Valle Pradinhos: Estórias e vinhos de um canto perdido em Portugal

Valle Pradinhos

É um lugar único, perdido num canto de Portugal. Mas, como muitos sítios do nosso país, vale a pena a visita. Foi lá que fui descobrir a história por detrás de um dos primeiros vinhos sobre o qual eu escrevi, há pouco mais de 30 anos, Valle Pradinhos tinto, numa altura em que os selecionava […]

É um lugar único, perdido num canto de Portugal. Mas, como muitos sítios do nosso país, vale a pena a visita. Foi lá que fui descobrir a história por detrás de um dos primeiros vinhos sobre o qual eu escrevi, há pouco mais de 30 anos, Valle Pradinhos tinto, numa altura em que os selecionava nas prateleiras e escrevia sobre os que gostava, apenas uma vez, na revista Exame.

Mas é muito melhor apreciá-los quando se conhece a sua história e as estórias de quem os produz, porque o vinho é, sobretudo, um produto da natureza feito por pessoas e para pessoas. Uma delas, Maria Antónia Mascarenhas, 73 anos, a proprietária do Casal de Valle Pradinhos, quinta que está na sua família há mais de 100 anos, o outro, o enólogo Rui Cunha, 53 anos, na casa há quase 30 vindimas.

Maria Antónia estudou em Lausanne, na Suíça, onde vivia com a família e frequentou e terminou o ensino liceal. Herdou Valle Pradinhos da avó, Maria da Conceição Pinto de Azevedo, há 30 anos. Na época só lá havia homens a trabalhar, o que lhe trouxe alguns desafios iniciais acrescidos, numa sociedade ainda predominantemente machista. Como exemplo conta que, a dada altura, alguém que lhe veio pedir emprego, apenas falou para o “engenheiro” que estava a seu lado e trabalhava para si. Mas salienta, no entanto, que isso já mudou, para melhor, nos dias de hoje.

Todo o Trás-os-Montes é um diamante em bruto e Valle Pradinhos uma jóia, onde ainda há muito por fazer, e onde já se fez muito nos últimos 30 anos 

 

Estabelecer bases para crescer

Outro dos seus desafios foi assumir a propriedade sem perceber nada de agricultura. O Casal de Valle Pradinhos tinha sido comprado pelo bisavô, Manuel Pinho de Azevedo, um empresário do início do século 20. Era, à época, um grande industrial sobretudo na área de fabricação de tecidos, um homem de negócios que investiu em muitas áreas, como o jornal Primeiro de Janeiro, por exemplo. Como gostava muito de caçar e ia para Trás-os-Montes para o fazer, decidiu construir um hotel em Macedo de Cavaleiros, a Estalagem do Caçador, agora fechada, para receber e onde ficava a dormir com os amigos.
“Uma vez alguém lhe disse que estava à venda um quinta muito gira”, conta Maria Antónia. Ele foi vê-la, gostou e comprou o Casal de Valle Pradinhos. Com o tempo foi-lhe aumentando a área através da compra de mais terra. A propriedade “já teve mais de 500 hectares, mas hoje tem pouco mais de 450 porque a minha avó deu cerca de 80 hectares a antigos empregados, para construírem as suas casas e hortas e fez bem”, conta a actual proprietária.

Quando Maria Antónia Azevedo assumiu a gestão do Casal de Valle Pradinhos já havia sobreiros, oliveiras e vinha, entre 12 a 14 hectares que estavam plantados sobretudo em zonas baixas, com muita humidade, onde as plantas são mais atreitas a doenças. “Tive de as arrancar”, conta, acrescentando que não foi por saber de agricultura para tomar a decisão, mas porque tinha, na equipa, tal como hoje, especialistas, “engenheiros” que sabiam o que faziam e a aconselharam a isso. Como não se deu muito bem com o que herdou da avó, contratou depois outro agrónomo, “um homem que percebe muito de vinha” e já está na empresa há 13 ou 14 anos. “Preciso de gente que saiba de certas coisas melhor do que eu, que não vivo aqui o ano todo”, explica, acrescentando que já fez muitos investimentos na sua Valle Pradinhos desde que chegou. No aumento da área de olival e vinha, que ocupa hoje 50 hectares de terra, mas também na sua renovação e na compra de equipamentos agrícolas para as operações necessárias a fazer ao longo do ano.
“Arrisquei na plantação de mais vinha, apesar de, no início, não vendermos muito vinho, porque é preciso estabelecer bases para crescer”, revela, acrescentando que Valle Pradinhos não poderia ser sustentável em termos económicos com base apenas no aparelho produtivo que herdou. Antes disso, a sua família apenas usava as suas propriedades para férias “e, por isso, pagavam tudo do bolso, porque tinham fábricas e outros negócios que lhes permitiam dispor do dinheiro para isso”. Agora a propriedade é rentável.

Os importadores dos mercados de exportação querem muito mais vinhos de castas portuguesas do que internacionais, ou mistura das duas

Um diamante em bruto

Para Rui Cunha, 53 anos, “responsável pelos vinhos de Valle Pradinhos há 29 vindimas, todo o Trás-os-Montes é um diamante em Bruto e Valle Pradinhos uma jóia, onde ainda há muito por fazer, e onde já se fez muito nos últimos 30 anos”, como a mudança para uma agricultura mais responsável, incluindo algumas práticas de agricultura regenerativa, já que a biológica/orgânica só o mantém.
Já começaram a ser feitos os ensaios de arrelvamento necessários para escolher e comprar as alfaias necessárias para as operações. “Estamos este ano a testar essas operações numa pequena parcela, para treinar a equipa”, conta, salientando que ainda hoje se pratica ali a vindima manual na empresa. “Toda a uva que cá chega passa pelas mãos de uma equipa dirigida, comandada por Valle Pradinhos”, realça o enólogo, salientando que a operação “inclui uma primeira selecção e triagem das uvas”. Mas as novas plantações já estão a ser pensadas para serem vindimadas com uma máquina “mais pequena, capaz de o fazer”.

O maneio das vinhas externas a Valle Pradinhos é feita pelos parceiros. “Ou seja, não somos responsáveis pela viticultura, mas podemos sempre aconselhar, até sobre a plantação de novas vinhas, como já aconteceu, para os informar sobre as castas que nos fazem falta, por exemplo”, conta Rui Cunha.
Quando começou a trabalhar na empresa, mais ou menos na mesma altura em que Maria Antónia assumiu a sua gestão, havia dois tintos, “o Porta Velha, entrada de gama, e o Valle Pradinhos, e ia saindo um branco que caiu, de repente, nas graças do mundo”. Trata-se de um lote invulgar para a região, por ser da casta Riesling, alemã, Gewürztraminer, da Alsácia (Alemanha e França) e Malvasia Fina, uma casta portuguesa que existe também em Trás-os-Montes. “É a combinação invulgar das três castas que faz com que este branco seja muito apetecível, muito mais no mercado nacional do que no internacional”, salienta Rui Cunha, explicando que os importadores dos mercados de exportação querem muito mais vinhos de castas portuguesas do que internacionais, ou mistura das duas.

Lugar à mesa

Entretanto o Porta Velha acabou, “porque era um vinho onde perdíamos dinheiro, que tinha de ser feito muito rápido e era cada vez menos bom, porque não tínhamos capacidade de investimento para o fazer”, conta o enólogo. Hoje a empresa produz e comercializa anualmente acima de 100 mil garrafas de Valle Pradinhos, um tinto transmontano que está nas grandes superfícies a um PVP acima de 15 euros, e “roda nas prateleiras porque as pessoas”. Com isto, “estamos a demonstrar que os vinhos de Trás-os-Montes conseguem ter uma boa venda, a um preço elevado para uma grande superfície”, comenta o enólogo, defendendo, no entanto, que é importante, para a região se posicionar e valorizar, que não haja apenas uma estrela. “Tem de haver mais”, defende.

Conta, também, que o trabalho feito em parceria com a distribuidora Viborel em Portugal, que inclui muitas visitas e acções de degustação nos pontos de venda, tem estado a correr muito bem. Mas “infelizmente, as cartas de vinhos dos restaurantes estão dispostas por regiões, em Portugal e no mundo”, lamenta Rui Cunha, explicando que, por isso, Valle Pradinhos é muitas vezes o último, ou um dos últimos vinhos dos menus, enquadrado nas “Outras regiões”, em listas onde o Douro e o Alentejo, as regiões mais mediáticas portuguesas se destacam. “Por isso as pessoas não pedem o nosso vinho, a não ser quando reconhecem a garrafa e a escolhem porque conhecem o produto e a sua qualidade”, salienta o enólogo, acrescentando que, “por tudo isso, é que a região precisa de mais produtores conhecidos, como Valle Pradinhos, no mercado”.

Há alguns anos, esta empresa transmontana começou também a produzir um vinho rosé, “porque sentimos que tem um lugar à mesa”, explica Rui Cunha. Fazê-lo foi um passo dado de forma pensada e calma, em conjunto com a distribuidora, até ser desenhado um rosé produzido com base nas uvas das castas Touriga Nacional e Tinta Roriz, “com um perfil frutado, macio, com boa acidez, seco, para ser bebido como aperitivo ou a acompanhar uma boa refeição”. Para além da criação deste rosé, a empresa também subiu o patamar de qualidade de vinhos com a introdução, no mercado, de um Grande Reserva, que “implica um cuidado muito maior na selecção da uva, das parcelas e das castas” em relação ao Reserva. Neste tinto entram uvas de Cabernet Sauvignon, a casta tinta que diferenciava Valle Pradinhos no passado, mais Touriga Nacional.
Há uns anos foi lançado um varietal de Touriga Nacional, e este ano, é a estreia de um vinho de Tinta Gorda, “uma casta um pouco esquecida do Planalto Mirandês”, sobre a qual pouco se sabe, a não ser que foi trazida de Espanha, e que também se chama Juan Garcia, ao que parece o nome de quem a trouxe do país vizinho para o planalto transmontano.

Hoje a empresa produz e comercializa anualmente acima de 100 mil garrafas de Valle Pradinhos, um tinto transmontano que está nas grandes superfícies a um PVP acima de 15 euros

As modas e os novos vinhos

Porque o vinho é moda, quer se goste quer não, primeiro aconteceu a dos tintos e até havia gente que dizia que branco não era vinho. Mas é, e depois começou a beber-se cada vez mais branco, à medida que a sua qualidade foi melhorando e foram surgindo vinhos com características diferenciadas em todas as regiões do país, com opções para todos os momentos à mesa. Mais recentemente, os espumantes deixaram de ser bebidos apenas em festas de aniversário e de final do ano, para o serem também noutras alturas e momentos da refeição, fruto, com certeza também, da melhoria da sua qualidade. O rosé, que nem se provava, já surge na mesa dos portugueses, e há agora quem goste de tintos menos alcoólicos, um bocadinho mais abertos, ao estilo dos vinhos produzidos com a Pinot Noir. “Foi à procura de criar um vinho com este estilo, mais leve e ácido, menos extraído, diferente do Pinot Noir, que criámos um vinho da casta Tinta Gorda”, explica Rui Cunha.

Nos brancos foi também lançado um Grande Reserva, maioritariamente de Riesling, a casta dominante nos brancos da casa e uma pequena edição do Lost Corner tinto feito apenas com castas portuguesas, que surgiu para festejar os 100 anos de Valle Pradinhos, casa que começou em 1912.
Foram escolhidas as castas Tinta Amarela, Tinta Roriz e Touriga Nacional, para um vinho que ainda não tinha nome até que Maria Antónia, a proprietária, sugeriu primeiro que se chamasse Le Coin Perdu. Era o nome de uma marca que o personagem principal do filme “Um bom ano”, do realizador Ridley Scott, baseado no livro homónimo, encontra depois de entrar na cave de uma propriedade que herda em França.

Interpretado pelo actor neo-zelandês Russel Crowe e pela actriz francesa Marion Cotillard, esta ficção foi filmada sobretudo no Chateau La Canorgue, antigo feudo erigido pelo papa Bento XIV e hoje empresa familiar dedicada à produção de vinhos da denominação de Luberon, do Vale do Ródano. Le Coin Perdu, a designação francesa do vinho estava registada, mas The Lost Corner, em inglês, não, e ficou para Valle Pradinhos. O tinto era “um vinho que o protagonista tinha na memória, por ter provado muitas vezes com o tio, e era oriundo de uma vinha a que o caseiro da casa, um velho resmungão francês, chamava Le Coin Perdu, conta Rui Cunha, salientando que é isso que é Valle Pradinhos em Portugal e no mundo, porque quase “ninguém sabe onde está”. O rótulo tem a foto de um mapa antigo, e um dedo a apontar para a localização da propriedade. “Mantemos apenas edições especiais deste vinho, duas a três em cada dez anos, porque nem sempre temos colheitas com qualidade e perfil suficientes para o fazer”, explica o enólogo. Valle Pradinhos vende quase tudo o que produz em Portugal. A exportação é residual, e quase toda para Paris e apenas Paris. Mas porquê? Segundo Rui Cunha, isso deve-se a haver, na cidade, muito português de segunda geração, pessoas com o palato educado à francesa, “que gostam de beber um vinho português bem feito”.

(Artigo publicado na edição de Julho de 2025)

Valle Pradinhos: Um branco muito especial

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[vc_row type=”in_container” full_screen_row_position=”middle” scene_position=”center” text_color=”dark” text_align=”left” overlay_strength=”0.3″ shape_divider_position=”bottom”][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/1″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][vc_column_text]Poucos produtores poderão gabar-se de vender os vinhos brancos mais caros que os tintos. Mas é mesmo isso que acontece aqui, em Macedo de Cavaleiros, na histórica casa do Valle Pradinhos, fundada há mais de um século em Trás-os-Montes.

TEXTO João Paulo Martins
FOTOS Valle Pradinhos

A casa, solarenga e imponente, será bem antiga, muito provavelmente do séc. XVIII mas foi em 1913 que a família Pinto de Azevedo a adquiriu e tomou conta dos mais de 500 hectares da propriedade. Hoje são 450 porque “o meu avô doou algumas parcelas a trabalhadores da casa” como nos lembra Maria Antónia Pinto de Azevedo, a actual proprietária e neta do fundador, aos comandos dos negócios da casa desde os inícios dos anos 90. Na zona vulgarizou-se o nome de Casal em vez de quinta ou herdade e é esse o nome que se conservou, Casal de Valle Pradinhos.
Estamos em zona de planalto, a uma altitude entre os 550 e 650 metros e na propriedade, além da vinha também há muitas oliveiras e sobreiros, as outras fontes de rendimento da empresa familiar. Valle Pradinhos foi durante décadas a única marca de referência de toda a região de Trás-os-Montes e, a partir dos anos 70 ganhou notoriedade com a chegada de João Nicolau de Almeida, então um jovem enólogo que estava a chegar dos estudos em Bordéus e que então dividia o seu trabalho entre a Ramos Pinto e esta propriedade que ele tanto admirava. Recordo as suas palavras quando dizia que “esta terra parece abençoada, tudo o que se planta produz bem e muito”. Na linguagem popular poderia traduzir-se assim: é como o cebolo, é preciso é pô-lo!

Curiosamente pouco se sabe exactamente sobre o que se plantava aqui em termos de castas quando se começou a produzir vinho. Na casa existe a mais antiga garrafa de branco, datada de 1940, mas a composição do vinho é incerta. Com os tintos passa-se um pouco a mesma coisa. Seguramente haveria Tinta Amarela e Tinta Roriz nos tintos, eventualmente, Bastardo. Rui Cunha, o actual enólogo que há 20 anos é responsável da enologia (hoje coadjuvado por Rui Pinto, enólogo residente) recorda-nos que numa velha parcela, muito anterior à época de João Nicolau de Almeida, havia Alicante Bouschet e Petit Bouschet “quem sabe para vender para o Douro para substituir a baga de sabugueiro como aumentador de cor…!”. Nos brancos o mais seguro seria haver Malvasia Fina mas quanto ao resto há lacunas nas fontes.
João Nicolau de Almeida chegou ainda nos anos 70 e resolveu plantar novas vinhas e esse plantio marcou indelevelmente os vinhos da casa. Fez campos experimentais das castas que pretendia e só ao fim de 4 ou 5 anos é que se tomou a decisão sobre o que plantar e em que quantidade. Assim, em terrenos marcados pelo xisto misturado com quartzo, juntou Cabernet Sauvignon à Tinta Amarela e à Tinta Roriz e, nos brancos, adicionou Gewürztraminer e Riesling à Malvasia Fina. O conceito, defendido por Nicolau de Almeida durante muito tempo era conseguir “castas melhoradoras” (o termo é dele) para equilibrar as nossas castas, então mal estudadas e pouco conhecidas. Naturalmente os conhecimentos actuais já dispensam as “melhorias” das castas de fora, mas a verdade é que os vinhos ganharam um perfil que agora há que manter. Há novos plantios, introduziu-se a Touriga Nacional, o Syrah em pequena parcela (gosto pessoal da proprietária) mas também Gouveio e Códega, correspondendo também a algum alargamento do portefólio: além das marcas-âncora (Valle Pradinhos Reserva em branco e tinto) existe o Grande Reserva, Lost Corner e Porta Velha (tintos). O branco é Reserva mas não existe um não Reserva, algo que é difícil de compreender. E, dizem-nos, fazer aprovar na Câmara de Provadores do IVDP (entidade certificadora da DOC Trás-os-Montes) um branco como Reserva e sem madeira não é nada fácil (Rui Cunha). Quanto a este tema, Maria Antónia defende que a diferença será mais evidente quando tiverem um branco Grande Reserva, algo que está na calha mas para isso há que alargar a área de vinha do branco e ir além dos actuais 12 ha. Todos se recordam também que a marca Planalto (Sogrape) também ostenta o nome Reserva e nunca houve outro e não tem qualquer madeira. Argumento a favor, portanto.[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row][vc_row type=”in_container” full_screen_row_position=”middle” scene_position=”center” text_color=”dark” text_align=”left” overlay_strength=”0.3″ shape_divider_position=”bottom”][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/1″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][vc_gallery type=”nectarslider_style” images=”45690,45689,45691,45688,45687,45686″ bullet_navigation_style=”scale” onclick=”link_no”][/vc_column][/vc_row][vc_row type=”in_container” full_screen_row_position=”middle” scene_position=”center” text_color=”dark” text_align=”left” overlay_strength=”0.3″ shape_divider_position=”bottom”][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/1″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][vc_column_text]

Castas de fora a mostrarem o seu valor

Das opções então feitas por João Nicolau de Almeida ficou um legado e Rui Cunha aplaude: “as duas castas brancas estrangeiras revelaram-se muito regulares na produção, muito consistentes, apesar de não produzirem muito e por isso dão-nos uma grande margem de segurança. A área de vinha não permite variações: não se faz um varietal de Riesling ou Gewürztraminer porque não há uvas que permitam, depois, manter consistentemente a marca. E, apesar da tradição alsaciana de fazer Colheita Tardia com Gewürztraminer, aqui não há planos: “nem pensar, isso de fazer uma pequena quantidade é demasiado arriscado para quem tem poucas uvas à disposição”, lembra Rui. A casta Riesling aqui mostra um lado mais tropical e por isso não se enquadra na versão Mosela/Reno, sendo mais próxima da Alsácia. A levedura que usam para esta casta também ajuda a um lado um pouco mais terpénico; são usadas levaduras diferentes e há uns 10 anos chegaram a ter de usar leveduras de final de fermentação para compensar alguma falta de azoto no solo, algo que está já resolvido.

As produções são baixas. Na Riesling estamos com 4 a 5 toneladas por hectare, na Gewürztraminer entre 2 e 3 ton/ha e na Malvasia Fina entre 5 e 6 ton/ha. Globalmente falamos de 15 000 garrafas/ano, rapidamente absorvidas pelo mercado. É essa apetência voraz que leva a que apenas sejam deixadas para arquivo 40 por ano. Caixas? Indagámos. Não, garrafas! Claramente insuficiente ou “um desrespeito pelo património”, diriam vozes mais radicais…
A composição final do branco resulta assim de 65% de Malvasia Fina, 35% de Riesling e 5% de Gewürztraminer, praticamente todo ele absorvido no mercado interno. O alargamento da área de vinha com mais castas portuguesas aponta exactamente para uma aposta mais forte nos mercados externos onde, dizem, jogar com castas portuguesas é mais original e gera mais interesse.

Uma prova de brancos com carácter

A prova que fizemos contemplou quase 20 vinhos e três décadas da história da marca. Nos arquivos já não há de todos os anos, pela razão atrás exposta. Foram provados os vinhos das colheitas de 1987, 93, 94, 95, 97, 98, 2001 e 03. A partir da colheita de 2007 provámos todas as colheitas, incluindo uma pré-prova do 2019, ainda em cuba e longe de estar finalizado. Todos os brancos provados contemplam as três castas atrás referidas, com muito pequenas variações das percentagens de cada uma.
Primeira constatação após a vertical: todos os vinhos deram prova, com mais ou menos prazer mas nenhum estava impróprio. Cores carregadas a sugerirem muita oxidação mas acidez muito viva a permitir e autorizar a prova. Notas de frutos secos e chá a sobreporem-se à fruta mas sempre com alguma finura de conjunto. Classificações a balancearem entre 15,5 e 16. Foi assim até ao 1997 (16,5) que, surpreendentemente, nos fez lembrar um Alsácia de Colheita Tardia, terpénico, com fruta madura, avelãs e nozes no aroma que se revelou complexo e até mais interessante do que na prova de boca. De 1998 a 2003, surgiram-nos de novo vinhos com clara oxidação, carregados na cor, com notas evoluídas mas, de novo, com boa acidez que segurou o conjunto. No 2003 (16,5), no meio das notas dos frutos secos, alguma reminiscência de lichias e o vinho mostrou-se ainda muito gastronómico.

O 2007, com rolha sintética, mostrou-se simples, com boa acidez mas com pouco corpo, açúcar residual evidente, mas depois recupera no final com algum prolongamento (15,5); o 2008 mostrou muita harmonia aroma/sabor, com um estilo maduro mas salvo por acidez ainda muito viva e que lhe mantém o carácter gastronómico (16). As colheitas de 2009 e 2010 revelaram traços comuns, aqui com aromas excelentes a mostrar o carácter das castas estrangeiras que lhe dão personalidade. Ambos com acidez perfeita, o 2009 também mais açucarado, tudo ainda com muita vida, o que surpreende (ambos com 17). Um pouco menos estruturado, mais citrino e leve, o 2011 deu boa prova (16,5) e o 2012 mostrou ainda juventude, muito boa definição do carácter terpénico das castas estrangeiras (17). O ponto alto da prova foi o 2013, com muito ligeira redução o que lhe acentuou o lado mais mineral e maior carácter de pedra raspada que associamos ao Riesling; encorpado (mais açúcar residual do que a maioria) mas fresco, boa estrutura de boca (17,5). O 2014 (16,5) acabou por funcionar como resposta ao 13, com carácter mais fechado, mais austero, menos aberto e falador, todo ele mais discreto mas a mostrar que evoluiu bem em cave e que ainda nos poderá vir a surpreender no futuro. Muito bem o 2015 (17) e 2016 (16,5), o primeiro mais terpénico a mostrar bem o carácter do Riesling e o segundo mais citrino, fino e elegante, muito macio e delicado na boca. Das colheitas mais recentes damos conta a seguir.
Nota final: não há que ter pressa em beber estes brancos porque alguns anos de cave fazem-lhes muito bem e trazem para primeiro plano o carácter das castas que aqui lhes dão a originalidade que João Nicolau de Almeida pensou e realizou, com Rui Cunha a manter agora o perfil que tanto sucesso tem junto do consumidor.
Ainda que não seja o objecto desta prova, não deixámos de notar e verbalizar que, até para dar valor às tradições regionais, falta neste portefólio um varietal de Tinta Amarela, a casta emblemática da região. E, quem sabe, de Malvasia Fina. Assunto a seguir com atenção.[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row][vc_row type=”in_container” full_screen_row_position=”middle” scene_position=”center” text_color=”dark” text_align=”left” overlay_strength=”0.3″ shape_divider_position=”bottom”][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/1″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][vc_column_text]

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Edição nº 35, Março de 2020

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