GRANDE PROVA: ROSÉS A MENOS DE €15

Após tantos artigos que dedicamos aos rosés e depois de provar centenas de vinhos, chegámos finalmente à explicação a respeito da razão pela qual alguns consumidores ainda não privilegiam este tipo maravilhoso de vinho ou, pelo menos, que o relegam para segundo plano. Não, não é apenas o antigo o imaginário do rosé nacional, que […]
Após tantos artigos que dedicamos aos rosés e depois de provar centenas de vinhos, chegámos finalmente à explicação a respeito da razão pela qual alguns consumidores ainda não privilegiam este tipo maravilhoso de vinho ou, pelo menos, que o relegam para segundo plano. Não, não é apenas o antigo o imaginário do rosé nacional, que se assemelhava a uma sangria de vinho tinto, de acidez corrigida, com 10 gramas de açúcar por litro e gás carbónico. Não, não é pela fama dos rosés evoluírem mal em garrafa, pois são vários os exemplos mundiais – Viña Tondonia desde logo, mas também os clássicos de Bandol, como Domaine Tempier e Château de Pibarnon – e nacionais – Redoma, da Niepoort, Nélita, da Quinta de Lemos, ou o Reserva, da Quinta do Monte de Ouro – em que os vinhos têm uma evolução positiva em complexidade e seriedade.
E não, não é o preconceito de se tratar de vinho leve, posto que uma das principais modas atuais é precisamente tintos mais leves e abertos. E também não é que o seu consumo se deva restringir ao verão, já que o mesmo se poderia dizer dos champagnes e espumantes. A principal razão é, isso sim, o carácter residual para o qual o rosé foi relegado e que pode ser resumido numa frase dita por um amigo (que é, simultaneamente, um grande provador): “não há nada que goste num rosé que um grande branco não consiga entregar ou até superar”. Explico-me, de seguida.
Como é sabido, durante muitos anos, desde a antiguidade até há menos de um século, a cor dos vinhos era fluída e variada. Fosse por as vinhas com uva branca e tinta estarem coassociadas, fosse por fazer-se muito vinho branco com uvas tintas e sem o aperfeiçoamento da técnica aprimorada de bica aberta ou, simplesmente, por se misturar vinho branco e tinto, e tudo o mais. Até ao início do século XX não havia, portanto, nenhum tipo de preconceito quanto a tonalidades, sendo que a maior parte dos vinhos tintos tinham a famosa cor de petroleiro, de acobreados, de tão ligeiros que eram. Por sua vez, grande parte dos brancos nasciam logo carregados na cor, fosse por excesso de oxidação na vinificação, fosse apenas pela curtimenta.
Durante o século passado, com a viticultura moderna e, sobretudo, com a enologia profissional, os brancos ficaram mais claros e brilhantes, enquanto os tintos se tornaram mais concentrados e escuros. Uma das consequências trazida por esta divisão binária foi a de deportar os vinhos rosados, palhetes e claretes para uma categoria residual.
O que o vinho rosé precisa é que façamos com ele um trato, um acordo sagrado. Que nos lembraremos dele sempre que nos sentamos à mesa
Diversidade na produção
Sucede que, como já escrevemos noutras peças, a vinificação de um vinho rosé não perde em técnica ou rigor para os restantes tipos de vinho. Pelo contrário. Com efeito, a atenção na adega é permanente, desde a definição do nível ótimo de extração e prensa (de preferência, utilizando apenas o mosto lágrima) à temperatura de fermentação escolhida. Na mesma linha está a opção pela bâtonnage (agitação das borras), podendo-se eleger uma menor influência de oxigénio ou, em contrapartida, permitir alguma oxidação que ajude a proteger o vinho, contribuindo para uma maior longevidade, evitando-se aromas excessivamente frutados. Pode-se misturar parte do mosto de tinto sangrado com outra parte constituída por um rosé de bica aberta ou mosto de tinto sangrado prensado com as películas de vinho branco, sendo fermentado a posteriori, por exemplo numa pipa, com ou sem tampo, sendo que alguns dos melhores rosés nacionais fermentam, parcial ou totalmente, em barrica. Complexidade não falta, como se vê. O mesmo rigor é implementado no que respeita a castas, sendo eleitas uvas de variedades consagradas. É o caso evidente dos rosés do Douro e Dão – e até no Alentejo –, da Baga, na Bairrada, e do Moscatel Roxo, na Península de Setúbal e Palmela.
Em suma, no nosso território produzem-se excelentes rosés com recurso às mais variadas castas. No entanto, em alguns casos, são variedades menos evidentes do que as utilizadas na produção de tintos, essencialmente por serem uvas colhidas, por regra, mais cedo e, muitas vezes, sem que a maturação fenólica esteja completa.
Harmonizações aprimoradas
Mas então, para além da cor, o que mais contribuiu para o referido carácter residual para o qual foi atirado o vinho rosé? A resposta é: a ligação à gastronomia! Efetivamente, muito se escreve sobre a maridagem entre vinhos brancos e peixe, marisco, ostras e saladas. Surgiram enciclopédias que esmiuçam os segredos da harmonização de vinhos tintos com carnes vermelhas assadas, com molhos ou em tártaro. Neste frenesim binário não se evitaram erros crassos identificáveis por um palato sem vícios, como a de sugerir vinho tinto a acompanhar queijos curados ou caril picante.
Enquanto se debatia sobre combinações de sabores entre comida e vinhos, o rosé foi deixado de lado, carecendo de uma motivação ou fundamentação – quase sempre fútil – para ser consumido. A única justificação? Degustar o rosé à beira da piscina, numa festa de jardim ou num piquenique com a invocação da Provence, a famosa região do sul da França. É como se imperasse uma razão para o abrir… O impulso imponderado e, tantas vezes, espontâneo que nos leva a abrir um vinho branco nos dias quentes ou um tinto no inverno, transforma-se em reflexão profunda (quando não numa meditação filosófica) sobre se devemos ou não abrir um rosé e por que o deveremos fazer. Que falta de imaginação e que desperdício!
O que o vinho rosé precisa é que façamos com ele um trato, um acordo sagrado. Que nos lembraremos dele sempre que nos sentamos à mesa, para comer, seja pratos de carne ou peixe, ou à base de outros produtos. É o que faço em casa, onde tenho sempre um frigorífico (que não uma cave de vinhos) exclusivamente cheio de bons vinhos brancos e rosés, dispondo-os enquanto cozinho ou provo um conjunto alargado de comidas.
É o rosé a minha primeira escolha para um cremoso bacalhau à Brás, para um violento chacuti de borrego, mas também para uma elegante casquinha de caranguejo, uma paella reforçada com molejas, para um sofisticado risoto de vieiras ou um sushi exótico. Se for mais carregado na cor e no perfil (podendo até, em parte, resultar de sangria), será o meu predileto para acompanhar uns ovos rotos, um tártaro ou outro cru de boi, uma quiche de carne, uma pizza com salame picante e rúcula, uma salada de cogumelos, entre tantos outros pratos que “pediriam” mais umas quantas linhas nesta peça, com o propósito de firmar o ponto que entendo ser mais relevante.
Temos de os abrir, mais e mais, sobretudo quando Portugal tem, hoje, dezenas de rosés a um nível muito alto e que em nada ficam atrás ao que melhor se faz nos restantes países produtores (não conheço muitos rosés espanhóis ou italianos, australianos, americanos ou argentinos que nos façam frente). Àqueles que gostam de rosés, peço que o assumam junto dos demais à mesa. A quem raramente se lembram deste tipo de vinho, memorizem que, com tantos pratos, como alguns dos mencionados atrás, é mesmo o rosé a melhor, quando não a única combinação possível à mesa!
(Artigo publicado na edição de Maio de 2026)
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Casa da Atela
Rosé - 2023 -

Arivat
Rosé - 2025 -

Altano
Rosé - 2023 -

Adega de Borba Premium
Rosé - 2024 -

Vinha da Rosa Single Vineyard
Rosé - 2025 -

Vallado
Rosé - 2025 -

Vale D. Maria
Rosé - 2024 -

Touriga Nacional em Rosé
Rosé - 2025 -

Rosé Vulcânico
Rosé - 2025 -

Rosé da Fitareta Non Millèsime Cuvée nº 10
Rosé -
ADEGA D’ARROCHA: Vital, a nobre casta

Esta história tem origem numa herança cultural com mais de 100 anos. Consta na cronologia das famílias Rato e Carlotas, da Lourinhã, isto é, está ligada, respectivamente, “ao avô João Rato, pai do meu sogro, José Paulo Rato” e “ao pai da minha sogra, Helena Alexandre”, começa por explicar Ricardo Oliveira Guimarães, CEO e responsável […]
Esta história tem origem numa herança cultural com mais de 100 anos. Consta na cronologia das famílias Rato e Carlotas, da Lourinhã, isto é, está ligada, respectivamente, “ao avô João Rato, pai do meu sogro, José Paulo Rato” e “ao pai da minha sogra, Helena Alexandre”, começa por explicar Ricardo Oliveira Guimarães, CEO e responsável pela enologia da Adega d’Arrocha, nome criado em 2019, ano da constituição da empresa e marco do início da atividade e comercialização dos vinhos. Mas já lá iremos, até porque existe o registo de um hiato no tempo, durante o qual a dificuldade agravada pela escassez de mão de obra para a execução dos trabalhos de campo e a vinificação das uvas, determina a substituição das vinhas pela plantação de hortícolas e árvores de fruto. Paralelamente, João Rato e José Paulo Rato optam por ingressar na atividade piscatória.
Mais tarde, já após a incursão mundial a bordo de grandes embarcações, José Paulo Rato decide regressar à terra natal. Em 2010, na sequência da “necessidade de recriar a ligação à viticultura, planta cerca de 1,5 hectares de vinha”, conta Ricardo Oliveira Guimarães. A Castelão é a casta eleita, a par com outra igualmente itinerante quanto o sogro, a Cabernet Sauvignon. Com a produção dos primeiros vinhos, surge a vontade de renovar a aposta na cultura da vinha e do vinho, ação que acicata a vontade de mudar de vida por parte de Ricardo Oliveira Guimarães e da mulher, Vera Alexandre Rato, filha de José Paulo Rato.
Em 2017, isto é, depois de uma década dedicada à profissão de psicólogo, ambos regressam à Lourinhã “com a vontade de criar um projeto na nossa região”. Trata-se, portanto, da Adega d’Arrocha. É uma homenagem ao Vale da Rocha, “zona onde foi plantada a primeira vinha na família. Localmente, as pessoas dizem que vão ‘Á’rrocha e não ao Vale da Arrocha”, esclarece, daí o nome.
O desejo de voltar às raízes tem uma explicação: “a família tem a capacidade de mudar muita coisa.” E o facto de ambos poderem contar com os sogros – José Paulo Rato e Helena Alexandre – também contribuiu para esta mudança. Mas, “o meu conhecimento não era suficiente para desenvolver o projeto que tinha idealizado”. Para colmatar este hiato, estudou engenharia de viticultura e enologia no Instituto Superior de Agronomia (ISA), em Lisboa.
Vinhos de uvas próprias
A Adega d’Arrocha tem Helena Alexandre e os filhos, Vera e Ricardo Rato na gerência da empresa. José Paulo Rato é o responsável pela viticultura e tem uma equipa de trabalho, enquanto Ricardo Oliveira Guimarães está inteiramente dedicado à enologia. “Estou envolvido em toda a estrutura, que vai desde o acompanhamento da área comercial ao enoturismo, passando pela certificação de vinhos, rotulagem… Acabo por estar por trás de tudo isso. É uma vida relativamente complicada em termos de tempo e disponibilidade, pois também vou para o trabalho de pai de quatro filhos, tarefa extremamente desafiante.”
Quanto à vinha, no princípio com 23 hectares, regista, atualmente, 40, dos quais se destaca a de 1970. A área total combina a aquisição de propriedades com a plantação decorrida entre 2017 e 2024. “Hoje temos cerca de 40 hectares de vinha própria, todos em produção”. Porém “todos os vinhos que não interessam para o perfil dos nossos vinhos, são vendidos a granel”, assegura.
Paralelamente, é feita uma alteração na seleção de castas. A lista de variedades brancas é constituída por Vital, Fernão Pires, Arinto, Seara Nova e Viosinho, bem como a Chardonnay, sendo, esta última uma opção em resposta ao desafio apresentado ao enólogo da Adega d’Arrocha por parte de um professor do ISA, Carlos Lopes. Castelão, Tinta Roriz, Syrah Touriga Nacional, Cabernet Sauvignon e Alicante Bouschet representam as castas tintas.
“Quando comecei o projeto, toda a família estava ainda muito ligada ao passado, com o tinto a predominar e a casta branca a ser considerada um subproduto. Tendo em conta que estamos na melhor, senão numa das melhores regiões de Portugal para produzir vinhos brancos devido à fantástica influência atlântica, que características tão especiais atribui aos nossos vinhos”, a aposta sai reforçada a favor das variedades brancas, com uma forte tendência para as tintas perderem terreno.
Porquê a Vital?
De todas as castas, a Vital é a bandeira da Adega d’Arrocha. Ricardo Oliveira Guimarães explica que a origem histórica desta variedade “está associada à região da Lourinhã” e à produção de aguardente da Lourinhã. Porém, os mais antigos advertem o enólogo da Adega d’Arrocha para a forte apetência para a oxidação por parte desta casta. Solução? “Temos de proteger as uvas desde o momento em que cortamos o cacho e o colocamos nas caixas até à altura em que entravam na adega. Durante o processo fermentativo e o processo de estágio estamos insistentemente em cima da casta, para que não haja oxidação.”
Cumpridos estes requisitos, Ricardo Oliveira Guimarães garante que o resultado se traduz em “vinhos excecionais”, graças à plasticidade da Vital, que “nos permite fazer vinhos em inox, em madeira, coisas mais diferentes em barricas da Lourinhã ou em estágios no fundo do mar”. Um dos exemplos é o Vital Reserva Especial, vinho estagiado em duas barricas de 250 litros – uma de castanheiro e uma de carvalho nacional – utilizadas em estágio de aguardente durante mais de 20 anos. “Colocamos o mosto de Vital a fermentar dentro dessas barricas, retiramos, lavamos e tornamos a colocar o vinho”. A duração do estágio foi de nove meses. “Toda a complexidade, toda a parte aromática das madeiras, do aguardentado neste vinho, deram uma nuance incrível que o torna um dos vinhos mais diferenciadores na nossa adega”, realça.
Rótulos, boas novas e mercados
Carlotas é o rótulo que estreia o portefólio vínico da d’Arrocha. Já a gama premium é designada por Adega d’Arrocha. É aqui que entram os monovarietais: Vital Reserva, Vital Grande Escolha, feito a partir da “seleção das melhores uvas, mas sem contacto com barrica, para mostrar toda a expressão da casta”; Chardonnay Reserva, Viosinho Reserva, Arinto Reserva e Fernão Pires Reserva. Todos estes vinhos Reserva são submetidos a seis meses de carvalho francês e carvalho americano. Acresce o Adega d’Arrocha Maré Arinto Vital Reserva 2021 ou o Adega d´Arrocha O Vale Grande Reserva 2021, com dois anos de estágio em barricas de carvalho francês. “Temos, neste momento, mais três vinhos tintos além deste: Carlotas Touriga Nacional e Cabernet Sauvignon 2020 sem estágio em barrica (apenas inox), Carlotas Reserva tinto 2020 e um vinho de entrada de gama Carlotas Tinto IG Lisboa 2022”. Já o Adega d´Arrocha Vestido Rosa rosé vai na segunda edição. Todos os vinhos do portefólio são elaborados “sempre e só com uvas próprias”, frisa.
A lista de referências cresce este mês de maio, com um trio de boas novas: o primeiro Grande Reserva branco do projeto – Adega d´Arrocha Maré Grande Reserva branco 2024, feito a partir das castas Viosinho, Chardonnay, Vital e Arinto, e submetido a 15 meses de estágio em barricas de carvalho francês e carvalho americano; e os primeiros monovarietais – Adega d´Arrocha Castelão Reserva tinto 2024 e Adega d´Arrocha Touriga Nacional Reserva tinto 2024. Estes dois últimos permanecem por 12 meses em barricas de carvalho francês.
Para breve, está previsto o lançamento “do primeiro espumante com duas castas, talvez não tão usuais na produção dos mesmos. Mas não vou revelar já”, avança Ricardo Oliveira Guimarães. A ligação à Adega Cooperativa da Lourinhã é, por sua vez, pretexto para o eventual desenvolvimento, “a curto-médio prazo”, da primeira aguardente.
Relativamente à exportação, desafio iniciado em 2024, a percentagem ronda os 10%. “Contudo, já temos os nossos vinhos em França, Luxemburgo, Holanda e estamos a tentar ultimar, ainda este ano, com os EUA e Brasil.”
Enoturismo: proximidade e detalhe
O ano de 2022 é marcado pela construção da adega, em Casais de Fonte de Lima, no concelho de Lourinhã, para a vindima. O edifício é concluído em 2023 e, no ano seguinte, abrem-se as portas da loja, seguindo-se a atividade de enoturismo.
Para Ricardo Oliveira Guimarães, trata-se de uma atividade de proximidade e de detalhe. Passear pelas vinhas e almoçar na Casa da Vinha, “inicialmente criada apenas para a família”, é o ponto alto das experiências desenhadas para os visitantes, que, deste modo, têm a oportunidade de contactar com a natureza, o qual se estende ao piquenique na vinha e à vindima com a família.
A casa está apta para provas e refeições para até 12 pessoas. Somem-se os almoços e jantares vínicos na adega. Arroz de tamboril e gambas, arroz de polvo, caldeirada e arroz de lagosta são as sugestões apresentadas e todas têm uma ligação ao mar, em homenagem ao passado da família Rato. São confecionados “com produtos frescos e locais”. Em última instância, recorrem ao comércio local, com a garantia de se tratarem de produtos “de altíssima qualidade”, enfatiza.
Já a sala de provas tem capacidade para 16 pessoas, por forma de Ana Germano, responsável pelo enoturismo, poder contar com a participação de todos os presentes. Há provas de três e seis vinhos, com ou sem tábuas de queijos e enchidos, e o desafio de lotear vinhos na adega.
(Artigo publicado na edição de Maio de 2026)
CARM: De Almendra para o mundo

A sub-região do Douro Superior é uma terra de extremos. Conhecido pela sua aridez e pelo calor intenso, onde o rio Douro se torna fronteira e se prepara para entrar em Portugal, tem o xisto mais duro e a paisagem mais indomável da região demarcada com o mesmo nome. É na aldeia de Almendra, rodeada […]
A sub-região do Douro Superior é uma terra de extremos. Conhecido pela sua aridez e pelo calor intenso, onde o rio Douro se torna fronteira e se prepara para entrar em Portugal, tem o xisto mais duro e a paisagem mais indomável da região demarcada com o mesmo nome. É na aldeia de Almendra, rodeada pela reserva arqueológica do Vale do Côa, que a CARM – Casa Agrícola Roboredo Madeira S.A. se afirma como um dos produtores mais consistentes e respeitados do país.
Com uma história familiar documentada desde meados do século XVII, a CARM, enquanto marca, reflete um compromisso inabalável com a qualidade e com o território. É um projeto no âmbito do qual o trabalho incide estritamente na utilização dos frutos das suas próprias terras. “Nós só trabalhamos com castas portuguesas. Desde o início. Sou totalmente apologista da defesa de Portugal e as nossas raízes”, afirma com orgulho Filipe Roboredo Madeira, proprietário da CARM, que nos conduziu pela história da empresa familiar.
Desde o início, o objetivo da família Roboredo Madeira foi claro: produzir azeites e vinhos de excelência, utilizando apenas uvas e azeitonas provenientes das suas próprias quintas. Esta filosofia de produtor-engarrafador garante o controlo total da qualidade da matéria-prima, desde a vinha até ao produto final. A empresa gere atualmente cerca de 200 hectares de vinha, 220 hectares de olival e 60 hectares de amendoal. “Esta diversificação agrícola ajuda a manter o equilíbrio ecológico e a resiliência das culturas, bem como fixar gente à terra [Almendra], que, assim, tem trabalho durante todo o ano”, sublinha António Ribeiro, enólogo residente desde 2002 e responsável pelas áreas de produção e viticultura da CARM.
O “ouro verde” de Almendra
Embora a CARM, tal como a conhecemos hoje, tenha ganho projeção nas últimas décadas, as raízes da família Roboredo Madeira mergulham no século XVII. Originários da zona de Almendra, em Vila Nova de Foz Côa, os antepassados sempre foram lavradores. Durante gerações, a atividade centrou-se na policultura mediterrânica: a vinha, o olival e o amendoal. Durante grande parte do século XX, a produção seguia o modelo tradicional do Douro Superior: as uvas de alta qualidade eram vendidas às grandes casas de Vinho do Porto e o azeite era entregue a cooperativas locais. Foi precisamente com o azeite que tudo mudou.
Filipe Roboredo Madeira estudou medicina em Itália. Aluno brilhante, acabou por nunca exercer a profissão de médico. Graças a um grupo de amigos de elite, apostou na moda e nos investimentos, vivendo uma vida de estilo e exclusividade, que o fez conhecer personalidades famosas. Um percurso que lhe deu a disciplina do bom gosto – adepto dos grandes prazeres da vida, conheceu os melhores restaurantes gourmet e, claro, os melhores vinhos. E azeites.
Quando estudava em Itália, Filipe Roboredo Madeira levava, claro está, Vinho do Porto, mas também “um azeite que cá fazíamos e que nem sequer era comercializado, a um amigo italiano. Até que um dia, esse amigo disse-nos para nunca mais o fazermos, porque o azeite era mau, uma porcaria! Não queríamos acreditar, mas de facto havia uma diferença enorme entre os azeites portugueses e os italianos. Até que o meu pai foi ter com o guru mundial dos azeites, o professor [Giuseppe] Fontanazza. Levou-lhe algumas azeitonas e perguntou-lhe o que daí poderia sair. Ele disse-lhe que poderia ser um ótimo azeite, se fosse feito como deve ser. Depois, comprámos todas as máquinas novíssimas para o lagar e arriscámos”, conta.
A dada altura, quase sem querer, o nosso anfitrião viu-se sozinho, num lagar ultra tecnológico, a comandar a primeira produção por telefone. “Foi surreal. Não havia ninguém para fazer funcionar o lagar. O técnico italiano já lá não estava e eu tinha de colocar aquelas máquinas a funcionar. Entram as azeitonas e eu a telefonar para os técnicos italianos, que, à distância, davam indicações.” Assim foi feito o primeiro azeite CARM, em 2004 e, com ele, nasceu o logotipo da marca, constituído por azeitonas e folhas de oliveira, a origem do projeto.

Celso Madeira reconverteu, em 1995, a exploração agrícola para o modo de produção biológico
O legado de Celso Madeira
A família Roboredo Madeira sempre esteve ligada à terra, à agricultura, tendo em Celso Madeira (pai de Filipe Roboredo Madeira) o grande impulsionador. Irrequieto, fez crescer o património. Às vinhas centenárias que a família possuía, o patriarca somou mais terras e mais vinha. A título de curiosidade, em 1995, procedeu à reconversão da exploração agrícola para o modo de produção biológico. A partir de então, continuou a plantar e a aprimorar a seleção de clones de castas tradicionais.
Atualmente, a família totaliza cinco propriedades. Quinta do Bispado, situada no sopé do monte Calabre, com um total de cerca de 45 hectares, apresenta solos xistosos, expostos a sul e a nascente, divididos por sete hectares de vinhas datadas de meados da década de 80 do século XX, 27 hectares de olival e 3 hectares de amendoal. A Quinta da Calabria, de 49 hectares e predominada por solos xistosos, detém 14 hectares de vinha plantados em meados da década de 80 do século passado, com as castas Touriga Nacional, Touriga Franca e Tinta Roriz; os olivais e os amendoais, de variedades autóctones (Madural os primeiros e Casanova os segundos), têm áreas de 10 e 21 hectares, respectivamente. Embora dê frutos que resultam nos melhores vinhos e azeites da CARM, a Quinta das Marvalhas, com uma área de 70 hectares, tem cerca de 28 hectares de olival e 23 hectares de amendoal, foi a eleita para a instalação do lagar de azeite e da nova adega de vinificação. A Quinta das Verdelhas, de 45 hectares, tem 14 hectares de vinha, onde estão plantadas as castas Touriga Nacional, Tinta Roriz e Touriga Franca, 17 hectares de olival centenário e cerca de 10 hectares de amendoal autóctone. A Quinta da Urze, sede da exploração agrícola que integra propriedades próximas, com um total de 190 hectares e onde as vinhas atingem, em alguns pontos, os 600 metros, possui a maioria das variedades brancas tais como Rabigato, Códega do Larinho, Arinto ou Gouveio, plantadas em solos maioritariamente de xisto, mas também de transição para granito e quartzo, as quais resultam em brancos de eleição. Ainda sobre esta última propriedade, as diferentes exposições solares, altitudes, castas e transição de solos contribuem para a criação de vinhos com perfis distintos e diferenciadores. Trata-se de uma quinta lindíssima, a qual tivemos o prazer de percorrer, lado a lado com um casal de perdizes selvagens. A título de curiosidade, sairá muito em breve o vinho “Carm Granito” precisamente para mostrar a expressão de uma parcela muito especial, uma vinha velha com castas misturadas plantada em solo de granito da Quinta da Urze. A provar em breve.

Respeito pela terra
Inspirado pelo sucesso da produção de azeite, Filipe Roboredo Madeira percebe que, nas terras do Douro Superior, esse legado de vinhas velhas e esse terroir de eleição a explorar era um tesouro impossível de ignorar. Assim, no começo do século XXI, e à boleia do sucesso obtido com a produção do “ouro verde”, a família decide apostar também na produção de vinho em nome próprio. Filipe Roboredo Madeira, cuja trajetória de vida o levou a regressar às origens (já tinhas descrito anteriormente que estudou medicina e teve uma vida folgada), para liderar este projeto com uma sensibilidade cosmopolita e, simultaneamente, um respeito religioso pela terra.
No início, as uvas eram vinificadas numa adega alugada. A enologia estava a cargo de João Silva e Sousa e o irmão de Filipe, Rui Roboredo Madeira.
O ano de 2004 marca um ponto de viragem fundamental, com a construção da adega moderna em Almendra. Mas é precisamente nessa altura da construção da adega que se dá a rutura entre Rui Roboredo Madeira e o pai. E o enólogo deixa a CARM. Seguiu-se António Braga, que acaba por sair para a Sogrape, deixando, mais uma vez, Filipe Roboredo Madeira sozinho, que tem novamente de “arregaçar as mangas” para aguentar o barco. Eis que, em 2008, surge António Magalhães Ribeiro, assumindo o papel de enólogo residente, função desempenhada até hoje. “Vivi muito tempo lá fora e não gostava de vinhos portugueses. Eram muito rústicos. Por isso, disse ao António ‘nós temos de fazer vinhos muito mais limpos, com mais acidez. Algo totalmente diferente’”, revela Filipe Roboredo Madeira.
Paralelamente, e apesar de a produção de vinhos de excelência se manter, a nova infraestrutura permitiu aliar a tecnologia de ponta ao respeito pelos métodos ancestrais, como a pisa em lagares de pedra. Destaque para a impressionante linha de frio ajustada a todas as cubas de vinificação: “esta linha de frio é fundamental para garantir o rigoroso controlo total da temperatura durante a vinificação e estágio, de modo a preservar a qualidade, consistência e estabilidade do vinho até chegar à garrafa”, explica o enólogo. António Magalhães Ribeiro também trouxe um olhar profissional no tocante à viticultura, respeito pelo terroir e o cuidado com a matéria-prima de excelência que tem ao dispor desde há aproximadamente duas décadas.
Neste momento, a empresa produz em média 1,2 milhões de garrafas, das gamas Carm Colheita (branco, tinto e rosé), Carm Reserva e Grande Reserva (ambas nas versões branco e tinto), para além dos monovarietais Rabigato, Códega do Larinho, Touriga Nacional e Gouveio e os topos de gama, Maria de Lourdes (branco e tinto), produzida em homenagem à mãe de Filipe Roboredo Madeira, e CARM CM (branco e tinto), numa ode ao patriarca Celso Madeira. Do total da produção, 70% vai para o mercado nacional, enquanto o restante é para exportação.
Tivemos oportunidade de provar estes vinhos, resultando precisos, elegantes e que mostram o terroir de onde provêm. À mesa, desfilou ainda a linha de produtos gourmet disponível no site da empresa, como os pimentos com atum, pimentos com queijo, corações de alcachofra, azeitonas em salmoura ou as pastas de azeitona e de tomate seco, entre outros petiscos que merecem igual destaque. Todos brilharam ao lado de vinhos de um Douro Superior repleto de identidade, moderno, sem perder a sua tipicidade.

(Artigo publicado na edição de maio de 2026)
Conheça os vencedores e premiados do Concurso Escolha do Mercado

Após a estreia em 2020 e com organização a cargo da Grandes Escolhas, o Concurso Escolha do Mercado, até então direcionado apenas para vinhos brancos nacionais, passou, a partir desta 7ª edição, a abranger também rosés e espumantes. O total de inscrições ultrapassou as 650 referências produzidas em Portugal, uma verdadeira maratona vínica, que obrigou […]
Após a estreia em 2020 e com organização a cargo da Grandes Escolhas, o Concurso Escolha do Mercado, até então direcionado apenas para vinhos brancos nacionais, passou, a partir desta 7ª edição, a abranger também rosés e espumantes. O total de inscrições ultrapassou as 650 referências produzidas em Portugal, uma verdadeira maratona vínica, que obrigou à ampliação do número de jurados face aos anos anteriores.
Todos os vinhos foram escrutinados na manhã do passado dia 18 de Maio, através de prova cega e pontuados exclusivamente por um painel constituído por 74 pessoas, entre profissionais do canal HoReCa, proprietários e gestores de restaurantes, lojas de vinho e wine bars, sommeliers, empresários de distribuição, compradores ou consultores de cadeias de grande retalho e empresas de catering.
As referências vínicas submetidas ao Concurso Escolha do Mercado foram avaliadas por etapas, ou seja, foram distribuídas por três faixas de preço – até €7, entre €7 e €20, e acima de €20 –valores de venda ao público em loja. A esmagadora maioria destes vinhos (mais de 80%) entraram recentemente no mercado ou serão lançados até ao verão.
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REFLEXÕES: As 12 profecias do wine guru Robert ‘Nostradamus’ Parker

Andava eu a revisitar escritos antigos quando me deparei com um trabalho que publiquei em 2004 sobre algo que deu muito que falar na época: um conjunto de 12 previsões, anunciadas com estrondo pelo então mais influente wine writer do mundo, sua sumidade Robert Parker. Mais de duas décadas depois, resulta um exercício muito interessante […]
Andava eu a revisitar escritos antigos quando me deparei com um trabalho que publiquei em 2004 sobre algo que deu muito que falar na época: um conjunto de 12 previsões, anunciadas com estrondo pelo então mais influente wine writer do mundo, sua sumidade Robert Parker. Mais de duas décadas depois, resulta um exercício muito interessante avaliar quais as que se concretizaram e as que falharam o alvo.
Fazer previsões a longo prazo num sector tão dinâmico quanto o do vinho pode ser um acto de coragem (pelo estrago no ego se falharem) ou uma acção de marketing de belo efeito e sem risco algum (porque dez anos depois ninguém se vai lembrar delas). Naquele ano de 2004, porém, o americano Robert Parker estava no zénite da sua carreira, com um poder e influência tremendos e tudo o que dissesse ficava gravado na pedra. Recordemo-nos que, mais do que um wine writer, era um verdeiro “Deus do Vinho”, objecto de veneração e vassalagem por parte de inúmeros produtores. A sua opinião era lei, condicionando o mercado durante duas décadas, desde o início dos anos 80 até ao princípio dos anos 2000. Como escrevi na altura: “É verdade que as previsões valem o que valem. Mas as previsões de Robert Parker valem certamente mais do que as dos outros. Até porque, depois de conhecidas, muitos, por esse mundo fora, se irão empenhar em torná-las realidade.”
Recordemos então, de forma abreviada e adaptada, as 12 “profecias Parker” anunciadas em 2004 com concretização prevista, o mais tardar, para 2015. Uma curiosidade: Portugal não é mencionado em nenhuma delas…
1 – “A distribuição irá sofrer uma revolução. Prevejo o total colapso do complexo sistema de distribuição ‘three-tiered’ nos USA. Acredito que, em 2015, um grande château de Bordéus, uma pequena propriedade no Piemonte ou uma adega artesanal da Califórnia poderá vender 100% da sua produção directamente a restaurantes, retalhistas e consumidores.”
Para quem não conhece, o sistema ‘three-tiered’ implica que, quem quer exportar para os USA, tem de ter um importador, que por sua vez vende a um armazenista, que por sua vez vende a um retalhista. O sistema vigora até hoje, sem alterações de maior. Previsão: errada.
2 – “A internet do vinho será dominante. Em dez anos, a Internet dominará o espaço de informação e divulgação de vinhos. Uma mais democrática gama de especialistas, consultores e até obcecados de vinho [‘nerds’] irão assumir o papel das actuais publicações especializadas.”
Em 2004, não seria difícil prever o avanço tremendo da internet neste sector. Mas, na verdade, seria impossível a Robert Parker antever duas coisas: primeiro, o papel que as redes sociais, na altura incipientes, viriam a ter; segundo, a aposta das publicações especializadas nestas e noutras ferramentas “internéticas”. Conjugando conhecimento, credibilidade e tecnologia, as publicações especializadas, a nível mundial, mantém ainda hoje a sua posição de mais fortes influenciadores. Ainda que, cada vez mais, em formato digital… Previsão: parcialmente certa.
3 – “Os vinhos de topo serão objecto de uma guerra de preços. A quantidade disponível dos grandes vinhos é finita e a sua procura vai aumentar dez vezes; por muito caros que nos pareçam agora, isso representa apenas uma fracção do que irão custar daqui a uma década. O crescente interesse pelos vinhos finos na Ásia, América do Sul, Europa de Leste e Rússia vai tornar tudo pior. O preço de uma caixa de um Bordeaux Premier Cru de um grande ano vai ultrapassar os $10.000”.
Na verdade, nos anos que se seguiram, os preços dos topos de Bordéus dispararam, e assim se mantiveram até 2011, quando atingiram o auge, ultrapassando mesmo os 10.000 dólares previstos. De então para cá, porém, a queda tem sido acentuada, ficando ao nível dos preços de 2004, o ano da previsão. Uma caixa de Château Margaux 2022 anda entre os 4000 e 4.200 dólares e o Haut-Brion do mesmo ano entre os 2.700 e os 3.100 dólares. E a tendência não é para aumentar. Previsão: parcialmente certa.
4 – “A França vai sentir um aperto. A produção local vai ser cada vez mais estratificada. Os 5% de topo vão oferecer os vinhos mais aliciantes e receber cada vez mais por eles. No entanto, a obsessão francesa pela tradição e pela manutenção do ‘status quo’ vai resultar no colapso de inúmeros produtores que não reconhecem a natureza competitiva do mercado global”.
Aqui, Robert Parker parece ter acertado em cheio. Mesmo em regiões de grande notoriedade, como Bordeaux, Bourgogne ou Sauternes, as falências são inúmeras. E nem os 5% de topo têm a vida tão facilitada como ele imaginava. Previsão: certa.
5 – “As rolhas vão saltar fora. Acredito que os vinhos vedados com rolhas de cortiça estarão em minoria em 2015. A indústria da cortiça não investiu em técnicas que previnam os problemas de vinhos contaminados com TCA. A consequência desta atitude ‘deixa andar’ serão dramáticas. Stelvin, a cápsula de rosca de eleição, será o standard para a maioria dos vinhos do mundo.”
Mais uma vez, Robert Parker não podia antever o tremendo avanço tecnológico das rolhas de micro-aglomerado de cortiça. Ou seja, a cortiça não foi substituída pela cápsula de rosca e mantém-se como o vedante de eleição para vinho. O que aconteceu foi que, a pouco a pouco, a rolha feita de micro-aglomerado de cortiça tem vindo a ganhar espaço à rolha de cortiça natural. Previsão: errada.
6 – “Espanha será a estrela. Espanha vai dar que falar. Hoje emerge como líder em qualidade e criatividade, combinando o melhor da tradição com uma filosofia de vinificação moderna. As adegas espanholas perceberam o potencial das vinhas velhas, mas não estão agarradas ao passado como tantos produtores franceses. Em 2015, as regiões mais clássicas, como Ribera del Duero e Rioja, estarão em segunda posição, atrás de regiões como Toro, Jumilla ou Priorat.”
Na verdade, Espanha continua a ser um forte país exportador, mas mais de metade é vinho vendido a granel e o preço médio é muito baixo. No que respeita a engarrafados, e ao contrário do que Parker previa, as clássicas Rioja e Ribera del Duero mantém-se no topo em valor (tal como a Catalunha, com os Cava), com Rueda e Rias Baixas a crescer (Parker não anteviu o fenómeno dos vinhos brancos…). Previsão: errada.
7 – “Malbec vai ser grande. Pelo ano 2015, a grandeza dos vinhos argentinos feitos de Malbec (uma casta que falhou no seu terroir de origem, Bordéus) será um dado adquirido. Tanto os deliciosos Malbec de baixo preço, como os mais profundos e complexos oriundos das vinhas de altitude, vão colocar esta uva, durante tanto tempo ignorada, no panteão dos vinhos mais nobres.”
Sim, Malbec é hoje uma uva conhecida no mundo inteiro, mas dentro das “castas diferentes” não se tornou mais proeminente do que a Carmenère do Chile, a Nero d’Avola da Sicília, ou a própria Grüner Veltliner da Áustria, que tanto furor fez junto dos sommeliers norte-americanos. Previsão: parcialmente certa.
8 – “A Califórnia Central Coast vai dominar a América. Os vinhos da Central Coast vão tomar o seu lugar ao lado dos famosos néctares dos vales de Napa e Sonoma. Nenhuma outra região da América demonstrou tanto progresso e potencial de grandeza quanto a Central Coast, com os seus Syrah e Grenache na zona quente e os varietais de Pinot Noir e Chardonnay na mais fresca Santa Barbara.”
Com efeito, a notoriedade de Central Coast (sobretudo Paso Robles e Santa Barbara) é hoje bem mais evidente. Mas ainda assim, continua uns bons furos abaixo do luxo de Napa Valley ou da autenticidade de Sonoma. Com menos pressão turística, a Central Coast destaca-se, sobretudo, pela “boa” relação qualidade-preço. Coloco entre aspas, porque bom preço, em vinho da California, é coisa que não existe… Previsão: errada.
9 – “A Itália do Sul vai crescer imenso. Enquanto poucos consumidores poderão pagar os profundos Barolo e Barbaresco de Piemonte (que serão objecto de procura fanática em todo o mundo), áreas como Umbria, Campania, Basilicata e as ilhas de Sicília e Sardenha, serão nomes comuns nas nossas mesas.”
Sim, é absolutamente verdade, existe uma cada vez maior procura pela Itália “descohecida”. Mas é preciso diferenciar volume de valor. Em volume, é impossível esquecer a região de Veneto, com o incontornável Prosecco, a que se juntam os Amarone de Valpolicella. Em notoriedade e preço, claramente Piemonte (Barolo e Barbaresco), mas também os chamados “supertoscanos”, vinhos que fogem às regras mais rígidas de Chianti e Brunello di Montalcino (incluem Cabernet, Merlot, por exemplo…) e que continuam a representar a maioria dos italianos de topo. Com maior crescimento em anos recentes, a Puglia e a Sicília destacam-se. Previsão: certa.
10 – “O vinho sem madeira vai ter uma audiência alargada. Com a crescente diversificação de estilos de comida e infindável paleta de sabores nos nossos pratos, haverá cada vez mais vinhos que oferecem a pureza da fruta sem a marca da madeira. Brancos crocantes e frutados, e tintos saborosos e sensuais, serão muito mais procurados em 2015 do que em 2004. A madeira manterá importância nos grandes varietais e nos vinhos de guarda, mas esses vinhos representarão uma minúscula parte do mercado”.
Se Robert Parker se referia aos vinhos de segmento médio e alto, não podia estar mais certo. A tendência é para que a barrica esteja cada vez menos presente, quando não ausente de todo. No entanto, nos vinhos brancos e tintos “de supermercado” não é bem assim, com as aparas e aduelas a fornecerem aquele saborzinho doce e abaunilhado que o cliente exige. Mas não seriam esses vinhos que lhe ocupavam a mente. Previsão: certa.
11 – “A relação qualidade/preço será valorizada. Apesar da minha previsão sobre os preços proibitivos dos grandes vinhos, vai haver mais vinhos de qualidade elevada e baixo preço do que nunca. Esta tendência será liderada pelos países europeus, ainda que a Austrália continue a ter um papel importante. No entanto, demasiados vinhos australianos são simples, frutados e sem alma. A Austrália terá de criar vinhos acessíveis e com mais carácter e interesse se quiser competir no mercado mundial daqui a dez anos”.
Das 12 “profecias Parker”, esta será, provavelmente, a que acertou mais no centro do alvo. Tudo o que foi dito se cumpriu. Os países europeus lideram na relação qualidade-preço (seguidos de Chile, Argentina ou África do Sul), e a Austrália caiu no mercado norte-americano (e não só), só agora começando a recuperar, com maior aposta no segmento superior. Previsão: certa.
12 – “Diversidade será a palavra-chave. Em 2015, o mundo do vinho será ainda mais diverso. Vamos ver vinhos de qualidade de países inesperados, como Bulgária, Roménia, Rússia, México, China, Japão, Líbano, Turquia e, quem sabe, da Índia. Mas acredito que mesmo com todos estes novos produtores, o ponto de saturação não será atingido, dado que uma parte cada vez maior da população mundial vai eleger o vinho como a sua bebida alcoólica de referência”.
É verdade que se faz vinho em muitos locais insuspeitos (Parker esqueceu o mais evidente e bem-sucedido, Inglaterra), ainda que com presença residual no mercado mundial. Mas onde a previsão falha mais estrondosamente é quando aponta o crescimento contínuo e imparável do mercado. Infelizmente para todos os países produtores, Portugal incluído, cada vez se bebe menos vinho. Previsão: errada.
Luís Lopes
Favas, lampreia e outras perplexidades

A história da alimentação humana está cheia de casos particulares, em que da abundância se passa à míngua, e da míngua à excentricidade. Estamos em época de favas e a leguminosa não tarda está ao rubro. Mas no tocante à ligação feliz com vinhos, deixa muito a desejar, ou simplesmente se deixa cair, mediante as […]
A história da alimentação humana está cheia de casos particulares, em que da abundância se passa à míngua, e da míngua à excentricidade. Estamos em época de favas e a leguminosa não tarda está ao rubro. Mas no tocante à ligação feliz com vinhos, deixa muito a desejar, ou simplesmente se deixa cair, mediante as dificuldades do processo. Porém, como sempre, há muitas voltas positivas a dar. Igualmente dececionante é a lampreia, cuja época está agora a chegar ao fim e que nunca foi consensual. Importa refletir e provar, para criar soluções favoráveis.
Vamos à fava?
A maioria das experiências de harmonização vínica de pratos de favas é mal sucedida. Leguminosa da família fabaceae, a fava – vicia faba – é rica em fibras. Ferro, magnésio e potássio tornam-na numa das mais eficazes fontes de nutrição. À semelhança das ervilhas e de outras leguminosas, cresce em vagens verdes e é verde que deve ser consumida. Se é jovem, a fava coze melhor e mais depressa nessa fase inicial da gestação. Mais crescida, contudo, devemos descamisá-la, porque a segunda casca contém um grupo de amargos forte e é, além disso, de muito difícil digestão. Já quando é jovem, come-se crua em saladas frias e pode cozer-se inteira; a digestibilidade é perfeita. Cozida, no entanto, é sempre melhor para o nosso aparelho digestivo do que crua.
Em termos gerais de nutrição, é a segunda leguminosa mais forte. Só perde para o grão de bico. Mas sozinha é, no mínimo, desafiante, quando se trata de ligar com vinho. Se fizer a experiência em cru, vai reparar que o vinho – seja qual for – não interage sequer com a fava verde. Passa pelo processo como se ignorasse a presença de um alimento que a desafiasse.
A forma de a cozinhar faz toda a diferença, e consegue-se obter pratos de grande equilíbrio e digestibilidade. Os pormenores da idade e criação da nossa amiga fava variam muito, de caso para caso. Certo é que sozinha, apenas cozida e comida isoladamente, pouco prazer dá. Há qualquer coisa de instintivo que nos pede um pouco mais, para se distinguir como iguaria autónoma. Precisa, em particular, de acidez e gordura, para preencher os mínimos de umami. Chegando à fórmula certa, a viagem é interminável. Tudo fica certo e no lugar certo. Deve, por isso, repousar num estrugido de cebola ou alho, a forma mais canónica de pronunciar a acidez numa leguminosa.
Já sobre a gordura utilizada, as opções variam e estão relacionadas com o fim a que se destina o nosso cozinhado. Não consigo, nesta batalha específica, dispensar a banha de porco. Tenho sempre no frigorífico alguns boiões desta maravilha de origem animal, que produzo eu próprio a partir de redenho da matança, quando viso produzir torresmos. A manteiga clarificada, ou ghee, é delícia equivalente, de charme e sabor mais que apropriados. Temos também o azeite, que validamos sempre, mas introduz sabor, o que nem sempre é conveniente. Conversa longa com um budista oficiante na cozinha levou-me a fazer experiências diversas com a manteiga clarificada, mas em matéria de favas, quem me tira a banha, tira-me tudo. Mesmo o azeite virgem extra não me leva ao patamar de sabor de que preciso para casar as favas com proteína animal que seja inteiramente satisfatória.
Favas com chouriço. Se dispomos de um bom chouriço, os ventos são outros. Nessa altura, o que devemos fazer é sacrificar o enchido em finas rodelas, para dele extrair primeiro a gordura nele contida por força da sã fabricação. Aí, tudo muda de figura e ouvimos as favas a festejar entre si, com música e aromas que nos viciam para sempre. Temos água ao lado e vamos hidratando a festa, chegamos-lhe salsa finamente picada e até os anjos se debruçam no fogão, para ver o que se passa. Aprimoramos com um pouco de vinho branco, corrigimos de sal e está feito o banquete. Vêm-me à memória as invetivas de Batista Bastos, de “vamos aí a umas favas” e é disto que me lembro. Com um copo do mesmo vinho branco utilizado, está o assunto encerrado. Coisas da vida bela. Tem, contudo, de ser o mesmo vinho. Se, por acaso, optamos por um tinto, a ligação é grosseira e infeliz.
Arroz de favas. Regressamos ao ponto do estrugido e, com uma cebola picada em cubinhos, rapidamente temos material para pensar num arroz de favas. Estas devem ser de tamanho médio, descamisadas e têm de estar cozidas até ao ponto em que perdem a cor viçosa. Leve-as a manteiga clarificada – ou ghee – e deixe-as conviver com a cebola no sofrimento frito em caçarola, mexendo sempre. Assim garante que não caramelizam prematuramente. Chegado o momento de juntar a água na devida proporção, pique coentros finamente e envolva bem. Coloque o lume no mínimo, para garantir que a hidratação e a cozedura são ambas lentas. Genericamente, gosto de pensar num Sauvignon Blanc para o casamento feliz.
Favas com bacalhau. Coza favas inteiras e crescidas, até sentir o cheiro caraterístico, evocativo de amargos, que nos dizem que as favas estão cozidas. Coza abas de bacalhau noutro recipiente, e aromatize com azeite. Numa sertã, prepare um estrugido com cebola e azeite. Com o lume no mínimo, junte as favas e deixe envolver. Seguidamente, adicione o caldo da cozedura do bacalhau e as abas desfiadas. Apague o lume e deixe descansar por alguns minutos. Sei que esta abordagem não é muito canónica, mas funciona bem. Além disso, é muito amiga do vinho. Experimente com um Viognier de Lisboa com alguns anos. É ligação excelente e é inesquecível. A goma extraída do bacalhau vai ligar de forma genial com as favas e o sabor vai ao encontro da copiosidade do vinho. A combinação é altamente improvável, mas a safisfação é garantida. Há acontecimentos assim, felizes, na aventura do sabor português.
Favas com entrecosto. Esta é a combinação mais clássica e configura autêntico luxo popular. Eu era capaz de comer todos os dias favas com entrecosto e seguramente não seria o único. Quando o prato do dia de um restaurante é anunciado como favas, é altamente provável que o entrecosto de porco seja a proteína animal principal. À partida, diria que um vinho tinto seria a maridagem ideal, mas francamente acho que não. Precisamos de um vinho adequado para fazer o corte e, ao mesmo tempo, que seja capaz de envolver o conjunto de forma prazerosa. Um Antão Vaz do Baixo Alentejo tem sido a melhor opção para harmonizar com este exigente prato. O grau alcoólico é suficientemente elevado, para fazer devidamente frente a temperos mais arrojados, sobretudo se incluírem piripiri. Assim como se for utilizado vinagre, para temperar o prato de uma forma geral. Também é importante não servir o vinho demasiado frio.
Peixe frito com favas. Com o mapa mental certo, vamos sempre mais longe. Aconteceu, certa vez, harmonizar pescadinhas de rabo na boca com feijão verde e funcionou, mas podia ter funcionado melhor. As pescadinhas fritas ficaram um pouco desamparadas, para dizer a verdade. O feijão verde esmorecia no contacto com a pele frita e, na mastigação, o sabor do peixe perdia-se completamente. Prova igualmente incapaz aconteceu com arroz, que como se esperava adoçou o conjunto. O simples grão de arroz contém muitos mistérios, de facto. Foi então que experimentei harmonizar peixe frito com favas e o sucesso foi total. Para cimentar a nova ligação, experimentei vários vinhos brancos, de norte a sul do país, mas sem qualquer sucesso. Mas quando fiz a experiência de um Alfrocheiro do Dão, o êxito foi total. Temos o privilégio de dispor de um país vitivinícola fantástico. Há sempre o vinho certo para o momento certo. E, em cima da grande novidade, os impressionantes cambiantes de que a fava é capaz.
Perdiz com puré de favas. Aqui está uma salutar e muito bem-vinda alternativa ao vezeiro puré de batata. Continuo a ser fã e será sempre um dos mais felizes complementos de bons pratos de caça. Todavia, na época delas, que é a que atravessamos nesta altura, abre talvez mais portas à criatividade. Gosto muito de fazer a perdiz em duas cozeduras, o peito assado e as coxas estufadas. Costumo fazer gratin dauphinois para acompanhar, mas tenho-me rendido aos encantos de um puré de favas novas com hortelã. Além de aligeirar, o conjunto deixa marca muito mais profunda no palato. Curioso é que, em matéria vínica, pede vinhos mais elegantes do que no caso da batata. Um Jaen do Dão tem sido parceiro fiel. Confesso que não explorei mais possibilidades, mas claro que as possibilidades são diversas. Isto fez-me experimentar a empada de perdiz também com favas e resultou muito bem. Ainda bem que em casa fazemos o que queremos e como queremos, e nesse sentido ainda bem que tive sempre o bom senso de não enveredar pela cozinha profissional. Seria como matar uma grande paixão.
Cuscos de Vinhais com favas e salpicão. Gosto muito de cuscos de Vinhais e estão sempre na minha gaveta funda da cozinha de todos os dias. Além de grandes amigos do vinho, são também muito nossos amigos. O balanço de granularidade e capacidade de absorção de caldo é único, pelo que permite este ensaio repetidas vezes. O salpicão transmontano é peça nobre do fumeiro nacional e, felizmente, cresci a apreciá-lo desde muito novo. Suado com um pouco de manteiga clarificada, o entrosamento com os cuscos é total e as favas são o elemento vital de ligação. Feitas em cebolada, avivam tudo ainda mais. Funciona muito bem, neste caso, um tinto jovem de Valpaços ou Sonim. Ligeiramente frio, para não dominar demasiado o conjunto. E assim se revela o grande poder e flexibilidade das nossas amigas favas. E assim se amansa o preconceito.
A caprichosa lampreia
É esguia, feia e canibaliza todo o peixe que pode, sugando-lhe o sangue. Nesta altura, já não há mais nas frias e adequadas águas do rio Minho, nos cocurutos do país. Há, contudo, que lhe atribuir os louros da iguaria que mais divide os portugueses. Começo por um louvor a um casal de empreendedores de mão cheia que criaram a Karapau. O que é? É uma empresa que disponibiliza lampreia limpa e marinada, pronta a cozinhar em casa. Fátima Campos e Emanuel Bettencourt criaram muito mais do que uma marca. Tive o privilégio de provar a lampreia da Karapau e, na hora de a levar à mesa, juntar-lhe arroz carolino do bom. Coloquei um pouco mais de vinagre e ficou deliciosa. Maridei com um Sousão – o mesmo é dizer Vinhão – muito especial do Douro e foi o céu. Penso que os mais arredios da lampreia juntam parte forte de emoção negativa ao momento da prova. Ou porque leva sangue, ou talvez porque o peixe – sim, lampreia é peixe – é feio e repelente, limitam-se a dizer “não quero”, sem mais. E sem terem a noção de que estamos perante um autêntico totem da gastronomia nacional. A abordagem da Karapau é notável a todos os títulos, sobretudo dois: por um lado, elimina radicalmente o preconceito em relação à lampreia, por outro lado, democratiza o pobre animal, aproximando-o dos mais arredios e até das crianças.
Bordalesa é como em Bordéus. Já converti muitos à espécie de cobra irrequieta que é a lampreia. Por cá, interpretamos a ‘bordalesa’ como estufado em vinho tinto, o que não está inteiramente errado, mas também não está correto. Temos de ter em conta que a manteiga e o alho francês são a base da técnica bordalesa, e em quantidade copiosa, diga-se. Duas lampreias de metro para cinco talos de alho francês e meio quilo de manteiga, são as proporções aproximadas para a cozedura correta à bordalesa. E, em cima disso, uma garrafa de vinho tinto e muito amor, com o devido e merecido golpe de vinagre a finalizar a cozedura. Meia hora a fervilhar e está pronta a lampreia, que está longe de merecer os maus pensamentos que os detratores desta grande delícia nutrem por ela. Além disso, um bom escabeche de lampreia é manjar de deuses, e muito estável no tempo. Bem embalada em frascos herméticos e sem oxigénio disponível, pode durar meses, o que garante o prazer muito prolongado.
(Artigo publicado na edição de Maio de 2026)
Sabe quais são os melhores vinhos e Azeites do Douro Superior?

O 13º Festival do Vinho do Douro Superior, organizado pelo Município de Vila Nova de Foz Côa e produzido pela Grande Escolhas, recebeu, ao longo de três dias, em Vila Nova de Foz Côa, a presença de cerca de 6000 visitantes. O evento teve lugar no centro de exposições Expocôa e comprovou, uma vez mais, […]
O 13º Festival do Vinho do Douro Superior, organizado pelo Município de Vila Nova de Foz Côa e produzido pela Grande Escolhas, recebeu, ao longo de três dias, em Vila Nova de Foz Côa, a presença de cerca de 6000 visitantes. O evento teve lugar no centro de exposições Expocôa e comprovou, uma vez mais, a suma importância que possui no universo vitivinícola, testemunhando, novamente, a elevada qualidade dos vinhos produzidos na referida sub-região do Douro.
Sem mais delongas, impera o destaque do habitual Concurso de Vinhos do Douro Superior, cujo objectivo consiste em eleger o melhor nas categorias de vinhos brancos, tintos e vinhos do Porto, bem como atribuir as medalhas de ouro e prata. “O Concurso de Vinhos do Douro Superior tem a particularidade de ser o único centrado exclusivamente nos vinhos desta sub-região do Douro. Os membros do júri, cerca de 20 provadores, entre críticos de vinho e profissionais do retalho especializado, tiveram, assim, uma visão muito alargada sobre a realidade do Douro Superior”, elucida Luís Lopes, crítico de vinhos e coordenador de provas da Revista Grandes Escolhas. Neste contexto, foram avaliadas, em prova cega, 181 amostras.
De acordo com o resultado deste 13º Concurso de Vinhos do Douro Superior, houve três referências vínicas que arrecadaram o prémio de “Melhor Vinho do Douro Superior 2026”: o CARM Gouveio 2023, da CARM, nos brancos, o Rasga Grande Reserva 2022, do produtor Artur Rodrigues, nos tintos, e o Burmester Porto Tawny 30 anos, da Kopke Group, nos fortificados. A respeito das demais distinções, foram atribuídas 67 medalhas: sete de ouro e 15 de prata, nos brancos; 13 de ouro e 24 de prata, nos tintos; e duas de ouro e seis de prata, nos fortificados (ver lista completa no final).
Durante o festival, vários foram os que tiveram a oportunidade de conhecer e trocar impressões sobre os vinhos disponíveis para prova nos 77 expositores instalados no interior do recinto do Expocôa. Sem esquecer os 17 stands reservados a produtos regionais, entre amêndoas, mel, compotas e doces, doçaria, além de produtos cosméticos feitos a partir de matéria-prima produzida na região e do azeite.
O papel preponderante que o azeite tem vindo a conquistar no mercado foi, por sua vez, o mote para a criação do 1º Concurso de Azeite do Douro Superior, o qual foi conduzido por Francisco Pavão, Presidente da APPITAD – Associação de Agricultores de Portugal e grande conhecedor desta matéria. Inscritos estiveram 39 azeites de 25 produtores aferidos por 11 jurados, que foram aferidos por um painel de jurados qualificado para o efeito. Neste contexto, ficou o registo de dois vencedores na categoria de “Melhor Azeite”: Quinta Vale de Carvalho, do produtor Pedro Luís Morgado Correia, e o Acushla Gold Edition, da Acushla. Distribuídas foram, ainda, quatro medalhas de ouro, sete de prata e duas de bronze (ver lista completa no final).
Em jeito de resumo, João Albino, Director de Eventos da Grandes Escolhas, declara: “o Festival do Vinho do Douro Superior tornou-se um dos exemplos mais relevantes do calendário anual dos vinhos em Portugal. Face ao ano anterior, teve mais produtores, mais gente e mais vinhos a concurso. É um evento que representa o que de melhor esta sub-região produz. O território tem um terroir próprio, tem massa crítica, e quem visita o evento testemunha isso mesmo.”
Vinho e azeite também foram as palavras-chave de três provas de vinhos comentadas por dois críticos de vinhos da Revista Grandes Escolhas. A primeira aconteceu após a inauguração da do festival, protagonizada por Pedro Duarte, Presidente do Município, o anfitrião do Primeiro-Ministro, Luís Montenegro, que marcou igualmente presença no evento, com Paulo Pimenta a mostrar a diversidade dos “Grandes Tintos do Douro Superior” e o legado da região, o “Vinho do Porto”. Já Rui Caroço dos Santos selecionou os “Grandes Brancos do Douro Superior”, para tema de conversa. No alinhamento do 1º Concurso de Azeites, houve espaço para aprimorar o conhecimento sobre esta matéria na prova comentada “Azeites do Douro Superior e Trás-os-Montes”, liderada por Francisco Pavão.
Uma reportagem mais alargada poderá ser lida na edição de Julho, da Revista Grandes Escolhas.
13º Concurso de Vinhos do Douro Superior
Melhores Vinhos do Douro Superior 2026
Branco
CARM Gouveio 2023 (CARM)
Tinto
Rasga Grande Reserva 2022 (Artur Rodrigues)
Fortificado
Burmester Porto Tawny 30 anos (Kopke Group)
Brancos
Medalha de Ouro
Casa Agrícola Rebelo Afonso 2025 (Casa Agrícola Rebelo Afonso)
Crasto Superior 2024 (Quinta do Crasto)
Duorum Vinha dos Muros 2025 (Dourum Vinhos)
Eremitas Paulo de Tebas 2021 (Ameztoy & Almeida)
Fonte Cerdeira 2024 (João Damas)
Fraga Alta 2024 (Maria Lucinda Todo Bom Cardoso)
Os Xistos Altos 2022 (Muxagat Vinhos)
Medalha de Prata
Cadão PM Vinhas Velhas 2024, Mateus & Sequeira Vinhos
Graça Donzelinho & Samarrinho 2023, Vinilourenço
EspadaCinta Reserva 2024, EspadaCinta Vinhos
Mimu’s Reserva Rabigato 2024, Quinta do Gravançal
Quinta da Bulfata Alvarinho Reserva 2024, Quinta da Bulfata
Quinta da Terrincha Reserva 2025, Quinta da Terrincha
Selores Selection 2024, Viniselores
Sem Abrigo Grande Reserva 2023, Physis Wines
Senhor Abel Reserva 2023, Falhas Vineyards
Socalcos do Côa Reserva 2022, Segredos do Côa
Soulmate Lote Francisco Duarte Grande Reserva 2021, Cortes do Tua
Terras do Grifo Grande Reserva 2021, Rozès
Usufrui 2023, Recantos do Vinho
Villarôco Reserva 2021, José Carlos Pereira Côrte Real
Vinha Corceira Reserva 2024, NR Winery
Tintos
Medalha de Ouro
CARM Touriga Nacional 2021 (CARM)
Cortes do Reguengo Reserva 2020 (Vinaze – Vinhos & Azeites)
Crasto Superior 2023 (Quinta do Crasto)
Crasto Superior Syrah 2023 (Quinta do Crasto)
Duorum Reserva 2023 (Duorum Vinhos)
Montes Ermos Grande Reserva (A. C. de Freixo de Espada à Cinta)
Quinta da Extrema Reserva 2021 (Colinas do Douro Soc. Agr.)
Quinta das Mós Grande Reserva 2021 (Mikael Monteiro Cabral)
Quinta do Monte Xisto 2023 (Nicolau de Almeida)
Remisi’us Grande Reserva 2021 (Valley Company)
Socalcos do Côa Reserva 2022 (Segredos do Côa)
Terras do Grifo Grande Reserva 2019 (Rozès)
Vallado Lady Baga 2024 (Quinta do Vallado)
Medalha de Prata
40 Castas Reserva 2024 (NR Winery)
Cadão PM Vinhas Velhas 2023 (Mateus & Sequeira Vinhos)
Casa da Palmeira 2018 (Quinta de Vila Maior)
Casa d’Arrochella Quinta do Cerval 2021 (Soc. Agr. Casa d’Arrochella)
Casa Ferreirinha Quinta da Leda 2022 (Sogrape Vinhos)
Dona Berta Sousão Reserva 2022 (H&F Verdelho)
Duas Quintas Reserva 2023 (Adriano Ramos Pinto Vinhos)
Duvalley Reserva 2021 (Soc. Agr. Castro de Pena Alba)
Estrela do Peredo Reserva 2022 (Bustorff Ferreira)
Mimu’s Reserva 2022 (Quinta do Gravançal)
Mix Grape Reserva 2023 (Terraloga)
Moinhos do Côa Reserva 2023, Artur Rodrigues
Palato Touriga Nacional 2021 (5 Bagos – Soc. Agr.)
Perdigota 2023 (Caves da Quinta do Pocinho)
Quinta da Bulfata Touriga Nacional 2019 (Quinta da Bulfata)
Quinta da Ribeira Teja Reserva 2024 (Casa Agrícola Rebelo Afonso)
Quinta da Terrincha Reserva 2021 (Quinta da Terrincha)
Restrito Reserva 2022 (Restrito)
Selores Selection 2023 (Viniselores)
Sequeira Reserva 2024 (Mário Monteiro Cardoso)
Tumelo Reserva 2024 (Pedro Eduardo Carvalho Neto)
Vale da Veiga Reserva 2019 (Vale da Veiga)
Vale Marianes Reserva 2020 (Rui Saraiva Caldeira)
Vineadouro Heritage 2021 (Quinta da Vineadouro)
Fortificados
Medalha de Ouro
Cortes do Reguengo Porto Tawny 20 anos (Vinaze – Vinhos & Azeites)
Ramos Pinto Porto Branco 20 anos (Adriano Ramos Pinto Vinhos)
Medalha da Prata
Maynard’s Crusted Orgânico Porto eng. 2019 (The Wine Collection)
Nicolau de Almeida Porto Vintage 2022 (Nicolau de Almeida)
Porto Ferreira Dona Antónia Porto Tawny 10 anos (Sogrape Vinhos)
Quinta do Grifo Porto Vintage 2023 (Rozès)
Souza Dias Moscatel do Douro 2006 (Caves da Quinta do Pocinho)
Vale da Teja Porto Tawny 20 anos (Adega Coop. Vale da Teja)
1º Concurso de Azeite do Douro Superior
Vencedores na categoria Melhor Azeite 2026
Quinta Vale de Carvalho (Pedro Luís Morgado Correia)
Acushla Gold Edition (Acushla)
Medalha de Ouro
Azeite Preguiça (Catarina Miranda)
Quinta do Vale Meão (F. Olazabal & Filhos)
D’Olivier (Quinta D’Olivier)
CARM Grande Escolha (CARM)
Medalha de Prata
Montes Ermos Grande Escolha (Adega Cooperativa de Freixo de Espada à Cinta)
Ameztoy & Almeida Azeite Biológico Virgem Extra (Ameztoy & Almeida)
Essência de Ventozelo Biológico (Quinta de Ventozelo)
Quinta do Arnozelo (Kopke Group Fine Wines)
Quinta do Javali (Quinta do Javali)
Dulfar DOP Lote C5 (Dulfar – Soc. Oleícola)
Quinta de Canivães Azeite Virgem Extra (Ermelinda Vinhos Portugal)
Medalha de Bronze
Segredos do Côa – Premium Bio (Segredos do Côa)
Quinta Vale d’Aldeia Extra Biológico (Quinta Vale d’Aldeia)
QUINTA DE SÃO SEBASTIÃO: 1755 é símbolo de vinhos distintos

Há muito que não parava ali, apesar de passar à porta de vez em quando nas minhas deambulações de carro pelos arredores de Lisboa, em escapadas de um dia da grande cidade, que fazem sempre bem ao corpo e à alma. A propriedade fica a meia encosta, numa das colinas do concelho de Arruda dos […]
Há muito que não parava ali, apesar de passar à porta de vez em quando nas minhas deambulações de carro pelos arredores de Lisboa, em escapadas de um dia da grande cidade, que fazem sempre bem ao corpo e à alma. A propriedade fica a meia encosta, numa das colinas do concelho de Arruda dos Vinhos, com vista sedutora pelos campos afora e com as suas quintas e quintinhas. Neste território, pertença da região vitivinícola de Lisboa, estão a grande casa do proprietário, António Parente, os estábulos e o picadeiro dos cavalos que tanto gosta e a antiga adega, hoje garrafeira, onde permanecem algumas das suas preciosidades. Foi lá que decorreu a apresentação dos primeiros dois vinhos da 1755, a nova gama da Quinta de São Sebastião.
Data histórica
Trata-se, como é do conhecimento de muitos portugueses, da data histórica do grande terramoto que assolou Lisboa, seguido de maremoto (ou tsunami, na versão japonesa, como os apresentadores das nossas televisões o gostam de apelidar) que ceifou muitos milhares de vidas da cidade e não só. Do lado positivo, deu impulso à reconstrução da urbe, de forma mais organizada, como se pode ver hoje na baixa pombalina, e ao uso de métodos de construção antissísmica padronizados e inovadores, usados durante os 100 anos seguintes e que, ainda hoje, existem em alguns dos edifícios mais antigos.
Paralelamente, o ano de 1755 data a criação da Quinta de São Sebastião, propriedade histórica do concelho de Arruda dos Vinhos. “Desde a sua fundação, tem estado associada a alguns momentos históricos da região e também ao poder local, à igreja e a serviços militares, pois estamos inseridos nas Linhas de Torres e o forte de S. Sebastião da Arruda, ou do Cego, que fica por cima da propriedade e defendia o vale de Arruda, prova isso”, apresenta Filipe Sevinate Pinto, enólogo na casa desde 2011.
A nova gama ostenta uma imagem alusiva ao terramoto de 1755 e engloba um produto fora da caixa da Quinta de São Sebastião
Uvas de exposições e altitudes diversas
Original de Viana do Castelo, o proprietário, António Parente, vive nela há cerca de 40 anos. Desde essa altura, “pretendeu contribuir para dinamizar a região em várias áreas, sobretudo uma que lhe era muito cara, a da vitivinicultura”, esclarece o enólogo. Por isso, o projecto que começou a desenvolver passou pela privatização da Adega Cooperativa de Arruda dos Vinhos, na altura a atravessar momentos difíceis, e foi evoluindo por um caminho que, através do alargamento da produção e da venda dos vinhos apenas da Quinta de São Sebastião, evoluiu para um negócio muito mais vasto. “Representava, há 15 anos, cerca de 80 mil garrafas de vinho e, hoje, é um projecto internacional, que vende para mais de 50 países e absorve, não só as uvas da propriedade, como as de outras parcelas que foram sendo adquiridas e incorporadas num negócio que tem, hoje, um total de 45 hectares de vinhas próprias”, informa Filipe Sevinate Pinto, acrescentando que “os 200 hectares de outros viticultores da região contribuem para enriquecer um projecto que tem uvas de diversas origens, com altitudes e exposições diferentes”.
Dois tintos sedutores
Os vinhos da nova gama 1755, lançados este ano, pretendem dar espaço ao que a empresa produz e não tem enquadramento nas suas outras referências, “que são muito definidas e apresentam alguma maturidade no mercado”, explica o enólogo. São 14 marcas, entre as quais destacam-se Quinta de S. Sebastião, S. Sebastião, Forte de S. Sebastião ou Fonte das Setas. Saliento a QSS Rare, que “inclui vinhos mais modernos, e tem tido grande sucesso nos Estados Unidos”, porque parte das receitas das vendas reverte para a Liga para a Protecção da Natureza, Organização Não Governamental de Ambiente (ONGA) de âmbito nacional, fundada em 1948. É hoje a associação mais antiga do género da Península Ibérica. Portanto, não é de estranhar que os vinhos desta gama tenham, no rótulo, imagens de espécies em perigo de extinção, como o Cavalo Marinho ou o Lobo e o Lince Ibéricos.
A empresa produz e comercializa também a marca internacional Angry Duck, “um Cabernet Sauvignon que vendemos para todo o mundo”, afirma Filipe Sevinate Pinto. Segundo o enólogo, “todas as gamas da empresa estão muito definidas e, por isso, fazia sentido dar este passo para coisas que não se enquadram nelas”. Foi assim que surgiu a nova marca, que tem uma imagem enigmática, do terramoto, para englobar um produto fora da caixa produzido pela Quinta de São Sebastião. Inclui “pequenas séries, que não têm uma sequência lógica, de vinhos para comida”, que poderão ser, ou não, repetidos
As primeiras referências lançadas, um vinho da casta Castelão, “mais aberto, com 12 graus, fresco, com tensão, e um Reserva, um vinho mais quente, por ser extraído, mais concentrado, opulento, com uma fruta fresca”, foram apreciados na antiga sala da adega, com a sua garrafeira empoeirada, na companhia de comida pensada e elaborada pelo Chef de cozinha do Hotel Eva, no Algarve, Alberto Carvalho depois da visita às propriedades e às suas instalações. Dois grandes vinhos e um bom momento com a comida.
(Artigo publicado na edição de Abril de 2026)



































































