QUINTA DA LAGOALVA: Vinhos de Verão em alta

Lagoalva

As apresentações de novos vinhos vão ajudando a descobrir uma Lisboa antiga, que se renova por dentro. Antigos palácios e palacetes, outrora decadentes e, acima de tudo, escondidos pela teia de vielas que rendilham as encostas da cidade vão, pouco a pouco, sendo descobertos pelos tecelões do Portugal is so nice e ‘ressuscitados’ em hotéis […]

As apresentações de novos vinhos vão ajudando a descobrir uma Lisboa antiga, que se renova por dentro. Antigos palácios e palacetes, outrora decadentes e, acima de tudo, escondidos pela teia de vielas que rendilham as encostas da cidade vão, pouco a pouco, sendo descobertos pelos tecelões do Portugal is so nice e ‘ressuscitados’ em hotéis chiques, com rooftops sensacionais a oferecer a vista para as colinas e com pequenos jardins, onde bares e cadeirões proporcionam a vida glamourosa das férias.

Foi num ambiente assim, no Hotel The One Palácio da Anunciada, na rua das Portas de Santo Antão, que a Quinta da Lagoalva de Cima apresentou algumas das suas novidades para o Verão de 2026. Pedro Pinhão, administrador com o pelouro da enologia, trouxe parte da sua equipa, para alguns momentos descontraídos, acompanhados por finger food saborosa para os presentes debicarem ao longo de uma tarde agradável, onde o calor do sol era modulado por uma brisa suave e por sombras da tarde que, lentamente, cobriam o jardim.

Segundo Pedro Pinhão, os vinhos de 2025 são mais elegantes e frescos do que os correspondentes a 2024. Já há anos que os Lagoalvas, em especial nas suas gamas de entrada, mostram uma saudável contenção alcoólica. Muitos vinhos estão nos 12% ou apresentam um teor alcoólico bastante menor, o que os torna uma opção sensata para o a época de veraneio, quando queremos vinhos refrescantes que não castiguem pelo peso a opção por um segundo copo.

 Lagoalva
Os enólogos Pedro Pinhão e Luís Paulino

 

 

Bolhas e nova edição de Alfrocheiro

As novidades no campo das bolhas também são muito relevantes. O Pét Nat é muito limpo. É o que eu chamo de Pét Nat de enólogo, pois não deixa que os ‘aromas-off’ tomem conta do vinho. Simples, vivo, refrescante, mas sempre muito focado, é o que se espera de uma boa companhia à mesa ou para desfrutar em modo cocktail.

Mas a grande surpresa veio do espumante Lagoalva Reserva, com quatro quintos de Arinto e o um quinto de Alfrocheiro. Nada distingue no rótulo este novo lançamento dos anteriores, embora a marca ‘L-081241’ na garrafa o permita distinguir. Este é todo da colheita de 2023 e é sensacional. Consegue o raro milagre de equilibrar uma fruta cítrica jovem com suaves tostados do estágio em garrafa, a puxar para o estilo do Norte de França. Ainda por cima, com um preço muito comedido. Recomendo-o sem hesitar!

Finalmente, destaque para a nova edição do Alfrocheiro de 2024 de produção biológica. Alfrocheiro é sempre uma casta rara, com incidências no Dão e no Alentejo. No entanto, esta vinha já adulta vai alimentando o tinto topo de gama da casa em modo lote, entra no espumante o qual mencionei acima, aparece em lote com Syrah e ainda em modo estreme neste Grande Reserva, que agora é biológico. A beleza desta casta tinta é esta leveza e alegria.

(Artigo publicado na edição de Agosto de 2026)

KOPKE GROUP: 2024, a doce subtileza de um ano Clássico

Kopke

Os novos Vintage, com a chancela Kopke e Burmester, foram apresentados na Kopke Wine House, localizada na ribeira de Vila Nova de Gaia, paredes meias com a Calém, igualmente detida pelo grupo de Juan Carlos Escotet, a Kopke Group. Como anfitriões, tivemos Carlos Alves, diretor de enologia e viticultura, e Márcio Nóbrega, responsável pela viticultura, […]

Os novos Vintage, com a chancela Kopke e Burmester, foram apresentados na Kopke Wine House, localizada na ribeira de Vila Nova de Gaia, paredes meias com a Calém, igualmente detida pelo grupo de Juan Carlos Escotet, a Kopke Group. Como anfitriões, tivemos Carlos Alves, diretor de enologia e viticultura, e Márcio Nóbrega, responsável pela viticultura, sob o olhar atento de Carla Tiago, enóloga dos vinhos do Porto.

A excecionalidade de 2024 resultou, e muito, da especificidade do ano vitícola, clássico em todos os sentidos no território duriense. O inverno caracterizou-se pela pluviosidade abundante; a primavera manteve a presença de algumas chuvas, mas foi o período que mediou entre o início de agosto e a vindima que determinou a singularidade deste ciclo – noites mais frescas que o habitual e uma maturação de puro equilíbrio. A partir de março de 2026, as declarações de um ano Vintage começaram a surgir, revelando, ao mercado, que, após um longo hiato, os grandes clássicos estavam de volta e, por maioria de razão, 2024 havia produzido a exemplaridade deste século.

Com o propósito de contextualizar e comparar com as edições de 2011, 2016 e 2017 da Kopke e Burmester, decorreu uma prova que veio a adjuvar e reforçar a singeleza desta dupla de Vintage. Para Carlos Alves, em termos climáticos, 2024 teve algumas semelhanças com 2021, ainda que 2024 tenham vingado noites amplamente mais frescas e um verão mais comedido. Se falarmos de prova, o diretor de enologia da Kopke elege o polémico ano de 2015, que o setor decidiu não considerar ano vintage, provavelmente pela menor estrutura – mas muito elevada elegância – dos vinhos. Por curiosidade, na Kopke, tendencialmente, aliam-se os anos vintage ao comportamento de excelência da Touriga Francesa. E 2024 cumpriu essa premissa, cumprindo esta casta tinta a sua missão definidora dos lotes dos vinhos aptos à designação vintage.

 

A excecionalidade de 2024 resultou, e muito, da especificidade do ano vitícola, clássico em todos os sentidos no território duriense

Kopke
Carlos Alves

O universo territorial do grupo

As quintas da Kopke constam nas três sub-regiões do Douro: a Quinta do Bairro, no Baixo Corgo, com 25 hectares e cada vez mais vocacionada para as castas brancas; a Quinta da Boavista e a Quinta de São Luiz, no Cima Corgo; e a Quinta do Arnozelo, no Douro Superior. No conjunto, são 250 hectares de vinha, ainda insuficientes para as necessidades de vinificação, motivo pelo qual existem protocolos duradouros de fornecimento de uva com cerca de 300 viticultores.

A Quinta do Arnozelo é a propriedade com maior área, possuindo 95 hectares de vinha, cabendo a restante paisagem ao amendoal, ao olival e às laranjeiras. É daqui que nascem os vinhos Burmester. Plantada nos anos 90 do século XX, tem como encepamento dominante a Touriga Francesa e a Touriga Nacional. Entretanto, na reconversão realizada em 2010, a Alicante Bouschet passa a conquistar maior área à custa da diminuição da Tinta Roriz. A Sousão também tem vindo a ganhar maior destaque e, numa perspetiva experimental, têm-se plantado variedades brancas, preferencialmente nas cotas altas, onde a temperatura é mais baixa.

Não obstante a exposição maioritariamente a este e norte, com declives menos pronunciados, as elevadas temperaturas são uma constante no verão, fator que se reflete no perfil dos vinhos do Porto e nos tranquilos. A vinificação é feita a partir de uva colhida parcela a parcela, definindo-se a vindima de acordo com o destino da uva, ou seja, se é para Porto ou vinhos DOC. O rigor é comprovado pelo registo exaustivo das datas, pela natureza dos trabalhos, pelo rendimento de cada parcela, pelo rumo das uvas e pela monitorização de quem executa cada ação. Esta compilação de dados permite não apenas criar um histórico detalhado de cada parcela, mas também definir os procedimentos de colheitas futuras de um modo mais exato.

 

Os 250 hectares de vinha são insuficientes, motivo pelo qual existem protocolos duradouros de fornecimento de uva com cerca de 300 viticultores

 

Por seu turno, os vinhos do Porto com a chancela Kopke, são oriundos da Quinta de São Luiz, situada no Cima Corgo, resultante da junção de cinco quintas, que, no seu tudo, favorecem da exposição maioritariamente virada a norte. Amplamente recortada, quase totalmente ocupada com vinha e dada a sua centralidade, e bons acessos, esta propriedade é o epicentro do desenvolvimento de vários estudos, alguns deles de âmbito internacional, designadamente referentes ao solo e à condução das plantas. O campo experimental foi delineado em 2016, privilegiando o estudo de castas semi extintas ou com atual pouca expressividade no Douro, designadamente as que foram descobertas e catalogadas nas vinhas velhas.

A nova filosofia implementada na Kopke é diametralmente distinta da tendência vigente de afunilamento das opções de castas para a vinificação. De modo a promover uma crescente diversidade, o grupo aposta em experiências centradas em microvinificações, para melhor compreender o potencial das castas a incluir em lotes futuros, promovendo a diversidade ao invés de uma quase uniformização do perfil dos vinhos. Carlos Alves insiste na necessidade de preservação de um património genético de diversidade de castas ainda existente no Douro. Na verdade, muitas destas variedades foram esquecidas e rejeitadas em estudos vitícolas realizados nos anos 80, cujo foco estava apenas em cinco castas, o que causou, em muitos casos, no quase desaparecimento de muitas variedades ancestrais, as quais estão, agora, em processo de recuperação.

As próprias alterações climáticas absolutamente inegáveis obrigam a repensar o encepamento, precavendo o futuro no que à produção de Vinho do Porto diz respeito, dando maior relevância às castas que aportam acidez aos vinhos, tão necessária numa região onde imperam variedades com rápida degradação dos ácidos por força das temperaturas cada vez mais elevadas.

O ano Vintage da Burmester e da Kopke

Os vinhos do Porto Burmester exibem uma marca identitária muito própria, que não é alheia à sua origem no Douro Superior. Se até há alguns anos imperava a trilogia Touriga Nacional, Touriga Francesa e Tinta Roriz, entretanto, passou a entrar na equação a, cada vez mais plantada no Douro, Alicante Bouschet, a conferir-lhe mais corpo e concentração. De um modo geral, os Burmester caracterizam-se pelas intensas notas florais e muita concentração de cor, com fruta já bastante compotada.

 

O grupo aposta em experiências centradas em microvinificações, para promover a diversidade ao invés de uma quase uniformização do perfil dos vinhos

 

No Kopke Vintage 2024, há toda uma outra singularidade, decorrente de dois fatores essenciais: a maior frescura da sub-região do Cima Corgo, aliada às características do ano vitícola, e a presença de vinha velha em 75% do lote. O perfil é mais profundo, ainda em contenção aromática, mas com uma exibição de perfeição espantosa, resultante dos múltiplos cuidados inerentes a uma vindima feita por etapas na vinha velha, de modo a colher cada uva no seu mais completo e equilibrado estado de maturação.

Há uma unanimidade perfeitamente justificável na declaração de 2024. Os vinhos, tão jovens e cheios de vida, são notáveis no presente e auguram um enobrecimento em garrafa que lhe perspetiva provas de sonho.

(Artigo publicado na edição de Agosto de 2026)

 

FLADGATE FAMILY WINES: Finalmente, 2024 trouxe tudo de bom

Fladgate

“Foi uma vindima de paciência”, diz-nos David Guimaraens, chefe de enologia da Fladgate Family Wines, agora a completar 40 vindimas no Douro. O porquê da paciência vem de seguida: muita água disponível no solo derivado ao inverno chuvoso de 2023/24; depois, de 2 de Junho até à vindima não voltou a chover e, apesar dos […]

“Foi uma vindima de paciência”, diz-nos David Guimaraens, chefe de enologia da Fladgate Family Wines, agora a completar 40 vindimas no Douro. O porquê da paciência vem de seguida: muita água disponível no solo derivado ao inverno chuvoso de 2023/24; depois, de 2 de Junho até à vindima não voltou a chover e, apesar dos calores de Junho e Julho, as vinhas estavam viçosas.

Neste jogo, pode dizer-se que o Ás de Espadas saiu a partir de 18 de Agosto: noites muito frescas permitiram que a maturação se desenrolasse com toda a calma. Assim foi possível decidir o momento exacto da vindima de cada parcela, sem stress, sem o sufoco da perspectiva de chuva ou outros acidentes muito vulgares nesta época do ano. Poder escolher o dia certo da vindima é o sonho de qualquer enólogo e estender a vindima quanto se quiser é o sonho 2.0. A principal consequência deste “estender de vindima” é a qualidade da fruta e dos taninos, que resultam com grande finura. Tudo isso aconteceu em 2024.

 

Fladgate
Quinta da Roêda

Há um método especial para vintages?

A resposta não é óbvia. Todavia, David Guimaraens tem os seus pontos-chave e as suas irritações crónicas, quando o assunto são os vintages. Começando pelo princípio, a defesa da pisa a pé, sobretudo no início do corte do lagar é determinante, ainda que na segunda parte do trabalho de lagar já se usem muitos pisadores mecânicos. Nas quatro adegas onde decorrem os trabalhos, há lagares para pisa a pé e em três delas há pisadores para a segunda fase da pisa, complementada com o trabalho dos “macacos de madeira”, para envolver e baixar a manta. Cerca de 70% do Vinho do Porto da empresa é feito em lagar e o restante em inox.

David Guimaraens considera que o uso de 100% do engaço continua a ser fundamental, embora alguns outros produtores apontem para a diminuição da percentagem do mesmo. O engaço é elemento equilibrador na doçura natural do Vinho do Porto. Na prensagem, tem uma influência física que se transforma, no envelhecimento, numa influência organoléptica. Das irritações, David Guimaraens também não as esconde: o uso “exagerado” de Touriga Nacional, que veio introduzir um estilo novo (muito aromático), mas que, como sempre acontece com o Vintage. Portanto, convém ter algum cuidado com as mudanças, pois os resultados só serão visíveis dentro de 20 ou 30 anos.

Outro factor a que torce o nariz é ao uso crescente da casta Alicante Bouschet (e também Sousão) para fazer Vinho do Porto, principalmente porque têm muita cor. Ora, opina, a cor não é necessariamente uma condição exclusiva e não é por ter cor a mais que o Vintage é melhor. Estão, agora, a fazer-se vintages com mais cor do que nunca, mas “só cor não é o que me interessa”, afirma.

Aqui não se confunde qualidade com identidade e, ao gerir parcelas em propriedades muito diferentes, David Guimaraens procura que cada quinta transmita ao Vintage a identidade do lugar. E, afirma, “o que faz um grande Vintage é o binómio qualidade e longevidade.” Nos anos mais quentes este tipo de vinho tende a “abrir” muito tarde, precisa de muito anos para se revelar. Porém, nos anos frescos, os vintages dão sempre boa prova em qualquer momento.

Um dos elementos que muito tem contribuído para a qualidade actual dos vintages é a aguardente, hoje muito melhor quando comparada com a dos anos 80 e 90, do século passado, por exemplo. Com a inovação introduzida por Charles Symington, aplaudida por David Guimaraens, a aguardente é, agora, adicionada a baixa temperatura ao mosto, preservando assim muitos aromas outrora perdidos.

 

Os vintages de 2024 estão já todos alocados, continuando a ser o Reino Unido (40%) e os Estados Unidos (30%) os principais mercados, mas o consumo interno é cada vez mais importante

 

Os 2024 à lupa

Dos vintages de 2024, em que as três principais empresas do da Fladgate Family Wines fizeram em média metade da produção habitual em anos clássicos, registamos estes dados, sempre interessantes e úteis. Do vintage Croft fizeram-se 19 200 garrafas. Cerca de 85% do vinho tem origem na Quinta da Roêda, desde sempre a base destes vinhos, aqui acrescidos com alguns vinhos do vale do Pinhão. Maioritariamente vinhas velhas com muita Tinta Francisca, embora a base seja composta por Touriga Francesa, Tinta Roriz e Barroca e, curiosamente, alguma Alicante Bouschet, que já lá existia. Tem 92 gramas de açúcar.

A Fonseca, cuja base é a Quinta do Panascal, associada, aqui, a vinhos das propriedades no vale do Pinhão – Santo António e Cruzeiro –, além das uvas de uma vinha localizada ao lado do Panascal e recentemente adquirida, a Quinta Socalcos de Vale de Muros. A soma perfaz 48 000 garrafas e o vinho apresenta-se com cerca de 96 gramas de açúcar. A uvas vinificadas do Panascal dão a gordura, mas as outras confer

em a frescura e os taninos, vitais para o equilíbrio do conjunto.

Já a Taylor’s – desde sempre baseada na Quinta de Vargellas – totaliza 60 000 garrafas, também aqui cerca de metade da quantidade habitual. O que David Guimaraens mais salienta no Taylor’s é a precisão e, apesar de nunca brilhar nas provas, tem sempre um futuro radioso. Apresenta igualmente 92 gramas de açúcar.

O Vintage Taylor’s Sentinels (vai na 3ª edição) ganhou o nome inspirado nos marcos de Feitoria que existem em algumas propriedades do vale do Pinhão. É todo ele daquela zona, beneficiando não só das uvas que não foram incluídas nas outras marcas, como também das boas propriedades que a empresa dispõe na região, onde se destaca o Junco e Eira Velha, por exemplo. Fizeram-se 31 200 garrafas, aqui também com cerca de 92 gramas de açúcar.

Como aconteceu com outras declarações anteriores, para satisfazer todos os mercados onde a Fladgate Family Wines está presente, os vintages de 2024 estão já todos alocados, continuando a ser o Reino Unido (40%) e os Estados Unidos (30%) os principais mercados, com a procura interna a ser cada vez mais importante.

 

Cerca de 70% do Vinho do Porto da empresa é feito em lagar e o restante em inox

 

Fladgate
David Guimaraens

Revisitar o passado

Após a prova dos vintages de 2024, David Guimaraens fez-nos regressar a alguns vintages da Fonseca de anos anteriores, recuando até 1994. Assim começámos pelos mais novos e provámos o 2017, nascido num ano quente e seco. Mostra-se ainda muito concentrado e rico, um Vintage rijo, com muitos anos pela frente. O 2016, com algumas parecenças com o 2017, mas mais elegante e a mostrar uma grande harmonia de conjunto. Já no 2007 encontrámos algumas semelhanças de estilo com o de 2024, ambos nascidos em anos mais frescos, este já a mostrar alguns aromas de garrafa. Dá muito prazer a beber.

O ano de 2003 foi especialmente quente e gerou vinhos com muita concentração e cor. É um tipo de Vintage que precisa de muitos anos para começar a mostrar o seu melhor perfil. É este o caso. Com 23 anos de vida, começa agora a abrir e a mostrar muita elegância, com curiosas notas de eucalipto e leve mentol. Uma bela surpresa. Terminámos esta viagem ao passado com o 1994, este a mostrar uma (eventual?) evolução algo precoce, a dizer-nos que poderá estar já no seu melhor momento de prova. Mas bebe-se muito bem agora.

Globalmente, o negócio do Vinho do Porto vai mal, com o registo de quedas acentuadas nas vendas mas, a contrario sensu, “nunca se vendeu tanto Vinho do Porto de categorias especiais como agora”. E hoje há muito mais empresas a engarrafar Vinho do Porto do que havia há algumas décadas. No caso do Vintage, a tradição sempre o ligou às empresas de Vila Nova de Gaia, porque recebiam vinhos de vários produtores e, depois, faziam o lote e distinguiam os anos de maior e menor guarda (daí nasceu a ideia do Clássico e não Clássico, ou single quinta).

Os novos produtores do Douro não têm a tradição da declaração do Vintage, nem dispõem da mesma diversidade de lotes de zonas diferentes, como sempre aconteceu com as empresas. David Guimaraens não deixou nada para o fim e afirmou: “os Vintages não são vinhos democráticos, são vinhos para os apaixonados. Se queremos democracia, já temos os tawnies”. E os 2025? perguntámos em antecipação. É cedo para dizer, mas “têm muita cor”, concluiu o enólogo.

 

(Artigo publicado na edição de Agosto de 2026)

 

 

SOGRAPE: Ferreira, Sandeman e a “mão de Deus”

Sogrape

A apresentação dos vintages da Sogrape foi um momento de celebração e, claro, de regozijo. É que desde 2018 que a Ferreira não declarava um Vintage Clássico. O termo clássico, muito caro às empresas inglesas e muito negligenciado por muitas outras, é aqui empregue, porque foi nesses termos que Luís Sottomayor, chefe da equipa de […]

Sogrape

A apresentação dos vintages da Sogrape foi um momento de celebração e, claro, de regozijo. É que desde 2018 que a Ferreira não declarava um Vintage Clássico. O termo clássico, muito caro às empresas inglesas e muito negligenciado por muitas outras, é aqui empregue, porque foi nesses termos que Luís Sottomayor, chefe da equipa de enologia da Sogrape, se referiu à edição de 2024 dos vintages da empresa.

Recordemos que, para os ingleses, clássico significa que se trata de um ano excepcional em que são editados vinhos com o próprio nome da empresa, como Fonseca, Taylor’s, Graham, etc. A distinção faz-se em relação aos anos não clássicos, para os quais a comunidade inglesa criou a designação single quinta, vintages com nomes das quintas, bem mais baratos e, em princípio, sem a profundidade e longevidade dos clássicos.

O ano de 2014 é um ano clássico e todo o sector está a declarar com as principais marcas. Isso já não acontecia desde o último Clássico, o de 2017. Curiosamente, e teimosamente, a Ferreira, optou por não declarar o 2017, mas sim o 2018. E Luís Sottomayor não se arrepende, tal como deixou transparecer recentemente, reafirmando o seguinte: “no futuro, ainda me vão dar razão de ter declarado o 18 e não o 17!”

Em relação aos mais recentes anos realmente declarados por todos (2011), poderia haver a tentação de uma comparação com o 2024. No entanto, o 2011 foi um ano muito mais quente. Gerou vinhos poderosos, mas mais gordos e cheios, ao contrário do 2024 que, beneficiando de um clima favorável, originou vinhos muito mais elegantes e finos. Percebe-se, assim, melhor o comentário do enólogo: “o vintage [20]24 tem uma classe que o [20]11 não tinha!”

Duas casas, diferentes tempos e estilos

As uvas vêm da mesma região, por vezes de zonas bem próximas, e com elas podem fazer-se perfis de Vinho do Porto bem diferenciados. No caso da Ferreira e da Sandeman, esse aspecto é relevante. O facto de, em novos, os vinhos serem mais ou menos robustos não condiciona necessariamente a evolução em cave. Se no momento do nascimento forem feitos com equilíbrio e bom balanço, podem atingir o mesmo nível de qualidade. Na Ferreira fazem-se vinhos que nascem com elegância, no seguimento do estilo criado por Fernando Nicolau de Almeida, sempre bem distinto do estilo dos ingleses; já na Sandeman são vinhos mais rijos, com taninos bem presentes, feitos com muito engaço, para terem aromas um pouco mais herbáceos e vegetais.

A Sandeman só entrou para o universo Sogrape em 2002 e houve uma mudança de estilo uma vez que, segundo Luís Sottomayor, sobretudo nos anos 80 do século XX, os vinhos estavam em perda de definição. Em 1994 o vinho mostrou uma recuperação de perfil que se concretizou, depois, no de 1997, ora provado. Tradicionalmente, a Sandeman abastecia-se em pequenos produtores, em Celeirós, Pinhão e Rio Torto; a primeira propriedade que esta casa possuiu foi a Quinta do Vau. No fundo, todas as empresas ainda compravam (e compram) vinho feito, sobretudo em adegas cooperativas, para suprir as lacunas em vinho e, ao mesmo tempo, cumprir o benefício.

Sogrape
Luís Sottomayor não tem dúvidas: “o vintage 2024 tem uma classe que o 2011 não tinha!”

Feitas as apresentações, importa falar acerca da prova de vintages, momento em que foram revisitadas algumas edições antigas das duas empresas. Da Ferreira, provámos o Vintage de 1952, nascido numa década muito parca em bons vintages. O grande ano Clássico dos anos 50 foi o Vintage de 1955; nos outros anos, aqui e ali, houve vintages interessantes. O de 1952, nascido provavelmente em vinhas de field blend, teria uvas da Quinta do Seixo, Eira Velha (propriedade que, hoje, pertence à Fladgate), Quinta de Roriz e, talvez, algum vinho da Quinta do Vesúvio. As uvas eram vinificadas nas propriedades do Douro. Os lotes eram feitos em Gaia. Este Vintage de 1952 mostrou-se acastanhado na cor, com uma delicadeza aromática estonteante, uma riqueza de pequenas nuances, onde já se revelavam alguns frutos secos ao lado de notas licoradas e fruta em calda, caramelo e leite-creme, com perfeito equilíbrio na boca (19,5). Este Vintage nasceu no mesmo ano do primeiro Barca Velha e Luís Sottomayor fez questão em salientar: “ainda está aqui com capacidade para viver, e bem, em garrafa!”

Provou-se também o Vintage Sandeman 1963, um ano verdadeiramente marcante na história do Vinho do Porto. Foi o primeiro fôlego positivo depois do ambiente depressivo do pós 2ª Guerra, em que o vinho não se vendia e as empresas estavam descapitalizadas. Foi também o último ano que, no Douro, todo o Vinho do Porto foi feito a lagar. A partir de 1964 começaram a usar-se os auto-vinificadores e o Douro não voltou a ser o mesmo. O Vintage de 1963 que, em conjunto com o de 1966, formam os dois anos clássicos da mesma década, mostrou ainda bons tons avermelhados (ao contrário do Ferreira de 1952), com muito boa presença aromática, muito fino, a notarem-se com evidência os tradicionais aromas de garrafa. Licorado na boca, ainda com atractiva austeridade (19).

Da Sandeman provámos também o 1997. Aqui também falamos de um ano Clássico. Mostrou-se com muita cor, aroma com leve oxidação, mas boa fruta vermelha em compota. Ainda com taninos firmes, combinando estrutura com suavidade. Nesta época seria seguramente a Quinta do Vau a base das uvas para este Vintage (18).

Para completar esta prova, que antecedeu a dos 2024, ainda provámos o Ferreira Vinhas Velhas 2018. O vinho mostrou-se extraordinário, com grande estrutura, vigoroso, doce, mas no ponto certo, a revelar uma saúde de ferro e um equilíbrio a que a acidez deu forma. Logo na altura da pisa a pé, nos lagares da Quinta do Seixo, Luís Sottomayor afirmou, ao provar o mosto do 2018 que não se lembrava de ter provado um vinho de vindima com aquela qualidade; a mesma sensação foi evidente em 2024. São vinhos com um açúcar que ronda os 100 gramas por litro, embora essa doçura não seja evidente, permanecendo escondida pela complexidade do vinho.

Nos Vintage Ferreira, encontramos sobretudo Touriga Nacional, Touriga Francesa e Sousão, tudo vinificado em conjunto. Nos Sandeman, temos uvas de vinha velha, Touriga Nacional, Touriga Francesa e mais Sousão, com mais peso do engaço.

O facto da Sogrape dispor de 600 hectares de vinha na região do Douro permite identificar as parcelas que poderão contribuir para o estilo de cada uma das casas. Podemos afirmar que o backbone da Sandeman é a Quinta do Seixo (margem esquerda) e o da Ferreira é a Quinta do Porto (margem direita). Também foi declarado o Vintage Offley que terá, sobretudo, expressão em alguns mercados externos, como a Dinamarca. Não foi objecto de prova.

Os vinhos novos são colocados em tonéis não atestados, com algum ar e é isso que permite verificar quais os que aguentam esse embate. Os que oxidarem rapidamente mostram que não têm garra para aguentar o futuro. É um teste fundamental. Estes, cremos, têm um longo futuro pela frente. Os preços são indicativos e não vinculativos.

(Artigo publicado na edição de Agosto de 2026)

 

QUINTA NOVA DE N. SRª DO CARMO: Serenidade na mudança

Quinta Nova

Fiel às origens, a Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo, localizada no concelho de Sabrosa, pertencente à região do Douro, assume que o tempo é de mudança de atitude. Não porque se renegue o passado, mas sobretudo porque o futuro será exigente, e quem se preparar antecipadamente, terá maiores possibilidades de sucesso. A história […]

Fiel às origens, a Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo, localizada no concelho de Sabrosa, pertencente à região do Douro, assume que o tempo é de mudança de atitude. Não porque se renegue o passado, mas sobretudo porque o futuro será exigente, e quem se preparar antecipadamente, terá maiores possibilidades de sucesso.

A história da Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo inicia-se bem lá atrás, em 1764. Em meados do século XVIII, o Douro era o Vinho do Porto e toda a dinâmica de planeamento de viticultura e vinificação fazia-se à sua volta.

Após a aquisição desta propriedade pela família Amorim, a adega, já em 2003, é ainda recuperada à imagem da tradição duriense e, mais de dois terços da capacidade é afeta à produção de Vinho do Porto, cabendo o remanescente para os vinhos DOC Douro. A atual filosofia é diametralmente diversa e assume-se, sem reservas, vocacionada para os vinhos DOC, tendo sido esse o propósito da total renovação da adega em 2024.

Mas as mudanças não ficaram por aí. Em 2025, estenderam-se à viticultura, passando para a coordenação de Pedro Prata. Já a enologia, agora liderada por António Bastos, tem como objetivo partilhar conhecimento com uma figura ímpar da enologia e do ensino, Riccardo Cotarella, o enólogo italiano ligado à família Amorim por uma relação antiga de amizade.

A colaboração de Riccardo Cotarella com as três propriedades do universo Amorim (Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo, Taboadella, no Dão, e Herdade Aldeia de Cima, no Alentejo) não será de estrita consultoria, mas, sobretudo, de mútua partilha de experiências e diálogo, que tem como elo comum dois países com tradição multimilenar de sabedoria empírica no cuidado da vinha e do vinho. A admiração é mútua, reconhecendo Riccardo Cotarella em Luísa Amorim a virtude do detalhe, do saber fazer profundamente conectado com cada lugar, cada ecossistema, sobretudo no que se relaciona com viticultura de montanha.

A colaboração de Riccardo Cotarella com as três propriedades do universo Amorim será sobretudo, de mútua partilha de experiências e diálogo

 

A preponderância do cimento

A principal e mais notória mudança surge no trio de vinhos Reserva lançados, um branco e dois tintos, que ostentam não apenas um rebranding da imagem, mas também um maior cuidado com a identidade que transparece de cada uma das 41 parcelas plantadas em altitudes, exposições e perfis distintos. Aqui, busca-se uma leitura mais aprofundada, não apenas das origens, mas igualmente de uma adega de múltiplas potencialidades, onde o cimento ganha uma crescente preponderância, na busca de vinhos mais diretos, genuínos e, sobretudo, mais frescos.

Luísa Amorim, CEO da Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo, fala sobre o novo perfil dos Reserva: “sentimo‑nos profundamente realizados com estes três vinhos Reserva – uma gama que tem para nós um significado especial e uma importância estratégica no nosso portefólio. Estes vinhos traduzem, com grande fidelidade, a essência das parcelas da Quinta Nova e todo o trabalho de viticultura que temos desenvolvido ao longo de 26 anos.”

Em 2000, foram plantados 50 hectares de vinha traduzida em 41 parcelas, “de dimensão muito reduzida, totalizando 85 hectares, numa zona histórica e emblemática da margem direita do Douro, diria mesmo, na zona do Cima Corgo onde existiam os vinhos de feitoria, eleita no Alto Douro, para a primeira demarcação do Douro, a mais antiga do Mundo”, acrescenta. Por conseguinte, “ver, hoje, o resultado no copo, dá‑nos a certeza de que cada hora dedicada ao projeto de remodelação desta adega – construída em 1764, apenas oito anos após a primeira demarcação do Douro – é um esforço que sentimos que valeu a pena. Ao longo dos anos, sempre soubemos que o clima estava em mudança; já não é tabu para ninguém. A adaptação a esta nova realidade era uma necessidade urgente, não apenas para o presente, mas sobretudo para garantir a continuidade da qualidade e a solidez deste projeto de futuro”, esclarece Luísa Amorim.

Hoje, a capacidade de adaptação a cada vindima é uma realidade nesta propriedade duriense. “Dispomos de circuitos de produção distintos, com mesas de escolha específicas para rosés, brancos e tintos, e a possibilidade de conduzir fermentações mais longas, mais calmas e mais precisas, parcela a parcela. A instalação das 32 cubas de cimento foi determinante: permitiu‑nos afinar textura, reforçar a frescura natural das nossas uvas e preservar uma acidez viva e vibrante, resultando em vinhos aromaticamente mais puros, precisos e expressivos, com o classicismo que só o Vale do Douro consegue oferecer”, sublinha a CEO da Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo.

O mote desta nova abordagem é um exercício de contemporaneidade, equilíbrio e elegância, o que de facto se confirma. Na caracterização dos anos vitícolas, 2024 e 2025 foram distintos. Contudo, em ambos foi na precocidade da vindima que esteve o click redentor, permitindo captar mais frescura, vibrância e tensão, afastando sobrematurações e concentração alcoólica. Já a nova imagem dos Quinta Nova Reserva se afirma, sobretudo, como reforço da identidade e da origem, tendo como elemento central a Capela de Nossa Senhora do Carmo, construída pelos barqueiros no Penedo do Carmo, um dos locais mais temidos da navegação no Douro.

 

Quinta Nova

“Estes vinhos traduzem a essência das parcelas da Quinta Nova e todo o trabalho de viticultura que temos desenvolvido ao longo de 26 anos”, afirma Luísa Amorim

 

A incontornável referência de brancos

Sobre o Mirabilis branco e a sua importância no contexto da afirmação dos grandes brancos durienses, provavelmente, podemos escrever um tratado. Se a memória não me trai, o Mirabilis branco, ao contrário do seu congénere tinto, tem sido lançado todos os anos desde 2011.

Se a filosofia da origem da uva não se tem alterado, podendo somente variar as parcelas, a vinificação tem conhecido diversas experimentações ao longo de mais de uma década. Viosinho e Gouveio, em vinhas com mais de 70 anos e, algumas, centenárias, altitude, maioritariamente superior a 500 metros, solos de transição xisto/granito de Murça, Alijó e Sabrosa. Na adega é onde tudo se transforma, com a integração de diversos materiais: madeira nova de carvalho francês das florestas Tronçais, Vosges, Nevers, Jura e Allier, foudre novo de 1200 litros, barrica de segundo e terceiro ano e, claro, o cimento cru. Um tempero complexo de lote traduzido num resultado de afirmação de amplitude, complexidade, presença de fruta e um mineral salino que lhe define um estilo que, não sendo imutável, lhe define a personalidade.

 

Rosé de inspiração

O Quinta Nova Rosé 2025 continua a evidenciar a inspiração provençal, cuja vinificação ocorre com prensagem de cacho inteiro. O critério de seleção das uvas – Tinta Roriz (50%), Tinta Francisca (30%) e Touriga Franca (20%) – é rigoroso, desde a escolha das parcelas, passando pela vindima manual e seleção na mesa de escolha.

A vinificação, contudo, ganha, a cada colheita, uma abordagem diversa de modo a garantir e exponenciar a pureza aromática e a delicadeza que se exige num rosé desta dimensão. Metade do lote estagia em barricas usadas de carvalho francês, 25% evolui em cubas de cimento e os restantes 25% em depósitos de inox. Convenhamos, mudar é apenas uma das mais naturais leis da vida. Quem permanecer agarrado ao passado e ao presente, dificilmente terá um futuro.

(Artigo publicado na edição de Julho de 2026)

 

VILA GALÉ: Improváveis e prazerosos

vila galé

Quando um enólogo coloca a mão em adega alheia, é possível que nasça um vinho improvável. Foi este o desafio que Marta Maia, da alentejana Casa Santa Vitória, e Ricardo Gomes, da empresa duriense Quinta Val Moreira, ambos pertencentes ao grupo hoteleiro Vila Galé, decidiram colocar em marcha, com a finalidade de produzirem dois vinhos […]

Quando um enólogo coloca a mão em adega alheia, é possível que nasça um vinho improvável. Foi este o desafio que Marta Maia, da alentejana Casa Santa Vitória, e Ricardo Gomes, da empresa duriense Quinta Val Moreira, ambos pertencentes ao grupo hoteleiro Vila Galé, decidiram colocar em marcha, com a finalidade de produzirem dois vinhos diferentes, não só dentro da gama das adegas respectivas, mas também inesperados e apetecíveis para o mercado. Com o aval da empresa, Marta Maia trocou temporariamente o Alentejo pelo Douro, para elaborar um vinho em Val Moreira; já Ricardo Gomes fez o percurso inverso, isto é, rumou ao Alentejo para igual desafio.

Desta troca nasceram os Vinhos Improváveis, um do Douro e outro do Alentejo. São duas edições exclusivas, produzidas em quantidades limitadas, que reflectem a visão pessoal de cada enólogo fora do seu ambiente habitual, celebram a capacidade criativa de ambos e mostram ser possível haver liberdade na interpretação de cada terroir dentro da mesma casa. Cada referência dispõe de 1800 garrafas, sendo estas vendidas em caixas duplas. “Foi um desafio que nos deu muito gozo, numa reinterpretação que nunca tinha sido feita”, salientou Marta Maia. “O objectivo foi fazer dois vinhos que não tivessem nada a ver um com o outro, diferentes, mas ambos prazerosos”, sublinhou Ricardo Gomes.

Durante a festa de lançamento, que decorreu no Hotel Vila Galé Ópera, em Lisboa, foram apresentadas outras três referências do Grupo Vila Galé, o Paço do Curutelo Colheita, da região dos Vinhos Verdes, um novo reserva rosé colheita e o mais recente Touriga Nacional da Casa de Santa Vitória.

 

Tudo começou em 2023

O projecto surgiu durante a convenção do Grupo Vila Galé, em Fevereiro de 2023, quando Marta Maia e Ricardo Gomes resolveram desafiar-se e transmitir, aos seus superiores, a decisão de trocar de casa e cada um fazer um vinho na adega do outro. O nome Improváveis para a marca surgiu a posteriori, por serem vinhos um pouco fora da caixa e provenientes de duas regiões completamente diferentes.

“Eu nunca tinha trabalhado a sério no Douro, a não ser em estágio de vindima, e o Ricardo também nunca o fez a sério no Alentejo, a não ser como estagiário de vindima”, contou Marta Maia, acrescentando que ambos pretendiam criar coisas diferentes das existentes dentro das respectivas gamas, que contribuíssem “para se falar mais das duas empresas”.

Depois de colocada a sugestão, a administração incentivou-os a irem para a frente com o projecto, “com o desafio de desenvolver o processo com um custo razoável”, revelou Ricardo Gomes. O repto foi aceite, mas foi concretizado com algumas dificuldades.

 

vila galé

 

A ideia de trocar de casa e cada um fazer um vinho na adega do outro surgiu durante a convenção do Grupo Vila Galé, em Fevereiro de 2023

 

Muitos quilómetros entre vinhas

A primeira foram os muitos quilómetros que ambos tiveram de fazer, em plena vindima: Marta Maia entre o Alentejo e o Douro, e Ricardo Gomes em sentido inverso. “O que fizemos foi uma vinificação diferente da tradicional na casa um do outro”, afirmou, acrescentando que inventou pormenores que não existiam na Quinta Val Moreira, o que envolveu mais trabalho à equipa local. No Alentejo, aconteceu o mesmo. Mas à procura de quê? “De criar um vinho que fosse a imagem daquilo que é o enólogo”, respondeu a enóloga. Ou seja, o vinho que criou no Douro corresponde à sua interpretação da região.

O Val Moreira Improváveis tinto 2023 é feito a partir de uvas apanhadas em vinhas velhas, das quais “nunca se saberão as castas em concreto”, e com base “num processo de vinificação duro, porque incluiu dois dias complicados em termos de recepção de uvas durante a vindima”. Foram vinifcadas em cinco barricas usadas de 500 litros, às quais foi tirado o topo. A fermentação decorreu com uva desengaçada em três e, em duas, com engaço, de cacho inteiro, pisado a pé, processo esse que durou quatro horas por barrica. Segundo Marta Maia, “as uvas estavam muito frias, porque as guardamos durante 24 horas num contentor refrigerado antes do processamento”, o que dificultou o processo.

Após a fermentação, decorreu o estágio, realizado na mesma madeira e já com as barricas tapadas. Este processo deu origem a um vinho mais rústico e com carácter mais duriense do que os tradicionais da Quinta Val Moreira, segundo a opinião de Ricardo Gomes, que, por seu turno, esteve no Alentejo a criar um vinho improvável.

 

 

vila galé

Com os recursos que as adegas tinham, a ideia foi inovar em termos de tipos de fermentação, para criar algo diferente

 

Vinhos elegantes e um clarete

“Na Casa de Santa Vitória, os vinhos são muito elegantes, desde que a Marta assumiu o projecto. Têm muita personalidade. E eu tentei levar isso a um extremo. O resultado foi um clarete”, conta o enólogo, explicando que a produção ocorreu com base em extracções de início de fermentação que estavam a decorrer na adega da Casa de Santa Vitória, as quais foram submetidas, posteriormente, a um estágio de um ano em barricas usadas, tal como o vinho de Marta Maia no Douro.

“Ou seja, com os recursos que as adegas tinham, porque era preciso concretizar a nossa ideia sem grandes investimentos, a ideia foi inovar em termos de fermentações, para criarmos algo diferente”, esclareceu Ricardo Gomes, que, tal como Marta Maia, manifestou contentamento em relação ao resultado. Por um lado, do Douro, saiu um vinho mais rústico e poderoso, com um carácter regional marcado, sem perder a elegância tradicional dos tintos de Val Moreira; por outro lado, mais a sul, surgiu o Santa Vitória Improváveis 2023, um clarete fresco, mas também com um toque de rusticidade e notas de fruta silvestre, que o tornam apetecível para os comeres da estação quente do ano.

(Artigo publicado na edição de Julho de 2026)

ADEGA DA HERDADE DA COMPORTA: A reinterpretação de um terroir

Comporta

À entrada da loja da Adega da Herdade da Comporta está disposto o mapa da Península de Tróia. A área traçada a negro assinala esta propriedade de exploração agrícola, localizada entre a costa atlântica, a poente, e o rio Sado, a nascente, com Pinheiro da Cruz, a sul, e a Carrasqueira, a norte, englobando o […]

À entrada da loja da Adega da Herdade da Comporta está disposto o mapa da Península de Tróia. A área traçada a negro assinala esta propriedade de exploração agrícola, localizada entre a costa atlântica, a poente, e o rio Sado, a nascente, com Pinheiro da Cruz, a sul, e a Carrasqueira, a norte, englobando o célebre Cais Palafítico da Carrasqueira, “incluindo uma parte do rio Sado”, acrescenta José Oliveira, diretor financeiro e responsável pela Adega da Herdade da Comporta referindo-se à Reserva Natural do Estuário do Sado, e sete aldeias. “Há cerca de 3000 pessoas que vivem permanentemente dentro da herdade”, sublinhou o nosso anfitrião. O total ultrapassa os 11 mil hectares. Estes estão distribuídos por arrozais a perder de vista, pinhal e floresta, formações dunares, traduzidas em nove quilómetros de linha costeira, e 35 hectares de vinha, dos quais 29 estão no concelho de Grândola e seis já fazem parte do concelho de Alcácer do Sal.

Eis o ponto de partida para as boas novas. Mas não sem antes se fazer uma pequena descrição do território vitivinícola da Adega da Herdade da Comporta. A proximidade do Atlântico, cuja distância é de seis quilómetros, e o chão de areia são fatores, desde logo, evidenciados pelo enólogo Jorge Rosa Santos. A ambos, soma os sistemas montanhosos que exercem influência na vinha: serra de Sintra, serra de Montejunto e serra da Arrábida. Além de que, “aqui, há mais horas de sol do que a norte e a sul”, dando origem a “um micro-clima na Herdade da Comporta”, segundo palavras do enólogo.

Feita a descrição do território em termos edafoclimáticos, Jorge Rosa Santos evidencia a importância da sazonalidade da Comporta, no que à produção de vinhos diz respeito, até porque “os brancos não são só para o verão” e “os tintos já não são só para o inverno”. A par com esta mudança ditada pela atualidade, os brancos da Adega da Herdade da Comporta estão a conquistar terreno e os tintos estão a enveredar por outros caminhos, contrariamente ao que vinha a ser feito até hoje. Como tal, Jorge Rosa Santos e Renata Madeira, que, em conjunto, constituem a equipa de enologia da casa, mostram, agora, “abordagens mais disruptivas” reveladoras da “criatividade própria dos enólogos”.

 Comporta
Jorge Rosa Santos e Renata Madeira

 

Portefólio vínico restruturado

Conclusão? A Adega da Herdade da Comporta avança para um novo posicionamento e restruturação do portefólio de vinhos constituído por quatro gamas: Nativo, Brisa Bay, Experimentalista/Monovarietais e Micro Terroir. Todas as uvas que ‘dão corpo’ a estas boas novas são vindimadas à mão. O objetivo desta mudança pauta pela “reinterpretação da Comporta, mantendo o classicismo e a simplicidade” locais, sublinha o enólogo. Mas para Jorge Rosa Santos, os vinhos produzidos na Adega da Herdade da Comporta pouco têm a ver com os vinhos da Península de Setúbal, região vitivinícola onde este produtor está inserido.

“São vinhos com sentido de lugar”, continua o enólogo, com o intuito de justificar essa diferença enaltecida pelo registo de álcool médio baixo, mais acidez e salinidade presente, atributos obtidos graças à antecipação da vindima das castas brancas e à apanha tardia das variedades tintas. Neste contexto, Jorge Rosa Santos salienta, uma vez mais, a importância dos solos arenosos, favoráveis ao timing de ambas as ações na vinha implantada na zona sul da propriedade.

Mas vamos por partes. A gama Nativo está disponível em branco, rosé e tinto e traduzem-se em vinhos diretos em relação às propriedades das castas selecionadas para este trio vínico. “É a porta de entrada para a Adega da Herdade da Comporta que, agora, se quer revisitada”, resume o enólogo. Já a Brisa Bay – um branco de 2024 e um rosé de 2025 – transmite uma mensagem mais descontraída e associada à época de estio e ao estilo Comporta.

A gama Experimentalista/Monovarietais é composta por edições limitadas que refletem o resultado de ensaios feitos pelos dois enólogos e tem a exploração de castas como denominador comum. Outro dos fatores é a seleção de microparcelas específicas que, nesta estreia, integra escolha da variedade branca Verdelho, da colheita de 2025, e a tinta Castelão, cuja vindima remonta a 2022 e incide “nos setores 30 e 31, mais próximos da várzea”, informa Renata Madeira. Nesta gama, encaixam ainda as novas abordagens enológicas nascidas “na onda da espontaneidade”, que, por ora, se dividem num vinho curtimenta e num palhete de 2024. No primeiro, a casta eleita é a Alvarinho, que, a meio da fermentação, passou a estar em contacto com as películas de Fernão Pires, seguindo-se o estágio, perfazendo, esta combinação, um período de dois meses. O palhete é, de acordo com Jorge Rosa Santos, inspirado na produção do Vinho Medieval de Ourém. Neste lote, entram a Castelão e a Malvasia de Colares. “É um grande vinho de verão”, garante a enóloga. E apesar da supressão da Malvasia de Colares da vinha, o palhete permanecerá no portefólio, paralelamente a outras novidades.

Microterroir é a gama que mais faz justiça às declarações de Jorge Rosa Santos, para quem a proximidade do Atlântico, os solos arenosos e a proteção da serra da Arrábida desempenham um papel fundamental na produção dos vinhos da Adega da Herdade da Comporta.

 

Nativo, Brisa Bay, Experimentalista/Monovarietais e Micro Terroir são os nomes escolhidos para as novas gamas da Adega da Herdade da Comporta

 Comporta

 

Identidade visual renovada

A acompanhar esta redefinição estratégica, a Adega da Herdade da Comporta apresenta o trabalho desenvolvido no âmbito da nova identidade firmado no património da propriedade. Em suma, no símbolo composto pelo C, de Comporta, e da cruz que o acompanha, ambos em azul. A finalidade é levar o consumidor a identificar prontamente os vinhos produzidos nesta casa.

Instalada em, outrora, estaleiros e oficinas de apoio à exploração agrícola da Herdade da Comporta, entidade privada e centenária, fundada em 1925, e com uma decoração que imprime a arquitetura local, a loja é uma montra das novas gamas, entre outros produtos, como o arroz e o pinhão da propriedade. Este espaço é contíguo à adega, em atividade desde 2022, e às salas de provas distribuídas pelo piso térreo e o primeiro andar, no âmbito das ações de enoturismo. A loja é ainda o ponto de partida para visitar o Museu do Arroz, inserido na antiga fábrica de descasque e situado a dois passos do aglomerado de edifícios que compõem o centro nevrálgico associado ao vinho.

(Artigo publicado na edição de Julho de 2026)

CHURCHILL’S: Um Vintage 24 e algo mais

Churchill's

A Churchill Graham é uma jovem empresa de vinho do Porto, “a última casa britânica independente.” Fundada em 1981 pelo jovem Johnny Graham (29 anos), ainda hoje à frente da empresa, foi, na altura, uma pedrada no charco, já que nos 50 anos anteriores não tinha sido criada nenhuma nova empresa com a mesma missão […]

A Churchill Graham é uma jovem empresa de vinho do Porto, “a última casa britânica independente.” Fundada em 1981 pelo jovem Johnny Graham (29 anos), ainda hoje à frente da empresa, foi, na altura, uma pedrada no charco, já que nos 50 anos anteriores não tinha sido criada nenhuma nova empresa com a mesma missão e, uma vez que o nome Graham era já uma importante marca de vinho do Porto, foi buscar o nome da sua esposa, Caroline Churchill.

Apesar de jovem, Johnny Graham trabalhava há vários anos no sector. Portanto, conhecia bem o vale do Douro e os seus vários terroirs e actores. O estilo dos vintages Churchill’s era sempre bastante especial: fresco e ligeiramente mais seco do que a norma, usando um pouco menos de aguardente, mas com uma estrutura férrea de taninos, que não fazia qualquer concessão à projectada longevidade dos vinhos. Os Churchill’s eram Portos Vintages clássicos nesse sentido. As uvas provinham de uma série de quintas localizadas na sub-região do Cima Corgo, incluindo a Água Alta, Manuela e Fojo, propriedade do lendário Jorge Borges de Sousa, e a vinificação era feita em lagar, com pisa a pé, e fermentados com leveduras autóctones. As vinhas viradas a Sul e expostas ao Sol asseguravam as maturações perfeitas.

Churchill's
Johnny Graham e Ricardo Pinto Nunes

A compra da Quinta da Gricha

O primeiro Vintage foi o de 1982, ainda hoje em grande forma, ao qual se seguiram 1985, 1991, 1994 e 1997. Em 1999 a Churchill’s começou a enfrentar algumas dúvidas no acesso às suas uvas de sempre, em particular porque os netos de Jorge Borges de Sousa iniciaram, eles próprios, a fazer vinhos em seu nome. Face a este cenário, a Churchill’s comprou a Quinta da Gricha, na margem Sul do rio Douro, situada logo abaixo de Ervedosa.

As encostas voltadas a Norte eram preciosas para assegurar maturações lentas e boa acidez natural das uvas. Os vinhos tinham, agora, uma elegância adicional logo desde muito novos. Já com uvas da Quinta da Gricha, numa parcela que chega a alcançar, como em 2024, um terço do total, os vintages da Churchill’s tornam-se mais polidos e frescos. Para além do blend de vários micro-terroirs, como é tradição no Vintage clássico, a Churchill’s faz quase todos os anos o seu single-quinta com origem na Gricha. Depois de 1999, só não fez nas colheitas de 2002, 2010 e 2014. Curiosamente, 2014 teve o seu vintage Churchill’s. Eis os restantes anos: 2000, 2003, 2007, 2011, 2014, 2016, 2017, 2020, 2024.

Churchill's

Os Portos e os DOC Douro

A Churchill’s não fazia só Vintage. A pouco e pouco, e com apoio em vinhos comprados às quintas dos seus fornecedores, foi construindo um portefólio completo de Vinho do Porto, incluindo o best-seller Churchill’s Crusted Port, um famoso Dry White Port envelhecido, e também LBVs, e Tawnies com 10, 20, 30 e 40 anos. Além dos Portos, a Churchill’s passou, em 1999, a fazer experiências com vinhos DOC Douro.  A primeira vindima comercializada foi a de 2003, com enologia liderada, desde 2007, por Ricardo Pinto Nunes. A entrada de gama é o Meio Queijo (nome de uma das parcelas da Quinta da Gricha). Já o icónico Grafite tem varietais e reservas, e o topo de gama é a Quinta da Gricha.

Em princípios de Junho, na Feitoria Inglesa, foi provada uma parte significativa da gama de vinhos, incluindo os novos vintages de 2024, um ano que se apresenta extraordinário, muito definido e puro, com uma promessa de prazer imediato e a longo prazo. Johnny Graham apresentou, em grande forma, os vinhos, após alguns anos em que a saúde lhe limitou a actividade. Foi um prazer rever um dos grandes construtores do Douro moderno, bem como a sua equipa, onde hoje se integra a filha Zoe, que partilha com ele a liderança da empresa, e o carismático Ricardo Pinto Nunes “Caxuxo”, o verdadeiro hub dos enólogos do Douro. Churchill’s a todo o vapor, com vinhos incríveis, que muito recomendo.

(Artigo publicado na edição de Julho de 2026)