Revolução na Terceira

A ilha Terceira está a começar uma pequena revolução na sua vitivinicultura. A “culpa” é da Adega Cooperativa dos Biscoitos, com o auxílio da Anselmo Mendes Vinhos. Os primeiros vinhos já aí estão… TEXTO António Falcão NOTAS DE PROVA Nuno de Oliveira Garcia FOTOS Paulo Mendonça e António Falcão QUANDO se fala de vinhos […]
A ilha Terceira está a começar uma pequena revolução na sua vitivinicultura. A “culpa” é da Adega Cooperativa dos Biscoitos, com o auxílio da Anselmo Mendes Vinhos. Os primeiros vinhos já aí estão…
TEXTO António Falcão NOTAS DE PROVA Nuno de Oliveira Garcia FOTOS Paulo Mendonça e António Falcão
QUANDO se fala de vinhos dos Açores, vem logo à memória a ilha do Pico, de longe a mais vitivinícola do arquipélago. Mas, 150 quilómetros a noroeste, na ilha Terceira, existe uma mancha de vinha que é região demarcada. Trata-se dos Biscoitos, e o único operador – com algum tamanho – é a Adega Cooperativa local. O “algum tamanho” tem que ser tomado com uma pitada de sal. No total estamos a falar de uma área com cerca de 20 hectares, muito provavelmente a Denominação de Origem mais pequena de Portugal (salvo Carcavelos, para licorosos) e certamente uma das mais pequenas da Europa.
Afastada dos centros de conhecimento da moderna vitivinicultura e dos circuitos de comercialização, a adega precisava de um novo impulso. Recorreu então a Anselmo Mendes para dar uma ajuda e o enólogo (e sua equipa) estiveram por lá no inicio desta década. Por uma ou outra razão só saiu um vinho com orientação de Anselmo (colheita de 2011) e depois a ligação esmoreceu. No ano passado foi mais do que revitalizada: Anselmo e o enólogo Diogo Lopes (da sua equipa) assinaram uma parceria com a Adega dos Biscoitos e ficaram com a toda a responsabilidade dos vinhos da empresa, incluindo a comercialização.
O maior problema era combater o abandono da vinha, estimulado por razões económicas: sem recursos financeiros, a adega pagava muito pouco e tarde. Por isso, uma das primeiras medidas da nova equipa foi a de estabelecer o preço de €1,85 por quilo de uva, um dos melhores preços a nível nacional. A uva mais cobiçada é da casta Verdelho, a mais nobre. Dos 20 hectares da região, existem apenas quase 4 ha de Verdelho. O restante em produção fica-se por algumas cepas de Arinto e uma multiplicidade de outras castas, quase residuais, e ainda uns bons 5 hectares de castas tintas, para o chamado ‘vinho de cheiro’, enologicamente pouco interessante e que a Anselmo Mendes Vinhos nem comercializa. O aumento do preço da uva vai fomentar a conversão de algumas destas vinhas em Verdelho.
Um terceiro objectivo a alcançar é o de recuperar a área perdida (cerca de 11 hectares) para o matagal que cresceu onde estava a vinha. Em poucos anos as “faias” (como aqui se chama), tomam conta da área de vinha abandonada. Nuno Costa, da Direcção Geral do Desenvolvimento Rural, explica que, por baixo da pedra vulcânica, o solo é fértil. E o clima sub-tropical fez o resto…
Viticultura heróica
Com o Atlântico a escassas centenas de metros, o ambiente extremamente húmido obriga a cuidados extremos. Primeiro na protecção às videiras, que estão colocadas nas chamadas curraletas (ou currais). São, no fundo, minúsculas parcelas geminadas, cada uma com alguns pés de videira, protegidas por muros de pedra vulcânica. Esta ‘paisagem protegida’ tem outra vantagem: os muros de pedra funcionam quase como uma estufa, acumulando o calor durante o dia, e dissipando esse calor lentamente ao longo da noite. O presidente da Adega dos Biscoitos, Paulo Mendonça, disse-nos que a diferença de temperatura é enorme para a terra circundante às curraletas. O que se ganha? Sobretudo maturação, que é acelerada. As vindimas costumam ocorrer durante Setembro. Se a vinha estivesse fora deste ambiente protegido, a uva nem amadurecia o suficiente para ser enologicamente relevante (existem estudos que o comprovam). E as chuvas de Setembro encarregavam-se de destruir o que restasse do Verdelho, que vai ficando com a película tão fina que é quase transparente…
Historicamente, esta disposição do terreno tem centenas de anos e os antigos sabiam o que faziam. Só as terras com maior densidade de pedra vulcânica à superfície eram destinadas à vinha. Por outro lado, esta zona dos Biscoitos é das menos húmidas da Terceira. Existe, contudo, muita água no subsolo, proveniente do escorrimento das montanhas adjacentes. As restantes terras, mais férteis e fáceis de trabalhar, eram destinadas aos cereais. Hoje, por questões económicas, estão sobretudo em pastagem para as vacas leiteiras, provocando uma quase monocultura do leite e seus derivados. Mas todas estão também separadas por muros de pedra – afinal, havia que dar destino à pedra de lava que as montanhas tinham lançado milénios atrás.
O vinho (ou a aguardente) era fundamental há séculos porque, ao contrário da água, não transmitia doenças nas longas viagens marítimas. Os marinheiros bebiam vinho porque tinham medo de adoecer a beber água putrefacta. Isto tudo nos foi explicado por Francisco Maduro Dias, da Confraria Verdelho dos Biscoitos. Que acrescentou: “Tudo aqui tem que ser historicamente interpretado pela relação com o mar.” E recorda que a Terceira (à semelhança do que sucede com todo o arquipélago dos Açores, de resto) funcionou durante séculos como uma espécie de estação de serviço para a navegação no Atlântico.
Os vinhos
Muito haveria ainda a dizer, mas vamos aos vinhos. Quem nos guiou na vinha e adega (construção de 2008) foi Diogo Lopes, sócio e colaborador da Anselmo Mendes Vinhos nesta aventura. A primeira vindima da parceria ocorreu em 2015 e daí surgiram dois vinhos: Magma e Muros de Magma. A diferença está na composição do lote e pelo estágio em madeira de carvalho francês (usada) do Muros. A intervenção enológica foi mínima: segundo Diogo Lopes, “estes vinhos são um perfeito exemplo de terroir”. Em ambos se destaca a mineralidade (água filtrada pelas montanhas?) e uma salinidade gostosa na boca (o mar, claro). Ambos são muito gastronómicos e com um belo potencial de envelhecimento.
Os “Magmas” só agora estão a ir para o mercado e o “atraso” foi propositado. Pela sua frescura, são vinhos que agradecem o estágio em garrafa. As quantidades são exíguas (2.300 e 1.700 garrafas, respectivamente) e já estão todas com destino: metade fica nos Açores e o restante é divido por Portugal continental e pelo mercado americano. Os preços não são baratos mas, como Diogo Lopes indica, “temos que compensar os viticultores pela produção das uvas para estes vinhos de um terroir com séculos de história”.
Os segredos da Messias

Mal se dá por ela. A cave da Messias, em Gaia – onde repousam os stocks de Vinho do Porto – está longe do olhar do passante, não tem posto de vendas à beira-rio nem centro de visitas, não recebe estrangeiros em autocarros de turismo. Escondida nas Devesas, ali onde outras empresas também têm a […]
Mal se dá por ela. A cave da Messias, em Gaia – onde repousam os stocks de Vinho do Porto – está longe do olhar do passante, não tem posto de vendas à beira-rio nem centro de visitas, não recebe estrangeiros em autocarros de turismo. Escondida nas Devesas, ali onde outras empresas também têm a sede, a Messias quer estar em sossego. Foi este mundo discreto que fomos conhecer. Até porque os vinhos justificam toda a atenção.
TEXTO João Paulo Martins FOTOS Anabela Trindade
A história da empresa já vem de longe mas conta-se depressa. Fundada em 1926, a Messias resulta da ligação de duas famílias, os Vigário e os Baptista. Messias é nome próprio, antigo na família, e que continua nas novas gerações. A história também se liga à aquisição de duas propriedades do Douro, a Quinta do Cachão (que, como o nome sugere, fica no cachão da Valeira) e a Quinta do Rei, que pega com o Cachão. Mesmo nos anos 20 e 30, a ideia dos então proprietários era ter terra e daí resultou também a aquisição das Quintas do Valdoeiro e S. Miguel, na Bairrada. Assim, ter produção própria a partir de propriedades suas foi a política seguida, bastante original para a época.
A empresa tem-se mantido num ambiente familiar (e todos sabemos o quão difícil é isso…) mas em 2006 houve uma herdeira que resolveu vender a sua quota e o comprador foi a Taylor’s, ou seja, a empresa Quinta & Vineyard Bottlers (QVB). Tal interesse foi percebido à época porque a Quinta do Cachão é vizinha da Quinta de Vargellas, que pertence à Taylor’s. Não tendo havido mais cedência de quotas, a QVB ficou-se naquela posição minoritária, agora detentora de 17% do capital mas sem intervenção ao nível da gestão ou orientação da Messias.
Pouco conhecida do grande público foi a ligação que existiu entre a Messias e a Gran Cruz, da qual foi sócia até 1983 e a quem vendia Vinho do Porto a granel. Foi também essa a época em que estavam em alta os BOB, ou seja, marcas que se faziam com o nome do comprador, uma prática habitual com as grandes cadeias de supermercado, quer nacionais quer estrangeiras. Este negócio chegou a representar 80% das vendas da Messias, mas a partir de 2005 passaram a investir sobretudo em marcas próprias e os BOB de Vinho do Porto não representam hoje mais de 30%. Interesse relativamente recente tem sido os L.B.V. (Late Bottled Vintage), que agora estão a produzir em quase todas as colheitas. São cerca de 30.000 litros anuais que lhe são destinados.
Quanto ao futuro, não há perspectivas de aquisições ou vendas. A Messias vai continuar discreta e longe dos olhares dos passantes. É caso para dizer: também no Vinho do Porto não há só um caminho e cada um decide o que quer fazer com o seu negócio. Vigários e Baptistas, os dois ramos da família, parecem estar de acordo quanto às linhas com que se cosem.

Aposta nos vinhos velhos
Como aconteceu com a generalidade das empresas portuguesas ligadas ao Vinho do Porto, a Messias começou a envelhecer vinhos em casco e por isso não se estranha que o negócio principal tenha sido, desde sempre, os tawnies, quer os que têm indicação de idade, quer os Colheita. Vinhos novos, vintages e L.B.V. não eram prioridade. Nada de espantar, por isso, que o primeiro vintage declarado tenha sido apenas o 1960.
Ana Urbano, a enóloga responsável pelo Porto da Messias, reconhece que nos anos 60 declararam demasiados vintages, com uma qualidade na qual actualmente não se reconhecem e as quantidades também eram exageradas, por norma 50.000 litros de vintage em cada declaração. “Mas”, disse, “isso teve de mudar porque percebemos que o nosso negócio era sobretudo de Porto Colheita e não fazia assim sentido não usar os melhores lotes para estes vinhos e estar a fazer Vintage que depois não tinham grande reconhecimento.” Foi assim que em finais dos anos 90 se tomou uma atitude que rompeu com o passado: para Vintage, a Messias passou a destinar apenas entre 5.000 e 10.000 litros, conforme o ano, e os melhores lotes puderam assim ser orientados para Colheita. O caminho está bem definido: “Neste momento é mais importante reforçar em qualidade os Colheita e por isso toda a nossa atenção e cuidado está no envelhecimento dos vinhos”, confirmou Ana Urbano. Assim, a Messias lançou como Vintage 1989 e 1997, e, depois, apenas os 2003, 2007 e 2011.
Os vinhos que envelhecem em casco exigem um trabalho atento de paciência e acompanhamento. De três em três anos é preciso enviar amostras para o IVDP e a sua qualidade reconfirmada na Câmara de Provadores do Instituto. E como é que se gere um Colheita? Não vai perdendo frescura? Não precisa de ser refrescado com vinhos mais jovens? Estas são algumas das habituais questões que esta categoria de Vinho do Porto costuma levantar. Ana Urbano defende que o melhor é mexer pouco nos vinhos e, assim, para conseguir uma boa harmonia de todo o lote, apostam sobretudo em tonéis de maior capacidade em vez de conservarem os vinhos em pipas. Assim, raramente fazem o chamado “refresco”, com vinhos mais jovens, só alguns arejamentos quando, através da prova, concluem que se torna necessário. O 1947, ainda em casco, é o Colheita mais antigo disponível para venda. Por norma, embora a lei permita a comercialização após 7 anos de estágio em madeira, os Messias Colheita são sempre postos à venda com pelo menos 10 anos de casco. Os vinhos muito velhos só são engarrafados a pedido, caso a caso.
Poder-se-ia pensar que seria sobretudo o mercado interno a consumir este tipo de vinho, sempre muito requisitado para aniversários. Isso é verdade, mas não se esgota por aqui. Os Estados Unidos, o Canadá e o Brasil são importantes destinos de exportação. Por cá fica apenas 20% da produção e os restantes 80% destinam-se ao mercado externo. Vamos assim continuar a encontrar os Messias Colheita em muitos pontos de venda e na restauração. Uma marca portuguesa que acolhe grandes vinhos debaixo de uma imagem propositadamente discreta…

Cuidados com um Colheita
Tratando-se de um vinho da categoria tawny, um Colheita deverá ser conservado na posição vertical. Não há que esperar evoluções significativas pelo facto de ter o vinho em casa há muitos anos. Poder-se-á detectar um aroma extra – o chamado cheiro a garrafa – caso o vinho tenha muitos anos de garrafa, mas mais nada. Desta maneira, e ao contrário dos vintages, os Colheita podem ser bebidos imediatamente a seguir à compra. Certifique-se da data de engarrafamento (indicada no contra-rótulo) e escolha, no local de compra, a data mais recente. Assim assegura que está a comprar um vinho mais fresco e com mais tempo de casco. Em casa, e algum tempo antes de servir, ponha a garrafa no frigorífico. A opção de decantar o vinho é meramente estética, já que por norma ele não requer aquele método. Mas, reconhecemos, fica mais bonito se servido num decantador de cristal.
No restaurante é difícil saber ao certo há quanto tempo o Colheita está aberto. Peça para ver a garrafa e se a data de engarrafamento for recente é provável que vá ter um Colheita na sua melhor forma. Se a data de engarrafamento já for antiga e a garrafa estiver aberta, entramos na zona do risco… (JPM)
O Porto reinou em Sintra por três dias

São acontecimentos assim que nos ficam na memória para sempre. Porquê? Porque tudo se conjugou, desde o ambiente do local, de perfil aristocrático, até aos vinhos magníficos que se puderam apreciar. Daquelas provas que dificilmente se poderão repetir. TEXTO João Paulo Martins, Luis Antunes, Nuno de Oliveira Garcia FOTOS Celestino Santos (Cortesia Porto Extravaganza) […]
São acontecimentos assim que nos ficam na memória para sempre. Porquê? Porque tudo se conjugou, desde o ambiente do local, de perfil aristocrático, até aos vinhos magníficos que se puderam apreciar. Daquelas provas que dificilmente se poderão repetir.
TEXTO João Paulo Martins, Luis Antunes, Nuno de Oliveira Garcia FOTOS Celestino Santos (Cortesia Porto Extravaganza)
O festival Porto Extravaganza teve este ano a sua 4ª edição, como sempre em Sintra, e decorreu de 10 a 12 de Março de 2017. As anteriores três edições tiveram lugar entre 2001 e 2005. A iniciativa partiu mais uma vez de Paulo Cruz, que é o proprietário e a alma do Bar do Binho, uma histórica garrafeira e bar no centro de Sintra, mesmo em frente ao Palácio Real. Grande apaixonado e conhecedor de Vinho do Porto, Paulo manteve uma colecção extremamente completa de vinhos de todas as marcas, categorias e idades. Foi assim que nasceu o festival Porto Extravaganza.
As provas sempre foram muito ambiciosas, com produtores como a Niepoort, a Quinta do Noval, a Wiese&Krohn (entretanto comprada pelo Grupo Fladgate) ou a Real Companhia Velha a apresentarem garrafas raríssimas, por vezes únicas, a um público sedento de aprender e de provar, sempre em condições de organização irrepreensíveis e com preços bastante razoáveis tendo em conta os vinhos em prova. Um verdadeiro serviço público em prol do Vinho do Porto e seu conhecimento.
Em 2017, Paulo Cruz reavivou esta chama, com três dias de provas no Palácio de Seteais. No primeiro dia, uma prova vertical de Garrafeiras da Niepoort; no segundo, prova do Grupo Symington com as marcas Graham’s e Dow’s a desdobrarem-se em vintages e tawnies; no terceiro e último dia, vinhos do século XIX, principalmente tawnies, de casas agrícolas e famílias tradicionais do vale do Douro, vinhos entre 1850 e 1900, resultado de um levantamento feito por Paulo Cruz. Uma verdadeira extravagância.
1. A Niepoort e os seus garrafões
O primeiro dia destas provas inesquecíveis foi reservado para os Garrafeira da Niepoort. Só por si este tema já era muito aliciante, pela originalidade que estes vinhos comportam. São tão originais que durante décadas foram como que uns vinhos marginais: não eram tawnies com indicação de idade e não eram Colheitas, ou seja, não se encaixavam nas categorias previstas na lei que regula o Vinho do Porto e por isso, como explicou Dirk Niepoort, estiveram quase para deixar de ser produzidos.
Mas comecemos pelo princípio. A originalidade destes vinhos advém do facto de envelhecerem longamente em bombones de vidro, de capacidade variada (mas perto dos 11 litros). Estes garrafões já existem na Niepoort desde a fundação, em 1842, e desde que a empresa comprou os armazéns de Gaia onde os garrafões estavam. Eram mais de mil, pensa-se que serão de origem alemã e do séc. XVIII, são muito frágeis e, por isso, de então para cá muitos se partiram. Os vinhos, antes de ali serem colocados, envelheciam em casco por cerca de 5 a 6 anos (menos portanto do que os 7 exigidos por lei para os vinhos da categoria Colheita) e depois de entrarem nos garrafões não mais eram mexidos nem passados a limpo até serem engarrafados.
Como se pode observar na foto, a decantação de um destes garrafões segue o método mais antigo e ainda válido. São vinhos nunca passados a limpo e que adquirem com o tempo muitos aromas de garrafa, algo difícil de definir mas que confere aos vinhos uma excelente austeridade.
O tempo faz o seu papel e os vinhos por ali ficavam, e ficam, nas sombrias caves de Gaia, durante décadas. Quando chega a hora do engarrafamento (não há uma regra sobre quanto tempo ali permanecem, varia de edição para edição), os vinhos mostram então um perfil de difícil definição: mais vermelhos do que um tawny mas sem os aromas de um vintage velho eram, e são, vinhos desconcertantes que só quem estiver bem atento e muito habituado a prová-los é que se abalança, em prova cega, a dizer: este é um Garrafeira!
Foram estes vinhos que Dirk Niepoort veio mostrar a Sintra. Foi uma prova vertical e integral, uma vez que estavam presentes todas as edições até hoje engarrafadas. O mais antigo Garrafeira é o 1931 e o mais recente que está no mercado é o 1977. O próprio Dirk confirmou que nunca tinha feito uma prova em que não faltasse nenhuma edição. Foi também por isso que ele trouxe o sr. Nogueira, para a família “o Zezé”, agora reformado mas sempre recebido na Niepoort como o nariz do vinho, o provador por excelência, membro de um clã de Nogueiras que sempre trabalharam na empresa e com o novo (jovem) elemento (5ª geração) a seguir as pegadas dos antepassados e já a trabalhar nos armazéns.
Destes vinhos fazem-se edições pequenas e, também por isso, naturalmente caras. A prova desenrolou-se do mais recente para o mais antigo. No mercado está o 77, do qual se fizeram 900 garrafas. Tem a curiosidade de vir de um ano que gerou um vintage clássico e de que também há um Colheita; um pleno, portanto. Um vinho sedoso, de tonalidades avermelhadas e muitos licorados, notas de pastelaria, toques de iodo. Muito bem, ainda que não perfeito (variações de garrafa). O 67 não deu prova, as várias garrafas não estavam em condições. O 64, magnífico, tonalidade vermelha esbatida, austero mas muito fino de aromas. Delicado e de grande textura na boca, um vinho de imensa longevidade a mostrar a originalidade destes vinhos (19 pontos). O 52, curiosamente, tinha muito mais cor que o 64 mas o aroma não estava tão perfeito, sempre com um leve off-flavour da rolha, doce na fruta e muito bem no conjunto, longo, macio com muita garra (18 pontos). O 50 é demolidor, surpreende pela tonalidade vermelha, intensas notas de licor, de cerejas cristalizadas, austero e sério. Perfeito na boca, sedoso, untuoso, cheio de classe (claramente entre 19,5 e 20 valores).
No ano de 1948 (ano clássico) a Niepoort não declarou vintage e este Garrafeira mostra-se muito carregado na cor, com notas de fruta em calda, fruta vermelha e leve nota de fruto seco, tudo com estrutura e volume, a dar muito boa prova que se confirma depois na boca, macio e envolvente, com final muito longo (18,5). O 1940 roça a perfeição, mais castanho do que vermelho, muito cheiro a garrafa, fino de aromas, licores de ervas, fruta em calda. O cheiro de garrafa conferiu-lhe austeridade na boca, o resultado é um Porto de grande nobreza e de porte altivo (19,5).
O 1938 é um dos três vinhos perfeitos que provámos neste dia. Juntamente com o 1933 (nunca antes o tinha provado) e o 1931, formam um trio de magníficos onde as cores se apresentam de compromisso entre os vermelhos e os castanhos, em que a riqueza de aromas e a complexidade dos narizes atinge o auge, com notas de rosas, de perfumes exóticos, de perfumaria, tudo ligado a licores de fruta e a texturas de seda. Aqui as notas de garrafa atingem também o seu ponto alto e os vinhos são intemporais e de memória eterna. Três vinhos de 20 valores, simplesmente porque a escala que usamos não tem mais patamares. Entretanto as novas regras do sector já “absorveram” o Garrafeira, que agora já faz parte dos vinhos autorizados, na família dos Colheitas. É caso para dizer: melhor seria que vinhos com esta classe pudessem ficar fora de qualquer enquadramento legal. Longa vida à Niepoort e aos seus Garrafeira, foi o que nos apeteceu dizer no final da festa! (JPM)
2. Symingtons em dueto ruby-tawny
Paul Symington, CEO da Symington Family Estates, trouxe José Alvares Ribeiro e outros membros da sua equipa a Seteais para apresentarem duas séries de excelentes vinhos, uma focada em Vintages, a outra em velhos tawnies, sempre das marcas Graham’s e Dow’s. Paul é um apaixonado pelo vale do Douro e pelo Vinho do Porto, e é sempre um enorme prazer escutá-lo. Aqui fez um pequeno trajecto pela história da empresa da família, explicando como de uma base de uvas e vinho feito pelos lavradores do Douro, depois comercializado pelas empresas de Vila Nova de Gaia, a Symington se transformou a ela própria. Como outras empresas, com coragem e visão, perceberam que os grandes vinhos do mundo se fazem na vinha, e a aquisição de quintas e o controlo da vinha era fundamental para manter o prestígio do Vinho do Porto no Mundo.
Da Symington Family Estates vieram duas colecções impressionantes: vintages entre 2011 e 1945 e tawnies datados entre 1994 e 1882. Garrafas raras e caras que acenderam luz nos sorrisos dos provadores.
Paul Symington explicou ainda que uma empresa familiar como a Symington tem uma filosofia e um ciclo diferente das empresas que olham para a bolsa a cada três meses e têm que justificar os seus resultados. O olhar a um prazo de 10-15 anos e os valores inter-geracionais acabam por proteger a empresa dos ataques do mercado. Os Symington, entre as várias casas que controlam e os membros da família, são hoje os proprietários da mais extensa área de vinha no Douro e estão entre os maiores produtores de Porto de categorias especiais.
A extravagante viagem começou no capítulo vintage, com um Dow’s 2011 que roça a perfeição (19,5), com o seu aroma tenso de cacau e minerais esmagados, especiarias a começar a espreitar e uma grande elegância e harmonia na boca. Dow’s 2007 mostra-se sempre bem (19), com a complexidade a começar a explodir, já um pouco suavizado pelos anos, achocolatado e apimentado, muito elegante e flexível, resultado de um ano fresco. Graham’s 2000 mostra um ano mais quente, com melaço e bolo inglês, ameixas e frutos do bosque, picante e refinado, ainda vai crescer muito (18,5). Graham’s 1994 saboroso e rico, com notas de gianduja e tabaco, mas as duas garrafas abertas estavam abaixo do seu normal (sem nota).
Graham’s 1970 espectacular, com aroma muito fino e subtil, com especiarias e ervas grelhadas, tabaco aromático, e depois na boca taninos de filigrana, integrado e harmonioso (19). Dow’s 1966 com caramelo, iodo e fruta em chutney, rico e volumoso na boca, com um final seco e um pouco fechado (18,5). Graham’s 1963 com muitas notas de garrafa, uma textura vidrada a lembrar as nuances do Armagnac, mas aqui suportado em doçura controlada, cheio, fragrante, iodado e salino, com um final grandioso (18). A série de vintages fechou com o Dow’s 1945, um vinho com 72 anos que mostrava caramelo salgado, nougat suave e tabaco, com muitas notas de garrafa, final longo e fascinante, com taninos picantes e especiados (19).
Pequena pausa para respirar e começa a série de tawnies. O Graham’s 1994 está à beira de ser comercializado e mostra-se já magnífico, generoso, com muitos frutos se cos, um pouco de hortelã-pimenta e caramelo, notas cítricas e torrados na boca (18,5). Estes tawnies do grupo Symington são sempre focados em alguma contenção, nada de excessos de exuberância. O Graham’s 1982 era bem exemplo (18), com citrinos suaves como tabaco e notas vegetais sofisticadas e profundas, com a boca muito fresca, rica, complexa e elegante. Já provei garrafas melhores do Graham’s 1972, mas mesmo assim esta valia 18,5 valores. Poderoso e concentrado, com muito vinagrinho e citrinos confitados, a acidez viva dá-lhe frescura e o final é cheio de nuances. Grandioso o Graham’s 1963, todo subtil, com maresia, tabaco, frutos secos, madeiras exóticas, cintilante na boca, rico mas todo em contenção e delicadeza (19).
A edição especial Graham’s 90 anos é uma excepção concedida pelo IVDP à homenagem dos Symington à rainha Isabel II pelos seus 90 anos. A rainha faz sempre questão de servir Porto nas suas recepções de Estado e a homenagem é bem devida. A complexidade deste vinho é esfusiante, tal como a sua subtileza, sedução e precisão. Rico e volumoso, ao mesmo tempo expressivo e contido, exuberante e austero, é muito sofisticado e longo (19,5). O meu entusiasmo é evidente, tal como é evidente que andei a poupar valores, já que não consigo evitar dar 20 valores mais uma vez ao extraordinário Graham’s Ne Oublie, um vinho de 1882. Cheira a antigo, caixa de jóias, madeira exótica, especiarias e folhas de citrinos. É muito complexo, esfusiante e deslumbrante. Volumoso e rico, a acidez viva dá-lhe uma grande dinâmica na boca, e a proporção é desarmante. Sempre grande, mas com grandeza de alma. (LA)
3. Fecho a chave loira (tawny)
Dificilmente poderia haver melhor fecho para o festival do que a prova de Porto do século XIX, intitulada ‘Os testemunhos do passado’. Muito do que há a referir sobre os Porto antigos já acima foi escrito, pelo que importa apenas apontar o essencial: não tanto valorizar a longevidade dos néctares provados, mas destacar que todos os vinhos presentes – foram 12 – se revelaram em fantástica prova. E falamos de Porto diferentes, apesar de todos muito antigos. Em prova estiveram sobretudo colheitas, alguns garrafeiras, mas também houve um Vintage e um Porto branco. Os anfitriões foram Bento Amaral (responsável do departamento de provas do IVDP) e o próprio Paulo Cruz.
O primeiro vinho em prova foi o Valriz Branco, um vinho que agrega as colheitas de 1900, 1927 e 1960, tudo em perfil seco, nariz muito misterioso e exótico, o que talvez se explique pelo envelhecimento em madeira de castanho. Foi engarrafado em 2013 e está à venda no mercado em edição naturalmente limitadíssima (18,5). Seguiu-se o Quinta de Vista Alegre Tawny Velho, um vinho cujos registos indicam ser datado da segunda metade do século XIX e que se mantém a envelhecer em cascos de madeira. Pedro Sá, enólogo do produtor, deu a provar uma amostra que se revelou muito elegante, fino e equilibrado, e nem o ligeiro vinagrinho do Douro lhe tira o epíteto de arquétipo de Porto Velho (19). Igualmente da segunda metade do século XIX o Vieira de Sousa Tawny Velho, proveniente de vinhas velhas de Celeirós (onde o produtor mantém ainda hoje propriedades), mostrou-se compacto e intenso, um portento de força, sendo ainda de destacar as deliciosas notas agridoces na prova de boca (18).
Oriundo de Galafura, agora no Baixo Corgo, esteve presente um Tawny Velho da colheita de 1980, colheita que Bento Amaral fez questão de referir como tendo sido muito boa de acordo com os registos. O vinho revelou-se a muito bom nível, todo centrado no fruto seco e algum iodo (18), dele restando apenas 50 litros, de acordo com um representante da família produtora. Verdadeiramente supremo esteve o Rozés Colheita de 1880, engarrafado em 2005, um vinho pleno de intensidade mas marcado por uma acidez refrescante, e um perfil próximo de alguns vinhos Madeira (sobretudo nas notas a caril). Um dos melhores da prova (19). Igualmente de 1880, o vinho seguinte foi o Vasques de Carvalho, que, engarrafado muito recentemente, se revelou incrivelmente complexo e no qual foram patentes as notas quentes que indicam que o lote envelheceu no Douro (18).
Oriundo de Galafura, agora no Baixo Corgo, esteve presente um Tawny Velho da colheita de 1980, colheita que Bento Amaral fez questão de referir como tendo sido muito boa de acordo com os registos.
Uma das grandes surpresas seria o único Vintage (1872) em prova, proveniente da Quinta dos Aciprestes (então, Ferreira), com naturais e evidentes notas a garrafa, neste caso absolutamente gloriosas, tudo a revelar-se muito preciso e elegante, um dos vinhos mais frescos e focados de toda a prova (19). Igualmente magistral, talvez ainda mais arrebatador, esteve o Vinho Fino do Douro Colheita 1871, um vinho do Vale do Roncão oriundo da junção de dois cascos guardados numa velha adega. Complexidade máxima, brilhante e fresco, revela o que de melhor se pode fazer no Mundo dos Fortificados (19,5).
Tempo ainda para o Vinho Fino do Douro Garrafeira 1870, de uvas de Vale de Mendiz, que estagiou em garrafões de 20l, perdidos em armazéns nos confins do Douro. Muito fresco e com belíssima acidez (quase parecia um branco), manteve o nível muito alto da prova e com a finura típica deste estilo de Porto (18). Da casa Niepoort esteve presente o seu VV de 1863, vinho que ainda se encontra em comercialização, que esteve em pipas até 1972, tendo depois sido engarrafado em garrafões.. O vinho é fantástico, muito fino mas com potência, apesar de já termos provado outras garrafas um pouco melhores (18). Seguiu-se mais um Valriz, desta feita o Colheita de 1858, engarrafamento de 2013, a mostrar mais uma vez a complexidade dos vinhos velhos, mais em potência do que em elegância, mas sempre sedutor (18,5).
A prova terminou com mais um Vinho Fino do Douro, desta feita de 1850 e do Vale do Rio Torto, outra grande surpresa, com o vinho a mostrar-se terrivelmente em forma, apesar da untuosidade do mesmo se aproximar do máximo (18,5). A ligação com os chocolates exóticos de Francisco Siopa deu um tom ainda mais requintado ao fim da prova, com os participantes a deleitarem-se no sempre prazeroso exercício de harmonizações de produtos excepcionais. (NOG)
Um palácio para vinhos de reis
Lua quase cheia sobre o Castelo dos Mouros à saída do Palácio de Seteais. Sete ais dou eu pensando nos três dias em que saí de casa depois de almoço para – 16 anos depois da primeira vez – enfrentar a IC19, ultrapassar o pouco mas denso trânsito do centro de Sintra e aterrar numa das mais extraordinárias façanhas feitas em Portugal: abrir boas garrafas de Vinho do Porto e bebê-las. Na Extravaganza de 2001 o Vinho do Porto era ainda, entre nós, um vinho mal conhecido e mal-amado. A extravaganza de pegar em garrafas velhas de décadas, trazer os seus proprietários e curadores, extrair-lhes as rolhas e partilhar com um público interessado, tudo isto aconteceu há quase 20 anos e também isso contribuiu para que o grande vinho do rio Douro desaguasse mais forte em Lisboa. Ou em Sintra, para sermos justos. Talvez o clima mais fresco e um certo estilo inglês das cottages atraia mais ao consumo do vinho fortificado, para aquecer o coração. Os apreciadores, coleccionadores e entendidos, todos concordam que ainda se bebe pouco Vinho do Porto em Portugal e estas provas mostram o quanto de bom existe nas adegas e nas garrafas. Há que bebê-lo e partilhá-lo. A Lua enche-se e brilha sobre o céu do crepúsculo, centenas de anos de vinho acumulam-se dentro da minha alma em pequenos sorvos enlevados, e a felicidade deve ser uma coisa parecida com isto. (LA)
Castas portuguesas à conquista do mundo

Estão em muitos países, embora quase sempre desempenhando papéis secundários. A Touriga Franca é a mais divulgada, Alvarinho e Touriga Nacional as estrelas em ascensão. No estrangeiro, as castas portuguesas são ainda um nicho. Mas, com o trabalho de casa bem feito e as alterações climáticas no horizonte, há sinais encorajadores para a sua crescente […]
Estão em muitos países, embora quase sempre desempenhando papéis secundários. A Touriga Franca é a mais divulgada, Alvarinho e Touriga Nacional as estrelas em ascensão. No estrangeiro, as castas portuguesas são ainda um nicho. Mas, com o trabalho de casa bem feito e as alterações climáticas no horizonte, há sinais encorajadores para a sua crescente afirmação internacional.
TEXTO Luís Francisco FOTOS Ricardo Palma Veiga e cortesia dos produtores
HÁ pouco mais de três anos, a directora do site Wine Folly (winefolly.com), a sommelier Madeline Puckett, lançou-se num exercício curioso: e se, em vez da França, tivesse sido Portugal (um país com tradição vínica e vocação globalizadora) a expandir o vinho pelo mundo? Qual seria o cenário das castas dominantes no planeta? As respostas são simplistas, mas curiosas: a referência dos tintos seria a Touriga Nacional, em vez do Cabernet Sauvignon; como alternativa mais fresca haveria a Touriga Franca, no lugar do Merlot. O Encruzado substituiria o Chardonnay, teríamos Jaen (na verdade, é a casta espanhola Mencia; e estes erros de identificação são uma das maiores “armadilhas” das estatísticas) em vez de Syrah, a Baga faria as vezes de Pinot Noir e o Pinot Gris cederia o protagonismo ao Alvarinho (outra casta de nacionalidade discutida entre Portugal e Espanha)…
Este cenário, claro, é apenas um exercício académico. Olhando para a realidade actual, são efectivamente as castas francesas que dominam o mundo (ver quadro), enquanto as variedades portuguesas assumem o papel de alternativas de nicho. A crescente popularidade dos vinhos feitos em Portugal (e a opção pelos blends, face a uma cultura de varietais que é dominante) obrigou muita gente a começar a pronunciar nomes difíceis e misteriosos. Dos prazeres do copo ao investimento na vinha vai um longo trajecto, mas há um caminho que está a ser percorrido.
Segundo dados compilados num extenso trabalho da Universidade de Adelaide, Austrália, as castas portuguesas ocupavam em 2010 três por cento da área de vinha do planeta e estão em quarto lugar na tabela de popularidade mundial. Mas a léguas das três nações dominantes: França (35,8%), Espanha (26,1%) e Itália (12,8%). Portugal é o primeiro dos pequeninos, à frente da Croácia (2,3%), da Alemanha (2,1%), da Geórgia (1,8%) e dos EUA (1,7%).
Ora, se Portugal tinha em 2010 um total de 233.597 hectares de vinha (dados IVV, Instituto do Vinho e da Vinha) e a percentagem de castas nacionais estava calculada pelo estudo da Universidade de Adelaide em 72,3 por cento, isso aponta para cerca de 168.891 hectares de uvas lusas em solo português. Neste mesmo ano, a OIV (Organização Internacional do Vinho e da Vinha) estimava a área total do planeta em 7.593.700 hectares, pelo que os 3,0 por cento atribuídos às castas portuguesas pelo estudo da Universidade de Adelaide corresponderiam a 227.811 hectares. Ou seja, haveria quase 59 mil hectares de vinha “portuguesa” fora das nossas fronteiras.
Parece um número pouco crível… Segundo o estudo, as castas portuguesas representavam 3,6 por cento na Argentina, 1,1% em Espanha, 1% na Austrália e 0,6% na África do Sul, com presenças registadas ainda no Canadá, Chile, Hungria, Reino Unido, EUA e Uruguai (todos com 0,1%), bem como no Brasil e Nova Zelândia (residual). Com isto, as variedades portuguesas conquistavam uma “quota de mercado” global de 3% (3,6% no Velho Mundo, Portugal incluído, e 0,9% no Novo Mundo).
O mistério argentino
Desde logo, o caso argentino. À falta de documentação oficial sobre o assunto, o cenário tem de ser traçado à força de senso comum e testemunhos no terreno. Rui Reguinga começou a trabalhar na Argentina em 2004 e em 2007 fez o seu primeiro blend de Malbec e Touriga Nacional, um vinho que desde então tem tido edição regular todos os anos e que já conquistou posições de destaque na imprensa internacional da especialidade (já foi, por exemplo, considerado pela “Decanter” o melhor blend da Argentina).
O enólogo e produtor português tem um projecto próprio na Argentina com 240 hectares, dez dos quais ocupados por Touriga Nacional, a única casta portuguesa que cultiva na América do Sul. Juntar a rainha das variedades tintas lusitanas com a casta mais emblemática da Argentina não é caso único e Reguinga avança que “haverá umas dezenas de hectares de Touriga Nacional na Argentina”: “É uma casta que começa a ter alguma posição no país. Mas, por enquanto, apenas dá origem a vinhos de nicho.”
Daí até as uvas portuguesas representarem três por cento da área de vinha na Argentina, conforme aponta o estudo australiano de 2010, vai uma diferença colossal… É um mistério difícil de deslindar, mas que pode ser parcialmente explicado pela dificuldade de destrinçar as origens de uma variedade em função dos diversos nomes por que pode ser conhecida. A Trincadeira, por exemplo, pode ser Tinta Amarela; o Jaen é Mencia (espanhola); quando falamos de Aragonez ou Tinta Roriz estamos a referir-nos à Tempranillo (também de Espanha). Há até uma casta, a Português Azul, que de lusitano só tem o nome…
Adiante. Apesar de os números indicarem o contrário, é convicção generalizada de que o país estrangeiro onde as castas portuguesas terão maior expressão é a África do Sul. Rita Marques, criadora, entre outros, dos vinhos Conceito e que mantém um pé naquele país africano (também trabalhou na Nova Zelândia, mas está agora mais focada nos seus projectos portugueses), diz que há por lá “bastantes castas portuguesas”, uma presença em grande parte justificada pela produção de vinhos fortificados (apresentados mesmo no mercado, até há alguns anos, como “Port”). “Temos até uma casta, a Tinta Barroca, que, não sendo muito popular em Portugal, é um pouco moda na África do Sul. Onde, aliás, assume um nome ligeiramente diferente, com sonoridade mais italiana: Tinta Barocca.
“Quando, nos anos 1940, a África do Sul se lançou na produção de vinhos fortificados e tentou replicar o Vinho do Porto, várias castas portuguesas cultivadas no Douro foram adoptadas”, reforça Dirk Niepoort. Há também, acrescenta o enólogo e produtor, vinhas velhas “na África do Sul e na Austrália” onde as castas aparecem misturadas. “Estive numa de brancos com mais de 100 anos e disseram-me que havia variedades portuguesas lá no meio, mas não é comum encontrar variedades brancas de Portugal”, recorda ainda Rita Marques.
Pelo contrário, na Austrália a casta portuguesa mais relevante será a Verdelho, levada da Europa ainda no século XIX, juntamente com outras (Tinta Barroca, Touriga Nacional…), quando os australianos fizeram prospecção e se lançaram na vitivinicultura, explica Eiras Dias, responsável pela Colecção Ampelográfica Nacional, em Dois Portos. Os australianos desenvolveram entretanto novos clones e não parecem muito interessados em partilhar informação. “Pedimos-lhes Verdelho para confirmar que era o nosso e não nos ouviram…”, lamenta o investigador português.
Regressando à América, o cenário continua a ser marcado pelo interesse pontual de alguns produtores, que lançam vinhos diferentes e especiais, mas não destinados ao grande consumo. Dirk Niepoort conhece vinhas de Touriga Nacional e Alvarinho (“neste último caso, até fui que enviei os garfos para lá”) nos EUA (na Califórnia e no Oregon), outras de Touriga Nacional no Canadá. No Brasil, Anselmo Mendes tem Touriga Nacional, Alvarinho, Gouveio…

Adaptação e mentalidades
Pelo que atrás fica dito, fácil se torna perceber que a tarefa de definir por onde andam, e que importância assumem, as castas portuguesas no panorama mundial é um pouco como solucionar um puzzle: unir as peças e compor uma manta de retalhos. Há, no entanto, alguns dados que podem ajudar.
A uva portuguesa mais “universal” é a Touriga Nacional, que está presente em 12 países, Portugal incluído. É seguida pela Verdelho (10 países), Touriga Franca (6), Alvarinho (6) e Fernão Pires (4). “Penso que a Touriga Franca e a Tinta Barroca terão viajado mais, a Touriga Nacional é a casta da moda”, comenta Dirk Niepoort. Talvez só outra casta lusa esteja à altura dessa popularidade crescente: “O Alvarinho está a espalhar-se pelo mundo”, analisa Rita Marques, que enuncia vários países: “EUA, Austrália, Nova Zelândia…”
O país dos antípodas merece uma atenção especial. A imprensa neozelandesa fez eco, já este ano, do interesse crescente dos viticultores locais na casta Alvarinho (apresentada como espanhola, mas com a ressalva de quatro dos cinco clones utilizados serem oriundos de Portugal). A uva Alvarinho ocupa actualmente apenas 27 hectares no país, uma ninharia se comparada com os 21.400ha de Sauvignon Blanc, mas está a ser apontada como uma alternativa muito interessante, tanto em termos de viticultura (é mais resistente às doenças) como de percepção sensorial (a prova devolve uma menor sensação de acidez, acentuando a suavidade). Num cenário em que muita gente está a fazer experiências com novas variedades brancas (incluindo Gruner Veltliner, Viognier, Arneis e… Verdelho), o Alvarinho é apontado como o “new kid on the block” do vinho neozelandês.

Há apenas quatro castas portuguesas (se incluirmos o Alvarinho) aprovadas na Nova Zelândia – Alvarinho, Touriga Nacional, Viosinho e Verdelho –, a que se poderia ainda somar o Aragonez (referenciado assim, em separado da Tempranillo). Entre as principais potências da vitivinicultura mundial, a mais aberta às variedades lusas é a Austrália, que inclui 18 castas portuguesas entre as 235 autorizadas na sua lista nacional. O Brasil tem 13, a África do Sul 9, os EUA 8, a Argentina 7, a Espanha 6 (a que se juntam um sem-número de “traduções”, com castas ibéricas que assumem nomes diferentes de região para região…), a França 4 (e todas aprovadas recentemente). Em Itália, nem uma para amostra.
De vez em quando, há notícias de outros países que dão conta do interesse em uvas oriundas de Portugal. Dirk Niepoort lembra os pés de Baga enviados recentemente para a Suíça, por exemplo. “A bolha das castas portuguesas está finalmente a rebentar”, analisa Domingos Soares Franco. Mas há um grande obstáculo à sua internacionalização massificada: não são, genericamente, variedades que permitam produções de grande volume.
“Não acredito que esta expansão possa dar grandes frutos, porque a tentação nos países do Novo Mundo é para puxarem as produções para níveis em que a qualidade fica comprometida”, explica o responsável pela enologia da José Maria da Fonseca. “Temos castas extraordinárias, mas não de grande produção. As excepções serão Fernão Pires, Moscatel de Setúbal ou Antão Vaz… quase todas as outras exigem domínio das técnicas de viticultura para se afirmarem com qualidade. Tem de ser com os nossos métodos e produções normais, no máximo 7/8 toneladas por hectare. Quando as puxam acima das dez toneladas elas falham.”
No Brasil, Anselmo Mendes faz outro diagnóstico para explicar as dificuldades de afirmação das castas portuguesas: “É muito difícil vender tintos e brancos. O espumante é que dá.” Um ponto a favor do Gouveio, ligado ao nascimento de um espumante que se afirmou no mercado. Mas não é fácil… “A única casta que tem um comportamento mais ou menos razoável [Anselmo trabalha nas regiões da serra de Santa Catarina e da serra Sudeste] é a Touriga Nacional.”
Variedade e diversidade
Apesar destas limitações, um dado muito interessante é a popularização crescente de castas portuguesas que até há pouco estavam fora do radar mundial. Se em 2000 as variedades lusas compunham 6,8 por cento da lista de todas as uvas plantadas no mundo, essa representação mais do que duplicou numa década, para 15,4 por cento em 2010. A proporção da área de vinha ocupada por estas castas estabilizou nos tais três por cento, mas a paisagem enriqueceu-se. Num mundo em que as castas mais populares são cada vez mais dominantes (as 35 primeiras da lista valiam 59% em 2000 e já representavam 66% em 2010), Portugal é (mais uma vez) um caso à parte…
Os dados do estudo australiano mostram que em 2010, as cinco castas mais plantadas em Portugal ocupavam pouco mais de um terço (36%) da área de vinha nacional. E dados mais recentes do Instituto do Vinho e da Vinha (IVV) baixavam essa fasquia das mais populares (Aragonez/Tinta Roriz, Touriga Franca, Castelão, Fernão Pires e Touriga Nacional) para 24,7%. Um contraste profundo com países como a China (97,4%), Nova Zelândia (86,9%), Chile (76,1%), Austrália (74,4%), Espanha (65%), África do Sul (61,9%), EUA (59,2%), Argentina (55,6%), Alemanha (51,2%) ou França (49,5%)… Neste pormenor, mais uma vez, só a Itália se equipara a Portugal, com 30,5 por cento da sua área de vinha ocupada pelas cinco castas mais populares.
O trabalho conjunto da ViniPortugal e da Porvid (Associação Portuguesa para a Diversidade da Videira) na promoção das castas portuguesas (ver caixa) ganha ainda mais importância num momento em que muita gente encara com alguma preocupação a cada vez menor diversidade da vinha mundial… E Portugal tem muito para dar neste campo. Na lista da Universidade de Adelaide, é notório o desfasamento entre a riqueza ampelográfica e a popularidade mundial das castas dos diferentes países: os 3,03% de Portugal estão repartidos por 196 variedades, uma pulverização de que só a Itália se aproxima (12,8% com 328 variedades). Compare-se com as duas grandes dominadoras da paisagem vínica mundial: a França (35,76%) tem apenas 120 variedades na lista e a Espanha (26,06%) fica-se pelas 88. Se o mundo está à procura de diversidade, bem pode olhar para Portugal com mais atenção.
A comparação de dados é quase impossível, por respeitarem a anos diferentes e nem sempre terem em conta os diversos nomes que as castas assumem em diferentes regiões, mas há alguns dados interessantes quando olhamos para os números nacionais disponibilizados pelo IVV (relativos à vinha em Portugal) e os que surgem no estudo australiano. A Touriga Franca, por exemplo, é a casta portuguesa mais plantada no mundo, diz a Universidade de Adelaide, que fala de uma área total de 11.586ha no planeta (ver quadro). Mas os números mais recentes do IVV apontam para 15.407ha só em território nacional… Muita vinha foi plantada nos últimos anos e o cenário está sempre a evoluir.
Nesse aspecto, seja pela afirmação de qualidade dos seus vinhos, seja pela curiosidade crescente do público por novas variedades, seja pela influência das alterações climáticas, Portugal só pode esperar boas notícias. O mundo já começou a aprender a soletrar “Tou-ri-ga Na-cio-nal”, “Al-va-ri-nho” e outros nomes de castas que até há pouco tempo estavam arrumados na prateleira das curiosidades exóticas. Primeiro estranha-se, depois entranha-se.
António Graça, Porvid
“Portugal é o país que está a trabalhar melhor na conservação das suas castas”
António Graça, membro da direcção da Porvid, a Associação Portuguesa para a Diversidade da Videira, garante que “Portugal é o país que está a trabalhar melhor na conservação das suas castas”. E esse esforço sustenta o crescente interesse internacional pelas variedades lusitanas, que ganham ainda mais protagonismo no cenário actual das alterações climáticas.
Faz sentido falar de castas portuguesas? As castas portuguesas são as castas ibéricas que existem maioritariamente em Portugal. Há oito grupos no mundo e um deles tem génese ibérica. Curiosamente, os estudos de DNA têm mostrado que, para lá do conhecido movimento de evolução das castas de Leste para Oeste na bacia mediterrânica, também existiu um fluxo em sentido contrário.
Que implantação têm as variedades portuguesas no mundo? As uvas portuguesas existem em muitos países, mas quase sempre em áreas pequenas. Verifica-se, no entanto, um crescente interesse pelas variedades nacionais, mesmo na Europa, onde as alterações climáticas abrem novos horizontes. A Porvid, em colaboração com a ViniPortugal, tem feito um trabalho de divulgação das castas portuguesas, sobretudo num esforço de explicar o porquê de serem diferentes. Somos o país que está a trabalhar melhor na conservação das suas castas.
Como é que sustenta essa convicção? Em Pegões temos a maior colecção clonal do mundo. No Pólo Experimental Central para a Conservação da Variabilidade Genética das Videiras Autóctones [instalado em 140 hectares cuja gestão foi cedida pelo Estado à Porvid em 2010 por um prazo de 50 anos] temos cerca de 30.000 clones de 200 castas. São entre 100 e 200 clones por casta, que não estão apenas conservados: são estudados! E isso permite trabalhar em pesquisa, de forma a colocar nos produtores os clones mais adaptados. No cenário das alterações climáticas, isso é fundamental.
Angola e Brasil estão de volta

Após dois anos de crise, as vendas de vinho português para Angola e Brasil ganharam novo alento, protagonizando subidas fulgurantes. Quem enfrentou a crise de 2015 e 2016 diversificando mercados encara agora esta recuperação como um bónus. A meta dos 750 milhões de euros em exportações pode ser ultrapassada este ano. TEXTO Luís Francisco […]
Após dois anos de crise, as vendas de vinho português para Angola e Brasil ganharam novo alento, protagonizando subidas fulgurantes. Quem enfrentou a crise de 2015 e 2016 diversificando mercados encara agora esta recuperação como um bónus. A meta dos 750 milhões de euros em exportações pode ser ultrapassada este ano.
TEXTO Luís Francisco ILUSTRAÇÕES Vitor Sousa
OS primeiros quatro meses de 2017 voltaram a trazer boas notícias para o sector do vinho em Portugal, com as exportações a crescerem seis por cento em valor (o preço médio subiu 6,3%, para 2,56 euros), descendo marginalmente (-0,3%) em quantidade. E neste cenário destacam-se as recuperações de dois mercados muito especiais: Angola e Brasil estão de volta após dois anos de crise – as vendas em Angola duplicaram e no Brasil Portugal já é segundo nas preferências dos consumidores. Abrem-se excelentes perspectivas aos exportadores portugueses, que ultrapassaram esta má fase apostando noutros mercados e diversificando a sua oferta.
Apesar das acentuadas quebras no mercado angolano (menos 62,5 milhões de euros em dois anos), os produtores e exportadores portugueses reagiram e os números mostram que foram capazes de compensar noutras frentes: Portugal exportou 726 milhões de euros em 2014, 732 milhões em 2015 e 727 milhões em 2016. E isto num cenário em que o Vinho do Porto (com os preços mais altos) está a perder peso no bolo total…
Perante esta recuperação dos mercados angolano e brasileiro, penalizados nos últimos tempos por cenários diferentes (ver caixa), não espanta que se abram novos sorrisos na fileira do vinho. A ViniPortugal antecipava para esta campanha 2016/17 um crescimento das exportações na ordem dos 4,14 por cento, qualquer coisa à volta dos 17 milhões de euros, o que poderia colocar os números finais muito próximos da barreira simbólica dos 750 milhões de euros. Jorge Monteiro, presidente da ViniPortugal, a associação interprofissional que gere a marca Wines of Portugal, sublinha que esta meta culmina um processo de crescimento com mais de uma década: “Tirando a crise de 2008, Portugal tem crescido consistentemente desde 2004. É uma tendência – e isso é que é relevante!”
Mas, neste contexto, as estimativas poderão mesmo ser ultrapassadas. Porque, depois de aprenderem a viver “sem” Angola e Brasil, as empresas portuguesas encaram agora o renascimento destes mercados como um bónus. E, mesmo tendo em conta que os primeiros meses do ano não são, normalmente, os mais importantes para as contas finais, trata-se de um bónus bem significativo… Nos primeiros quatro meses deste ano, Angola passou a ser o terceiro mercado de exportação dos vinhos portugueses no que toca a volume (72.650 hectolitros, contra 37.979hl em igual período do ano anterior, um crescimento de 91,3%) e o oitavo em receita (11,441 milhões de euros, uma subida de 108,6% face aos 5,485 milhões registados em 2016). No ano passado, Angola foi o sexto mercado em volume e o oitavo em valor. Quanto ao Brasil, passa de nono para oitavo em quantidade (40.654hl, mais 73,4% do que os 23.441 de 2016) e mantém a nona posição em valor (uma subida de 71,8%, de 6,051 milhões de euros no ano passado para 10,392 milhões em 2017). O desempenho dos vinhos portugueses permitiu-lhes mesmo subir ao segundo lugar nas preferências dos consumidores brasileiros, ultrapassando a Argentina a Itália e batidos apenas pelo Chile. Uma proeza inédita, num mercado que até há pouco “soava” a crise para o sector em Portugal. “Não há milagres nem coincidências”, explicou, em declarações ao jornal “Público”, Jorge Monteiro. “Há um conjunto de factores, alguma persistência e trabalho, a começar pelo facto de o trabalho de promoção e de divulgação ter sido uma constante.”
Mas, numa perspectiva mais geral, como é que se explicam estes números e, igualmente importante, como é que o sector resistiu a dois anos de crise e se colocou agora em posição de os capitalizar.
O filme do contentor
O escritório de representações que a Lusovini abriu na China emprega três pessoas, uma delas chinesa, o que facilita o contacto com os agentes locais. Mas a tranquilidade extra proporcionada pelo atendimento na sua língua não afasta por completo a desconfiança que existe no mercado chinês. Como a Lusovini não vende a crédito, era preciso dar aos compradores a garantia de que o que pagavam era rigorosamente o que encontrariam no contentor à chegada. E assim surgiu uma ideia inovadora: “Filmamos o processo de carga do contentor até à selagem e os compradores podem seguir o desenrolar dos trabalhos em directo”, revela Casimiro Gomes. “Assim não há desconfiança; pagaram antecipado, mas têm a certeza de que recebem o que pagaram. Na China, mais do que o vinho, o que estamos a trabalhar é a confiança.”
Sair da zona de conforto
“Só há três mercados onde os vinhos portugueses entram pela ‘porta da frente’: Angola, Brasil e mercado da saudade.” Se dúvidas houvesse, o diagnóstico feito por Eduardo Medeiro, administrador da Bacalhôa Vinhos de Portugal, deixa bem evidentes as dificuldades que o sector enfrentou nestes últimos dois anos. Tanto mais que a pressão da procura (nomeadamente em Angola) levou alguns produtores a ignorarem a regra de ouro de não pôr todos os ovos no mesmo cesto…
Quando os alarmes começaram a soar, a reacção foi imediata. Amparados pela crescente notoriedade internacional dos vinhos portugueses, os produtores e exportadores apontaram baterias noutras direcções e afinaram as suas estratégias. A Bacalhôa, por exemplo, coordenou o seu trabalho em duas frentes: diversificou a oferta interna (“o vinho azul, os varietais, novas referências, rótulos, conceitos”, enumera Eduardo Medeiro) e, na frente externa, fortaleceu a sua presença em mercados onde já trabalhava (Brasil, EUA, Canadá, Europa Central) e procurou abrir novos caminhos (Europa de Leste, China).
A Lusovini foi ainda mais proactiva: investiu um milhão de euros na criação de uma empresa de distribuição nos EUA e abriu um escritório de representação na China, assegurando assim uma ligação mais próxima com um mercado onde ainda reina alguma desconfiança acerca dos produtos europeus. Para ultrapassar reticências, acabou mesmo por adoptar práticas revolucionárias no processo de envio (ver caixa). Os resultados destes investimentos não se fizeram esperar: “Os EUA já são o nosso maior mercado”, garante Casimiro Gomes, administrador da Lusovini.
Tanto a Bacalhôa como a Lusovini nunca cortaram os laços com Angola. A primeira conta com dois distribuidores (um para as marcas Bacalhôa, outro para os vinhos da Aliança), a segunda tem mesmo uma empresa própria no terreno (e outra no Brasil, acrescente-se). Também a Herdade do Sobroso manteve os laços com o seu importador durante estes anos de crise. Mas o trabalho de diversificar os mercados foi feito: apostou-se mais no consumo interno, enquanto se abriam novas frentes (Holanda, Japão) e se reforçavam outras (Luxemburgo, Suíça). “Para os vinhos portugueses, não há nenhum mercado como o angolano. Não se substitui por outro; são precisos vários para compensar”, garante Sofia Machado, proprietária.
É um caminho necessário, mas duro, como explica Paulo Laureano: “Exige um esforço de investimento material e humano muito grande, porque os mercados externos precisam de muito trabalho, durante um período mais ou menos longo de tempo, para funcionarem de forma aceitável.” Completa Casimiro Gomes: “A produção deu o primeiro passo, com a melhoria da qualidade dos vinhos. Agora há que trabalhar os mercados. A diversidade joga a nosso favor, temos de agregar valor. Algum deste trabalho no terreno ultrapassa o âmbito da nossa empresa, mas tem de ser feito para credibilizar os vinhos portugueses.”
Evolução dos mercados angolano e brasileiro
Os problemas em Angola e no Brasil são diferentes, mas ambos complicaram a vida aos exportadores portugueses em 2015 e 2016. Enquanto em Angola se assistiu a uma crise de divisas, com a moeda local a perder peso face ao dólar em consequência da queda dos preços do petróleo, no Brasil foi a estrutura de mercado que se alterou, com perdas no preço médio dos vinhos portugueses, obrigados a concorrer com produtos bem mais baratos, nomeadamente os oriundos do Chile. Enquanto em Angola, que já foi uma espécie de El Dorado para o sector, a queda foi abrupta tanto em quantidade como em receitas, no Brasil o fluxo de cá para lá até registou um crescimento, mas o retorno financeiro praticamente estagnou nos últimos seis anos. Entre 2014 e 2016, as receitas em Angola caíram mais de 62,5 milhões de euros.
Crise de moeda, não de consumo
O desanuviamento do cenário em Angola, sobretudo, mas também no Brasil, reforça a ideia de que nunca houve uma crise de procura – não foi por deixarem de gostar de vinhos portugueses que os angolanos e os brasileiros compravam menos. “Não é uma crise de consumo, é uma crise de moeda”, sintetiza Sofia Machado, da Herdade do Sobroso. Talvez o pior já tenha passado, mas o discurso geral é de alguma contenção, até porque, como salienta Paulo Laureano, “se mantém a crise económica e social que afecta os dois países”.
“Há que esperar pelas eleições [angolanas, a 27 de Agosto] para perceber se a tendência se mantém ou se este foi apenas um período de euforia”, analisa Sofia Machado. “Nota-se que há maior disponibilidade de divisas para bens alimentares, vinho incluído. Mas subsiste um ponto de interrogação sobre como será o segundo semestre”, assume Eduardo Medeiro.
Mas enquanto os políticos resolvem as suas questões o que é que mudou no terreno para justificar esta evolução positiva dos números? A convicção generalizada é de que se assiste a uma simplificação da cadeia comercial. “As empresas locais estão a importar directamente a Portugal, sem importadores pelo meio”, resume Jorge Monteiro. E a saída de cena de alguns intermediários permite um fluxo mais racional de divisas, no caso angolano, e uma maior competitividade no mercado, quando olhamos para o Brasil.
“O dinamismo demonstrado por algumas pequenas cadeias estaduais (pequenas, mas que podem, ainda assim, representar algumas centenas de lojas…) alterou a presença de vinhos portugueses no Brasil e garante preços muito mais concorrenciais, que, em alguns casos, passaram a ser quase metade dos que eram praticados anteriormente”, explica Eduardo Medeiro. E assiste-se a uma clarificação do mercado, com os supermercados e os restaurantes a optarem por produtos diferentes.
Tudo junto, e sem nunca esquecer o trabalho levado a cabo para diversificar mercados e abrir portas noutras paragens, a verdade é que o sector vitivinícola português olha para 2017 como um ano em que se conjugam vários factores positivos. Uns fruto do esforço próprio, outros decorrentes da conjuntura internacional e da evolução da situação interna em alguns mercados. Este pode ser mais um ano histórico para a fileira do vinho. E que lança bases para metas ainda mais ambiciosas.
In-fi-ni-tu-de: Uma questão de família

Engenheiro civil de formação, banqueiro por definição, Jardim Gonçalves é agora também produtor de vinho. Em Sintra, com enologia de Francisco Figueiredo, nascem os vinhos In-fi-ni-tu-de. Pretende-se que seja uma causa familiar. TEXTO Luís Francisco NOTAS DE PROVA Nuno de Oliveira Garcia FOTOS Ricardo Palma Veiga A vida de Jardim Gonçalves não se conta […]
Engenheiro civil de formação, banqueiro por definição, Jardim Gonçalves é agora também produtor de vinho. Em Sintra, com enologia de Francisco Figueiredo, nascem os vinhos In-fi-ni-tu-de. Pretende-se que seja uma causa familiar.
TEXTO Luís Francisco NOTAS DE PROVA Nuno de Oliveira Garcia FOTOS Ricardo Palma Veiga
A vida de Jardim Gonçalves não se conta numa frase, mas ele não vê diferenças abissais entre os vários mundos que pisa: “Juntar meios e acrescentar valor” é o seu lema. Foi por isso que, ao olhar para o terreno sobranceiro ao jardim da casa que construiu em Galamares, Sintra, pensou de imediato que havia ali terreno desaproveitado. “E eu gosto de ter as coisas aproveitadas.” E porquê plantar vinha? “Passei a ter mais tempo. E uma vinha bem tratada equivale a um jardim…”
Assim, no ano 2000, nasceu a vinha, parte dela já replantada em 2010. A área é pequena, cerca de um hectare, com 7.000 metros quadrados de Pinot Noir dentro dos muros da quinta e outros 3.000 de Merlot num terreno contíguo. O primeiro vinho data de 2010, destinado ao consumo caseiro. Mas agora as ambições são outras: sair para o mercado e alargar a operação. Estão aí os vinhos In-fi-ni-tu-de e “o nome diz-nos que isto é para continuar”.
É, também, uma questão de família. “Todos temos consciência de que produzir mais ajudará a dar notoriedade ao vinho. Se todos [os filhos] quiserem produzir com esse nome, tudo bem. É o vinho da família”, explica o patriarca. E a semente está a germinar. O filho mais novo, Rodrigo, planeia plantar, já no próximo ano, outros 2,5 hectares ali perto, numa propriedade que se propõe recuperar e de cujos solos argilo-calcários sairão uvas de Pinot Noir e Merlot, mas também das castas brancas Chardonnay e Malvasia de Colares, mais “um cantinho para o Colheita Tardia”. O projecto inclui também uma adega.
Por enquanto, as uvas são vinificadas separadamente nas instalações da Adega de Colares, sob a batuta enológica de Francisco Figueiredo. E é ele quem explica as virtudes da opção por estas castas estrangeiras, sugeridas há vários anos por um enólogo amigo da família Jardim: “O Pinot amadurece mais cedo do que as castas tradicionais da região, pelo que não colide com os trabalhos da Adega; o Merlot resiste bem ao ar do mar, fica fresco e adapta-se bem à região.”
Como o processo de certificação das vinhas não estava ainda concluído, os vinhos desta edição (a segunda engarrafada, mas a primeira no mercado) saem com a classificação de Vinho de Mesa, mas os próximos já serão Regional Lisboa. São vinhos diferentes – e não apenas pela aposta em castas estrangeiras. Tanto o Pinot/Merlot (4.000 garrafas) como os varietais de cada uma das variedades são lotes de vários anos, uma filosofia que se vai manter. “O Pinot, por exemplo, tem 50% de 2012 com barrica usada e outros 50% de 2014 e 2015”, explica Francisco Figueiredo.
Raízes na vinha
Vistas daqui, da sala envidraçada onde provamos os vinhos nesta manhã soalheira, as vinhas da Quinta da Azenha são, de facto um prolongamento do jardim, limitadas lá mais no alto por uma linha de arvoredo interrompida pela silhueta quase irreal do Palácio de Sintra, encarrapitado na crista da serra. Sim, “é um desperdício ter património e não aproveitar… na banca como na agricultura”, mas esta harmonia fala-nos também de emoções, não apenas de racionalidade. O vinho é negócio, mas será só isso? Porquê a vinha e não outra cultura qualquer?
“Sou da Madeira e o lado paterno da minha família fazia vinho, eu assistia à vindima na casa de um tio”, recorda Jardim Gonçalves. “Mas a relação mais profunda só surgiu na casa dos meus sogros, em Mondim de Basto, onde comecei também a beber excelentes vinhos da região (Tarouca, Lamego).” Dessa aprendizagem faz também parte o contacto diário com a sua mulher, Maria d’Assunção: “Ela é a minha grande professora; não conhece nomes ou marcas, nem quer, mas se não for muito bom, não bebe!”
Esta quinta construída de raiz (“Não queria uma casa com passado e para um madeirense é fácil gostar de Sintra…”) já foi cenário de verdadeiras cimeiras de gente poderosa e influente. “Procurámos fazer uma casa cómoda, de um só piso, que fosse funcional e servisse também de local para receber gente de todo o mundo e gente do banco [BCP] de todo o país”, explica Jardim Gonçalves, recordando a passagem de banqueiros, empresários e governantes por estas quatro paredes debruadas a relvados, jardins e árvores.
Agora, o cenário é outro. Não lá fora, mas cá dentro. É aqui que a família (são cinco filhos e mais de duas dezenas de netos) se reúne, espontaneamente ou de forma mais organizada. E é aqui que crescem as uvas para o vinho da família. Também se fala disso, claro. Jardim Gonçalves já tem um filho-sócio a caminho e deixa a porta aberta a todos os outros. Em Sintra/Colares, “uma região que está a ganhar protagonismo”, ou noutras paragens. “Todos os filhos gostam muito das raízes da mãe na Beira Alta, não está fora das conversas haver um dia um In-fi-ni-tu-de em Mondim da Beira…”
Grão Vasco: Em equipa que ganha também se mexe

No ano que marca a sua 60ª vindima, um símbolo do Dão reinventa-se e moderniza-se. O Grão Vasco está diferente, por dentro e por fora da garrafa. Mas mantém a sua identidade e reforça a ligação à Quinta dos Carvalhais. TEXTO Luís Francisco NOTAS DE PROVA Luís Lopes FOTOS Cortesia do produtor A primeira […]
No ano que marca a sua 60ª vindima, um símbolo do Dão reinventa-se e moderniza-se. O Grão Vasco está diferente, por dentro e por fora da garrafa. Mas mantém a sua identidade e reforça a ligação à Quinta dos Carvalhais.
TEXTO Luís Francisco NOTAS DE PROVA Luís Lopes FOTOS Cortesia do produtor
A primeira edição do Grão Vasco foi lançada em 1958, o ano em que a Sogrape adquiriu a Sociedade Vinícola do Super Dão. Nesta longa história de seis décadas, há algumas datas incontornáveis, como a aquisição da Quinta dos Carvalhais em 1988. Mas 2017 assinala também uma transformação estrutural na marca: o Grão Vasco é, a partir da colheita 2016, um vinho diferente, numa garrafa diferente, com um novo rótulo e um preço corrigido para cima.
As mudanças mais visíveis, claro, estão do lado de fora da garrafa, de estilo borgonhês e linhas que estabelecem uma ligação mais próxima com a Quinta dos Carvalhais, cujo nome passa a constar no rótulo. A figura de S. Pedro pintada por Vasco Fernandes, conhecido como Grão Vasco, continua lá, mas agora com menor protagonismo, sobre um fundo bordeaux (no caso do tinto) ou verde tropa (no branco).
E a alusão a Carvalhais no rótulo tem uma explicação óbvia: pela primeira vez, uvas desta propriedade icónica entram nos lotes de Grão Vasco, um vinho que, não sendo líder de vendas na região, é, curiosamente, a marca que os consumidores mais associam ao Dão. E essa responsabilidade é assumida pela Sogrape, que aponta para a “conquista de novos consumidores”, mas reforçando a qualidade e “mantendo os valores da tradição”, explica o administrador João Gomes da Silva.
O branco (400.000 garrafas) é um lote de Encruzado, Bical, Malvasia Fina e Gouveio, num registo fresco e aromático; o tinto (900.000) tem Tinta Roriz, Touriga Nacional, Alfrocheiro e Jaen, com enfoque na frescura e na fruta vermelha. São vinhos jovens (não há madeira envolvida) e fáceis de gostar, modernos, bem definidos e com enologia cuidada. Os preços reflectem este posicionamento, subindo da barreira dos três euros para um preço recomendado de venda ao público de 3,49€.
Aproveitando a oportunidade, António Braga (responsável pela enologia no Dão) e Beatriz Cabral de Almeida (enóloga residente de Carvalhais), conduziram os presentes por uma mini-vertical de Grão Vasco, com três brancos e outros tantos tintos, onde ficou bem evidente a mudança enológica proporcionada pela aquisição da Quinta dos Carvalhais, com um branco de 1992 e um tinto de 2006 a mostrarem um perfil mais elegante e moderno do que os seus “irmãos” mais velhos. Ficaram na memória a harmonia do branco 1981 e a excelência do tinto 1977. Talvez daqui a 40 anos alguém use adjectivos semelhantes para qualificar as colheitas de 2016…
O Douro da Quinta de Valbom

A quinta e os vinhos chamam-se Quinta de Valbom e a propriedade está localizada em Canelas, no concelho de Peso da Régua. Aí estão os primeiros vinhos, mas a quinta tem ainda muito para dar nos próximos anos. TEXTO António Falcão NOTAS DE PROVA Nuno de Oliveira Garcia FOTOS Cortesia do produtor A Quinta […]
A quinta e os vinhos chamam-se Quinta de Valbom e a propriedade está localizada em Canelas, no concelho de Peso da Régua. Aí estão os primeiros vinhos, mas a quinta tem ainda muito para dar nos próximos anos.
TEXTO António Falcão NOTAS DE PROVA Nuno de Oliveira Garcia FOTOS Cortesia do produtor
A Quinta de Valbom fica na margem norte do Douro, muito perto do paredão da barragem de Bagaúste. Entre os vizinhos mais conhecidos está a Quinta do Vallado. Estamos, portanto, na sub-região do Baixo Corgo. A propriedade é da empresa que já detém a conhecida marca alentejana Herdade dos Grous. Na base das duas está Luís Duarte, enólogo e gestor.
Apesar de ser quase sempre conotado com o Alentejo – afinal esteve no início do Esporão, onde ficou vários anos e depois na Herdade dos Grous –, Luís Duarte não é estranho ao Douro. Foi ali que nasceu e viveu durante parte da adolescência, foi em Vila Real que cursou enologia e foi pelas terras durienses que começou a ter contacto com o mundo da vinha e do vinho. Por isso, quando a família alemã proprietária da Herdade dos Grous o questionou sobre ampliação do património vínico, Luís Duarte não hesitou e escolheu o Douro. O resto foi pesquisa e, depois de encontrarem o que queriam, fechar o negócio. Refira-se que estas duas propriedades – Grous e Valbom – fazem parte do universo de empresas e empreendimentos turísticos da família Pohl, cuja face portuguesa mais visível é o enorme e luxuoso resort Vila Vita, no Algarves.
Fazer vinho à moda do Douro
A Quinta de Valbom foi adquirida em 2012 a uma família do Porto e tinha 27 hectares de vinha velha (entre 30 e 100 anos). Apesar do estado semiabandonado da vinha, Luís Duarte e o seu braço direito Ricardo Silva, também enólogo, conseguiram ainda fazer a vindima nesse ano na adega da quinta. Os vinhos são praticamente biológicos porque não houve tempo para fazer quase nada na vinha e esta pouco ou nada tinha sido tratada anteriormente. Dessa vindima resultaram dois vinhos: um ‘colheita’ (38.000 garrafas) e um reserva (3.850 garrafas). A quinta só tem castas tintas e por isso não vão existir, para já, vinhos brancos no portefólio, que é distribuído pela PrimeDrinks. Os dois vinhos, já agora, estão à venda em garrafeiras e restauração seleccionada.
Os dois primeiros vinhos Quinta de Valbom resultam da vinificação em lagares de granito. O estágio ocorreu em barricas de carvalho francês. Os enólogos pretendem manter nestes vinhos um perfil tradicional do Douro, quase à antiga, e não existem por isso grandes concessões a ‘modernices’. Luís Duarte não esconde que os objectivos para os vinhos da Quinta de Valbom são muito ambiciosos. Ou, por outras palavras, quer colocar estes vinhos no topo da hierarquia duriense, estar entre os melhores. Uma das iniciativas nesta estratégia é exactamente o não ter pressa em colocar os vinhos no mercado, uma decisão que tem custos elevados, especialmente no início. Mas a verdade é que o estágio prolongado só ajuda estes vinhos na altura de irem para o mercado. Tudo está mais integrado, mais harmonizado, dá mais prazer a beber. Quanto à Quinta de Valbom, sofreu já várias obras e transformações e outras se seguirão. Mas isso ficará para outra altura…