Adega do Cartaxo: A aposta está nos “detalhes”

Adega do Cartaxo

Com uma produção anual na ordem dos 7 milhões de litros, provenientes de uma área de vinha que no conjunto dos seus associados totaliza cerca de 700 hectares, a Adega do Cartaxo, tem feito um esforço consistente na sua modernização tecnológica, na melhoria das instalações e um forte investimento tanto no acompanhamento da viticultura como […]

Com uma produção anual na ordem dos 7 milhões de litros, provenientes de uma área de vinha que no conjunto dos seus associados totaliza cerca de 700 hectares, a Adega do Cartaxo, tem feito um esforço consistente na sua modernização tecnológica, na melhoria das instalações e um forte investimento tanto no acompanhamento da viticultura como nos processos enológicos. Sem descurar os seus valores tradicionais assentes em marcas históricas com forte implantação como o Bridão e Coudel Mor, às quais com o tempo foram adicionando upgrades como as categorias Reservas e Special Selection, os responsáveis da adega sentiram a necessidade de captar novos mercados e um outro perfil de consumidor, mais urbano e sofisticado, com vinhos que respondessem melhor a esses requisitos. É dentro desta estratégia que se insere o lançamento da nova marca Detalhe, nas suas versões branco e tinto. E a aposta não foi deixada ao acaso, o que se torna evidente nos cuidados especiais que rodearam a sua apresentação, onde a imagem global e a rotulagem dos Detalhes entregues à designer Rita Rivotti, alinha nesse desiderato.

O Detalhe branco 2021, feito a partir de uvas Verdelho e Sauvignon Blanc, fermentadas em barricas de 500 litros de carvalho francês e com um curto estágio de 4 meses com bâtonnage conjuga a intensidade aromática de notas tropicais do Sauvignon com a frescura e o nervo do Verdelho, resultando um conjunto bem afinado e de aceitação generalizada. Já o Detalhe tinto 2019, resulta de um lote de Touriga Nacional, Alicante Bouschet, Syrah, Merlot e Cabernet Sauvignon. Beneficiou de 10 meses de estágio em barricas, completado com mais 9 meses em garrafa. Também aqui estamos muito longe da rusticidade com que alguns consumidores persistem em associar aos vinhos do Cartaxo. Pelo contrário, é também um vinho polido, equilibrado, com boa fruta, taninos domesticados em que o elevado grau alcoólico (15%) é contrabalançado pela sua frescura.

(Artigo publicado na edição de Junho de 2023)

Quinta S. João Batista: Por terras do “Bairro”

são Joao batista

Estamos em terras cheias de história, com vinhas de boa dimensão e no centro de um “condomínio aberto” de cegonhas que sobrevoam os vinhedos a todo o momento. Poderíamos ter tido a sorte de ver lebres (parece que há muitas, mas não se dignaram aparecer) mas as perdizes mostraram que a guarda do ninho é […]

Estamos em terras cheias de história, com vinhas de boa dimensão e no centro de um “condomínio aberto” de cegonhas que sobrevoam os vinhedos a todo o momento. Poderíamos ter tido a sorte de ver lebres (parece que há muitas, mas não se dignaram aparecer) mas as perdizes mostraram que a guarda do ninho é levada muito sério, apesar do ruído do comboio, cuja linha do Norte atravessa a quinta. Estamos então nas cercanias de Torres Novas, onde fica a quinta de S. João Batista. As primeiras referências remontam ao séc. XV, mas a história mais recente, para o tema que nos interessa, começa no séc. XIX quando aqui se criavam cavalos, burros e bois para exportação, na então chamada Quinta de Caniços. Em 1898 João Batista de Macedo comprou a Quinta dos Caniços e rebaptizou-a com o nome que mantém até hoje. Com negócios em S. Tomé, construiu aqui casa de traça colonial (já usada para gravações de novelas) e jardim de palmeiras que lhe lembravam a África longínqua. Na divisão do património, após a morte de viúva, em 1939, uma das três filhas ficou com esta quinta, tendo outra propriedade adoptado o nome original de Quinta de Caniços.

NA ZONA DO “BAIRRO”

A quinta tem 145ha de área e 125 de vinha. A casa, de bonita traça, mas em avançado estado de degradação, vai requerer renovação profunda. Seja para futuras novelas seja para projectos mais completos de enoturismo. A propriedade fica localizada perto da Reserva Natural do Paúl do Boquilobo e do rio Almonda, o que condiciona o clima da zona. A quinta está inserida na sub-região do Bairro, ou seja, terras a norte do rio Tejo, onde dominam solos argilo-calcários. Nesta quinta existem também parcelas de solos arenosos e de calhau rolado. A diversidade permite, assim, a localização específica de cada variedade de uva.

Com solos ricos e clima ameno, estão criadas as condições que facilitam a produção de vinhos de qualidade. Dispõe também de uma impressionante nave de barricas para estágio de vinhos — construída a partir de 1902 — ainda que os que ali estagiam não sejam desta quinta. A propriedade foi adquirida pelas Caves Dom Teodósio (integrada no grupo Enoport) em 1989.

A vinha já existia, mas, como nos diz João Vicêncio, o responsável da viticultura que nos conduz na visita à vinha, “o Castelão que cá havia era de clones excessivamente produtivos que facilmente geravam 16 a 18 toneladas de uva por hectare. As reconversões iniciaram-se em 2000 e agora dispomos de Touriga Nacional, Cabernet Sauvignon, Alicante Bouschet, Syrah, Castelão.” Nos brancos há Fernão Pires, Chardonnay, Antão Vaz e Sauvignon Blanc e mantiveram-se algumas parcelas de vinhas velhas de Castelão, Trincadeira e Fernão Pires. O tiro na mouche, segundo João Vicêncio, “foi mesmo o Syrah, uma casta que se adaptou perfeitamente a estes solos e clima; o Fernão Pires, por exemplo, é aqui muito menos produtiva do que em Almeirim, é uva de bago pequeno e baixa produção, originando um branco diferente do habitual na região”.

Outra variedade que aqui mostrou boa adaptação foi a Alicante Bouschet que facilmente chega às 12 toneladas por hectare. Ao contrário do que é comum em quase todo o país, a casta Arinto parece menos bem-adaptada, é demasiado tardia. Já quanto ao Antão Vaz “ainda não temos opinião”, refere o viticólogo, “só agora vai começar a produzir; o Cabernet Sauvignon é muito bom mas curiosamente é o mais tardio em tudo (abrolhamento, pintor) mas o primeiro a ser vindimado. Até decisão em contrário, estas são as castas com que por aqui se vai continuar a trabalhar.” Quando, e se houver, alargamento da área de vinha, logo se verá, até porque a quinta ainda dispõe de uma pequena parcela de Marselan, casta introduzida em tempos pelo enólogo Osvaldo Amado.

AMIGA DO AMBIENTE

As práticas agrícolas são cada vez mais amigas do ambiente. Abandonaram os herbicidas, usam rega na vinha, só utilizam os produtos aconselhados numa reconversão para bio que vai agora no 2º ano. A zona é mais fustigada pelo míldio do que oídio e estão a usar também novas soluções (como óleo de laranja incorporado nos produtos para pulverizar a vinha) para combater afídios. A “intenção bio” choca, no entanto, com a legislação, uma vez que esta impede que uma empresa tenha parte em bio e parte em convencional, mesmo que em regiões diferentes. No caso da Enoport, e estando estas quintas muito longe entre si, não se pode ser bio em S. João Batista e convencional em Bucelas, por exemplo. Segundo a lei, num mesmo número de contribuinte ou é tudo bio ou não há certificação, não pode ser apenas parte. Vários produtores têm assim optado pela criação de novas empresas onde figurem apenas as parcelas bio.

A vindima é mecânica e o facto de a adega estar ao lado da vinha permite um ganho em termos de tempo de chegada das uvas à vinificação, além da possível vindima nocturna. Os terrenos planos desta zona do Tejo também ajudam.

Ainda que dispondo de algumas parcelas de vinhas velhas, não há uma comercialização de vinhos com aquela indicação, como nos diz Nuno Faria, o enólogo. Usam-se estes vinhos das vinhas mais antigas para completar os lotes. O futuro está em aberto, não só porque existem intenção de alargar a área da quinta com aquisições de parcelas contíguas, como o facto de terem castas que só agora se estão a começar a mostrar, haverá muito por escolher e decidir.

Dos vinhos que provámos há a salientar que o Grande Reserva branco está já esgotado na empresa e que a próxima edição será de 2020, a sair a todo o momento para o mercado. Também a nova edição do vinho de lote de Touriga Nacional/Cabernet Sauvignon espera pacientemente a decisão sobre o momento em que estará disponível para o público. O tinto Cabeça de Toiro, que já está engarrafado e até já foi premiado em concurso, irá para o mercado no final do Verão.

Um produto de grande tradição herdado do portefólio das Caves Dom Teodósio é a aguardente Fim de Século que continua a ser um destilado de sucesso que ainda corresponde a 70 000 garrafas/ano. As outras marcas que faziam parte do portefólio Dom Teodósio deixaram de ser usadas.

No Outono sairá uma edição especial que inclui um licoroso e uma aguardente velha de superior qualidade, da qual têm em stock 1900 litros certificados. A pensar no futuro deste produto de luxo foram enviados este ano 62 mil litros para destilar. Esperam receber cerca de 10 mil litros que depois envelhecerão longamente nas caves. Quando chegarem ao mercado, falaremos então com mais detalhe sobre estes dois novos produtos, mas a prova feita agora revelou-se bastante impressionante. Aguardemos pois.

(Artigo publicado na edição de Junho de 2023)

Nova Vadia. “Celebra a arte de vadiar”

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Desde a sua criação, em 2010, a Cerveja Vadia tem sido uma marca pioneira no mercado cervejeiro português, foi uma das primeiras nacionais a desbravar o mercado artesanal. A Vadia apresenta agora uma nova imagem que reforça a sua irreverência e inconformismo lançando um desafio ao mundo: “é sempre tempo de vadiar”. Sediada em Oliveira […]

Desde a sua criação, em 2010, a Cerveja Vadia tem sido uma marca pioneira no mercado cervejeiro português, foi uma das primeiras nacionais a desbravar o mercado artesanal. A Vadia apresenta agora uma nova imagem que reforça a sua irreverência e inconformismo lançando um desafio ao mundo: “é sempre tempo de vadiar”.

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Sediada em Oliveira de Azeméis, o nome da marca nasce da alcunha dada aos fundadores, que chegavam atrasados a todos os encontros de amigos, por estarem a fazer cerveja: “os vadios”. Dos Vadios, nasce a razão dessa vadiagem, a Cerveja Vadia. O novo rebranding representa isso mesmo, feito de linhas incertas, como a vida, de altos e baixos, de erros e conquistas.

Com o rebranding chega também uma nova cerveja, a Imperativa, uma Imperial Stout de cor castanho-escura, com uma espuma cremosa de tom castanho-claro. Os seus aromas intensos de café, torra e cacau são complementados por subtis notas de baunilha e fumo.

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Mirabilis: Nascidos no Douro, feitos com Mundo

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Dez anos antes destes vinhos serem feitos, em 2011, nasciam os primeiros Mirabilis, fruto do “sonho de criar um branco fora de série e um tinto disruptivo para o Mundo”, relembra Luísa Amorim, “um Douro que não se prendesse aos muros da Quinta Nova ou exclusivamente à tradição da região, num perfil mais internacional”. Em […]

Dez anos antes destes vinhos serem feitos, em 2011, nasciam os primeiros Mirabilis, fruto do “sonho de criar um branco fora de série e um tinto disruptivo para o Mundo”, relembra Luísa Amorim, “um Douro que não se prendesse aos muros da Quinta Nova ou exclusivamente à tradição da região, num perfil mais internacional”.

Em Maio, no Depozito, espaço de artesanato tradicional e contemporâneo em Lisboa, foram lançadas as edições de 2021, que surgem hoje com mais maturidade do que as antecessoras, por várias razões: o branco sai com mais tempo de estágio, e o tinto com um perfil aprimorado na elegância e selecção ainda mais minuciosa das barricas. Luísa Amorim dá-nos uma perspectiva bastante humana do processo de criação: “Quando somos muito novos, achamos que o mundo vai acabar amanhã, que temos de pôr as coisas cá fora rapidamente para provar o que valemos. Hoje, estamos noutra fase da vida, com mais maturidade e sabedoria, com ainda mais certeza do que queremos. Ao mesmo tempo, temos de ser muito conscientes e certeiros, fazer os vinhos com cuidado, porque hoje as exigências do mercado são outras, e Portugal cresceu em qualidade”.
Para Ana Mota, responsável de viticultura da Quinta Nova, 2021 foi um ano difícil para a vinha, mas, por outro lado, tendo perícia para ultrapassar as dificuldades, acabou por ser, como diz a própria, “uma dádiva”. “Foi um ano vitícola bastante chuvoso, com temperaturas amenas, e por causa disto os fungos deram-nos muito trabalho, mas conseguimos, com cuidado, trazer boas uvas para adega. Foi preciso estarmos muito atentos à vinha. Na vindima, tivemos de ter muita paciência, por causa da chuva”, descortina Ana Mota. Quanto ao Mirabilis branco, Ana Mota revela, contente, “cada vez mais, temos os nossos viticultores parceiros, das uvas brancas, a querer continuar com o nosso projecto, o que nos dá estabilidade. Além disso, da colheita de 2022 teremos mais algumas garrafinhas do branco, porque conseguimos mais 1,3 hectares de uma vinha muito velha, com características para Mirabilis”.

A complementar a perspectiva da viticultura, Jorge Alves, director de enologia, também considera que 2021 foi um ano de excelência: “Foi magnífico por vários motivos, trouxe-nos vinhos brancos mais minerais, intensos e com uma acidez bastante cintilante. A vindima foi um pouco mais tardia, o que não tem mal nenhum, excepto a parte das borboletas no estômago com medo dos apodrecimentos, até porque as uvas tiveram tempo extra de maturação, o que é importante para a combinação final. Foi também um ano em que os equipamentos deram um jeito enorme, mesas de triagem e tapetes de escolha ajudaram-nos a criar estes vinhos de enorme pureza aromática e gustativa”, afirma o enólogo.

 

O Mirabilis branco 2021 tem origem em vinhas velhas de altitude, muito ricas em Gouveio e com algum Viosinho, entre outras castas. Fermenta e estagia em barricas de carvalho francês e húngaro de 300 litros, 80% das quais, novas, com bâtonnage quinzenal. “O estágio de um ano em garrafa adiciona-lhe textura”, acrescenta Jorge Alves. Já o Mirabilis tinto 2021 tem a sua génese numa vinha a 10 metros da adega da propriedade da família Amorim, e traduz-se num lote de Tinta Amarela, em grande percentagem, com vinha centenária. Vinificado sem engaço, estagia 12 meses em barrica nova de carvalho francês e 5 meses em garrafa. “Este é o vinho mais ‘afrancesado’ da Quinta Nova, muito vegetal, mentolado, texturado. Provavelmente, é o nosso tinto com mais tensão e nervo, que fica mais no final de boca e envelhece de forma muito subtil. É um projecto lindíssimo”, confessa o enólogo.

A equipa da Quinta Nova aproveitou, ainda, o momento de lançamento destes vinhos para anunciar algumas novidades ao nível da vinha e da adega. Além de novas plantações com castas mais adaptadas às alterações climáticas, e de ajustes na geometria da vinha para maior adaptação a máquinas, uma experiência inovadora com o objectivo de combater a seca que se tem verificado no Douro: “Não fossemos nós produtores de cortiça… fizemos, nas vinhas centenárias, uma descava profunda e estamos a colocar aí uma quantidade muito significativa de granulado de cortiça. A cortiça é isolante térmica, e consegue reter água e humidade no solo durante mais tempo. Com a água da chuva, incha e faz um efeito tampão, retendo a humidade”, avança Ana Mota. Luísa Amorim, por sua vez, levantou o pano ao projecto da nova adega, que se encontra já numa fase bastante avançada. “Apenas ficaram as paredes, não restou uma peça interior nem um pavimento. Tudo isto para virmos a ter ainda melhores vinhos”, garante a administradora. A vindima de 2023 já será feita nesta nova adega.

(Artigo publicado na edição de Junho de 2023)

Grande Prova: Trás-os-Montes – A última fronteira

Grande Prova

Trás-os-Montes é um território vitivinícola bem determinado no nordeste do nosso país, delimitado pelas cadeias montanhosas do Gerês, Cabreira, Alvão e Marão. Com Espanha a fazer fronteira a este e a norte, a região estende-se a noroeste até Montalegre e a sul até às cercanias de Alijó e Vila Real, ou seja, mesmo junto à […]

Trás-os-Montes é um território vitivinícola bem determinado no nordeste do nosso país, delimitado pelas cadeias montanhosas do Gerês, Cabreira, Alvão e Marão. Com Espanha a fazer fronteira a este e a norte, a região estende-se a noroeste até Montalegre e a sul até às cercanias de Alijó e Vila Real, ou seja, mesmo junto à Região Demarcada do Douro. Para lá de Miranda do Douro, ou seja, já do outro lado da fronteira, a região de Arribas (del Duero) está muito próxima, e a mais badalada Toro também não se dista muito.

Ainda em Espanha, mas agora a norte, encontramos as regiões de Monterrei, Valdeorras e a crescentemente cobiçada Bierzo. Não se estranha, portanto, que a tradição ibérica da viticultura e vinificação esteja bem implementada em Trás-os-Montes, lugar remoto e apaixonante, onde a natureza felizmente ainda impera. Prova disso são os magníficos lagares rupestres espalhados pela região, testemunhas dos tempos romanos e pré-romanos. Aliás, a este respeito, cumpre elogiar a recente certificação da produção de vinhos em Lagares Rupestres, sendo esta designação exclusiva para a região, existindo actualmente no mercado 5 vinhos produzidos por esta metodologia, devidamente certificados como tal. Contudo, apesar deste legado, a demarcação de Trás-os-Montes como DO de vinhos é recente.

 

Primeiro, em 1989, Valpaços, Planalto Mirandês e Chaves, foram reconhecidos como indicação de proveniência regulamentada. Depois, em 1997, foi criada a Comissão Vitivinícola Regional. Já no novo milénio, mais propriamente em 2006, surgiu o reconhecimento como DO, precisamente com os referidos 3 territórios como sub-regiões DOC (ou seja, Valpaços, Planalto Mirandês e Chaves) com ligeiros ajustes de áreas e circunscrições. Actualmente, são 10.000 hectares de vinha, num espaço onde, como nos confirmou Rui Cunha — enólogo na região há 25 anos, sempre no produtor Valle Pradinhos — o minifúndio ainda impera e as tradições na vinificação, com maior ou menor conservadorismo e até amadorismo, são a regra. Com efeito, falamos de apenas 1.100 hectares de vinha cadastrada e certificada para a produção da DO (inclui IG Transmontano), representando a actividade de nada menos que 3.000 viticultores e 4 adegas cooperativas, o que dá, naturalmente, uma média de vinha muito pequena por produtor.

A região produz maioritariamente vinhos tintos, sendo os brancos apenas 1/3 de todo o vinho produzido, e os rosés, tal como os espumantes e licorosos, practicamente residuais. As principais castas usadas para a sua produção, são, no caso das tintas que nos interessam mais para este texto, Tinta-Amarela, Bastardo, Touriga-Nacional, Tinta-Roriz e, com menor expressão, Tinta-Barroca e Tinta-Carvalha. Ainda para Rui Cunha, que conhece bem as sub-regiões de Valpaços e Planalto Mirandês, o desafio da região de Trás-os-Montes é esse mesmo: conseguir aproveitar o fantástico património vitícola de que dispõe, o que implica maior formação de todos os intervenientes e maior divulgação das suas particularidades. “O resto, ou seja, a excelência da matéria-prima, está lá” diz-nos orgulhosamente. Outro enólogo há muitos anos na região é Francisco Gonçalves, técnico que começou no Douro, mas que assessora agora diversos produtores em Trás-os-Montes, tendo inclusivamente escolhido a região, e Montalegre em particular, para fundar o seu projecto pessoal. Tal como Rui Cunha, concorda que a região tem um potencial impressionante, e que bastaria alguma modernização, na viticultura e enologia, para que rapidamente fosse mais reconhecida. Diz-nos mesmo que os vinhos brancos dos terroirs graníticos transmontanos mais frescos podem vir a ser dos melhores do país, mas isso ficará para outro texto, pois aqui falamos de tintos.

Grande ProvaComecemos, então, pela distinção mais tradicional da região de Trás-os-Montes, que é entre a ‘Terra Fria’ e a ‘Terra Quente’. Da primeira, em maior altitude (a vinha mais alta está plantada a uma cota de 1070m em Montalegre) e com verões mais temperados e frescos, fazem parte os concelhos situados ao longo da fronteira nordeste com Espanha (de Vinhais, Bragança, Vimioso, Miranda e Mogadouro), sendo Vidago um dos principais centros vinhateiros, excelente para vinhos frescos e com bastante acidez natural. A fama dos vinhos da sub-região de Chaves (inserida na ‘Terra Fria’), capazes de corrigir naturalmente (entenda-se: contribuir com acidez) vinhos de outras regiões é antiga, sobretudo em brancos e bases para espumantes. Na transição para a ‘Terra Quente’ encontramos Macedo de Cavaleiros, outro polo vinícola, que alberga o produtor Valle Pradinhos já referido. Com solos de natureza mais xistosa, altitudes que raramente ultrapassam os 500m, e com maior influência do vale do rio Douro, a ‘Terra Quente’ é caracterizada pelos verões escaldantes. Alguns dos mais relevantes concelhos que englobam a sub-região são Mirandela, Murça (parte), Vinhais, e o próprio Valpaços.

Mas outra distinção da região, diríamos menos tradicional, mas mais formal, é, precisamente, a divisão oficial em 3 sub-regiões: Valpaços, Planalto Mirandês e Chaves. Comecemos pela última. A noroeste, Chaves é a sub-região mais fresca, com um clima mais chuvoso e vinhas (verdadeiramente) em altitude, cujos solos tendencialmente graníticos propiciam perfis com mais acidez e elegância. Por sua vez, a sub-região de Valpaços é, como já referimos, marcada por elevadas temperaturas durante o verão, e um clima seco durante grande parte do ano, sobretudo nas terras com menor altitude, entre os 350-400 metros, terroirs marcadamente favoráveis a tintos com maturação elevada, com solos xistosos e afloramentos graníticos. Valpaços é, claramente, a sub-região que apresenta maior produtividade, reflexo das condições naturais e da área plantada, mas também da constante evolução da vitivinicultura da zona (renovação/restruturação de vinhas à cabeça), em grande parte por efeito das práticas das adegas modernas do Douro ‘ali ao lado’, aspecto ao qual voltaremos ainda neste texto. Por fim, temos o Planalto Mirandês, a sub-região com a continentalidade mais pronunciada, marcada a este pela geografia selvagem típica do rio Douro internacional, com solos maioritariamente xistosos. Com pouca chuva, quase nada nas terras quase desérticas na fronteira, predominam cotas altas entre os 750m e os 800m, sendo Miranda do Douro e Mogadouro os centros vínicos por excelência. O enólogo Paulo Nunes, que para o projecto Costa Boal faz um vinho neste território, confirma o calor diário nos meses estivais, mas salienta a frescura das noites mesmo no Verão, algo que não encontra, por exemplo, no vale do Douro. Por isso, diz-nos, a vindima nessa sub-região é sempre tardia, por vezes em Outubro, e os teores alcoólicos raramente ultrapassam os 13,5%.

Provados mais de 2 dezenas de vinhos, das 3 sub-regiões descritas, conseguimos retirar várias conclusões. Em primeiro lugar, que o modelo de tinto encorpado e com teor alcoólico acima dos 14% ainda predomina na região, sobretudo nos topos de gama. Muito deles provém da sub-região de Valpaços, o que se justifica pelas próprias condições naturais de maior calor e solos xistosos, mas também pela proximidade ao Douro. Essa proximidade trouxe, com efeito, um fenómeno de mimetização, bem presente no próprio encepamento (com as duas Tourigas à cabeça, mais Tinta Roriz e Tinta Barroca) e nas práticas enológicas iniciadas no final dos anos ’90 com os modernos tintos durienses. São vinhos ambiciosos, bem feitos e generosos no perfil intenso, mas que não se distinguem significativamente dos produzidos na região vizinha (e o consumidor que procura Douro vai certamente comprar Douro).

Grande Prova

Por outro lado, encontrámos um perfil mais tradicional, com várias matizes rústicas, centradas em castas muito habituadas ao local — exemplo maior para a Tinta Amarela —, ainda que vindimadas, porventura, tardiamente, comprometendo a acidez natural que a região pode proporcionar. Em ambos os perfis, a longevidade dos vinhos é notável, sendo que os néctares mais antigos em prova — um da colheita de 2012, e dois de 2014 — se apresentam em grande forma, dificilmente reconhecidos como vinhos com “idade”… Por fim, provámos alguns vinhos cujo perfil mais facilmente a região pode produzir — assim nos confirmaram vários enólogos e produtores — e garantir sucesso para o futuro. Falamos de vinhos mais frescos, feitos a partir de uvas de vinhas velhas e a partir de castas pouco difundidas no restante país vitícola, mais a mais plantadas a uma altitude pouco comum. No modelo de vinho mais aberto e vivo, Vidago (na sub-região de Chaves) pode mesmo vir a ser, entre outros, um lugar-chave, sendo que dois dos vencedores da prova advém precisamente desse terroir fresco e único. O vinho Lés-a-Lés emerge de uma vinha velha, rodeada de pinheiros, “que cheira a caruma, e lembra o Dão”, diz-nos o enólogo Rui Lopes que assina o vinho juntamente com Jorge Rosa Santos. Não por acaso, parte das uvas do lote são Tinta-Pinheira e Baga… Outro vencedor é o Grande Reserva da Quinta de Arcossó, um vinho que sai da pena de Amílcar Salgado e Francisco Montenegro, e que é originado a partir de uma das vinhas mais bonitas e bem cuidadas da região, para não dizer do país.

À laia de conclusão, com uma dimensão significativa de vinhas velhas, e uma altitude pouco habitual no nosso país, solos de granito e xisto, a região tem tudo para se afirmar e liderar em mais do que um perfil, sem perder a noção de frescura com a qual pode triunfar sobre outras regiões. Acresce, que as suas condições naturais permitem uma expressiva agricultura integrada e até biológica, dado a média anual muito baixa de tratamentos. Com mais enólogos jovens a chegar à região, tudo aponta para um “futuro risonho”, como espera a enóloga Joana Pinhão (na Quinta Valle Madruga desde 2021). Joana não tem dúvidas que a grande heterogeneidade entre as 3 sub-regiões de Trás-os-Montes é uma virtude, dependendo do tipo de vinho que se pretende produzir, sendo que nesse mesmo sentido milita a opinião de Paulo Nunes. Também nós, pelos vinhos provados, não temos dúvidas da qualidade e originalidade da região, dois vectores que, como em todas as regiões, têm de ser permanentemente estimulados e trabalhados. Com condições excepcionais para a produção de vinhos, Trás-os-Montes tem tudo para vir a ser uma estrela entre os vinhos de Portugal.

 

(Artigo publicado na edição de Junho de 2023)

 

 

 

 

 

Quinta de São Luiz abre restaurante na The Vine House

A The Vine House, mais recente proposta do grupo Sogevinus acaba de abrir o seu primeiro restaurante com o cunho do Chef Vítor de Oliveira. Aberto de terça a domingo, o novo espaço da Quinta de São Luiz by Chef Vítor de Oliveira já aceita reservas. O rio Douro serve de inspiração para o conceito […]

A The Vine House, mais recente proposta do grupo Sogevinus acaba de abrir o seu primeiro restaurante com o cunho do Chef Vítor de Oliveira. Aberto de terça a domingo, o novo espaço da Quinta de São Luiz by Chef Vítor de Oliveira já aceita reservas.
O rio Douro serve de inspiração para o conceito gastronómico desenvolvido, que tem como pano de fundo as tradições da região duriense e os sabores trabalhados e apresentados de forma informal e orgânica. A essência do fogo lento e das panelas de ferro preto esquecidas ao lume, fazem parte do imaginário recriado, ao qual se juntam matérias-primas como o Bacalhau Salgado Seco, o Polvo do Algarve, a Carne Barrosã DOP, o Porco Bísaro e até o Galo Celta.

Nas tábuas esculpidas a partir de barricas centenárias surgem dispostos os exclusivos Queijos de Ovelha com Alecrim ou Malagueta de Trás-os-Montes e o Queijo de Cabra Biológico, mas também as melhores peças de presunto, dada a mestria do chef no manuseio do presunto alentejano, fumado e ibérico. A terra de berço do Tomate Coração Boi, é também palco de laranjas, toranjas e limões que ganham destaque na cozinha do chef Vítor de Oliveira.

Os vinhos da casa fazem companhia aos pratos e assumem um merecido protagonismo, das icónicas referências de Porto Kopke às colheitas mais recentes DOC Douro da gama São Luiz, sem esquecer o carácter experimentalista de São Luiz Winemaker’s Collection.

Para além do restaurante, onde é possivel degustar as iguarias do chef, existem também outras ofertas disponíveis, como um Piquenique na Quinta de São Luiz. Desta experiência, que tem como pano de fundo uma paisagem cultural da região e a tradição vitivinícola da quinta, será possível pedir um cesto que inclui as seguintes especialidades: Pão e Broa de Milho, Pastel Salgado Tradicional da Região, Tábua de Queijos Portugueses, Saladas de Legumes e Fruta, Sandes de Presunto Ibérico e Azeite da Quinta, Sardinha com Azeite e Tomilho, Doce Tradicional da Região, Fruta da Época e uma garrafa de vinho São Luiz Colheita Branco ou Colheita Tinto. O cesto é válido para duas pessoas e tem um valor de €80,00.

Situada na margem esquerda do rio Douro, perto do Pinhão, em plena sub-região do Cima-Corgo, a Quinta de São Luiz oferece agora a todos os seus visitantes uma experiência enoturística que une o vinho e a gastronomia.

Quinta de São Luiz by Chef Vítor de Oliveira
Morada: E.N. 222 – Adorigo | 5120-012 Tabuaço
Horários: De Terça-feira a Domingo, das 19h00 às 22h00. Sábados e Domingos aberto ao almoço das 12h30 às 15h00. Encerra à Segunda-feira
Reservas: +351 939 953 311 ou book@saoluiz.rest
Preço médio: 30,00€ por pessoa (sem bebidas incluídas)

Enoturismo da Herdade das Servas com novidades no restaurante Legacy

O enoturismo sempre foi um ponto forte da Herdade das Servas, com portas abertas para visitas e provas de vinhos com regularidade diária. É agora tempo de novidades associadas ao Legacy Winery Restaurant e ao enoturismo deste projeto vitivinícola, situado junto a Estremoz, no Alentejo. O verão traz uma nova carta ao Legacy , destaque para […]

O enoturismo sempre foi um ponto forte da Herdade das Servas, com portas abertas para visitas e provas de vinhos com regularidade diária. É agora tempo de novidades associadas ao Legacy Winery Restaurant e ao enoturismo deste projeto vitivinícola, situado junto a Estremoz, no Alentejo.

O verão traz uma nova carta ao Legacy , destaque para a estreia da Carta Fora d’Horas, disponível entre as 16h00 e as 19h30 e composta por alguns dos pratos da carta principal e com pequenas adaptações no empratamento: ‘cru de corvina em leite de tigre, milho braseado’ (€16,00); ‘croquetes de javali com maionese de trufa (€9,00), ‘tártaro de novilho mertolengo, almeice fumado, batata chips e pimentos’ (€18,00); ‘sandes de secretos de porco preto com mostarda, em pão alentejano e batata chips’ (€12,00); ‘tábua de queijo, enchidos alentejanos, tostas de pão, chutney de uva’ (€14,00); ‘bola de gelado ou sorvete’ (€3,50) e ‘boleima de maçã com creme de baunilha’ (€7,00).

Para acompanhar há uma carta de bebidas, onde se destacam os vinhos da Herdade das Servas e da Casa da Tapada – projeto que o produtor Luís Serrano Mira tem em Amares, na região dos Vinhos Verdes –, estando disponíveis à garrafa e também a copo. Há ainda três opções de espumante, uma cerveja e alguns espirituosos e licorosos.

Outra novidade é o facto das refeições, de ambas as cartas, poderem ser desfrutadas numa ampla esplanada. O serviço de refeições funciona entre a 12h30 e as 22h30. A vertente de visitas, provas de vinhos e loja está aberta das 10h00 às 19h00.

A cozinha do Legacy Winery Restaurant tem a assinatura de Emanuel Rodriguez, chefe argentino com 21 anos de experiência.

LEGACY WINERY RESTAURANT
Morada: Herdade das Servas, EN4, km 136,4 – 7101-909 Estremoz
Horários: Todos os dias, das 12h30 às 22h30
Contactos: 268 098 080 ou legacy@herdadedasservas.com

Poças promove workshop de cocktails de Verão

José Mendes Poças

No próximo dia 22 de Julho, sábado, pelas 17h00, a Poças irá promover um workshop de “Cocktails de Verão” no Centro de Visitas da Poças, localizado em Vila Nova de Gaia. O bartender José Mendes, vencedor do “Worldclass Portuguese Bartender of the Year” em 2019, estará ao leme deste workshop, onde os participantes terão a […]

No próximo dia 22 de Julho, sábado, pelas 17h00, a Poças irá promover um workshop de “Cocktails de Verão” no Centro de Visitas da Poças, localizado em Vila Nova de Gaia.

O bartender José Mendes, vencedor do “Worldclass Portuguese Bartender of the Year” em 2019, estará ao leme deste workshop, onde os participantes terão a oportunidade de aprender a fazer três cocktails, que podem depois ser recriados em casa, e degustados durante as férias de verão, junto da família e dos amigos, ou após um longo dia de trabalho, por exemplo.

Os cocktails serão confeccionados com vinhos Poças, como é o caso do Brig’s, branco e rosé, criados especialmente para o universo da mixologia, e que surgiram para dar uma nova vida ao Vinho do Porto.

Além de dar a conhecer o potencial dos vinhos da produtora do Douro, fundada no ano de 1918, como base para os cocktails, José Mendes, explicará ainda como utilizar os ingredientes e os materiais de forma correta. No final do workshop, os participantes terão direito a uma oferta especial: uma garrafa de vinho da Poças que foi utilizada para um dos cocktails.

O workshop tem um valor de 40€ por pessoa e as inscrições podem ser feitas através do site da Poças.

Mais informações:

Contactos:

Centro de Visitas

Gaia

Rua Visconde das Devesas 168

4401 – 337 Vila Nova de Gaia – Portugal

visitors@pocas.pt

tel.:+ 351 223 203 257