Já foram os japoneses, agora somos nós

Há quem veja bondade em tudo o que acontece naturalmente, mas a horda que hoje ataca de máquina e telemóvel em riste e fulmina tudo o que é posto, servido ou mostrado, tornou quase insuportável uma refeição serena, focada na comida e no vinho. REGISTAR momentos felizes, para mais tarde recordar, é o clássico da […]
Há quem veja bondade em tudo o que acontece naturalmente, mas a horda que hoje ataca de máquina e telemóvel em riste e fulmina tudo o que é posto, servido ou mostrado, tornou quase insuportável uma refeição serena, focada na comida e no vinho.
REGISTAR momentos felizes, para mais tarde recordar, é o clássico da fotografia familiar, hoje muito facilitada pela memória gigante de que se consegue dotar os equipamentos. Os velhos rolos de 36 fotografias não dariam actualmente nem para começar uma sessão. Talvez por isso mesmo, antigamente não se fotografava certas coisas – quase nada – do quotidiano. Além da exiguidade da película, havia o custo directo da mesma, a que acrescia o peso da revelação e provas em papel. Tirava-se a fotografia do momento exacto – quase sempre falhado – de um filho a soprar as velas na festa do aniversário, fazia-se uns conjuntos de familiares nos dias importantes e basicamente desenferrujava-se as máquinas de sofisticação variável nas férias e viagens pontuais.
Hoje vamos sozinhos, em casal ou em grupo a um restaurante, podemos comer mal e ser mal tratados, mas voltamos com um levantamento de imagens que faz corar a investigação de cenários de crime. A sala. As mesas. As dobras e vincos de toalhas e guardanapos. As marcas e os logotipos, incluindo os inscritos nas lâminas das facas. Os copos. Ainda a comida não veio já lá vão mais de cem disparos. Três rolos de 36!
Ainda não consegui entender o que realmente faz as pessoas fotografar tudo o que encontram, e o efeito é proporcional à sofisticação e requinte do lugar. Quando mais sabemos que vamos pagar, mas fotos tiramos, como se fosse um direito adquirido. E de certa forma é. Nos anos 60 e 70, víamos nos restaurantes, lojas e ruas da Europa japoneses de Pentax ao pescoço a fotografar tudo o que encontravam. Corria então que era uma espécie de espionagem consentida, registar o inteiramente novo, e que supostamente no Japão ampliavam, e viam com todo o detalhe o que haviam visto no velho continente, para copiar. Claro que não era só isso, mas era isso também que se pretendia. Registo frio e sistemático, à boa maneira da espionagem de guerra, de que a tecnologia era garante vitorioso. Penso que o aspecto artístico do relacionamento fotógrafo-objecto nem sequer se colocava.
E penso o mesmo da forma como agora renunciamos a toda e qualquer relação com a comida quando bombardeamos o que nos vão pondo na mesa com dezenas de fotos, com e sem flash. Os japoneses já se foram, agora os espiões somos nós. E para quem fotografamos? Para mostrar a alguém, para publicar nas redes sociais, e para demonstrar que estamos ali, naquele momento, a fazer a experiência a que os comuns mortais não têm acesso. Das legendas é que ninguém trata e, quando o faz, presta um serviço de péssima qualidade ao mundo. Nem jornalismo factual são capazes de fazer.
O que os gurus e os moguls dos media norte-americanos previram (que o jornalismo iria ser feito pelos cidadãos comuns), falhou totalmente. Além de se escrever mal, raramente se sabe do assunto sobre que se escreve. Assim não vale a pena. Ainda há pouco tempo, na minha mesa alguém fotografava de vários ângulos diferentes uma fatia de quiche de cogumelos, que todos comentavam que era de massa folhada. Estupidamente, tentei corrigir explicando que se tratava de massa quebrada e não folhada, ouvi pelo menos três pessoas a dizer com palavras diferentes que folhada e quebrada era a mesma coisa e eu que não chateasse muito. E de repente bum! já estava a dita fatia eternizada no Facebook e Instagram com mais de cem likes e a legenda da massa folhada.
Senti medo. Todos naquela mesa tínhamos obrigação de saber do que falávamos mas ninguém fez nada pela qualidade do que se publicou. Senti pela primeira vez ali que a esmagadora maioria da informação que circula é totalmente inútil. O contrapeso desta situação, contudo, ainda existe. Anne Perkins escreveu há um par de anos um artigo contundente no “The Guardian”, cheio de humor britânico do bom, no qual afirmava que a comida é para ser apreciada e não publicada. Apreciem, sintam aromas e texturas, falem com os companheiros de mesa, comentem, contem histórias e anedotas, mas dediquem tempo e afecto ao que vos está a ser servido.
Quase entro no capítulo da educação e boas maneiras, o que obviamente não farei. Pai, mãe e filha única chegam ao restaurante e sentam-se numa mesa ao lado da minha ainda noutro dia. Metralham a miúda para que se sente direita e calada à mesa, põe o guardanapo, não é assim que se pega no pão, etc. e ainda a comida não tinha chegado. Logo que vem para a mesa, o pai e a mãe tiram fotos ao despique e depois competem entre si para ver quem tem mais likes. Ganha a mãe, com uma foto em que apanhou a filha a comer de boca aberta, veio um comentário de uma tia a dizer que linda que ela está. A miúda reclama, vocês estão todos divertidos, a tirar fotografias à comida e a pôr no Facebook e eu não posso fazer nada. A mãe mete a mão na carteira e tira um ipad mini, que logo provoca um sorriso de orelha a orelha na filha, quando saí ainda ficaram naquele negócio de caras e coisas e eu francamente confuso.
Não me lembro bem do jornal britânico em que vi um cartoon de uma sala grande de restaurante com toda a gente a fotografar a comida em vez de comer. Em primeiro plano estava um casal de meia idade de mão na mão sem telefone nem máquina fotográfica por perto. E está o empregado a perguntar-lhes: “Os senhores não estão a fotografar a comida, não estão a gostar?” Pois é. O mundo está mesmo diferente.
A “minha” Vinalda

A distribuidora Vinalda fez agora 70 anos. Um número bonito, redondo, que evidentemente merece todos os encómios e os mais calorosos parabéns. Um número que é um marco assinalável, sobretudo num sector tão volátil e sujeito a tantos ciclos económicos como é o mercado de vinhos e das bebidas alcoólicas em geral. PARA mim, contudo, […]
A distribuidora Vinalda fez agora 70 anos. Um número bonito, redondo, que evidentemente merece todos os encómios e os mais calorosos parabéns. Um número que é um marco assinalável, sobretudo num sector tão volátil e sujeito a tantos ciclos económicos como é o mercado de vinhos e das bebidas alcoólicas em geral.
PARA mim, contudo, e enquanto consumidor, a Vinalda está longe de ter essa provecta idade e terá apenas nascido lá para os finais dos anos 80 do século passado, sendo que só passamos a “privar” mais de perto em meados da década de 90.
É aí que a história da Vinalda se começa a cruzar com a minha aprendizagem pessoal do mundo dos vinhos. Esta não foi uma história linear e coerente. Foi feita de descobertas esparsas e muitas vezes ocasionais, sem método nem propósito. Na aldeia de província onde cresci e vivi os primeiros anos da vida adulta as novidades chegavam devagar e filtradas por uma espessa cortina de circunstâncias em que a distância, os parcos recursos económicos e a falta de informação dificultavam o conhecimento mas ao mesmo tempo tudo envolviam numa névoa misteriosa e inegavelmente sedutora.
Foi esse o tempo em que comecei a coleccionar o “Jornal dos Vinhos”, suplemento de um semanário de referência, como agora se diz, em que prontificavam nomes como José António Salvador e João Paulo Martins, na altura personagens sem rosto mas de experiências e saberes fascinantes. As descrições dos jantares vínicos que a publicação então promovia enchia a minha memória de nomes e marcas que tentava, na medida do possível, conhecer. A Vinalda surge aí, um vocábulo estranho e que rapidamente aprendi incontornável nessa demanda. Onde compro um Palácio da Brejoeira, o primeiro e durante muitos anos o único dos Alvarinhos que provei? Como chego a esses fabulosos Quinta do Carmo de Alicante Bouschet de que dizem maravilhas? Quem afinal tem o Quinta do Côtto Grande Escolha, o vinho que prometia resistir ao tempo e que desafiava os sentidos? Porque é difícil encontrar os Quintas de Pancas de que toda a gente fala? Que tem de especial esse Marquês de Borba que acabou de irromper sem aviso mas com estrondo suficiente para estar nas bocas do mundo? E o Porto LBV da Taylor’s – o Vintage era então uma miragem longínqua – como lhe posso por a vista em cima?
Não foi uma relação sempre pacífica, devo dizer. Os vinhos, sobretudo os vinhos de quem toda a gente falava e que todos procuravam, eram muitas vezes colocados a conta-gotas no mercado e as lojas rateavam, garrafa a garrafa, os preciosos néctares. “A Vinalda só me entregou uma caixa”, “só lá para o fim do ano voltam a distribuir esse vinho”, “e provavelmente virá com novo preço”, tantas vezes ouvi respostas semelhantes em lojas de vinhos que cheguei a pensar que haveria alguma intenção maquiavélica de fazer sofrer os consumidores. Para mim, que nada percebia de estratégias de marketing e conceitos como a construção de marca, tudo aquilo era estranho e frustrante.
Foi bastante mais tarde, já trabalhava no meio, que descobri que por detrás da Vinalda estava um rosto e um nome: José Casais. Um self made man, que deu corpo e consistência a esta empresa, que a moldou de tal forma que a sua história pessoal se confunde com aquela. É uma figura singular que evidencia uma forte determinação, um enorme conhecimento do mercado e do consumidor, uma dureza negocial acutilante, aliada a um trato pessoal encantador. É daquelas personagens que nos deliciam com uma conversa sem fim à vista com o desfilar de muitas histórias e episódios de uma vida cheia e de outros tempos. Mas é sobretudo, e é justo que isso se diga isso neste momento em que a Vinalda vive uma nova fase e ele se afastou da gestão, uma das pessoas a que os vinhos portugueses mais devem.
Distribuidor é uma palavra muito pobre, é um conceito bastante redutor, para definir o que José Casais fez nos anos que esteve à frente da Vinalda. Ele foi um verdadeiro construtor de marcas, foi o porto seguro e a tábua de salvação de muitos projectos vínicos que são hoje sucessos assinaláveis. Não é possível revisitar a história do vinho português nas últimas décadas sem ter presente o papel da Vinalda de José Casais na criação de um mercado de vinhos moderno e maduro.
Foi por isso bonito ver num recente jantar de comemoração dos 70 anos da Vinalda a homenagem que a actual gestão da empresa lhe prestou e onde recordou os principais marcos da sua história. Mas foi anda mais marcante ver como se quiseram associar à homenagem não só empresas e marcas que fazem parte do portefólio da casa mas muitas outras que entretanto os acasos da vida e dos negócios levaram por outros caminhos e que no entanto ali estavam, naquele momento simbólico, a reconhecer o óbvio. Que haverá poucas pessoas a quem o epíteto de “Senhor do Vinho” se encaixe melhor do que a José Casais. Como consumidor, também lhe devo o meu quinhão de agradecimento.
Número 1

GOSTO deste algarismo e dos seus múltiplos significados. Pode querer dizer o primeiro, no sentido qualitativo do termo, mas também início e único. Acredito que todos eles se aplicam à revista que agora apresentamos. VINHO Grandes Escolhas, é o seu nome. Fundei a Revista de Vinhos em Dezembro de 1989 e coube-me conduzir os seus […]
GOSTO deste algarismo e dos seus múltiplos significados. Pode querer dizer o primeiro, no sentido qualitativo do termo, mas também início e único. Acredito que todos eles se aplicam à revista que agora apresentamos. VINHO Grandes Escolhas, é o seu nome.
Fundei a Revista de Vinhos em Dezembro de 1989 e coube-me conduzir os seus destinos desde a primeira edição até Março passado. Foram 328 meses, mais de 27 anos. Acompanhar de muito perto a enorme evolução do vinho português ao longo de quase três décadas foi um privilégio para mim e para a equipa que ao longo dos anos se foi juntando ao projecto. Acredito que demos o nosso pequeno contributo para que o Vinho de Portugal seja o que é hoje. E sei também que nunca teríamos chegado onde chegámos sem o inequívoco apoio e confiança de todos vós, leitores, profissionais da fileira do vinho e da gastronomia, colegas jornalistas e enófilos em geral. Deixo aqui o meu sentido agradecimento a todos.
Essa página de história foi virada e fechada com um misto de mágoa e orgulho. Inicia-se agora uma outra etapa, na qual nos empenhamos com forças renovadas e ambiciosos objectivos. VINHO Grandes Escolhas é uma revista mensal, dedicada sobretudo à temática do vinho, como é óbvio, mas sem esquecer o turismo, a gastronomia, a cultura e outros prazeres da vida. Estamos apostados em informar, divulgar, opinar, avaliar, com a isenção, independência, rigor e profissionalismo que sempre nos regeram. Vamos fazer mais, fazer melhor mas, também, fazer diferente. A equipa editorial desta publicação, com um capital de experiência e conhecimentos que, sem falsa modéstia, classifico como únicos, está a ser enriquecida e renovada com colaboradores que nos trazem outras perspectivas e abrem novos horizontes. Em conjunto, queremos transmitir a nossa paixão àqueles que agora se iniciam neste mundo do vinho, utilizando para tal as ferramentas e linguagens à nossa disposição. Desse modo, a vertente digital e social media, bem como a área de formação (a ACADEMIA Grandes Escolhas), vão ser objecto de forte desenvolvimento através de importantes parcerias estratégicas.
Vamos fazer mais, fazer melhor mas, também, fazer diferente. Estamos mais motivados do que nunca.
Os eventos de vinho e gastronomia com o nosso selo de qualidade, e aos quais empresas e visitantes se fidelizaram, continuarão a realizar-se por todo o país. De entre os muitos já agendados (cujas datas e locais poderá conferir nesta revista) não posso deixar de destacar o maior evento do sector, o Grandes Escolhas | Vinhos&Sabores, que terá lugar em Lisboa na FIL (Parque das Nações) de 27 a 30 de Outubro de 2017. Será certamente um momento inolvidável e marcante para todos os apreciadores.
Falando por esta fantástica equipa editorial e de eventos, com a qual me orgulho de trabalhar, quero dizer-lhes que estamos mais motivados do que nunca. Contem connosco para levar a singularidade e a excelência do Vinho de Portugal a um número crescente de apreciadores, dentro e fora do País. E nós contamos com o que nunca nos faltou: o vosso apoio e confiança.