CASA DA RÉSSA: Um mosaico de terroirs

Alexandre Dias é um empresário de sucesso em Paris e um enófilo inveterado, que não prescinde de degustar o que de melhor se faz em Portugal e além-fronteiras. Um dia teve a ideia romântica de comprar um pedaço de terra no Douro, que tivesse uma vista deslumbrante sobre o vale e o rio, para lá construir o que pudesse, receber os amigos e abrir umas boas garrafas de vinho enquanto se contempla a imensidão da paisagem e se desfruta do som do silêncio.

O que Alexandre Dias não contava é que não estava a comprar apenas um pedaço de terra no Douro, não. Esse pedaço de três hectares tinha vinha também. Por isso, reza esta curta história, que um dia se transformará em lenda, que não foi Alexandre que encontrou a vinha, foi antes a vinha que o encontrou. Falamos da ‘Vinha das Lages’, o epicentro da Casa da Réssa. E, de repente, foi como se a música dos The Mammas & The Pappas ecoasse naquele silêncio duriense entre vinhas velhas de altitude e o perfume do pinho, do eucalipto e da mata. ‘Stars shinin’ bright above you / Night breezes seem to whisper, “I love you” / Birds singin’ in the sycamore tree / Dream a little dream of me’…

“Réssa”, palavra antiga do Douro e Minho, significa réstia de sol, aquela luz suave e intensa que resiste e ilumina. Neste caso, podemos dizer que iluminou o caminho de Alexandre Dias, o qual iniciou em 2019. Foi o princípio de um caminho sem mapa, feito de procura, de aprendizagem com os locais, de caminhar pelas encostas da margem sul do Douro, comprando parcelas esquecidas, vinhas de qualidade excepcional, algumas com 150 anos e castas que nem os melhores especialistas conseguem identificar, cada uma com a sua alma e identidade, como se colhesse fragmentos de uma história antiga espalhada pela serra.

 

O palco duriense

Cerca de cinquenta escrituras depois, Alexandre Dias teceu uma manta de retalhos, a sua manta de retalhos, feita de encostas, matas, vinhas velhas e solos resilientes: 40 hectares de terra, 25 hectares de vinha. Nada mau para quem só queria um sítio para receber os amigos. Mas a responsabilidade também se tornou outra. Diz que pensar grande e pensar pequeno dá o mesmo trabalho. Portanto, porque não pensar em grande?

Pois pensar grande foi precisamente o que fez quando decidiu a quem iria entregar a enologia. Pessoalmente, arrisco em dizer que terá sido a verdadeira pedra de toque da Casa da Réssa. Referimo-nos a Paulo Nunes, que trouxe consigo João Costa, com quem já tinha trabalhado, para ocupar o cargo de enólogo residente; e rapidamente se tornou um pilar fundamental deste projecto.

Mas se a escolha por parte de quem tem a responsabilidade de o fazer parece óbvia é, por conseguinte, fácil, já que se trata de um dos melhores e mais consagrados enólogos nacionais, já a decisão do mesmo em aceitar a enologia desta ‘manta de retalhos’ vinícola não parece tão óbvia. Mas é.

“Foi o vinho que fez o Douro, porque o Douro, antes do vinho, era muito pouco o que é hoje. Até as montanhas são diferentes. Não foi o Douro que fez o vinho. Foi o homem que fez o vinho. O homem, as suas técnicas e o mercado. De volta, o vinho fez o Duriense. Condicionou-o, influenciou-o”, escreveu, um dia, António Barreto.

Paulo Nunes, que todos conhecemos mais associado ao Dão, é precisamente um duriense, natural da Folgosa. Feito de vinho do Douro, portanto. A Vinha das Lages avista-se da casa de seus pais. Conhece todo o emaranhado de vinhas, de parcelas, com vertentes voltadas a Nascente, a Norte, a Poente e a Sul. Em criança, até jogava à bola nessas mesmas vinhas, então um bocadinho menos centenárias.

“Eram as parcelas do Sr. Manel, do Sr. Joaquim, do Sr. António, e de outros que tais, que faziam vinho para eles beberem”, conta Paulo Nunes.

E continua: “mas atenção, que havia uma certa cultura de fazer vinho bom, e até uma competição saudável sobre quem fazia, no fim, o melhor vinho. E os field blends das vinhas depois replicavam precisamente essa cultura e os resultados dessas competições. As varas das parcelas que davam os melhores vinhos eram enxertadas nas parcelas dos outros amigos, e originavam estas preciosidades que nos chegam até aos dias de hoje.” E “não há castas dominantes na Réssa. Há uma heterogeneidade muito grande”, sublinha o enólogo.

“Mas eram vinhos sem palco, que se bebiam depois a jarro nas tabernas do Porto. Quando aceitei este projecto também foi para poder prestar a minha homenagem a esses vinhos do Sr. Manel, Joaquim e António, para tentar voltar a fazê-los e, agora sim, dar-lhes o merecido palco”, confessa Paulo Nunes. “O Alexandre embarcou nesta minha visão, ou loucura, e deu-me carta branca.” Qual será o mais louco? O futuro o dirá.

CASA DA RÉSSA
Alexandre Dias

 

“Réssa”, palavra antiga do Douro e Minho, significa réstia de sol

 

Vinhos de parcela

A ideia original do vinho da Réssa parte da crença firme de que o Douro, por mais que se queira, ou por mais conveniente que seja, não tem um padrão definido. É completa e absolutamente heterogéneo. Por conseguinte, nesta Casa, a ordem de trabalho incide, cada vez mais, em isolar as parcelas, para fazer vinhos de parcela. O objectivo desta acção consiste em evidenciar a diversidade do Vale do Douro predominantemente xistoso e pouco ventilado, que dá origem a mais calor e humidade, e ao planalto, denominado Monte Raso, caracterizado pelos solos de granito e noites frias. Assim, as uvas vindimadas nas cotas mais baixas apresentam um perfil mais quente, de maior extracção, enquanto as colhidas mais acima resultam em vinhos com uma componente mais fresca e uma acidez mais marcante.

Já no Vale de Naçarães, os solos vermelhos de argilas secundárias, resultantes da decomposição secular, recebem águas das serras adjacentes, tornando este terroir verdadeiramente único, apesar de unanimemente considerado pouco nobre, daí que esteja em último lugar na Classificação das Parcelas para Vinho do Porto.

“Fazer vinhos do Douro, no meu entender, não é a mesma coisa que fazer vinhos do Porto. Deveria haver duas regiões demarcadas e, claro, as três sub-regiões Baixo e Cima Corgo e Douro Superior estão mais que obsoletas”, defende Paulo Nunes. “Fazemos 40, 50, 60 vinificações, parcela a parcela. A vinificação maior é de quase quatro toneladas; a mais pequena é de apenas 150 quilos.”

São ainda tempos de ensaio, tentativa-erro. Tudo é testado e analisado ao detalhe, mas os resultados, leia-se os vinhos, apresentados têm sido brilhantes, com atributos claramente distintivos. Solos diferentes, exposições diferentes, altitudes diferentes, crus diferentes, lieux-dits, no topo da encosta, a meio da encosta, na planície… soa-nos familiar, certo? Não é preciso dizer o óbvio.

E se não for suficientemente familiar, além das vinificações feitas por parcela, existe todo um trabalho de precisão na escolha de barricas. A selecção baseia-se em queimas, tostas e grãos diferentes. “Não temos duas barricas iguais da mesma tanoaria”, afirma Paulo Nunes. E na complementaridade do engaço. “Gosto de utilizar engaço, porque dá-me mais camadas, texturas, ângulos, que me agradam particularmente”, continua o enólogo.

 

CASA DA RÉSSA

 

Não há castas dominantes na Réssa; há uma heterogeneidade muito grande.

 

Vinho do Porto “civilizado”

Mas na Casa da Réssa também se faz Vinho do Porto. Aqui, o conceito é criar pequenos movimentos disruptivos, não alinhados com os perfis de Vintage das grandes casas clássicas. Não que haja algo de errado com esses vinhos, longe disso; são parte integrante da história do Douro e do Vinho do Porto, e merecem todo o respeito que lhes é devido, mas o desejo de criar algo distinto e distintivo é muito forte.

Utilizar menos aguardente na fortificação, deixar as uvas maturar mais tempo na vinha, para ganhar mais açúcares, manter o grau no limite inferior mínimo para Vinho do Porto Vintage (19%) são alguns desses pequenos movimentos disruptivos.

Depois, há que dispor no mercado os Vintage quando já estão verdadeiramente “bebíveis” e “minimamente civilizados”. Em ano de Declaração, “o Vintage 2024 da Casa da Réssa só sairá para o mercado daqui a seis anos, se calhar”, reforça Paulo Nunes.

O recém-lançado Vintage 2023 é um exemplo perfeito. É um vinho estruturado, profundo e elegante, pronto para a longa guarda, mas também muito “civilizado” para se beber desde já e desfrutar em novo.

E se, quiçá, a moda pega? Na verdade, alguém tem sempre de ser o primeiro. No mundo do vinho é famosa a frase de que o que custa mais são os primeiros duzentos anos. Mas também é verdade que essa frase já foi dita há muito tempo, e, hoje, temos muito mais experiência e tecnologia de apoio à produção vínica. Por conseguinte, creio que não vai ser preciso esperar tanto tempo para consagrar a Casa da Réssa no grande palco dos grandes vinhos durienses e de Portugal. E do Mundo, porque não? Mas o futuro, esse, a Deus pertence.

(Artigo publicado na edição de Setembro de 2026)

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