GRANDE PROVA: TINTOS DO DOURO

A história recente do Douro, no que a vinhos DOC diz respeito, é conhecida, mas não só merece que a ela voltemos, como serve de explicação para a nossa principal conclusão. Já lá iremos. É um Douro moderno, que começou, timidamente, nos anos 90 do século XX, ou seja, há pouco mais de três décadas, […]
A história recente do Douro, no que a vinhos DOC diz respeito, é conhecida, mas não só merece que a ela voltemos, como serve de explicação para a nossa principal conclusão. Já lá iremos. É um Douro moderno, que começou, timidamente, nos anos 90 do século XX, ou seja, há pouco mais de três décadas, com o aparecimento de produtores e marcas a aproveitar parte das uvas, anteriormente destinadas ao Vinho do Porto, para elaborarem vinhos tintos singulares.
Sim, existia um punhado de marcas anteriores, das quais sempre resultou a ideia de que esta região poderia vir a fazer mais e melhores tintos tranquilos – Reserva Ferreirinha, Quinta do Côtto, Quinta do Confradeiro, Quinta da Pacheca –, mas referências, hoje clássicas, como Duas Quintas, Redoma, Quinta da Leda, Quinta da Gaivosa e Quinta do Crasto, surgiram apenas na primeira metade dessa década de noventa. Pouco depois, seguiu-se a estreia de outras marcas que se tornaram igualmente emblemáticas, como Quinta do Vallado, Quinta de Roriz e Quinta Vale D. Maria, entre outros.
Foi a chegada do novo milénio e a primeira década de 2000, que serviram de contexto para a explosão do DOC Douro, sempre com ênfase em tintos, por regra, robustos e concentrados. Tratou-se de uma época de grande crescimento económico, alimentada por uma nova moeda, fundos europeus e uma crescente abertura ao exterior, durante a qual muitos, no Douro, passaram a optar por vindimar uva para produzir vinhos tranquilos. A tendência que já se verificava em relação ao decréscimo do consumo e venda de Vinho do Porto (tirando um ou outro fenómeno comercial alicerçado numa grande colheita, como a de 2000 ou 2003) acelerou a transição no vale do rio que empresta o nome a este território vitivinícola, onde a vinha era praticamente uma monocultura.
Se a tudo isto juntarmos mais do que uma fornada de enólogos talentosos, quase todos residentes (nem que seja por alguns anos) na região, algo pouco habitual nas anteriores gerações, a descoberta recente dos vinhos brancos em altitude, e a confirmação de um enoturismo de gama alta, temos todos os ingredientes que nos conduziram à situação atual.
E que situação é essa? Uma imensidão de vinha – alguma a ser arrancada por estes dias, tamanha é a abundância –, centenas de marcas, milhares de produtores e muitas dezenas de enoturismos de qualidade superior. Atualmente, contabilizam-se mais de 60 milhões de garrafas DOC, vinhos esses responsáveis pelo processamento de mais de metade da matéria-prima produzida na região. O colapso das vendas do Vinho do Porto, com o registo de descida de 34% desde 2000, e a ausência de medidas, como o ‘benefício’ (goste-se ou não do ‘benefício’), para o DOC Douro, fez com que houvesse, no presente, um excesso sistémico de uvas no Douro, sendo o preço pago aos agricultores quase sempre abaixo do custo de produção (calculado entre €0,95 e €1,50), custo este justificado pela viticultura de montanha e baixa produção das vinhas.
No entanto, aquilo que é um pesadelo ao nível de modelo económico e social faz com que não faltem bons vinhos DOC no Douro. Aliás, estamos certos de que nunca houve um período com tão bons DOC do Douro e Vinhos do Porto como neste em que vivemos.
Qualidade inquestionável
Nesta prova, reunimos mais de 50 referências vínicas. Grande parte são verdadeiros topos das respetivas gamas, provenientes das três sub-regiões do Douro (Baixo Corgo, Cima Corgo e Douro Superior). Como temos vindo a escrever, com tanta uva, e tanta uva boa, não admira a qualidade com a qual nos confrontámos. Aliás, a par de Bordéus e Rioja, o Douro é, hoje, uma das regiões do mundo com maior número de produtores de excelência e de vinhos verdadeiramente brilhantes. Muitas regiões existem, é certo, com vinhos únicos, e algumas regiões produzirão os melhores do mundo, mas no Douro atual são várias as dezenas de referências, cuja qualidade é inquestionável sob qualquer padrão.
A confirmá-lo, tivemos no nosso painel cerca de 40 vinhos com pontuações acima de 18 e não faltou muito para termos quase uma dezena com 19 e 19,5 de pontuação. Em suma, os números falam por si e há poucas regiões como esta!
Porém, ainda existem grandes desafios. Por um lado, salvar os agricultores e reerguer um novo modelo económico, por outro, consolidar as boas marcas existentes, aumentar o seu valor e ampliar a projeção junto dos mercados internacionais. Sobre esta matéria, foi importante analisarmos, mais uma vez, perfis diferentes, de vinhos e de produtores, apesar da consistência da qualidade. Quase sempre com base em vinhedos com bastante idade, encontrámos evidentes nuances nos vinhos provados, mesmo considerando as diferentes colheitas em prova.
Mantém-se aqueles em que a personalidade das vinhas, anteriormente para Vinho do Porto (importa não esquecer), vinga quase sem maestro num produto intenso, profundo e de tanino vigoroso e saboroso. De um lado, há vinhos de absoluto pormenor, feitos a partir de uva vindimada em parcelas inferiores a um hectare e esculpidos pela enologia até ao último detalhe. E vislumbramos outros também, mais experimentais, aqui e ali, com alguma casta esquecida (ou até estrangeira), elaborados com fermentação das uvas em cachos intactos, à procura por menor extração ou maior frescura.
Tudo isto é Douro, desde que, em todos os seus matizes, cheirem e saibam a Douro. Cheirem e saibam a fruta madura condimentada com urze e esteva, a chá earl-grey da Touriga Nacional, a rosas da Touriga Franca, a fruta abundante da Tinta Roriz, sem esquecer a magia caleidoscópica dos lotes com dezenas de castas misturadas.
Que o Douro é, presentemente, uma das regiões favoritas dos consumidores nacionais, ninguém tem dúvidas. Que os seus vinhos estão entre os mais valorizados no país, também. Contudo, é preciso caucionar que o necessário arranque de vinhas não faça desaparecer patrimónios vitícolas únicos, que as populações sejam recompensadas pelo legado das vinhas velhas, cuja presença no território tem garantido, e que sejam ainda mais – e não menos – os vinhos verdadeiramente excecionais desta excecional região. No que a nós diz respeito, foi um privilégio prová-los a todos.
(Artigo publicado na edição de Dezembro de 2025)
*Nota: a ordem das garrafas é aleatória
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Quanta Terra Manifesto
Tinto - 2018 -

Pala Pinta
Tinto - 2020 -

Menin Maria Fernanda
Tinto - 2021 -

La Rosa
Tinto - 2023 -

Duorum Vinha das Abelhas
Tinto - 2022 -

Dona Berta Vinhas do Avô
Tinto - 2022 -

Chryseia
Tinto - 2022 -

Vinha da Granja
Tinto - 2021 -

Proibido Vinha Velha do Pombal
Tinto - 2022 -

Pintas
Tinto - 2023
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Plenitude
Tinto - 2023 -

Pai Horácio
Tinto - 2021 -

Oboé Som de Barrica
Tinto - 2021 -

Margem
Tinto - 2023 -

Bela luz
Tinto - 2023 -

Duas Quintas
Tinto - 2023 -

Quinta do Crasto
Tinto - 2018 -

Quinta Nova Vinha Centenária Ref.ª P28/P21
Tinto - 2021 -

Quinta de São Luiz Vinha da Rumilã
Tinto - 2019 -

Quinta da Leda
Tinto - 2022
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Quinta do Vesúvio
Tinto - 2022 -

Quinta do Portal
Tinto - 2020 -

Quinta do Côtto
Tinto - 2020 -

Quinta do Couquinho Adeodato
Tinto - 2019 -

Quinta do Bronze
Tinto - 2017 -

Quinta de S. José
Tinto - 2020 -

Quinta da Romaneira
Tinto - 2020 -

Quinta da Extrema Edição III
Tinto - 2017 -

Quinta da Gaivosa
Tinto - 2022 -

Potier
Tinto - 2022
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Quinta da Ervedosa
Tinto - 2022 -

Poças Vinha do Cerro
Tinto - 2023 -

Herédias + 130
Tinto - 2021 -

Grau Baumé
Tinto - 2018 -

Costureiro Special Edition X
Tinto - 2020 -

Cerval
Tinto - 2019 -

Vallegre Field Blend Author
Tinto - 2017 -

Três Bagos
Tinto - 2019 -

Quinta Vale D. Maria Vinha da Francisca
Tinto - 2022 -

Quinta dos Frades Comendador Delfim Ferreira
Tinto - 2015
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Quinta de Porrais
Tinto - 2019 -

Quinta da Folgosa Velha
Tinto - 2017 -

Cortes do Reguengo
Tinto - 2020 -

Quinta das Brolhas
Tinto - 2018 -

Vale Moreira Vinha d’Arte
Tinto - 2018 -

Terras do Grifo Vinhas Velhas
Tinto - 2018 -

Santos da Casa
Tinto - 2022 -

Quinta da Pedra Alta Melhor Tinto
Tinto - 2020 -

Quinta da Sabordela
Tinto - 2020 -

Quinta da Rede
Tinto - 2017
Viagem ao Centro de Portugal

O ruído à volta da atual crise do setor vitivinícola é demasiado sonoro, obrigando-nos a repensar fórmulas e estratégias que permitam, de algum modo, ultrapassar este período que desejamos que seja apenas um ciclo e não um declínio estrutural e definitivo de um negócio que emprega milhares de pessoas e faz parte da nossa cultura. […]
O ruído à volta da atual crise do setor vitivinícola é demasiado sonoro, obrigando-nos a repensar fórmulas e estratégias que permitam, de algum modo, ultrapassar este período que desejamos que seja apenas um ciclo e não um declínio estrutural e definitivo de um negócio que emprega milhares de pessoas e faz parte da nossa cultura. O último ano tem sido bastante conturbado, sucedendo-se manifestações de preocupação transversais a agricultores, produtores, distribuidores e retalhistas. Os dados oficiais são inequívocos a transmitir-nos uma diminuição do consumo nacional, com uma discrepância que se agrava entre o consumo e a oferta. Os relatórios internacionais mais recentes não auguram um futuro auspicioso, sinalizando que o consumo mundial cai todos os anos.
Contudo, o vinho com mais de 4000 anos de história entre nós, pelo peso cultural e económico que detém, é demasiado importante para que nos resignemos perante um declínio acentuado. Sensível a esta crise e com o intuito de contribuir para a busca de respostas e alternativas, a Grandes Escolhas trouxe a Portugal duas dezenas de profissionais do setor, entre importadores de média dimensão, de mercados e produtos de nicho, detentores de clubes de vinhos exclusivos, operadores turísticos dos mercados premium e super premium, e jornalistas da área de vinhos e gastronomia que, durante três dias, diagnosticaram o território das Beiras, com passagens pelas regiões vitivinícolas da Beira Interior, Dão e Bairrada.
Despertar da Beira Interior
A viagem a partir de Lisboa faz-nos entrar na Beira Baixa pelo sul. O Tejo surge-nos à direita, atravessando a Serra das Talhadas, onde, através do majestoso desfiladeiro rochoso das Portas do Ródão, o rio se estreita. A A23 traça-nos o caminho e, ao longe, num reflexo dourado, surge a Adega 23, arrojado projeto que tem o vinho como pretexto, mas um propósito muito mais amplo. Em 2024, integrado na exposição intitulada “O que faz falta”, destinada a celebrar os 50 anos do 25 de Abril na arquitetura, o projeto de Sarnadas do Ródão é distinguido como uma das 50 obras mais relevantes das últimas cinco décadas da democracia portuguesa. Manuela Carmona, reputada médica oftalmologista, tem as suas raízes neste local.
Com a Serra de São Mamede como linha do horizonte, Manuela Carmona criou de raiz uma adega, onde a história, a cultura e a arte são um forte complemento à produção vitivinícola de vinhos e espumantes. O projeto de arquitetura é delineado pelo Atelier RUA, para o qual os arquitetos conjugaram a cortiça, que reveste todo o edifício de nuances douradas. Localizado na cota mais elevada da propriedade de 12 hectares, é o elemento que mais se destaca a quem circula na A23, a autoestrada que contribui com o nome à vontade materializada de Manuela Carmona investir na sua região berço.
O interior do edifício foi, igualmente, desenhado com o cuidado de quem compreendeu que, além do vinho, há toda uma outra possibilidade de rentabilização de espaço e conceito. Da varanda panorâmica, olhamos o Alto Alentejo, as Talhadas e a Serra da Estrela. As áreas sociais do edifício acolhem exposições, eventos culturais e sociais, provas vínicas em almoços e jantares, e não é alheio ao sucesso da loja que, atualmente, já corresponde a uma fatia importante da faturação. Em vinhas de solos xistosos e quartzo, estendeu-se um compromisso entre as castas mais tradicionais – Rufete, Síria e Fonte Cal – e as nacionais Alicante Bouschet e Arinto, bem como as internacionais Syrah e Viognier. A produção ronda cerca de 30 mil garrafas, centrando-se a venda, sobretudo, na restauração de Lisboa e nalguns pontos exclusivos no país. Sendo um projeto ainda muito recente – a primeira vindima ocorre apenas em 2017 – as vendas de vinho decorrentes do enoturismo e atividades da adega ainda representam apenas 5% do total de faturação. No entanto, José Hipólito, enólogo da Adega 23, está consciente que o futuro passa pelas virtudes do turismo à porta de casa, centrado num edifício que foi criado para bem receber.
Regressados à estrada, rumamos ao norte, até Belmonte, onde, nas franjas da Serra da Estrela, encontramos a Quinta dos Termos. Foi a partir das parcelas do pai e das vinhas plantadas na década de 1940, que João Carvalho, empresário têxtil de sucesso e professor universitário, fez crescer um dos mais notáveis projetos da Beira Interior. A propriedade nos Termos conta já com mais de 60 hectares, possuindo, no total, nas Beiras, 130 hectares, a que somou, mais recentemente, uma propriedade no Douro, a Quinta do Pocinho.
Na Quinta dos Termos, localizada a uma altitude média de 500 metros, apostou-se na diversidade e experimentação. A par das nacionais Touriga Nacional, Trincadeira, Rufete, Jaen, Tinta Roriz, Marufo, Tinto Cão, Alfrocheiro e Baga, foram plantadas a Syrah, a Petit Verdot e a Sangiovese. Nas brancas, entre as locais, constam a Fonte Cal e a Síria, fazem-se experimentações, com bons resultados, com Arinto, Verdelho e Riesling. A vertente do turismo é levada muito a sério. Num universo de produção de cerca de 800 mil garrafas, o turismo ainda só corresponde a 5% da faturação total desta propriedade. A região está a dar os primeiros passos nesta vertente e a Quinta dos Termos quer fazer parte desse mercado cada vez mais significativo. Ao longo do ano, são as visitas com prova e os eventos organizados com jantares que conferem a dinâmica na propriedade, com notória repercussão nas vendas.
São já mais de 10 mil visitantes que, por ano, se deslocam a este produtor modelo da Cova da Beira, com maior incidência no verão, mas a encurtar distâncias nos meses ditos de época baixa, destacando-se um turismo sénior a partir de setembro e outubro. O investimento em infra-estruturas é constante e, a par com a adega, os espaços dedicados a albergar grupos têm crescido. O facto de a Quinta dos Termos ser, pela expressividade das vendas, a marca mais reconhecida da Beira Interior, potencia a curiosidade e as visitas, não se ignorando o fator natureza e sustentabilidade, selo que a propriedade de João Carvalho ostenta com orgulho de ser a primeira adega em Portugal a garantir a certificação em sustentabilidade. As vendas na, ainda, pequena loja da quinta, representam 150 mil euros de faturação anual, com tendência a um crescimento. O mercado externo somente agora começa a ter alguma tração nas vendas, sobretudo Brasil e China. A estratégia tem sido, até recentemente, de forte implementação no mercado nacional. No fundo, são cerca de 1500 os espaços de restauração onde a marca está presente no território nacional. Para o futuro, a equação pode passar por novas valências na área turística, não estando, por ora, prevista a criação de unidade de alojamento.
A Beira não se faz sem a gastronomia de conforto e, após a travessia da Serra da Estrela para as suas franjas, a norte, fomos ao encontro, noite dentro, da pequena povoação de Galegos, situada nas cercanias da forte, fria, fiel formosa e, à mesa, farta cidade da Guarda. Aqui, encontrámos poiso no Restaurante Colmeia, conduzido desde 1983 por Max Gonçalves e pela sua mulher, Teresa. A justa fama de ser uma das melhores casas de bem comer da região serve-se à mesa, na extrema competência de confeção de pratos serranos, com o polvo, o cabritinho e os nacos a marcarem presença assídua, complementados por uma doçaria muito competente. De louvar, a carta de vinhos preenchida, sobretudo, por referências certificadas da Beira Interior, também com destaque para os mais pequenos e recentes projetos da região. Lugar incontornável numa viagem pelas Beiras.
A pernoita teve lugar na cidade-falcão, Pinhel. Recentemente inaugurado em pleno centro histórico da localidade, o Brasão Dourado, um solar do século XVIII, que emprestou a sua imponência ao alojamento local, dispõe de 21 quartos, incluindo três suítes. Catarina Dourado, a proprietária, tem neste projeto a materialização do sonho de criança. O edifício foi adquirido pelos seus pais, um ourives e uma professora, o qual foi objeto de vultuosas obras de remodelação. Tendo aberto portas este ano, este alojamento vem colmatar uma necessidade de há muitos anos em Pinhel, uma vez que se trata de uma unidade hoteleira com maior capacidade de alojamento do concelho.
O Dão nobre
O segundo dia leva-nos até um Dão, onde o enoturismo é já uma realidade robusta, beneficiando de uma história que cruza o vinho com solares imponentes e famílias ancestrais. Com berço na Bairrada e quatro décadas de presença no Dão, Casimiro Gomes tem, em Nelas, o quartel-general da Lusovini, empresa que, após conquistar mercados sólidos em países de expressão portuguesa, sobretudo Angola e Brasil, expandiu influência e vendas por mercados europeu, norte-americano e asiático. Com um investimento superior a cinco milhões, ali nasceu, há quase uma década, um centro logístico, adega, cave de espumante e armazém para stock das linhas premium. Com ele também surgiu o restaurante, atualmente, uma das melhores referências regionais, o Taberna da Adega.
Vocacionada para a internacionalização, que representa cerca de 80% de todo o volume de produção, na Lusovini avalia-se muito seriamente o enoturismo. Atualmente, representa cerca de 25% de todo o volume de faturação. Aquando da abertura do restaurante, em 2016, não havia sequer a expetativa de um resultado tão positivo. A grande maioria dos clientes são provenientes de fora da região e é a diversidade de serviços que o torna tão apelativo. Dispondo de salas para reuniões, zona de receção com condições para trabalho remoto, criaram-se as mais-valias que cativam e atraem clientes de negócios e lazer. A articulação e as dinâmicas existentes com as unidades hoteleiras da região, resultantes de parcerias informais, mostram efeitos positivos para todas as partes. Com cozinha à vista, é a confeção dos pratos regionais que cria fidelidade.
Casimiro Gomes lamenta que Nelas ainda não estimule o registo de um maior número de dormidas. O fator distância deixou de ter relevância. As acessibilidades de hoje permitem que Lisboa, Porto e Coimbra fiquem cada vez mais perto. Nelas possui espaço para atrair mais unidades hoteleiras, até porque, não havendo ainda especulação de preços, torna-se mais atrativa que o litoral. Contudo, ainda se falha na criação de roteiros consistentes e variados, que estimulem a pernoitar mais. Casimiro Gomes, deixou ainda uma referência à hotelaria de luxo já existente na região. E foi rumo a ela que viajámos neste segundo dia de périplo pelas Beiras.
A vila de Santar, com cerca de 1000 habitantes, mesmo no contexto do Dão, é um mundo à parte. As ruas debitam tradição, herança e, ali, vários foram os momentos marcantes da nobreza e da monarquia nacional que transformaram a história de Portugal. Numa antiga residência real, pertencente a D. Miguel Rafael de Bragança, irmão de D. Duarte Pio, ergue-se o Valverde Santar Hotel & Spa, unidade hoteleira de cinco estrelas cercada por jardins frondosos e vinhedos antigos. O interior transporta-nos para um passado longínquo da realeza, com toda a formalidade desenhada nas amplas salas iluminadas pelos lustres dourados, pinturas a óleo originais, poltronas antigas e madeiras esculpidas. Os quartos e suítes renderam-se à modernidade e oferecem o máximo conforto. É um dos mais belos hotéis portugueses, oferecendo um Spa de última geração, instalado na antiga adega, e o acesso a uma impressionante biblioteca. Localizado a 90 minutos do Porto, este hotel é, acima de tudo, procurado por turistas estrangeiros, possuindo uma taxa de ocupação muito elevada durante todo o ano, igualmente graças aos programas especiais desenhados para as datas festivas e à possibilidade de ser reservado na sua totalidade, a preços que se iniciam nos €7.500 por noite.
A cerca de cinco quilómetros de Viseu está a Quinta de São Francisco, propriedade familiar adquirida em 1996, que deu lugar à marca Chão de São Francisco. O centro nevrálgico é o solar beirão, erguido no século XVIII, testemunho de um legado da fidalguia da época, ali albergando a capela de Nossa Senhora dos Escravos, esta erigida antes da construção do solar (1660). Onde outrora existiam avelaneiras, hoje deitamos a vista sobre oito hectares de vinha ocupada pelas castas preferidas do proprietário: Touriga Nacional, Tinta Roriz e, por uma tradição infelizmente quase abandonada na região, a Baga. A pretensão inicial foi a produção de vinhos com a indelével marca do Dão, possuindo a adega a capacidade de vinificar e armazenar cerca de 100 mil litros de vinho. Atualmente, selecionam a melhor uva e produzem 35 mil litros para produção própria e engarrafamento. A restante uva é cedida.

O enoturismo da Quinta de São Francisco, com componente de alojamento, surge mais tarde e teve por inspiração o encanto dos jardins e das diversas fontes da propriedade, criando um ambiente intimista com todos os recantos e mesas de pedra. A proximidade de Viseu e a os programas taylor made têm vindo a contribuir para a procura por parte de uma camada eclética de turismo, cujo tour prévio nos embala pela história de fidalguia da quinta. Aquele termina com uma prova obrigatoriamente acompanhada por queijos e enchidos regionais. O alojamento abriu portas há cerca de dois anos e tem sido uma mais-valia em diversos aspetos. Não apenas convida a permanecer na região por mais tempo, como também tem sido um fator de captação de novos clientes para a exportação. Não sendo o outono e o inverno ainda um barómetro do que aí vem, a verdade é que o enoturismo representa uma fatia substancial das vendas e a tendência prevê o crescimento das experiências, com o foco na ‘prova’ do território, num ambiente afável e familiar.
Já a saída de Viseu se faz debaixo de uma chuva copiosa. O último destino do dia e da região leva-nos até Penalva do Castelo, onde nos espera um coberto cinzento e húmido. À chegada encontramos a imponência da Casa da Ínsua, conjunto arquitétonico que alberga um hotel de cinco estrelas, vocacionado para o segmento de luxo, proporcionando uma multiplicidade de experiências que abrangem a componente histórica.
O atual Parador Casa da Ínsua nasce da reabilitação do solar erigido no século XVIII, por Luis Albuquerque de Mello Pereira e Cáceres, Capitão-General de Mato Grosso, Brasil. A preservação da traça original da imponente fachada e do interior finamente decorado com azulejaria barroca, tetos trabalhados, lareiras belamente esculpidas e armas indígenas brasileiras, cria um ambiente de viagem no tempo, para uma época de glória lusitana, permitindo aos hóspedes uma revisitação de domínio e riqueza da nobreza portuguesa. Com quartos personalizados com a história da casa e jardins de inspiração francesa, repletos de árvores exóticas trazidas pelo primordial proprietário, o espaço dispõe ainda os vinhos de produção própria e o Queijo Serra da Estrela DOP ali produzidos diariamente por artesãs que seguem à risca toda uma arte secular.
O Dão, com esta amostra de locais visitados, revela que está uns passos à frente no modo como coloca o enoturismo na vanguarda de um negócio que, cada vez mais, está muito para além do ato de comercializar um líquido engarrafado.
Uma Bairrada a dois tempos
O terceiro dia deste roteiro leva-nos à elevação que separa a região granítica do Dão da Bairrada, da argila e do calcário, a Serra do Buçaco. No ponto mais alto, marcado por uma cruz de Cristo, nos aguardava uma representação da dinâmica associação Rota da Bairrada. Daquele promontório, em dias de céu limpo, é-nos permitido ter uma vista desafogada das cercanias da cidade de Coimbra, da Serra da Boa Viagem, que encobre a Figueira da Foz, da Ria de Aveiro, da Serra do Caramulo e do Atlântico, que nos ilumina o horizonte. A meio caminho da descida até ao sopé da Serra, embrenhamo-nos entre muros. Falamos na Mata do Buçaco, onde, desde o século XVII, reside uma mancha florestal plantada pela Ordem dos Carmelitas, que confere um ambiente luxuriante, albergando diversas fontes, caminhos pedonais e uma das mais completas Vias Sacras do mundo cristão. Vencido o manto verde, surge-nos, o Palace Hotel do Buçaco, edifício neo manuelino projetado pelo cenógrafo Luigi Manini e construído entre 1888 e 1907, para servir de Paço de caça ao rei D. Carlos. Porém, conta-se que, se ali alguma vez pernoitou, não terá sido para caçar. Com a queda da Monarquia, o palácio real dá lugar ao hotel, encontrando-se, desde 1917, nas mãos da família Alexandre de Almeida.
O conceito de hotel, com salas faustosas, frescos de caça e azulejaria, entre outros elementos, evocativa dos Descobrimentos, insere-se mais num conceito de revisitação histórica do que propriamente no conforto associado à hotelaria contemporânea, facto bem explícito no site. Se procura uma experiência de fausto real, em que os 60 quartos e as quatro suítes mantêm o mobiliário original, os cortinados de veludo e uma natural decadência, fruto da passagem do tempo, encontram aqui a verdadeira cápsula do tempo. Quem desejar o conforto de design e a mais alta tecnologia, aconselham-se outras paragens. A maior surpresa estava reservada para o restaurante do palácio, centrado na prática de uma cozinha contemporânea de inspiração francesa, com menus de degustação constituídos por sete momentos, harmonizados com os raros e míticos vinhos do Buçaco, guardados a sete chaves na cave do edifício, podendo ali ser encontradas colheitas, se a memória não me falha, desde 1929. Peças de elevada raridade!

Descendo a serra, sem a perder de vista, rumámos a Aguim, aldeia do concelho de Anadia, onde encontramos o projeto que o professor universitário Francisco Batel Marques ergueu dos escombros a partir de 2003, a Quinta dos Abibes. No início, esperavam-no 10 hectares de abandono. A pouco e pouco, e vencendo as dificuldades burocráticas, ergueu uma propriedade modelo, com a plantação de castas portuguesas Baga, Touriga Nacional e Arinto, e as internacionais Cabernet Sauvignon e Sauvignon Blanc. Entretanto, introduziu a Bical e a Syrah. O enoturismo faz-se sobretudo através das visitas às vinhas e à adega, de provas e jantares vínicos no salão do edifício principal, com vista para os vinhedos e a Serra do Buçaco.
Uma das maiores vantagens da Bairrada para ‘turistar’ são as boas acessibilidades e a proximidade entre locais a visitar. Entre Aveiro e Coimbra, por auto estrada, não demoramos mais de 40 minutos, a cumprir os limites de velocidade. Pelo meio, temos o coração da Bairrada, o espumante, o leitão e outras virtudes merecedoras de visita e/ou pernoita. É o caso do Curia Palace Hotel, igualmente integrado no grupo Alexandre de Almeida. A aldeia da Curia era, durante quase todo o século XX, um local de termalismo sério, onde milhares de utentes permaneciam durante longos períodos, selecionando, consoante a bolsa, uma das muitas pensões ali existentes ou no exclusivo Curia Palace. Construído de raiz para hotel e a funcionar desde 1926, é o epíteto dos loucos anos 20 do século XX, do luxo e vanguardismo associados a uma sociedade que convivia de perto com as influências estrangeiras e as replicava localmente. Alvo de obras profundas de remodelação, esta unidade mantém a patine de outrora, tendo sido palco, nos últimos dois anos, do Millésime, a festa do espumante nacional por excelência, recriando os primórdios festivos do hotel, na região que o viu nascer há 135 anos.
A escassos 500 metros, está o edifício da Rota da Bairrada, sede da associação homónina criada para coordenar, inicialmente, os produtores de vinho da região, mas logo alargada a unidades de alojamento, restauração, hotelaria e assadores de leitão. Se há um trabalho modelo em prol do território, é aqui que é realizado. Contando com quase uma centena de associados, dos quais 45 são produtores vitivinícolas, a associação tem pautado a atividade na coordenação de eventos dentro de portas e de cariz nacional, representando o território no exterior. O que aqui é realizado é verificável pelas estatísticas do aumento dos visitantes a toda a região que abarca, não apenas as principais capitais de distrito, Aveiro e Coimbra, mas o coração de uma região, onde é o espumante e o leitão quem mais ordenam.
Por falar em espumante, ao entardecer tomámos o caminho em direção às Caves São Domingos, empresa da pequena aldeia de Ferreiros, fundada pelo industrial de madeiras Elpídio Martins Semedo, em 1937. Com uma estrutura societária familiar, hoje é uma das líderes na produção de espumantes, exclusivamente elaborados pelo Método Clássico desde os seus primórdios. Logo nos anos 30 do século passado, foi aberto, a golpes de picareta, um rendilhado de galerias subterrâneas onde, ainda hoje, estagiam cerca de três milhões de garrafas. É nos subterrâneos que se vivem os momentos mágicos das visitas, que, a par com as provas, são os principais fatores de atração e, claro, o espumante que, ali, conta com 16 referências. A vertente de produção e comercialização sempre foi o foco primordial. Todavia, é com o sangue novo de Duarte Amorim, que se olha para um futuro focado no investimento, sobretudo na criação de uma sala de provas com vista para uma vinha pedagógica, onde estão plantadas mais de cinco dezenas de castas diferentes.
Para o final desta viagem, guardámos as Caves São João, a, outrora, empresa familiar que, é ela mesmo, repositório de toda a história da região da Bairrada dos últimos 100 anos. Aqui, e para falarmos de enoturismo sem componente alojamento, percebemos que há um conceito a que os britânicos chamam de heritage. Mais do que património e vinhos, bebe-se a história de uma Bairrada moderna, nascida com a indústria dos espumantes em 1890, pela mão de Tavares da Silva, o técnico, e de Justino Sampaio Alegre, o visionário industrial. Aliado a um espólio valioso de vinhos antigos, provavelmente o maior do país em vinhos tranquilos, com cerca de 400 mil garrafas armazenadas, pratica-se o bom gosto que transforma a visita, as provas e os jantares, em experiências inolvidáveis, como o foi para a vintena de estrangeiros que a puderam vivenciar. Célia Alves, atual gerente da empresa, coloca uma tónica especial nesta vertente, a qual já não pode ser dissociada da mera venda de vinhos.

Nas Caves São João, vende-se hoje uma imersão no território, na história e nos sabores e aromas de uma região que vai tomando o turismo como um filão ao alcance de todos. Se os visitantes ali encontraram território bairradino, também encontraram memórias e laços com Champagne, através dos espumantes produzidos como nos primórdios da região, com as castas Pinot Noir e Chardonnay, nos Cabernet Sauvignon dos anos 90 do século XX, uva plantada, pela primeira vez, na Quinta do Poço do Lobo, no início dos anos 1980, no colheita tardia reconheceram Bordéus, nas aguardentes vínicas dos anos 60, reconheceram Cognac. Foi esta experiência sensorial que os sensibilizou para a qualidade dos grandes vinhos portugueses, ávidos de serem parte importante das nossas exportações.
Em jeito de conclusão, muitas ilações e lições podem ser retiradas desta viagem, durante a qual o vosso cronista foi auscultando cada um dos importadores, operadores turísticos e jornalistas. Possuímos singularidade, identidade, gentes que valorizam o território. Necessitamos, talvez, de perceber que o nosso mercado de enoturismo deve procurar um segmento premium e, para isso, temos de oferecer condições e, acima de tudo, ter uma boa capacidade de comunicação… em inglês.
(Artigo publicado na edição de Dezembro de 2025)
HERDADE DO MONTE DA RIBEIRA: O mosaico vivo da Vidigueira

A Herdade do Monte da Ribeira, à qual foi, posteriormente, anexada a Herdade do Farrobo, constitui uma área total de 1100 hectares, localizados em Marmelar, na Vidigueira, sub-região do território vitivinícola do Alentejo. Este número está distribuído pela serra do Mendro, com 600 hectares, o olival, com 210, e a vinha, com 43, entre outras […]
A Herdade do Monte da Ribeira, à qual foi, posteriormente, anexada a Herdade do Farrobo, constitui uma área total de 1100 hectares, localizados em Marmelar, na Vidigueira, sub-região do território vitivinícola do Alentejo. Este número está distribuído pela serra do Mendro, com 600 hectares, o olival, com 210, e a vinha, com 43, entre outras zonas que compõem a manta de retalhos desta enorme extensão de terra. Há uma imensa paisagem a explorar na companhia de Mariana Carmona e Costa, diretora agrícola e oleóloga da Casa Agrícola HMR, e descendente da família proprietária, Nuno Elias, enólogo e diretor de produção, e António Maria Aleixo, responsável pela produção agrícola. A Casa Agrícola HMR, à qual pertence esta propriedade, faz parte da Fundação Carmona e Costa.
A introdução é feita por Nuno Elias, que começa por explicar a origem da referida extensão de montanhas, que se prolonga no lado norte da propriedade. “É uma zona de encontro de mini falhas tectónicas, que deram origem a esta elevações, com cerca de 400 metros de altitude e é nesta correnteza que está a barragem do Alqueva.” A serra do Mendro forma uma barreira natural que impede a passagem do vento, situação benéfica para a vinha, uma vez que “a junção de temperatura alta com a deslocação do ar seca tudo”, explica o nosso cicerone. Mesmo no verão, quando o termómetro regista altas temperaturas, “mesmo que haja aqui uma nortada, ela não entra. Então, só temos calor e forma-se uma humidade natural relativa matinal, mas como não há deslocação de ar, mantém-se e as cepas sofrem menos”, afirma o enólogo. No inverno, os nevoeiros tomam conta da paisagem até perto das 10h00. “Felizmente, isso já não é comum a partir do ciclo da planta, a partir de maio. Portanto, temos boas condições para que não se formem tantos fungos nas plantas”, continua Nuno Elias.
A respeito do míldio, a escassez de chuva no Alentejo durante o período vegetativo é vantajosa. “No caso do oídio este precisa de mais humidade relativa aqui existem condições matinais que são propícias e necessitam de um acompanhamento mais efetivo”, informa. Em contrapartida, as chuvas registadas na primavera deste ano de 2025 deram origem a condições favoráveis à vinha, “quer ao nível da hidratação, reposição de trabalho de campo, como lhe chamamos, quer ao nível das pragas. Não se previa que o efeito das chuvas fosse tão benéfico”, reforça Nuno Elias, já que abundância pluvial suprimiu a reprodução da cigarrinha e do aranhiço, dois inimigos das plantas.
António Maria Aleixo, responsável pela produção agrícola, Mariana Carmona e Costa, directora agrícola e oleóloga, e Nuno Elias, enólogo e director de produção.
Eficiência hídrica
São três as barragens da Herdade da Ribeira do Monte, as quais favorecem a autonomia na rega. Este passo foi dado após a compra desta propriedade alentejana por Vítor Carmona e Costa, fundador da atual Casa Agrícola HMR – então Companhia Agrícola de Desenvolvimento – e tio-avô de Mariana Carmona e Costa. A estreia aconteceu com a barragem de Marmelar, construída no curso da ribeira de Marmelar, com localização próxima à adega. Possui uma bacia de 50 km2.
Numa quota de 100 metros situada na outrora Herdade do Farrobo, está outra barragem, que “raramente atinge a quota máxima”. Próximo do limite da propriedade está a Barragem dos Patos. Funciona quase como reserva e não raras vezes, a partir de meio de setembro, quando surge a ameaça da escassez das chuvas, é necessário recorrer a esta para regar o olival. O transvase de água efetuado de umas barragens para as outras é efetuado através da energia produzida pelos painéis solares. “Neste momento, as restantes barragens são complementares e isso permite-nos ter autonomia entre os 80% e os 90% em área de regadio, isto é, para a vinha e para o olival”, elucida a nossa anfitriã.
“A chuva faz a diferença na agricultura”, pronuncia-se Nuno Elias, para quem “um fruto que seja acompanhado com hidratação durante o período do amadurecimento tem mais qualidade do que o fruto que ficou à míngua do amadurecimento”. Mariana Carmona e Costa acrescenta as vicissitudes inerentes à competição existente entre a cobertura do solo com a videira em anos de um menor registo de pluviosidade. Nos anos em que chove, essa luta é inexistente, mas impera o corte quase sucessivo da cobertura, “devido à quantidade de água da chuva no solo, que fez com que cresça em demasia”.
Por outro lado, face às temperaturas muito altas associadas a solos pobres e a secas cíclicas, o envelhecimento prematuro das videiras tem vindo a tornar-se um problema. Segundo Nuno Elias, a rega, mesmo gota a gota, adia esta realidade. A água permite que se mantenham “vivas durante a hibernação, que vai até março, e tenham energia para refazerem a sua camada foliar. Para manter uma empresa ativa e lucrativa, temos um ponto de substituição, daí já não termos plantas tão antigas.” A vinha plantada inicialmente, em finais da década de 1980, foi convertida. A vinha mais velha data de 1998. “Se o Alentejo não estiver na região produtora de vinhos mais extrema, está perto!”
Solos diferentes
“Apesar de não ter uma altitude considerável”, a serra do Mendro “deu origem a tipos de solos diferentes”, continua Nuno Elias. De acordo com o enólogo, alguns solos contêm magma e muitos minerais na composição. “Temos manganês fora da escala e o manganês é antagonista do potássio. Por isso, há que ter cuidado com algumas castas. Com o tempo, conseguimos lidar com estas especificidades dos solos que aqui temos.” Por outro lado, os solos são maioritariamente pobres, característica que compromete o aporte nutricional das plantas. Como consequência, “praticamente todo o nosso encepamento produz pouco”.
A contraposição a este cenário acontece na Vinha do Pivot, de 15 hectares, localizada no sopé da serra. Chama-se assim, “porque existia ali um pivot de milho de 30 hectares, que posteriormente se dividiram, em partes iguais, em vinha e em olival”, expõe. É composta por solos de aluvião, com argila ali depositada graças à erosão dos solos da serra do Mendro. “É um solo mais rico, mais fértil e a vinha tem mais vigor. Temos boa capacidade de campo, porque, quando chove, a água fica retida e fica disponível por mais tempo para as plantas”, sublinha.
A Vinha do Farrobo, de oito hectares e cujo nome que se deve Herdade do Farrobo, a segunda propriedade adquirida e anexada à Herdade do Monte da Ribeira, apresenta “uma espécie de solo intermédio”, com calhau rolado e “algum aluvião”, o que leva Nuno Elias a considerar que, em tempos, a ribeira de Marmelar, um afluente do rio Guadiana, passou por ali. “É um solo bastante permeável e com boa drenagem”, destaca. O solo muito pobre está na área da vinha mais velha, submetida a várias replantações. “Era terra de azinho, de difícil trato, daí a opção por várias técnicas de campo, como coberturas, enrelvamentos”, revela o enólogo.
Mudanças, ensaios e perseverança
Sobre as castas, Nuno Elias refere os momentos mais marcantes, ao longo dos quais o fator qualidade é determinante. O primeiro ocorre no final da década de 1980, com a estreia da vinha sob recomendação da Direção-Geral da Agricultura. Segundo António Maria Aleixo, esta cultura ocupa, inicialmente, 50 hectares. “Estavam divididos ao meio, com as castas tintas no lado esquerdo e as brancas no lado direito”.
As castas eleitas para a vinha inicial eram comuns ao Ribatejo e Alentejo, como as tintas Castelão, Aragonez e Trincadeira. Quanto às brancas, a aposta recai nas variedades locais, como Antão Vaz, Tamarez, Trincadeira das Pratas, Alicante Branco. A enologia fica nas mãos de João Portugal Ramos e são plantadas a Cabernet Sauvignon, a Arinto e a Alicante Bouschet. Mantém-se um rácio de 80% de castas autóctones, com a Alfrocheiro, a Trincadeira, a Moreto e a Aragonez, nos tintos; a Tamarez, a Antão Vaz e a Roupeiro, nas brancas. Introduzem-se algumas experiências, como a Cabernet Sauvignon, um caso de sucesso, e a Riesling. Esta “não vingou, porque o clima era demasiado seco, o que interferia na acidez natural da casta. Foi convertida a Arinto”, reforça o enólogo. Entretanto, na década de 1990, a adega é construída de raiz e equipada com o sistema de operações por gravidade. “Foi muito pioneira na altura e por aconselhamento de João Portugal Ramos”, reforça Mariana Carmona e Costa. Com a passagem do tempo, são incluídas novas máquinas, para dar resposta às exigências de cada fase. António Maria Aleixo ingressa na equipa em 1998 e, no ano seguinte, é a vez de Nuno Elias entrar no universo da Casa Agrícola HMR.
Por volta do ano 2010, a administração da Fundação Carmona e Costa transita para os sobrinhos de Vítor Carmona e Costa e Maria da Graça Carmona e Costa. É registada a admissão de Luís Duarte, que ainda hoje assume a função de enólogo consultor. O encepamento é submetido a ajustes. Nas castas brancas, à Antão Vaz, Roupeiro e Arinto, junta-se a Alvarinho e a Verdelho; nas tintas, aumentam, gradualmente, a área da Alicante Bouschet, “que se tem revelado muito interessante em anos quentes”, salienta Nuno Elias. Mantém-se a Cabernet Sauvignon, plantada em 1998.
No âmbito das experiências positivas, Nuno Elias enaltece a Petit Verdot. Plantada em 2011, confere longevidade ao vinho tinto. “No Alentejo, os vinhos tintos têm uma tendência de iniciarem a sua vida logo muito macios, porque a maturação é mais extensa ou, às vezes, vão para a sobrematuração, e os taninos ficam logo muito maduros. Se o vinho é totalmente bebível em novo, cedo vai cair o potencial de guarda elevado. Por isso, precisamos de castas que, no início, tenham um tanino fino, mas domável, e que esteja lá mais tarde. A Petit Verdot foi uma das castas que melhor triunfou neste contexto e é usada em 30% ou 40% em lotes com estágios”, esclarece. Aqui, dá como exemplo o Marmelar tinto, referência topo de gama do portefólio vínico da casa.
Sub-região de brancos
Nos encepamentos mais recentes da Herdade do Monte da Ribeira, constam a Sousão e a Tinta Miúda. A respeito da primeira, há uma parcela de vinha denominada Ensaio 1, pois “é preciso perceber como a casta se comporta neste terroir e também verificar se, agronomicamente, se torna ou não um problema”, adianta Mariana Carmona e Costa. Em relação à segunda, o enólogo denota otimismo relativamente “ao comportamento da planta e ao resultado da vinificação. Portanto, o futuro trará novidades para mostrar”.
Apesar das castas tintas ocuparem a vinha em 75%, Nuno Elias está convicto de que a sub-região da Vidigueira apresenta condições especiais para vinhos brancos. O destaque vai para a Antão Vaz. “Embora seja um fruto que, analiticamente, não é muito interessante, porque carece de acidez, depois, expressa uma série de características no copo, as quais dificilmente se consegue obter com outras castas.” Ao volume de boca, o enólogo aponta a consistência, de ano para ano, desta variedade, mesmo sob as oscilações térmicas. “Não é uma casta para os mais fracos, já que, muitas vezes, se chega a meio da vindima e regista 10 graus. É preciso que a fase final do ano agrícola seja favorável, ou seja, que não chova até meados de setembro, para que a maturação se complete.”
Não obstante a tipicidade da Antão Vaz, a Arinto é muito importante no encepamento da Herdade do Monte da Ribeira. Representa sucesso, quer a solo, quer em lote com a casta-rainha da Vidigueira, devido à acidez que lhe é característica. A Alvarinho, uma das favoritas do enólogo, porque dá corpo a vinhos longevos, também entra nesta linha, embora produza metade das demais brancas. Em suma, “prevejo que, para bons casos de sucesso, esta região mantenha a Antão Vaz sempre presente, para manter a sua identidade, mas sempre com uma casta nobre, que a ajude, de forma a chegar ao mercado de forma consistente.”
A terceira fase da Casa Agrícola HMR está a dar os primeiros passos num momento controverso para o universo do vinho. “É tudo volátil, cíclico. O que hoje é bom, amanhã muda. Estamos num mercado que depende de gostos, que é de modas. Durante 20 anos, falamos da passagem de brancos para tintos. Agora, passamos de tintos para brancos. É preciso entrar numa constante mudança. Ao mesmo tempo, é necessário ter os pés bem assentes na terra, porque o que estamos a fazer mal agora, a seguir vai estar bem”, reflete Nuno Elias.
A vindima e o vinho
A Casa Agrícola HMR é um bom exemplo de vitivinicultor: possui vinha e produz vinho com uvas próprias na adega da Herdade do Monte da Ribeira, onde é engarrafado. A vindima é manual e mecânica. “Curiosamente, estamos muito satisfeitos com os resultados da vindima mecânica, que nos permite fazer 100% vindima noturna, com temperaturas de chegada à adega muito inferiores à da vindima diurna, e é mais rápida”, confessa Nuno Elias. Em cerca de 15 minutos, a matéria-prima colhida na vinha está no tegão. “As uvas são descarregadas, desengaçadas, passam pelo permutador, para arrefecer até aos 10 graus, sejam brancas ou tintas e nenhum vinho leva engaço.”
Na gama de entrada, a Pousio Selection, constituída por branco, tinto e rosé, Nuno Elias destaca este último, uma vez que é feito a partir de mosto de lágrima de uvas tintas. Esta segue para as cubas de inox, onde é submetida, por um mês, a bâtonnage. “É 100% seco, tem zero açúcar residual e é muito gastronómico. Embora seja gama de entrada, este rosé é equivalente a muitas altas gamas”, revela o enólogo. Os Pousio Reserva branco e tinto são caracterizados pelos estágios em madeira, respectivamente, de seis e 12 meses. Os lotes são feitos após a prova final.
As edições limitadas, composta por varietais e lotes, resultam de “um Alicante extraordinário” da colheita 2020, conhecido por Parcela 98, que desperta a atenção para outras variedades de uva. É o caso da Arinto, elaborada a solo para um vinho branco, bem como a dar corpo a um lote, ao lado da Alvarinho. A Touriga Nacional e a Syrah são tidas, igualmente, em consideração na versão monocasta.
Fora da gama Pousio, está a “super-premium” Marmelar, nome eleito “em homenagem à terra onde está a propriedade”. São um branco e um tinto “muito especiais”, remata Nuno Elias.
Do olival tradicional à sebe
A compra da Herdade do Monte da Ribeira ocorre a 8 de agosto de 1986 e a Herdade do Farrobo é adquirida no princípio da década seguinte, por Vítor Carmona e Costa, tio-avô de Mariana Carmona e Costa. “Era um agro-industrial com uma paixão enorme pela terra. Costumo dizer, por brincadeira, que a propriedade é o prolongamento da horta que tinha na casa de Alcabideche”, no concelho de Cascais. A partir de então, refugia-se na herdade juntamente com a mulher, Maria da Graça Carmona e Costa, “uma apaixonada e uma expert em arte contemporânea em Portugal. Foi mecenas da arte no país”. Os sobrinhos são igualmente bem-vindos, sobretudo no verão.
Ainda a vinha não estava plantada, já o olival tradicional de sequeiro da Herdade do Monte da Ribeira, com cerca de 110 hectares e composto por muitas árvores milenares, mostra o seu vigor. As variedades são, maioritariamente, Galega, além de Bico de Corvo, “mix entre o Zambujeiro e a Galega, meio alongada e não se retira muito azeite”, em conformidade com a nossa anfitriã, e Verdeal. Em 2000, chega a vez da plantação do olival intensivo de regadio, um total de 76 hectares, “com, maioritariamente, Cobrançosa e apontamentos de Cordovil e Picual”. O olival de sebe de Arbequina foi plantado em 2003 e 2008, correspondendo a uma área de 24 hectares. “Está distribuído por duas parcelas: na Herdade do Monte da Ribeira, com 14 hectares, e na Herdade do Farrobo com 10 hectares”, afirma Mariana Carmona e Costa. Esta decisão é tomada com base no aumento da capacidade de armazenamento de água, o qual se deve às barragens existentes na propriedade.
Eis o outro mundo de Mariana Carmona e Costa, profunda conhecedora de todos os recantos da propriedade, serra do Mendro inclusive, onde estão dispostos dois apiários de um apicultor de Moura. “Em troca, recebemos uma parte do mel de rosmaninho por ano.” Em 2003, começa a pós-graduação em olivicultura, azeitona e azeitona de mesa, no Instituto Superior Agrónomo, de Lisboa, já depois de terminar a formação em viticultura e enologia na Universidade de Évora.
A par com o sucessivo aumento da área total de olival, hoje com 210 hectares, passam de produtores de uva, para produtores de azeite e azeitona vendidos a granel. Quando se apercebe do potencial do produto, a nossa anfitriã questiona sobre a eventual feitura de um lote deste líquido dourado. O nome? Pousio, predominante no portefólio vínico da casa. O lote experimental sai em 2013. Três anos depois, avança para o mercado, com o Pousio Premium e, em 2019, surge o Pousio Clássico. A empresa aposta forte na venda do azeite embalado num garrafão escuro, com capacidade de três e cinco litros. Em 2022, aparece Pousio Homenagem Oliveiras Centenárias, aquando do projeto Olivares Vivos, que incide na atribuição do certificado europeu face ao compromisso dos olivicultores a respeito da preservação da biodiversidade. Todo o azeite é extra virgem.
Líquido dourado
Antes da produção, é efetuada a monitorização das amostras de todas as variedades de azeitona. O objetivo é “avaliar o teor de matéria seca, a gordura e a humidade, para vermos se estão no ponto”, informa Mariana Carmona e Costa, que permanece muito tempo no campo, contando com o desempenho de António Maria Aleixo. A campanha começa com a apanha da Arbequina dos olivais em sebe, a qual demora cinco dias. A Galega também é colhida muito cedo, em outubro, para obter uma azeitona mais verde e com sabores “a frutos secos, como a amêndoa, mais amargos”. No geral, conseguem-se “notas mais positivas nos nossos azeites e também temos mais a certeza que têm uma acidez mais baixa. Quanto mais tarde é a apanha, maior é o grau de acidez”, assegura a nossa anfitriã. Morosa, a campanha termina entre dois meses e os dois meses e meio, com a Cordovil, a Cobrançosa e a Picual, pelo meio, concluindo com as parcelas de Verdeal do olival de sequeiro.
O transporte adequado e assegurar as condições do lagar são imperativas em prol da produção de um azeite de qualidade. O lagar está na Vidigueira, para onde são levadas por variedade. A extração do azeite é feita a frio. Depois “fica tudo separado por depósitos por variedades e por zonas da propriedade. Mesmo dentro das Arbequinas, separamos as das duas parcelas, porque conferem particularidades diferentes às azeitonas”, garante. Segue-se a prova sensorial de todos os depósitos, com o diretor de lagar e o mestre lagareiro. Traçados os perfis, Mariana Carmona e Costa avança para os blends. A média anual é de aproximadamente 800 toneladas.
“Equiparo o azeite ao sumo de laranja, em que o ponto ótimo é o momento da extração. A partir daí, vai perdendo, a pouco e pouco, as propriedades, ao contrário da maior parte dos vinhos. Por isso, é importante preservar o azeite da melhor maneira, em local escuro”, aconselha. Estes cuidados permitem minimizar a degradação do azeite, produto “rico em antioxidantes, em polifenóis e clorofila”. A estas recomendações, Mariana Carmona e Costa soma a importância da literacia ligada ao azeite. É crucial “que as pessoas experimentem azeites de norte a sul, porque o clima muda muito, as terras mudam muito, para verem o que mais gostam com determinados pratos e, acima de tudo, educarem os filhos, porque é uma gordura super saudável”
Ao contrário do vinho, o negócio do azeite revela maior desperdício, daí que o custo de produção seja maior. A seleção do recipiente é igualmente relevante, pois há que preservar o produto. Uma embalagem bonita chama a atenção, sobretudo para oferecer, mas convém que se esteja ciente da durabilidade do azeite, ou não fosse o extra virgem ideal para finalizar um prato: “o mais intenso, para a massa ou um gaspacho, o mais plano, para peixe de mar fresco, assado no forno, e os mais picantes para a batata, o queijo fresco de cabra ou a salada.”
Regeneração e biodiversidade
“Temos um mosaico e uma diferenciação bastante grande” na propriedade, tal como se comprova do alto do miradouro da serra do Mendro, virado para a Herdade do Monte da Ribeira, onde o rio Guadiana corta e planície deste Alentejo quase sem fim. Mariana Carmona e Costa quer preservar este património da melhor maneira, para “deixar, às futuras gerações, melhor do que encontramos aqui, quando viemos para aqui trabalhar”.
A transição para a agricultura de sustentabilidade com práticas regenerativas marca a nova era da Herdade do Monte da Ribeira, para tornar os solos mais resilientes e de modo a evitar a erosão. A introdução do rebanho de ovelhas, prática iniciada há quatro anos, é outra das práticas com resultados positivos, assim como a utilização de maquinaria adequada a esta iniciativa. Ao mesmo tempo, “é preciso manter o ecossistema, preservar o mosaico que temos em prol da qualidade, temos olival, vinha, zonas de mato, de azinho, caça, a serra, linhas de água”, enumera António Maria Aleixo. A flora e a fauna do Mendro estão a ser analisados, com o apoio de consultores, a favor da biodiversidade.
O desvelo estende-se aos trabalhadores do campo. “Tentamos ter, ao máximo, pessoas das aldeias vizinhas e priorizar os filhos e as famílias, para lhes darmos trabalhos a eles, mas as gerações mais novas não querem trabalhar no campo, os mais velhos estão a reformar-se e os pais não querem os filhos a trabalhar na agricultura. Somos forçados a recorrer a prestações de serviço. Estamos num momento de viragem”, remata a nossa anfitriã.
(Artigo publicado na edição de Novembro de 2025)
COSTA BOAL: Dar tempo ao tempo. E ao vinho

“São os três melhores vinhos que apresentei até hoje”, afirma António Boal, o rosto da Costa Boal Family Estates, ao revelar três rótulos muito especiais do seu portefólio: a estreia absoluta do Costa Boal Garrafeira branco de 2022 e do tinto de 2017, e o relançamento das últimas 500 garrafas do Homenagem tinto 2011, dedicado […]
“São os três melhores vinhos que apresentei até hoje”, afirma António Boal, o rosto da Costa Boal Family Estates, ao revelar três rótulos muito especiais do seu portefólio: a estreia absoluta do Costa Boal Garrafeira branco de 2022 e do tinto de 2017, e o relançamento das últimas 500 garrafas do Homenagem tinto 2011, dedicado ao pai. “O vinho não é feito de dias, nem de meses; é feito de anos”, reflecte António Boal, o produtor de origem duriense que, desde há mais de vinte anos, vai construindo o seu património constituído por pequenas propriedades.
A Costa Boal Family Estates é relativamente recente, mas a história vitivinícola da família, como é habitual no Douro, remonta a meados do século XIX, quando os antepassados de António Boal produziam vinho para empresas exportadoras. Após o falecimento do pai, em 1999, António Boal assumiu a gestão do legado familiar e, em 2004, fundou a empresa. Desde então, não tem parado de crescer, não apenas em hectares de vinha, mas também em reconhecimento, dentro e fora do país.
Neste momento, a Costa Boal possui propriedades nas regiões do Douro, Trás-os-Montes e Alentejo: Quinta do Vale de Mouro, em Foz Côa, Quinta do Sobredo e Quinta dos Tojais, em Alijó, Quinta da Pia, em Murça, Quinta dos Távoras, em Mirandela, e Herdade dos Cardeais, em Estremoz. As vinhas velhas sempre foram uma grande aposta de António Boal e, para trabalhar esta preciosidade, encontrou o parceiro enológico certo: Paulo Nunes, apaixonado por estas relíquias.
Garrafeira e Homenagem
A menção Garrafeira não é muito comum no Douro, provavelmente porque exige um estágio prolongado: mínimo de 30 meses, dos quais, pelo menos, 12 em garrafa, para os tintos, e 12 meses com, pelo menos, seis em garrafa, para os brancos. “Muitas vezes, transformamos a emoção em racionalidade. Não damos tempo ao vinho para se exprimir”, afirma Paulo Nunes, em tom filosófico. Mas, para além da filosofia, aqui fala a voz da experiência, de quem sabe esperar e conhece os vinhos desde a vindima, acompanhando a sua evolução.
O Costa Boal Garrafeira branco 2022 tem por base as vinhas velhas de Códega de Larinho e Rabigato, com o tempero de Arinto das vinhas mais recentes. “A Arinto dá profundidade e permite pensar na evolução”, explica Paulo Nunes. O solo é maioritariamente granítico e está localizado a uma altitude de 600 metros. O estágio decorreu em barricas usadas de 225 litros. Dois invernos (rigorosos) em barrica, contribuiram para uma estabilização natural. Depois de engarrafado, o vinho estagiou até ao lançamento. Foram produzidas 700 garrafas.
O Costa Boal Garrafeira tinto 2017, para além das vinhas velhas, tem Tinto Cão e Sousão, duas castas que conferem acidez e tensão ao vinho. Ficou três invernos em barricas usadas e novas antes de ser engarrafado. Foram produzidas 960 garrafas. Já o Costa Boal Homenagem Grande Reserva tinto da colheita de 2011 teve vários lançamentos de quantidades limitadas ao longo do tempo. Numa altura, foi refrescado com um pouco de Tinto Cão e Sousão de 2017, mas o que está agora a ir para o mercado, são as últimas 500 garrafas do lote original, que Paulo Nunes desafiou António Boal a guardar. Neste lote, só entram Touriga Nacional e Touriga Franca, sem nenhum refrescamento posterior.
A menção Garrafeira não é muito comum no Douro, provavelmente porque exige um estágio prolongado: mínimo de 30 meses, dos quais, pelo menos, 12 em garrafa, para os tintos, e 12 meses com, pelo menos, seis em garrafa, para os brancos
Novo visual
Conhecendo o perfeccionismo de António Boal, percebe-se que neste lançamento nada foi deixado ao acaso, desde a imagem e packaging até à escolha do local para a apresentação, o Palácio do Marquês de Pombal, espaço nobre e com grande peso histórico. O projecto criativo foi idealizado pela equipa interna da Costa Boal, em colaboração com a MA Creative Agency. “Desde o início, pretendia-se uma imagem que se processasse visualmente sem dificuldade”, explica Luís Marques, responsável pela agência criativa. Optou-se por uma elegância sóbria com detalhes que fazem a diferença. No topo da rolha, está uma pequena peça, que representa a marca Costa Boal. Não precisa de ser removida antes de se abrir a garrafa e permite o uso de qualquer saca-rolhas, mais “pro” ou menos “pro”. No gargalo, uma gargantilha em veludo de cores diferentes distingue os vinhos: verde para o branco e preta para o tinto.
A madeira das matas queimadas em incêndios de 2025, cuidadosamente recuperada e tratada, foi transformada em caixas distintas, para complementar o packaging, seguindo um conceito de reaproveitamento. Duas peças metálicas, uma com o brasão para os Garrafeira e outra com o busto do fundador, no caso do Homenagem, com tratamento “antique”, conferem nobreza ao rótulo e à caixa.
As propostas de harmonização estiveram a cargo de Justa Nobre. O cabrito assado à Transmontana permitiu que ambos os tintos revelassem o seu encanto e carácter. O Costa Boal Garrafeira 2017, focado e austero, disputava a primazia com o prato pela força do sabor, enquanto o Costa Boal Homenagem Grande Reserva 2011, rico e amplo, aconchegava o cabrito sem luta. Este último proporcionou ainda muito prazer ao saboreá-lo depois da refeição, graças às suas notas balsâmicas e resinosas.
(Artigo publicado na edição de Novembro de 2025)
CASA DA RÉSSA: O espelho de Folgosa do Douro

Porquê no Douro? Pela “vinha com aquela beleza, o quadro que nos proporciona”. A justificação é dada por Alexandre Dias, o empresário que, após o regresso a terras lusas, a pouco e pouco, foi investindo na região demarcada mais antiga do mundo, mais concretamente na margem sul do rio que lhe empresta o nome, pois […]
Porquê no Douro? Pela “vinha com aquela beleza, o quadro que nos proporciona”. A justificação é dada por Alexandre Dias, o empresário que, após o regresso a terras lusas, a pouco e pouco, foi investindo na região demarcada mais antiga do mundo, mais concretamente na margem sul do rio que lhe empresta o nome, pois a Casa da Réssa está localizada na Folgosa do Douro, no concelho de Armamar, distrito de Viseu, na sub-região do Baixo Corgo.
É um projeto recente, iniciado em 2019, com a aquisição da Vinha das Lages, de três hectares, um prelúdio de uma história que, agora, reúne “40 hectares de terra, entre olival, mato e 25 hectares de vinha. É casa que abriga todas aquelas parcelas que consegui juntar”. Uma manta de retalhos constituída por mais de 50 parcelas, de diferentes tamanhos e formatos, e pela Quinta da Médica comprada na totalidade.
A admiração pelo trabalho de enologia de Paulo Nunes determinou a escolha por parte de Alexandre Dias para a Casa da Réssa. “Filho deste território do Baixo-Corgo”, nas palavras do empresário, Paulo Nunes sente-se em casa neste projeto vitivinícola, ou não fosse a Vinha das Lages avistada da casa dos pais. “Conheço este emaranhado de vinhas, de parcelas, com vertentes voltadas a nascente, a norte, a nascente e a sul”, descreve, acrescentando a riqueza de um património vinhateiro coassociado com vinhas mais recentes. A localização estende-se entre os 170 e os 700 metros de altitude, com solos de xisto, mais abaixo, e a transição para granito, mas acima na orografia.

A Casa da Réssa é um projeto iniciado em 2019, em Folgosa do Douro. Reúne “40 hectares de terra, entre olival, mato e 25 hectares de vinha. É casa que abriga todas aquelas parcelas que consegui juntar”
Vinhos de parcela
O objetivo deste projeto “é isolar cada vez mais as parcelas, para fazer vinhos de parcela”, declara Paulo Nunes, com o propósito de evidenciar a diversidade do Douro. Com a silhueta paisagística desta região como ponto de partida para a explicação, o enólogo expõe as diferenças evidentes entre as cotas, com o Vale do Douro predominantemente xistoso e sem ventilação, dando origem a mais calor e humidade; e o planalto, denominado Monte Raso, caracterizado pelos solos de granito e as noites frias. Logo, as uvas vindimadas nas cotas mais baixas apresentam uma componente mais quente, de maior extração, enquanto as que são colhidas mais acima resultam em vinhos com uma componente mais fresca e uma acidez mais marcante.
Estas diferenças querem-se vincadas nos vinhos da Casa da Réssa. “Quisemos desconstruir um paradigma que o Douro vive, o qual vem de uma era de globalização, em que houve a necessidade de criar um padrão dos vinhos do Douro. Acho que fazer vinhos do Douro, no meu entender, não é a mesma coisa que fazer vinhos do Porto. Deveria haver duas regiões demarcadas”, defende Paulo Nunes, explicando que a produção de vinhos DOC Douro difere da produção de Vinho do Porto.
Além das vinificações feitas por parcela, o enólogo enaltece o trabalho efetuado na escolha das barricas, no sentido de “reunir o máximo de tanoarias que há, com diferentes queimas, diferentes tostas e diferente grão. Não temos duas barricas iguais da mesma tanoaria”. Este trabalho de precisão deve-se à abertura de Alexandre Dias, para quem o objetivo é “criar vinhos que sejam o espelho da essência daquele território (…) de fruta pura e alma rústica”. Talvez seja este o motivo pelo qual foi eleito o nome Casa da Réssa, “palavra do Douro e do Minho, que significa réstia de sol”.
A seleção de barricas baseia-se em queimas, tostas e grãos diferentes. “Não temos duas barricas iguais da mesma tanoaria”, afirma o enólogo Paulo Nunes
Património duriense
As vinhas antigas da Casa da Réssa são um legado de enorme importância para Paulo Nunes, o qual está nas mãos de João Costa, enólogo responsável pela adega e quem zela por todo o trabalho de campo. Dão corpo a um trio DOC Douro. Para comprovar tamanha dedicação a este legado, a equipa de enologia escolheu uvas “de um conjunto alargado de castas”, segundo Paulo Nunes, como Fernão Pires, Viosinho, Verdelho, Malvasia Fina, Malvasia Rei, colhidas em vinhas velhas localizadas em altitude, para fazer o Casa da Réssa Reserva branco 2022.
Embora a Touriga Nacional, a Touriga Franca e a Tinta Barroca constem na matriz do Casa da Réssa Reserva tinto 2021, este vinho também é feito a partir de uvas colhidas em vinhas velhas. Já o Casa da Réssa Grande Reserva tinto 2021 se traduz num field blend de vinhas velhas localizadas entre os 400 e os 500 metros de altitude. Para reforçar o carácter desta referência vínica, Paulo Nunes incluiu o engaço na equação, porque “dá-me mais camadas, texturas, ângulos, que me agradam particularmente” e submeteu o vinho a estágio apenas em barricas de madeira.
Mas o portefólio da Casa da Réssa não fica por aqui. Há um Porto Vintage 2023 e um Porto Colheita branco 2022. Sobre este último, o enólogo principal destaca o facto de ser “uma oportunidade para chegar a outros mercados”, uma vez que se trata de um tipo de vinho com mais acidez e mais equilíbrio, a somar ao prestígio atribuído ao Vinho do Porto. Ambas as referências são feitas a partir de uvas próprias e a ideia é, de acordo com Paulo Nunes, “trabalhar os vinhos do Porto com indicação de idade”.
(Artigo publicado na edição de Novembro de 2025)
Quinta do Mourão: Caixa das relíquias do Vinho do Porto

O tal mapa do Douro feito pelo Barão data de 1845 e sabe-se que a Quinta do Mourão existe, pelo menos, desde 1843, mas… mais para trás está tudo nubloso e não há como saber a história mais antiga. Foi assim que começou a nossa conversa com Antonina Barbosa, enóloga de formação, que está à […]
O tal mapa do Douro feito pelo Barão data de 1845 e sabe-se que a Quinta do Mourão existe, pelo menos, desde 1843, mas… mais para trás está tudo nubloso e não há como saber a história mais antiga. Foi assim que começou a nossa conversa com Antonina Barbosa, enóloga de formação, que está à frente deste novo desafio, acumulando a enologia com a função de gestora, idêntica à que já tinha nos outros projectos da Falua (regiões do Tejo e Vinhos Verdes). A conversa decorreu no edifício principal da propriedade, integrado num casario que se estende por várias edificações e onde até existe, em ruínas e à espera de melhor sorte, um lagar de azeite. Há oliveiras, há um azeite muito bom (provámos), mas a produção de 1000 a 1200 garrafas de 0,5 l não é ainda assunto. “Temos muito orgulho no nosso azeite e temos condições para crescer”, dizem-nos.
Conta-se que terá sido na casa principal, edifício velho e cheio de história, que Ramalho Ortigão terá escrito “As Farpas”, corria o ano de 1885. Ali mesmo ao lado, fica a adega que concentra todas as operações de vinificação, sobretudo dos vinhos DOC Douro (marca Rio Bom). Por baixo da casa principal está a adega dos vinhos do Porto, onde estagiam os vinhos do Porto tawnies e brancos velhos, em enormes tonéis ali construídos e que dali não saem por não caberem na porta(!). Por analogia com o Fort Knox (EUA), esta adega é apelidada de Porto Knox, tais as relíquias que ali se guardam, entre grossas paredes de xisto e tonéis de madeira exótica, com idades entre os 100 e 200 anos, sensivelmente a mesma da casa principal. Apesar de tamanha antiguidade, um bom nariz poderá conseguir distinguir os aromas próprios e as notas fumadas que cada tonel confere aos vinhos. São trunfos que, cremos, Bento Amaral, ex-chefe da Câmara de provadores do Instituto do Vinho do Douro e Porto (IVDP), e agora consultor da Quinta do Mourão, poderá apreciar. Além de participar nas provas, ajuda na elaboração dos lotes. Para que tudo corra pelo melhor, Antonina Barbosa conta com a enóloga Andreia Alexandre, que já trabalhava, na Quinta de S. José, com João Brito e Cunha.

Diz-se, mas ninguém dá pormenores, que quando há interesse em comprar uma propriedade nesta região, não faltam propostas, “algumas delas até de empresas de maior volume de negócio do que esta; eram telefonemas atrás de telefonemas. Porque é que nos decidimos por esta? É fácil: uma quinta com esta história, este stock de vinhos velhos, sobretudo de brancos muito velhos, foi o que mais nos atraiu. Cremos que ninguém no Douro tem, por exemplo, algo como brancos com 50 e 80 anos nas quantidades que temos”, conta Antonina Barbosa.
O nome Quinta do Mourão, em boa verdade, não corresponde a uma única propriedade, é um chapéu genérico que inclui cinco propriedades, do Baixo ao Cima Corgo. Temos assim, não longe do Mourão, a Quinta de Barrojas, a Quinta da Marialva e a Quinta do Teles, todas localizadas no Baixo Corgo; a Quinta da Poisa, perto de S. Leonardo de Galafura, situa-se no Cima Corgo. Em várias das propriedades há casario, mas nada de vinificação ou envelhecimento; todas as uvas convergem para aqui, quer as que se destinam a DOC Douro, quer as que vão para os vinhos do Porto. Da Galafura e S. Leonardo, a empresa adoptou o nome para os seus vinhos do Porto. Lá, na Quinta da Poisa, reinam as uvas brancas, plantadas a boa altitude, rodeadas por um pequeno povoado romano de interesse arqueológico, delimitado e identificado. Ao todo, nas várias propriedades, falamos de 50 hectares de vinhas, que estiveram, até à entrada da Falua, na posse da família de Miguel Braga. A família chegou mesmo a conseguir a proeza de ter autorização do IVDP para fazer um Porto branco de 90 anos (categoria inexistente), pensado para comemorar das nove décadas da mãe de Miguel Braga. Era então habitual, na época, vender vinhos velhos para outras empresas, mas com os novos proprietários as vendas a granel terminaram.
Segredos? Nem por isso…
A Quinta do Mourão tem a mesma localização de muitas outras do Baixo Corgo – margem sul, exposições variadas, clima amenizado pela proximidade do rio, boas condições térmicas para armazenamento dos vinhos. É sempre bom recordar que foi por aqui que nasceu o Vinho do Porto e que existiam mais casas com vinhos do Porto velhos. Muito provavelmente, a mais-valia da quinta foi ter conseguido preservar os vinhos velhos. Parece óbvio, mas nem sempre é, sobretudo quando as empresas atravessam dificuldades e as famílias não se entendem.
Assim sendo, se andarmos por aqui à procura do “segredo” de toda esta qualidade, vamos ter uma desilusão. É que a produção de Porto segue a mesma metodologia de todas as quintas: pisa das uvas em lagar, passagem para cimento e posterior decisão sobre o destino de cada lote, antes de serem colocados nos cascos velhos (11 tonéis de 12 500 litros) e pipas, também elas já com muita idade. Pela dimensão, percebe-se que os tonéis foram montados dentro da adega e dali não vão sair. As especialidades, os vinhos que se destinam aos 50 e 80 anos, são religiosamente guardados em pequenas pipas e os engarrafamentos são feito a pedido, caso a caso. Não há lançamentos anuais. O ambiente fresco da adega, parcialmente enterrada, algo que comprovámos em setembro último, é uma boa razão para a forma como os vinhos velhos evoluem.
Não há segredos, mas não faltam os bons motivos para atrair visitantes, acima de tudo os que tiverem interesse em provas especiais. A proximidade paredes-meias com o hotel Six Senses, ajuda a que alguns visitantes não hesitem em aceitar a chamada Port Experience, que inclui vinhos até 90 e 100 anos, com um preço de €500 por pessoa. A este “topo” juntam-se depois provas de valores bem mais módicos. Nos vinhos do Porto branco, a gama começa nos 10 anos e nos tawnies (feitos a partir de tintos) há duas marcas abaixo dos €10, sobretudo para exportação e que a empresa não comunica. Também para exportar tem três marcas, nas quais se utilizam uvas próprias e uvas compradas.
Ter por trás o nome já bem implantado – Falua – não é garantia de boa aceitação em mercados novos de exportação. Há que trabalhar, não só nos mercados já seguros (Dinamarca, Holanda, Reino Unido e Estados Unidos), como também na abertura de novos canais, na China, Canadá, Brasil e Suíça. O Reino Unido é um mercado muito difícil, uma vez que, a par de clubes especialíssimos que privilegiam os vinhos velhos, há depois a “doença inglesa” do good value for money, que obriga empresas a vender ao desbarato. “Não entramos nesse jogo”, diz-nos.
Ao sabor dos tempos e suas modas, a Quinta do Mourão também se lançou em edições especiais, verdadeiros tesouros – Mother Wine –, que são vinhos centenários, vendidos, muito propriamente, a preços de ourivesaria. Por muito que custe ao consumidor, a verdade é que só assim se valoriza o vinho e a região. E em termos de investimentos, a Falua fica por aqui? “Estamos atentos”, foi tudo o que conseguimos ouvir.
Jogar em dois tabuleiros
A entrada da empresa Falua no Douro desenvolveu-se em dois momentos: um – Quinta do Mourão – com uma aposta muito forte no vinho do Porto, sobretudo nos vinhos da categoria tawny, velhos e muito velhos, e nos vinhos do Porto brancos, com os DOC Douro em segundo plano; num segundo momento, na Quinta de S. José, situada no Cima Corgo, à beira-rio, com turismo rural implantado e a funcionar. Aqui a aposta mais forte vai para os DOC Douro e, nos casos dos vinhos do Porto, em LBV e Vintage. Antonina Barbosa separa bem as águas: “são estilos totalmente diferentes, sem qualquer ligação orgânica; em S. José, pode dizer-se que 99% é DOC Douro e 1% Vinho do Porto”. É verdade que há alguma semelhança de castas, em particular a respeito da Touriga Nacional e da Touriga Francesa, mas isso, hoje em dia, é o mais habitual na região. Além do peso daquelas duas castas, na Quinta de S. José ainda existe uma pequena parcela de três hectares, com vinha muito velha; tudo o resto resulta de plantações já deste século. Também tem adega própria. Por isso, os dois projectos estão totalmente separados e, segundo Antonina Barbosa, “foi o vinho que nos interessou, mais do que a casa, a adega ou o enoturismo”. A produção anual, aqui, ronda as 80 000 garrafas/ano.
Na quinta do Mourão, e em anos de produção normal, fazem-se 300 000 quilos de uvas, com um benefício de 200 pipas. O projecto aponta para que a produção de DOC Douro atinja as 50 000 garrafas, sempre num registo entre os €9 e os €15 por garrafa, “nem pensar que vamos entrar na loucura de matar preços”, afirma a enóloga. Para já, não houve qualquer alteração de encepamentos; apenas alguns ajustes em termos de viticultura e reposição de cepas mortas. Há, perto da casa principal, uma folha de Tinta Francisca, muito apreciada pela equipa e ainda à espera de decisão comercial.
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S. Leonardo
Fortificado/ Licoroso - -

Mother Wine of 40 anos
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(Artigo publicado na edição de Novembro de 2025)
SOUSÃO: Entre amores e ódios

Sabemos que tem história antiga e, à falta de melhor prova, acredita-se que tenha nascido no Minho, de parentesco (ainda) incerto. É a casta tinta mais plantada na região, ainda que não fosse dominante nas zonas de Monção e Melgaço. Com referências que remontam ao século XVIII, surge em finais do século XIX já como […]
Sabemos que tem história antiga e, à falta de melhor prova, acredita-se que tenha nascido no Minho, de parentesco (ainda) incerto. É a casta tinta mais plantada na região, ainda que não fosse dominante nas zonas de Monção e Melgaço. Com referências que remontam ao século XVIII, surge em finais do século XIX já como nome actual de Vinhão. No Douro ganhou o nome de Sousão, sinónimo. Ao organizarmos esta prova, resolvemos integrar só vinhos com a indicação de Sousão e, por essa razão, escolhemos apenas um da região dos Vinhos Verdes.
A sua introdução no Douro parece estar relacionada com o abandono da baga de sabugueiro usada durante décadas e décadas, para dar cor aos vinhos. De facto, muitas das mais tradicionais castas do Douro, como Bastardo, Tinta Francisca, Malvasia Preta, Cornifesto, Tinto Cão e Mourisco, entre outras, eram reconhecidamente com pouca cor e a baga de sabugueiro, introduzida nos lagares onde se pisavam as uvas, ajudava a dar cor, uma das características (ainda hoje) procurada nos vinhos que se querem transformar em Vinho do Porto. A Sousão é a rainha da cor, não pela polpa (por isso não é considerada casta tintureira), mas pela extrema intensidade corante da película.
Uma vez chegada ao Douro, a Sousão não deixou créditos por mãos alheias. Faz parte das castas que têm crescido em área, sobretudo desde que se começou a apostar fortemente nos DOC Douro; partilha algum protagonismo com a Alicante Bouschet, uma variedade que, apesar de estar presente nas vinhas velhas, é agora que conhece um alagamento do plantio, gradualmente substituindo a Tinta Barroca e mesmo a Tinta Roriz. Quem usa Sousão reconhece-lhe, além das virtudes corantes, a constância da acidez, que conserva bem mesmo em ambiente de maior calor, factor a ter em conta em tempos de alterações climáticas. “Adoro a casta, sobretudo para fazer um lote de DOC Douro, juntamente com Touriga Nacional e Tinto Cão, que é o meu lote favorito!”. Quem o diz é Luís Soares Duarte, enólogo com largos anos de experiência na região. Reconhece que além da boa acidez, tem um pH baixo, “não é raro encontrar uvas com pH de 3.1 e 14º de álcool provável”. Luís Soares Duarte não esconde que é a componente vegetal que muito o atrai na Sousão, ao lado da “cor mais bonita comparativamente à da Alicante Bouschet”. Para Vintage e LBV, a Sousão pode ser uma excelente arma, pela componente fenólica, embora não seja das mais aromáticas. Mas alerta: “às vezes extrai-se demais e perdem-se algumas das subtilezas que tem, como seja as notas de farmácia e tinta da China”, conclui.
A Sousão é a rainha da cor, não pela polpa vermelha, mas pela extrema intensidade corante da película

Já Álvaro Lopes, chefe de viticultura da Real Companhia Velha, que também usa a casta na Quinta das Carvalhas, apesar de lhe reconhecer as virtudes do factor cor, afirma o seguinte: “porta-se muito mal em vinhas de exposição sul e baixa altitude, caindo facilmente em sobrematuração, o que gera vinhos desequilibrados.” Segundo Álvaro Lopes, para fazer face às alterações climáticas a opção deverá passar por outras castas, como Donzelinho, Tinta Bastardinha (Alfrocheiro) e Tinta Francisca. Se é fundamental num lote de DOC Douro? “Não me parece, até a bairradina casta Baga (que existe dispersa nas vinhas velhas) é preferível à Sousão!”
Diogo Lopes, enólogo, só trabalha a casta no Alentejo, na Herdade Grande. No entanto, reconhece que, com o “novo” clima que temos pela frente, a casta Sousão pode ser um trunfo, não só pela acidez que conserva, como também por aguentar muito bem o impacto da madeira, mesmo nova. “A passagem na madeira ajuda a equilibrar a rusticidade da casta e estou em crer que, ainda que em extensão moderada, se pode apostar na casta aqui no Alentejo. Na Herdade Grande é mesmo o varietal com mais sucesso que temos.”
A casta, não nasceu para ser consensual, antes para provocar acesas discussões. Já não tanto quanto à questão de como deve ser bebido o vinho, se na caneca, se no copo, assunto ultrapassado entre enófilos, mas sim como casta que, cheia de manias e caprichos, pode dar direito a controvérsia. E há lá coisa que se goste mais?
A casta não nasceu para ser consensual, antes para provocar acesas discussões
Mudam-se os tempos
Nas últimas décadas, a Sousão tem conhecido uma significativa alteração de perfil. Se recuarmos até aos anos 80 e 90 do século passado, os Verdes tintos de Vinhão carregavam consigo uma verdadeira chancela “etnográfica”, pois só eram apreciados localmente, onde os consumidores gostavam daquela combinação explosiva que afasta qualquer crítico de vinhos e que inviabiliza o vinho em qualquer concurso: muita cor, excessiva carga vegetal no aroma e, consequente, ausência de fruta, muita acidez, muitos taninos espigados e, frequentemente, baixa graduação alcoólica. Não foi assim de estranhar que tenha ouvido um técnico da Comissão Vitivinícola afirmar: “não comunicamos este vinho nos mercados externos, para além do mercado da saudade.”
Entretanto optou-se por outras práticas vitícolas, os procedimentos em termos de enologia, alterou-se o clima, mudou o gosto do consumidor e, por via disso, os vinhos também mudaram. O desafio agora é, cremos, conseguir que o vinho não perca o seu ADN e, ao mesmo tempo, corresponda ao gosto actual, onde se privilegia um bom equilíbrio entre corpo, acidez e taninos. Baixar intencionalmente a acidez, retirar todos os taninos ou forçar a perda de cor não será seguramente o caminho.
Os vinhos que agora apresentamos têm uma paleta de estilos que permite recuperar o consumidor que andou de costas voltadas ao Sousão/Vinhão. Porém, dá para perceber que se está ainda em fase de “reconhecimento” do terreno: não é por acaso que, à excepção do vinho da Quinta do Vallado, todos os outros são feitos, digamos, em quantidades homeopáticas. Alargam o portefólio e não interferem com a folha Excel…

Em jeito de balanço
Atendendo a que os vinhos apresentam estilos muito variados, é possível agrupá-los pelo perfil apresentado por cada um. Praticamente todos têm uma característica comum: podem ser guardados durante alguns anos. Mas atenção a este tema: os que foram aqui provados dão a ideia (a confirmar em provas futuras) que a longevidade não deverá ultrapassar os cinco ou seis anos, sob pena de se perderem algumas das características mais marcantes da casta.
Feito o balanço, agrupamos os vinhos assim: num perfil mais simples e até, eventualmente, mais consensual – Quinta de Ventozelo e H.O –, com um estilo já um pouco mais evoluído – Quinta dos Aciprestes, Vale da Raposa e Herdade Grande Late Release – e uma versão mais clássica, se tivermos como modelo os Verdes tintos – Quinta de Santa Cristina, Maçanita e Monte Branco; se o nosso gosto apontar para um Sousão, digamos, mais “domesticado”, vamos escolher entre Vallado, Quinta do Côtto, Costa Boal e D. Graça; e se o nosso palato não se incomodar com a presença da madeira e achar que ela envolve a casta e a modela, ficamos com Quinta da Rede e Quinta de São José.
(Artigo publicado na edição de Novembro de 2025)
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Quinta de Ventozelo
Tinto - 2022 -

Vale da Raposa
Tinto - 2021 -

H.O.
Tinto - 2019 -

Costa Boal
Tinto - 2018 -

Vallado
Tinto - 2021 -

Quinta dos Aciprestes
Tinto - 2017 -

Quinta do Côtto
Tinto - 2022 -

Quinta de S. José
Tinto - 2019 -

Quinta de Santa Cristina Cave
Tinto - 2019 -

Quinta da Rede
Tinto - 2023 -

Monte Branco
Tinto - 2021 -

Maçanita Letra A
Tinto - 2022 -

Herdade Grande Late Release
Tinto - 2017 -

D. Graça
Tinto - 2021
TINTOS DO ALENTEJO: A plenitude de uma região

O Alentejo estende-se da fronteira com Espanha até à Costa Vicentina, desce a Serra de São Mamede, em Portalegre, e propaga-se até ao Algarve. A região, amplamente banhada pelo sol, é moderada por influências marítimas no litoral e pela continentalidade no interior, proporcionando amplitudes térmicas diárias. Apresenta a maior diversidade de solos do país – […]
O Alentejo estende-se da fronteira com Espanha até à Costa Vicentina, desce a Serra de São Mamede, em Portalegre, e propaga-se até ao Algarve. A região, amplamente banhada pelo sol, é moderada por influências marítimas no litoral e pela continentalidade no interior, proporcionando amplitudes térmicas diárias. Apresenta a maior diversidade de solos do país – xistosos, graníticos, argilosos e arenosos, sobretudo –, o que se reflete diretamente no perfil dos vinhos. Portanto, é natural que revelem expressões muito diferentes.
Da herança romana à excelência atual
Habituamo-nos a pensar que o Alentejo é uma região vitivinícola recente, porque confundimos o boom de crescimento com a história do próprio território, que já vai longa. O cultivo da vinha remonta à época romana, como comprovam vestígios arqueológicos encontrados na região, entre eles, grainhas de uva nas ruínas de São Cucufate, localizadas junto à Vidigueira, e antigos lagares atribuídos a esse período. As talhas de barro usadas para fermentar e conservar o vinho também são uma herança romana na região.
O Alentejo viveu várias épocas de ouro e crises profundas: a invasão muçulmana; a aposta do Marquês de Pombal no desenvolvimento do Douro; a praga de filoxera; a primeira guerra mundial e a campanha cerealífera do Estado Novo.
Embora já existissem as referências emblemáticas de Mouchão, Tapada do Chaves, Quinta do Carmo ou José de Sousa, o verdadeiro impulso dos vinhos alentejanos deu-se nas duas últimas décadas do século passado, com a demarcação da região em 1988/89. As grandes marcas, que então surgiram, conquistaram o consumidor através dos vinhos redondos e macios, com fruta madura, muita presença e consistência.
Em 1985, nasceu a marca Esporão. A empresa também viria a ser pioneira no enoturismo, abrindo as portas ao público em 1997. A Fundação Eugénio de Almeida lançou, por sua vez, duas marcas representativas do Alentejo: Cartuxa (1986) e Pêra-Manca (1990). Ambas alcançaram grande sucesso em Portugal e no Brasil, e não só mantiveram a fama, como se tornaram clássicas, competindo, hoje, lado a lado, com as novas estrelas em ascensão.
Na década de 90 aconteceram mudanças significativas no estilo de vinhos alentejanos, com a contribuição de dois grandes enólogos: João Portugal Ramos, que iniciou depois o próprio projecto, e o australiano David Baverstock, que assumiu a responsabilidade de enologia no Esporão em 1992. Antigamente, os vinhos alentejanos ou não passavam por madeira, ou estagiavam em vasilhas usadas, normalmente barricas de 500 litros ou tonéis de maior capacidade. Utilizava-se, sobretudo, carvalho português e, por vezes, até castanho. Com estes dois enólogos, introduziu-se o uso de madeira nova e de meias barricas de carvalho francês e americano. Os vinhos tornaram-se mais estruturados e texturados, com notas de especiaria e a doçura subtil da madeira.
Na primeira década de 2000, surgiram, entre muitos outros produtores, a Herdade do Rocim, a Fitapreta e a Herdade da Malhadinha, que actualmente estão bem consolidados e são amplamente reconhecidos.
Habituamo-nos a pensar que o Alentejo é uma região vitivinícola recente, porque confundimos o boom de crescimento com a história do próprio território, que já vai longa
Investimento na terra
As características do Alentejo e o sucesso junto do consumidor motivaram produtores de outras regiões e até empresários estrangeiros a investir neste território vitivinícola. Apenas alguns exemplos: em 2010, o casal suíço Erika e Thomas Meier adquiriu a Herdade da Cardeira, localizada a Norte de Borba; em 2015, o casal brasileiro Alberto Weisser e Gabriela Mascioli comprou a histórica Tapada de Coelheiros, em Arraiolos; empresário alemão Dieter Morszeck investiu na Quinta do Paral, na Vidigueira, onde reabilitou e ampliou a vinha existente, e comprou parcelas com mais de 70 anos, na zona de Vila de Frades; David Baverstock, em parceria com o empresário inglês Howard Bilton, inaugurou a adega Howard’s Folly, em Estremoz.
Nos últimos cinco a oito anos, produtores do Douro, cientes do potencial do Alentejo, começaram a investir na região. Foi o caso da Symington Family Estates que, em 2017, expandiu as operações para o Alentejo, dando início ao projecto da Quinta da Fonte Souto, em Portalegre, com 43 hectares de vinha entre os 490 e 550 metros de altitude. No mesmo ano, a empresária Luísa Amorim, responsável pela duriense Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo e pela Taboadella, no Dão, com o cunho pessoal e familiar, fez renascer a Herdade da Aldeia de Cima, na Serra do Mendro, junto à Vidigueira. Em 2021, António Boal, conhecido pelos vinhos do Douro e de Trás-os-Montes, expandiu a Costa Boal Family Estates para o Alentejo, através da aquisição da Herdade dos Cardeais, perto de Estremoz. Na mesma época, o enólogo duriense Manuel Lobo uniu duas propriedades da família sob a marca Lobo de Vasconcellos Wines.
As sub-regiões do Alentejo: 8 + 1?
A Denominação de Origem Alentejo inclui oito sub-regiões oficialmente reconhecidas: Borba, Évora, Granja-Amareleja, Moura, Portalegre, Redondo, Reguengos e Vidigueira. Contudo, há um território que reúne todas as condições para se tornar a nona sub-região: Beja. Numa área tão vasta e diversa em solos, relevo e clima como o Alentejo, esta possibilidade não é de todo improvável.
Nos arredores de Beja, faz-se vinho há mais de mil anos. Porém, durante o Estado Novo, os agricultores foram obrigados a dedicar-se ao cultivo do trigo, tornando este distrito o principal produtor de cereal do país. Entretanto, à volta de Beja nasceram projectos de referência, com volumes de produção interessantes, consistência na qualidade, notoriedade e forte aposta no enoturismo, contribuindo para o novo dinamismo vitivinícola da zona. Referimo-nos à Herdade da Malhadinha Nova (1998), Santa Vitória (2002), Herdade dos Grous (2004) e Herdade da Mingorra (2004), que já atingiram massa crítica suficientes para justificar a criação de uma nova sub-região DOC no Alentejo.
Segundo os dados mais recentes do IVV, a Alicante Bouschet assumiu a liderança no Alentejo, com 17,6% da área plantada
Alicante Bouschet e Co.
Aquando da demarcação da região, a área de vinha do Alentejo registava 11 510 hectares. Desde então, não parou de crescer, atingindo, em 2014, 26 066 hectares. Não há dúvida de que hoje a Alicante Bouschet define a identidade dos vinhos alentejanos, especialmente quando falamos de topo de gama. A casta, de origem francesa, chegou a Portugal no final do século XIX. Pela sua longa história e méritos comprovados, conquistou a “cidadania” na região, onde tem mais tradição do que no país de origem.
Segundo os dados mais recentes do IVV, a Alicante Bouschet assumiu a liderança no Alentejo, com 17,6% da área plantada, ultrapassando a Aragonez, que ocupa, agora, o segundo lugar, com 17,2% (embora nos cadastros da Comissão Vitivinícola Regional Alentejana, esta variedade ainda surja em primeiro, devido a um método de contagem diferente).
Produz generosamente, ultrapassando, facilmente, 15 toneladas por hectare, obrigando a controlar a produção (através da poda curta e monda em verde) entre as sete e oito toneladas por hectare, no máximo, para preservar a identidade. Amadurece tarde, mas a maturação completa é de extrema importância, porque tem película e polpa rica em compostos fenólicos. Não estando bem madura, exprime rusticidade, taninos duros e notas vegetais. Plantada no sítio certo, com produção controlada e ao atingir o ponto óptimo de maturação, revela a essência mais nobre: concentração, volume de boca, força, elegância e longevidade. A intensidade corante é o cartão de visita, já que se trata de uma casta tintureira (com polpa corada). Contribui com isto tudo no lote e não se intimida a solo. Só nesta prova de 36 vinhos, a Alicante Bouschet marcou presença em 25, dos quais três são monovarietais.
Líder nacional em área plantada, a Aragonez também está omnipresente no Alentejo. Confere grande estrutura tânica, mas peca por falta de acidez, sendo combinado, geralmente, com castas que entreguem outras qualidades ao lote. As parceiras mais frequentes são Trincadeira, Alicante Bouschet, Touriga Nacional e, por vezes, Cabernet Sauvignon.
A Trincadeira ainda ocupa o terceiro lugar em área plantada, mas não goza da popularidade de outrora, estando em franco declínio. É uma casta antiga, referida desde 1711, e uma das mais tradicionais do Alentejo. Gosta de condições quentes e preserva bem a acidez, mas apresenta algumas vulnerabilidades. Os cachos compactos, combinados com uma película fina e frágil, tornam-na susceptível às podridões. Além disso, a película não a protege do calor excessivo, fazendo com que os bagos se desidratem, enquanto chuvas abundantes podem fazer os bagos inchar e rebentar. Paulo Laureano descreve-a com carinho: “É uma casta muito feminina: se fizermos tudo bem, cada pequena coisinha, ela é extraordinária; se nos enganarmos numa coisa insignificante, é um desastre.” A Trincadeira continua a ter um papel importante nos lotes tradicionais do Alentejo, frequentemente em parceria com Aragonez e Alicante Bouschet. Aromaticamente, apresenta notas vegetais, herbáceas e apimentadas, para além da fruta.
A Syrah é a quarta casta mais plantada neste vasto território e continua em expansão. Há 35 anos, praticamente ninguém a conhecia e não constava na lista das castas autorizadas da região. Entrou “incognitamente” nos encepamentos e nos vinhos alentejanos pela Cortes de Cima, em 1991, e logo conquistou a atenção e o entusiasmo. Hoje, é uma das paixões gerais dos produtores e consumidores da região.
Para a Touriga Nacional, o Alentejo não é o habitat de eleição, mas a maturação longa traz vantagens na adaptação ao clima regional. Suporta bem a seca, mantendo os bagos túrgidos. Aromaticamente expressiva, é muito apreciada nos lotes, embora, por vezes, se torne um pouco dominante.
Há outra casta do Norte que conquista cada vez mais adeptos na região: Touriga Franca. De ciclo longo, adaptou-se bem às condições alentejanas: não perde folhas basais durante a seca e apresenta bom desempenho tanto em lotes, como em vinhos monovarietais, nos anos mais favoráveis. Nesta prova, esteve presente um monovarietal de Touriga Franca da Plansel.
A Castelão, casta tipicamente alentejana dos tempos passados, tem vindo a perder, literalmente, terreno, e a Cabernet Sauvignon, que chegou ao Alentejo antes da Syrah, nunca atingiu o mesmo protagonismo, mantendo-se relativamente estável nas plantações. Esperava-se que, por ser tardia, se adaptasse ao calor da região, mas o clima é demasiado quente para a casta. O enólogo e produtor Hamilton Reis explica que a Cabernet Sauvignon passa rapidamente “de carácter vincadamente verde a sobremaduro”. Na primeira situação, “os taninos mostram dureza e amargor” e, na segunda, “ficam flácidos e com doçura”, comprometendo o equilíbrio. Pedro Batista, da Fundação Eugénio de Almeida, acrescenta que a célebre casta francesa no Alentejo não apresenta consistência, produzindo “vinhos extraordinários dois anos em cada dez”.
Mais duas castas francesas procuram, no Alentejo, condições melhores do que as da sua origem: Petit Verdot e Petite Sirah. A primeira é uma variedade de ciclo longo e muito tardia, que precisa de sol para amadurecer os taninos; em Bordeaux, não teria qualquer hipótese para brilhar, mas, na referida região portuguesa, encontrou o clima favorável. A segunda, Petite Sirah, sinónimo da casta francesa Durif, foi criada, no século XIX, por François Durif, a partir do cruzamento de Syrah com Peloursin Noir. Quase desapareceu em França, mas alcançou grande sucesso na Califórnia e está presente em alguns países do Novo Mundo. No Alentejo, já começa a afirmar-se, superando castas como Tinta Caiada, Tinta Miúda e Tinta Grossa. Amadurece relativamente tarde e revela preferência por climas quentes e secos. Com cachos compactos e bagos pequenos de casca espessa, rica em antocianinas, produz vinhos muito concentrados e estruturados.
Entramos agora nas castas de nicho. Algumas já tiveram grande representatividade na região, mas, agora, estão fora de moda. A Moreto é uma casta antiga, presente no Alentejo desde o século XIX. Vigorosa e bastante produtiva, revela melhor o carácter quando provém de vinhas mais velhas ou é implantada em solos pobres, onde o vigor e a produtividade são naturalmente controlados. É rústica e muito resistente ao calor, o que explica a sua presença histórica na região, acima de tudo nas zonas mais quentes. Amadurece lentamente e tarde, sendo uma das últimas a ser vindimada, mas nunca atinge teores de álcool elevados. Aromaticamente, não é muito intensa, apresentando fruta vermelha delicada e tem vocação especial para vinhos de talha, mas raramente entra nos topos de gama.
A Alfrocheiro é uma das variedades mais antigas de Portugal. Progenitora de Moreto, Castelão e muitas outras castas, é uma casta muito produtiva, se não for controlada, delicada e tem capacidade para produzir vinhos entusiasmantes. Normalmente, entra nos lotes e raramente chega aos vinhos topo de gama. Nesta prova, esteve presente em dois vinhos provenientes de vinhas velhas: Vinhas da Ira, da Mingorra, e Os Paulistas Chão dos Eremitas, de António Maçanita.
A Tinta Caiada é originária do Nordeste de Espanha, onde é conhecida como Parraleta. Em 1900, Cincinato da Costa descrevia-a, na obra O Portugal Vinícola, como “uma casta de grande produção e rendimento, cultivada em larga escala no Alentejo e geralmente apreciada por dar muito vinho”. Referia ainda que “acomoda-se a todos os terrenos, não chegando, no entanto, a amadurar bem nos terrenos baixos e húmidos”. A casta terá recebido o nome Tinta Caiada, devido ao “enfarinhado abundante” que reveste os bagos, lembrando uma poeira branca. Actualmente, são poucos os produtores a apostar nesta variedade, destacando-se a Herdade da Cardeira, a Adega Maior e João Portugal Ramos, nos quais assume protagonismo em vinhos monovarietais.
A Tinta Miúda (conhecida por Graciano, em Espanha, tem muito mais expressão, sobretudo no Norte), existe na região de Lisboa, onde tem dificuldade em amadurecer bem, além de que se revela sensível à podridão. No Alentejo, apresenta bons resultados, com maturação tardia e capacidade de preservar acidez natural sem ganhar muito açúcar (a Baga também tem um pouco este papel no Alentejo). É um componente importante de lotes e Luís Duarte, enólogo na Herdade dos Grous, é fã assumido desta casta. Os vinhos Reserva da casa tinham, inicialmente, no lote Touriga Nacional, Alicante Bouschet e Syrah, mas, a partir de 2007, esta última foi substituída com sucesso por Tinta Miúda. Torre da Palma é outro topo de gama com Tinta Miúda no lote.
Aquando da demarcação da região, a área de vinha do Alentejo registava 11 510 hectares. Desde então, não parou de crescer, atingindo, em 2014, 26 066 hectares
O típico blend do Alentejo
A Alicante Bouschet é, hoje, a espinha dorsal do blend típico do Alentejo, muitas vezes em parceria com outras castas que também conferem estrutura e até complexidade ao vinho, como a Syrah, a Aragonez e a Touriga Nacional. Às vezes, surge Trincadeira e Cabernet Sauvignon, para mostrar outras facetas e, muito raramente, as castas mais delicadas, como Alfrocheiro, Castelão, Tinta Caiada, Tinta Miúda e Moreto, na qualidade de “sal e pimenta”.
Nos vinhos clássicos é possível acompanhar a evolução do perfil da região ao longo do tempo. Os primeiros Cartuxa Reserva, produzidos desde 1987, eram feitos a partir de Trincadeira, Aragonez e Alfrocheiro, e não se repetiam todos os anos, como recorda o enólogo Pedro Batista. No final da década de 1990, início dos anos 2000, a Alicante Bouschet começou a ganhar protagonismo, geralmente acompanhada por Trincadeira ou Aragonez. No Cartuxa Reserva, apresentado nesta prova, a base é Alicante Bouschet e Aragonez, com um toque de Cabernet Sauvignon.
Outro exemplo clássico é o Garrafeira dos Sócios da CARMIM, criado em 1982 como oferta premium exclusiva para os associados da cooperativa. Os primeiros lotes eram elaborados com castas tipicamente alentejanas, como Castelão, Moreto e Tinta Caiada, entre outras. Mais tarde, o destaque passou para Aragonez e Trincadeira, e a Cabernet Sauvignon começou a integrar o lote. Nos vinhos mais recentes, a Alicante Bouschet assume a maior responsabilidade, como nesta edição, em que a casta predomina, com 55% do lote, tendo a Aragonez um papel secundário, com 30%, e a Cabernet Sauvignon a assumir-se como figurante, com 15%.
A grandeza nasce da precisão
É natural que as castas que retratam uma região estejam sujeitas a modas e tendências, mas também à evolução. Podemos recordar, com um toque de nostalgia, os grandes alentejanos de outrora, que as novas gerações provavelmente nem chegarão a conhecer, a menos que os entusiastas, como António Maçanita, que apostam na preservação das vinhas velhas e nas castas ancestrais, se encarreguem de manter viva essa memória e assegurem que a identidade vínica do Alentejo não se dilua na modernidade. Convém também lembrar: o que ontem foi inovador, amanhã torna-se clássico.
As formas de vinificação também evoluem com o tempo e estão sujeitas às mesmas modas e tendências. Se, nos anos 90, se introduziu a barrica nova de carvalho francês e de capacidade mais reduzida, hoje nota-se o regresso a depósitos de maior volume, não necessariamente de carvalho, e o betão está novamente em destaque. Não estamos perante um ciclo fechado, mas sim de uma nova volta de espiral. Afinal, o grande vinho é sempre uma triangulação de casta, sítio e enologia.
O Esporão Private Selection surgiu, em 1987, como Garrafeira de uma selecção de barricas do Esporão Reserva. Na década de 1990, com David Baverstock, então enólogo responsável, foram plantadas as castas Syrah e Alicante Bouschet, com o objectivo de criar um topo de gama “mais forte, firme e estruturado”. Em 2000, apresentaram oficialmente o Esporão Private Selection. Ao longo dos anos, o lote foi composto por Alicante Bouschet, Aragonez e Syrah; em 2016 entrou a Touriga Franca e, na colheita de 2019, incluíram a Touriga Nacional. Mais importante do que as castas, é o facto de representarem o lote de vinhas, sendo, o vinho, pensado na raiz. A abordagem enológica é ajustada a cada casta e parcela. A Aragonez, a Touriga Franca e a Touriga Nacional fermentaram em lagares de mármore com pisa a pé, mas estagiaram em vasilhames distintos: a Aragonez em balseiros de 5000 litros, a Franca em barricas de 500 litros e a Nacional em barricas de 225 litros. A Alicante Bouschet fermentou em cubas de betão e estagiou em barricas novas de 500 litros.
Este é apenas um exemplo de como a precisão na vinha e na vinificação cria um vinho de grande afinação e complexidade. Os vinhos podem ser feitos das mesmas castas, enaltecendo o traço de uma região, mas a diferença está nas pinceladas finas, na interligação de todos os componentes. Enfim, na precisão.
(Artigo publicado na edição de Novembro de 2025)
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