Na região duriense têm lugar todo o tipo de projectos, das grandes empresas ao pequeno produtor, dos grandes investimentos estrangeiros às heranças de família que se querem preservar. Foi neste ambiente familiar que fizemos uma pequena visita a dois produtores do Douro. Os pergaminhos são muitos, mas actualmente é muito difícil “puxar” por eles para levar o negócio para a frente. Por isso há tradições a manter e outras a descartar. A bem do Douro e das gerações que a seguir pegarão, também elas, nesses projectos. Que se querem sempre familiares.

 

TEXTO João Paulo Martins FOTOS Anabela Trindade

PEGO no telefone e disco o número para falar com Manuel Ângelo Barros, então administrador da empresa de Vinho do Porto Barros Almeida. Passavam dois minutos das 17h30. Tive azar. Atende-me o segurança e diz-me: “Já não está cá ninguém, agora só amanhã.” Era assim que algumas empresas familiares do Vinho do Porto funcionavam e a Barros era um bom exemplo. Era tradição da casa e assim se manteve até à venda da empresa à Sogevinus. O facto de à época não existirem telemóveis facilitava a vida a quem ali trabalhava; depois das 17h30, adeus e amanhã é outro dia. E é muito provável que esta prática remontasse a 1914, quando a empresa Barros foi fundada pelos antepassados de Manuel Ângelo.

A ligação ao vinho é, como se vê, secular e a própria Quinta Dona Matilde, que acabou por readquirir à Sogevinus em 2006, foi comprada em 1927. Quem vai da Régua para o Pinhão e olha para a margem norte não pode deixar de notar a imensa frente de rio que esta quinta tem. Aqui ainda há uma paisagem variada, desde terrenos de mato rasteiro a mortórios e vinhas reconstruídas, actualmente a perfazerem 28 hectares. Da importância desta propriedade – 93ha ao todo – fala a primeira demarcação pombalina, que a incluiu, em 1756.

Essa herança e a preservação da mesma estão no sangue de Manuel Ângelo, que dedicou toda a vida ao Vinho do Porto e já tem no seu filho, Filipe Barros, o continuador entusiasta do projecto. O projecto é que não prevê uma aposta forte no Vinho do Porto, apesar das 100 pipas de benefício que têm. Até agora declararam os vintages de 2007, 09 e 11. E o 16? Talvez, diz Manuel Ângelo, cauteloso. Muitas das uvas desse benefício são vendidas à Taylor’s. A própria marca Feuerheerd, que Manuel Ângelo tinha comprado à Barros Almeida, acabou por ser vendida à empresa Barão de Vilar, que agora comercializa Porto com aquele nome. Os vinhos do Porto Colheita que possam aparecer com o nome Dona Matilde são adquiridos fora.

“Vinificamos as uvas em conjunto, acreditamos que é assim que se expressa o terroir da quinta Dona Matilde”

E para DOC Douro a quinta tem de quase tudo, desde vinhas velhas com 60 a 80 anos de idade até vinhas mais recentes, onde crescem as castas habituais da região e muita Tinta Amarela, esta mais vulgar nesta zona do Douro mas com uma maturação precoce de cerca de 10 dias em relação às outras, “o que é uma grande complicação”. Aqui, diz-nos o enólogo João Pissarra, “apostamos tudo no field blend, vinificamos as uvas em conjunto, uma vez que acreditamos que é assim que melhor se pode expressar o terroir” e, logo acrescenta o responsável da viticultura, José Carlos Oliveira, “não regamos nada, só nos dois ou três primeiros anos da vinha é que a rega é obrigatória”. – “Mas isso é fácil aqui, no Douro Superior já acredito que sem rega seria impossível.”

Numa viticultura de produção integrada, com recurso mínimo a produtos para tratamentos, também se usam as técnicas antigas: “Nas vinhas mais velhas usamos o macho para a mobilização do terreno e nas outras com frequência uma capinadeira para desbaste de erva.” A quinta, entretanto, foi objecto de renovação e agora já há instalações capazes de receber visitantes e, em breve, turistas. O projecto, esse, está em boas mãos e a família Barros veio para ficar.

São lagares, Senhor…
Aparentemente são lagares iguais a tantos outros que existem pela região, mas uma observação mais minuciosa diz-nos que estamos perante uma obra faraónica. Provavelmente será por isso que se chama Quinta dos Lagares. É que, além dos lagares
de granito, todos os suportes dos barrotes de madeira do tecto são em volumosas pedras graníticas, de tamanhos diferentes. Estas diferenças significam que foram feitos de propósito e cada um tem uma altura diferente. Quando foram feitos? De onde veio a pedra? Talvez Favaios, dizem-nos, com a pouca certeza que a nebulosa história passada autoriza. E nesse recuo à procura das origens vamos esbarrar no marco pombalino que ali existe e atesta a qualidade e antiguidade da quinta. Depois de várias vicissitudes, a quinta veio parar, em 1920, à família Lencart, na posse de quem se mantém até hoje.

A localização da quinta é, no mínimo, espectacular, com uma vista de 360º, e as vinhas velhas são uma mais-valia que por aqui todos querem preservar. Pedro Lencart e sua mulher, Isabel Sarmento, estão a levar por diante um projecto que inclui o vinho mas também o azeite, a cortiça e o mel e o turismo. Tudo isto gerindo um património de 70 hectares de quinta, com 27 de vinha, 12 de olival em produção biológica e 31 de floresta. Os cinco herdeiros alugaram as instalações à empresa criada por Pedro e Isabel e, com a renovação da adega (em que se mantiveram os lagares), iniciou-se a comercialização dos vinhos e azeites.

A quinta dos Lagares veio parar, em 1920, à família Lencart, na posse de quem se mantém até hoje.

A produção de Vinho do Porto também está na calha. O benefício é vendido à família Symington. Manter os lagares sim, manter a pisa a pé é mais complicado, como nos diz Luís Leocádio, enólogo: “Vamos pôr robots nos lagares porque a falta de mão-de-obra não tem solução. Actualmente a versão mais recente dos lagares é mais um volteador, o que promove a extracção. Não é a reprodução da pisa a pé mas funciona bem. Vai ser essa a opção”, diz-nos.

Aqui, à cota de Favaios, é possível fazer vinhos de tipo diversificado e tirar partido das boas vinhas velhas de que dispõem. Um dos vinhos, o Lagares VV44, é exactamente a expressão disso, proveniente de vinhas plantadas em 1944, com as castas misturadas e onde pontificam, ainda que em pequena percentagem, castas como Cornifesto, Marufo, Tinta Aguiar, Bastardo, Moreto, Mourisco de Semente. Projecto novo com bases muito antigas, por aqui conserva-se o que é de conservar e inova-se onde é preciso. O Douro e os consumidores agradecem.

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