PINHAL DA TORRE VINHOS: A identidade de um terroir do Tejo

A Pinhal da Torres Vinhos fica em terras planas, de lezíria, bem próximas do Rio Tejo e de Alpiarça, terra da Casa dos Patudos, a casa de José Relvas transformada em museu, que vale a pena visitar, e a Reserva Natural do Cavalo do Sorraia, onde se podem ver alguns exemplares daquele que era o […]

A Pinhal da Torres Vinhos fica em terras planas, de lezíria, bem próximas do Rio Tejo e de Alpiarça, terra da Casa dos Patudos, a casa de José Relvas transformada em museu, que vale a pena visitar, e a Reserva Natural do Cavalo do Sorraia, onde se podem ver alguns exemplares daquele que era o cavalo primitivo e autóctone do sul da Península Ibérica, segundo os escritos desta entidade. Paulo Saturnino Cunha, gestor do Pinhal da Torre, conta que a família produzia vinhos, na zona, há muitos anos. Lembra-se mesmo que os bisavôs que conheceu, três ao todo, tinham cada um uma adega, numa terra onde houve sempre produção de vinho a granel, como se fazia em quase todo o Portugal de outros tempos.

Pinhal da Torre
A sala de barricas da Pinhal da Torre, onde os vinhos estagiam entre três e quatro anos antes de saírem para o mercado

Volume e algumas coisas boas

O Ribatejo, hoje região vitivinícola do Tejo, era conhecido por produzir enormes quantidades de vinho, que abasteciam, principalmente, os restaurantes e as tabernas de Lisboa e as ex-colónias de África. As vinhas desenvolviam-se nos solos mais férteis e tinham produções elevadas, e as grandes casas agrícolas pretendiam obter o máximo rendimento, produzindo vinho de pouca qualidade, com o intuito de ser vendido a granel. A família de Paulo Saturnino Cunha chegou a ter 200 hectares de vinha com essa função, mas o pai “engarrafava algumas das coisas boas que produzia, para consumir em casa e dar aos amigos”, conta o nosso anfitrião. Nessa altura, a empresa familiar dedicava-se sobretudo à produção de morangos, para além das culturas de milho, tomate, entre outros produtos. Era o negócio principal. Ocupava 50 hectares de estufas e estufins na lezíria do Tejo, com uma produção média de cerca de 40 toneladas por hectare, parte exportada em fresco, em camiões, com destino a vários países europeus.

“Geadas tardias, que chegavam a dizimar toda a produção de morangos e obrigavam a esperar o nascimento de novos frutos, tornavam a actividade muito complicada”, conta o gestor. Outro problema era a mão de obra, em particular durante a colheita, época do ano em que podiam participar mais de 600 pessoas, que se tornou cada vez mais difícil de angariar na zona. Devido a este cenário, os seus antecessores chegavam a disponibilizar autocarros, para recolher pessoas em Alvaiázere e Pedrógão Grande, de modo a suprir as necessidades do negócio. Até que, em 1995, a casa suprimiu esta produção, por decisão familiar. “Nessa altura também vendíamos muito vinho a granel, e, quando se acabou com a produção de morangos, decidiu-se que iríamos apostar a sério na de vinho”, revela Paulo Saturnino Cunha, que vivia, na época, no Brasil.

Entretanto, o pai tinha tirado um curso na Estação Vitivinícola de Nelas. Influenciado talvez por isso e por ter mantido um relacionamento próximo com docentes, plantou nas suas terras clones do Dão da casta Touriga Nacional, bem como as brancas Cerceal-Branco e Bical, que “não vingaram, porque a qualidade dos vinhos a que deram origem não era muito boa”, declara, acrescentando que o primeiro engarrafamento de vinhos decorreu em 1999. No ano seguinte, foi produzido um “grande Touriga Nacional, que nunca perdeu uma prova às cegas com os melhores vinhos do mundo, incluindo os Mouton, Margaux e outros”, que os seus amigos organizavam enquanto esteve no Brasil.

Reconhecimento e notoriedade

A partir daí, os vinhos da empresa começaram a ganhar algum reconhecimento e notoriedade, sobretudo lá fora, “porque, em Portugal, tínhamos o problema de sermos da região que somos e, quando chegávamos a algum lugar para vender os nossos vinhos, os compradores mostravam-se desinteressados”, comenta Paulo Saturnino Cunha, referindo-se à reputação que a região tinha, o que não acontece hoje. Por isso, os responsáveis do Pinhal da Torre voltaram-se para o mercado externo, para onde chegou a ser vendida 93% da produção, sobretudo países como os Estados Unidos, Brasil, Inglaterra, China, Holanda, Luxemburgo e Suíça.

Foram dois os factores que levaram Paulo Saturnino Cunha a apostar no mercado externo. O primeiro foram as ‘reclamações’ que recebia dos amigos brasileiros, por não encontrarem os seus vinhos à venda, em Portugal, quando visitavam o país. O segundo foi a pandemia de Covid-19, que impediu as suas deslocações aos mercados externos para vender. A solução foi dedicar mais tempo ao nosso país a partir desse período.

“Dar mais atenção ao mercado nacional durante a pandemia, levou-nos a estarmos, hoje, presentes numa percentagem significativa dos melhores restaurantes de Portugal, do Algarve ao Norte, o que contribuiu para que tenhamos, hoje, uma disseminação muito grande no país, para onde vendemos, actualmente, 50% dos nossos vinhos”, conta o responsável pelo Pinhal da Torre, acrescentando que a distribuição é feita através de empresas de implantação regional. No exterior, o principal mercado, hoje, é o Brasil.

Pinhal da Torre
Apostar na oferta variada e diferenciada em termos de preço e perfis de vinho, tem sido fundamental para o negócio de Paulo Saturnino Cunha

 

Pelo menos, três anos em cave

Os vinhos são produzidos na Quinta de São João, na Quinta do Alqueve e em Águas Vivas, propriedades que perfazem um total de 40 hectares, dos quais 30 estão ocupados por vinha. A produção média é de cinco toneladas de uva por hectare, em resposta à obsessão de Paulo Saturnino Cunha por produzir vinhos com qualidade. É isso que o leva, e ao enólogo consultor da empresa, Mário Andrade, a guardar os vinhos em cave, pelo menos, três anos antes de os comercializar. É esse o tempo mínimo que as referências Antagonista e Protagonista, as de topo do portefólio da empresa, estão em madeira, nova e/ou usada, “que está presente, sem marcar o vinho, o que também tem a ver com o estilo do Mário Andrade”, informa o gestor.

Quanto a castas, são cerca de 20, com evidência para Verdelho, Arinto, Alvarinho, Fernão Pires e Malvasia Fina, que foi plantada o ano passado, nas brancas. Entre as tintas, refere Tinto Cão, Tinta Francisca, Sousão, Touriga Nacional, Touriga Franca, Alicante Bouschet, Ramisco e Baga. Ou seja, há uma grande panóplia de variedades para uma área não muito grande de vinha, com o intuito de disponibilizar uma oferta diferenciada.

“Um vinho, como nós o encaramos aqui, no Pinhal da Torre, não é um produto industrial”, defende, a propósito, Mário Andrade, acrescentando que é, sim exemplo de diferenciação, diversidade, “de uma conceptualização estética que implica ‘agarrar’ num solo, num clima, num sítio e interpretar isso de forma a ser reconhecido nos aromas e gostos do vinho que deitamos no copo e, de preferência, proporcionar prazer a quem o bebe”. E salienta que não é preciso fazer muito para isso acontecer.

 

Produzir uva pensando no vinho

Basta que a instalação da vinha tenha sido bem feita, adequada à produção de vinho e que “a sua nutrição obedeça a critérios enológicos, e não agrícolas”, que “não servem quando o objectivo do maneio da vinha é produzir uvas para vinho”. Para Mário Andrade, é necessário ir ainda mais ao pormenor, quando a finalidade é um vinho branco ou um vinho tinto, ou quando as castas são diferentes. “Se tenho um Aragonês e uma Trincadeira, estamos perante situações completamente diferentes, que implicam nutrir o solo para as condições mais adequadas à produção do vinho que queremos produzir, naquele terroir, a partir de cada uma das castas lá plantadas.” Depois é necessária alguma estratégia durante o ciclo vegetativo, para fornecer ar e luz à vinha e aos cachos. “Isto não significa luz directa nem correntes de ar, mas sim na medida certa conforme o ano”, explica o enólogo, acrescentando que é necessário ir adequando isso a cada ano vitícola.

Na produção de uva, o Pinhal da Torre segue um Plano Anual de Viticultura Biológica e Fertilização Sustentável, sem esquecer que as uvas têm de ser produzidas de forma a originar vinhos. “Para mim o papel da enologia começa no campo e acaba no copo do consumidor”, argumenta Mário Andrade. “Como a perfeição não existe e há contingências, vai-se tentando adaptar o caminho, tentando fazer o melhor possível”, assevera. Para o efeito, é importante que haja um bom planeamento na adega, de modo a “que as uvas sigam o seu processo natural na adega. Apenas é necessário fazer algum acompanhamento, provando os mostos durante a fermentação, para ver se fazemos mais ou menos maceração, de forma mais intensa ou menos, definir a altura de desencubar, juntar mosto de prensa ou separar e seguir isso naturalmente”, esclarece o enólogo.

“Apostarmos na produção de vinhos de qualidade numa região que não é fácil, como a do Tejo, e na criação de uma oferta variada e diferenciada em termos de preço e perfis de vinho, tem sido fundamental para nós e sente-se na forma como as pessoas reagem quando os provam”, diz, por seu turno, Paulo Saturnino Cunha. O gestor defende que ainda mantém o envolvimento, dedicação e esforço no negócio, “para não ser mais um. Quem prova os nossos vinhos, mesmo em provas comparativas, pode verificar isso”, continua o gestor, realçando o desempenho de Mário Andrade, cujo trabalho se afirma numa linha condutora, “uma identidade, que também se deve a usarmos apenas as nossas uvas para produzir os nossos vinhos”. O resultado desta acção traduz-se em, por vezes, em apenas três a quatro mil garrafas. “Apostamos na qualidade e não abrimos mão disso”, remata.

(Artigo publicado na edição de Março de 2026)

MALHADINHA: Edições especiais à prova

Malhadinha

É sabido que no mundo do vinho são muitos os casos de empresas familiares. E não falamos apenas das linhagens seculares com meia dúzia, ou mais, de gerações dedicadas à vitivinicultura e ao negócio do vinho. Falamos também de projetos relativamente novos em que, passadas uma ou duas décadas, é já inquestionável constatar que grande parte da família se encontra, direta ou indiretamente, ligada ao vinho, da produção […]

É sabido que no mundo do vinho são muitos os casos de empresas familiares. E não falamos apenas das linhagens seculares com meia dúzia, ou mais, de gerações dedicadas à vitivinicultura e ao negócio do vinho. Falamos também de projetos relativamente novos em que, passadas uma ou duas décadas, é já inquestionável constatar que grande parte da família se encontra, direta ou indiretamente, ligada ao vinho, da produção ao comércio, passando pelo enoturismo. Mais ainda, referimo-nos a casos em que os valores familiares são de tal modo manifestos, que se projetam nos próprios produtos, funcionando como um atrativo – se a família é unida em torno do vinho, este só pode ser bom! É o caso da família Soares que, mantendo um bem-sucedido negócio de distribuição e venda de vinho, arrancaram, há um quarto de século, um dos mais sólidos projetos no baixo Alentejo.

Ali, bem próximo de Albernoa, freguesia do concelho de Beja, no início do novo milénio, foi fundada a Herdade da Malhadinha Nova (a compra data de 1998), onde a família Soares começou por edificar e recuperar uma casa e um monte, enquanto plantavam dezenas de hectares de vinha. Pouco tempo depois, ergueram uma adega e um restaurante. Com outras estruturas em construção (é o caso da coudelaria, pois os cavalos de raça Puro Sangue Lusitano são outra paixão da família), desbravou-se caminho, com um enoturismo de grande categoria, que não tem parado de receber melhorias com novos edificados – luxuosas casas e vilas – espalhados por vários espaços dos 750 hectares da propriedade alentejana.

Atualmente, o enoturismo divide-se pelo Monte da Peceguina, hotel de charme constituído por três suítes e sete quartos, pela Casa das Pedras, com quatro suítes e piscinas privativas, pela Casa do Ancoradouro, ótima para grandes famílias, graças às suas sete suítes, e pela Casa da Ribeira, com três suítes. É caso para dizer que tantos são os admiradores dos vinhos deste produtor como aqueles que são fãs incondicionais do enoturismo e das experiências disponíveis durante todo o ano. Não espanta, pois, que a Herdade da Malhadinha Nova ostente a prestigiante insígnia da Relais & Châteaux e que a influente editora Assouline lhe tenha dedicado um lindíssimo livro, cujas fotografias procuram fazer jus, não só às paisagens alentejanas, mas também à arquitetura e decoração de interiores deste fantástico enoturismo. A este respeito ainda, realce para o road show que a família Soares começou em janeiro deste ano, precisamente para dar a conhecer o volume da Assouline a seu respeito, passando por Nova Iorque, Palm Beach, Londres, Paris e, claro, Lisboa entre outras cidades do nosso país.

Percurso consolidado

Mas voltemos aos vinhos! Há muito que a enologia é liderada pelo experiente Luís Duarte, que conhece, como ninguém, o Alentejo (onde trabalha há bem mais de 30 anos) e faz dupla como Nuno Gonzalez, enólogo residente na empresa há quase década e meia. Logo no início nasceu a gama de entrada Monte da Peceguina, cuja primeira edição foi em 2003. Atualmente, mantém-se um sucesso nas versões tinto, branco e rosé. Ao mesmo tempo, foi criada uma gama alta, o Malhadinha, nas versões de tinto e branco, com estágio em barrica, que projetavam o produtor para voos mais altos, agora também em versão rosé. Logo na vindima seguinte, em 2004, nasce o primeiro projeto especial, caso do Pequeno João, um vinho intenso, com base na casta Cabernet Sauvignon. Mais tarde, e mantendo sempre designações intrinsecamente familiares, surgiu o Menino António e o MM (iniciais de Mateus Maria) da Malhadinha, que germinaram, respetivamente, nas colheitas de 2008 e 2013.

Durante todo este percurso até hoje, não faltaram vinhos monocasta, brancos e tintos, tanto a partir de castas autóctones, como de castas de outras regiões que se adaptaram ao Alentejo. A este respeito, provámos um branco feito a partir de Manteúdo, da colheita de 2023, um vinho em grande forma e a dar boas indicações do que se pode esperar de novos lançamentos. De tal forma assim o é, que o produtor já plantou três hectares desta casta tradicional, recorrendo ao porta-enxerto antigo, de forma a poder criar um vinho especial no futuro.

Já com uma gama consolidada, precisamente a partir da Herdade da Malhadinha Nova, a família Soares compreendeu que enriqueceria com novos terroirs sem sair da região. Foi o que aconteceu em 2016, com a compra da pequena Courela de Vale Travessos, um vinha velha de 80 anos toda em field blend, e, em 2021, com a aquisição de uma propriedade na Serra de São Mamede, localizada a 700 metros em altitude, também ela com uma vinha em parte em field blendDestes novos terrois, são produzidos, hoje em dia, vinhos diferentes. Os novos topos de gama Marias da Malhadinha provêm de Vale Travessos, enquando a nova gama Teixinha foi criada para enquadrar e divulgar as uvas de Portalegre. A par com os referidos vinhos, e mais recentemente, surgiu ainda um espumante rosé e um Late Harvest. É, em suma, um mosaico de vinhos que vale a pena conhecer e nós tivemos o privilégio de provar alguns dos novos lançamentos.

(Artigo publicado na edição de Fevereiro de 2026)

 

QUINTA DO QUETZAL: A celebração do vinho através da arte

Quinta do Quetzal

A ideia da celebração do vinho através da arte não é nova, mas é sempre de saudar. Pela primeira vez, em 1924 e, mais tarde, a partir de 1945, o ano da Vitória, o icónico Château Mouton – Rothschild comemora a união da arte com o vinho, convidando grandes artistas mundiais a criarem uma obra […]

A ideia da celebração do vinho através da arte não é nova, mas é sempre de saudar. Pela primeira vez, em 1924 e, mais tarde, a partir de 1945, o ano da Vitória, o icónico Château Mouton – Rothschild comemora a união da arte com o vinho, convidando grandes artistas mundiais a criarem uma obra de arte para os rótulos. Francis Bacon, Joan Mirò, Marc Chagall, Salvador Dalì, Pablo Picasso e Andy Warhol, por exemplo, contribuíram para a criação do mito do mais famoso Château de Bordéus. Vietti, em Itália, por seu turno, também veste os seus vinhos com rótulos desenhados por artistas de renome desde 1974. A ideia surgiu à volta de uma garrafa de Barolo Rocche, juntamente com uns amigos. Incrível como os grandes vinhos podem ser inspiradores, não é?

Também os rótulos do produtor siciliano Donnafugata são facilmente identificáveis em qualquer prateleira do mundo, onde belas figuras femininas da Sicília são desenhadas pelo ilustrador Stefano Vitale (Dolce & Gabbana), num estilo miniatura, entre arte naif e linguagem de conto de fadas, e sempre com cores tipicamente sicilianas.

Do mundo para o Alentejo, a Quinta do Quetzal traduz-se num dos produtores nacionais a expressar uma visão muito particular em relação à arte. A propriedade situa-se no coração da região, nas encostas da Vidigueira. Está localizada nas imediações da mais antiga adega romana do Sudoeste da Península Ibérica. O microclima e as colinas criam as condições ideais para um terroir único, contrariando a típica propriedade alentejana. Os solos xistosos, as diferentes exposições solares e altitudes, permitidas pela morfologia em colina, e as áreas plantadas com vinhas velhas, formam uma combinação única num cenário habitual de planície da referida região.

A estética da Vidigueira

Soalheiro e quente, o Alentejo apresenta, por vezes, algumas nuances. O facto de a Quinta do Quetzal estar no sopé Sul da Serra do Mendro beneficia de ventos frescos veiculados por esta extensão montanhosa desde o Oceano Atlântico. Estas condições, que se traduzem em elevadas amplitudes térmicas diárias, dão às plantas o calor que precisam, para amadurecer as uvas, e as temperaturas frescas, para recuperarem. A qualidade, aliada a um trabalho de enologia alicerçado na experiência e no conhecimento profundo de cada planta, que compõe os 52 hectares de vinha, permite produzir vinhos que expressam verdadeiramente o carácter da região.

Como elemento fundamental da experiência Quetzal, foi criado de raiz o edifício, onde estão instalados o restaurante, a loja e o Centro de Arte. O xisto, que reveste as paredes, destaca-se e integra-se simultaneamente com fluidez na paisagem envolvente. Já o espaço circundante foi concebido para incorporar plantas nativas naturais, de modo a maximizar a experiência do habitat natural do Alentejo.

Cees e Inge de Bruin são coleccionadores e patrocinadores de arte contemporânea. Mantêm, há mais de 40 anos, juntamente com a família, uma forte ligação a Portugal. O projecto da Quinta do Quetzal expressa a sua paixão pela cultura, natureza, gastronomia e pelos vinhos portugueses que desejam partilhar. Todos os anos, em colaboração com a filha, Aveline de Bruin, organizam uma nova exposição na propriedade, tendo como ponto de partida o acervo privado da família, a Colecção de Bruin-Heijn, e as ligações ao mundo da arte.

‘Under the Mountain’

Esta ligação à arte transpõe-se para o vinho. A primeira edição do Arte tinto, lançada em 2021, contou com a colaboração da artista Müge Yilmaz, autora de “A Deusa da Colheita”, obra que hoje em dia vive no coração da vinha. Recentemente, a Quinta do Quetzal apresentou a segunda edição do Quetzal Arte tinto 2022, que nasce da parceria com o artista belga Kasper Bosmans. Para desenhar o rótulo desta nova colheita, inspirou-se no mural de sua autoria, intitulado ‘Under the Mountain’ e criado especificamente para a Quinta do Quetzal, o qual é parte integrante e permanente do seu espaço arquitectónico.

O imenso mural site-specific, com camadas de significados ocultos, cores terrosas profundas e inúmeros símbolos, ecoa as colinas e os vinhedos que se vislumbram através das janelas, também elas imensas, da sala do restaurante, funcionando como a representação de uma narrativa histórica imaginária, que vai desde a introdução das vinhas, feita pelos Romanos naquela região, até pormenores da actualidade. Tudo se mistura numa amálgama de significados, antigos e contemporâneos, pessoais e universais, convergindo numa reflexão única e multifacetada sobre a complexidade do mundo. Assim, cada garrafa torna-se uma extensão da sua obra, permitindo-nos trazer para casa um pedaço da criação artística.

Paralelamente, foi também criada uma caixa de coleccionador, edição limitada de apenas 100 exemplares. Esta é constituída por três garrafas do Quinta do Quetzal Arte tinto 2022 e uma serigrafia original inspirada no mural ‘Under the Mountain’ estampada no interior da tampa da caixa, com o respectivo certificado assinado e numerado pelo artista. “Cada vinho é uma interpretação distinta da Vidigueira, onde a frescura, a precisão e a estética se combinam para criar vinhos genuínos, elegantes e de carácter moderno. Os vinhos Arte são o reflexo do território através do olhar da arte, vinhos que se distinguem pela harmonia, subtileza e autenticidade, que revelam o Alentejo de hoje”, declara Reto Jörg, administrador da Quinta do Quetzal.

Fernando Pessoa disse um dia: “a arte descreve as coisas como são sentidas, como se sente que são’.

Se pararmos e pensarmos um pouco, talvez toda esta ligação umbilical entre arte e vinho, com representação física na Quinta do Quetzal, e estas edições Arte, sejam, precisamente, a maneira como a família de Bruin sente a Vidigueira, o Alentejo, Portugal e o mundo. Se calhar, é mesmo!

(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2026)

 

ADEGAMÃE: Três brancos para celebrar 15 anos

AdegaMãe

Diogo Lopes, enólogo, e Bernardo Alves, proprietário e Director-Geral, depressa se deram conta, no entanto, que aquele terroir de Torres Vedras, favorecido pelos ventos húmidos do Atlântico, reunia condições únicas para a produção de grandes vinhos brancos e a mudança de rumo não tardou a fazer-se. Não que a empresa tenha desistido de produzir vinhos […]

Diogo Lopes, enólogo, e Bernardo Alves, proprietário e Director-Geral, depressa se deram conta, no entanto, que aquele terroir de Torres Vedras, favorecido pelos ventos húmidos do Atlântico, reunia condições únicas para a produção de grandes vinhos brancos e a mudança de rumo não tardou a fazer-se. Não que a empresa tenha desistido de produzir vinhos tintos, mas encontrou outros terrenos para o fazer do outro lado da serra de Montejunto, perto de Alenquer, que protege a vinha da excessiva influência marítima e permite colher uvas mais maduras e conseguir tintos com maior concentração.

Passada essa aprendizagem inicial, por volta do ano 2010, construída a bonita e funcional adega, a empresa concentrou-se na produção de brancos. Não se estranha, por isso, que, para comemorar a marca histórica de 15 anos de actividade, com a devida pompa e circunstância, a AdegaMãe tenha resolvido fazê-lo com o lançamento de três brancos, dois dos quais absolutas novidades que ampliam o portefólio da casa.

Isso mesmo foi reconhecido por Bernardo Alves: “este lançamento simboliza o amadurecimento natural de um sonho familiar. Quinze anos depois, conseguimos unir rigor técnico, identidade e emoção num vinho que representa o melhor do nosso percurso e aquilo que queremos continuar a construir.” Estas palavras antecipavam a surpresa maior que estava reservada aos jornalistas e parceiros convocados para o almoço de apresentação no restaurante Kabuki. Diga-se de passagem, que a escolha do local não foi inocente, já que os vinhos provados, comprovaram a especial apetência para harmonizações com cozinhas de inspiração oriental, como era o caso.

O AdegaMãe branco Especial, é desse que falamos, é um projecto ambicioso e singular. Não apresenta ano de colheita e resulta da combinação de barricas consideradas excepcionais, com vinhos de várias vindimas tidas como exemplares. Diogo Lopes, mestre na arte de lotear, considerou os brancos das colheitas de 2017, 2019, 2020 e 2021para criar este vinho, cuja produção encheu as pouco mais de 1000 garrafas que compõem a primeira versão desta nova referência. “O branco Especial é a consolidação de tudo o que aprendemos sobre a arte do blend e sobre a evolução dos nossos brancos atlânticos. Só é possível fazer um vinho destes com colheitas únicas e… com muita paciência”, confessou Diogo Lopes, rematando com a seguinte frase: “O tempo é o grande protagonista deste projecto”. Revelador de um acentuado carácter e grande profundidade, este branco Especial teve origem em vinhos longamente estagiados em barricas de carvalho francês de 400 litros, cuidadosamente seleccionadas, alguns dos quais por mais de cinco anos. Por essa razão, o lote apresenta um perfil evolutivo a que não falta uma grande nobreza.

A par com este novo topo de gama da casa, a ocasião serviu anda para apresentar mais dois brancos que reforçam a expressão atlântica da AdegaMãe. Foi o caso do AdegaMãe Terroir branco 2018, produzido a partir das castas Viosinho e Arinto, resultante de um ano de estágio em barrica e de cinco em garrafa. Na linha de edições anteriores, mantém o perfil aromático acentuadamente mineral e de grande complexidade. A influência atlântica nota-se sobretudo na frescura, mercê de uma acidez vibrante a que não falta elegância e equilíbrio.

Novidade foi também o lançamento de um novo vinho varietal da AdegaMãe. Depois das bem-sucedidas experiências com as variedades Viosinho e Riesling, é agora colocado no mercado a primeira edição feita a partir da casta Gouveio, da colheita de 2024. Este vinho nasce de uma vinha experimental, onde são observadas diversas castas e onde esta variedade revelou aptidões que convenceram os responsáveis da AdegaMâe a lançá-la a solo. Totalmente fermentado em inox, esteve sujeito a batonnage durante seis meses. Em boa hora o disponibiliza ao consumidor, porque o vinho revelou-se muito versátil, com grande valia gastronómica ao harmonizar com pratos de sushi e mariscos. De edição limitada, este Gouveio 2024 apenas está disponível na loja da AdegaMãe ou na loja digital.

Com o rumo bem definido, estas novas referências comprovam o compromisso da AdegaMãe em aprofundar e respeitar a identidade atlântica.

(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2026)

 

QUINTA DOS LOIVOS: A promessa de uma nova estrela no Douro

Loivos

Se a isso juntarmos a ambição de ali, em Casal dos Loivos, erguer-se, em breve, uma adega e, a partir de Abril, um restaurante de referência com assinatura de um chefe com pergaminhos, de nome Vitor Adão, a que se seguirá, mais tarde, um hotel de charme, ficamos com a ideia que vontade e ambição […]

Se a isso juntarmos a ambição de ali, em Casal dos Loivos, erguer-se, em breve, uma adega e, a partir de Abril, um restaurante de referência com assinatura de um chefe com pergaminhos, de nome Vitor Adão, a que se seguirá, mais tarde, um hotel de charme, ficamos com a ideia que vontade e ambição não faltarão para ali estar, a breve prazo, um dos spots mais mediáticos do Douro. Esta é afinal uma pequena jóia com capitais brasileiros, por um lado, e a criatividade portuguesa, por outro, alicerçada numa meia dúzia de profissionais com provas dadas na região, tornaram possível concretizar em relativamente pouco tempo – foi há poucos meses que comecei a ouvir a experiente Ana Mota falar, com um entusiasmo de menina, sobre o novo projecto em que mergulhou de corpo inteiro.

Hoje, como directora de operações e responsável pela viticultura da Quinta dos Loivos, de 12 hectares, dos quais sete são vinha, sente-se no brilho dos seus olhos o quanto esta tarefa a entusiasma: “É um desafio apaixonante, um investimento de enorme qualidade, único e cativante.” Não está sozinha. Jorge Alves, enólogo consultor, volta a trabalhar na mesma equipa e partilha do entusiasmo: “A Quinta dos Loivos é um projecto emblemático. A altitude, o xisto, o microclima, tudo se junta para criar vinhos únicos.” Jorge Alves conta com o apoio de Adriana Covas, na função de enóloga residente. Por trás, tiveram a vasta experiência no Douro de Bruno Simões, como Business Developer, que concebeu o projecto e resumiu num parágrafo aquilo que o cativou: “A paisagem da Quinta dos Loivos é inigualável – uma visão circular sobre o Douro, onde o rio se revela em três direcções. Do ponto mais alto, junto a um antigo marco militar, vemos seis ou sete concelhos e sentimos o Douro em toda a sua dimensão.”

Produções limitadas

Na mente dos responsáveis, conforme foi insistentemente referido, esteve sempre a preocupação na conservação do riquíssimo património natural que a propriedade usufrui. Neste sentido, uma das grandes mais-valias da Quinta dos Loivos são as vinhas velhas, algumas delas centenárias, plantadas em solos de xisto muito duro e com grande inclinação, que obrigaram a um paciente e demorado trabalho de identificação das castas, operação que contou com a colaboração do viticultor António Magalhães. O resultado desta pesquisa foi surpreendente, na medida em que foram identificadas 74 variedades, o que dá bem a ideia do potencial que a propriedade encerra.

Os vinhos que foram dados a provar à imprensa especializada nesta primeira apresentação, decorrida no restaurante Plano, em Lisboa, dão algumas pistas sobre o que se pode esperar no futuro. Ainda com produções muito limitadas e com recurso a uvas compradas à produção, no caso dos vinhos de entrada de gama, nota-se o fio condutor que norteia o projecto. A marca Venera, constituída por seis vinhos com as gamas Colheita, Reserva e Grande Reserva compreendem as versões branco, rosé e tinto, e chegam ao mercado com uma tipologia de preços bem definida: cerca de 13€ para os Colheita, 30€ para os Reserva, e 40€ para os Grande Reserva.

Já os três vinhos apresentados com a chancela Quinta dos Loivos são produzidos exclusivamente a partir de vinhas próprias, em quantidades muito limitadas (na ordem das centenas de garrafas) e obedecem a um critério curioso e pouco frequente: são lotes feitos, não tanto a partir das suas castas – quase sempre vinhas velhas com variedades misturadas –, mas a partir da orientação solar das várias parcelas da quinta. Assim temos o Loivos Nascente, elaborado com uvas vindimadas nas vinhas voltadas para Leste; o Loivos Poente, de uvas colhidas nas vinhas viradas a Oeste; e o Loivos Sul, onde as vinhas acabam por ter o maior tempo de exposição solar. Esta opção reflecte-se necessariamente no perfil dos vinhos, embora o padrão qualitativo, muito alto, diga-se, não registe alterações significativas.

A expectativa criada é grande e será, por certo, interessante verificar até que ponto, no futuro, com a produção dos vinhos a entrar em modo standard, a qualidade agora apresentada se manterá quando as quantidades produzidas forem substancialmente aumentadas. Arrojo, competência e recursos não faltam para atingir esse desiderato.

 

Os três vinhos com a chancela Quinta dos Loivos são produzidos exclusivamente a partir de vinhas próprias e em quantidades muito limitadas

 Loivos

(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2026)

 

 

QUINTA DA FONTE SOUTO: A descoberta dos brancos

Fonte Souto

A viagem da Symington Family Estates – profundamente enraizada no Douro – para o Alentejo levou 135 anos, e não foi em vão. Numa estratégia de diversificação regional, a zona de Portalegre não foi escolhida por acaso. É aquele Alentejo que, contrariando o nosso imaginário colectivo, fica a norte de Lisboa. Está bem mais perto […]

A viagem da Symington Family Estates – profundamente enraizada no Douro – para o Alentejo levou 135 anos, e não foi em vão. Numa estratégia de diversificação regional, a zona de Portalegre não foi escolhida por acaso. É aquele Alentejo que, contrariando o nosso imaginário colectivo, fica a norte de Lisboa. Está bem mais perto de Espanha do que da costa, onde a continentalidade do clima aliada à altitude, entre os 490 e os 550 metros, providenciam uma frescura natural e maior amplitude térmica, mas sem ondas de calor superior a 45° C. As noites bem frescas, mesmo no verão, promovem uma maturação mais lenta e homogénea. “Isto permite esperar pelas uvas e, logo na vinha, fazer uma selecção através de várias passagens”, explica Ricardo Constantino, o enólogo residente da propriedade.

A Symington Family Estates adquiriu a propriedade a João Lourenço (outrora Altas Quintas), em 2017. O negócio incidiu apenas sobre a quinta e a vinha, sem marca nem stock de vinhos. À data da aquisição, dos cerca de 200 hectares da propriedade, 41 eram ocupados por vinha, maioritariamente com castas tintas, sendo apenas 2,5 hectares dedicados a variedades brancas (6% de plantação). “Comprámos esta quinta para [vinhos] tintos. Os brancos foram uma descoberta”, conta Rupert Symington, Presidente da empresa. Assim, os vinhos brancos deixaram de ser vistos apenas como um complemento do portefólio e, hoje, assumem um papel imprescindível na identidade da marca. Logicamente, tornou-se essencial aumentar a presença de castas brancas no encepamento. Entre novas plantações e sobreenxertia, a área dedicada a estas variedades atingiu os 15 hectares, correspondendo a 28% da vinha, composta por Verdelho, Arinto, Gouveio, Alvarinho e Bical, a par com duas internacionais: Viognier e Chardonnay. Nas castas tintas, contam com Syrah, Trincadeira, Alicante Bouschet, Alfrocheiro, Aragonez, Touriga Nacional, Grand Noir, Castelão, uma pequena área de 0,75 hectares com mistura de castas e ainda um pouco de Pinot Noir e de Monvedre. Esta última é uma casta do Dão, mas, em Portalegre, é conhecida como Tinta de Olho Branco, porque na altura de rebentação tem escamas brancas. “É muito ácida, tânica e rústica”, nota Ricardo Constantino.

Vindimam manualmente, uma vez que em Portalegre ainda é possível arranjar mão de obra. Praticam, desde o verão passado, a vindima noturna, o que permite que a uva chegue fresca à adega, dispensando o recurso à refrigeração e reduzindo o consumo energético. Por sua vez, a adega exigiu uma intervenção profunda. O telhado teve que ser reparado, pois “chovia dentro como se fosse na rua”, recorda Charles Symington, Director de Produção da empresa. Sem grande confiança no histórico dos balseiros existentes, optou-se pela sua substituição por cubas de inox. A zona de receção foi ampliada, no sentido de favorecer uma gestão mais cuidada da vindima. Foi recuperada a antiga adega com talhas. Contudo, para já, funciona apenas como um pequeno museu em homenagem à história da quinta e da região. Como refere o enólogo residente, na zona de Marvão ainda subsiste a tradição de se fazer vinho de talha, acção localmente conhecida como “fazer vinho em pote”.

As dificuldades e “surpresas” iniciais estão a ser ultrapassadas ao mesmo ritmo que se comprova o potencial do lugar e a qualidade dos vinhos. Para a Symington, a Quinta da Fonte Souto representa o investimento a longo prazo, um compromisso estratégico inscrito numa visão de futuro. “Não viemos cá para uns anos. Viemos para ficar muitos anos”, afirma Charles.

Mini-vertical

O Quinta da Fonte Souto branco resulta sempre de uma aliança entre Arinto, que representa cerca de 75% do lote, e Verdelho. Uma pequena prova vertical demostrou dois aspectos: a variação natural de cada colheita, própria de vinhos que procuram expressar o ano vitícola, e o processo de aprendizagem sobre as castas, as condições da Serra de São Mamede e da consequente adaptação da abordagem enológica. Na vindima inaugural de 2017, usou-se naturalmente mais barrica nova de 500 litros; em 2018 já houve barricas de segundo uso; e, em 2019 e 2023, utilizaram-se barricas de segundo e terceiro ano, com 10% e 15% do vinho, respectivamente, a estagiar em inox para preservar a frescura varietal. Também ficou claro que, no caso da casta Verdelho, determinados níveis de tosta não funcionam.

O Quinta da Fonte Souto 2017 resultou de um ano quente. “As maturações evoluíram rapidamente. Tivemos de fazer o jogo de cintura e tivemos muito menor área de brancos, na altura. Porém, mesmo assim, o resultado agradou muito e mostrou o potencial: volume, textura e frescura”, garante Charles Symington. O vinho revelou nariz com complexidade de evolução, repleto de laranja doce, tosta, especiaria, ervas aromáticas e mel; revela-se suculento, cremoso, com volume, frescura natural e leve amargo. (17)

A vindima de 2018 começou tardíssimo, devido a uma vaga de calor que atrasou o processo de maturação. “Só começámos vindimar a 12 de Setembro e terminámos em 19 de Outubro”, conta Pedro Correia, o enólogo da empresa. Dourado na cor, com aroma mais fresco, a lembrar ananás, laranja, leve flor de laranjeira, hortelã e gengíbre. Um pouco menos complexo na boca, madeira mais discreta, textura amanteigada e final salivante. (17)

Já o Quinta da Fonte Souto 2019 foi o fruto do ano ameno, com elevadas amplitudes térmicas durante os meses mais quentes e produções relativamente baixas. Uma particularidade: o vinho apresenta mais de 14% de teor alcoólico o que, na prova, não comprometeu a frescura. Novamente, sente-se a influência do ano: a videira fotossintetiza permanentemente durante o dia, mas, com noites frias, a acidez não cai tão depressa e a uva acaba por acumular bastante açúcar. Madeira menos evidente, notável complexidade com destaque para os citrinos, como laranja e tangerina, alperce e ananás; tudo muito afinado na boca. (17,5)

Segundo o enólogo residente, no ano 2023 a vindima foi muito precoce e longa. Decorreu de 7 de Agosto a 13 de Outubro. Tiveram uma semana de paragem devido à chuva e registaram um mês de diferença na maturação entre as parcelas de Arinto. Neste ano, entrou mais Verdelho no lote (35%). Ainda é muito jovem em comparação com os vinhos anteriores. Mostra-se citrino e mais vegetal, com folhas verdes, especiaria e cominhos; denso, com acidez presente e novamente a confirmar o componente vegetal, bem integrado no perfil. (17,5)

A produção do Quinta da Fonte Souto branco triplicou desde a primeira vindima em 2017, com cerca de 8.000 garrafas para aproximadamente 24.000 garrafas.

 

“Comprámos esta quinta para tintos. Os brancos foram uma descoberta”, afirma Rupert Symington

 

Ensaios de tintos

Provámos expressões monovarietais de duas castas, ambas de carácter vincado, embora manifestem comportamentos diametralmente opostos. Se o Alicante Bouschet é consistente e fiável na entrega de qualidade, o Alfrocheiro revela-se mais exigente e sensível, não tolerando bem a chuva. Como observa Pedro Correia, “nem sempre as condições se reúnem, mas quando isso acontece, dá um grande vinho”, como ficou demonstrado na prova a seguir.

Do Quinta da Fonte Souto Alicante Bouschet 2018 foram produzidas 6.267 garrafas e o vinho ainda se encontra disponível no mercado, com um PVP de €30. É uma expressão do ano mais tardio, quando era preciso esperar pelas maturações. Estágio em barricas de segundo ano, para preservar aromas varietais, escuro e opaco, groselha preta esmagada e macerada, casca de árvore fresca e vegetal doce. Cheio, denso, musculado e um pouco amargo no final a lembrar azeitona preta. (17,5)

Do Quinta da Fonte Souto Alfrocheiro 2019 foram produzidas 6.211 garrafas e esta referência está completamente esgotada (resta esperar quando as condições se reúnem novamente). Fragrante, atraente, intrigante; nuance floral bonita, cereja e ameixa, aneto e eucalipto, louro, mentol e caruma; suculento e envolvente, com fruta pura, mas também com complexidade, sedoso e sedutor. (18).

Fizeram também um Field Blend em 2020 e um monovarietal de Syrah em 2021, que ainda não se encontram em comercialização. Fica o teaser.

Taifa 2022 

Esta é a terceira edição. A primeira foi um monovarietal de Arinto, vinificado 100% em barrica nova. Este lote de 2022 combina 70% de Arinto com 30% de Verdelho, demonstrando uma notável sinergia entre as castas. Fruto de uma vindima minuciosa, realizada em várias passagens pelas mesmas parcelas, o vinho fermentou em barrica, com uma menor proporção de madeira nova (70%), de modo a realçar a fruta e conferir maior equilíbrio. Estagiou um ano em barricas de carvalho francês e húngaro e dois anos em garrafa, o que explica a sua óptima integração no momento do lançamento. Foram produzidas 3.215 garrafas e 15 em Magnum.

(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2026)

 

QUINTA DONA SANCHA: Vinho frescos e sedutores

dona sancha

A Quinta Dona Sancha apresentou num almoço, que decorreu no restaurante Pabe, em Lisboa, seis referências de vinho, de três gamas diferentes, entre as quais estiveram presentes as novas colheitas da gama Avarenta tinto e branco, o Quinta Dona Sancha Encruzado e Touriga Nacional. O Vinha Ancestral tinto de 2019 e o monocasta de Jaen […]

A Quinta Dona Sancha apresentou num almoço, que decorreu no restaurante Pabe, em Lisboa, seis referências de vinho, de três gamas diferentes, entre as quais estiveram presentes as novas colheitas da gama Avarenta tinto e branco, o Quinta Dona Sancha Encruzado e Touriga Nacional. O Vinha Ancestral tinto de 2019 e o monocasta de Jaen de 2022 foram as duas novidades absolutas.

Rui Parente, o produtor da Quinta Dona Sancha, defende que os seus vinhos já demonstram hoje uma matriz de sabores e aromas que os diferenciam

 

Pensados ao detalhe

Segundo Rui Parente, fundador do projecto e proprietário da Quinta Dona Sancha, os vinhos apresentados “foram pensados ao detalhe, para despertar lembranças e emoções”, expressando “a identidade que procuram afirmar, desde a primeira vindima”, o terroir de Silgueiros, da região do Dão. O enólogo Paulo Nunes tem sido o consultor da empresa desde o primeiro dia, contribuindo, com o seu conhecimento, e saber fazer, para a produção e comercialização de vinhos, com a frescura e elegância que os caracteriza. Rui Parente, que já o conhecia há muitos anos, ainda antes de se dedicar à produção de vinhos, já tinha encetado conversações, para que se envolvesse neste projecto antes de o iniciar.

O objectivo, desde o início, foi procurar fazer vinhos com identidade, marcados pelas características que diferenciam o terroir de Silgueiros e do Dão, “acreditando que havia espaço para colocar a região na rota do sucesso, o lugar que um território com pergaminhos históricos na produção de vinho de qualidade merece”, defendeu Rui Parente no dia do lançamento, salientando que, à sexta vindima, a empresa mostra que é uma empresa representativa daquilo que é a sub-região de Silgueiros, a quinta e o terroir. “Acabámos de os provar e a identidade da quinta nota-se em todos os vinhos”, salientou, com algum orgulho, nesse dia, defendendo que mostram “uma matriz que identifica o projecto, o que tem sido o meu objectivo de médio e longo prazo desde o primeiro dia”.

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Paulo Nunes, enólogo consultor da empresa

50 hectares de vinha

A Quinta Dona Sancha nasceu de um sonho de Rui Parente. Os pais produziam vinhos para terceiros, sem marca, mas o empresário teve sempre esse desejo de criar um projecto próprio na Região do Dão. Talvez tenha sido essa a finalidade de iniciar o percurso no sector ainda muito jovem, lançando-se por conta própria em 2011, quando criou o seu negócio, a Cave Lusa, em Viseu, que inclui uma garrafeira e uma empresa distribuidora de vinhos.

A oportunidade de se estrear na produção surgiu em 2018, com a compra de duas propriedades que constituem, hoje, a Quinta Dona Sancha, uma referência na região do Dão situada a 12 quilómetros de Viseu, com cerca de 47 hectares de vinha e um portefólio reconhecido pela autenticidade e pela elegância dos seus vinhos.

(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2026)

SOGRAPE: Mudança dentro da tradição

Sogrape

Da ligação à região e das profundas mudanças ocorridas… No ano de 1972, deu-se a criação do projeto e, com ele, foram justapostas apenas três letras que representam as iniciais das três províncias que constituem a denominação de origem da Rioja: Logronho, Álava e Navarra (LAN). Naquela época, a Rioja assumia-se como uma zona vínica […]

Da ligação à região e das profundas mudanças ocorridas…

No ano de 1972, deu-se a criação do projeto e, com ele, foram justapostas apenas três letras que representam as iniciais das três províncias que constituem a denominação de origem da Rioja: Logronho, Álava e Navarra (LAN). Naquela época, a Rioja assumia-se como uma zona vínica de luxo controlada por um monopólio de empresas históricas assumidamente voltadas, quase exclusivamente, para os escaparates nacionais, sonhando com uma internacionalização de sucesso.

A impressão digital de então a respeito da região estava, por um lado, ligada a empresas que detinham vários andares de barricas obscurecidas pelo lento passar do tempo, nas quais envelheciam o vinho. Por outro lado, perfilava-se uma longa fileira de pequenos produtores com adegas subterrâneas constituídas, grosso modo, por um enorme tonel de envelhecimento, vários depósitos de cimento e uma estreita passagem de acesso. Era o tempo em que a maioria dos engarrafadores detinha uma pequena quantidade de vinha própria, pois era mais rentável comprar vinho às cooperativas ou aos pequenos viticultores, loteando posteriormente com vinhos que poderiam provir das três sub-regiões entretanto criadas.

A LAN adotou o princípio básico de que a vinicultura começa com o cultivo da vinha, conceito inovador na altura que se traduziu num firme compromisso com as vinhas e com o sucesso do projeto.

… até às mudanças atuais

O sucesso alcançado dentro de portas não passou despercebido no nosso país, o que levou à aquisição da Bodegas LAN em 2012, pela Sogrape. Desde então, o projeto foi reformulado tendo em vista o alinhamento com as mais recentes tendências de mercado, sem nunca perder a essência da tradição da região. A cambiante mais recente da LAN passou pela alteração da rotulagem de praticamente toda a gama. Como referiu a responsável pela marca em território nacional, “o rótulo surge agora mais limpo e surpreendente nos escaparates. Tratou-se de um exercício focado em entender o consumidor e criar vínculos emocionais baseados no quotidiano geradores de satisfação e empatia entre a marca e as pessoas”.

O projeto congrega 72 hectares de vinhedos abraçados pelo rio Ebro, nos arredores de Fuenmayor, uma zona de excelência na produção de vinhos. A extensa oferta do projeto LAN totaliza cerca de quatro milhões de garrafas e é composta por várias referências, que compreendem um rosé, um branco e sete vinhos tintos, no qual se destaca o topo de gama (Culmen) bastante apreciado pelos consumidores.

Para a apresentação dos vinhos da Bodegas LAN, o local escolhido recaiu sobre o bar de vinhos By The Wine, espaço cosmopolita e descontraído na baixa da cidade do Porto. Na carta vínica, consta toda a gama de vinhos da Sogrape, incluindo as marcas das propriedades desta empresa familiar, que estão espalhadas pelo mundo.

Sogrape

(Artigo publicado na edição de Dezembro de 2025)