Fita Preta: Os (muitos) Alentejos de António Maçanita

É costume dizer-se que o Alentejo é uma região vitivinícola recente. Mas, na realidade, existem zonas nesta região onde a produção de vinho se iniciou há muitos séculos, que entraram nos anais da história como os melhores à época. No fundo, “no Alentejo o local onde se plantava a vinha não era diferente do local […]
É costume dizer-se que o Alentejo é uma região vitivinícola recente. Mas, na realidade, existem zonas nesta região onde a produção de vinho se iniciou há muitos séculos, que entraram nos anais da história como os melhores à época. No fundo, “no Alentejo o local onde se plantava a vinha não era diferente do local onde se vivia – tinha de haver água” – constata o enólogo e produtor António Maçanita, baseando-se nas referências que se encontram nos registos históricos relativos à ribeira da Peramanca e a Enxarrama (do rio Xarrama), nas proximidades de Évora.
Pesquisas históricas revelaram que as terras do Paço Morgado de Oliveira incluíam a zona vinícola do Louredo, onde se produzia vinho desde finais do século XIII
Regresso às origens
O seu primeiro contacto com o Alentejo foi em 2004, quando fundou a Fitapreta Vinhos com David Booth. “Cheguei ao Alentejo contemporâneo, com proliferação de Aragonez, Alicante Bouschet, Syrah, Cabernet Sauvignon, Touriga Nacional… E os primeiros vinhos reflectiram isto. Em 2008 excomunguei o Cabernet Sauvignon e, em 2011, a Touriga Nacional”, conta o produtor. Em 2018 descobriu a vinha Chão dos Eremitas no sopé sul da Serra d’Ossa, plantada nos anos 1969-70 numa espécie de field-blend organizado, ou seja, com várias castas, mas não misturadas. A disponibilidade de água neste sítio é assegurada pelos dois riachos, que trazem as águas das chuvas da Serra D’Ossa, mantendo o nível freático alto e permitindo viticultura de sequeiro.
Nesta vinha, António surpreendeu-se com as castas quase desaparecidas hoje, mas que em tempos dominaram a região: Tinta Carvalha, Moreto, Alicante Branco e Trincadeira das Pratas (conhecida no Alentejo como Tamarez), entre outras. Iniciou-se o regresso às origens, ao Alentejo perdido, com pureza, potência e frescura. O branco Os Paulistas do Chão dos Eremitas, um blend de Alicante Branco, Roupeiro, Tamarez e Rabo de Ovelha e os monovarietais tintos provenientes da mesma vinha transparecem este Alentejo genuíno e multifacetado.
Em 2016, com a aquisição do Paço do Morgado de Oliveira, propriedade medieval do século XIV situada a 10 km a sul de Évora, a mente exploradora de António Maçanita encontrou novos estímulos para um levantamento aprofundado das suas origens. Em paralelo com os trabalhos de recuperação do edifício, o produtor envolveu cinco historiadores para investigar o contexto e o desenvolvimento histórico deste que é o maior paço rural gótico ainda preservado no país. À medida que se iam despindo várias camadas das paredes, revelavam-se verdadeiros tesouros do passado, como uma pintura mural de São Cristóvão na capela-mor, datada de 1567, além de portas e janelas medievais escondidas sob reconstruções e “embelezamentos” de outras épocas.
Em 2018 António Naçanita descobriu a vinha Chão dos Eremitas no sopé sul da Serra d’Ossa, plantada nos anos 1969-70 numa espécie de field-blend organizado.
Recriando o Enxarrama
É preciso ser António Maçanita para conseguir meter uma adega com cubas e barricas dentro desta estrutura monumental. Mas a ideia não foi assim tão disparatada, afinal aqui já se fazia vinho, e era bom! Na actual sala de barricas existe uma antiga lagareta vinária de pedra, com o chamado calcatorium, onde as uvas eram esmagadas com os pés.
Pesquisas históricas revelaram que as terras do Paço Morgado de Oliveira incluíam uma zona vinícola do Louredo, outrora muito afamada, onde se produzia vinho desde finais do século XIII. O mais procurado era o Enxarrama, das vinhas plantadas perto do rio chamado hoje Xarrama. Até os mercadores de fora do país vinham comprar este vinho a Évora. Em 1485, D. João II teve de estabelecer um decreto para que a população local não molestasse os mercadores franceses e bretões. Em 1816, o negociante, enólogo e escritor francês, André Jullien, que viajou pelo mundo para elaborar a sua obra “Topografia de todas as vinhas conhecidas”, escreveu, em relação a Enxarrama, que “os vinhos são de muita fama, sabe-se da sua qualidade, mas mal dão para abastecer a população”, citou António Maçanita. Mais tarde, em 1867, o agrónomo e investigador Ferreira Lapa escreveu: “De todos os vinhos de Évora, o Enxarrama é o mais apreciado e obtém o melhor preço em Lisboa (…) ele é, mais que nenhum outro de Évora, procurado para a venda a retalho nos armazéns de Lisboa.”
Todo este contexto foi mais do que suficiente para António interiorizar a ideia, aliando-a ao vinho que tinha guardado dos anos anteriores. “Entendi que podia ser qualquer coisa acima do que eu tenho feito até agora”. Aqui temos dominante o Alicante Bouschet, com 85%, e também Aragonez, Trincadeira, Castelão e Moreto. O estágio, que soma 10 anos no total, decorreu em barricas de 228 litros durante 36 meses, mais 12 meses em cubas de 500 litros e, por fim, seis anos em garrafa.
Não sabendo como era o Enxarrama de antigamente em termos de castas e vinificação, a nota de prova feita, por Ferreira Lapa, em 1867, serviu de pedra basilar para assegurar o perfil. “O vinho do Enxarrama é bastante tinto e encorpado, crystallino, cheiro tartoso, e não suave, de sabor quente e macio, com travo (…) bem pronunciado. Não é um vinho alcoólico, nem aromático, é um vinho forte e bastão, que bem por causa do seu tanino pode tolerar o seu volume em álcool.” É praticamente o que encontrámos no copo. Assim nasceu o primeiro Enxarrama da actualidade. Foram produzidas 1218 garrafas.
Ao mesmo tempo foi apresentado um grande branco, feito 100% de Arinto de produção biológica, plantado em 2017 em sequeiro na vinha do Morgado de Oliveira. De vindima manual nocturna, com prensagem direta sem esmagamento, fermentação alcoólica e maloláctica espontâneas em barricas. Estágio 15 meses em borra fina, sem battonage, em barricas de carvalho francês. Foram produzidas 1919 garrafas.
Assim são as diferentes faces do Alentejo, interpretadas por António Maçanita. Os vinhos Chão dos Eremitas são de vinha, “vinhos arqueológicos” como o produtor os apelidou, precisos e genuínos. O Morgado de Oliveira é o vinho de casta, que eleva o Arinto (que é uma grande casta portuguesa, sem dúvida alguma) a um patamar excepcional. Por sua vez, o Enxarrama é um vinho de conceito, inspirado pela história do lugar, sendo praticamente uma homenagem à região.
(Artigo publicado na edição de janeiro de 2025)
PASSARELLA: A hora dos tintos

Já escrevemos, noutras vezes, quanto histórica é a Casa da Passarella. Descrevemos o seu passado resplendor e refletimos a propósito da sua importância na região do Dão. Com efeito, instaladas no sopé da montanha e a muitas centenas de metros de altitude, as vinhas centenárias da Casa da Passarella são, desde há muitos, o berço […]
Já escrevemos, noutras vezes, quanto histórica é a Casa da Passarella. Descrevemos o seu passado resplendor e refletimos a propósito da sua importância na região do Dão. Com efeito, instaladas no sopé da montanha e a muitas centenas de metros de altitude, as vinhas centenárias da Casa da Passarella são, desde há muitos, o berço de vinhos que refletem um património genético ímpar, construído ao longo de vários séculos.
Ora a nova e atual fase desta casa clássica acarreta consigo, talvez, o perfil mais ambicioso de sempre, sendo disso bom exemplo o restauro do casario, a recuperação e reestruturação das muitas vinhas existentes e a extensa gama de vinhos, todos de qualidade inabalável. Sim, o nível geral dos vinhos é excelente de forma transversal, mas verdade seja dita, que os brancos foram os primeiros a destacar-se no mercado. Efetivamente, perante um conjunto cada vez maior de consumidores ávidos por brancos estruturados, mas frescos e minerais, o enólogo Paulo Nunes cedo ofereceu, a partir da Passarella, um leque de vinhos inigualável, com entradas de gama de qualidade inaudita e topos de gama inesquecíveis. Consciente da fama crescente dos seus vinhos brancos, a Casa da Passarella desceu a Lisboa munida com as mais ambiciosas novidades em matéria de tintos, como que a pretender comprovar que, também estes, os tintos, portanto, merecem destaque e atenção cuidada.
Quanto a nós, nunca duvidámos disso, e sempre tivemos por mais do que um tinto da Passarella uma especial devoção. Mas, mesmo assim, não perdemos a oportunidade de provar e comprovar os melhores tintos da casa uma vez mais, agora nas novas colheitas.
Primeiro lado a lado, e depois maridados com as excelentes criações gastronómicas do Chef Rui Silvestre no restaurante Fifty Seconds em Lisboa, foi um evento único. Os cinco tintos apresentados assinalam o regresso das versões tintas de duas gamas, a saber: a marca Villa Oliveira, a primeira a ser criada, há mais de 130 anos, e um dos best-sellers do produtor, e a marca O Fugitivo, centrada no lançamento de vinhos que são projetos especiais, tendencialmente disruptivos e irrepetíveis.
O enólogo Paulo Nunes cedo ofereceu, a partir da Passarella, um leque de vinhos inigualável
Frescura excelsa
Mas vejamos, mais em pormenor, as novas colheitas e comecemos pelos três novos Villa Oliveira. O Vinha das Pedras Altas nasce de uma vinha com mais de 90 anos, onde constam várias castas autóctones (Baga, Alfrocheiro, Touriga Nacional e Alvarelhão, entre outras) todas elas colhidas à mão. Após uma fermentação espontânea em cuba de cimento com maceração pré e pós-fermentativa, seguiu-se um total de 36 meses de estágio em tonel de madeira de 30 hl, permitindo a estabilização natural deste vinho, excluindo a necessidade de filtração. A edição de 2017 está perfeita na conjugação de fruta encarnada com frescura excelsa. O Villa Oliveira Vinha Centenária Pai D’Aviz também é sujeito ao mesmo protocolo de vinificação e estágio, mas provém de outra vinha, um pouco mais velha até (e, portanto, centenária), igualmente com muitas castas misturadas (Baga, Jaen, Tinta Amarela, Tinta Pinheira, entre outras). Aqui a colheita a lançar é 2018, e o nível é estratosférico! Outro vinho que regressa é um dos mais conhecidos do produtor, o Villa Oliveira Touriga Nacional, desta feita também de 2018. Temos aqui um autêntico clássico, de perfil encorpado, com madeira presente, mas sempre fresco e elegante.
Mas nesta apresentação, os Villa Oliveira não surgiram sozinhos e fizeram-se acompanhar por duas novas colheitas de uma coleção mais irreverente: O Fugitivo Pinot Noir, a revelar que o Dão, em anos frescos como 2021, consegue produzir Pinot Noir delicado e distinto, não sendo de estranhar que a casta seja utilizada na Casa da Passarella há mais de um século. Por outro lado, O Fugitivo Espumante Baga que, em 2018, se apresenta a um nível mais alto do que antecipávamos, um espumante que resulta da recuperação dos ensaios sobre espumantização, realizados nos anos 1930 e 1940, fazendo-se usufruto do método clássico e da Baga. Novidades frescas, novidades a não perder!
Nota: O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico
(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2025)
Quinta das Chaquedas: Lote 5, do sonho à realidade

Quantos apreciadores de vinhos, mais ou menos exigentes com as suas escolhas, é que nunca pararam para pensar, nem que fosse apenas por um breve momento, na produção e comercialização do próprio vinho? Em boa verdade, quase todos já devem ter sonhados com uma vida mais próxima da natureza, desenvolvida a um ritmo mais lento, […]
Quantos apreciadores de vinhos, mais ou menos exigentes com as suas escolhas, é que nunca pararam para pensar, nem que fosse apenas por um breve momento, na produção e comercialização do próprio vinho? Em boa verdade, quase todos já devem ter sonhados com uma vida mais próxima da natureza, desenvolvida a um ritmo mais lento, capaz de nos fazer apreciar os prazeres verdadeiramente simples da observação da floração ou do processo de coloração dos bagos das uvas, já para não mencionar o momento de autêntica celebração familiar proporcionado pela vindima.
Estas reflexões, verdadeiramente romanceadas do mundo do vinho, esbarram na fria e inquieta realidade dos compromissos diários e dos objetivos anuais que nos fazem esquecer ou adiar para um amanhã, que tarde ou nunca chegará. Resta respirar fundo, suster a respiração e mergulhar na férrea agenda da vida real.
Ainda assim, de vez em quando, há quem persiga o sonho e comute uma existência bem estabelecida e melhor remunerada pela devoradora incerteza do lançamento de um projeto vínico de raiz, capaz de revitalizar uma antiga vontade familiar. Foi exatamente o que aconteceu a Ana Castro, que desenvolvia uma sólida carreira na área da advocacia em Vila Nova de Gaia e ao marido Francisco Narciso, coronel do exército português.
Assim, no ano de 1999, Ana e Francisco embarcaram num sonho comum e compraram a Quinta da Cascalheira, no vale do Rio Torto, com cerca de oito hectares. “Foi o primeiro passo do culminar da vontade familiar de estarmos juntos: marido, mulher e filhos”, referiu Ana Castro no evento de apresentação dos seus vinhos.
A propriedade tinha a particularidade de integrar uma vinha pré-filoxérica denominada Tiroliro, a que se juntou, mais tarde, uma outra designada Ferradura. Eram pouco produtivas e careciam de um acompanhamento especial e continuado. Assim, dois anos depois, Ana Castro e a filha, com cinco anos, mudaram-se de armas e bagagens para a Quinta, para melhor acompanhar os trabalhos aí desenvolvidos.
A criação das Chaquedas
Pouco tempo depois, em 2003, fortaleceram o sonho ao comprarem uma nova propriedade em Santa Marta de Penaguião, renomeada Quinta das Chaquedas “em honra ao meu avô, que detinha uma propriedade homónima na histórica praia da Madalena, em Vila Nova de Gaia”, contou Ana Castro.
No decurso dos três anos seguintes o casal reuniu finalmente os cinco elementos familiares e, com ânimo renovado, reconstruiram a casa principal e edificaram uma adega e um espaço para desenvolver enoturismo.
Tal como centenas de famílias na multicentenária região do Douro, as primeiras produções foram vendidas a outras marcas mais sonantes. Neste caso particular foi celebrado um contrato com a Taylor’s “prevendo o acompanhamento na viticultura por um trio de luxo constituído por António Magalhães, David Guimarães e Carlos Rodrigues, que ainda hoje nos acompanham”, disse Ana Castro.Com passar dos anos, o projeto familiar sonhou dar mais um passo, “o lançamento de vinhos de nicho com uma marca própria e imagem distinta”. Assim, o projeto vínico familiar cunhou a marca Chaquedas, em 2010, e lançou no mercado o primeiro vinho tinto, ao qual se juntaram outras referências nos anos subsequentes.
No entanto, como salientou Ana Castro, “o mercado não acolhia facilmente o nome Chaquedas e tivemos de criar, em 2016, uma nova marca capaz de reunir os valores e imagem da família. E assim surgiu o nome Lote 5, que significa a união de uma família de cinco elementos”.
Nesta nova fase do projeto, a família realizou uma aposta ainda mais forte. Manteve o trio de viticultura e juntou o trabalho de Miguel Freitas que, nas palavras de Ana Castro “desenvolveu um trabalho de imagem muito criativo e identificador da família”. Contratou ainda a consultoria do enólogo Jorge Alves, com vasta experiência em projetos durienses.
Nos anos subsequentes, a família ampliou a área de plantação com a compra de 24 hectares dispersos pelo Vale do Rio Torto e outras localizações na sub-região do Cima Corgo, o que permitiu o alargamento do portefólio, com o aparecimento de novas referências, incluindo vinhos tintos, brancos e um rosé. No entanto, como referiu Ana Castro “esta expansão teve sempre a ideia de fazer vinhos de nicho bem feitos e muito acima da média”.
Este projeto familiar, desenvolvido na região do Douro, mostra bem que ainda há lugar para concretizar o velho sonho de produtor de vinhos de qualidade, desde que este esteja num local autêntico, com vinhas únicas e intervenientes relevantes.
(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2025)
Torre de Palma: Chegados ao topo

É difícil não gostar deste espaço diferente, bem longe do litoral, das grandes cidades. Fica no meio do campo, naquele Alentejo onde a vista quase não tem horizonte, a paisagem acalma e estar lá sabe bem. É isso que se sente quando olhamos lá de cima, após a subida à Torre de Palma, lugar central […]
É difícil não gostar deste espaço diferente, bem longe do litoral, das grandes cidades. Fica no meio do campo, naquele Alentejo onde a vista quase não tem horizonte, a paisagem acalma e estar lá sabe bem. É isso que se sente quando olhamos lá de cima, após a subida à Torre de Palma, lugar central do casario que constitui aquele lugar histórico, um antigo monte recuperado das ruínas por Paulo e Isabel Rebelo. Encantados pelo lugar, foi há 16 anos que ali decidiram investir e fazer, dos 15 hectares que a Tapada da Torre de Palma ocupa, um espaço de turismo que produz vinho e procura oferecer, a quem a visita, aquilo que de melhor aquela zona do Alto Alentejo tem para oferecer.
Presença romana
Tudo começou quando as saudades da região, resultantes talvez das histórias contadas pela sua mãe alentejana, levavam Paulo a ir, uma e outra vez, ao Alentejo com a família, em busca de um espaço, um monte onde pudessem investir como lugar de férias. Foi isso que os levou à Tapada de Torre de Palma pela primeira vez e a apaixonar-se pelo local, logo depois da subida ao seu topo. A aquisição ficou decidida, mas também a necessidade de investir na recuperação das suas ruínas. Não seria um trabalho fácil, porque os edifícios e a propriedade estavam muito deteriorados e, por isso, a compra da tapada, em 2008, deu início a um processo de estudo, que durou quatro anos, até à decisão final sobre o destino a lhe dar.
Farmacêuticos de formação e profissão, estabelecidos em Coimbra, Paulo e Isabel possuem uma farmácia e uma óptica no centro da cidade. Uma oportunidade de negócio e uma vontade e capacidade inatas para empreender, levaram Paulo Rebelo a iniciar, também, uma indústria de produção de medicamentos genéricos, a Bluepharma, há mais de 20 anos. É hoje um grupo farmacêutico com 800 colaboradores, que exporta 89% da sua produção para 40 países.
À medida que foram estudando Torre de Palma, os seus proprietários descobriram que tinha tido, entre outros, presença romana, ainda hoje visível num espaço arqueológico bem perto. Segundo Isabel Rebelo, “a família proprietária, os Basílios, eram produtores de vinho e azeite, criadores de cavalos, tinham termas, como era comum nas famílias abastadas e uma hospedaria”, algo lógico numa região que ficava no trajecto entre Lisboa e Mérida, duas grandes cidades romanas da Península Ibérica.
Depois de quatro anos de muitas visitas, de estudos sobre todas as hipóteses de investimento naquele local, foi decidido produzir vinho e construir um hotel de charme.
Como em qualquer negócio o conhecimento é essencial, e o de Isabel e Paulo Rebelo estava centrado na área de Saúde, a primeira decidiu tirar uma pós-graduação em Gestão Turística e Hoteleira, para aprofundar o seu. E após se terem apercebido da riqueza do sítio, criou “facilmente o conceito de um projecto focado na sustentabilidade”, conta, acrescentando que “o objectivo era não fazer nada igual a algo que já existisse, que respeitasse, ao máximo, a autenticidade da região, para quem visitar o espaço ficar com um conhecimento real do que é aquela zona do Alto Alentejo”.
Edições limitadas e de terroir
Desde o início do projecto, Torre de Palma tem vindo a construir, a partir dos seus sete hectares de vinha, um portefólio com edições limitadas e vinhos de terroir, entre os quais se destaca a gama Reserva da Família. Segundo Paulo Barradas Rebelo, o tinto da colheita de 2017, lançado recentemente durante um jantar no Torre de Palma Wine Hotel, perto de Monforte, “representa a concretização daquilo que foi sempre o nosso sonho, de fazer um grande vinho do Alentejo e de Portugal”. O topo de gama da empresa resultou de uma seleção de uvas de microparcelas da vinha, implantada sobre solos de origem granítica, argilo-calcária e xistosa, a 310 metros de altitude. Feito com base em uvas das castas Alicante Bouschet, Aragonez, Touriga Nacional e Tinta Miúda, vindimadas em separado e pisadas em lagares de mármore após o desengace, estagiou 24 meses em tonel de carvalho francês e ficou cinco anos em garrafa até ser lançado ao mercado. “Edição exclusiva, limitada a 3273 garrafas numeradas, é um vinho que nos enche de orgulho, pois reflecte a nossa interpretação das castas, da vinha e da região onde nos inserimos.”, refere o enólogo responsável, Duarte de Deus. A prova e apresentação deste e de outros vinhos decorreu na recém inaugurada Enoteca, a sala de provas exclusiva desta adega.
(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2024)
Undated: A magia dos “sem data”

Quando se fala aqui em tendências do consumo, é bom que tenhamos em mente que estes vinhos sem data são um mero apontamento num mar de vinhos datados, aqueles que são mais comuns no mercado. Habituámo-nos a falar na data porque não há dois anos iguais e o vinho pode (mas nem sempre) espelhar as […]
Quando se fala aqui em tendências do consumo, é bom que tenhamos em mente que estes vinhos sem data são um mero apontamento num mar de vinhos datados, aqueles que são mais comuns no mercado. Habituámo-nos a falar na data porque não há dois anos iguais e o vinho pode (mas nem sempre) espelhar as características do ano ou da zona onde nasceu. Falamos, por isso, em vinhos (demasiado) maduros nos anos muito quentes, de vinhos frescos quando lhes sopra a brisa marítima, ou ainda de vinhos de elevada acidez decorrentes da altitude ou da exposição. Temos também de ter sempre presente que qualquer vinho, mesmo datado, pode incluir até 15% de vinho de outra colheita. Isto significa que o legislador teve o cuidado de prevenir qualquer situação extrema – climática ou outra – permitindo que o vinho possa ser melhorado e polido, juntando vinho de outra colheita nas percentagens previstas. Assim sendo, a tal “expressão máxima do terroir” só será possível se não houver lote, se o vinho for única e exclusivamente de um só ano. Esta atitude, que pode tomar contornos um pouco radicais se o produtor entrar na fileira dos fundamentalismos, é possível em vinhos de nicho, de muito baixa produção e oriundos de produtores que não têm de se preocupar com as contas. Já os outros, a esmagadora maioria que usufrui das facilidades concedidas pela lei, procura equilibrar os vinhos de um ano com 15% de outros que poderão ajudar na melhoria do lote final. Mas hoje queremos falar dos não datados, aqueles que não querem saber da data da colheita no rótulo. Estão preocupados com outras coisas.
Vinhos datados não são uma modernice. Existem desde o séc. XVIII e também em Portugal, com grande destaque para os vinhos generosos, os mais apreciados e os que chegaram até hoje. Após as demarcações do início do séc. XX e ainda antes de se demarcarem, a partir de 1979, as regiões, tal como as conhecemos hoje, já os vinhos eram datados. Era a época – até aos anos 90 – em que a marca se sobrepunha à região e a qualidade estava muitas vezes conotada com um designativo de qualidade muito apreciado na época: vinhos Garrafeira. E eles existiam em marcas que, todos sabemos, resultavam de lote de vinhos de várias regiões, com a Bairrada e o Dão a serem as mais procuradas.
Mas também existiam vinhos não datados que são os arquétipos daqueles que falamos neste texto. Algumas marcas emblemáticas, que tinham o carimbo da máxima qualidade e mais acarinhadas pelos consumidores, em boa verdade não eram datadas porque…usavam vinhos de várias colheitas. A intenção era, então, idêntica à de hoje: melhorar o lote final, num equilíbrio que seria difícil de encontrar no vinho de uma só colheita. O exemplo paradigmático era a marca José de Sousa Rosado Fernandes, com sede em Reguengos que, nos anos 60 e 70, raramente engarrafava com data: eram vinhos em que o enólogo procurava juntar várias colheitas para obter o estilo que pretendia. Em alguns casos decidia depois que data punha, nas garrafas ou, mais vulgarmente, apenas nas caixas.
Este novo estilo renasceu entre nós com o Branco Especial da Quinta dos Carvalhais, que surgiu no mercado em 2014. Os enólogos (Beatriz Cabral de Almeida e Manuel Vieira) usaram vinhos de três colheitas para, ainda que timidamente, colocarem no mercado um branco que desafiava tudo o que então existia. Por isso fizeram apenas 3000 garrafas quando actualmente, a 7ª edição, e já sem Manuel Vieira, contempla 14 733 exemplares. A evolução do preço é também a demonstração do apreço que o público mostrou: a primeira edição estava tabelada a €30, a actual vai em €70. Não há regra fixa mas, diz Beatriz, “tentamos fazer de dois em dois anos. Actualmente o lote junta vinhos de mais colheitas, e é desde sempre assente em três castas: Encruzado, Gouveio e Sémillon, mais alguma percentagem de parcelas de field blend. Talvez a diferença em relação às primeiras edições é que agora procuramos fazer os vinhos já com a intenção de os conservar longamente em barrica. Só no momento do lote final é que sai tudo da madeira.” A 8ª edição sairá em 2025.
Apenas um pormenor
Como se pode verificar pelo lote de vinhos que aqui sugerimos, existem mais versões em branco do que em tinto. A Wine & Soul lançou, em finais de 2020, um Guru NM, um branco não datado e muito aplaudido pela crítica. Jorge Borges informou-nos que está em preparação uma nova edição, a sair em 2026, mas os vinhos, para já, estão em madeira. Jorge não tem dúvidas: “são vinhos que são originais precisamente por integrarem as características dos vários anos e a produção, em virtude do longo estágio, sai caríssima, o dobro do que custa o normal Guru”. Replicar o modelo em tintos não está nos planos. Manuel Vieira, que integra a equipa de enologia dos Caminhos Cruzados (Dão), diz-nos que não há razão para não se fazer também em tintos. “A minha experiência anterior era com brancos e foi apenas por isso que aqui fizemos o Vinhas da Teixuga, que beneficia da grande qualidade do Encruzado da quinta”. Também o Kaputt é branco, mas o enólogo da empresa (actual Van Zeller Wine Collection), Álvaro Van Zeller, não descura a hipótese de se fazer no futuro um tinto com estas características. Reconhece que este tipo de vinho “será sempre para um nicho do mercado. O vinho final perde a personalidade que lhe adviria do ano em que nasceu e poucas pessoas poderão valorizar isso, tal como vinhos que resultam do lote de regiões diferentes têm de levar selo IVV, o que não é entendido, pelo consumidor, como apenas um pormenor”. Vinhos brancos existem em várias regiões, ou seja, não se trata de um mérito apenas desta ou aquela. É o trabalho de adega e o conceito que o enólogo possa ter que vai determinar a decisão.
Os tintos assumem, por vezes, um lado comemorativo: aconteceu com a 2ª edição do Memórias Alves de Sousa, lançado no mercado em 2024 e que comemora 30 anos de história, com vinhos da segunda década deste século. Comercializado em garrafa normal (a 1ª edição tinha sido apenas em magnum), fizeram-se 4000 exemplares. Domingos Alves de Sousa e o filho, Tiago, procuraram “repetir aqui o que se faz num Porto tawny, juntando vinhos de idades diferentes, uns em casco e outros em cuba. Não temos para já ideia de fazer isto com vinhos brancos; seria outro conceito bem diferente”, diz Domingos. Luís Louro, com o seu Monte Branco XX, está agora a comemorar duas décadas de história; já tinha feito outros com lote de colheitas, mas por razões “administrativas” saíram com data no rótulo.
O perfil comemorativo não é regra: o Falua Undated Cabernet Sauvignon é um tinto acabado de surgir no mercado que junta várias colheitas de vinho com origem na vinha do Convento e é muito surpreendente, porque nada no vinho sugere que não seja um vinho muito jovem. Mérito tripartido – da vinha, da casta e da enologia, a cargo de Antonina Barbosa, que não descarta a ideia de fazer também em branco: “é uma hipótese, mas teremos de lhe retirar o epíteto de Reserva exactamente porque a lei não autoriza designativos em vinhos de lote de várias colheitas”.
Estes são vinhos de experiência e os produtores sabem disso. Pode não ser fácil acertar no modelo à primeira, mas vale a pena experimentar, até porque dos Açores a Monção temos um enorme (!) país para poder surpreender e fazer nascer novos consumidores.
(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2025)
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Morgado de Oliveira
Branco - -

Monte Branco XX
Tinto - -

Titan of Douro Fragmentado Blend II
Tinto - -

Memórias Alves de Sousa
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Arinto dos Açores Sur Lies 3 colheitas
Branco - -

Kaputt 2ª edição
Branco - -

Vinhas da Teixuga
Branco - -

QM PATRIAM Nº 1
Branco - -

Quinta dos Carvalhais Branco Especial
Branco - -

Quinta do Regueiro Jurássico II
Branco - 2020 -

Guru NM
Branco -
Adega do Cartaxo: Os novos experimentais Tejo

A Adega do Cartaxo lançou recentemente dois vinhos monocasta com a marca Tejo. Inspirada no grande rio da Península Ibérica que atravessa a região onde foram produzidos, a nova referência irá incluir os vinhos mais experimentais desta adega do Tejo, criados sob a batuta de Pedro Gil, o seu enólogo. “Sempre fui adepto da inovação […]
A Adega do Cartaxo lançou recentemente dois vinhos monocasta com a marca Tejo. Inspirada no grande rio da Península Ibérica que atravessa a região onde foram produzidos, a nova referência irá incluir os vinhos mais experimentais desta adega do Tejo, criados sob a batuta de Pedro Gil, o seu enólogo. “Sempre fui adepto da inovação e da procura de produtos diferenciados, algo que é agora possível devido à tecnologia que possuímos”, disse, durante o evento de lançamento, que decorreu no Centro Cultural de Belém.
A nova marca, que procura salientar a importância que o rio Tejo teve, e ainda tem, para a região, inclui, desde já, dois vinhos de nicho. Trata-se de um branco da casta Fernão Pires, produzido com bastante extracção, e um tinto de Castelão, outra das castas mais representativas da região, com pouca extracção. Segundo Pedro Gil, foram produzidos a partir de uvas colhidas na zona do Bairro, da região do Tejo. As que deram origem ao primeiro foram vindimadas à máquina e ficaram a macerar durante três dias, antes de serem fermentadas em barricas de carvalho francês e de o vinho estagiar durante quatro meses sobre borras finas com battonnâge. “É um branco que vai de encontro às tendências do mercado, que os quer mais intensos e com mais extracção”, explicou, o enólogo, durante o evento de apresentação da marca. “A fim de se obter um tinto frutado e fresco, para beber com prazer e sem preocupação, o Castelão foi colhido mais cedo. Seguiu-se uma vinificação menos extrativa, após maceração a frio também durante três dias”, acrescentou.

Vinhos de nicho
Com a nova marca, passará a ser possível ter um Tejo (região e marca) à mesa, referência que inclui vinhos de nicho que resultam do trabalho experimental que está a ser realizado, na Adega do Cartaxo, por Pedro Gil. “É mais um passo do compromisso com a região e uma homenagem ao seu terroir e ao rio que a atravessa”, disse, por seu turno, Fausto Silva, o director comercial da Adega, acrescentando que “o design dos rótulos mostra uma imagem limpa mas marcante, desprovida de elementos gráficos, que destaca o Tejo e o gradientes de cores com que nos brinda ao longo do dia.”.
Tal como aconteceu no Douro, o Tejo teve um papel importante para os vinhos da região que atravessa, e para os da adega do Cartaxo em particular, que eram encaminhados, depois de produzidos, para o grande curso de água para serem transportados, em barcos varinos, até Lisboa e de lá para as ex-colónias. Durante muito tempo, a capital foi alimentada, deste forma com vinhos e outros produtos ribatejanos. É isso que a Adega do Cartaxo procura continuar a fazer, com vinhos mais experimentais e inovadores.
Entrevista com Dora Simões: “O ‘novo’ estilo de Verde precisa de um nome”

Desde há pouco mais de dois anos assume na região dos Vinhos Verdes funções semelhantes às que desempenhou no Alentejo. Existindo certamente, desafios comuns às duas regiões, o que é que, no seu entender, principalmente as distingue em termos de mercado, estrutura produtiva ou organização institucional, por exemplo? Em termos de organização e tradição de […]
Desde há pouco mais de dois anos assume na região dos Vinhos Verdes funções semelhantes às que desempenhou no Alentejo. Existindo certamente, desafios comuns às duas regiões, o que é que, no seu entender, principalmente as distingue em termos de mercado, estrutura produtiva ou organização institucional, por exemplo?
Em termos de organização e tradição de uma região, faz diferença ter 116 anos ou ter 25 anos de região demarcada, marco que eu ainda celebrei no Alentejo. Embora a idade não altere a produção de vinho em si, altera a história de uma região e introduz condicionantes na forma de a gerir. Mas, de uma forma geral, enquanto entidade certificadora, as coisas estão tão harmonizadas que, embora podendo existir “afinações” diferentes, os procedimentos são hoje muito idênticos de região para região. Haverá sempre coisas a melhorar, mas os standards estão muito bem definidos.
O mercado dos Vinhos Verdes e do Alentejo é muito distinto?
O mercado onde se opera é igual, a comunicação e a narrativa é que são muito diferentes. O apelo ao consumo é distinto. Passámos uma época em que o vinho tinto cobria a grande maioria das preferências do mercado, e hoje isso está a mudar. Não existem dados muito evidentes sobre quanto é que mudou, mas existe uma percepção clara de mudança. A sazonalidade de consumo que outrora existiu nos brancos e que condicionou os Vinhos Verdes esbateu-se muito.
O que mais a surpreendeu nos Vinhos Verdes quando começou a aprofundar o seu conhecimento sobre a CVRVV, a região, os produtores, o mercado?
Em primeiro lugar, a Comissão é uma casa muito bem montada e foi muito bem orientada durante muito tempo. Tornou-se assim fácil o envolvimento e o trabalho com a generalidade dos departamentos. É uma entidade bastante orientada para a promoção, com um departamento de marketing bem estruturado e com conhecimento do mercado. No que diz respeito à fiscalização e controlo da região, está hoje a um nível que quase nenhuma região em Portugal tem. A região e os seus produtores têm igualmente uma larga experiência de mercados internacionais. Os produtores são profissionais, viajam muito, vão às feiras, conhecem as especificidades de cada mercado. E isto é algo que mudou imenso nas últimas décadas.
Quando eu estava na ViniPortugal, em 2004, lembro-me do que era o Vinho Verde e sei aquilo que é hoje. Claro que a mudança é transversal às várias regiões, mas esta tremenda evolução “comercial” é muito evidente nos Vinhos Verdes. Há muito a fazer, sempre, mas o nível de profissionalização da região dos Vinhos Verdes, quando comparado com outras, é muito elevado.
O perfil dos produtores é muito variado…
O tecido empresarial é muito pulverizado. É salutar que esta seja uma região com operadores relativamente grandes. Mas existe, entre os muito grandes e os muitos pequenos, uma faixa de operadores médios tremendamente dinâmicos. Acho que o mercado nacional tem uma fraca percepção dessa dinâmica, porque muitos produtores de Vinho Verde trabalham, sobretudo, para exportação. E muitos, exportam largas centenas de milhar de garrafas. E, depois, temos os mais pequenos, que produzem frequentemente menos de 50 mil garrafas.
“Os dois perfis de Verde são bastante distintos. E é fundamental que o consumidor saiba o que está dentro da garrafa antes de fazer a compra”
A área de vinha (pouco menos de 17.300 hectares) caiu bastante na década de 2010. A produtividade, porém, aumentou significativamente, devido as reestruturações e ganhos de eficiência. Ainda assim, tirando a sub-região de Monção e Melgaço, onde o preço da uva é bem mais elevado do que a média da região, pode uma família de lavradores viver de vender uvas?
Depende muito da dimensão da propriedade. Infelizmente temos poucos ou nenhuns estudos sobre isso. Não sabemos que dimensão é necessária para poder dar condições de vida a uma família de viticultores. Lembro-me que quando do estudo Porter se falava em entre cinco a sete hectares, para originar um rendimento um pouco acima do salário mínimo. Passaram 20 anos e hoje a área necessária será certamente acima disto.
Quanto ao decréscimo da área de vinha, é importante termos em conta duas coisas. Primeiro, é verdade que há muita gente a abandonar, mas também há um grande processo de consolidação, ou seja, há muitos produtores profissionais a adquirir vinhas a outros viticultores. Por outro lado, o decréscimo do número oficial de vinha plantada tem igualmente a ver com a crescente eficiência da fiscalização. Há muita vinha abandonada há muito, de que só em anos recentes tem sido dado baixa.
No entanto, não deixa de ser evidente, para quem conhece a região, que o preço médio praticado na compra da uva não é o mais adequado. Deveria ser mais elevado para acomodar os gastos de uma viticultura que não é fácil. Ainda que, sendo baixo, o preço está longe de ser dos mais baixos comparado com outras regiões de Portugal. Até é bastante acima da média.
Por tudo isso, e respondendo em concreto à sua questão, com a dimensão média da propriedade na região não é fácil ser-se viticultor e viver de produzir e vender uva. Acredito que seja preciso bem mais de uma dezena de hectares. Mas também acontece que muitos são viticultores a tempo inteiro depois de uma carreira bem sucedida noutras áreas de actividade. E não é apenas por saudosismo ou paixão pela terra. Depois de terem feito a reconversão da vinha, com o claro aumento de produtividade, esta passou a, pelo menos, compensar os gastos que com ela têm. O Alvarinho de Monção e Melgaço é, claro, um caso raro. Aí não é preciso ter uma área de vinha muito grande para o retorno ser compensador.
A produção de Verde tinto parece estar em contínuo decréscimo. Na vindima de 2023, em conjunto com os rosés, valeu cerca de 11,5 milhões de litros versus 72 milhões de vinho branco. Sabendo-se que os rosés estão em crescendo, isso significa que a queda dos tintos, outrora líderes na região, é maior ainda. Está o Verde tinto condenado?
Espero que não. Mas sem dúvida que está em risco de extinção. E temos de inverter esta curva decrescente, que é perigosíssima. Se na região nunca tivesse existido tradição de uva tinta, até se podia entender. Mas não é o caso, antes pelo contrário. O risco de perder a uva tinta significa também o risco de se perder diversidade genética, de se perder o conhecimento das castas, da sua aptidão e do seu contributo para o futuro da região. Os rosés estão, e ainda bem, a crescer, mas sem as uvas tintas não conseguimos fazer rosé. E com os tintos assentes quase exclusivamente numa casta, o Vinhão, também não se consegue fazer grande diversidade de rosé e, muito menos, no estilo que hoje conquista os mercados. Os brancos e rosés estão na moda e os tintos em baixo. Mas isso é hoje. Como sabemos, estas vagas mudam e, por vezes, de forma rápida. E se nós estamos com uma produção residual de uva tinta podemos vir a ter dificuldades no futuro.
Na CVRVV procuramos sensibilizar os produtores para este problema e sentimos a responsabilidade de ajudar a inverter esta situação. Temos dado passos para se perceber melhor as diversas uvas tintas da região, avaliando o seu potencial para a produção de rosés e de tintos mais leves e elegantes. Não precisamos de castas de fora para isso. Acreditamos que temos uma grande variedade de castas tintas autóctones, que temos de estudar e perceber até onde podem ir. Temos uma agenda de investigação e desenvolvimento na EVAG (Estação Vitivinícola Amândio Galhano) e estamos particularmente focados nas castas tintas. Aí realizamos investigação aplicada, realizando microvinificações com algumas castas minoritárias no sentido de perceber quais as mais indicadas para tintos e rosés, em distintos perfis. E todos os anos os vinhos produzidos são provados por um pequeno grupo de especialistas. Com as conclusões desse trabalho, vamos na EVAG criar material vegetativo, para poder disponibilizar varas ou enxertos-prontos. A ideia é gerar informação técnica (vinha, adega e prova) credível e consistente, e colocá-la à disposição dos produtores, para que possam olhar para essas castas minoritárias como opções válidas para desenvolver o seu negócio.
A exportação representa cerca de 60% do negócio dos Vinhos Verdes. Mas também o mercado nacional tem tido um bom desempenho. O preço médio, no entanto, continua abaixo da média nacional, alinhado com Lisboa, acima de Setúbal e Tejo, mas abaixo das restantes regiões. O Vinho Verde está ainda demasiado barato?
Sim, é um facto. Infelizmente, há tradições negativas que demoram a quebrar e este é um caso, existe a convicção generalizada de que “aquele vinho” tem aquele preço. Mas isso parte também do produtor. Conhecemos vários produtores que trabalham em diferentes regiões e eles próprios posicionam os seus Vinhos Verdes a um preço mais baixo. Podem argumentar que as pessoas não estão dispostas a pagar mais por um Vinho Verde. Mas é precisamente isso que nós temos de combater. Claro que isso só se consegue tendo produtos equiparáveis. E é aí que esta questão do assumir de dois estilos de Vinho Verde, um mais “tradicional” e popular, outro mais ambicioso e longevo, se torna fundamental. E, mesmo assim, mesmo fazendo grandes Vinhos Verdes brancos, temos de ter a noção de que, no mundo inteiro, e com raras excepções, o preço médio do vinho branco é inferior ao do tinto. Ou seja, há dois degraus difíceis que é preciso subir, e esse é um trabalho colectivo que é necessário fazer.
A CVRVV tem procurado comunicar esse conceito dos dois estilos de Vinho Verde. Mas essa distinção não está plasmada na lei. Não existe um designativo na rotulagem, um nome que os diferencie aos olhos do consumidor. Como se pode passar a mensagem sem esse suporte?
Não tem sido um assunto fácil, e quando da passagem de “pasta” por parte da anterior direcção da CVRVV, este foi-me indicado como tema de urgente resolução. Fundamentalmente, não tem havido acordo entre os produtores para o nome desta “nova” categoria de Vinho Verde. Vamos lançar um inquérito aos agentes económicos, para perceber a sua opinião. Mas, Direcção e Conselho Geral, entendemos que é fundamental existir essa designação. Até porque os dois produtos, o Verde mais “clássico”, leve, com “borbulha” e alguma edulcoração, e o Verde mais moderno, seco, intenso e longevo, são bastante distintos. E é fundamental que o consumidor saiba o perfil que está dentro da garrafa antes de fazer a sua compra. Porque, caso contrário, poderá haver um risco de desilusão, que vai jogar contra um ou outro produto.
Uma coisa tão simples e básica quanto ter ou não ter gás adicionado é algo que o consumidor só percebe depois de abrir a garrafa…
Claro, e isso não pode continuar. Há que assumir estes dois perfis como características intrínsecas dos produtos, ter orgulho neles, mas evidenciar essa diferença com um designativo, uma palavra, na rotulagem. Claro que encontrar o nome certo exige consenso e os consensos são difíceis de alcançar. Mas é preciso urgentemente fazê-lo. E mesmo que o nome não seja perfeito, é preferível ajustar mais tarde do que não actuar agora, continuando a limitar a ambição do Vinho Verde, em termos dos mercados e preços que pode atingir. Isto é absolutamente prioritário.
Durante muitas e muitas décadas o Vinho Verde “vendeu-se” como um produto “único no mundo”, diferente de todos os outros, o que lhe permitiu correr numa pista à parte, sem concorrência. O dano colateral, no entanto, foi colá-lo à imagem de um produto simples, popular, pouco “exigente”, se quisermos. Neste início de 2025, como é que o Vinho Verde quer ser visto pelos consumidores?
Temos de saber jogar com tudo isso. O facto de o Vinho Verde mais “tradicional” ter alguma simplicidade, ser leve, poder ser bebido de forma descontraída, é-nos muito útil para cativar uma faixa jovem de mercado que está a “fugir” do vinho mais “complicado”. Mas precisamos também da outra categoria mais ambiciosa, para nos batermos de igual para igual com aqueles que são considerados grandes vinhos do mundo. Precisamos de ganhar valor. E temos a forma ideal de o fazer, através nas nossas castas, Alvarinho, Loureiro, Avesso, etc. Comunicar através da casta é mais facilmente compreensível, mais facilmente exportável. Em resumo, precisamos de fazer passar a mensagem, internamente, entre os produtores, e para o exterior, para os consumidores.
“A sazonalidade de consumo que outrora existiu nos brancos e que condicionou os Vinhos Verdes esbateu-se muito”
Foi no seu consulado à frente da CVR Alentejo que foi desenvolvido e implementado o Plano de Sustentabilidade dos Vinhos do Alentejo (PSVA), que se tornou uma referência nacional e internacional. Como está a região dos Vinhos Verdes em termos de sustentabilidade ambiental?
Quando esta direcção tomou posse, havia já um plano de sustentabilidade em marcha, ainda não implementado. Coincidindo com o início deste mandato, surgiu igualmente o Referencial Nacional de Sustentabilidade do Instituto da Vinha e do Vinho, um conjunto de orientações transversais não adaptado especificamente a cada região. No que ao Vinho Verde respeita, acreditamos que fazer um plano novo, de raiz, tal como se fez no Alentejo, será estar a trabalhar sobre algo que já existe. Assim, o que foi decidido foi adoptar o Referencial Nacional como base para quem quiser medir a sua evolução nesta área, podendo depois certificar-se neste Referencial ou noutro que possa ser mais interessante para o seu negócio. Paralelamente, contratámos um especialista em sustentabilidade que tem, como primeira tarefa, acompanhar os produtores na utilização do Referencial Nacional e na preparação para o cumprir.
Depois, o segundo passo vai ser definir e implementar uma parte específica para o Vinho Verde. Dou-lhe um exemplo: os recursos hídricos. Aqui estamos tão habituados a ver água que parece que não existem carências hídricas. Mas elas existem e são imensas. E falta-nos o conhecimento – que porventura existe noutras regiões há muito habituadas a ter pouca água – para tirar o melhor partido da água. Precisamos, hoje, de aprender a gerir a escassez. Outro exemplo: pelas suas condições climáticas, nos Vinhos Verdes fazemos mais tratamentos do que noutras regiões. Ao mesmo tempo começam a aparecer doenças a que não estávamos acostumados. A região precisa de criar um programa de tratamentos sustentáveis muito mais específico do que o existente no Referencial Nacional.
Adicionalmente, a certificação no Referencial Nacional precisa de ser mais promovida a nível nacional e mundial. Os produtores necessitam de ver vantagens económicas e comerciais concretas em aderir ao Referencial Nacional. É que existem diversas certificações mundiais, com grande promoção associada. E uma empresa vai aderir às que lhes parecerem mais vantajosas para o seu negócio, por exemplo, em função dos mercados onde mais vende.
Que méritos vê no modelo orgânico e na sua aplicação a uma região de clima atlântico, como a dos Vinhos Verdes?
Daquilo que vemos na região, temos pouquíssimas empresas a adoptar o modelo de produção biológica. E temos até uma ou outra que já o tiveram e abandonaram. Nesta região, é difícil, ainda que não impossível, cumprir um modelo orgânico. E torna-se muito complicado cumprir tudo durante três anos e, depois, vem um mau ano climático que obriga a falhar as regras e cumprir de novo todo o ciclo. Por outro lado, temos uma situação muito gravosa que tem a ver com a flavescência dourada. Não há região onde a flavescência esteja instalada que consiga cumprir facilmente com os standards do biológico: vai ter de fazer tratamentos. Quem não o fizer pode estar a colocar em risco não apenas a sua própria produção – porque as vinhas vão morrer – mas também as vinhas dos vizinhos. Daí que seja muito importante a questão da Sustentabilidade, porque é um modelo que permite fazer melhor e de forma mais equilibrada, com benefícios para a vinha e para o próprio negócio. Claro que um modelo bio ou biodinâmico não é de todo impossível: mas apenas em áreas muito pequenas e facilmente geríveis.
Um dos maiores sucessos do seu antecessor foi levar de vencida aquela que ficou conhecida como “Guerra do Alvarinho”. Em seu entender, os ganhos para ambas as partes (produtores de Monção e Melgaço e restantes produtores da região) foram suficientes para pacificar esta questão? Ou a relativa autonomia conquistada por Monção e Melgaço ainda é de menos para uns e de mais para outros?
Se olharmos para os números que nos são fornecidos pelos selos de certificação, o segmento que mais aumenta é precisamente o do Alvarinho, produzido em Monção e Melgaço, sobretudo, mas também fora da sub-região. E até com o crescimento de vinhos de nicho, bem valorizados, como é o caso do espumante de Alvarinho. Com o acordo que foi feito no passado, foi também alocada uma verba para a promoção da sub-região de Monção e Melgaço, verba essa que, com a colaboração da CVRVV, tem sido utilizada de forma muito positiva, com inúmeras ações e visitas por parte de jornalistas e compradores. Os resultados positivos são evidentes.
“O Verde tinto está em risco de extinção. E temos de inverter esta curva decrescente, que é perigosíssima”
Esse caminho de progressiva autonomia desenvolvido por Monção e Melgaço pode e deve ser estendido às restantes sub-regiões?
Para isso, os produtores dessas regiões têm de o querer. Quando olhamos para os números de certificação com sub-região (identificada na rotulagem), Monção e Melgaço está à frente, a enorme distância do Lima, que vem a seguir. Mas depois não há muito mais. E são nove sub-regiões nos Vinhos Verdes! Portanto, a vontade dos produtores não parece ser evidenciar a sub-região onde produzem, preferindo ficar apenas com a denominação Vinho Verde.
A Dora Simões já correu o mundo do vinho em funções muito distintas, O que é mais difícil? Convencer o comprador de um supermercado inglês a referenciar o seu produto ou gerir um Conselho Geral de uma CVR?
Nunca me tinham feito essa pergunta… Apesar de tudo, penso que é mais difícil ser produtor. Exige uma resiliência enorme: implica ouvir muitas recusas, não conseguir atingir objectivos, ter de gerir um negócio a céu aberto com imensos imponderáveis. Produzir vinho é um risco. Muitas destas novas categorias de bebidas (a kombucha, por exemplo) são fáceis de fazer, implicam muito menos investimento e não dependem da natureza. Mas chegam à prateleira e custam o mesmo que o vinho.
É certo que fazer parte da direcção de uma CVR pode ter aspectos ingratos e não tem muitas das recompensas de ser produtor. Aqui ninguém está à espera de levar uma palmadinha das costas por ter conseguido isto ou aquilo. Mas isso faz parte da função. Ser produtor de vinho é bem mais exigente.
Sei que não vai mencionar marcas, mas qual a casta ou perfil de Vinho Verde que mais aprecia no copo?
Na verdade, sou muito eclética quanto a perfis de vinho. Aprecio estilos muito diversos, por vezes dependendo do momento. Mas estou mais acostumada, até pelo tempo que passei na Alemanha, a beber vinhos brancos com fruta, frescura e potencial de longevidade. Aqui, Alvarinho e Loureiro, por exemplo, enquadram-se muito bem.
(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2024)
Herdade da Mingorra: Nas terras da família Uva

Em pleno Baixo Alentejo, na casa rústica e acolhedora da Herdade da Mingorra, ao crepitar de uma grande lareira, viajámos pela história desta herdade na companhia dos seus quatro principais rostos – Henrique Uva, o patriarca e o fundador, as filhas Maria e Sofia e Pedro Hipólito, o director geral da empresa, que tem acompanhado […]
Em pleno Baixo Alentejo, na casa rústica e acolhedora da Herdade da Mingorra, ao crepitar de uma grande lareira, viajámos pela história desta herdade na companhia dos seus quatro principais rostos – Henrique Uva, o patriarca e o fundador, as filhas Maria e Sofia e Pedro Hipólito, o director geral da empresa, que tem acompanhado o projecto desde o início.
O sucesso da Herdade da Mingorra deve-se às decisões certas tomadas nos momentos cruciais e a uma adaptação constante às condições climáticas e do mercado. O essencial é aposta na uva própria, gestão inteligente de processos desde a vinha à rede comercial e a abertura à inovação a todos os níveis. Resumindo, não compram um quilo de uva e não têm um litro de vinho em excesso no armazém. E estamos a falar de uma produção superior a um milhão de garrafas, com qualidade e criatividade na abordagem.
20 anos de evolução
A aventura começou há 20 anos, quase na véspera de Natal de 2003, quando Henrique Uva apresentou a sua proposta, ambiciosa e desafiante, a Pedro Hipólito, à data responsável de produção na Adega de Redondo.
Naquela altura, Henrique Uva já tinha, na sua posse, uma propriedade, a 20 km de Beja, com 1400 hectares, que construiu adquirindo pequenas herdades quase contíguas, onde, para além de 125 ha de vinha, teve olival, amendoal e áreas florestais.
Nos anos 1990, a venda de uva era extremamente rentávelm com os preços a ultrapassar um euro por quilo. Na viragem do século, o mercado mudou e os preços foram reduzidos a menos da metade. Produzir o seu próprio vinho e construir uma marca foi a decisão que Henrique Uva tomou. Para a sua realização, precisava de uma adega com dimensão considerável e de uma pessoa competente para assegurar o projecto. A pessoa certa foi Pedro Hipólito, enólogo com imensa experiência na definição do layout, dimensionamento e gestão de adegas com esta ordem de grandeza. Talvez o maior desafio para Pedro foram os prazos: Henrique queria ter a adega pronta em agosto de 2004. E assim foi. A vindima decorreu na adega nova, perfeitamente funcional e bem dimensionada para as necessidades do projecto.
Quem está na produção de vinhos sabe perfeitamente que os primeiros anos nunca são fáceis. A Herdade da Mingorra tinha vinha e adega, mas a marca e o mercado ainda estavam por desenvolver. A conjuntura do mercado indicava o caminho mais fácil – foco na produção de vinho a granel que, naquela altura, era escasso. Mas Henrique queria afirmar-se e evoluir pela qualidade. A sensatez de não ir atrás da rentabilidade imediata “permitiu criar condições para perceber o que queremos e dar tempo para que as coisas evoluam” – relata Pedro Hipólito e acrescenta: “não podíamos pensar que iriamos vender cerca de um milhão de garrafas rapidamente”. Por isto foi estabelecido um plano: vender 20% de vinho engarrafado, para ir construindo o mercado e o resto a granel para rentabilizar o esforço, aumentando gradualmente a parte do vinho engarrafado com a marca própria até chegar aos 100%. Só conseguiram este objectivo em 2015.
O sucesso da Herdade da Mingorra deve-se às decisões certas tomadas nos momentos cruciais e a uma adaptação constante às condições climáticas e do mercado.
Aposta na uva própria
Uma das convicções de Henrique Uva, logo desde o início, foi trabalhar só com a uva própria. “Nós somos muito agricultores” – explica, e desta forma conseguem ter o controlo total da produção e manter a consistência ao longo dos anos.
O encepamento foi passo a passo adaptado ao projecto. É preciso lembrar que, no início dos anos 90, as vinhas plantavam-se para se vender uvas às adegas cooperativas e não para produzir vinhos de qualidade. Assim, no espaço de 20 anos reestruturaram quase 80% de vinha, um pouco por tentativa e erro, porque queriam criar a sua própria experiência e nem todas as castas corresponderam às expectativas. Gradualmente foram aumentando a presença de castas brancas. Em 2015 plantaram-se mais 45 hectares de vinha. Actualmente contam com 170 hectares, divididos em 87 parcelas, dos quais 40% são castas brancas e 60% tintas.
Através das castas regionais procuram expressar o carácter regional; as castas nacionais são bandeiras importantes dentro e fora do país; as castas internacionais fazem sentido no contexto de evolução de estilos, mas nem todas funcionam na região. Por exemplo, em 10 anos tiveram um Merlot muito bom e por duas vezes um Cabernet Sauvignon, castas que não vale a pena manter. “Hoje já estamos encaixados nas castas e no perfil com que nos identificamos”, dizem Henrique e Pedro, com satisfação.
Para além dos cuidados nas práticas culturais, estão atentos a práticas biotecnológicas inovadoras e implementam-nas na herdade para avaliar os resultados. O uso de leveduras inactivadas na vinha simula o ataque de fungos e estimula o metabolismo secundário das videiras, favorecendo a produção de compostos fenólicos como taninos e antocianas. É uma prática sustentável, que não só aumenta a resistência natural da planta, como melhora a qualidade do tanino e intensifica a cor do vinho. Experimentam também o ensombramento das vinhas mais expostas. Esta prática resulta em 3˚C de diferença de temperatura na copa da planta e em 10 dias de diferença na vindima.
Preferir funcionalidade à beleza
Na adega desenhada por Pedro Hipólito preferiu-se funcionalidade ao design. Os lagares e as cubas pequenas foram projectados para permitir o processamento separado de algumas parcelas, enquanto as cubas maiores foram dimensionadas como múltiplos das menores, possibilitando a junção de parcelas mais homogéneas.
Em 2022 ampliaram a adega e aumentaram a capacidade de recepção, para poder apanhar a uva na altura certa, mesmo que seja em simultâneo. O resultado é o salto qualitativo na gama de entrada. Para os vinhos de gamas mais altas existem barricas de 300 e 700 litros, com tosta escolhida para para não marcar muito o vinho, por um lado e, por outro, para não introduzir duros taninos elágicos. Têm também oito ânforas de cerâmica italianas de 600 litros.
A adega é autossuficiente em energia através dos paineis solares. O investimento recente, para além da ampliação de espaço, abrangeu a construção de um novo armazém de 1000 m2 para engarrafamento e produto acabado e aquisição de uma solução tecnológica extremamente inovadora, Winegrid, que combina sensores inteligentes e software para monitorizar em tempo real o processo de produção de vinhos. Os sensores são colocados dentro dos tanques, lagares ou barricas e recolhem dados essenciais, como densidade do mosto, temperatura, nível de líquido etc., que são enviados para uma plataforma digital, onde podem ser consultados por computador ou smartphone. O enólogo consegue assim acompanhar todo o processo de vinificação e reagir rapidamente quando necessário. A solução permite reduzir desperdícios, poupar na mão de obra e tornar o processo de vinificação mais preciso e eficiente.
Gamas bem definidas
Com a produção extensa, uma boa definição das gamas perceptível pelo consumidor, é indispensável. À gama de entrada é dado o nome Terras d’Uva, pelo feliz trocadilho do apelido e o fruto da videira. Mingorra engloba os Colheita e Reserva, crescendo agora para o Grande Reserva. Todas estas gamas são consistentes e coerentes. A linha “M” é reservada a criatividade e experiências, nela se enquadram os vinhos “fora da caixa”.
A casta duriense Tinto Cão, de maturação tardia e boa preservação de acidez, foi plantada na Herdade da Mingorra em 2009, na vinha da Horta. Não se enquadrou no perfil dos vinhos tintos, foi considerada um erro de casting e estava prestes a ser reenxertada, até ter sido experimentada no papel principal para um rosé ambicioso. E, nesta vertente, a casta conseguiu mostrar o seu potencial. Aguentou o estágio de seis meses em barricas novas de carvalho francês de 700 litros e beneficiou com ele, resultando num rosé sofisticado e encantador.
Outra novidade nesta gama foi um vinho licoroso, feito de Touriga Nacional e Sousão que estagiou em seis cascos de Cognac. Notavelmente menos doce, não tendo muita concentração, funciona bem com esta doçura reduzida o que o torna numa escolha acertada para quem não é muito guloso.
Mais uma novidade absoluta, já na gama principal, é o Mingorra Grande Reserva 2020, feito a partir de uma única parcela, o Talhão 86. Esta área de dois hectares, com solo de xisto e algum calcário, foi plantada em 2017 com sete castas misturadas, escolhidas entre regionais, nacionais e internacionais: Alicante Bouschet, Castelão, Tinta Miúda, Touriga Franca, Syrah, Petit Verdot e Petite Sirah. Tiveram em conta o ponto de maturação das variedades para conseguir a vindima mais homogénea possível.
O famoso talhão 25 e o Vinhas da Ira
Com a aquisição da Herdade dos Pelados, vieram umas parcelas antigas, plantadas em 1978. As vinhas não se encontravam no melhor estado, “agronomicamente era um desastre”. O talhão 14 acabou por ser abandonado, mas o talhão 25 tinha outrora muita fama. É o resultado da selecção massal de uma vinha mãe da Vidigueira. Chamava-se Talhão de Alfrocheiro e, no início, fez muita confusão, porque quando a uva chegava à adega era óbvio que não se tratava só desta casta. Via-se, pelos mostos, que havia lá muita uva tintureira. Quando, em 2004, fizeram um levantamento genético da vinha, foram identificadas 12 variedades misturadas, onde 54% era o Alicante Bouschet, 30% Aragonez e 7% Alfrocheiro, que eram as mais representativas. Também tem Tinta Grossa, Castelão, Moreto e Trincadeira, entre outras. Este talhão de dois hectares origina, desde 2004, o ex-líbris da casa – o Vinhas da Ira. Produzido apenas em anos de excelência, quando a vinha mostra o seu carácter na plenitude, o vinho pode ser considerado um dos clássicos do Alentejo actual.
Vindima-se tudo junto e o Alicante Bouschet serve de referência para a definição da data de colheita. Dá três lagares de três toneladas. Mas às vezes o último lagar não faz parte do lote final, pois alberga uvas vindimadas um pouco mais tarde, que não mostram o nível pretendido da frescura. A meio de fermentação, vai para uma cuba troncocónica e depois de maceração prolongada, estagia 18 meses em barricas novas de 300 litros, de diferentes tanoarias.
Tivemos oportunidade de fazer uma mini vertical esta referência, com excelentes resultados. Aqui deixo as notas de prova – 2009 – Granada com laivos acastanhados; mostra evolução com compotas, notas de carne, um apontamento de ferrugem, certa secura, tanino muito macio e frescura evidente (17,5). 2011 – Concentrado na cor; cereja preta carnuda, esmagada, alcatrão e notas resinosas, louro, tomilho e especiaria; belíssimo na harmonia de conjunto, poderoso, cheio de vida, polido, harmonioso, tanino maduro e redondo, textura de veludo e novamente frescura (18,5); 2014 – Opaco, uma ligeira redução no nariz que se esvanece à medida que o vinho vai abrindo no copo, azeitona preta, café, muita frescura a destacar-se, menos corpo, tanino polido, louro e notas de carne e especiaria no final persistente (18); 2017 – Aroma harmonioso, com fruta pura a lembrar amora e cereja, nuances de eucalipto e mentol; tanino firme, com garra mas sem ferir, concentração sem peso e com frescura, tanino fino e final bem projectado (18,5); 2018 – Especiaria e fruta madura destacam-se no nariz, como a ameixa; elegante e fino, com imensa frescura, guloso e não demasiado encorpado, com muita vida pela frente (18,5). Chegámos a provar também o futuro Vinhas da Ira 2020 que já se mostrava muito bem, rico na fruta preta e vermelha a destacar amora e framboesa, um toque floral e terroso, sedoso na textura e com óptimo polimento. Só será lançado em meados de 2025 e, até, lá continua a repousar em cave. Aqui, ninguém tem pressa.
(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2025)












































