Produtores no Douro Superior: A eclética sub-região duriense

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  O Douro Superior é a sub-região duriense mais oriental, localizada entre o Cachão da Valeira e a fronteira com Espanha, e reúne a maior extensão de terra, cerca de 110 000 hectares, de acordo com os dados do Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto. É considerado o território vinhateiro mais quente, quando comparado […]

 

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O Douro Superior é a sub-região duriense mais oriental, localizada entre o Cachão da Valeira e a fronteira com Espanha, e reúne a maior extensão de terra, cerca de 110 000 hectares, de acordo com os dados do Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto. É considerado o território vinhateiro mais quente, quando comparado com o Cima Corgo e o Baixo Corgo. Do rio ao topo da montanha, o desnível é acentuado, chegando aos 700 metros de altitude. O clima denuncia verões muito quentes e secos, sendo a pluviosidade, que decresce à medida que se aproxima a zona raiana, um dos fatores que mais contribui para este cenário de extremos.

No entanto, os guardiões do Douro Superior mantêm a atividade de produção de uva nos mais de 10 000 hectares de vinha plantada nesta sub-região. E os produtores de vinho integram uma lista eclética, desde quem preserva um legado secular aos investidores mais recentes, passando pelas adegas cooperativas, onde os agricultores desempenham um papel fundamental. Eis precisamente três exemplos de visita efetuada por ocasião da edição de 2026 do Festival dos Vinhos do Douro Superior, iniciativa organizada pelo Município de Vila Nova de Foz Côa e produzida pela Revista Grandes Escolhas

“A Quinta da Silveira é uma das quintas mais antigas do Douro Superior”, declara Manuel Maria Martinho

 

Em busca de terras livres

“A Quinta da Silveira é uma das quintas mais antigas do Douro Superior.” A apresentação é iniciada por Manuel Maria Martinho, médico da especialidade de cirurgia plástica reconstrutiva e estética, em Lisboa, anfitrião, produtor de vinho e enólogo. Segue a explicação: “O Douro Superior nasceu da necessidade dos produtores do Baixo Corgo e Cima Corgo deslocarem as suas vinhas quando houve a filoxera, da procura por terras que estivessem livres e que estivessem mais longe do ataque da filoxera, ou seja, onde não houvesse vinhas.” No entanto, António Caetano d’Oliveira, o trisavô de Manuel Maria Martinho, não era proveniente de nenhuma das duas sub-regiões do Douro acima referidas. “Era de Moncorvo.” Portanto, nascera no Douro Superior.

Quando, em tempos idos, surgiu a oportunidade de plantar vinha nesta sub-região, António Caetano d’Oliveira decidiu adquirir terrenos no Vale da Vilariça, no concelho de Torre de Moncorvo, e criou a Quinta da Silveira, com o rio Sabor a um quilómetro de distância. A propriedade, com localização perpendicular ao rio Douro, que dista seis quilómetros dali, é do século XIX e está na família desde 1851. Em 1871, são erigidos os armazéns e a adega em granito. A primeira estrutura da casa também é iniciada nesse ano.

Aquando do falecimento da avó do nosso anfitrião, os descendentes herdaram a quinta e, posteriormente, os netos: Ana Maria Martinho, mais conhecida pelo público, sobretudo pelos leitores de palmo e meio, por Ana Maria Magalhães, Tozé Martinho, ator e argumentista da ficção televisiva nacional (atualmente representado pelos filhos) e Manuel Maria Martinho. Perante tamanho desafio, Manuel Maria Martinho decidiu complementar o conhecimento inerente à medicina com as formações na Escola Profissional Agrícola D. Dinis e na Faculté D’Oenologie, da Universidade de Bordéus, em França, e o mestrado em viticultura e enologia no Instituto Superior de Agronomia, em Lisboa.

 

Solos, exposições e vindima

Atualmente, a área total de vinha é de 65 hectares, dos quais 25 hectares estão na Quinta do Tourão, a outra propriedade da família, localizada a seis quilómetros dali, também no Vale da Vilariça. Contando com a Quinta da Silveira, a produção incide nos Douro DOC e no Vinho do Porto. Numa era em que o mercado se afirma na competição, Manuel Maria Martinho faz questão de enaltecer os atributos da Quinta da Silveira. “É que nestes 65 hectares de vinha, temos montanha, temos a terra mais fértil do país, que é a parte baixa do Vale da Vilariça, considerada, juntamente com os Barros de Beja e a Veiga de Chaves, uma das três partes mais férteis do país. E isso, não tem uma grande vantagem aparente para as vinhas, porque as vinhas querem terreno com muita pedra”, descreve.

Junto à Ribeira da Vilariça, as vinhas estão a 100 metros de altitude; até ao muro da propriedade, estão até aos 150 metros de altitude; atrás do casario, estão em socalcos e vão até aos 300 metros de altitude. No caso da Quinta do Tourão, onde o xisto predomina nos solos, as vinhas, em patamares, vão dos 100 aos 200 metros de altitude. Por conseguinte, todas as videiras deste produtor estão contempladas com várias exposições, além de que as temperaturas variam desde a cota mais baixa à mais alta. Os vinhos brancos, por exemplo, são feitos a partir de uvas vindimadas nas vinhas situadas a 100 metros de altitude.

As vinhas mais velhas têm 45 anos, ou seja, não remontam ao tempo em que a Quinta da Silveira foi fundada, e as castas estão separadas, e não misturadas em campo, tal como se fazia outrora. O vinho é produzido apenas a partir das uvas das duas propriedades e a colheita ocorre quando a matéria-prima atinge o ponto de maturação “que nós queremos. Isso só acontece quando temos as castas separadas”. Viosinho, Gouveio, Arinto, Rabigato, Códega de Larinho e Malvasia Fina estão contempladas na lista das variedades brancas, enquanto, nas tintas, constam Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Barroca, Sousão e Tinta Amarela. “São estas que usamos mais”, acrescenta Manuel Maria Martinho.

 

Lagares em granito

Os edifícios originais da propriedade permanecem de pé e “o vinho continua a ser feito onde sempre foi”, afirma o nosso anfitrião, embora a parte técnica tenha sido melhorada à medida que as exigências com a produção foram evoluindo. No interior da adega, estão sete lagares, cada um com 20 metros quadrados. “Todos em granito”, reforça Manuel Maria Martinho, onde as uvas são esmagadas a pé, no primeiro dia. “Depois trabalha-se com as remontas de bomba”. O mosto é retirado para a lagareta (pequena pia em granito instalada na parte exterior dos lagares) e, posteriormente, “remontado para cima ou por baixo, dependendo se queremos ou não baixar a manta”, elucida.

Da sala dos lagares, o acesso ao espaço onde estão instaladas as barricas do vinho Douro DOC e os tonéis do Vinho do Porto é feito por uma escada. Muito do Vinho do Porto aqui produzido era vendido diretamente às casas exportadoras. Nos anos 90 do século XX, o fortificado passou a ser engarrafado. Os Douro DOC um pouco mais tarde. Na enologia, Manuel Maria Martinho conta com o apoio do enólogo Rodrigo Martins (mentor do projeto Espera Wines e consultor em outras propriedades). “Ajuda a fazer os lotes comigo e provar – prova muito bem”, reforça. A dois passos dali, num vetusto armazém, estão guardadas pipas bem antigas, a respeito das quais Manuel Maria Martinho deixa a garantia que jamais as venderá!

 

Em 2019, João Carvalho comprou a Quinta do Pocinho, no concelho de Vila Nova de Foz Côa, cujas vinhas ocupam uma área de 23 hectares

 

Antes do Douro

A 13 quilómetros da Quinta da Silveira, rumo a norte, está a Quinta do Pocinho, de João Carvalho, nome indissociável à Quinta dos Termos, na região da Beira Interior. “Foi lá que nasci, foi lá que fui criado e, quando fui para a universidade disse ‘adeus e não me apanhas cá mais’”, afirma o engenheiro têxtil e proprietário da referida propriedade vitivinícola com 60 hectares de vinha localizada em Belmonte, mais concretamente nos termos dos distritos de Castelo Branco e Guarda. Com uma área total de cerca de 200 hectares, e situada entre os 500 e os 550 metros de altitude, abrange dois concelhos e três freguesias, e está na família há mais de 300 anos – foi vendida no final do século XIX e recomprada, em 1945, pelo pai, Alexandre Carvalho. No mesmo território vitivinícola, detém, desde 2015, a Herdade do Lousial, em pleno Campo Albicastrense, também no distrito de Castelo Branco, localizada a aproximadamente 450 metros de altitude e com 53 hectares de vinha, aos quais, em 2027, serão somados 7,5 hectares.

Apesar da multidisciplinaridade da química, amplamente apreendida na época universitária, João Carvalho manifesta-se um defensor do “conceito da terra, conceito da natureza”. Ou seja, “nós somos totalmente avessos a químicos em qualquer uma das quintas”, à exceção dos herbicidas de contacto. Esta ação contribuiu para o facto de a Quinta dos Termos ter sido, no início da década de 2000, “a primeira adega, em Portugal, certificada em sustentabilidade” e a única com este selo durante uma década. Porém, “se recuarmos dez, 12 anos no tempo, não utilizávamos qualquer tipo de herbicida. Mantinha um batalhão de gente, desde princípios de abril a finais de junho. Hoje, já não é possível”.

 

Pelas castas tradicionais

Em 2019, investiu na sub-região do Douro Superior. Destino? A Quinta do Pocinho, na aldeia do Pocinho, no concelho de Vila Nova de Foz Côa, propriedade certificada com o selo oficial de certificação de sustentabilidade. Quanto ao pocinho, apesar da sentença muitas vezes lida, permanece na propriedade.

A zona mais alta desta quinta regista entre 380 e 400 metros de altitude. As boas práticas estendem-se para esta aquisição recente, cujas vinhas ocupam uma área de 23 hectares – serão plantados mais 3,5 hectares –, mas a rega é nula. “Em desespero, regamos por aspersão, mas temos de retirar as ervas”, para evitar a competição com as videiras. “Limpamos a erva do meio do talude para baixo, do meio do talude para cima e deixamos uma faixa com revestimento, para proteger o ecossistema, e temos várias manchas de mato, que deixámos ficar, para a natureza falar por si”, esclarece João Carvalho. E “quando é necessário, faço monda de cachos”, acrescenta. Sobre as castas, o proprietário mencionou a Rabigato e a Viosoinho, nas brancas; Touriga Franca, Touriga Nacional, Tinto Cão e Tinta Roriz, nas tintas.

No seguimento da recuperação das castas antigas – com a Fonte Cal a ter o primeiro campo de seleção clonal próprio na Quinta dos Termos e um outro mais desenvolvido, na Herdade do Lousial – aqui, esta ação estará centrada na variedade tinta Cornifesto, missão essa a pôr em prática em 2027 ou 2028. À semelhança das duas quintas acima referidas, João Carvalho garante o desvelo com a fauna e a flora local, e mantém o olival, que contabiliza mais de 200 anos, ocupando seis hectares de terra – em Castelo Branco, são 18 hectares. “Está em bom estado”, assegura.

 

Aproveitamento térmico

A nova adega, construída de raiz, está pronta para a vindima deste ano, a qual é feita à mão, tal como acontece nas duas outras propriedades que João Carvalho possui na Beira Interior. Com a forte aposta no enoturismo, o edifício tem loja e sala de provas, com uma varanda imensa virada para o ondulante rio Douro, onde os serpenteantes socalcos cravejados de videiras complementam a paisagem.

Ainda neste andar, há uma janela envidraçada para a sala ocupada pelas cubas, onde, ao fundo, está à vista o núcleo afeto à receção das uvas. Já a cave de barricas, também instalada no piso inferior, está “enterrada” a cinco metros de profundidade. Na sala contígua a esta há uma mina, “que bifurca e tem cerca de 200 metros de profundidade”. Segundo o nosso anfitrião, a água mantém-se entre os 14,5 e os 15,5º C, preservando o ambiente, de todo este espaço, naturalmente fresco.

Sobre os vinhos do Douro, a primeira colheita é de 2019. Os Reserva branco são submetidos a estágio em barrica com grão extrafino, sem tosta. Já os tintos envelhecem em barricas de tosta média. “De uma forma geral, produzimos vinhos com leveduras indígenas”, remata.

Cooperativa em mudança

A cerca de 17, 5 quilómetros de distância está a Cooperativa de Freixo de Numão, originalmente de viticultores e olivicultores, localizada em Vila Nova de Foz Côa. Segundo o presidente, José Ferreira, até há três anos, “esta casa estava fechada ao exterior. Só vendia, praticamente, vinho a granel”. A partir de 2023, ano em que assumiu a referida função, até hoje, o portefólio aumentou para mais de uma dezena de referências vínicas engarrafadas, entre generoso branco e tinto, licor branco e tinto, amuado, vinho de mesa, Reserva, Grande Reserva e DOC Douro. Escorna Bois, nas versões de branco, rosé e tinto, e Castelo Velho, branco e tinto, constituem a dupla de vinhos mais badalados desta casa, e o Numantino, o licor de uva cuja produção incide na paragem antecipada da fermentação com a adição de aguardente vínica, permanece na lista da exclusividade.

Para firmar esta mudança, Alexandre Chéu, enólogo da Cooperativa de Freixo de Numão, em consonância com José Ferreira, implementou a regra de que quem entregasse uvas em mau estado seria penalizado em 50%. O regulamento foi cumprido. O resultado traduz-se em €450 por pipa, valor correspondente ao pagamento efetuado a alguns sócios, cujo total, respeitante ao setor do vinho, se traduz em aproximadamente cinco centenas.

Em 2027, haverá o lançamento de um Grande Reserva chamado ‘Colheita dos Sócios’ a distribuir, primeiramente, pelos sócios por ocasião do 70º aniversário da Cooperativa de Freixo de Numão. Na lista das boas novas consta a venda de Vinho do Porto, nas categorias Tawny e Ruby, aqui produzidas, assim como o ensaio realizado com a casta Alicante Bouschet, apresentado no Festival do Vinho do Douro Superior. Esta variedade tinta foi submetida a um estágio de oito meses ocorrido em barricas diferentes. “As madeiras foram escolhidas em prova cega”, conta Anastácia Morais, enóloga da Cooperativa de Freixo de Numão e braço direito de Alexandre Chéu, das quais foram selecionadas cinco. Destas, três dividem-se em carvalho francês, americano e nacional, às quais se somaram as de acácia e de cerejeira. O objetivo deste desafio consistiu, desde o início, em mostrar as características que diferem relativamente a cada tipo de madeira que aporta no vinho, bem como dar a conhecer uma Alicante Bouschet sem madeira. O resultado? Seis monovarietais

 

As uvas entregues da Cooperativa de Freixo Numão são provenientes de 1000 hectares de vinha espalhada pela sub-região do Douro Superior

 

1000 hectares de vinha

Do passado, permanecem de pé as cubas em betão, outrora usadas na fermentação. Hoje, há duas salas reservadas a esta fase do processo. No entanto, a fermentação não pode exceder muito para lá de uma dezena de dias, uma vez que, durante a vindima, a receção de uva é uma ação constante. “Todas as uvas são selecionadas à entrada”, assegura Alexandre Chéu e todas são provenientes de 1000 hectares de vinha espalhada pela sub-região do Douro Superior. As principais castas são a Touriga Nacional, a Touriga Francesa e a Sousão, para além da Tinta Roriz e da Tinta Barroca, nas tintas, que, no total, ocupam 60% da área de vinha; a Rabigato, a Viosinho, a Arinto e a Malvasia Fina, nas brancas.

De acordo com o nosso cicerone, o ano de 2025 registou uma produção de cinco milhões de litros de vinho, a qual foi totalmente vendida; em 2026, foram produzidos três milhões e meio. Em maio, tinham apenas 60 000 litros de vinho. Alexandre Chéu destacou ainda a reformulação das marcas e o melhoramento da imagem como fórmula de firmar o novo caminho traçado por quem lidera e faz parte da equipa da Cooperativa de Freixo de Numão. “Estamos a crescer e é isso que queremos.”

 

200 mil litros de azeite

Alexandre Chéu afirma que, no âmbito do azeite DOP Trás-os-Montes, a Cooperativa de Freixo de Numão é “o maior lagar do Douro Superior”. Cobrançosa, Verdeal, Picoal, Galega e a Negrita, esta última “com uma percentagem muito reduzida”, são as variedades de azeitona colhidas em olivais centenários e entregues nesta casa por cerca de centena e meia de associados. A campanha inicia em novembro. A produção deste líquido dourado resulta em 200 mil litros por ano. Chama-se Casa Grande. “É todo extra virgem e fazemos algum biológico.”

Para obter a qualidade superior da matéria-prima, o enólogo sublinha que o lagar funciona 24 horas por dia e todos os dias da semana, asseverando o alto padrão de higiene do lagar. “Toda a azeitona é controlada, é feita a desinfeção, tudo é lavado quando mudamos de um biológico para outro azeite e ali só entram os funcionários”, acrescenta. Terminada a extração, a 22º C, o azeite é transferido para a cuba, onde, à temperatura de 15º C, é feita a decantação por três, quatro meses. Findo este período, “é engarrafado e não leva qualquer tipo de aditivo”. Ou seja, “o azeite que sai da azeitona é o que vai para a garrafa”, afirma.

Este ano, o investimento está a ser feito igualmente neste produto, “com um preço apelativo”. A finalidade é fazer frente ao valor médio estipulado por litro. Em maio, “as nossas vendas de azeite já chegaram aos €15 000, o que é muito bom”, declara o enólogo. A respeito do consumidor, Alexandre Chéu enaltece o mercado além-fronteiras, com a Noruega e a Dinamarca no topo da lista, quão grandes apreciadores do azeite Casa Grande.

(Artigo publicado na edição de Agosto de 2026)

GRANDE PROVA CASTELÃO

Castelão

Castelão 2.0: new beginnings A expressão remete-nos para toda uma ideia de começar de novo, de fresco, frequentemente com um novo sentido de esperança e renovação. Significa mudança, de um capítulo da nossa vida para outro, amiúde após um período de reflexão ou crescimento. Significa todo um deixar para trás, em consciência, de velhos hábitos, […]

Castelão 2.0: new beginnings

A expressão remete-nos para toda uma ideia de começar de novo, de fresco, frequentemente com um novo sentido de esperança e renovação. Significa mudança, de um capítulo da nossa vida para outro, amiúde após um período de reflexão ou crescimento. Significa todo um deixar para trás, em consciência, de velhos hábitos, experiências e circunstâncias, em direcção ao futuro, com uma renovada perspectiva.

Não vos parece que isto tem vindo a acontecer com a casta tinta Castelão? A mim sim, e que bom que assim é.

Não tenho medo de assumir – aliás, até acho que o devo fazer – o quanto gosto destas renovadas perspectivas da Castelão, do Douro, do Tejo, do Alentejo, embora na sua região de sempre também já existam novos começos. Gosto destes novos Castelões que se parecem com a Sangiovese de um Rosso di Montalcino ou com uma Nero d’Ávola da Sicília, ou, claro, com um bom Pinot Noir, ou uma Grenache, porque não, mas, no fundo, não são nenhuma delas, não. É um Castelão, nosso, português, com um novo rumo, virado para o futuro e com renovada perspectiva.

 

Produtividade e adaptação

O equivalente ao nosso Cartão do Cidadão, para uma casta é o VIVC – Vitis International Variety Catalogue, no qual a Castelão figura com o nº 2324. Variedade originária da Península Ibérica, resulta do cruzamento natural de Cayetana Blanca com Alfrocheiro Preto. A sua cultura aparece referenciada antes de 1799. Ruy Fernandes, em 1531, refere a Castelão como sendo cultivada na região de Lamego.

Actualmente, representa cerca de 5% do encepamento nacional, com aproximadamente 10 000 hectares e com especial incidência nas regiões de Lisboa, Tejo, Península de Setúbal e Alentejo. É a quinta variedade com maior área de cultura.

A Castelão é considerada a casta-referência para os estados fenológicos das variedades tintas. O abrolhamento e a floração são precoces, o pintor e a maturação ocorrem em época média, na altura da floração adquire um aspecto bastante característico, em que as folhas se dispõem como telhas de um telhado, apresentando-se a cepa bastante fechada, vertical e vigorosa.

Tem boa produtividade, com tendência para rebentação múltipla; é sensível ao desavinho e à podridão, no período de floração, o qual ataca o pedúnculo do cacho. Mas já é pouco vulnerável à podridão no período de maturação e é pouco susceptível ao oídio. É muito versátil, pois adapta-se bem a terrenos húmidos e ajusta-se a várias situações edafoclimáticas, agradecendo, contudo, solos de média a baixa fertilidade, para exprimir todo o seu potencial enológico. Encontra na Península de Setúbal a região onde atinge maior notoriedade, goste-se ou não do perfil generalizado que a casta aí apresenta. A sua capacidade de adaptação deve-se, em grande parte, ao facto de possuir uma película grossa, dotando-a da capacidade de resistência aos escaldões.

É amiga do lavrador, no sentido de que se traduz numa elevada produtividade, podendo chegar às 15 toneladas por hectare, todavia com um grande senão: a qualidade da matéria-prima é inversamente proporcional ao volume e as melhores práticas apontam para rendimentos entre as seis e as sete toneladas por hectare. Exigente em potássio, é sensível a excesso de azoto, o causador do desavinho (acidente fisiológico caracterizado pela ausência de fecundação das flores, impedindo estas a não se transformem em fruto).

 

Devido à grande capacidade de adaptação, encontramos a Castelão desde as regiões mais frescas e húmidas do Norte do país até às áreas mais quentes e áridas do Sul

 

Castelão

Sinonímia e disseminação

A Castelão é uma das variedades mais emblemáticas do património vitivinícola português. Durante muito tempo, foi conhecida como Periquita, nome popularizado graças a José Maria da Fonseca, que, no século XIX, plantou varas desta uva na Cova da Periquita, em Azeitão. O sucesso dos vinhos aí produzidos foi tão grande, que o nome acabou por se confundir com a própria casta.

Oficialmente designada Castelão, esta variedade também foi chamada de João Santarém, Castelão Francês, Trincadeira (sem relação com a verdadeira Trincadeira), em diferentes regiões do país, e Tinta Merousa, na sub-região duriense Baixo Corgo. A multiplicidade de nomes revela a sua longa história e disseminação por boa parte do território nacional, assim como o seu papel central no mapa vínico português.

Devido à grande capacidade de adaptação, encontramos a Castelão desde as regiões mais frescas e húmidas do Norte do país até às áreas mais quentes e áridas do Sul. Espalhou-se pela maioria das regiões portuguesas, incluindo Trás-os-Montes, Douro, Távora-Varosa, Beira interior, Lisboa, Tejo, Alentejo e Algarve, e estabeleceu o seu reduto forte na região da Península de Setúbal onde, na década de 60 do século passado, chegou a cobrir mais de 90% da área ali plantada.

A casta ganha especial relevância nas vinhas velhas e de baixa produtividade, reveladoras do melhor do seu potencial, dando origem a vinhos de enorme complexidade e estrutura, mas frescos, apesar da concentração, com notas de groselha, ameixa e frutos silvestres, muitas vezes em calda ou compotados. Nos solos arenosos de Palmela e Poceirão, onde o clima quente e seco favorece a maturação, dá origem a vinhos estruturados, concentrados, densos, de cor violácea e aroma intenso, capazes de envelhecer durante muitos anos. E nos solos argilo-calcários da Arrábida, gera vinhos mais leves e elegantes, de menor grau alcoólico, mais frutados e frescos.

Fruto de vários factores, que não importa trazer agora à tona, a partir de meados da década de 2000, a Castelão perdeu terreno. Foram arrancadas vinhas substituídas por outras variedades, inclusive internacionais. Todavia, nem de propósito, em conversa recente com Luís Sousa Mendes, da Associação de Viticultores do Concelho de Palmela (AVIPE), se há dez anos era típico plantar Syrah em vez de Castelão, agora esta tendência travou. Curiosamente, é com agrado que se regista que há mais gente na região a plantar Castelão. E alguns substituem as cepas velhas por novas, utilizando o material policlonal.

A este cenário acresce o facto de que, nos últimos anos, as novas perspectivas da Castelão, aqueles new beginnings, se têm feito sentir, às vezes parecendo até com maior profusão, fora desta zona/região de conforto da casta. Desde o Douro, passando pelo Tejo e pelas zonas mais Atlânticas de Setúbal, até ao Alentejo, a versão 2.0 desta variedade, os tais os novos começos, têm produzido vinhos extremamente interessantes e mais originais até, em que a Castelão transmite, no copo, todo o potencial, a elegância e a frescura de um vinho de clima costeiro, ou que beneficia de alguma influência marítima, em que a extração foi claramente substituída por um trabalho de adega menos intrusivo, mostrando a sua incrível capacidade de adaptação e versatilidade, tão necessária aos dias de hoje, para responder aos desafios inerentes às alterações climáticas. É também, nesse sentido, uma casta muito actual e, por conseguinte, de não menos futuro.

Castelão

 

Perfis e a influência climática

O perfil geral dos vinhos feitos a partir de Castelão continua a ser marcado pela rusticidade, com taninos firmes e uma acidez vincada, atributos que, à partida, garantem longevidade e capacidade de evolução em garrafa. Apresentam notas expressivas de groselha, ameixa em calda e frutos silvestres, como amora e framboesa, e, em exemplares mais antigos ou sujeitos a estágio em madeira, há a probabilidade de surgir nuances de caça, tostados e boa complexidade que, em grandes anos, podem até lembrar vinhos com vários anos de garrafa da margem esquerda de uma certa região famosa. Bordéus, isso mesmo.

Acidez natural elevada e estrutura firme torna a casta facilmente compatível com estágio em madeira, preferencialmente barricas de carvalho francês, unanimemente consideradas as melhores. Mas a exemplo da Baga, Sangiovese ou Nebbiolo, a Castelão também responde positivamente quando envelhecida em tonéis de madeira de grande porte.

Por sua vez, o clima ameno do Algarve, com a sua característica de assinatura, em que as amplitudes térmicas entre o dia e noite não variam radicalmente, transmitindo aos vinhos boa intensidade aromática, aqueles mostram-se mais abertos, são mais redondos e estão prontos para beber mais cedo. Têm, no entanto, o senão de, à partida, não possuírem grande capacidade de envelhecimento.

Por sua vez, Domingos Soares Franco tem sido, ao longo da sua vida enológica, reiterada e repetidamente categórico no que diz respeito à origem dos melhores vinhos de Castelão: a qualidade e dimensão da madeira é importante é certo, mas são os solos arenosos que abrigam as vinhas velhas de baixo rendimento, na Península de Setúbal, a darem origem não somente aos melhores vinhos, mas também aos mais longevos, sendo possível encontrar garrafas de Castelão com mais de meio século que ainda estão na sua plenitude.

 

A plasticidade da casta

Que Castelão quer o consumidor, essa pessoa que ninguém conhece, mas que legitima grandes tomadas de decisão enológicas, comerciais e outras? Não resta qualquer dúvida que a casta exibe diferentes perfis e é extremamente versátil. A esta versatilidade e capacidade de adaptação eu gosto de acrescentar plasticidade, atributo comum à casta Arinto, nas brancas. É uma variedade que, com a viticultura e a enologia adequadas, consegue exprimir e entregar cada terroir, cada região, cada produtor de maneira superior e diferenciada. Sejam eles vinhos de Castelão fáceis, prontos e confortáveis para se beber ou tintos sérios, personalizados, estruturados e longevos, capazes de surpreender colecionadores e apaixonados pelo vinho, mas sempre sem nunca perderem, quer uns quer outros, elegância, frescura e sofisticação.

São assim estes novos tempos da Castelão. 2.0 é a nova versão. E foi isso mesmo que testemunhamos nos 25 vinhos que se seguem, todos provados às cegas, para não haver ideias predefinidas, estigmas ou preferências pessoais. No fim, ganhou… a Castelão!

 

Ganha especial relevância nas vinhas velhas e de baixa produtividade, dando origem a vinhos de enorme complexidade e estrutura

 

Douro e Algarve

O número de vinhos provados é 28 e creio que é seguro afirmar que a Castelão está de parabéns, do Douro ao Algarve. Não houve um vinho extraordinário, é certo, com aquele factor wow que sempre procuramos e que nos entusiasma verdadeiramente, mas é minha opinião que aí a responsabilidade é mais da casta Castelão em si mesma do que dos produtores. Simplesmente não acho que seja uma casta adequada a grandes vinhos ou vinhos extraordinários. Mas que resulta em vinhos muito bons, disso não pode haver dúvidas, e com bom potencial de guarda e envelhecimento; e tivémo-los aqui, mas, testemunhamos, sobretudo, uma grande qualidade global nas várias regiões do país que por aqui desfilaram.

Uma nota de realce: apraz-me registar a revelação de outras interpretações da Castelão, mais abertas, menos extraídas, com menos grau alcoólico. Creio que a casta também se expressa muito bem dessa maneira. Porém, os clássicos são clássicos e merecem sempre o nosso respeito. É de notar ainda que muito me agradou o facto de, ao longo de toda a prova, não termos encontrado nenhum vinho com excesso de madeira ou com esta a sobrepor-se. Pelo contrário, nas referências com estágio em madeira, esta apresentou-se muito bem integrada, a confirmar a qualidade dos vinhos apresentados, bem como o trabalho afinado de enologia que, hoje em dia, se pratica, de forma transversal a várias regiões vínicas de Portugal.

Uma menção especial para os dois vinhos mais pontuados: a Castelão do Douro, de Luís Seabra, um terroir pouco usual para a casta, mas onde se percebe o grande talento e afinamento por parte do produtor; e a Castelão da Casa da Atela, aqui num terroir mais habitual para a casta, que também revelou uma performance a assinalar.

Nota – A Grande prova Castelão realizou-se em Prova Cega por: Rui Caroço dos Santos, João Paulo Martins, Valéria Zeferino

(Artigo publicado na edição de Agosto de 2026)

 

A herança de Michel Rolland: entre o vinho limpo e o palato globalizado

Michel Rolland

Michel Rolland (1947-2026) Foi, sem sombra de dúvida, o grande arquiteto da enologia contemporânea, o homem que dividiu o mundo do vinho em duas fações de contornos quase religiosos. De um lado, os acérrimos defensores que o percecionaram como o salvador iluminado portador da higiene às trevas das adegas sujas. Do outro, os detratores que […]

Michel Rolland (1947-2026)

Foi, sem sombra de dúvida, o grande arquiteto da enologia contemporânea, o homem que dividiu o mundo do vinho em duas fações de contornos quase religiosos. De um lado, os acérrimos defensores que o percecionaram como o salvador iluminado portador da higiene às trevas das adegas sujas. Do outro, os detratores que o diabolizaram como o grande destruidor da alma do “terroir” e o mercenário da padronização.

Hoje, afastados do calor das paixões mais imediatas que marcaram o início do milénio, torna-se imperativo separar o homem da sua caricatura pública e a ciência enológica do panfleto ideológico.

O homem e a lente

Para dissecarmos o “fenómeno Rolland”, somos obrigados a recuar ao abalo provocado por Mondovino, lançado em 2004. Realizado pelo luso-americano Jonathan Nossiter com uma câmara numa mão trémula. Este filme, nomeado para a Palma de Ouro, abalou as fundações da indústria. Mas sejamos claros, a película tratou-se de um manifesto cinematográfico e de um panfleto ideológico quase visceral contra a globalização cultural, usando o vinho como metáfora.

A lente cirúrgica do realizador transformou o consultor no “Darth Vader” da enologia. Rolland raramente pisa a terra no filme e é cinematografado, quase em exclusivo, no banco de trás de um carro com motorista, rindo e fumando charutos enquanto salta de propriedade em propriedade, consolidando a imagem do burocrata mercenário. A sua ordem repetida por telemóvel para “micro-oxigenar” os vinhos tornou-se o símbolo da manipulação laboratorial. A sua arrogância imperial ficou selada quando desvalorizou os críticos com sorrisos condescendentes.

Nossiter teve o mérito de iniciar um debate sobre a perda de tipicidade, mas a sua obra pecou por omissão. A realidade que o filme escondeu é que o vinho tradicional europeu estava frequentemente minado por defeitos bacterianos e outros praticamente intoleráveis nos dias de hoje: a acidez agressiva, os taninos verdes e a temível brettanomyces (que se traduz num odor a estábulo). Na altura eram romanticamente indulgenciados como produtos do “caráter local”. Rolland não inventou uma “fórmula do mal”, mas erradicou estes defeitos, trazendo higiene e ciência às adegas que viviam ancoradas no romantismo de vinhos difíceis. Técnicas diabolizadas, como a micro-oxigenação, salvaram muitos produtores da falência em anos desastrosos.

O A-B-C de Peynaud

Para compreender Michel Rolland, temos de ler a cartilha do seu professor, Émile Peynaud, o verdadeiro “pai” da enologia moderna. Se Peynaud foi o profeta que separou a idade média da idade moderna no vinho, provando que as uvas precisavam de estar fenolicamente maduras e desmistificando a fermentação malolática, Rolland foi o seu mensageiro global. Este assimilou a lição de Peynaud e transformou-a no princípio basilar dos vinhos redondos e agradáveis tornando-a na sua inconfundível assinatura enológica e estilística.

Na Argentina, Rolland encontrou a sua tela em branco. Livre das leis europeias e de adegas infetadas, construiu uma verdadeira utopia enológica, em Mendoza com o projeto “Clos de los Siete”, iniciado no final da década de 1990. Dispondo de 850 hectares a grande altitude, que garantiam uma maturação fenólica perfeita, construiu adegas quase à imagem de blocos operatórios, com higiene imaculada e controlo térmico milimétrico.

Misturou a rústica casta Malbec argentina com a Merlot, Cabernet Sauvignon, Syrah e Petit Verdot. O resultado foi um verdadeiro fenómeno global de vendas ao apresentar um vinho polido e sem arestas, que os detratores acusaram de ter “sotaque argentino, mas que falava francês”.

A “Parkerização” e a guerra em Portugal

Seria ingénuo aplaudir Rolland sem escrutinar a sua hegemonia. No livro de 2012, “Le Gourou du Vin”, Rolland descarta a acusação de padronização, ignorando o seu vínculo estilístico e enológico com o crítico Robert Parker.

Este ditava os preços globais através do seu sistema de pontuação, premiando vinhos opulentos e fortemente amadeirados. Rolland desenhou exatamente esse perfil para os produtores que precisavam dessas notas. Ao forçar a sobrematuração e ao usar proporções massivas de barricas de carvalho novo francês mascarou a tipicidade sob camadas de baunilha, café e tosta.

O resultado foi a “Parkerização”, na qual os vinhos, de vindimas tardias e baixa acidez do Novo Mundo, sabiam exatamente ao mesmo das de um produtor europeu. A sua obstinação dogmática revelou-se ainda no ataque feroz ao movimento dos vinhos naturais, rotulando-os de instáveis resultado de pura incompetência mascarada de marketing.

Em Portugal, a sua intervenção também se manifestou em várias regiões, mas foi no Alentejo, no final da década de 1990 e início de 2000, que ela foi mais cirúrgica.

Rolland prestou consultoria à Fundação Eugénio de Almeida e em especial na referência Pêra Manca. A sua chegada gerou uma verdadeira guerra civil entre críticos “Rollandistas” fascinados pela modernidade e puristas aterrorizados com a descaracterização de um símbolo pátrio.

O legado de um enólogo mitológico

Michel Rolland foi um técnico dotado com uma fé cega de que a ciência corrigiria a natureza. A sua influência saturou o mercado com vinhos pesados e exaustivos. No entanto, temos de reconhecer que ele limpou o mundo vitivinícola, retirando as adegas do quase obscurantismo medieval. O nosso copo, hoje, é indiscutivelmente mais limpo e sedoso por causa das suas premissas enológicas. No entanto, à custa das suas extrações e excessos de madeira, aprendemos que o verdadeiro fascínio do vinho reside muitas vezes na sua imperfeição regional, no bater de coração irregular de um “terroir” que recusa submeter-se à ditadura da perfeição globalizada.

Michel Rolland partiu, mas as suas lições, os seus gloriosos acertos e os seus dolorosos erros, continuarão a definir as vindimas das próximas gerações.

P.P.

 

ALGARVE: Um mundo à parte

algarve

Os três dias passados no Algarve em visitas aos produtores, em provas de vinhos e conversas com enólogos e com a Presidente da Comissão Vitivinícola do Algarve (CVA), Sara Silva, foram bastante elucidativos. Confirmou-se a sensação que tinha acerca de uma eventual grande mudança, uma (r)evolução em curso que deixa de ser silenciosa e passa a ser evidente no território […]

Os três dias passados no Algarve em visitas aos produtores, em provas de vinhos e conversas com enólogos e com a Presidente da Comissão Vitivinícola do Algarve (CVA), Sara Silva, foram bastante elucidativos. Confirmou-se a sensação que tinha acerca de uma eventual grande mudança, uma (r)evolução em curso que deixa de ser silenciosa e passa a ser evidente no território mais a sul do país.

Esta região, quente e árida, que no imaginário colectivo português pouco está associada a vinhos a sério, tem uma característica que mais nenhuma região do nosso país tem: o mercado à porta. O mercado que não se importa de pagar o preço bem mais alto do que no resto de Portugal, sem esmagar as margens aos produtores, como por hábito acontece na exportação. Por isso, hoje, como nunca, o Algarve atrai investimento na área vitivinícola. Já para não falar que cerca de 70% do vinho do Algarve se vende na região.

Em 2016 havia 30 agentes económicos registados na CVA e, numa década, esse número duplicou. O tecido empresarial é muito diverso, desde produtores algarvios que sempre estiveram por cá; um grande núcleo de produtores estrangeiros (o equivalente a 40%), alguns com o foco em potenciar o negócio, outros porque querem ter a sua vinha no quintal; e até grandes empresas que trouxeram o know how de outros regiões do país e uma visão estratégica, como é o caso da Aveleda e da Casa Santos Lima. E há espaço para todos.

 

Enoturismo e restauração

Eis dois grandes pilares de comercialização e promoção dos vinhos no Algarve. A maior parte dos projectos vitivinícolas na região já nascem com enoturismo pensado de raiz. Naturalmente, mais vocacionado para o público estrangeiro. O turista português não vai ao Algarve para provar vinhos, vai pelas praias e numa de relaxar. O estrangeiro quer tudo o que este território português banhado pelo sol oferece, vinho incluído.

O mercado dita as regras do jogo: há uma procura muito forte por brancos frescos, rosés de qualidade e espumantes. O turista do Algarve está acostumado ao Sauvignon Blanc e ao rosé francês. Este vende-se pela cor. Portanto, quanto mais clarinho, melhor. E a proximidade do mercado, quer com o consumidor final, quer com a restauração e agentes de enoturismo, faz com que o feedback recebido pelo produtor seja directo e quase imediato, o que lhe permite ir adaptando o seu portefólio.

Segundo Sara Silva, dos vinhos produzidos no Algarve, 60% são tintos, entre os 30% e 40% são brancos e o restante é rosé. A partir de 2020 também passaram a certificar espumantes e já têm 12 produtores a apostar em bolhas, utilizando, sobretudo, as castas Negra Mole e Arinto para esse efeito.

A forma como a restauração algarvia olha para os vinhos da própria região também mudou bastante nos últimos tempos. Há 20 anos a abertura era quase nula, os produtores eram praticamente expulsos dos restaurantes. É claro que, na altura, os vinhos dificilmente competiam com Douro ou Alentejo, mas o cenário mudou.

 

Cerca de 70% do vinho do Algarve vende-se na região.

DO vs. IG

As denominações de origem, no Algarve, foram demarcadas em 1980, seguindo um critério administrativo e não técnico. Basicamente, a cada adega cooperativa correspondia uma DO. E foram quatro: Portimão, Lagos, Lagoa e Tavira. O vinho regional Algarve só surgiu nos anos 2000, quando as adegas começaram a colapsar. A de Tavira e a de Portimão encerraram ainda no final do século passado e, mais tarde, a fusão da Adega Cooperativa de Lagoa com a Adega de Lagos deu origem à ÚNICA – Adega Cooperativa do Algarve. Literalmente.

As denominações de origem ficaram praticamente atrofiadas, enquanto, a partir de 2000, começaram a surgir produtores privados na região. Estes tinham noção quem era o principal consumidor deles – o turista estrangeiro – e preferiram plantar castas internacionais e nacionais mais conhecidas, como a Touriga Nacional. A IG (Indicação Geográfica) serviu perfeitamente para enquadrar vinhos produzidos com estas castas. E vamos mais longe: internacionalmente, o Algarve tem mais expressão do que qualquer das DO existentes. Coloca logo o vinho no mapa vínico do mundo.

Se mantivermos as antigas DO, de que identidade estamos a falar? As castas são praticamente as mesmas das já existentes nas outras regiões do país. Provavelmente, as variedades estrangeiras trazem mais identidade ao Algarve, do que as portuguesas, com algumas excepções. E são mais facilmente percebidas pelo consumidor, a quem pouco importa se a Sauvignon Blanc que tem no copo é de Lagos ou de Lagoa.

Agora fazia mais sentido unir as quatro DO dentro de uma só, para elevar o nome Algarve, e criar o Regional Algarvio, à semelhança de DO Alentejo e IG Alentejano, por exemplo. Mas administrativamente e burocraticamente não é fácil alterar estas nomenclaturas. A ver vamos.

 

Negra Mole com bagos de cores diferentes no mesmo cacho, dá vinhos de cor aberta e bastante leves.

 

algarve
Negra Mole

Negra Mole: sunset no copo

Mal-amada durante décadas, a Negra Mole está a ser promovida, a pouco e pouco, a uma estrela ascendente no universo algarvio. Fruto dos investimentos mais recentes, não tem aumentado em termos de área, ainda mais por falta de bacelos para plantar.

É uma casta autóctone, típica da região e uma das mais antigas variedades portuguesas. Com bagos de cores diferentes no mesmo cacho, dá vinhos de cor aberta e bastante leves. Como refere Diogo Campilho “por muito que se tente extrair, a cor nunca vai muito além disto.”

Na década de 80 do século XX, a Negra Mole representava 75% da plantação da região. Mas a partir dos anos 90, este perfil de vinho tinto não era valorizado, tendo sido gradualmente posta de parte. Actualmente, ocupa o segundo lugar nos vinhedos da região, ocupando 15% da área, a seguir à Castelão, com 16%. Parece que chegou o seu momento. Por um lado, os produtores profissionalizaram-se e conseguem tirar o melhor proveito das particularidades desta casta; por outro, o consumidor também está mais aberto a este tipo de vinho.

Se há alguma casta tinta que identifica o Algarve, o seu perfil ligeiro e descontraído, com aquela cor que é só dela, que faz lembrar uma toranja, é, claramente, a Negra Mole. Ela própria é o sunset no copo: vermelho, com tons alaranjados. Esta, sim, deveria ser protegida no âmbito da denominação de origem do Algarve, seja ela qual for.

 

Dos vinhos produzidos no Algarve, 60% são tintos, entre os 30% e 40% são brancos e o restante é rosé.

 

Vinho, arte e turismo

A Quinta dos Vales, em Estômbar, no concelho de Lagoa, é bastante conhecida pela sua ligação à arte, da qual o fundador do projecto, o empresário alemão Karl Heinz Stock, era grande apreciador. Em 2024, a “quinta das esculpturas” mudou de mãos, sendo adquirida por um grupo de empresários do sector de hotelaria.

A produção de vinho manteve-se, tal como as marcas existentes: Marquês dos Vales e Grace. A equipa de enologia, jovem e dinâmica, é composta pela algarvia Rita Xavier, que durante o seu percurso profissional já passou por Alentejo, Douro e Argentina, e pelo chileno Rafael Merce, com vasta experiência internacional na Argentina, México, Estados Unidos e Brasil, para além do seu país natal. Ambos contam ainda com consultoria de Paulo Laureano.

“Estamos a cinco quilómetros do mar e a três do rio [Arade], em linha reta”, afirma Rita Xavier. “Os solos são argilo-calcários e, na vinha, estamos sempre a encontrar fósseis”, continua. Dos 44 hectares da propriedade, a vinha ocupa 19, dos quais três foram replantados recentemente. Para ir ao encontro do mercado, a Syrah foi reconvertida em Sauvignon Blanc e a Castelão em Arinto. “Adaptamo-nos um bocado à realidade em que estamos inseridos, porque tanto o branco como o rosé é o que mais se consome aqui”, justifica a enóloga. Cerca de metade da produção é dominada pelos vinhos brancos, 30% são tintos e 20% são rosé. Selecta é a gama de entrada, Duo, a gama média, que é sempre bivarietal, e a marca Grace representa a gama mais alta.

A adega tem capacidade de produção para 150 mil litros, mas, actualmente, produzem cerca de metade. Isto tem a ver com a reestruturação da vinha e com o facto de deixarem de ter uma vinha em Silves, que pertencia ao antigo proprietário.

A vertente de enoturismo é muito forte. Têm parcerias com hotéis, dispõem de alojamento próprio e de organização de eventos na quinta (casamentos, baptizados, jantares privados), os quais contribuem para a promoção das suas marcas de vinhos.

Uma oferta muito particular que desenvolveram na Quinta dos Vales é The Winemaker Experience. Pressupõe o aluguer de uma vinha com uma ou mais variedades em função do tipo de vinho que se pretende produzir. O contrato, normalmente, dura um ou dois anos e inclui todas as despesas com a vinha e acompanhamento enológico. Quanto mais cedo começar, mais interessante será o processo, porque a data de vindima e a abordagem na adega são definidas em parceria com a equipa de enologia. Basta imaginar que a mesma casta, como, por exemplo, a Syrah, pode originar um rosé, um blanc de noir, um tinto ligeiro ou um tinto com estágio em barrica; e cada opção envolve manuseamento diferente. Para a vindima de 2026 já fecharam as oportunidades, mas para 2027 há mais.

 

Vinho de autor

 

Quinta do Francês é uma das mais antigas quintas privadas no Algarve. Localizada no Vale da Ribeira de Odelouca, em Silves, esta pequena pérola pertence, desde 2000, a Patrick Agostini, de origem italiana, nascido em França. Médico de formação, radicado em Portugal, com a sua mulher Fátima, levou o projecto tão a sério, que tirou o curso de Enologia em Bordéus. Em 2002, plantaram a primeira vinha e, em 2008, estava pronta a adega. Hoje, contam com 12 hectares de castas, portuguesas e internacionais. A produção ronda as 80 000 garrafas por ano.

A propriedade está no sopé da Serra de Monchique e é marcada mais pela influência da serra do que do mar. “Quase todas as outras quintas apanham alguma maresia. Aqui, a influência marítima é quase nula, mas há sempre o ventinho da serra”, explica o enólogo Pedro Mendes. E no Inverno refere a diferença de 5º C para menos, comparativamente com a zona próxima da autoestrada, localizada a apenas a quatro quilómetros de distância.

Os solos também são fortemente marcados pela orografia. Na cota mais abaixo da quinta, onde o afluente do Arade, o Odelouca, cravou um vale, os solos são calcários, com uma percentagem de argila, zona conhecida no Algarve como Barrocal. No início da serra, nas colinas, já se nota a presença de xisto, mas quando chegamos a Monchique, muda para solos graníticos.

Vindima-se tudo à mão. A mecanização não é fácil e a dimensão relativamente pequena também não a justifica. A produção é reduzida, rondando as três toneladas por hectare. Tem a ver com os solos pouco férteis e, com o clima tão quente, “a videira também se protege um bocado para não produzir muito”, resume o enólogo.

A vinificação é separada casta por casta, para “ter mais ferramentas para trabalhar no final” e Patrick participa sempre nas decisões de lote. “Hoje em dia, estamos a usar mais as barricas de 500 litros, porque fazemos estágios mais prolongados”, justifica Pedro Mendes. A gama de entrada chama-se Odelouca e a gama superior ostenta o nome da quinta, com destaque para o Syrah Terrasses e Ianthis Cabernet Sauvignon.

O enoturismo é uma componente importante da oferta. Inclui visitas guiadas às vinhas e à adega, bem como diferentes provas de vinho, realizadas numa sala ou num pitoresco terraço, sombreado por vegetação trepadeira, com vista, naturalmente, para as vinhas.

 

O turista português não vai ao Algarve para provar vinhos, vai pelas praias e numa de relaxar.

 

Rigor e definição

 

O projecto Villa Alvor começou em 2019, quando a Aveleda adquiriu a propriedade em Alvor, no concelho de Portimão, e criou esta marca. “Já fizemos investimentos grandes na vinha e também vamos investir em grande a nível de enoturismo. É um projecto que nós gostamos e pelo qual temos um carinho enorme”, declara Diogo Campilho, Director de Enologia da Aveleda. Na sua equipa conta com o enólogo Rui Viana, que passou a acompanhar o Villa Alvor em 2024, e com Pedro Furriel, que ali começou a trabalhar como enólogo residente no ano passado.

O grande foco, neste momento, é organizar a área de produção, de modo a que o trabalho seja feito da forma mais eficiente possível, com o menor recurso a mão-de-obra. Para o ano, vão começar as obras, para compor a zona de enoturismo. Vai haver uma loja e um espaço criado para refeições ligeiras, que podem ser acompanhadas com vinhos, e uma grande esplanada.

A visita à vinha revelou solos são argilo-calcários, com muita pedra à vista. Entre as castas nacionais e internacionais há particular destaque para a Negra Mole, Moscatel Galego Roxo (da qual fazem um belíssimo rosé) e Crato Branco.

As vindimas de 2020 a 2022 foram feitas à mão, mas não é nada vantajoso apanhar uva à mão em 30 hectares, devido ao calor algarvio e à escassez de recursos humanos. Aqui, onde o terreno é bastante plano, a vindima nocturna à máquina é a melhor solução. A vantagem de ser uma empresa grande, permite aproveitar as sinergias. “Isto antes era impensável no Algarve. Agora fazemos controlo de maturação, provamos, decidimos, vem a nossa máquina da Aveleda, com o operador especializado para vindimar tudo no ponto”, refere Diogo Campilho com satisfação.

Atendendo às preferências do mercado, dos 200-250 mil litros por ano, metade são vinhos brancos, 30% rosés e 20% tintos. Os perfis dos vinhos são bem definidos entre todas as gamas e também se percebe a filosofia do produtor. “O nosso estilo é muito frutado e limpo, tudo protegido das oxidações. Com o tempo, vamos começar a criar aqui uns vinhos mais de autor, que eu acho que é interessante. Até lá, queremos cimentar a marca que temos”, resume o Director de Enologia.

No enoturismo, para além dos “casais que batem à porta”, têm visitas organizadas através das parcerias com as agências turísticas. E, de 15 em 15 dias, à sexta-feira, organizam uns sunsets.

 

Rio, ânforas e Negra Mole

 

Algarve
Arvad

 

Arvad é um projeto relativamente recente em Estômbar, Lagoa. Começou em 2016, com vinhas plantadas de raiz. Os proprietários da família Garcia de Matos compraram, em 2012, um monte e com os anos foram comprando os terrenos à volta. Neste momento, são 120 hectares.

“É um lugar muito bom para a plantação de vinha, porque nós estamos na curva do rio. De um lado, temos uma exposição a Norte. Quando está vento Norte, recebemos aqui nortadas frias. Do outro lado, estamos expostos a Oeste, de onde recebemos mais a influência do Oceano Atlântico. A outra frente do terreno está virada para a Serra de Monchique, que bloqueia os ventos do Norte, mas, ao mesmo tempo, temos um vale, onde corre a Ribeira de Odelouca, que afunila os ventos e concentra a frescura”, conta Mariana Canelas, responsável de vendas e exportação do Arvad.

No início do projecto, foi contratado um historiador, para saber mais sobre a história deste lugar. Parece que o nome do rio Arade provém da palavra “Arvad”, porque era a designação que os fenícios atribuíam a esta parte deste curso fluvial. Quer dizer “refúgio”, “porto seguro”, porque, naquela época, fugiam para dentro do rio, com o intuito de se refugiarem das tempestades e dos piratas. E foram os primeiros a introduzir vinho na Península Ibérica. Pensa-se que aqui, nesta zona, em Silves, foi a primeira região, onde se provou vinho, trazido pelos fenícios, em ânforas vinárias. Daí a grande aposta do produtor em ânforas.

O projecto foi pensado no enoturismo de raiz. Em 2016, plantaram nove hectares de vinha, com uma selecção de castas portuguesas e internacionais: Arinto, Alvarinho e Sauvignon Blanc, para os brancos; para os tintos, Touriga Nacional, Cabernet Sauvignon e Alicante Bouschet. Estrearam-se na vindima em 2019 e lançaram os primeiros vinhos em 2020, em plena pandemia. Correu tudo tão bem, que decidiram apostar na plantação de mais vinhas e, nessa altura, introduziram a Negra Mole. Primeiro alugaram cinco hectares de vinhas velhas desta casta, que ficam perto do Morgado do Quintão (outro produtor do Algarve), e depois plantaram parcelas novas. Neste momento, já contam com 12 hectares de Negra Mole, a protagonista de um tinto, um rosé, um blanc de noirs e um espumante.

Ainda ficaram com uma quinta em Alvor, com 27 hectares de vinhas, onde fizeram um projecto diferente, para um público diferente e uma abordagem diferente, e lançaram uma segunda marca, a Uca.

Em 2021, recuperaram as primeiras ruínas. Agora têm uma sala de estágio, uma sala de provas e uma sala de eventos. Segundo Mariana Canelas, o enoturismo tem corrido muito bem. Neste momento oferecem uma série de experiências, além das provas de vinho durante todos os dias do ano. As actividades incluem piqueniques nas vinhas: “os clientes podem vir de barco e provar vinhos ou almoçar no deck; podem fazer provas e almoços privados na casa do rio, com um chefe e show cooking.” Às quintas-feiras organizam o sunset com DJ ou com música ao vivo, “que é um sucesso”. O espaço é grande e bem decorado, e ainda dispõe de uma esplanada. Enche-se de gente alegre e de copos de vinhos brancos e rosés, maioritariamente.

“Neste momento o enoturismo é, sem dúvida, uma fatia grande da nossa faturação, mais de metade”, refere a anfitriã. Neste momento, estão a construir um hotel de cinco estrelas, com abertura prevista para o final de 2027.

“A exportação ainda é reduzida, mas eu posso dizer de uma forma geral o seguinte: 70% do vinho que é produzido no Algarve é vendido e consumido no Algarve. Cerca de 18%, creio eu, nem chega a 20%, é consumido noutras regiões do país. O resto, que é uma minoria, 1,8% mais ou menos, é para exportação.” Actualmente, estão a exportar em quantidades pequenas, para Alemanha, Áustria, Holanda, Inglaterra, e a Negra Mole para Ibiza.

 

biodiversidade como compromisso

 

Quinta dos Capinhas nasceu de uma história de amor. O alemão Horst Lieberwirth, depois de reformado, mudou-se para o Algarve, onde conheceu a sua futura esposa, Inês Capinha, portuguesa com raízes nestas terras. Casaram-se e adquiriram uma propriedade, em Porches, onde fundaram o projecto vitivinícola, em 2013, com o nome Quinta dos Capinhas.

A quinta tem cerca de 30 hectares, dos quais oito são de vinha plantada pelo casal, com castas portuguesas e internacionais: Cabernet Sauvignon, Chardonnay, Touriga Nacional, Alfrocheiro, Arinto, Verdelho. Mais recentemente acrescentaram a Negra Mole.

“Temos o mar ali à nossa frente a dois quilómetros. Depois, temos esta brisa, que é muito frequente, é óptima para não termos doenças nas plantas. Estamos no segundo ano de conversão para biológico e tem corrido bem. Não estamos com grandes problemas em comparação com o ano passado”, esclarece Sofia Saraiva, gestora do projecto.

A equipa é pequena, à dimensão do empreendimento. Para além do enólogo consultor Pedro Mendes, entrou recentemente o enólogo residente, Marco Crispim. Na parte do enoturismo, contratam uma pessoa de fora para a época alta. Felizmente, têm a possibilidade de lhe oferecer alojamento durante essa temporada. Durante o verão, praticamente todos os dias, têm provas de manhã e à tarde, organizam jantares vínicos com catering feito por um restaurante local. Há ainda três casas na propriedade, que podem ser arrendadas a turistas.

Para além de enoturismo, os vinhos vendem-se na restauração e em algumas garrafeiras. Uma pequena percentagem é exportada para a Alemanha, graças à ligação do dono da empresa a este mercado.

Os colheitas, ou entradas de gama, são sempre blends; depois há vinhos monovarietais em função do ano. Os best-sellers são a Alicante Bouschet e Antão Vaz. A novidade mais recente é um colheita tardia de Moscatel Galego, com podridão nobre. E ainda adquiriram um Moscatel produzido no Algarve nos anos 50 do século passado. Este não tem o nome da quinta. Chamam-no Testamento.

Praticamente em todos os rótulos existe um camaleão. Sofia Saraiva explica a razão: “esta zona do Algarve é uma das únicas zonas onde o camaleão não está em vias de extinção.” E, de tempos em tempos, o colega que trabalha no tractor, mostra fotografias dos camaleões que tem encontrado na vinha. “Mais uma razão para a transição para o biológico, porque nós estamos inseridos aqui nesta zona de grande biodiversidade. E para nós é mais do que uma certificação, é um objectivo de manter aqui o ecossistema da quinta equilibrado”, resume.

Nos planos, está a construção de uma adega na propriedade e o projecto já foi submetido para a câmara. Na colina, de onde se vê toda a vinha e o mar ao fundo, planeia-se a construção de um restaurante. Enfim, será bom voltar cá daqui a uns anos.

 

O projecto algarvio da Casa Santos Lima

 

Al-Lagar começou com dois hectares de vinha plantada numa propriedade que José Luís Santos Lima Oliveira da Silva,administrador e proprietário da Casa Santos Lima, adquiriu em 2008. À medida que ia comprando terrenos com casas para alojar as pessoas que precisava para trabalhar, ia plantando mais vinha. Depois investiu em adega própria, porque o volume de produção o justificava. Agora, a empresa possui cerca de 60 hectares, que é uma grande dimensão para o Algarve.

Segundo José Luís Santos Lima Oliveira da Silva, a Casa Santos Lima é não só o maior produtor de vinhos na região, como destacadamente o maior exportador de vinhos do Algarve, colocando, lá fora, 65% do vinho que produz neste território vitivinícola, estando presentes nos 30 mercados estrangeiros, com destaque para Reino Unido e Suécia, com dois vinhos registados no regime de monopólio; e depois desde a Ucrânia, à Tailândia e Nova Zelândia, só para nomear alguns.  Mas é na própria região, onde se consome mais o seu vinho – 35% do que produz –, porque existe um grande consumo doméstico.

Em 2025, produziu cerca de 320 mil litros, entre branco e rosé e, este ano, está a contar com o crescimento de 10%. Cerca de 25% são vinhos brancos, 5% rosé e o resto tintos. Entretanto, devido à grande procura pelos brancos e rosés, as próximas plantações irão contar com esta tendência em termos de castas.

A vinha é toda regada. A água é proveniente das barragens de Beliche e de Odeleite, próximas de Castro Marim. “Também temos uns furos, mas nunca faltou a água da barragem”, assegura o produtor.

Ao contrário de muitos produtores que nasceram já a pensar no enoturismo, para a Casa Santos Lima, que sempre se focou na produção, esta actividade é recente, mas no Algarve faz todo o sentido. Está em desenvolvimento um projecto de alojamento local, com 18 quartos, no meio da vinha, com uma vista fantástica para o mar e para Vila Real de Santo António; e Al-Lagar, é a marca do enoturismo já a funcionar. Brevemente também será lançado um vinho com esse nome. Era um antigo lagar dos anos 80 do século passado, recuperado e transformado em espaço de enoturismo. Durante a restauração, preservou ao máximo o traço antigo e ficou um blend perfeito entre o rústico e o moderno. Nesta sala, que se mantém naturalmente fresca no ambiente acalorado da Tavira, podem ser feitas provas de vinhos, acompanhadas de refeições ligeiras e também podem ser adquiridos os vinhos da casa, abrangendo todas as regiões do país, onde têm produção. Ao lado, no antigo edifício de apoio ao lagar, chamado Casa da Nora, totalmente recuperado, existem salas para eventos ou provas privativas.

Durante o Verão, organizam sessões de cinema ao ar livre, em parceria com a empresa local All Stars Cinema. “Ontem, tivemos, aqui, à noite, a projecção do Sideways. Estiveram cento e tal pessoas aqui sentadas ao ar livre”, recorda José Luís Santos Lima Oliveira da Silva. É uma experiência para repetir.

 

 

(Artigo publicado na edição de Agosto de 2026)

Forno D’Oro a subir no 50 Top Pizza World 2026

Forno D’Oro

O Forno D’Oro, em Lisboa, do Chef Tanka Sapkota conquistou o 49º lugar no ranking mundial do 50 Top Pizza World 2026, representando uma subida no ranking mundial. Lembramos que no ano de 2025, o mesmo espaço de restauração do Chef nepalês alcançou o 61.º lugar e entrou, pela primeira vez, no Top 10 do […]

O Forno D’Oro, em Lisboa, do Chef Tanka Sapkota conquistou o 49º lugar no ranking mundial do 50 Top Pizza World 2026, representando uma subida no ranking mundial. Lembramos que no ano de 2025, o mesmo espaço de restauração do Chef nepalês alcançou o 61.º lugar e entrou, pela primeira vez, no Top 10 do 50 Top Pizza Europa, depois de ter ocupado a 73.ª posição mundial em 2024 e a 80.ª em 2023.

Estar no Top 50 das melhores pizzarias do mundo é um enorme orgulho e, acima de tudo, um reconhecimento do trabalho de toda a equipa. Trabalhamos todos os dias com a mesma ambição: fazer cada vez melhor, respeitando a tradição napolitana, a qualidade dos ingredientes e a técnica. É também uma enorme felicidade poder levar Lisboa e Portugal connosco e mostrar que podemos estar lado a lado com os melhores do mundo”, afirma, em comunicado, o Chef Tanka Sapkota.

Forno D’Oro

O Forno D’Ouro abriu em 2014, no nº 16 B, da Rua Artilharia 1, em Lisboa, e tem como foco a pizza napolitana. A massa é feita com base no processo que envolve a fermentação lenta, com 36 horas, e a cozedura, a cerca de 450 ºC e com duração de menos de um minuto, é feita num forno a lenha revestido a folhas de ouro, daí o nome do restaurante.

É de enaltecer a vertente de solidariedade social do Chef Tanka Sapkota, que, este ano, envolveu os seus quatro restaurantes (Forno D’Ouro, Come Prima, Il Mercato e Casa Nepalesa) em duas iniciativas de angariação de fundos: a primeira destinada a apoiar as vítimas na Venezuela e, mais recentemente, com as vítimas das cheias no Nepal, o seu país natal. Ambas dão continuidade a acções que têm vindo a marcar o seu percurso em Portugal.

Forno D’Oro

Relembramos que o Chef Tanka Sapkota recebeu, em 2022, pela Revista Grandes Escolhas, o galardão de “Melhor Cozinha do Mundo em Portugal” pelo trabalho desenvolvido no Come Prima.

Port Wine Day: Prémios Douro + Sustentável 2026

prémios

Nuno Pizarro de Magalhães, Pedro Coelho, Torel Quinta da Vacaria – Douro Valley e a Associação Bagos d’Ouro receberam os Prémios Douro + Sustentável 2026 atribuídos pelo Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto (IVDP), no âmbito das celebrações do Port Wine Day. Os galardões foram conferidos, respectivamente, nas categorias de Viticultura, Enologia, Enoturismo […]

Nuno Pizarro de Magalhães, Pedro Coelho, Torel Quinta da Vacaria – Douro Valley e a Associação Bagos d’Ouro receberam os Prémios Douro + Sustentável 2026 atribuídos pelo Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto (IVDP), no âmbito das celebrações do Port Wine Day. Os galardões foram conferidos, respectivamente, nas categorias de Viticultura, Enologia, Enoturismo e Revelação. O objectivo desta iniciativa consiste em valorizar o trabalho desenvolvido em diferentes áreas de atividade, bem como reconhecer acções que visem a dinâmica ligada à sustentabilidade, nas dimensões económica, social e ambiental, e enaltecer percursos e iniciativas que contribuem para a protecção e a projecção da Região Demarcada do Douro.

Vamos por partes. Professor Emérito da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Nuno Pizarro de Magalhães é autor de várias obras de referência e participou na formação de gerações de enólogos e viticultores, deixando um relevante contributo para a investigação, o ensino e a modernização da viticultura portuguesa.

Pedro Coelho é proprietário e enólogo da Pormenor Vinhos, projecto criado em 2013, assente em pequenas produções, e com um percurso que se traduz numa abordagem que associa identidade territorial e valorização da diversidade vitivinícola do Douro.

Inaugurado em 2024, o Torel Quinta da Vacaria – Douro Valley, em Peso da Régua, articula vinho, hotelaria, gastronomia, bem-estar e paisagem numa propriedade com mais de 400 anos de história, transformando esta quinta histórica no contributo para a afirmação turística do Douro.

O prémio atribuído à Associação Bagos d’Ouro destaca, por sua vez, o acompanhamento que tem vindo a ser feito a crianças e jovens de oito concelhos da região, desde a infância até à entrada no ensino superior ou no mercado de trabalho, evidenciando a importância da coesão social, da qualificação e da criação de oportunidades para as novas gerações.

CVD – Companhia dos Vinhos do Douro estreia a JM ALMEIDA FAMILY

JM ALMEIDA FAMILY

Para um pai, poucas alegrias se comparam à de ver o filho seguir o seu caminho. Talvez apenas uma seja maior: poder caminhar ao seu lado. José Miguel Almeida é enólogo e empresário, fundador e principal rosto da CVD – Companhia dos Vinhos do Douro, tendo na marca Oboé a sua principal referência. Concluída a […]

Para um pai, poucas alegrias se comparam à de ver o filho seguir o seu caminho. Talvez apenas uma seja maior: poder caminhar ao seu lado.

José Miguel Almeida é enólogo e empresário, fundador e principal rosto da CVD – Companhia dos Vinhos do Douro, tendo na marca Oboé a sua principal referência. Concluída a formação em Enologia, em 1993, estagiou na Symington e integrou a equipa da Quinta do Crasto, antes de fundar a sua própria empresa, em 2001. Seis anos mais tarde adquiriu a Quinta do Cabeço, em Tabuaço, na margem esquerda do Douro, onde o projecto ganhou a configuração actual. Com cerca de 30 hectares de vinha, produz hoje mais de 200.000 garrafas por ano.

José Miguel Almeida, o filho, nasceu com o projecto, cresceu entre as vinhas e a adega, acompanhando desde cedo o trabalho do pai e tudo o que envolve a produção de vinho. Por isso, não foi de estranhar: enveredou pelo mesmo caminho. Concluiu a licenciatura em Bioengenharia, com especialização em Engenharia Alimentar, prosseguindo depois para o mestrado na mesma área, na Universidade Católica Portuguesa, no Porto. Actualmente frequenta uma pós-graduação em Enologia, formação que complementa com o curso de especialização em Wine Management, no ISAG, e com o curso de nível intermédio em Vinificações da AgroB Business School.

O novo projecto JM Almeida mostra um pouco das duas gerações da família. A colheita da estreia é de 2020, em que o João Miguel, estando ainda na faculdade, participou de corpo e alma. Em plena pandemia, com as aulas online, pôde acompanhar o trabalho na adega, ajudando, aprendendo e contribuindo com a sua opinião. Os lotes foram feitos de forma a que os dois se identificassem com o resultado final.

Ambos os vinhos resultam de um field-blend de várias castas. O branco estagiou 12 meses em barricas de carvalho francês e a produção traduz-se em 1.430 garrafas standard, 50 magnums e 35 garrafas de 3 litros. O tinto foi vinificado em lagar, com pisa a pé, fermentou em cubas de inox e estagiou depois 12 meses em barricas de carvalho francês, das quais 40% novas. Foram produzidas 1.275 garrafas, 72 magnums e 35 garrafas de 3 litros.

(Artigo publicado na edição de Julho de 2026)

Geradora, o novo restaurante do Esporão

Geradora

Na histórica Tapada da Ajuda, um edifício industrial centenário reabre a 18 de setembro, no meio de um cenário campestre, com árvores frondosas, dando lugar ao projecto do Esporão na cidade de Lisboa, a Geradora. O Chef Manuel Liebaut, cujo currículo soma várias experiências em restaurantes reconhecidos (ao lado de Ferran Adrià, em Barcelona, n’ […]

Na histórica Tapada da Ajuda, um edifício industrial centenário reabre a 18 de setembro, no meio de um cenário campestre, com árvores frondosas, dando lugar ao projecto do Esporão na cidade de Lisboa, a Geradora. O Chef Manuel Liebaut, cujo currículo soma várias experiências em restaurantes reconhecidos (ao lado de Ferran Adrià, em Barcelona, n’ O Viajante, em Londres, no Noma, em Copenhaga, e no Burnt Ends, em Singapura), promete uma cozinha de produto, sazonal e cheia de sabor. O conceito? Contemporaneidade, mas simultaneamente descomplicada e confortável.

A ligação com o vinho é feita de forma descontraída. Para já, ao almoço. Há a oportunidade de fazer uma prova vínica, ideal para aprofundar o conhecimento inerente a uma região ou a uma colheita. Ou simplesmente beber um copo. Mas o melhor é visitar a garrafeira e cave da Geradora, onde pode escolher uma garrafa, para acompanhar a refeição, ou simplesmente descobrir as referências das diferentes regiões em que o Esporão produz vinho.

Geradora

Além do restaurante, a Geradora inclui uma loja e um núcleo museológico. É, também, um pólo ligado às artes, com uma programação regular de música, cinema e exposições. Soma-se a proximidade e a relação com o Instituto Superior de Agronomia, ou não fosse a agricultura, a biodiversidade, a ciência e o conhecimento transversal a este projecto. “Queremos que a Geradora seja um lugar aberto e vivo, onde as pessoas possam chegar por razões diferentes e acabar por descobrir mais do que vinham à procura. Vir para almoçar com família ou amigos e encontrar uma exposição, participar numa prova e ficar para um concerto, ou simplesmente passar tempo na Tapada. Mais do que criar um novo espaço, queremos criar um lugar que faça parte de Lisboa e ao qual apeteça voltar”, afirma, em comunicado, João Roquette, Presidente do Conselho de Administração do Esporão.

A título de curiosidade, sabia que o edifício da Geradora, localizado na outrora Tapada Real de Alcântara, criada no século XVIII, por D. João IV, foi construído com o propósito de produzir electricidade para o Palácio da Ajuda, mas acabou por nunca cumprir verdadeiramente a função para a qual tinha sido projectado.

 

Geradora

Reservas Restaurante Geradorahttps://www.sevenrooms.com/explore/geradora/reservations/create/search/

Horário de Quinta a Segunda-Feira

Morada Tapada da Ajuda, Lisboa