ETHOS WINES: De Homero, de Aristóteles, de Heidegger e da Beira Interior

Sendo eu Jurista de formação, as Humanidades e a Filosofia sempre fizeram parte do meu currículo e aprendizagem. Para escrever sobre o Ethos fui matar saudades e rever os meus velhos livros de liceu e de curso, e, só por isso, já valeu a pena escrever este artigo. Encontrada pela primeira vez em Homero (928 […]
Sendo eu Jurista de formação, as Humanidades e a Filosofia sempre fizeram parte do meu currículo e aprendizagem. Para escrever sobre o Ethos fui matar saudades e rever os meus velhos livros de liceu e de curso, e, só por isso, já valeu a pena escrever este artigo. Encontrada pela primeira vez em Homero (928 – 898 a.C.), a palavra do grego ethos significa originalmente morada, seja o habitat dos animais, seja a morada do homem, lugar onde ele se sente acolhido e abrigado. Séculos mais tarde Martin Heidegger (1958) recupera e aprofunda os ensinamentos de Homero, defendendo que o ethos é o campo aberto da morada do homem, onde o Dasein (o ser humano) se relaciona com o Ser.
A célebre frase de Heidegger “a linguagem é a casa do Ser” completa o sentido de ethos. O homem mora habitando essa casa através do pensamento e da poesia… e não houve alguém que disse um dia que “um bom vinho é poesia engarrafada”?
Muito resumidamente, no pensamento de Heidegger, o ethos é a dimensão existencial e poética em que o ser humano habita e protege o Ser, situando-se autenticamente no mundo. O segundo sentido, proveniente deste, é costume, modo ou estilo habitual de ser. A morada, vista metaforicamente, indica justamente que, a partir do ethos, o espaço do mundo torna-se habitável para o homem. Assim, o espaço do ethos enquanto espaço humano, não é dado ao homem, mas por ele construído ou incessantemente reconstruído.
Para os filósofos gregos, especialmente Aristóteles, o ethos está diretamente relacionado ao nosso modo de ser, enquanto na cultura romana, a ideia de moral vem de moralis, que significa costume. Desta maneira, ethos é o nosso carácter e moral é um conjunto de normas de convivência que regulam o nosso comportamento. A partir da ideia de ethos estabelece-se a base da ideia de ética, ou seja, a reflexão sobre o nosso modo de vida. Enquanto a moral tem uma dimensão normativa e se baseia num conjunto de regras concretas, a ética é uma avaliação ou reflexão sobre as questões morais.
Na cultura grega, o ethos individual pode ser forjado com disciplina, já que vamos formando um ethos com os nossos hábitos. Em compensação, a ideia de phatos refere-se à paixão e à emoção; por outro lado, o termo logos faz referência à ideia de razão e linguagem.
Para Aristóteles, os três elementos intervêm na comunicação, a célebre retórica aristotélica, concebida como aperfeiçoamento da tese platónica de que a simples exposição ao conhecimento seria suficiente para conquistar uma audiência. Em discordância com o seu mentor Platão, Aristóteles acreditava que a retórica seria fundamental para conquistar o público.
É, pois, deste modo, que surgem o ethos, o pathos e o logos como meios de potenciar a capacidade de persuasão de um público. O primeiro refere-se à capacidade de o atingir, com base na ética, integridade e credibilidade do orador; o segundo alude à capacidade de apelar às emoções e à criação de empatia entre o orador e a audiência; e o terceiro sugere a utilização de argumentos racionais, de evidências e do raciocínio lógico.
Assim, muito resumidamente, transmitimos ideias com o nosso modo de ser, enquanto através do pathos individual expressamos emoções, e tudo está articulado pela razão e pela linguagem.
Família e herança
Da mesma forma, numa obra de arte, podemos encontrar um ethos, um pathos e um logos, isto é, uma personalidade, uma emoção e uma linguagem. É precisamente o que encontramos nos vinhos Ethos, da Beira Interior. A Ethos Wines é sobre vinho, mas também é sobre família, herança e sobrevivência nesta região selvagem e remota do centro de Portugal. Desde 2018, que Tiago Mendonça cultiva 12 hectares de vinha no concelho da Guarda, pertencente à região vitivinícola da Beira Interior.
Este é mais do que um projecto para Tiago Mendonça. É um verdadeiro trabalho de paixão e tradição. Tem raízes familiares profundas que o ligam a esta terra, pois os pais eram naturais da região. As férias de infância eram passadas com a família materna, na Quinta de São Lourenço, inserida no magnífico Vale do Mondego, dentro do Parque Natural da Serra da Estrela, na região da Guarda. Hoje, é frequentemente acompanhado pelo seu filho mais novo, Francisco Mendonça, que tem um gosto especial por trabalhar ao lado do pai.
As vinhas da Ethos Wines estão plantadas numa encosta voltada a nascente, com solos graníticos pobres, a uma altitude entre os 480 e os 520 metros. A vida das videiras aqui é exigente, com grandes amplitudes térmicas diurnas e níveis elevados de precipitação. Mais de 70% das vinhas têm mais de 60 anos, tendo algumas sido replantadas em 2012; e cerca de 50% está em co-plantação de castas tradicionais, a par com o decurso do trabalho de identificação das várias variedades presentes.
As castas são as tradicionais da região. Nos brancos encontramos Síria, Arinto, Tamarez, Malvasia Fina, Gouveio, Cerceal e Ferral. Nos tintos destacam-se a Rufete, a Mourisco, a Jaen, a Baga, a Trincadeira, entre outras. A viticultura está nas mãos do agrónomo Carlos Veiga, enquanto na adega, a enologia é acompanhada pela enóloga Mariana Salvador, cuja missão é interpretar as uvas de forma a reflectirem verdadeiramente a identidade da Beira Interior. A função de Mariana Salvador consiste em equilibrar o acompanhamento rigoroso da vinificação e do estágio. As leveduras são indígenas e os níveis de sulfuroso são mantidos no mínimo indispensável.
As vinhas estão certificadas em modo biológico desde 2020. A certificação biológica dos vinhos está prevista a partir da colheita de 2025. O trabalho na vinha e na adega é o que dá origem aos brancos minerais intensos e frescos, bem como aos tintos elegantes, gastronómicos e com excelente capacidade de envelhecimento.
Mas Ethos não é só vinho, também é azeite. Há mais de 20 anos que a família é proprietária de um lagar onde são produzidos alguns dos melhores azeites não só da região, mas do mundo, tal como comprovam os múltiplos e variadíssimos prémios obtidos. As azeitonas são colhidas de oliveiras com idades até 100 anos, incluindo variedades locais.
As vinhas estão plantadas numa encosta voltada a nascente, com solos graníticos pobres e mais de 70% ultrapassam os 60 anos
Acima de tudo, o projeto Ethos assenta num profundo respeito pela tradição e pelo terroir. A equipa demonstra-o e disso mesmo nos deu conta – uma determinação firme em revelar o potencial da Beira Interior, uma pequena região emergente que tem vindo a conquistar cada vez mais reconhecimento através da produção de vinhos distintivos e de azeite de classe mundial.
E Ethos é igualmente arte… por fora. O rótulo do Ethos Rufete tinto 2023 e do Ethos Vinho de Parcela tinto 2023 comprova este preâmbulo, através da assinatura de Ana Malta, artista plástica com formação académica em pintura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa e um mestrado em Gestão de Indústrias Criativas pela Universidade Católica do Porto. Ambos os rótulos denotam a prática artística associada à estética, onde as cores e os padrões se cruzam com contrastes e a inquietante expressão visual da artista. Personalidade, emoção, linguagem. Ethos, pathos, logos. Beira Interior, Tiago Mendonça, Ethos Wines.
(Artigo publicado na edição de Maio de 2026)
DUORUM: Tributo à “família” de vinhos

Foi com a vindima de 2025 que se inaugurou a nova adega da empresa, situada em Foz Côa. Até então, as uvas eram vinificadas em adega alugada, em Ervedosa. São muitas as vantagens: maior proximidade em relação à Quinta de Castelo Melhor, o epicentro do projeto, mais disponibilidade de mão-de-obra, que não está sujeita a […]
Foi com a vindima de 2025 que se inaugurou a nova adega da empresa, situada em Foz Côa. Até então, as uvas eram vinificadas em adega alugada, em Ervedosa. São muitas as vantagens: maior proximidade em relação à Quinta de Castelo Melhor, o epicentro do projeto, mais disponibilidade de mão-de-obra, que não está sujeita a deslocações, com a poupança que daí advém, e painéis solares e ETAR de última geração, com a reciclagem monitorizada por TV. Nesta adega recebem ainda as uvas que compram para a marca Tons de Duorum.
Com espaço para crescer se necessário e com boas vias de acesso, a adega é funcional, cumprindo todos os requisitos, à excepção do engarrafamento, assunto sempre melindroso para João Portugal Ramos, que não entende a proibição de se fazer os engarrafamentos em Estremoz, onde a empresa tem todas as condições para efectuar esta tarefa. São as regras da Denominação de Origem. O enoturismo, a desenvolver, será na Quinta de Castelo Melhor, com apiário e onde as preocupações ambientais são uma constante, ou não houvesse o registo de um grande aumento das espécies locais, “mais do dobro do que quando começámos”, relembra João Portugal Ramos. A actividade turística poderá incluir mesmo alguns quartos bem perto do rio Douro, junto à antiga linha de comboio.
Mudanças no perfil
É na marca Duorum Colheita que mais se aposta. Esta já representa cerca de 200 000 garrafas, enquanto a Tons anda pelas 600 000. A finalidade é ir invertendo gradualmente estes números, com o intuito de crescer no Colheita. O tinto Reserva representa cerca de 15 000 garrafas e o topo de gama O. Leucura fica-se pelas 3000. O portefólio inclui igualmente as marcas Altitude, Vinha dos Muros e Vinha das Abelhas. Mas o filho, João Maria Ramos não quer alargar mais, porque “na distribuição é muito complicado estar sempre a inovar, não se consegue criar marca dessa forma”.
Aos comandos da enologia, João Perry Vidal reconhece que muito mudou desde o início do projecto – cresceram em importância algumas castas, como a Alicante Bouschet e a Sousão, e mudou-se um pouco o perfil dos tintos, apontando para vindimas mais antecipadas (alguma já mecânica), mais maceração pré-fermentativa, por forma a obter mais elegância e menos álcool. Reconhece que “nos Reserva e nos vinhos especiais poderá haver mais maceração, para maior extracção de taninos”.
Por outro lado, “ainda não nasceu o nosso grande branco, mas estamos a trabalhar no assunto. Aqui na zona há boas vinhas velhas e muita gente quer nos fornecer uvas”. Entretanto, foi descartado a Viosinho que, por aqui, não dava grande resultado, tal como a Verdelho. As duas variedades são adquiridas agora na sub-região do Cima Corgo. Códega do Larinho? “Também temos”, diz-nos, “mas ainda não nos convenceu totalmente. A aposta é sobretudo em Arinto, Rabigato e Gouveio. Depois há as castas de tempero”, acrescenta.
O tinto O. Leucura é muito atractivo para consumidores brasileiros, que o adquirem na loja do aeroporto
Boas novas no portefólio
Dos vinhos provados de novo e, dos que foram revisitados, há notas a tomar. Nas novidades há que dizer que sobre o Reserva tinto se fizeram 14 666 garrafas. É um tinto que tem origem em uvas de vinhas velhas, algumas com 50 anos; após a fermentação e 18 dias de cuvaison, estagia em barrica (70% nova).
O ex-libris da empresa, O. Leucura, apenas foi editado em anos especiais – 2008, 2011, 2012, 2015 e agora 2017. Segundo o produtor, há três colheitas em cave à espera de decisão, sendo que há a vontade de repetir este intervalo de espera entre a colheita e o lançamento, tal como se fez nesta edição. Comparando com as anteriores, percebe-se que o objectivo é fazer um tinto com uvas colhidas mais cedo, menos macerado na fermentação, mais elegante e fino, seguindo as tendências do gosto. Curiosamente é um tinto bem aceite, sobretudo no mercado interno e por consumidores brasileiros, que o adquirem na loja do aeroporto.
No próximo ano, em jeito de comemoração dos 20 anos do projecto, tenciona lançar um Porto Colheita 2007, entrando, deste modo, no “universo tawny” de que estavam arredados até agora.
Já ao almoço revisitaram-se vários vinhos: Duorum 2012 em magnum, Vinho dos Muros brancos 2023 e 2024. No final, o Porto Vintage 2011 (para mim um dos grandes vintages dessa declaração clássica) foi servido em magnum e mostrou-se perfeito na concentração e no perfil denso, muito especiado, com anos e anos pela frente.
(Artigo publicado na edição de Maio de 2026)
GRANDE PROVA: ROSÉS A MENOS DE €15

Após tantos artigos que dedicamos aos rosés e depois de provar centenas de vinhos, chegámos finalmente à explicação a respeito da razão pela qual alguns consumidores ainda não privilegiam este tipo maravilhoso de vinho ou, pelo menos, que o relegam para segundo plano. Não, não é apenas o antigo o imaginário do rosé nacional, que […]
Após tantos artigos que dedicamos aos rosés e depois de provar centenas de vinhos, chegámos finalmente à explicação a respeito da razão pela qual alguns consumidores ainda não privilegiam este tipo maravilhoso de vinho ou, pelo menos, que o relegam para segundo plano. Não, não é apenas o antigo o imaginário do rosé nacional, que se assemelhava a uma sangria de vinho tinto, de acidez corrigida, com 10 gramas de açúcar por litro e gás carbónico. Não, não é pela fama dos rosés evoluírem mal em garrafa, pois são vários os exemplos mundiais – Viña Tondonia desde logo, mas também os clássicos de Bandol, como Domaine Tempier e Château de Pibarnon – e nacionais – Redoma, da Niepoort, Nélita, da Quinta de Lemos, ou o Reserva, da Quinta do Monte de Ouro – em que os vinhos têm uma evolução positiva em complexidade e seriedade.
E não, não é o preconceito de se tratar de vinho leve, posto que uma das principais modas atuais é precisamente tintos mais leves e abertos. E também não é que o seu consumo se deva restringir ao verão, já que o mesmo se poderia dizer dos champagnes e espumantes. A principal razão é, isso sim, o carácter residual para o qual o rosé foi relegado e que pode ser resumido numa frase dita por um amigo (que é, simultaneamente, um grande provador): “não há nada que goste num rosé que um grande branco não consiga entregar ou até superar”. Explico-me, de seguida.
Como é sabido, durante muitos anos, desde a antiguidade até há menos de um século, a cor dos vinhos era fluída e variada. Fosse por as vinhas com uva branca e tinta estarem coassociadas, fosse por fazer-se muito vinho branco com uvas tintas e sem o aperfeiçoamento da técnica aprimorada de bica aberta ou, simplesmente, por se misturar vinho branco e tinto, e tudo o mais. Até ao início do século XX não havia, portanto, nenhum tipo de preconceito quanto a tonalidades, sendo que a maior parte dos vinhos tintos tinham a famosa cor de petroleiro, de acobreados, de tão ligeiros que eram. Por sua vez, grande parte dos brancos nasciam logo carregados na cor, fosse por excesso de oxidação na vinificação, fosse apenas pela curtimenta.
Durante o século passado, com a viticultura moderna e, sobretudo, com a enologia profissional, os brancos ficaram mais claros e brilhantes, enquanto os tintos se tornaram mais concentrados e escuros. Uma das consequências trazida por esta divisão binária foi a de deportar os vinhos rosados, palhetes e claretes para uma categoria residual.
O que o vinho rosé precisa é que façamos com ele um trato, um acordo sagrado. Que nos lembraremos dele sempre que nos sentamos à mesa
Diversidade na produção
Sucede que, como já escrevemos noutras peças, a vinificação de um vinho rosé não perde em técnica ou rigor para os restantes tipos de vinho. Pelo contrário. Com efeito, a atenção na adega é permanente, desde a definição do nível ótimo de extração e prensa (de preferência, utilizando apenas o mosto lágrima) à temperatura de fermentação escolhida. Na mesma linha está a opção pela bâtonnage (agitação das borras), podendo-se eleger uma menor influência de oxigénio ou, em contrapartida, permitir alguma oxidação que ajude a proteger o vinho, contribuindo para uma maior longevidade, evitando-se aromas excessivamente frutados. Pode-se misturar parte do mosto de tinto sangrado com outra parte constituída por um rosé de bica aberta ou mosto de tinto sangrado prensado com as películas de vinho branco, sendo fermentado a posteriori, por exemplo numa pipa, com ou sem tampo, sendo que alguns dos melhores rosés nacionais fermentam, parcial ou totalmente, em barrica. Complexidade não falta, como se vê. O mesmo rigor é implementado no que respeita a castas, sendo eleitas uvas de variedades consagradas. É o caso evidente dos rosés do Douro e Dão – e até no Alentejo –, da Baga, na Bairrada, e do Moscatel Roxo, na Península de Setúbal e Palmela.
Em suma, no nosso território produzem-se excelentes rosés com recurso às mais variadas castas. No entanto, em alguns casos, são variedades menos evidentes do que as utilizadas na produção de tintos, essencialmente por serem uvas colhidas, por regra, mais cedo e, muitas vezes, sem que a maturação fenólica esteja completa.
Harmonizações aprimoradas
Mas então, para além da cor, o que mais contribuiu para o referido carácter residual para o qual foi atirado o vinho rosé? A resposta é: a ligação à gastronomia! Efetivamente, muito se escreve sobre a maridagem entre vinhos brancos e peixe, marisco, ostras e saladas. Surgiram enciclopédias que esmiuçam os segredos da harmonização de vinhos tintos com carnes vermelhas assadas, com molhos ou em tártaro. Neste frenesim binário não se evitaram erros crassos identificáveis por um palato sem vícios, como a de sugerir vinho tinto a acompanhar queijos curados ou caril picante.
Enquanto se debatia sobre combinações de sabores entre comida e vinhos, o rosé foi deixado de lado, carecendo de uma motivação ou fundamentação – quase sempre fútil – para ser consumido. A única justificação? Degustar o rosé à beira da piscina, numa festa de jardim ou num piquenique com a invocação da Provence, a famosa região do sul da França. É como se imperasse uma razão para o abrir… O impulso imponderado e, tantas vezes, espontâneo que nos leva a abrir um vinho branco nos dias quentes ou um tinto no inverno, transforma-se em reflexão profunda (quando não numa meditação filosófica) sobre se devemos ou não abrir um rosé e por que o deveremos fazer. Que falta de imaginação e que desperdício!
O que o vinho rosé precisa é que façamos com ele um trato, um acordo sagrado. Que nos lembraremos dele sempre que nos sentamos à mesa, para comer, seja pratos de carne ou peixe, ou à base de outros produtos. É o que faço em casa, onde tenho sempre um frigorífico (que não uma cave de vinhos) exclusivamente cheio de bons vinhos brancos e rosés, dispondo-os enquanto cozinho ou provo um conjunto alargado de comidas.
É o rosé a minha primeira escolha para um cremoso bacalhau à Brás, para um violento chacuti de borrego, mas também para uma elegante casquinha de caranguejo, uma paella reforçada com molejas, para um sofisticado risoto de vieiras ou um sushi exótico. Se for mais carregado na cor e no perfil (podendo até, em parte, resultar de sangria), será o meu predileto para acompanhar uns ovos rotos, um tártaro ou outro cru de boi, uma quiche de carne, uma pizza com salame picante e rúcula, uma salada de cogumelos, entre tantos outros pratos que “pediriam” mais umas quantas linhas nesta peça, com o propósito de firmar o ponto que entendo ser mais relevante.
Temos de os abrir, mais e mais, sobretudo quando Portugal tem, hoje, dezenas de rosés a um nível muito alto e que em nada ficam atrás ao que melhor se faz nos restantes países produtores (não conheço muitos rosés espanhóis ou italianos, australianos, americanos ou argentinos que nos façam frente). Àqueles que gostam de rosés, peço que o assumam junto dos demais à mesa. A quem raramente se lembram deste tipo de vinho, memorizem que, com tantos pratos, como alguns dos mencionados atrás, é mesmo o rosé a melhor, quando não a única combinação possível à mesa!
(Artigo publicado na edição de Maio de 2026)
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Casa da Atela
Rosé - 2023 -

Arivat
Rosé - 2025 -

Altano
Rosé - 2023 -

Adega de Borba Premium
Rosé - 2024 -

Vinha da Rosa Single Vineyard
Rosé - 2025 -

Vallado
Rosé - 2025 -

Vale D. Maria
Rosé - 2024 -

Touriga Nacional em Rosé
Rosé - 2025 -

Rosé Vulcânico
Rosé - 2025 -

Rosé da Fitareta Non Millèsime Cuvée nº 10
Rosé -
CARM: De Almendra para o mundo

A sub-região do Douro Superior é uma terra de extremos. Conhecido pela sua aridez e pelo calor intenso, onde o rio Douro se torna fronteira e se prepara para entrar em Portugal, tem o xisto mais duro e a paisagem mais indomável da região demarcada com o mesmo nome. É na aldeia de Almendra, rodeada […]
A sub-região do Douro Superior é uma terra de extremos. Conhecido pela sua aridez e pelo calor intenso, onde o rio Douro se torna fronteira e se prepara para entrar em Portugal, tem o xisto mais duro e a paisagem mais indomável da região demarcada com o mesmo nome. É na aldeia de Almendra, rodeada pela reserva arqueológica do Vale do Côa, que a CARM – Casa Agrícola Roboredo Madeira S.A. se afirma como um dos produtores mais consistentes e respeitados do país.
Com uma história familiar documentada desde meados do século XVII, a CARM, enquanto marca, reflete um compromisso inabalável com a qualidade e com o território. É um projeto no âmbito do qual o trabalho incide estritamente na utilização dos frutos das suas próprias terras. “Nós só trabalhamos com castas portuguesas. Desde o início. Sou totalmente apologista da defesa de Portugal e as nossas raízes”, afirma com orgulho Filipe Roboredo Madeira, proprietário da CARM, que nos conduziu pela história da empresa familiar.
Desde o início, o objetivo da família Roboredo Madeira foi claro: produzir azeites e vinhos de excelência, utilizando apenas uvas e azeitonas provenientes das suas próprias quintas. Esta filosofia de produtor-engarrafador garante o controlo total da qualidade da matéria-prima, desde a vinha até ao produto final. A empresa gere atualmente cerca de 200 hectares de vinha, 220 hectares de olival e 60 hectares de amendoal. “Esta diversificação agrícola ajuda a manter o equilíbrio ecológico e a resiliência das culturas, bem como fixar gente à terra [Almendra], que, assim, tem trabalho durante todo o ano”, sublinha António Ribeiro, enólogo residente desde 2002 e responsável pelas áreas de produção e viticultura da CARM.
O “ouro verde” de Almendra
Embora a CARM, tal como a conhecemos hoje, tenha ganho projeção nas últimas décadas, as raízes da família Roboredo Madeira mergulham no século XVII. Originários da zona de Almendra, em Vila Nova de Foz Côa, os antepassados sempre foram lavradores. Durante gerações, a atividade centrou-se na policultura mediterrânica: a vinha, o olival e o amendoal. Durante grande parte do século XX, a produção seguia o modelo tradicional do Douro Superior: as uvas de alta qualidade eram vendidas às grandes casas de Vinho do Porto e o azeite era entregue a cooperativas locais. Foi precisamente com o azeite que tudo mudou.
Filipe Roboredo Madeira estudou medicina em Itália. Aluno brilhante, acabou por nunca exercer a profissão de médico. Graças a um grupo de amigos de elite, apostou na moda e nos investimentos, vivendo uma vida de estilo e exclusividade, que o fez conhecer personalidades famosas. Um percurso que lhe deu a disciplina do bom gosto – adepto dos grandes prazeres da vida, conheceu os melhores restaurantes gourmet e, claro, os melhores vinhos. E azeites.
Quando estudava em Itália, Filipe Roboredo Madeira levava, claro está, Vinho do Porto, mas também “um azeite que cá fazíamos e que nem sequer era comercializado, a um amigo italiano. Até que um dia, esse amigo disse-nos para nunca mais o fazermos, porque o azeite era mau, uma porcaria! Não queríamos acreditar, mas de facto havia uma diferença enorme entre os azeites portugueses e os italianos. Até que o meu pai foi ter com o guru mundial dos azeites, o professor [Giuseppe] Fontanazza. Levou-lhe algumas azeitonas e perguntou-lhe o que daí poderia sair. Ele disse-lhe que poderia ser um ótimo azeite, se fosse feito como deve ser. Depois, comprámos todas as máquinas novíssimas para o lagar e arriscámos”, conta.
A dada altura, quase sem querer, o nosso anfitrião viu-se sozinho, num lagar ultra tecnológico, a comandar a primeira produção por telefone. “Foi surreal. Não havia ninguém para fazer funcionar o lagar. O técnico italiano já lá não estava e eu tinha de colocar aquelas máquinas a funcionar. Entram as azeitonas e eu a telefonar para os técnicos italianos, que, à distância, davam indicações.” Assim foi feito o primeiro azeite CARM, em 2004 e, com ele, nasceu o logotipo da marca, constituído por azeitonas e folhas de oliveira, a origem do projeto.

Celso Madeira reconverteu, em 1995, a exploração agrícola para o modo de produção biológico
O legado de Celso Madeira
A família Roboredo Madeira sempre esteve ligada à terra, à agricultura, tendo em Celso Madeira (pai de Filipe Roboredo Madeira) o grande impulsionador. Irrequieto, fez crescer o património. Às vinhas centenárias que a família possuía, o patriarca somou mais terras e mais vinha. A título de curiosidade, em 1995, procedeu à reconversão da exploração agrícola para o modo de produção biológico. A partir de então, continuou a plantar e a aprimorar a seleção de clones de castas tradicionais.
Atualmente, a família totaliza cinco propriedades. Quinta do Bispado, situada no sopé do monte Calabre, com um total de cerca de 45 hectares, apresenta solos xistosos, expostos a sul e a nascente, divididos por sete hectares de vinhas datadas de meados da década de 80 do século XX, 27 hectares de olival e 3 hectares de amendoal. A Quinta da Calabria, de 49 hectares e predominada por solos xistosos, detém 14 hectares de vinha plantados em meados da década de 80 do século passado, com as castas Touriga Nacional, Touriga Franca e Tinta Roriz; os olivais e os amendoais, de variedades autóctones (Madural os primeiros e Casanova os segundos), têm áreas de 10 e 21 hectares, respectivamente. Embora dê frutos que resultam nos melhores vinhos e azeites da CARM, a Quinta das Marvalhas, com uma área de 70 hectares, tem cerca de 28 hectares de olival e 23 hectares de amendoal, foi a eleita para a instalação do lagar de azeite e da nova adega de vinificação. A Quinta das Verdelhas, de 45 hectares, tem 14 hectares de vinha, onde estão plantadas as castas Touriga Nacional, Tinta Roriz e Touriga Franca, 17 hectares de olival centenário e cerca de 10 hectares de amendoal autóctone. A Quinta da Urze, sede da exploração agrícola que integra propriedades próximas, com um total de 190 hectares e onde as vinhas atingem, em alguns pontos, os 600 metros, possui a maioria das variedades brancas tais como Rabigato, Códega do Larinho, Arinto ou Gouveio, plantadas em solos maioritariamente de xisto, mas também de transição para granito e quartzo, as quais resultam em brancos de eleição. Ainda sobre esta última propriedade, as diferentes exposições solares, altitudes, castas e transição de solos contribuem para a criação de vinhos com perfis distintos e diferenciadores. Trata-se de uma quinta lindíssima, a qual tivemos o prazer de percorrer, lado a lado com um casal de perdizes selvagens. A título de curiosidade, sairá muito em breve o vinho “Carm Granito” precisamente para mostrar a expressão de uma parcela muito especial, uma vinha velha com castas misturadas plantada em solo de granito da Quinta da Urze. A provar em breve.

Respeito pela terra
Inspirado pelo sucesso da produção de azeite, Filipe Roboredo Madeira percebe que, nas terras do Douro Superior, esse legado de vinhas velhas e esse terroir de eleição a explorar era um tesouro impossível de ignorar. Assim, no começo do século XXI, e à boleia do sucesso obtido com a produção do “ouro verde”, a família decide apostar também na produção de vinho em nome próprio. Filipe Roboredo Madeira, cuja trajetória de vida o levou a regressar às origens (já tinhas descrito anteriormente que estudou medicina e teve uma vida folgada), para liderar este projeto com uma sensibilidade cosmopolita e, simultaneamente, um respeito religioso pela terra.
No início, as uvas eram vinificadas numa adega alugada. A enologia estava a cargo de João Silva e Sousa e o irmão de Filipe, Rui Roboredo Madeira.
O ano de 2004 marca um ponto de viragem fundamental, com a construção da adega moderna em Almendra. Mas é precisamente nessa altura da construção da adega que se dá a rutura entre Rui Roboredo Madeira e o pai. E o enólogo deixa a CARM. Seguiu-se António Braga, que acaba por sair para a Sogrape, deixando, mais uma vez, Filipe Roboredo Madeira sozinho, que tem novamente de “arregaçar as mangas” para aguentar o barco. Eis que, em 2008, surge António Magalhães Ribeiro, assumindo o papel de enólogo residente, função desempenhada até hoje. “Vivi muito tempo lá fora e não gostava de vinhos portugueses. Eram muito rústicos. Por isso, disse ao António ‘nós temos de fazer vinhos muito mais limpos, com mais acidez. Algo totalmente diferente’”, revela Filipe Roboredo Madeira.
Paralelamente, e apesar de a produção de vinhos de excelência se manter, a nova infraestrutura permitiu aliar a tecnologia de ponta ao respeito pelos métodos ancestrais, como a pisa em lagares de pedra. Destaque para a impressionante linha de frio ajustada a todas as cubas de vinificação: “esta linha de frio é fundamental para garantir o rigoroso controlo total da temperatura durante a vinificação e estágio, de modo a preservar a qualidade, consistência e estabilidade do vinho até chegar à garrafa”, explica o enólogo. António Magalhães Ribeiro também trouxe um olhar profissional no tocante à viticultura, respeito pelo terroir e o cuidado com a matéria-prima de excelência que tem ao dispor desde há aproximadamente duas décadas.
Neste momento, a empresa produz em média 1,2 milhões de garrafas, das gamas Carm Colheita (branco, tinto e rosé), Carm Reserva e Grande Reserva (ambas nas versões branco e tinto), para além dos monovarietais Rabigato, Códega do Larinho, Touriga Nacional e Gouveio e os topos de gama, Maria de Lourdes (branco e tinto), produzida em homenagem à mãe de Filipe Roboredo Madeira, e CARM CM (branco e tinto), numa ode ao patriarca Celso Madeira. Do total da produção, 70% vai para o mercado nacional, enquanto o restante é para exportação.
Tivemos oportunidade de provar estes vinhos, resultando precisos, elegantes e que mostram o terroir de onde provêm. À mesa, desfilou ainda a linha de produtos gourmet disponível no site da empresa, como os pimentos com atum, pimentos com queijo, corações de alcachofra, azeitonas em salmoura ou as pastas de azeitona e de tomate seco, entre outros petiscos que merecem igual destaque. Todos brilharam ao lado de vinhos de um Douro Superior repleto de identidade, moderno, sem perder a sua tipicidade.

(Artigo publicado na edição de maio de 2026)
PAÇO DOS CUNHAS: Vinhos de um terroir histórico

As colheitas mais recentes do icónico Paço dos Cunhas, da Global Wines, as quais já se encontram disponíveis no mercado, foram apresentadas no Bairro Alto Hotel, em Lisboa. Trata-se de um branco de 2017, que ostenta a designação Dão Nobre, a de prestígio desta denominação, e um tinto de 2015. Ambos têm como origem a […]
As colheitas mais recentes do icónico Paço dos Cunhas, da Global Wines, as quais já se encontram disponíveis no mercado, foram apresentadas no Bairro Alto Hotel, em Lisboa. Trata-se de um branco de 2017, que ostenta a designação Dão Nobre, a de prestígio desta denominação, e um tinto de 2015. Ambos têm como origem a Vinha do Contador, mostram as características distintivas e refletem a qualidade habitual da marca. No evento, também foi lançada uma nova referência, o tinto Clos de Santar de 2020, que sairá dos anos de vindima em que as uvas não tiverem as características para originar a primeira marca. A explicação dos vinhos coube a Paulo Prior, bairradino natural do concelho de Cantanhede e Director de Enologia da Global Wines.
Quatro séculos de história
Descendente de pessoas ligadas à terra e à vinha, Paulo Prior começou o seu percurso profissional em 1995, no Instituto da Vinha e do Vinho. Cinco anos depois, mudou-se para a Sogrape, onde permaneceu até 2024, ano em que assumiu funções de Director de Enologia da Global Wines, grupo que detém o Paço dos Cunhas. Esta propriedade inclui um edifício histórico na vila de Santar, no concelho de Nelas, erguido, em 1609, por iniciativa de D. Pedro da Cunha, que aproveitou algumas estruturas do século XV, de um paço medieval anterior.
Segundo dados históricos, o seu segundo filho, D. Lopo da Cunha, partidário da coroa espanhola, fugiu para Espanha em 1641. Participou, inclusive, numa conspiração contra o rei D. João IV, o primeiro monarca português da pós-restauração, o que determinou a confiscação dos seus bens, o desterro em Espanha e, consequentemente, o abandono e início da ruína do Paço dos Cunhas. De tal forma, que o edifício era pouco mais do que um amontoado de pedras quando a empresa, que deu origem à Global Wines, comprou, em 2003, o Paço dos Cunhas (até 2018 conhecido por Paço dos Cunhas de Santar, alteração esta que resultou da restruturação da marca, por forma a colocá-la num patamar mais distinto, e para dar início a um novo ciclo na empresa, no contexto da região e além-fronteiras). Este foi posteriormente reconstruído de acordo com a traça original, para se tornar na estrutura actual, que inclui uma loja e um restaurante, onde a gastronomia de inspiração beirã e portuguesa em geral se conjuga com os vinhos da Global Wines. “Tinha uma adega e um lagar, que não são utilizados hoje, já que todas as uvas colhidas na propriedade são vinificadas na adega da Casa de Santar”, afirmou Paulo Prior.
A vinha, a do Contador, tem sete hectares delimitados por estradas e muros em pedra, situados a uma altitude média de 400 metros. Sobre os solos graníticos, encontra-se um field blend das castas tintas Touriga Nacional, Tinta Roriz, Alfrocheiro e Jaen, as quais representam 85% do seu encepamento, e as brancas Encruzado, Malvasia Fina e Cerceal. A vinha, que tem uma média de 30 anos, não foi mudada desde a aquisição da propriedade pela Global Wines e apenas são repostos novos pés no lugar das plantas que morrem. “Tendo em conta todo o histórico da enologia anterior e os dados da viticultura, as uvas de Jaen nunca são usadas para a produção dos vinhos da gama Vinha do Contador”, declarou Paulo Prior, acrescentando que isso se deve ao facto desta variedade ter maturações diferenciadas em relação às restantes castas tintas e um pH que não se adequa ao enquadramento do vinho ao longo estágio, que tem de realizar antes de ser lançado no mercado.

Uma nova marca
Até agora, a gama de vinhos do Paço dos Cunhas Vinha do Contador incluía apenas três referências. Um branco e um tinto lançados apenas em anos especiais, e uma aguardente. Foi este o cenário que Paulo Prior encontrou quando chegou à Global Wines. Entretanto, foi fazendo provas dos stocks feitos a partir de uva vindimada na vinha do Paço dos Cunhas e constatou que havia, entre elas, “um vinho diferente, que não merecia o estatuto de Vinha do Contador, apesar de ter origem nela”, revelou. Em face disso, desafiou a Direcção de Marketing e Vendas da Global Wines e a administração da empresa a provar um vinho “que poderia preencher um vazio”.
Havia, assim, espaço para lançar uma nova marca de vinhos produzidos a partir da mesma vinha e de anos em que as condições não eram as ideais para resultar na referência Vinha do Contador, “mas sim um vinho mais jovem, com outras características, diferenciadas, com qualidade e que não defraudasse a origem, a casa que a produz”, explicou Paulo Prior. Então, ficou decidido avançar com o projecto de criação da nova referência, o Clos de Santar, designação que lembra que a referida vinha está enclausurada, neste caso, entre muros de pedra. Segundo o Director de Enologia, não haverá, no futuro, sobreposição de colheitas entre a marca Clos de Santar e Paço dos Cunhas Vinha do Contador, pois “nunca sairão nos mesmos anos”.
Minimalismo na adega
Das referências apresentadas, o branco de 2015, com a certificação de Dão Nobre dada pela Comissão Vitivinícola Regional do Dão, foi engarrafado em Junho de 2022. Também foi apresentado o Vinho do Contador tinto 2015, engarrafado em Maio de 2022. Para a produção de ambos, foram escolhidas as melhores uvas, porque “é isso que é necessário para originar os melhores vinhos”, reforçou Paulo Prior. Depois, é também preciso “ser minimalista nos trabalhos realizados na adega”, até porque cada movimento tira valor à uva e ao vinho inicial.
“Isso implica fazer as coisas à primeira e nem é preciso usar grandes técnicas”, defende, acrescentando que “o que importa mesmo é ir à vinha, provar as uvas e escolher os bardos, as linhas ou a mancha de vinha, e vinificar com, sem engaço ou apenas com uma percentagem deste nos tintos, sem engaço e com maceração nos brancos, a uma temperatura que varia com a incorporação de oxigénio que se pretenda”. Depois, há que dar tempo ao tempo, provando sempre até sentir que se chega onde se quer que o vinho chegue. As referências provadas mostram que esse é o caminho certo, no caso.
(Artigo publicado na edição de Abril de 2026)
ATAÍDE SEMEDO: A visão de um veterano da Baga

O nascimento de Ataíde Semedo para o sector dos vinhos inicia-se, precisamente, a 1 de Janeiro de 1978. Apreciador das coisas boas da vida errante da juventude e da frequência de um curso de Engenharia Mecânica nos tempos quentes do pós-25 de Abril, Ataíde Semedo vê nas Caves São Domingos, empresa que teve o seu […]
O nascimento de Ataíde Semedo para o sector dos vinhos inicia-se, precisamente, a 1 de Janeiro de 1978. Apreciador das coisas boas da vida errante da juventude e da frequência de um curso de Engenharia Mecânica nos tempos quentes do pós-25 de Abril, Ataíde Semedo vê nas Caves São Domingos, empresa que teve o seu tio-avô como fundador e o seu pai como um dos sócios, um futuro promissor. O pai era industrial metalúrgico e, não obstante ser sócio da empresa bairradina, a ligação ao sector dos vinhos era nula. Ao pai disse que não lhe queria gastar mais o dinheiro num curso superior para o qual não estava fadado e, não querendo despender mais tempo nos bancos da universidade, ruma ao conforto das caves da aldeia de Ferreiros, no concelho de Anadia, que, afortunadamente, estavam paredes meias com a casa de família. Bem melhor opção que ir para a construção civil!
Na faculdade, apenas a cadeira de química o seduzia – observar a magia das reações obtidas a partir das mais diversas combinações. A partir de então, nasce uma vocação, que passa a ser praticada nos laboratórios, apadrinhado pelo enólogo da Caves São Domingos à data, Mário Pato, filho do enólogo homónimo que revolucionou a enologia nacional na primeira metade do século XX.
À data, a Caves São Domingos era liderada por Lopo de Freitas, que defendia a velha prática da Bairrada de comprar vinhos por toda a região, afinando-os na adega, para posterior comercialização. Ataíde Semedo pensava de um modo diametralmente diferente. O mundo já buscava vinhos com outra minúcia e qualidade. Para alcançar isso, mostrava-se necessário controlar o processo desde a vinha à adega, algo que apenas se alcançaria com a aquisição de vinha e um olhar mais presente sobre todas as opções da viticultura. Não tendo logrado convencer a administração da Caves São Domingos de que esse era o caminho correto, Ataíde Semedo ali permanece até 1987, data em que se dá a rutura com a empresa por divergências de estratégia sobre aquilo que entendia ser o futuro da Bairrada enquanto produtora de vinhos absolutamente diferenciadores.
Por conseguinte, em contraciclo com a região, que vivia tempos nebulosos e muitos produtores arrancavam ou abandonavam vinha, Ataíde Semedo entendia que era a melhor altura para investir em vinhas próprias e abandona a empresa.
1987, o ano da Rigodeira
A saída de Ataíde Semedo da Caves São Domingos dá-se a 1 de abril de 1987 e o futuro foi gizado nesse mesmo dia. Entregando a carta de demissão pelas nove horas da manhã, em Ferreiros, dirige-se ao Centro de Saúde de Anadia, onde bate à janela do consultório do seu amigo e colega de longa data, Almeida e Silva, médico local, mais conhecido por “Dr. Pardal”, cuja ligação aos vinhos da Bairrada lhe vinha por intermédio da mãe, detentora da “Casa de Saima”, projeto ao qual deu continuidade. Almeida e Silva já há muito que desafiava Ataíde Semedo para um projeto comum e ali, no consultório, fica pré-definido o futuro. Pouco tempo depois, reúnem-se com o reputado médico fogueirense Joaquim Barros, já de idade avançada, propondo-lhe a compra da Quinta da Rigodeira, à época com uma dimensão de seis hectares. A compra faz-se por um preço amigo e com um prazo de pagamento dilatado. Joaquim Barros vê naqueles dois amigos um futuro promissor.
O início é auspicioso. Aquelas vinhas possuem todo o potencial para produzir belos brancos e tintos grandiosos. Logo na primeira colheita, o Quinta da Rigodeira branco ganha o primeiro Prémio do Concurso de Vinhos da Bairrada e o Quinta da Dôna tinto, da colheita de 1991, arrecada distinções em todas as competições nacionais e internacionais, nascendo ali o mito.
O renascimento do Quinta da Dôna
É absolutamente incontornável para a carreira de Ataíde Semedo, e mesmo para a história dos grandes tintos da Bairrada, falar dos Quinta da Dôna. A história, porém, é simples e está conectada com a natureza das coisas. Em 1991, Ataíde Semedo vinifica isoladamente uma parcela da Rigodeira, conhecida como “Quinta da Dôna”. Ao contrário do que é comum nas vinhas velhas da Bairrada, possuindo estas cerca de 70 anos, não há outras castas misturadas com aquela que assume maior preponderância, a Baga. A segunda experimentação da vindima de 1991 é criar dois modelos de tintos distintos: um vinificado com engaço e um segundo vinificado com uva desengaçada. Este último dá origem, após um estágio longo em barricas, ao primeiro e exclusivo Quinta da Dôna.
A designação Quinta da Dôna, escolhida pelos dois parceiros, resulta em várias colheitas memoráveis, entre elas a de 2001, as quais, e à semelhança do distinto Barca Velha, apenas são lançadas para o mercado nos anos em que se atinge o esplendor qualitativo. O projeto Quinta da Rigodeira/Quinta da Dôna termina em 2002, dada a insustentabilidade do mesmo, pela sua dimensão de 23 hectares, excessiva para o modelo de vinhos e espumantes que Ataíde Semedo pretende criar. Nesse ano, ocorre a alienação à Caves Aliança, que fica igualmente detentora das marcas referenciais. Entretanto, há cerca de dois anos, a vinha, de onde eram oriundos os vinhos Quinta da Dôna, é arrancada, presumivelmente por ter atingido o seu tempo máximo de vida com produções de qualidade.
As características daquela vinha eram muito especiais, mas perfeitamente replicáveis para Ataíde Semedo. No renovado projeto em nome próprio, regressa às dimensões originais, com a aquisição da propriedade de Vale de Carros. A marca Quinta da Dôna também lhe regressa às mãos por caducidade do registo da mesma por parte do anterior detentor, mas, para o renascimento das cinzas da marca mítica, havia que apurar as condições naturais que a levassem a resultados semelhantes àqueles que outrora haviam sido alcançados. Nestas coisas de criar qualidade distinta, só o insuperável fator tempo pode trazer a confiança inabalável.
Plantando as vinhas de Vale de Carros em 2001, só em 2018 Ataíde Semedo entende ter alcançado o nível de maturidade das mesmas e da específica parcela de Baga, para poder voltar a, com galhardia, usar a designação Quinta da Dôna a um vinho da sua lavra. Convenhamos, a Baga continua a ser, na Bairrada, uma casta dada a humores muito especiais, alcançando a excelência apenas em anos em que os astros do clima se conluam, para trazer as temperaturas ideais, a pluviosidade no tempo certo e nunca em setembro, e os ventos que afastam as maleitas da vinha e a humidade relativa.
Após a colheita de 2018, a primeira das vinhas novas de Vale de Carros, sucede-se a de 2020, já esgotada, e, depois de um hiato entre 2021 e 2024, torna a surgir a edição de 2025, um ano, a todos os níveis, perfeito, com lançamento previsto para finais de 2027.
Indagado sobre as diferenças entre os clássicos e os atuais Quinta da Dôna, Ataíde Semedo tende a não os diferenciar e explica-nos. A Baga da vinha velha da Quinta da Rigodeira provinha de plantas com produção muito diminuta por natureza. Nas vinhas novas (agora com mais de 20 anos), o produtor mimetiza o comportamento da vinha velha, realizando uma monda muito expressiva – a planta tem, aproximadamente, 15 cachos –, colocando, no chão, uma média de 10 cachos por cepa, deixando apenas cinco. Como uma vinha nova não possui as mesmas reservas de uma vinha velha, a única forma de lhe imitar o comportamento com maior concentração e uma melhor, mais equilibrada e mais precoce maturação, evitando os excessos para não lhe dar um carácter de sobrematuração, preservando-lhe a frescura inerente à sua elevada acidez natural, é, ainda em verde, diminuir-lhe substancialmente a carga. A prática desta monda severa é realizada apenas no melhor talhão de Baga da vinha. Noutros, a monda é muito menos expressiva, permitindo a maturação total de cerca de oito a 10 cachos por videira.
Um Quinta da Dôna, para a roçar a perfeição, tem de ter, em jovem, características em excesso: ácidos, álcool, cor e taninos. E são as reações químicas que se operam no processo de envelhecimento que lhe vão trazer a elegância e a singularidade única de um grande Baga. Uma espécie de pacto de não agressão entre os excessos, para uma paz duradoura e futura.
Há novas tendências de vinhos inteiros, fermentados com engaço, mas cujo perfil não convence Ataíde Semedo. Definitivamente, os taninos libertados pelo engaço nunca são positivos por terem sempre um carácter herbáceo. Um vinho nobre tem de ser desengaçado, a menos que se queira um resultado mais rústico, característica que a Baga já possui em demasia. A sua experiência no Dão, onde colabora com umas das mais reputadas casas da região, mesmo com outras castas tintas, fá-lo não prescindir do desengace. Olha para o engaço como um espinho cravado numa mão. É um elemento estranho e que em nada beneficia, de modo que, o melhor é mesmo extirpá-lo.
Vinha de Vale de Carros
Nas opções e filosofia de Ataíde, nada é fruto do acaso, tal como não o é a aquisição da propriedade de Vale de Carros. A proximidade com a “sua” Rigodeira e a Quinta da Dôna está ocultada por uma pequena faixa de arvoredo. A distância entre ambas está entre os 300 e os 400 metros. Mas o mais relevante para a decisão da compra foi a semelhança na composição dos solos entre as duas propriedades, com uma forte componente de calcário em solos muito pobres, ideais para o plantio da videira, planta a revelar um desempenho maior em condições de stress hídrico e nutritivo.
São cinco hectares onde, de modo rigoroso e objetivo, planta as castas brancas Bical, Cercial da Bairrada e Chardonnay; e as tintas Baga, Touriga Nacional e Pinot Noir. A exposição da propriedade ajuda a moldar a semelhança com a Quinta da Rigodeira, sobretudo para as virtudes que aporta à Baga. A opção pelas outras castas deriva da sua experiência. Para espumantizar, não teve dúvidas. O privilégio de as várias viagens a França lhe terem permitido provar grandes champagnes, retiram-lhe quaisquer dúvidas sobre a óbvia escolha das internacionais Pinot Noir e Chardonnay, variedades melhoradoras da espumantização, com as locais Bical, Cercial e Baga.
A Bical, casta autóctone, surge para dar corpo aos vinhos, enquanto a Cercial traz a frescura e a vibrância, criando o equilíbrio perfeito, não obstante ter uma tendência para a podridão na vinha e oxidação na adega, o que obriga a um trabalho de muita proximidade nos dois locais. De todo o modo, e isso sente-se nos vinhos e espumantes, é a força do terroir que marca indelevelmente o perfil. E Ataíde Semedo já o sabia antes mesmo da aquisição da parcela. O namoro com esta encosta existe desde o tempo em que liderava a Rigodeira. Os antigos falavam muito nela e gabavam-lhe o potencial. Em segredo, e logo após a venda das vinhas antigas que lhe dá a disponibilidade financeira que anteriormente não possuía, começa o processo negocial de aquisição daquela montra, pertencente a 18 viticultores, num rendilhado de pequenas parcelas. Um trabalho árduo que demorou dois anos e meio a ser concluído, com muitas peripécias pelo meio.
As expetativas são elevadas para aquela propriedade de exposição a sul, contemplando-a com o sol desde as primeiras horas da matina até ao pôr-do-sol. As vinhas, muito velhas, estão decrépitas, com uma produção absolutamente residual e de baixa qualidade. Arranca a totalidade da área de vinha logo no ano de aquisição e, um ano mais tarde, em 2003, realiza o primeiro plantio, que requer um cuidado muito especial. Com o rigor que exigia a si próprio, não hesita em enviar todas as varas para um viveirista reputado em França, onde são enxertadas e regressam, já em 2004, em plantas. Os clones das castas portuguesas – Baga, Touriga Nacional, Bical e Cercial – são submetidos a uma seleção massal, todos enxertados nos porta-enxertos por si escolhidos, tendo, na base, a tipologia do solo, o porta-enxerto, as características da casta e o clone da mesma. Da Baga seleciona ainda clones de vinhas muito velhas do Dão; os 35 melhores clones da Estação Vitivinícola da Bairrada e os clones de Bical e Touriga Nacional são oriundos do Centro de Estudos de Nelas, onde conta com a preciosa da engenheira Vanda Pedroso. O mesmo critério de exigência teve-a na escolha dos clones de Pinot Noir e Chardonnay, os mais aptos e exclusivamente utilizados na produção de espumante.
Espumantes e Baga
Porque na Bairrada há vida para além dos vinhos de mesa, os espumantes sempre fizeram parte do universo produtivo de Ataíde Semedo. O traquejo técnico trazia-o da conceituada Caves São Domingos. Na Quinta da Rigodeira tinha chegado a engarrafar 30 mil unidades por ano. Com a saída de Almeida e Silva do projeto, fruto de uma atividade profissional intensíssima como médico, aliada à gestão da Casa de Saima, Ataíde Semedo entendeu que estava na altura de abrandar.
Apaixonado pelas castas internacionais Pinot Noir e Chardonnay, Ataíde Semedo nunca escondeu a paixão pelas virtudes da Baga na espumantização, não crendo, no entanto, que a rainha da Bairrada pudesse mostrar, assim, tanta realeza em espumante extreme da casta. Na Rigodeira, a Baga “descorada” entrava, em segredo, nos lotes de Maria Gomes e Bical, correspondendo, à data, a cerca de 30% da composição do espumante.
As vindimas realizadas em Champagne trouxeram-lhe o conhecimento de vinha e adega no processo de espumantização, e a convicção de que, para fazer espumantes de elevada qualidade na Bairrada, as castas Chardonnay e, sobretudo, Pinot Noir são imprescindíveis, ainda que usadas em lote com outras grandes castas locais. Atualmente, o produtor já não usa a Baga para espumantizar, entendendo que a pequena dimensão de área de vinha que detém e a qualidade que possui para vinhos tranquilos, tornaria mal empregue o seu uso nos espumantes. Ora, se escolhe os melhores clones, os melhores porta-enxertos e os melhores solos, tem de potenciar a casta naquilo em que ela é, criar vinhos tintos de referência mundial. E essas virtudes redundam da capacidade de envelhecimento inigualável, após mostrar muita discrição na juventude, com aromas fechados, engrandecendo com a idade, à semelhança do Nebbiollo (casta tinta italiana).
Com as alterações climáticas, a Baga tem saído bastante beneficiada. Há uma notória antecipação da maturação alcoólica, permitindo colher a uva com um teor provável superior a 13% volume sem que daí resulte uma perda da acidez natural da casta, facto que, segundo o produtor, ocorre em situação de sobrematuração (acima de 14% de álcool provável). Ataíde Semedo não crê muito em vinhos tintos elaborados exclusivamente com Baga de baixo teor alcoólico. Note-se que os Quinta da Dôna, dos quais damos como exemplo as colheitas de 2001 ou 1992, que possuem 13,5% volume alcoólico e foram – e são – vinhos enormes, aos quais o tempo emprestou o glamour e a elegância apenas ao alcance dos maiores. Lá para o final de 2027, voltaremos aqui para provar a mesmo muito auspiciosa colheita de 2025, vinho que, certamente, honrará a fama e a glória dos míticos Quinta da Dôna.
(Artigo publicado na edição de Abril de 2026)
GRANDE PROVA: Arinto de Norte a Sul

Casta muito vetusta em Portugal, foi descrita pela primeira vez em 1712 por Vincenzo Alarte, na obra Agricultura das Vinhas, onde é referida como uma variedade serôdia. A sua grande variabilidade intravarietal, sobretudo na região do Oeste, com destaque para Bucelas, não deixa dúvidas quanto à sua antiguidade e provável origem nacional. Ao longo do […]
Casta muito vetusta em Portugal, foi descrita pela primeira vez em 1712 por Vincenzo Alarte, na obra Agricultura das Vinhas, onde é referida como uma variedade serôdia. A sua grande variabilidade intravarietal, sobretudo na região do Oeste, com destaque para Bucelas, não deixa dúvidas quanto à sua antiguidade e provável origem nacional. Ao longo do tempo, foi-se espalhando por várias regiões do país, sendo mencionada por diversos autores na Beira, no Douro, na Estremadura e no Minho (1790), em Évora, Arruda, Torres Vedras, Colares e Carcavelos (1866/67), e em Portalegre (1900).
Os progenitores da Arinto continuam, oficialmente, a ser um mistério genético. Segundo a explicação do investigador e curador do INIAV – Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária, Jorge Cunha, embora existam estudos baseados em nove marcadores moleculares (chamados microssatélites), estes permitem estabelecer compatibilidades genéticas, mas não são suficientes para confirmar, de forma inequívoca, um parentesco directo. Em bases de dados científicos, como o Vitis International Variety Catalogue (VIVC), a Arinto permanece sem pedigree confirmado. Apesar de ter adquirido algumas sinonímias em terras por onde se espalhou é, ainda assim, mais conhecida pelo seu nome original. Pode mencionar-se apenas um sinónimo relevante, Pedernã, oficialmente reconhecido na região do Minho, embora, actualmente, muitos produtores prefiram usar Arinto nos rótulos. O mais importante é não a confundir com outras castas homónimas: a Arinto do Interior, no continente, e a Arinto dos Açores (igual à Terrantez da Terceira), com as quais não tem qualquer ligação genética.
Historicamente gloriosa
Esta casta branca foi outrora muito famosa, fortemente associada à zona da sua origem, Bucelas. No século XIX, exportava-se vinho feito a partir de Arinto para Inglaterra, o qual era vendido nos pubs a copo, ao mesmo nível do Vinho do Porto, Xerez, Champagne ou Claret, como descreve o comerciante e escritor britânico Charles Tovey, no seu livro Wine and Wine Countries, em 1862.
A referência aos vinhos de Bucelas também surge no livro do escritor e jornalista britânico Henry Vizetelly, Facts about Port and Madeira, publicado em 1880, caracterizando-os como “notavelmente frescos no sabor, com um ligeiro tom esverdeado na cor (…) os vinhos mais antigos eram mais redondos e aromáticos; o seu sabor, mais pronunciado, deixava um final macio, com notas de amêndoa. Certamente não é fácil encontrar vinhos mais puros do que estes. Sendo os melhores vinhos da sua classe, eram enviados para Inglaterra sob a designação El Rey – Royal Bucellas Hock”. O mesmo autor, viajando até Bucelas, recorda-se de provar “um Arinto muito seco e com carácter de noz, com um final agradavelmente picante.”
Hoje, não só em Bucelas, mas em toda a região vitivinícola de Lisboa, embora não seja a casta mais plantada, a Arinto continua a ser muito importante em termos de qualidade e é apreciada por numerosos produtores, que a utilizam em vinhos monovarietais.
Expansão territorial
Uma das grandes vantagens da casta é que ela não se importa de viajar para outras paragens e consegue adaptar-se a solos e condições mais diversos: desde os argilo-calcários, nas regiões de Lisboa e da Bairrada, aos xistosos, no Douro, passando pelos graníticos, no Minho e pelos de natureza mais variada, no Alentejo. Por onde passa, leva sempre o seu cartão de visita: a capacidade de construir vinhos com uma estrutura ácida vibrante, mesmo em climas mais quentes, onde esta característica é particularmente apreciada.
Na região do Tejo, a Arinto é parceira frequente da Fernão Pires que, por vezes, carece de frescura natural. Antonina Barbosa, enóloga e Directora-Geral da Falua, confessa ser uma grande defensora da casta e já há mais de dez anos que produz os vinhos Reserva com Arinto, reconhecendo a sua aptidão para criar grandes vinhos, bem como o seu potencial de envelhecimento. Sabe também que esta casta pode revelar-se muito diferente consoante o local: um vinho de Arinto da sub-região do Campo distingue-se do da Vinha do Convento, com calhau rolado e uma boa drenagem.
Na Bairrada, mostra o seu lado mais salino e calcário, com uma frescura nervosa, criando um perfil mais vertical e austero do que em Bucelas. E isto sentiu-se bem na prova. O produtor Carlos Campolargo também sempre apreciou a casta, desde que, ainda jovem, provou os vinhos trazidos em garrafões de Bucelas.
No Alentejo, a Arinto é absolutamente indispensável como team player, sendo campeã na acidez entre as suas parceiras alentejanas: Antão Vaz, Roupeiro, Perrum e outras.
O produtor Julian Reynolds conta a sua história de “namoro” com a casta. Provou Arinto numa tasca em Portalegre, no início dos anos 2000, e ficou encantado, pensando logo em plantar. No entanto, um conhecido da área de distribuição desaconselhou-o, dizendo que era “uma casta vulgar e que fazer um vinho com ela estragaria o nome Reynolds”. Felizmente, ignorou o conselho, percebendo que “o perfil da serra lhe imprime uma expressão diferente da de outras zonas”.
Nuno Elias, enólogo da Casa Agrícola HMR, sublinha a consistência da Arinto, uma característica que, na sua opinião, é extremamente importante para um vinho monovarietal. “A casta tem de dar um óptimo resultado, pelo menos, oito em 10 anos; com Arinto, eu tenho o histórico de bons vinhos, tenho a qualidade hoje e sei que amanhã também a terei”, afirmou.
No Douro, a Arinto não é tão difundida quanto as variedades típicas da região, como Rabigato, Códega, Viosinho, Códega do Larinho e Gouveio, entrando estatisticamente na categoria de “outras castas”. Provavelmente por isso, quando a Menin lançou o seu primeiro Arinto Grande Reserva, houve dúvidas sobre se faria sentido colocar o nome da casta no rótulo. A verdade é que o vinho sempre se mostrou muito aromático e com imenso carácter, convencendo os enólogos e o produtor de que era justo colocar o nome da casta no rótulo, contou o enólogo consultor da casa, Tiago Alves de Sousa.
Na região dos Vinhos Verdes, embora a Arinto esteja bem presente, em termos de notoriedade tem de competir com duas estrelas, a Alvarinho e a Loureiro, que a ultrapassam em plantação e fama. Por isso, o Arinto surge com menos protagonismo nos rótulos, embora seja frequente em lotes. Desempenha muito bem o seu papel nas sub-regiões um pouco afastadas da influência atlântica directa, como Basto e Baião, onde entra em blends com Azal.
Na vinha
Casta muito vigorosa, que, se não for controlada pelo porta-enxerto ou pela baixa fertilidade do terreno, desenvolve grande expressão vegetativa. Devido às folhas grandes, beneficia da desfolha precoce, evitando a compactação da folhagem. “Não é tão produtiva como a Antão Vaz, mas também não há aflição, como no caso da Alvarinho ou Verdelho”, explica Nuno Elias. A produtividade, naturalmente, depende do clone, mas, em geral, é generosa se for bem conduzida. Caso contrário, a videira investe na produção de lenha, podendo tornar-se aneira. A produção recomendada varia entre os 4500 e 8000 litros por hectare.
Em alguns clones, produz particularmente mal nos gomos basais (na base do sarmento). Por isso, o tipo de poda tem que ser adaptado, sendo preferível optar por poda longa ou mista, o que implica maior exigência em mão de obra. Os cachos são grandes, mas poucos por cepa, com bagos pequenos e muito compactos. Para além do míldio, do oídio e de outras doenças criptogâmicas (provocadas por fungos e organismos semelhantes), a casta é muito sensível à cigarrinha verde e à traça. No Alentejo, ainda é sujeita aos ataques do aranhiço amarelo, que, tal como a cigarrinha verde, representa um problema nas regiões quentes e secas. “Desparram as plantas”, conta Nuno Elias, referindo-se à diminuição da área foliar funcional. “Mas no ano passado, com as chuvas intermitentes durante o verão, correu melhor.”
A Arinto prefere solos bem drenados e é relativamente resistente ao stress hídrico. “Película rija, resiste à falta de água”, afirma Antonina Barbosa. Porém, “sendo sensível ao escaldão, a gestão da folhagem é importante”, acrescenta António Maçanita, que trabalha com a casta no Alentejo, no Douro e na região de Lisboa. “Não fica em passa, mas sim uma uva verde escaldada”, exemplifica. Durante o período entre o pintor e a maturação, o enólogo costuma provar os bagos, onde “primeiro aparece fruta neutra, que não sabe a uva, podia ser qualquer outra fruta”. Espera até que o sabor fique definido. Antonina também prefere decidir a data de vindima pela prova do bago, mesmo que analiticamente a uva já esteja pronta. Ao contrário da Fernão Pires, que perde a acidez e queima aromas em 48 horas, a Arinto pode esperar até atingir o equilíbrio na componente aromática, sem comprometer a sua frescura ácida, pois, quando ainda está ligeiramente verde, é muito neutra.
A vindima no Tejo e no Alentejo ocorre, geralmente, desde a última semana de Agosto até à primeira de Setembro. No Douro, realiza-se entre a primeira e a terceira semanas de Setembro, dependendo do ano. Na região de Lisboa, acontece no final de Setembro, já depois de algumas castas tintas.
A famosa acidez
A frescura ácida é o cartão de visita da Arinto. Mas, mais do que isso, é a qualidade da acidez e a capacidade de a preservar que merece destaque. Carlos Campolargo, comparando a Arinto com outra casta bairradina, a Cercial, nota que esta última tem maior acidez, mas “a da Arinto é mais rica e constante”. Em estudos comparativos com outras castas alentejanas, como Antão Vaz, Roupeiro, Perrum e Rabo de Ovelha, a Arinto apresenta consistentemente valores de acidez total significativamente mais altos e pH mais baixos, mesmo quando o seu teor de álcool provável também é elevado. Noutras castas, a acidez tende a ter uma forte correlação inversa com o teor de álcool, ou seja, só pode ser elevada em vinhos com baixos teores alcoólicos.
Curiosamente, os mesmos estudos revelaram que a Arinto apresenta relativamente baixo teor de ácido málico, mas um teor elevado de ácido tartárico. Esta distinção é importante: o ácido málico tende a degradar-se durante a maturação da uva, principalmente através da respiração das células do bago, o que se acentua em ambientes quentes. Em contraste, o ácido tartárico é muito mais estável, o que permite à casta conservar a sua frescura ácida mesmo em períodos de maturação avançada, conferindo consistência e equilíbrio aos vinhos produzidos.
Na adega
A Arinto há muito que conquistou os enólogos e produtores pela sua plasticidade. Como define Nuno Martins da Silva, enólogo consultor em várias casas da região de Lisboa, “é uma variedade interpretativa, que permite múltiplas abordagens. Tolera bem uma gestão criteriosa do oxigénio e pode beneficiar de curtimentas, desde que suportadas por matéria-prima adequada. Adapta-se e expressa-se com consistência em diferentes vasilhas – inox, cimento ou madeira”. Esta opinião é agregadora e geralmente partilhada por quem conhece bem a casta.
Não sendo exuberante, a Arinto “é uma casta muito pura em termos aromáticos”, descreve Sandra Tavares, enóloga consultora na Quinta da Chocapalha. Possui ainda muitos precursores aromáticos nas películas, pelo que a maceração pelicular pré-fermentativa faz todo o sentido, enfatizando a expressão olfactiva.
Normalmente, com o pH muito baixo (e na Arinto isto não é difícil), a sensibilidade à oxidação é baixa. Contudo, e apesar de ser uma casta branca, pode apresentar teores relativamente elevados de compostos fenólicos, especialmente se houver extracção mais intensa na prensagem ou contacto prolongado com as películas. Estes fenólicos são os principais responsáveis pelo escurecimento ainda em mosto (do amarelo-dourado ao acastanhado) e criam o potencial de oxidação ao longo do tempo. Mas há uma maneira de evitar isto: em vez de proteger o mosto do oxigénio, é deixá-lo oxidar ligeiramente no início, permitindo que os compostos instáveis precipitem logo. Por isso, António Maçanita não adiciona o sulfuroso até ao fim da fermentação, deixando que esta oxidação inicial controlada cumpra o papel de estabilização natural do mosto.
O grau alcoólico provável do mosto é variável consoante o local onde a vinha se encontra instalada, apresentando uma média de 11% em regiões com influência marítima e de 13% em regiões mais quentes, mantendo sempre a acidez firme. O enólogo da Adega Mãe, Diogo Lopes, considera que a Arinto “é bem talhada para fermentação e estágio em barrica, mesmo a madeira nova não se sobrepõe”. Sandra Tavares prefere barricas muito usadas, praticamente neutras e estágios longos, sendo neste caso 24 meses, e mais 12 em garrafa. Carlos Campolargo trabalha com barricas usadas de 5 a 6 anos e muito usadas de 10 a 12 anos, e fermenta com leveduras indígenas. Não se importa se, em algumas barricas, ocorre fermentação maloláctica “se lhe apetecer”. Chama a Arinto de “casta deliciosa” e lembra que também é excelente para a base de espumante.
Nuno Martins da Silva também procura “fermentações espontâneas, lentas, a temperaturas em torno dos 20 °C, em casco, seguidas de estágio nesses mesmos cascos sobre borras finas e intermédias.” Vê “a fermentação maloláctica como uma decisão estruturante e dependente do perfil que se procura em cada vinho”. Muitos recorrem a bâtonnage para aumentar a estrutura e a textura do vinho.
Em suma, embora a Arinto tenha sido fortemente associada a Bucelas, pouco a pouco foi perdendo essa dependência histórica e geográfica, afirmando-se noutros territórios vitivinícolas pelo seu próprio mérito. Por outras palavras, temos uma grande casta a nível nacional, capaz de interpretar a região sem perder o seu carácter, cuja qualidade deriva das suas virtudes intrínsecas e da habilidade do produtor em a trabalhar.
Arinto em números
A nível nacional, é a segunda casta branca mais plantada, a seguir à Fernão Pires. Segundo dados recentes do Instituto da Vinha e do Vinho, ocupa 6084 hectares, o que corresponde a cerca de 4% da área de vinha.
Na viragem do século, a Arinto ainda não figurava entre as 15 castas mais plantadas e praticamente não tinha protagonismo nas regiões vitivinícolas do país, incluindo a Estremadura (actual região de Lisboa), onde reinava a Fernão Pires, acompanhada por Vital, Malvasia Rei, Seara Nova e Alicante Branco. Apenas no Minho, a Arinto tinha alguma preponderância, ocupando 3171 hectares (8%).
Hoje, a casta apresenta-se com destaque em várias regiões: no Minho ocupa 2788 hectares (12%), sendo a terceira casta mais plantada, depois da Loureiro e da Alvarinho; no Alentejo é a segunda, ocupando 1042 hectares (5%), a seguir à Antão Vaz; na região de Lisboa mantém-se no segundo lugar das castas mais plantadas, com 538 hectares (3%), enquanto a Fernão Pires continua a assumir a liderança incontestável, com 11% das plantações; no Tejo ocupa 239 hectares (2%), sendo igualmente a número dois na lista das variedades mais plantadas, logo a seguir à Fernão Pires, apresentando valores muito semelhantes na Beira Interior. No Douro e noutras regiões, estatisticamente, a sua presença não tem expressão significativa.
(Artigo publicado na edição de Abril de 2026)
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Senses
Branco - -

Quinta da Lapa
Branco - 2023 -

Quinta da Boa Esperança
Branco - 2023 -

Monte da Carochinha
Branco - 2022 -

Casa Santos Lima Oak Aged
Branco - 2023 -

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Branco - 2023 -

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Branco - 2023 -

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Branco - 2018 -

Rama Family Wine Carvalho Grande
Branco - 2022 -

Quinta do Rol Colecção
Branco - 2017
VENÂNCIO DA COSTA LIMA: 112 anos de uma história viva

“Esta adega foi fundada em 1914 pelo Senhor Venâncio da Costa Lima. Na altura, tinha 22 anos. Com essa idade, iniciou-se na área de comércio de vinho, cereais e azeite. Uns anos depois, deixou o negócio do azeite e dos cereais, e dedicou-se só à produção e comercialização de vinhos.” A introdução é feita por […]
“Esta adega foi fundada em 1914 pelo Senhor Venâncio da Costa Lima. Na altura, tinha 22 anos. Com essa idade, iniciou-se na área de comércio de vinho, cereais e azeite. Uns anos depois, deixou o negócio do azeite e dos cereais, e dedicou-se só à produção e comercialização de vinhos.” A introdução é feita por Elsa Sousa, responsável pelo enoturismo da Venâncio da Costa Lima, empresa familiar situada na Quinta do Anjo, lugar pertencente ao concelho de Palmela e à região da Península de Setúbal. Homem de negócios empreendedor e visionário, Venâncio da Costa Lima adquiriu espaços comerciais – as tabernas, de então – no referido território vitivinícola, os quais eram dados à exploração. Objetivo? Vender o vinho produzido na adega homónima. “Atualmente, seria um franchising”, afirma a nossa cicerone em tom de brincadeira.
O sucesso estava garantido: “entre os anos 30 e 50 do século passado, éramos a segunda maior adega da região.” Elsa Sousa contextualiza o cenário socioeconómico desses tempos firmados na cultura da vinha e do vinho: “só aqui, na Quinta do Anjo, havia entre 10 a 15 adegas a funcionar. Neste momento, a produzir e a comercializar só há uma, a nossa.”
Quando Venâncio da Costa Lima morre, não havia descendência direta. Por conseguinte, deixou o legado a seis sobrinhos. Quatro gerações mais tarde, são os primos Joana Vida e João Vida, gerentes, e Carlota Lima, que faz parte da equipa de enoturismo, os representantes da quarta geração da centenária empresa familiar, com 35 funcionários permanentes. “E ainda temos cá um elemento da terceira geração, o pai da Carlota, que é Filipe Matos”, evidencia João Vida, referindo-se ao responsável pela área comercial.

Uva de 10 produtores locais
Em consequência das partilhas e com a passagem do tempo, a Venâncio da Costa Lima deixou de ter vinha na sua posse. Quanto à área total inerente à plantação de videiras detidas pelo então fundador da empresa, “teria de ser uma área razoavelmente grande, dado que foi o segundo maior produtor [de vinho] daquela altura”, afirma João Vida. A compra da uva entrava, em simultâneo, na equação deste negócio familiar. Paralelamente, o número de produtores de uva tem vindo a diminuir.
Hoje, “temos viticultores com os quais estabelecemos uma ligação desde há muito tempo”, revela Joana Vida, que conta com 10 produtores de uva locais, o que perfaz uma área de vinha total de aproximadamente 100 hectares, com especificidades de solos e orientações distintas. A vinha plantada há mais tempo tem mais de 50 anos e é de Castelão. Em relação à quantidade de matéria-prima reunida na adega, aquela “varia muito de ano para ano”, continua João Vida.
No enquadramento da localização atual das vinhas, a área maior está concentrada no Lau, localidade situada no concelho de Palmela. Os solos são arenosos, uma mais-valia para a casta Castelão, que, na região da Península de Setúbal, ocupa 2.935 hectares, representando 58% do encepamento de castas tintas, segundo dados fornecidos pela Comissão Vitivinícola Regional da Península de Setúbal. Porém, as temperaturas altas registadas, durante o verão, neste território vitivinícola, põem em alerta permanente os responsáveis da Venâncio da Costa Lima. Joana Vida explica que o calor causado pelo sol nos solos arenosos reflete na planta, provocando escaldões na vinha. “A altura crítica é antes da passagem para a fase do pintor [quando as uvas mudam de cor e dá-se início à maturação]”.
Em contrapartida, “não há uma amplitude tão grande, o que permite uma boa maturação da Castelão”, salvaguarda Eduardo Silva, enólogo da empresa desde 2024. Embora na legislação da Comissão Vitivinícola Regional da Península de Setúbal impere que 2/3 desta casta faça parte do lote de um tinto DO Palmela, no portefólio vínico desta adega a Castelão é usada a 100% nos seguintes vinhos tintos: Venâncio Costa Lima, Venâncio Costa Lima Reserva, Pioneiro e Rubrica Reserva.
De volta aos solos, o caso muda de figura nas vinhas da Serra do Louro, parte integrante do Parque Nacional da Serra da Arrábida, “porque os solos são argilocalcários”, justifica a gerente.

Acompanhamento planeado
Para minimizar os contratempos na vinha, a Venâncio da Costa Lima arranca com o acompanhamento aos 10 viticultores na fase do pintor, com o controlo da maturação, a verificação da acidez e avaliação da produção. Esta missão é partilhada por João Vida, Eduardo Silva e Carlos Dias, enólogo que presta apoio à empresa no âmbito da viticultura. O passo seguinte baseia-se na elaboração de um plano que incide no controlo de maturação. Os enólogos fazem a recolha por casta e efetuam a análise de laboratório. A finalidade consiste em traçar um calendário inerente à entrega da matéria-prima na adega, o qual é comunicado a posteriori a cada viticultor.
Independentemente desta tarefa assegurada pela empresa, “todos os viticultores são acompanhados por técnicos da AVIPE [Associação de Viticultores do Concelho de Palmela]. São engenheiros agrónomos, que aconselham e ajudam os viticultores a garantir um protocolo de produção integrada, ou seja, só tratam a vinha quando é necessário e com as substâncias ativas permitidas”, elucida João Vida. Os produtos fitofarmacêuticos adicionados à vinha são controlados pela referida entidade através de uma conta corrente, informação essa que é passada à empresa, por forma a conduzir os trabalhos em concordância.
Ao contrário do que acontecia há duas décadas, a vindima tem vindo a começar entre 10 e 15 de agosto, porque se a maturação da Moscatel Roxo e a acidez estão no ponto, impera a apanha. Esta casta é a primeira a dar entrada na adega Venâncio da Costa Lima, para dar corpo aos vinhos generosos, seguindo-se as outras variedades brancas (Fernão Pires, Verdelho e Arinto) e, posteriormente, as tintas (Castelão, Touriga Nacional, Aragonez e Syrah). O ciclo fecha com a colheita da Moscatel de Setúbal igualmente utilizada na produção de generosos.
João Vida relembra que a Moscatel Roxo esteve em vias de extinção, porque amadurece muito cedo, enquanto a Castelão entra na fase de maturação mais tarde, tendo em conta que ambas as variedades estavam misturadas na vinha. “Por isso, a vinificação era feita com todas as castas, mas a Moscatel Roxo já estava comida pelas abelhas e pelos pássaros.” A recuperação da casta beneficiou com a plantação a solo, para que passasse a ser vindimada em separado e, de seguida, facilitar a vinificação. Hoje, os vinhos Moscatel Roxo de Setúbal são os ex-libris da região, onde, atualmente, ocupa uma área de vinha de 66 hectares, num universo de 7.500 hectares, de acordo com a Comissão Vitivinícola Regional da Península de Setúbal. “Na adega, também representa 10%”, comunica João Vida.
Produto de excelência
Quer no Moscatel de Setúbal, quer no Moscatel Roxo de Setúbal, a vinificação das respectivas uvas é igual, ou seja, depois de esmagada e desengaçada, é colocada dentro do depósito, onde faz uma ligeira fermentação durante 24 horas. Findo este período, abafa-se com “aguardente selecionada pela Comissão Vitivinícola Regional da Península de Setúbal em conjunto com outras adegas. É álcool vínico, porque tem de ser o mais neutra possível”, esclarece Eduardo Silva. Após este procedimento, o processo de maceração pelicular, dentro do depósito, decorre até abril do ano seguinte. Este método “é muito importante pois, através de extração alcoólica, todos os aromas e sabores vão passar da uva para o líquido. Na primavera, abrem-se finalmente os depósitos de Moscatel e vai para prensa”, explica Joana Vida.
A experiência determina se a opção é apostar num Moscatel jovem ou se o resultado denota potencial para fazer um estágio mais prolongado. No caso dos moscatéis de Setúbal, o líquido obtido permanece em depósito de inox e sem estágio em madeira, para que o resultado revele “os aromas primários da casta: os aromas de flor de laranjeira, o do mel e a frescura, os descritores mais usuais neste caso. É quase como um perfume”, descreve a gerente. No âmbito do Moscatel Roxo de Setúbal, este “fica mais tempo a ganhar aromas, para ser um produto excelência”, declara enólogo, em barricas de carvalho francês de 225 e 250 litros, anteriormente usadas em vinho tinto, “porque não nos interessa que a madeira marque muito; é mais para potenciar a micro-oxigenação”, explana João Vida. O objetivo é evidenciar a elegância e a complexidade aliada aos aromas terciários.
À mesa, e segundo a nossa anfitriã, os moscatéis jovens são recomendados para aperitivo ou na companhia de uma “sobremesa com mais acidez ou com o ananás, ou abacaxi, por exemplo, ou queijos curados, salgados e gordurosos”. Já o Moscatel Roxo combina melhor com bolos de nozes ou chocolate; os mais velhos são para apreciar com calma e à temperatura ambiente, no inverno; no verão, o frigorífico é um bom aliado.
Para lá da fronteira de Portugal, é de recordar que esta empresa familiar já conquistou, por cinco vezes, o lugar cimeiro na competição Muscat du Monde. Esta estreia teve lugar em 2011, com o Moscatel de Setúbal Reserva 2006. “Este concurso alavancou a Venâncio da Costa Lima e alavancou a região e o produto, que passou a figurar com maior firmeza nos fortificados de Portugal”, realça Joana Vida. A proeza repetiu-se em 2017, com o Moscatel Roxo 2013, em 2020, com o Moscatel Roxo Reserva da Família 2016, em 2022, com o Moscatel Roxo Reserva da Família 2018, e em 2023, com o Moscatel de Setúbal 2019. Fora os moscatéis da empresa distinguidos no Top 10 e com medalhas de ouro deste concurso mundial.
Desafios de uma empresa centenária
“O facto de sermos uma empresa familiar antiga e com muita gente acarreta alguns desafios”, avança Joana Vida. Por outro lado, este cariz familiar aporta “confiança ao nosso consumidor, quer ao nosso cliente, quer ao nosso importador, quer ao mercado. É uma empresa que vai celebrar 112 anos”, sublinha. Em cima da mesa, está em destaque as alterações do mercado, com as quais o sector do vinho tem vindo a deparar amiúde. De acordo com a gerente, esta mudança ocorreu há 10, 15 anos, quando a Venâncio da Costa Lima começou a deparar-se com pedidos de “vinhos mais frescos”. Portanto, maior frescura e grau alcoólico mais baixo são duas variáveis alinhadas com a antecipação das vindimas. Neste contexto, controlo de maturação é o factor mais relevante, por forma a se conseguir um grau alcoólico mais baixo e maior frescura no vinho. “É nesta fase do controlo na vinha que entra o Carlos Dias”, acrescenta.
Mas uma vez que os moscatéis são a referência desta adega centenária, nem sempre é fácil fomentar a compra por parte do consumidor. Por esse motivo, enoturismo tem vindo a ser desenvolvido neste sentido, apesar de não ser a única solução. Esta prática é complementada pela venda em grandes superfícies e pela exportação que se resume a 5%. Os principais mercados são os Estados Unidos, o Brasil e a Europa, nomeadamente Países Baixos, Reino Unido e França. “Tanto o Moscatel de Setúbal como o Moscatel Roxo são vinhos de nicho, são difíceis de exportar”, razão pela qual “no Reino Unido vendemos para um importador que vende uísques e conhaques”, argumenta Joana Vida. A respeito do moscatel em Portugal, está “mais estável do que o vinho, porém difícil”. Já o grande volume é destinado para a restauração.
Em suma, “o sector do vinho atravessa grandes desafios, nomeadamente em relação às questões legais, de saúde, do álcool. Portanto, é preciso que estejamos sempre atualizados.”
Enoturismo desde 2015
A adega original da Venâncio da Costa Lima mantém-se à beira da estrada, com amplas janelas, através das quais, em tempos idos, os viticultores descarregavam a uva com o auxílio de uma forquilha. As paredes grossas protegem os lagares em pedra, a destilaria, bem como o desengaçador, a máquina pasteurizadora e a bomba manual antigas, as ânforas argelinas, os tonéis e os depósitos em cimento. “Era aqui que se faziam, estagiavam, loteavam e engarrafavam os vinhos. Hoje em dia, serve para o enoturismo e o armazenamento de moscatel. Dos melhores vinhos”, revela Joana Vida. Agora, é a guardiã dos moscatéis com 40 e mais anos e está destinado a experiências vínicas.
Das experiências descritas no site da empresa, destacam-se duas: “Da queijaria à adega” e “Das grutas ao vinho”. A primeira inicia-se com uma visita à vizinha queijaria Fernando & Simões, seguindo-se a harmonização de quatro referências vínicas da casa com três queijos de curas distintas, a par com uma tábua bem composta por doces locais, frutos secos e especiarias. A segunda iniciativa incita a um passeio pedestre até aos sepulcros neolíticos existentes no Parque Natural de Arrábida, durante o qual se atravessa a aldeia. Julho é o mês ideal para esta caminhada, já que permite observar a flor do cardo.
Joana Vida revela que Elsa Sousa é uma cozinheira de mão cheia. Quem conhece, sabe quão saborosas são as batatas de molho toucinho servidas em taças de barro, pelas 11h00, na vinha, no âmbito da atividade associada às vindimas, a qual está disponível na devida época do ano. Quem se inscreve, sabe que esta iniciativa é para levar a sério, daí a necessidade de se retemperar forças já depois das boas-vindas das 08h00. “Fazemos tudo o mais genuinamente possível”, assevera a gerente da empresa, que reforça a junção da gastronomia local (pão, queijos, enchidos, sopas tradicionais) com os vinhos da Venâncio da Costa Lima. “As harmonizações que fazemos não é só porque gostamos de bola podre ou de queijo de Azeitão. Há todo um estudo por trás e uma tentativa de ligar sempre a algo que diz respeito à região”, salienta.
O número médio de visitas tem vindo aumentar, graças à proximidade com a capital do país, que permite uma viagem com duração entre 30 a 40 minutos. “Temos estado a absorver o excesso de turismo de Lisboa e Sintra, e temos muitas agências que nos estão a ver como uma alternativa de confiança”, adianta a nossa anfitriã. Sem esquecer o facto de todos os espaços serem acessíveis a pessoas com mobilidade reduzida, pois a visita à adega faz parte de cada ação realizada no contexto do enoturismo.
Visita guiada à adega
A ampliação da adega ocorreu em três fases ao longo das gerações seguintes, para dar resposta às necessidades da empresa. Pelo meio, foi criada a zona da vinificação e a de receção das uvas. Por fim, foi edificada a nave principal, onde estão instalados o armazém, o laboratório, a zona de loteamento e a de expedição. Acrescem as secções de enchimento, com duas linhas para garrafas, barril de inox e de madeira, e de embalagens, bem como as que estão reservadas à rotulagem. Na Venâncio da Costa Lima movimentam-se três milhões de litros de vinho por ano, já que, além da uva vinificada, é comprado vinho previamente selecionado e posteriormente loteado. Trata-se de “um produto de consumo rápido”, para o qual “não se pretende grandes variações de perfil”, informa João Vida, ao contrário do que acontece com o vinho engarrafado.
À medida que nos aproximamos da adega mais antiga, chegamos ao espaço onde estão instaladas enormes cubas de inox, que, em 2009, vieram substituir os depósitos de cimento subterrâneos. São “os pulmões” da Venâncio da Costa Lima. Armazenam o vinho produzido, o comprado e o que está a estagiar. “Manter esses volumes todos é um dos maiores desafios financeiros da empresa”, justifica Joana Vida. Há ainda outro espaço de armazenamento sob a linha de enchimento. No piso inferior ao da loja, a temperatura baixa e a humidade, favoráveis à estabilidade do vinho, propiciam o repouso de tranquilos e fortificados em barris.
Pelo meio, a visita é feita a outro espaço de memórias desta centenária empresa familiar, tal como acontece com a oficina de tanoaria, espaço desativado em 2019, já depois de o octogenário Fernando Rubino ter cessado a função de tanoeiro. O futuro reserva, aqui, um núcleo museológico dedicado a esta profissão, com uma mostra constituída pelo buraco do fogacho (fogueira), os utensílios associados a este ofício – o balde de parafina e o funil, o enxó, o martelo de pena ou os ferros de marcar os barris, entre outros – e as cartolas (vasilha de madeira de pequenas dimensões) de castanho.
As memórias de tempos idos reavivam-se uma vez mais quando é dada a conhecer uma das relíquias do fundador da empresa. Trata-se da viatura da norte-americana DeSoto, produzida pela Chrysler, com o registo do ano de 1948. A cor azul em nada teria passado despercebida cada vez que Venâncio da Costa Lima percorria as ruas da Quinta do Anjo. “O meu pai lembra-se de ir a Fátima, neste carro, com Venâncio da Costa Lima, sentado num banquinho, que punham aqui atrás”, recorda Joana Vida.
(Artigo publicado na edição de Março de 2026)
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Venâncio Costa Lima Edição Especial do Centenário
Fortificado/ Licoroso - -

Venâncio Costa Lima
Fortificado/ Licoroso - 2016 -

Venâncio Costa Lima Reserva da Família
Fortificado/ Licoroso - 2019 -

Venâncio Costa Lima Reserva da Família
Fortificado/ Licoroso - -

Venâncio Costa Lima Rúbrica
Fortificado/ Licoroso - -

Venâncio Costa Lima Reserva da Família
Fortificado/ Licoroso - -

Venâncio Costa Lima
Tinto - 2022 -

Venâncio Costa Lima
Tinto - 2023










































































































