QUINTA DE RONFE: O mundo dos Nicolau de Almeida

Nicolau de Almeida

No concelho de Lousada estão inventariadas 22 casas nobres. Em diferente estado de conservação e uso, mas o número é significativo e foi bem estudado e explicado em tese universitária a que tivemos acesso. A Casa de Ronfe está, naturalmente, incluída neste levantamento. Trata-se de uma construção do século XVII, com pedra de armas datada […]

No concelho de Lousada estão inventariadas 22 casas nobres. Em diferente estado de conservação e uso, mas o número é significativo e foi bem estudado e explicado em tese universitária a que tivemos acesso. A Casa de Ronfe está, naturalmente, incluída neste levantamento. Trata-se de uma construção do século XVII, com pedra de armas datada da segunda metade do século XVIII. O estado de conservação é excelente, fruto de restauros vários ao longo do tempo e a sensação que se tem ao entrar é que estamos, de facto, numa vetusta casa submetida a obras, mas em que o “espírito do lugar” se conservou. É mais raro do que se imagina e a família está, por isso, de parabéns.

A ligação às famílias Rosas e Nicolau de Almeida é já muito antiga e aqui, além de local de férias das famílias, também se produziu vinho, com a mesma marca, durante muitos anos. A primeira edição deste Ronfe, cujo rótulo, ajuizadamente, se manteve com o aspecto gráfico original, data de 1935. A recepção que nos estava reservada não poderia ser mais completa: estava o pai João Nicolau de Almeida e os três filhos, Mafalda, João e Mateus. Para o almoço tivemos a companhia de António Leitão e sua mulher, primos de João Nicolau de Almeida. Foi o bisavô dos manos Nicolau de Almeida o adquiridor desta propriedade que, anteriormente, tinha pertencido à família Archer e que a vendeu a José Rosas em 1889. A vinha foi plantada pelo avô e, na época, até castas francesas foram selecionadas; nas nacionais já estava incluída, inesperadamente, dizemos nós, a Touriga Nacional. A vinha sempre incluiu uvas tintas, como Azal Tinto, Padeiro e Alvarelhão.

A ligação aos Nicolau de Almeida está bem patente nos desenhos que Fernando Nicolau de Almeida (para todo o sempre, o “pai” do Barca Velha) aqui deixou, cheios de humor, revelando que, além da enologia, o desenho era uma das suas paixões.

Nicolau de Almeida

 

Ainda que estejamos no vale do Sousa, aqui, algo teimosamente e contra a corrente, optou-se por dar destaque à Trajadura

 

O valor da Trajadura

Ainda que estejamos no vale do Sousa, sub-região dos Vinhos Verdes muito conotada com a casta Arinto, aqui, algo teimosamente e contra a corrente, optou-se por dar destaque à variedade Trajadura. Dizemos teimosamente porque, à pobre da Trajadura, nunca se lhe deu mais valor que não fosse servir de complemento às castas nobres minhotas, fossem elas a Alvarinho ou a Loureiro. Procurava-se, então, que o lado mais gordo e de menor acidez servisse de complemento às castas mais ácidas da região. A forma como aqui foi tratada mostra que a Trajadura pode estar destinada a outros voos.

O nosso passeio começou por uma visita às vinhas que mostraram uma exuberância notável, fruto de muito cuidado, algo que, como se imagina, obriga a muito trabalho e muita atenção, contrariando a tese muito em voga da “pouca intervenção”. Numa zona tão atreita a míldio e oídio, a pouca intervenção apenas teria como resultado a perda da produção.

E, já ao almoço, seguindo a conversa do jornalista José Gomes Ferreira que sempre afirma “não há outra forma de dizer isto”, eu também digo: o cabrito assado do almoço foi dos melhores que comi nos últimos anos! Ponto!

Nos vinhos provados, alguns aspectos merecem atenção: as colheitas de 2021 e 2022 ainda se chamavam Casa de Ronfe. Foram também provadas e deram muito boa conta de si. A casta mostra que, se bem trabalhada, consegue conservar o seu traço próprio – vinho com corpo e acidez ajustada – e o perfil aponta sempre para uma boa aptidão gastronómica. Ambos em boa forma, embora o 2022 seja ligeiramente mais citrino e mais fresco. Da prova integral dos brancos de Trajadura, é perceptível que o estilo está ainda em construção e, assim, são perceptíveis variações de colheita para colheita.

Em 2026 irão fazer, retomando a tradição do avô, um tinto com uvas da quinta que incluirá uvas de ramadas, com Alvarelhão, Touriga Nacional e Vinhão.

A marca Nicolau de Almeida, criada ainda no século XIX e associada a uma casa comerciante de Vinho do Porto, estava actualmente na posse da Real Companhia Velha (por via das inúmeras fusões e aquisições que foram feitas ao longo do tempo), mas foi graciosamente cedida a João Nicolau de Almeida, que, assim, assume de novo a marca da família, conservando-se a estrela que encima o nome da empresa.

O Monte Xisto é uma propriedade familiar, plantada de raiz e onde se pratica uma agricultura amiga do ambiente. O plantio da vinha começou em 2005

 

A prova dos bagos no Douro

O Monte Xisto fica em Foz Côa. É uma propriedade familiar plantada de raiz e onde se pratica uma agricultura amiga do ambiente, tão próxima da natureza quanto possível. As aquisições começaram em 1993 e o plantio da vinha em 2005. A localização e sobretudo a orientação solar das várias parcelas é um dois em um: parcelas a norte, parcelas a sul e com altitudes diversas. A escolha do que vindimar e quando depende da prova dos bagos. É como se o blend fosse, maioritariamente, feito na vinha. A própria vindima é cadenciada pela variada maturação das uvas, dependendo da altitude da parcela a da orientação.

A vinificadas faz-se em Foz Côa, mas os vinhos amadurecem nas caves de Vila Nova de Gaia, onde também são engarrafados. O portefólio abrange várias marcas, desde logo o topo de gama Quinta do Monte Xisto, a que se seguiram alguns anos mais tarde, o Quinta do Monte Xisto Oriente e o Monte Xisto Órbita: o primeiro mais estruturado e com maior densidade, os dois restantes num registo de maior leveza e elegância.

Nos vinhos do Porto, temos o Vintage e um Porto Branco leve e seco, uma categoria meio esquecida pelo sector. É para este Porto Branco que é usada a casta Rabigato, a única variedade branca plantada na referida propriedade. Já nas tintas temos as clássicas da região: Touriga Nacional, Touriga Francesa, Tinto Cão, Tinta Francisca, Sousão, Tinta Roriz e Tinta da Barca, esta última uma velha paixão de João Nicolau de Almeida. Neste encontro apenas se provaram dois tintos e o novíssimo Vintage 2024.

(Artigo publicado na edição de Julho de 2026)

KIMBREL WINES: Investimento americano no Douro

KIMBREL WINES

Com percurso consolidado nas áreas da estratégia empresarial e consultoria, e passagens pela The Boeing Company ou Coyvance LLC, e no setor vitivinícola, onde esteve envolvido na conceção, desenvolvimento e operação da adega Dakota Shy, em St. Helena, Napa Valley, nos Estados Unidos, o norte-americano David Sylvester apaixonou-se pelo Douro. Também é coproprietário de uma […]

Com percurso consolidado nas áreas da estratégia empresarial e consultoria, e passagens pela The Boeing Company ou Coyvance LLC, e no setor vitivinícola, onde esteve envolvido na conceção, desenvolvimento e operação da adega Dakota Shy, em St. Helena, Napa Valley, nos Estados Unidos, o norte-americano David Sylvester apaixonou-se pelo Douro. Também é coproprietário de uma garrafeira especializada em Washington, D.C. Junta-se a ele Isaac Campelo, rosto da quarta geração de uma família com tradição vitivinícola, com propriedades na região dos Vinhos Verdes e que, após ter feito vindimas lá fora, regressa, para cofundar a Kimbrel Wines.

“A Kimbrel foi desenhada para posicionar o Douro no mapa mundial do vinho de forma sofisticada e consistente. O nosso foco não é o volume, mas sim vinhos produzidos em parcelas únicas”, afirma David Sylvester. O investimento inicial foi de 800 mil euros, com a aquisição da Quinta do Roncão, de 30 hectares. Localizada no Vale de Roncão, data de 1851 e tem 12 hectares de vinha. Desde a aquisição, em 2022, foi feito um trabalho aprofundado, como a reconstrução de muros de xisto, a requalificação de acessos e a replantação de vinhas. O foco está no micro lote e na criação de vinhos tintos e vinhos do Porto. Porém, não está de parte a aquisição de uvas em cotas altas, para elaborar vinho branco. A produção anual não ultrapassa as 20 000 garrafas, estando o Vinho do Porto em vantagem, com 13 000. O objetivo é reforçar o posicionamento premium da marca. A aposta na viticultura de precisão, mínima intervenção e valorização das parcelas antigas são as premissas da equipa de enologia, constituída também por Hugo Silva (consultor) e Javiera Antúnez (assistente), para além do consultor de viticultura, José Carlos Oliveira.

O plano total de investimento prevê atingir os 10 milhões de euros até ao final da presente década. Com o mercado internacional, sobretudo os Estados Unidos, como prioridade, serão desenvolvidos o enoturismo e a recuperação de armazéns históricos, bem como a criação da adega, de uma guest house e de um espaço exterior para eventos, jantares e provas vínicas.

(Artigo publicado na edição de Junho de 2026)

LAVRADORES DE FEITORIA: 25 anos de vida

Lavradores de Feitoria

«O Douro é vinho. Vinho e vinha. Pode ser rio, pode ser terra. Região ou vila. Mas é, sobretudo, vinho. A monocultura é assim, impregna tudo, os montes, as casas e os homens. Como em qualquer outra região do país, os Durienses participaram em toda a história de Portugal. Influenciaram‑na e por ela foram condicionados. […]

«O Douro é vinho. Vinho e vinha. Pode ser rio, pode ser terra. Região ou vila. Mas é, sobretudo, vinho. A monocultura é assim, impregna tudo, os montes, as casas e os homens. Como em qualquer outra região do país, os Durienses participaram em toda a história de Portugal. Influenciaram‑na e por ela foram condicionados. Têm as suas glórias e as suas misérias. Ajudaram a consolidar a nacionalidade e deram o seu contributo para as explorações marítimas. Estiveram presentes nas lutas dinásticas, perseguiram espanhóis, foram valentes no combate aos exércitos franceses de ocupação. Envolveram‑se nas guerras liberais e em quase todas as revoluções dos séculos XIX e XX.

Ainda há pouco tempo, no meio das dificuldades da fundação do Estado democrático, foi da Régua e dos vales do Douro que vieram gritos rebeldes em defesa das liberdades. A história dos Durienses vale a dos seus conterrâneos de qualquer região. Mas, se um Duriense fala da sua terra, o vinho será imediatamente o tema. Chamem‑lhe fino ou licoroso, generoso ou de feitoria, de embarque ou de carregação, ou simplesmente, como em todo o mundo, vinho do Porto: será esse o seu bilhete de identidade.

Os povos gostam de se identificar com algo que os distinga, uma glória do passado ou um especial traço do presente. O vinho é, no Douro, a memória de todos, o fio condutor de gerações. O vinho está presente do modo mais indelével que seja: nas consciências e nos sentimentos. Mas também reina na paisagem, naqueles formidáveis socalcos que, montanha acima, acabaram por lhe dar forma e feitio. “É o mais belo e mais doloroso monumento ao trabalho do povo português” (Jaime Cortesão). E é tema indispensável na literatura local ou sobre a região.

É evocado nos cantares e nas tradições culturais. É, finalmente, o centro da vida económica regional, tendo já sido o principal trunfo português no comércio externo. A sociedade contemporânea, com os serviços, a administração, as escolas, uma incipiente industrialização, os meios de comunicação e a televisão, é muito diferente daquela que ainda recordam os Durienses com cinquenta ou mais anos. O império do vinho parece menos marcado. O relógio das adegas e das vinhas deixou de governar os dias do Douro. O calendário das vindimas já não dita a sua lei. Os trabalhos da vinha e do vinho já não são obsessivamente os únicos que interessam e preocupam os Durienses. Isso é verdade. Mas o reino do vinho, embora menos despótico, ainda existe.

Grande parte do vinho produzido no mundo não tem origem. Ou antes, o local de nascimento é desconhecido. Ou é vago. Os lotes e as misturas, legais ou improvisados, são responsáveis pela massificação vinícola. Durante muito tempo, até meados do século vinte, esta era a situação dominante. Ora, nas últimas décadas, a evolução dos gostos e dos mercados alterou essa realidade, sendo cada vez mais numerosos os vinhos com nome de sítio. Os vinhos com origem demarcada constituem a fidalguia da espécie. E, como sempre acontece nestas coisas, há os que são mais fidalgos do que outros. Uma “região demarcada” é melhor do que uma “origem determinada”. Dentro das regiões demarcadas, há também diferenças, como na aristocracia. Há os que são “mais nobres” do que outros, ou mais antigos, ou com mais pergaminhos. Nesta classificação imaginada, o Douro vem entre os primeiros.

Com efeito, a região foi a primeira do mundo a ser demarcada, antes mesmo de se ter inventado o conceito. Desde o século XVIII que o vinho do Douro, mais propriamente o vinho do Porto, é aquele que provém de uma região bem definida. Décadas mais tarde, os franceses fizeram operação semelhante, demarcando o Bordéus, depois o Borgonha, o Champanhe e outros. Italianos e Espanhóis seguiram. E Alemães, Austríacos, Húngaros, Jugoslavos e Suíços. Hoje, Australianos, Sul‑Africanos e Americanos fazem o mesmo.

Demarcar significa dar identidade. A verdade é que um vinho, se tem personalidade, vem de um sítio. Para ter carácter, um vinho faz‑se numa região. Particulares condições naturais, o sol e a pedra, a terra e a água, ajudam a criar um produto singular, um vinho diferente. Mas isto é apenas o princípio. Nenhum vinho, tal como o conhecemos, é produto directo da natureza. Nenhum vinho que bebemos é igual ao que se bebia há dois ou três séculos, muito menos igual aos que se bebiam nos tempos da Bíblia, que de vinho tanto fala; ou dos conventos da Idade Média, que pelo vinho tanto fizeram; ou das explorações marítimas, que do vinho tantas saudades tiveram. É mesmo provável que, se nos fosse dado beber vinho feito como há um ou dois milénios, sentíssemos real repugnância em fazê‑lo.

Os vinhos que temos diante de nós são o resultado de um longo apuramento do gosto e de uma evolução ininterrupta dos métodos de fabrico e de conservação. O vinho da natureza não é o vinho dos homens. Este último é fabricado. Com sabor, gosto, lutas e mercado; com sonhos, riqueza, coragem e pobreza; com arte e ciência, com técnica e sofrimento.

No Douro, que produz um vinho complexo, um vinho mais feito e mais “fabricado” do que outros, os homens desbravaram o mato, subiram as encostas, aterraram e surribaram. Desfizeram a pedra, fabricaram terra, levantaram muros, construíram milhares de quilómetros de socalcos, serra acima e vale adentro. Quebraram a rocha, cavaram a terra, saltaram os rios, procuraram água e marcaram sítios para viver. Plantaram, enxertaram, podaram as vides, colheram as uvas, pisaram, trasfegaram, transportaram e fizeram o vinho. Conservaram, armazenaram, fizeram lotes, misturaram aguardente, envelheceram e apuraram.

Lavradores de Feitoria
Paulo Ruão comanda os destinos da enologia da Lavradores desde 2005

E o vinho fez uma região, fez os solares, as quintas e os casebres. Fez os lagares e os cardenhos; as pipas e os rabelos; os ricos e os pobres. Nada de importante, no Douro, é independente do vinho. Nem as Igrejas e os mosteiros, que o vinho fez e que vinho fizeram.

Foi o vinho que fez o Douro, porque o Douro, antes do vinho, era muito pouco o que é hoje. Até as montanhas são diferentes. Não foi o Douro que fez o vinho. Foi o homem que fez o vinho. O homem, as suas técnicas e o mercado. De volta, o vinho fez o Duriense. Condicionou‑o, influenciou‑o.

A história do vinho é a história do Douro e marcou a história dos Durienses. Por isso é possível dizer, com Orlando Ribeiro, que “…foi o homem que trouxe o maior reforço à meridionalidade da região”. E, com Virgílio Taborda, que “foi a vinha, o fabrico e o comércio do vinho do Porto que fizeram o Alto Douro”. O Douro de que aqui se fala é tão só o Alto Douro. Mas quase nem é preciso dizê‑lo.

A história e o vinho confiscaram o nome e expropriaram as outras regiões que dele se podiam reclamar. Da Régua ou de Barqueiros até ao Porto, até à Foz do Douro, para ser mais preciso, também é Douro, mas, para se saber de que se trata, é necessário acrescentar “Litoral”. De Barca d’Alva até Miranda, dir‑se‑á que é o Douro “internacional” e faz fronteira entre Portugal e a Espanha há séculos. O Douro demarcado, o Douro do vinho, Alto Douro para os geógrafos, é o Douro fidalgo, o que tem morgadio. Dentro dele, poder‑se‑á falar de Baixo Corgo, de Cima Corgo e de Douro Superior, mas isso já é nomenclatura técnica. Douro é Douro, é o Alto Douro e mais nenhum.»

 

Nenhuma destas palavras acima são minhas, não. Tomara eu. São palavras superiores, de uma mente superior, como a de António Barreto, sociólogo português, duriense e Presidente da Assembleia Geral de Lavradores de Feitoria entre 2002 a 2020. Mas quem escreve assim sobre o Douro, com este conhecimento, com esta crueza narrativa, com sentido de lugar e profundidade emocional, tem de ser, de forma inelutável, um dos principais responsáveis, senão o principal mesmo, pelo sucesso e pelos 25 anos de duração do projecto Lavradores de Feitoria. Esta é a pequena homenagem que aqui lhe presto.

A responsabilidade que ficou para quem veio a seguir, e para os que virão no futuro, é, certamente, enorme de igual modo, mas a parte mais difícil do trabalho ficou praticamente feita, como se António Barreto, em vez de ensinar só a pescar, tivesse também ensinado os peixes a morder o anzol, tornando a pesca e o trabalho das gerações seguintes de pescadores muito mais fácil e prazeirosa. E, assim, pode dizer-se que o vinho fez o Douro, fez o duriense e fez a Lavradores de Feitoria.

Lavradores de Feitoria
Alvarelhão é a casta vindimada numa parcela de 0,6 hectares de uma vinha plantada, em 1920, na Casa de Mateus

O início do projecto

O nome Lavradores de Feitoria tem a sua origem remota nos vinhos de feitoria da época Pombalina, uma suposta selecção dos melhores vinhos da região do Douro, que, a posteriori, o Marquês de Pombal destinava aos apreciadores mais exigentes do nosso país e do mundo, como forma de promover a ‘sua’ recém demarcada região do Douro.

Nascida no ano 2000, a Lavradores de Feitoria resulta inicialmente da união de 15 lavradores do Douro, proprietários de 19 quintas, sob um modelo de gestão e produção unificado, como forma de obter sinergias e ganhos de escala em todas as etapas da produção de vinho. Mas esta era, sobretudo, uma ideia e uma visão para o futuro – actualmente, é constituída por 51 accionistas, 15 dos quais possuem 20 propriedades na região.

A aquisição pela Lavradores de Feitoria, em 2008, da Quinta do Medronheiro, em Sabrosa, mesmo ao lado do Palácio de Mateus, com fundos exclusivamente próprios, marcou o início da produção de uva própria. Este feito culminou em 2021, com a conclusão da nova adega, transportando definitivamente o projecto para um patamar evolutivo e de qualidade superiores.

Paulo Ruão, comanda os destinos da enologia da Lavradores desde 2005. Conhecedor profundo de cada vinha, cada parcela, cada exposição, cada altitude e de cada lavrador, faz os vinhos, privilegiando sempre a frescura, a elegância e o equilíbrio, com o cunho do carácter único e vincado da região do Douro.

Boal, Códega, Gouveio, Malvasia, Sauvignon Blanc e Viosinho são as castas brancas, enquanto nas tintas, algumas de vinhas com mais de 80 anos, podemos encontrar Tinta Amarela, Tinta Barroca, Tinta Roriz, Tinto Cão, Touriga Francesa, Touriga Nacional e Alvarelhão.

Foi, em particular, o Alvarelhão que fomos provar. Proveniente de uma pequena parcela de 0,6 hectares de uma vinha plantada em 1920, na vizinha Casa de Mateus, esta casta nativa, ancestral e rara, impõe grandes desafios na viticultura, mas recompensa largamente pela sua extraordinária finesse. E é claro que não nos ficámos só pelo Alvarelhão. Afinal, são quase cinco horas de viagem de Lisboa até Sabrosa e a Lavradores de Feitoria tem sempre algo mais para mostrar.

(Artigo publicado na edição de Junho de 2026)

 

QUINTA DO NOVAL: Qualidade de um ano perfeito

Quinta do Noval

A história mais recente da Quinta do Noval sob a gestão de Christian Seely, Director-Geral da AXA Millésimes, é, sem dúvida, a mais intensa e rica desde a fundação da propriedade, em 1715. Para além da tradição que sempre se fez questão em preservar, para Christian Seely e toda a equipa da Quinta do Noval, […]

A história mais recente da Quinta do Noval sob a gestão de Christian Seely, Director-Geral da AXA Millésimes, é, sem dúvida, a mais intensa e rica desde a fundação da propriedade, em 1715. Para além da tradição que sempre se fez questão em preservar, para Christian Seely e toda a equipa da Quinta do Noval, estes 33 anos foram “um período de descobertas e redescobertas”. Em 1994 só se fazia Vinho do Porto; mais tarde descobriram que os terroirs da propriedade também tinham grande potencial para vinhos não fortificados. O primeiro tinto surgiu com a colheita de 2004 e, alguns anos mais tarde, chegaram os brancos. Outra redescoberta foi o potencial qualitativo das vinhas velhas e dos field blends.

 

O grande 2024

O porquê de 2024 ser extraordinário explica Carlos Agrellos, Director Técnico da Quinta do Noval: “tivemos uma série de anos secos. Primeiro 2020, depois 2021, um ano razoável, 2022 novamente seco e 2023 com alguns problemas de chuva na vindima. Mas 2024, em traços gerais, foi um ano muito equilibrado do ponto de vista climático. Tivemos um inverno chuvoso, o que é sempre positivo, seguido de uma primavera amena, com alguma chuva. E convém dizer que, em 2024 choveu menos do que em 2023, e a precipitação foi muito bem distribuída ao longo do ano. Apenas o mês de Agosto não teve qualquer pluviosidade. Isto permitiu um ciclo vegetativo mais longo e, olhando para as declarações passadas, podemos afirmar que um ano em que toda a vindima decorre sem paragens, geralmente conduz a bons vinhos. Houve alguma chuva nocturna a 16 e 23 de Setembro, que não impediu a continuidade da vindima. E foi muito esticada, tendo começado no dia 22 de Agosto e terminado a 11 de Outubro, e as uvas acabaram por ter uma maturação fenólica e uma acidez muito equilibradas.”

Nada melhor confirma estas observações do que os próprios vinhos. Posto isto, a sequência da prova começou nos brancos (que embora já tenham sido provados anteriormente, serviram de bom exemplo neste contexto), continuou com os tintos e terminou em grande com os vinhos do Porto Vintage, incluindo o mítico Noval Nacional. Mas antes vamos ver os pontos em comum entre os vinhos não fortificados e os do Porto.

Quinta do Noval

Vale de Mendiz e do Roncão

A Quinta do Noval e a Quinta do Passadouro, adquirida em 2019, têm vinhas em dois vales – Vale de Mendiz e Vale do Roncão. Carlos Agrellos explica que há uma diferença marcante entre os vales de Mendiz e do Roncão. O primeiro, situado na margem esquerda do rio Pinhão, situa-se no fundo do vale, numa zona muito quente, mas com uma identidade muito própria e particularmente importante para o Douro, marcada pelo carácter típico do Vale de Mendiz. A zona do Roncão, também conhecida como Ribeira do Roncão, que conduz ao Douro, embora seja quente, beneficia de um fluxo de vento que entra pelo vale acima e ajuda a manter as vinhas bem arejadas. “Curiosamente, os vinhos do Vale de Mendiz apresentam sempre muita pureza de fruta silvestre e notas florais, uma assinatura do Vale de Mendiz, que não encontramos no Roncão onde os vinhos são mais frutados, nem tanto florais, e têm mais estrutura”, conclui o Director Técnico da Quinta do Noval.

O monovarietal de Touriga Nacional da Quinta do Passadouro é uma combinação de parcelas do vale de Mendiz, onde se concentram as vinhas velhas, e da vinha do Síbio, no vale do Roncão, onde as plantações são organizadas por casta. Por sua vez, o monovarietal de Touriga Nacional da Quinta do Noval resulta de quatro parcelas: três no Vale de Mendiz e uma no Roncão.

Mesmo no Vintage da Quinta do Noval, que tem maior proporção de uva do Vale de Mendiz, alguma parte provém sempre do Roncão, “para lhe dar músculo”.

 

“É este paradoxo do Douro: uma zona quente onde conseguimos fazer vinhos destes, com frescura e finesse”, resume Carlos Agrellos

“Não queremos abdicar da possibilidade de produzir um Porto Vintage que expressa não só os nossos terroirs, mas também o ano”, explica Christian Seely

 

Vinhas velhas, o componente essencial

Como referiu no início Christian Seely, as vinhas velhas foram uma grande descoberta na Quinta do Noval e também no Passadouro. Quando a propriedade foi adquirida, as parcelas plantadas na década de 1930 estavam muito bem preservadas, exigindo apenas algumas retanchas. Foi também feito, em colaboração com a PORVID, o levantamento de todas as castas presentes (mais de 30), que hoje se encontram catalogadas. O lote do Quinta do Passadouro Reserva é composto maioritariamente por vinhas velhas (74%), mais 16% de Touriga Nacional e 10% de Touriga Francesa.

O Quinta do Noval Reserva era tipicamente um blend de Touriga Nacional e Touriga Francesa, mas em 2020, no Douro em geral, esta última amadureceu muito mais cedo do que o normal e não estava na sua melhor forma na altura da vindima. E, pela primeira vez, as uvas da vinha velha entraram no lote. O resultado foi tão relevante, que passaram a representar uma grande parte desta referência. O Reserva de 2024 conta com 50% de vinhas velhas, 32% de Touriga Nacional e 18% de Touriga Francesa.

A título de exemplo, o Quinta do Passadouro Reserva tem acidez total de 6,10 gramas por litro e um pH 3,54 e o Quinta do Noval Reserva regista 6,40 gramas por litro de acidez e um pH de 3,47. Ambos evidenciam taninos muito finos, do mesmo tipo que, com mais trabalho e pisa em lagar, dão origem aos Porto Vintage. “É este paradoxo do Douro: uma zona quente onde conseguimos fazer vinhos destes, com frescura e finesse”, resume Carlos Agrellos.

 

Abordagem na adega

Na adega, os vinhos da Quinta do Passadouro são trabalhados de forma diferente dos da Quinta do Noval. Os primeiros fermentam em lagar, mas por pouco tempo, privilegiando a extracção pré-fermentativa em detrimento da maceração pós-fermentativa. Por isso, após uma breve pisa, o vinho é trasfegado.

O estágio decorre integralmente em barrica, com uma proporção de 15-20% de madeira nova, 5-10% de segundo ano e 70-80% de terceiro ano. Esta utilização de barricas de segundo e terceiro ano preserva o carácter frutado e floral, sem dominar o vinho.

 

O Noval Nacional representa apenas 0,65% do volume total do Vinho do Porto produzido na propriedade.

Quinta do Noval

Terroir Series

A filosofia por trás desta designação é bastante simples: sempre que nas múltiplas vinificações surge um vinho claramente distinto dos restantes (seja monovarietal, seja de vinhas velhas, como até agora), é engarrafado como Terroir Series. Para já, existem dois vinhos feitos a partir de uvas provenientes de parcelas praticamente centenárias, com castas misturadas.

O Vinha da Marka viu a sua primeira expressão em vinho em 2019 e, desde então, tem sido lançado todos os anos. É uma parcela situada ao lado da Quinta do Crasto. A sequência da Vinha da Ponte, da Maria Teresa e da Marka, sugere uma contemporaneidade na plantação, parecendo ser vinhas da mesma época.  A vinha da Marka com mais de 30 castas a 140-180 metros de altitude junto ao rio, apresenta um rendimento médio de 15 hectolitros por hectare. Vindimou-se numa manhã no dia 30 Setembro e resultou em 1024 garrafas.

Mais uma vez a título de exemplo: o Vinha da Marka com 14%, tem 6,60 gramas por litro de acidez total e um pH 3,44. Na opinião do enólogo, estes valores indicativos das vinhas velhas “nunca entram em sobrematuração”, produzindo um grande equilíbrio entre tanino e frescura, com finesse e um potencial de evolução como se fosse um grande Vintage.

No caso do Vinha do Passadouro, trata-se de uma parcela com 28 castas (numa combinação diferente da Vinha da Marka) situada a 320 metros de altitude e com uma elevada densidade de plantação para uma vinha velha do Douro: cerca de 5500 pés. Também plantada na década de 1930, apresenta um rendimento ainda mais baixo, de 12 hectolitros por hectare. Foi produzido 2020, 2021 e 2024, com 968 garrafas neste último. E novamente, temos 6,30 gramas por litro de acidez total e um pH de 3,54.

Porto Vintage

Com vinhas situadas entre os 100 e os 480 metros de altitude e com diferentes exposições, desde 2011 a Quinta do Noval conseguiu fazer declarações de Vintage todos os anos. “São declarações pouco convencionais, porque não seguimos a regra de só declarar em anos clássicos. Mas, às vezes, são apenas 1000 caixas (12 mil garrafas), o que representa menos de 3% da nossa produção total do vinho do Porto. Fazemos isto, não porque queremos ganhar muito dinheiro, mas porque não queremos abdicar da possibilidade de produzir um Porto Vintage que expressa não só os nossos terroirs, mas também o ano. Esta é a nossa política”, explica Christian Seely.

A qualidade dos Porto Vintage percebe-se logo na vindima. Há parcelas que, historicamente, dão origem a Vintage, sendo vinificadas separadamente e mantidas até à decisão final, momento em que algumas acabam por ser rejeitadas. Segundo Carlos Agrellos, o Quinta do Passadouro Vintage resulta de seis parcelas, de um total inicial de dez, tendo quatro ficado de fora do lote final. No caso do Quinta do Noval Vintage, o processo começou com 14 parcelas, das quais quatro foram eliminadas. Isto resultou em 555 caixas (6600 garrafas) do Vintage da Quinta do Passadouro e 2166 caixas (25 992 garrafas) da Quinta do Noval.

O Noval Nacional provém sempre da mesma parcela de vinha velha, com menos de um hectare, situada em frente à casa. Foi vindimado numa manhã a 30 de Setembro. Com 167 caixas (2004 garrafas) representa apenas 0,65% do volume total do Vinho do Porto produzido na propriedade. É um vinho com uma concentração de outro mundo e uma finesse típica que só aquela parcela cirurgicamente preservada, consegue expressar num grande Porto Vintage.

(Artigo publicado na edição de Junho de 2026)

REAL COMPANHIA VELHA: 270 anos de história

Real Companhia Velha

Há momentos em que a história do vinho se cruza com a própria identidade de uma nação de forma tão visceral, que o cenário escolhido para a celebrar não pode ser fruto do acaso. Foi precisamente essa a sensação ao entrar na Alfândega do Porto, para comemorar os 270 anos da Real Companhia Velha. Pela […]

Há momentos em que a história do vinho se cruza com a própria identidade de uma nação de forma tão visceral, que o cenário escolhido para a celebrar não pode ser fruto do acaso. Foi precisamente essa a sensação ao entrar na Alfândega do Porto, para comemorar os 270 anos da Real Companhia Velha. Pela primeira vez, este edifício histórico, outrora a porta de entrada das mercadorias do mundo, testemunho da mudança de impérios e rotas comerciais, abriu as suas imponentes naves para acolher o legado vivo da mais antiga empresa vinícola de Portugal. Havia uma simetria quase literária nessa escolha: dois pilares da identidade portuense, frente a frente, a reconhecerem-se mutuamente.

Instituída a 10 de setembro de 1756, por Alvará Régio de D. José I, sob o punho visionário do Marquês de Pombal, a Real Companhia Velha nasceu para proteger e regular o comércio dos vinhos do Douro, numa época em que o vinho do Porto era já moeda de prestígio nas mesas da Europa. Chegar a 2026, com o mote “270 Anos de Excelência do Douro para o Mundo” estampado nos painéis negros e dourados que forram a nave central, mantendo a relevância, o vigor e a capacidade de surpreender, é um feito raro.

 

Pedro Silva Reis, a voz

À entrada do espaço, uma parede em cinzento antracite, com o numeral dourado “270” e as letras soltas de “Real Companhia Velha” a orbitarem em torno do logótipo comemorativo, serve de cenário às entrevistas concedidas pelo administrador da empresa, Pedro Silva Reis. De fato azul-marinho e lenço no bolso, os gestos largos de quem está habituado a discursar sobre história, mas que, acima de tudo, acredita genuinamente no que diz. As suas palavras, calmas e autorais, tão comuns neste tipo de celebrações, definem o tom do dia: “esta não é uma festa nostálgica, mas uma declaração de intenção sobre o futuro”.

A mensagem de Pedro Silva Reis é clara: a empresa que herdou do pai e que agora partilha com a geração seguinte não vive, nem pode viver, de acontecimentos do passado. Vive de os honrar com a mesma audácia com que foram construídos.

 

“Estes vinhos existem, porque nos propomos explorar diferentes ideias que nos ensinem algo passível de uso numa aplicação comercial”

 

Real Companhia Velha
Pedro Silva Reis

Tiago Silva Reis, a nova geração

Se o pai representa a continuidade e a solidez, Tiago Silva Reis, filmado no interior animado da Alfândega, com as bancas de vinho e os convidados ao fundo, encarna a transição com uma naturalidade que tranquiliza. Jovem, articulado, claramente apaixonado pelo que faz, fala do evento com o entusiasmo de quem o ajudou a conceber e não apenas de quem o herda.

Em segundo plano, a banca da Royal Oporto, com as garrafas alinhadas em prateleiras de madeira natural sobre fundo vermelho, confere ao enquadramento a profundidade cromática de um evento vínico. A casa tem um novo rosto que conhece o produto pela raiz.

 

Mapa vivo do Alto Douro Vinhateiro

O formato do evento abandonou a disposição clássica em favor de uma experiência imersiva. Distribuídas em bancas individuais, cada uma das cinco quintas da empresa apresentou-se como um universo próprio: a Quinta das Carvalhas, com as suas vinhas centenárias e uma das mais ricas coleções de castas autóctones durienses; a Quinta de Cidrô, o laboratório experimental localizado no planalto de São João da Pesqueira; a Quinta dos Aciprestes, abraçada ao curso do Douro; a Quinta do Casal da Granja, em Alijó, e a Quinta do Síbio, no vale do Roncão. No total, 557 hectares de vinha própria.

Ao longo da nave central, enormes painéis suspensos do alto da estrutura metálica verde da Alfândega do Porto, essa característica cobertura industrial que ainda cheira a século XIX, contavam a cronologia de uma casa que atravessou Invasões Francesas, o liberalismo, a ditadura e a democracia. Num deles, uma fotografia de família: Pedro Silva Reis rodeado pelos filhos, ao ar livre, numa das quintas. Sobre a imagem, o selo comemorativo “270 Years – 1756–2026”. Uma imagem que vale mais do que qualquer comunicado de imprensa: a empresa tem dono, tem nome, tem cara.

 

Real Companhia Velha
Tiago Silva Reis é o rosto da nova geração da família, na Real Companhia Velha

 

Os vinhos: do clássico ao experimental

A banca da inovação revelou uma empresa que não tem medo de se reinventar. O grande lançamento do ano, o Royal Oporto 10 Anos Tawny propõe uma entrada generosa, mas acessível no universo dos vinhos velhos da casa. Do mesmo patamar, o imponente Royal Oporto 40 Anos Tawny, com o rótulo bordô e o blend número 25036, lembra a quem visita que a Real Companhia Velha é, antes de mais, uma guardiã do tempo.

Mas a surpresa reservada para os conhecedores estava na linha Séries. Rotulagem branca, tipografia sóbria, a indicação “1.500 Garrafas” e a casta Baga na região Douro: um projeto de exploração vitícola que testa castas fora da sua zona canónica, com tiragens muito limitadas. Nas palavras de Pedro Silva Reis: “a Real Companhia Velha representa a procura de novos vinhos. Estes vinhos existem, porque nos propomos explorar diferentes ideias que nos ensinem algo passível de uso numa aplicação comercial.” É a linguagem da curiosidade científica a entrar pela adega dentro.

 

Futuro de família e de Douro

Ao final do dia, entre os 800 convidados que enchiam as naves da Alfândega, a narrativa do evento fechava-se com coerência, uma empresa que nasceu por decreto régio para proteger um território e que, 270 anos depois, continua a fazê-lo, agora também através da nova geração, dos vinhos experimentais, da garrafa redesenhada e do cenário escolhido para a celebração. Os homens criam as efemérides. O rio, a terra e a paciência permitem que a história continue a ser escrita. A Real Companhia Velha parece estar pronta para os próximos 270 anos.

(Artigo publicado na edição de Junho de 2026)

Há uma nova esplanada em Celeirós

Com o verão no auge, que tal conhecer o Casal de Celeirós Visitors’ Center, no Douro, onde há uma nova esplanada a céu aberto? Está instalada no topo do edifício e foi criada para a realização de provas vínicas (a partir de €20). Ao todo, são 11. Estão disponíveis as clássicas e as de introdução […]

Com o verão no auge, que tal conhecer o Casal de Celeirós Visitors’ Center, no Douro, onde há uma nova esplanada a céu aberto? Está instalada no topo do edifício e foi criada para a realização de provas vínicas (a partir de €20). Ao todo, são 11. Estão disponíveis as clássicas e as de introdução ao vinho do Porto, bem como as mais segmentadas e exclusivas, centradas em terroirs distintos, vinhos do Porto Tawny, vinhos moscatel, rosés e brancos, e podem ser acompanhadas por degustações de produtos tradicionais, como azeite, tábuas de queijos e enchidos portugueses, bolachas regionais e amêndoas da terra. A oferta é complementada pela calmaria da aldeia histórica de Celeirós e pela vista privilegiada para os vinhedos da região.

Disponíveis todos os dias, das 10h00 às 18h00, as provas de vinhos são antecedidas pela visita às vinhas desta propriedade pertencente à The Fladgate Partnership, à sala de estágio dos vinhos e às caves de envelhecimento dos vinhos fortificados. Para uma experiência completa, fica a sugestão da The Manor House de Celeirós, a unidade hoteleira do mesmo grupo, com piscina exterior, e a Casas das Pipas Restaurant.

ENOTURISMO: QUINTA DA CÔRTE

Quinta da Côrte

Situada entre o Baixo Corgo, mais húmido e verdejante, e o Douro Superior, mais seco, quente e extremo, a sub-região do Cima Corgo ocupa uma posição de charneira. É território de equilíbrio, mas não de facilidade. Aqui, a vinha cresce entre forças opostas e as uvas recebem calor suficiente para amadurecer com intensidade, mas conserva, […]

Situada entre o Baixo Corgo, mais húmido e verdejante, e o Douro Superior, mais seco, quente e extremo, a sub-região do Cima Corgo ocupa uma posição de charneira. É território de equilíbrio, mas não de facilidade. Aqui, a vinha cresce entre forças opostas e as uvas recebem calor suficiente para amadurecer com intensidade, mas conserva, em muitos locais, a frescura necessária para que os vinhos não se tornem apenas potentes. O resultado traduz-se numa região de maturações consistentes, mas também de nuances, onde a altitude, as encostas e a exposição solar mudam o carácter da matéria-prima.

A orografia é outro um dos grandes fatores desta sub-região. As vinhas avançam por encostas inclinadas, patamares, socalcos e pequenos vales, que desenham uma paisagem de rara dramaticidade. O homem não encontrou aqui uma terra pronta a ser cultivada. Teve de a construir, pedra sobre pedra, muro sobre muro, transformando a montanha em vinha e a dificuldade em património. A viticultura é também uma forma de arquitetura, uma maneira de organizar o impossível.

Os solos, dominados pelo xisto, dão à videira uma condição quase ascética. São solos pobres, pedregosos, fraturados, com pouca generosidade aparente. No entanto, é precisamente dessa pobreza que nasce parte da grandeza dos vinhos. A raiz é obrigada a procurar fundo, a insinuar-se nas fissuras da rocha, a vencer a secura e a escassez. A videira aprende, assim, uma lição antiga, aquilo que é fácil raramente produz profundidade.

Já o clima do Cima Corgo é marcado por uma transição progressiva. À medida que se avança para o interior do vale duriense, diminui a influência atlântica e aumentam o calor, a secura e as amplitudes térmicas. A chuva, mais moderada que no Baixo Corgo e menos escassa que no Douro Superior, coloca a sub-região do Cima Corgo num ponto intermédio particularmente interessante. Há água suficiente para evitar, em muitos anos, o sofrimento extremo da videira, mas não tanta que dilua a concentração. É uma pluviosidade de medida difícil, quase filosófica, nem excesso, nem ausência; apenas o bastante para manter viva a tensão. É nessa tensão que o Cima Corgo encontra a sua assinatura. Os microclimas multiplicam-se de encosta para encosta, consoante a exposição ao sol – uma vinha virada a sul amadurece de forma diferente de uma vinha voltada a norte. As cotas mais altas podem preservar acidez e elegância, enquanto as zonas mais baixas e quentes podem oferecer corpo, maturação e densidade.

Quinta da côrte

Vinhas velhas, arquivos vivos

As castas tintas encontram aqui um dos seus palcos naturais. Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz, Tinta Barroca, Tinta Amarela e Sousão fazem parte do vocabulário essencial da região. Cada uma contribui com a sua voz. Umas trazem perfume, outras estrutura, umas dão cor, outras frescura, umas oferecem fruta madura, outras firmeza tânica. As castas brancas – Rabigato, Viosinho, Gouveio, Códega do Larinho e Malvasia Fina – ajudam a desenhar vinhos de maior tensão, sobretudo quando plantadas em altitude ou em exposições menos castigadas pelo sol.

Mas a verdadeira alma do Cima Corgo está, muitas vezes, nas vinhas velhas, onde várias castas partilham a mesma parcela como uma comunidade antiga. São arquivos vivos que guardam decisões tomadas por gerações anteriores, adaptadas ao relevo, ao clima e à experiência. Ali, a complexidade advém de uma sabedoria rural, que, muito antes da teoria, percebeu que a diversidade é uma forma de equilíbrio.

Os vinhos tintos do Cima Corgo costumam revelar uma combinação rara entre concentração e elegância, têm cor profunda, fruta madura, notas florais, especiarias, esteva, taninos firmes e uma capacidade natural para evoluir em garrafa. A sua força está na proporção. Têm músculo, mas também nervo, têm densidade, mas também ritmo, têm presença.

Nos brancos, a sub-região mostra uma faceta menos óbvia, mas cada vez mais valorizada. As vinhas de altitude, os solos de xisto e as exposições menos soalheiras e, por conseguinte, mais frescas, permitem criar vinhos com acidez firme, textura mineral e grande vocação gastronómica. São brancos que não se limitam à leveza aromática. Trazem pedra, citrino, ervas secas, fruta contida e persistência.

O Cima Corgo é igualmente território fundamental para os grandes Vinhos do Porto. A maturação das uvas, a concentração fenólica e a riqueza estrutural das castas tintas fazem desta sub-região uma origem privilegiada para vinhos intensos, profundos e longevos. Aqui, Porto e Douro DOC são duas expressões da mesma matriz.

Memórias regionais à mesa

O acervo gastronómico duriense é uma herança de gestos, de lume brando, de mãos calejadas, de panelas que guardam o tempo. À mesa sente-se o perfume da terra. O azeite contém a memória das oliveiras antigas. O pão conserva o calor do forno comunitário. Os enchidos, os presuntos, as carnes fumadas e curadas são o reflexo de invernos longos, de matanças partilhadas, de famílias reunidas em torno de um ritual onde nada se desperdiçava. A cozinha era baseada, antes de tudo, na ética de aproveitar, respeitar, prolongar.

Cabrito assado, arroz de forno, feijoada à transmontana, rancho, posta, bola de carne e peixes do rio, quando o rio ainda se dava com generosidade, transpõem uma verdade sem artifício. São sabores telúricos, comida de casa, de festa e de trabalho. Comida que sacia e reconcilia o corpo com a origem.

A doçaria, por sua vez, revela o lado íntimo deste património, com os doces de ovos, as cavacas, os folares, a aletria, o arroz-doce, as compotas de fruta madura, a amêndoa e o mel. Tudo parece nascer de uma delicadeza doméstica, de uma sabedoria feminina muitas vezes anónima, transmitida sem tratados, mas com precisão. Cada doce guarda uma festa, uma promessa, uma romaria, um domingo.

Falar do acervo gastronómico desta parte do Douro é, portanto, falar de uma biblioteca sem estantes, mas sim de salgadeiras, tachos, fornos, adegas, lagares e toalhas de linho. As páginas escrevem-se com aromas de alho, louro, vinho, fumo, azeite e canela. Os leitores somos nós, sempre que nos sentamos à mesa com disponibilidade para provar e sermos felizes.

Num tempo em que a globalização tende a uniformizar o gosto, esta cozinha permanece como ato de resistência e de partilha. O futuro gastronómico do Douro depende dessa capacidade de honrar a tradição sem a cristalizar e inovar sem romper o fio invisível que liga cada prato à paisagem humana. Porque a gastronomia, quando é verdadeira, pertence ao passado, mas é igualmente memória em movimento.

A decoração introduz uma vibração inesperada, com peças de artesãos locais e obras de arte distribuídas por vários recantos

 

Visão atual do vinho

Voltar ao Douro é aceitar que a paisagem nunca se repete. Há qualquer coisa de inaugural em cada chegada. Foi esse impulso, quase inevitável, que me levou à Quinta da Côrte, localizada em Valença do Douro, no concelho de Tabuaço. Integrada no portefólio do grupo Vignobles Austruy, que reúne cinco produtores em França, Portugal e Itália, esta propriedade duriense simboliza o encontro entre a visão contemporânea do vinho e uma herança profundamente enraizada na história. À frente deste projeto está Philippe Austruy, empresário francês ligado à indústria médica, mas movido por uma paixão antiga e crescente pelo universo vitivinícola.

Entre encostas austeras e luminosas, a propriedade testemunha uma história nobre marcada pelo primeiro registo de plantação de vinha em 1814. Do ponto de vista vitícola, a Quinta da Côrte apresenta uma matriz profundamente duriense, sendo ocupada por cerca de 26 hectares de vinha classificada com a Letra A, com exposição a norte, densidade média de plantação entre 3500 e 4000 pés por hectare e idade média de 40 anos. Parte significativa do património vitícola é constituída por vinhas com idades entre os 90 e os 110 anos, instaladas em socalcos tradicionais. Esta idade avançada das videiras contribui para baixos rendimentos naturais, maior profundidade radicular, maior equilíbrio vegetativo e uvas de elevada concentração, aspetos essenciais quer para vinhos tranquilos DOC Douro, quer para categorias especiais de Vinho do Porto.

Tradicionalmente ligada à produção de Vinho do Porto, a Quinta da Côrte iniciou, em 2013, uma nova etapa com a produção e engarrafamento de vinhos DOC Douro e Porto sob marca própria, após a integração no universo de Philippe Austruy. Não se tratou apenas de acrescentar um nome a um rótulo, mas de afirmar uma visão, preservar a alma da propriedade, valorizar o passado e projetá-la para o futuro, com rigor, elegância e autenticidade.

Para dar corpo a esse sonho, Philippe Austruy convidou o arquiteto e designer Pierre Yovanovitch a assumir a conceção e decoração dos interiores da casa. Desse encontro nasceu também uma amizade, fundada na sensibilidade estética e na atenção ao detalhe. A prioridade foi clara: preservar a autenticidade da Quinta da Côrte. Numa primeira fase, Pierre Yovanovitch introduziu adaptações técnicas, reabilitou e modernizou a antiga adega de Vinho do Porto, mantendo a estrutura original e o caráter que Philippe Austruy fez questão de salvaguardar. O resultado é um diálogo raro entre tradição e contemporaneidade, onde cada pedra, cada pipa e cada linha arquitetónica parecem recordar que, no Douro, inovar também é saber escutar o passado.

 

Luxo discreto

Na Quinta da Côrte, a casa renasceu de uma recuperação que não se limitou a devolver vida aos edifícios, reinventou-lhes a presença. Pierre Yovanovitch, trouxe ao lugar uma leitura contemporânea. O resultado é um espaço onde o Douro antigo dialoga com uma sensibilidade cosmopolita. A arquitetura preserva a memória, mas a decoração introduz uma vibração inesperada, peças de artesãos locais, obras de arte distribuídas com naturalidade pelos vários ambientes, fotografias, litografias e candeeiros de autor que permanecem acesos como pequenas vigílias de luz. Dispõe de oito quartos, quatro deles reservados a hóspedes, todos trabalhados sob a ideia de um luxo discreto, feito de detalhe e contenção. A roupa de cama em linho bordado, as almofadas e atoalhados com monogramas, as casas de banho revestidas a faiança artesanal portuguesa e a presença constante da arte compõem uma atmosfera onde nada parece excessivo.

Na casa principal, a traça original foi respeitada com uma linguagem atual. A biblioteca, a sala de estar e as lareiras constroem uma ideia de abrigo, de casa vivida, onde o conforto se sente antes de se explicar. Mas é na cozinha que pulsa o verdadeiro coração da Quinta da Côrte. A monumental chaminé revestida a azulejo concentra a atenção. À sua volta, o lume crepita a todas as horas, oferecendo calor, uma espécie de hospitalidade ancestral. Ao centro, a mesa ampla, revestida por uma criação original que reproduz a paisagem do Vale do Douro e a própria Quinta da Côrte, transforma cada refeição num prolongamento do território. Ao almoço e ao jantar, a mesa é palco da cozinha tradicional despretensiosa e profundamente ligada à região. Chegam pratos feitos com produtos locais, o azeite da Quinta da Côrte, a marmelada da casa e os legumes da horta.

Os espaços exteriores prolongam essa sensação de abrigo e serenidade. O alpendre abre-se a almoços demorados e jantares tranquilos nos dias mais quentes, enquanto a piscina, que parece estar suspensa sobre uma vista panorâmica para o vale do Douro, convida ao repouso. Sob a sombra das azinheiras, o tempo abranda e a paisagem impõe o seu próprio ritmo.

Para quem procura uma ligação mais ativa ao território, há trilhos entre vinhas, com diferentes níveis de dificuldade, capazes de desafiar os mais aventureiros e aproximar cada visitante da geografia viva que dá origem aos vinhos. A visita às duas adegas completa a imersão no universo duriense. Entre tradição e modernidade, o visitante descobre os bastidores da produção dos Vinhos do Porto e dos vinhos DOC Douro, compreendendo melhor o rigor, a sensibilidade e o conhecimento que sustentam cada colheita. Esse trabalho nasce da dedicação do responsável pela viticultura, Flávio Rodrigues, e da mestria da enóloga Alexandra Guedes, que desenha vinhos pensados para serem provados e serem sentidos.

Quinta da Côrte
Cátia Moura, diretora de enoturismo da Quinta da Côrte

Receber com alma

O enoturismo não se resume a uma visita, a uma prova ou a um percurso entre vinhas e memórias. Ganha rosto, presença e sensibilidade através de Cátia Moura, diretora de enoturismo, uma profissional de exceção que transforma cada encontro numa experiência de autenticidade e zelo.

Cátia Moura possui uma dessas qualidades raras que distinguem quem trabalha não apenas por competência, mas por verdadeira paixão. A sua dedicação sente-se na forma como acolhe, na atenção que dedica a cada visitante e na elegância discreta com que conduz cada momento. Há nela uma entrega serena, uma capacidade natural de fazer com que quem chega se sinta esperado, respeitado e envolvido pela identidade profunda da Quinta da Côrte.

Profissional rigorosa, simpática e profundamente comprometida com aquilo que faz, Cátia Moura representa o enoturismo no seu sentido mais nobre: a arte de contar um território através do vinho, da paisagem, da história e das pessoas. O seu conhecimento alia-se a uma sensibilidade humana rara, criando uma ponte harmoniosa entre a excelência da casa e a emoção de quem a visita. A Cátia Moura é, por conseguinte, guardiã de experiências, intérprete de um lugar e embaixadora de uma forma de receber onde o vinho se encontra com a alma.

Neste quadro de sentimento e de valor, a Quinta da Côrte é, por isso, mais do que uma propriedade duriense. É uma casa aberta sobre o vale, um lugar onde a viagem desacelera e ganha profundidade. Um território onde o enoturismo encontra o refúgio onde a natureza, a vinha e a hospitalidade se unem para recordar ao visitante que há geografias que não cabem nos mapas, porque continuam a crescer dentro de nós muito depois da partida.

A Quinta da Côrte não foi apenas um destino, foi uma pausa com sentido. Aqui fui feliz!

 

CADERNO DE VISITA

Comodidades e serviços

Línguas faladas: português, espanhol, inglês, francês

Loja de vinhos

Sala de prova: capacidade para 16 pessoas ou sala para entre 4 a 8 pessoas

Diferentes atividades e refeições: almoços ou jantares vínicos com marcação prévia e piquenique na vinha

Parque para automóveis ligeiros: capacidade para 12 carros

Parque para autocarros: junto à quinta, com capacidade para 2 autocarros

Provas comentadas (ver programas)

Wifi gratuito disponível

Visita às vinhas e à adega

Outras atividades/facilidades: Programas combinados com passeios de 4×4 ou trekkings guiados (serviços prestados por parceiros)

Eventos

Eventos corporativos: atividades com e para empresas.

Atividades team-building: atividades de enoturismo são combinadas com turismo da natureza

 

Programas e experiências

Visitas e Provas de Vinho

Découverte

Princesa DOC Douro Reserva tinto 2019 e Quinta da Côrte Porto Vinho do Porto LBV 2018

Preço: €34

Créative

Côrte DOC Douro branco 2022, Quinta da Côrte DOC Douro Grande Reserva tinto 2018 e Quinta da Côrte Vinho do Porto 10 Anos

Preço: €46

Expert

Côrte DOC Douro branco 2022, Quinta da Côrte Grande Reserva tinto 2018, Quinta da Côrte Porto Vinho do Porto LBV 2018 e Quinta da Côrte Vinho do Porto 20 Anos

Preço: €62

Premium

Princesa DOC Douro Reserva tinto 2019, Quinta da Côrte Grande Reserva tinto 2018, Quinta da Côrte Vinho do Porto Vintage 2017 e Quinta da Côrte Vinho do Porto Colheita 2015
Mínimo: 4 pax

Preço: €68

Vintage

Quinta da Côrte Porto Vintage 2015, Quinta da Côrte Porto Vintage 2017, Quinta da Côrte Porto Vintage 2020 e Quinta da Côrte Porto Vintage 2021
Mínimo: 4 pax

Preço: €92

 

Notas e horários

Horários de visita disponíveis

11h00, 15h00 e 17h00 (verão)

11h00, 14h00 e 16h00 (inverno)

Experiências

Passeios pelas vinhas centenárias

Passeios de barco

Vindimas, pisa a pé em lagares de granito e lagaradas tradicionais

 

Piquenique nas vinhas ou a bordo de um veleiro

Experiência disponível entre maio e outubro, das 12h30 às 14h30, para duas pessoas. O piquenique pode ser realizado junto às vinhas ou, em opção exclusiva, a bordo de um veleiro, com transferes incluídos. O serviço inclui um cesto tradicional, com produtos regionais: vinho DOC Douro branco ou tinto, fumeiros, salada com requeijão e vinagrete, covilhetes, fruta, água, sumo natural ou refrigerante e sandes de pão de caco com rosbife e rúcula. Reserva obrigatória com 24 a 48 horas de antecedência. Alergias ou pedidos especiais devem ser comunicados no ato da reserva.

Preço: €50

Nota: as experiências estão sujeitas à época do ano, nomeadamente à vindima e ao ciclo da vinha.

 

Refeições

A Quinta da Côrte disponibiliza refeições leves, com base numa lista constituída por sugestões de snacks, em vários espaços da propriedade, com produtos regionais, ingredientes da horta e pomares da quinta, e a cultura vínica à mesa. Os jantares incluem um menu diário composto entrada, prato principal, com opção de peixe ou carne, e sobremesa. Impera a reserva prévia até às 17h30 do próprio dia.

Horário: das 19h30 às 20h30

Preço: €47

Nota: caso o hóspede opte por vinho a copo, é aplicada uma taxa adicional de €28 ou €34 por pessoa, incluindo 3 copos de vinho.

 

Privatização da casa

Pode ser privatizada para celebrações, eventos íntimos ou reuniões privadas, com uma equipa dedicada à disposição. Tudo é feito mediante consulta prévia

Reservas:

enoturismo.reservas@quintadacorte.com

Contactos:

Quinta da Côrte

5120-491 Valença do Douro

www.quintadacorte.com

Tel.: +351 964 536 200

QUINTA DA VACARIA: Na margem certa do Douro

Quinta da Vacaria

A eterna discussão entre a margem esquerda e a direita de Bordéus, que apaixona enófilos por este mundo fora, e sobre qual nelas se produzem os melhores vinhos, não tem grande paralelo no Douro. Na margem esquerda do rio Garonne e do Estuário de Gironde, o solo é rico em cascalho e os vinhos são […]

A eterna discussão entre a margem esquerda e a direita de Bordéus, que apaixona enófilos por este mundo fora, e sobre qual nelas se produzem os melhores vinhos, não tem grande paralelo no Douro. Na margem esquerda do rio Garonne e do Estuário de Gironde, o solo é rico em cascalho e os vinhos são mais austeros, estruturados e potentes, com grande capacidade de guarda; são elaborados a partir da casta predominante, a Cabernet Sauvignon, logo seguida pela Merlot, sendo as principais apelações Margaux, Pauillac, Saint-Julien, Saint-Estèphe entre outras. Na Margem Direita, por seu turno, os solos são predominantemente argilo-calcários. Ali produzem-se vinhos mais macios, frutados e sedosos, talvez mais sedutores e fáceis de beber quando jovens, com a predominância das castas Merlot e Cabernet Franc. Saint-Émilion e Pomerol são, neste caso, as cabeças de cartaz.

Já a escolha entre a margem direita (Norte) e a margem esquerda (Sul) do Douro depende mais do objectivo a que nos propomos, do que propriamente por ter uma influência directa nos vinhos produzidos. Por outras palavras, a margem direita, com mais sol, é tradicionalmente mais vinícola e turística, enquanto a esquerda oferece paisagens mais rurais, históricas e íngremes. No entanto, ambas são verdadeiramente deslumbrantes.

Geralmente mais ensolarada, a margem direita, alberga muitas das quintas mais famosas da região e a zona histórica de Peso da Régua; é onde o Sol incide com mais intensidade durante o dia, factor ideal para a maturação das uvas. Além disso, é ainda marcada por afluentes importantes, como o Corgo, o Tua e o Sabor. Já a margem esquerda oferece vistas incríveis sobre a margem direita e áreas rurais muito cénicas, com declives acentuados em xisto.

À direita do rio

A Quinta da Vacaria está situada na margem direita do Rio Douro. Localizada no coração do Baixo Corgo, próximo de Peso da Régua, a propriedade estende-se na confluência dos rios Corgo e Douro e apresenta altitudes que variam entre os 50 e os 300 metros. Beneficia de um clima ameno, favorável para o desenvolvimento gradual e maturação da uva, de um solo inclinado, difícil e agreste, repleto de pedras lascadas em consequência da degradação do xisto. A parte vegetativa da videira tira partido desta rocha xistosa, já que o subsolo é permeável, permitindo que as raízes das videiras consigam encontrar, a uma grande profundidade, os nutrientes e a humidade essenciais ao vigor e à produtividade da planta. Com 42 hectares, é constituída por inúmeras parcelas de vinha. Há duas muito antigas na Vinha do Corgo e do Vale Bastardo. Ainda sobre a primeira e nas encostas suaves, estão as novas vinhas instaladas em fileiras verticais sob a técnica de “vinha ao alto”, enquanto nas encostas mais íngremes, a implantação das videiras foi feita de acordo com a técnica do chamado novo modelo de socalco. Junto à nova adega, optou-se pelo modelo de patamares estreitos de 1,5 metros, no seguimento de uma viticultura sustentável.

Planear a viticultura para o futuro é um dos objectivos traçados pela equipa desta casa, daí a necessidade de se implementar uma estratégia de reconversão do encepamento, no sentido de se seleccionar castas mais resistentes à seca e/ou às doenças resultantes das actuais condições climáticas. A viticultura sustentável regida pelas boas práticas agrícolas e em prol do ecossistema, por forma a se atingir a harmonia entre produção e território.

Quanto à enologia, esta arte está sob a responsabilidade de Jean-Hugues Gros, francês radicado no Douro desde 1999 e que dispensa apresentações, e de João Menezes. Ambos assumem o objectivo de consolidar um projecto que quer elevar o reconhecimento do Douro enquanto região vitivinícola, através das melhores práticas agrícolas e de vinificação, tendo como inspiração a diversidade deste vetusto terroir.

Mais de 400 anos de história

A Quinta da Vacaria colocou no mercado os primeiros tintos da colheita de 2022, com destaque para o Reserva tinto, com 18 mil garrafas e grandes formatos até 27 litros, e o Touriga Nacional, com 2500 garrafas e formatos de até aos cinco litros. Num ano vitivinícola marcado por temperaturas elevadas no Douro, a colheita de 2022 resultou em vinhos de “maior concentração de fruta”, mantendo “elegância, frescura e equilíbrio”, explica Miguel Esteves, gestor de negócio da Quinta da Vacaria. “São tintos que revelam intensidade com precisão e tensão, refletindo uma leitura contemporânea da região”, acrescenta. As restantes referências da colheita 2022, deverão chegar ao mercado em breve, reforçando o portefólio da Quinta da Vacaria no segmento premium, assente na “autenticidade, tipicidade e expressão fiel do Douro”.

Sobre a história da Quinta da Vacaria, aquela tem sido contada a partir de 1616, ano em que foi incorporada no património da Companhia de Jesus, por intermédio de D. Frei Luís Álvares de Távora, que mandou erigir uma casa com cinco salas, no piso superior, e três lagares e duas adegas, no térreo. Cerca de 150 anos depois, por volta de 1760, a memória descritiva da propriedade revela a existência de vinhas, oliveiras, montes, ribeiras, azenhas, uma casa e adega, lagares de vinho e azeite, cardanho para os trabalhadores e, próximo deste, uma capela da invocação de Nossa Senhora do Bom Sucesso, com retábulo dourado. O património edificado era complementado por um armazém de sal e casas de recolha dos barqueiros.

Volvidos mais de quatro séculos desde o início da história contada sobre a propriedade, decorre a abertura da unidade hoteleira Torel Quinta da Vacaria, em 2024, marco importante nesta narrativa, tornando este um local de referência, não apenas para a produção de vinhos, mas também para a hospitalidade e o turismo de excelência na região do Douro, com a mais-valia de o restaurante de fine dining, o Schistó, ao comando do Chef Vítor Matos, ter sido distinguido com uma estrela Michelin na edição 2026 do Guia Michelin Portugal.

Em suma, a Quinta da Vacaria é mais do que uma propriedade, é um símbolo de permanência no coração da mais antiga região demarcada do mundo. A qualidade excepcional e o reconhecimento no universo vitivinícola não acontecem da noite para o dia, exigem séculos de aprimoramento. Afinal, “produzir vinho é relativamente simples, só os primeiros 200 anos são difíceis” foi a frase mais célebre da Baronesa Philippine de Rothschild. Pois na Vacaria já lá moram mais de 400 anos!

(Artigo publicado na edição de Maio de 2026)