QUINTA DOS ARCOS Vinhos com sotaque francês

Quinta dos Arcos

Assim que passamos a entrada da Quinta dos Arcos, junto à Nacional 379, em Azeitão, o ligeiro declive que percorremos permite-nos visualizar parte do casario desta propriedade localizada na região vitivinícola da Península de Setúbal. Adquirida em 2013, é delimitada por uma área de 77 hectares, dos quais cerca de 13 estão confinados à vinha, […]

Assim que passamos a entrada da Quinta dos Arcos, junto à Nacional 379, em Azeitão, o ligeiro declive que percorremos permite-nos visualizar parte do casario desta propriedade localizada na região vitivinícola da Península de Setúbal. Adquirida em 2013, é delimitada por uma área de 77 hectares, dos quais cerca de 13 estão confinados à vinha, para além do montado, e está, hoje, nas mãos de uma família proveniente de Paris, França. Christine Antunes, que ali nasceu e exerceu advocacia durante 35 anos, radicou-se em Portugal em 2018. O filho mais velho, Rodolphe Antunes Bouquillard, arquiteto de formação, cuja licenciatura foi tirada na capital francesa e o mestrado na Universidade Autónoma de Lisboa, assume o papel de produtor. É, portanto, o responsável pelo projeto de recuperação de alguns dos edifícios, sempre alinhada com a traça da fachada original, enquanto outros já constam no papel e outros estão integrados no plano de reabilitação a médio prazo.

No entanto, a compra da propriedade estava destinada, inicialmente, para fundar centro destinado a autistas, para proporcionar atividades ao ar livre até surgir a ideia de plantar vinha, “porque o meu pai tinha direitos de vinha e eu aceitei os 13 hectares que me proporcionou”, começa por contar a nossa anfitriã. De certa forma, o vinho não é assunto

Christine Antunes: “provei muitos. Acho que tudo o que existe de bom passou por mim, além de vinhos que valem muito dinheiro. Os grandes Bordeaux, os grandes Borgonha… mais tarde, passei a provar vinhos estrangeiros.” Ou seja, referências vínicas produzidas fora de Portugal e França. “Quando vim para Portugal, também provei quase todos os vinhos que são feitos por cá.”

Castas francesas como bandeira

Christine Antunes foi advogada da revista Sommeliers International dirigida, na época pelo escanção Jean Frambourg e era parceira da Association de la Sommellerie Internationale e da Union de la Sommellerie Française. Esta ligação favoreceu o passo seguinte: a plantação da vinha. Isto é, a nossa anfitriã decidiu recorrer a técnicos franceses com provas dadas na viticultura. “Quem aconselhou a vinda dos técnicos franceses à minha mãe, foi o sommelier Philippe Faure-Brac, que se tornou, em 2016, presidente da Union de la Sommellerie Française”, conta Rodolphe Antunes Bouquillard. “Fizeram análises ao solo da propriedade, provaram vinhos da região e acharam que a única forma de fazer a diferença seria optar por castas francesas, até porque se iriam adaptar muito bem aqui”, descreve Christine Antunes.

Merlot, Cabernet Franc e Cabernet Sauvignon, nas tintas; Sauvignon Blanc, nas brancas. Christine Antunes fez questão de incluir uma quinta casta a esta curta lista, a Moscatel Graúdo, “para ter uma variedade representativa da região da Península de Setúbal”, justifica. Dada a indicação dos sítios onde se iria plantar cada variedade – as duas primeiras castas foram plantadas em solos maioritariamente arenosos, enquanto as restantes estão implantadas nas zonas predominantemente argilocalcárias –, deu-se início à plantação da vinha. Este processo demorou aproximadamente dois anos, entre 2014 e 2016, com a Merlot a protagonizar a última plantação.

Depois, foi preciso recorrer a quem sabe a matéria de enologia. A verdade é que Christine Antunes desejava ter António Saramago, decano da enologia no país e nome bem conhecido na Península de Setúbal, na Quinta dos Arcos. “Apresentamos-lhe o projeto da adega, dos vinhos e da vinha.” Entusiasmado, aceitou a proposta, fazendo parte da equipa desde 2024. “Estou cá todos os dias”, afirma o profissional com veemência. E com ele foi a adegueira brasileira, Lariza Camelatto.

“Há muito Sauvignon Blanc, mas eu não tenho de fazer vinhos iguais. Com as mesmas uvas, posso fazer 500 vinhos diferentes, uma força de expressão, porque há várias técnicas de trabalhar as uvas, e dentro dessas técnicas, sobretudo para quem as conhece, pela experiência, podemos pôr na mesa vinhos diferentes”, exemplifica António Saramago.

A vinha está repartida, ora por encostas suaves da Quinta dos Arcos, uma das quais pontilhada por sobreiros e ladeada por montado, ora na pequena planície junto à ribeira que delimita atravessa um dos extremos da propriedade delimitada por floresta, que empresta a quietude à paisagem. A nossa anfitriã refere a importância da fauna neste ecossistema, entre raposas, águas, texugos e javalis.

Devido à ribeira e à influência atlântica sentida na propriedade, “temos de usar produtos para o oídio e o míldio”, combatidos através de tratamentos fitossanitários, “quando estritamente necessário e dependendo do ano”, assegura, “mas, ainda assim, temos de tratar a vinha com produtos mais eficientes, porque os biológicos não são suficientes, sobretudo junto à ribeira”, descreve. No âmbito dos trabalhos da vinha, são utilizados intercepas e o corta-mato, com a finalidade de suprimir o excesso do coberto vegetal, mantendo alguma da vegetação, com o intuito de proteger o solo do sol.

Há 15 ânforas de barro de Impruneta e dois ovos da Fornace Artenova, ambos feitos em Itália, dois balseiros de carvalho francês do Allier e barricas de carvalho de Vosges

 

Estreia é feita com colheita tardia

A vindima ocorre, habitualmente, a meio do mês de agosto. É manual e a seleção dos cachos é efetuada na vinha, “para qualquer tipo de vinho”, reforça Christine Antunes. O mesmo critério rigoroso está implementado na adega, onde a seleção se repete no tapete de escolha.

Tudo estava preparado para que a primeira apanha da uva tivesse lugar em 2018, “mas o escaldão desse ano devastou a uva”. Curiosamente, em novembro desse ano, Christine Antunes constatou que alguns talhões próximos da ribeira tinham uvas com Botrytis cinerea. Incrédula, pois até então não tinha imaginado que fosse possível a propriedade reunir condições para dar origem à podridão nobre, avançou para a produção de uma colheita tardia feita a partir da casta Sauvignon Blanc.

O resultado traduziu-se em 150 litros para consumo próprio. Ao invés das cubas de inox ou de barricas, todo o processo de vinificação foi feito em ânfora, objeto de eleição de Christine Antunes no que à elaboração de vinho diz respeito. “Encontro harmonia entre as castas francesas e as ânforas”, elucida. Esta conclusão vem na sequência de sucessivos ensaios realizados ao longo dos primeiros cinco anos do projeto vitivinícola, “o que contribuiu para o arranque da Quinta dos Arcos”, sublinha.

Não é por acaso que há 15 ânforas na adega, todas feitas a partir de barro de Impruneta, provenientes de Itália. “É dos melhores barros do mundo para ânforas, nos quais fazemos vinhos tardios”, evidencia, referindo-se à colheita tardia.

A exceção foi a produção de um passito, inspirado no célebre vinho italiano feito a partir de uvas desidratadas ao sol, pois a nossa anfitriã é apreciadora deste tipo de vinho. É da colheita de 2025 e foi elaborado com Moscatel Graúdo, “que se encontra em cinco destas ânforas”, sob a supervisão de António Saramago.

 

Ânforas, balseiros e barricas

Vamos por partes. Sangue Real é a designação que consta no rótulo da gama de entrada. Foi atribuído em homenagem a “uma zona específica da propriedade, que já se chamava assim”, esclarece. O mesmo sítio tinha sido, em tempos, ocupado por vinha plantada pelos antigos donos da Quinta dos Arcos, que resultou, em tempos idos, da compra de várias propriedades. No alinhamento do portefólio vínico consta o rótulo Adega das Ânforas. Tal como o nome indica, está reservado aos vinhos feitos nas ânforas. “Todas têm um pez à base de mel, feito em Itália.” Aqui, enquadram-se o Rodolphe’s Merlot 2023, bem como as duas colheitas tardias de 2024: um de Sauvignon Blanc e outro de Moscatel Graúdo

A linha Quinta dos Arcos contempla, por sua vez, vinhos feitos em balseiros e em barricas. É o caso do primeiro vinho deste produtor. Trata-se de uma colheita tardia DOC Palmela de 2020, em que as uvas de Sauvignon Blanc foram vinificadas em inox e submetidas a um estágio de 36 meses em barrica. Neste patamar estão, ainda, o Quinta dos Arcos Reserva tinto 2023, bem como três outros vinhos de 2024: o Sauvignon Blanc, o Sauvignon Blanc Reserva e o Sauvignon Blanc. Os rótulos de todos os vinhos são da autoria de Rodolphe Antunes Bouquillard, que eleva a pintura como forma de expressão vínica, se assim a podemos designar.

Os dois balseiros de 5000 litros dispostos na adega são de carvalho francês do Allier e têm o cunho da Tanoaria JM Gonçalves, situada em Palaçoulo, no concelho de Miranda do Douro, Trás-os-Montes. São usados apenas para tintos – primeiramente para fermentação e, depois da remoção das massas, são reutilizados no processo de vinificação. As uvas de cada variedade são vinificadas a solo e, uma vez que são três, “há uma casta que tem de esperar que uma acabe a fermentação, para ser acolhida”, avança Christine Antunes. As barricas, de 300 litros, foram encomendadas à mesma empresa e são feitas a partir de carvalho de Vosges. Segundo António Saramago, esta madeira é adequada para os vinhos brancos, que aqui fermentam e estagiam. É o caso do Quinta dos Arcos Reserva Sauvignon Blanc. Já o Grande Reserva Sauvignon Blanc 2024, “que já está em garrafa, mas ainda não está comercializado, estagiou em barricas de carvalho francês das Vosges”, acrescenta Rodolphe Antunes Bouquillard.

Os balseiros são usados pela “tendência para aumentar o tempo de estágio, porque estamos a falar de volumes grandes”. A respeito das barricas, “estamos à procura de aromas, de complexidade, de finesse nos brancos”, afirma António Saramago. Juntam-se ainda os dois recipientes em forma oval da Fornace Artenova, produzidos no sul de Florença, Itália, para estágios de vinhos tintos. O interior também é revestido com o mesmo pez das ânforas. “É preciso provar muito”, sublinha o enólogo.

Adega de filigrana

De acordo com as contas feitas pelos novos proprietários, a Quinta dos Arcos foi palco de produção de vinho até à década de 70 do século XX. “Havia esta adega e uma pequena adega”, que, embora degradada, ainda existe. “Servia de apoio a esta e já era mais moderna”, constata Christine Antunes. Os registos fotográficos que possuem indicam a antiguidade dos imóveis. “São anteriores a 1951. Veem-se na fotografia de 1947 e esse prédio [a pequena adega] é posterior, porque não existe nessa fotografia de 1947”, continua.

A adega atual está instalada na outrora primeira adega da propriedade. Foi parcialmente concluída em 2024, ano da estreia na receção da uva e de todo o processo de vinificação. O término aconteceu em 2025. “Todo o vinho que faço na Quinta dos Arcos tem controlo de temperatura. O que é inovador aqui é o caso do barro”, comenta António Saramago, referindo-se às ânforas, acrescentando que os balseiros também estão equipados de sistema de frio, assim como as cubas de inox. “Das ânforas saíram coisas fantásticas. É um componente para que o vinho tenha alguma coisa de diferente”, destaca o enólogo.

Toda a adega foi pensada e desenhada na totalidade por Rodolphe Antunes Bouquillard, quer a arquitetura, quer o sistema tecnológico e de segurança. É provida de detetores de monóxido de carbono, que, em caso de alerta, comandam a abertura automática das portadas espalhadas pelo edifício. “Os pilares azuis têm uma tinta especial, pelo que, se houver um incêndio, faz uma espuma, para abafar o oxigénio”, explica o produtor. A manga azul que atravessa o teto permite aquecer ou arrefecer o ambiente, consoante a necessidade baseada na temperatura registada, a tinta branca que reveste as paredes da adega é antibacteriana e o chão é revestido com resina epóxi. A água usada na adega vai para uma ETAR da propriedade e o teto foi desenhado de modo a reter a água da chuva, com destino a um depósito, disposto no exterior, que a encaminha diretamente para a vinha. Nas traseiras do edifício, estão os geradores de emergência e painéis solares.

Os 13 hectares de vinha são predominados por quatro castas francesas e uma portuguesa, a Moscatel Graúdo

 

Experiências no terreno

Ao lado da adega está o antigo picadeiro do mestre Nuno de Oliveira, em tempos, figura incontornável da cultura equestre portuguesa. O edifício foi igualmente recuperado por Rodolphe Antunes Bouquillard. No interior, os quadros da sua autoria emprestam o colorido às paredes brancas, enquanto a sala do estágio de barricas resulta de uma pequena mostra de um painel de azulejos do século XVIII. Do lado oposto a esta sala, está o armazém, destinado à rotulagem e armazenamento das garrafas. O engarrafamento é feito por intermédio de aluguer.

Em outro edifício está a loja. A abertura prevista para a época de estio deste ano. O teto é digno de contemplação, graças à mestria de Rodolphe Antunes Bouquillard. Em breve, o terraço deste espaço encher-se-á de apreciadores de vinho, que, em contrapartida receberão a oferta da vista para a Serra da Arrábida. Petiscos, queijos e enchidos protagonizarão tábuas que acompanharão os vinhos produzidos na acalmia da Quinta dos Arcos. “Aqui serão feitas as provas de vinho”, informa Christine Antunes ao abrir a porta. Já as provas premium estão pensadas para a mina de água da Quinta dos Arcos recuperada pelo produtor e arquiteto da propriedade. Os programas são complementados por visita à adega e vinha.

Em jeito de conclusão, Christine Antunes deixa uma nota: “vamos aguardar o sucesso com os vinhos. Depois, plantamos a Boal de Setúbal (tem a Sémillon como sinonímia) e alguma Chardonnay, que o senhor engenheiro António Saramago quer, e a Pinot Noir.” E ainda haverá espaço para fundar o centro destinado a pessoas com autismo. Até lá, contemos com dois espumantes no final deste ano da colheita de 2024, um Blanc de Blanc de Sauvignon Blanc e Moscatel Graúdo e um rosé de Cabernet Franc.

(Artigo publicado na edição de Junho de 2026)

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QUINTA DO CARMO: Mudam os tempos, fica o lugar

Quinta do Carmo

A Quinta do Carmo, cujas origens remontam ao século XVIII, situa-se no concelho de Estremoz, na localidade de nome Glória. Cerca de 1000 hectares distribuem-se por montado, olival, pastagens e, aproximadamente, 120 hectares de vinha, estendendo-se por uma paisagem de grande diversidade, entre o planalto de Estremoz, a Nordeste, e os relevos ondulados da Serra […]

A Quinta do Carmo, cujas origens remontam ao século XVIII, situa-se no concelho de Estremoz, na localidade de nome Glória. Cerca de 1000 hectares distribuem-se por montado, olival, pastagens e, aproximadamente, 120 hectares de vinha, estendendo-se por uma paisagem de grande diversidade, entre o planalto de Estremoz, a Nordeste, e os relevos ondulados da Serra de Ossa, a Sudoeste.

A entrada principesca da Quinta do Carmo impressiona pela geometria das vinhas, na horizontal, e das palmeiras, na vertical, que formam uma longa alameda até ao imponente portal de entrada. As primeiras 12 palmeiras-das-Canárias foram plantadas durante a gestão dos franceses; mais tarde, juntaram-se outras de espécies diferentes, que constituem uma assinatura da Bacalhôa.

A produção da Quinta do Carmo representa 6% do total do grupo. A maior parte dos vinhos é vendida no mercado nacional, sendo apenas 17% destinada à exportação. Os principais mercados externos são Angola, Brasil, França, Reino Unido, Suíça e Hong Kong.

As castas brancas foram plantadas pelos franceses muito antes do boom dos vinhos brancos

 

História

No caminho para a Quinta do Carmo, Vasco Penha Garcia, que durante muitos anos foi responsável pela enologia da Bacalhôa e que, actualmente, desempenha funções de Director do Departamento de Relações Institucionais, contou a história da propriedade.

Em meados do século XIX existiam duas vinhas muito especiais no Alentejo – uma na Quinta do Carmo e outra na Herdade do Mouchão – exploradas pela união de duas famílias incontornáveis na região do Alentejo, ligadas pelo casamento entre John Reynolds e Isabel d’Andrade Bastos. Para além das castas tipicamente alentejanas, o denominador comum era a variedade francesa Alicante Bouschet, introduzida em Portugal após a praga da filoxera. Hoje, é a casta mais presente no Alentejo, representando cerca de 18% das plantações, mas, na época, era exclusiva destas duas propriedades.

A partir dos anos 80 do século passado, com a enologia de João Portugal Ramos, os vinhos da Quinta do Carmo começaram a ganhar a devida projecção. Os enófilos dessa época suspiravam pelas colheitas de 1985, 1986 e 1987. A fama era tal que despertou o interesse dos proprietários da Lafite Rothschild e, em 1992, o grupo entrou com 50% de capital no negócio, em parceria com Júlio Bastos, então proprietário da Quinta do Carmo. Segundo o acordo estabelecido, Júlio Bastos cedeu as vinhas e a marca, enquanto os Rothschild construíram uma nova adega state of the art à data. O palácio do século XVIII não foi incluído neste negócio, nem a bonita capela de Nossa Senhora do Carmo, que deu nome à quinta.

Nesta parceria surgiram várias divergências de visão estratégica e, em 2000, Júlio Bastos vendeu a sua parte à Bacalhôa, que mais tarde, em 2008, acabou também por comprar a participação do Domaine Baron de Rothschild (Lafite).

Mais de uma década de gestão francesa trouxe várias mudanças na propriedade, de acordo com a sua visão. Nem todas as decisões foram acertadas, como, por exemplo, a substituição de Alicante Bouschet por Cabernet Sauvignon, mas também deixou um conjunto de contributos relevantes. Para além do aumento da área de vinha, havia a ambição de produzir um grande branco do Alentejo, pelo que foram plantadas castas brancas numa altura em que este tipo de vinho ainda não estava em ascensão – estamos a falar da viragem do século. Apostaram na variedade Roupeiro, que se revelou muito boa naquela zona, Arinto e Antão Vaz, bem como nas castas francesas Viognier e Marsanne, que permanecem nas vinhas em quantidades residuais.

Roupeiro e Alicante Bouschet são as castas de eleição na Quinta do Carmo

 

Vinha e o anticlinal de Estremoz

A vinha da Quinta do Carmo apresenta uma particularidade, como explicou Vasco Penha Garcia: situa-se no anticlinal de Estremoz. Trata-se de uma dobra das camadas rochosas, formada por movimentos tectónicos, semelhante a um tapete comprimido lateralmente, que acaba por se elevar ao centro, formando um arco. Neste processo, as camadas mais antigas ficam expostas. O anticlinal de Estremoz é um dos exemplos mais notáveis deste tipo de estrutura em Portugal, não apenas pela sua dimensão, mas sobretudo pela natureza das rochas que revela. Faz parte do famoso “triângulo do mármore” localizado entre Estremoz, Borba e Vila Viçosa, dois outros concelhos do Alentejo.

O terreno da Quinta do Carmo estende-se perpendicularmente ao alinhamento das principais unidades geológicas, o que lhe confere uma grande heterogeneidade de solos. Na zona Nordeste da propriedade predominam mármores cobertos por barros vermelhos. No extremo oposto, já na proximidade da Serra de Ossa, surgem solos de natureza xistosa. Existem ainda solos de transição, como na vinha do Seixo, de onde provêm uvas para os Quinta do Carmo Reserva branco e tinto.

Ao percorrer a vinha, observa-se claramente toda esta diversidade: desde os solos claros e pedregosos, passando por zonas com maior presença de argila vermelha e afloramentos de quartzo, até à transição para xisto (na vinha da Cabeça Alta).

A maior parte destes solos tem uma fertilidade moderada e oferece boa drenagem, mas a capacidade de retenção de água é limitada. Por isso, em períodos de calor intenso e seca, as vinhas entram facilmente em stress hídrico, necessitando de rega. Nas zonas de vale, os solos são naturalmente mais profundos, com melhor retenção de água e maior fertilidade.

As vinhas mais antigas datam da década de 1990 e do início dos anos 2000. Após a aquisição, a Bacalhôa aumentou a área de vinha branca e de Alicante Bouschet, reduzindo as plantações de Syrah e Cabernet Sauvignon. Mais tarde, a partir de 2018, voltaram a plantar-se Alicante Bouschet, Roupeiro, Arinto e um pouco de Fernão Pires. Também existe Trincadeira, que “é extraordinária, mas pouco consistente” pela experiência do enólogo residente e responsável de viticultura, João Chamorro.

Está previsto o aumento da área de vinha em cerca de 20 hectares, dependente do esperado reforço dos recursos hídricos. No entanto, existe uma pequena barragem localizada na zona central da propriedade. Mesmo assim, a água que retém é insuficiente para assegurar novos projectos. Por esse motivo, aguardam a sua ampliação, para fazer face aos anos de escassez hídrica no contexto das alterações climáticas. Como referiu João Chamorro, a nova barreira fluvial irá chamar-se Barragem da Mesquita e deverá, não só funcionar como reserva estratégica de água, mas também criar uma albufeira, contribuindo, assim, para a biodiversidade da área.

Outro benefício é a possibilidade de desenvolver ecoturismo em torno da barragem e actividades, como a observação de animais.

 

Adega, a herança dos franceses melhorada

A adega da Quinta do Carmo foi construída pelos Rothschild, perto da vinha, tal como na região francesa de Bordeaux, para facilitar a logística e minimizar o tempo de transporte das uvas durante a vindima. Estava muito bem equipada à época, com os depósitos de cimento de 20 toneladas e uma zona especificamente dedicada aos vinhos brancos.

Já na era da Bacalhôa, a adega beneficiou de uma ampliação e foi munida com equipamentos e depósitos mais variados, incluindo os de 10 toneladas para a elaboração de lotes mais precisos da gama Quinta do Carmo, lagares com pisa robótica e controlo de temperatura, onde fermentam os Reserva tinto, bem como depósitos de maiores dimensões destinados à produção de lotes mais volumosos. Fizeram ainda uma segunda recepção perfeitamente equipada (para além de outra “francesa” que já existiu). Desta forma conseguem processar uvas brancas e tintas ao mesmo tempo. “É uma adega com uma enorme flexibilidade”, conclui Vasco Penha Garcia. As barricas são fornecidas pela tanoaria Seguin Moreau, sendo produzidas de acordo com os requisitos da quinta.

Quinta do Carmo
João Chamorro, enólogo residente e responsável pela viticultura, Vasco Penha Garcia, Director do Departamento de Relações Institucionais, e Francisco Antunes, Director de Enologia do Grupo Bacalhôa

As castas protagonistas

A Quinta do Carmo produz cerca de um milhão de garrafas, das quais dois terços são de vinho tinto e um terço de branco. As três gamas principais, todas nas versões branco e tinto, incluem a marca Dom Martinho, que representa quase metade da produção, a Quinta do Carmo e a Quinta do Carmo Reserva, com 35% e 15% da produção, respectivamente.

Nos vinhos brancos, a Roupeiro tem um papel importante e representa cerca de 30% das variedades brancas. É algo raro no Alentejo e no país. Embora esteja presente de Norte a Sul, sendo a quarta casta branca mais plantada e correspondendo a 2% de plantações de vinha em Portugal, “sempre foi o patinho feio”, como a apelidou Vasco Penha Garcia, por não suscitar grande admiração por parte dos consumidores, nem dos produtores.

Conhecida por várias sinonímias, das quais três são oficiais – Roupeiro, no Sul, Síria, na Beira Interior, e Códega, no Norte –, é uma casta bastante produtiva e de maturação tardia. Pode sofrer com as chuvas de Setembro e, se não for colhida no momento certo, sobretudo em zonas quentes, perde acidez de forma acentuada e “queima” os aromas, que são algo delicados. Na Quinta do Carmo, situada regionalmente numa zona elevada, a cerca de 400 metros de altitude e com solos de fertilidade média, a casta revela um comportamento acima da média, mantendo acidez suficiente, para originar vinhos equilibrados, com pH entre 3,0 e 3,2.

No Dom Martinho, a Roupeiro atinge 70% do lote, com auxílio da Arinto, variando entre 50% e 60% no Quinta do Carmo. A Antão Vaz e, por vezes, a Fernão Pires também podem entrar no lote em percentagens menores. O Dom Martinho e o Quinta do Carmo branco não passam por madeira, mas este último beneficia de um estágio prolongado sobre as borras, que lhe confere mais estrutura e complexidade. Já o Reserva fermenta e evolui em barricas de carvalho francês, novas e usadas.

Nos tintos, o estágio em madeira começa a partir do Quinta do Carmo. “O conceito é fazer um vinho não exuberante, com boa estrutura, e domar o Alicante Bouschet, que é uma casta de grande rusticidade”, explicam o Director de Enologia Francisco Antunes e Vasco Penha Garcia.

A Alicante Bouschet tem vindo a ganhar protagonismo no lote, atingindo 60%. Foram inclusivamente realizados ensaios com a casta em extreme. Ao contrário da Roupeiro, a Alicante Bouschet goza de uma popularidade indiscutível no Alentejo. Praticamente desprezada em França, em Portugal já é a quarta casta mais plantada e, no Alentejo lidera mesmo as plantações. Bem domada, confere aos vinhos uma cor opaca, sendo uma casta tintureira (com polpa corada), grande concentração, volume de boca, estrutura e longevidade.

Os outros componentes do lote variam consoante o ano. Mais do que as castas em si, procura-se um estilo definido de elegância. Por exemplo, no Quinta do Carmo 2019, o lote, para além do Alicante Bouschet, incluiu Aragonez e Trincadeira; já o 2022 (em prova) conta com Cabernet Sauvignon e Syrah a acompanhar a Alicante Bouschet. Entretanto, na vindima de 2025, a Cabernet Sauvignon não atingiu a maturação desejada, pelo que a solução para esta colheita será diferente.

Cada talhão e cada casta são fermentados em separado. À semelhança do método bordalês, realiza-se uma maceração pré e pós-fermentativa, naturalmente controlada através de provas diárias, para separar o mosto das massas e o transferir para barricas de carvalho francês de 225 litros. A madeira nova representa entre 15% a 20%, sendo o restante de segundo uso. O lote final é definido após um estágio de 12 meses.

O Quinta do Carmo Reserva é uma herança da passagem dos franceses, foi “inventado” em 2000. Na altura tinha Cabernet Sauvignon em maioria no lote, pois não confiavam muito na Alicante Bouschet, baseando na sua experiência em França, onde a casta, de facto, não se expressa da mesma forma. Actualmente, o estilo é diferente, tendo a Alicante Bouschet proveniente da vinha do Seixo, com solos mais argilosos à superfície sobre mármore, como figura central, deixando, para as restantes castas, o papel secundário. Em 2017, esse papel coube à Aragonez da vinha da Cabeça Alta, com solo xistoso. Fermenta em lagares e permanece em maceração com massas durante mais 15 dias para extrair a estrutura que aguenta o estágio de 18 meses em barricas novas de carvalho francês de 225 litros, seguido de anos em garrafa.

De todos os vinhos, provei duas colheitas, uma mais recente e outra com mais anos de garrafa. No caso do Reserva tinto, tratou-se de uma mini-vertical, com as colheitas de 2016, 2015 e 2004. As duas primeiras estavam em belíssima forma, cheias de vida, com grande polimento e integração; o último vinho já denotava bastante a idade, mais contido no aroma, com notas de fruta desidratada e compotada, existindo ainda alguma fruta fresca no conjunto.

A sensação que tive ao provar os vinhos da Quinta do Carmo é que, muitas vezes, corremos atrás das novidades, descobertas de produtores, vinhos diferentes e promessas inovadoras, esquecendo, nessa corrida, como é bom provar os clássicos, sentir a sua afinação, alcançada ao longo de sucessivas colheitas.

(Artigo publicado na edição de Maio de 2026)

36 vinhos vencedores no Concurso da Península de Setúbal

Concurso Vinhos

O antigo Centro de Depuração de Ostras do Tejo, no Gaio-Rosário, freguesia do concelho da Moita, localizada à beira do Estuário do Tejo, recebeu a cerimónia de entrega de prémios da XXIV edição do Concurso de Vinhos da Península de Setúbal. Das 36 referências vínicas vencedoras, 12 arrecadaram medalhas de Ouro e 24 de Prata, […]

O antigo Centro de Depuração de Ostras do Tejo, no Gaio-Rosário, freguesia do concelho da Moita, localizada à beira do Estuário do Tejo, recebeu a cerimónia de entrega de prémios da XXIV edição do Concurso de Vinhos da Península de Setúbal. Das 36 referências vínicas vencedoras, 12 arrecadaram medalhas de Ouro e 24 de Prata, para além das seis distinções especiais atribuídas aos melhores vinhos da referida região vitivinícola.

Sobre este sexteto, a Casa Ermelinda Freitas arrecadou quatro medalhas nas categorias de Melhor Vinho Branco DO Palmela, para o Dona Ermelinda branco 2024, bem como de Melhor Vinho Tinto, Melhor Vinho Branco e Melhor Vinho Rosado Regional Península de Setúbal, para Vinha do Torrão Grande Escolha 2023, Vinha da Valentina Premium tinto 2024 e Túlipa rosé 2025, respectivamente. A Adega Cooperativa de Palmela ganhou na categoria de Melhor Vinho Generoso de Setúbal, com Adega de Palmela Moscatel Roxo de Setúbal Superior 15 Anos DO Palmela, e a distinção de Melhor Vinho Tinto de Palmela ficou nas mãos da adega Fernando Santana Pereira, que se destacou com Quinta do Monte Alegre Homenagem Grande Reserva Castelão 2019.

Por ocasião desta cerimónia, Henrique Soares, Presidente da Comissão Vitivinícola Regional da Península de Setúbal (CVRPS), enalteceu a “inigualável” geografia da região, sublinhou a importância da união dentro do sector agrícola e evidenciou o papel do vinho, não só a respeito de toda “a ciência que está por trás de uma garrafa”, mas também no que concerne à sustentabilidade económica e social que lhe está associada.

Organizada pela Comissão Vitivinícola Regional da Península de Setúbal (CVRPS), esta competição contou com um júri constituído por técnicos especialistas em análise sensorial das várias regiões vitivinícolas nacionais, académicos, enólogos, escanções, jornalistas e membros do painel de prova da ASAE (Autoridade da Segurança Alimentar e Económica).

Concurso de Vinhos da Península de Setúbal 2026

Categorias Especiais

Melhor Vinho Generoso de Setúbal

Adega de Palmela Moscatel Roxo de Setúbal Superior 15 Anos DO Palmela (Adega Coop. de Palmela)

Melhor Vinho Tinto DO Palmela

Quinta do Monte Alegre Homenagem Grande Reserva Castelão 2019 (Fernando Santana Pereira)

Melhor Vinho Branco DO Palmela

Dona Ermelinda 2024 (Casa Ermelinda Freitas)

Melhor Vinho Tinto Regional Península de Setúbal

Vinha do Torrão Grande Escolha 2023 (Casa Ermelinda Freitas)

Melhor Vinho Branco Regional Península de Setúbal

Vinha da Valentina Premium 2024 (Casa Ermelinda Freitas)

Melhor Vinho Rosado Regional Península de Setúbal

Túlipa 2025 (Casa Ermelinda Freitas)

 

Medalhas de Ouro

Vinho Branco D.O. Palmela

Dona Ermelinda Reserva 2024 (Casa Ermelinda Freitas)

Vinho Tinto D.O. Palmela

Camolas Selection Premium Castelão, Touriga Nacional e Alicante Bouschet 2021 (Camolas & Matos)

Castro de Chibanes Superior 2020 (Camolas & Matos)

Vinho Branco Regional Península de Setúbal

Vinha do Torrão Grande Escolha 2024 (Casa Ermelinda Freitas)

Vinho Tinto Regional Península de Setúbal

Barrosinha Reserva 2022 (Companhia Agrícola da Barrosinha)

Camolas Alicante Bouschet 2023 (Camolas & Matos)

 

Medalhas de Prata

Vinho Generoso DO Setúbal

Adega Camolas Superior 10 Anos (Camolas & Matos)

Vinho Branco DO Palmela

Fontanário de Pegões Vinhas Velhas 2021 (Coop. Agr. de Santo Isidro de Pegões)

Camolas Selection Premium Moscatel Graúdo 2023 (Camolas & Matos)

Camolas Reserva Moscatel Galego Branco, Moscatel Graúdo e Arinto (Camolas & Matos)

Quinta da Mimosa 2024 (Casa Ermelinda Freitas)

Vinho Rosado DO Palmela

Dona Ermelinda 2025 (Casa Ermelinda Freitas)

 

Vinho Branco Regional Península de Setúbal

Vinha da Valentina Chardonnay 2024 (Casa Ermelinda Freitas)

Quinta da Bacalhôa 2024 (Grupo Bacalhôa)

Casa Ermelinda Freitas Sauvignon Blanc e Verdelho 2024 (Casa Ermelinda Freitas)

Vinha do Torrão Reserva 2024 (Casa Ermelinda Freitas)

Catarina 2024 (Grupo Bacalhôa)

Bocage 2024 (Casa Ermelinda Freitas)

Vinho Rosado Regional Península de Setúbal

Bocage 2025 (Casa Ermelinda Freitas)

Vinho Tinto Regional Península de Setúbal

Vale e Touros Reserva Premium Syrah 2023 (Adega Coop. De Palmela)

Rovisco Pais Premium 2022 (Coop. Agr. de Santo Isidro de Pegões)

Adega de Pegões Alicante Bouschet 2023 (Coop. Agr. de Santo Isidro de Pegões)

Papo Amarelo Grande Escolha 2021 (Coop. Agr. de Santo Isidro de Pegões)

Encostas da Arrábida Vinhas Velhas 2021 (Coop. Agr. de Santo Isidro de Pegões)

Sobreiro de Pegões Premium 2023 (Coop. Agr. de Santo Isidro de Pegões)

Comporta Castelão 2020 (Adega Herdade da Comporta)

Adega de Pegões Merlot 2023 (Coop. Agr. de Santo Isidro de Pegões)

Vinha do Torrão Reserva 2023 (Casa Ermelinda Freitas)

Encostas da Arrábida Reserva 2023 (Coop. Agr. de Santo Isidro de Pegões)

Casa Ermelinda Freitas Touriga Nacional Reserva 2023 (Casa Ermelinda Freitas)

Vinhos de Setúbal com nova identidade

A Comissão Vitivinícola Regional da Península de Setúbal (CVRPS) está a apresentar a nova identidade dos Vinhos de Setúbal, com uma campanha de rebranding que pretende reforçar a ligação ao território, reposicionar a marca e projectar a região como referência no panorama vitivinícola nacional. A nova identidade nasce depois de um estudo sobre o perfil […]

A Comissão Vitivinícola Regional da Península de Setúbal (CVRPS) está a apresentar a nova identidade dos Vinhos de Setúbal, com uma campanha de rebranding que pretende reforçar a ligação ao território, reposicionar a marca e projectar a região como referência no panorama vitivinícola nacional.

A nova identidade nasce depois de um estudo sobre o perfil do consumidor nacional de vinho, promovido pela Comissão Vitivinícola Regional da Península de Setúbal e realizado pelo Instituto de Marketing Research (IMR), que evidenciou a necessidade de reposicionar a marca, fortalecer a sua notoriedade e construir uma relação mais próxima com públicos emergentes. A resposta ao desafio foi materializada numa marca com uma linguagem visual e verbal ousada, autêntica, acessível e emocional, que pretende colocar a região no centro do discurso e convidar o consumidor a viver a experiência de Setúbal dentro e fora do copo.

Com uma abordagem assente na provocação inteligente e no jogo de palavras “Se tu bal”, a nova campanha desenvolvida pela agência criativa GBNT, procura despertar a curiosidade e a ligação emocional ao território.

Através de frases desafiantes como “Se tu experimentares, não te vais esquecer” ou “Se tu provares, não vais querer outra coisa”, a campanha apresenta-se com registo pensado para captar a atenção, em particular da geração Z e dos millennials, sem descurar os consumidores fiéis da geração X. Foi desenhada para despertar a curiosidade dos mais jovens, reforçar a confiança de quem está a descobrir os Vinhos de Setúbal e valorizar a escolha dos que já reconhecem a sua qualidade e diversidade.

A assinatura “Bebe Setúbal”, presente em toda a comunicação da nova campanha, é, mais do que um apelo ao consumo de vinho, um convite a mergulhar no espírito da região, e a senti-la por inteiro ao nível cultural, patrimonial, natural e gastronómico.

Esta mudança de identidade não implica a alteração do nome oficial da região, que se mantém como “Península de Setúbal”. No entanto, a comunicação passará a adotar a designação “Vinhos de Setúbal”, reflectindo uma prática já comum entre consumidores, produtores e agentes do sector.

Horácio Simões: E viva a diferença

Horácio Simões

A  Casa Agrícola Horácio Simões iniciou a sua actividade em 1910 e resultou da partilha de terras e empresas pelo bisavô da geração actual, José Carvalho Simões, pelos três filhos que queriam trabalhar em vitivinicultura: Horácio, Dinis e Virgílio. Foram, assim, criadas três casas agrícolas, com áreas bem definidas para comercialização dos seus vinhos. Lisboa, […]

Casa Agrícola Horácio Simões iniciou a sua actividade em 1910 e resultou da partilha de terras e empresas pelo bisavô da geração actual, José Carvalho Simões, pelos três filhos que queriam trabalhar em vitivinicultura: Horácio, Dinis e Virgílio. Foram, assim, criadas três casas agrícolas, com áreas bem definidas para comercialização dos seus vinhos. Lisboa, Sul do Tejo e Sul da Península de Setúbal. A Horácio, o fundador da casa agrícola com o seu nome, calhou a segunda.

Mas há registos anteriores da actividade da família, quando José Carvalho Simões produzia uva e vinho por sua conta e risco, numa época em que era tradição produzir as uvas, transformá-las em vinhos e comercializá-los. Mas como Luís Simões, 45 anos, membro da quarta geração da família e enólogo da casa gosta de salientar, a prática agrícola do seu ancestral, e dos outros agricultores da região, incluía mais do que apenas a produção de vinho, numa época em que era necessário produzir frutas, legumes, carne e leite para as famílias sobreviverem.

Quando o fundador desta casa iniciou a sua actividade, o escoamento dos vinhos era feito em tabernas. Por isso, foi montando várias em diversas localidades do seu território, e desafiando os filhos dos seus empregados mais antigos para as gerir. “Iam vendendo o vinho e abatendo a conta do investimento feito pelo Horácio no estabelecimento, que acabava por passar para as suas mãos após alguns anos”, conta Pedro Simões, 50 anos, também membro da quarta geração da família e responsável pela viticultura e comercialização da empresa. Era uma forma antiga de fazer este negócio, que se manteve durante muitos anos, até ao fecho da última taberna montada pelo bisavô, a da Baixa da Banheira, apenas há um par de anos.

Nas vinhas da empresa estão plantadas as variedades brancas Rabo de Ovelha e Boal do Barreiro, tintas Castelão e Bastardo e Moscatel de Setúbal, Moscatel Roxo, algumas com mais de 100 anos

 

Dos barris para vinho engarrafado

Há cerca de 30 anos, a empresa deixou de vender vinho a granel e barris para passar a comercializá-lo engarrafado. Foi na altura em que Pedro e Luís começaram a trabalhar na empresa, que já só comercializava vinho em barris e charutos de madeira de 50 e 30 litros. “Qualquer um de nós dois ainda carregámos alguns, até em sítios bem complicados onde tínhamos clientes, como as escarpas de Sesimbra”, conta Pedro Simões.

Com o aproximar do fim do consumo de vinho nas tabernas, Pedro e Luis decidiram mudar para a venda de vinho em garrafa, porque sabiam que não teriam capacidade para competir com as grandes casas, que já eram especialistas na venda de vinhos em garrafão e noutros formatos de comercialização a granel. “Tivémos, desde logo, a visão de evoluir para o engarrafado”, salienta Luís. Para além disso, apostaram na produção e comercialização de vinhos com denominação de origem, em vez de entrarem primeiro com vinhos de mesa no mercado. “Acreditámos que tínhamos possibilidade, com as nossas vinhas e as nossas uvas, de produzir algo distinto que nos fizesse diferenciar no mercado como produtor de vinhos da região”, explica Pedro Simões.

Primeiro lançaram um regional tinto e branco, mais um Moscatel branco e Roxo. “E, a partir daí, o nosso trabalho foi sendo feito com base na nossa crença de que, apostando num trabalho sério e diferenciador, iriamos ter boa receptividade do mercado”, diz o irmão mais velho. Estavam, afinal, a seguir o conselho que o avô lhes tinha transmitido para a sua vida, para “não dependerem nem fazerem como os outros”.
O trabalho que fizeram, incluindo a forma como foram contactando e abrindo portas, andando acima e abaixo do país, abrindo muitas garrafas, foi originando a aceitação do mercado, mesmo em zonas menos tradicionais para o consumo de Moscatel, como o norte do país. Hoje é, segundo Pedro Simões, o melhor mercado deste tipo de vinhos da empresa.

O que é a Casa Horácio Simões?

Sediada na Quinta do Anjo, onde tem a sua adega e espaço de enoturismo, a empresa tem cerca de 30 hectares de vinha própria e adquire uvas de mais 30 ha a parceiros. “É uma realidade muito de minifúndio, em que a nossa maior parcela tem quatro hectares e a mais pequena meio hectare”, conta Pedro Simões, acrescentando que todas ficam em volta da Quinta do Anjo, no sopé da Serra do Louro, o que influencia o caracter distinto dos vinhos que a empresa tem no mercado.

Actualmente, a empresa exporta 30% da sua produção para destinos como o Brasil, Estados Unidos e praticamente para todos os países da Europa, mas apenas para estabelecimentos do canal Horeca e garrafeiras. Em Portugal, os vinhos são distribuídos pela Decante Vinhos.

 

O sucesso dos moscatéis

“Se há 20 anos alguém me perguntasse se vendia uma garrafa de Moscatel no Porto, dizia que eram malucos, porque não conseguia vender uma garrafa de Santarém para cima naquela altura”, afirma, salientando que o sucesso dos moscatéis não foi acompanhado, com a mesma intensidade, pelo dos vinhos tranquilos. “Hoje temos alguma dificuldade em mostrar que a Horácio Simões não é só Moscatel de Setúbal”, conta Luís Simões, explicando que o sucesso dos seus moscatéis se deve, também, à aposta da empresa na sua diferenciação, através do lançamento de referências produzidas com “novas forma de vinificação” e de terroirs diversos.

Até aí os consumidores conheciam o produto, mas não sabiam que a sua origem podia diferenciar as suas características e que uma forma diferente de vinificar se podia sentir no produto final. “Essa maneira de abordar a comunicação dos moscatéis foi a primeira forma de diferenciação da Casa Agrícola Horácio Simões”, revela Luís, acrescentando que a procura de inovações e a experimentação foi-lhes transmitida e incentivada pelo avô, Horácio Simões. E começou, há 30 anos, com a produção e comercialização de vinhos de castas internacionais engarrafados. Mas quando Pedro deu a provar o seu primeiro Castelão/Syrah, e lhe responderam que o vinho era muito bom, mas havia vários produtores com vinhos ainda melhores daquelas castas, decidiu não vinificar mais variedades internacionais na sua casa e apostar na produção e comercialização de vinhos de castas regionais, como forma de diferenciar a casa no mercado. Como é evidente, este processo implicou a procura dessas variedades, o seu estudo e o desenvolvimento de produtos com base nelas. “E mesmo que já tenha havido concorrentes que tenham lançado, depois, vinhos das mesmas castas, nós fomos os primeiros a fazê-lo”, diz Pedro Simões.

Há cerca de 30 anos, a empresa deixou de vender vinho a granel e barris para passar a comercializá-lo engarrafado

 

Os ensinamentos dos antigos

Foi o que aconteceu com os vinhos brancos da casta Boal, que estava plantada no meio das vinhas de Castelão da família. Depois de seleccionada, foi feito um estudo para conhecer melhor as suas características no campo, definir o seu maneio mais adequado e perceber as características dos vinhos que origina. O objectivo era “produzir, com base nela, um Reserva ou um Grande Reserva branco, um vinho diferenciador para a região produzido com uma casta regional”, conta Pedro Simões, acrescentando que a aposta na casta começou em 2007, mas o processo apenas terminou em 2020, com o reconhecimento do vinho pelo mercado.

Foi também com base em trabalho moroso que começaram a ser feitos vinhos com base no Bastardo e na Rabo de Ovelha, variedade cujos bagos gostava de comer quando ia com o avô à vinha. “Desde esse tempo que pensei em fazer um vinho da casta”, revela Pedro, acrescentando que todo o trabalho desenvolvido desde que a geração actual assumiu os destinos da casa está assente na mesma filosofia das gerações anteriores, de “fazer diferente, melhor”. “A sabedoria das gerações anteriores, que não tinham estudos, era suficiente para produzirem vinhos diferenciadores”, diz Luís Simões, acrescentando que os seus ancestrais sabiam, por exemplo, que “fazia sentido ter, numa vinha velha, castas brancas e tintas misturadas”.

Ensinamentos como estes, que lhes foram transmitidos pelas gerações anteriores e não pelos livros que foi estudando, contribuem, de forma significativa, para a forma como as coisas são feitas nesta casa agrícola. “O nosso caminho passa pelo uso de tudo o que aprendemos com os anteriores membros da casa e dos conhecimentos actuais para tirar o melhor de cada colheita”, acrescenta Pedro Simões, salientando que é isso que ambos querem engarrafar: uma vinha e um ano agrícola.

Horácio Simões

 

Os efeitos do tempo

Nas vinhas da empresa estão plantadas as variedades brancas Rabo de Ovelha e Boal do Barreiro, tintas Castelão e Bastardo e Moscatel de Setúbal, Moscatel Roxo, algumas com mais de 100 anos. Nestas, as vindimas seguem o ritmo de colheitas de sempre. “O aquecimento global pouco tem influenciado as datas de vindima”, conta Luís Simões. “O que os nossos registos nos dizem é que o Castelão está maduro a 15 de Setembro, mas pode ser a 14, 16 ou 18, variações tão pouco significativas, que nos demonstram que as datas de vindima se têm mantido ao longo do tempo”, acrescenta.

A primeira a ser colhida é sempre Moscatel Roxo, quando está no estado de maturação perfeito para a produção de licoroso. “Quando estava misturado com outras castas na vinha, as uvas quase nunca eram colhidas por serem as primeiras a amadurecer, e a ser comidas por pássaros e insectos”, conta Luis Simões. Mas não é o que acontece hoje. Seguem-se, após algum período de paragem, as brancas Boal e Rabo de Ovelha e, depois, o Castelão e o Bastardo, que é vindimado em duas fases. “Primeiro, em Agosto, quando tem 11 a 11,5% de álcool, para o tinto, e, em Setembro, para a produção de licoroso”, explica Pedro, acrescentando que a maior parte das vindimas de uma parte das castas foi antecipada em relação ao período tradicional, logo a seguir à Festa da Moita em honra de Nossa Senhora da Boa Viagem, em Setembro. “Aquilo que conhecemos sobre as castas de ciclos mais pequenos, mais temporãs, levou-nos a antecipar vindimas e os períodos de tempo em que decorrem para aproveitar aquilo que cada casta, e cada vinha, pode dar, para o tipo de vinho para aquilo que pretendemos produzir”, explica acrescentando que a sua adega está actualmente preparada para ir trabalhando e parando entre vindimas.

(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2025)

 

Novas estrelas no universo Bacalhôa

Bacalhôa

A marca Bacalhôa é fortemente associada à Península de Setúbal, mas na realidade, a empresa Bacalhôa Vinhos de Portugal está presente em 7 regiões vitivinícolas de Portugal, tendo uma aposta forte na Bairrada através da Caves Aliança adquirida em 2007, um dos produtores mais prestigiados dos espumantes e aguardentes, agora conhecido como Aliança Vinhos de […]

A marca Bacalhôa é fortemente associada à Península de Setúbal, mas na realidade, a empresa Bacalhôa Vinhos de Portugal está presente em 7 regiões vitivinícolas de Portugal, tendo uma aposta forte na Bairrada através da Caves Aliança adquirida em 2007, um dos produtores mais prestigiados dos espumantes e aguardentes, agora conhecido como Aliança Vinhos de Portugal. Por isto não é surpreendente o lançamento do novo vinho branco Bacalhôa 1931 Bical 2021, feito na Bairrada, surpreendente é o vinho em si.

A Quinta da Rigodeira, que pertence à Aliança, é localizada em pleno coração da Bairrada, entre Fogueira e Ancas e dentro do seu património vitícola possui uma parcela plantada em 1931, exclusivamente com castas brancas – Bical, Maria Gomes, Sercialinho, Cercial, Arinto, Rabo de Ovelha, Alicante e Chardonnay. De todas as castas o Bical pareceu mais interessante para fazer uma vinificação em separado, até porque já havia o histórico na quinta de a produzir como monovarietal.
Com produtividade muito reduzida, era pouquíssima a quantidade de uva que chegava à adega por dia. Tiveram que guardar no frio o mosto depois da cada prensagem para acumular a quantidade que desse para vinificar. Fizeram-se quatro vinhos: um totalmente em inox, duas barricas novas, duas barricas de segunda utilização e mais duas de terceira utilização para construir um lote final o mais complexo possível. O estágio durou um ano e depois de engarrafado em Setembro de 2022, o vinho ficou mais um ano em garrafa. A câmara de provadores da região atribuiu-lhe a designação Bairrada Clássico e fizeram-se apenas 2891 garrafas.

Os Moscateis da Bacalhôa são um caso à parte, com uma abordagem algo diferente da prática habitual na região. Para além da extensa maceração pelicular, que visa extrair mais aromas e até estrutura das películas das uvas, o vinho é submetido à variação térmica em estufa própria, com o objectivo de enriquecer mais a vertente aromática e concentrar açúcares e ácidos, resultando num produto final mais intenso e rico em todos os aspectos.
Mas antes de chegarmos a esta técnica, é importante mencionar que o Moscatel de Setúbal é um produto de terroir a 100%. A principal variedade é Moscatel de Alexandria, localmente conhecida como Moscatel de Setúbal. É uma casta de maturação tardia, plantada no solo argiloso e argilo-calcário das encostas da Serra da Arrábida virada a norte, por uma razão muito simples – todas as encostas viradas a sul, são escarpas – explica o coordenador da enologia da Bacalhôa Vasco Penha Garcia. Nestas condições, a uva normalmente é apanhada em Outubro, mas com 11-12% de álcool provável e ácidos bem presentes, o que acaba por garantir a frescura e contrabalançar o elevado teor de açúcar nestes vinhos generosos.
A casta Moscatel Roxo (uma mutação do Moscatel Galego) é uma uva rosada que amadurece cedo e é vindimada no início de Setembro. Produz vinhos generosos riquíssimos, mas há 20 anos estava em vias de extinção. A Bacalhôa Vinhos de Portugal, já tendo videiras dispersas desta casta em vinhas de Moscatel de Setúbal, promoveu o plantio das duas maiores vinhas de Moscatel Roxo da região.

MOSCATÉIS DE SONHO

O processo de vinificação é igual para ambos os vinhos e começa com uma breve maceração pelicular. A fermentação é interrompida com aguardente vínica de 77% (por opção da empresa, pois o regulamento dá liberdade de escolha de entre 52% e 86%). A maceração continua por vários meses, normalmente até à primavera. Durante este processo, a aguardente força a extracção, por isso não é raro sentir o tanino e um certo amargo que sensorialmente equilibra a doçura. Quando este processo finaliza com a prensagem e trasfega, começa uma nova fase em “estufa”, onde o vinho é submetido a uma amplitude térmica significativa. Na realidade, é uma variante do método de canteiro, utlizado na produção do Vinho da Madeira. A “estufa” da Bacalhôa é um armazém cuja construção com a cobertura baixa, permite grandes amplitudes de temperatura e humidade ao longo do ano. Assim, a temperatura varia de 56,7˚C em Julho até 5,6˚C em Janeiro e a humidade vai dos 100% na altura mais chuvosa até 10,9% no pico do verão. Neste armazém, os vinhos permanecem em pequenos barris de carvalho de 180 e 225 litros, muitos deles previamente usados para estagiar o vinho de Jerez e whisky de malte. Nunca sendo atestados, os vinhos demonstram uma grande concentração por evaporação.

Bacalhôa

É assim que são feitos o Moscatel de Setúbal 20 anos e Moscatel Roxo de Setúbal 20 anos. A designação Superior é atribuída quando um vinho, com mais de 5 anos de estágio, apresenta uma qualidade destacada. Existe mais uma particularidade que tem a ver com a visão da empresa – estes vinhos com indicação de idade, não representam um lote de vários anos. Na Bacalhôa, os Moscateis são sempre provenientes de um único ano, sendo este indicado no rótulo. Assim, o Moscatel de Setúbal 20 anos é de 2000 e o Moscatel Roxo de Setúbal 20 anos é de 2002. O produtor acredita que desta forma “conseguem proporcionar a pureza de um ano só”.

Este ano, em estreia absoluta foi apresentado o Bacalhôa Moscatel de Setúbal 40 anos de 1983, um licoroso de qualidade excepcional. Permaneceu os primeiros 20 anos da sua vida na Estufa nº 1 com grandes emplitudes térmicas e de humidade; em 2004 foi transferido para o Armazém das Selecções, com pé-direito mais alto, suavizando as variações da temperatura e promovendo, a partir deste ponto, um envelhecimento mais lento. Criou-se um vinho extraordinário, onde a riqueza e a concentração estão interligadas de tal ordem que o teor de açúcar de 324 g/l está em harmonia com a acidez de 8,1g/l e o pH 3,14 e o prazer sensorial que oferece está por cima de qualquer parâmetro técnico existente. Nesta edição ultra limitada foram para o mundo apenas 300 garrafas de 0,5L.

Quando será o próximo engarrafamento desta magnifica colheita de 1983, só o tempo dirá.

 

(Artigo publicado na edição de Dezembro de 2023)

Sociedade Vinícola de Palmela reforça portefólio da distribuidora Vinalda

Sociedade Vinícola Palmela Vinalda

A Vinalda celebrou uma parceria com a Sociedade Vinícola de Palmela (SVP), para a distribuição exclusiva das marcas da empresa em Portugal e no mundo. As marcas SVP (Grande Reserva, Moscatel de Setúbal e Moscatel Roxo), Serra Mãe e Terras do Sado passam, assim, a fazer parte da carteira de produtores da Península de Setúbal […]

A Vinalda celebrou uma parceria com a Sociedade Vinícola de Palmela (SVP), para a distribuição exclusiva das marcas da empresa em Portugal e no mundo. As marcas SVP (Grande Reserva, Moscatel de Setúbal e Moscatel Roxo), Serra Mãe e Terras do Sado passam, assim, a fazer parte da carteira de produtores da Península de Setúbal da Vinalda.

Após a recente renovação da imagem da empresa, a SVP — eleita “Empresa de Vinhos Generosos 2022” nos Prémios Grandes Escolhas — apostou também num rebranding das marcas, de forma a reposicionar todo o portefólio num segmento de superior qualidade.

Prestes a celebrar 60 anos, esta parceria é mais um passo na nova estratégia da SVP, iniciada em 2021 com a entrada no capital da empresa de Vasco Guerreiro, empresário há muito ligado ao sector. Além do CEO, a estrutura accionista mantém as famílias do enólogo Filipe Cardoso (Quinta do Piloto) e do agora diretor-geral adjunto, Luís Simões, de outra família histórica de viticultores de Palmela (Horácio Simões). A enologia está a cargo de José Caninhas, com o apoio de Filipe Cardoso.

“Há algum tempo que a Vinalda procurava um produtor com um portefólio que pudesse complementar a nossa carteira na região e a ‘nova’ Sociedade Vinícola de Palmela responde exactamente ao que pretendíamos: uma empresa com uma estratégia ambiciosa, um conjunto de marcas com uma imagem apelativa e, principalmente, vinhos de elevado nível e excelente relação qualidade-preço”, salienta o diretor-geral da distribuidora, José Espírito Santo.

Trois: 1, 2, 3, Setúbal nasce outra vez

Trois Setúbal

Filipe Cardoso, Luís Simões e José Caninhas são os Trois, e querem mudar o Mundo. Pode não ser o Mundo inteiro, mas o mundo onde nasceram, cresceram e hoje trabalham: a Península de Setúbal. Além de uma amizade bonita, à qual a enternecedora diferença de idades confere carácter, o trio partilha uma visão muito única […]

Filipe Cardoso, Luís Simões e José Caninhas são os Trois, e querem mudar o Mundo. Pode não ser o Mundo inteiro, mas o mundo onde nasceram, cresceram e hoje trabalham: a Península de Setúbal. Além de uma amizade bonita, à qual a enternecedora diferença de idades confere carácter, o trio partilha uma visão muito única para os vinhos locais, sobretudo os não-fortificados, campo onde acredita haver potencial para se fazer muito melhor do que o ”bom vinho a bom preço” por que afina grande parte da região. E esta não é uma visão qualquer, mas sim a de três enólogos que falam com propriedade e que fazem, ou já fizeram, parte das equipas técnicas (e das famílias, nalguns casos) de importantes casas da Península de Setúbal, como Quinta do Piloto, Casa Horácio Simões, Quinta Brejinho da Costa ou Sociedade Vinícola de Palmela.

É convicção dos Trois que a região pode produzir, utilizando as vinhas certas e combinando de forma inteligente os métodos tradicionais e ancestrais com o conhecimento científico de hoje, grandes vinhos brancos e tintos, capazes de resistir ao teste do tempo e que espelhem verdadeiramente o carácter da Península de Setúbal e dos vários terroirs que a caracterizam. Para o comprovar, o primeiro vinho da Trois – Vinhos com Identidade, um Castelão de 2015, foi lançado em 2016, e a partir daí, ninguém os parou. O foco do projecto é, precisamente, esta casta tinta e a branca Fernão Pires, e também nas vinhas velhas, dos próprios e de viticultores com quem o trio mantém estreita relação. Estas estão localizadas em diferentes zonas e terroirs da região, desde as areias de Palmela às de Melides, passando pelos solos argilosos e calcários da Arrábida, mas, porque nem tudo é tão linear assim, e como explica Filipe Cardoso, “as zonas de transição também existem”, e algumas destas vinhas situam-se precisamente nesses locais.

Trois Setúbal

Agora, saem para o mercado mais três vinhos, as novas colheitas dos dois DOC Palmela Trois Curtimenta Fernão Pires e Trois Castelão, de 2021 e 2018, e um Moscatel Roxo de 2017, da marca de “entrada” Flor de Trois. O Fernão Pires (vinha com 40 anos), fermentado em lagar com curtimenta total e estagiado 12 meses em barricas de carvalho francês usadas, é o resultado da convicção destes enólogos de que a casta atinge o seu auge quando sujeita a vinificações mais tradicionais. Mas com uma advertência. “Um branco de curtimenta não tem de ter características de oxidação e cor dourada. Temos a sensação de que a generalidade das pessoas acha que é assim que deve ser um branco deste tipo, mas acreditamos que a curtimenta, como os nossos antepassados faziam, pode conferir coisas positivas e que não são necessariamente essas”, sublinha José Caninhas. O Castelão, de vinhas velhas, fermenta também em lagar e estagia um ano em barricas de carvalho francês usadas, e 6 meses, no mínimo, em garrafa. No copo, consegue-se sentir o seu lado clássico vinoso, mas num perfil de elegância e precisão que se coaduna com as exigências do mercado moderno. Era esse o objectivo com este vinho, e foi indubitavelmente cumprido. O Moscatel Roxo de Setúbal, por sua vez, vem responder à necessidade de um vinho deste género na gama Flor de Trois, com preço competitivo mas, de acordo com o trio, a mostrar alguma complexidade e sem se cair na tentação (frequente) de carregar na doçura.

Ao assistir à dinâmica entre os três enólogos, percebe-se que são pessoas muito diferentes, unidas por uma causa, e é isso — além dos excelentes vinhos que têm colocado no mercado, obviamente — que dá graça ao grupo. José Caninhas, uma década mais novo do que Filipe e Luís e com passado no sector agro-alimentar, assume-se como “rato de laboratório” e é nele que encontra conforto. A par disso, curiosamente, é através das emoções que sente os vinhos e admite que estes podem transportar-nos para locais e momentos específicos, “como a casa dos avós”. O copo do laboratório é o seu melhor amigo, e é neste que mais gosta de provar os vinhos. Por outro lado, Luís Simões imprime no grupo uma componente enológica “pura e dura”, fala sem rodeios e com a experiência que acumulou ao longo de anos na área. Já Filipe Cardoso harmoniza em si os dois lados, cruzando a experiência com a emoção, o que resulta no sorriso e boa disposição que apresenta onde quer que vá. Todos concordam: “Tentar dar o exemplo numa região, tem tanto de duro como de gratificante…”.

(Artigo publicado na edição de Junho de 2023)