ALGARVE: Um mundo à parte

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Os três dias passados no Algarve em visitas aos produtores, em provas de vinhos e conversas com enólogos e com a Presidente da Comissão Vitivinícola do Algarve (CVA), Sara Silva, foram bastante elucidativos. Confirmou-se a sensação que tinha acerca de uma eventual grande mudança, uma (r)evolução em curso que deixa de ser silenciosa e passa a ser evidente no território […]

Os três dias passados no Algarve em visitas aos produtores, em provas de vinhos e conversas com enólogos e com a Presidente da Comissão Vitivinícola do Algarve (CVA), Sara Silva, foram bastante elucidativos. Confirmou-se a sensação que tinha acerca de uma eventual grande mudança, uma (r)evolução em curso que deixa de ser silenciosa e passa a ser evidente no território mais a sul do país.

Esta região, quente e árida, que no imaginário colectivo português pouco está associada a vinhos a sério, tem uma característica que mais nenhuma região do nosso país tem: o mercado à porta. O mercado que não se importa de pagar o preço bem mais alto do que no resto de Portugal, sem esmagar as margens aos produtores, como por hábito acontece na exportação. Por isso, hoje, como nunca, o Algarve atrai investimento na área vitivinícola. Já para não falar que cerca de 70% do vinho do Algarve se vende na região.

Em 2016 havia 30 agentes económicos registados na CVA e, numa década, esse número duplicou. O tecido empresarial é muito diverso, desde produtores algarvios que sempre estiveram por cá; um grande núcleo de produtores estrangeiros (o equivalente a 40%), alguns com o foco em potenciar o negócio, outros porque querem ter a sua vinha no quintal; e até grandes empresas que trouxeram o know how de outros regiões do país e uma visão estratégica, como é o caso da Aveleda e da Casa Santos Lima. E há espaço para todos.

 

Enoturismo e restauração

Eis dois grandes pilares de comercialização e promoção dos vinhos no Algarve. A maior parte dos projectos vitivinícolas na região já nascem com enoturismo pensado de raiz. Naturalmente, mais vocacionado para o público estrangeiro. O turista português não vai ao Algarve para provar vinhos, vai pelas praias e numa de relaxar. O estrangeiro quer tudo o que este território português banhado pelo sol oferece, vinho incluído.

O mercado dita as regras do jogo: há uma procura muito forte por brancos frescos, rosés de qualidade e espumantes. O turista do Algarve está acostumado ao Sauvignon Blanc e ao rosé francês. Este vende-se pela cor. Portanto, quanto mais clarinho, melhor. E a proximidade do mercado, quer com o consumidor final, quer com a restauração e agentes de enoturismo, faz com que o feedback recebido pelo produtor seja directo e quase imediato, o que lhe permite ir adaptando o seu portefólio.

Segundo Sara Silva, dos vinhos produzidos no Algarve, 60% são tintos, entre os 30% e 40% são brancos e o restante é rosé. A partir de 2020 também passaram a certificar espumantes e já têm 12 produtores a apostar em bolhas, utilizando, sobretudo, as castas Negra Mole e Arinto para esse efeito.

A forma como a restauração algarvia olha para os vinhos da própria região também mudou bastante nos últimos tempos. Há 20 anos a abertura era quase nula, os produtores eram praticamente expulsos dos restaurantes. É claro que, na altura, os vinhos dificilmente competiam com Douro ou Alentejo, mas o cenário mudou.

 

Cerca de 70% do vinho do Algarve vende-se na região.

DO vs. IG

As denominações de origem, no Algarve, foram demarcadas em 1980, seguindo um critério administrativo e não técnico. Basicamente, a cada adega cooperativa correspondia uma DO. E foram quatro: Portimão, Lagos, Lagoa e Tavira. O vinho regional Algarve só surgiu nos anos 2000, quando as adegas começaram a colapsar. A de Tavira e a de Portimão encerraram ainda no final do século passado e, mais tarde, a fusão da Adega Cooperativa de Lagoa com a Adega de Lagos deu origem à ÚNICA – Adega Cooperativa do Algarve. Literalmente.

As denominações de origem ficaram praticamente atrofiadas, enquanto, a partir de 2000, começaram a surgir produtores privados na região. Estes tinham noção quem era o principal consumidor deles – o turista estrangeiro – e preferiram plantar castas internacionais e nacionais mais conhecidas, como a Touriga Nacional. A IG (Indicação Geográfica) serviu perfeitamente para enquadrar vinhos produzidos com estas castas. E vamos mais longe: internacionalmente, o Algarve tem mais expressão do que qualquer das DO existentes. Coloca logo o vinho no mapa vínico do mundo.

Se mantivermos as antigas DO, de que identidade estamos a falar? As castas são praticamente as mesmas das já existentes nas outras regiões do país. Provavelmente, as variedades estrangeiras trazem mais identidade ao Algarve, do que as portuguesas, com algumas excepções. E são mais facilmente percebidas pelo consumidor, a quem pouco importa se a Sauvignon Blanc que tem no copo é de Lagos ou de Lagoa.

Agora fazia mais sentido unir as quatro DO dentro de uma só, para elevar o nome Algarve, e criar o Regional Algarvio, à semelhança de DO Alentejo e IG Alentejano, por exemplo. Mas administrativamente e burocraticamente não é fácil alterar estas nomenclaturas. A ver vamos.

 

Negra Mole com bagos de cores diferentes no mesmo cacho, dá vinhos de cor aberta e bastante leves.

 

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Negra Mole

Negra Mole: sunset no copo

Mal-amada durante décadas, a Negra Mole está a ser promovida, a pouco e pouco, a uma estrela ascendente no universo algarvio. Fruto dos investimentos mais recentes, não tem aumentado em termos de área, ainda mais por falta de bacelos para plantar.

É uma casta autóctone, típica da região e uma das mais antigas variedades portuguesas. Com bagos de cores diferentes no mesmo cacho, dá vinhos de cor aberta e bastante leves. Como refere Diogo Campilho “por muito que se tente extrair, a cor nunca vai muito além disto.”

Na década de 80 do século XX, a Negra Mole representava 75% da plantação da região. Mas a partir dos anos 90, este perfil de vinho tinto não era valorizado, tendo sido gradualmente posta de parte. Actualmente, ocupa o segundo lugar nos vinhedos da região, ocupando 15% da área, a seguir à Castelão, com 16%. Parece que chegou o seu momento. Por um lado, os produtores profissionalizaram-se e conseguem tirar o melhor proveito das particularidades desta casta; por outro, o consumidor também está mais aberto a este tipo de vinho.

Se há alguma casta tinta que identifica o Algarve, o seu perfil ligeiro e descontraído, com aquela cor que é só dela, que faz lembrar uma toranja, é, claramente, a Negra Mole. Ela própria é o sunset no copo: vermelho, com tons alaranjados. Esta, sim, deveria ser protegida no âmbito da denominação de origem do Algarve, seja ela qual for.

 

Dos vinhos produzidos no Algarve, 60% são tintos, entre os 30% e 40% são brancos e o restante é rosé.

 

Vinho, arte e turismo

A Quinta dos Vales, em Estômbar, no concelho de Lagoa, é bastante conhecida pela sua ligação à arte, da qual o fundador do projecto, o empresário alemão Karl Heinz Stock, era grande apreciador. Em 2024, a “quinta das esculpturas” mudou de mãos, sendo adquirida por um grupo de empresários do sector de hotelaria.

A produção de vinho manteve-se, tal como as marcas existentes: Marquês dos Vales e Grace. A equipa de enologia, jovem e dinâmica, é composta pela algarvia Rita Xavier, que durante o seu percurso profissional já passou por Alentejo, Douro e Argentina, e pelo chileno Rafael Merce, com vasta experiência internacional na Argentina, México, Estados Unidos e Brasil, para além do seu país natal. Ambos contam ainda com consultoria de Paulo Laureano.

“Estamos a cinco quilómetros do mar e a três do rio [Arade], em linha reta”, afirma Rita Xavier. “Os solos são argilo-calcários e, na vinha, estamos sempre a encontrar fósseis”, continua. Dos 44 hectares da propriedade, a vinha ocupa 19, dos quais três foram replantados recentemente. Para ir ao encontro do mercado, a Syrah foi reconvertida em Sauvignon Blanc e a Castelão em Arinto. “Adaptamo-nos um bocado à realidade em que estamos inseridos, porque tanto o branco como o rosé é o que mais se consome aqui”, justifica a enóloga. Cerca de metade da produção é dominada pelos vinhos brancos, 30% são tintos e 20% são rosé. Selecta é a gama de entrada, Duo, a gama média, que é sempre bivarietal, e a marca Grace representa a gama mais alta.

A adega tem capacidade de produção para 150 mil litros, mas, actualmente, produzem cerca de metade. Isto tem a ver com a reestruturação da vinha e com o facto de deixarem de ter uma vinha em Silves, que pertencia ao antigo proprietário.

A vertente de enoturismo é muito forte. Têm parcerias com hotéis, dispõem de alojamento próprio e de organização de eventos na quinta (casamentos, baptizados, jantares privados), os quais contribuem para a promoção das suas marcas de vinhos.

Uma oferta muito particular que desenvolveram na Quinta dos Vales é The Winemaker Experience. Pressupõe o aluguer de uma vinha com uma ou mais variedades em função do tipo de vinho que se pretende produzir. O contrato, normalmente, dura um ou dois anos e inclui todas as despesas com a vinha e acompanhamento enológico. Quanto mais cedo começar, mais interessante será o processo, porque a data de vindima e a abordagem na adega são definidas em parceria com a equipa de enologia. Basta imaginar que a mesma casta, como, por exemplo, a Syrah, pode originar um rosé, um blanc de noir, um tinto ligeiro ou um tinto com estágio em barrica; e cada opção envolve manuseamento diferente. Para a vindima de 2026 já fecharam as oportunidades, mas para 2027 há mais.

 

Vinho de autor

 

Quinta do Francês é uma das mais antigas quintas privadas no Algarve. Localizada no Vale da Ribeira de Odelouca, em Silves, esta pequena pérola pertence, desde 2000, a Patrick Agostini, de origem italiana, nascido em França. Médico de formação, radicado em Portugal, com a sua mulher Fátima, levou o projecto tão a sério, que tirou o curso de Enologia em Bordéus. Em 2002, plantaram a primeira vinha e, em 2008, estava pronta a adega. Hoje, contam com 12 hectares de castas, portuguesas e internacionais. A produção ronda as 80 000 garrafas por ano.

A propriedade está no sopé da Serra de Monchique e é marcada mais pela influência da serra do que do mar. “Quase todas as outras quintas apanham alguma maresia. Aqui, a influência marítima é quase nula, mas há sempre o ventinho da serra”, explica o enólogo Pedro Mendes. E no Inverno refere a diferença de 5º C para menos, comparativamente com a zona próxima da autoestrada, localizada a apenas a quatro quilómetros de distância.

Os solos também são fortemente marcados pela orografia. Na cota mais abaixo da quinta, onde o afluente do Arade, o Odelouca, cravou um vale, os solos são calcários, com uma percentagem de argila, zona conhecida no Algarve como Barrocal. No início da serra, nas colinas, já se nota a presença de xisto, mas quando chegamos a Monchique, muda para solos graníticos.

Vindima-se tudo à mão. A mecanização não é fácil e a dimensão relativamente pequena também não a justifica. A produção é reduzida, rondando as três toneladas por hectare. Tem a ver com os solos pouco férteis e, com o clima tão quente, “a videira também se protege um bocado para não produzir muito”, resume o enólogo.

A vinificação é separada casta por casta, para “ter mais ferramentas para trabalhar no final” e Patrick participa sempre nas decisões de lote. “Hoje em dia, estamos a usar mais as barricas de 500 litros, porque fazemos estágios mais prolongados”, justifica Pedro Mendes. A gama de entrada chama-se Odelouca e a gama superior ostenta o nome da quinta, com destaque para o Syrah Terrasses e Ianthis Cabernet Sauvignon.

O enoturismo é uma componente importante da oferta. Inclui visitas guiadas às vinhas e à adega, bem como diferentes provas de vinho, realizadas numa sala ou num pitoresco terraço, sombreado por vegetação trepadeira, com vista, naturalmente, para as vinhas.

 

O turista português não vai ao Algarve para provar vinhos, vai pelas praias e numa de relaxar.

 

Rigor e definição

 

O projecto Villa Alvor começou em 2019, quando a Aveleda adquiriu a propriedade em Alvor, no concelho de Portimão, e criou esta marca. “Já fizemos investimentos grandes na vinha e também vamos investir em grande a nível de enoturismo. É um projecto que nós gostamos e pelo qual temos um carinho enorme”, declara Diogo Campilho, Director de Enologia da Aveleda. Na sua equipa conta com o enólogo Rui Viana, que passou a acompanhar o Villa Alvor em 2024, e com Pedro Furriel, que ali começou a trabalhar como enólogo residente no ano passado.

O grande foco, neste momento, é organizar a área de produção, de modo a que o trabalho seja feito da forma mais eficiente possível, com o menor recurso a mão-de-obra. Para o ano, vão começar as obras, para compor a zona de enoturismo. Vai haver uma loja e um espaço criado para refeições ligeiras, que podem ser acompanhadas com vinhos, e uma grande esplanada.

A visita à vinha revelou solos são argilo-calcários, com muita pedra à vista. Entre as castas nacionais e internacionais há particular destaque para a Negra Mole, Moscatel Galego Roxo (da qual fazem um belíssimo rosé) e Crato Branco.

As vindimas de 2020 a 2022 foram feitas à mão, mas não é nada vantajoso apanhar uva à mão em 30 hectares, devido ao calor algarvio e à escassez de recursos humanos. Aqui, onde o terreno é bastante plano, a vindima nocturna à máquina é a melhor solução. A vantagem de ser uma empresa grande, permite aproveitar as sinergias. “Isto antes era impensável no Algarve. Agora fazemos controlo de maturação, provamos, decidimos, vem a nossa máquina da Aveleda, com o operador especializado para vindimar tudo no ponto”, refere Diogo Campilho com satisfação.

Atendendo às preferências do mercado, dos 200-250 mil litros por ano, metade são vinhos brancos, 30% rosés e 20% tintos. Os perfis dos vinhos são bem definidos entre todas as gamas e também se percebe a filosofia do produtor. “O nosso estilo é muito frutado e limpo, tudo protegido das oxidações. Com o tempo, vamos começar a criar aqui uns vinhos mais de autor, que eu acho que é interessante. Até lá, queremos cimentar a marca que temos”, resume o Director de Enologia.

No enoturismo, para além dos “casais que batem à porta”, têm visitas organizadas através das parcerias com as agências turísticas. E, de 15 em 15 dias, à sexta-feira, organizam uns sunsets.

 

Rio, ânforas e Negra Mole

 

Algarve
Arvad

 

Arvad é um projeto relativamente recente em Estômbar, Lagoa. Começou em 2016, com vinhas plantadas de raiz. Os proprietários da família Garcia de Matos compraram, em 2012, um monte e com os anos foram comprando os terrenos à volta. Neste momento, são 120 hectares.

“É um lugar muito bom para a plantação de vinha, porque nós estamos na curva do rio. De um lado, temos uma exposição a Norte. Quando está vento Norte, recebemos aqui nortadas frias. Do outro lado, estamos expostos a Oeste, de onde recebemos mais a influência do Oceano Atlântico. A outra frente do terreno está virada para a Serra de Monchique, que bloqueia os ventos do Norte, mas, ao mesmo tempo, temos um vale, onde corre a Ribeira de Odelouca, que afunila os ventos e concentra a frescura”, conta Mariana Canelas, responsável de vendas e exportação do Arvad.

No início do projecto, foi contratado um historiador, para saber mais sobre a história deste lugar. Parece que o nome do rio Arade provém da palavra “Arvad”, porque era a designação que os fenícios atribuíam a esta parte deste curso fluvial. Quer dizer “refúgio”, “porto seguro”, porque, naquela época, fugiam para dentro do rio, com o intuito de se refugiarem das tempestades e dos piratas. E foram os primeiros a introduzir vinho na Península Ibérica. Pensa-se que aqui, nesta zona, em Silves, foi a primeira região, onde se provou vinho, trazido pelos fenícios, em ânforas vinárias. Daí a grande aposta do produtor em ânforas.

O projecto foi pensado no enoturismo de raiz. Em 2016, plantaram nove hectares de vinha, com uma selecção de castas portuguesas e internacionais: Arinto, Alvarinho e Sauvignon Blanc, para os brancos; para os tintos, Touriga Nacional, Cabernet Sauvignon e Alicante Bouschet. Estrearam-se na vindima em 2019 e lançaram os primeiros vinhos em 2020, em plena pandemia. Correu tudo tão bem, que decidiram apostar na plantação de mais vinhas e, nessa altura, introduziram a Negra Mole. Primeiro alugaram cinco hectares de vinhas velhas desta casta, que ficam perto do Morgado do Quintão (outro produtor do Algarve), e depois plantaram parcelas novas. Neste momento, já contam com 12 hectares de Negra Mole, a protagonista de um tinto, um rosé, um blanc de noirs e um espumante.

Ainda ficaram com uma quinta em Alvor, com 27 hectares de vinhas, onde fizeram um projecto diferente, para um público diferente e uma abordagem diferente, e lançaram uma segunda marca, a Uca.

Em 2021, recuperaram as primeiras ruínas. Agora têm uma sala de estágio, uma sala de provas e uma sala de eventos. Segundo Mariana Canelas, o enoturismo tem corrido muito bem. Neste momento oferecem uma série de experiências, além das provas de vinho durante todos os dias do ano. As actividades incluem piqueniques nas vinhas: “os clientes podem vir de barco e provar vinhos ou almoçar no deck; podem fazer provas e almoços privados na casa do rio, com um chefe e show cooking.” Às quintas-feiras organizam o sunset com DJ ou com música ao vivo, “que é um sucesso”. O espaço é grande e bem decorado, e ainda dispõe de uma esplanada. Enche-se de gente alegre e de copos de vinhos brancos e rosés, maioritariamente.

“Neste momento o enoturismo é, sem dúvida, uma fatia grande da nossa faturação, mais de metade”, refere a anfitriã. Neste momento, estão a construir um hotel de cinco estrelas, com abertura prevista para o final de 2027.

“A exportação ainda é reduzida, mas eu posso dizer de uma forma geral o seguinte: 70% do vinho que é produzido no Algarve é vendido e consumido no Algarve. Cerca de 18%, creio eu, nem chega a 20%, é consumido noutras regiões do país. O resto, que é uma minoria, 1,8% mais ou menos, é para exportação.” Actualmente, estão a exportar em quantidades pequenas, para Alemanha, Áustria, Holanda, Inglaterra, e a Negra Mole para Ibiza.

 

biodiversidade como compromisso

 

Quinta dos Capinhas nasceu de uma história de amor. O alemão Horst Lieberwirth, depois de reformado, mudou-se para o Algarve, onde conheceu a sua futura esposa, Inês Capinha, portuguesa com raízes nestas terras. Casaram-se e adquiriram uma propriedade, em Porches, onde fundaram o projecto vitivinícola, em 2013, com o nome Quinta dos Capinhas.

A quinta tem cerca de 30 hectares, dos quais oito são de vinha plantada pelo casal, com castas portuguesas e internacionais: Cabernet Sauvignon, Chardonnay, Touriga Nacional, Alfrocheiro, Arinto, Verdelho. Mais recentemente acrescentaram a Negra Mole.

“Temos o mar ali à nossa frente a dois quilómetros. Depois, temos esta brisa, que é muito frequente, é óptima para não termos doenças nas plantas. Estamos no segundo ano de conversão para biológico e tem corrido bem. Não estamos com grandes problemas em comparação com o ano passado”, esclarece Sofia Saraiva, gestora do projecto.

A equipa é pequena, à dimensão do empreendimento. Para além do enólogo consultor Pedro Mendes, entrou recentemente o enólogo residente, Marco Crispim. Na parte do enoturismo, contratam uma pessoa de fora para a época alta. Felizmente, têm a possibilidade de lhe oferecer alojamento durante essa temporada. Durante o verão, praticamente todos os dias, têm provas de manhã e à tarde, organizam jantares vínicos com catering feito por um restaurante local. Há ainda três casas na propriedade, que podem ser arrendadas a turistas.

Para além de enoturismo, os vinhos vendem-se na restauração e em algumas garrafeiras. Uma pequena percentagem é exportada para a Alemanha, graças à ligação do dono da empresa a este mercado.

Os colheitas, ou entradas de gama, são sempre blends; depois há vinhos monovarietais em função do ano. Os best-sellers são a Alicante Bouschet e Antão Vaz. A novidade mais recente é um colheita tardia de Moscatel Galego, com podridão nobre. E ainda adquiriram um Moscatel produzido no Algarve nos anos 50 do século passado. Este não tem o nome da quinta. Chamam-no Testamento.

Praticamente em todos os rótulos existe um camaleão. Sofia Saraiva explica a razão: “esta zona do Algarve é uma das únicas zonas onde o camaleão não está em vias de extinção.” E, de tempos em tempos, o colega que trabalha no tractor, mostra fotografias dos camaleões que tem encontrado na vinha. “Mais uma razão para a transição para o biológico, porque nós estamos inseridos aqui nesta zona de grande biodiversidade. E para nós é mais do que uma certificação, é um objectivo de manter aqui o ecossistema da quinta equilibrado”, resume.

Nos planos, está a construção de uma adega na propriedade e o projecto já foi submetido para a câmara. Na colina, de onde se vê toda a vinha e o mar ao fundo, planeia-se a construção de um restaurante. Enfim, será bom voltar cá daqui a uns anos.

 

O projecto algarvio da Casa Santos Lima

 

Al-Lagar começou com dois hectares de vinha plantada numa propriedade que José Luís Santos Lima Oliveira da Silva,administrador e proprietário da Casa Santos Lima, adquiriu em 2008. À medida que ia comprando terrenos com casas para alojar as pessoas que precisava para trabalhar, ia plantando mais vinha. Depois investiu em adega própria, porque o volume de produção o justificava. Agora, a empresa possui cerca de 60 hectares, que é uma grande dimensão para o Algarve.

Segundo José Luís Santos Lima Oliveira da Silva, a Casa Santos Lima é não só o maior produtor de vinhos na região, como destacadamente o maior exportador de vinhos do Algarve, colocando, lá fora, 65% do vinho que produz neste território vitivinícola, estando presentes nos 30 mercados estrangeiros, com destaque para Reino Unido e Suécia, com dois vinhos registados no regime de monopólio; e depois desde a Ucrânia, à Tailândia e Nova Zelândia, só para nomear alguns.  Mas é na própria região, onde se consome mais o seu vinho – 35% do que produz –, porque existe um grande consumo doméstico.

Em 2025, produziu cerca de 320 mil litros, entre branco e rosé e, este ano, está a contar com o crescimento de 10%. Cerca de 25% são vinhos brancos, 5% rosé e o resto tintos. Entretanto, devido à grande procura pelos brancos e rosés, as próximas plantações irão contar com esta tendência em termos de castas.

A vinha é toda regada. A água é proveniente das barragens de Beliche e de Odeleite, próximas de Castro Marim. “Também temos uns furos, mas nunca faltou a água da barragem”, assegura o produtor.

Ao contrário de muitos produtores que nasceram já a pensar no enoturismo, para a Casa Santos Lima, que sempre se focou na produção, esta actividade é recente, mas no Algarve faz todo o sentido. Está em desenvolvimento um projecto de alojamento local, com 18 quartos, no meio da vinha, com uma vista fantástica para o mar e para Vila Real de Santo António; e Al-Lagar, é a marca do enoturismo já a funcionar. Brevemente também será lançado um vinho com esse nome. Era um antigo lagar dos anos 80 do século passado, recuperado e transformado em espaço de enoturismo. Durante a restauração, preservou ao máximo o traço antigo e ficou um blend perfeito entre o rústico e o moderno. Nesta sala, que se mantém naturalmente fresca no ambiente acalorado da Tavira, podem ser feitas provas de vinhos, acompanhadas de refeições ligeiras e também podem ser adquiridos os vinhos da casa, abrangendo todas as regiões do país, onde têm produção. Ao lado, no antigo edifício de apoio ao lagar, chamado Casa da Nora, totalmente recuperado, existem salas para eventos ou provas privativas.

Durante o Verão, organizam sessões de cinema ao ar livre, em parceria com a empresa local All Stars Cinema. “Ontem, tivemos, aqui, à noite, a projecção do Sideways. Estiveram cento e tal pessoas aqui sentadas ao ar livre”, recorda José Luís Santos Lima Oliveira da Silva. É uma experiência para repetir.

 

 

(Artigo publicado na edição de Agosto de 2026)

O que é que a Beira Interior tem?

Beira Interior

“O que é que a baiana tem? / O que é que a baiana tem? / Tem torso de seda tem (Tem) / Tem brinco de ouro tem (Tem) / Colares de ouro tem (Tem) / Tem bata rendada tem (Tem)…” Todos nós temos esta canção popular brasileira no nosso universo de memórias, celebrizada pela […]

“O que é que a baiana tem? / O que é que a baiana tem? / Tem torso de seda tem (Tem) / Tem brinco de ouro tem (Tem) / Colares de ouro tem (Tem) / Tem bata rendada tem (Tem)…”

Todos nós temos esta canção popular brasileira no nosso universo de memórias, celebrizada pela artista Carmen Miranda e interpretada, pela primeira vez, no filme Banana da Terra, em 1939. Memórias sim, mas só de ver na televisão, diga-se, uma vez que não sou assim tão antigo. Além de descrever a vestimenta da mulher baiana, a canção celebra e exalta o seu charme e graça naturais, reflectindo a alegria e a vivacidade da cultura baiana. Pois, alegria, vivacidade e algum charme, e graça naturais são precisamente características que podemos encontrar nos vinhos da Beira. Então, o que é que esta região tem?

 

Sobre este território

Foquemo-nos na Beira Interior, mais precisamente. É território raiano localizado no centro de Portugal Continental, destacando-se como a nossa região vitivinícola mais alta, com as suas vinhas plantadas entre os 350 e os 750 metros de altitude. Divide-se em três sub-regiões. A saber: Pinhel, com os concelhos de Pinhel, Meda, Trancoso e Celorico da Beira, que se distinguindo pelas altitudes elevadas e clima continental; Castelo Rodrigo, situada no planalto de Figueira de Castelo Rodrigo e áreas envolventes, a qual abrange os municípios de Figueira de Castelo Rodrigo e Almeida, e beneficia de amplitudes térmicas significativas; e, por último, Cova da Beira, influenciada pelo clima mediterrânico em contexto de vinhas de altitude, contemplando os municípios de Manteigas, Belmonte, Covilhã, Penamacor, Fundão e Castelo Branco.

O território vitivinícola é moldado por quatro serras – da Marofa, da Malcata, da Gardunha e parte da Estrela – em conjunto com os rios que a delimitam – Côa e Águeda, a Norte, Tejo e Zêzere, a Sul. Com um clima continental caracterizado por invernos longos e verões secos, a região beneficia de grandes amplitudes térmicas, factor determinante para a preservação da acidez das uvas, as quais, por sua vez, contribuem para o desenvolvimento dos aromas. A altitude elevada promove uma maturação gradual dos frutos, favorecendo o equilíbrio e a frescura dos vinhos. Todos estas variantes, juntamente com os solos predominantemente graníticos, embora também haja zonas de xisto e quartzito, fomentam a identidade dos vinhos produzidos na região.

Adicionalmente, a Beira Interior reúne condições favoráveis às práticas vitícolas sustentáveis. A altitude e o clima geralmente seco contribuem para uma menor pressão de doenças criptogâmicas (míldio, oídio, botrytis, etc.) na vinha, reduzindo, em muitos casos, a necessidade de intervenções fitossanitárias. Estas características, aliadas a uma gestão adequada da vinha, favorecem abordagens de produção de menor impacto ambiental.

Em suma, a Beira Interior é uma das regiões vitivinícolas portuguesas com maior área de vinha certificada em modo de produção biológica. Esta aposta em práticas vitícolas mais sustentáveis tem vindo a reforçar o posicionamento da Beira Interior entre as regiões nacioanais que apostam numa gestão firme no que aos recursos naturais diz respeito.

Porém, o vinho não se faz sozinho, não, e a Inteligência Artificial, por enquanto, também ainda não o produz. São precisas pessoas. E a Beira Interior muito tem sido construída por pessoas e projectos que, diariamente, dão expressão aos seus vinhos e são reconhecidos como embaixadores de um património vitivinícola profundamente enraizado, reflectindo uma identidade plural, desde pequenas produções artesanais a grandes estruturas cooperativas. Passando por marcas estabelecidas e novos projectos de vanguarda, todos partilham um compromisso com a excelência e a valorização do território.

Os 15 hectares de vinhas incluem a Quinta Vale Ruivo, com cerca de dez hectares de vinhas quase centenárias

 

Casas Altas, o fulgor de José Madeira Afonso

Casas Altas é o nome do projecto pessoal do médico e viticultor José Madeira Afonso, nascido em Coimbra, mas com raízes profundas em Souropires, no concelho de Pinhel, Beira Alta, onde a sua família habita há, pelo menos, oito gerações. Desde muito cedo se apaixonou pela freguesia ligada às suas origens, onde passava longos períodos na casa da avó materna. O fascínio pela vida no campo levou-o a matricular-se na Escola de Regentes Agrícolas de Coimbra, onde concluiu o curso aos 18 anos. Posteriormente, estudou Medicina – a sua outra paixão – e licenciou-se em 1974.

Por motivos profissionais, viveu durante três anos em Bergen, na Noruega, onde descobriu os encantos do vinho, graças ao tempo que partilhou com grandes conhecedores, que estudavam e provavam o melhor que se produzia no mundo. As viagens e férias em Bordéus, na Borgonha, na Alsácia, no Mosel ou na Toscana tornaram-se naturais, frequentes e irresistíveis.

No início da década de 1990, concretizou o sonho de plantar vinhas em Souropires, construir uma adega moderna e produzir o próprio vinho – esta última acção ocorre desde 1994. Trata-se do projecto Casas Altas, ao qual se dedica actualmente, já reformado, valorizando as castas autóctones da região, nos seus 15 hectares de vinhas distribuídas por várias parcelas, incluindo a Quinta Vale Ruivo com cerca de dez hectares de vinhas quase centenárias.

As castas dominantes são Rufete, Baga, e Touriga Nacional, nas tintas; Síria, Fonte Cal e Arinto, nas brancas. Uma vez que a Borgonha e o Mosel são as regiões internacionais que ficaram na memória e no coração do ‘Doutor’, existem duas pequenas parcelas com as castas Chardonnay e Riesling. Ambas resultam em vinhos absolutamente extraordinários, deixem que vos diga – não é que sejam melhores que um Premier Cru na Borgonha ou um VDP Grossen Lage do Mosel, não, nunca vão ser, nem na Beira nem em qualquer outro lado do mundo se consegue replicar aquilo que estas duas castas produzem naquelas regiões; são produções únicas –, mas são duas expressões fantásticas da Chardonnay e da Riesling, plantadas em solos de granito e em território português, disso não tenhamos a menor dúvida.

A viticultura é totalmente biológica, com total respeito pelo ambiente, sem fertilizantes químicos, insecticidas ou herbicidas, e – alvíssaras, alvíssaras –, desde a vindima de 2024 que a consultadoria de enologia passou a estar sob a responsabilidade de Nuno Mira do Ó.

Há pouco, acima, falámos sobre Inteligência Artificial, que, quem sabe, um dia, ainda vai fazer vinho. Todavia, há uma coisa que podemos ter a certeza: nunca o vai conseguir provar nem beber. Para o fazer, temos e teremos de ser nós! Assim fizemos aquando da visita às Casas Altas, onde analisámos as novidades ao pormenor. Trataram-se de colheitas disponíveis no mercado, algumas preciosidades, como o Chardonnay de 2004, e amostras de 2024 de Rufete e da vinha centenária do Ruivo, já sob a batuta de Nuno Mira do Ó. Deixem só que vos diga: olhos bem abertos, pois há boas novas verdadeiramente excepcionais a caminho!

 

Barroca da Malhada, uma quinta histórica

“Em 2021, diante de uma mudança de vida, e finalizando um ciclo de trabalhos ligados à agricultura no Brasil, comecei a ir atrás de um sonho antigo de ter o próprio vinhedo e produzir o próprio vinho. Desde os 20 anos de idade que sou um apaixonado por vinhos, sempre fazendo cursos e procurando degustações e harmonizações, principalmente nas viagens. Assim, em setembro de 2021, em plena pandemia, depois de procurar muito, encontrei a Quinta de Santo Isidro, conhecida também como Barroca da Malhada, uma propriedade histórica. Eu e minha irmã, Luciana Teixeira de Camargo, adquirimos juntos a propriedade, e ela também entrou como sócia no projeto.” Fernando Camargo, coproprietário, é Arquitecto, e isso nota-se quando se visita a propriedade. Tudo tem um sentido estético e uma simetria própria dentro do possível, e tudo está impecavelmente arranjado e conservado.

Com pós-graduação em economia e MBA em e-commerce, também com extensão universitária em Administração Rural, em 2018, já com várias certificações em vinho, fez um curso de Agricultura Biodinâmica no Brasil. Foi precisamente nesse curso que surgiu a ideia de convidar um dos companheiros de classe, Valdir Zanirato, para juntos desenvolverem este projecto de vinho e azeite em Portugal.

As vinhas, plantadas em solos predominantemente argilo-arenosos, são trabalhadas sob práticas de agricultura biológica e biodinâmica.

 

A Barroca da Malhada é uma quinta histórica da Beira Interior, com origens que remontam à Idade Média, outrora pertencente aos Viscondes de Tinalhas. Integralmente murada em redor, como uma espécie de clos gigante, a propriedade, localizada em Tinalhas, no concelho de Castelo Branco, Beira Baixa, tem vista privilegiada para a Serra da Gardunha. São 17,5 hectares, dos quais cinco são de vinhas e cinco são ocupados por oliveiras. Em 2023, Fábio Fernandes ingressou como o novo enólogo da casa e Joaquim Barbosa, como adegueiro e colaborador.

As vinhas estão plantadas em solos predominantemente argilo-arenosos, com partes de granito decomposto. São trabalhadas de acordo com práticas de agricultura biológica e biodinâmica. Nove variedades estão cultivadas e são colhidas manualmente: Arinto, Fernão Pires, Bical, Touriga Nacional, Trincadeira, Aragonez, Baga, Cabernet Sauvignon e Alicante Bouschet.

A primeira vindima ocorreu em 2021. A produção limitada é de cerca de 3000 garrafas. Cada vinho é elaborado com baixa intervenção, reflectindo o respeito pelo solo, pelas vinhas e pelo tempo, num compromisso entre tradição, autenticidade e sustentabilidade. Hoje, a Barroca da Malhada está em fase de transição para a certificação bio e são produzidas quatro gamas de vinho: Barroca da Malhada (clássica), Dolia (Ânforas), BRQA (vinhos de entrada) e Edição Especial. “São vinhos intensos, estruturados, gastronómicos e muito versáteis” afirma Fernando Camargo. E tem razões para isso.

(Artigo publicado na edição de Julho de 2026)

SOALHEIRO: De alma regenerada

Soalheiro

Hoje, quando chegamos à Soalheiro, percebemos que estamos perante uma empresa que voa positivamente baixinho, de olhos postos na terra, onde tudo começa e se constrói a partir dela. Maria João Cerdeira, quer queira, quer não, é o rosto de uma nova forma de entendimento da criação de vinhos, que não se dissocia, nem por […]

Hoje, quando chegamos à Soalheiro, percebemos que estamos perante uma empresa que voa positivamente baixinho, de olhos postos na terra, onde tudo começa e se constrói a partir dela. Maria João Cerdeira, quer queira, quer não, é o rosto de uma nova forma de entendimento da criação de vinhos, que não se dissocia, nem por um momento, do sonho inicial dos pais: erguer algo que os fixasse ao lugar que os viu nascer, Melgaço, criando riqueza suficiente para lhes permitir ali permanecer e, ao mesmo tempo, possibilitar que outros como eles fizessem o mesmo.

Em 2018, ano da primeira visita deste vosso cronista à Soalheiro, já ela se colocava, ainda que nos bastidores, na liderança viva e serena de uma equipa em constante movimento. Assumindo a condição, nunca viu na figura feminina uma fragilidade. A educação que lhe foi dada, nunca a limitou por ser mulher, antes lhe deu, desde cedo, muita liberdade aliada à responsabilidade de que tinha de mostrar rigor e muito profissionalismo. Numa casa desde cedo ligada à viticultura, decidiu começar pela medicina veterinária, e com ela cresceu.

Há bem mais de uma década, o pai, João António Cerdeira, pioneiro da plantação de Alvarinho estreme em Melgaço, desafiou-a a coordenar toda a viticultura da família. Desde o princípio, Maria João Cerdeira não desejou procurar outros destinos. Melgaço estava-lhe no sangue e, concluídos os estudos, ali se fixou, diz ela, para todo o sempre. A obstinação e uma elevada consciência ambiental fizeram-na contrapor um outro desafio ao progenitor: assumiria o legado, sob a condição de lhe ser permitido converter todas as vinhas para modo de produção biológico, exigência que, à primeira vista, parecia um contrassenso, conhecendo-se as características da região dos Vinhos Verdes, garantidamente a mais pluviosa de todas as regiões vitivinícolas portuguesas. Contrariamente ao que antevia, a sua proposta foi prontamente aceite por João António Cerdeira, que lhe deu total confiança e liberdade para essa concretização.

Primeiras vinhas

A ousadia da decisão de João António Cerdeira só se estranharia a quem o não conhecesse. Em 1974, foi o responsável e pioneiro pela alteração da paisagem de Melgaço. A vinha de bordadura, sem rentabilidade, foi por ele abandonada e, em seu lugar, faz nascer as chamadas primeiras vinhas de Alvarinho naquele território, à semelhança do que já se fazia na vizinha Monção. A obtenção de um rendimento satisfatório das pequenas parcelas era fundamental para evitar o êxodo migratório, tão comum no início dos anos 70 do século XX.

Já casado, em 1971, com Palmira, João António Cerdeira possuía a firme esperança de que aquela terra havia de lhes garantir o futuro. No ano da revolução, inicia a sua própria. As terras de milho minguavam as gentes. Ali, à beira de casa, numa parcela que os antigos chamavam de Soalheiro, ergueu esteios de cimento, rodeando, cada um deles, de seis pequenas videiras atadas aos postes. Da vizinhança, apenas se observava a plantação de postes que se assemelhavam a cruzes, uma bizarria que motivava conversas jocosas por parte dos agricultores manietados pelos antigos costumes do empobrecimento com alegria. Volvidos quatro anos, a vinha florescia e produzia abundantemente, permitindo à família Cerdeira obter um pecúlio significativo com a venda de uva à Adega de Monção. Parte desta matéria-prima era guardada para as experiências de vinificação de João António Cerdeira, enólogo por autodidatismo e empirismo herdado dos seus pais. O sucesso evidente, converte a outrora vizinhança reticente que, mimetizando as práticas do pioneiro, pintam as suas pequenas parcelas do verdejante Alvarinho, começando ali a alteração da paisagem de Melgaço.

A garagem foi, a partir de 1978, o centro de vinificação. Em 1982, nasce a marca Soalheiro e os primeiros vinhos rotulados da casa. À primeira vinha, poucos metros abaixo da residência familiar, o casal vai, por herança familiar e aquisição, agregando parcelas adjacentes e a Soalheiro vai crescendo, mantendo a raiz na casa de família, entretanto convertida em adega.

Quando, em 2004, Maria João Cerdeira assume a viticultura, o processo de conversão inicia-se imediatamente. O conhecimento, porém, ainda era limitado, e, sentindo essa necessidade de adquirir a vertente científica que lhe permitisse apreender os porquês da natureza, embrenha-se na especialização académica em viticultura biológica, regenerativa e biodinâmica. Nesse processo, certificado em 2006, há todo um pragmatismo de levar a ciência à terra. As vicissitudes do clima do Alto Minho não se compadecem com romantismo absoluto. Desde logo, criam-se protocolos rigorosos e métodos de atuação, que passaram pela criação de estações meteorológicas e modelos de controlo de pragas. O rendilhado dos 18 hectares de pequenas parcelas detidas pela Soalheiro, somado às cerca de 700 outras parcelas, num total de 100 hectares, que integram o total de vinhas controladas pela empresa, determinam um nível de profissionalismo imenso, ainda que os trabalhos de maior exigência, inovação, experimentalismo e, também, maior risco, sejam exclusivamente realizados nas vinhas próprias da empresa. Se a inovação tem um custo, é assumido exclusivamente pela casa. Para os produtores de uva fica a preocupação com a rentabilidade, fator essencial de sustentabilidade humana do território e fórmula exata para evitar o seu abandono.

Miguel Alves é o responsável de viticultura e coordenador dos viticultores do Clube dos Produtores, traduzido em 200 as famílias que o integram e produzem as uvas do universo Soalheiro

 

O clima e a importância dos solos

O microclima associado à Soalheiro é, de certo modo, transversal a todo o vale do rio Minho. As parcelas exploradas vão mais além e estendem-se por mais dois vales, os dos rios Mouro e Gadanho. O clima, notoriamente continental e pluvioso, é complexo e exige conhecimento científico apurado, conjugado com capacidade de atuação rápida e eficaz. Os solos variam de composição do vale para as cotas mais elevadas: no vale predominam os franco-arenosos, de elevada fertilidade, na altitude, dão lugar ao granito.

Os solos e a sua diversidade são a paixão maior de Maria João Cerdeira. As vinhas do vale, da qual as Primeiras Vinhas são exemplo, caracterizam-se por uma vegetação permanente de suporte de vida e sanidade da videira. Um olhar atento rente ao chão permite observar azevém, língua-de-ovelha e dente-de-leão (sinal de compactação dos solos), hortelã (revelador de um pH ácido e solo fértil e húmido), aveia selvagem…

A interpretação dos solos, a sua composição, compactação ou teor de humidade são analisados por Maria João Cerdeira por mera visualização das plantas que espontaneamente ali brotam. Reconhece-se, por confirmação igualmente científica, que a videira beneficia da biodiversidade e a sua correta interpretação e preservação permite aumentar o seu tempo médio de vida, que, com cargas elevadas, pode esgotar-se ao fim de duas décadas. Por conseguinte, há que intervir apenas e só se for necessário. Qualquer ação mais agressiva, encurta substancialmente a vida de uma videira e pode ter consequências graves no ecossistema. O conhecimento é fundamental neste novo paradigma da sub-região que, no espaço de 50 anos, assistiu a uma mudança tremenda na paisagem, outrora ocupada por sementeiras e, atualmente, ocupada quase na totalidade por vinha.

 

Clube dos Produtores

Subindo a uma das elevações que rodeiam o vale, é possível ver parte da manta de retalhos tricotada a diversos tons de verde. Ali se encontram parte das parcelas de vinhas do Clube dos Viticultores, uma associação informal constituída por cavalheiros, viticultores, imbuídos de um espírito comum que, empiricamente, trilha todos os requisitos da agricultura regenerativa, aquela que acima da sustentabilidade, melhora o ecossistema envolvente. Ali não há solos nus. A Alvarinho ainda é um bom negócio, produzindo por hectare uma média de oito a dez mil quilos.

O Clube dos Viticultores foi idealizado por João António Cerdeira nos idos anos 80 e, volvidos mais de 40 anos, vem crescendo. São 200 as famílias que dele fazem parte e produzem as uvas do universo Soalheiro, o que mostra a dimensão social de um projeto cuja sustentabilidade só é possível pela rentabilização da atividade. A Alvarinho é, provavelmente, a uva mais bem paga no território nacional continental. Em 2025, a Soalheiro pagou 1,30 euros por cada quilo de uva que entrou na adega. E é nessa relação de respeito e compromisso que se sustenta o conceito do referido clube, valorizando-se a exclusividade e a diferenciação, em que a Vinha Velha é superiormente remunerada. Estas práticas têm permitido não só que não haja abandono das terras, mas também contribuem para que a área de plantio da vinha de Alvarinho tenha aumentado em Melgaço.

A importância do Clube dos Viticultores foi recentemente imortalizada num livro editado pela Soalheiro, dando rosto aos 200 viticultores que preenchem esta comunidade coesa de dignificação de um território valiosíssimo.

Projeto Germinar

É neste contexto social que germinam projetos integradores. Germinar é o projeto que nasce em 2019, no Clube de Produtores, com o associado viticultor António Matos, cujas vinhas se encontram no sopé do Monte de Faro, já fora da sub-região de Monção e Melgaço. Neste projeto de solidariedade social, a Alvarinho é preterida em nome da Loureiro, casta que melhor vinga fora desta sub-região.

António Matos abandonou a carreira como assistente social para se dedicar à viticultura. Porém, o altruísmo, a vontade de recuperar pessoas com adições, fá-lo abraçar, com a Soalheiro, este projeto de reabilitação humana e integração, onde o trabalho na viticultura surge como o paliativo recuperador. Hoje, o Germinar, financiado pela Soalheiro, conta com quatro participantes que vencem os fantasmas do dia a dia junto das vinhas das quais nasceu o vinho homónimo.

 

Vinhas de altitude

Quando entramos na moderna adega da Soalheiro, somos levados a observar uma maquete que simula a visão aérea de todo o território da região. A orografia é diversa e as vinhas dispõem-se pelas variadas altitudes, entre as mais próximas dos rios até às mais inóspitas altitudes, dissemelhança que obriga uma metodologia precisa e presença constante da equipa de vitivinicultura da empresa. Com vinhas no vale e em altitude, os tempos de maturação divergem muito de parcela para parcela e a marcação de vindimas requer uma planificação perfeita num puzzle de pequenos retalhos, cada qual com a sua personalidade e temperamento.

No Soalheiro Clássico, trabalha-se com uvas oriundas do Vale e de Altitude, variando a percentagem de um e de outro em cada colheita, no sentido de manter uma homogeneidade no perfil. Subindo do vale para as montanhas adjacentes, a partir dos 300 até aos 500 metros de altitude, encontramos as parcelas destinadas ao Granit. Solos mais pobres, totalmente o oposto dos vales férteis do Minho, que tendem a conferir aos vinhos uma perceção de maior seriedade, mineralidade e tensão. Maior acidez e pH mais baixo é comum nestes vinhos. Os atuais limites de 500 metros de altitude serão, a breve trecho, alterados. As alterações climáticas criam desafios e o futuro está a ser salvaguardado com experimentações.

Saindo do vale do rio Minho para o vale do rio Mouro, a paisagem modifica-se e, nas cotas altas, a vinha desaparece do olhar, subsistindo o mato rasteiro e a forragem que alimenta os bovinos de raça Cachena e os equídeos de raça Garrana que por ali vagueiam em liberdade.

O campo experimental

A Vinha da Branda da Abeleira é um verdadeiro desafio aos limites da viticultura e, por isso mesmo, é assumida integralmente pela Soalheiro. A cultura da vinha busca agora a intromissão nos territórios da transumância das brandas (residências de altitude dos pastores, ocupadas durante a primavera e o verão) e inverneiras (habitação dos pastores localizadas nas cotas mais baixas e ocupadas durante o rigor do inverno).

A Vinha da Branda da Abeleira é um campo experimental situado a 1100 metros de altitude, que, por ora, não projeta a produção convencional de uva. Estamos perante uma vinha que visa aprofundar o conhecimento e a resistência da Alvarinho em cotas muito elevadas, numa parcela sujeita a todos os rigores das estações do ano, sobretudo dos invernos gélidos, que transforma a vinha num manto branco de neve.

Motivada pelas notórias alterações climáticas, a Branda da Abeleira foi plantada há sete anos. Tem permitido demonstrar diversas conclusões a nível das amplitudes térmicas, perceção dos solos, sua composição xistosa e granítica e mutações microbiológicas, que levaram a algumas intervenções nos solos. Atualmente, volvida uma primeira fase, existe já conhecimento que, por exemplo, conduziu a uma multiplicação de microrganismos que podem auxiliar à sobrevivência da videira em condições extremas.

Miguel Alves é o responsável de viticultura e o maestro que coordena os viticultores do Clube dos Produtores. O semblante mostra que as alterações climáticas são uma evidência que urge assumir. Durante o ano, os dias com picos de calor têm aumentado substancialmente, com impacto significativo no ciclo vegetativo da planta. Portanto, a Vinha da Branda é já um reflexo de antecipação do futuro, promovendo o conhecimento sobre o comportamento da videira em cotas onde jamais foi plantada.

Asun Caballo e a cave de inovação  

Regressados à adega, encontramos Asun Caballo, a enóloga que, após vaguear   pela Bodegas Gramona, Valdeorras, Chile, aportou na Soalheiro há quase sete anos e por lá permanece. Na verdade, Asun Caballo é quase vizinha. Mora numa povoação galega do outro lado do rio Minho, donde, do terraço de casa, avista a Soalheiro. Os estudos foram concluídos em Tarragona, porém, a uva e o vinho fazem parte da tradição familiar, pois os pais, desde sempre, produziram e venderam uva, tendo também raízes pesqueiras, tal qual como a família Cerdeira.

A filosofia de criação de vinhos de baixa intervenção, fá-la comungar em pleno com Maria João Cerdeira. Mais do que a intervenção, valoriza-se a possibilidade do experimentalismo na adega e na Cave de Inovação, na multiplicidade de vasilhame usado – recipientes de diversos formatos e composições, entre foudres, barricas de carvalho francês, novas e usadas, tonéis de castanho muito velhos, ovos e cubas de cimento, ânforas, vidro. Nesta cave, tudo é permitido em nome do processo criativo, plasticidade e exploração dos limites da Alvarinho, se é que existem. Um dos desafios mais recentes passa pela recuperação das barricas originais da Soalheiro, as relíquias de castanho onde tudo começou. Encontradas numa casa nas vizinhanças, estão agora a ser recuperadas, por forma a replicar uma espécie de pecado original da empresa.

Mosto Flor, vinho da equipa Soalheiro, elaborado normalmente a partir de vinhas velhas em cotas mais elevadas, Terra Mater, onde o cimento surge incorporado num vinho que, para a enóloga, tão bem define o vale de Monção e Melgaço, espumantes que, na Soalheiro, existem desde 1995, sendo o primeiro elaborado pelo Método Clássico, exclusivamente de uva Alvarinho, produzido na Península Ibérica, ou os vibrantes Pet-Nat, que buscam palatos mais joviais, são alguns dos projetos-exemplo que brotam na cave do Soalheiro.

No fim, e com muito ainda por dizer, fica a ideia de um Soalheiro como expressão genuína de um ecossistema, de uma comunidade de raízes, sotaque e valores num território que se regenera através de um coletivo. Mais de 40 colaboradores, 200 famílias de viticultores reunidas numa comunhão de preservação.

(Artigo publicado na edição de Julho de 2026)

MADALENA: Capital do vinho dos Açores

Madalena

Há três constantes – ou condicionantes – na ilha do Pico: a montanha, ao centro, o mar, à sua volta, e os quilómetros de pedra que os separam. O chão, formado por extensos campos de lava solidificada, impróprio para o cultivo de cereais, ao contrário do que acontecia nas restantes ilhas do arquipélago, punha em […]

Há três constantes – ou condicionantes – na ilha do Pico: a montanha, ao centro, o mar, à sua volta, e os quilómetros de pedra que os separam. O chão, formado por extensos campos de lava solidificada, impróprio para o cultivo de cereais, ao contrário do que acontecia nas restantes ilhas do arquipélago, punha em causa a sobrevivência da população. Mas a necessidade aguça o engenho e o picaroto encontrou uma forma de plantar as videiras nas fendas da rocha, preenchidas com terra trazida do Faial. A vinha vingou, tal como as figueiras, até ao ponto de o vinho e a aguardente de figo terem sido utilizados como moeda de troca.

A escassez de recursos era compensada pela riqueza de espécies marinhas e pela forte vertente piscatória desenvolvida entre a população. A caça à baleia é outra forte realidade histórica que terminou em meados da década de 1980, no contexto da entrada de Portugal na União Europeia.

A ilha tem uma beleza austera e dramática, onde as cores vivas das casas e das antigas adegas contrastam com o basalto e trazem vida e uma certa alegria ao olhar. A realidade do povo, entre o mar, o vulcão e o fogo, nunca foi fácil, o que acabou por forjar o carácter do picaroto.

 

O picaroto encontrou uma forma de plantar as videiras nas fendas da rocha, preenchidas com terra trazida do Faial.

Os currais são construídos em pedra seca, sem uma única gota de argamassa ou cimento. As pedras encaixam-se simplesmente umas nas outras.

 

O concelho com o nome de uma santa

A origem do nome remonta aos primeiros tempos do povoamento da ilha. Os pioneiros que chegaram ao Pico no final do século XV ergueram uma ermida dedicada a Santa Maria Madalena. Em torno dessa ermida formou-se o núcleo habitacional, que passou a ser conhecido como Madalena. Mais tarde, o primitivo espaço de culto foi substituído pela actual Igreja Matriz de Santa Maria Madalena. Quando foi criado o concelho, este adoptou o nome da freguesia principal.

É no concelho da Madalena que se impõe a Montanha do Pico, que culmina a 2.351 metros de altitude, o ponto mais alto de Portugal. Embora seja visível de grande parte da ilha (e até das ilhas vizinhas), é mais fotogénica quando vista da costa ocidental, junto à vila da Madalena, onde a sua silhueta desenha um cone quase perfeito. É também neste município que se produz três vezes mais vinho do que no resto da ilha.

História cravada no basalto

No concelho da Madalena há dois lugares incontornáveis para conhecer a história do vinho do Pico: a Criação Velha e o Museu do Vinho.

Na Criação Velha encontra-se a maior concentração de vinha da ilha, numa paisagem única, classificada como Património Mundial da UNESCO em 2004. Vista do alto, faz lembrar uma manta de retalhos, desenhada pelos labirintos dos currais – pequenos muros rectangulares de basalto, com áreas que variam entre os três e os nove metros quadrados. São construídos em pedra seca, sem uma única gota de argamassa ou cimento. As pedras encaixam-se simplesmente umas nas outras.

Em cada curral desenvolvem-se entre quatro e seis videiras, conduzidas rente ao chão e protegidas dos ventos dominantes e da maresia. Mas nada consegue eliminar a influência marítima por completo. A pedra negra basáltica tem ainda outra vantagem: absorve o calor do sol durante o dia e liberta-o lentamente durante a noite, promovendo elevada concentração de açúcar e originando vinhos generosos de grande qualidade.

Entre o século XVIII e o início do século XIX, os vinhos do Pico alcançaram renome internacional, num período áureo de exportação. As grandes famílias do Faial eram, na prática, as proprietárias da produção vitivinícola, para quem trabalhavam os picarotos. Era pelo porto da Horta que o vinho partia para o mundo.

Madalena

A montanha do Pico domina a paisagem e magnetiza o olhar

 

Ao passear ao longo da costa, pode-se encontrar rampas talhadas na pedra, chamadas “rola-pipas”, que serviam para facilitar o transporte das pipas até ao mar. Outros vestígios desse passado são as “rilheiras”, gravadas nas lajes de lava pelo vai-e-vem dos carros de bois, o único meio de transporte de então para os produtos agrícolas.

Junto à zona costeira, as pequenas adegas serviam para que o viticultor pudesse aí permanecer quando se aproximava a altura das vindimas, período em que o trabalho na vinha se intensificava. Eram casas de apoio ao trabalho agrícola, com um quarto onde se podia pernoitar e onde as crianças chegavam a passar férias de verão.

Hoje, a vinha ocupa no Pico cerca de 1.100 hectares, aproximadamente cinco vezes menos do que antes da filoxera. Com apenas 14 mil habitantes, a mão de obra é escassa e a mecanização é impossível (pelo menos nas vinhas tradicionais). A produção é baixa e o trabalho continua a ser difícil e exigente, marcado por um clima ameno e húmido e por uma forte pressão de doenças, sustentado pela persistência dos produtores locais.

 

Fé, Espírito Santo e as lições de partilha

Conta o comendador Manuel Serpa, ex-padre, professor e político, grande conhecedor da história e contador de histórias, que foram os povoadores que trouxeram a devoção ao Espírito Santo na segunda metade do século XV. Uma prática que, nessa época, ressurgia na Europa, associada a uma maior proximidade aos pobres. Com o tempo, em muitos lugares esta devoção esmoreceu, enquanto nos Açores cresceu de forma extraordinária. Ainda hoje se mantém viva nas comunidades com descendentes açorianos espalhadas pelas Américas, de norte a sul.

Mas por que razão é que esta devoção cresceu e se manteve nos Açores? A resposta pode estar nos terramotos, nas tempestades e nos ciclones que, ao longo do tempo, foram sacudindo as ilhas. Nessa realidade marcada pela incerteza, o povo encontrou na fé uma forma de resistência e de força.

Em 1718, uma grande erupção vulcânica assolou a zona oeste da ilha. Perante a ameaça da lava, foi feita uma promessa: se as populações, casas e animais fossem poupados, seriam oferecidas rosquilhas a todos os que por ali passassem. Diz-se que a lava acabou por parar e que daí resultou o Mistério de São João, uma das quatro grandes escoadas de lava da ilha, assim chamadas porque as erupções vulcânicas eram, para as populações, fenómenos misteriosos e difíceis de compreender. A promessa passou a cumprir-se desde então e mantém-se até aos dias de hoje.

As rosquilhas são, assim, um dos símbolos gastronómicos das Festas do Divino Espírito Santo no Pico. Apesar do nome, não se assemelham às rosquilhas tradicionais do continente, sendo antes um pão doce em forma de argola, distribuído gratuitamente durante os arraiais, como expressão de partilha e hospitalidade.

Portanto, o grande dia de festividades nos Açores, para além do 10 de Junho, é o Dia da Região Autónoma dos Açores, que se celebra na segunda-feira do Espírito Santo, sete semanas depois da Páscoa. A festa dura quatro dias, de sexta a terça-feira, e é a única em que há uma forte participação dos jovens, juntamente com várias gerações das famílias, conta o nosso historiador.

 

Pico Vineyards – montanha, vinhas e conforto

No verão passado, abriu portas o Boutique Hotel Vinícola de quatro estrelas, integrado na Unlock Boutique Hotels, um grupo de gestão hoteleira em Portugal. Situado na freguesia de Bandeiras, o projecto nasceu no local onde funcionava o conhecido turismo rural Cancela do Porco, que também dá nome a uma marca de vinhos, mas já lá vamos.

O Pico Vineyards foi desenvolvido pela FCC Arquitectura, do norte de Portugal, fundada por Fernando Coelho e Ana Loureiro. Este gabinete é também responsável pela arquitectura do Cella Bar, no Pico, onde, quem o visita, encontrará certamente alguns traços comuns.

A montanha do Pico assume aqui um grande protagonismo, domina a paisagem e magnetiza o olhar. Nem sempre é possível vê-la por inteiro, pois muitas vezes esconde o cume nas nuvens ou desaparece quase por completo atrás do véu da neblina. Por isso, convém reservar vários dias para aumentar as hipóteses de a encontrar.

Com o Pico no horizonte, o hotel inscreve-se na paisagem de forma discreta. Inspirado na viticultura típica da ilha, o conjunto de unidades de alojamento (umas com terraços, outras com piscina privada) é composto por casas independentes, construídas em pedra e rodeadas por currais com vinha. No interior, combinam-se o basalto com a criptoméria, uma espécie abundante nas florestas do arquipélago açoriano, bem adaptada ao clima ameno e húmido. As paredes libertam um leve aroma amadeirado, discreto e relaxante. Existe ainda uma piscina interior aquecida e uma zona de spa.

Quanto ao vinho, o hotel dispõe de duas salas subterrâneas destinadas a provas ou jantares vínicos. A “Pedra & Vinho”, de formas arredondadas, tem as paredes revestidas em criptoméria e uma impressionante mesa monolítica de basalto. A pedra foi encontrada durante a construção. “Pesava 3,5 toneladas”, conta Pedro Saraiva, um dos empresários à frente da unidade hoteleira, lembrando o esforço necessário para a encaixar no interior da sala. Mesmo assim, depois de trabalhada, manteve 2.700 kg e ficou definitivamente fixada no espaço. Esta decoração cria um ambiente ecológico, sofisticado e acolhedor.

Desta sala parte uma porta que conduz à “Alma da Gruta”, esculpida na rocha que serve simultaneamente de estrutura e decoração. Um espaço misterioso, dedicado às provas mais intimistas, com uma garrafeira secreta, guardada em bolsas lávicas naturais, sem qualquer entrada de luz e com temperatura e humidade constantes.

O acesso às salas de prova faz-se por um túnel revestido a madeira que faz lembrar uma grande barrica e funciona como galeria, preparada para acolher exposições de diferentes artistas. Na altura em que estive lá presente, nesta passagem esteve instalada uma colecção fotográfica de Ricardo Lopes, autor do livro Arquipélago, uma obra que retrata os Açores através de um olhar atento e artístico.

Gastronomia à moda do Pico

Barriga de atum lascada, tártaro de atum, atum marinado… tudo isto foi preparado pelo chef Vítor Sobral a partir de um único peixe. É, de facto, um produto muito versátil e a principal matéria-prima da indústria conserveira, como ficou claro na visita à fábrica Conseran, na ilha do Pico, uma das mais recentes e tecnologicamente mais avançadas unidades de produção de conservas de peixe em Portugal. Actualmente, processa entre 7 a 8 toneladas de atum por dia. Existe capacidade para mais, mas falta mão-de-obra. A maior parte da produção é exportada, cerca de 60-80%, mas infelizmente, nos países de destino o consumidor final nem se apercebe que é um produto de Portugal.

A maior parte da produção é exportada, entre 60% e 80%, mas, nos países de destino, com marcas próprias, o consumidor final raramente se apercebe de que se trata de um produto português, a menos que observe com atenção a lata e repare nas discretas letras “PT”.

Uma das marcas de conservas chama-se Chamarrita, em homenagem à maior roda de Chamarritas do mundo, organizada pelo Município da Madalena, que entrou por duas vezes no Livro de Recordes do Guinness, em 2015 e 2023, como Largest Portuguese Folk Dance.

Há muitos outros tipos de peixe na ilha, como boca-negra, congro, garoupa, goraz, lírio e raia, não sendo esta lista exaustiva. Não é por acaso que um dos pratos típicos é o caldo de peixe à moda do Pico. “É o fruto da nossa pobreza”, recorda o comendador Manuel Serpa, explicando: “não tínhamos outras soluções; lembro-me de que, na minha meninice, carne de vaca, nesta ilha, havia três vezes por ano: no Natal, no dia do padroeiro e no dia do Espírito Santo.” O prato tradicional desta época são as sopas do Espírito Santo, que têm como base um caldo rico de carne de vaca, temperado com hortelã e especiarias, vertido sobre pão caseiro em terrinas. Servem-se acompanhadas de carnes cozidas, enchidos e legumes, num prato de partilha típico das festas do Divino Espírito Santo. O pão de massa sovada é também um elemento típico destas festas. Diz-se que era difícil de amassar, razão pela qual os homens ajudavam as mulheres na sua preparação.

Andando pelas ruas da Madalena, nas tascas típicas, podem encontrar-se as favas da festa – cozidas até rebentar e apuradas num refogado com cebola, alho, salsa, louro e polpa de tomate. Ficam macias e cheias de sabor.

Todos conhecemos o Queijo de São Jorge, mas na ilha do Pico também se produz queijo com denominação DOP, a partir de leite cru de vaca. Tem um sabor suave, ainda que característico, com uma pasta cremosa no interior e uma casca firme e comestível.

Vinho do Pico, o novo capítulo

E, voltando ao vinho, agora no seu capítulo mais recente, importa referir dois produtores com um denominador comum: a consultoria e acompanhamento do enólogo Paulo Laureano.

Marco Faria representa hoje o projeto Curral Atlantis, do qual o seu pai, o Sr. Manuel, foi um dos grandes impulsionadores, juntamente com Jorge Böhm, da Plansel. Em 1995, plantou-se um campo experimental com 24 castas. A partir de 1997, o enólogo Paulo Laureano passou a envolver-se nesta “aventura” e começou a deslocar-se ao Pico com regularidade.

O enólogo refere que o míldio é o principal problema da vinha no Pico, a par com doenças do lenho. “Não foi fácil”, recorda: “houve anos em que não tivemos um único bago de uva, mas ele [Manuel Faria] acreditou sempre… O ano passado foi bom e permitiu recuperar as vinhas.” E este inverno, com temperaturas baixas (menos de 10 ºC), também contribuiu nesse sentido.

De entre os vinhos provados, sobretudo Verdelho e lotes de Verdelho/Arinto de vários anos, destaco o “Vinha do Avô” 2020, com origem numa vinha centenária de Verdelho e Arinto dos Açores, a que se juntou Boal plantado mais tarde. Mostra grande complexidade, carácter e equilíbrio, com notas de mel e maresia, laranja e cardamomo, lima e ananás; é envolvente, longo e saboroso, sem nada comprometer, deixando ainda muito por revelar e evoluir.

Outro projecto tem a ver com o empresário Pedro Saraiva, restaurador, hoteleiro e produtor de vinho, com a marca Cancela do Porco, antigamente vendida exclusivamente no seu restaurante. O Verdelho de 2014, de tonalidade quase acobreada, surpreende pelo aroma inesperadamente fresco, composto e complexo, com notas de geleia de tangerina, alperce, maçã assada e ananás salgado, além de um toque de estragão, iodo, notas florais e apetroladas. Envolvente e com acidez salivante, evidencia que o tempo lhe conferiu cremosidade sem lhe retirar a sua vitalidade vibrante.

E assim, finalizamos com um brinde à ilha do Pico com o seu temperamento difícil e à força do espírito picaroto que a domou e dela fez o seu lar, produzindo alguns dos vinhos com mais identidade e carácter.

(Artigo publicado na edição de Julho de 2026)

QUINTA DA ROMEYRA: Um novo capítulo para Bucelas

Quinta da Romeyra

Se há região portuguesa subvalorizada na atualidade é Bucelas. O que é incompreensível perante a qualidade dos vinhos brancos e a vetusta história por detrás da denominação. Incompreensível, mas não sem explicação, sendo que anos de aposta num produto mais barato e comercial apenas serviram para banalizar um vinho – o Arinto de Bucelas e, […]

Se há região portuguesa subvalorizada na atualidade é Bucelas. O que é incompreensível perante a qualidade dos vinhos brancos e a vetusta história por detrás da denominação. Incompreensível, mas não sem explicação, sendo que anos de aposta num produto mais barato e comercial apenas serviram para banalizar um vinho – o Arinto de Bucelas e, concretamente, o Branco Velho de Bucelas –, que tinha tudo para manter-se como um néctar clássico de nicho. Mais recentemente, mas nos últimos anos apenas, assistimos a um reerguer da região, inclusivamente com novos produtores a disputar os poucos solos da ondulante e florestal região vinhateira. A Quinta da Romeyra não é um desses novos produtores. Por isso, e pela sua história e dimensão, tem ainda mais responsabilidade na região. Com origens documentadas desde 1218, o nome foi testemunha de episódios marcantes – da passagem do Duque de Wellington, durante as Invasões Francesas, à instituição do Morgado de Santa Catherina, em 1703.

Num contexto em que a Sogrape tem vindo a afirmar projetos em diversas regiões vitivinícolas, Bucelas surge, agora, como território de renovada ambição. Conhecida pelos seus brancos frescos, tensos e marcados por solos calcários únicos, a região começa a querer viver um momento de redescoberta. Esperemos, e tudo indica ser esse o futuro, que a Quinta da Romeyra se assuma como peça central dessa estratégia.

 

Conhecida pelos seus brancos frescos, tensos e marcados por solos calcários, Bucelas surge, agora, como território de renovada ambição

 

 

Nova grafia, novos vinhos

A nova grafia que recupera o original – com a utilização letra ‘y’, simultaneamente clássica e sofisticada – e as novidades do portefólio recentemente apresentadas, expressam, com clareza, essa visão: valorizar a Arinto e devolver a Bucelas o protagonismo que historicamente lhe pertence enquanto única denominação de origem portuguesa exclusivamente dedicada a vinhos brancos. Os vinhos apresentados espelham efetivamente um equilíbrio entre tradição e inovação, procurando interpretar Bucelas a partir da diversidade da própria propriedade: diferentes solos, diversas exposições, distintas expressões da mesma casta. No centro de tudo, a casta Arinto.

Entre as novidades do portefólio da Sogrape no que toca ao vinho produzido em Bucelas, destaca-se o Quinta da Romeyra Colheita 2025, com parte fermentada em barrica de 500 litros, e que se quer posicionar como expressão fiel e versátil da propriedade, o verdadeiro porta-estandarte do projeto.

Num registo mais ambicioso, surge também como boa nova um verdadeiro topo de gama, o Vinha dos Fósseis 2021, elaborado apenas em anos verdadeiramente notáveis. Como o nome indica, é proveniente de solos jurássicos ricos em fósseis marinhos, apresentando uma mineralidade intensa e grande complexidade. Lançado com cinco anos de evolução, assume-se como um gesto ousado que invoca os brancos velhos de antigamente e ombreiam com grandes brancos nacionais e não só.

Ainda sobre a gama dos vinhos, mantêm-se as referências emblemáticas, agora com nova imagem, caso do Prova Régia e do Espumante Bruto Quinta da Romeyra e, ainda, do neoclássico Morgado de Santa Catherina, marca que acompanhou mais do que uma geração de enófilos portugueses no que a brancos com estágio de madeira diz respeito.

A enologia está a cargo de Luís Cabral de Almeida, que destaca os investimentos feitos na adega e a renovação de grande parte da vinha. Para o experiente enólogo, a maior riqueza da propriedade é permitir-lhe explorar a casta Arinto em diversas derivações, sempre com detalhe.

Terminamos como começámos: num setor onde tradição e inovação se cruzam constantemente, renovamos os votos para que este novo capítulo da Quinta da Romeyra represente mais do que um relançamento e a apresentação de novos vinhos. Esperamos que seja um marcador do regresso ao futuro radioso de Bucelas.

 

A nova grafia da Quinta da Romeyra e as novidades do portefólio expressam a vontade de valorizar a Arinto e devolver a Bucelas o protagonismo que historicamente lhe pertence

Quinta da Romeyra

(Artigo publicado na edição de Junho de 2026)

 

MOUCHÃO: Tonel Nº 3-4, a expressão suprema de uma casta e de um lugar

mouchão

À entrada da Herdade do Mouchão, localizada em Casa Branca, no concelho de Sousel, tudo transmite uma sensação rara de permanência. Não há ostentação; parece um lugar que nunca teve pressa em modernizar-se para impressionar quem chega. Os edifícios agrícolas alinham-se com uma simplicidade austera: paredes grossas caiadas a branco, janelas pequenas, para proteger do […]

À entrada da Herdade do Mouchão, localizada em Casa Branca, no concelho de Sousel, tudo transmite uma sensação rara de permanência. Não há ostentação; parece um lugar que nunca teve pressa em modernizar-se para impressionar quem chega. Os edifícios agrícolas alinham-se com uma simplicidade austera: paredes grossas caiadas a branco, janelas pequenas, para proteger do calor o interior do edifício, telhados de telha escurecidos pelo tempo. A arquitectura é rural e profundamente alentejana, feita para resistir aos verões quentes e a uma história secular.

Foi aqui que um ramo da família inglesa Reynolds consolidou o projecto agrícola iniciado no Alentejo, ainda no século XIX, primeiro ligado à cortiça e depois ao vinho. Em 1901 foi construída a ala nascente da adega, ano gravado em cima da entrada –significa que este ano a Herdade do Mouchão celebra 125 anos. No entanto, a propriedade soma mais de 150 anos de viticultura. “Por isto, na altura, foi chamada ‘a adega nova’”, explica Iain Reynolds Richardson, que representa a sexta geração da família.

O tempo deixou marcas na herdade. Depois da Revolução de Abril de 1974, o Mouchão foi expropriado e devolvido à família apenas em meados da década de 1980, já bastante degradado. A adega foi recuperada e a vinha teve de ser replantada a partir do material genético original da propriedade.

A franja capilar garante que as raízes mais profundas conseguem alcançar reservas hídricas

 

O berço da Alicante Bouschet

Na Herdade do Mouchão, com 900 hectares, que incluem olival e montado, a vinha ocupa, hoje, 47 hectares. A maior parcela, com seis hectares, conhecida como Vinha dos Carapetos, está plantada com Alicante Bouschet e Trincadeira. É precisamente aqui que se encontram as raízes da casta protagonista do icónico Mouchão Tonel Nº 3-4, tanto na vinha como na história do Alentejo, num território que lhe oferece o terroir ideal.

A paisagem da propriedade assenta numa vasta planície de sedimentos do Cenozoico, que preencheu uma antiga bacia e originou uma superfície relativamente plana. Durante o Quaternário, esta planície foi sendo progressivamente entalhada pela acção do rio, que esculpiu os vales que actualmente marcam o território.

Adrian Mellin, geólogo com uma longa carreira na Shell, tem um fascínio particular pelo terroir do Mouchão e ajuda a compreender as suas particularidades. Na herdade distinguem-se dois vales principais: o Almadafe Molhado e o Almadafe Seco. Os respectivos nomes reflectem o seu comportamento hidrológico: o primeiro apresenta uma área de drenagem mais activa, concentrando e conduzindo a água ao longo do eixo do vale, enquanto o segundo tem um regime muito mais limitado, com escoamento reduzido e caudais pouco persistentes. Em ambos os casos, as águas provenientes das encostas alimentam o fundo dos vales, onde, durante milhares de anos, em zonas de estrangulamento do curso do rio, se acumulam aluviões, formando várzeas.

O próprio nome “mouchão” está ligado ao terroir e designa pequenos bancos de terra, lodo ou areia que se formam no leito dos rios ou estuários, resultantes da acumulação de aluviões. Segundo Iain, nos mapas de 1894, o rio que moldou o vale apresentava um traçado em ziguezague, dando origem a vários mouchões ao longo desta paisagem.

Passando muito tempo, na herdade, e medindo a água nos poços a 40 e a 80 centímetros de profundidade, Adrian observou uma relação interessante entre a precipitação e o comportamento do lençol freático. Em períodos de chuva significativa, a recarga do solo é intensa, alimentando a zona freática que soube entre duas a três vezes o nível de água que recebe. Cria-se uma zona de saturação capilar mais ampla, que se torna particularmente importante nos períodos secos prolongados e de maior calor, cada vez mais frequentes. Para suportar as temperaturas elevadas, a planta precisa de transpirar e, para isso, necessita de água disponível. A franja capilar garante que as raízes mais profundas conseguem alcançar reservas hídricas, mantendo a planta funcional.

Cria-se um pouco de tensão, um stress controlado, suficiente para equilibrar o desenvolvimento da videira sem comprometer os estados fenológicos. Atinge-se uma maturação completa, mas equilibrada, com menor degradação de ácidos, mantendo a tão preciosa frescura, que encontramos no Tonel Nº 3-4.

Os dados registados ao longo de três anos pela estação meteorológica instalada no vale mostram que as temperaturas máximas são muito semelhantes às de Évora. Já as temperaturas mínimas aproximam-se mais das de Portalegre, cerca de 200 metros acima, uma diferença explicada pela localização da herdade no fundo do vale, onde o ar frio tende a acumular-se durante a noite. O regime de precipitação também segue um padrão mais próximo do de Portalegre do que do de Estremoz ou Évora.

Na vinha, explica Iain, é feita uma monda em verde, removendo parte dos pâmpanos, com o objetivo de abrir a copa, melhorar a ventilação e reduzir a necessidade de tratamentos. O trabalho fitossanitário baseia-se quase exclusivamente em cobre e enxofre, embora, em situações excepcionais, possam ser utilizados outros tratamentos de recurso. Em meados de Julho, realiza-se igualmente a monda de cachos, para ajustar o potencial produtivo da vinha.

Nos últimos 12 anos, a produção média tem sido de cerca de quatro toneladas por hectare, descendo, em alguns anos, para valores próximos das duas toneladas. Em 2015, a produção atingiu 4,5 toneladas por hectare.

Mouchão vs. Tonel 3-4

Após o período de ocupação, quando a herdade regressou às mãos da família, já não havia vinho; tinha sido todo vendido. Para restaurar os grandes tonéis, os tanoeiros chegaram a viver na propriedade durante dois anos. Segundo Iain, os tonéis 3 e 4 são construídos a partir de diferentes madeiras (castanho, carvalho, macacaúba e mogno), com aduelas a rondar os 60 anos e topos a aproximarem-se dos 100 anos.

O primeiro vinho Tonel Nº 3-4 surgiu na colheita de 1996. Desde então, foram lançadas apenas sete edições, correspondendo à oitava a de 2015, a ser lançada agora.

Iain esclarece que esta referência só é produzida em anos em que “o Alicante Bouschet é fantástico” e está disponível em “quantidade suficiente, para assegurar também o Mouchão”. Se a primeira razão é óbvia, a segunda tem a ver com a filosofia da casa. Há anos em que, do ponto de vista qualitativo, seria possível produzir o Tonel Nº 3-4, mas tal não acontece, devido à reduzida quantidade de uva que não permite assegurar simultaneamente os dois vinhos.

“Nós somos conhecidos pelo Mouchão. Esse é o nosso fio de estabilidade ao longo dos últimos 70 anos e não queremos que este vinho sofra a custo do outro vinho […], o Mouchão, para nós, é o principal. Depois temos um enorme prazer, em anos como este, de lançar uma coisa absolutamente fantástica, completamente fora dos moldes do Mouchão.”

O enólogo Hamilton Reis resume, de forma poética, a relação entre os dois topos de gama da herdade, mas simultaneamente muito precisa. O Mouchão não é um segundo vinho da propriedade: “reúne numa garrafa o património e a identidade de duas famílias – os Reynolds, na sexta geração enquanto proprietários, e os Alabaça, na terceira geração enquanto adegueiros –, bem como as diferentes parcelas de Alicante Bouschet e Trincadeira”. Por sua vez, o Tonel Nº 3-4 vive numa realidade diferente. É, nas suas palavras, “um vinho egoísta”, “a expressão máxima de uma casta que encontrou o seu território perfeito” e “um produto absolutamente único que fala de si”.

Normalmente, a primeira noção de que poderá haver um Tonel surge ainda durante a vindima. O longo estágio permite adiar a decisão até ao momento em que já não restam dúvidas. A produção varia de ano para ano. O Mouchão é produzido na ordem das 35-40 mil garrafas. O Tonel Nº 3-4 de 2015 resultou em 11 mil garrafas. A produção total da herdade ronda as 150 mil garrafas.

 

Mini-vertical

Antes de conhecer o vinho que deu origem a este lançamento especial, provámos duas colheitas anteriores – 2001 e 2005 –, com o objetivo de evidenciar a capacidade de envelhecimento do Tonel Nº 3-4. João Alabaça explicou que “o ano 2001 teve alguma falta de água, mas viveu no que deixou o ano anterior. O 2005 foi o primeiro ano do ciclo de seca entre 2005-2008, mas o 2004 foi o ano de água, o que acabou por criar um equilíbrio”, resumiu.

Na prova, o Tonel Nº 3-4 2001 mostrou-se muito profundo no aroma, balsâmico, com couro fino e azeitona preta, alguma tinta-da-china, mas com fruta ainda fresca a lembrar amora e cereja bem madura. Muita frescura em evolução, firmeza de tanino e textura de linho. O 2005, ligeiramente mais fechado, revelou também fruta como a amora e a cereja preta, muito couro e eucalipto, pimenta e um fundo terroso com apontamentos de petrichor. Surgiram ainda nuances de açúcar mascavado e, com tempo no copo, especiaria doce. Musculado, muito fresco e ainda com uma energia jovem e uma ligeira nota verde do engaço, que acrescenta tensão. Nenhum dos dois se mostra pesado ou cansado; ambos projectam uma grande presença e afirmação de estilo e carácter.

O Tonel 3-4 2015

Segundo João Alabaça “o ano 2014 fechou com muita chuva e, quando começou o 2015, tornou-se um inverno extremamente seco e muito frio. A primavera foi mais amena, choveu pontualmente, mas a chuva estava com uma boa intensidade, por isto a água ficou no solo. A fase da primavera, com excelentes temperaturas. Em finais de Junho, princípio de Julho, tivemos um grande problema com temperaturas muito altas durante uma semana e nesta altura perdemos muita fruta queimada. Isto desenvolveu um cacho mais aberto, com as uvas mais pequenas, que resultou em concentração e muito equilíbrio no próprio cacho e na vinha. O verão correu plenamente, não muito quente, oscilações de noite e dia muito agradáveis até praticamente a vindima. Não tivemos nem pragas nem doenças na vinha, quase sem tratamento. A colheita das uvas na Vinha dos Carapetos, aconteceu entre o dia 9 e o dia 11 de Setembro. As uvas estavam fantasticamente sãs, com um equilíbrio muito grande entre a maturação alcoólica e a maturação fenólica. Os engaços estavam completamente maduros.”

Esta última referência aos engaços é particularmente relevante, uma vez que a filosofia de vinificação da propriedade se mantém inalterada desde sempre: fermentação em lagares de mármore, com pisa a pé e sem desengace. Após cerca de sete dias, o vinho é trasfegado para os tonéis, onde realiza a fermentação maloláctica e estagia durante três a quatro anos.

Depois do engarrafamento, o estágio continua por mais seis anos antes do lançamento para o mercado. Em princípio, a partir deste momento o vinho está num ponto óptimo para ser apreciado, mas facilmente aguentará mais uma década (ou mais) em garrafa.

(Artigo publicado na edição de Junho de 2026)

QUINTA DO NOVAL: Qualidade de um ano perfeito

Quinta do Noval

A história mais recente da Quinta do Noval sob a gestão de Christian Seely, Director-Geral da AXA Millésimes, é, sem dúvida, a mais intensa e rica desde a fundação da propriedade, em 1715. Para além da tradição que sempre se fez questão em preservar, para Christian Seely e toda a equipa da Quinta do Noval, […]

A história mais recente da Quinta do Noval sob a gestão de Christian Seely, Director-Geral da AXA Millésimes, é, sem dúvida, a mais intensa e rica desde a fundação da propriedade, em 1715. Para além da tradição que sempre se fez questão em preservar, para Christian Seely e toda a equipa da Quinta do Noval, estes 33 anos foram “um período de descobertas e redescobertas”. Em 1994 só se fazia Vinho do Porto; mais tarde descobriram que os terroirs da propriedade também tinham grande potencial para vinhos não fortificados. O primeiro tinto surgiu com a colheita de 2004 e, alguns anos mais tarde, chegaram os brancos. Outra redescoberta foi o potencial qualitativo das vinhas velhas e dos field blends.

 

O grande 2024

O porquê de 2024 ser extraordinário explica Carlos Agrellos, Director Técnico da Quinta do Noval: “tivemos uma série de anos secos. Primeiro 2020, depois 2021, um ano razoável, 2022 novamente seco e 2023 com alguns problemas de chuva na vindima. Mas 2024, em traços gerais, foi um ano muito equilibrado do ponto de vista climático. Tivemos um inverno chuvoso, o que é sempre positivo, seguido de uma primavera amena, com alguma chuva. E convém dizer que, em 2024 choveu menos do que em 2023, e a precipitação foi muito bem distribuída ao longo do ano. Apenas o mês de Agosto não teve qualquer pluviosidade. Isto permitiu um ciclo vegetativo mais longo e, olhando para as declarações passadas, podemos afirmar que um ano em que toda a vindima decorre sem paragens, geralmente conduz a bons vinhos. Houve alguma chuva nocturna a 16 e 23 de Setembro, que não impediu a continuidade da vindima. E foi muito esticada, tendo começado no dia 22 de Agosto e terminado a 11 de Outubro, e as uvas acabaram por ter uma maturação fenólica e uma acidez muito equilibradas.”

Nada melhor confirma estas observações do que os próprios vinhos. Posto isto, a sequência da prova começou nos brancos (que embora já tenham sido provados anteriormente, serviram de bom exemplo neste contexto), continuou com os tintos e terminou em grande com os vinhos do Porto Vintage, incluindo o mítico Noval Nacional. Mas antes vamos ver os pontos em comum entre os vinhos não fortificados e os do Porto.

Quinta do Noval

Vale de Mendiz e do Roncão

A Quinta do Noval e a Quinta do Passadouro, adquirida em 2019, têm vinhas em dois vales – Vale de Mendiz e Vale do Roncão. Carlos Agrellos explica que há uma diferença marcante entre os vales de Mendiz e do Roncão. O primeiro, situado na margem esquerda do rio Pinhão, situa-se no fundo do vale, numa zona muito quente, mas com uma identidade muito própria e particularmente importante para o Douro, marcada pelo carácter típico do Vale de Mendiz. A zona do Roncão, também conhecida como Ribeira do Roncão, que conduz ao Douro, embora seja quente, beneficia de um fluxo de vento que entra pelo vale acima e ajuda a manter as vinhas bem arejadas. “Curiosamente, os vinhos do Vale de Mendiz apresentam sempre muita pureza de fruta silvestre e notas florais, uma assinatura do Vale de Mendiz, que não encontramos no Roncão onde os vinhos são mais frutados, nem tanto florais, e têm mais estrutura”, conclui o Director Técnico da Quinta do Noval.

O monovarietal de Touriga Nacional da Quinta do Passadouro é uma combinação de parcelas do vale de Mendiz, onde se concentram as vinhas velhas, e da vinha do Síbio, no vale do Roncão, onde as plantações são organizadas por casta. Por sua vez, o monovarietal de Touriga Nacional da Quinta do Noval resulta de quatro parcelas: três no Vale de Mendiz e uma no Roncão.

Mesmo no Vintage da Quinta do Noval, que tem maior proporção de uva do Vale de Mendiz, alguma parte provém sempre do Roncão, “para lhe dar músculo”.

 

“É este paradoxo do Douro: uma zona quente onde conseguimos fazer vinhos destes, com frescura e finesse”, resume Carlos Agrellos

“Não queremos abdicar da possibilidade de produzir um Porto Vintage que expressa não só os nossos terroirs, mas também o ano”, explica Christian Seely

 

Vinhas velhas, o componente essencial

Como referiu no início Christian Seely, as vinhas velhas foram uma grande descoberta na Quinta do Noval e também no Passadouro. Quando a propriedade foi adquirida, as parcelas plantadas na década de 1930 estavam muito bem preservadas, exigindo apenas algumas retanchas. Foi também feito, em colaboração com a PORVID, o levantamento de todas as castas presentes (mais de 30), que hoje se encontram catalogadas. O lote do Quinta do Passadouro Reserva é composto maioritariamente por vinhas velhas (74%), mais 16% de Touriga Nacional e 10% de Touriga Francesa.

O Quinta do Noval Reserva era tipicamente um blend de Touriga Nacional e Touriga Francesa, mas em 2020, no Douro em geral, esta última amadureceu muito mais cedo do que o normal e não estava na sua melhor forma na altura da vindima. E, pela primeira vez, as uvas da vinha velha entraram no lote. O resultado foi tão relevante, que passaram a representar uma grande parte desta referência. O Reserva de 2024 conta com 50% de vinhas velhas, 32% de Touriga Nacional e 18% de Touriga Francesa.

A título de exemplo, o Quinta do Passadouro Reserva tem acidez total de 6,10 gramas por litro e um pH 3,54 e o Quinta do Noval Reserva regista 6,40 gramas por litro de acidez e um pH de 3,47. Ambos evidenciam taninos muito finos, do mesmo tipo que, com mais trabalho e pisa em lagar, dão origem aos Porto Vintage. “É este paradoxo do Douro: uma zona quente onde conseguimos fazer vinhos destes, com frescura e finesse”, resume Carlos Agrellos.

 

Abordagem na adega

Na adega, os vinhos da Quinta do Passadouro são trabalhados de forma diferente dos da Quinta do Noval. Os primeiros fermentam em lagar, mas por pouco tempo, privilegiando a extracção pré-fermentativa em detrimento da maceração pós-fermentativa. Por isso, após uma breve pisa, o vinho é trasfegado.

O estágio decorre integralmente em barrica, com uma proporção de 15-20% de madeira nova, 5-10% de segundo ano e 70-80% de terceiro ano. Esta utilização de barricas de segundo e terceiro ano preserva o carácter frutado e floral, sem dominar o vinho.

 

O Noval Nacional representa apenas 0,65% do volume total do Vinho do Porto produzido na propriedade.

Quinta do Noval

Terroir Series

A filosofia por trás desta designação é bastante simples: sempre que nas múltiplas vinificações surge um vinho claramente distinto dos restantes (seja monovarietal, seja de vinhas velhas, como até agora), é engarrafado como Terroir Series. Para já, existem dois vinhos feitos a partir de uvas provenientes de parcelas praticamente centenárias, com castas misturadas.

O Vinha da Marka viu a sua primeira expressão em vinho em 2019 e, desde então, tem sido lançado todos os anos. É uma parcela situada ao lado da Quinta do Crasto. A sequência da Vinha da Ponte, da Maria Teresa e da Marka, sugere uma contemporaneidade na plantação, parecendo ser vinhas da mesma época.  A vinha da Marka com mais de 30 castas a 140-180 metros de altitude junto ao rio, apresenta um rendimento médio de 15 hectolitros por hectare. Vindimou-se numa manhã no dia 30 Setembro e resultou em 1024 garrafas.

Mais uma vez a título de exemplo: o Vinha da Marka com 14%, tem 6,60 gramas por litro de acidez total e um pH 3,44. Na opinião do enólogo, estes valores indicativos das vinhas velhas “nunca entram em sobrematuração”, produzindo um grande equilíbrio entre tanino e frescura, com finesse e um potencial de evolução como se fosse um grande Vintage.

No caso do Vinha do Passadouro, trata-se de uma parcela com 28 castas (numa combinação diferente da Vinha da Marka) situada a 320 metros de altitude e com uma elevada densidade de plantação para uma vinha velha do Douro: cerca de 5500 pés. Também plantada na década de 1930, apresenta um rendimento ainda mais baixo, de 12 hectolitros por hectare. Foi produzido 2020, 2021 e 2024, com 968 garrafas neste último. E novamente, temos 6,30 gramas por litro de acidez total e um pH de 3,54.

Porto Vintage

Com vinhas situadas entre os 100 e os 480 metros de altitude e com diferentes exposições, desde 2011 a Quinta do Noval conseguiu fazer declarações de Vintage todos os anos. “São declarações pouco convencionais, porque não seguimos a regra de só declarar em anos clássicos. Mas, às vezes, são apenas 1000 caixas (12 mil garrafas), o que representa menos de 3% da nossa produção total do vinho do Porto. Fazemos isto, não porque queremos ganhar muito dinheiro, mas porque não queremos abdicar da possibilidade de produzir um Porto Vintage que expressa não só os nossos terroirs, mas também o ano. Esta é a nossa política”, explica Christian Seely.

A qualidade dos Porto Vintage percebe-se logo na vindima. Há parcelas que, historicamente, dão origem a Vintage, sendo vinificadas separadamente e mantidas até à decisão final, momento em que algumas acabam por ser rejeitadas. Segundo Carlos Agrellos, o Quinta do Passadouro Vintage resulta de seis parcelas, de um total inicial de dez, tendo quatro ficado de fora do lote final. No caso do Quinta do Noval Vintage, o processo começou com 14 parcelas, das quais quatro foram eliminadas. Isto resultou em 555 caixas (6600 garrafas) do Vintage da Quinta do Passadouro e 2166 caixas (25 992 garrafas) da Quinta do Noval.

O Noval Nacional provém sempre da mesma parcela de vinha velha, com menos de um hectare, situada em frente à casa. Foi vindimado numa manhã a 30 de Setembro. Com 167 caixas (2004 garrafas) representa apenas 0,65% do volume total do Vinho do Porto produzido na propriedade. É um vinho com uma concentração de outro mundo e uma finesse típica que só aquela parcela cirurgicamente preservada, consegue expressar num grande Porto Vintage.

(Artigo publicado na edição de Junho de 2026)

REAL COMPANHIA VELHA: 270 anos de história

Real Companhia Velha

Há momentos em que a história do vinho se cruza com a própria identidade de uma nação de forma tão visceral, que o cenário escolhido para a celebrar não pode ser fruto do acaso. Foi precisamente essa a sensação ao entrar na Alfândega do Porto, para comemorar os 270 anos da Real Companhia Velha. Pela […]

Há momentos em que a história do vinho se cruza com a própria identidade de uma nação de forma tão visceral, que o cenário escolhido para a celebrar não pode ser fruto do acaso. Foi precisamente essa a sensação ao entrar na Alfândega do Porto, para comemorar os 270 anos da Real Companhia Velha. Pela primeira vez, este edifício histórico, outrora a porta de entrada das mercadorias do mundo, testemunho da mudança de impérios e rotas comerciais, abriu as suas imponentes naves para acolher o legado vivo da mais antiga empresa vinícola de Portugal. Havia uma simetria quase literária nessa escolha: dois pilares da identidade portuense, frente a frente, a reconhecerem-se mutuamente.

Instituída a 10 de setembro de 1756, por Alvará Régio de D. José I, sob o punho visionário do Marquês de Pombal, a Real Companhia Velha nasceu para proteger e regular o comércio dos vinhos do Douro, numa época em que o vinho do Porto era já moeda de prestígio nas mesas da Europa. Chegar a 2026, com o mote “270 Anos de Excelência do Douro para o Mundo” estampado nos painéis negros e dourados que forram a nave central, mantendo a relevância, o vigor e a capacidade de surpreender, é um feito raro.

 

Pedro Silva Reis, a voz

À entrada do espaço, uma parede em cinzento antracite, com o numeral dourado “270” e as letras soltas de “Real Companhia Velha” a orbitarem em torno do logótipo comemorativo, serve de cenário às entrevistas concedidas pelo administrador da empresa, Pedro Silva Reis. De fato azul-marinho e lenço no bolso, os gestos largos de quem está habituado a discursar sobre história, mas que, acima de tudo, acredita genuinamente no que diz. As suas palavras, calmas e autorais, tão comuns neste tipo de celebrações, definem o tom do dia: “esta não é uma festa nostálgica, mas uma declaração de intenção sobre o futuro”.

A mensagem de Pedro Silva Reis é clara: a empresa que herdou do pai e que agora partilha com a geração seguinte não vive, nem pode viver, de acontecimentos do passado. Vive de os honrar com a mesma audácia com que foram construídos.

 

“Estes vinhos existem, porque nos propomos explorar diferentes ideias que nos ensinem algo passível de uso numa aplicação comercial”

 

Real Companhia Velha
Pedro Silva Reis

Tiago Silva Reis, a nova geração

Se o pai representa a continuidade e a solidez, Tiago Silva Reis, filmado no interior animado da Alfândega, com as bancas de vinho e os convidados ao fundo, encarna a transição com uma naturalidade que tranquiliza. Jovem, articulado, claramente apaixonado pelo que faz, fala do evento com o entusiasmo de quem o ajudou a conceber e não apenas de quem o herda.

Em segundo plano, a banca da Royal Oporto, com as garrafas alinhadas em prateleiras de madeira natural sobre fundo vermelho, confere ao enquadramento a profundidade cromática de um evento vínico. A casa tem um novo rosto que conhece o produto pela raiz.

 

Mapa vivo do Alto Douro Vinhateiro

O formato do evento abandonou a disposição clássica em favor de uma experiência imersiva. Distribuídas em bancas individuais, cada uma das cinco quintas da empresa apresentou-se como um universo próprio: a Quinta das Carvalhas, com as suas vinhas centenárias e uma das mais ricas coleções de castas autóctones durienses; a Quinta de Cidrô, o laboratório experimental localizado no planalto de São João da Pesqueira; a Quinta dos Aciprestes, abraçada ao curso do Douro; a Quinta do Casal da Granja, em Alijó, e a Quinta do Síbio, no vale do Roncão. No total, 557 hectares de vinha própria.

Ao longo da nave central, enormes painéis suspensos do alto da estrutura metálica verde da Alfândega do Porto, essa característica cobertura industrial que ainda cheira a século XIX, contavam a cronologia de uma casa que atravessou Invasões Francesas, o liberalismo, a ditadura e a democracia. Num deles, uma fotografia de família: Pedro Silva Reis rodeado pelos filhos, ao ar livre, numa das quintas. Sobre a imagem, o selo comemorativo “270 Years – 1756–2026”. Uma imagem que vale mais do que qualquer comunicado de imprensa: a empresa tem dono, tem nome, tem cara.

 

Real Companhia Velha
Tiago Silva Reis é o rosto da nova geração da família, na Real Companhia Velha

 

Os vinhos: do clássico ao experimental

A banca da inovação revelou uma empresa que não tem medo de se reinventar. O grande lançamento do ano, o Royal Oporto 10 Anos Tawny propõe uma entrada generosa, mas acessível no universo dos vinhos velhos da casa. Do mesmo patamar, o imponente Royal Oporto 40 Anos Tawny, com o rótulo bordô e o blend número 25036, lembra a quem visita que a Real Companhia Velha é, antes de mais, uma guardiã do tempo.

Mas a surpresa reservada para os conhecedores estava na linha Séries. Rotulagem branca, tipografia sóbria, a indicação “1.500 Garrafas” e a casta Baga na região Douro: um projeto de exploração vitícola que testa castas fora da sua zona canónica, com tiragens muito limitadas. Nas palavras de Pedro Silva Reis: “a Real Companhia Velha representa a procura de novos vinhos. Estes vinhos existem, porque nos propomos explorar diferentes ideias que nos ensinem algo passível de uso numa aplicação comercial.” É a linguagem da curiosidade científica a entrar pela adega dentro.

 

Futuro de família e de Douro

Ao final do dia, entre os 800 convidados que enchiam as naves da Alfândega, a narrativa do evento fechava-se com coerência, uma empresa que nasceu por decreto régio para proteger um território e que, 270 anos depois, continua a fazê-lo, agora também através da nova geração, dos vinhos experimentais, da garrafa redesenhada e do cenário escolhido para a celebração. Os homens criam as efemérides. O rio, a terra e a paciência permitem que a história continue a ser escrita. A Real Companhia Velha parece estar pronta para os próximos 270 anos.

(Artigo publicado na edição de Junho de 2026)