ADEGAS COOPERATIVAS: Tintos de topo em ascensão

Adegas Cooperativas

Cooperar é uma boa ideia. Mesmo os biólogos, seguindo as ideias de Darwin sobre a selecção natural e a competição, com o propósito de perpetuar os próprios genes, não deixam de enfatizar que muitas espécies passam 1% do seu tempo nessa competição, enquanto os outros 99% servem para assegurar colectivamente a segurança e o alimento […]

Cooperar é uma boa ideia. Mesmo os biólogos, seguindo as ideias de Darwin sobre a selecção natural e a competição, com o propósito de perpetuar os próprios genes, não deixam de enfatizar que muitas espécies passam 1% do seu tempo nessa competição, enquanto os outros 99% servem para assegurar colectivamente a segurança e o alimento do grupo. Cooperar significa que o grupo no seu conjunto é mais forte do que os seus indivíduos separados ou somados. Significa que em conjunto se podem assegurar recursos que podem ser usados pelo grupo, mas que cada um dos membros dificilmente conseguiria adquirir sozinho. Um exemplo simples: uma linha de engarrafamento privada só se justifica para um produtor que faça pelo menos 300 000 garrafas de vinho anualmente. Verifique na caixa abaixo a dimensão média dos viticultores, para perceber que esse é um número muito longínquo.

Desde sempre, os grupos cooperaram. Cooperar não é uma ideia de esquerda nem de direita. É apenas uma boa ideia. Uma ideia inevitável. No mundo do vinho, a primeira cooperativa registada é a Adega Regional de Colares, fundada em 1931. Em Colares, a ideia foi mais além do que unir forças, embora a especificidade do sítio bem o exigisse. Micro-terroirs e nano-produções tornavam imperativa a cooperação. Ninguém consegue fazer vinho de forma competente a partir de 15 quilos de uvas, e ainda hoje, passados quase 100 anos, é essa a quantidade que alguns produtores entregam. A adega teve, com base na lei, o direito a recolher toda a produção da DOC (antes de se designar DOC) e o dever de assegurar todas as obrigações ligadas à manutenção dos cânones ancestrais: Ramisco/Malvasia, pé-franco, chão de areia. Só assim os vinhos de Colares sobreviveram até ao presente, quando, a pouco e pouco, voltam a estar na moda, ao mesmo tempo que a sua qualidade, apoiada pela competência e sabedoria que a adega soube manter, vai melhorando a olhos vistos.

Porém, nem todas as cooperativas desempenharam este papel. Muitas outras, espalhadas por grande parte do país vitícola, foram fundadas na década de 1950. Eu mesmo, diga-se de passagem, nasci em frente a uma adega cooperativa, a das Cortes (Leiria), e lembro-me bem de ficar à janela a ver chegar as uvas, ou de acompanhar os trabalhos de recepção, há muitos, muitos anos. Entretanto, fechou e já foi demolida. Fechou, porque, à semelhança de outras cooperativas, entraram em crise. À medida que o mundo português do vinho se modernizava e melhorava em todos os capítulos, muitas adegas foram ficando para trás. Cada uma terá a sua história, no entanto acredito que a tentação dos proprietários de vinhas desenvolverem as suas próprias marcas tirou muitas uvas de qualidade das adegas. Alguns dos cooperantes passaram a guardar as melhores uvas, escoando o resto da produção para a cooperativa. Com as piores massas vínicas à disposição, e com maiores dificuldades de gestão e competição na contratação de pessoal qualificado, fazer bons vinhos tornou-se uma missão mais árdua.

 

Muitas vezes, são vinhos de excelente relação qualidade/preço, perfeitos para pedir num restaurante

 

Entrada em cena

A boa ideia continuou boa e algumas adegas mantiveram a chama acesa. Muitas cooperativas estão, agora, a festejar o 75º aniversário, uma idade bem bonita. Recordemos o Baron Philippe de Rothschild, o único que conseguiu promover um château da classificação de 1855 de deuxième cru para premier cru, com o seu Mouton-Rothschild, promovido em 1973 (aliás, péssima colheita, mas muito procurada, graças ao rótulo do Picasso); ele disse: “o mais difícil são os primeiros 100 anos.” As cooperativas estão a chegar lá. Portanto, está na altura de estar sob a ribalta.

Em palco, estiveram algumas das melhores. Quem segue os prémios anuais da Revista Grandes Escolhas sabe bem quais são. Participei muitas vezes nas reuniões onde esses prémios eram decididos e sei bem que a escolha rodeava, na maioria das vezes, as mesmas candidatas. Contudo, há alguns anos, o cenário mudou. Começaram a aparecer outras cooperativas a trabalhar muito bem e a entregar vinhos de grande qualidade, em todos os segmentos de preço. Os prémios começaram a diversificar. E ainda bem.

Exemplo das primeiras? A Adega Cooperativa de Borba, constantemente na vanguarda. Segundo Óscar Gato, administrador responsável pela enologia, poderiam ter enviado qualquer um de seis vinhos para esta prova de tintos topos de gama. Exemplo das segundas: Adega Cooperativa de São Mamede da Ventosa. Trata-se do maior produtor de vinho do país, com cerca de 20 milhões de litros anuais, e que continua a focar-se no granel. Todavia, desde 2022, sob a batuta da direcção de Nuno Silva, transformou-se. Já vende cinco milhões de litros embalados e tem planos para aumentar a quota. Além disso, a enologia de António Ventura assegura a qualidade de topo, com vinhos ambiciosos e bem definidos.

Esta prova que concebi e executei tem um pressuposto que pretendi demonstrar. Não vamos tapar o sol com a peneira, pois estas adegas mantêm o estigma: se é de cooperativa, o vinho não pode ser bom. Mas urge ultrapassá-lo. Ora, sempre vi qualidade em crescendo nos vinhos produzidos nestas cooperativas, em particular nos seus topos de gama, graças, também, ao facto de terem uma quantidade enorme de massas vínicas à disposição. Muitas vezes, são vinhos de excelente relação qualidade/preço, perfeitos para pedir num restaurante, onde o markup nos afasta dos rótulos da moda. Sejamos nós consumidores a definir o rumo do mercado.

Números

A dimensão das cooperativas em número de associados activos e total de hectares de vinha controlados:

Adega Regional de Colares:12 associados • 14 hectares

Adega Cooperativa de Borba: 220 associados • 2200 hectares

Adega Cooperativa de Cantanhede: 600 associados • 1000 hectares

Adega Cooperativa do Cartaxo: 160 associados • 820 hectares

Adega Cooperativa de Dois Portos: 100 associados • 420 hectares

Adega Cooperativa de Mangualde: 240 associados • 270 hectares

Adega Cooperativa de Penalva do Castelo: 1000 associados • 1200 hectares

Adega Cooperativa de Santo Isidro de Pegões: 100 associados • 1000 hectares

Adega Cooperativa de São Mamede da Ventosa: 400 associados • 1800 hectares

Adega Cooperativa de Silgueiros: 500 associados • 600 hectares

Adega Cooperativa da Vidigueira, Cuba e Alvito: 236 associados • 1200 hectares

CARMIM: 400 associados • 3000 hectares

 

(Artigo publicado na edição de Setembro de 2026)

MÉDICOS PRODUTORES – Operação cirúrgica: vinha e vinho

Médicos

Há semelhanças a apontar entre a medicina e a produção de vinho? É possível conciliar a prática clínica com os ciclos da vinha? Em que medida o dia a dia de um médico influencia a forma como trata as suas uvas? Quão similar é o cuidado que põe em prática no âmbito da sua especialidade […]

Há semelhanças a apontar entre a medicina e a produção de vinho? É possível conciliar a prática clínica com os ciclos da vinha? Em que medida o dia a dia de um médico influencia a forma como trata as suas uvas? Quão similar é o cuidado que põe em prática no âmbito da sua especialidade e o trabalho efetuado na adega? É um negócio autossustentável? Estas e outras perguntas foram feitas a médicos que complementam a prática clínica com a atividade vitivinícola. Outros há que se entregaram inteiramente à vinha e à produção vínica.

Entre as respostas, a capacidade de observação e o rigor são palavras-chave, para poder atuar com consistência e consciência na vinha. Acresce a higienização, tema preponderante no contexto da adega, e o fator tempo, primordial face à melhoria de um paciente e, por outro lado, à gestão da vinha, indissociável aos contratempos associados ao clima e aos ciclos da natureza, bem como, e como não poderia deixar de ser, à evolução do vinho.

No entanto, há quem se afaste da postura de médico, para encarar com serenidade as contradições intrínsecas à de um produtor, seja a viticultura a sequência de um legado traduzido numa ode aos antepassados, seja o resultado de uma paixão despertada e transformada em realidade.

Vamos conhecer António José Rodrigues, da Quinta do Mascanho (Vinhos Verdes), Jorge Tenreiro, da Quinta do Cume (Douro), António Canto Moniz, da Quinta da Leira (Dão), Manuela Carmona, da Adega 23 (Beira Interior), Lúcia e Américo Ferraz, da Souvall (Beira Interior), José Madeira Afonso, do projeto Casas Altas (Beira Interior), e Nuno Monteiro Pereira, da Quinta do Cerrado da Porta (Lisboa).

 

António José Rodrigues

Médico de ortopedia e produtor-engarrafador

Alvarinho é a casta eleita em exclusivo pela Ceivinhas, a sociedade vitivinícola familiar de António José Rodrigues, cuja especialidade em ortopedia foi exercida em regime de exclusividade no Serviço Público. A casta ocupa quatro hectares de vinha distribuídos por duas propriedades. Uma está localizada no lugar da Valinha, na freguesia de Ceivães, concelho de Monção, e a outra no lugar de Mascanho, freguesia de Vila e Roussas, no concelho de Melgaço. “80% das parcelas sempre pertenceram à família, tendo sido uma pequena parte, entretanto, adquirida” e “os vinhos são comercializados sob a marca Quinta do Mascanho”.

A cultura da vinha e do vinho é a atividade complementar à carreira de médico de António José Rodrigues, desde 1994. O ano coincide com o término da formação da especialidade e o regresso ao meio rural, às origens. Com esta mudança, adquire casa de família no lugar da Valinha, onde reside, e terrenos de produção de cereais e vinhas. “Com incentivo financeiro existente para reconversão de vinhas, foi efetuado o projeto de plantação de acordo com as boas práticas”, dando continuidade ao cultivo da vinha, “que vem das gerações anteriores, devidamente adaptado aos novos tempos”, explica. A comercialização dos vinhos começou em 1997 e, em 2015, acrescenta o espumante feito a partir da casta Alvarinho ao portefólio vínico Quinta do Mascanho.

 

“Ser médico é cuidar da vida. Ser produtor de vinho é cuidar da terra”

 

 

“Ser médico é cuidar da vida. Ser produtor de vinho é cuidar da terra.” Ambas as missões permitem o encontro do “equilíbrio entre a ciência e a tradição, entre o rigor da medicina e a arte da vitivinicultura”. E acrescenta: “produzir vinho é muito mais do que elaborar uma bebida. É preservar uma herança, valorizar o território e criar momentos de partilha à volta de uma mesa.” É, no fundo, uma enorme paixão de António José Rodrigues.

Paralelamente, o ortopedista e produtor de vinho faz a analogia do reconhecimento atribuído pelos pacientes no que às cirurgias e aos tratamentos efetuados diz respeito com a qualidade dos vinhos que produz. E o tempo é factor preponderante nas duas profissões, ou não fosse este primordial na melhoria dos pacientes e, por outro lado, necessário para o afinamento dos vinhos. “A produção do vinho é autossustentável. Evidentemente que só por si os proveitos não seriam dignos para viver”, remata.

 

Jorge Tenreiro

Cirurgião vascular e produtor de vinho

Da juventude, recorda o gosto pelo mundo rural, em particular pela vinha e pelas pessoas do Douro, das férias passadas numa propriedade familiar da referida região vinhateira, cuja venda deixou saudades. Anos mais tarde, concretizou o sonho de adquirir uma propriedade duriense, com cerca de três hectares, localizada no cume de Provesende, freguesia pertencente ao concelho de Sabrosa, “um terreno que muitos consideravam improvável para produzir grandes vinhos”. Um desafio, que, com o apoio da mulher, Claudia Cudell, deu início à Quinta do Cume, no final da década de 90 do século passado.

Com a passagem do tempo, adquire parcelas vizinhas, privilegiando sempre as vinhas em altitude e com diferentes exposições. Objectivo? “Construir um património vitícola diversificado e representativo do Douro”, esclarece. Atualmente, a área total da propriedade é de 25 hectares, dos quais 15 são de vinha. Rabigato, Gouveio, Viosinho e Malvasia Fina são as castas brancas em destaque. Estão plantadas em maior altitude, factor que proporciona “excelentes condições para produzir vinhos de grande frescura, precisão e longevidade”, descreve Jorge Tenreiro. Nas cotas mais baixas, estão as tintas, com especial evidência para Touriga Franca, Touriga Nacional, Tinta Roriz e Alicante Bouschet, pois é aí que “expressam muito bem a identidade do Douro elegante, quando trabalhadas com equilíbrio”, acrescenta.

A Quinta do Cume “é um projeto economicamente sustentável”, graças ao investimento efetuado no princípio, “muito antes de existirem resultados”. A par com paciência, persistência e visão de futuro, conta, desde sempre, com Claudia Cudell, responsável pela área comercial e “pela notoriedade que a Quinta do Cume tem vindo a ganhar, tanto no mercado nacional, como no internacional”.

 

“A medicina permite-me cuidar das pessoas. O vinho permite-me criar algo que reúne pessoas à mesa”

 

 

No entanto, a medicina permanece como a profissão principal, sendo a produção de vinho um complemento da realização pessoal de Jorge Tenreiro. Apesar das “devidas diferenças, há uma enorme responsabilidade”, avança, pois “tanto um doente como uma vinha dependem de escolhas feitas no momento certo”. Organização e uma equipa competente são vetores cruciais a considerar em ambos os casos. Afinal, “a vinha exige acompanhamento permanente, mas também exige o estímulo e a confiança nas pessoas que trabalham diariamente no terreno”, afirma Jorge Tenreiro, que faz questão de marcar presença nas vindimas, “mas o sucesso resulta sempre de um trabalho coletivo”, enaltece.

Persistência, disciplina, rigor e capacidade de observação são os princípios apreendidos no âmbito da medicina e aplicados na viticultura. “Na vinha, tal como na medicina, muitas vezes, a melhor intervenção consiste apenas em acompanhar atentamente a evolução natural e intervir quando é realmente necessário”, elucida. Na cirurgia vascular, tal como na adega, “a precisão faz toda a diferença”. Neste contexto, Jorge Tenreiro refere “o momento da colheita, a temperatura da fermentação, o tempo de estágio ou a seleção dos lotes”. Aliás, o tempo é determinante, seja na melhoria de um doente, seja na evolução de um vinho, assim como o acompanhamento e o ato de proporcionar as “condições certas, para atingir o seu melhor potencial”, embora no caso do paciente, a recuperação seja idealmente atingida o mais rapidamente possível, enquanto no vinho a evolução é lenta, quando se pretende que ganhe complexidade ao longo dos anos.

Em suma, “a medicina permite-me cuidar das pessoas. O vinho permite-me criar algo que reúne pessoas à mesa, celebra momentos especiais e transmite a identidade de um território. São formas diferentes de contribuir para a qualidade de vida”.

 

António Canto Moniz

Médico cirurgião oncológico e produtor de vinho

Quinta da Leira é o nome da propriedade de António Canto Moniz. Está localizada na freguesia de São João de Lourosa e estende-se para Silgueiros, no concelho de Viseu, pertencente ao território vinhateiro do Dão. A área total de vinha, com exposição norte-nascente, ronda os dez hectares. Aqui, prevalecem as castas tradicionais. “Touriga Nacional, Alfrocheiro Preto e Jaen, que são as três castas clássicas do Dão, e Tinta Roriz”, afirma. Nas brancas, constam a Encruzado, a Malvasia Fina e a Gouveio.

“A designação Quinta da Leira já é muito antiga. Vem do tempo do meu trisavô, um senhor que também se dedicou à vinha e a fazer vinho”, descreve António Canto Moniz, que refere a cultura da vinha e do vinho como dominante no passado, na região. No seguimento da história da família, a propriedade passa para o avô, Silvério Abranches, deputado na I República e o primeiro presidente eleito da Federação dos Viticultores do Dão, e, mais tarde, para a mãe, Maria da Paz Othon. Porém, é o pai de António Canto Moniz, igualmente médico cirurgião e com o mesmo nome, quem continua o legado da vinha e do vinho, tendo assumido ainda a função de presidente de uma adega cooperativa. “O meu pai fazia vinho cientificamente. Tinha tudo na adega para calcular a acidez, para calcular tudo. Apesar de não ser um analista, estudou o assunto. Aprendi a fazer vinho com o meu pai”, revela. Por conseguinte, “a história de eu, como médico, fazer vinho, é muito simples: segui a tradição dos donos das terras, que, ou continuavam ou as vendiam”, afirma. “Conheci muitos médicos filhos de antigos agricultores, porque havia uma certa tradição nos agricultores ter um filho médico, doutor. Isto no século XX”, afiança. Portanto, “ser médico e fazer vinho é mais uma relação do que se herda”, resume, assumindo que “não há relação entre medicina e entre ser vinhateiro. Tenho amor à terra, à tradição”.

Quando António Canto Moniz passa a tomar conta da Quinta da Leira, preserva a venda a granel, pois “era mais simples do que o engarrafar”. Contudo, houve quem convencesse o médico cirurgião oncológico a dispor o vinho em garrafa. Miguel Viegas Louro, proprietário da Quinta do Mouro e produtor de vinho, em Estremoz, “foi um dos que me convenceu a fazer vinho” em nome próprio “e começamos a usar barricas, que não se usavam no Dão”. Com este passo, em 2002 surge o primeiro Vinha Paz, em homenagem à mãe do produtor – o rótulo Vinha Othon está igualmente neste alinhamento.

 

“Fazer vinho não é muito difícil. É preciso ter boas cepas no local certo e isso já as tinha eu”

 

Contudo, a carreira de cirurgião oncológico permanece como atividade principal de António Canto Moniz, um dos fundadores do IPO do Porto e, posteriormente, médico do Hospital da Prelada, no Porto. “Como médico trabalhava 12 horas por dia e ainda tinha funções associativas na direção da Ordem dos Médicos, e o governo requisitava-me para entidade reguladora da saúde.” Como tinha tempo para tudo isto? “Ao fim de semana lá ia eu para Viseu, mas a cultura do vinho não era tão difícil. Hoje, sim, porque há falta de pessoal, e como não utilizamos herbicidas, mais complicado é. Mas quando se quer, consegue-se.” Além disso, “fazer vinho não é muito difícil. É preciso ter boas cepas no local certo e isso já as tinha eu”, sublinha.

No alinhamento da passagem de testemunho entre gerações, numa sociedade constituída com os filhos, a meio da primeira década do século XXI, entrega a pasta a Henrique Canto Moniz, que “há, mais ou menos, 15 anos passou a tomar conta do negócio”, isto é, assume o cargo de gerente. “Agora, é o meu filho que trata de tudo”, contando com o apoio de João Paulo Gouveia, na viticultura, e de Carlos Silva, na enologia. É ainda responsável pela exportação para a América, Suíça, Bélgica, Noruega, países nomeados por António Canto Moniz, que considera o negócio do vinho autossustentável, “na medida em que dá emprego ao meu filho e concretiza dinheiro que se reinveste na vinha”.

Em suma, ser produtor de vinho tem a ver com “uma certa devoção à minha infância”, declara António Canto Moniz, recordando-se que em setembro, ia para a quinta, por ser a época das colheitas. “E na altura da vindima também, enquanto o mês de agosto era passado na praia. Lembro-me do meu pai fazer a vindima em outubro. Eu também fiz vindima em outubro, mas agora é tudo muito mais precoce.” Nas palavras do médico cirurgião oncológico, esta mudança deve-se às alterações climáticas. E face à atual crise no vinho? “Nós cá vamos aguentando.”

 

Manuela Carmona

Médica oftalmologista e produtora de vinho

A proximidade de uma autoestrada, a A23 é o mote para o nome da casa produtora de vinhos de Manuela Carmona, a Adega 23. Está localizada no limite dos concelhos de Castelo Branco e de Vila Velha de Ródão, e a inauguração acontece em 2018. Mas a ligação à região vitivinícola da Beira Interior remonta ao seu nascimento, sendo Manuela Carmona natural de Castelo Branco, onde viveu até concluir o liceu. Apesar da formação em medicina acontecer em Lisboa, com os anos acaba por conquistar uma relação permanente com as suas origens, mediante as quais o vinho é feito apenas para consumo próprio.

Portanto, a paixão pela cultura do vinho surge anos mais tarde, após ter recebido Le Grand Larousse du Vin. Com tempo e dedicação, o gosto por este produto evoluiu para o desenvolvimento do projeto Adega 23, em 2013. Em 2015, são plantadas as primeiras vinhas e, dois anos depois, são lançadas as primeiras colheitas. Inicialmente, o negócio do vinho teve a medicina como pilar no contexto financeiro. “Hoje, está equilibrado e autossustentavel”, assegura.

 

“Provar os vinhos das cubas e analisar a sua evolução é um fantástico exercício para estimular os sentidos e a memória”

 

“É como viver intensamente várias vidas numa só. Uma forma de descansar de uma profissão com uma atividade diferente. É salutar e refrescante”, começa por explicar Manuela Carmona a forma como vivencia os dois mundos, o da medicina com o do vinho. Ainda a respeito deste último, faz questão de salientar a eficácia desta cultura: “andar no campo pelo meio da vinha, aceitar a natureza e o seu tempo é retemperador. Provar os vinhos das cubas e analisar a sua evolução é um fantástico exercício para estimular os sentidos e a memória.”

Para a médica oftalmologista, tanto a medicina como a vitivinicultura “existem a pensar nas pessoas”. A primeira incita “a resolver problemas, encontrar soluções e decidir rapidamente, e, muitas vezes, sob pressão”, argumenta, acrescentando a viabilidade dessa aprendizagem, a qual lhe permite encarar os problemas na vinha e na adega. De uma forma geral, “são duas áreas desafiantes”, na medida em que exigem rigor e atenção a cada pormenor. Contudo, “não há dois doentes iguais nem duas vindimas iguais”, o que obriga Manuela Carmona a conviver com a imprevisibilidade e a diversidade.

Por outro lado, enquanto médica, destaca o rigor, a segurança e a rapidez face a cada diagnóstico, destacando o valor da saúde, pois “o erro tem consequências” e a perda “pode ser devastadora”. Este comportamento repete-se frente aos imprevistos na vinha e na adega, mas Manuela Carmona prefere encarar estas contrariedades de forma serena.

O desvelo na adega é comparável com o que põe em prática no âmbito da especialidade, em particular no bloco operatório. Organização, rigor e higiene estão no topo da lista das exigências estabelecidas em ambos os casos, pois “a saúde depende muito do que fazemos – alimentação, estilo de vida, hábitos”. Por conseguinte, o trabalho de campo é proporcionalmente primordial para a qualidade do vinho, ou não fossem necessários ter “vinha saudável, boas uvas, vindima manual e no momento certo”.

Em jeito de conclusão, Manuela Carmona fala sobre o papel do vinho em várias áreas, ao longo de milénios, bem como na atualidade: “na medicina foi desinfetante, anestésico, analgésico, anti depressivo. Na oftalmologia , as propriedades antioxidantes recomendam-no para prevenir o envelhecimento da retina.”

 

José Madeira Afonso

Médico radiologista e produtor de vinho

Casas Altas é nome indissociável a José Madeira Afonso. Natural de Coimbra, passa muitas das férias de verão ao Souropires, no concelho e sub-região de Pinhel, distrito da Guarda, pertencente ao território vinhateiro da Beira Interior, onde mantém a casa de família, onde, em tempos idos, viveu a avó materna, e as propriedades da família.

A formação em medicina ocorre na cidade natal e em Lisboa, mas primeiramente estudou na Escola de Regentes Agrícolas de Coimbra e de Santarém. Com o canudo na mão, vive e exerce medicina na Noruega, tendo sido a Escandinávia o ponto de partida para o gosto pelo vinho. O primeiro vinho produzido data de 1994; é feito a partir de uvas vindimadas na propriedade da família, então na posse do pai.

 

A sustentabilidade financeira do negócio do vinho é visto “com muita dificuldade. A jardinagem é um luxo que não sei se será possível sustentar”

 

 

Dos solos graníticos e às grandes amplitudes térmicas, José Madeira Afonso tira os proveitos, para dar primazia às castas regionais – Fonte Cal, Síria, Verdelho e Malvasia, nas brancas; Rufete, Baga e Touriga Nacional, nas tintas –, pois estão mais adaptadas e “são as que dão menos problema”. A estas, junta variedades d’além-fronteiras: Chardonnay e Riesling. Ainda acerca da vitivinicultura, não considera esta missão um complemento ou uma alternativa à medicina. “É, antes, a procura do ‘paraíso’ na terra, criando o local paradisíaco, as vinhas” e “uma fuga ao quotidiano”. Finda a atividade médica há cerca de cinco anos, a vitivinicultura passa a ser uma missão “a tempo inteiro”, tarefa apaixonante, com destaque para a origem das uvas, o estado de maturação, o processo de fermentação, entre outras etapas de cada processo na vinha e na adega. No entanto, “na vinha e na adega não sou médico, sou viticultor”, embora haja necessidade de “diagnosticar os problemas ou doenças em tempo útil, e tratar de forma adequada, sobretudo sem causar mais mal”, afirma. E tal como na medicina, “a adega também exige calma, reflexão e muita higiene”. Quanto à evolução de um vinho, “é preciso ter condições” para melhorar com o tempo.

Porém, a sustentabilidade financeira do negócio do vinho é visto “com muita dificuldade. A jardinagem é um luxo que não sei se será possível sustentar. Claro, que este problema não é só dos médicos”, remata.

 

Lúcia e Américo Ferraz

Médicos dentistas e produtores de vinho

A história começa com Álvaro Ferraz e Maria Fernanda Ferraz, pais de Américo Ferraz, e as suas vinhas em Vale Flor, na União das Freguesias de Vale Flor, Carvalhal e Pai Penela, concelho de Mêda, distrito da Guarda e integradas na região vitivinícola da Beira Interior. Esta profunda ligação à terra, à vinha e ao vinho é “familiar, emocional e identitária” e “representa uma herança feita de terra, trabalho, memórias e valores”, descreve Lúcia Ferraz. Por outro lado, “a produção de vinho é uma atividade real, exigente e com responsabilidades muito concretas”.

Com precisão, dedicação, responsabilidade e atenção ao detalhe, o casal Lúcia e Américo Ferraz decide “dar uma nova dimensão a essa herança” através da construção de uma adega moderna e da criação das condições necessárias, para desenvolver um projeto vitivinícola centrado na produção de vinhos “com maior rigor, consistência e identidade”.

Porém, a medicina dentária permanece no epicentro da atividade profissional de ambos: “não se tratou de abandonar a medicina dentária, mas de fazer coexistir duas vocações: cuidar de pessoas e cuidar de um património familiar e agrícola.” Mesmo assim, Lúcia Ferraz anuncia a existência de mais semelhanças entre ambas as profissões, com a condição de “observar, interpretar, prevenir e intervir no momento certo”. Isto é, “um médico não pode olhar apenas para um sintoma isolado; tem de compreender a pessoa no seu todo”. Na vinha, também é fundamental conhecer o todo: “o solo, o clima, a exposição solar, o comportamento de cada casta e a evolução de cada parcela ao longo do ciclo vegetativo.” Lúcia Ferraz enfatiza o conhecimento científico, a experiência e a capacidade de decisão como fatores comuns às duas missões do casal, mas impera sempre o respeito pelo tempo: “podemos acompanhar, orientar e criar melhores condições, mas temos de respeitar os seus ritmos.”

Conciliar a medicina com os ciclos da vinha é tarefa que carece de “planeamento e uma equipa de confiança”. Afinal, as fases de trabalho na vinha não podem ser adiadas, exigindo disponibilidade no momento da poda, dos tratamentos, do controlo do desenvolvimento vegetativo e da vindima, “pelo que procuramos antecipar cada fase do calendário vitivinícola e acompanhar de perto as decisões mais importantes”, informa Lúcia Ferraz. Para o efeito, são distribuídas responsabilidades, mantida a comunicação com a equipa e feito o acompanhamento da evolução de cada etapa. O mesmo se aplica na medicina dentária no que há disponibilidade diz respeito. Como complemento, Lúcia e Américo Ferraz implementaram a necessidade de observar, fazer uma leitura minuciosa das causas e apostar na prevenção. “Tal como na saúde, prevenir é, geralmente, mais eficaz do que tentar corrigir um problema numa fase avançada”, justifica a médica dentista, daí que cada casta seja tratada de forma diferente e se procure compreender as necessidades de cada parcela. Em contrapartida, “prática clínica exige concentração permanente, decisões rápidas e uma grande responsabilidade perante cada pessoa”; enquanto a vinha ensina a esperar em função do ritmo das estações. “Esse contacto com a terra ajuda-nos a recuperar energia e a relativizar algumas das tensões do quotidiano clínico”, resume, embora haja uma constante incerteza em relação ao clima, à mão de obra e às decisões de investimento inerentes à atividade agrícola.

 

“Tal como na saúde, prevenir é, geralmente, mais eficaz do que tentar corrigir um problema numa fase avançada”

 

Na adega, e à semelhança do desempenho profissional do casal, “trabalhamos frequentemente à escala do milímetro. A precisão, a higiene, o controlo dos procedimentos e a escolha dos materiais são determinantes para o resultado final”. Além de que, a qualidade do vinho depende, para Lúcia Ferraz, da prática estabelecida no momento da vindima e do procedimento na adega. “Um pequeno desvio numa destas fases pode alterar significativamente o resultado”, destaca. Sem descurar a estética comum às duas práticas: “na medicina dentária procuramos aliar saúde, função e harmonia; no vinho procuramos equilíbrio, autenticidade e prazer sensorial.”

Sobre a sustentabilidade financeira, Lúcia Ferraz afirma que o projeto “ainda não atingiu plenamente esse objetivo”, pois depende da atividade na medicina dentária para suportar os custos inerentes à vinha e à produção de vinho. “O nosso objetivo é que o projeto se torne progressivamente autossustentável, preservando uma visão de longo prazo. Mais do que produzir em quantidade, queremos consolidar uma marca credível, associada à qualidade, à família e ao território da Beira Interior”, sustenta.

No contexto odontológico, Lúcia Ferraz aponta para o facto de o vinho ser uma bebida ácida. Logo, “a exposição frequente ou prolongada aos seus ácidos pode contribuir para a erosão do esmalte dentário. No caso dos vinhos tintos, os pigmentos e os taninos também podem contribuir para o aparecimento de manchas superficiais, sobretudo em pessoas com maior predisposição ou com acumulação de placa bacteriana.”  Por conseguinte, após a ingestão de vinho, Lúcia Ferraz aconselha a beber água e escovar os dentes 30 minutos depois, bem como recorrer regularmente ao médico dentista. “O vinho pode fazer parte de momentos de convívio, gastronomia e cultura, mas deve ser sempre consumido com moderação.”

 

 

Nuno Monteiro Pereira

Médico urologista e produtor de vinho

“A reviravolta começou quando tinha cerca de 45 anos. Exercia urologia em Lisboa, com uma atividade muito intensa entre o hospital público e a prática privada. Senti então a necessidade de equilibrar essa vida profissional com um projeto completamente diferente, que me permitisse fugir ao ritmo da cidade e concretizar um antigo sonho: produzir espumantes e vinhos tranquilos.” Tomada a decisão, Nuno Monteiro Pereira procurou, durante um ano, pela propriedade ideal, “com potencial vitícola e espaço para construir uma casa, uma adega e plantar a minha vinha”, de preferência próxima da capital. A extensiva procura levou o médico urologista a optar, em dezembro de 1996, pela aquisição de uma casa rural do século XVIII, “então bastante degradada, rodeada por cerca de quatro hectares de terreno, incluindo uma velha vinha”, conta. Está localizada no lugar da Patameira, concelho de Sobral de Monte Agraço, pertencente ao território vinhateiro dos Vinhos de Lisboa. Chama-se Quinta do Cerrado da Porta.

O projeto vitivinícola começou em 2011. As vinhas são plantadas em 2012 e 2013 e as castas “selecionadas em função da orografia, da exposição das encostas e das características do clima atlântico da região”: Arinto, Chardonnay, Moscatel Graúdo, Touriga Nacional, Pinot Noir, Syrah, Merlot e Castelão. A estreia na vindima ocorre no ano de 2015 e no engarrafamento acontece em 2016. Um ano mais tarde é dado início à comercialização. A vinha ocupa uma área de 13 hectares. O portefólio vínico divide-se em quatro rótulos: Troviscal (vinhos tranquilos e grandes reservas), Peripécia (monocastas), Quinta do Cerrado da Porta (espumantes) e Capicua (licorosos e colheita tardia).

Sobre os pontos comuns entre a medicina e a produção de vinho, refere a necessidade de ter “paciência, respeito pelos seus ritmos e a consciência de que nem tudo pode ser acelerado”. Paralelamente, há um exigente “estudo permanente, a atualização técnica, o rigor, a disciplina e uma grande capacidade de adaptação”, sendo as pequenas decisões cruciais, uma vez que “podem ter consequências importantes”. Por esse motivo, durante o período em que conciliou a medicina com a prática agrícola teve de instituir “uma gestão muito rigorosa do tempo”, porque “a vinha não espera”. Perante esta realidade, durante muitos anos, recorre a empresas especializadas.

 

“Na medicina lutamos contra o tempo. No vinho aprendemos a trabalhar com ele”.

 

A mesma necessidade imperiosa ocorre na época das vindimas, o que o obriga a reagendar consultas, entre outros compromissos profissionais. Atualmente, acompanha e põe em prática as recomendações do viticultor Amândio Cruz, “e isso permite-me um controlo muito mais próximo e fiável”, salienta. E acompanha o trabalho de campo e na adega sob a orientação da enóloga Alexandra Mendes. “Quando olho para trás, pergunto-me, com alguma surpresa, como consegui conciliar durante tanto tempo duas atividades tão absorventes.”

“Observar, estudar, medir e decidir com base na evidência disponível” fazem parte da prescrição de Nuno Monteiro Pereira face à viticultura. Apesar de ter igualmente maleitas, não faz questão “de olhar para a vinha como um doente”, pois há que respeitar o próprio ritmo da videira. E à semelhança do que acontece no bloco operatório, a higiene “é uma condição absoluta” no que toca ao trabalho efetuado na adega. “A limpeza, o controlo microbiológico e o respeito pelas boas práticas são determinantes para o resultado final”, independentemente dos objetivos.

A respeito das semelhanças encontradas entre a medicina e a produção de vinho, Nuno Monteiro Pereira é peremptório: “felizmente poucas e isso é uma boa notícia.” O fascínio advém precisamente das diferenças que encontra neste mundo do vinho: “a medicina, e particularmente a cirurgia, intervém e transforma na permanente procura de devolver a saúde às pessoas; a produção de vinhos procura respeitar e valorizar aquilo que a natureza produz.” Em relação ao fator tempo, enquanto médico, o objetivo é o doente recuperar “melhor e o mais depressa possível. Já um grande vinho necessita de tempo para revelar toda a sua complexidade. Na medicina lutamos contra o tempo. No vinho aprendemos a trabalhar com ele”, elucida.

Em todo o caso, Nuno Monteiro Pereira manifesta preocupação com o consumo excessivo de álcool, uma vez que “aumenta a produção de urina e pode agravar sintomas urinários em algumas pessoas”, daí que defenda a integração moderada de vinho “numa alimentação equilibrada e num estilo de vida saudável”. Portanto, “enquanto médico, sempre aconselhei moderação. Enquanto produtor, continuo a defender exatamente o mesmo”.

No âmbito da sustentabilidade financeira deste negócio associado ao vinho, Nuno Monteiro Pereira declara que a medicina “permitiu suportar os maiores investimentos na vinha e na adega. Já reformado, o projeto procura ser economicamente sustentável”, com uma produção entre 1300 e 5000 garrafas por referência, as quais se destinam “exclusivamente ao mercado nacional, através de garrafeiras e restaurantes selecionados”.

(Artigo publicado na edição de Setembro de 2026)

INFINITUDE: Perspectivas infinitas

Infinitude

Para Maria d’Assunção Osório de Vasconcelos, da Távora-Varosa, e Jorge Jardim Gonçalves, da Madeira, o cultivo da vinha fazia parte da tradição familiar. Por influência destas memórias, na propriedade que adquiriram em Galamares, a Quinta da Azenha, plantaram também vinha, em 2000. As castas foram escolhidas ao gosto pessoal da família: Pinot Noir e Merlot. […]

Para Maria d’Assunção Osório de Vasconcelos, da Távora-Varosa, e Jorge Jardim Gonçalves, da Madeira, o cultivo da vinha fazia parte da tradição familiar. Por influência destas memórias, na propriedade que adquiriram em Galamares, a Quinta da Azenha, plantaram também vinha, em 2000. As castas foram escolhidas ao gosto pessoal da família: Pinot Noir e Merlot. Inicialmente pensada como elemento do jardim, e não com o propósito de produzir vinho para comercialização, a vinha acabou, como tantas vezes acontece, por dar origem a um negócio e a uma marca: Infinitude.

Mas vamos por partes. Os primeiros vinhos foram produzidos a partir de 2010, ainda exclusivamente para consumo da família. Em 2017, a Infinitude apresentou as suas primeiras referências no mercado. Dos cinco filhos do casal, o mais novo, Rodrigo Jardim, acompanha o projecto desde o início.

Com o tempo, o projecto foi amadurecendo e tornou-se evidente a necessidade de integrar uma pessoa com experiência nas áreas da enologia e da viticultura, a tempo inteiro, que assumisse responsabilidades e contribuísse para a definição da sua estratégia e posicionamento. Em 2024, João Lino assumiu as funções de director-geral e enólogo, dando um novo impulso à profissionalização do projecto.

No ano seguinte, a produção passou de cerca de 5000 para 16 000 garrafas. “Sempre houve mais uva, mas nunca se engarrafou tudo o que se produzia”, explica João Lino, adiantando que, este ano, poderão chegar às 40 000 garrafas. O aumento da escala é, para o director-geral, também uma forma de ganhar visibilidade: “tem que haver alguma massa crítica para as pessoas começarem a conhecer a marca.” O objectivo é que essa notoriedade chegue ao consumidor, para que passe a procurar os vinhos da Infinitude: “eventualmente, o momento-chave é quando o consumidor final começar a pedir o nosso vinho, não só a restauração.”

Infinitude
Jorge e Rodrigo Jardim Gonçalves

Devoção a castas francesas

As cinco vinhas representam pouco mais de cinco hectares, a maior parte dos quais ocupados por castas estrangeiras. E é aqui que se impõe uma breve digressão histórica, pois existe a pressuposição de a presença de variedades francesas na zona de Sintra e Colares ser mais antiga do que se pensa.

O historiador Visconde de Juromenha, na sua obra Cintra pinturesca, ou Memória descritiva das villas de Cintra, Colares e seus arredores, de 1838, refere a intenção de D. Afonso III de promover a cultura da vinha, em 1255, na região de Sintra e Colares, numa altura em que o rei administrava e reorganizava activamente o património régio desta zona. Juromenha conjectura que, nessa ocasião, o monarca poderá ter introduzido cepas originárias de França.

Embora não possa ser dada como comprovada, a hipótese encontra algum fundamento indirecto no contexto histórico. Antes de subir ao trono, D. Afonso III viveu vários anos na corte francesa e a sua primeira mulher, D. Matilde II, era uma aristocrata pertencente à linhagem dos reis de França. O seu reinado assim ficou marcado pela influência francesa, o que torna plausível a possibilidade de castas oriundas daquele país terem chegado à região ainda no século XIII.

Voltando às vinhas, tudo começou na Quinta da Azenha. São cerca de dois hectares, plantados em chão rijo, onde predominam Pinot Noir e Merlot. Seguiu-se a Quinta do Torrado, não muito longe dali, com cerca de 2,5 hectares plantados em 2019. Para além de Pinot Noir e Merlot, a parcela inclui ainda Riesling, Sémillon e Chardonnay. Com apenas meio hectare, a vinha do Casalinho, plantada em 2000 apenas com Merlot, está rodeada por pinheiros, sobreiros, cedros e eucaliptos. A uva daqui, com um perfil mais fresco, é destinada à produção de rosé.

Na encosta da Serra de Sintra fica a pequena vinha da Boca da Mata, na aldeia do Penedo, a cerca de 100 metros de altitude. É a mais elevada de todas, está em agricultura biológica e é exclusivamente plantada com a casta Sémillon.

 

Praia seca de Ramisco e Malvasia

E, por fim, há um hectare de chão de areia, com Malvasia e Ramisco, a menos de um quilómetro do mar. O terreno foi adquirido precisamente com a finalidade de plantar estas castas e incluir, no portefólio, uma referência que represente a cultura vitivinícola da região.

A vinha passou a ser conhecida como ‘Praia Seca’, nome dado pelos filhos de Rodrigo Jardim, que viam a areia sem o mar. Foi plantada em 2020, de forma tradicional, em pé-franco, abrindo-se valas com cerca de cinco metros de profundidade. Um processo trabalhoso, que exige tempo até as videiras se estabelecerem e começarem a produzir.

Em 2024, aqui fizeram a primeira vindima, mas a produção foi ainda muito reduzida e as plantas apresentavam bastante heterogeneidade. “No ano passado, só fizemos cerca de uma tonelada por hectare. Mas sinto que este será um ano de maior produção”, afirma João Lino.

A produção em modo biológico aqui não funciona. O director-geral refere-se à praga do pulgão que afecta as folhas da videira: “se fosse em biológico, não conseguíamos dar a volta, quase que tínhamos de estar aqui dia sim, dia não a tratar a vinha”. Outra dificuldade são os pinheiros à volta da parcela, cujas raízes prejudicam as videiras devido à competição por água e nutrientes. Nas vinhas novas, plantadas em solo de areia, esta disputa deixa as videiras em desvantagem. A solução passa pela poda regular das raízes dos pinheiros, de forma a proteger a vinha.

 

Infinitude

Para ser sustentável, a vinha tem de produzir o máximo possível, desde que não comprometa a qualidade dos valores da marca

 

Qualidade sustentável

Dada a dimensão e a topografia das vinhas, quase todos os trabalhos de viticultura na Infinitude são manuais, com excepção da mobilização do solo e do corte da erva. No que toca à produção de vinho, ambição e pragmatismo não são conceitos contraditórios; pelo contrário, complementam-se. É isso mesmo que ressalta da conversa com João Lino e da prova dos vinhos.

Na viticultura, não seguem uma abordagem fundamentalista, privilegiando antes uma visão pragmática da sustentabilidade, como explica o enólogo: “a qualidade tem de ser top. Mas a produção tem de ser sustentável. Tem de se pagar, tem de criar emprego. E tem de haver uva. Porque, se estamos a tratar a vinha, a gastar gasóleo, produtos fitossanitários, mão de obra e de repente não sai uva… Então nem é ambiental.”

Há vinhas que produzem 12 toneladas por hectare, outras produzem oito, e as do chão de areia ainda nem chegam a duas toneladas por hectare. A produtividade varia bastante em função das características de cada vinha, mas a lógica é a mesma em todas: “para ser sustentável, a vinha tem de produzir o máximo possível, desde que não comprometa a qualidade e os valores da marca.”

O momento-chave é quando o consumidor final começar a pedir o nosso vinho

 

Adega à medida

No início do projecto, os vinhos eram vinificados na Adega Regional de Colares, sob a orientação enológica de Francisco Figueiredo. Mais tarde, porém, tornou-se evidente a necessidade de dispor de uma adega própria, que permitisse maior controlo sobre todo o processo de vinificação.

Como não havia espaço na propriedade para construir uma nova adega, e a burocracia na região de Sintra não facilitaria o processo, aproveitaram duas garagens, que foram unidas e devidamente equipadas. Nasceu, assim, uma adega à medida do projecto, com capacidade para vinificar 50 000 litros por ano, número mais do que suficiente para a meta de 40 000 garrafas previstas para este ano. Privilegiou-se a funcionalidade em detrimento da beleza. Os depósitos foram dimensionados para o espaço e dispostos de forma a permitir “que uma pessoa sozinha, sem a ajuda de outra, consiga facilmente trabalhar aqui”.

No fundo, o Infinitude é um projecto garagista requintado, já com alguma dimensão que, agora, exige uma estratégia comercial à altura.

 

De Sintra, de Colares e os Indie

A estratégia assenta em três gamas de vinhos bem definidas. A primeira é a Infinitude, com um conjunto alargado de referências, todas provenientes de chão rijo. São vinhos de castas internacionais que “espelham muito bem a região de Sintra” apresentados em blends ou, nos topos de gama, em versões monovarietais. São bases da marca que abrangem diferentes perfis de consumidor.

A segunda, com raízes na tradição vitivinícola da região, é dedicada aos vinhos DOC Colares produzidos a partir de Ramisco e Malvasia em chão de areia. A terceira reúne referências ‘Indie’: vinhos independentes, de capricho e fora da caixa, que não têm de seguir as regras das linhas essenciais da marca, “mas são coisas que achamos que podem fazer sentido”, explica João Lino.

Entre chão rijo e chão de areia, tradição e experimentação, abre-se uma infinitude de perspectivas, não fosse este, afinal, o nome da marca.

(Artigo lançado na edição de Setembro de 2026)

QUINTA DAS HERÉDIAS: Entre o passado e o futuro

Quinta das Heredias

Há lugares na Região Demarcada do Douro onde o silêncio não é apenas a ausência de som, mas sim uma densa acumulação de história, sussurrada pelo vento que corre entre os vales alcantilados. Quando nos aproximamos das encostas abruptas que desenham o vale do rio Távora, no concelho de Tabuaço, deparamo-nos com uma paisagem que […]

Há lugares na Região Demarcada do Douro onde o silêncio não é apenas a ausência de som, mas sim uma densa acumulação de história, sussurrada pelo vento que corre entre os vales alcantilados. Quando nos aproximamos das encostas abruptas que desenham o vale do rio Távora, no concelho de Tabuaço, deparamo-nos com uma paisagem que desafia a gravidade e a própria persistência humana. Na freguesia de Granjinha, onde se ergue a Quinta das Herédias, uma propriedade mítica de 108 hectares de área total que, após enfrentar anos de esquecimento, abandono e pilhagens, vive agora, em pleno ano de 2026, o seu definitivo e mais ambicioso renascimento vitivinícola e patrimonial.

Longe de ser apenas a recuperação convencional de uma marca de vinhos, o que aqui se testemunha é uma autêntica operação de arqueologia agrícola e de resgate cultural. Na linha da frente deste ressurgimento está Carlos Lucas, uma das figuras mais consagradas e respeitadas da enologia nacional. Secundado por uma equipa determinada, o reputado enólogo liderou um processo que testou os limites do isolamento humano, tudo com um objetivo claro: devolver o brilho e a dignidade a um terrunho de exceção que o tempo e o abandono teimavam em apagar.

Nesta reportagem, mergulhámos nas profundezas históricas de uma propriedade que já foi o sustento de monges cistercienses, pertenceu a famílias ligadas ao regicídio e à coroa, e hoje posiciona-se na vanguarda do setor, com um investimento robusto focado na elegância, no dinamismo, na excelência vínica e na fulgente hotelaria.

Quinta das Heredias

 

Numa ironia genealógica sem paralelo, a árvore da família une o sangue de um conspirador do regicídio de 1908 e a representação da família real portuguesa

 

O manto de Cister e os senhores de Távora

Para compreender a história e o espírito da Quinta das Herédias, é obrigatório recuar no tempo, até à época em que as fundações de Portugal ainda se consolidavam. A análise toponímica e os pergaminhos eclesiásticos revelam que a atual povoação de Granjinha nasceu diretamente sob a égide e a influência económica dos monges cistercienses, do Mosteiro de São Pedro das Águias.

O que começou por ser uma estrutura rústica e rudimentar, estritamente destinada a garantir a autossuficiência alimentar do mosteiro, expandiu-se com o passar das décadas, ganhando relevância demográfica e económica até se transformar numa paróquia autónoma.

A transição para a esfera secular começou a desenhar-se nos séculos seguintes. No ano de 1537, de acordo com os registos históricos, estes terrenos e o antigo concelho de Paradela, no qual a localidade da Granjinha se inseria, encontravam-se sob o domínio senhorial de Luís Álvares de Távora. Estendendo a sua influência por quatro séculos, a propriedade conhecida como Quinta das Herédias foi identificada nos arquivos históricos por diferentes nomenclaturas, dependendo dos contratos e das famílias que a exploravam. Surgiu frequentemente documentada como “Quinta do Aranda” ou “Quinta de Pontezellos”.

Durante este vasto período, o Mosteiro de São Pedro das Águias manteve a propriedade direta da terra, mas adotou a estratégia de arrendar sistematicamente as suas parcelas a famílias nobres e a lavradores influentes da região. Foram estes homens e mulheres que, desafiando a inclinação vertiginosa das encostas, testaram as primeiras e primitivas técnicas de armação do terreno em socalcos. Sem a maquinaria moderna, erguendo pedra sobre pedra em muros de xisto seco, tornaram viável a cultura sistemática da vinha e do olival em declives de extremo rigor geométrico, moldando a paisagem que hoje define a identidade visual do Douro.

 

Política, regicídio e sangue real

A transição da propriedade para a estrutura fundiária moderna e a consequente atribuição do nome pelo qual é reconhecida hoje nos mercados internacionais, Quinta das Herédias, ocorreram na sequência da extinção das ordens religiosas em Portugal, decretada pelo governo liberal em 1834. Com a nacionalização em massa dos bens da Igreja Católica, a antiga Quinta do Aranda foi colocada à venda em hasta pública pelo Estado, transitando definitivamente para o domínio da alta aristocracia secular.

A primeira proprietária privada da propriedade foi D. Leonor Amália Falcão Sarmento, descrita de forma unânime nos arquivos paroquiais e nos registos genealógicos da Beira Douro como a última legítima descendente do ramo da família Herédia que se estabelecera naquela região. O apelido Herédia foi originalmente introduzido em Portugal por D. António de Herédia, natural de Ávila, em Castela. Este capitão militar entrou no país no ano de 1580, integrando o exército do Duque de Alba, durante a crise de sucessão dinástica. Ao longo dos séculos subsequentes, os seus descendentes dividiram-se em fações ideológicas opostas, oscilando entre a lealdade cega à coroa absolutista e o republicanismo radical, gerando figuras de enorme relevância histórica nacional. Francisco Correia de Herédia Júnior, elevado a 1.º Visconde da Ribeira Brava, foi um destacado e influente político republicano na transição do século XIX para o século XX. Rompendo com as origens monárquicas da sua linhagem, tornou-se um dos conspiradores ativamente envolvidos no planeamento e na execução do regicídio de 1908, o atentado no Terreiro do Paço que vitimou o rei D. Carlos I e o Príncipe Real D. Luís Filipe.

Numa ironia genealógica e histórica sem paralelo, a bisneta do revolucionário Visconde da Ribeira Brava, Isabel de Herédia casou-se, em 1995, com Duarte Pio de Bragança, o atual pretendente ao trono português, assumindo o título de Duquesa de Bragança. Os seus descendentes unem de forma indissociável na mesma árvore genealógica o sangue da antiga aristocracia proprietária de terras no Douro, o legado histórico de um conspirador regicida e a representação contemporânea da antiga família real portuguesa.

Quinta das Heredias

 

Com o país paralisado pela pandemia, a equipa viveu em isolamento absoluto na quinta, dedicada exclusivamente a resgatar vinhas centenárias

 

A era de Carlos Lucas

A entrada de Carlos Lucas na história da Quinta das Herédias marca o início de uma das operações de resgate agrícola, enológico e patrimonial mais complexas e dispendiosas da história recente da Região Demarcada do Douro. Carlos Lucas, natural de Coimbra e licenciado em Enologia, é uma figura amplamente consagrada no panorama vinícola nacional, acumulando mais de 25 anos de experiência.

Após fundar, com sucesso, a empresa Magnum – Carlos Lucas Vinhos, na região do Dão, o enólogo decidiu expandir a sua filosofia de intervenção e preservação do património vitícola antigo para a sub-região do Cima Corgo. Em 2018, iniciou as negociações e a intervenção direta na Quinta das Herédias, cuja aquisição formal foi selada no arranque de 2019.

Quando a equipa técnica da Magnum assumiu o controlo operacional da propriedade, o cenário encontrado era de quase total ruína agrícola e desolação. A propriedade estivera votada ao abandono contínuo durante cerca de quatro anos. Muros centenários de xisto, construídos com a técnica tradicional de pedra seca, tinham desmoronado sob o peso das chuvas e da falta de manutenção. O mato rústico e as infestantes tinham invadido as parcelas, sufocando as videiras e as infraestruturas residenciais e agrícolas tinham sido alvo de saques e vandalismo, com o roubo de vários objetos de valor histórico e material.

Carlos Lucas identificou de imediato que a autêntica joia da propriedade residia num núcleo duro de nove hectares de vinhas centenárias mistas. O enólogo descreveu estas parcelas sobreviventes como verdadeiros “diamantes em bruto”, que corriam o risco iminente de morrer por sufocamento vegetativo, caso não houvesse uma intervenção cirúrgica e imediata.

Para liderar esta espinhosa e dramática operação de resgate no terreno, o desafio assumiu contornos quase épicos e dramáticos, quando coincidiu com o rebentamento da crise sanitária global e o consequente primeiro confinamento da pandemia da COVID-19. Com o país paralisado, a equipa de Carlos Lucas optou por viver em isolamento absoluto na remodelada Casa do Senhorio. Totalmente privados de televisão ou de ligação à internet, dedicaram-se exclusivamente aos trabalhos de recuperação da vinha. Estes envolveram a reconstrução manual dos suportes de arame, a replantação minuciosa das falhas vegetativas nas vinhas velhas e a condução rigorosa de uma poda de recuperação estrutural para devolver a produtividade às cepas velhas.

Como símbolo vivo deste período de reconquista, isolamento e resiliência face aos elementos, a quinta passou a ser protegida e vigiada por um imponente exemplar da raça Cão de Gado Transmontano, batizado apropriadamente com o nome de “Baton”. A presença protetora, a lealdade e a imponência física do animal no meio dos socalcos isolados foram de tal forma marcantes para toda a equipa fundadora que inspiraram o nome da primeira marca comercial da propriedade, o vinho Baton, cujo lançamento no mercado assinalou o novo capítulo da empresa.

Quinta das Heredias
Diogo e Carlos Lucas

 

Proibido de construir novas adegas industriais, devido à proteção patrimonial, Carlos Lucas adotou um modelo dual e ambiciona atingir um milhão de garrafas

 

O mapeamento do território agrícola

Sob a direção técnica e o planeamento estratégico de Carlos Lucas, a propriedade de 108 hectares foi submetida a um rigoroso, científico e sistemático ordenamento do território agrícola, dividindo-se em parcelas claramente diferenciadas pelo seu potencial geológico e microclimático.

As vinhas da Quinta das Herédias estão distribuídas ao longo de encostas com altitudes que variam entre os 120 e os 400 metros. Esta variação altimétrica expõe as videiras a diferentes amplitudes térmicas e níveis de maturação. No plano geológico, as plantas enfrentam uma transição de solos atípica e rara no Douro: a matriz predominante de xisto duriense é abruptamente cortada por afloramentos e veios de granito subjacente, o que confere aos vinhos um perfil muito específico.

O verdadeiro coração enológico da propriedade é constituído por nove hectares de vinhas com mais de um século, comprovadamente acima dos 130 anos. Nestas parcelas heróicas, as castas encontram-se misturadas na mesma linha de plantação, seguindo o método tradicional de field blend implementado pelos antigos lavradores do Douro. Caminhar por estas linhas é fazer uma viagem pela ampelografia esquecida da região, detetando-se a presença de variedades raras e de baixa produtividade, mas de enorme complexidade organolética, tais como a Malvasia Preta, a Tinta Francisca, a Tinta Pomar e a Rufete, entre outras.

Historicamente, a Quinta das Herédias era uma propriedade devotada de forma quase exclusiva à vinificação de uvas para a produção de vinhos do Porto. Contudo, ao identificar o enorme potencial de frescura mineral e a preservação de acidez oferecidos pelas manchas de solo granítico e pela circulação de ventos frios no vale do rio Távora, Carlos Lucas tomou a decisão estratégica de plantar, no ano de 2020, quatro novos hectares de castas brancas nos locais mais altos da propriedade. A aposta recaiu nas variedades autóctones de maior prestígio da região: a Viosinho, a Rabigato e a Gouveio.

Na cota mais baixa da propriedade, estendendo-se colada à margem espelhada do rio Távora, a uma altitude que pouco ultrapassa os 100 metros, localiza-se uma mancha contínua de 35 hectares de olival tradicional constituído por árvores centenárias. Esta imensa parcela é plenamente aproveitada para diversificar a atividade económica da quinta, através da produção e comercialização de um azeite virgem extra de extração estritamente a frio, que capta a essência daquele microclima ribeirinho.

Engenharia enológica e o património

Um dos maiores e mais complexos segredos operacionais da transição da Quinta das Herédias para a era moderna reside na gestão inteligente das restrições legais e urbanísticas que incidem sobre a propriedade. Devido ao rigoroso estatuto de proteção patrimonial e paisagística que impende sobre a quinta, classificada como imóvel de interesse municipal e integrada na área protegida do Douro, as autoridades administrativas locais, os organismos de tutela do património e as entidades ambientais proíbem terminantemente a edificação de qualquer nova estrutura industrial, armazém de betão ou adega de grande volumetria.

Para contornar este bloqueio logístico e legal sem descaracterizar a identidade da marca, Carlos Lucas desenhou um modelo de vinificação dual, dividindo a produção em dois polos complementares. A adega original de xisto da propriedade foi totalmente recuperada e equipada de forma minimalista e cirúrgica. Ali funcionaram alguns lagares de granito tradicionais que deram origem ao primeiro vintage do projeto, mas rapidamente foram desativados devido à falta de capacidade para processar toda a produção. Com o intuito de contornar as limitações físicas da propriedade original e otimizar o circuito logístico, o produtor adquiriu, em 2023, vários lotes de terreno na zona industrial de Sabrosa. O investimento resultou numa área de implantação de 3500 metros quadrados, onde foram edificados 2000 destinados a sustentar um plano de negócios de grande escala. As novas instalações concentram agora todas as etapas críticas do negócio: a vinificação, o engarrafamento e a expedição.

De resto, a meta imediata está traçada: a colheita de 2026 será a primeira a ser totalmente vinificada nesta nova infraestrutura, que estará plenamente operacional e dotada de todas as condições logísticas para a vindima. O investimento responde às metas ambiciosas traçadas pela administração. Atualmente, o projeto coloca no mercado 250 mil garrafas, com um portefólio que inclui brancos, tintos e vinhos do Porto, além de uma forte aposta nos espumantes: 50 mil garrafas distribuídas por três referências distintas. O objetivo a curto prazo, contudo, é quadruplicar o volume e atingir a fasquia de um milhão de garrafas.

Além do reforço da capacidade industrial, os planos de expansão estendem-se à área do turismo. Para um futuro muito próximo, está já projetado o lançamento de um programa de enoturismo próprio. A nova centralidade do projeto em Sabrosa irá abrir portas ao público com uma oferta integrada de visitas guiadas, provas orientadas e uma loja física para a compra direta de vinhos.

 

Num mercado global, onde o verdadeiro luxo passou a ser o espaço, o tempo e o silêncio, o novo refúgio aposta numa experiência ultra exclusiva de 11 quartos

 

Novo refúgio de luxo

As ruínas da antiga casa do senhorio e dos seus edifícios anexos, que outrora marcaram a paisagem da Quinta das Herédias, deram lugar a um ambicioso projeto de hotelaria de charme. As obras iniciaram-se formalmente em setembro de 2024, após um meticuloso trabalho de recuperação do património edificado, que no passado tinha sido fustigado por saques. O projeto promete devolver a dignidade histórica à propriedade num cenário de total renovação, cumprindo a promessa dos seus promotores: devolver a dignidade histórica e a imponência arquitetónica a uma propriedade que parecia condenada ao esquecimento. Cada pedra recuperada e cada viga restaurada contam, agora, uma narrativa de resiliência.

Num mercado global, onde o verdadeiro luxo passou a ser o espaço, o tempo e o silêncio, a Quinta das Herédias lança uma proposta de valor clara e cirúrgica. Com um conceito focado inteiramente no segmento premium, o hotel conta com 11 quartos. Esta escala reduzida foi uma escolha deliberada, para garantir aos hóspedes uma experiência de alojamento ultra exclusiva, caracterizada pela privacidade absoluta e por uma profunda imersão na natureza circundante. Afinal, as janelas abrem-se para o anfiteatro natural das vinhas e para a serenidade que caracteriza o Douro profundo.

Para lá do alojamento de excelência, o complexo turístico foi desenhado para ser um polo de atração por direito próprio. A propriedade inclui uma magnífica piscina exterior, estrategicamente posicionada para potenciar as vistas sobre o vale, e um restaurante que nasce com uma ambição assumida: converter-se numa das principais referências gastronómicas de toda a região duriense. A carta privilegia os produtos endógenos e a harmonização com os vinhos locais.

Com esta boa nova, a Quinta das Herédias reforça, de forma significativa, a oferta de turismo de qualidade na região. O projeto demonstra que é possível aliar a preservação rigorosa da memória histórica ao conforto contemporâneo e às exigências do viajante do século XXI. O Douro ganha, assim, um novo guardião da sua herança cultural.

Desta forma, a região continua a afirmar-se como um dos destinos mais vibrantes e magnéticos do turismo de luxo mundial, e o próximo capítulo desta história de sucesso está a ser escrito. As ruínas, que outrora marcaram de forma melancólica a paisagem da Quinta das Herédias, deram, finalmente, lugar a um ambicioso e sofisticado projeto de hotelaria de charme.

Quinta das Heredias

O ano de todas as decisões

Depois de anos de planeamento silencioso, reconstrução de muros de xisto, microvinificações experimentais, isolamento em períodos pandémicos e reestruturação financeira complexa, o ponto de viragem histórico e definitivo para esta propriedade está formalmente agendado para 2026. Aliando de forma inteligente a produção vinícola de excelência a um projeto hoteleiro disruptivo que promete fixar e reter um turismo de qualidade internacional na sub-região do Cima Corgo, este investimento de dez milhões de euros cumpre uma dupla função social e económica no Douro. Não só reabilita, limpa e dignifica um espaço físico e patrimonial outrora saqueado, votado ao abandono e à mercê do mato rústico, mas coloca uma nova e orgulhosa marca na linha da frente do panorama vitivinícola nacional.

A Quinta das Herédias, que já sobreviveu às convulsões políticas do regicídio, prova, em 2026 que o xisto e o granito, quando moldados pelo talento e pela persistência humana, continuam a produzir alguns dos vinhos mais emocionantes e profundos do mundo. Para os enófilos e colecionadores de todo o planeta, resta apenas aguardar que o conteúdo destas garrafas, agora produzidas com todas as condições de excelência, chegue aos copos, para ditar o veredicto final. Uma coisa é certa: o gigante do vale do Távora acordou e o seu brilho voltou a iluminar o Douro.

(Artigo publicado na edição de Setembro de 2026)

GRANDE PROVA MOSCATEL: Das abelhas e dos pássaros

MOSCATEL

Não é assunto que nos roube o sono. Por isso, sem investigações aturadas e reflexões profundas, vamos aceitar que a origem da casta Moscatel se situa no Médio Oriente, talvez mesmo no Egipto. A expansão por toda a zona envolvente do Mediterrâneo, da Sicília a Málaga, de Hamburgo a várias zonas da França, bem como […]

Não é assunto que nos roube o sono. Por isso, sem investigações aturadas e reflexões profundas, vamos aceitar que a origem da casta Moscatel se situa no Médio Oriente, talvez mesmo no Egipto. A expansão por toda a zona envolvente do Mediterrâneo, da Sicília a Málaga, de Hamburgo a várias zonas da França, bem como por todo o império, terá sido obra de romanos que, tal como as abelhas, lhe apreciavam a doçura e o gosto. Sabemos, porém, que a Moscatel é, das poucas castas usadas para fazer vinho, a que tem a particularidade de ter o mesmo sabor, comendo-se os bagos ou provando o vinho. Porquê?

Acontece que esta variedade é especialmente rica em monoterpenos, compostos que são responsáveis pelo perfume de alguns frutos e das flores, os quais estão em grande concentração nesta variedade. Com estes atributos não é difícil perceber que até à África do Sul, mais propriamente à zona do Cabo, tenha chegado a Moscatel, dando aí origem a um dos vinhos que, durante séculos, foi ultrafamoso. Esteve à mesa de reis e mesmo no exílio de Napoleão. Refiro-me ao vinho de Constância, região de vinhedos bem próxima da cidade do Cabo. Para lá foi levada pelos holandeses, que colonizaram a zona no século XVII.

Com esta antiguidade toda, é natural que a casta tenha sofrido mutações. Por conseguinte, conhecemos múltiplas variantes, ainda que haja as que dispõem de vários sinónimos. Algumas das principais variedades incluem o Muscat à Petits Grains, Muscat of Alexandria, Muscat Ottonel, entre outros; por cá, Moscatel Galego (igual a Muscat à Petits Grains), no Douro, sobretudo em Favaios, Moscatel Graúdo (ou de Alexandria), em Setúbal e, ainda em Setúbal, o Moscatel Roxo, que é uma mutação do Moscatel do Douro.

Falamos, então, de uma variedade que gosta de climas quentes e de terrenos arenosos, tudo o que em Azeitão há em abundância. Não se estanha assim a grande implantação que teve no século XIX nesta região. Ainda que não se faça a distinção, há duas zonas diferenciadas para a produção: as areias de Palmela e Poceirão e os argilo-calcários da Serra da Arrábida. São diferentes, ainda que todos com a mesma Denominação de Origem.

Muito divulgada no século XIX na região de Setúbal, a Moscatel era acompanhada por outra variedade que gerava um licoroso muito apreciado, o Bastardinho de Azeitão. Em tímida recuperação, a Bastardo foi casta muito plantada, desde o Barreiro até Alcochete, e o vinho destacado por Ferreira Lapa (Memória Sobre os Processos de Vinificação, Lisboa, 1867), que dizia dele, “espécie licorosa fina e balsâmica, como não se produz melhor n’outras partes” e identificava, como melhores zonas para a produção, Barreiro, Samouco, Moita e Seixal!

Actualmente, e enquanto se espera pela recuperação da variedade (a que acresce o longo tempo de estágio), o melhor mesmo é provar as últimas garrafas, ainda à venda, pertencentes à José Maria da Fonseca, as quais estão disponíveis em garrafeiras e na loja da empresa, em Azeitão.

A uva do sol e do calor

No mesmo texto de Ferreira Lapa se anota a prática antiga, em Setúbal, de colocar os cachos de Moscatel ao sol (de uma semana a 12 dias), para, através da desidratação, concentrarem açúcares e, consequentemente, aumentarem o potencial alcoólico. Hoje, a prática parece ter desaparecido, mas esta casta é sempre a última a ser vindimada. Sim, esta é a última. Contudo, a Moscatel Roxo é, de longe, a primeira, normalmente ainda em Julho, com a finalidade de evitar os ataques da passarada. Neste caso, talvez Plínio lhe chamasse Uvae avium (vinha dos pássaros). Em Setúbal, falamos de cachos e bagos grandes, de película rija; no Douro, com Moscatel Galego temos um cacho e bagos mais pequenos e de pele mais fina. Já o Moscatel Roxo adquire, em plena maturação, uma tonalidade rosada (daí o nome).

A produção segue a mesma prática de todos os licorosos: fermentação em contacto com as películas, adição da aguardente (geralmente, a 77% volume) a meio do processo fermentativo, para o interromper. Nesta fase, procura-se conferir ao vinho um teor em torno dos 16º de álcool, deixando o restante para acertos finais ao longo do processo de envelhecimento. O vinho fica, então, por via da morte das leveduras “afogadas” em aguardente, com açúcar residual, podendo este ir dos 90 aos 200 gramas por litro, e registar um teor alcoólico final em torno dos 17 ou 18%. Findo o processo de fermentação, o vinho continua em contacto com as películas por vários meses, mais propriamente de três a quatro meses na José Maria da Fonseca, conferindo mais complexidade ao vinho. Segue-se o estágio em barricas usadas; no caso da Bacalhôa, sem atesto dos cascos ao longo do envelhecimento.

 

O torna-viagem

A empresa José Maria da Fonseca, a mais antiga da região a fazer Moscatel, ainda tem, em casco, vinhos da colheita de 1900 e vários do século passado. Ao todo, serão cerca de 500 000 litros de vinhos com mais de 20 anos. Nesta empresa, está em curso a produção de vinhos Torna-Viagem, resultantes de uma cooperação com o navio-escola Sagres que, nas suas viagens, leva, no convés, pipas com Moscatel, sujeitas a oscilações de temperatura e agitação do vinho dentro do casco. Este era o conceito inicial dos vinhos torna-viagem, igualmente usado na Madeira para os vinhos que eram exportados e regressavam.

Actualmente, e após o regresso, os cascos ficam em repouso na sede da José Maria da Fonseca, em Azeitão. Estamos a falar de cerca de 50 000 litros. Com o propósito de proteger a zona onde estão os cascos, foi preciso colocar uma parede de vidro, porque a circulação de ar (correntes de ar?) estava a provocar uma evaporação de 12% por ano contra os normais 3%. Para quando o engarrafamento? Domingos Soares Franco (DSF), durante décadas enólogo da referida empresa, é peremptório: “isso é assunto para a sétima geração!”

Na colecção DSF, a empresa mantém também a originalidade do uso de aguardentes das regiões francesas Cognac e Armagnac para os moscatéis. São dois vinhos diferentes com indicação na garrafa do tipo de aguardente usada. Para vinhos que se pretende que envelheçam (20 anos, digamos) Domingos Soares Franco comenta: “prefiro a de Cognac porque, com o tempo, faz realçar as notas de frutos secos e citrinos confitados.”

Os ensaios da Bacalhôa

A Bacalhôa tem plantados cerca de 52 hectares de Moscatel de Alexandria e 4 hectares de Moscatel Roxo, sobretudo na Serra da Arrábida, em encostas viradas a norte. Para a entrada de gama, a empresa adquire também uvas na zona arenosa de Palmela. O mercado interno absorve cerca de 40% da produção.

O estágio em madeira é feito com base em métodos diferentes nas duas empresas com mais tradição na produção do generoso. Na Bacalhôa, entre outras, ainda se usam barricas que têm origem na Escócia e serviram anteriormente ao whisky. A importação destas barricas está, para já, suspensa. A aposta é, agora, estagiar este fortificado em barricas que serviram anteriormente a vinhos tintos, depois moscatéis de entrada de gama, e só então, os de gama superior. Existe uma estufa exterior, onde estas barricas são dispostas para envelhecimento. Com as variações de temperatura e os grandes calores estivais (que originam uma pequena, mas significativa, variação de temperatura dentro da barrica), o vinho adquire mais complexidade e riqueza aromáticas sem atesto dos cascos ao longo do envelhecimento. Reproduz-se, assim, o método de canteiro usado na Madeira, em que os cascos começam o seu envelhecimento nos sótãos dos armazéns e vão transitando, de anos em anos, para os andares de baixo, até ao nível térreo. Na estufa da Bacalhôa, as variações de temperatura, medidas no vinho, oscilam entre os 10º no Inverno e os 28º no Verão.

Em curso, estão ensaios com barricas de Jerez (Oloroso) e também ensaios de aguardentação mais tardia, visando a produção de moscatéis com menor teor de açúcar. Para já, segundo João Ramos, enólogo da Bacalhôa, ainda é cedo para conclusões, porque, nestas barricas de Jerez só têm vinhos de dez anos a estagiar há três meses. São dez barricas de 300 litros, com muito uso, que chegaram de Jerez ainda húmidas, favorecendo, deste modo, a permuta de aromas e sabores. Quanto tempo lá vão ficar? Depende das provas que se façam ao longo do tempo.

Este Moscatel em barricas de Oloroso será sempre usado numa colecção de experiências e não para integrar lotes gerais. Prática antiga na região, e que aqui se reproduz, é manter as borras no fundo da barrica, ou seja, esta nunca se esvazia por completo e o vinho novo é colocado sobre as borras do vinho velho. Também não se atestam totalmente as barricas, deixando-se dois a três dedos, para evitar que, com o calor, o vinho saia da barrica.

Um outro projecto que está agora no início é a conservação em vidro de vinhos muito velhos, já com exagerada concentração, a serem usados para bases e não para serem vendidos como Colheita. Serem mantidos em casco não tem, dizem-nos, qualquer vantagem.

 

Favaios e Alijó

No Douro, destaca-se, desde há décadas, a região de Favaios e Alijó como as zonas onde a casta melhor se expressa, graças à altitude. No entanto, sem a delimitação da zona de Favaios, os rótulos do Douro indicam genericamente “Moscatel do Douro”, que pode ser ou não de Favaios, mas não há distinção oficial.

Em Favaios sobressai a Adega Cooperativa fundada em 1952 e que se assume como principal produtor de Moscatel do Douro, com 80% da produção da região. Possui, segundo informação da própria adega, 52% da quota de mercado a nível nacional. Com o lançamento da marca Favaíto, em minúsculas garrafas, a cooperativa deu um grande salto em termos de negócio, vendendo, actualmente, 32 milhões de unidades por ano, o que corresponde a 61% das vendas de Moscatel desta adega. Os stocks atingem os 9,5 milhões de litros em madeira, ou seja, o triplo das vendas anuais.

Pelos resultados da prova se percebe que o “universo” Moscatel contempla tipos de vinho muito variados. O fluxo de vinhos para prova chegou-nos, sobretudo, de Setúbal, apesar do Douro ter, aqui, uma boa representação. Ainda que seja possível encontrar vinho licoroso de Moscatel noutras zonas do país, como Tejo e Lisboa, a verdade é que foram poucos os produtores que enviaram amostras. Uma conclusão se impõe: são vinhos de enorme qualidade, que dão muito prazer na prova e que têm um preço bem convidativo. Como se diz no anúncio de uma marca de café bem conhecida: ‘What else?’

No que diz respeito ao consumo, este é um generoso ao qual o epíteto de bom e barato se aplica na perfeição. Servido ligeiramente refrescado no final da refeição, acompanha, em modo de excelência, sobremesas que incluam doces de ovos, a começar pelas tortas de Azeitão e pelo pão-de-ló de Ovar, prosseguindo pelos doces de ovos de Aveiro, os pastéis de Tentúgal, os travesseiros de Sintra, num desfilar de parcerias sem fim. Bebê-lo é dignificar um produto secular, um dos nossos três reis-magos dos vinhos fortificados. E, ao contrário do que se diz em relação aos livros que “o mais difícil é lê-los”, aqui, em relação ao Moscatel, é o inverso: o mais fácil é bebê-lo!

Os reinos da Moscatel

A demarcação da região da Península de Setúbal data do início do século XX, incluída na primeira vaga de demarcações após a da região do Douro. As vinhas da casta aptas à Denominação de Origem estendem-se pelos concelhos de Palmela (68%), Setúbal (17%), Montijo (13%) e Sesimbra, além dos ligeiros aumentos (2%). A área de vinha tem-se mantido estável, com poucas oscilações.

Existem duas Denominações:

Setúbal: o vinho tem de ter no mínimo 67% da casta.

Moscatel de Setúbal: a percentagem obrigatória sobe para os 85%.

O Moscatel Roxo de Setúbal corresponde, actualmente, a cerca de 66 hectares de vinhas (em 1999 seriam apenas sete hectares, então considerado à beira da extinção) e distribuem-se pelos quatro concelhos referidos. Também em relação a esta casta se mantêm as mesmas regras: para DO Setúbal o vinho tem de ter 67% da casta e, para Moscatel Roxo de Setúbal, 85%.

A produção oscila entre os 2 e os 2,5 milhões de garrafas. O crescimento do plantio de Moscatel prende-se, segundo a Comissão Vitivinícola Regional da Península de Setúbal, com o renovado interesse na casta para a produção de vinhos tranquilos. A legislação permite a comercialização de vinhos com data de colheita ou com indicação de idade – 5, 10, 15, 20, 25, 30, 35 e 40 anos. Estranhamente, também permite o uso simultâneo das mesmas indicações – idade e data –, como se pode confirmar pelos vinhos provados.

A produção na região do Douro está concentrada na zona de Favaios, destacando-se, entre todos os operadores, a Adega Cooperativa de Favaios, gestora de uma área de vinha que, em dez anos, passou de 545 para 623 hectares. Em termos de produção, é responsável por 82,7% de quota de mercado, de acordo com os registos de 2025 (a maior percentagem desde há 15 anos). As vendas cresceram, de 2015 a 2025, cerca de 40%. Em 2025, dos cerca de quatro milhões de litros comercializados como Moscatel do Douro, a Adega de Favaios foi responsável por pouco menos de 3 300 000 litros. As castas aqui plantadas são a Moscatel Galego e Moscatel Galego Roxo.

Nota – A Grande prova Moscatel realizou-se em Prova Cega por: João Paulo Martins, Valéria Zeferino e Luís Antunes

(Artigo publicado na edição de Setembro de 2026)

 

CAVES SÃO JOÃO: 106 anos de um ex-libris bairradino

Caves São João

Desde 2010, ano em que se inicia o percurso rumo ao centenário, ocorrido em 2020, as Caves São João mantêm a tradição de aliar a efeméride ao lançamento de vinhos que, de algum modo, vincam a coerência desta empresa, cuja história e percurso se confundem com a da própria região. Neste que foi o 106º […]

Desde 2010, ano em que se inicia o percurso rumo ao centenário, ocorrido em 2020, as Caves São João mantêm a tradição de aliar a efeméride ao lançamento de vinhos que, de algum modo, vincam a coerência desta empresa, cuja história e percurso se confundem com a da própria região. Neste que foi o 106º aniversário, juntaram-se, à celebração, os proprietários e administradores que, em 2022, adquiriram a quase totalidade do capital social da sociedade e, atualmente, gerem os destinos desta casa centenária. Aos rostos dos empresários Fernando Sapinho, Paulo Morgado, Nuno Ramos, Mário Mateus, Enrique Castilblanques e Mário Vigário aliamos o rosto visível da serenidade que mantém as Caves São João no alinhamento com a sua identidade, Célia Alves.

Se dúvidas havia sobre o futuro da Caves São João, as mesmas têm sido dissipadas pela consciencialização de que o negócio do vinho possui características muito especiais, nomeadamente, onde o fator tempo se constitui como vetor fundamental para a solidez de qualquer projeto. Fernando Sapinho, um dos sócios e igualmente administrador desta casa, e empresário de relevância internacional no setor imobiliário, vincou a forte perceção de que o tempo é de investimento, no sentido de incrementar a implantação das Caves São João no mercado nacional e internacional. Nestes últimos quatro anos, esta ação é visível, sobretudo, na ampliação da área de vinha da Quinta do Poço do Lobo, localizada na freguesia da Pocariça, onde atualmente se vislumbram mais de 40 hectares de vinha contínua, tornando-a a maior do concelho de Cantanhede. Se, no início, houve uma certa tentação de mudança, incluindo de imagem, hoje existe consenso e firme convicção que é a identidade clássica das Caves que lhe garantem o prestígio.

106 anos, 106 meses

Foi sob o mote “106 Anos, 106 Meses”, que as Caves São João procederam a um realinhamento da marca primordial, apresentando, como novidade, o espumante DOC Bairrada Caves São João Branc de Blancs Velha Reserva, elaborado exclusivamente com a casta Chardonnay e com uns notáveis 106 meses de estágio. A casta internacional não é estranha a esta casa. Na verdade, é a base preferencial, a par com a Pinot Noir, para a elaboração de espumantes desde 1930, à data sob a coordenação do enólogo francês Gaston Mennesson.

À semelhança do que ocorria nos primórdios, a marca Caves São João redefine o seu posicionamento e passa a ser somente reservada aos vinhos e espumantes de superior qualidade em edições únicas ou de colheitas que se destaquem em anos de qualidade absolutamente excecional. Afiançamos que a estreia deste novo posicionamento da marca foi auspiciosa, tendo dado origem a um espumante memorável, mesmo dentro da história deste tipo de vinho firmado na grandeza no âmbito do portefólio da Caves São João.

 

Caves São João

DOC Bairrada Caves São João Branc de Blancs Velha Reserva, elaborado exclusivamente com a casta Chardonnay e com 106 meses de estágio

 

Boas novas e um Frei João renovado

Da colheita de 2023, chega-nos a mais recente edição do espumante Quinta do Poço do Lobo Baga Bairrada, um bruto natural com uma interpretação mais exigente dos espumantes que ostentam a referida logomarca, por uma valorização de estágios cada vez mais longos. Com uma produção de 73 mil garrafas, este espumante beneficia já do aumento da área de vinha da Pocariça, onde, na última restruturação e plantação, se apostou mais nas castas locais, como Baga, Touriga Nacional, Moreto e Castelão Nacional (Camarate), nas tintas, e as brancas Arinto, Cercial da Bairrada, Maria Gomes e Bical.

O portefólio da Quinta do Poço do Lobo fica completo com as mais recentes edições do Quinta do Poço do Lobo Reserva branco, um Arinto da colheita de 2023, com fermentação inicial em inox, a qual termina em barricas de carvalho francês avinhadas, e um estágio em garrafa de dois anos antes de ser lançado no mercado; o Quinta do Poço do Lobo Baga e Pinot Noir rosé, da colheita de 2025, fruto de uma vindima mais precoce para melhor preservação da acidez e frescura; o Quinta do Poço do Lobo Reserva tinto, da colheita de 2021, elaborado, maioritariamente, a partir de Baga e Touriga Nacional, e acrescido por um pequeno complemento de Cabernet Sauvignon. A última boa nova, que agora entra na família, é o Quinta do Poço do Lobo Colheita Tardia 2023, um vinho singular, elaborado a partir da casta internacional responsável pelos grandes Sauternes, a Sémillon, caracterizada pelo seu apodrecimento nobre e forte concentração de açúcares.

Por fim, é na marca ícone Frei João, nascida na década de 50 do século passado, que surge a maior novidade. A garrafa que revolucionou a rotulagem com o uso cortiça surge, agora, em modelo Borgonha, com um Chardonnay estreme da colheita de 2025, dotando este nome de outra transversalidade, fiel a uma cultura aliada a grandes castas internacionais, influenciadas, claro está, pelo terroir de forte pendor atlântico.

(Artigo publicado na edição de Agosto de 2026)

 

 

QUINTA DA LAGOALVA: Vinhos de Verão em alta

Lagoalva

As apresentações de novos vinhos vão ajudando a descobrir uma Lisboa antiga, que se renova por dentro. Antigos palácios e palacetes, outrora decadentes e, acima de tudo, escondidos pela teia de vielas que rendilham as encostas da cidade vão, pouco a pouco, sendo descobertos pelos tecelões do Portugal is so nice e ‘ressuscitados’ em hotéis […]

As apresentações de novos vinhos vão ajudando a descobrir uma Lisboa antiga, que se renova por dentro. Antigos palácios e palacetes, outrora decadentes e, acima de tudo, escondidos pela teia de vielas que rendilham as encostas da cidade vão, pouco a pouco, sendo descobertos pelos tecelões do Portugal is so nice e ‘ressuscitados’ em hotéis chiques, com rooftops sensacionais a oferecer a vista para as colinas e com pequenos jardins, onde bares e cadeirões proporcionam a vida glamourosa das férias.

Foi num ambiente assim, no Hotel The One Palácio da Anunciada, na rua das Portas de Santo Antão, que a Quinta da Lagoalva de Cima apresentou algumas das suas novidades para o Verão de 2026. Pedro Pinhão, administrador com o pelouro da enologia, trouxe parte da sua equipa, para alguns momentos descontraídos, acompanhados por finger food saborosa para os presentes debicarem ao longo de uma tarde agradável, onde o calor do sol era modulado por uma brisa suave e por sombras da tarde que, lentamente, cobriam o jardim.

Segundo Pedro Pinhão, os vinhos de 2025 são mais elegantes e frescos do que os correspondentes a 2024. Já há anos que os Lagoalvas, em especial nas suas gamas de entrada, mostram uma saudável contenção alcoólica. Muitos vinhos estão nos 12% ou apresentam um teor alcoólico bastante menor, o que os torna uma opção sensata para o a época de veraneio, quando queremos vinhos refrescantes que não castiguem pelo peso a opção por um segundo copo.

 Lagoalva
Os enólogos Pedro Pinhão e Luís Paulino

 

 

Bolhas e nova edição de Alfrocheiro

As novidades no campo das bolhas também são muito relevantes. O Pét Nat é muito limpo. É o que eu chamo de Pét Nat de enólogo, pois não deixa que os ‘aromas-off’ tomem conta do vinho. Simples, vivo, refrescante, mas sempre muito focado, é o que se espera de uma boa companhia à mesa ou para desfrutar em modo cocktail.

Mas a grande surpresa veio do espumante Lagoalva Reserva, com quatro quintos de Arinto e o um quinto de Alfrocheiro. Nada distingue no rótulo este novo lançamento dos anteriores, embora a marca ‘L-081241’ na garrafa o permita distinguir. Este é todo da colheita de 2023 e é sensacional. Consegue o raro milagre de equilibrar uma fruta cítrica jovem com suaves tostados do estágio em garrafa, a puxar para o estilo do Norte de França. Ainda por cima, com um preço muito comedido. Recomendo-o sem hesitar!

Finalmente, destaque para a nova edição do Alfrocheiro de 2024 de produção biológica. Alfrocheiro é sempre uma casta rara, com incidências no Dão e no Alentejo. No entanto, esta vinha já adulta vai alimentando o tinto topo de gama da casa em modo lote, entra no espumante o qual mencionei acima, aparece em lote com Syrah e ainda em modo estreme neste Grande Reserva, que agora é biológico. A beleza desta casta tinta é esta leveza e alegria.

(Artigo publicado na edição de Agosto de 2026)

KOPKE GROUP: 2024, a doce subtileza de um ano Clássico

Kopke

Os novos Vintage, com a chancela Kopke e Burmester, foram apresentados na Kopke Wine House, localizada na ribeira de Vila Nova de Gaia, paredes meias com a Calém, igualmente detida pelo grupo de Juan Carlos Escotet, a Kopke Group. Como anfitriões, tivemos Carlos Alves, diretor de enologia e viticultura, e Márcio Nóbrega, responsável pela viticultura, […]

Os novos Vintage, com a chancela Kopke e Burmester, foram apresentados na Kopke Wine House, localizada na ribeira de Vila Nova de Gaia, paredes meias com a Calém, igualmente detida pelo grupo de Juan Carlos Escotet, a Kopke Group. Como anfitriões, tivemos Carlos Alves, diretor de enologia e viticultura, e Márcio Nóbrega, responsável pela viticultura, sob o olhar atento de Carla Tiago, enóloga dos vinhos do Porto.

A excecionalidade de 2024 resultou, e muito, da especificidade do ano vitícola, clássico em todos os sentidos no território duriense. O inverno caracterizou-se pela pluviosidade abundante; a primavera manteve a presença de algumas chuvas, mas foi o período que mediou entre o início de agosto e a vindima que determinou a singularidade deste ciclo – noites mais frescas que o habitual e uma maturação de puro equilíbrio. A partir de março de 2026, as declarações de um ano Vintage começaram a surgir, revelando, ao mercado, que, após um longo hiato, os grandes clássicos estavam de volta e, por maioria de razão, 2024 havia produzido a exemplaridade deste século.

Com o propósito de contextualizar e comparar com as edições de 2011, 2016 e 2017 da Kopke e Burmester, decorreu uma prova que veio a adjuvar e reforçar a singeleza desta dupla de Vintage. Para Carlos Alves, em termos climáticos, 2024 teve algumas semelhanças com 2021, ainda que 2024 tenham vingado noites amplamente mais frescas e um verão mais comedido. Se falarmos de prova, o diretor de enologia da Kopke elege o polémico ano de 2015, que o setor decidiu não considerar ano vintage, provavelmente pela menor estrutura – mas muito elevada elegância – dos vinhos. Por curiosidade, na Kopke, tendencialmente, aliam-se os anos vintage ao comportamento de excelência da Touriga Francesa. E 2024 cumpriu essa premissa, cumprindo esta casta tinta a sua missão definidora dos lotes dos vinhos aptos à designação vintage.

 

A excecionalidade de 2024 resultou, e muito, da especificidade do ano vitícola, clássico em todos os sentidos no território duriense

Kopke
Carlos Alves

O universo territorial do grupo

As quintas da Kopke constam nas três sub-regiões do Douro: a Quinta do Bairro, no Baixo Corgo, com 25 hectares e cada vez mais vocacionada para as castas brancas; a Quinta da Boavista e a Quinta de São Luiz, no Cima Corgo; e a Quinta do Arnozelo, no Douro Superior. No conjunto, são 250 hectares de vinha, ainda insuficientes para as necessidades de vinificação, motivo pelo qual existem protocolos duradouros de fornecimento de uva com cerca de 300 viticultores.

A Quinta do Arnozelo é a propriedade com maior área, possuindo 95 hectares de vinha, cabendo a restante paisagem ao amendoal, ao olival e às laranjeiras. É daqui que nascem os vinhos Burmester. Plantada nos anos 90 do século XX, tem como encepamento dominante a Touriga Francesa e a Touriga Nacional. Entretanto, na reconversão realizada em 2010, a Alicante Bouschet passa a conquistar maior área à custa da diminuição da Tinta Roriz. A Sousão também tem vindo a ganhar maior destaque e, numa perspetiva experimental, têm-se plantado variedades brancas, preferencialmente nas cotas altas, onde a temperatura é mais baixa.

Não obstante a exposição maioritariamente a este e norte, com declives menos pronunciados, as elevadas temperaturas são uma constante no verão, fator que se reflete no perfil dos vinhos do Porto e nos tranquilos. A vinificação é feita a partir de uva colhida parcela a parcela, definindo-se a vindima de acordo com o destino da uva, ou seja, se é para Porto ou vinhos DOC. O rigor é comprovado pelo registo exaustivo das datas, pela natureza dos trabalhos, pelo rendimento de cada parcela, pelo rumo das uvas e pela monitorização de quem executa cada ação. Esta compilação de dados permite não apenas criar um histórico detalhado de cada parcela, mas também definir os procedimentos de colheitas futuras de um modo mais exato.

 

Os 250 hectares de vinha são insuficientes, motivo pelo qual existem protocolos duradouros de fornecimento de uva com cerca de 300 viticultores

 

Por seu turno, os vinhos do Porto com a chancela Kopke, são oriundos da Quinta de São Luiz, situada no Cima Corgo, resultante da junção de cinco quintas, que, no seu tudo, favorecem da exposição maioritariamente virada a norte. Amplamente recortada, quase totalmente ocupada com vinha e dada a sua centralidade, e bons acessos, esta propriedade é o epicentro do desenvolvimento de vários estudos, alguns deles de âmbito internacional, designadamente referentes ao solo e à condução das plantas. O campo experimental foi delineado em 2016, privilegiando o estudo de castas semi extintas ou com atual pouca expressividade no Douro, designadamente as que foram descobertas e catalogadas nas vinhas velhas.

A nova filosofia implementada na Kopke é diametralmente distinta da tendência vigente de afunilamento das opções de castas para a vinificação. De modo a promover uma crescente diversidade, o grupo aposta em experiências centradas em microvinificações, para melhor compreender o potencial das castas a incluir em lotes futuros, promovendo a diversidade ao invés de uma quase uniformização do perfil dos vinhos. Carlos Alves insiste na necessidade de preservação de um património genético de diversidade de castas ainda existente no Douro. Na verdade, muitas destas variedades foram esquecidas e rejeitadas em estudos vitícolas realizados nos anos 80, cujo foco estava apenas em cinco castas, o que causou, em muitos casos, no quase desaparecimento de muitas variedades ancestrais, as quais estão, agora, em processo de recuperação.

As próprias alterações climáticas absolutamente inegáveis obrigam a repensar o encepamento, precavendo o futuro no que à produção de Vinho do Porto diz respeito, dando maior relevância às castas que aportam acidez aos vinhos, tão necessária numa região onde imperam variedades com rápida degradação dos ácidos por força das temperaturas cada vez mais elevadas.

O ano Vintage da Burmester e da Kopke

Os vinhos do Porto Burmester exibem uma marca identitária muito própria, que não é alheia à sua origem no Douro Superior. Se até há alguns anos imperava a trilogia Touriga Nacional, Touriga Francesa e Tinta Roriz, entretanto, passou a entrar na equação a, cada vez mais plantada no Douro, Alicante Bouschet, a conferir-lhe mais corpo e concentração. De um modo geral, os Burmester caracterizam-se pelas intensas notas florais e muita concentração de cor, com fruta já bastante compotada.

 

O grupo aposta em experiências centradas em microvinificações, para promover a diversidade ao invés de uma quase uniformização do perfil dos vinhos

 

No Kopke Vintage 2024, há toda uma outra singularidade, decorrente de dois fatores essenciais: a maior frescura da sub-região do Cima Corgo, aliada às características do ano vitícola, e a presença de vinha velha em 75% do lote. O perfil é mais profundo, ainda em contenção aromática, mas com uma exibição de perfeição espantosa, resultante dos múltiplos cuidados inerentes a uma vindima feita por etapas na vinha velha, de modo a colher cada uva no seu mais completo e equilibrado estado de maturação.

Há uma unanimidade perfeitamente justificável na declaração de 2024. Os vinhos, tão jovens e cheios de vida, são notáveis no presente e auguram um enobrecimento em garrafa que lhe perspetiva provas de sonho.

(Artigo publicado na edição de Agosto de 2026)