ATAÍDE SEMEDO: A visão de um veterano da Baga

Ataide Semedo

O nascimento de Ataíde Semedo para o sector dos vinhos inicia-se, precisamente, a 1 de Janeiro de 1978. Apreciador das coisas boas da vida errante da juventude e da frequência de um curso de Engenharia Mecânica nos tempos quentes do pós-25 de Abril, Ataíde Semedo vê nas Caves São Domingos, empresa que teve o seu […]

O nascimento de Ataíde Semedo para o sector dos vinhos inicia-se, precisamente, a 1 de Janeiro de 1978. Apreciador das coisas boas da vida errante da juventude e da frequência de um curso de Engenharia Mecânica nos tempos quentes do pós-25 de Abril, Ataíde Semedo vê nas Caves São Domingos, empresa que teve o seu tio-avô como fundador e o seu pai como um dos sócios, um futuro promissor. O pai era industrial metalúrgico e, não obstante ser sócio da empresa bairradina, a ligação ao sector dos vinhos era nula. Ao pai disse que não lhe queria gastar mais o dinheiro num curso superior para o qual não estava fadado e, não querendo despender mais tempo nos bancos da universidade, ruma ao conforto das caves da aldeia de Ferreiros, no concelho de Anadia, que, afortunadamente, estavam paredes meias com a casa de família. Bem melhor opção que ir para a construção civil!

Na faculdade, apenas a cadeira de química o seduzia – observar a magia das reações obtidas a partir das mais diversas combinações. A partir de então, nasce uma vocação, que passa a ser praticada nos laboratórios, apadrinhado pelo enólogo da Caves São Domingos à data, Mário Pato, filho do enólogo homónimo que revolucionou a enologia nacional na primeira metade do século XX.

À data, a Caves São Domingos era liderada por Lopo de Freitas, que defendia a velha prática da Bairrada de comprar vinhos por toda a região, afinando-os na adega, para posterior comercialização. Ataíde Semedo pensava de um modo diametralmente diferente. O mundo já buscava vinhos com outra minúcia e qualidade. Para alcançar isso, mostrava-se necessário controlar o processo desde a vinha à adega, algo que apenas se alcançaria com a aquisição de vinha e um olhar mais presente sobre todas as opções da viticultura. Não tendo logrado convencer a administração da Caves São Domingos de que esse era o caminho correto, Ataíde Semedo ali permanece até 1987, data em que se dá a rutura com a empresa por divergências de estratégia sobre aquilo que entendia ser o futuro da Bairrada enquanto produtora de vinhos absolutamente diferenciadores.

Por conseguinte, em contraciclo com a região, que vivia tempos nebulosos e muitos produtores arrancavam ou abandonavam vinha, Ataíde Semedo entendia que era a melhor altura para investir em vinhas próprias e abandona a empresa.

 

1987, o ano da Rigodeira

A saída de Ataíde Semedo da Caves São Domingos dá-se a 1 de abril de 1987 e o futuro foi gizado nesse mesmo dia. Entregando a carta de demissão pelas nove horas da manhã, em Ferreiros, dirige-se ao Centro de Saúde de Anadia, onde bate à janela do consultório do seu amigo e colega de longa data, Almeida e Silva, médico local, mais conhecido por “Dr. Pardal”, cuja ligação aos vinhos da Bairrada lhe vinha por intermédio da mãe, detentora da “Casa de Saima”, projeto ao qual deu continuidade. Almeida e Silva já há muito que desafiava Ataíde Semedo para um projeto comum e ali, no consultório, fica pré-definido o futuro. Pouco tempo depois, reúnem-se com o reputado médico fogueirense Joaquim Barros, já de idade avançada, propondo-lhe a compra da Quinta da Rigodeira, à época com uma dimensão de seis hectares. A compra faz-se por um preço amigo e com um prazo de pagamento dilatado. Joaquim Barros vê naqueles dois amigos um futuro promissor.

O início é auspicioso. Aquelas vinhas possuem todo o potencial para produzir belos brancos e tintos grandiosos. Logo na primeira colheita, o Quinta da Rigodeira branco ganha o primeiro Prémio do Concurso de Vinhos da Bairrada e o Quinta da Dôna tinto, da colheita de 1991, arrecada distinções em todas as competições nacionais e internacionais, nascendo ali o mito.

O renascimento do Quinta da Dôna

É absolutamente incontornável para a carreira de Ataíde Semedo, e mesmo para a história dos grandes tintos da Bairrada, falar dos Quinta da Dôna. A história, porém, é simples e está conectada com a natureza das coisas. Em 1991, Ataíde Semedo vinifica isoladamente uma parcela da Rigodeira, conhecida como “Quinta da Dôna”. Ao contrário do que é comum nas vinhas velhas da Bairrada, possuindo estas cerca de 70 anos, não há outras castas misturadas com aquela que assume maior preponderância, a Baga. A segunda experimentação da vindima de 1991 é criar dois modelos de tintos distintos: um vinificado com engaço e um segundo vinificado com uva desengaçada. Este último dá origem, após um estágio longo em barricas, ao primeiro e exclusivo Quinta da Dôna.

A designação Quinta da Dôna, escolhida pelos dois parceiros, resulta em várias colheitas memoráveis, entre elas a de 2001, as quais, e à semelhança do distinto Barca Velha, apenas são lançadas para o mercado nos anos em que se atinge o esplendor qualitativo. O projeto Quinta da Rigodeira/Quinta da Dôna termina em 2002, dada a insustentabilidade do mesmo, pela sua dimensão de 23 hectares, excessiva para o modelo de vinhos e espumantes que Ataíde Semedo pretende criar. Nesse ano, ocorre a alienação à Caves Aliança, que fica igualmente detentora das marcas referenciais. Entretanto, há cerca de dois anos, a vinha, de onde eram oriundos os vinhos Quinta da Dôna, é arrancada, presumivelmente por ter atingido o seu tempo máximo de vida com produções de qualidade.

As características daquela vinha eram muito especiais, mas perfeitamente replicáveis para Ataíde Semedo. No renovado projeto em nome próprio, regressa às dimensões originais, com a aquisição da propriedade de Vale de Carros. A marca Quinta da Dôna também lhe regressa às mãos por caducidade do registo da mesma por parte do anterior detentor, mas, para o renascimento das cinzas da marca mítica, havia que apurar as condições naturais que a levassem a resultados semelhantes àqueles que outrora haviam sido alcançados. Nestas coisas de criar qualidade distinta, só o insuperável fator tempo pode trazer a confiança inabalável.

Plantando as vinhas de Vale de Carros em 2001, só em 2018 Ataíde Semedo entende ter alcançado o nível de maturidade das mesmas e da específica parcela de Baga, para poder voltar a, com galhardia, usar a designação Quinta da Dôna a um vinho da sua lavra. Convenhamos, a Baga continua a ser, na Bairrada, uma casta dada a humores muito especiais, alcançando a excelência apenas em anos em que os astros do clima se conluam, para trazer as temperaturas ideais, a pluviosidade no tempo certo e nunca em setembro, e os ventos que afastam as maleitas da vinha e a humidade relativa.

Após a colheita de 2018, a primeira das vinhas novas de Vale de Carros, sucede-se a de 2020, já esgotada, e, depois de um hiato entre 2021 e 2024, torna a surgir a edição de 2025, um ano, a todos os níveis, perfeito, com lançamento previsto para finais de 2027.

Indagado sobre as diferenças entre os clássicos e os atuais Quinta da Dôna, Ataíde Semedo tende a não os diferenciar e explica-nos. A Baga da vinha velha da Quinta da Rigodeira provinha de plantas com produção muito diminuta por natureza. Nas vinhas novas (agora com mais de 20 anos), o produtor mimetiza o comportamento da vinha velha, realizando uma monda muito expressiva – a planta tem, aproximadamente, 15 cachos –, colocando, no chão, uma média de 10 cachos por cepa, deixando apenas cinco. Como uma vinha nova não possui as mesmas reservas de uma vinha velha, a única forma de lhe imitar o comportamento com maior concentração e uma melhor, mais equilibrada e mais precoce maturação, evitando os excessos para não lhe dar um carácter de sobrematuração, preservando-lhe a frescura inerente à sua elevada acidez natural, é, ainda em verde, diminuir-lhe substancialmente a carga. A prática desta monda severa é realizada apenas no melhor talhão de Baga da vinha. Noutros, a monda é muito menos expressiva, permitindo a maturação total de cerca de oito a 10 cachos por videira.

Um Quinta da Dôna, para a roçar a perfeição, tem de ter, em jovem, características em excesso: ácidos, álcool, cor e taninos. E são as reações químicas que se operam no processo de envelhecimento que lhe vão trazer a elegância e a singularidade única de um grande Baga. Uma espécie de pacto de não agressão entre os excessos, para uma paz duradoura e futura.

Há novas tendências de vinhos inteiros, fermentados com engaço, mas cujo perfil não convence Ataíde Semedo. Definitivamente, os taninos libertados pelo engaço nunca são positivos por terem sempre um carácter herbáceo. Um vinho nobre tem de ser desengaçado, a menos que se queira um resultado mais rústico, característica que a Baga já possui em demasia. A sua experiência no Dão, onde colabora com umas das mais reputadas casas da região, mesmo com outras castas tintas, fá-lo não prescindir do desengace. Olha para o engaço como um espinho cravado numa mão. É um elemento estranho e que em nada beneficia, de modo que, o melhor é mesmo extirpá-lo.

Vinha de Vale de Carros

Nas opções e filosofia de Ataíde, nada é fruto do acaso, tal como não o é a aquisição da propriedade de Vale de Carros. A proximidade com a “sua” Rigodeira e a Quinta da Dôna está ocultada por uma pequena faixa de arvoredo. A distância entre ambas está entre os 300 e os 400 metros. Mas o mais relevante para a decisão da compra foi a semelhança na composição dos solos entre as duas propriedades, com uma forte componente de calcário em solos muito pobres, ideais para o plantio da videira, planta a revelar um desempenho maior em condições de stress hídrico e nutritivo.

São cinco hectares onde, de modo rigoroso e objetivo, planta as castas brancas Bical, Cercial da Bairrada e Chardonnay; e as tintas Baga, Touriga Nacional e Pinot Noir. A exposição da propriedade ajuda a moldar a semelhança com a Quinta da Rigodeira, sobretudo para as virtudes que aporta à Baga. A opção pelas outras castas deriva da sua experiência. Para espumantizar, não teve dúvidas. O privilégio de as várias viagens a França lhe terem permitido provar grandes champagnes, retiram-lhe quaisquer dúvidas sobre a óbvia escolha das internacionais Pinot Noir e Chardonnay, variedades melhoradoras da espumantização, com as locais Bical, Cercial e Baga.

A Bical, casta autóctone, surge para dar corpo aos vinhos, enquanto a Cercial traz a frescura e a vibrância, criando o equilíbrio perfeito, não obstante ter uma tendência para a podridão na vinha e oxidação na adega, o que obriga a um trabalho de muita proximidade nos dois locais. De todo o modo, e isso sente-se nos vinhos e espumantes, é a força do terroir que marca indelevelmente o perfil. E Ataíde Semedo já o sabia antes mesmo da aquisição da parcela. O namoro com esta encosta existe desde o tempo em que liderava a Rigodeira. Os antigos falavam muito nela e gabavam-lhe o potencial. Em segredo, e logo após a venda das vinhas antigas que lhe dá a disponibilidade financeira que anteriormente não possuía, começa o processo negocial de aquisição daquela montra, pertencente a 18 viticultores, num rendilhado de pequenas parcelas. Um trabalho árduo que demorou dois anos e meio a ser concluído, com muitas peripécias pelo meio.

As expetativas são elevadas para aquela propriedade de exposição a sul, contemplando-a com o sol desde as primeiras horas da matina até ao pôr-do-sol. As vinhas, muito velhas, estão decrépitas, com uma produção absolutamente residual e de baixa qualidade. Arranca a totalidade da área de vinha logo no ano de aquisição e, um ano mais tarde, em 2003, realiza o primeiro plantio, que requer um cuidado muito especial. Com o rigor que exigia a si próprio, não hesita em enviar todas as varas para um viveirista reputado em França, onde são enxertadas e regressam, já em 2004, em plantas. Os clones das castas portuguesas – Baga, Touriga Nacional, Bical e Cercial – são submetidos a uma seleção massal, todos enxertados nos porta-enxertos por si escolhidos, tendo, na base, a tipologia do solo, o porta-enxerto, as características da casta e o clone da mesma. Da Baga seleciona ainda clones de vinhas muito velhas do Dão; os 35 melhores clones da Estação Vitivinícola da Bairrada e os clones de Bical e Touriga Nacional são oriundos do Centro de Estudos de Nelas, onde conta com a preciosa da engenheira Vanda Pedroso. O mesmo critério de exigência teve-a na escolha dos clones de Pinot Noir e Chardonnay, os mais aptos e exclusivamente utilizados na produção de espumante.

 

Espumantes e Baga

Porque na Bairrada há vida para além dos vinhos de mesa, os espumantes sempre fizeram parte do universo produtivo de Ataíde Semedo. O traquejo técnico trazia-o da conceituada Caves São Domingos. Na Quinta da Rigodeira tinha chegado a engarrafar 30 mil unidades por ano. Com a saída de Almeida e Silva do projeto, fruto de uma atividade profissional intensíssima como médico, aliada à gestão da Casa de Saima, Ataíde Semedo entendeu que estava na altura de abrandar.

Apaixonado pelas castas internacionais Pinot Noir e Chardonnay, Ataíde Semedo nunca escondeu a paixão pelas virtudes da Baga na espumantização, não crendo, no entanto, que a rainha da Bairrada pudesse mostrar, assim, tanta realeza em espumante extreme da casta. Na Rigodeira, a Baga “descorada” entrava, em segredo, nos lotes de Maria Gomes e Bical, correspondendo, à data, a cerca de 30% da composição do espumante.

As vindimas realizadas em Champagne trouxeram-lhe o conhecimento de vinha e adega no processo de espumantização, e a convicção de que, para fazer espumantes de elevada qualidade na Bairrada, as castas Chardonnay e, sobretudo, Pinot Noir são imprescindíveis, ainda que usadas em lote com outras grandes castas locais. Atualmente, o produtor já não usa a Baga para espumantizar, entendendo que a pequena dimensão de área de vinha que detém e a qualidade que possui para vinhos tranquilos, tornaria mal empregue o seu uso nos espumantes. Ora, se escolhe os melhores clones, os melhores porta-enxertos e os melhores solos, tem de potenciar a casta naquilo em que ela é, criar vinhos tintos de referência mundial. E essas virtudes redundam da capacidade de envelhecimento inigualável, após mostrar muita discrição na juventude, com aromas fechados, engrandecendo com a idade, à semelhança do Nebbiollo (casta tinta italiana).

Com as alterações climáticas, a Baga tem saído bastante beneficiada. Há uma notória antecipação da maturação alcoólica, permitindo colher a uva com um teor provável superior a 13% volume sem que daí resulte uma perda da acidez natural da casta, facto que, segundo o produtor, ocorre em situação de sobrematuração (acima de 14% de álcool provável). Ataíde Semedo não crê muito em vinhos tintos elaborados exclusivamente com Baga de baixo teor alcoólico. Note-se que os Quinta da Dôna, dos quais damos como exemplo as colheitas de 2001 ou 1992, que possuem 13,5% volume alcoólico e foram – e são – vinhos enormes, aos quais o tempo emprestou o glamour e a elegância apenas ao alcance dos maiores. Lá para o final de 2027, voltaremos aqui para provar a mesmo muito auspiciosa colheita de 2025, vinho que, certamente, honrará a fama e a glória dos míticos Quinta da Dôna.

(Artigo publicado na edição de Abril de 2026)

CASA RELVAS: Em casa dos Alexandres

Casa Relvas

A Casa Relvas é uma empresa multifacetada. Mais conhecida pela produção de vinhos, a empresa também está ligada à produção de azeite e pecuária, e Alexandre V ainda tem um gosto especial por cavalos. Além disso, são muitos os borregos criados na Herdade de São Miguel, propriedade agrícola localizada no concelho do Redondo, na região […]

A Casa Relvas é uma empresa multifacetada. Mais conhecida pela produção de vinhos, a empresa também está ligada à produção de azeite e pecuária, e Alexandre V ainda tem um gosto especial por cavalos. Além disso, são muitos os borregos criados na Herdade de São Miguel, propriedade agrícola localizada no concelho do Redondo, na região do Alentejo, apenas para produção de carne, e muitos os quilos de uva que entram na adega desta propriedade alentejana (ver caixa).

Tudo começou, claro, pela produção de vinhos tintos, numa época em que esses eram os mais procurados. O tempo encarregou-se de mostrar que os gostos do consumidor não são um caminho a direito, que vão mudando. Se nos anos 80 e 90 do século XX se imaginasse que os brancos teriam tanta aceitação, muita coisa diferente se teria feito no Alentejo. Porém, essa era a época em que os estatutos da região eram muito pouco flexíveis, obrigando ao plantio de castas, como Trincadeira, Aragonez e Castelão – então conhecida como Periquita –, nos tintos, ou Roupeiro, nos brancos, em percentagens elevadas, para poderem ter direito à Denominação de Origem, e em que, por exemplo, a Alicante Bouschet não estava incluída nas variedades recomendadas e apenas autorizadas. Na lista das brancas estavam incluídas castas hoje muito pouco referenciadas, como Tamarez ou Rabo de Ovelha; mesmo a Antão Vaz estava muito confinada à região da Vidigueira. Outros tempos.

A gestão continua a ser familiar, entre o pai Alexandre e Alexandre V, que entrou em 2006 (já com formação em viticultura e enologia), agora ajudado pelo irmão que faz parte do projecto desde 2019. O negócio teve necessariamente de se diversificar, com um foco muito forte na exportação, que absorve, actualmente, 60% da produção. Os principais mercados – anualmente abrangem cinco milhões de garrafas – continuam a ser a Suécia, a Finlândia, a Bélgica e o Brasil. Como é natural e se imagina, os vinhos de maior produção são desenhados ao gosto de cada um dos mercados. Alexandre não esconde: “temos de colocar algum açúcar residual em muitos vinhos, mais em tintos que em brancos; não há volta a dar. A malta gosta de coisas doces, nomeadamente na restauração e grandes superfícies. Estamos a falar de cinco gramas de açúcar por litro, mas podemos, por vezes, ir até aos nove gramas. E não nos esqueçamos que, para a Polónia, chegam a ir vinhos com 60 gramas de açúcar por litro! Curiosamente, nos brancos há menor apetência pela doçura residual, porque se bebe muito fresco. Se a quantidade pretendida o justificar, podemos ajustar o perfil ao gosto do cliente.”

Perfil actual, vinhas e vinhos

Como se imagina, os tempos da preponderância dos tintos já passou há muito. Hoje, a produção de vinhos brancos não pára de crescer e já corresponde a 30% da produção total, mas “continuamos deficitários”. Os rosés têm adquirido cada vez mais importância, de que são prova os dois rosés da casa, feitos em quantidades já consideráveis (ver notas de prova). A enologia centra-se na Herdade de São Miguel, para os vinhos de gama média/alta, e na Herdade da Pimenta, para o grosso da coluna, nomeadamente os vinhos para as grandes superfícies, muitas vezes com a marca do comprador.

No caso das grandes superfícies, que absorvem cerca de um milhão de garrafas, Alexandre V nota que se está a aumentar a prioridade a vinhos com designativos de qualidade, como ‘Premium’ ou ‘Grande Escolha’, em detrimento dos vinhos a pataco. Contudo, “tudo tem de ser negociado”, confirma, acrescentando que “ainda somos pouco competitivos na vinha, se compararmos com Chile ou Espanha. Mesmo assim, a nossa produtividade média por hectare são 12 toneladas e, às vezes, podemos chegar ao limite estabelecido, que são 15. Mas também sei que se pode fazer um vinho desequilibrado, com produções de três toneladas. Não é por ser uma produção elevada que o vinho é de menor valia. Acho que, no Alentejo, se as produções forem abaixo das seis toneladas por hectare, as contas não saem; só se forem parcelas familiares, em que a família ajuda, etc. Se for profissional, não dá”. Continua a haver muita procura de uva branca, que tem sido paga até €0,55, e a uva tinta, com alguma qualidade, paga a €0,50.

Para vinhos de volume, diz-nos, “temos e acreditamos na Fernão Pires, que funciona muito bem e, claro, temos Antão Vaz e Arinto. Temos um pouco de Verdelho e Sauvignon Blanc. Faz sentido comercialmente, até porque, na restauração e no enoturismo, há muita procura por monocastas. Nas tintas, a Alicante Bouschet e a Trincadeira são as que têm mais expressão, mas também temos Touriga Francesa, Touriga Nacional e Syrah, que funcionam muito bem em rosé”.

A Trincadeira é das castas que mais gosta de trabalhar. “Ela aguenta muita produção, mas não a podemos deixar produzir o que quer, porque, depois, o consumidor não aceita. Tem pouca cor e o vinho fica demasiado ligeiro no corpo. É casta para se ficar nas quatro toneladas por hectare; já a Alicante Bouschet vai facilmente às 12 toneladas, para vinhos de €5, por exemplo. Em venda ao público, abaixo de €4 ou €5 é difícil. A esse preço, se estivermos a falar de vinho com volume, já se pagam contas, mas, enquanto nós aqui valorizamos os nomes e as empresas, um inglês que chega ao supermercado, o que quer é vinho bom e barato. Sabe lá se é Ferreirinha ou Niepoort. Se encontrar um Alentejo a metade do preço do Douro, não hesita. Eu, se fosse produtor do Douro, estaria muito preocupado.”

Inovações e ambiente

Na Casa Relvas, cerca de 95% da vindima já é mecânica. Por exemplo, a poda, nomeadamente para rosés, já é feita mecanicamente, com leitura óptica; depois só se passa para tirar as hastes dos arames. Em contrapartida, a vinha que dá origem ao vinho do Pé de Mãe é submetida a uma vindima feita manualmente, porque fermenta com cacho inteiro.

A renovação dos componentes do solo é outra das acções implementadas pela Casa Relvas, desta feita, com o objectivo de melhorar o perfil aromático dos vinhos; e estão a usar cada vez mais os drones para adubação, porque, por enquanto, não é possível usar para tratamentos fitossanitários – há uma directiva europeia que equipara os drones e as aeronaves, mas o assunto está em vias de nova abordagem, por forma a distinguir ambos. Alexandre informa-nos que também têm tractores autónomos, eléctricos e sem condutor. Há já um grupo fixo de imigrantes nepaleses a trabalhar, mas, mais do que a língua, “é sempre um sarilho conseguir ter toda a documentação certinha e em dia”, confessa.

“Mudámos e melhorámos também o uso das madeiras, com mais tonéis e menos barricas”, informa. No caso das talhas, “já fizemos alguns vinhos, sim, mas cada vez mais entendo que fazer um vinho de talha não é só fazer mais um vinho, é uma forma de vida e isto cada um deve estar onde deve, e não creio que seja por aí o nosso caminho”.

Por aqui, seguem-se igualmente as indicações do Programa de Sustentabilidade dos Vinhos do Alentejo, com preservação ambiental, bem como melhoria e diversidade de flora e vida nos solos, bem como compras preferencialmente locais. Acresce a distribuição de 10% dos resultados em acções sociais. “Temos também muita oliveira, fazemos muito azeite e fazemos prestação de serviços para quem não tem lagar.” É um negócio difícil (perecível) e há um preço de bolsa, que manda no preço do azeite, mas em extensão é rentável. Já para os olivais antigos, Alexandre não tem dúvidas: “só se se vender muito caro é que vale a pena.”

Seguindo o (mau?) hábito dos consumidores, parece que os brancos só são valorizados se forem da colheita anterior. “Já me começam a perguntar pelos 2025”, afirma. O pior mercado externo nesse aspecto é a Alemanha, porque “se enviar uma palete de branco de 2024, devolvem”, ao contrário da Bélgica, que aprecia vinhos com alguns anos.

Fizemos uma prova alargada, ainda que não total, do portefólio da empresa. Ao gosto do produtor, provámos dois vinhos mais antigos, um Herdade de São Miguel Reserva 2011 e um 2014. Este último revelou-se mais interessante e vibrante em detrimento do 2011, um pouco mais caído, ainda que tenha sido um ano muito badalado. Entretanto, e em jeito de alinhamento do legado da Casa Relvas, Alexandre V espera que, o ainda pequeno, Alexandre VI continue a saga familiar.

 

Tudo começou em 1997

Casa Relvas
Adega da Herdade de São Miguel

O bisavô de Alexandre partiu para Angola com 14 anos e foram três as gerações que lá estiveram, na zona de Malange. Tinham negócios ligados à agricultura e à pecuária. O pai Alexandre estava a estudar Gestão, em Portugal, aquando do 25 de Abril. Da parte da mãe, a família era da Beira Interior, já com marca de vinhos: Cruz de Almeida. O bisavô era da Vermiosa. Após o retorno de Angola, a família adquiriu a Herdade de São Miguel em 1997, localizada na zona do Redondo. Esta quinta confinava com as propriedades da família Roquevale.

A primeira tarefa foi replantar na propriedade 100 hectares de floresta, com sobreiros, e 10 hectares de vinha, com as castas então autorizadas – Trincadeira, Aragonez e Castelão. Pouco tempo depois, plantaram Alicante Bouschet. Tudo começou com a venda de uvas ao Esporão. A adega só foi construída em 2003. Outras compras se sucederam: a Herdade da Pimenta, no concelho de Évora, com 60 hectares de vinha, outra na Vidigueira, com 70 hectares, já em produção no sopé da Serra do Mendro, e ainda outra em Alcácer do Sal, onde se produz pinhão. Alexandre V confessa que o pinhão não é grande negócio, uma vez que “60% do rendimento vai para a apanha. É como a cortiça, com jornas de €120. É verdade que é um trabalho de cirurgião que, se for mal feito, estraga muito o sobreiro”, confessa.

Actualmente, gerem 350 hectares de vinha própria e compram uvas proveniente de mais 400 hectares, com assistência técnica a alguns deles. É que uns têm um hectare e outros 70. Varia muito. Alexandre V reconhece que, não sendo tudo vinha própria, consegue-se gerir uma área tão extensa. Ao todo, estamos a falar de oito milhões de garrafas.

(Artigo publicado na edição de Abril de 2026)

GRANDE PROVA: Arinto de Norte a Sul

Arinto

Casta muito vetusta em Portugal, foi descrita pela primeira vez em 1712 por Vincenzo Alarte, na obra Agricultura das Vinhas, onde é referida como uma variedade serôdia. A sua grande variabilidade intravarietal, sobretudo na região do Oeste, com destaque para Bucelas, não deixa dúvidas quanto à sua antiguidade e provável origem nacional. Ao longo do […]

Casta muito vetusta em Portugal, foi descrita pela primeira vez em 1712 por Vincenzo Alarte, na obra Agricultura das Vinhas, onde é referida como uma variedade serôdia. A sua grande variabilidade intravarietal, sobretudo na região do Oeste, com destaque para Bucelas, não deixa dúvidas quanto à sua antiguidade e provável origem nacional. Ao longo do tempo, foi-se espalhando por várias regiões do país, sendo mencionada por diversos autores na Beira, no Douro, na Estremadura e no Minho (1790), em Évora, Arruda, Torres Vedras, Colares e Carcavelos (1866/67), e em Portalegre (1900).

Os progenitores da Arinto continuam, oficialmente, a ser um mistério genético. Segundo a explicação do investigador e curador do INIAV – Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, Jorge Cunha, embora existam estudos baseados em nove marcadores moleculares (chamados microssatélites), estes permitem estabelecer compatibilidades genéticas, mas não são suficientes para confirmar, de forma inequívoca, um parentesco directo. Em bases de dados científicos, como o Vitis International Variety Catalogue (VIVC), a Arinto permanece sem pedigree confirmado. Apesar de ter adquirido algumas sinonímias em terras por onde se espalhou é, ainda assim, mais conhecida pelo seu nome original. Pode mencionar-se apenas um sinónimo relevante, Pedernã, oficialmente reconhecido na região do Minho, embora, actualmente, muitos produtores prefiram usar Arinto nos rótulos. O mais importante é não a confundir com outras castas homónimas: a Arinto do Interior, no continente, e a Arinto dos Açores (igual à Terrantez da Terceira), com as quais não tem qualquer ligação genética.

 

Historicamente gloriosa

Esta casta branca foi outrora muito famosa, fortemente associada à zona da sua origem, Bucelas. No século XIX, exportava-se vinho feito a partir de Arinto para Inglaterra, o qual era vendido nos pubs a copo, ao mesmo nível do Vinho do Porto, Xerez, Champagne ou Claret, como descreve o comerciante e escritor britânico Charles Tovey, no seu livro Wine and Wine Countries, em 1862.

A referência aos vinhos de Bucelas também surge no livro do escritor e jornalista britânico Henry Vizetelly, Facts about Port and Madeira, publicado em 1880, caracterizando-os como “notavelmente frescos no sabor, com um ligeiro tom esverdeado na cor (…) os vinhos mais antigos eram mais redondos e aromáticos; o seu sabor, mais pronunciado, deixava um final macio, com notas de amêndoa. Certamente não é fácil encontrar vinhos mais puros do que estes. Sendo os melhores vinhos da sua classe, eram enviados para Inglaterra sob a designação El Rey – Royal Bucellas Hock”. O mesmo autor, viajando até Bucelas, recorda-se de provar “um Arinto muito seco e com carácter de noz, com um final agradavelmente picante.”

Hoje, não só em Bucelas, mas em toda a região vitivinícola de Lisboa, embora não seja a casta mais plantada, a Arinto continua a ser muito importante em termos de qualidade e é apreciada por numerosos produtores, que a utilizam em vinhos monovarietais.

 

Expansão territorial

Uma das grandes vantagens da casta é que ela não se importa de viajar para outras paragens e consegue adaptar-se a solos e condições mais diversos: desde os argilo-calcários, nas regiões de Lisboa e da Bairrada, aos xistosos, no Douro, passando pelos graníticos, no Minho e pelos de natureza mais variada, no Alentejo. Por onde passa, leva sempre o seu cartão de visita: a capacidade de construir vinhos com uma estrutura ácida vibrante, mesmo em climas mais quentes, onde esta característica é particularmente apreciada.

Na região do Tejo, a Arinto é parceira frequente da Fernão Pires que, por vezes, carece de frescura natural. Antonina Barbosa, enóloga e Directora-Geral da Falua, confessa ser uma grande defensora da casta e já há mais de dez anos que produz os vinhos Reserva com Arinto, reconhecendo a sua aptidão para criar grandes vinhos, bem como o seu potencial de envelhecimento. Sabe também que esta casta pode revelar-se muito diferente consoante o local: um vinho de Arinto da sub-região do Campo distingue-se do da Vinha do Convento, com calhau rolado e uma boa drenagem.

Na Bairrada, mostra o seu lado mais salino e calcário, com uma frescura nervosa, criando um perfil mais vertical e austero do que em Bucelas. E isto sentiu-se bem na prova. O produtor Carlos Campolargo também sempre apreciou a casta, desde que, ainda jovem, provou os vinhos trazidos em garrafões de Bucelas.

No Alentejo, a Arinto é absolutamente indispensável como team player, sendo campeã na acidez entre as suas parceiras alentejanas: Antão Vaz, Roupeiro, Perrum e outras.

O produtor Julian Reynolds conta a sua história de “namoro” com a casta. Provou Arinto numa tasca em Portalegre, no início dos anos 2000, e ficou encantado, pensando logo em plantar. No entanto, um conhecido da área de distribuição desaconselhou-o, dizendo que era “uma casta vulgar e que fazer um vinho com ela estragaria o nome Reynolds”. Felizmente, ignorou o conselho, percebendo que “o perfil da serra lhe imprime uma expressão diferente da de outras zonas”.

Nuno Elias, enólogo da Casa Agrícola HMR, sublinha a consistência da Arinto, uma característica que, na sua opinião, é extremamente importante para um vinho monovarietal. “A casta tem de dar um óptimo resultado, pelo menos, oito em 10 anos; com Arinto, eu tenho o histórico de bons vinhos, tenho a qualidade hoje e sei que amanhã também a terei”, afirmou.

No Douro, a Arinto não é tão difundida quanto as variedades típicas da região, como Rabigato, Códega, Viosinho, Códega do Larinho e Gouveio, entrando estatisticamente na categoria de “outras castas”. Provavelmente por isso, quando a Menin lançou o seu primeiro Arinto Grande Reserva, houve dúvidas sobre se faria sentido colocar o nome da casta no rótulo. A verdade é que o vinho sempre se mostrou muito aromático e com imenso carácter, convencendo os enólogos e o produtor de que era justo colocar o nome da casta no rótulo, contou o enólogo consultor da casa, Tiago Alves de Sousa.

Na região dos Vinhos Verdes, embora a Arinto esteja bem presente, em termos de notoriedade tem de competir com duas estrelas, a Alvarinho e a Loureiro, que a ultrapassam em plantação e fama. Por isso, o Arinto surge com menos protagonismo nos rótulos, embora seja frequente em lotes. Desempenha muito bem o seu papel nas sub-regiões um pouco afastadas da influência atlântica directa, como Basto e Baião, onde entra em blends com Azal.

Na vinha

Casta muito vigorosa, que, se não for controlada pelo porta-enxerto ou pela baixa fertilidade do terreno, desenvolve grande expressão vegetativa. Devido às folhas grandes, beneficia da desfolha precoce, evitando a compactação da folhagem. “Não é tão produtiva como a Antão Vaz, mas também não há aflição, como no caso da Alvarinho ou Verdelho”, explica Nuno Elias. A produtividade, naturalmente, depende do clone, mas, em geral, é generosa se for bem conduzida. Caso contrário, a videira investe na produção de lenha, podendo tornar-se aneira. A produção recomendada varia entre os 4500 e 8000 litros por hectare.

Em alguns clones, produz particularmente mal nos gomos basais (na base do sarmento). Por isso, o tipo de poda tem que ser adaptado, sendo preferível optar por poda longa ou mista, o que implica maior exigência em mão de obra. Os cachos são grandes, mas poucos por cepa, com bagos pequenos e muito compactos. Para além do míldio, do oídio e de outras doenças criptogâmicas (provocadas por fungos e organismos semelhantes), a casta é muito sensível à cigarrinha verde e à traça. No Alentejo, ainda é sujeita aos ataques do aranhiço amarelo, que, tal como a cigarrinha verde, representa um problema nas regiões quentes e secas. “Desparram as plantas”, conta Nuno Elias, referindo-se à diminuição da área foliar funcional. “Mas no ano passado, com as chuvas intermitentes durante o verão, correu melhor.”

A Arinto prefere solos bem drenados e é relativamente resistente ao stress hídrico. “Película rija, resiste à falta de água”, afirma Antonina Barbosa. Porém, “sendo sensível ao escaldão, a gestão da folhagem é importante”, acrescenta António Maçanita, que trabalha com a casta no Alentejo, no Douro e na região de Lisboa. “Não fica em passa, mas sim uma uva verde escaldada”, exemplifica. Durante o período entre o pintor e a maturação, o enólogo costuma provar os bagos, onde “primeiro aparece fruta neutra, que não sabe a uva, podia ser qualquer outra fruta”. Espera até que o sabor fique definido. Antonina também prefere decidir a data de vindima pela prova do bago, mesmo que analiticamente a uva já esteja pronta. Ao contrário da Fernão Pires, que perde a acidez e queima aromas em 48 horas, a Arinto pode esperar até atingir o equilíbrio na componente aromática, sem comprometer a sua frescura ácida, pois, quando ainda está ligeiramente verde, é muito neutra.

A vindima no Tejo e no Alentejo ocorre, geralmente, desde a última semana de Agosto até à primeira de Setembro. No Douro, realiza-se entre a primeira e a terceira semanas de Setembro, dependendo do ano. Na região de Lisboa, acontece no final de Setembro, já depois de algumas castas tintas.

 

A famosa acidez

A frescura ácida é o cartão de visita da Arinto. Mas, mais do que isso, é a qualidade da acidez e a capacidade de a preservar que merece destaque. Carlos Campolargo, comparando a Arinto com outra casta bairradina, a Cercial, nota que esta última tem maior acidez, mas “a da Arinto é mais rica e constante”. Em estudos comparativos com outras castas alentejanas, como Antão Vaz, Roupeiro, Perrum e Rabo de Ovelha, a Arinto apresenta consistentemente valores de acidez total significativamente mais altos e pH mais baixos, mesmo quando o seu teor de álcool provável também é elevado. Noutras castas, a acidez tende a ter uma forte correlação inversa com o teor de álcool, ou seja, só pode ser elevada em vinhos com baixos teores alcoólicos.

Curiosamente, os mesmos estudos revelaram que a Arinto apresenta relativamente baixo teor de ácido málico, mas um teor elevado de ácido tartárico. Esta distinção é importante: o ácido málico tende a degradar-se durante a maturação da uva, principalmente através da respiração das células do bago, o que se acentua em ambientes quentes. Em contraste, o ácido tartárico é muito mais estável, o que permite à casta conservar a sua frescura ácida mesmo em períodos de maturação avançada, conferindo consistência e equilíbrio aos vinhos produzidos.

 

Na adega

A Arinto há muito que conquistou os enólogos e produtores pela sua plasticidade. Como define Nuno Martins da Silva, enólogo consultor em várias casas da região de Lisboa, “é uma variedade interpretativa, que permite múltiplas abordagens. Tolera bem uma gestão criteriosa do oxigénio e pode beneficiar de curtimentas, desde que suportadas por matéria-prima adequada. Adapta-se e expressa-se com consistência em diferentes vasilhas – inox, cimento ou madeira”. Esta opinião é agregadora e geralmente partilhada por quem conhece bem a casta.

Não sendo exuberante, a Arinto “é uma casta muito pura em termos aromáticos”, descreve Sandra Tavares, enóloga consultora na Quinta da Chocapalha. Possui ainda muitos precursores aromáticos nas películas, pelo que a maceração pelicular pré-fermentativa faz todo o sentido, enfatizando a expressão olfactiva.

Normalmente, com o pH muito baixo (e na Arinto isto não é difícil), a sensibilidade à oxidação é baixa. Contudo, e apesar de ser uma casta branca, pode apresentar teores relativamente elevados de compostos fenólicos, especialmente se houver extracção mais intensa na prensagem ou contacto prolongado com as películas. Estes fenólicos são os principais responsáveis pelo escurecimento ainda em mosto (do amarelo-dourado ao acastanhado) e criam o potencial de oxidação ao longo do tempo. Mas há uma maneira de evitar isto: em vez de proteger o mosto do oxigénio, é deixá-lo oxidar ligeiramente no início, permitindo que os compostos instáveis precipitem logo. Por isso, António Maçanita não adiciona o sulfuroso até ao fim da fermentação, deixando que esta oxidação inicial controlada cumpra o papel de estabilização natural do mosto.

O grau alcoólico provável do mosto é variável consoante o local onde a vinha se encontra instalada, apresentando uma média de 11% em regiões com influência marítima e de 13% em regiões mais quentes, mantendo sempre a acidez firme. O enólogo da Adega Mãe, Diogo Lopes, considera que a Arinto “é bem talhada para fermentação e estágio em barrica, mesmo a madeira nova não se sobrepõe”.  Sandra Tavares prefere barricas muito usadas, praticamente neutras e estágios longos, sendo neste caso 24 meses, e mais 12 em garrafa.  Carlos Campolargo trabalha com barricas usadas de 5 a 6 anos e muito usadas de 10 a 12 anos, e fermenta com leveduras indígenas. Não se importa se, em algumas barricas, ocorre fermentação maloláctica “se lhe apetecer”. Chama a Arinto de “casta deliciosa” e lembra que também é excelente para a base de espumante.

Nuno Martins da Silva também procura “fermentações espontâneas, lentas, a temperaturas em torno dos 20 °C, em casco, seguidas de estágio nesses mesmos cascos sobre borras finas e intermédias.” Vê “a fermentação maloláctica como uma decisão estruturante e dependente do perfil que se procura em cada vinho”. Muitos recorrem a bâtonnage para aumentar a estrutura e a textura do vinho.

Em suma, embora a Arinto tenha sido fortemente associada a Bucelas, pouco a pouco foi perdendo essa dependência histórica e geográfica, afirmando-se noutros territórios vitivinícolas pelo seu próprio mérito. Por outras palavras, temos uma grande casta a nível nacional, capaz de interpretar a região sem perder o seu carácter, cuja qualidade deriva das suas virtudes intrínsecas e da habilidade do produtor em a trabalhar.

Arinto em números

A nível nacional, é a segunda casta branca mais plantada, a seguir à Fernão Pires. Segundo dados recentes do Instituto da Vinha e do Vinho, ocupa 6084 hectares, o que corresponde a cerca de 4% da área de vinha.

Na viragem do século, a Arinto ainda não figurava entre as 15 castas mais plantadas e praticamente não tinha protagonismo nas regiões vitivinícolas do país, incluindo a Estremadura (actual região de Lisboa), onde reinava a Fernão Pires, acompanhada por Vital, Malvasia Rei, Seara Nova e Alicante Branco. Apenas no Minho, a Arinto tinha alguma preponderância, ocupando 3171 hectares (8%).

Hoje, a casta apresenta-se com destaque em várias regiões: no Minho ocupa 2788 hectares (12%), sendo a terceira casta mais plantada, depois da Loureiro e da Alvarinho; no Alentejo é a segunda, ocupando 1042 hectares (5%), a seguir à Antão Vaz; na região de Lisboa mantém-se no segundo lugar das castas mais plantadas, com 538 hectares (3%), enquanto a Fernão Pires continua a assumir a liderança incontestável, com 11% das plantações; no Tejo ocupa 239 hectares (2%), sendo igualmente a número dois na lista das variedades mais plantadas, logo a seguir à Fernão Pires, apresentando valores muito semelhantes na Beira Interior. No Douro e noutras regiões, estatisticamente, a sua presença não tem expressão significativa.

(Artigo publicado na edição de Abril de 2026)

 

BAGA FRIENDS: Em nome da casta rainha da Bairrada

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O Dia Internacional da Baga “recorda uma vez por ano a grandeza desta casta”. Assim começa esta peça, com palavras de Luís Pato, o produtor da Bairrada mais reconhecido dentro e fora de portas, graças ao trabalho que tem vindo a realizar no âmbito dos vinhos produzidos no referido território vitivinícola, mais concretamente em relação […]

O Dia Internacional da Baga “recorda uma vez por ano a grandeza desta casta”. Assim começa esta peça, com palavras de Luís Pato, o produtor da Bairrada mais reconhecido dentro e fora de portas, graças ao trabalho que tem vindo a realizar no âmbito dos vinhos produzidos no referido território vitivinícola, mais concretamente em relação à casta tinta rainha da região. Essa data, assinalou-se no primeiro sábado de maio,  motivo pelo qual os oito produtores da edição de 2026 prepararam as respectivas adegas, para se manterem abertas das 10h00 às 18h00. São eles Giz by Luís Gomes, Filipa Pato, Luís Pato, Quinta da Vacariça, Quinta das Bágeiras, Quinta de Baixo – Niepoort, Vinhos Sidónio de Sousa e Vadio Wines. Na lista de ações, constam provas de vinhos, petiscos tradicionais e variados momentos, incluindo um arraial no Centro Social, Recreativo e Cultural da Poutena, em Vilarinho do Bairro, no concelho de Anadia.

Parcela, a alma de cada vinho

Por que razão a Baga está intrinsecamente ligada à Bairrada? Será que a região possui as condições ideais para esta casta? François Chasans, produtor francês proprietário da Quinta da Vacariça, em Tamengos, no concelho de Anadia, frisa o seguinte: “no contexto climático atual, a Bairrada apresenta uma das melhores oportunidades de se tornar uma das melhores regiões do mundo. A sua razão principal é a acidez dos vinhos.” Tal atributo resulta da amplitude térmica registada na região e da proximidade ao oceano Atlântico. “Por exemplo, devido a estas condições a Bairrada apresenta uma temperatura média mais baixa 8 ºC do que a região de Bordéus.” Acresce a humidade, que impõe uma atenção redobrada face à viticultura orgânica e biodinâmica. François Chasans refere ainda a complexidade geológica heterogénea, ponto assente na diferença de estilos de cada casa vinhateira.

Mas de que forma podemos aferir o potencial da Baga, sobretudo quando é feita a partir de uvas colhidas em vinhas velhas? A resposta foi dada por Paulo de Sousa, da Vinhos Sidónio de Sousa, que, no evento da apresentação do Dia Internacional da Baga, em Lisboa, esteve representado pelo filho, Afonso de Sousa: “a vinha velha de Baga revela-se pela elegância e harmonia que proporciona no copo de quem degusta. As suas raízes profundas e os seus troncos grossos e desalinhados são testemunho de outro tempo, levando a que, no copo, estejamos perante um verdadeiro museu. Antigo, mas nunca ultrapassado pois a acidez e frescura da casta imprimem longevidade e juventude.” A plasticidade desta variedade tinta autóctone da Bairrada também foi analisada, pois dá corpo a “rosés frescos e jovens, rosés de guarda e gastronómicos, rosés base para espumante rosé de variados estilos, base para espumante tinto, vinhos tintos para se beberem jovens ou néctares longevos”, acrescenta. Apesar da agressividade dos primeiros anos, estes vinhos têm o tempo como aliado, revelando “uma grandiosidade que muito poucos conseguem alcançar”.

Daniel Niepoort, rosto da sexta geração da Niepoort, reforça a versatilidade da Baga, “porque é uma grande casta do mundo” e revela a capacidade que tem em expressar o terroir, ou seja, “traduz o local onde são plantadas e cultivadas as vinhas”. A respeito desta matéria, François Chasans engloba solo, clima, “as pessoas e os empirismos das mesmas”, características que “revelam a alma da parcela através da visão de cada vinhateiro”, realça o produtor da Quinta da Vacariça. O resultado sente-se por meio “de vinhos com características tão díspares”, continua Daniel Niepoort. Até mesmo particularidades, como as que estão associadas aos vinhos Giz, de Luís Gomes, para quem os solos de natureza calcária das vinhas centenárias e o clima atlântico da Bairrada “são cruciais na obtenção do perfil característico dos vinhos Giz, repletos de frescura, tensão e mineralidade, plenos de individualidade e carácter”. Sem descurar a “elegância” e “o perfil de fruta vermelha fresca e de grande concentração e complexidade que a Baga das vinhas velhas proporciona”, enaltece.

Luís Patrão, da Vadio Wines, dá como exemplo o trabalho que tem vindo a desenvolver com a Baga: “no caso do Vadio Espumante Branco Perpetuum, a base vem de uma solera que integra, atualmente, cerca de 18 colheitas. A Baga entra nessas soleras, sobretudo para bases de espumante, tanto no Perpetuum, como no Finuum, onde normalmente cerca de 30% do lote é Baga.” Para o efeito, o produtor bairradino vindima as uvas “relativamente cedo”, com o intuito de obter uma matéria-prima com “boa acidez natural e pH mais baixo. Isso ajuda bastante a manter os vinhos estáveis ao longo do tempo e a controlar melhor um eventual aumento de acidez volátil, que é sempre um dos riscos quando se trabalha com soleras”.

Tempo é, portanto, um factor preponderante na feitura de um tinto feito a partir de Baga que, conforme François Chasans, “é um vinho que transmite emoção ao nível de uma grande pintura ou música, mas para exprimir o seu potencial total é preciso dois anos no mínimo em tonel e 12 anos em garrafa”.

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Passado e presente na comunicação

“Historicamente, a Baga é uma casta difícil”, afirma Mário Sérgio Nuno, nome inteiramente ligado à Quinta das Bágeiras, localizada em Sangalhos, no concelho da Anadia. Segundo Luís Pato, na década de 90 do século XX, a Baga era vista como “uma casta que só criava grandes vinhos de cinco em cinco anos, esquecendo-se que criava grandes vinhos. Logo a culpa não era da casta, mas de quem a trabalhava”. Com a passagem do tempo, a casta tinta tem vindo a conquistar o consumidor, ação reforçada pelos Baga Friends, na opinião de Luís Pato, que, graças à fundação deste grupo de produtores da região, em 2012, se tornou respeitada. Para o produtor da Quinta das Bágeiras, a crescente importância da casta tem a ver com a escolha “do sítio certo, bem como o acompanhamento e o carinho certos tornam o trabalho de elevar a casta possível”. Graças a esta dedicação, o vinho feito a partir de Baga tem vindo a traduzir-se em um produto gastronómico e “com uma grande diversidade de perfis”, na opinião de Luís Pato, dando como exemplo os vinhos produzidos pelos Baga Friends: “vinhos elegantes, que sobrevivem ao tempo”, a mostrar “como são os grandes vinhos do mundo”, enfatiza o decano da produção vitivinícola da Bairrada. Mário Sérgio Nuno partilha da mesma opinião no que ao papel desempenhado pelos Baga Friends diz respeito.

Além-fronteiras, e com a mais-valia de os vinhos monovarietais serem mais facilmente comunicados, Filipa Pato acredita: “quando uma casta está profundamente ligada a um lugar, ela própria se torna a melhor intérprete desse território”. Tal acontece com a Baga da referida produtora bairradina, proprietária de 20 hectares de vinha em Óis do Bairro e em Silvã, no concelho de Anadia, divididos em 37 parcelas trabalhadas em modo biodinâmico e cujos solos são calcários e de origem jurássica. Para facilitar a informação fora de portas, a produtora dá como exemplo comparativo a italiana Nebbiolo, de Piemonte, ou a francesa Pinot Noir, em Borgonha. “Curiosamente, são também regiões onde os solos calcários desempenham um papel fundamental, permitindo às castas alcançar um equilíbrio notável entre estrutura, frescura e longevidade”, acrescenta. Apesar da identidade forte, “na adega, a Baga pede delicadeza”, daí que o casal Filipa Pato e William Wouters opte por “extrações suaves, intervenção mínima e recipientes que respeitam o vinho, como ânforas, pipas de carvalho usadas ou tonéis de grande capacidade, evitando o excesso de madeira”.

Espreite as notas de provas que aqui lhe deixamos, para acicatar a curiosidade…

Luís Pato Vinha Pan tinto 2021 – rubi aberto, no nariz uma expressão típica da Baga, com elegância e sedosidade, fruta vermelha, como framboesa e morango selvagem, em combinação com mentol e caruma, apontamento de aneto; estrutura flexível, denso, nada pesado, com a sua frescura intrínseca, longo e sedoso. (18,5);

Giz Vinha das Cavaleiras tinto 2021 – Baga das vinhas velhas, resultou num vinho impressionante, muito bonito e complexo, com fruta vermelha, abrunhos, caruma, resina e folha de louro, uma nota cítrica e noz-moscada; densidade fluida, tanino bem presente e certamente polido, textura aveludada (18,5);

Quinta das Bágeiras Garrafeira tinto 2021 – fiel a si próprio, com fruta austera, balsâmico e resinoso, com algum musgo, não propriamente encorpado, mas denso; Baga no seu estilo clássico, com grande estrutura e acidez a manter a frescura (18,5);

Sidónio de Sousa Baga Especial Cuvée Espumante rosé 2022 – interessante no nariz, com notas de menta e morango e mais fruta vermelha, muito vivo e suculento, ligeiramente amargo que lhe confere certa garra, com final saboroso (17);

Niepoort Água Viva Baga Espumante Bruto 2020 – cor de rosa muito leve, aroma delicado e bonito, muito bem traçado, com profundidade e complexidade delicada a revelar caroço de cereja, brioche, amêndoa torrada e apontamento vegetal; bolha finíssima, muita cremosidade e frescura (17,5);

Vadio Baga Espumante rosé 2023 – proveniente de uma zona mais húmida, de barro, fermenta em barrica usada, 18 meses de estágio sobre borras; rosa salmão, fruta quase madura a lembrar morango fresco, menta, manjericão, uma nota de gengibre também, fresco, mas cremoso, com bolha bastante fina, delicado no trato, com apontamento mineral e de framboesa (17);

Filipa Pato Post-Quercus Baga tinto 2024, com fermentação e estágio em ânforas; aromático, cativa imediatamente pela fruta nítida, notas de framboesa, morango selvagem e um floral delicado; fino e guloso, apetece beber sem parar (18).

Quinta da Vacariça Baga tinto 2016 – cheira a Baga, pouco corpo e muita estrutura, pouca fruta e muito tanino, denso e directo, carácter vincado, cheio de vida, a chamar à mesa (17).

(Artigo publicado na edição de Abril de 2026)

PICOWINES: Em jeito de comemoração

PICOWINES

Tempo houve em que a vinha era a monocultura da Ilha do Puco. Aqui estamos em terras vulcânicas, pois a Ilha do Pico é a mais recente das ilhas, com “apenas” 300.000 anos, onde a humidade é muita, a influência do mar uma certeza e o crescimento da vinha uma incerteza. Ainda assim, e segundo […]

Tempo houve em que a vinha era a monocultura da Ilha do Puco. Aqui estamos em terras vulcânicas, pois a Ilha do Pico é a mais recente das ilhas, com “apenas” 300.000 anos, onde a humidade é muita, a influência do mar uma certeza e o crescimento da vinha uma incerteza. Ainda assim, e segundo nos informa o enólogo Bernardo Cabral que orientou esta apresentação, a produção chegou a atingir, em tempos pré-filoxéricos, os nove milhões de litros. Com a filoxera, a produção baixou para os residuais 28.000 litros. Resultado? Vinhas abandonadas, currais a ficarem cobertos de mata, mudança de profissão. Na altura, ganhou a baleia e assim foi durante quase todo o século XX.

O reconhecimento por parte da Unesco, em 2004, ajudou e subsidiou o renascimento das vinhas, que ocupam, hoje, nos Açores – com a ilha do Pico à cabeça – o dobro da área de vinha da Madeira. O renascimento do vinho do Pico, agora assente mais em vinhos secos e já não tanto em generosos, levou a que a procura das castas tradicionais aumentasse o suficiente, para se terem pago, este ano, a Arinto e a Verdelho a quatro euros o quilo e a Terrantez do Pico a cinco euros o quilo.

Aqui a vinha vai até à beira-mar, muito fustigada pelo vento, o que ajuda a secar as folhas da videira e obriga a que os muros dos currais sejam suficientemente abertos (apenas pedra sobre pedra), para que o vento possa circular. A produção tem sido diminuta e só em 2025 o Pico voltou a ter uma produção equivalente à de 2019, ajudando a repor os stocks. Os dois vinhos apresentados têm perfis diferenciados. O Arcos Vulcânicos é um Verdelho que tem origem na zona conhecida como Arcos de Santa Luzia (não muito longe da Madalena, a principal cidade da ilha), onde o solo vulcânico de pedra preta é ainda muito evidente; já o licoroso, que é uma edição limitada e comemorativa, com 25 anos de casco, apresenta uma secura interessante (apenas 41 gramas de açúcar por litro) e é tributário da fama antiga dos licorosos do Pico, agora com uma excelente apresentação.

A Cooperativa Vitivinícola da Ilha do Pico dispõe de um elevado stock de vinhos velhos que irão assegurar outros lançamentos no futuro. Ainda não há qualquer decisão sobre uma nova edição. E o portefólio dos vinhos brancos secos, que não foram agora objecto de prova, são em quantidade interessante.

(Artigo publicado na edição de Março de 2026)

MIGUEL LOURO WINES: “Arigato” pela vida

Miguel Louro

De nome e apelido, Miguel Louro é o homónimo do seu pai, produtor de vinhos, bem conhecido no Alentejo. Miguel (filho) nasceu em Lisboa, mas com dois ou três anos mudou, com a família, para Estremoz. Foi lá que desenvolveu um enorme gosto pelo campo. Tendo crescido no meio dos vinhedos, desde cedo se habituou […]

De nome e apelido, Miguel Louro é o homónimo do seu pai, produtor de vinhos, bem conhecido no Alentejo. Miguel (filho) nasceu em Lisboa, mas com dois ou três anos mudou, com a família, para Estremoz. Foi lá que desenvolveu um enorme gosto pelo campo. Tendo crescido no meio dos vinhedos, desde cedo se habituou aos ritmos da vinha e à presença constante do vinho na sua vida. O produtor recorda que ir a Lisboa era um castigo, pois foi “pouco amigo de confusão” e nunca se sentiu atraído pelas grandes cidades. Em contrapartida, sempre gostou de caça, pesca e vinhas. Em miúdo, queria ser taberneiro. “Gosto de vinho, provas, sensações e emoções”, explica. Não foi esse o seu destino: ficou na origem, na produção de vinhos, onde provas, sensações e emoções também não faltam.

Em 2011 plantou a primeira vinha, com um hectare de Touriga Franca e quatro hectares de sete castas brancas (Arinto, Alvarinho, Verdelho, Verdelho da Madeira, Gouveio, Roupeiro e Rabigato), coisa que, confessa, hoje já não teria feito. “Naquela altura achei que sabia tudo, agora não sinto isto”, admite o produtor com humildade. Mas foi uma aprendizagem importante. Das sete variedades que selecionou, plantaria, agora, apenas duas: Arinto e Rabigato. Não é por acaso que são protagonistas de um dos vinhos mais recentes e ambiciosos, e que, claramente, estiveram na origem do nome “Arigato”.

As vinhas ficam em Estremoz e, em termos de solo, variam entre xisto, nas encostas, onde estão plantadas a Gouveio, a Rabigato e a Alvarinho, e solos mais pesados, com bastante argila, no vale, onde estão a Arinto e a Verdelho. O primeiro vinho foi lançado em 2013. “Naquela altura, os típicos vinhos brancos do Alentejo eram fruta tropical, pouco ácidos e chatos”, recorda Miguel Louro. Os vinhos do jovem produtor eram tudo menos “chatos” e “tropicais”: tinham fruta contida e acidez bem pronunciada. Alguns distribuidores até mostraram o seu desagrado. “Fui apelidado de ‘água com ácido’”, recorda Miguel com um sorriso, “mas continuei na minha”. Até hoje mantém a sua convicção, mas já não choca ninguém; é, aliás, um estilo bastante apreciado na restauração e entre enófilos esclarecidos.

A partir de 2024, começou a usar uva tinta de uma vinha nova, com oito hectares, onde tem três castas – Alicante Bouschet, Aragonez e Trincadeira. Miguel Louro está a pensar reenxertar uma parte desta vinha com Rabigato e Arinto.

 

Entre Portugal e a Alemanha

Em paralelo, desenvolveu outro ramo da sua vida profissional. Depois do Instituto Superior de Agronomia, em 2013, Miguel foi fazer o estágio profissional na Alemanha e, em 2016, foi convidado pela mesma empresa para desempenhar as funções de enólogo da casa onde tinha estagiado, a S.A. Prüm. Alguns anos mais tarde, em 2020, iniciou a sua colaboração com a empresa familiar Willems Willems, localizada na parte sul de Mosel, na sub-região do Saar. “Sou Director-Geral, mas faço tudo: viticultura, enologia e vendas”, explica. Têm oito hectares de vinha, distribuídos por 32 parcelas, todas com a casta rainha daquela zona, a Riesling.

Mesmo a viver entre dois países – Alemanha e Portugal –, consegue gerir as duas vindimas, graças à diferença entre elas de seis a oito semanas. Somando as duas propriedades, 80% do vinho que Miguel Louro faz é branco.

Miguel Louro

 

Do Apelido, Primeiro Nome e Alcunha ao Arigato

A produção total da Miguel Louro Wines ronda entre as 20 e as 25 mil garrafas, das quais 50% são de branco e 50% são de tinto. A gama sempre esteve cheia de significados. Começa no Apelido – vinhos de blend, jovens e descomplicados. O Primeiro Nome tem mais identidade do produtor, sendo também de lote, mas com algum estágio e complexidade. Já o nome Alcunha é reservado para os vinhos monovarietais de colheitas especiais e carácter vincado.

A esta família de vinhos juntaram-se agora dois Arigato apresentados em primeira mão. São lotes únicos de edições limitadas com muita personalidade. Miguel explica: “se eu faço um blend e gosto, engarrafo, mesmo que sejam apenas 300 garrafas”. É a vantagem de ser um pequeno produtor. Como o nome remete para o japonês, o símbolo no rótulo também foi inspirado na cultura nipónica. Representa “casa”, conceito que tem muito significado para o produtor.

O Arigato branco 2022 combina a acidez do Arinto com a austeridade e a frescura do Rabigato. Antes da fermentação, foi realizada uma maceração pelicular a frio durante 24 horas; depois, as castas tiveram tratamentos distintos: o Arinto fermentou em barricas de carvalho francês de 500 litros e o Rabigato em barricas de carvalho nacional de 300 litros. O estágio decorreu durante nove meses sobre borras totais, sem bâtonnage. “É o meu perfil. Se tivesse que fazer só um vinho, seria este”, declara Miguel Louro. Foram produzidas 924 garrafas.

O Arigato tinto de colheita 2020 é um 100% Trincadeira. “Acho que comecei a entender esta casta”, partilha o produtor. A maceração pré-fermentativa ocorreu em lagar com pisa a pé. Ao completar o primeiro terço da fermentação, o mosto foi transferido para barricas de 225 litros de carvalho francês de terceiro uso, onde também fez a fermentação maloláctica. “Depois do primeiro ano do estágio, provei o vinho e achei que precisava mais. Ficou 42 meses em barrica, sobre borras totais”, explicou. Depois de engarrafado em 2024, passou mais um ano e meio em garrafa até o produtor sentir que o vinho estava pronto para entrar no mercado. Foram produzidas 504 garrafas.

(Artigo publicado na edição de Março de 2026)

JOÃO TIQUE: O culto do vinho do Alentejo

João Tique

João Tique há muito que cultiva uma relação, direta e indiretamente, com o vinho. Inicialmente, através da indústria de preparação da cortiça e, mais tarde, o sector da distribuição, em Macau. O fascínio pelo mercado asiático determinou a criação da empresa Portuguese Topwines, com o objetivo de levar, para outras latitudes, vinhos produzidos. No âmbito […]

João Tique há muito que cultiva uma relação, direta e indiretamente, com o vinho. Inicialmente, através da indústria de preparação da cortiça e, mais tarde, o sector da distribuição, em Macau. O fascínio pelo mercado asiático determinou a criação da empresa Portuguese Topwines, com o objetivo de levar, para outras latitudes, vinhos produzidos. No âmbito deste negócio lidou, ao longo de alguns anos, com diversas especificidades, como seleção de referências vínicas nacionais, logística, fichas técnicas, compra e venda, e feiras internacionais em Hong Kong, Tóquio, Singapura e Xangai, em prol da produção nacional e com a audácia de colocar de parte o chamado mercado da saudade.

Ao regressar definitivamente ao Alentejo, João Tique decide avançar, em 2019, com o projeto próprio associado ao vinho produzido “como antigamente”, expressão repetida vezes sem conta. A comercialização começou um ano depois. São “vinhos que não se repetem”, garante, assumindo-se como o responsável pelas funções de viticultor de cinco hectares de vinha na Casa do Governador, na Quinta Alta da Queimada, propriedade localizado a norte da cidade de Évora. A composição varietal restringe-se a apenas três castas tintas: Alicante Bouschet, Syrah e Petit Verdot. “Ali só se consegue trabalhar à mão”, continua o produtor, referindo-se às tarefas que envolvem este pedaço de terra, no qual não entram herbicidas. A vindima decorre em outubro, à semelhança do que se fazia outrora. A finalidade consiste em “salvaguardar a qualidade e garantir a longevidade do vinho”, enaltece.

Produto de luxo

A vinificação das uvas tem lugar na Quinta da Plansel, produtor vitivinícola localizado no concelho de Montemor-o-Novo, distrito de Évora. É feita “sem leveduras selecionadas, sem sulfuroso na fermentação e sem correções de acidez ou de cor”, com o intuito de cada vinho deixar transparecer “a expressão mais honesta da terra e do tempo”, declara João Tique, que assegura a própria enologia. “Fui aprendendo a fazer vinho de maneira artesanal”, revela, com os ensinamentos transmitidos pelo Professor Francisco Colaço do Rosário, figura incontornável no mundo dos vinhos alentejanos.

Tratando-se de um projeto pequeno, a produção divide-se num trio de referências, com nomes em latim, em homenagem à era romana da cidade de Évora: Suavis, Bellus e Cultus. O primeiro é atribuído a “vinhos simples, consensuais”, enquanto o segundo é dado aos que se querem “memoráveis”. A produção de ambos restringe-se às cubas de inox, uma vez que João Tique prefere “defender a pureza” das castas. Já os Cultus “primam pela finesse. Têm lá tudo e em nada são exagerados”, esclarece o produtor, e, como “antigamente, as barricas eram utilizadas em vinhos excecionais”, o uso destas é igualmente limitado a esta terceira gama. A produção anual varia muito e a maior de todas foi de 3.000 garrafas.

Mas vamos por partes, até porque a prova realizada num reconhecido restaurante em Lisboa incluiu as gamas Bellus e Cultus. Na degustação entrou o Bellus branco 2024, um DOC Alentejo de curtimenta feito a partir “das uvas do ti João Menino” vindimadas numa vinha de 60 anos, localizada no Redondo. “Tem tudo a ver com os vinhos alentejanos de antigamente”, frisa João Tique. O Bellus Petit Verdot rosé 2024, com uma cor reveladora de grande extração pelicular, também foi incluído na prova, assim como o Bellus tinto 2023, o Bellus Alicante Bouschet tinto 2023, o mais consensual, e o Bellus Syrah tinto 2024, com os taninos ainda bem presentes. Para finalizar, houve o Cultus Grande Reserva Petit Verdot tinto 2021, vinho engarrafado em 2025.

Para João Tique, os vinhos “são um produto de luxo” e “só devem entrar no mercado quando estão no ponto”. Eis os motivos pelos quais se foca, sobretudo, na restauração, mais concretamente em mais de 150 restaurantes do país. O fornecimento é feito por via direta em aproximadamente 90% dos casos.

(Artigo publicado na edição de Março de 2026)

VINEADOURO: Vinhas antigas, a herança da terra

VINEADOURO

O local escolhido para o lançamento não é comum entre os produtores de vinho, mas fazia todo o sentido no contexto da Vineadouro. A apresentação teve lugar numa sala do Laboratory for Sustainable Land Use and Ecosystem Services (TERRA), do Instituto Superior de Agronomia, em Lisboa. Trata-se de um laboratório associado dedicado à produção de conhecimento científico e evidência socioecológica aplicada à gestão […]

O local escolhido para o lançamento não é comum entre os produtores de vinho, mas fazia todo o sentido no contexto da Vineadouro. A apresentação teve lugar numa sala do Laboratory for Sustainable Land Use and Ecosystem Services (TERRA), do Instituto Superior de Agronomia, em Lisboa. Trata-se de um laboratório associado dedicado à produção de conhecimento científico e evidência socioecológica aplicada à gestão sustentável do território.

A Quinta da Vineadouro localiza-se em Numão, uma pequena povoação com cerca de 200 habitantes, no concelho de Vila Nova de Foz Côa. A paisagem envolvente é marcada por vinhas e olivais, áreas de mato e pelo Castelo de Numão, implantado no topo de uma longa crista xistosa que, durante séculos, funcionou como ponto de controlo visual do território. Vista à distância, essa crista ondulante, rodeada por uma muralha, faz lembrar a silhueta de um dragão adormecido.

A presença da família Moutinho de Gouveia em Numão remonta ao século XVIII, estando documentada a produção de vinho na quinta desde o final do século XIX, com a conclusão da adega datada em 1890. O edifício funcionava como solar, com a família a residir no piso superior e a adega instalada no piso térreo, sendo as uvas da propriedade destinadas à produção de Vinho do Porto. Actualmente, é a sétima geração da família que explora os 140 hectares da propriedade e que, a partir de 2014, assumiu a recuperação do património edificado e das vinhas. A escala vitícola mantém-se reduzida: pouco mais de quatro hectares, distribuídos por quatro parcelas, onde a vinha mais jovem tem cerca de 50 anos e a mais velha é centenária.

Em 2019, nasceu a marca Vineadouro. O nome deriva da junção de duas palavras em latim: vinea, que significa “vinha”, e douro, que remete a algo precioso. Em 2020, foram lançados os primeiros vinhos: um tinto de 2017 e um branco de 2019. A enologia está a cargo de Manuel Malfeito Ferreira e Virgílio Loureiro, nomes com longa ligação ao ensino e à investigação vitivinícola e microbiológica, o que explica a abordagem técnica rigorosa. A consciência de sustentabilidade leva a aplicarem práticas ambientais sempre que possível, incluindo a implementação da gestão cuidadosa de água, energia e resíduos, promovendo a biodiversidade. Em setembro de 2024, abriram um pequeno hotel vínico, as Casas da Vinha, o primeiro EchoTech Resort sustentável dedicado ao enoturismo.

A família é representada pelo casal Teresa e Carlos Correia de Lacerda e as três filhas-gémeas. Apesar de todos terem outras profissões, estão profundamente envolvidos no projecto. Por este motivo, o lançamento do Vineadouro Grande Reserva é um acontecimento de grande importância para a família, reforçando a herança em prol da continuidade.

O vinho nasceu na parcela chamada Vinha da Coitadinha, plantada em socalcos tradicionais, a cerca de 450 metros de altitude. Trata-se de uma vinha centenária, constituída por castas misturadas, com presença de Rufete, Touriga Franca, Casculho, Tinta Amarela, Bastardo e Tinta Roriz, num conjunto mais vasto de variedades, difícil de quantificar com precisão. A fermentação decorreu em lagares de granito com leveduras indígenas; seguiu-se maceração prolongada e estágio de 18 meses em barricas novas de carvalho francês de tosta média. Foram produzidas cerca de 3.000 garrafas. Ao mesmo tempo foi apresentada a nova colheita do branco Vineadouro Vinhas Antigas, da mesma vinha, o qual inclui Síria, Folgazão, Gouveio, Trincadeira Branca, Malvasia Fina, Malvasia Rei, Rabigato e Carrega Branco. Vinificado só em inox para realçar a delicadeza das vinhas velhas.

(Artigo publicado na edição de Março de 2026)