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Revolução na Terceira

By 31 de Julho, 2017 Sem comentários

A ilha Terceira está a começar uma pequena revolução na sua vitivinicultura. A “culpa” é da Adega Cooperativa dos Biscoitos, com o auxílio da Anselmo Mendes Vinhos. Os primeiros vinhos já aí estão…

 

TEXTO António Falcão NOTAS DE PROVA Nuno de Oliveira Garcia FOTOS Paulo Mendonça e António Falcão

QUANDO se fala de vinhos dos Açores, vem logo à memória a ilha do Pico, de longe a mais vitivinícola do arquipélago. Mas, 150 quilómetros a noroeste, na ilha Terceira, existe uma mancha de vinha que é região demarcada. Trata-se dos Biscoitos, e o único operador – com algum tamanho – é a Adega Cooperativa local. O “algum tamanho” tem que ser tomado com uma pitada de sal. No total estamos a falar de uma área com cerca de 20 hectares, muito pro­vavelmente a Denominação de Origem mais pequena de Portugal (salvo Carcavelos, para licorosos) e certamente uma das mais pequenas da Europa.

Afastada dos centros de conhecimento da moderna vi­tivinicultura e dos circuitos de comercialização, a adega precisava de um novo impulso. Recorreu então a Anselmo Mendes para dar uma ajuda e o enólogo (e sua equipa) estiveram por lá no inicio desta década. Por uma ou ou­tra razão só saiu um vinho com orientação de Anselmo (colheita de 2011) e depois a ligação esmoreceu. No ano passado foi mais do que revitalizada: Anselmo e o enólo­go Diogo Lopes (da sua equipa) assinaram uma parceria com a Adega dos Biscoitos e ficaram com a toda a res­ponsabilidade dos vinhos da empresa, incluindo a comer­cialização.

O maior problema era combater o abandono da vinha, estimulado por razões económicas: sem recursos finan­ceiros, a adega pagava muito pouco e tarde. Por isso, uma das primeiras medidas da nova equipa foi a de esta­belecer o preço de €1,85 por quilo de uva, um dos me­lhores preços a nível nacional. A uva mais cobiçada é da casta Verdelho, a mais nobre. Dos 20 hectares da região, existem apenas quase 4 ha de Verdelho. O restante em produção fica-se por algumas cepas de Arinto e uma mul­tiplicidade de outras castas, quase residuais, e ainda uns bons 5 hectares de castas tintas, para o chamado ‘vinho de cheiro’, enologicamente pouco interessante e que a Anselmo Mendes Vinhos nem comercializa. O aumento do preço da uva vai fomentar a conversão de algumas destas vinhas em Verdelho.

Um terceiro objectivo a alcançar é o de recuperar a área perdida (cerca de 11 hectares) para o matagal que cresceu onde estava a vinha. Em poucos anos as “faias” (como aqui se chama), tomam conta da área de vinha abandona­da. Nuno Costa, da Direcção Geral do Desenvolvimento Rural, explica que, por baixo da pedra vulcânica, o solo é fértil. E o clima sub-tropical fez o resto…

Viticultura heróica
Com o Atlântico a escassas centenas de metros, o am­biente extremamente húmido obriga a cuidados extre­mos. Primeiro na protecção às videiras, que estão coloca­das nas chamadas curraletas (ou currais). São, no fundo, minúsculas parcelas geminadas, cada uma com alguns pés de videira, protegidas por muros de pedra vulcânica. Esta ‘paisagem protegida’ tem outra vantagem: os muros de pedra funcionam quase como uma estufa, acumulan­do o calor durante o dia, e dissipando esse calor lenta­mente ao longo da noite. O presidente da Adega dos Biscoitos, Paulo Mendonça, disse-nos que a diferença de temperatura é enorme para a terra circundante às currale­tas. O que se ganha? Sobretudo maturação, que é acele­rada. As vindimas costumam ocorrer durante Setembro. Se a vinha estivesse fora deste ambiente protegido, a uva nem amadurecia o suficiente para ser enologicamente re­levante (existem estudos que o comprovam). E as chuvas de Setembro encarregavam-se de destruir o que restasse do Verdelho, que vai ficando com a película tão fina que é quase transparente…

Historicamente, esta disposição do terreno tem centenas de anos e os antigos sabiam o que faziam. Só as terras com maior densidade de pedra vulcânica à superfície eram destinadas à vinha. Por outro lado, esta zona dos Biscoitos é das menos húmidas da Terceira. Existe, con­tudo, muita água no subsolo, proveniente do escorrimen­to das montanhas adjacentes. As restantes terras, mais férteis e fáceis de trabalhar, eram destinadas aos cereais. Hoje, por questões económicas, estão sobretudo em pastagem para as vacas leiteiras, provocando uma quase monocultura do leite e seus derivados. Mas todas estão também separadas por muros de pedra – afinal, havia que dar destino à pedra de lava que as montanhas tinham lan­çado milénios atrás.

O vinho (ou a aguardente) era fundamental há séculos porque, ao contrário da água, não transmitia doenças nas longas viagens marítimas. Os marinheiros bebiam vinho porque tinham medo de adoecer a beber água putrefac­ta. Isto tudo nos foi explicado por Francisco Maduro Dias, da Confraria Verdelho dos Biscoitos. Que acrescentou: “Tudo aqui tem que ser historicamente interpretado pela relação com o mar.” E recorda que a Terceira (à semelhan­ça do que sucede com todo o arquipélago dos Açores, de resto) funcionou durante séculos como uma espécie de estação de serviço para a navegação no Atlântico.

Os vinhos
Muito haveria ainda a dizer, mas vamos aos vinhos. Quem nos guiou na vinha e adega (construção de 2008) foi Dio­go Lopes, sócio e colaborador da Anselmo Mendes Vi­nhos nesta aventura. A primeira vindima da parceria ocor­reu em 2015 e daí surgiram dois vinhos: Magma e Mu­ros de Magma. A diferença está na composição do lote e pelo estágio em madeira de carvalho francês (usada) do Muros. A intervenção enológica foi mínima: segundo Diogo Lopes, “estes vinhos são um perfeito exemplo de terroir”. Em ambos se destaca a mineralidade (água filtra­da pelas montanhas?) e uma salinidade gostosa na boca (o mar, claro). Ambos são muito gastronómicos e com um belo potencial de envelhecimento.

Os “Magmas” só agora estão a ir para o mercado e o “atraso” foi propositado. Pela sua frescura, são vinhos que agradecem o estágio em garrafa. As quantidades são exíguas (2.300 e 1.700 garrafas, respectivamente) e já estão todas com destino: metade fica nos Açores e o restante é divido por Portugal continental e pelo mercado americano. Os preços não são baratos mas, como Diogo Lopes indica, “temos que compensar os viticultores pela produção das uvas para estes vinhos de um terroir com séculos de história”.

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