Monção e Melgaço com barrica

Precisamente há três décadas, no limite-norte do país começavam ensaios de fermentação e estágio de Alvarinho em barricas, atualizando tradições vetustas. Meia década volvida e surgiu no mercado o Vinha Antiga, o primeiro vinho de Alvarinho de Monção e Melgaço com madeira. Outras marcas seguiram o exemplo e continuariam os ensaios na região (e fora […]
Precisamente há três décadas, no limite-norte do país começavam ensaios de fermentação e estágio de Alvarinho em barricas, atualizando tradições vetustas. Meia década volvida e surgiu no mercado o Vinha Antiga, o primeiro vinho de Alvarinho de Monção e Melgaço com madeira. Outras marcas seguiram o exemplo e continuariam os ensaios na região (e fora dela). Aperfeiçoaram-se as técnicas e novos produtores e vinhos trouxeram diferenças de perfil. Hoje há muito, e bom, por onde escolher!
TEXTO Nuno de Oliveira Garcia FOTOS Ricardo Palma Veiga e Anabela Trindade
É com um brilho nos olhos que Anselmo Mendes me relata que faz exactamente este ano 30 primaveras que começou os primeiros ensaios de fermentação e estágio em barrica da sua uva predileta, o Alvarinho. Filho da região dos Vinhos Verdes, bem lá no norte do país, na atual região de Monção e Melgaço, foi com naturalidade que escolheu as uvas da família para o efeito, bem como umas barricas de 225 litros compradas em França com o “parco ordenado da altura”, palavras do próprio.
Os primeiros resultados não foram totalmente consensuais à época (diz-me que foram “aplaudidos por uns e rejeitados por muitos”). O facto de o Alvarinho já então beneficiar de fama de melhor casta branca do norte de Portugal não ajudava, pois, como se diz coloquialmente, em equipa que ganha não se mexe. Ou seja, não havia necessidade de inovar. Vivia-se em plena década de 80 do século passado, o país crescia economicamente a olhos vistos, os Alvarinhos da região vendiam-se bem, e alguns eram até verdadeiros ícones nacionais. Acresce que os vinhos mais conhecidos e cobiçados da região – caso do Palácio da Brejoeira, o mais famoso na altura – não viam qualquer madeira durante a vinificação. Em suma, o Alvarinho, tido na região como um vinho de cerimónia, e cuja uva tendeu sempre a ser mais valorizada do que as castas tintas, não carecia de ver ser alterada a fórmula do seu sucesso, que passava pela vinificação em tanques de inox.
Antes, contudo, desses anos de ‘modernidade’, era comum a fermentação do Alvarinho (e de tantas outras castas) em depósito e vasilhames de madeira, mas não nos moldes atuais, naturalmente. Como me descreve Joana Santiago, da Quinta de Santiago, a sua avó vinificava a casta em tonéis de madeira (acima dos 500 litros), de carvalho português ou até de cerejeira, inclusivamente com o arranque da fermentação com as películas. Por isso, aliás, o atual enólogo da propriedade da família – José Domingues – encontra-se a testar várias madeiras tradicionais, tudo para conseguir replicar os vinhos de outro tempo.
Mas voltemos a Anselmo Mendes, e aos seus ensaios… O experiente enólogo recorda-se dos seus primeiros vinhos com fermentação em barrica de carvalho, e da sensação aromática que proporcionavam e que apelida de “exuberância baunílica” (o primeiro Vinha Antiga da Provam, em 1995, foi um caso paradigmático). Com o passar dos anos, e já em plena década de 90, Anselmo experimentaria barricas de diferentes origens (um pouco de tudo, entre Tronçais, Allier de França, Carvalho Americano e até Carvalho Português), tendo identificado a madeira de Nevers (a norte de Allier) como aquela que menos afectava o carácter varietal do Alvarinho. Depois, seguiu-se o aperfeiçoamento da battonage – agitação das borras sobre o líquido dentro da barrica – e Anselmo compreendeu que também neste capítulo muito haveria que aprender. Com uma uva de bago pequeno, e que proporciona mostos com intensidade, muita battonage não significava necessariamente melhor vinho, apenas proporcionando um desnecessário maior volume e, muito pior, dificultava a medição de oxigénio. E surgiu ainda uma outra variável: saber se a agitação deveria ocorrer em borras finais ou totais, sendo que ainda hoje os produtores divergem; Anselmo prefere borras totais, enquanto vários enólogos da região contactados preferem as borras finas.
Ainda no que respeita às madeiras, um dos temas centrais é a dimensão da barrica. À partida, e se negligenciarmos os efeitos da tosta e do ano de uso, a dimensão é o fator que mais influencia a marca da madeira no vinho – por regra, quanto maior for a barrica, menos marcado pela madeira sai o vinho. Por isso, Anselmo Mendes praticamente abandonou as meias-pipas (225 litros) e fixou-se em barricas bem maiores, de 400 litros. Segundo o próprio, estas barricas, de preferência novas, mas com tosta muito ligeira, são perfeitas para a fermentação de Alvarinho proveniente dos solos graníticos porfiroides e dos terraços fluviais com pedra rolada. Já as barricas de 1.º e 2.º ano devem ser dedicadas por inteiro ao Alvarinho dos solos franco-arenosos.
Sabia que…
Nos anos 90, Anselmo Mendes experimenta madeira de diferentes origens até encontrar a que menos afecta o carácter do Alvarinho

Diferentes estilos
Outro projeto que cedo compreendeu a mais-valia da fermentação em barrica foi o produtor Quinta de Soalheiro. Efetivamente, este relevante produtor – que, em 1974, plantou a primeira vinha contínua de Alvarinho e, em 1982, criou a primeira marca de Alvarinho de Melgaço (precisamente Soalheiro), há mais de uma década que destina um pequeno lote dos seus melhores vinhos, de uvas criadas em método biológico, para fermentação em carvalho francês, numa mistura de barricas novas e usadas. Esse vinho – Quinta de Soalheiro Reserva – sempre mereceu os maiores elogios da crítica, e soube mudar o seu perfil ao longo do tempo. Se em meados da primeira década do novo milénio o estilo inicial era ainda marcado pela madeira (sempre de excelente qualidade), apesar das nuances minerais inesquecíveis, a verdade é que a partir da colheita de 2012 o perfil foi sendo depurado, tornando-se muito delicado e quase subtil, com a madeira apenas a contribuir para um ambiente de sofisticação.
Caminho diferente foi o seguido por Luís Seabra, enólogo com anos de experiência no Douro, e não só, e com projetos dentro e fora de Portugal. Luís optou pela utilização de tonéis austríacos com significativa capacidade, com 1.000 e 2.000 litros. O enólogo e produtor quis, desde o primeiro momento, fazer algo de diferente com a casta, e elegeu um estilo assumidamente oxidado para, segundo o próprio, mostrar um perfil diferente da região e não apenas mais uma monocasta de Alvarinho semelhante a tantos outros. Começou na vindima de 2013 (vinho que se mantém em forma), seguindo sempre um caminho de intervenção mínima, chegando ao expoente de só usar sulfuroso na fase do engarrafamento.. É, precisamente, pela ausência da proteção que o sulfuroso proporcionada, em conjunto com a fermentação em tonel de grande dimensão, que o seu vinho – o Granito Cru – se apresenta num perfil mais aberto.
Outra diferença vincada do vinho de Luís Seabra é a fermentação maloláctica por que passou, caso único em prova e raro região. Esta fermentação, que opera a transformação do ácido málico em lático, reduz a acidez total do vinho, influencia os aromas, sabores e até texturas, dando ainda um contributo ao nível da estabilidade biológica. Luís reconhece que está a trabalhar no limite, até porque nem sempre a acidez dos mostos é excecionalmente alta, e diz saber que tudo é que tudo uma questão de equilíbrio. Por ora, tem tudo corrido bem pois os anos – 2013, 2014 e 2015 – tem proporcionado mostos ácidos na região dos Vinhos Verdes, mas disse-me estar consciente que quando assim não for terá de reduzir o lote de vinho sujeito a maloláctica.
Por sua vez, na Quinta de Santiago, a regra é a de que o Alvarinho não pode ser todo fermentado e estagiado em barricas novas e, mesmo estas, têm de ser sujeitas a tratamentos (lavagens com água quente e não só) antes de receberem o vinho. Tudo para evitar os aromas a baunilha, fumados e até a café que as barricas podem proporcionar ao néctar. Por ora, neste produtor, existem barricas de carvalho francês de 250 litros, mas muitas também de 500 litros, existindo até já um balseiro de 2.000 litros também em uso para o Alvarinho topo de gama. O desafio para o futuro passa por conseguir reproduzir o vinho da avó de Joana Santiago, sendo que para isso são precisos muitos ensaios com madeiras em desuso nas empresas de tanoaria, caso evidente da cerejeira.
Quem igualmente privilegia barricas antigas para fermentar o seu Alvarinho topo de gama é a Provam, sendo que o seu vinho de nicho – o Contradição – nelas estagia por cerca de 7 meses, antes de um estágio em garrafa por mais um ano.
Sabia que…
À excepção de casos muito especiais, as uvas de Alvarinho são as mais bem pagas do país, alcançando facilmente o euro por quilo
Naturalmente, outra forma de evitar os excessos da barrica é submeter a fermentação e estágio apenas uma pequena parte do lote final, opção que proporciona muita versatilidade e que garante a manutenção de um estilo colheita após colheita, sendo disso bons exemplos o Soalheiro Primeiras Vinhas e o Alvarinho produzido por João Portugal Ramos, que, em 2016, teve 10% do mosto fermentado em barricas novas de carvalho francês. A opção por carvalho americano, ainda que apenas parcialmente, por ora está resumida à Adega de Monção, com o seu Deu-La-Deu Premium a fermentar em meias barricas e a estagiar nelas por 4 meses.
Em suma, o Alvarinho agradece a fermentação, e até o estágio, em barrica, mas dúvidas não restam que dessa forma o trabalho é muito mais exigente do que a fermentação em inox. As opções são muitas, e os cuidados para evitar que a madeira se sobreponha à variedade – mais a mais numa região onde o granito, sobretudo em meia encosta, contribui para alguma subtileza aromática – nunca são poucos. E não nos podemos esquecer que estamos a referirmo-nos à região – Monção e Melgaço – que viu nascer a casta e que mantém um registo de autenticidade da mesma, com vários produtores de excelência.
Os perfis dos vinhos em prova são diferentes, mas prontos a agradar a todos. Existem vinhos muito frescos, com a madeira discreta, como são os casos do João Portugal Ramos e do Regueiro Barricas. Na situação oposta, temos vinhos onde a presença da madeira é mais assumida, caso do Deu-La-Deu e do QM Homenagem. Entre ambos os estilos, encontramos os Parcela Única e Quinta de Soalheiro Reserva, ambos a revelar integração e equilíbrio extraordinários com a barrica. Outros vinhos ainda revelam evolução e uma maior oxidação, como o Contradição e o extremado Granito Cru, que contudo proporcionam muito prazer. É só escolher.
Herdade do Sobroso: África Minha à beira do Guadiana

Entre o rio e a serra, rodeada de vinhas, enquadrada por espaços naturais onde abunda a caça de grande porte e com um pezinho na maior barragem do país. A Herdade do Sobroso fica no Alentejo, mas escapa a todos os estereótipos. Aqui, encontramos belos vinhos e todas as mordomias do luxo. Mas sempre com […]
Entre o rio e a serra, rodeada de vinhas, enquadrada por espaços naturais onde abunda a caça de grande porte e com um pezinho na maior barragem do país. A Herdade do Sobroso fica no Alentejo, mas escapa a todos os estereótipos. Aqui, encontramos belos vinhos e todas as mordomias do luxo. Mas sempre com os pés muito assentes na terra.
TEXTO Luís Francisco FOTOS Ricardo Palma Veiga
ANDAMOS há cerca de dez minutos aos solavancos pelos trilhos de terra batida da serra do Mendro, mas é tal o encantamento com a envolvência e as panorâmicas sobre o Guadiana e a interminável planície do Baixo Alentejo que até nos esquecemos que estava prometido um “safari fotográfico”. Tirando algumas perdizes, de bichos, nada… E então, à saída de uma curva, encaramos com um enorme veado, que depressa se lança em galope estrada fora. Na Herdade do Sobroso é mesmo assim: há surpresas e recompensas ao virar de cada esquina.
Encostado à vertente sul da serra do Mendro, o núcleo urbano desta enorme (1.600 hectares) propriedade pontua o centro do quadrilátero verde formado por 65ha de vinha. Visto de cima, do alto da serra ou a bordo de um balão de ar quente (sim, sim, já lá vamos!), o contraste é gritante: o verde vivo das videiras destaca-se sobre o fundo amarelado das searas ou pastagens circundantes. Mas há também a mancha branca do casario, as sombras cinzentas das escarpas mais rochosas, o espelho azul-esverdeado do Guadiana, um céu azul e os tons pastel do mato rasteiro que cobre as encostas. Uma paleta de cores verdadeiramente mágica.
Sofia Machado sente que tudo isto lhe estava na alma, mesmo sem se dar conta. A sua avó paterna é de Portel e ela, uma menina do Porto, passou belas temporadas no Alentejo quando era criança. Mas nada a tinha preparado para a sensação de pertença que a arrebatou quando chegou pela primeira vez à Herdade do Sobroso. Para quem cumpre os 9km de estrada que ligam a aldeia de Alqueva a esta unidade vitivinícola, cinegética e de alojamento, talvez possa parecer fácil apaixonarmo-nos por um local tão belo, harmonioso e pacífico. Mas isto não era nada assim em 2000…
Ruínas. Mato. Lixo. “Costumo dizer que não começámos do zero, começámos abaixo do erro…”, desabafa Sofia, perante o sorriso cúmplice de Filipe Teixeira Pinto, marido e enólogo residente (com consultoria de Luís Duarte). E também ele com as raízes no Porto. “Tive a sorte de o meu marido também se ter apaixonado por este sítio!” Talvez tenha sido amor à primeira vista, mas não foi fácil. A história, que começa com as visitas cinegéticas do pai de Sofia à região, continuou com a aquisição de três herdades, o que permitiu estender a propriedade desde o Alto Alentejo (Alqueva, ali muito perto do paredão do maior lago artificial da Europa) até às primeiras vagas das planuras do baixo Alentejo, abrangendo de caminho uma porção significativa da serra do Mendro (412 metros de altitude).
Dormir num monte alentejano
A tarefa inicial foi plantar os primeiros 50 hectares de vinha, logo em 2001, a que se seguiu uma intervenção radical de limpeza de matos na serra, complementada com a vedação da propriedade e a plantação de sobreiros (vão em 660.000 e ainda não terminaram). Mais tarde, também os pinheiros mansos vieram enriquecer a paisagem, aproveitando os socalcos na serra antes ocupados por eucaliptos. O casal virou-se então para a recuperação das ruínas, mas, apesar da aposta assumida pelos materiais, estéticas e, até, mão-de-obra locais, o processo não foi fácil. O hotel acabou por abrir apenas em finais de 2008.
Hoje, o Sobroso é um mimo de autenticidade e qualidade de vida. As construções são rústicas, mas os quartos (há cinco na casa principal e outros seis – dois deles contíguos em apartamento T2 – numa edificação secundária, junto à piscina de horizonte infinito sobre as vinhas e a serra) estão dotados de todos os confortos modernos. O restaurante, onde brilha a mão afinada da D. Josefa, serve almoços e jantares a hóspedes e visitantes mediante marcação. Há bar, salas de estar, alpendres com redes e cadeiras, biblioteca, canil. Este é um hotel onde experimentamos, verdadeiramente, a sensação de dormir num monte alentejano.
A fileira de casinhas geminadas onde se situam os quartos exteriores, o bloco que inclui a adega, a loja e os escritórios, as instalações do pessoal e a casa principal enquadram um enorme terreiro ajardinado e relvado que, no seu extremo Leste, termina num muro branco debruçado sobre um braço lateral do Guadiana, proporcionando extraordinárias vistas sobre a paisagem de vinhas, água e serra. Há muitos Alentejos e, ao que parece, todos eles se encontram aqui ao alcance da vista…
Apesar de algumas das parcelas se encontrarem já nas primeiras inclinações da serra, um pormenor curioso, para quem gosta destas coisas, é perceber que há muita pedra rolada nos solos argilosos da propriedade. A explicação está nos humores dos grandes rios: ao longo de milénios, o Guadiana terá corrido por aqui e por ali, deixando a sua marca nos terrenos circundantes. E esta componente rochosa explica também a mineralidade dos vinhos que aqui se fazem.
São vinhos que vale muito a pena descobrir, ou redescobrir. Porque a aposta comercial do Sobroso foi feita no canal horeca e, portanto, não será nos supermercados que vamos encontrar estes brancos, tintos e rosés que integram a região DOC Vidigueira. Presentes no mercado nacional e em mais 21 países, os vinhos do Sobroso apostam muito nas variedades locais: as castas brancas mais relevantes são Antão Vaz, Arinto e Perrum; nas tintas pontificam Alfrocheiro, Alicante Bouschet, Aragonez, Cabernet Sauvignon, Syrah e Trincadeira. Por ano, saem daqui cerca de 550.000 garrafas.

Actividades… e estar quieto
Mas “sair” não é um verbo que apeteça conjugar… O silêncio, a vastidão da paisagem, a simpatia e genuíno prazer de quem recebe, as mordomias, os cozinhados da D. Josefa, os vinhos. Não espanta que a vertente hoteleira seja, também ela, uma história de sucesso. Famílias com filhos, casais em busca de uma pausa a dois, apaixonados dos vinhos, caçadores, fanáticos do bird-watching, toda a gente encontra aqui o que procura. Podemos passear a pé, de bicicleta ou em caiaque; pescar num dos vários planos de água; fazer um safari fotográfico pela serra (para além da bicharada menor, há veados, gamos, muflões, javalis, raposas, texugos); agendar um passeio de balão (uma experiência única, de uma suavidade desarmante) ou de barco no Alqueva; visitar a adega e as vinhas com prova de vinhos; observar aves.
Ou, simplesmente, pegar num copo de vinho e deixar-se ficar por uma das muitas sombras, deixando o tempo correr devagar e mirando o ninho das cegonhas, mesmo junto às casas. A visão do majestoso animal, imóvel poucos metros acima das nossas cabeças, é tão inesperada que um dia uma hóspede desabafou: “Parece mesmo verdadeira!” Não teria dúvidas se assistisse a este momento em que se faz ouvir um ruído semelhante ao bater de ripas de madeira e as duas cegonhas adultas se saúdam com os bicos. Pai e mãe trocam de turno e um deles fica a vigiar as duas crias espigadotas que miram lá de cima com curiosidade os humanos maravilhados, enquanto o outro abre as asas e plana majestosamente em busca de comida.
Daqui a algumas horas, de madrugada, embarcaremos num balão de ar quente para, envolvidos por suaves brisas e um silêncio mágico, pairarmos sobre o rio e os campos, as estradas e as casas. Na serra, durante o safari, tínhamos vistos veados, gamos, muflões e javalis. Desta vez, as correntes de ar levam-nos na direcção oposta, para Sul. Mas o cenário é idêntico. Há animais de grande porte por todo o lado. Não estamos em África, mas a comparação é inevitável. E, acreditem, o vinho por aqui é muito melhor! Quem nunca saboreou um copo de branco bem fresquinho às sete da manhã, a bordo de um balão de ar quente, não sabe o que perde.

Debaixo de terra: A singularidade das Caves da Bairrada

A Bairrada é uma região com grandes tradições vinícolas. A partir dos anos 20, surgiram muitas das mais conhecidas Caves, concebidas, sobretudo, para a produção de espumantes. Algumas alargaram os seus horizontes e vingaram até hoje; outras ficaram pelo caminho. António Dias Cardoso, enólogo e profundo conhecedor da Bairrada, acaba de publicar um livro sobre […]
A Bairrada é uma região com grandes tradições vinícolas. A partir dos anos 20, surgiram muitas das mais conhecidas Caves, concebidas, sobretudo, para a produção de espumantes. Algumas alargaram os seus horizontes e vingaram até hoje; outras ficaram pelo caminho. António Dias Cardoso, enólogo e profundo conhecedor da Bairrada, acaba de publicar um livro sobre a história e o dinamismo empresarial da região.
TEXTO Mariana Lopes FOTOS Anabela Trindade e Ricardo Palma Veiga
A história das empresas de vinho bairradinas começou em 1893, com a Associação Vinícola da Bairrada a encetar a produção de espumantes na região. O pontapé de saída tinha sido já dado, três anos antes, pela Escola Prática de Viticultura e Pomologia da Bairrada, sob a direcção de José Tavares da Silva, engenheiro agrónomo. Tendo a AVB laborado até 1905 com este nome, sucederam-lhe outros, culminando em Caves Monte Crasto, as quais, nos anos 90, caíram por insolvência. Apesar do nascimento “prematuro” desta Vinícola, foi depois de 1920 que se deu o “boom” das empresas mais emblemáticas: S. João (1920), Barrocão (1924), Aliança (1926), Messias (1926), Valdarcos (1926), Borlido (1930), Neto Costa (1931), Vice-Rei (1941), Império (1942), Montanha (1943), S. Domingos (1944), Caves Primavera (1947), Pontão (1949), Altoviso (1952), Fundação (1970) e outras mais.
António Dias Cardoso acaba de lançar um livro sobre o tema, “Caves da Bairrada, Elementos da Sua História”. Agora aposentado, é engenheiro agrónomo, foi director da Estação Vitivinícola da Bairrada, director de Serviços de Vitivinicultura na Direcção Regional (Bairrada, Dão e áreas limítrofes) e enólogo das Caves São João e Messias, tendo escrito vários livros técnicos, de enologia. Com modéstia na voz, revela: “Conheci muitas empresas e tive acesso a informação que nem toda a gente teve, então senti-me na obrigação de escrever este livro.” Foram dois anos de estudo, investigação e entrevistas a gente ligada às empresas e membros das suas famílias.
O “Champagne Português”
“A maior parte destes agentes económicos começaram a sua actividade sob o nome ‘Vinícola de qualquer coisa’ e não ‘Caves’”, conta Dias Cardoso. Aqueles adoptaram esta última designação porque eram, efectivamente, estruturas subterrâneas de engarrafamento e armazenamento. Mas Caves há em todo o lado. O que torna a Bairrada sui generis no panorama vitivinícola é o aglomerado deste tipo de adegas subterrâneas, construídas numa mesma época, numa mesma região.
E porquê só de engarrafamento e armazenamento? Na verdade, estas empresas não vinificavam, numa fase inicial. Era prática comum a compra de vinho a pequenos produtores e agricultores (mais tarde, nos anos 60, a adegas cooperativas), para engarrafamento e comercialização de brancos e tintos com o selo da marca.
Só muitas décadas depois é que a maioria das Caves sobreviventes, as que se renovaram e adaptaram, começaram a vinificar o seu próprio vinho tranquilo e a fazer os vinhos bases para espumantizar.
O impulso para a criação das Caves bairradinas foi dado maioritariamente, ainda no início do século, por visionários portugueses regressados da sua emigração no Brasil, que, por terem alargado horizontes, se prestaram a gestos ousados para a época. Em muitos casos eram pessoas sem qualquer formação académica, mas com sede de modernização e desenvolvimento.
Na verdade, o que motivou a produção de espumante na Bairrada foi a vontade de fazer o “champagne português”. Inicialmente, os produtores introduziram castas de Champagne na região, nomeadamente Pinot Noir e Chardonnay, mas tal revelou-se infrutífero a médio prazo. Assim, variedades regionais como Maria Gomes e Bical começaram a ser as mais utilizadas para o espumante da Bairrada.
É de notar, como absolutamente surpreendente, o volume de negócios e de emprego que estas Caves criaram nos seus tempos áureos, os anos 60. Mesmo numa fase de “vacas magras” (década de 90) já sem o contributo dos mercados das ex-colónias, as Caves Aliança empregavam 291 pessoas e geravam vendas de 26 milhões de euros anuais. Já na Messias laboravam 133 pessoas e vendiam-se cerca de 12 milhões de euros, por ano. As Caves Barrocão, com 52 trabalhadores, atingiam os 5 milhões anuais. No conjunto, só as empresas que nasceram na primeira metade do século XX vendiam no final dos anos 90 algo como 73 milhões de euros por ano e detinham um valor menor, mas muito parecido, de activos fixos.
Além de um mercado nacional sólido, com picos sazonais muito interessantes, a mina de ouro destas empresas era África, com destaque para os mercados de Angola e Moçambique. António Dias Cardoso lembra: “As Caves Primavera, a Imperial Vinícola [Caves Império] e as Caves S. João eram casos típicos de dependência do mercado africano.” De 1963 a 1967, este trio vendeu quase 69 milhões de litros para aqueles dois países, já para não falar das demais empresas. “Quase 50% do mercado de Angola era abastecido pelas empresas da Bairrada!”, lembra o agrónomo. No entanto, e invertendo o conhecido provérbio português, depois da bonança veio a tempestade. Mas isso já é outra história…
Mais de três dezenas de estrangeiros passaram pelo concurso, entre wine critics e/ou wine educators e sommeliers. Os presidentes do júri eram constituídos por enólogos portugueses com comprovada experiência e histórico. Todas as provas eram cegas e nos jurados estava presente uma boa parte dos técnicos de vinhos de qualidade deste país. Para eles, esta é também uma excelente oportunidade de entrarem em contacto com outros aromas e sabores e sempre uma oportunidade para acumular experiências e conhecimentos. Paulo Nunes dizia-nos exactamente isso: “acho que o grande salto de qualidade em Portugal aconteceu depois da crise (2008 e anos seguintes), quando os produtores portugueses tiveram de ir lá para fora, absorvendo conhecimentos e enfrentando a concorrência de todo o mundo. Tivemos de abrir os olhos…” Curiosamente, dois dias depois destas declarações em Santarém, Paulo subia ao palco em Arraiolos para receber o maior galardão do concurso. É ele o enólogo do Villa Oliveira Touriga Nacional de 2011 (da Casa da Passarella), um vinho nascido e criado no sopé da Serra da Estrela e que venceu dois dos sete maiores prémios: o Melhor Vinho do Ano e o Melhor Varietal tinto.
As Caves perdidas
Muitas das caves nascidas nos anos 20 mantiveram um crescente desenvolvimento ao longo dos tempos, mas outras acabaram por se afundar. Dias Cardoso apresenta três razões fundamentais para esse desfecho. Primeiramente, a forte dependência do mercado africano. Quando este se perdeu (depois da revolução de 1974), trazendo enormes dificuldades às transacções financeiras entre as ex-colónias e Portugal, algumas das Caves entraram em colapso por não conseguirem redireccionar o negócio para outros mercados. Outro motivo prendeu-se com dificuldades financeiras, devido ao crédito bancário praticado de forma excessiva e aos elevados juros. Como os administradores destas empresas eram, em geral, pessoas bastante conhecidas, os bancos conferiam-lhes crédito mesmo que não o pudessem suportar.
Em terceiro lugar, nas últimas duas décadas do século XX, o mercado nacional e internacional transformou-se e tornou-se muito mais exigente. A qualidade e perfil dos vinhos não se adequava aos requisitos dos novos tempos e as empresas que apenas engarrafavam (sem vinificar) não conseguiam controlar o produto dos fornecedores. Algumas Caves adaptaram-se e começaram a investir em adegas (e até vinhas); outras não o souberam ou puderam fazer e, inevitavelmente, definharam…
A renovação e o legado
Gradualmente, com o avançar das décadas, os produtores bairradinos foram alargando a gama de produtos (inicialmente centrada nos espumantes e aguardentes) e investindo no engarrafamento de vinhos tranquilos de denominações de origem, sobretudo Dão (logo nos anos 60), mas também Vinho Verde e, mais recentemente, Douro e Alentejo. Este conceito manteve-se até aos dias de hoje, sendo prática de empresas como Messias, S. João, Aliança, São Domingos, Primavera ou Montanha.
No entanto, a partir dos anos 90, os pequenos produtores bairradinos “de quinta”, como Luís Pato, Casa de Saima, Quinta da Dona ou Quinta das Bágeiras, começaram a ganhar clara vantagem perante o consumidor mais exigente, pois a qualidade dos seus vinhos era superior e tinham uma imagem mais forte e personalizada. Assim, estávamos perante uma clara mudança estratégica que, como Dias Cardoso conclui no seu livro, “implicou uma ligação à viticultura, assegurando uma produção própria controlada pelos seus técnicos e contribuindo decisivamente para a personalização dos seus vinhos”.
Apesar do peso que os vinhos tranquilos tiveram (e ainda têm) no negócio das Caves, a sua imagem, com algumas excepções, continuou a ser construída em torno dos espumantes. Estas singularidades das Caves bairradinas, e todo este dinamismo pioneiro em torno da produção de espumante, deixaram um legado impagável para a região: o desenvolvimento desta indústria como bandeira da Bairrada. Hoje, sabemos que cerca de 65% do espumante português é da Bairrada e 20% é certificado com a sua denominação de origem ou indicação geográfica.
Revolução na Terceira

A ilha Terceira está a começar uma pequena revolução na sua vitivinicultura. A “culpa” é da Adega Cooperativa dos Biscoitos, com o auxílio da Anselmo Mendes Vinhos. Os primeiros vinhos já aí estão… TEXTO António Falcão NOTAS DE PROVA Nuno de Oliveira Garcia FOTOS Paulo Mendonça e António Falcão QUANDO se fala de vinhos […]
A ilha Terceira está a começar uma pequena revolução na sua vitivinicultura. A “culpa” é da Adega Cooperativa dos Biscoitos, com o auxílio da Anselmo Mendes Vinhos. Os primeiros vinhos já aí estão…
TEXTO António Falcão NOTAS DE PROVA Nuno de Oliveira Garcia FOTOS Paulo Mendonça e António Falcão
QUANDO se fala de vinhos dos Açores, vem logo à memória a ilha do Pico, de longe a mais vitivinícola do arquipélago. Mas, 150 quilómetros a noroeste, na ilha Terceira, existe uma mancha de vinha que é região demarcada. Trata-se dos Biscoitos, e o único operador – com algum tamanho – é a Adega Cooperativa local. O “algum tamanho” tem que ser tomado com uma pitada de sal. No total estamos a falar de uma área com cerca de 20 hectares, muito provavelmente a Denominação de Origem mais pequena de Portugal (salvo Carcavelos, para licorosos) e certamente uma das mais pequenas da Europa.
Afastada dos centros de conhecimento da moderna vitivinicultura e dos circuitos de comercialização, a adega precisava de um novo impulso. Recorreu então a Anselmo Mendes para dar uma ajuda e o enólogo (e sua equipa) estiveram por lá no inicio desta década. Por uma ou outra razão só saiu um vinho com orientação de Anselmo (colheita de 2011) e depois a ligação esmoreceu. No ano passado foi mais do que revitalizada: Anselmo e o enólogo Diogo Lopes (da sua equipa) assinaram uma parceria com a Adega dos Biscoitos e ficaram com a toda a responsabilidade dos vinhos da empresa, incluindo a comercialização.
O maior problema era combater o abandono da vinha, estimulado por razões económicas: sem recursos financeiros, a adega pagava muito pouco e tarde. Por isso, uma das primeiras medidas da nova equipa foi a de estabelecer o preço de €1,85 por quilo de uva, um dos melhores preços a nível nacional. A uva mais cobiçada é da casta Verdelho, a mais nobre. Dos 20 hectares da região, existem apenas quase 4 ha de Verdelho. O restante em produção fica-se por algumas cepas de Arinto e uma multiplicidade de outras castas, quase residuais, e ainda uns bons 5 hectares de castas tintas, para o chamado ‘vinho de cheiro’, enologicamente pouco interessante e que a Anselmo Mendes Vinhos nem comercializa. O aumento do preço da uva vai fomentar a conversão de algumas destas vinhas em Verdelho.
Um terceiro objectivo a alcançar é o de recuperar a área perdida (cerca de 11 hectares) para o matagal que cresceu onde estava a vinha. Em poucos anos as “faias” (como aqui se chama), tomam conta da área de vinha abandonada. Nuno Costa, da Direcção Geral do Desenvolvimento Rural, explica que, por baixo da pedra vulcânica, o solo é fértil. E o clima sub-tropical fez o resto…
Viticultura heróica
Com o Atlântico a escassas centenas de metros, o ambiente extremamente húmido obriga a cuidados extremos. Primeiro na protecção às videiras, que estão colocadas nas chamadas curraletas (ou currais). São, no fundo, minúsculas parcelas geminadas, cada uma com alguns pés de videira, protegidas por muros de pedra vulcânica. Esta ‘paisagem protegida’ tem outra vantagem: os muros de pedra funcionam quase como uma estufa, acumulando o calor durante o dia, e dissipando esse calor lentamente ao longo da noite. O presidente da Adega dos Biscoitos, Paulo Mendonça, disse-nos que a diferença de temperatura é enorme para a terra circundante às curraletas. O que se ganha? Sobretudo maturação, que é acelerada. As vindimas costumam ocorrer durante Setembro. Se a vinha estivesse fora deste ambiente protegido, a uva nem amadurecia o suficiente para ser enologicamente relevante (existem estudos que o comprovam). E as chuvas de Setembro encarregavam-se de destruir o que restasse do Verdelho, que vai ficando com a película tão fina que é quase transparente…
Historicamente, esta disposição do terreno tem centenas de anos e os antigos sabiam o que faziam. Só as terras com maior densidade de pedra vulcânica à superfície eram destinadas à vinha. Por outro lado, esta zona dos Biscoitos é das menos húmidas da Terceira. Existe, contudo, muita água no subsolo, proveniente do escorrimento das montanhas adjacentes. As restantes terras, mais férteis e fáceis de trabalhar, eram destinadas aos cereais. Hoje, por questões económicas, estão sobretudo em pastagem para as vacas leiteiras, provocando uma quase monocultura do leite e seus derivados. Mas todas estão também separadas por muros de pedra – afinal, havia que dar destino à pedra de lava que as montanhas tinham lançado milénios atrás.
O vinho (ou a aguardente) era fundamental há séculos porque, ao contrário da água, não transmitia doenças nas longas viagens marítimas. Os marinheiros bebiam vinho porque tinham medo de adoecer a beber água putrefacta. Isto tudo nos foi explicado por Francisco Maduro Dias, da Confraria Verdelho dos Biscoitos. Que acrescentou: “Tudo aqui tem que ser historicamente interpretado pela relação com o mar.” E recorda que a Terceira (à semelhança do que sucede com todo o arquipélago dos Açores, de resto) funcionou durante séculos como uma espécie de estação de serviço para a navegação no Atlântico.
Os vinhos
Muito haveria ainda a dizer, mas vamos aos vinhos. Quem nos guiou na vinha e adega (construção de 2008) foi Diogo Lopes, sócio e colaborador da Anselmo Mendes Vinhos nesta aventura. A primeira vindima da parceria ocorreu em 2015 e daí surgiram dois vinhos: Magma e Muros de Magma. A diferença está na composição do lote e pelo estágio em madeira de carvalho francês (usada) do Muros. A intervenção enológica foi mínima: segundo Diogo Lopes, “estes vinhos são um perfeito exemplo de terroir”. Em ambos se destaca a mineralidade (água filtrada pelas montanhas?) e uma salinidade gostosa na boca (o mar, claro). Ambos são muito gastronómicos e com um belo potencial de envelhecimento.
Os “Magmas” só agora estão a ir para o mercado e o “atraso” foi propositado. Pela sua frescura, são vinhos que agradecem o estágio em garrafa. As quantidades são exíguas (2.300 e 1.700 garrafas, respectivamente) e já estão todas com destino: metade fica nos Açores e o restante é divido por Portugal continental e pelo mercado americano. Os preços não são baratos mas, como Diogo Lopes indica, “temos que compensar os viticultores pela produção das uvas para estes vinhos de um terroir com séculos de história”.
Rio Abaixo, Rio Acima

Com o crescimento e florescimento dos vinhos do Douro, mais se torna evidente que a região é composta de múltiplos terroirs. Rio abaixo e rio acima já não se dá aos remos no rabelo, mas é importante explorar e conhecer as semelhanças, as diferenças e as especificidades. TEXTO Luis Antunes FOTOS Cortesia dos produtores […]
Com o crescimento e florescimento dos vinhos do Douro, mais se torna evidente que a região é composta de múltiplos terroirs. Rio abaixo e rio acima já não se dá aos remos no rabelo, mas é importante explorar e conhecer as semelhanças, as diferenças e as especificidades.
TEXTO Luis Antunes FOTOS Cortesia dos produtores
NO princípio, havia o Porto. E o Porto tinha tantas categorias que cada um dos milhentos micro-terroirs da região demarcada do Douro contribuía para o vinho com qualidades diferentes. Mas, nas últimas décadas, ao Porto juntou-se o vinho chamado “de consumo”, não fortificado, e pedindo do seu chão e sítio qualidades diferentes daquelas que anteriormente o Porto precisava. À medida que os vinhos Douro DOC vão construindo a sua aura, vai-se percebendo que a região se redefine, e procura em cada um desses sítios um contributo que pode ser decisivo para o crescimento e a sustentabilidade dos vinhos, não só económica, mas também em termos de estilo. Neste artigo, procurei falar com as empresas que fazem vinhos tanto rio abaixo (Cima e Baixo Corgo) como rio acima (Douro Superior), para perceber como gerem as vinhas, as uvas, como desenham os vinhos, os portefólios, como encontram nos diversos terroirs os projectos que definem o Douro de hoje e do amanhã.
Lobo
Comecei por falar com Manuel Lobo de Vasconcelos, o enólogo principal da Quinta do Crasto, que me explicou que no Cima Corgo (CC) têm a herança histórica de vinhas como a Maria Teresa, a Vinha da Ponte ou os Cardenhos, a que se juntam algumas mais recentes que incluem plantações separadas por casta. Esta pressão histórica não existe no Douro Superior (DS), onde acima de tudo procuram a consistência, que é conseguida graças a variedades muito adaptadas, como a Touriga Franca.
O DS fica, no entanto, aquém de atingir os níveis de diversificação e, portanto, de complexidade do CC, onde têm vinhas com 100 anos e cerca de 50 variedades. No DS os vinhos são fabulosos em estrutura e dimensão, e Manuel tenta no binómio viticultura-enologia encontrar o respeito p ela elegância, frescura e respeito pelo terroir, evitando a sobre-maturação e o desequilíbrio dos taninos. O CC tem mais diversidade, enquanto o DS tem mais consistência, principalmente usando viticultura de precisão e gestão cirúrgica da rega. Nas vinhas velhas do CC, tudo é mais fácil, já que a vinha se auto-regula, o factor ano tem menor influência. Por exemplo, na Touriga Nacional basta um pouco de chuva na altura da floração, algum excesso de nutrição e vem o desavinho. Nas vinhas velhas isso não acontece, até porque têm pouquíssima Touriga Nacional.
Em cada ano, é preciso resolver um puzzle do Douro, para o Reserva Vinhas Velhas, feito no CC, mas também para o Crasto Superior, proveniente do DS. No CC, são 42 mini-blocos de vinhas velhas espalhadas, todos com vinificações independentes, de onde podem sair os topos de gama Vinha da Ponte e Vinha Maria Teresa, mas procurando acima de tudo o equilíbrio, a frescura de taninos. No Douro Superior, o puzzle é diferente, mas a procura também é de equilíbrio, em particular a maturação dos taninos, mas também a frescura – mas frescura não é só acidez, a frescura aromática também é fundamental.
Enquanto no Reserva Vinhas Velhas há um histórico e um perfil a manter, no Crasto Superior o projecto foi criado a partir do zero, com espaço para definir o perfil de um vinho novo, apelativo para o consumidor moderno, com intensidade aromática, dimensão, estrutura, boa evolução em garrafa. Mas é também muito interessante perceber que o Crasto colheita pode ir buscar o melhor dos dois mundos. Para Manuel Lobo, um vinho para ter expressão e sucesso mundial tem de ter consistência e volume. Ao trabalhar com as duas sub-regiões, e visto que o Crasto não é um vinho de quinta, consegue consistência ano após ano num vinho que conquista o consumidor pela fruta definida e boca redonda, para o qual é fundamental que as duas regiões se completem.
Sottomayor
Luís Sottomayor, enólogo da Sogrape, focou-se em dois vinhos da Casa Ferreirinha: o Esteva e o Papa-Figos. Ambos são vinhos despretensiosos e fáceis de beber todos os dias, vinhos desenhados para as pessoas gostarem à primeira. O Esteva existe desde a colheita de 1974, e é feito com algumas uvas do Cima Corgo, de produção própria, das quintas do Seixo e do Porto, e outras compradas a lavradores em zonas mais altas, para ir buscar frescura e acidez. Este vinho não tem qualquer estágio em madeira. O Papa-Figos posiciona-se entre o Esteva e o Vinha Grande, e procura reproduzir o modelo do Esteva mas com uvas do Douro Superior, que, sendo mais quente e com maturações mais fortes, vai ter componentes aromáticas diferentes.
Em ambos os vinhos as variedades são as mesmas: Touriga Franca, Touriga Nacional, Tinta Roriz e Tinta Barroca. O Papa-Figos é mais carregado de cor, com uma componente aromática de cacau, chocolate e fruta madura diferente da do Esteva. As uvas, em grande maioria, vêm de zonas altas. O Douro Superior tem aptidão para produzir um vinho fácil para beber todos os dias. Como o vinho tem mais estrutura e volume, passa 20% por madeira durante 2 a 3 meses, para ganhar em intensidade, harmonia e amaciar um pouco. Já os vinhos do Cima Corgo são mais especiados, balsâmicos, mentolados. O Esteva faz pouco mais de 2 milhões de garrafas, enquanto o Papa-Figos está a chegar ao milhão.
Sabia que…
As três sub-regiões do Douro podem ter como referência geográfica mais urbana as vilas e cidades de Peso da Régua (Baixo Corgo), Pinhão (Cima Corgo) e Vila Nova de Foz Côa (Douro Superior).
Ferreira
Francisco Ferreira puxa aqui a brasa para a sardinha da região em falta nesta equação, o Baixo Corgo (BC). A sua Quinta do Vallado está acima da foz do rio Corgo, mas a quinta está ainda no BC, no seu limite superior. Em todas as regiões há coisas muito boas, e outras muito más, vários factores, como castas, altitudes, exposições solares, solos. Na Quinta do Orgal, no DS, a exposição é sul, logo os vinhos são muito concentrados, bem maduros, com menos acidez. No BC as vinhas expostas a sul dão vinhos melhores.
Segundo Francisco, não se pode falar numa “pior região” entre BC e DS, todas conseguem fazer vinhos com consistência, mas a vantagem de ter vinhas nas duas é que, em especial em anos extremados, consegue-se ter sempre um lote final de vinho equilibrado. No DS, nos anos quentes com ondas de calor prolongadas pode haver vinhos mais sobre-maduros, licorados, compotados, tal como em anos muito chuvosos e frios há vinhas que no BC não atingem o seu potencial, e as uvas não amadurecem bem. Nos anos normais, que são 80%, há vinhos excelentes nas duas sub-regiões, basta colher na altura certa para conseguir equilíbrio. No BC os vinhos são mais frescos e elegantes, com mais fruta vermelha, mais longos. No DS os vinhos são mais concentrados, com mais fruta preta, são mais gulosos. As castas que se adaptam melhor são o Sousão no BC e a Touriga Franca no DS. A Touriga Nacional é fantástica nos dois sítios, embora origine vinhos bem diferentes. As melhores exposições no DS são a Norte, enquanto no BC são a Poente ou Sul.
À medida que os vinhos Douro DOC vão construindo a sua aura, vai-se percebendo que a região se redefine
O Quinta do Vallado Reserva Field Blend tem origem em vinhas muito velhas, com cerca de 100 anos, e muitas castas diferentes, onde predominam a Tinta Roriz, a Tinta Amarela, a Touriga Franca e a Tinta Barroca. O vinho estagia em barrica nova (60%) e usada (40%) e procura um estilo não muito fácil e óbvio, com a fruta menos evidente, com mais complexidade e mistério. É importante que possa ser bebido jovem, mas que tenha ainda assim boa capacidade de envelhecimento, tal como é importante o seu equilíbrio, tem que ter potência e estrutura, mas com frescura e leveza. Já o Vallado Quinta do Orgal apresenta um estilo mais guloso, potente mas acessível desde cedo. O 2014 é o primeiro e leva 55% de Touriga Nacional, 40% de Touriga Franca e 5% de Sousão, de uma vinha nova. Vai a barricas de terceiro ano de uso. No futuro, Francisco vai tentar um estilo mais concentrado, para guarda.
Madureira
Luciano Madureira descreveu-me os projectos da Rozès no CC e DS. Douro Superior aqui é rio acima mesmo, já que os DS da Rozès vêm de Freixo de Espada à Cinta, já junto à fronteira espanhola. Na sua Quinta do Grifo o clima é mais rigoroso, há muito calor, uma altitude inferior a 250m, as videiras têm que fazer um grande esforço para cumprir a sua missão, apesar de haver rega disponível. Esta quinta tem 140ha, foi comprada cerca de 2003, e vê-se uma grande melhoria do potencial das vinhas desde há 5 ou 6 anos. Há vinhas velhas e talhões com Touriga Nacional, Touriga Franca, Sousão e Tinto Cão. O Sousão é fundamental para corrigir a acidez do lote final.
Já a Quinta do Pégo, com 30ha, fica junto ao Pinhão, onde o clima é mais fresco, e os vinhos têm pH mais baixo. Há vinhas velhas com ênfase na Tinta Amarela e Rufete, e também muita Touriga Nacional já com idade. O Quinta do Pégo é um vinho maduro, intenso e encorpado, mas com boa leveza. Em relação ao Grifo, é mais leve e fresco, muito equilibrado e apelativo. Mas como ambos são aprovados como Grande Reserva, têm também que ter extracto, matéria. O lote é feito a partir das vendas, numa filosofia de crescimento sustentável. O Pégo GR faz assim 10 mil litros, enquanto o Grifo GR faz 5 mil. Um e outro são feitos 75% em lagar, e passam por barricas de 300l de carvalho francês, 50% novas, durante 12 a 18 meses.
Moreira
Jorge Moreira espalha a sua actividade por várias empresas, com vinhas em vários locais, rio abaixo e rio acima. Focamo-nos para já nos vinhos brancos. O La Rosa Reserva vem de uvas da zona de Pombal do Norte e de zonas altas (500m) junto ao Pinhão. É, assim, um Cima Corgo. A base do vinho é Rabigato e Síria (antiga Códega), fermentado em madeira (30% nova), e Arinto e Gouveio em madeira usada. As uvas têm características diferentes, é preciso avançar com prudência. São prensadas, maceradas, com uma extracção que permita a maior complexidade possível, mas também o maior equilíbrio possível ao mesmo tempo.
O ano de 2015 mostrou um vinho muito atraente e bonito, fácil de gostar. Usualmente as vinhas têm muito pouca produção, dando mostos muito concentrados, com grande carga fenólica, difíceis em jovens. Não houve stress hídrico e os vinhos resultaram macios, com boa acidez, florais. Ou seja, com a mesma acidez, em 2015 os vinhos têm um ponto acima de maturação, o que lhes dá esse apelo imediato. Para Jorge esta é a característica do ano, mas foi a primeira vez que lhe aconteceu, o que não lhe permite prever a evolução dos vinhos. Este La Rosa tem expressão e beleza, pode ser bebido desde já, mas prevê-se que melhore durante 10 anos.
Já o Passagem é feito com uvas do Douro Superior, Quinta das Bandeiras, a 400m de altitude. As uvas vêm de vinhas velhas, de onde as brancas são separadas, e ainda Códega, Malvasia Fina, Viosinho e Rabigato. Aconteceu o mesmo fenómeno em 2015, pelo que as uvas foram desengaçadas e fermentadas como um tinto, dois dias com as películas. Depois foram prensadas e terminam a fermentação em madeira usada. A ideia é trabalhar a parte fenólica, extrair fenóis durante a fermentação, usar muita bâtonnage, focar na estrutura para ultrapassar a vinha “pouco interessante”. 2015 deu um vinho onde a beleza aromática se sobrepõe ao resto.
Em suma, no La Rosa temos expressão, complexidade, um vinho impositivo, enquanto no Passagem temos austeridade, estrutura, componentes fenólicas, pensando numa maior evolução em garrafa. Nos tintos, a ideia é ter no DS intensidade, concentração, densidade, sedução, expressão de beleza, enquanto no CC Jorge procura maior complexidade e estrutura, mais comprimento, uma boa componente aromática e de sabores, é mais pensado para crescer em garrafa. Como enólogo, Jorge procura sempre a frescura, mas não à custa do carácter do Douro.
Dar aos remos
Fecho esta pequena viagem, onde tentei entender o que une e o que divide as sub-regiões mais emblemáticas do Douro. Se no Cima Corgo a tradição era de Porto, foi no Douro Superior que muitos grandes tintos nasceram. O Douro Superior talvez tenha uma ligeira vantagem de não ter o Porto a fazer tanta pressão para levar as melhores uvas. Por outro lado, o Cima Corgo tem vinhas mais velhas, maiores tradições vitícolas, talvez um pouco mais de diversidade de terroirs. Mas o Douro Superior tem também muitos terroirs diversos, incluindo altitudes maiores e climas mais extremados. Este é um sistema de equações que se explora e resolve com muito agrado.