MIGUEL LOURO WINES: “Arigato” pela vida

De nome e apelido, Miguel Louro é o homónimo do seu pai, produtor de vinhos, bem conhecido no Alentejo. Miguel (filho) nasceu em Lisboa, mas com dois ou três anos mudou, com a família, para Estremoz. Foi lá que desenvolveu um enorme gosto pelo campo. Tendo crescido no meio dos vinhedos, desde cedo se habituou […]
De nome e apelido, Miguel Louro é o homónimo do seu pai, produtor de vinhos, bem conhecido no Alentejo. Miguel (filho) nasceu em Lisboa, mas com dois ou três anos mudou, com a família, para Estremoz. Foi lá que desenvolveu um enorme gosto pelo campo. Tendo crescido no meio dos vinhedos, desde cedo se habituou aos ritmos da vinha e à presença constante do vinho na sua vida. O produtor recorda que ir a Lisboa era um castigo, pois foi “pouco amigo de confusão” e nunca se sentiu atraído pelas grandes cidades. Em contrapartida, sempre gostou de caça, pesca e vinhas. Em miúdo, queria ser taberneiro. “Gosto de vinho, provas, sensações e emoções”, explica. Não foi esse o seu destino: ficou na origem, na produção de vinhos, onde provas, sensações e emoções também não faltam.
Em 2011 plantou a primeira vinha, com um hectare de Touriga Franca e quatro hectares de sete castas brancas (Arinto, Alvarinho, Verdelho, Verdelho da Madeira, Gouveio, Roupeiro e Rabigato), coisa que, confessa, hoje já não teria feito. “Naquela altura achei que sabia tudo, agora não sinto isto”, admite o produtor com humildade. Mas foi uma aprendizagem importante. Das sete variedades que selecionou, plantaria, agora, apenas duas: Arinto e Rabigato. Não é por acaso que são protagonistas de um dos vinhos mais recentes e ambiciosos, e que, claramente, estiveram na origem do nome “Arigato”.
As vinhas ficam em Estremoz e, em termos de solo, variam entre xisto, nas encostas, onde estão plantadas a Gouveio, a Rabigato e a Alvarinho, e solos mais pesados, com bastante argila, no vale, onde estão a Arinto e a Verdelho. O primeiro vinho foi lançado em 2013. “Naquela altura, os típicos vinhos brancos do Alentejo eram fruta tropical, pouco ácidos e chatos”, recorda Miguel Louro. Os vinhos do jovem produtor eram tudo menos “chatos” e “tropicais”: tinham fruta contida e acidez bem pronunciada. Alguns distribuidores até mostraram o seu desagrado. “Fui apelidado de ‘água com ácido’”, recorda Miguel com um sorriso, “mas continuei na minha”. Até hoje mantém a sua convicção, mas já não choca ninguém; é, aliás, um estilo bastante apreciado na restauração e entre enófilos esclarecidos.
A partir de 2024, começou a usar uva tinta de uma vinha nova, com oito hectares, onde tem três castas – Alicante Bouschet, Aragonez e Trincadeira. Miguel Louro está a pensar reenxertar uma parte desta vinha com Rabigato e Arinto.
Entre Portugal e a Alemanha
Em paralelo, desenvolveu outro ramo da sua vida profissional. Depois do Instituto Superior de Agronomia, em 2013, Miguel foi fazer o estágio profissional na Alemanha e, em 2016, foi convidado pela mesma empresa para desempenhar as funções de enólogo da casa onde tinha estagiado, a S.A. Prüm. Alguns anos mais tarde, em 2020, iniciou a sua colaboração com a empresa familiar Willems Willems, localizada na parte sul de Mosel, na sub-região do Saar. “Sou Director-Geral, mas faço tudo: viticultura, enologia e vendas”, explica. Têm oito hectares de vinha, distribuídos por 32 parcelas, todas com a casta rainha daquela zona, a Riesling.
Mesmo a viver entre dois países – Alemanha e Portugal –, consegue gerir as duas vindimas, graças à diferença entre elas de seis a oito semanas. Somando as duas propriedades, 80% do vinho que Miguel Louro faz é branco.
Do Apelido, Primeiro Nome e Alcunha ao Arigato
A produção total da Miguel Louro Wines ronda entre as 20 e as 25 mil garrafas, das quais 50% são de branco e 50% são de tinto. A gama sempre esteve cheia de significados. Começa no Apelido – vinhos de blend, jovens e descomplicados. O Primeiro Nome tem mais identidade do produtor, sendo também de lote, mas com algum estágio e complexidade. Já o nome Alcunha é reservado para os vinhos monovarietais de colheitas especiais e carácter vincado.
A esta família de vinhos juntaram-se agora dois Arigato apresentados em primeira mão. São lotes únicos de edições limitadas com muita personalidade. Miguel explica: “se eu faço um blend e gosto, engarrafo, mesmo que sejam apenas 300 garrafas”. É a vantagem de ser um pequeno produtor. Como o nome remete para o japonês, o símbolo no rótulo também foi inspirado na cultura nipónica. Representa “casa”, conceito que tem muito significado para o produtor.
O Arigato branco 2022 combina a acidez do Arinto com a austeridade e a frescura do Rabigato. Antes da fermentação, foi realizada uma maceração pelicular a frio durante 24 horas; depois, as castas tiveram tratamentos distintos: o Arinto fermentou em barricas de carvalho francês de 500 litros e o Rabigato em barricas de carvalho nacional de 300 litros. O estágio decorreu durante nove meses sobre borras totais, sem bâtonnage. “É o meu perfil. Se tivesse que fazer só um vinho, seria este”, declara Miguel Louro. Foram produzidas 924 garrafas.
O Arigato tinto de colheita 2020 é um 100% Trincadeira. “Acho que comecei a entender esta casta”, partilha o produtor. A maceração pré-fermentativa ocorreu em lagar com pisa a pé. Ao completar o primeiro terço da fermentação, o mosto foi transferido para barricas de 225 litros de carvalho francês de terceiro uso, onde também fez a fermentação maloláctica. “Depois do primeiro ano do estágio, provei o vinho e achei que precisava mais. Ficou 42 meses em barrica, sobre borras totais”, explicou. Depois de engarrafado em 2024, passou mais um ano e meio em garrafa até o produtor sentir que o vinho estava pronto para entrar no mercado. Foram produzidas 504 garrafas.
(Artigo publicado na edição de Março de 2026)
JOÃO TIQUE: O culto do vinho do Alentejo

João Tique há muito que cultiva uma relação, direta e indiretamente, com o vinho. Inicialmente, através da indústria de preparação da cortiça e, mais tarde, o sector da distribuição, em Macau. O fascínio pelo mercado asiático determinou a criação da empresa Portuguese Topwines, com o objetivo de levar, para outras latitudes, vinhos produzidos. No âmbito […]
João Tique há muito que cultiva uma relação, direta e indiretamente, com o vinho. Inicialmente, através da indústria de preparação da cortiça e, mais tarde, o sector da distribuição, em Macau. O fascínio pelo mercado asiático determinou a criação da empresa Portuguese Topwines, com o objetivo de levar, para outras latitudes, vinhos produzidos. No âmbito deste negócio lidou, ao longo de alguns anos, com diversas especificidades, como seleção de referências vínicas nacionais, logística, fichas técnicas, compra e venda, e feiras internacionais em Hong Kong, Tóquio, Singapura e Xangai, em prol da produção nacional e com a audácia de colocar de parte o chamado mercado da saudade.
Ao regressar definitivamente ao Alentejo, João Tique decide avançar, em 2019, com o projeto próprio associado ao vinho produzido “como antigamente”, expressão repetida vezes sem conta. A comercialização começou um ano depois. São “vinhos que não se repetem”, garante, assumindo-se como o responsável pelas funções de viticultor de cinco hectares de vinha na Casa do Governador, na Quinta Alta da Queimada, propriedade localizado a norte da cidade de Évora. A composição varietal restringe-se a apenas três castas tintas: Alicante Bouschet, Syrah e Petit Verdot. “Ali só se consegue trabalhar à mão”, continua o produtor, referindo-se às tarefas que envolvem este pedaço de terra, no qual não entram herbicidas. A vindima decorre em outubro, à semelhança do que se fazia outrora. A finalidade consiste em “salvaguardar a qualidade e garantir a longevidade do vinho”, enaltece.
Produto de luxo
A vinificação das uvas tem lugar na Quinta da Plansel, produtor vitivinícola localizado no concelho de Montemor-o-Novo, distrito de Évora. É feita “sem leveduras selecionadas, sem sulfuroso na fermentação e sem correções de acidez ou de cor”, com o intuito de cada vinho deixar transparecer “a expressão mais honesta da terra e do tempo”, declara João Tique, que assegura a própria enologia. “Fui aprendendo a fazer vinho de maneira artesanal”, revela, com os ensinamentos transmitidos pelo Professor Francisco Colaço do Rosário, figura incontornável no mundo dos vinhos alentejanos.
Tratando-se de um projeto pequeno, a produção divide-se num trio de referências, com nomes em latim, em homenagem à era romana da cidade de Évora: Suavis, Bellus e Cultus. O primeiro é atribuído a “vinhos simples, consensuais”, enquanto o segundo é dado aos que se querem “memoráveis”. A produção de ambos restringe-se às cubas de inox, uma vez que João Tique prefere “defender a pureza” das castas. Já os Cultus “primam pela finesse. Têm lá tudo e em nada são exagerados”, esclarece o produtor, e, como “antigamente, as barricas eram utilizadas em vinhos excecionais”, o uso destas é igualmente limitado a esta terceira gama. A produção anual varia muito e a maior de todas foi de 3.000 garrafas.
Mas vamos por partes, até porque a prova realizada num reconhecido restaurante em Lisboa incluiu as gamas Bellus e Cultus. Na degustação entrou o Bellus branco 2024, um DOC Alentejo de curtimenta feito a partir “das uvas do ti João Menino” vindimadas numa vinha de 60 anos, localizada no Redondo. “Tem tudo a ver com os vinhos alentejanos de antigamente”, frisa João Tique. O Bellus Petit Verdot rosé 2024, com uma cor reveladora de grande extração pelicular, também foi incluído na prova, assim como o Bellus tinto 2023, o Bellus Alicante Bouschet tinto 2023, o mais consensual, e o Bellus Syrah tinto 2024, com os taninos ainda bem presentes. Para finalizar, houve o Cultus Grande Reserva Petit Verdot tinto 2021, vinho engarrafado em 2025.
Para João Tique, os vinhos “são um produto de luxo” e “só devem entrar no mercado quando estão no ponto”. Eis os motivos pelos quais se foca, sobretudo, na restauração, mais concretamente em mais de 150 restaurantes do país. O fornecimento é feito por via direta em aproximadamente 90% dos casos.
(Artigo publicado na edição de Março de 2026)
MALHADINHA: Edições especiais à prova

É sabido que no mundo do vinho são muitos os casos de empresas familiares. E não falamos apenas das linhagens seculares com meia dúzia, ou mais, de gerações dedicadas à vitivinicultura e ao negócio do vinho. Falamos também de projetos relativamente novos em que, passadas uma ou duas décadas, é já inquestionável constatar que grande parte da família se encontra, direta ou indiretamente, ligada ao vinho, da produção […]
É sabido que no mundo do vinho são muitos os casos de empresas familiares. E não falamos apenas das linhagens seculares com meia dúzia, ou mais, de gerações dedicadas à vitivinicultura e ao negócio do vinho. Falamos também de projetos relativamente novos em que, passadas uma ou duas décadas, é já inquestionável constatar que grande parte da família se encontra, direta ou indiretamente, ligada ao vinho, da produção ao comércio, passando pelo enoturismo. Mais ainda, referimo-nos a casos em que os valores familiares são de tal modo manifestos, que se projetam nos próprios produtos, funcionando como um atrativo – se a família é unida em torno do vinho, este só pode ser bom! É o caso da família Soares que, mantendo um bem-sucedido negócio de distribuição e venda de vinho, arrancaram, há um quarto de século, um dos mais sólidos projetos no baixo Alentejo.
Ali, bem próximo de Albernoa, freguesia do concelho de Beja, no início do novo milénio, foi fundada a Herdade da Malhadinha Nova (a compra data de 1998), onde a família Soares começou por edificar e recuperar uma casa e um monte, enquanto plantavam dezenas de hectares de vinha. Pouco tempo depois, ergueram uma adega e um restaurante. Com outras estruturas em construção (é o caso da coudelaria, pois os cavalos de raça Puro Sangue Lusitano são outra paixão da família), desbravou-se caminho, com um enoturismo de grande categoria, que não tem parado de receber melhorias com novos edificados – luxuosas casas e vilas – espalhados por vários espaços dos 750 hectares da propriedade alentejana.
Atualmente, o enoturismo divide-se pelo Monte da Peceguina, hotel de charme constituído por três suítes e sete quartos, pela Casa das Pedras, com quatro suítes e piscinas privativas, pela Casa do Ancoradouro, ótima para grandes famílias, graças às suas sete suítes, e pela Casa da Ribeira, com três suítes. É caso para dizer que tantos são os admiradores dos vinhos deste produtor como aqueles que são fãs incondicionais do enoturismo e das experiências disponíveis durante todo o ano. Não espanta, pois, que a Herdade da Malhadinha Nova ostente a prestigiante insígnia da Relais & Châteaux e que a influente editora Assouline lhe tenha dedicado um lindíssimo livro, cujas fotografias procuram fazer jus, não só às paisagens alentejanas, mas também à arquitetura e decoração de interiores deste fantástico enoturismo. A este respeito ainda, realce para o road show que a família Soares começou em janeiro deste ano, precisamente para dar a conhecer o volume da Assouline a seu respeito, passando por Nova Iorque, Palm Beach, Londres, Paris e, claro, Lisboa entre outras cidades do nosso país.
Percurso consolidado
Mas voltemos aos vinhos! Há muito que a enologia é liderada pelo experiente Luís Duarte, que conhece, como ninguém, o Alentejo (onde trabalha há bem mais de 30 anos) e faz dupla como Nuno Gonzalez, enólogo residente na empresa há quase década e meia. Logo no início nasceu a gama de entrada Monte da Peceguina, cuja primeira edição foi em 2003. Atualmente, mantém-se um sucesso nas versões tinto, branco e rosé. Ao mesmo tempo, foi criada uma gama alta, o Malhadinha, nas versões de tinto e branco, com estágio em barrica, que projetavam o produtor para voos mais altos, agora também em versão rosé. Logo na vindima seguinte, em 2004, nasce o primeiro projeto especial, caso do Pequeno João, um vinho intenso, com base na casta Cabernet Sauvignon. Mais tarde, e mantendo sempre designações intrinsecamente familiares, surgiu o Menino António e o MM (iniciais de Mateus Maria) da Malhadinha, que germinaram, respetivamente, nas colheitas de 2008 e 2013.
Durante todo este percurso até hoje, não faltaram vinhos monocasta, brancos e tintos, tanto a partir de castas autóctones, como de castas de outras regiões que se adaptaram ao Alentejo. A este respeito, provámos um branco feito a partir de Manteúdo, da colheita de 2023, um vinho em grande forma e a dar boas indicações do que se pode esperar de novos lançamentos. De tal forma assim o é, que o produtor já plantou três hectares desta casta tradicional, recorrendo ao porta-enxerto antigo, de forma a poder criar um vinho especial no futuro.
Já com uma gama consolidada, precisamente a partir da Herdade da Malhadinha Nova, a família Soares compreendeu que enriqueceria com novos terroirs sem sair da região. Foi o que aconteceu em 2016, com a compra da pequena Courela de Vale Travessos, um vinha velha de 80 anos toda em field blend, e, em 2021, com a aquisição de uma propriedade na Serra de São Mamede, localizada a 700 metros em altitude, também ela com uma vinha em parte em field blend. Destes novos terrois, são produzidos, hoje em dia, vinhos diferentes. Os novos topos de gama Marias da Malhadinha provêm de Vale Travessos, enquando a nova gama Teixinha foi criada para enquadrar e divulgar as uvas de Portalegre. A par com os referidos vinhos, e mais recentemente, surgiu ainda um espumante rosé e um Late Harvest. É, em suma, um mosaico de vinhos que vale a pena conhecer e nós tivemos o privilégio de provar alguns dos novos lançamentos.
(Artigo publicado na edição de Fevereiro de 2026)
Herdade do Sobroso faz parte da Small Luxury Hotels of the World

Localizada na Vidigueira, nome de uma das oito sub-regiões do Alentejo vitivinícola, a Herdade do Sobroso Wine Luxury Hotel & Villas, Turismo em Espaço Rural e produtor de vinhos, acaba de integrar na coleção global Small Luxury Hotels of the World. Trata-se de uma das insígnias internacionais de hotelaria independente de luxo, que coloca a […]
Localizada na Vidigueira, nome de uma das oito sub-regiões do Alentejo vitivinícola, a Herdade do Sobroso Wine Luxury Hotel & Villas, Turismo em Espaço Rural e produtor de vinhos, acaba de integrar na coleção global Small Luxury Hotels of the World. Trata-se de uma das insígnias internacionais de hotelaria independente de luxo, que coloca a Herdade do Sobroso no patamar restrito de hotéis boutique demarcados por “autenticidade, carácter distintivo e elevados padrões de qualidade e serviço”, de acordo com o comunicado.
Integrada numa propriedade vitivinícola de 1.600 hectares, a unidade combina um hotel boutique com villas privadas, rodeadas de vinhas e montado, paisagem acrescida pelo património natural da Serra do Mendro e pelo Lago do Alqueva. No contexto das experiências, somam-se as actividades ligadas ao vinho e a gastronomia tradicional do Alentejo, bem como as novas Vineyard Villas com piscina privativa e do Nature Retreat, com assinatura da arquitecta Maria Ginestal Machado, com o objectivo de proporcionar estadias ainda mais exclusivas.
“Fazer parte da Small Luxury Hotels of the World é um reconhecimento muito relevante para o nosso projecto e para o destino Alentejo”, declara, em comunicado, Sofia Ginestal Machado, CEO da Herdade do Sobroso.
Vinhos do Alentejo na BTL

De 25 de Fevereiro a 1 de Março, os Vinhos do Alentejo marcam presença na BTL – Bolsa de Turismo de Lisboa, a decorrer na FIL – Parque das Nações, em Lisboa, em parceria com a ERT Alentejo e Ribatejo. Esta ação está associada à promoção e à aposta reforçada no âmbito da oferta de […]
De 25 de Fevereiro a 1 de Março, os Vinhos do Alentejo marcam presença na BTL – Bolsa de Turismo de Lisboa, a decorrer na FIL – Parque das Nações, em Lisboa, em parceria com a ERT Alentejo e Ribatejo. Esta ação está associada à promoção e à aposta reforçada no âmbito da oferta de enoturismo na região, através de um programa diversificado em torno do universo de Baco. Para o efeito, foram desenhadas mais de uma dezena de provas de vinho a realizar ao longo dos quatro dias da BTL, algumas das quais contam com produtores da região. Objectivo? Mostrar quão diversa é a produção vínica em tão vasto território vitivinícola.
Afinal, o enoturismo é um dos eixos prioritários do Plano Estratégicos dos Vinhos do Alentejo 2026-2031 da Comissão Vitivinícola Regional do Alentejo (CVRA). Sobre esta matéria Luís Sequeira, Presidente da CVRA, declara o seguinte: “o crescimento sustentado do enoturismo no Alentejo confirma a capacidade do território para oferecer experiências autênticas e diferenciadoras, cada vez mais valorizadas pelos visitantes, sendo a presença na BTL, em parceria com o Turismo do Alentejo e Ribatejo, uma oportunidade estratégica para reforçar o nosso posicionamento como um destino onde o vinho se afirma como porta de entrada para a cultura, a paisagem e a identidade do território.”
Eis o ponto de partida para rumar ao Alentejo, com o intuito visitar vinhas, adegas e caves, provar vinhos, participar em workshops e cursos dedicados ao vinho, deixar-se levar nas sessões de vinoterapia, fazer passeios pedestres, de bicicleta e a cavalo pelas vinhas, entre outras experiências que incitam a partir à descoberta.
HERDADE DO MONTE DA RIBEIRA: O mosaico vivo da Vidigueira

A Herdade do Monte da Ribeira, à qual foi, posteriormente, anexada a Herdade do Farrobo, constitui uma área total de 1100 hectares, localizados em Marmelar, na Vidigueira, sub-região do território vitivinícola do Alentejo. Este número está distribuído pela serra do Mendro, com 600 hectares, o olival, com 210, e a vinha, com 43, entre outras […]
A Herdade do Monte da Ribeira, à qual foi, posteriormente, anexada a Herdade do Farrobo, constitui uma área total de 1100 hectares, localizados em Marmelar, na Vidigueira, sub-região do território vitivinícola do Alentejo. Este número está distribuído pela serra do Mendro, com 600 hectares, o olival, com 210, e a vinha, com 43, entre outras zonas que compõem a manta de retalhos desta enorme extensão de terra. Há uma imensa paisagem a explorar na companhia de Mariana Carmona e Costa, diretora agrícola e oleóloga da Casa Agrícola HMR, e descendente da família proprietária, Nuno Elias, enólogo e diretor de produção, e António Maria Aleixo, responsável pela produção agrícola. A Casa Agrícola HMR, à qual pertence esta propriedade, faz parte da Fundação Carmona e Costa.
A introdução é feita por Nuno Elias, que começa por explicar a origem da referida extensão de montanhas, que se prolonga no lado norte da propriedade. “É uma zona de encontro de mini falhas tectónicas, que deram origem a esta elevações, com cerca de 400 metros de altitude e é nesta correnteza que está a barragem do Alqueva.” A serra do Mendro forma uma barreira natural que impede a passagem do vento, situação benéfica para a vinha, uma vez que “a junção de temperatura alta com a deslocação do ar seca tudo”, explica o nosso cicerone. Mesmo no verão, quando o termómetro regista altas temperaturas, “mesmo que haja aqui uma nortada, ela não entra. Então, só temos calor e forma-se uma humidade natural relativa matinal, mas como não há deslocação de ar, mantém-se e as cepas sofrem menos”, afirma o enólogo. No inverno, os nevoeiros tomam conta da paisagem até perto das 10h00. “Felizmente, isso já não é comum a partir do ciclo da planta, a partir de maio. Portanto, temos boas condições para que não se formem tantos fungos nas plantas”, continua Nuno Elias.
A respeito do míldio, a escassez de chuva no Alentejo durante o período vegetativo é vantajosa. “No caso do oídio este precisa de mais humidade relativa aqui existem condições matinais que são propícias e necessitam de um acompanhamento mais efetivo”, informa. Em contrapartida, as chuvas registadas na primavera deste ano de 2025 deram origem a condições favoráveis à vinha, “quer ao nível da hidratação, reposição de trabalho de campo, como lhe chamamos, quer ao nível das pragas. Não se previa que o efeito das chuvas fosse tão benéfico”, reforça Nuno Elias, já que abundância pluvial suprimiu a reprodução da cigarrinha e do aranhiço, dois inimigos das plantas.
António Maria Aleixo, responsável pela produção agrícola, Mariana Carmona e Costa, directora agrícola e oleóloga, e Nuno Elias, enólogo e director de produção.
Eficiência hídrica
São três as barragens da Herdade da Ribeira do Monte, as quais favorecem a autonomia na rega. Este passo foi dado após a compra desta propriedade alentejana por Vítor Carmona e Costa, fundador da atual Casa Agrícola HMR – então Companhia Agrícola de Desenvolvimento – e tio-avô de Mariana Carmona e Costa. A estreia aconteceu com a barragem de Marmelar, construída no curso da ribeira de Marmelar, com localização próxima à adega. Possui uma bacia de 50 km2.
Numa quota de 100 metros situada na outrora Herdade do Farrobo, está outra barragem, que “raramente atinge a quota máxima”. Próximo do limite da propriedade está a Barragem dos Patos. Funciona quase como reserva e não raras vezes, a partir de meio de setembro, quando surge a ameaça da escassez das chuvas, é necessário recorrer a esta para regar o olival. O transvase de água efetuado de umas barragens para as outras é efetuado através da energia produzida pelos painéis solares. “Neste momento, as restantes barragens são complementares e isso permite-nos ter autonomia entre os 80% e os 90% em área de regadio, isto é, para a vinha e para o olival”, elucida a nossa anfitriã.
“A chuva faz a diferença na agricultura”, pronuncia-se Nuno Elias, para quem “um fruto que seja acompanhado com hidratação durante o período do amadurecimento tem mais qualidade do que o fruto que ficou à míngua do amadurecimento”. Mariana Carmona e Costa acrescenta as vicissitudes inerentes à competição existente entre a cobertura do solo com a videira em anos de um menor registo de pluviosidade. Nos anos em que chove, essa luta é inexistente, mas impera o corte quase sucessivo da cobertura, “devido à quantidade de água da chuva no solo, que fez com que cresça em demasia”.
Por outro lado, face às temperaturas muito altas associadas a solos pobres e a secas cíclicas, o envelhecimento prematuro das videiras tem vindo a tornar-se um problema. Segundo Nuno Elias, a rega, mesmo gota a gota, adia esta realidade. A água permite que se mantenham “vivas durante a hibernação, que vai até março, e tenham energia para refazerem a sua camada foliar. Para manter uma empresa ativa e lucrativa, temos um ponto de substituição, daí já não termos plantas tão antigas.” A vinha plantada inicialmente, em finais da década de 1980, foi convertida. A vinha mais velha data de 1998. “Se o Alentejo não estiver na região produtora de vinhos mais extrema, está perto!”
Solos diferentes
“Apesar de não ter uma altitude considerável”, a serra do Mendro “deu origem a tipos de solos diferentes”, continua Nuno Elias. De acordo com o enólogo, alguns solos contêm magma e muitos minerais na composição. “Temos manganês fora da escala e o manganês é antagonista do potássio. Por isso, há que ter cuidado com algumas castas. Com o tempo, conseguimos lidar com estas especificidades dos solos que aqui temos.” Por outro lado, os solos são maioritariamente pobres, característica que compromete o aporte nutricional das plantas. Como consequência, “praticamente todo o nosso encepamento produz pouco”.
A contraposição a este cenário acontece na Vinha do Pivot, de 15 hectares, localizada no sopé da serra. Chama-se assim, “porque existia ali um pivot de milho de 30 hectares, que posteriormente se dividiram, em partes iguais, em vinha e em olival”, expõe. É composta por solos de aluvião, com argila ali depositada graças à erosão dos solos da serra do Mendro. “É um solo mais rico, mais fértil e a vinha tem mais vigor. Temos boa capacidade de campo, porque, quando chove, a água fica retida e fica disponível por mais tempo para as plantas”, sublinha.
A Vinha do Farrobo, de oito hectares e cujo nome que se deve Herdade do Farrobo, a segunda propriedade adquirida e anexada à Herdade do Monte da Ribeira, apresenta “uma espécie de solo intermédio”, com calhau rolado e “algum aluvião”, o que leva Nuno Elias a considerar que, em tempos, a ribeira de Marmelar, um afluente do rio Guadiana, passou por ali. “É um solo bastante permeável e com boa drenagem”, destaca. O solo muito pobre está na área da vinha mais velha, submetida a várias replantações. “Era terra de azinho, de difícil trato, daí a opção por várias técnicas de campo, como coberturas, enrelvamentos”, revela o enólogo.
Mudanças, ensaios e perseverança
Sobre as castas, Nuno Elias refere os momentos mais marcantes, ao longo dos quais o fator qualidade é determinante. O primeiro ocorre no final da década de 1980, com a estreia da vinha sob recomendação da Direção-Geral da Agricultura. Segundo António Maria Aleixo, esta cultura ocupa, inicialmente, 50 hectares. “Estavam divididos ao meio, com as castas tintas no lado esquerdo e as brancas no lado direito”.
As castas eleitas para a vinha inicial eram comuns ao Ribatejo e Alentejo, como as tintas Castelão, Aragonez e Trincadeira. Quanto às brancas, a aposta recai nas variedades locais, como Antão Vaz, Tamarez, Trincadeira das Pratas, Alicante Branco. A enologia fica nas mãos de João Portugal Ramos e são plantadas a Cabernet Sauvignon, a Arinto e a Alicante Bouschet. Mantém-se um rácio de 80% de castas autóctones, com a Alfrocheiro, a Trincadeira, a Moreto e a Aragonez, nos tintos; a Tamarez, a Antão Vaz e a Roupeiro, nas brancas. Introduzem-se algumas experiências, como a Cabernet Sauvignon, um caso de sucesso, e a Riesling. Esta “não vingou, porque o clima era demasiado seco, o que interferia na acidez natural da casta. Foi convertida a Arinto”, reforça o enólogo. Entretanto, na década de 1990, a adega é construída de raiz e equipada com o sistema de operações por gravidade. “Foi muito pioneira na altura e por aconselhamento de João Portugal Ramos”, reforça Mariana Carmona e Costa. Com a passagem do tempo, são incluídas novas máquinas, para dar resposta às exigências de cada fase. António Maria Aleixo ingressa na equipa em 1998 e, no ano seguinte, é a vez de Nuno Elias entrar no universo da Casa Agrícola HMR.
Por volta do ano 2010, a administração da Fundação Carmona e Costa transita para os sobrinhos de Vítor Carmona e Costa e Maria da Graça Carmona e Costa. É registada a admissão de Luís Duarte, que ainda hoje assume a função de enólogo consultor. O encepamento é submetido a ajustes. Nas castas brancas, à Antão Vaz, Roupeiro e Arinto, junta-se a Alvarinho e a Verdelho; nas tintas, aumentam, gradualmente, a área da Alicante Bouschet, “que se tem revelado muito interessante em anos quentes”, salienta Nuno Elias. Mantém-se a Cabernet Sauvignon, plantada em 1998.
No âmbito das experiências positivas, Nuno Elias enaltece a Petit Verdot. Plantada em 2011, confere longevidade ao vinho tinto. “No Alentejo, os vinhos tintos têm uma tendência de iniciarem a sua vida logo muito macios, porque a maturação é mais extensa ou, às vezes, vão para a sobrematuração, e os taninos ficam logo muito maduros. Se o vinho é totalmente bebível em novo, cedo vai cair o potencial de guarda elevado. Por isso, precisamos de castas que, no início, tenham um tanino fino, mas domável, e que esteja lá mais tarde. A Petit Verdot foi uma das castas que melhor triunfou neste contexto e é usada em 30% ou 40% em lotes com estágios”, esclarece. Aqui, dá como exemplo o Marmelar tinto, referência topo de gama do portefólio vínico da casa.
Sub-região de brancos
Nos encepamentos mais recentes da Herdade do Monte da Ribeira, constam a Sousão e a Tinta Miúda. A respeito da primeira, há uma parcela de vinha denominada Ensaio 1, pois “é preciso perceber como a casta se comporta neste terroir e também verificar se, agronomicamente, se torna ou não um problema”, adianta Mariana Carmona e Costa. Em relação à segunda, o enólogo denota otimismo relativamente “ao comportamento da planta e ao resultado da vinificação. Portanto, o futuro trará novidades para mostrar”.
Apesar das castas tintas ocuparem a vinha em 75%, Nuno Elias está convicto de que a sub-região da Vidigueira apresenta condições especiais para vinhos brancos. O destaque vai para a Antão Vaz. “Embora seja um fruto que, analiticamente, não é muito interessante, porque carece de acidez, depois, expressa uma série de características no copo, as quais dificilmente se consegue obter com outras castas.” Ao volume de boca, o enólogo aponta a consistência, de ano para ano, desta variedade, mesmo sob as oscilações térmicas. “Não é uma casta para os mais fracos, já que, muitas vezes, se chega a meio da vindima e regista 10 graus. É preciso que a fase final do ano agrícola seja favorável, ou seja, que não chova até meados de setembro, para que a maturação se complete.”
Não obstante a tipicidade da Antão Vaz, a Arinto é muito importante no encepamento da Herdade do Monte da Ribeira. Representa sucesso, quer a solo, quer em lote com a casta-rainha da Vidigueira, devido à acidez que lhe é característica. A Alvarinho, uma das favoritas do enólogo, porque dá corpo a vinhos longevos, também entra nesta linha, embora produza metade das demais brancas. Em suma, “prevejo que, para bons casos de sucesso, esta região mantenha a Antão Vaz sempre presente, para manter a sua identidade, mas sempre com uma casta nobre, que a ajude, de forma a chegar ao mercado de forma consistente.”
A terceira fase da Casa Agrícola HMR está a dar os primeiros passos num momento controverso para o universo do vinho. “É tudo volátil, cíclico. O que hoje é bom, amanhã muda. Estamos num mercado que depende de gostos, que é de modas. Durante 20 anos, falamos da passagem de brancos para tintos. Agora, passamos de tintos para brancos. É preciso entrar numa constante mudança. Ao mesmo tempo, é necessário ter os pés bem assentes na terra, porque o que estamos a fazer mal agora, a seguir vai estar bem”, reflete Nuno Elias.
A vindima e o vinho
A Casa Agrícola HMR é um bom exemplo de vitivinicultor: possui vinha e produz vinho com uvas próprias na adega da Herdade do Monte da Ribeira, onde é engarrafado. A vindima é manual e mecânica. “Curiosamente, estamos muito satisfeitos com os resultados da vindima mecânica, que nos permite fazer 100% vindima noturna, com temperaturas de chegada à adega muito inferiores à da vindima diurna, e é mais rápida”, confessa Nuno Elias. Em cerca de 15 minutos, a matéria-prima colhida na vinha está no tegão. “As uvas são descarregadas, desengaçadas, passam pelo permutador, para arrefecer até aos 10 graus, sejam brancas ou tintas e nenhum vinho leva engaço.”
Na gama de entrada, a Pousio Selection, constituída por branco, tinto e rosé, Nuno Elias destaca este último, uma vez que é feito a partir de mosto de lágrima de uvas tintas. Esta segue para as cubas de inox, onde é submetida, por um mês, a bâtonnage. “É 100% seco, tem zero açúcar residual e é muito gastronómico. Embora seja gama de entrada, este rosé é equivalente a muitas altas gamas”, revela o enólogo. Os Pousio Reserva branco e tinto são caracterizados pelos estágios em madeira, respectivamente, de seis e 12 meses. Os lotes são feitos após a prova final.
As edições limitadas, composta por varietais e lotes, resultam de “um Alicante extraordinário” da colheita 2020, conhecido por Parcela 98, que desperta a atenção para outras variedades de uva. É o caso da Arinto, elaborada a solo para um vinho branco, bem como a dar corpo a um lote, ao lado da Alvarinho. A Touriga Nacional e a Syrah são tidas, igualmente, em consideração na versão monocasta.
Fora da gama Pousio, está a “super-premium” Marmelar, nome eleito “em homenagem à terra onde está a propriedade”. São um branco e um tinto “muito especiais”, remata Nuno Elias.
Do olival tradicional à sebe
A compra da Herdade do Monte da Ribeira ocorre a 8 de agosto de 1986 e a Herdade do Farrobo é adquirida no princípio da década seguinte, por Vítor Carmona e Costa, tio-avô de Mariana Carmona e Costa. “Era um agro-industrial com uma paixão enorme pela terra. Costumo dizer, por brincadeira, que a propriedade é o prolongamento da horta que tinha na casa de Alcabideche”, no concelho de Cascais. A partir de então, refugia-se na herdade juntamente com a mulher, Maria da Graça Carmona e Costa, “uma apaixonada e uma expert em arte contemporânea em Portugal. Foi mecenas da arte no país”. Os sobrinhos são igualmente bem-vindos, sobretudo no verão.
Ainda a vinha não estava plantada, já o olival tradicional de sequeiro da Herdade do Monte da Ribeira, com cerca de 110 hectares e composto por muitas árvores milenares, mostra o seu vigor. As variedades são, maioritariamente, Galega, além de Bico de Corvo, “mix entre o Zambujeiro e a Galega, meio alongada e não se retira muito azeite”, em conformidade com a nossa anfitriã, e Verdeal. Em 2000, chega a vez da plantação do olival intensivo de regadio, um total de 76 hectares, “com, maioritariamente, Cobrançosa e apontamentos de Cordovil e Picual”. O olival de sebe de Arbequina foi plantado em 2003 e 2008, correspondendo a uma área de 24 hectares. “Está distribuído por duas parcelas: na Herdade do Monte da Ribeira, com 14 hectares, e na Herdade do Farrobo com 10 hectares”, afirma Mariana Carmona e Costa. Esta decisão é tomada com base no aumento da capacidade de armazenamento de água, o qual se deve às barragens existentes na propriedade.
Eis o outro mundo de Mariana Carmona e Costa, profunda conhecedora de todos os recantos da propriedade, serra do Mendro inclusive, onde estão dispostos dois apiários de um apicultor de Moura. “Em troca, recebemos uma parte do mel de rosmaninho por ano.” Em 2003, começa a pós-graduação em olivicultura, azeitona e azeitona de mesa, no Instituto Superior Agrónomo, de Lisboa, já depois de terminar a formação em viticultura e enologia na Universidade de Évora.
A par com o sucessivo aumento da área total de olival, hoje com 210 hectares, passam de produtores de uva, para produtores de azeite e azeitona vendidos a granel. Quando se apercebe do potencial do produto, a nossa anfitriã questiona sobre a eventual feitura de um lote deste líquido dourado. O nome? Pousio, predominante no portefólio vínico da casa. O lote experimental sai em 2013. Três anos depois, avança para o mercado, com o Pousio Premium e, em 2019, surge o Pousio Clássico. A empresa aposta forte na venda do azeite embalado num garrafão escuro, com capacidade de três e cinco litros. Em 2022, aparece Pousio Homenagem Oliveiras Centenárias, aquando do projeto Olivares Vivos, que incide na atribuição do certificado europeu face ao compromisso dos olivicultores a respeito da preservação da biodiversidade. Todo o azeite é extra virgem.
Líquido dourado
Antes da produção, é efetuada a monitorização das amostras de todas as variedades de azeitona. O objetivo é “avaliar o teor de matéria seca, a gordura e a humidade, para vermos se estão no ponto”, informa Mariana Carmona e Costa, que permanece muito tempo no campo, contando com o desempenho de António Maria Aleixo. A campanha começa com a apanha da Arbequina dos olivais em sebe, a qual demora cinco dias. A Galega também é colhida muito cedo, em outubro, para obter uma azeitona mais verde e com sabores “a frutos secos, como a amêndoa, mais amargos”. No geral, conseguem-se “notas mais positivas nos nossos azeites e também temos mais a certeza que têm uma acidez mais baixa. Quanto mais tarde é a apanha, maior é o grau de acidez”, assegura a nossa anfitriã. Morosa, a campanha termina entre dois meses e os dois meses e meio, com a Cordovil, a Cobrançosa e a Picual, pelo meio, concluindo com as parcelas de Verdeal do olival de sequeiro.
O transporte adequado e assegurar as condições do lagar são imperativas em prol da produção de um azeite de qualidade. O lagar está na Vidigueira, para onde são levadas por variedade. A extração do azeite é feita a frio. Depois “fica tudo separado por depósitos por variedades e por zonas da propriedade. Mesmo dentro das Arbequinas, separamos as das duas parcelas, porque conferem particularidades diferentes às azeitonas”, garante. Segue-se a prova sensorial de todos os depósitos, com o diretor de lagar e o mestre lagareiro. Traçados os perfis, Mariana Carmona e Costa avança para os blends. A média anual é de aproximadamente 800 toneladas.
“Equiparo o azeite ao sumo de laranja, em que o ponto ótimo é o momento da extração. A partir daí, vai perdendo, a pouco e pouco, as propriedades, ao contrário da maior parte dos vinhos. Por isso, é importante preservar o azeite da melhor maneira, em local escuro”, aconselha. Estes cuidados permitem minimizar a degradação do azeite, produto “rico em antioxidantes, em polifenóis e clorofila”. A estas recomendações, Mariana Carmona e Costa soma a importância da literacia ligada ao azeite. É crucial “que as pessoas experimentem azeites de norte a sul, porque o clima muda muito, as terras mudam muito, para verem o que mais gostam com determinados pratos e, acima de tudo, educarem os filhos, porque é uma gordura super saudável”
Ao contrário do vinho, o negócio do azeite revela maior desperdício, daí que o custo de produção seja maior. A seleção do recipiente é igualmente relevante, pois há que preservar o produto. Uma embalagem bonita chama a atenção, sobretudo para oferecer, mas convém que se esteja ciente da durabilidade do azeite, ou não fosse o extra virgem ideal para finalizar um prato: “o mais intenso, para a massa ou um gaspacho, o mais plano, para peixe de mar fresco, assado no forno, e os mais picantes para a batata, o queijo fresco de cabra ou a salada.”
Regeneração e biodiversidade
“Temos um mosaico e uma diferenciação bastante grande” na propriedade, tal como se comprova do alto do miradouro da serra do Mendro, virado para a Herdade do Monte da Ribeira, onde o rio Guadiana corta e planície deste Alentejo quase sem fim. Mariana Carmona e Costa quer preservar este património da melhor maneira, para “deixar, às futuras gerações, melhor do que encontramos aqui, quando viemos para aqui trabalhar”.
A transição para a agricultura de sustentabilidade com práticas regenerativas marca a nova era da Herdade do Monte da Ribeira, para tornar os solos mais resilientes e de modo a evitar a erosão. A introdução do rebanho de ovelhas, prática iniciada há quatro anos, é outra das práticas com resultados positivos, assim como a utilização de maquinaria adequada a esta iniciativa. Ao mesmo tempo, “é preciso manter o ecossistema, preservar o mosaico que temos em prol da qualidade, temos olival, vinha, zonas de mato, de azinho, caça, a serra, linhas de água”, enumera António Maria Aleixo. A flora e a fauna do Mendro estão a ser analisados, com o apoio de consultores, a favor da biodiversidade.
O desvelo estende-se aos trabalhadores do campo. “Tentamos ter, ao máximo, pessoas das aldeias vizinhas e priorizar os filhos e as famílias, para lhes darmos trabalhos a eles, mas as gerações mais novas não querem trabalhar no campo, os mais velhos estão a reformar-se e os pais não querem os filhos a trabalhar na agricultura. Somos forçados a recorrer a prestações de serviço. Estamos num momento de viragem”, remata a nossa anfitriã.
(Artigo publicado na edição de Novembro de 2025)
TINTOS DO ALENTEJO: A plenitude de uma região

O Alentejo estende-se da fronteira com Espanha até à Costa Vicentina, desce a Serra de São Mamede, em Portalegre, e propaga-se até ao Algarve. A região, amplamente banhada pelo sol, é moderada por influências marítimas no litoral e pela continentalidade no interior, proporcionando amplitudes térmicas diárias. Apresenta a maior diversidade de solos do país – […]
O Alentejo estende-se da fronteira com Espanha até à Costa Vicentina, desce a Serra de São Mamede, em Portalegre, e propaga-se até ao Algarve. A região, amplamente banhada pelo sol, é moderada por influências marítimas no litoral e pela continentalidade no interior, proporcionando amplitudes térmicas diárias. Apresenta a maior diversidade de solos do país – xistosos, graníticos, argilosos e arenosos, sobretudo –, o que se reflete diretamente no perfil dos vinhos. Portanto, é natural que revelem expressões muito diferentes.
Da herança romana à excelência atual
Habituamo-nos a pensar que o Alentejo é uma região vitivinícola recente, porque confundimos o boom de crescimento com a história do próprio território, que já vai longa. O cultivo da vinha remonta à época romana, como comprovam vestígios arqueológicos encontrados na região, entre eles, grainhas de uva nas ruínas de São Cucufate, localizadas junto à Vidigueira, e antigos lagares atribuídos a esse período. As talhas de barro usadas para fermentar e conservar o vinho também são uma herança romana na região.
O Alentejo viveu várias épocas de ouro e crises profundas: a invasão muçulmana; a aposta do Marquês de Pombal no desenvolvimento do Douro; a praga de filoxera; a primeira guerra mundial e a campanha cerealífera do Estado Novo.
Embora já existissem as referências emblemáticas de Mouchão, Tapada do Chaves, Quinta do Carmo ou José de Sousa, o verdadeiro impulso dos vinhos alentejanos deu-se nas duas últimas décadas do século passado, com a demarcação da região em 1988/89. As grandes marcas, que então surgiram, conquistaram o consumidor através dos vinhos redondos e macios, com fruta madura, muita presença e consistência.
Em 1985, nasceu a marca Esporão. A empresa também viria a ser pioneira no enoturismo, abrindo as portas ao público em 1997. A Fundação Eugénio de Almeida lançou, por sua vez, duas marcas representativas do Alentejo: Cartuxa (1986) e Pêra-Manca (1990). Ambas alcançaram grande sucesso em Portugal e no Brasil, e não só mantiveram a fama, como se tornaram clássicas, competindo, hoje, lado a lado, com as novas estrelas em ascensão.
Na década de 90 aconteceram mudanças significativas no estilo de vinhos alentejanos, com a contribuição de dois grandes enólogos: João Portugal Ramos, que iniciou depois o próprio projecto, e o australiano David Baverstock, que assumiu a responsabilidade de enologia no Esporão em 1992. Antigamente, os vinhos alentejanos ou não passavam por madeira, ou estagiavam em vasilhas usadas, normalmente barricas de 500 litros ou tonéis de maior capacidade. Utilizava-se, sobretudo, carvalho português e, por vezes, até castanho. Com estes dois enólogos, introduziu-se o uso de madeira nova e de meias barricas de carvalho francês e americano. Os vinhos tornaram-se mais estruturados e texturados, com notas de especiaria e a doçura subtil da madeira.
Na primeira década de 2000, surgiram, entre muitos outros produtores, a Herdade do Rocim, a Fitapreta e a Herdade da Malhadinha, que actualmente estão bem consolidados e são amplamente reconhecidos.
Habituamo-nos a pensar que o Alentejo é uma região vitivinícola recente, porque confundimos o boom de crescimento com a história do próprio território, que já vai longa
Investimento na terra
As características do Alentejo e o sucesso junto do consumidor motivaram produtores de outras regiões e até empresários estrangeiros a investir neste território vitivinícola. Apenas alguns exemplos: em 2010, o casal suíço Erika e Thomas Meier adquiriu a Herdade da Cardeira, localizada a Norte de Borba; em 2015, o casal brasileiro Alberto Weisser e Gabriela Mascioli comprou a histórica Tapada de Coelheiros, em Arraiolos; empresário alemão Dieter Morszeck investiu na Quinta do Paral, na Vidigueira, onde reabilitou e ampliou a vinha existente, e comprou parcelas com mais de 70 anos, na zona de Vila de Frades; David Baverstock, em parceria com o empresário inglês Howard Bilton, inaugurou a adega Howard’s Folly, em Estremoz.
Nos últimos cinco a oito anos, produtores do Douro, cientes do potencial do Alentejo, começaram a investir na região. Foi o caso da Symington Family Estates que, em 2017, expandiu as operações para o Alentejo, dando início ao projecto da Quinta da Fonte Souto, em Portalegre, com 43 hectares de vinha entre os 490 e 550 metros de altitude. No mesmo ano, a empresária Luísa Amorim, responsável pela duriense Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo e pela Taboadella, no Dão, com o cunho pessoal e familiar, fez renascer a Herdade da Aldeia de Cima, na Serra do Mendro, junto à Vidigueira. Em 2021, António Boal, conhecido pelos vinhos do Douro e de Trás-os-Montes, expandiu a Costa Boal Family Estates para o Alentejo, através da aquisição da Herdade dos Cardeais, perto de Estremoz. Na mesma época, o enólogo duriense Manuel Lobo uniu duas propriedades da família sob a marca Lobo de Vasconcellos Wines.
As sub-regiões do Alentejo: 8 + 1?
A Denominação de Origem Alentejo inclui oito sub-regiões oficialmente reconhecidas: Borba, Évora, Granja-Amareleja, Moura, Portalegre, Redondo, Reguengos e Vidigueira. Contudo, há um território que reúne todas as condições para se tornar a nona sub-região: Beja. Numa área tão vasta e diversa em solos, relevo e clima como o Alentejo, esta possibilidade não é de todo improvável.
Nos arredores de Beja, faz-se vinho há mais de mil anos. Porém, durante o Estado Novo, os agricultores foram obrigados a dedicar-se ao cultivo do trigo, tornando este distrito o principal produtor de cereal do país. Entretanto, à volta de Beja nasceram projectos de referência, com volumes de produção interessantes, consistência na qualidade, notoriedade e forte aposta no enoturismo, contribuindo para o novo dinamismo vitivinícola da zona. Referimo-nos à Herdade da Malhadinha Nova (1998), Santa Vitória (2002), Herdade dos Grous (2004) e Herdade da Mingorra (2004), que já atingiram massa crítica suficientes para justificar a criação de uma nova sub-região DOC no Alentejo.
Segundo os dados mais recentes do IVV, a Alicante Bouschet assumiu a liderança no Alentejo, com 17,6% da área plantada
Alicante Bouschet e Co.
Aquando da demarcação da região, a área de vinha do Alentejo registava 11 510 hectares. Desde então, não parou de crescer, atingindo, em 2014, 26 066 hectares. Não há dúvida de que hoje a Alicante Bouschet define a identidade dos vinhos alentejanos, especialmente quando falamos de topo de gama. A casta, de origem francesa, chegou a Portugal no final do século XIX. Pela sua longa história e méritos comprovados, conquistou a “cidadania” na região, onde tem mais tradição do que no país de origem.
Segundo os dados mais recentes do IVV, a Alicante Bouschet assumiu a liderança no Alentejo, com 17,6% da área plantada, ultrapassando a Aragonez, que ocupa, agora, o segundo lugar, com 17,2% (embora nos cadastros da Comissão Vitivinícola Regional Alentejana, esta variedade ainda surja em primeiro, devido a um método de contagem diferente).
Produz generosamente, ultrapassando, facilmente, 15 toneladas por hectare, obrigando a controlar a produção (através da poda curta e monda em verde) entre as sete e oito toneladas por hectare, no máximo, para preservar a identidade. Amadurece tarde, mas a maturação completa é de extrema importância, porque tem película e polpa rica em compostos fenólicos. Não estando bem madura, exprime rusticidade, taninos duros e notas vegetais. Plantada no sítio certo, com produção controlada e ao atingir o ponto óptimo de maturação, revela a essência mais nobre: concentração, volume de boca, força, elegância e longevidade. A intensidade corante é o cartão de visita, já que se trata de uma casta tintureira (com polpa corada). Contribui com isto tudo no lote e não se intimida a solo. Só nesta prova de 36 vinhos, a Alicante Bouschet marcou presença em 25, dos quais três são monovarietais.
Líder nacional em área plantada, a Aragonez também está omnipresente no Alentejo. Confere grande estrutura tânica, mas peca por falta de acidez, sendo combinado, geralmente, com castas que entreguem outras qualidades ao lote. As parceiras mais frequentes são Trincadeira, Alicante Bouschet, Touriga Nacional e, por vezes, Cabernet Sauvignon.
A Trincadeira ainda ocupa o terceiro lugar em área plantada, mas não goza da popularidade de outrora, estando em franco declínio. É uma casta antiga, referida desde 1711, e uma das mais tradicionais do Alentejo. Gosta de condições quentes e preserva bem a acidez, mas apresenta algumas vulnerabilidades. Os cachos compactos, combinados com uma película fina e frágil, tornam-na susceptível às podridões. Além disso, a película não a protege do calor excessivo, fazendo com que os bagos se desidratem, enquanto chuvas abundantes podem fazer os bagos inchar e rebentar. Paulo Laureano descreve-a com carinho: “É uma casta muito feminina: se fizermos tudo bem, cada pequena coisinha, ela é extraordinária; se nos enganarmos numa coisa insignificante, é um desastre.” A Trincadeira continua a ter um papel importante nos lotes tradicionais do Alentejo, frequentemente em parceria com Aragonez e Alicante Bouschet. Aromaticamente, apresenta notas vegetais, herbáceas e apimentadas, para além da fruta.
A Syrah é a quarta casta mais plantada neste vasto território e continua em expansão. Há 35 anos, praticamente ninguém a conhecia e não constava na lista das castas autorizadas da região. Entrou “incognitamente” nos encepamentos e nos vinhos alentejanos pela Cortes de Cima, em 1991, e logo conquistou a atenção e o entusiasmo. Hoje, é uma das paixões gerais dos produtores e consumidores da região.
Para a Touriga Nacional, o Alentejo não é o habitat de eleição, mas a maturação longa traz vantagens na adaptação ao clima regional. Suporta bem a seca, mantendo os bagos túrgidos. Aromaticamente expressiva, é muito apreciada nos lotes, embora, por vezes, se torne um pouco dominante.
Há outra casta do Norte que conquista cada vez mais adeptos na região: Touriga Franca. De ciclo longo, adaptou-se bem às condições alentejanas: não perde folhas basais durante a seca e apresenta bom desempenho tanto em lotes, como em vinhos monovarietais, nos anos mais favoráveis. Nesta prova, esteve presente um monovarietal de Touriga Franca da Plansel.
A Castelão, casta tipicamente alentejana dos tempos passados, tem vindo a perder, literalmente, terreno, e a Cabernet Sauvignon, que chegou ao Alentejo antes da Syrah, nunca atingiu o mesmo protagonismo, mantendo-se relativamente estável nas plantações. Esperava-se que, por ser tardia, se adaptasse ao calor da região, mas o clima é demasiado quente para a casta. O enólogo e produtor Hamilton Reis explica que a Cabernet Sauvignon passa rapidamente “de carácter vincadamente verde a sobremaduro”. Na primeira situação, “os taninos mostram dureza e amargor” e, na segunda, “ficam flácidos e com doçura”, comprometendo o equilíbrio. Pedro Batista, da Fundação Eugénio de Almeida, acrescenta que a célebre casta francesa no Alentejo não apresenta consistência, produzindo “vinhos extraordinários dois anos em cada dez”.
Mais duas castas francesas procuram, no Alentejo, condições melhores do que as da sua origem: Petit Verdot e Petite Sirah. A primeira é uma variedade de ciclo longo e muito tardia, que precisa de sol para amadurecer os taninos; em Bordeaux, não teria qualquer hipótese para brilhar, mas, na referida região portuguesa, encontrou o clima favorável. A segunda, Petite Sirah, sinónimo da casta francesa Durif, foi criada, no século XIX, por François Durif, a partir do cruzamento de Syrah com Peloursin Noir. Quase desapareceu em França, mas alcançou grande sucesso na Califórnia e está presente em alguns países do Novo Mundo. No Alentejo, já começa a afirmar-se, superando castas como Tinta Caiada, Tinta Miúda e Tinta Grossa. Amadurece relativamente tarde e revela preferência por climas quentes e secos. Com cachos compactos e bagos pequenos de casca espessa, rica em antocianinas, produz vinhos muito concentrados e estruturados.
Entramos agora nas castas de nicho. Algumas já tiveram grande representatividade na região, mas, agora, estão fora de moda. A Moreto é uma casta antiga, presente no Alentejo desde o século XIX. Vigorosa e bastante produtiva, revela melhor o carácter quando provém de vinhas mais velhas ou é implantada em solos pobres, onde o vigor e a produtividade são naturalmente controlados. É rústica e muito resistente ao calor, o que explica a sua presença histórica na região, acima de tudo nas zonas mais quentes. Amadurece lentamente e tarde, sendo uma das últimas a ser vindimada, mas nunca atinge teores de álcool elevados. Aromaticamente, não é muito intensa, apresentando fruta vermelha delicada e tem vocação especial para vinhos de talha, mas raramente entra nos topos de gama.
A Alfrocheiro é uma das variedades mais antigas de Portugal. Progenitora de Moreto, Castelão e muitas outras castas, é uma casta muito produtiva, se não for controlada, delicada e tem capacidade para produzir vinhos entusiasmantes. Normalmente, entra nos lotes e raramente chega aos vinhos topo de gama. Nesta prova, esteve presente em dois vinhos provenientes de vinhas velhas: Vinhas da Ira, da Mingorra, e Os Paulistas Chão dos Eremitas, de António Maçanita.
A Tinta Caiada é originária do Nordeste de Espanha, onde é conhecida como Parraleta. Em 1900, Cincinato da Costa descrevia-a, na obra O Portugal Vinícola, como “uma casta de grande produção e rendimento, cultivada em larga escala no Alentejo e geralmente apreciada por dar muito vinho”. Referia ainda que “acomoda-se a todos os terrenos, não chegando, no entanto, a amadurar bem nos terrenos baixos e húmidos”. A casta terá recebido o nome Tinta Caiada, devido ao “enfarinhado abundante” que reveste os bagos, lembrando uma poeira branca. Actualmente, são poucos os produtores a apostar nesta variedade, destacando-se a Herdade da Cardeira, a Adega Maior e João Portugal Ramos, nos quais assume protagonismo em vinhos monovarietais.
A Tinta Miúda (conhecida por Graciano, em Espanha, tem muito mais expressão, sobretudo no Norte), existe na região de Lisboa, onde tem dificuldade em amadurecer bem, além de que se revela sensível à podridão. No Alentejo, apresenta bons resultados, com maturação tardia e capacidade de preservar acidez natural sem ganhar muito açúcar (a Baga também tem um pouco este papel no Alentejo). É um componente importante de lotes e Luís Duarte, enólogo na Herdade dos Grous, é fã assumido desta casta. Os vinhos Reserva da casa tinham, inicialmente, no lote Touriga Nacional, Alicante Bouschet e Syrah, mas, a partir de 2007, esta última foi substituída com sucesso por Tinta Miúda. Torre da Palma é outro topo de gama com Tinta Miúda no lote.
Aquando da demarcação da região, a área de vinha do Alentejo registava 11 510 hectares. Desde então, não parou de crescer, atingindo, em 2014, 26 066 hectares
O típico blend do Alentejo
A Alicante Bouschet é, hoje, a espinha dorsal do blend típico do Alentejo, muitas vezes em parceria com outras castas que também conferem estrutura e até complexidade ao vinho, como a Syrah, a Aragonez e a Touriga Nacional. Às vezes, surge Trincadeira e Cabernet Sauvignon, para mostrar outras facetas e, muito raramente, as castas mais delicadas, como Alfrocheiro, Castelão, Tinta Caiada, Tinta Miúda e Moreto, na qualidade de “sal e pimenta”.
Nos vinhos clássicos é possível acompanhar a evolução do perfil da região ao longo do tempo. Os primeiros Cartuxa Reserva, produzidos desde 1987, eram feitos a partir de Trincadeira, Aragonez e Alfrocheiro, e não se repetiam todos os anos, como recorda o enólogo Pedro Batista. No final da década de 1990, início dos anos 2000, a Alicante Bouschet começou a ganhar protagonismo, geralmente acompanhada por Trincadeira ou Aragonez. No Cartuxa Reserva, apresentado nesta prova, a base é Alicante Bouschet e Aragonez, com um toque de Cabernet Sauvignon.
Outro exemplo clássico é o Garrafeira dos Sócios da CARMIM, criado em 1982 como oferta premium exclusiva para os associados da cooperativa. Os primeiros lotes eram elaborados com castas tipicamente alentejanas, como Castelão, Moreto e Tinta Caiada, entre outras. Mais tarde, o destaque passou para Aragonez e Trincadeira, e a Cabernet Sauvignon começou a integrar o lote. Nos vinhos mais recentes, a Alicante Bouschet assume a maior responsabilidade, como nesta edição, em que a casta predomina, com 55% do lote, tendo a Aragonez um papel secundário, com 30%, e a Cabernet Sauvignon a assumir-se como figurante, com 15%.
A grandeza nasce da precisão
É natural que as castas que retratam uma região estejam sujeitas a modas e tendências, mas também à evolução. Podemos recordar, com um toque de nostalgia, os grandes alentejanos de outrora, que as novas gerações provavelmente nem chegarão a conhecer, a menos que os entusiastas, como António Maçanita, que apostam na preservação das vinhas velhas e nas castas ancestrais, se encarreguem de manter viva essa memória e assegurem que a identidade vínica do Alentejo não se dilua na modernidade. Convém também lembrar: o que ontem foi inovador, amanhã torna-se clássico.
As formas de vinificação também evoluem com o tempo e estão sujeitas às mesmas modas e tendências. Se, nos anos 90, se introduziu a barrica nova de carvalho francês e de capacidade mais reduzida, hoje nota-se o regresso a depósitos de maior volume, não necessariamente de carvalho, e o betão está novamente em destaque. Não estamos perante um ciclo fechado, mas sim de uma nova volta de espiral. Afinal, o grande vinho é sempre uma triangulação de casta, sítio e enologia.
O Esporão Private Selection surgiu, em 1987, como Garrafeira de uma selecção de barricas do Esporão Reserva. Na década de 1990, com David Baverstock, então enólogo responsável, foram plantadas as castas Syrah e Alicante Bouschet, com o objectivo de criar um topo de gama “mais forte, firme e estruturado”. Em 2000, apresentaram oficialmente o Esporão Private Selection. Ao longo dos anos, o lote foi composto por Alicante Bouschet, Aragonez e Syrah; em 2016 entrou a Touriga Franca e, na colheita de 2019, incluíram a Touriga Nacional. Mais importante do que as castas, é o facto de representarem o lote de vinhas, sendo, o vinho, pensado na raiz. A abordagem enológica é ajustada a cada casta e parcela. A Aragonez, a Touriga Franca e a Touriga Nacional fermentaram em lagares de mármore com pisa a pé, mas estagiaram em vasilhames distintos: a Aragonez em balseiros de 5000 litros, a Franca em barricas de 500 litros e a Nacional em barricas de 225 litros. A Alicante Bouschet fermentou em cubas de betão e estagiou em barricas novas de 500 litros.
Este é apenas um exemplo de como a precisão na vinha e na vinificação cria um vinho de grande afinação e complexidade. Os vinhos podem ser feitos das mesmas castas, enaltecendo o traço de uma região, mas a diferença está nas pinceladas finas, na interligação de todos os componentes. Enfim, na precisão.
(Artigo publicado na edição de Novembro de 2025)
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Rocim Crónica #328
Tinto - 2022 -

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Tinto - 2018 -

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Tinto - 2023 -

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Tinto - 2019 -

Marias da Malhadinha Vinhas Velhas
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Quetzal Família
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Mainova Matremilia
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Conde d’Ervideira Private Selection
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Alentejo, referência mundial do Vinho de Talha

Com cerca de 50 produtores provenientes de seis países e 1850 visitantes, a 8ª edição do Amphora Wine Day voltou a afirmar que o Alentejo é o palco mundial do Vinho de Talha. O evento decorreu, uma vez mais, na Herdade do Rocim, propriedade vinhateira localizada no concelho de Cuba, onde reuniu jornalistas, especialistas e […]
Com cerca de 50 produtores provenientes de seis países e 1850 visitantes, a 8ª edição do Amphora Wine Day voltou a afirmar que o Alentejo é o palco mundial do Vinho de Talha. O evento decorreu, uma vez mais, na Herdade do Rocim, propriedade vinhateira localizada no concelho de Cuba, onde reuniu jornalistas, especialistas e apaixonados pelo vinho, em particular por esta tradição milenar.
Um dos momentos altos foi o Amphora Wine Talks. A conversa, moderada pelo especialista de vinhos Nuno Oliveira Garcia, incidiu no tema “Da Argila ao Copo: como promover o Vinho de Talha”. Jamie Goode, nome incontornável da crítica internacional, Jenia Nikolaichuk, Wine Expert, Agathe Plantade, Wine Manager, e João Soares, produtor da Herdade da Malhadinha, em Albernôa, Beja, e da Quinta da Teixinha, na serra de São Mamede, Portalegre. Fomentar a confiança, criar cultura, reforçar a identidade alentejana e promover a autenticidade foram alguns dos aspetos debatidos ao longo deste momento.
Face a este cenário, Pedro Ribeiro, CEO e enólogo da Herdade do Rocim, e mentor do evento, declara: “o que começou no Alentejo, já não pertence apenas ao Alentejo. Pertence ao mundo.” A afirmação resulta do desafio manifestado por vários produtores, a par com a crescente afluência de uma comunidade internacional unida pela paixão pela vinificação em ânfora.
Este interesse crescente pelo Vinho de Talha tem vindo a refletir-se nas exportações. Em 2025, registou um crescimento de 22% nas exportações, com especial incremento na Ucrânia, onde o Rocim já marca presença. Estados Unidos, Alemanha, Polónia e Japão reforçam, igualmente, a aposta nos vinhos de ânfora.

























































