Editorial Dezembro: Na caixa

Editorial da edição nrº 80 (Dezembro 2023) Nunca gostei de ver pessoas ou conceitos arrumados por categorias. Tudo o que é complexo não pode, por natureza, ser confinado numa caixa hermética, imune a influências, nuances, estados de espírito. Poucas coisas são absolutamente brancas ou pretas, há uma infinidade de matizes que podem e devem ser […]
Editorial da edição nrº 80 (Dezembro 2023)
Nunca gostei de ver pessoas ou conceitos arrumados por categorias. Tudo o que é complexo não pode, por natureza, ser confinado numa caixa hermética, imune a influências, nuances, estados de espírito. Poucas coisas são absolutamente brancas ou pretas, há uma infinidade de matizes que podem e devem ser desvendados.
Vejamos o caso dos vinhos. Nos últimos anos, assiste-se a uma tendência, por parte de algumas franjas de mercado, para catalogar os vinhos consoante a forma como são elaborados ou até, no limite do disparate, consoante a “filosofia” que lhes está subjacente (como se uma forma de ser ou estar na vida tivessem um caderno de encargos, uma checklist a ser verificada ponto por ponto).
Cuba inox, lagar, cimento, barro, plástico, barrica nova, barrica usada, tonel, foudre, sulfuroso, flor de castanheiro, ácido tartárico, leveduras seleccionadas, clara de ovo, bentonite, etc. estão entre as muitas ferramentas que se encontram ao dispor do enólogo/produtor, algumas delas com milénios de utilização na transformação da matéria-prima (uva) em produto final (vinho). Maceração longa, maceração curta, maceração carbónica, fermentação com engaço, bica aberta, curtimenta, maloláctica, bâtonnage, remontagem, são algumas das muitas práticas utilizadas no intuito de realizar essa prodigiosa transformação. Do mesmo modo que produção integrada, orgânica, biodinâmica (quando devidamente certificados, atenção!) configuram distintos modelos de produção de uvas/vinhos, nenhum objectivamente melhor ou mais respeitável do que o outro.
Nada disto é absolutamente estanque, permitindo combinações infinitas. Posso ser orgânico, adicionar sulfuroso e usar uma rolha de microaglomerado de cortiça; posso ter vinha e adega em produção integrada e fermentar com engaço e leveduras indígenas; posso ser biodinâmico, fazer macerações muito longas e estagiar o vinho 36 meses em barrica 100% nova.
As únicas categorizações que, a meu ver, se justificam no vinho, são aquelas que implicam a conjugação de dois factores: primeiro, uma certificação absolutamente clara e inequívoca; segundo, um mercado onde essa certificação orienta uma intenção de compra. Por exemplo, seria absurdo chegar a uma loja e ver os vinhos divididos por “barrica nova” ou “barrica usada”. Mas faz todo o sentido haver uma prateleira (ou uma loja!) só para vinhos orgânicos. Do mesmo modo que haverá uma prateleira (ou uma loja) só para vinhos Alentejo. Já um espaço orientado e comunicado como exclusivo para “vinhos de baixa intervenção” seria apenas publicidade enganosa, uma vez que não há qualquer definição, fiscalização ou certificação do modelo/produto. É o mesmo que vender uma pulseira que transmite uma “boa onda”. Acredita quem quer e não vem daí mal ao mundo, somente à carteira dos incautos.
Aqueles que se intitulam “fora da caixa” (sem perceberem que assim se inserem, desde logo, numa caixa e num rótulo) são, frequentemente, os que mais se esforçam por colocar todos os outros vinhos e produtores em caixinhas muito bem fechadas, catalogadas e arrumadas num canto, de preferência escuro e longínquo. Como se o mundo do vinho se resumisse a “nós” e “outros”. Felizmente, para quem aprecia a extraordinária diversidade e complexidade que o Vinho encerra, este é bem mais, bem maior e bem melhor do que isso.
O TGV e as vinhas da Bairrada

É um dos grandes projectos estruturantes dos próximos anos em Portugal, para além do futuro aeroporto de Lisboa. A construção da linha de caminho de ferro entre Lisboa e o Porto, onde irão circular comboios de alta velocidade (Comummente chamados TGV, sigla da designação francesa Train à Grande Vitesse) e de mercadorias, já começou. Muito […]
É um dos grandes projectos estruturantes dos próximos anos em Portugal, para além do futuro aeroporto de Lisboa. A construção da linha de caminho de ferro entre Lisboa e o Porto, onde irão circular comboios de alta velocidade (Comummente chamados TGV, sigla da designação francesa Train à Grande Vitesse) e de mercadorias, já começou.
Muito se tem especulado sobre este tema, a nível político e não só. Devido ao seu custo, que deverá ascender aos seis mil, ou oito mil milhões de euros se a linha se prolongar até Valença para ligar depois a Vigo, em Espanha. Mas também por haver outras opções mais lógicas, como a ligação da capital a Madrid. E há quem não concorde com o traçado escolhido ou forma como foi estabelecido. Tem sido assim quase sempre em Portugal, seja por razões que vão das tricas políticas às mais terrenas, aquelas que afectam as pessoas e os seus bens, como a destruição de casas, terrenos agrícolas ou edifícios empresariais. É isso que irá acontecer na Bairrada durante a fase de construção, e depois da implantação da obra.
12 milhões de passageiros
Os custos da obra foram anunciados por Frederico Francisco, secretário de Estado das Infraestruturas, à agência Lusa, no dia do lançamento do concurso para a sua primeira fase. O governante também disse que as previsões do governo apontam para o transporte de 12 milhões de passageiros entre Lisboa e Porto anualmente por esta via, que serão retirados aos transportes aéreo e terrestre, contribuindo para a diminuição de emissões e para a sustentabilidade ambiental do país. E, por consequência, para se atingirem as metas estabelecidas de emissões da União Europeia neste campo. É, por isso, que “é difícil de estar contra esta obra do ponto de vista institucional”, diz Pedro Soares, presidente da Comissão Vitivinícola da Bairrada (CVBairrada). Mas o número de passageiros “é muito semelhante aquele com que os políticos justificaram a construção da A8, que não se sabe onde estão”, salienta Mário Sérgio Nuno, proprietário da Quinta das Bágeiras, defendendo que em Portugal se aposta sobretudo em grandes obras mediáticas, e pouco nas pequenas, como a ligação ferroviária entre Sangalhos e Aveiro, onde se demora o mesmo tempo que há 40 anos, ou seja, muito. Ou seja, e como todos sabemos ou podemos constatar, há coisas feitas, mas ainda há muito para fazer entre aquilo que é necessário para o nosso país e as suas pessoas.
“Substituir a vista de mar de vinhas verdes pela de um viaduto ferroviário é devastador, com a agravante de a linha não passar abaixo da cota das vinhas. Será uma ferida na paisagem” – Manuel Pinheiro, CEO da Global Wines
Um pedacinho de ferrovia
E fazer um investimento deste tipo, sem prever ligações a Vigo, a norte, que ainda está apenas esboçada, e Madrid, a capital do país vizinho, “significa que teremos apenas um pedacinho de ferrovia e que Portugal não poderá tirar todo o potencial de um investimento deste tipo, que é muito significativo para os cofres do país”, realça o presidente da CVBairrada.
Mas são sobretudo as opções para a implementação da linha ferroviária tomadas, certamente, com base no seu custo/benefício, mas sem consulta de quem está, vive e desenvolve os seus negócios no terreno, que estão em causa para Pedro Soares. Pelo menos “não foi isso que aconteceu com produtores da Bairrada que vão ser afectados de forma directa, ou indirecta, como a Adega Campolargo, a Quinta do Encontro, do Grupo Global Wines, ou as Colinas de São Lourenço, do Grupo Fladgate Partnership”. Apesar de ir ocupar apenas o equivalente a 250 hectares de vinha, é preciso não esquecer que a obra irá acrescentar, a uma paisagem que é um dos postais da região, uma linha de comboio.
Uma paisagem alterada
“O traçado escolhido não só prejudica e coloca em causa empresas e postos de trabalho, como inviabiliza qualquer estratégia enoturística da Bairrada, enquanto região demarcada”, defende Manuel Pinheiro, CEO da Global Wines. “Há vinhas que irão ser cortadas e algumas vinhas velhas passarão a ter aterros ou viadutos com uma linha por cima, o que irá transformar a capacidade de sedução da região”, salienta Mário Sérgio Nuno, da Quinta das Bágeiras. Pedro Soares acrescenta que “muitos dos cartões postais, que são hoje o seu valor imaterial, vão desparecer, e muitas fotografias que usamos na comunicação para a sua promoção já não a vão representar, porque o horizonte vai estar parcialmente preenchido por uma linha em aterro ou em viaduto”. Para além disso, a obra será também prejudicial para a Bairrada por afectar vários enoturismos, “que são veículos de divulgação e valorização dos territórios, das empresas e das suas marcas, e também constituem, em alguns casos, importantes fontes de receita através das vendas à porta”, salienta o responsável da CVBairrada. E não é só a faixa de terreno dedicada à alta velocidade que será afectada diretamente, porque haverá também vinhas, caminhos à volta e cursos de água que serão alterados durante a construção da obra.
“Os governos poderiam, talvez, usar as linhas de caminho de ferro já implantadas ou as estradas e autoestradas já construídas para implantar a linha do TGV. Mas não, tem de ser feita uma obra nova” – Mário Sérgio Nuno, proprietário da Quinta das Bágeiras
As melhores soluções
É verdade que não é possível falar com todas as pessoas e empresas individualmente quando se projecta uma obra desta dimensão. Mas se tem de ser construída, e a Bairrada tem de ser atravessada, isso deveria ser feito após as entidades promotoras, e quem faz o projecto, falarem directamente com quem vai ser prejudicado para procurar, e encontrar, as melhores soluções em conjunto. “É isso que tem faltado”, conta Pedro Soares, referindo que esteve apenas “em duas ou três reuniões a reboque da Câmara da Anadia, e numa sessão pública de esclarecimento” com esse tema. “O processo de consulta podia e deveria ter sido mais relevante”, defende Manuel Pinheiro.
Sabe-se, hoje, que serão afectados cerca de 250 hectares de vinha na Bairrada. Mas, segundo Pedro Soares, ninguém procurou saber se havia, no seio dela, por exemplo um terroir específico, uma parcela especial que dê origem, hoje, a uma marca de um vinho de qualidade que é único por ter essa origem, que existe após ter dado muito trabalho na vinha e na adega para o encontrar, e muito esforço para comunicar a sua diferença ao mercado até se tornar um símbolo daquilo que a empresa que o produz faz bem, e pode agora desaparecer. “Será que não se deve pagar ao produtor, não apenas pelo terreno, mas também pela marca que desapareceu?”, questiona o responsável. São estas e outras perguntas que ainda estão por responder, numa altura em que as obras do futuro TGV entre Lisboa e o Porto estão a arrancar. Estamos a falar de algo que tem uma componente imaterial muito significativa, como algumas vinhas velhas, cujo valor tem a ver com a qualidade do vinho e a história e imagem da marca que tem no mercado.
“Sabemos quais são os valores pensados para indemnizações e a forma como foram calculados, mas não se pode pensar, aqui, da mesma forma como se faz para valorizar cada metro quadrado urbano”, defende Pedro Soares, acrescentando ainda que, para fazer as avaliações, deveria ser criada uma equipa multidisciplinar para avaliar os terrenos integrando todas as condições, “para fornecer as recomendações necessárias para mitigar o impacto brutal que vamos ter na nossa região”.
“Muitas fotografias que usamos na comunicação para a sua promoção já não a vão representar, porque o horizonte vai estar parcialmente preenchido por uma linha em aterro ou em viaduto” – Pedro Soares, presidente da CVBairrada
(Artigo publicado na edição de Março de 2024)
CAS’AMARO: Vinho e turismo como vectores de negócio

O projecto Cas’Amaro começou a ser construído há oito anos, com a aquisição do Casal da Vinha Grande, perto de Alenquer, por Paulo Amaro, porque este empresário, com negócios na área do imobiliário e da distribuição de instrumentos médicos e hospitalares, achou que seria um bom investimento imobiliário. A propriedade fica entre a Quinta de […]
O projecto Cas’Amaro começou a ser construído há oito anos, com a aquisição do Casal da Vinha Grande, perto de Alenquer, por Paulo Amaro, porque este empresário, com negócios na área do imobiliário e da distribuição de instrumentos médicos e hospitalares, achou que seria um bom investimento imobiliário.
A propriedade fica entre a Quinta de Chocapalha e a Quinta do Pinto e quando Paulo Amaro se apercebeu que tinha, no meio, uma adega antiga, sentiu que havia ali potencial para o negócio de enoturismo. Por isso, decidiu transformá-la numa unidade de luxo, hoje com três quartos, e plantar, há volta, cinco hectares de vinha, para lhe dar o melhor cenário envolvente, tal como está previsto para o resto dos investimentos no sector vitivinícola da Cas’Amaro em Portugal.
Visão objectiva
A paixão pelo vinho enquanto enófilo ajudou, mas foi a sua visão objectiva em relação a esta área de negócio que o levou a não ficar por aqui. “Depois, e muito rapidamente, a um ritmo quase compulsivo, foram compradas mais quatro propriedades em outras tantas regiões vitivinícolas portuguesas”, conta Rui Costa, diretor-geral da empresa há pouco mais de meio ano. Para além disso foi adquirida, ainda na Região de Lisboa, mais “uma vinha com dois hectares de Castelão com 30 anos, que temos estado a mimar para lhe aumentar a produtividade, pois tinha estado abandonada”, explica o responsável, acrescentando que a empresa está a plantar mais outra vinha, na zona da Abrigada, com as castas Vital e Ramisco, para acrescentar diversidade ao encepamento actual, baseado apenas em castas locais.
A única adega da empresa fica no concelho de Alenquer e começou a funcionar em 2021, dois anos após o lançamento dos primeiros vinhos. Ocupa o espaço de uma outra, com quase 100 anos, totalmente reconvertida e modernizada para permitir aos enólogos da casa, Ricardo Santos, o diretor de enologia da Cas’Amaro, e Gilberto Marques, que coordena a vinificação da empresa em Lisboa depois de se ter mudado da Quinta de Pancas, nas melhores condições possíveis.
A operação seguinte foi a aquisição da Herdade do Monte de Castelête, no Alentejo. Com 70 hectares, dos quais 48 de montado e 22 de vinha, fica perto de Estremoz, e tem um monte que a empresa está a transformar numa unidade de enoturismo, que inclui alojamento.
“Uma das preocupações na aquisição das propriedades foi que, para além da vinha, tivessem também um edificado atractivo, possível de reconverter em unidades de enoturismo”, diz Rui Costa, explicando que foi essa a filosofia base seguida na aquisição da Quinta da Fontalta, no concelho de Santa Comba Dão, que inclui um solar e 16 hectares de vinha, e também na propriedade da Região dos Vinhos Verdes, que inclui um solar muito antigo e apenas seis hectares de vinha, de um total de 40 hectares. “É uma quinta tradicional do Minho, que fica num vale estreito e comprido, com uma parcela de floresta e muito espaço para crescer”, conta o gestor, salientando que irão ser plantados, no local, mais dois hectares de vinha Alvarinho, processo que deverá ser moroso e dispendioso devido à quantidade de pedra que existe no solo.
No Douro, a Cas’Amaro adquiriu as Quintas de S. João e S. Joaquim, com 18 hectares de vinha e socalcos virados uma para a outra. Apesar de uma das propriedades possuir uma adega, não tinha condições para se vinificar. Por isso, os primeiros vinhos do Douro e Portos produzidos nesta região foram vinificados em Cheleiros, e está a ser pensada a construção de uma adega em Armamar.
A equipa da Cas’Amaro está a construir um projecto que une a produção de vinhos a um conceito de enoturismo que alia, ao vinho, a arquitectura, o design e a arte
Produção sustentável
Os projectos desta empresa estão a ser desenvolvidos segundo dois eixos. O primeiro é a produção de vinhos de qualidade, preferencialmente de modo biológico e sustentável, destinados sobretudo aos mercados externos. O segundo é o enoturismo, porque é a forma de se conseguir o equilíbrio financeiro de um projecto vínico a produzir em zonas tão distintas do território nacional, com áreas pequenas área de vinha, que irão perfazer um total de 76 hectares. “No alojamento, no restaurante ou mesmo no wine bar, onde vendemos apenas vinho a copo, as margens são mais apetecíveis, o que torna a combinação muito mais viável do que apenas a produção e comercialização de vinho”, explica Rui Costa.
Apenas está terminado o projecto de enoturismo da região de Lisboa, que inclui, para além do restaurante e da unidade de alojamento em Alenquer, uma outra em Lisboa, o Madalena Orquídea Living, um alojamento local com apartamentos T2, um café brunch e um restaurante vínico por baixo. Todos estes projectos foram desenvolvidos por Paulo Amaro desde 2016, antes de criar, a meio do ano passado, “uma estrutura de gestão, marketing, viticultura e enologia, coerente com a sua visão de futuro para as propriedades e a empresa, cujo caminho está a ser implementado agora”, conta Rui Costa. Para além dele, a equipa inclui dois profissionais que gerem os projectos em desenvolvimento, Rui Vasco e António Sousa, que são os homens de campo para tudo o que diz respeito a obras, desde a construção e reconversão de edifícios até à plantação e reconversão da vinha. A empresa tem mais cinco viticultores a tempo inteiro, um por cada uma das suas cinco quintas. Quando há trabalhos mais específicos a realizar, é contratado pessoal local, “o que nos tem permitido fugir àquela mão de obra mais massificada, que às vezes estraga mais do que faz”, defende Rui Costa, acrescentando que a sua empresa paga um pouco acima da média para conseguir ter essas pessoas.
Adega própria apenas em Lisboa
Como a empresa só tem adega na Região de Lisboa, vinifica em instalações de parceiros nas outras. No Dão, na Adega das Boas Quintas, de Nuno Cancela de Abreu; no Alentejo, na Adega do Monte Branco, de Luís Louro; no Douro, na Adega Dona Matilde, com o apoio do seu enólogo, João Pissarra e, na Região dos Vinhos Verdes, na AB Valley Wines, de António Sousa. “São as adegas mais próximas das nossas vinhas e são geridas por pessoas com quem nos conseguimos identificar, com as quais criámos métodos de trabalho”, explica o gestor, salientando que, assim, é possível Ricardo Santos, o director de enologia, fazer um acompanhamento mais próximo de todo o processo, o que é essencial para se produzir, todos os anos, o perfil de vinho definido pela sua equipa para cada região.
Em frente à adega, em Alenquer, fica um restaurante vínico, com sala de provas, que passa a wine bar a partir do final da noite, cuja frequência tem estado esgotada este ano. A procura deve-se, sobretudo, ao trabalho que Rui Costa tem realizado para encontrar clientes para as áreas de vinhos e enoturismo da empresa.
Depois de ter constatado que é lá fora que estão a maior parte dos potenciais clientes, tem frequentado feiras de turismo para contactar operadores que tragam estrangeiros a Portugal, para mostrar a oferta da Cas’Amaro. Foi isso que aconteceu na Fitur deste ano, em Madrid, de onde tinha acabado de chegar quando se realizou esta entrevista. “Os nossos espaços oferecem algo mais do que apenas o habitual no enoturismo, pois também reflectem o interesse de Paulo Amaro pela arquitectura, design e arte, o que os torna ainda mais atractivos”, realça o gestor da empresa. “Quem dorme na nossa casa de Alenquer em Outubro e volta em Fevereiro, vê exposições diferentes, tal como acontece no restaurante, porque há sempre algo de novo a acontecer”, acrescenta.
Para apresentar a casa e os seus vinhos está a apostar também nas principais feiras de vinhos nacionais e em algumas das internacionais. “O objectivo é encontrar bons parceiros, que se apaixonem pelos nossos vinhos e apreciem o seu perfil”, salienta acrescenta que pretende estar muitas vezes com eles para os ajudar a vender nos seus mercados. Com esse objectivo vai estar, com os enólogos da empresa, três vezes em São Paulo, no Brasil, em 2024, em articulação com outras iniciativas nacionais, para ajudar os seus importadores a apresentar os vinhos da Cas’Amaro aos seus clientes. E como é que este investimento vai ser pago? “Cada pessoa a quem vendermos uma garrafa de vinho é um potencial cliente dos alojamentos e dos restaurantes da empresa, onde teremos sempre um retorno significativo”, explica Rui Costa.
O projecto começou, em 2016, com a compra do Casal da Vinha Grande, em Alenquer, cuja adega foi transformada num espaço de alojamento com três quartos, preparado para servir refeições aos hóspedes
Um vinho de cinco tourigas
Para além do Brasil, e do Reino Unido, onde a empresa já começou a vender vinho, o gestor quer apostar na Holanda, Bélgica e países escandinavos, para além da Coreia do Sul. “Os Estados Unidos irão ficar para mais tarde, quando percebermos bem esse mercado”, diz.
Para este ano Rui Costa prevê que a Cas’Amaro deverá vender 36 mil garrafas e ter 150 mil euros de facturação com a venda de vinho, mais 110 mil no enoturismo, o que representa um crescimento exponencial em relação ao ano anterior. Por enquanto, o objectivo da empresa é explorar todo o potencial dos seus 76 hectares de vinha, que ainda está longe de ser atingido porque uma parte está a ser reconvertida e outra ainda está ou vai ser plantada. Sempre com castas locais, de preferência, e algumas de implantação nacional, como o Arinto ou a Touriga Nacional. No futuro, Rui Costa diz que “gostaria de fazer um vinho de cinco Tourigas, com uvas das cinco regiões”. Mas isso ainda é apenas um sonho.
Os terroirs da empresa
A Cas’Amaro investiu em cinco regiões nacionais, com o objectivo de produzir vinhos e criar equipamentos de enoturismo, incluindo alojamento e restauração, que está ou irá construir nos próximos anos. O objetivo é que os dois negócios, o do vinho e o do enoturismo, estejam em pleno funcionamento em 2030.
Cas’Amaro Vinhos Verdes
Inclui a Quinta do Bustelo, com 40 hectares, em Marco de Canavezes.
Área de vinha – 6ha, mais 2ha que deverão ser plantados este ano
Castas – Arinto, Alvarinho, Loureiro e Azal
Vinhos – Bustelo Alvarinho 2023, Bustelo Arinto 2023, Bustelo Arinto e Loureiro 2023
Cas’Amaro Douro
Inclui a Quinta de São João e a Quinta de São Joaquim, com um total de 39 hectares, no concelho de Armamar.
Área de Vinha – 18ha
Castas – Touriga Nacional, Tinta Roriz, Tinta Amarela, Tinta Barroca, Maria Gomes, Malvasia e Códega do Larinho
Vinhos – Acidentado e Enfeitado (Ainda não estão no mercado)
Cas’Amaro Dão
A Quinta da Fontalta tem 17 hectares e fica no concelho de Santa Comba Dão.
Área de vinha – 15ha
Castas: Touriga Nacional, Alfrocheiro, Jaén, Tinta Roriz, Encruzado, Malvasia Fina e Cerceal Branco
Vinhos: Caminho Branco 2022, Caminho Tinto 2022 100% Touriga Nacional e Mitologia Reserva 2022 100% Encruzado
Cas’Amaro Lisboa
A empresa possui o Casal da Vinha Grande, dois hectares de vinha na Labrugeira e mais seis na Abrigada.
Área de vinha – 7ha mais 6ha em plantação
Castas – Arinto, Fernão Pires, Sercial, Rabo de Ovelha, Touriga Nacional, Camarate, Bastardo e Tinta Miúda
Vinhos – Falatório branco, rosé, tinto e varietal de Bastardo, Madame Pió branco, monocastas de Arinto e Sercial e tinto
Cas’Amaro Alentejo
A Herdade Monte do Castelête tem 70 hectares e fica no concelho de Estremoz.
Área de vinha – 22ha
Castas – Antão Vaz, Roupeiro, Touriga Nacional, Trincadeira e Tinta Caiada
Vinhos – Implante e Castelete (No mercado a partir de Março)
(Artigo publicado na edição de Março de 2024)
Quinta do Bomfim: “Merenda na Vinha” regressa com o sol e o calor

Com as temperaturas a subir e os dias cada vez mais longos, a Quinta do Bomfim – propriedade da família Symington, reconhecida pela produção dos vinhos do Porto Dow’s – reabre o espaço “Merenda na Vinha”, um local para desfrutar de piqueniques, petiscos e de uma seleção de vinhos Symington. As visitas guiadas à Quinta […]
Com as temperaturas a subir e os dias cada vez mais longos, a Quinta do Bomfim – propriedade da família Symington, reconhecida pela produção dos vinhos do Porto Dow’s – reabre o espaço “Merenda na Vinha”, um local para desfrutar de piqueniques, petiscos e de uma seleção de vinhos Symington.
As visitas guiadas à Quinta do Bomfim são uma oportunidade de conhecer os espaços e os “segredos” do vinho ali produzido. Conduzidas por guias, as visitas revelam a história da propriedade, não esquecendo o presente e o futuro, com passagem pelas adegas e pelo armazém, uma construção de 1896 onde o velho contrasta com o novo, homenageando o legado da quinta.
No final do passeio não pode faltar um refresco ou um piquenique para retemperar energias, e a sugestão da família Symington passa pela “Merenda na Vinha”. O espaço, inaugurado em 2023, oferece todas as condições necessárias para momentos de lazer e repouso. Este ano, os cocktails e o menu de petiscos são novidade, sendo possível desfrutar de diversas opções, como o sortido de enchidos, crackers e espetada de queijo com tomate cherry, ou uma taça de amêndoas e batatas fritas.
O menu de piquenique, elaborado pela equipa do restaurante da propriedade – Bomfim 1896 with Pedro Lemos (Guia Michelin 2024) –, pode ser desfrutado de segunda-feira a domingo, das 13h00 às 17h00. Uma seleção de pão, sopa fria de tomate coração-de-boi, salada de verduras, carapau de escabeche, covilhetes e queijo curado são as escolhas para o menu, que conta ainda com fruta da época e toucinho do céu para sobremesa. A garrafa de Altano Branco (para duas pessoas) e um copo de vinho do Porto Dow’s Tawny 10 Anos ou LBV complementam o piquenique do Bomfim, com um custo de 40 euros por pessoa. Opções vegetarianas são também uma possibilidade, com broa de milho e pão de centeio a integrarem a seleção de pão, juntamente com covilhetes de legumes, legumes assados e queijo merendeira.
A reserva das visitas e restantes atividades é aconselhada, sendo necessário reservar os piqueniques com 48 horas de antecedência. As reservas podem ser realizadas por e-mail (quintadobomfim@symington.com). As visitas estão disponíveis todos os dias da semana, das 10h00 às 17h30.
Chef Vítor Sobral inaugura a Petiscaria da Esquina em Lisboa

O chef Vítor Sobral convida à partilha e ao convívio no seu novo restaurante localizado no centro de Lisboa. A Petiscaria da Esquina apresenta os mais emblemáticos petiscos tradicionais portugueses, reinterpretados pelo chef, com uma cozinha preparada para receber clientes durante todo o dia. Em linha com o conceito do Grupo Vítor Sobral, de homenagem […]
O chef Vítor Sobral convida à partilha e ao convívio no seu novo restaurante localizado no centro de Lisboa. A Petiscaria da Esquina apresenta os mais emblemáticos petiscos tradicionais portugueses, reinterpretados pelo chef, com uma cozinha preparada para receber clientes durante todo o dia.
Em linha com o conceito do Grupo Vítor Sobral, de homenagem à gastronomia tradicional portuguesa, o chef Vítor Sobral apresenta um novo espaço, em Lisboa, na Avenida da República.
Chama-se Petiscaria da Esquina e, tal como o nome indica, apresenta uma carta de petiscos, a maioria bem conhecida dos portugueses, como as moelas em tomatada (9€), pica-pau de novilho (14,50€), berbigão à Bulhão Pato (14,90€) ou a salada de orelha de porco de coentrada (8,50€), por exemplo, todos temperados com a assinatura do chef Vítor Sobral.
“Este é um espaço que honra a nossa gastronomia, sobretudo a cultura da partilha à mesa, a boa conversa e um copo de vinho. Temos os petiscos mais emblemáticos e outros que quis apresentar como uma reinterpretação da nossa cozinha, como bochecha de porco, pimentão da horta e pickles ou lulas salteadas com limão e salsa. São quase duas dezenas de petiscos, além das ofertas de pratos. Motivos não faltam para ir à Petiscaria da Esquina”, refere o chef Vítor Sobral.
Com uma cozinha aberta durante todo o dia até às 23h00, entre as 15h00 e as 20h00 os motivos para ir ao restaurante são ainda maiores, com as Happy Hours a oferecer imperial Super Bock a apenas 1 euro. Para quem prefere um bom vinho, a carta é composta por vinhos portugueses, do Douro, Dão, Lisboa, Setúbal e Alentejo, além de espumantes e licorosos. A Petiscaria da Esquina tem também televisão, para que os dias de jogos sejam vividos à mesa, em boa companhia. Para quem preferir petiscar em sua casa, está também disponível o serviço de take away e de delivery pela Uber Eats.
Domingos Soares Franco: Reformo-me muito confiante na 7ª geração!

Chegada a hora de passar a pasta da enologia na José Maria da Fonseca, Domingos Soares Franco aceitou partilhar connosco algumas memórias e momentos das 40 vindimas que fez na empresa, de que também é sócio. Não escolheu ser enólogo, ainda que as vinhas e o vinho sempre o tenham cativado. A atracção pelo campo […]
Chegada a hora de passar a pasta da enologia na José Maria da Fonseca, Domingos Soares Franco aceitou partilhar connosco algumas memórias e momentos das 40 vindimas que fez na empresa, de que também é sócio. Não escolheu ser enólogo, ainda que as vinhas e o vinho sempre o tenham cativado. A atracção pelo campo era proporcional à aversão à cidade e onde se sentia bem era entre vinhas, cavalos e ovelhas. Foi assim natural a intenção de se inscrever no Instituto Superior de Agronomia (ISA) após terminar o liceu em 1974. A escola era o local onde a viticultura e a enologia lhe poderiam interessar. E foi assim que tudo começou.
Estivemos com ele na sede em Azeitão e fomos à casa dos segredos, a adega velha onde há pó e teias de aranha em quantidade. E o segredo é tão grande que o próprio esteve 10 minutos a tentar abrir a porta. Isto das fechaduras seculares tem inúmeras vantagens anti-roubo… O receio do “tédio da reforma” não existe já que, como afirmou “tenho imensa coisa para fazer”. Boas notícias.
Foi fácil entrar no ISA?
Não, naqueles tempos conturbados, o facto de eu ser Soares Franco, e da família que detinha a José Maria da Fonseca, foi quanto bastou para me barrarem a entrada. O meu pai levou-me então a França e, quer em Bordéus, Montpellier ou Dijon era possível entrar, mas tinha de recuar dois anos por não falar francês e isso eu não queria. Geisenheim tinha problema idêntico, porque não falo alemão e fiquei à deriva. Em 1975 estávamos com o nosso sócio americano da Internacional Vinhos e ele propôs que eu fosse para os Estados Unidos da América, inicialmente para Connecticut e posteriormente para a Califórnia, em duas universidades. Terminei os estudos em Davis em enologia e viticultura, incluindo uma pós-graduação, e fiz tudo excepto uma cadeira sobre fenóis que me recomendaram que não tinha interesse. Mais tarde arrependi-me de não fazer. Fiz também, a conselho do meu pai, um trabalho sobre moscatéis.
Fez algum estágio em adegas?
Não, porque na altura era proibidíssimo. Era preciso visto de trabalho. Nem dizendo que não queria ser remunerado era razão suficiente. Assim, a aplicação dos conhecimentos que lá adquiri só pude pôr em prática aqui.
Que universo de enologia encontrou aqui, comparado com o que tinha conhecimento por lá?
Aqui estávamos no grau zero. Eu falava em sulfurosos remanescentes, em polifenóis ninguém falava. Pedi que me fornecessem 24 estirpes de leveduras para trabalhar com as nossas castas e ninguém percebia para que era aquilo. A maneira de pensar de lá não era aplicável cá, de todo. Filtros, prensas era tudo diferente. Fui eu que trouxe da Alemanha a primeira prensa pneumática. Trabalhos de vinificações por casta aqui era assunto pouco trabalhado. Era tudo diferente. Andei uns anos a batalhar aqui, porque vinha de uma escola americana e por cá havia sobretudo enólogos com escola francesa, como o José Maria Soares Franco ou o Nuno Cancela de Abreu, por exemplo. O meu pai sempre me disse que não devia esquecer as raízes, mas devia ir na crista da onda. Quando tive oportunidade, fui a uma prova organizada pelo nosso importador dos Estados Unidos, para conhecer os gostos e as tendências, e fui a Seattle. Fiquei por lá uma semana, andei a visitar adegas e fiquei deslumbrado.
Como era a enologia aqui nos inícios de 80? Já havia inox?
Não, era tudo em cimento e, um pouco mais tarde, com revestimento a resina epoxy. Começámos, na época, a controlar as temperaturas de fermentação. Por lá (estado de Washington) descobri também a importância da elegância nos vinhos, sem abusos de álcool ou madeira, sem açúcares residuais e comecei a ir por aí, que era um sentido diferente da Califórnia. Por cá trocávamos ideias entre os enólogos, mas como havia muito o conceito do segredo, a partilha não era fácil, sobretudo com os então chamados técnicos.
E em que ponto deixa agora a enologia, por comparação com os anos 80, agora que já existe uma nova equipa? Também não há pontos de contacto?
Há pontos de contacto, sim. Nomeadamente nos moscatéis, onde o método há muito estipulado. No entanto, há muito tempo que andava com a ideia de fazer um moscatel diferente para comemorar os 200 anos da empresa, daqui a 10 anos. Falei com o Paulo Horta (enólogo, entretanto também reformado) e combinámos fazer algo fora do baralho. Uma fermentação em que o mosto, ao arrancar, já fosse com cinco graus de álcool, com o objectivo de matar as leveduras que não interessam. Não com aguardente, mas sim com moscatel velho. Foi isso que fizemos e o resultado era o que esperava. Foi aí que chamei a nova equipa para a sala de provas, para eles perceberem o conceito. Creio que estão a assimilar bem, mas estão também atentos à vertente do consumidor. O gosto está sempre a mudar e isso torna difícil as decisões, porque pode alterar-se de repente e o vinho não se faz para amanhã. É preciso preparem-se, e eles estão a assimilar isso muito bem.
Vou ajudando durante a prova, mas os métodos de hoje são diferentes. Eu revejo-me mais nas técnicas actuais, mas não podemos perder as raízes. Veja o que se passa com alguns brancos, que estão mais próximo do que se fazia antigamente. Os consumidores estão fartos dos aromas de fruta, da banana e do ananás. Querem coisas mais originais.
A propósito de vinhos originais, recordo-me que a José Maria da Fonseca teve uma colecção de vinhos com iniciais enigmáticas, que alegravam o portefólio exactamente por esse lado meio obscuro. DA, AP, EV, VB, TE, CO, entre muitas outras. Porque é que acabaram com eles?
Tenho pena, mas fui eu que acabei com isso. Estava a tornar-se muito confuso para o consumidor. Os últimos a morrer foram o CO (clara de ovo) e o RA (Região Algeruz), mas vamos recuperá-los proximamente, ambos com Castelão. Vamos fazê-los à antiga, mas são vinhos que, por serem difíceis em novos, demoram tempo e, por isso, não vão surgir tão cedo. É um pouco o que acontece com o Periquita Clássico, que também foi reeditado na colheita de 2014 e até com um toque de brett (é à antiga, não é?), só com madeira usada.
Deixou algum vinho por fazer, ou que tenha pena de não ter feito?
Andei durante anos atrás da ideia, da procura de selecionar o meu melhor vinho. Mas acho que, com estes vinhos que vou lançar (da colheita de 2017, o tinto, de 2021, o branco, e de 1998, o Moscatel), consegui isso. O que queria e quero, sobretudo, é elegância e, com isto, fecho a porta.
O último vinho que vai fazer, o vinho da despedida, o tal legado de 40 anos…
Ao longo de 40 anos fui variando muito o estilo de vinhos e acabei por apostar mais na elegância. O vinho que fiz agora tem uma finesse e uma subtileza fora do normal. O meu pai sempre me disse: quando te reformares, sai pela porta grande e com chave de ouro. Eu sinto que aquele vinho é a minha chave de ouro. São 7000 garrafas de tinto, 3000 de branco e 3000 de moscatel, individuais ou caixas de três. Há um ano que ando à volta do rótulo, sem olhar a despesas, do papel à embalagem. Vou fechar a carreira com uma apresentação deste vinho.
No caso do moscatel, acha que está encontrado e esgotado o modelo ou ainda há algo mais para descobrir?
Ainda se podem fazer pequenas alterações na forma de fazer, que ninguém está a fazer, como a adição de moscatel velho para o arranque, como falámos. Mas faltam-nos competidores para nos espicaçarem e alguns concorrentes estão a ir por caminho errado, por exemplo no moscatel roxo.
Só há 50 ha de vinhas e o preço deveria ser puxado para cima. Mas quando há empresas da região a puxá-lo para baixo, não vamos a lado nenhum. Continuamos a ter falta e ainda compramos muito a lavradores (há três anos foi cerca de 90% do roxo), o que acontece também no moscatel normal. E estamos a falar de uma casta com uma produtividade que pode chegar às 15 ton/ha. Mas também é verdade que, com essas quantidades, o produto final sofre, porque lhe falta complexidade.
Lembra-se de algum vinho que fez na casa e que lhe encheu todas as medidas? Porque só calhou bem uma vez, por exemplo, ou outra razão…
Um moscatel que fiz metade com Cognac e metade Armagnac e parei a fermentação com essa aguardente. Só vai sair agora. Quanto a ano de colheita acho que não volta a haver um 2011. Na nossa casa, e desse ano, o J ou o José de Sousa. A excelência era perceptível logo em Março e fiquei muito entusiasmado. Foram poucas as vezes que tive essa sensação e não me enganei em muitas delas (o Paulo Hortas diz que só falhei quatro ou cinco vezes) e até me lembro de ter telefonado ao David Guimaraens, da Fladgate, a dizer-lhe que queria reservar duas caixas do vintage 2011, e que ele me respondeu que ainda nem tinha começado a vindima. “Não faz mal, reserva-me duas caixas, que o ano é extraordinário!”, respondi-lhe eu. Como 2011 não me lembro de nenhum ano. Mais recentemente gostei muito do 2015 e do 2018.
No José de Sousa retomámos a vinificação nos potes (talhas). Comprámos tudo o que encontrámos, na altura a 100$ (50 cêntimos) cada talha.
Qual o moscatel que mais o marcou?
(sem hesitar) O 1955. Costumo dizer que é um puzzle de 1000 peças em que todas encaixam e a última quase que encaixa também.
Diga-nos três vinhos portugueses, sem ser da casa, que lhe encheram as medidas. E também generosos e, já agora, estrangeiros.
Quinta da Leda 2011, Vale Meão 2011, Mouchão 1963. Do Porto, recordo o Vintage Taylor’s 2000. Da Madeira sou grande fã dos vinhos do Ricardo Diogo, da Barbeito. Dos vinhos de fora relembro-me do Henschke Hill of Grace, um Shiraz australiano que me ficou na memória (Nota: preço variável, mas sempre próximo dos €700 a garrafa), e de um Chardonnay, também australiano, da Mornington Peninsula (Nota: esta é uma região que conta com 60 adegas).
Mesmo numa empresa familiar, não há por vezes conflitos entre a enologia e o marketing?
Sim. Mas como também sou dono, acabo por fazer mesmo que “eles” não queiram (risos). Mas é verdade que alguns vinhos saíram antes do tempo…
Foi assim que nasceu o Pasmados branco Garrafeira, uma novidade agora no mercado?
Foi, porque o estilo mais evoluído que tinha era difícil de vender. Agora é mais fácil, porque há mais ambiente para um estilo em que a cor quase sugere que está passado, apesar de na boca ser óptimo.
Mas há flutuações no mercado, há marcas que hoje vendem muito e amanhã não, como o Periquita. Hoje vende quanto?
Cerca de três milhões de garrafas, mas já vendeu quatro e tal, sobretudo no mercado nórdico e Brasil. O Periquita Reserva canibalizou o outro. Na Suécia vendemos em garrafa mas, na Noruega, é em bag-in-box e na Finlândia querem em lata. Voltamos aos pacotes de leite…
A marca Lancers ainda tem peso na facturação?
É a nossa terceira marca, a seguir ao Periquita e ao Moscatel Alambre. Agora representa um milhão e meio de garrafas, mas já foram 16 milhões. Não creio que vá morrer. Ainda acho um produto interessante e faz parte da história. Aqui já só fazemos o normal. O espumoso encomendamos fora, na Bairrada. O perfil mudou e acho que está aceitável. Gosto de o beber, mas antigamente tinha vergonha de o mostrar. Actualmente a empresa depende do mercado externo, que representa 55% da facturação. E a tendência vai ser para subir.
O Lancers mudou de perfil e acho que está aceitável. Eu gosto de o beber, mas antigamente tinha vergonha de o mostrar.
A José Maria da Fonseca teve uma grande presença no Dão, com a marca Terras Altas mas, creio, não tinham vinhas por lá…
Não produzíamos. Abastecíamo-nos nas adegas e comprávamos a granel ao Alfredo Cruz, que era o grande regulador do mercado e vendia para todas as empresas (Sogrape, Aliança, Borges). Mas, a partir de 2005, abandonámos a marca. Primeiro o branco e depois o tinto. Chegámos a vender um milhão de litros, mas nunca quisemos investir em vinhas na região.
Mas estiveram também na Casa da Ínsua, embora não fossem proprietários. Como era essa relação?
Fora a José de Sousa, só tivemos uma aventura no Dão, na Casa da Ínsua, que fazíamos e comercializávamos. Era uma relação antiga, que vinha do tempo do meu tio António, nos anos 60, e durou até aos anos 90. Quando se percebeu que era preciso investir em nova adega e não havia grande vontade do proprietário, entendemos que não havia condições para continuar nos mesmos moldes e saímos. Em meados de 80 pensámos investir no Alentejo e o meu irmão já estava tentado a fazê-lo em Portalegre. Mas acabámos por ficar em Reguengos e o meu primo Jorge Avilez ficou em Portalegre. Fazíamos lá os vinhos e comercializávamos. Também aqui, a certa altura resolvemos separar as águas e ficámos apenas em Reguengos.
No José de Sousa não mudaram nada nos encepamentos?
Nada. Mas como a casta Aragonez era especialmente atreita a doenças do lenho (esca), decidi nunca mais plantar Aragonez no Alentejo. O José de Sousa só vem da vinha velha com as castas antigas. As outras marcas já têm outras castas.
Mas tiveram de mudar muita coisa na enologia quando chegaram?
Tudo, tudo. Passei a fazer só nos potes e abandonei os balseiros. Comprámos tudo o que encontrámos, na altura a 100$ (cerca de 50 cêntimos) cada talha. Mantivemos as três castas, mas alterámos a parte da enologia. Os vinhos não tinham data (só na caixa) e tenho provado coisas muito boas. Como o engenheiro Manuel Vieira na altura estava pouco familiarizado com os potes, e fui perguntar ao antigo adegueiro para perceber como se fazia.
E a aventura no Douro (marca Domini) não correu bem?
Era muito longe. Para se lá chegar era um sarilho. Sem adega era complicado. Acabámos a entregar as uvas à Fladgate e a propriedade está à venda.
Não tem pena que não haja na família um sucessor para a enologia? E numa empresa familiar há, na mesma, linhas vermelhas que cada departamento não pode ultrapassar?
Sim, tenho pena de não ter sucessor, mas não há nada a fazer. Temos um acordo familiar em que as funções estão estabelecidas. Há metas e todos os anos os objectivos são revistos.
Está tranquilo com a sucessão aqui na José Maria da Fonseca?
Muito tranquilo e confiante. Na sétima geração dão-se muito bem uns com os outros, o que é uma vantagem.
Vai encontrar com que se entreter?
Tenho tanta mas tanta coisa na quinta, ovelhas, pássaros, voltei a montar a cavalo, a caçar…
Então pode-se dizer que parte sem dor?
Sim, sem dúvida.
Vou terminar a carreira com uma apresentação de três vinhos. Fecho com chave de ouro.
Barros celebra 50 anos de liberdade em colaboração com artista portuguesa

A Barros, casa de vinho do Porto fundada em 1913, celebrou o 50º aniversário do 25 de abril com o lançamento de uma edição especial da colheita de 1974. Em parceria com a artista portuguesa Teresa Rego, a marca criou um packaging especial, para celebrar os 50 anos deste evento histórico para o país. A […]
A Barros, casa de vinho do Porto fundada em 1913, celebrou o 50º aniversário do 25 de abril com o lançamento de uma edição especial da colheita de 1974. Em parceria com a artista portuguesa Teresa Rego, a marca criou um packaging especial, para celebrar os 50 anos deste evento histórico para o país.
A iniciativa, que alia o talento e a arte de Teresa Rego ao vinho do Porto, salienta a liberdade, representada numa ilustração que celebra Abril sem barreiras ou restrições. A ilustração desenvolvida ganha vida na garrafa, no rótulo, contra-rótulo e na caixa individual. Nela estão representados valores como a jovialidade e a vivacidade, através das cores que, juntas, dão fôlego a uma desconstrução descontraída e arrojada da data.
Cada garrafa desta coleção, também ela ilustrada, é uma homenagem ao estilo revolucionário que transformou Portugal e um convite a todos os que desejam apreciar e celebrar a história através de uma colheita icónica. Um tributo da casa Barros ao verdadeiro talento português. De edição limitada e exclusiva.
Estive Lá: O lado selvagem do CCB

O restaurante Sauvage, espaço intimista e acolhedor, é já bem conhecido entre os lisboetas. Ao alargar os horizontes, o projecto expandiu-se para o rooftop do CCB, onde se juntou a vista privilegiada sobre o rio Tejo à experiência gastronómica. O novo restaurante abriu no último trimestre do ano passado, com um espaço amplo, airoso e […]
O restaurante Sauvage, espaço intimista e acolhedor, é já bem conhecido entre os lisboetas. Ao alargar os horizontes, o projecto expandiu-se para o rooftop do CCB, onde se juntou a vista privilegiada sobre o rio Tejo à experiência gastronómica.
O novo restaurante abriu no último trimestre do ano passado, com um espaço amplo, airoso e bem decorado, num estilo sóbrio. Rapidamente ganhou popularidade entre os moradores da zona de Restelo, sendo procurado para almoços em família nos fins de semana e pelo público mais jovem na faixa etária dos 30-40 anos. E há que acrescentar, como é óbvio, a clientela turística devido à sua localização. Por estas duas razões, a oferta gastronómica baseia-se mais nas tradições portuguesas, da responsabilidade do Chef Ricardo Gonçalves (que me lembro bem da Enoteca de Belém).
Experimentámos uns croquetes de pato deliciosos, crocantes por fora e macios por dentro, com compota de marmelo caramelizado e pickles de mostarda (5€); um exótico picadinho de bacalhau com tinta de choco, alface do mar e ovas curadas (12,5€) e um saboroso Brás de leitão com batata palha, tapenade e ovo cozido a baixa temperatura (13€). O prato principal foi bochecha de vaca estufada com cebola confitada e puré de batata aro-matizado com queijo da ilha (18€). Para sobremesa há várias opções. Dentro das provadas posso recomendar mousse de chocolate (70% de cacau) com caramelo salgado e avelãs (5€) como opção menos doce. Para os mais gulosos há uma versão de pudim Abade de Priscos (6€) servido com doce de limão, que corta um pouco a sua doçura. A sobremesa clássica da casa, que tem o nome curioso de Caminho de Salomão (7€), é a mais gulosa, feita de bolacha, natas, doce de ovo, caramelo e suspiro.
Gostei da carta de vinhos, elaborada de forma inteligente. Não é demasiado extensa para não dificultar a escolha, mas é bem composta. Oferece óptimas opções para cada tipo (brancos, tintos, rosés e espumantes) e região (Vinho Verde, Douro, Dão, Bairrada, Lisboa e Alentejo). Não há vinhos banais, e a maior parte dos produtores são clássicos, como a Niepoort, Luís Pato, Quinta das Bágeiras ou Reynolds e alguns projectos mais recentes, bem seleccionados. A escolha é fácil, para quem conhece o panorama vínico português e serve como óptima montra dos vinhos nacionais para os visitantes estrangeiros. Apreciei particularmente a presença do vinho de Carcavelos (Villa Oeiras Superior) como a opção de vinho generoso, que faz todo o sentido. Aliás, acho que todos os restaurantes com alguma ambição na zona de grande Lisboa o deviam ter.
Há também uma excelente oferta de cocktails, criados pela bartender Caroline Freitas. Bebi um Herbal Breeze (gin, flor de sabugueiro e licor de poejo) e gostei muito pelo seu sabor pleno e equilibrado. Para finalizar, menciono os pratos bonitos e estilosos das marcas portuguesas Vista Alegre e Costa Nova. Enfim, a experiência foi extremamente positiva e só me falta passar por lá à noite, numa sexta-feira ou sábado, para beber um copo num ambiente com música e DJs convidados.
Sauvage
Morada: Fundação Centro Cultural de Belém, piso 3, Praça do Império, 1449-003 Lisboa
Telefone: 913 366 585
E-mail: geral@sauvageccb.pt
Horário: Terça a Domingo das 12:00 às 01:00 (vésperas de feriado e feriados encerra também à 01:00); Sextas e sábados das 12:30 às 03:00
























