CASA RELVAS: Em casa dos Alexandres

Casa Relvas

A Casa Relvas é uma empresa multifacetada. Mais conhecida pela produção de vinhos, a empresa também está ligada à produção de azeite e pecuária, e Alexandre V ainda tem um gosto especial por cavalos. Além disso, são muitos os borregos criados na Herdade de São Miguel, propriedade agrícola localizada no concelho do Redondo, na região […]

A Casa Relvas é uma empresa multifacetada. Mais conhecida pela produção de vinhos, a empresa também está ligada à produção de azeite e pecuária, e Alexandre V ainda tem um gosto especial por cavalos. Além disso, são muitos os borregos criados na Herdade de São Miguel, propriedade agrícola localizada no concelho do Redondo, na região do Alentejo, apenas para produção de carne, e muitos os quilos de uva que entram na adega desta propriedade alentejana (ver caixa).

Tudo começou, claro, pela produção de vinhos tintos, numa época em que esses eram os mais procurados. O tempo encarregou-se de mostrar que os gostos do consumidor não são um caminho a direito, que vão mudando. Se nos anos 80 e 90 do século XX se imaginasse que os brancos teriam tanta aceitação, muita coisa diferente se teria feito no Alentejo. Porém, essa era a época em que os estatutos da região eram muito pouco flexíveis, obrigando ao plantio de castas, como Trincadeira, Aragonez e Castelão – então conhecida como Periquita –, nos tintos, ou Roupeiro, nos brancos, em percentagens elevadas, para poderem ter direito à Denominação de Origem, e em que, por exemplo, a Alicante Bouschet não estava incluída nas variedades recomendadas e apenas autorizadas. Na lista das brancas estavam incluídas castas hoje muito pouco referenciadas, como Tamarez ou Rabo de Ovelha; mesmo a Antão Vaz estava muito confinada à região da Vidigueira. Outros tempos.

A gestão continua a ser familiar, entre o pai Alexandre e Alexandre V, que entrou em 2006 (já com formação em viticultura e enologia), agora ajudado pelo irmão que faz parte do projecto desde 2019. O negócio teve necessariamente de se diversificar, com um foco muito forte na exportação, que absorve, actualmente, 60% da produção. Os principais mercados – anualmente abrangem cinco milhões de garrafas – continuam a ser a Suécia, a Finlândia, a Bélgica e o Brasil. Como é natural e se imagina, os vinhos de maior produção são desenhados ao gosto de cada um dos mercados. Alexandre não esconde: “temos de colocar algum açúcar residual em muitos vinhos, mais em tintos que em brancos; não há volta a dar. A malta gosta de coisas doces, nomeadamente na restauração e grandes superfícies. Estamos a falar de cinco gramas de açúcar por litro, mas podemos, por vezes, ir até aos nove gramas. E não nos esqueçamos que, para a Polónia, chegam a ir vinhos com 60 gramas de açúcar por litro! Curiosamente, nos brancos há menor apetência pela doçura residual, porque se bebe muito fresco. Se a quantidade pretendida o justificar, podemos ajustar o perfil ao gosto do cliente.”

Perfil actual, vinhas e vinhos

Como se imagina, os tempos da preponderância dos tintos já passou há muito. Hoje, a produção de vinhos brancos não pára de crescer e já corresponde a 30% da produção total, mas “continuamos deficitários”. Os rosés têm adquirido cada vez mais importância, de que são prova os dois rosés da casa, feitos em quantidades já consideráveis (ver notas de prova). A enologia centra-se na Herdade de São Miguel, para os vinhos de gama média/alta, e na Herdade da Pimenta, para o grosso da coluna, nomeadamente os vinhos para as grandes superfícies, muitas vezes com a marca do comprador.

No caso das grandes superfícies, que absorvem cerca de um milhão de garrafas, Alexandre V nota que se está a aumentar a prioridade a vinhos com designativos de qualidade, como ‘Premium’ ou ‘Grande Escolha’, em detrimento dos vinhos a pataco. Contudo, “tudo tem de ser negociado”, confirma, acrescentando que “ainda somos pouco competitivos na vinha, se compararmos com Chile ou Espanha. Mesmo assim, a nossa produtividade média por hectare são 12 toneladas e, às vezes, podemos chegar ao limite estabelecido, que são 15. Mas também sei que se pode fazer um vinho desequilibrado, com produções de três toneladas. Não é por ser uma produção elevada que o vinho é de menor valia. Acho que, no Alentejo, se as produções forem abaixo das seis toneladas por hectare, as contas não saem; só se forem parcelas familiares, em que a família ajuda, etc. Se for profissional, não dá”. Continua a haver muita procura de uva branca, que tem sido paga até €0,55, e a uva tinta, com alguma qualidade, paga a €0,50.

Para vinhos de volume, diz-nos, “temos e acreditamos na Fernão Pires, que funciona muito bem e, claro, temos Antão Vaz e Arinto. Temos um pouco de Verdelho e Sauvignon Blanc. Faz sentido comercialmente, até porque, na restauração e no enoturismo, há muita procura por monocastas. Nas tintas, a Alicante Bouschet e a Trincadeira são as que têm mais expressão, mas também temos Touriga Francesa, Touriga Nacional e Syrah, que funcionam muito bem em rosé”.

A Trincadeira é das castas que mais gosta de trabalhar. “Ela aguenta muita produção, mas não a podemos deixar produzir o que quer, porque, depois, o consumidor não aceita. Tem pouca cor e o vinho fica demasiado ligeiro no corpo. É casta para se ficar nas quatro toneladas por hectare; já a Alicante Bouschet vai facilmente às 12 toneladas, para vinhos de €5, por exemplo. Em venda ao público, abaixo de €4 ou €5 é difícil. A esse preço, se estivermos a falar de vinho com volume, já se pagam contas, mas, enquanto nós aqui valorizamos os nomes e as empresas, um inglês que chega ao supermercado, o que quer é vinho bom e barato. Sabe lá se é Ferreirinha ou Niepoort. Se encontrar um Alentejo a metade do preço do Douro, não hesita. Eu, se fosse produtor do Douro, estaria muito preocupado.”

Inovações e ambiente

Na Casa Relvas, cerca de 95% da vindima já é mecânica. Por exemplo, a poda, nomeadamente para rosés, já é feita mecanicamente, com leitura óptica; depois só se passa para tirar as hastes dos arames. Em contrapartida, a vinha que dá origem ao vinho do Pé de Mãe é submetida a uma vindima feita manualmente, porque fermenta com cacho inteiro.

A renovação dos componentes do solo é outra das acções implementadas pela Casa Relvas, desta feita, com o objectivo de melhorar o perfil aromático dos vinhos; e estão a usar cada vez mais os drones para adubação, porque, por enquanto, não é possível usar para tratamentos fitossanitários – há uma directiva europeia que equipara os drones e as aeronaves, mas o assunto está em vias de nova abordagem, por forma a distinguir ambos. Alexandre informa-nos que também têm tractores autónomos, eléctricos e sem condutor. Há já um grupo fixo de imigrantes nepaleses a trabalhar, mas, mais do que a língua, “é sempre um sarilho conseguir ter toda a documentação certinha e em dia”, confessa.

“Mudámos e melhorámos também o uso das madeiras, com mais tonéis e menos barricas”, informa. No caso das talhas, “já fizemos alguns vinhos, sim, mas cada vez mais entendo que fazer um vinho de talha não é só fazer mais um vinho, é uma forma de vida e isto cada um deve estar onde deve, e não creio que seja por aí o nosso caminho”.

Por aqui, seguem-se igualmente as indicações do Programa de Sustentabilidade dos Vinhos do Alentejo, com preservação ambiental, bem como melhoria e diversidade de flora e vida nos solos, bem como compras preferencialmente locais. Acresce a distribuição de 10% dos resultados em acções sociais. “Temos também muita oliveira, fazemos muito azeite e fazemos prestação de serviços para quem não tem lagar.” É um negócio difícil (perecível) e há um preço de bolsa, que manda no preço do azeite, mas em extensão é rentável. Já para os olivais antigos, Alexandre não tem dúvidas: “só se se vender muito caro é que vale a pena.”

Seguindo o (mau?) hábito dos consumidores, parece que os brancos só são valorizados se forem da colheita anterior. “Já me começam a perguntar pelos 2025”, afirma. O pior mercado externo nesse aspecto é a Alemanha, porque “se enviar uma palete de branco de 2024, devolvem”, ao contrário da Bélgica, que aprecia vinhos com alguns anos.

Fizemos uma prova alargada, ainda que não total, do portefólio da empresa. Ao gosto do produtor, provámos dois vinhos mais antigos, um Herdade de São Miguel Reserva 2011 e um 2014. Este último revelou-se mais interessante e vibrante em detrimento do 2011, um pouco mais caído, ainda que tenha sido um ano muito badalado. Entretanto, e em jeito de alinhamento do legado da Casa Relvas, Alexandre V espera que, o ainda pequeno, Alexandre VI continue a saga familiar.

 

Tudo começou em 1997

Casa Relvas
Adega da Herdade de São Miguel

O bisavô de Alexandre partiu para Angola com 14 anos e foram três as gerações que lá estiveram, na zona de Malange. Tinham negócios ligados à agricultura e à pecuária. O pai Alexandre estava a estudar Gestão, em Portugal, aquando do 25 de Abril. Da parte da mãe, a família era da Beira Interior, já com marca de vinhos: Cruz de Almeida. O bisavô era da Vermiosa. Após o retorno de Angola, a família adquiriu a Herdade de São Miguel em 1997, localizada na zona do Redondo. Esta quinta confinava com as propriedades da família Roquevale.

A primeira tarefa foi replantar na propriedade 100 hectares de floresta, com sobreiros, e 10 hectares de vinha, com as castas então autorizadas – Trincadeira, Aragonez e Castelão. Pouco tempo depois, plantaram Alicante Bouschet. Tudo começou com a venda de uvas ao Esporão. A adega só foi construída em 2003. Outras compras se sucederam: a Herdade da Pimenta, no concelho de Évora, com 60 hectares de vinha, outra na Vidigueira, com 70 hectares, já em produção no sopé da Serra do Mendro, e ainda outra em Alcácer do Sal, onde se produz pinhão. Alexandre V confessa que o pinhão não é grande negócio, uma vez que “60% do rendimento vai para a apanha. É como a cortiça, com jornas de €120. É verdade que é um trabalho de cirurgião que, se for mal feito, estraga muito o sobreiro”, confessa.

Actualmente, gerem 350 hectares de vinha própria e compram uvas proveniente de mais 400 hectares, com assistência técnica a alguns deles. É que uns têm um hectare e outros 70. Varia muito. Alexandre V reconhece que, não sendo tudo vinha própria, consegue-se gerir uma área tão extensa. Ao todo, estamos a falar de oito milhões de garrafas.

(Artigo publicado na edição de Abril de 2026)

Casa Relvas convida a passar “Um Dia em São Miguel”

Relvas Dia São Miguel

Como já é habitual, a Casa Relvas abrirá ao público as portas da Herdade de São Miguel, no Redondo, no dia 28 de Maio de 2022, para o programa especial “Um Dia em São Miguel”. Este evento destina-se a “curiosos e amantes de vinho, mas também aos apaixonados pelo campo e pelo Alentejo, que podem […]

Como já é habitual, a Casa Relvas abrirá ao público as portas da Herdade de São Miguel, no Redondo, no dia 28 de Maio de 2022, para o programa especial “Um Dia em São Miguel”.

Este evento destina-se a “curiosos e amantes de vinho, mas também aos apaixonados pelo campo e pelo Alentejo, que podem vir com a família e amigos passar um dia diferente, em boa companhia, com muita animação e boa disposição, celebrando o ar livre, e o retomar destes momentos de convívio”, diz a empresa. Alexandre Relvas refere: “Este dia é muito especial para a nossa família, e para a Família Casa Relvas. É um dia em que abrirmos as portas da nossa casa e partilhamos um pouco da nossa história e da cultura Alentejana. O vinho é o fio condutor deste dia que pretende criar memórias, para Pais e Filhos, ser um pretexto para um passeio ao Alentejo e para brindar à Família e à Amizade!”.

A partir das 14h00 e até ao pôr do sol, muitos serão os motivos para um agradável passeio até à Herdade de São Miguel. Provas de vinho, gastronomia, artesanato, música (com destaque para a a banda de jazz de improviso Seven Dixie), produtos regionais, jogos tradicionais e demonstrações de arte e ofícios da região mostram um pouco do muito que o Alentejo tem para oferecer. O acesso ao recinto é feito mediante a apresentação de uma pulseira que pode ser adquirida online, antecipadamente, na loja online da Casa Relvas, ou comprada directamente no local, no próprio dia. Tem um custo de €15 por adulto, incluindo €5 para consumo, e é gratuita para menores de 18 anos acompanhados por adultos.

Relvas Dia São Miguel
©Casa Relvas

Para os apreciadores dos sabores do Alentejo haverá muitas opções no evento “Um Dia em São Miguel”. Dois bares estarão disponíveis para servir os vinhos da Herdade de São Miguel, bem como águas e limonada artesanal. Para petiscar, o churrasco, os queijos e enchidos do Fumeiro da Vila, o presunto e canha da Absoluto, os doces regionais, e os gelados Santini.

No que respeita às provas de vinho guiadas, é aconselhada a inscrição prévia e gratuita, mas de lotação limitada a 60 pessoas por sessão, através do e-mail loja@casarelvas.pt. Este ano serão quatro os momentos de prova: Nuno Franco, director de produção da Casa Relvas, irá apresentar “Monocastas da Casa Relvas”, seguido de Alexandre Relvas, que trará para cima da mesa “19 Anos de Herdade de São Miguel”. A prova que se seguirá, “Sustentabilidade no Alentejo”, fica a cargo de João Barroso, coordenador do Programa de Sustentabilidade dos Vinhos do Alentejo, que falará sobre a relevância do tema, trazendo a prova diferentes vinhos que alguns produtores têm vindo a desenvolver no âmbito do programa. Por último, o enólogo convidado António Braga apresentará “Grandes Brancos de Portugal”.

Aos vinhos e petiscos junta-se, durante toda a tarde, muita animação. Para os mais novos, os jogos tradicionais, a tosquia das ovelhas, e a roda de oleiro do Xico Tarefa, são o grande ponto de atracção, mas toda a herdade, com tanto espaço para brincar, ver os burros, explorar e correr, é a promessa de um dia muito divertido. A mobília alentejana, com as Cadeiras do Alentejo de José Manuel Vicente, e a Ruas Floridas, com a sua demonstração do trabalho com flores de papel, fazem também parte desta mostra de saberes do Alentejo, tradições que atravessam o tempo e trazem cor a este dia no campo. 

Especial Dia do Pai, com Casa Relvas

Entre pai e filhos   Redondo. Uma sub-região do Alentejo com enorme potencial. Redondo. O ciclo da vida, a passagem de conhecimento de pai para filhos, e vice-versa. Redondo, agora no rótulo de um vinho da Casa Relvas, o primeiro DOC Alentejo Redondo deste produtor. TEXTO Mariana LopesFOTOS Casa Relvas A Casa Relvas é uma […]

Entre pai e filhos

 

Redondo. Uma sub-região do Alentejo com enorme potencial. Redondo. O ciclo da vida, a passagem de conhecimento de pai para filhos, e vice-versa. Redondo, agora no rótulo de um vinho da Casa Relvas, o primeiro DOC Alentejo Redondo deste produtor.

TEXTO Mariana Lopes
FOTOS Casa Relvas

A Casa Relvas é uma referência no Alentejo. A produzir já 7 milhões de garrafas por ano, consegue focar-se, em diferentes perfis de cada segmento de preço, em oferecer sempre mais do que aquilo que se paga por um vinho. Mas, acima de tudo, consegue fazê-lo sem beliscar o estatuto da marca mãe, fazendo com que esta seja sempre salvaguardada. Pelo meio, vai ainda fazendo vinhos assumidamente diferentes, produtos bem originais. E tudo isto é construído — além da equipa da Casa Relvas — por um pai, Alexandre Relvas, e por dois dos seus filhos, Alexandre e António. Agora, um novo vinho, o primeiro DOC Alentejo da empresa — sub-região Redondo — e também o primeiro unicamente apresentado sob a marca “umbrella” Casa Relvas.

“Sinto-me em casa no Redondo, e isso, para mim, tem um valor enorme”, confessou o pai Alexandre Relvas, em conversa informal com a Grandes Escolhas. “Gostamos muito do facto de a nossa origem, a Herdade de São Miguel, ser precisamente nesta sub-região”, continuou o empresário, que adquiriu esta herdade localizada em São Miguel de Machede, ainda nos anos 90. Na verdade, o Redondo é a zona onde têm menos vinha, apenas 25 hectares de um total de 250 de vinha própria, espalhados por diferentes regiões do Alentejo. No entanto, a ligação emocional a essa terra é muito grande e, por isso, fazia todo o sentido para esta família lançar um vinho que o espelhasse. “Redondo é uma região com muita tradição e cultura vitivinícola, bem marcada pelos seus solos argilo-xistosos e pela presença da Serra d’Ossa. Quando decidimos fazer este vinho, fomos atrás disso e do que era o verdadeiro vinho do Redondo, pensando nas três principais castas que antigamente o compunham: Aragonez, Trincadeira e Castelão. Mas também fizemos questão que fosse um vinho para ser bebido, no verdadeiro sentido da palavra, e não apenas provado. Um vinho para estar à volta de uma mesa a comer, beber, cantar e contar estórias, como se faz no Alentejo”, explicou Alexandre Relvas Jr., que já há algum tempo tinha vontade de lançar um vinho com Denominação de Origem Controlada. Disse, e com razão, que o DOC Alentejo não é valorizado, sobretudo face à indicação Regional Alentejano.

“Pensando friamente e dizendo o que me vai na alma, uma empresa como a Casa Relvas — que tem vindo a crescer no segmento de preço médio e médio-alto — nunca ter feito um vinho DOC, é algo de errado. É pena que, sendo as DOC tão importantes noutros países, sobretudo da Europa, não o sejam no nosso em algumas regiões”, desabafou.

O Casa Relvas DOC Alentejo Redondo 2019 fermentou em inox com os bagos inteiros e
20% de engaço. Depois, fez maceração durante 30 dias e maloláctica em tonel de 5000 litros de carvalho francês, onde estagiou por 12 meses.

Coisas de família…

A dinâmica entre Alexandre e os filhos é de uma cumplicidade e confiança a 100%, mas até se chegar à actual velocidade de cruzeiro, muita água correu “por baixo da ponte”. 

Alexandre Relvas Jr. era o mais rebelde da família. Quando chegou o momento de estudar, escolheu Gestão, mas a sua vida estava longe de ser bem gerida… “Sempre soube que queria fazer alguma coisa ligada à agricultura e ao campo, mas não era bom estudante. Era preguiçoso, no entanto, o que fazia, fazia bem. Desisti do curso de Gestão passado um ano, e ainda hoje me lembro da cara do meu pai, no dia em que lhe disse”, contou Alexandre, que acabou por, mais tarde, tirar um bacharelato por alternância em Bordéus, em Viticultura. “Quando fui para lá, confesso que gostava de vinho — em excesso, sobretudo — mas não tinha grande ligação a esse mundo. Tive a sorte de viver dois anos em Saint-Emilion, porque lá, ou se fica apaixonado por vinho, ou se foge dali para fora, não se fala de mais nada. Eu fiquei apaixonado…”. Em 2006, entrou como adegueiro na Herdade de São Miguel. Nessa altura, ainda havia muito para fazer na empresa, que produzia 150 mil garrafas. Actualmente, Alexandre Relvas Jr. é responsável pela parte comercial, marketing e adega.

Alexandre Relvas, ao centro, com os filhos António, à esquerda, e Alexandre.

 

Já António Relvas, mais novo do que o irmão, está na empresa há apenas cinco anos. Também ingressou na licenciatura e mestrado em Gestão mas, ao contrário de Alexandre, concluiu, embora não tivesse ideia do que queria fazer. “Ainda trabalhei quatro anos em várias áreas, indeciso, mas o meu pai dizia sempre que o caminho se faz caminhando, e foi um pouco isso que aconteceu”, avançou António. Foi para a empresa do pai e do irmão quase “por acaso”, sem planear, e à data a Casa Relvas estava à procura de desenvolver a parte agrícola. Assim, a “coisa” proporcionou-se e, neste momento, António é o responsável por esse departamento, que inclui vinha, olival e, em breve, amendoal.

Alexandre Relvas ri-se ao relembrar estes momentos pela boca dos filhos, mas assume um ar sério, de empenho pessoal, quando diz: “Tenho cinco filhos, e o Alexandre foi o que me deu mais ‘trabalho’ ao longo dos anos. Foi um dos investimentos que eu fiz que mais valeu a pena. A preocupação de um pai é que vocês tenham a melhor formação, para que sejam livres, para que realizem o vosso potencial. Tenho um enorme prazer em que os meus filhos trabalhem comigo, mas quis criá-los de forma a que pudessem existir autonomamente e fora do universo familiar, se assim fosse necessário. O convite ao António foi diferente da situação do Alexandre. Já vendíamos milhões de garrafas e sabíamos que queríamos diversificar a actividade agrícola, que havia oportunidades, e precisávamos de alguém que viesse ser responsável por isso”.

Adega da Herdade de São Miguel, em São Miguel de Machede, no Redondo.

 

Curiosamente, o instinto paternal de Alexandre Relvas também se reflecte na sua relação com as outras pessoas, sobretudo com as gentes da Casa Relvas. “Queremos ser uma boa empresa de vinhos, uma referência no Alentejo. Não temos ambição de ser mais do que isso. Continuamos a criar emprego e a minha preocupação é que as pessoas da Casa Relvas tenham sentido de futuro connosco e que também se desenvolvam a nível pessoal. Queremos fazer produtos de alegria, de celebração para os nossos consumidores, continuar a dar resposta às necessidades do mercado, mas muito focados num enorme sentido de responsabilidade pelos que trabalham aqui. E não tenho dúvidas que todas essas pessoas estão muito orgulhosas por lançarem este novo vinho DOC Redondo”, rematou o patriarca, sorridente.

 

Conheça o vinho Casa Relvas DOC Alentejo Redondo tinto 2019, e a respectiva nota de prova, na edição de Abril da revista Grandes Escolhas.