Vintage Symington 2015, ao melhor nível

Não foi ano clássico de vintages, mas os Portos de 2015 da Symington agora provados são excelentes, ao nível dos melhores já produzidos nas respetivas quintas! Não é complicado de compreender, pois estes vintages resultam das melhores propriedades da família no Douro Superior, onde a colheita de 2015 se revelou fantástica. TEXTO Nuno de […]
Não foi ano clássico de vintages, mas os Portos de 2015 da Symington agora provados são excelentes, ao nível dos melhores já produzidos nas respetivas quintas! Não é complicado de compreender, pois estes vintages resultam das melhores propriedades da família no Douro Superior, onde a colheita de 2015 se revelou fantástica.
TEXTO Nuno de Oliveira Garcia FOTOS Cortesia do produtor
OS grandes vintages clássicos das principais casas de Vinho do Porto resultam, maioritariamente, de lotes de vinhos de várias quintas, tanto do Cima Corgo como do Douro Superior. Na Symington Family Estates – produtores de Vinho do Porto há mais de cinco gerações e os maiores proprietários de vinhas no vale do Douro – também é assim, sendo disso bom exemplo o Dow’s vintage que agrega os melhores lotes da Quinta de Bonfim (junto ao Pinhão, no coração do Cima Corgo) e da Quinta da Senhora da Ribeira (não muito distante de Seixo de Ansiães, em pleno Douro Superior). Esta prática, para além de evitar riscos na produção, enriquece a complexidade dos lotes finais, mas implica também que a declaração de ano vintage pressuponha alguma homogeneidade entre as duas regiões mais quentes do vale do Douro.
Ora, no que respeita ao ano de 2015, enfrentou-se um Inverno muito seco, cujos efeitos foram, todavia, atenuados pelas temperaturas baixas que ajudaram à conservação das reservas de água no solo criadas por um Outono de 2014 incrivelmente chuvoso (em alguns casos choveu o dobro da média mensal). A Primavera de 2015 continuou o registo seco do Inverno, trazendo, contudo, temperaturas mais altas do que habitualmente, felizmente compensadas com alguma chuva em Maio. O Verão manteve-se seco e quente, entrando pelas primeiras semanas de Setembro, mas novamente a chuva teve uma ‘intervenção divina’ pelos dias 15 e 16, evitando o continuar do stress hídrico das videiras. A seguir, o clima seco durante várias semanas permitiu uma vindima sem problemas. Por tudo isto, a Symington reconhece que a colheita correu excecionalmente bem (mesmo nas pouquíssimas parcelas da Quinta de Malvedos dedicadas ao incrível topo de gama The Stone Terraces e que foram vindimadas antes do dia 15 de Setembro). De tal forma que, segundo Charles Symington – enólogo-chefe da casa de origem escocesa –, logo após a vindima a expetativa era de poder vir a ser um ano vintage clássico. Contudo, se os lotes do Douro Superior estavam ao seu melhor nível, já nos lotes das quintas do Cima Corgo a quantidade vinho excelente foi bem menor, o que acabou por comprometer a declaração vintage.
Sucede que, o facto de haver pouco vinho nunca foi um problema para a família Symington, que tem vindo a apostar – e com sucesso – nas gamas mais altas do Vinho do Porto e que não se importa de ter de ratear caixas pelos seus melhores clientes. A prova de que esta política está correta é que os vinhos não têm parado de melhorar na qualidade e o seu preço tem vindo a subir nos mercados internacionais, como se comprova pela análise dos preços médios nos leilões em Inglaterra (com os vintages 2007 e 2011 da Dow’s em grande destaque). Acresce que o produtor já habitualmente lança vintages de uma única propriedade, como sucede com a Senhora da Ribeira e com a Quinta do Vesúvio. E, assim, a opção ficou tomada: lançar vintages de quinta na excelente colheita de 2015!
Já no que respeita à Cockburns – marca adquirida em 2010, e ainda hoje líder de vendas no Reino Unido em algumas categorias – foi declarado vintage. Mas isso não contradiz o que se escreveu acima, bem pelo contrário, dado que as duas quintas principais das quais saem as uvas para os vinhos da Cockburns – Quinta dos Canais e Quinta do Vale Coelho – situam-se, precisamente, no Douro Superior. Para mais, 2015 é o ano do bicentenário da marca, juntando-se, como se diz coloquialmente, “o útil ao agradável”, ou seja, lançou-se uma fantástica edição especial de comemoração da efeméride, cuja qualidade é mais um passo para que a marca volte rapidamente ao topo das preferências dos consumidores mais exigentes em todo o mundo. E não temos dúvidas de que isso vai acontecer mais cedo que do que possa pensar.
Uma década de Rocim

Dez anos não é muito tempo. Mas foi o suficiente para os vinhos da Herdade do Rocim deixarem uma forte marca de qualidade e singularidade entre os seus congéneres alentejanos. Não chegou, porém, para contentar Catarina Vieira e Pedro Ribeiro. A cada ano que passa, novos vinhos e projectos vão surgindo. TEXTO Luís Lopes […]
Dez anos não é muito tempo. Mas foi o suficiente para os vinhos da Herdade do Rocim deixarem uma forte marca de qualidade e singularidade entre os seus congéneres alentejanos. Não chegou, porém, para contentar Catarina Vieira e Pedro Ribeiro. A cada ano que passa, novos vinhos e projectos vão surgindo.
TEXTO Luís Lopes FOTOS Cortesia do produtor
ANTES de ir mais longe, uma declaração de interesse, ainda que muito indirecto: Cuba é o conselho alentejano onde nasceram a minha mãe, os meus avós e bisavós maternos. Ali, numa pequena aldeia, mantenho uma minúscula casa, onde durmo com muito menos frequência do que desejaria e que me serve de base para explorar esse triângulo mágico formado por Vidigueira, Cuba e Alvito. É um Alentejo com uma paisagem que foge aos estereótipos, um Alentejo de espaços reduzidos, feito de colinas e hortas, oliveiras e pomares. E vinha, claro.
Vidigueira de alguma forma açambarcou (com inteira justiça, diga-se) a fama vinícola, deixando na sombra os dois vizinhos, Cuba e Alvito. Se as vinhas se distribuem pelos três concelhos, as adegas famosas (Paulo Laureano, Cortes de Cima, Herdade do Peso, Pousio, Herdade do Sobroso, Quetzal, Paço dos Infantes, Ribafreixo e a Cooperativa local, entre outras) concentram-se na Vidigueira. Foi por isso com um certo contentamento bairrista que em 2007 fui convidado para a inauguração da adega da Herdade do Rocim, na “minha” Cuba. A beleza arquitectónica do edifício, a qualidade e ambição do projecto vinícola, a visão e a cultura do empresário José Ribeiro Vieira (que construiu tudo aquilo para materializar a vontade de sua filha Catarina em retomar o ofício agrícola do avô leiriense), deixaram-me encantado. Cuba tinha finalmente uma adega, um conceito e um conjunto de vinhos de que se podia orgulhar.
Voltei ao Rocim apenas mais duas ou três vezes desde então. Uma delas, foi logo em 2008 ou 2009. Na verdade, fui lá apenas para tomar um café com a família no bonito bar (aberto ao público) da adega. Estávamos em plena vindima e calhou passar Catarina Vieira, com quem estive dois minutos à conversa. Deu para ver que estava super-cansada, após várias noites mal dormidas, e (literalmente) coberta de uvas e mosto. Após as despedidas, lembro-me perfeitamente de comentar para quem me acompanhava qualquer coisa como: “Está aqui esta miúda [desculpe lá, Catarina] a trabalhar no duro, quando podia estar na praia em qualquer destino paradisíaco. Com esta força e ambição, isto só pode dar certo?
Sabia que…
Rocim foi buscar o seu novo símbolo a uma planta rara, de que existem apenas algumas centenas de exemplares
Planta rara como símbolo
E a verdade é que deu mesmo, apesar de, entretanto, o mentor do Rocim, José Ribeiro Vieira, ter desaparecido prematuramente. Mas desde 2013 Catarina tem a ajuda do também enólogo (e marido) Pedro Ribeiro e com a paixão e labor de ambos os vinhos da empresa cresceram, espalharam-se pelo mundo e vão surgindo novidades quase todos os anos. Não apenas estritamente vínicas. Apreciadores e jornalistas já se acostumaram ao enorme sentido de rigor e inovação que a empresa coloca em tudo o que respeita à comunicação da marca, ao nível do design e dos materiais utilizados. Agora, no décimo aniversário da Herdade do Rocim, o símbolo passa a ser a Linaria Ricardoi, nome científico de uma planta hoje em dia raríssima (existem algumas centenas de exemplares em dois núcleos populacionais) mas outrora comum nos barros de Beja e Cuba. A Quercus instalou ali mesmo ao lado, em Alvito, uma micro-reserva desta planta de lindas flores azuis e o Rocim foi lá buscar a inspiração para a sua imagem, reafirmando ao mesmo tempo a sua cada vez maior aposta na sustentabilidade e biodiversidade.
Os 70 hectares de vinha, dos quais 22 em produção orgânica/bio, têm sido fonte de matéria-prima para vinhos inspirados, produzidos com castas regionais, nacionais ou internacionais. Das uvas mais tradicionais do Alentejo são feitos os vinhos de talha, na pequena adega original da herdade, e sob orientação do feitor, o “senhor Pedro”. Ali, a intervenção enológica é quase inexistente, sem leveduras adicionadas ou correção ácida de mostos. Tudo como manda a tradição. Os Rocim Amphora, branco e tinto, conciliam carácter, qualidade e longevidade, características que nem sempre andam juntas neste tipo de vinho.
Sabia que…
Desde 2007, a casta que em cada colheita mais impressiona os enólogos do Rocim é a Alicante Bouschet
No topo da hierarquia dos vinhos da casa mantém-se o Grande Rocim, habitualmente feito de Alicante Bouschet, seguido do Olho de Mocho Reserva, branco e tinto. Nos últimos anos, tem surgido ao lado destes uma linha de monovarietais Herdade do Rocim (Alvarinho, Touriga Nacional, Alicante Bouschet…), marca que é apresentada igualmente em vinhos de lote, branco, tinto e tinto reserva. Até ao final de 2017 irá aparecer mais uma novidade, o Herdade do Rocim Terracota, da colheita de 2015. Pensado para homenagear José Ribeiro Vieira, foi pisado e fermentado em lagar e estagiado em pequenas ânforas de barro de 140 litros. Pude prová-lo em antestreia na comemoração do décimo aniversário da Herdade do Rocim e o vinho mostrou-se pleno de fruto bonito e elegante, muito complexo nos seus sabores de terra molhada, vegetal seco, especiarias, um tinto cheio de personalidade. Acho que o pai de Catarina iria gostar.
Rocim vertical
Para comemorar os 10 anos de actividade, a Herdade do Rocim proporcionou uma prova vertical de Olho de Mocho branco, Vale da Mata Reserva tinto (da pequena vinha que possuem em Cortes, Leiria) e Grande Rocim. Foi muito interessante apreciar longevidade do branco Olho de Mocho, feito sobretudo a partir das vinhas velhas (40 anos) de Antão Vaz, já existentes quando da aquisição da propriedade. Provei todas as colheitas desde 2007 e a mineralidade revelou-se um traço comum, notas de sílex e fósforo a darem carácter e complexidade à fruta. Gostei particularmente dos 2008, 2009, 2011, 2013 e 2014, com a barrica a mostrar-se cada vez mais discreta e bem integrada nos vinhos mais recentes. As sete colheitas do Vale da Mata provadas realçam a expressão de terroir do vinho (vinha replantada em 2005, sobretudo Touriga Nacional e Tinta Roriz), a sua elegância e frescura. Pontos mais altos no polimento do 2011 e na vibração atlântica do 2013. Finalmente, o Grande Rocim. Produzido apenas nos melhores anos (2007, 2009, 2011 e 2013) e da melhor casta (tem sido sempre Alicante Bouschet…), pisado a pés com algum engaço, é difícil não gostar muito de todos eles. Destaco a raça do 2007, a fruta do 2008, a concentração do 2011 e, sobretudo, o perfeito compromisso entre poder e elegância do 2013.
Os seus vinhos no Verão à temperatura correcta

No Verão aparece um inimigo figadal dos vinhos: o calor. E não estamos a falar tanto do estágio mas sobretudo do serviço. Felizmente existem várias soluções para impedir que o excesso de temperatura prejudique seriamente a apreciação dos nossos preciosos vinhos e o prazer que temos em degustá-los. Vamos ver quais. TEXTO António Falcão […]
No Verão aparece um inimigo figadal dos vinhos: o calor. E não estamos a falar tanto do estágio mas sobretudo do serviço. Felizmente existem várias soluções para impedir que o excesso de temperatura prejudique seriamente a apreciação dos nossos preciosos vinhos e o prazer que temos em degustá-los. Vamos ver quais.
TEXTO António Falcão FOTOS Cortesia dos fabricantes
TODA a gente já percebeu que a temperatura a que um vinho é servida pode ser determinante na sua apreciação. Um moderno tinto encorpado e alcoólico que vai para a mesa a 20 ou 22 graus dificilmente dará o seu melhor. Acontecerá o mesmo a um branco a 2 ou 3 graus. Um está demasiado quente, outro demasiado frio. Um fica pastoso e enjoativo, o outro não mostra aromas e pode facilmente ‘gelar’ o palato.
Por isso, quem não tem uma cave climatizada ou uma fresca cave subterrânea, terá que usar vários métodos para colocar os vinhos à temperatura correcta. De seguida apresentamos as nossas sugestões para situações consideradas ‘normais’, em que o consumo fica em casa. Para casos de piqueniques e refeições no exterior, ou ainda em casos de emergência, veja o texto anexo.
A importância de ter um termómetro
Nada do que se disse até agora tem grande significado se o enófilo tiver dificuldade em avaliar temperaturas. E para isso não há melhor do que usar termómetros. Porquê no plural? Porque, muito simplesmente, o ideal é medir duas temperaturas: a do vinho e a do ambiente. Pode parecer muito trabalho mas de facto é até engraçado, e rápido. Quando comecei a interessar-me sobre o assunto, há décadas, adquiri uma estação que mede a temperatura ambiente (e dá ainda outras informações, como a humidade e pressão atmosférica). Comecei logo a perceber outras coisas, como, por exemplo, de que não durmo bem quando a temperatura do quarto excede os 28 graus. O termómetro para o vinho já existia e consulto-o com alguma regularidade, para me “auto-calibrar”. Nenhum destes equipamentos é caro e provavelmente custa menos do que uma boa garrafa de vinho. Use e abuse. Vai ver que em pouco tempo consegue avaliar as temperaturas com mínimas margens de erro. Nos tintos, a minha margem de erro tem sido, no máximo, 2 graus.
Os tintos e os generosos em casa
Em casa, quando começa o calor, costumo conservar apenas duas ou três garrafas no frigorífico. Isto para evitar conflitos familiares. Se vou jantar com um tinto, e se a sala estiver a cerca de 25 graus, coloco a garrafa cá fora uma meia hora antes. Se a sala estiver na faixa dos 30 graus, baixe para apenas 20 minutos. Se estiver na ordem dos 20 graus, não precisa de colocar a garrafa no frio: basta colocá-la uns 15 minutos antes no frigorífico ou colocar-lhe uma manga refrigeradora uns minutos antes de servir.
Agora suponhamos que alguém chega repentinamente para jantar ou lhe apetece, à última hora, beber o tinto x ou y. Se a garrafa estiver à temperatura ambiente e ainda tiver tempo, use também o frigorifico. Nesta estação do ano, em dias quentes, note que um tinto leva cerca de 1 hora a baixar para os 14 a 18 graus, temperatura que lhe irá permitir desenvolver plenamente os seus aromas. Se o colocar no congelador, esse tempo desce para cerca de 10 minutos. Afine consoante a temperatura a que estava o vinho. Mas nunca se esqueça de que um tinto pode ir para a mesa a 18 graus mas se a sala estiver a 28 graus, ele irá subir de temperatura e os segundos serviços desse vinho arriscam-se a ficarem demasiado quentes. Uma manga de frio resolve rapidamente o problema. Neste sentido, não se esqueça de que é muito mais fácil aquecer um pouco um vinho tinto (até com as mãos, já no copo) do que refrigerá-lo. Assim, em salas muito quentes, é preferível arrefecer o tinto até aos 12-14 graus, ou ainda menos.
Quanto aos generosos, na generalidade dos casos aplicam-se os mesmos métodos, embora com mais intensidade. Desde logo porque, pelo teor mais elevado de álcool, são servidos a temperaturas mais baixas que os tintos.
Sabia que…
• É muito mais fácil aquecer um pouco um vinho (até com as mãos, já no copo) do que refrigerá-lo?
Brancos, rosés e espumantes em casa
Os maiores problemas que as altas temperaturas do Verão colocam aos vinhos ficam exacerbados nos brancos e rosés e, pior ainda, nos espumantes. Felizmente, muita gente coloca-os antes no frigorifico e assim o assunto fica (quase) resolvido. O ‘quase’ tem a ver com dias muito quentes: um branco ou espumante sairá do frio a cerca de 4 graus; como a sala onde irá ficar está a, suponhamos, 28 graus, esse branco irá começar imediatamente a aquecer. Quando chegar aos copos estará provavelmente a 9 ou 10 graus. No segundo serviço, poderá estar a 14 graus, temperatura já demasiado elevada. Se falarmos de espumante, pior ainda… Para dias mais quentes, uma das soluções é usar a conhecida manga refrigeradora. A outra é colocar antes a garrafa no congelador durante uns 15 ou 20 minutos, fazendo baixar a temperatura para junto dos 0 graus. Há quem diga que não é boa politica colocar um vinho no congelador, que o choque térmico pode prejudicar a saúde do vinho. A minha experiência – e a de muita gente, aliás – diz-me que não é bem assim. Salvo se se esquecer da garrafa e o vinho congelar. Aí pode acontecer o desastre…
Sabia que…
• O melhor amigo do enófilo é o termómetro. Use também um de sala e habitue-se a consultar os dois. Vai ver que se auto-calibra em pouco tempo…
Como transportar vinhos no Verão?
Para além de transportar garrafas do frio para o copo, muitas vezes temos de as mover connosco para outros locais. O caso das férias é paradigmático. No entanto, sabia que, em dias muito quentes, a temperatura no interior de um carro deixado ao sol pode chegar, em pouco tempo, acima dos 50 graus? Esta temperatura pode ser facilmente mortal para a maior parte dos vinhos, especialmente se a exposição for prolongada (muitas horas, por exemplo). As soluções para obviar isto passam sobretudo por colocar os vinhos, previamente arrefecidos em casa, numa geleira com tampa. Junte-lhe ainda gelo ou aqueles blocos térmicos que se compram à parte e se conservam no congelador. Os seus vinhos chegam assim em condições ao destino. É fácil, dá pouco trabalho e é barato. Que mais podemos pedir?
As temperaturas correctas para os tipos de vinho

Onde comprar?
A maior parte das boas garrafeiras vende toda a espécie de sistemas para arrefecer o vinho e os respectivos termómetros. Outras soluções passam pelas boas lojas especializadas em artigos de cozinha. Note que mangas refrigeradoras e frapês (também chamados de champanheiras), valem normalmente o que custam. Nas mangas prefira as que são ajustáveis com elástico, porque se adaptam melhor ao vidro e não caem quando levantamos a garrafa. Quanto aos frapês, os de acrílico costumam ser mais baratos que os de inox. Mas duram menos… Por outro lado, pode sempre visitar estas lojas on-line, mas note que a escolha não é exaustiva:
• https://gifts4wine.com
• https://brilato.pt
• www.decantervinho.com
• www.mimocook.com
Finalmente, os termómetros de sala (alguns são autênticas estações meteorológicas) podem ser adquiridos em boas lojas de electrodomésticos ou em grandes sites de compras. Basta fazer uma rápida pesquisa… Os preços começam nas duas dezenas de euros e vão até às centenas, para modelos muito completos, com toda a espécie de medidas interiores e exteriores (temperatura, humidade, pressão atmosférica, velocidade do vento, etc).
Cá fora e em caso de emergência: água e gelo
Combina um almoço com enófilos e um amigo traz duas garrafas, mas chegam muito quentes. Vai fazer uma refeição cá fora mas a temperatura está acima dos 30 graus. Nestes casos, a maneira mais fácil e rápida de arrefecer uma garrafa (e mantê-la fresca) é com gelo e/ou água gelada. Um recipiente (frapé, geleira, etc) com pedras de gelo e água (meio por meio) é o método mais rápido. Um tinto pode chegar á temperatura ideal em 6 a 8 minutos, e 12/15 minutos chegam para os brancos e rosés. A água melhora muito o contacto com o vidro e acelera a transferência de temperatura. Tenha apenas atenção aos tintos e generosos, para não ficarem demasiado frios.

Bastardinho de Azeitão: de chorar por mais

TEXTO: João Geirinhas HÁ boas e más noticias a contar a propósito do relançamento – agora com uma embalagem luxuosa a condizer – por parte da José Maria da Fonseca do célebre Bastardinho de Azeitão. Na verdade, e em rigor, não se trata propriamente de uma novidade porque o vinho foi existindo e connosco convivendo, […]
TEXTO: João Geirinhas
HÁ boas e más noticias a contar a propósito do relançamento – agora com uma embalagem luxuosa a condizer – por parte da José Maria da Fonseca do célebre Bastardinho de Azeitão. Na verdade, e em rigor, não se trata propriamente de uma novidade porque o vinho foi existindo e connosco convivendo, com a parcimónia devida, é certo, pelo menos nas ultimas décadas. Mas este era um fim há muito anunciado.
A última vindima das velhas cepas de Trousseau (Bastardo) com mais de 90 anos que foram arrancadas em 1983 por força da pressão urbanística na margem sul do Tejo, deixou perceber que este era um tesouro em extinção. O produtor foi assim gerindo a colocação deste generoso no mercado, doseando sabiamente a composição dos lotes de forma a manter uma identidade muito própria que lhe fez fama e justo proveito. Começou por ser o 25 Anos e depois, com a introdução dos últimos vinhos, o Bastardinho 20 Anos. À medida que as bases iam ficando mais velhas, a capacidade da garrafa diminuía e os rótulos davam conta deste passar do tempo inexorável: esteve aí, até há pouco, o 30 Anos. Não sendo possível manter indefinidamente o mesmo perfil, decidiu-se avançar agora para o 40 Anos, fazendo ou último lote com ou resto que havia nos cascos da casa. E o que havia eram na verdade vinhos sublimes em que o mais novo tinha 40 anos e os mais antigos cerca de 80. Pôs-se então um dilema aos responsáveis da José Maria da Fonseca. Que fazer então com os últimos 2.300 litros dessa ambrósia divina? E a resposta foi feliz: se é para acabar, que se acabe em grande e em beleza!
Nasceu assim esta edição de luxo, finalmente com a roupagem apropriada à raridade e exclusividade devida de um vinho que por muito que se lamente não voltará a nascer. Degustá-lo é uma experiência marcante e a boa notícia é que ele está agora disponível para qualquer enófilo sem mais restrições que ou conforto da nossa carteira nos permita gastar os €250 pelos 500ml. A má notícia é que não voltará a haver um vinho assim!
Rio Abaixo, Rio Acima

Com o crescimento e florescimento dos vinhos do Douro, mais se torna evidente que a região é composta de múltiplos terroirs. Rio abaixo e rio acima já não se dá aos remos no rabelo, mas é importante explorar e conhecer as semelhanças, as diferenças e as especificidades. TEXTO Luis Antunes FOTOS Cortesia dos produtores […]
Com o crescimento e florescimento dos vinhos do Douro, mais se torna evidente que a região é composta de múltiplos terroirs. Rio abaixo e rio acima já não se dá aos remos no rabelo, mas é importante explorar e conhecer as semelhanças, as diferenças e as especificidades.
TEXTO Luis Antunes FOTOS Cortesia dos produtores
NO princípio, havia o Porto. E o Porto tinha tantas categorias que cada um dos milhentos micro-terroirs da região demarcada do Douro contribuía para o vinho com qualidades diferentes. Mas, nas últimas décadas, ao Porto juntou-se o vinho chamado “de consumo”, não fortificado, e pedindo do seu chão e sítio qualidades diferentes daquelas que anteriormente o Porto precisava. À medida que os vinhos Douro DOC vão construindo a sua aura, vai-se percebendo que a região se redefine, e procura em cada um desses sítios um contributo que pode ser decisivo para o crescimento e a sustentabilidade dos vinhos, não só económica, mas também em termos de estilo. Neste artigo, procurei falar com as empresas que fazem vinhos tanto rio abaixo (Cima e Baixo Corgo) como rio acima (Douro Superior), para perceber como gerem as vinhas, as uvas, como desenham os vinhos, os portefólios, como encontram nos diversos terroirs os projectos que definem o Douro de hoje e do amanhã.
Lobo
Comecei por falar com Manuel Lobo de Vasconcelos, o enólogo principal da Quinta do Crasto, que me explicou que no Cima Corgo (CC) têm a herança histórica de vinhas como a Maria Teresa, a Vinha da Ponte ou os Cardenhos, a que se juntam algumas mais recentes que incluem plantações separadas por casta. Esta pressão histórica não existe no Douro Superior (DS), onde acima de tudo procuram a consistência, que é conseguida graças a variedades muito adaptadas, como a Touriga Franca.
O DS fica, no entanto, aquém de atingir os níveis de diversificação e, portanto, de complexidade do CC, onde têm vinhas com 100 anos e cerca de 50 variedades. No DS os vinhos são fabulosos em estrutura e dimensão, e Manuel tenta no binómio viticultura-enologia encontrar o respeito p ela elegância, frescura e respeito pelo terroir, evitando a sobre-maturação e o desequilíbrio dos taninos. O CC tem mais diversidade, enquanto o DS tem mais consistência, principalmente usando viticultura de precisão e gestão cirúrgica da rega. Nas vinhas velhas do CC, tudo é mais fácil, já que a vinha se auto-regula, o factor ano tem menor influência. Por exemplo, na Touriga Nacional basta um pouco de chuva na altura da floração, algum excesso de nutrição e vem o desavinho. Nas vinhas velhas isso não acontece, até porque têm pouquíssima Touriga Nacional.
Em cada ano, é preciso resolver um puzzle do Douro, para o Reserva Vinhas Velhas, feito no CC, mas também para o Crasto Superior, proveniente do DS. No CC, são 42 mini-blocos de vinhas velhas espalhadas, todos com vinificações independentes, de onde podem sair os topos de gama Vinha da Ponte e Vinha Maria Teresa, mas procurando acima de tudo o equilíbrio, a frescura de taninos. No Douro Superior, o puzzle é diferente, mas a procura também é de equilíbrio, em particular a maturação dos taninos, mas também a frescura – mas frescura não é só acidez, a frescura aromática também é fundamental.
Enquanto no Reserva Vinhas Velhas há um histórico e um perfil a manter, no Crasto Superior o projecto foi criado a partir do zero, com espaço para definir o perfil de um vinho novo, apelativo para o consumidor moderno, com intensidade aromática, dimensão, estrutura, boa evolução em garrafa. Mas é também muito interessante perceber que o Crasto colheita pode ir buscar o melhor dos dois mundos. Para Manuel Lobo, um vinho para ter expressão e sucesso mundial tem de ter consistência e volume. Ao trabalhar com as duas sub-regiões, e visto que o Crasto não é um vinho de quinta, consegue consistência ano após ano num vinho que conquista o consumidor pela fruta definida e boca redonda, para o qual é fundamental que as duas regiões se completem.
Sottomayor
Luís Sottomayor, enólogo da Sogrape, focou-se em dois vinhos da Casa Ferreirinha: o Esteva e o Papa-Figos. Ambos são vinhos despretensiosos e fáceis de beber todos os dias, vinhos desenhados para as pessoas gostarem à primeira. O Esteva existe desde a colheita de 1974, e é feito com algumas uvas do Cima Corgo, de produção própria, das quintas do Seixo e do Porto, e outras compradas a lavradores em zonas mais altas, para ir buscar frescura e acidez. Este vinho não tem qualquer estágio em madeira. O Papa-Figos posiciona-se entre o Esteva e o Vinha Grande, e procura reproduzir o modelo do Esteva mas com uvas do Douro Superior, que, sendo mais quente e com maturações mais fortes, vai ter componentes aromáticas diferentes.
Em ambos os vinhos as variedades são as mesmas: Touriga Franca, Touriga Nacional, Tinta Roriz e Tinta Barroca. O Papa-Figos é mais carregado de cor, com uma componente aromática de cacau, chocolate e fruta madura diferente da do Esteva. As uvas, em grande maioria, vêm de zonas altas. O Douro Superior tem aptidão para produzir um vinho fácil para beber todos os dias. Como o vinho tem mais estrutura e volume, passa 20% por madeira durante 2 a 3 meses, para ganhar em intensidade, harmonia e amaciar um pouco. Já os vinhos do Cima Corgo são mais especiados, balsâmicos, mentolados. O Esteva faz pouco mais de 2 milhões de garrafas, enquanto o Papa-Figos está a chegar ao milhão.
Sabia que…
As três sub-regiões do Douro podem ter como referência geográfica mais urbana as vilas e cidades de Peso da Régua (Baixo Corgo), Pinhão (Cima Corgo) e Vila Nova de Foz Côa (Douro Superior).
Ferreira
Francisco Ferreira puxa aqui a brasa para a sardinha da região em falta nesta equação, o Baixo Corgo (BC). A sua Quinta do Vallado está acima da foz do rio Corgo, mas a quinta está ainda no BC, no seu limite superior. Em todas as regiões há coisas muito boas, e outras muito más, vários factores, como castas, altitudes, exposições solares, solos. Na Quinta do Orgal, no DS, a exposição é sul, logo os vinhos são muito concentrados, bem maduros, com menos acidez. No BC as vinhas expostas a sul dão vinhos melhores.
Segundo Francisco, não se pode falar numa “pior região” entre BC e DS, todas conseguem fazer vinhos com consistência, mas a vantagem de ter vinhas nas duas é que, em especial em anos extremados, consegue-se ter sempre um lote final de vinho equilibrado. No DS, nos anos quentes com ondas de calor prolongadas pode haver vinhos mais sobre-maduros, licorados, compotados, tal como em anos muito chuvosos e frios há vinhas que no BC não atingem o seu potencial, e as uvas não amadurecem bem. Nos anos normais, que são 80%, há vinhos excelentes nas duas sub-regiões, basta colher na altura certa para conseguir equilíbrio. No BC os vinhos são mais frescos e elegantes, com mais fruta vermelha, mais longos. No DS os vinhos são mais concentrados, com mais fruta preta, são mais gulosos. As castas que se adaptam melhor são o Sousão no BC e a Touriga Franca no DS. A Touriga Nacional é fantástica nos dois sítios, embora origine vinhos bem diferentes. As melhores exposições no DS são a Norte, enquanto no BC são a Poente ou Sul.
À medida que os vinhos Douro DOC vão construindo a sua aura, vai-se percebendo que a região se redefine
O Quinta do Vallado Reserva Field Blend tem origem em vinhas muito velhas, com cerca de 100 anos, e muitas castas diferentes, onde predominam a Tinta Roriz, a Tinta Amarela, a Touriga Franca e a Tinta Barroca. O vinho estagia em barrica nova (60%) e usada (40%) e procura um estilo não muito fácil e óbvio, com a fruta menos evidente, com mais complexidade e mistério. É importante que possa ser bebido jovem, mas que tenha ainda assim boa capacidade de envelhecimento, tal como é importante o seu equilíbrio, tem que ter potência e estrutura, mas com frescura e leveza. Já o Vallado Quinta do Orgal apresenta um estilo mais guloso, potente mas acessível desde cedo. O 2014 é o primeiro e leva 55% de Touriga Nacional, 40% de Touriga Franca e 5% de Sousão, de uma vinha nova. Vai a barricas de terceiro ano de uso. No futuro, Francisco vai tentar um estilo mais concentrado, para guarda.
Madureira
Luciano Madureira descreveu-me os projectos da Rozès no CC e DS. Douro Superior aqui é rio acima mesmo, já que os DS da Rozès vêm de Freixo de Espada à Cinta, já junto à fronteira espanhola. Na sua Quinta do Grifo o clima é mais rigoroso, há muito calor, uma altitude inferior a 250m, as videiras têm que fazer um grande esforço para cumprir a sua missão, apesar de haver rega disponível. Esta quinta tem 140ha, foi comprada cerca de 2003, e vê-se uma grande melhoria do potencial das vinhas desde há 5 ou 6 anos. Há vinhas velhas e talhões com Touriga Nacional, Touriga Franca, Sousão e Tinto Cão. O Sousão é fundamental para corrigir a acidez do lote final.
Já a Quinta do Pégo, com 30ha, fica junto ao Pinhão, onde o clima é mais fresco, e os vinhos têm pH mais baixo. Há vinhas velhas com ênfase na Tinta Amarela e Rufete, e também muita Touriga Nacional já com idade. O Quinta do Pégo é um vinho maduro, intenso e encorpado, mas com boa leveza. Em relação ao Grifo, é mais leve e fresco, muito equilibrado e apelativo. Mas como ambos são aprovados como Grande Reserva, têm também que ter extracto, matéria. O lote é feito a partir das vendas, numa filosofia de crescimento sustentável. O Pégo GR faz assim 10 mil litros, enquanto o Grifo GR faz 5 mil. Um e outro são feitos 75% em lagar, e passam por barricas de 300l de carvalho francês, 50% novas, durante 12 a 18 meses.
Moreira
Jorge Moreira espalha a sua actividade por várias empresas, com vinhas em vários locais, rio abaixo e rio acima. Focamo-nos para já nos vinhos brancos. O La Rosa Reserva vem de uvas da zona de Pombal do Norte e de zonas altas (500m) junto ao Pinhão. É, assim, um Cima Corgo. A base do vinho é Rabigato e Síria (antiga Códega), fermentado em madeira (30% nova), e Arinto e Gouveio em madeira usada. As uvas têm características diferentes, é preciso avançar com prudência. São prensadas, maceradas, com uma extracção que permita a maior complexidade possível, mas também o maior equilíbrio possível ao mesmo tempo.
O ano de 2015 mostrou um vinho muito atraente e bonito, fácil de gostar. Usualmente as vinhas têm muito pouca produção, dando mostos muito concentrados, com grande carga fenólica, difíceis em jovens. Não houve stress hídrico e os vinhos resultaram macios, com boa acidez, florais. Ou seja, com a mesma acidez, em 2015 os vinhos têm um ponto acima de maturação, o que lhes dá esse apelo imediato. Para Jorge esta é a característica do ano, mas foi a primeira vez que lhe aconteceu, o que não lhe permite prever a evolução dos vinhos. Este La Rosa tem expressão e beleza, pode ser bebido desde já, mas prevê-se que melhore durante 10 anos.
Já o Passagem é feito com uvas do Douro Superior, Quinta das Bandeiras, a 400m de altitude. As uvas vêm de vinhas velhas, de onde as brancas são separadas, e ainda Códega, Malvasia Fina, Viosinho e Rabigato. Aconteceu o mesmo fenómeno em 2015, pelo que as uvas foram desengaçadas e fermentadas como um tinto, dois dias com as películas. Depois foram prensadas e terminam a fermentação em madeira usada. A ideia é trabalhar a parte fenólica, extrair fenóis durante a fermentação, usar muita bâtonnage, focar na estrutura para ultrapassar a vinha “pouco interessante”. 2015 deu um vinho onde a beleza aromática se sobrepõe ao resto.
Em suma, no La Rosa temos expressão, complexidade, um vinho impositivo, enquanto no Passagem temos austeridade, estrutura, componentes fenólicas, pensando numa maior evolução em garrafa. Nos tintos, a ideia é ter no DS intensidade, concentração, densidade, sedução, expressão de beleza, enquanto no CC Jorge procura maior complexidade e estrutura, mais comprimento, uma boa componente aromática e de sabores, é mais pensado para crescer em garrafa. Como enólogo, Jorge procura sempre a frescura, mas não à custa do carácter do Douro.
Dar aos remos
Fecho esta pequena viagem, onde tentei entender o que une e o que divide as sub-regiões mais emblemáticas do Douro. Se no Cima Corgo a tradição era de Porto, foi no Douro Superior que muitos grandes tintos nasceram. O Douro Superior talvez tenha uma ligeira vantagem de não ter o Porto a fazer tanta pressão para levar as melhores uvas. Por outro lado, o Cima Corgo tem vinhas mais velhas, maiores tradições vitícolas, talvez um pouco mais de diversidade de terroirs. Mas o Douro Superior tem também muitos terroirs diversos, incluindo altitudes maiores e climas mais extremados. Este é um sistema de equações que se explora e resolve com muito agrado.
Esporão: Revolução ambiental em Reguengos

Um dos maiores produtores de vinho do país decidiu trilhar, há meia dúzia de anos, um caminho praticamente vanguardista no que concerne à agricultura e ao desenvolvimento sustentável. A Herdade do Esporão é assim uma mostra impressionante do que é possível fazer em prol do ambiente e da qualidade das uvas. TEXTO António Falcão […]
Um dos maiores produtores de vinho do país decidiu trilhar, há meia dúzia de anos, um caminho praticamente vanguardista no que concerne à agricultura e ao desenvolvimento sustentável. A Herdade do Esporão é assim uma mostra impressionante do que é possível fazer em prol do ambiente e da qualidade das uvas.
TEXTO António Falcão NOTAS DE PROVA Nuno Oliveira Garcia FOTOS Ricardo Palma Veiga
A estrada que liga Reguengos à Herdade do Esporão passa por várias vinhas. Nesta altura, em que as plantas já começam a mostrar os primeiros, mas subtis afloramentos, o que mais chama a atenção é a terra nua por baixo das videiras. Os viticultores revolveram a terra entre as linhas de videiras para eliminar qualquer planta infestante. Uns minutos mais à frente deparamos com um panorama completamente diferente nas primeiras vinhas da Herdade do Esporão. Linha sim-linha não existe uma autêntica floresta de plantas, que quase nos dá pelo joelho. Aguçamos o olhar e descobrimos… favas. Em mais de década e meia a visitar vinhas nunca tal tinha visto. No caminho para os edifícios centrais, navegando por um mar de videiras, o panorama era idêntico. Será que a equipa de viticultura do Esporão enlouqueceu?
Nada de loucuras
O mistério das favas afinal não é nenhum enigma. Apenas o resultado de uma estratégia apontada para a sustentabilidade que tem orientado toda a equipa dirigente do Esporão desde 2011. A começar pelo gestor do projecto, João Roquette, que já há vários anos consumia produtos de origem biológica e que pretendia aumentar a presença internacional dos vinhos da casa. Num mundo de consumidores cada vez mais virado para o ambiente, o rótulo “biológico” é uma das formas de o conseguir. Mas outros factores entraram em liça, como explica João Roquette: “Descobrimos na altura que eram muito baixos os níveis de matéria orgânica e de fertilidade do solo, o que afectava as produções. Os solos não eram bem tratados…” A decisão de mudar de estratégia foi assim facilitada: era preciso reestabelecer um equilíbrio que permitiria produzir consistentemente em qualidade e quantidade e para o futuro de várias gerações.
Mãos à obra
A partir daqui o trabalho mais intenso ficou com o técnico de viticultura Amândio Rodrigues, que está no Esporão desde o início (1987). Conhece, portanto, todos os recantos à enorme vinha e não só, porque tem toda a parte agrícola da casa nos seus ombros. Depois de tomada a decisão, houve que investigar e Amândio não só tirou vários cursos e formações no assunto como teve oportunidade de visitar várias explorações, e não só em Portugal. Toda a equipa veio a seguir, com formação contínua.
Na vinha, a certificação para biológico começou em 2013, numa parcela. Mas paulatinamente toda a área – em regime de produção integrada – começou a ser preparada para o modo de produção biológico. Em 2016 a passagem estava terminada, embora só levará a certificação daqui a mais dois ou três anos. A lei assim obriga. Mas afinal, o que representa passar para o “biológico”?
Respeito pela natureza
Amândio começa por nos dizer que “desde 2011 deixámos de usar herbicidas. E só usámos fertilizantes orgânicos”. Acabar com produtos sintéticos/químicos foi o primeiro passo mas só funciona se entrarem, em sua substituição, os métodos naturais. O solo era o mais necessitado: para restabelecer níveis orgânicos, dar novamente vida ao solo, Amândio começou por fazer o que se chama de “arrelvamentos” entre as linhas de videiras. Podem ser de várias espécies mas neste momento a preferida foi a fava: “Tem muito mais matéria verde que, por exemplo, a tremocilha, e fixa muito bem o azoto no solo, fundamental para o crescimento da videira”. Nesse período passa a ser alvo de ataques do piolho, que assim poupa a videira. O faveiro cresce quase até ao ponto da vagem, mas não mais, porque começa a retirar nutrientes da terra e a competir com a videira. O faval é depois triturado e deixado em cima da terra. Isso ajuda a preservar a humidade do solo na altura de maior secura. Não espantará também ver depois rebanhos de ovelhas a pastorear na vinha. Na Herdade dos Perdigões, ali ao pé, existem galinhas, que vão comendo toda a espécie de infestantes. Amândio quer experimentar agora gansos…
Sabia que…
• O Esporão possui a maior vinha contígua de Portugal, com cerca de 450 hectares (e já foi a maior da Europa)?
• Que a área total de vinha, só no Alentejo, ronda os 615 hectares e vai aumentar nos próximos anos?
• O Esporão tem um campo de castas com 189 variedades diferentes, 112 plantas de cada?
Aumentar a capacidade de intervenção
Com o solo a ser tratado, as atenções viram-se para a protecção das videiras. Reguengos é uma região seca e por isso as doenças oriundas de fungos, como o míldio, poucas vezes dão problemas. Mas em 2016 foi problemático. Especialmente se pensarmos que a área de vinha a tratar é gigantesca… O parque de máquinas foi todo para o campo e o problema resolveu-se, como recorda João Roquette: “Percebemos que bastou cobre e enxofre e capacidade de intervenção.” Ora, com toda vinha em ‘biológico’, a urgência do tratamento (o tratamento do míldio não perdoa atrasos) é muito maior. A partir daí o parque de máquinas foi alargado, tanto em número de máquinas como na capacidade destas.
Os bichos nossos amigos
2016 foi um ano atípico. A nível de protecção da videira, a grande preocupação do viticultor alentejano é, contudo, as pragas, em especial a cigarrinha verde. Este insecto adora, por exemplo, as videiras de duas castas fundamentais no Esporão: o Alicante Bouschet e o Aragonês. E aqui entraram novas estratégias, todas naturais, claro. A solução passou por fomentar a presença dos chamados ‘auxiliares’, espécies animais inimigas das pragas. É exactamente essa a função das verdadeiras sebes entre a vinha, plantadas de 50 em 50 metros. Estas sebes, diz-nos Amândio, “servem de abrigo aos auxiliares da cultura na prevenção de várias pragas, criando um equilíbrio entre predadores e a praga”. Que plantas são essas? Entre outras a Roseira Brava, a Madressilva, o Loureiro e o Rosmaninho.
Os morcegos são outro amigo predador das pragas. Graças a biólogos, descobriu-se que existiam mas se iam embora. Fizeram-se por isso abrigos para os fixar. Mas esta ‘guerra biológica’ está longe de ficar por aqui: A traça da uva, uma praga recente, tem sido combatida com sistemas de confusão sexual, que mitiga a reprodução do infestante.
Em 2016 a equipa de viticultura lançou na vinha uma espécie de ácaros que comem os que se alimentam da videira. Correu muito bem. Há ainda outras experiências a decorrer, umas com mais sucesso, outras nem tanto. “Mas aprendemos sempre alguma coisa”, afirma Amândio Rodrigues. E acrescenta: “No fundo, criámos aqui um equilíbrio de biodiversidade que tinha sido destruído ao longo dos anos”.
A água nossa amiga
Todas as iniciativas resumidamente descritas implicaram muitos estudos e levantamentos, em várias áreas do saber. Uma boa parte foi para o estudo da área de vinha e os seus solos. Com 615 hectares de vinha no Alentejo, a grande maioria em Reguengos, foi um trabalho ciclópico. Isso levou a alterar a fisionomia do terreno em alguns sítios, com valas de drenagem que ficaram abertas e arborizadas, para refúgio das aves. Acabaram assim os problemas de encharcamento, que provocaram a morte de algumas videiras. A outra parte foi o conhecimento dos solos. Foram identificadas sete grandes áreas, com necessidades diferentes de água e de nutrientes. O sistema de rega gota-a-gota foi assim redesenhado e é agora controlado por um sistema informático que envolve várias sondas espalhadas pela vinha. A rega está também adaptada ao tipo de vinho a que se destina a uva: as uvas para o Private Selection não têm a mesma gestão de água que as destinadas ao novo Esporão colheita. As primeiras sofrem, por exemplo, um stress hídrico moderado entre o pintor e a maturação. Criam-se assim bagos mais pequenos e mais concentrados. Esta estratégia é combinada com a enologia e permitiu já poupar muita água. Diz Amândio que “temos um grande cuidado na utilização da água, porque é escassa em todo o mundo e aqui também”. O próximo passo vai ficar nas mãos de um informático, que vai coligir todo um mundo de dados enviados pelas sondas, descobrindo correlações e apresentando-os de forma mais fácil de consultar.
Auto-suficiência quase total
A quantidade de novidades não nos cessa de espantar. Mas Amândio tem mais para contar. A começar nos restos da vinha e adega, de origem orgânica. Todos eles vão para compostagem, incluindo os da azeitona. Cerca de 2 anos depois, o composto volta à terra, como fertilizante. O caroço da azeitona vai para caldeiras, como combustível. Todas as necessidades de água quente (e brevemente também a fria) são conseguidas internamente, sem se gastar um cêntimo em energia de fora. O panorama não estaria completo sem os painéis solares, que aqui também existem, para fornecer energia à adega. “Metade da energia que consumimos é produzida por nós”, garantiu-nos João Roquette. “Mas o objectivo é desligarmo-nos da rede”. Impressionante…
Preparar para o clima do futuro
A passagem para uma agricultura sustentável foi enorme e certamente dolorosa no Esporão. Mas outro inimigo espreita: o fenómeno das alterações climáticas, que ameaçam ‘secar’ ainda mais o Alentejo. A equipa técnica do Esporão está atenta e já começou há vários anos a tratar do assunto. Criou um enorme campo ampelográfico (uma colecção de videiras com mais de 180 castas!) e tem estudado o comportamento de cada uma ao longo do tempo.
Não só a resposta de cada casta ao meio ambiente como às respectivas agressões (doenças, pragas, stress hídrico, etc). O resto dos dados são oriundas de microvinificações de algumas destas castas.
Outra estratégia passou pela compra de terra na região de Portalegre, muito mais fresca. São duas parcelas, uma com vinha já plantada e outra com plantações em curso. Por lá vão estar umas dezenas de hectares. Outra hipótese ainda em cima da mesa pode ser o caminho para a costa alentejana, junto ao mar. “Eu gostava”, diz-nos Amândio com um sorriso. João Roquette dir-nos-ia o mesmo mais tarde. O futuro o dirá…
Enquanto falamos, o todo-o-terreno de Amândio vai percorrendo os caminhos de terra entre as vinhas do Esporão. Mais abaixo, a famosa barragem, quase cheia, mostra um monumental espelho de água. Foi projectada para resistir a 3 anos consecutivos de seca e tem agora recebido água da gigantesca albufeira do Alqueva, com enormes custos. Mas, tal como a agricultura biológica, o risco de ‘não fazer’ seria certamente muito maior.
A visita termina e a minha cabeça gira com todas as inovações – pequenas revoluções – que presenciámos. Esta exploração está a caminho de um modelo de agricultura que será certamente o futuro. Felizmente não é o único. Pela mente passam-me outros projectos muito avançados neste aspecto, como por exemplo a Symington, no Douro, ou a Fundação Eugénio de Almeida, em Évora. Ainda assim, a última questão que me coloco é: “porque é que tão pouca viticultura portuguesa não começou ainda a trilhar este caminho?”.
Uma nova adega de luxo
“No Esporão, em termos de sustentabilidade, é 80% vinha, 20% adega”. É assim que David Baverstock, o director de enologia, inicia a sua conversa connosco. E na adega nada melhor do que a nova instalação para vinhos de luxo. Situada ao pé do magnifico complexo enoturístico – ele próprio com muitas alusões ao respeito pelo ambiente – a nova adega é simplesmente magnifica e inovadora. A começar pelas grossas paredes, feitas com terra compactada, retirada da barragem do Esporão. O calor tem dificuldade em entrar, e o fresco em sair. O tecto falso, em jeito de decoração, é feito com aduelas de barricas . O efeito estético, cortesia de um arquitecto, é surpreendente. “Especialmente à noite, com as luzes”, diz David. No centro existem vários lagares de mármore para pisa a pé, destinados aos melhores vinhos da casa, mas apenas para maceração da uva. A fermentação ocorre logo ao lado, nas cubas de cimento em forma de ovo. “Este cimento permite alguma micro-oxigenação, especialmente no estágio do vinho. É quase como uma barrica velha, sem os problemas de contaminação”, diz-nos Baverstock. Não faltam ainda algumas ânforas, muito típicas no Alentejo, mas David ainda está a estudá-las. No total, a “Adega dos Lagares” pode produzir até 300.000 litros por campanha.
João Roquette, o motor da mudança
À frente dos destinos do projecto Esporão desde o início desta década, João Roquette foi o grande motor da mudança para um modelo de agricultura mais sustentável. Confrontado com problemas de saúde dos solos que alimentam as suas videiras e, ao mesmo tempo, com necessidade de aumentar a presença internacional do Esporão, João Roquette e a sua equipa decidiram mudar quase tudo… Ouçamos as suas palavras.
O que aconteceu quando decidiram avançar para esta pequena revolução? Achei que a direcção em que o projecto estava a evoluir, desde os anos 70, deveria ser diferente. Tínhamos também que competir com os melhores do mundo. A partir daqui foi um processo de aprendizagem… conferências, formações, produtores, livros, trabalhar com consultores, etc. E percebemos que é possível fazer este tipo de agricultura à nossa escala e que não é mais cara que a agricultura tradicional. E passamos da teoria à prática, arrancando com a vinha da Defesa já em biológico. É a mais antiga, com cerca de 10 anos de certificação e está de óptima saúde. As interrogações e dúvidas iam sendo respondidas passo-a-passo.
“Percebemos que é possível fazer este tipo de agricultura à nossa escala e que não é mais cara que a agricultura tradicional”
Muita gente pensa que a agricultura biológica não é rentável. Como se responde a isto? Como disse antes, não concordo. Mas percebo que possa surgir de vários factores, um dos quais é logo no período de conversão, em que não aparecem imediatamente as mais valias de fertilidade deste modo de agricultura. Os solos não ficam mais férteis de repente e as produções não aumentam logo. Por outro lado, temos de ver os investimentos em equipamentos e formação das pessoas. E em estudos vários (solos, por exemplo). São análises complexas que requerem muita recolha e tratamento de informação. Por causa disso – e porque encontram os produtos biológicos mais caros no mercado – é que acho que muita gente pensa que a agricultura biológica é mais cara. Por outro lado, não temos que medir o custo por hectare mas o custo por quilo de uva. No fundo, a nossa passagem foi um processo de aprendizagem contínuo e acho que os riscos foram muito baixos. O maior risco, afinal, era não fazer nada.
Invisível: um vinho singular

Costuma dizer-se que “do sonho nasce a obra”. E o irrequieto produtor alentejano Duarte Leal da Costa, da Ervideira, tem muitos sonhos. Alguns deles deram origem a vinhos inovadores, como o Invisível. TEXTO António Falcão e João Geirinhas PROVA Luís Lopes FOTOS Ricardo Palma Veiga O Invisível é um vinho branco feito de uvas […]
Costuma dizer-se que “do sonho nasce a obra”. E o irrequieto produtor alentejano Duarte Leal da Costa, da Ervideira, tem muitos sonhos. Alguns deles deram origem a vinhos inovadores, como o Invisível.
TEXTO António Falcão e João Geirinhas PROVA Luís Lopes FOTOS Ricardo Palma Veiga
O Invisível é um vinho branco feito de uvas da casta tinta Aragonês. Terá sido certamente o primeiro do género em Portugal, pelo menos comercializado em quantidades apreciáveis. O sonho nasceu em 2007, e Duarte Leal da Costa resolveu começar a comprar vinhos deste estilo – a que chama ‘blanc de noirs’ mas em versão não-espumante. Por todo o lado onde viajava conseguiu cerca de duas dezenas de garrafas, que ia provando com o enólogo, Nelson Rolo. Duarte dizia que sim, Nelson dizia que não, que os vinhos eram maus. Como é Duarte que paga as contas, começaram imediatamente a fazer testes, avaliando várias castas, tempos de vindima, vinificações, entre outros parâmetros. A casta Aragonês foi a que melhor provou. E ainda bem, porque a Ervideira tem muito…
Em 2009 avançou-se para um produto final. As uvas foram vindimadas à noite (pela fresca, por causa da acidez), e separa-se a pele da uva do seu interior; é na pele que está a cor tinta. O remanescente sofre um choque de frio e vai à prensa, onde apenas se aproveita o primeiro sumo, chamado ‘lágrima’. O mosto fermentou em inox e, ‘voilá’, eis um branco feito de uvas tintas. Fizeram-se 13.000 garrafas e Duarte estava apreensivo: “o risco era enorme”, recorda ele. O Invisível 2009 foi lançado no dia 1 de Abril de 2010 e afinal foi um enorme sucesso. Em pouco tempo esgotou. De tal maneira que a Ervideira teve de aumentar constantemente as quantidades e a edição de 2016 já vale 60.000 garrafas! Não devem chegar, contudo. Duarte Leal da Costa prevê que estará esgotado em Julho. Outro facto curioso é que a partir de 2010 o Invisível é sempre lançado no dia das mentiras, como aconteceu este ano, e com um atractivo: a primeira prova simultânea de todas as edições.
Vertical corajosa
É inegável que Duarte Leal da Costa e Nelson Rolo revelaram alguma coragem para se abalançarem a uma prova pública vertical das oito colheitas. Primeiro porque o Invisível não nasceu com o objectivo de ser um vinho de guarda e depois porque os responsáveis não testaram previamente os vinhos. Mas a verdade é que a coisa correu bem e a vertical revelou-se uma boa surpresa. A primeira colheita, de 2009, acabou por se revelar a mais atípica de todas. O vinho estava evoluído nos seus tons de ouro velho, aromas de farmácia e de fruta madura, com toques de frutos secos e meloso na boca. Apesar de ter mais de 6 gramas de açúcar residual, revelou um final seco. A partir da colheita seguinte, o estilo do Invisível alterou-se e a Ervideira passou a apontar para um perfil mais seco, tendência que se foi acentuando em anos seguintes.
Duarte Leal da Costa e Nelson Rolo revelaram alguma coragem para se abalançarem a uma prova pública vertical das oito colheitas.
2010 parece ser assim um ano de transição, com o vinho a mostrar-se bastante mais aberto na cor mas ainda com os aromas químicos e petrolados e revelando uma acidez tímida. Com o 2011, começa a predominância dos aromas cítricos e o acentuar das notas de frescura, fruto de uma acidez bem conseguida. 2012 revelou-se em grande forma, boa expressão aromática com notas cítricas bem conjugadas com algum vegetal seco, conjunto equilibrado e um final longo. Na colheita seguinte, 2013, umas notas a mentol e um certo balsâmico, a par dos citrinos e vegetal verde, deram-lhe alguma graça mas que a boca não confirmou. O ano quente de 2014 reflectiu-se na graduação alcoólica de 14,4, a mais elevada dos vinhos em prova, mas foi bem compensada pela acidez viva que lhe emprestou frescura e garantiu um conjunto equilibrado. Nos anos 2015 e 2016 a produção da marca aumentou consideravelmente e o Invisível entrou naquilo que se poderá chamar uma velocidade de cruzeiro: cor quase transparente (fazendo jus ao nome), aromas vegetais com apontamentos de limão e casca de pêssego e uma frescura bem viva e agradável. Compreende-se o sucesso comercial.
Klein Constantia

O grande branco da África do Sul Os culpados foram os holandeses. Ocuparam a zona da cidade do Cabo, e instalaram-se. Rapidamente se aperceberam de que aquelas terras tinham condições excepcionais para a produção de vinho. Nasceu assim o Vin de Constance, corria o ano de 1685. Vinho de reis e celebrado por escritores, esteve […]
O grande branco da África do Sul
Os culpados foram os holandeses. Ocuparam a zona da cidade do Cabo, e instalaram-se. Rapidamente se aperceberam de que aquelas terras tinham condições excepcionais para a produção de vinho. Nasceu assim o Vin de Constance, corria o ano de 1685. Vinho de reis e celebrado por escritores, esteve 100 anos morto e enterrado. Mas renasceu.
TEXTO João Paulo Martins FOTOS Cortesia do produtor
QUE relação pode existir entre a produção de uvas e uma batalha de paintball? Aparentemente nada mas, no vale de Constantia, bem perto da Cidade do Cabo, não são da mesma opinião. É que por ali não há javalis que invadam os vinhedos, nem corças ou veados que perturbem a produção. O mesmo já não se pode dizer dos babuínos, raça de macacos muito agressivos, especialmente abundantes naquela região sul-africana e que é preciso manter à distância. A lei não autoriza que sejam abatidos e, por isso, a alternativa é “metralhá-los” com tiros de espingarda de paintball; não mata mas desmoraliza e, assim, pela noitinha, vêm para a vinha quatro “fuzileiros” que, de arma em punho, protegem a vinha. Fica a ideia para futura utilização entre nós.
A propriedade onde estão instaladas as vinhas situa-se num dos vales mais férteis e de melhor clima dos subúrbios de Cape Town, a “Sintra” desta zona, ouvi dizer, pela exuberância da vegetação, pelo clima fresco – equidistante dos oceanos Índico e Atlântico – e por se ter tornado durante muitas décadas o paraíso das elites locais que ali passavam férias e organizavam festas onde corriam o caviar e o champanhe. É politicamente incorrecto falar desses tempos do Apartheid e por isso é à boca pequena ou apenas em textos que tal Eden do passado é referido.
A tradição impôs ali a casta Muscat de Frontignan (ou Muscat a Petits Grains) como originando vinhos de grande qualidade, brancos naturalmente doces, com as uvas colhidas tardiamente mas sem podridão. Foi assim que que Simon van der Stel o terá imaginado, pela mesma razão que terá plantado milhares de carvalhos a pensar na indústria da tanoaria. O tempo disse-lhe que a proximidade do mar não permitia a produção de madeira apta a fazer barricas e, deste modo, lá ficaram os carvalhos, alguns deles (pela dimensão) é de crer que tenham chegado até hoje. Simon foi o holandês mais importante que ali esteve na primeira fase da colonização, Governador e fundador da cidade que ficou com o seu nome, Steleenbosch.
A fama destes vinhos nasceu no séc. XVIII e prolongou-se até meados do séc. XIX. Pelo requinte que apresentavam, por terem uma elegância que não cansava derivada da ponderada doçura, por serem mais agradáveis do que os Sauternes ou Tokay, já então vinhos de referência. As cortes europeias da primeira metade do séc. XIX não o dispensavam e os escritores não lhe passaram ao lado sem notar: não só Dickens se referiu ao Vin de Constance, como também Jane Austen, Beaudelaire ou o poeta alemão Klopstock. Até Napoleão foi o vinho de Constantia que quis levar para o seu exílio em Santa Helena.
Mas a tempestade anunciava-se no horizonte: os ingleses, cada vez mais interessados nos vinhos de Bordéus, deixaram de importar os vinhos sul-africanos e a partir de 1861, com a chegada do míldio e da filoxera, estava ditada a sorte dos vinhedos de Constantia, que não mais recuperou no século seguinte, ao ponto de se deixar de falar dele. Nos finais do séc. XIX a guerra dos boers (ingleses contra a comunidade holandesa e francesa pela disputa das minas de diamantes) acabou com o comércio destes vinhos. Sem os mercados de luxo europeus, os viticultores locais passaram a produzir vinhos para consumo interno com outro carácter. Até a garrafa antiga se perdeu e foi de resto num negociante dinamarquês que se descobriu um vinho do séc. XIX engarrafado na tradicional garrafa dos Vin de Constance
Começar de novo em 1986
É nesta data que se inicia a nova história deste vinho tão famoso, quando se produziu a primeira colheita da nova era. A propriedade inicial estava dividida em três e foi de uma delas, Klein Constantia, que Bruno Prats (Quinta de Roriz/Chryseia) se tornou sócio e a única que se reclama do vinho original. Há actualmente mais sócios, sendo que um deles é também o dono do Château Angelus, em Bordéus. O projecto obrigou a rever métodos de plantio, um aturado estudo vitícola e climatológico, de forma a conseguir os melhores resultados. A propriedade tem outras castas para a produção de vinhos secos mas é este, o Vin de Constance, que voltou de novo às bocas do mundo, hoje presente nas melhores cartas de vinho. A casta continua a ser a mesma, os métodos de produção mantêm-se tanto quanto a ciência aconselha, vindima manual, sem recurso a leveduras e com a particularidade de se usar um curioso método de parar a fermentação, com a adição de um mosto ultra-ultra doce, espécie de pé de cuba, seguindo o método usado em Tokay.
Na visita que fizemos tivemos oportunidade de provar in loco quatro das mais recentes colheitas. O vinho vende-se à porta da adega a cerca de €65, numa garrafa que foi feita à imagem do antigo modelo. A primeira colheita foi assim em 1986 e o sucesso chegou rapidamente, não por existirem adeptos do vinho antigo (há muito desaparecido) mas porque a qualidade que este apresentava era de facto entusiasmante e o vinho muito original.
Provámos as colheitas de 2007, 08, 09 e 13, esta a mais recente no mercado. O melhor terá sido o 2009 (19 valores) mais carregado na cor, com mais notas de mel e flor de acácia mas com rara concentração e riqueza, com incrível complexidade. Fica como nota global a enorme qualidade, subtileza e elegância destes vinhos de moscatel. Em boa hora renascidos, para alegria dos apreciadores dos vinhos doces (raça, ao que parece, em vias de extinção).
