Barbusano é o próprio enoturismo da quinta, que desde 2018 recebe sobretudo turistas estrangeiros que procuram experiências vínicas autênticas. E quando se fala em autênticas, é mesmo assim, porque para os que escolhem o programa de provas com almoço, é quase sempre António que está na grelha a fazer as famosas (mas fiéis) espetadas madeirenses.
Porém, com a chegada da pandemia em 2020, a Madeira, que vive do turismo, parou totalmente e, consequentemente, pararam também as vendas. “Estava toda a gente com medo de viajar para outros países, e os portugueses viraram-se para a ilha do Porto Santo. Começaram a dizer-me, ‘vai para o Porto Santo, está a encher e lá vais conseguir vender o vinho’. Assim fiz, e consegui arranjar clientes”, confessa António Oliveira. Como era altura das vindimas, acabou por visitar várias vinhas, a ideia de fazer vinho nesta ilha começou a surgir, e o produtor acabou por consultar João Pedro Machado, enólogo residente da Adega de São Vicente, sobre a viabilidade da casta Caracol, a uva branca da ilha. António recorda: “A opinião dele era que, a solo, não acreditava muito nela, mas que combinada com Verdelho poderia dar um vinho excelente. Verdelho já eu tinha na Madeira, faltava-me o Caracol. Quando falámos com os viticultores do Porto Santo, nessa altura, disseram-me que já estava tudo vendido, e eu aceitei e vim-me embora. Passados uns dias, recebo uma chamada de um deles, a perguntar se eu ainda estava interessado nas uvas. Eu disse que sim, e regressei com o João Pedro ao Porto Santo para ver as ditas uvas e avaliar o estado de maturação. Decidimos comprá-las e, depois de vindimadas, trouxemo-las para a ilha da Madeira”. Note-se que, no ferry que faz a travessia Porto Santo-Funchal, transportar um camião de uvas custa mais de mil euros. A juntar aos mais de quatro euros/quilo que custa a uva Caracol… comprar uvas em Porto Santo fica tudo menos barato. Foi assim que surgiu o primeiro vinho Fonte d’Areia 2021, que juntou Caracol (51%) a Verdelho. “À terceira ou quarta prova do vinho, percebi que ou simplesmente beberíamos uns copos com ele, ou teria de começar a produzir uvas no Porto Santo. O resultado é que já estou com dois hectares próprios de vinha, e planos para plantar mais 1,5 em 2024. À partida, fico-me por aqui”, avança António Oliveira. Além de Caracol (que já entrou numa segunda e bastante melhorada edição do Fonte d’Areia, de 2022) estes dois hectares têm algumas parcelas de uvas tintas, como Syrah, Trincadeira ou Castelão.

O Porto Santo traz outra enorme vantagem ao portefólio do produtor: diferenciação. Ainda que a menos de 70 km de distância entre si, as ilhas da Madeira e Porto Santo poderiam estar em hemisférios distintos. Enquanto alguns locais da Madeira lembram partes do Brasil, com os morros cobertos de vegetação verde e clima húmido subtropical, quem caísse de para-quedas no Porto Santo pensaria estar no norte de África, com colinas áridas despidas de árvores, clima quente e muito seco. A escassez de água e o solo arenoso marcam profundamente a viticultura no Porto Santo, tendo influência decisiva no perfil dos vinhos. E, quem sabe, abrindo uma janela de oportunidade às castas tintas que António Oliveira pretende aproveitar.
O projecto Barbusano continua a crescer e a procura a aumentar. Também por isso, o produtor decidiu fazer uma mudança na imagem dos vinhos. “Os rótulos já vinham de 2008 e estavam muito cansados. Tudo isto tem custos e nós preocupamo-nos, obviamente, também com esta componente, mas, sobretudo da minha parte, há uma ainda maior preocupação pelo que coloco dentro das garrafas. Mas chegou a hora de o fazer e também de lançar novos vinhos”, adianta António. Quanto a próximos objectivos, a vontade é chegar ainda este ano às 150 mil garrafas. Fazer mais espumante é também um desejo, e para isso foram recentemente plantadas Baga e Loureiro na quinta, para bases de espumante.
Pelo que provámos, os vinhos brancos da Madeira são algo muito sério (aqui, palmas para a uva Verdelho), com um potencial nervoso e a pedir para serem mais explorados. A visita a uma garrafa de Barbusano Verdelho branco 2011 confirmou-o, deixando todos de queixo caído. Será esta uma das “next big things” da cena vitivinícola portuguesa?

(Artigo publicado na edição de Agosto de 2023)

 

Grandes Escolhas retoma a parceria com Green Cork no evento VINHOS & SABORES

Sustentabilidade

A Grandes Escolhas, retoma a parceria com a Green Cork, para a edição de 2023 do evento VINHOS & SABORES. O Green Cork já conseguiu reciclar mais de 500 Ton de rolhas de cortiça usadas e já foram plantadas mais 1.400.000 árvores autóctones, contribuindo para uma crescente capacidade instalada de absorção de CO2, assim como […]

A Grandes Escolhas, retoma a parceria com a Green Cork, para a edição de 2023 do evento VINHOS & SABORES.

O Green Cork já conseguiu reciclar mais de 500 Ton de rolhas de cortiça usadas e já foram plantadas mais 1.400.000 árvores autóctones, contribuindo para uma crescente capacidade instalada de absorção de CO2, assim como já foi evitada a emissão de várias Toneladas.

Mas queremos aumentar as rolhas recicladas e árvores plantadas, e por isso contamos com a sua visita e participação. Visite-nos, receba o seu rolhitas e colabore na recolha.

Saiba mais sobre as parcerias do evento Vinhos & Sabores no âmbito da sustentabilidade AQUI.

Herdade da Bombeira: O segredo está na vinha

Herdade da Bombeira

Uma das grandes virtudes da Herdade da Bombeira é a gestão da sua vinha. Inclui a programação do seu maneio com base em conhecimento adquirido ao longo de muitos anos, e a boa gestão da rega, essencial para evitar o stress excessivo às uvas numa zona onde as temperaturas são extremas. Luis Fiúza Lopes, 68 […]

Uma das grandes virtudes da Herdade da Bombeira é a gestão da sua vinha. Inclui a programação do seu maneio com base em conhecimento adquirido ao longo de muitos anos, e a boa gestão da rega, essencial para evitar o stress excessivo às uvas numa zona onde as temperaturas são extremas. Luis Fiúza Lopes, 68 anos, fundador e administrador da Bombeira do Guadiana, empresa proprietária da herdade, tem tudo o que se passou na sua vinha assente no seu caderno, desde a forma como decorreram os ciclos vegetativos desde que a plantou, incluindo os eventos climáticos e outros, até ao maneio feito ano a ano. “É a ele que recorro quando tenho dúvidas em relação à forma como os anos correram, porque as suas notas são ainda mais precisas do que as minhas”, conta Bernardo Cabral, o enólogo da empresa.
Para verificar o cuidado que ali se tem com a viticultura, basta entrar, naquela propriedade à beira do Guadiana, para ver como a vinha, que bordeja o rio, contrasta pelo aprumo com a desarrumada paisagem serrana envolvente, típica da zona fronteira entre o Alentejo e Algarve. No dia em que a equipa da Grandes Escolhas lá esteve, as pessoas que cuidam dela estavam em azáfama intensa e empenhada, porque era tempo de despampanar, tirar os “ladrões” e os lançamentos dos porta enxertos, ou seja, tudo o que ali estava a mais e podia afetar o equilíbrio da produção em termos de quantidade e qualidade.

Herdade da Bombeira
Luís Fiuza Lopes é o fundador da Herdade da Bombeira.

Rega a seguir à vindima

O ciclo produtivo começa, na Herdade da Bombeira, logo a seguir à vindima, com a rega da vinha. “Regamos muito, porque a planta precisa de mais água depois da vindima, que aqui decorre muito cedo, pois termina no fim de agosto, e nós temos um mês de setembro muito quente”, conta Luis Fiúza Lopes, acrescentando que ali se continua a regar a vinha até às primeiras chuvas de novembro.
A poda começa a meio de dezembro e decorre até ao princípio de março, todos os dias, já que a Bombeira tem uma equipa de pessoas no terreno, que paga à jorna para fazer todos os trabalhos, que são supervisionados pelo diretor de produção da empresa, Márcio Quintas. Os “ladrões” e rebentamentos dos porta-enxertos começam a ser removidos após o abrolhamento até que, a meio de maio, começa a despampa.
A monda de cachos sucede-se a partir do mês seguinte. É Luis Fiúza Lopes, que conhece a sua vinha como ninguém, que indica qual o número a deixar, variando com a casta. “São cinco a seis cachos para o Arinto e oito para o Chardonnay, porque são mais pequenos”, revela, dizendo também que chegou a estes números com base na avaliação da qualidade do vinho ao longo dos anos, feita através da prova. “É um pouco a olho, mas funciona”, defende.
Quando chega à altura da maturação das uvas vai todos os dias à vinha e observa, quase cacho a cacho, a forma como tudo está a evoluir, até tomar a decisão de vindimar em conjunto com Bernardo Cabral. Trata-se de um processo que começa muito cedo em cada dia, por volta das 7h, e termina entre as 10h e as 11h, quando o camião frigorífico está cheio. À hora do almoço o veículo está na adega da Casa Santa Vitória, onde as uvas da empresa são vinificadas há muitos anos, sob a supervisão de Bernardo Cabral, através de um contrato de prestação de serviços. Depois de chegarem, o processamento depende do vinho que vai ser feito.

Frescura natural

As uvas para brancos e rosés são vindimadas cedo para os vinhos expressarem a sua acidez natural. Dão origem a brancos e rosés frescos e elegantes, características um pouco inesperadas para vinhos do interior sul do Alentejo, onde as temperaturas superam muitas vezes os 40 graus no verão. “Isso acontece porque o Luis Fiúza escolheu muito bem a zona onde plantou as castas brancas”, explica Bernardo Cabral, salientando que o Chardonnay está uma parte do dia à sombra, protegido por uma colina anexa, e as vinhas estão viradas a norte, o que faz com que o tempo seja mais fresco naquela zona.
No caso dos tintos, as uvas passam todas em tapetes de escolha e são vinificadas em cubas lagares, onde são pisadas por robôs, geralmente nos dois primeiros dias, e as massas são mantidas em frio durante quatro a cinco dias a fazer macerações a frio (sem produção de álcool), para que não haja demasiadas extrações com álcool depois da fermentação. “Dai que os vinhos desta casa tenham corpo, mas não sejam agressivos”, salienta Bernardo Cabral. Depois da fermentação, vão todos para barricas na cave da Casa de Santa Vitória e vão sendo provados por Bernardo Cabral e Luis Fiúza Lopes até ser tomada a decisão de engarrafar. Depois desta operação, e ainda sem rótulos, são armazenados nas instalações da empresa em Mértola e na Venda do Pinheiro, para onde vai a maioria das garrafas, “uma região mais fria, onde ficam a estagiar antes de serem comercializados”, termina o enólogo.
Luis Fiúza Lopes nasceu na Póvoa da Galega, no concelho de Mafra e frequentou o ensino Superior no ISCTE após terminar o liceu. Durante 2º ano do curso decidiu deixar de estudar para fazer o serviço militar, onde foi oficial miliciano. Mas saiu da tropa aos 22 anos para trabalhar com o pai, que possuía um matadouro na sua aldeia natal.
Oito anos mais tarde comprou a empresa ao progenitor e aos irmãos. Criou, depois, uma nova sociedade onde lançou a marca Dilop, de produtos de carne, que ainda existe hoje, para sair oito anos mais tarde para fazer um período sabático na Região de Mértola. Mas isso não aconteceu, já que não conseguiu resistir a começar a trabalhar no negócio da caça. “Cheguei mesmo a ser o maior empresário do sector em Portugal, gerindo cerca de 32 mil hectares de terras”, revela. Acrescenta que tudo isto sucedeu sem ser premeditado. “Quando cheguei a Mértola estavam a surgir muitas oportunidades nesta área e as coisas foram acontecendo”, conta, salientando que a sua experiência de gestão anterior contribuiu para o sucesso nesta área de negócio. Diz, também, que a compra da Bombeira do Guadiana, proprietária da Herdade da Bombeira, que tinha, na altura, 67 hectares, aconteceu quando chegou à região. Hoje são 760 ha.

Herdade da Bombeira

 

 

Quase um enoturismo

São 16 quartos, uma piscina com vista para o rio, cerca de 2 mil metros quadrados de área de construção, um restaurante com capacidade para muitas dezenas de pessoas, com área social interna e externa. Está prevista, também, a abertura de uma loja de vinhos. Será um estabelecimento mais virado para o descanso, que ainda não está aberto, sobretudo porque os caminhos comuns até à propriedade, cujo arranjo depende da autarquia, ainda não estão em condições para o trânsito de veículos que não sejam de todo-o-terreno. “Quando a unidade estiver em funcionamento, terá de ter 12 pessoas a trabalhar, que têm de ser pagas, tenha, ou não, clientes”, explica o gestor, acrescentando que não abre ao público enquanto não houver garantia de haver um fluxo suficiente de clientes que sustente o negócio. Até lá, vai cedendo os quartos e o resto das instalações aos amigos e clientes.

 

 

 

Aprendizagem com o tempo

A propriedade tinha pertencido à Torralta, que ali investira na produção de laranja, tangerina e uva de mesa. Mas nunca tinha sido feito vinho. Mas Luis Fiúza Lopes achou que tinha potencial para produzir uvas, mandou avaliar a qualidade dos solos e restantes condições para o desenvolvimento da cultura. Os resultados deram-lhe razão e avançou com o investimento. Plantou a vinha em 2000. A presença mesmo ao lado do rio Guadiana ajudou ao desenvolvimento do projecto até à barragem do Alqueva ser concluída, altura em que deixou de ser possível retirar água do rio. A solução foi fazer diversos furos naquela zona da propriedade, com uma capacidade disponível para suprir as necessidades da cultura.
Inicialmente foram plantados 18 hectares de castas tintas. “Mais tarde, cheguei à conclusão que os nossos clientes também precisavam de vinhos brancos e plantei mais 5,5 hectares com esse objetivo”, conta. Hoje são, no total, 21,5 hectares de vinha. Nela estão plantadas as castas brancas Chardonnay e Arinto e as tintas Alicante Bouschet, Syrah, Trincadeira, Touriga Nacional e Cabernet Sauvignon.
Luis Fiúza Lopes confessa que não percebia nada do negócio quando plantou a vinha. Mas, aos poucos, foi-se apercebendo quais eram as castas se davam melhor no seu terroir e quais as que originavam vinhos mais facilmente comercializados. “Depois de algum tempo, cheguei à conclusão que as castas que se davam melhor aqui são as que estão plantadas actualmente”, afirma. Para chegar a este encepamento, foram feitas replantações das zonas menos produtivas da vinha quando esta chegou aos 20 anos, com castas adaptadas ao local. “A única experiência que fiz, nessa altura, foi a introdução da Touriga Nacional depois de ter estudado o tema e de me ter aconselhado com quem sabia”. Graças a isso, descobriu que há clones da casta bem-adaptados para climas secos e solos pobres como os da Herdade da Bombeira. Plantou as primeiras cepas da casta há quatro anos, para substituir alguma Syrah. “A segunda plantação substituiu a Trincadeira que produzia mal”, revela.
Mas não basta ter a ideia de plantar uma vinha e produzir vinho de qualidade para ter sucesso. É preciso também saber vendê-lo e cobrá-lo. Segundo Luis Fiúza Lopes, todo processo de crescimento e solidificação do seu negócio decorreu “muito devagar, demorou o seu tempo, mas nunca perdemos dinheiro nele”. Acrescenta que foram sempre vendendo o vinho e “nunca se estragou uma garrafa”. Os excedentes de uva “no máximo 20 mil quilos por ano se a produção for média”, são comercializados para outros produtores da região onde a herdade está inserida.

Aposta em monocastas

Hoje a Herdade da Bombeira produz cerca de 40 mil garrafas de vinhos brancos, oito mil de rosé e 80 mil de vinhos tintos. 95% dos vinhos são comercializados em Portugal, no canal Horeca, 30% dos quais no Algarve e outro tanto na Grande Lisboa, 5% para exportação e o restante no resto do país. São cerca de 130 mil garrafas as unidades que o gestor da Bombeira do Guadiana espera comercializar este ano. “Este volume deverá corresponder a um valor muito próximo dos 600 mil euros de vendas”, explica, salientando o número representa um crescimento de 30% em relação ao ano anterior.
A aposta na produção e comercialização de vinhos monocasta é evidente. O administrador da Bombeira do Guadiana defende que o terroir de Mértola se sente mais nos vinhos de casta do que nos de lote, e a qualidade é melhor. “Como vendemos bem os vinhos que produzimos, estamos certamente a fazer bem o nosso trabalho”, defende. Conta, ainda que o sucesso da sua empresa se deve também ao trabalho feito pela sua equipa no sentido de transmitir confiança aos compradores, “que necessitam ter e certeza de estão a adquirir produtos que lhes dão a garantia suficiente para que os possam recomendar aos clientes, seja num hotel ou num restaurante”, defende.

(Artigo publicado na edição de Agosto de 2023)