Editorial: O culto de acidez

Editorial

Editorial da edição nrÂș 110 (Junho de 2026) Com a aproximação do verĂŁo, procuram-se vinhos mais leves: brancos, rosĂ©s, espumantes e tintos delicados. A frescura torna-se a palavra do dia, assim como tudo o que lhe estĂĄ associado – vivacidade, tensĂŁo, suculĂȘncia, acidez. E talvez nunca se tenha falado tanto de acidez como hoje. Uma […]

Editorial da edição nrÂș 110 (Junho de 2026)

Com a aproximação do verĂŁo, procuram-se vinhos mais leves: brancos, rosĂ©s, espumantes e tintos delicados. A frescura torna-se a palavra do dia, assim como tudo o que lhe estĂĄ associado – vivacidade, tensĂŁo, suculĂȘncia, acidez. E talvez nunca se tenha falado tanto de acidez como hoje.

Uma vez, numa feira de vinhos num paĂ­s estrangeiro, troquei ideias com um sommelier que estava a provar ao meu lado. Questionada sobre o que achei de um monovarietal de Vermentino, respondi-lhe que tinha gostado, encontrando-o bastante equilibrado em termos de aroma, corpo e frescura. Seguiu-se um comentĂĄrio â€œĂ© porque tu nĂŁo gostas de acidez tanto como eu”. NĂŁo Ă©, porĂ©m, uma questĂŁo de gosto. A acidez nĂŁo existe isoladamente, mas sim, como parte integrante e fundamental na matriz de um vinho. SerĂĄ que vale a pena elevĂĄ-la ao culto?

Tal como na moda, as tendĂȘncias no mundo do vinho funcionam como um pĂȘndulo que oscila entre extremos. As calças skinny e as silhuetas justas sĂŁo substituĂ­das por modelos largos e oversize. No vinho, o movimento Ă© semelhante: o que esteve em voga torna-se dĂ©modĂ©, e vice-versa, desvaloriza-se aquilo que antes era o padrĂŁo a seguir.

Durante dĂ©cadas, o prestĂ­gio no vinho esteve frequentemente associado Ă  maturidade da fruta, ao volume de boca e Ă  riqueza aromĂĄtica e gustativa. Nos anos 90 e inĂ­cio dos anos 2000, muitas das referĂȘncias mais reconhecidas internacionalmente procuravam concentração, extração, ĂĄlcool elevado, textura densa e forte presença de barrica. Ainda hĂĄ poucos anos, a acidez nĂŁo tinha o protagonismo que hoje lhe Ă© atribuĂ­do. Numa conversa recente, um produtor contou-me que, quando lançou os seus primeiros vinhos no Alentejo, em 2013, foi apelidado de “água com ĂĄcido” por apresentar vinhos menos frutados e com acidez elevada.

Hoje, o paradigma alterou-se. As vindimas anteciparam-se; a amplitude tĂ©rmica, a altitude e a influĂȘncia marĂ­tima passaram a dominar o discurso do vinho. É aqui que a acidez, lida como frescura, subiu ao palco, proclamando autenticidade, precisĂŁo e qualidade. O vocabulĂĄrio vĂ­nico ganhou descritores como “nervo”, “tensĂŁo”, “energia” e “verticalidade”. E esta mudança nĂŁo Ă© apenas enolĂłgica, mas tambĂ©m psicolĂłgica, amplificada por crĂ­ticos e sommeliers, o que, por si sĂł, nĂŁo Ă© um problema.

A acidez é, de facto, um componente estruturante do vinho, sobretudo nos brancos. Para além de conferir frescura e de facilitar a harmonização gastronómica, uma acidez mais elevada, associada a um pH mais baixo, contribui para uma boa evolução em garrafa. Quem participou em provas verticais de Loureiros ou Alvarinhos, ou provou brancos e tintos antigos de Colares, do Dão ou da Bairrada, percebe do que estou a falar.

Mas quando a busca pela frescura se torna uma obsessĂŁo e as uvas submaduras sĂŁo colocadas no altar da acidez, surgem vinhos magros, acĂ­dulos, com notas verdes e uma tensĂŁo que lembra fios descarnados. Costumo dizer que a acidez Ă© uma grande virtude do vinho, mas quando Ă© a Ășnica, este torna-se monocĂłrdico, demasiado vertical, frio e metĂĄlico – como um varĂŁo sem dançarina Ă  volta; falta-lhe corpo, dimensĂŁo estĂ©tica e complexidade emocional.

Por isso, e voltando à questão inicial, reforço que gosto da acidez, mas não quando fica sozinha em palco. V.Z.

Editorial: Na dĂșvida, beba rosĂ©

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Editorial da edição nrÂș 109 (Maio de 2026) Vamos assumir: os rosĂ©s chegaram Ă  liga dos campeĂ”es do vinho. HĂĄ 20 ou 25 anos, nem eram tema de conversa. Bebiam-se, quando muito, mas nĂŁo se lhes dedicava tempo, painĂ©is de prova ou capas de revista. Primeiro, porque nĂŁo havia muitos; depois, porque raramente tinham qualidade. […]

Editorial da edição nrÂș 109 (Maio de 2026)

Vamos assumir: os rosés chegaram à liga dos campeÔes do vinho. Hå 20 ou 25 anos, nem eram tema de conversa. Bebiam-se, quando muito, mas não se lhes dedicava tempo, painéis de prova ou capas de revista. Primeiro, porque não havia muitos; depois, porque raramente tinham qualidade. Hoje falamos e discutimos estilos de rosés, se devem ter mais acidez ou menos tanino, se é um disparate beber um rosé com quatro anos de estågio ou, pelo contrårio, um sinal de elevação do produto. Nem de todos os confrontos de ideias nasce a verdade, mas, no mínimo, servem para chamar a atenção e talvez reflectir.

Foi em 1682, em Argenteuil, na regiĂŁo de Île-de-France, que o termo “rosĂ©â€ surgiu pela primeira vez, nĂŁo como invenção de um novo estilo de vinho, mas como nome tardio para uma prĂĄtica muito mais antiga. TambĂ©m em França foi criada a primeira designação de origem exclusiva para rosĂ©s: a Tavel AOC, em 1936. Os vinhos rosados jĂĄ se produziam na regiĂŁo; o estatuto apenas veio formalizar uma identidade existente. E nĂŁo eram vinhos pensados como leves ou de ocasiĂŁo. Muitos exemplares apresentavam estrutura, corpo e capacidade de envelhecimento, sendo historicamente vistos como rosĂ©s “sĂ©rios”, com lugar Ă  mesa, bem antes da vaga moderna de vinhos pĂĄlidos e descomplicados.

Os rosĂ©s da Provence quase nĂŁo ultrapassavam as fronteiras regionais e estavam longe de ser uma referĂȘncia aspiracional. AliĂĄs, antes das dĂ©cadas de 1980 e 1990, talvez o Ășnico rosĂ© verdadeiramente global fosse o nosso Mateus RosĂ©, que iniciou a sua marcha pelo mundo em 1942. A partir dos anos 2000 começa a construção de imagem de um rosĂ©: cor pĂĄlida, garrafa elegante, um imaginĂĄrio mediterrĂąnico associado, tudo orientado para um consumo visual. Provence torna-se, entĂŁo, praticamente sinĂłnimo de rosĂ© no mercado global.

Hoje hĂĄ rosĂ©s para todos os gostos e para todas as carteiras. Existem profissionais do sector que se especializaram no tema, como por exemplo a britĂąnica Elizabeth Gabay, uma das maiores autoridades mundiais em rosĂ©. TambĂ©m na Grandes Escolhas, temos vĂĄrios colegas que sĂŁo verdadeiros advogados da categoria. O Concours Mondial de Bruxelles (CMB) organiza, desde 2022, uma sessĂŁo dedicada exclusivamente a rosĂ©s. O concurso “Escolha do Mercado” da Grandes Escolhas, que terĂĄ lugar a 18 de Maio, acrescentou este ano, uma categoria especĂ­fica para rosĂ©s, a par com brancos e espumantes.

No entanto, continua a existir uma tensĂŁo de fundo, que mantĂ©m o rosĂ© um passo atrĂĄs de outras categorias. JĂĄ ouvi vĂĄrias versĂ”es de uma afirmação, cujo sentido se resume a isto: “hĂĄ sempre um branco ou um tinto melhor”. Foi repetida tantas vezes que quase se confunde com um senso comum. Talvez porque temos uma tendĂȘncia para hierarquizar – melhor ou pior, acima ou abaixo. Na minha experiĂȘncia, porĂ©m, quando nĂŁo apetece nem um branco nem um tinto, hĂĄ sempre espaço para um rosĂ©. LĂĄ em casa, estes vinhos nĂŁo duram. NĂŁo porque nĂŁo resistam ao tempo, mas porque ninguĂ©m lhes resiste a eles.

Nesta edição, propomos uma selecção que ronda as quatro dezenas de rosĂ©s de grande qualidade, com preços particularmente apelativos. Vale tambĂ©m a pena ler o texto de Nuno Oliveira Garcia que Ă© uma ode e, ao mesmo tempo, uma reflexĂŁo sobre este mundo cor-de-rosa. E mais importante, a peça inclui excelentes sugestĂ”es de harmonização. É mesmo uma boa altura para dizer: nĂŁo Ă© branco, nem tinto. É rosĂ©!  V.Z.

Editorial: Os Melhores do Ano

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Editorial da edição nrÂș 107 (Março de 2026) Março Ă© o mĂȘs dos prĂ©mios Grandes Escolhas, este ano na sua 9ÂȘ edição. Na verdade, para vĂĄrios dos membros desta equipa redactorial, em particular os mais antigos, esta Ă© a 29ÂȘ vez que passamos por este momento, sempre tĂŁo especial, em que escolhemos vinhos, pessoas, empresas […]

Editorial da edição nrÂș 107 (Março de 2026)

Março Ă© o mĂȘs dos prĂ©mios Grandes Escolhas, este ano na sua 9ÂȘ edição. Na verdade, para vĂĄrios dos membros desta equipa redactorial, em particular os mais antigos, esta Ă© a 29ÂȘ vez que passamos por este momento, sempre tĂŁo especial, em que escolhemos vinhos, pessoas, empresas e projectos, premiando o talento, a iniciativa, o pioneirismo, a visĂŁo, o saber fazer.

Os muitos anos que jĂĄ levamos a desempenhar esta tarefa nĂŁo atenuam, longe disso, a dificuldade da escolha. Pelo contrĂĄrio: parece que Ă© cada vez mais complicado destacar este em detrimento daquele; parece que, no final, apurados os vencedores, ficam cada vez mais nomes de fora, nomes para os quais olhamos com a sensação de que a sua ausĂȘncia da lista de premiados Ă©, de alguma forma, injusta. Resta-nos o conforto de saber que isso se deve Ă  abundĂąncia de qualidade no sector do vinho em Portugal. E a consciĂȘncia de que, dentro da subjectividade da escolha, demos o nosso melhor, com rigor e independĂȘncia.

Entre os muitos milhares de vinhos provados em 2025 destacamos o jĂĄ habitual Top30. E aos provadores foi dada a tarefa adicional de propor e votar os vencedores em cada categoria. Ficaram cinco nomes em quase cinco mil! Nomes inquestionĂĄveis, sem dĂșvida, pela sua qualidade e personalidade: o espumante Quinta das BĂĄgeiras Grande Reserva 2020; o branco Anselmo Mendes A Torre 2019; o rosĂ© Phenomena 2024; o tinto Casa da Passarella Vindima 2014; o fortificado Kopke Tawny 80 anos.
Vinhos que ganham em ser servidos a uma boa mesa e por mĂŁos sabedoras. Mesas como as dos restaurantes SÁLA, em Lisboa, Colmeia, na Guarda, ou Amassa, em SantarĂ©m, vencedores nas suas categorias. E mĂŁos como as da somelliĂšre NĂĄdia DesidĂ©rio, que faz do serviço de vinhos uma arte. A garrafeira A Casa, em Alcobaça, acentua a descentralização dos espaços de excelĂȘncia dedicados aos apreciadores, enquanto a loja Mercearia Criativa e o wine bar Prova mantĂȘm Lisboa e Porto no mapa das coisas boas.

A investigadora Olga Cavaleiro viu o seu vasto trabalho em torno da cozinha portuguesa merecedor do prĂ©mio “David Lopes Ramos”. JĂĄ a Rota da Bairrada colocou uma regiĂŁo a pensar o enoturismo de forma integrada e o grupo Vignerons de Portugal passou uma mensagem de grande impacto: fazer vinhos apenas com as nossas uvas, na nossa adega, faz diferença. Diferença tambĂ©m evidente nos vinhos açorianos Materramenta, prĂ©mio Singularidade. Pelo trabalho de recuperação das castas antigas do DĂŁo (jĂĄ provaram o branco de Luzidio ou o tinto de Coração de Galo?) foi destacada a Lusovini.

No que a produtores respeita, em apenas dois anos, a famĂ­lia LeitĂŁo Machado trouxe Altas Quintas de regresso Ă  ribalta; a Quinta da Rede revelou-nos o lado mais “atlĂąntico” do Douro, fresco e vibrante; a histĂłrica Borges reafirmou-se com uma dinĂąmica e consistĂȘncia invejĂĄveis; com o projecto RaĂ­zes, a CARMIM revelou ambição e posicionamento invulgares numa adega cooperativa; e a Real Companhia Velha apresentou um notĂĄvel portefĂłlio de tawnies.

Por fim, aqueles que fazem acontecer os vinhos. Pessoas como a enóloga Marta Lourenço, que faz a ponte entre o passado e o futuro nas emblemåticas Murganheira e Raposeira; ou Francisco Albuquerque, criador e guardião de inesquecíveis Madeira; ou o grande, enorme Senhor do Vinho, pelo conhecimento, responsabilidade, forma de estar na vida, que é António Ventura.
Termino com uma nota pessoal.

Este Ă© o meu Ășltimo editorial, enquanto director de uma publicação de vinhos. Como apontamento curioso, tem o nĂșmero 433, correspondendo a outros tantos meses. Terei agora mais tempo para escrever crĂłnicas, artigos de opiniĂŁo, reportagens, notas de prova, entrevistas. Vai saber-me muito bem. L.L.

Editorial: Vinho? Nem vĂȘ-lo!

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Editorial da edição nrÂș 106 (Fevereiro de 2026) Imaginem o mundo sem vinho. Um mundo onde sĂ©culos de cultura, economia e conhecimento agrĂ­cola e enolĂłgico seriam descartados em prol de um zelo sanitĂĄrio. Nada de brindes ou convĂ­vios, nada de partilha ou harmonização de vinho e comida. Apenas uma sensação de satisfação de que conseguimos […]

Editorial da edição nrÂș 106 (Fevereiro de 2026)

Imaginem o mundo sem vinho. Um mundo onde sĂ©culos de cultura, economia e conhecimento agrĂ­cola e enolĂłgico seriam descartados em prol de um zelo sanitĂĄrio. Nada de brindes ou convĂ­vios, nada de partilha ou harmonização de vinho e comida. Apenas uma sensação de satisfação de que conseguimos reduzir um ou dois por cento de risco estatĂ­stico comunicado pelas instituiçÔes oficiais, incluindo a Organização Mundial da SaĂșde, que tanto se preocupam com o nosso bem-estar. Nesta realidade, eu ficaria sem trabalho, Ă© certo, mas serĂĄ que o mundo realmente se tornaria mais saudĂĄvel?

O “tsunami” de campanhas anti-ĂĄlcool, que atingiu a indĂșstria vitivinĂ­cola no Ășltimo ano, promove uma narrativa que demoniza o vinho ao colocĂĄ-lo indiscriminadamente no mesmo saco de todas as bebidas alcoĂłlicas, como se fosse o responsĂĄvel directo por uma extensa lista de doenças, ignorando contextos culturais, padrĂ”es de consumo e diferenças entre produtos.

Longe vai o tempo em que beber vinho era, em termos sanitĂĄrios, menos arriscado do que beber ĂĄgua (embora, em alguns paĂ­ses, ainda seja verdade). Hoje, o vinho Ă© tratado como inimigo da saĂșde pĂșblica; ao mesmo tempo, a cannabis Ă© reabilitada e ressurge quase como uma nova panaceia da indĂșstria do bem-estar. NĂŁo sou apologista de teorias de conspiração, mas nĂŁo posso ignorar a realidade: as vendas do vinho continuam a descer a nĂ­vel mundial, enquanto a indĂșstria legal da cannabis movimenta quase 70 mil milhĂ”es de dĂłlares por ano, alimentada por grandes investidores, farmacĂȘuticas e multinacionais de bebidas. Os setores tradicionais, como a vitivinicultura, tornam-se alvos convenientes para campanhas alarmistas. E como normalmente acontece com temas polĂ©micos, poucos se dĂŁo ao trabalho de ir alĂ©m dos tĂ­tulos sensacionalistas. Leem na diagonal, veem os bonecos de infogrĂĄfica e retĂȘm os slogans do gĂ©nero “o vinho provoca cancro”, que depois se propagam como fogo nas redes sociais. Raramente alguĂ©m lĂȘ os estudos originais, que muitas vezes nem estĂŁo disponĂ­veis ao pĂșblico. Mas o que estĂĄ sempre ao alcance sĂŁo artigos anti-ĂĄlcool repletos de nĂșmeros assustadores que, muitas vezes, distorcem a realidade pela forma como os riscos estĂŁo apresentados. A maior parte das publicaçÔes que relacionam vinho e doenças apoia-se em estudos que identificam correlaçÔes estatĂ­sticas, mas nĂŁo demonstram a causalidade directa. Estes estudos nĂŁo controlam de forma suficiente variĂĄveis como dieta, sedentarismo, fatores socioeconĂłmicos, poluição, estilo de vida, outras doenças ou medicação associada. A medicina nĂŁo Ă© uma ciĂȘncia exacta, como fĂ­sica ou matemĂĄtica, porque o corpo humano Ă© complexo e nem sempre previsĂ­vel. O conhecimento evolui Ă  medida que novas investigaçÔes surgem, muitas vezes para corrigir ou contrariar conclusĂ”es anteriores. As organizaçÔes governamentais e reguladoras, com as suas agendas polĂ­ticas, acabam inevitavelmente por influenciar a forma como estes estudos sĂŁo comunicados.

NĂŁo quero negar o Ăłbvio: o vinho contĂ©m ĂĄlcool, cujo consumo abusivo Ă©, realmente, prejudicial Ă  saĂșde, tal como o consumo abusivo de açĂșcar, sal e atĂ© ĂĄgua. Existe uma diferença abismal entre beber vodka, para cair redondo no sofĂĄ, e desfrutar uma experiĂȘncia enogastronĂłmica, em que o vinho Ă© um elemento cultural, social, sensorial e intelectual, se quiserem, e nĂŁo um atalho para a embriaguez. A moderação Ă© essencial e tem raĂ­zes na cultura gastronĂłmica e vĂ­nica, que pode e deve ser ensinada. Neste mundo – ainda com vinho, felizmente – continuamos a precisar de bom senso e, ocasionalmente, de um bom copo para enfrentar a realidade. AliĂĄs, alguĂ©m jĂĄ se lembrou de estudar o impacto do vinho na felicidade humana? V.Z.

Editorial: 2026

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Editorial da edição nrÂș 105 (Janeiro de 2026) O primeiro editorial do ano Ă©, normalmente, dedicado Ă quele exercĂ­cio de adivinhação que os cronistas adoram fazer, apontando padrĂ”es e tendĂȘncias para os 12 meses que se seguem. Para nĂŁo fugir Ă  tradição, aqui fica a minha antevisĂŁo do mercado do vinho em Portugal, sabendo bem que, […]

Editorial da edição nrÂș 105 (Janeiro de 2026)

O primeiro editorial do ano Ă©, normalmente, dedicado Ă quele exercĂ­cio de adivinhação que os cronistas adoram fazer, apontando padrĂ”es e tendĂȘncias para os 12 meses que se seguem. Para nĂŁo fugir Ă  tradição, aqui fica a minha antevisĂŁo do mercado do vinho em Portugal, sabendo bem que, como dizia um conceituado futebolista, os prognĂłsticos mais acertados sĂŁo feitos no final do jogo.

O consumo – o vinho, em termos gerais, estĂĄ a ficar menos “cool”, em Portugal e no mundo, e a tendĂȘncia parece ser para continuar. NĂŁo Ă© tanto o ĂĄlcool (perguntem aos jovens da tĂŁo falada geração Z que, nas noites de sexta-feira, bebem qualquer zurrapa que os desiniba), Ă© mesmo o vinho. O preço nos restaurantes Ă© desmotivador, claro, mas olhem para as mesas cheias de jarros de sangria a €25


As cores – ainda assim, a quebra nĂŁo acontece por igual. É mais acentuada nos vinhos tintos, tendo os rosĂ©s estabilizado (quem pensava que ia vender rosĂ© aos contentores, desiluda-se) e os brancos estĂŁo em franco crescimento. De tal forma que a queda de produção nesta vindima levou, em algumas regiĂ”es, Ă  procura desenfreada de uva branca e de brancos a granel, com os preços a atingir valores recorde.

Os perfis – tirando vinho mau, vale quase tudo. É evidente que nos segmentos de entrada, coisas como acidez, vegetal ou taninos mais rĂ­spidos continuam a ser inaceitĂĄveis. Mas mesmo nos vinhos de €2,99 podemos ter estilos diversos, desde os super docinhos aos secos (mas macios, claro, e, de preferĂȘncia, com 14% ĂĄlcool). A partir dos €15, a tolerĂąncia Ă  acidez e ao tanino Ă© muito maior, mas, ainda assim, nĂŁo tenhamos dĂșvidas: a procura de vinhos tintos abertos, com pouco ĂĄlcool e bastante acidez continuarĂĄ a ser um super nicho. A esmagadora maioria dos consumidores que paga €30 numa loja por uma garrafa de tinto quer um vinho encorpado e poderoso, que impressione os amigos.

Espumantes – hĂĄ 30 anos, um bairradino, infelizmente jĂĄ desaparecido, dizia-me muitas vezes: “um dia, o espumante vai conquistar o mundo”. E o mundo veio a dar-lhe razĂŁo, a categoria continua e continuarĂĄ em alta. Na verdade, tem tudo para dar certo: Ă© leve, Ă© fresco, Ă© alegre, Ă© sexy. Dos mais simples pet-nat aos mais sofisticados “mĂ©todo clĂĄssico”, com vĂĄrios anos de cave, as bolhas estĂŁo na moda.

“Naturais” – o balĂŁo parece estar a esvaziar-se. Lojistas e sommeliers dizem que a onda grande passou e que, num tempo em que cada euro conta, os clientes procuram marcas de confiança, nĂŁo querem surpresas desagradĂĄveis. E nĂŁo querem pagar por algo que nĂŁo lhes sabe bem sĂł porque alguĂ©m, supostamente mais entendido, lhes diz que aquilo Ă© suposto ser assim.

Amadores – se isto estĂĄ difĂ­cil para os profissionais, o que dizer dos amadores? E amadores sĂŁo todos aqueles que investiram numa empresa de vinho sem lhe poderem entregar dedicação total (a sua vida Ă© outra), nem possuem escala para montar uma estrutura profissional. SĂŁo muitos, muitos mesmo, e ou a sua actividade principal aguenta o prejuĂ­zo da acessĂłria, ou grande parte vai fechar ou vender a loja nos prĂłximos anos.

Turismo – 2025 foi, de novo, ano recorde para o turismo em Portugal. Mais de 30 mil milhĂ”es de euros entraram nos cofres, euros que, para a economia nacional, valem o dobro, porque vieram de fora. E sĂł as gargantas sedentas dos turistas explicam que Portugal tenha o maior consumo per capita do mundo. Aproveitar este fluxo de pessoas para os levar aos locais de produção, Ă© fundamental. O enoturismo justifica, cada vez mais, a mesma atenção e investimento do que a vinha ou a adega. Em condiçÔes ideais, a loja da marca deverĂĄ ser o principal e mais rentĂĄvel ponto de venda do produtor. NĂŁo perceber isto, Ă© nĂŁo perceber nada.

 

 

Editorial: My precious

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Editorial da edição nrÂș 104 (Dezembro de 2025) SerĂŁo as festividades o momento certo para abrir grandes vinhos? Chega a Ă©poca festiva e instala-se o habitual desfile: produtores com “sugestĂ”es imperdĂ­veis”, supermercados e garrafeiras com caixas de “oportunidades Ășnicas” e revistas a apresentarem os vinhos mais pontuados. E lĂĄ vamos nĂłs revistar a garrafeira, Ă  […]

Editorial da edição nrÂș 104 (Dezembro de 2025)

SerĂŁo as festividades o momento certo para abrir grandes vinhos?

Chega a Ă©poca festiva e instala-se o habitual desfile: produtores com “sugestĂ”es imperdĂ­veis”, supermercados e garrafeiras com caixas de “oportunidades Ășnicas” e revistas a apresentarem os vinhos mais pontuados. E lĂĄ vamos nĂłs revistar a garrafeira, Ă  procura daquele tesouro esquecido que, supostamente, sĂł deve ser aberto quando os astros se alinham. É grande a tentação de provar, finalmente, aquela garrafa rara, guardada cuidadosamente durante anos Ă  espera do momento perfeito.

Ora o que pode acontecer. Entre confirmar se hĂĄ guardanapos suficientes e se a carne estĂĄ no ponto, resolver as Ășltimas tarefas e responder Ă s dĂșvidas existenciais das crianças sobre o Pai Natal, Ă© difĂ­cil controlar a temperatura a que o vinho Ă© servido e, sobretudo, a que Ă© realmente consumido. A conversa anima-se, soltam-se as gargalhadas e o vinho vai aquecenddo no copo, a nĂŁo ser que festeje o Natal num convento medieval, onde a temperatura ambiente nĂŁo ultrapassa 12-14ÂșC.

A azĂĄfama de uma festa raramente permite prestar a atenção desejada ao que estĂĄ no copo. Um vinho mĂ­tico pode acabar por perder todo o protagonismo e, quando damos por ele, resta apenas um gole no fundo do copo e nem nos lembramos bem de como era. Eu prĂłpria caĂ­ nesse erro hĂĄ muitos anos, num almoço em minha casa: tinha amigos de Moscovo a visitar-me e, por coincidĂȘncia, os meus pais estavam de fĂ©rias em Portugal. Os amigos apareceram com uma garrafa de Quinta do Ribeirinho, de LuĂ­s Pato (compraram o vinho mais caro que havia numa loja) e eu coloquei-a na mesa. No turbilhĂŁo do almoço, mal tive oportunidade de parar e desfrutar o vinho. Acabei por ter de marcar um novo encontro com este grande Baga para o conhecer como merecia. Valeu muito a pena, mas isto darĂĄ uma outra histĂłria.

Desde entĂŁo, estou convencida que um vinho excepcional deve ter um momento prĂłprio, sĂł para ele, fora de qualquer outro contexto.

Este ano, vi, na Netflix, uma minissĂ©rie norueguesa chamada La Palma. Retrata um desastre natural na ilha com o mesmo nome, no arquipĂ©lago das CanĂĄrias: um sismo que desencadeia um tsunami e uma erupção vulcĂąnica. HĂĄ um momento particularmente marcante, pouco antes de um tsunami devastar o arquipĂ©lago, em que Álvaro PĂ©rez, o chefe do observatĂłrio sĂ­smico (interpretado por Jorge de Juan), partilha com um colega uma garrafa de Pingus 2013, que lhe foi oferecido no aniversĂĄrio e ficou guardado. “As pessoas acham que precisam de uma ocasiĂŁo especial para abrir um grande vinho. EstĂŁo enganadas. O vinho Ă© a ocasiĂŁo”, diz ele e eu subscrevo por completo. Na iminĂȘncia de morrer na catĂĄstrofe, os dois saboreiam o vinho, o Ășltimo prazer genuĂ­no no meio do dramatismo. E, numa das cenas finais, os sismĂłlogos, em fatos Ă  prova de fogo, aproximam-se da cratera em erupção. Um deles leva a garrafa para acabar o vinho e ambos desaparecem na lava, a desfrutar o derradeiro gole de Pingus.

Não é preciso esperar pelo fim do mundo para abrir uma tal garrafa, mas também não vale a pena desperdiçå-la numa festa agitada. Para uma celebração em casa, costumo abrir vinhos que conheço bem e que garantidamente me darão prazer, mesmo quando a atenção estå dividida, deixando os mais raros e especiais que não conheço para momentos em que realmente posso apreciå-los. Porque estes não precisam de um motivo especial, eles próprios o são.  V.Z.

 

Editorial: Renovar

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Editorial da edição nrÂș 103 (Novembro de 2025)   A renovação Ă© essencial ao desenvolvimento e Ă  prĂłpria sobrevivĂȘncia das organizaçÔes. O que Ă© vĂĄlido para o mundo acadĂ©mico ou empresarial, Ă©-o mais ainda para os media em geral e para a imprensa em particular, onde novas e diferentes formas de experienciar e comunicar o […]

Editorial da edição nrÂș 103 (Novembro de 2025)

 

A renovação Ă© essencial ao desenvolvimento e Ă  prĂłpria sobrevivĂȘncia das organizaçÔes. O que Ă© vĂĄlido para o mundo acadĂ©mico ou empresarial, Ă©-o mais ainda para os media em geral e para a imprensa em particular, onde novas e diferentes formas de experienciar e comunicar o mundo sĂŁo condição de sucesso.

A entrada, no passado mĂȘs de julho, da jornalista PatrĂ­cia Serrado para a chefia de redacção da Grandes Escolhas, marca o inĂ­cio de um processo de renovação que teve, em outubro, um outro momento determinante, com a nomeação de ValĂ©ria Zeferino, colaboradora desta revista desde a primeira hora, para sub-directora. SĂŁo duas profissionais de grande gabarito, que encaram com entusiasmo o desafio que tĂȘm pela frente e que, para o superar, contam com um quadro de colaboradores sem paralelo em termos de experiĂȘncia e conhecimento da temĂĄtica do vinho. Pretende-se, assim, uma transição suave, sem sobressaltos, que conduza a uma revista mais abrangente em termos de pĂșblico-alvo, dando resposta Ă s necessidades de informação quer dos leitores mais clĂĄssicos, quer daqueles que privilegiam o ecrĂŁ do telemĂłvel como transmissor de conteĂșdos.

Fui contratado como director de publicaçÔes periĂłdicas aos 23 anos, ainda a concluir a universidade. Durante cinco anos dirigi, simultaneamente, revistas especializadas em diversas ĂĄreas (com destaque para informĂĄtica e automĂłveis) atĂ© lançar a Revista de Vinhos em 1989, nascendo aĂ­ uma paixĂŁo pelo tema, que me obrigou a abandonar tudo o resto. Com 64 anos de idade, atingi 41 anos de direcção ininterrupta de revistas mensais. Acho eu, acham a minha famĂ­lia e os meus amigos, que jĂĄ Ă© suficiente. Quando, dentro de alguns meses, o processo de transição estiver concluĂ­do na Grandes Escolhas, poderei fazer finalmente o que hĂĄ muito ambiciono: escrever e falar sobre o vinho e o seu mundo, sem qualquer outra responsabilidade, alĂ©m daquela que o rigor e a consciĂȘncia me ditam.

LuĂ­s Lopes

 

Pretende-se uma transição suave, sem sobressaltos, que conduza a uma revista mais abrangente em termos de pĂșblico-alvo, dando resposta Ă s necessidades quer dos leitores mais clĂĄssicos quer daqueles que privilegiam o ecrĂŁ do telemĂłvel como transmissor de conteĂșdos.

 

Valeria Zeferino

 

Com origens moscovitas, passei quase metade da minha vida em Portugal. Sou formada em Gestão e trabalhei nessa årea até descobrir o melhor que este país tem: o vinho. E, quando gosto de alguma coisa, dedico-me profundamente ao tema. Estou ligada ao mundo dos vinhos desde 2012 e, com a primeira edição da Grandes Escolhas, em maio de 2017, comecei a minha colaboração com a revista. Antes disso, era assinante e fiel leitora da Revista de Vinhos, de onde toda a equipa saiu naquela altura, para fundar um novo projeto.

Tenho a sorte de trabalhar com colegas que admiro e com quem aprendi muito: JoĂŁo Paulo Martins, o grande guru e “papa dos vinhos”, com a sua visĂŁo crĂ­tica e impressionante consistĂȘncia na prova; Nuno Oliveira Garcia, com nariz apurado e afiado sentido de humor; e LuĂ­s Antunes, que escreve maravilhosamente bem. E, claro, LuĂ­s Lopes, que considero o meu mentor e tem sido a minha referĂȘncia em tudo o que faço profissionalmente.

Sem estas pessoas, eu não seria quem sou hoje. Mas também o sou porque nunca deixei de aprender. Tirei o Diploma da WSET, em Londres, que me abriu horizontes. Mas quis ir mais a fundo. Fiz o Mestrado em Viticultura e Enologia no ISA. A årea a que mais me dedico é a anålise sensorial, tema da minha tese, que espero concluir em breve.

O desafio Ă© grande. Enorme, mesmo. E farei tudo para estar Ă  altura. Nunca serei como o LuĂ­s Lopes – Ă© impossĂ­vel. Serei, sim, diferente, mas trarei as minhas qualidades, competĂȘncias e dedicação Ă  revista e aos nossos leitores, para que as escolhas sempre sejam grandes. Este Ă© o meu novo começo, que, no fundo, Ă© uma continuidade do caminho que me trouxe atĂ© aqui. ValĂ©ria Zeferino

 

 

Editorial: Atreva-se a descobrir

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Editorial da edição nrÂș 102 (Outubro de 2025) No meu cĂ­rculo de amigos serei, certamente, um dos que menos recorre Ă s chamadas redes sociais. Utilizo apenas Instagram, onde publico uma foto por mĂȘs, se tanto, e nunca sobre vinhos. Os temas que me apetece fotografar/comentar tĂȘm quase sempre a ver com carros, cĂŁes, pesca, caça […]

Editorial da edição nrÂș 102 (Outubro de 2025)

No meu cĂ­rculo de amigos serei, certamente, um dos que menos recorre Ă s chamadas redes sociais. Utilizo apenas Instagram, onde publico uma foto por mĂȘs, se tanto, e nunca sobre vinhos. Os temas que me apetece fotografar/comentar tĂȘm quase sempre a ver com carros, cĂŁes, pesca, caça e, tirando rarĂ­ssimas excepçÔes (e sempre com autorização prĂ©via) famĂ­lia e amigos nunca sĂŁo envolvidos nos conteĂșdos. Serve isto unicamente para dizer que estou muito longe de poder ser considerado um especialista em redes sociais, e bem assim da linguagem, regras, cĂłdigos, que lhes sĂŁo inerentes.

No entanto, e por dever de ofĂ­cio, ao longo dos Ășltimos anos tenho acompanhado bastante mais de perto as plataformas digitais e redes sociais das empresas ligadas ao mundo do vinho. Estou atento ao desempenho, Ă  forma, ao conteĂșdo, e reconheço a crescente importĂąncia que as redes sociais tĂȘm na estratĂ©gia de comunicação de uma marca, operando como complemento dos outros formatos e modelos.

Ao visualizar as publicaçÔes de dezenas de empresas, distintas nos seus perfis, conceitos e cliente alvo, Ă© impossĂ­vel nĂŁo reparar em, pelo menos, dois denominadores comuns: primeiro, o desconhecimento generalizado do tema (vinha, vinho, mercado) e tambĂ©m da cultura e especificidades do proprietĂĄrio da conta, originando arrepiantes “gaffes”, sobretudo quando se fala de castas, vindima, vinificação ou consumo (a excepção estĂĄ, naturalmente, nas raras ocasiĂ”es em que Ă© o produtor a encarregar-se do conteĂșdo); segundo, a absurda quantidade de lugares comuns, clichĂ©s, verbos, advĂ©rbios e adjectivos repetidos atĂ© Ă  exaustĂŁo, amontoados de palavras sem significado algum, formando frases surreais.

Assim, pelo que leio nas redes sociais, nĂŁo posso, simplesmente, querer beber um vinho. Tenho de me “atrever” a isso. E, de preferĂȘncia, ficar “surpreendido” com o resultado. E como nĂŁo, se todos os vinhos sĂŁo “Ășnicos” e “prometem” coisas? AlĂ©m de que estĂŁo cheios de “segredos desafiantes” para “descobrir”. De tal forma “fascinantes” e “inesquecĂ­veis” que deixam de ser uma bebida e se transformam numa “experiĂȘncia”, feita de “aromas de partilha” e “sabores de tradição”. Apetece “brindar” pois entĂŁo, “à vida, aos amigos, ao verĂŁo”.

Sei perfeitamente que uma publicação deste tipo se quer curta e apelativa, numa linguagem simples, acessĂ­vel, sem complicaçÔes, de apreensĂŁo imediata. Mas tantas e tantas vezes, o que leio Ă© algo como isto: “Atreva-se a experienciar o nosso terroir Ășnico. Convidamo-lo a mergulhar num momento fascinante e inesquecĂ­vel, juntando paixĂŁo e tradição. Descubra os segredos de vinhos que prometem surpreender pela sua frescura e brinde Ă  amizade num ambiente repleto de natureza”.

NĂŁo pretendo, de modo algum, ver numa conta empresarial do Facebook ou Instagram a linguagem de um jornalista ou romancista. Mas gostaria de deparar-me com uma escrita um pouco mais criativa, inteligente e conhecedora. A verdade Ă© que, apĂłs ler as mesmas frases replicadas de marca para marca, fico com a sensação de que a esmagadora maioria das pessoas que escreve estes conteĂșdos nem sequer bebe ou gosta de vinho. O que, convenhamos, nĂŁo serĂĄ o melhor cartĂŁo de visita, se o propĂłsito da publicação for levar um potencial consumidor a “atrever-se” a abrir uma garrafa
 L.L.