QUINTA DA VACARIA: Na margem certa do Douro

Quinta da Vacaria

A eterna discussão entre a margem esquerda e a direita de Bordéus, que apaixona enófilos por este mundo fora, e sobre qual nelas se produzem os melhores vinhos, não tem grande paralelo no Douro. Na margem esquerda do rio Garonne e do Estuário de Gironde, o solo é rico em cascalho e os vinhos são […]

A eterna discussão entre a margem esquerda e a direita de Bordéus, que apaixona enófilos por este mundo fora, e sobre qual nelas se produzem os melhores vinhos, não tem grande paralelo no Douro. Na margem esquerda do rio Garonne e do Estuário de Gironde, o solo é rico em cascalho e os vinhos são mais austeros, estruturados e potentes, com grande capacidade de guarda; são elaborados a partir da casta predominante, a Cabernet Sauvignon, logo seguida pela Merlot, sendo as principais apelações Margaux, Pauillac, Saint-Julien, Saint-Estèphe entre outras. Na Margem Direita, por seu turno, os solos são predominantemente argilo-calcários. Ali produzem-se vinhos mais macios, frutados e sedosos, talvez mais sedutores e fáceis de beber quando jovens, com a predominância das castas Merlot e Cabernet Franc. Saint-Émilion e Pomerol são, neste caso, as cabeças de cartaz.

Já a escolha entre a margem direita (Norte) e a margem esquerda (Sul) do Douro depende mais do objectivo a que nos propomos, do que propriamente por ter uma influência directa nos vinhos produzidos. Por outras palavras, a margem direita, com mais sol, é tradicionalmente mais vinícola e turística, enquanto a esquerda oferece paisagens mais rurais, históricas e íngremes. No entanto, ambas são verdadeiramente deslumbrantes.

Geralmente mais ensolarada, a margem direita, alberga muitas das quintas mais famosas da região e a zona histórica de Peso da Régua; é onde o Sol incide com mais intensidade durante o dia, factor ideal para a maturação das uvas. Além disso, é ainda marcada por afluentes importantes, como o Corgo, o Tua e o Sabor. Já a margem esquerda oferece vistas incríveis sobre a margem direita e áreas rurais muito cénicas, com declives acentuados em xisto.

À direita do rio

A Quinta da Vacaria está situada na margem direita do Rio Douro. Localizada no coração do Baixo Corgo, próximo de Peso da Régua, a propriedade estende-se na confluência dos rios Corgo e Douro e apresenta altitudes que variam entre os 50 e os 300 metros. Beneficia de um clima ameno, favorável para o desenvolvimento gradual e maturação da uva, de um solo inclinado, difícil e agreste, repleto de pedras lascadas em consequência da degradação do xisto. A parte vegetativa da videira tira partido desta rocha xistosa, já que o subsolo é permeável, permitindo que as raízes das videiras consigam encontrar, a uma grande profundidade, os nutrientes e a humidade essenciais ao vigor e à produtividade da planta. Com 42 hectares, é constituída por inúmeras parcelas de vinha. Há duas muito antigas na Vinha do Corgo e do Vale Bastardo. Ainda sobre a primeira e nas encostas suaves, estão as novas vinhas instaladas em fileiras verticais sob a técnica de “vinha ao alto”, enquanto nas encostas mais íngremes, a implantação das videiras foi feita de acordo com a técnica do chamado novo modelo de socalco. Junto à nova adega, optou-se pelo modelo de patamares estreitos de 1,5 metros, no seguimento de uma viticultura sustentável.

Planear a viticultura para o futuro é um dos objectivos traçados pela equipa desta casa, daí a necessidade de se implementar uma estratégia de reconversão do encepamento, no sentido de se seleccionar castas mais resistentes à seca e/ou às doenças resultantes das actuais condições climáticas. A viticultura sustentável regida pelas boas práticas agrícolas e em prol do ecossistema, por forma a se atingir a harmonia entre produção e território.

Quanto à enologia, esta arte está sob a responsabilidade de Jean-Hugues Gros, francês radicado no Douro desde 1999 e que dispensa apresentações, e de João Menezes. Ambos assumem o objectivo de consolidar um projecto que quer elevar o reconhecimento do Douro enquanto região vitivinícola, através das melhores práticas agrícolas e de vinificação, tendo como inspiração a diversidade deste vetusto terroir.

Mais de 400 anos de história

A Quinta da Vacaria colocou no mercado os primeiros tintos da colheita de 2022, com destaque para o Reserva tinto, com 18 mil garrafas e grandes formatos até 27 litros, e o Touriga Nacional, com 2500 garrafas e formatos de até aos cinco litros. Num ano vitivinícola marcado por temperaturas elevadas no Douro, a colheita de 2022 resultou em vinhos de “maior concentração de fruta”, mantendo “elegância, frescura e equilíbrio”, explica Miguel Esteves, gestor de negócio da Quinta da Vacaria. “São tintos que revelam intensidade com precisão e tensão, refletindo uma leitura contemporânea da região”, acrescenta. As restantes referências da colheita 2022, deverão chegar ao mercado em breve, reforçando o portefólio da Quinta da Vacaria no segmento premium, assente na “autenticidade, tipicidade e expressão fiel do Douro”.

Sobre a história da Quinta da Vacaria, aquela tem sido contada a partir de 1616, ano em que foi incorporada no património da Companhia de Jesus, por intermédio de D. Frei Luís Álvares de Távora, que mandou erigir uma casa com cinco salas, no piso superior, e três lagares e duas adegas, no térreo. Cerca de 150 anos depois, por volta de 1760, a memória descritiva da propriedade revela a existência de vinhas, oliveiras, montes, ribeiras, azenhas, uma casa e adega, lagares de vinho e azeite, cardanho para os trabalhadores e, próximo deste, uma capela da invocação de Nossa Senhora do Bom Sucesso, com retábulo dourado. O património edificado era complementado por um armazém de sal e casas de recolha dos barqueiros.

Volvidos mais de quatro séculos desde o início da história contada sobre a propriedade, decorre a abertura da unidade hoteleira Torel Quinta da Vacaria, em 2024, marco importante nesta narrativa, tornando este um local de referência, não apenas para a produção de vinhos, mas também para a hospitalidade e o turismo de excelência na região do Douro, com a mais-valia de o restaurante de fine dining, o Schistó, ao comando do Chef Vítor Matos, ter sido distinguido com uma estrela Michelin na edição 2026 do Guia Michelin Portugal.

Em suma, a Quinta da Vacaria é mais do que uma propriedade, é um símbolo de permanência no coração da mais antiga região demarcada do mundo. A qualidade excepcional e o reconhecimento no universo vitivinícola não acontecem da noite para o dia, exigem séculos de aprimoramento. Afinal, “produzir vinho é relativamente simples, só os primeiros 200 anos são difíceis” foi a frase mais célebre da Baronesa Philippine de Rothschild. Pois na Vacaria já lá moram mais de 400 anos!

(Artigo publicado na edição de Maio de 2026)

POÇAS: Da história se faz o vinho

Poças

Em tempos idos, quando os barcos Rabelo, carregados de pipas com vinho, desciam o rio que empresta o nome à região, o sável, abundante, subia o Douro, para ali desovar. A necessidade de se alimentar fez do tanoeiro pescador e cozinheiro. Já depois de amanhado e limpo, dispunha o peixe migratório, proveniente do mar, numa […]

Em tempos idos, quando os barcos Rabelo, carregados de pipas com vinho, desciam o rio que empresta o nome à região, o sável, abundante, subia o Douro, para ali desovar. A necessidade de se alimentar fez do tanoeiro pescador e cozinheiro. Já depois de amanhado e limpo, dispunha o peixe migratório, proveniente do mar, numa grelha de arames antecipadamente atravessada no interior de uma barrica de carvalho sem fundo e suspensa em quatro pés, para deixar o ar entrar e onde colocava o serrim, para defumar o sável.

Inspirada nesta história, a Poças tem vindo a desenvolver um trabalho muito interessante no tocante à recuperação da tradição de fumar o sável em barricas de Vinho do Porto. “Antigamente, o processo era muito mais moroso porque o rio era completamente diferente, não havia barragens e, por isso, faziam várias viagens. Era uma altura de muita dificuldade e aproveitavam exatamente esse momento, já que estavam no barco, para tentar a sua sorte e ir pescar, e assim que apanhavam esses peixes para comer, era também uma forma de os preservar, para poder levar para casa no final da viagem e alimentar as suas famílias. Atualmente a receita mudou um pouco. Nós fizemos a nossa interpretação e, hoje, vamos ver o resultado”, conta o enólogo André Barbosa. Trata-se do “Sável à Poças”, que, para além da importância histórica, também assume uma excecional importância social e económica pela variedade e relevo das atividades que lhe estão ligadas.

Poças

Vinhos Fora da Série

Da preparação do sável, nasce o rosé Fora da Série Cold Smoke 2025, como nos explica o enólogo: “Cold Smoke pretende expressar uma fumagem a frio, ou seja, depois de uma muito leve prensagem das uvas, o líquido resultante vai para umas cubas isotérmicas, onde faz uma estabilização a frio por mais de 11 dias, o que ajuda a concentrar aromas. Após esse período, ainda com uma temperatura muito baixa (cerca de 5 ºC, entra nas barricas de carvalho francês, acácia e cerejeira, onde a temperatura sobe gradualmente até ao ponto de ser inoculado para fermentação. Este processo faz com que o mosto receba os aromas da tosta ainda a frio (cold smoke), que é muito semelhante à fumagem do sável a frio, sem brasa. Desta forma, os aromas ficam mais concentrados no mosto, mais delicados e bem integrados. Fermenta e estagia nessas barricas por seis meses.”

A utilização de barricas de carvalho francês, feitas a partir de cerejeira e acácia, complexificou ainda mais o conjunto deste rosé, uma das estrelas do almoço. Agora, faz parte dos mais de 20 exemplares da gama Fora da série, uma espécie de “jardim da criatividade do enólogo”, que tem carta branca para lançar vinhos diferenciados, edições especiais, experiências, por vezes, únicas e, noutros casos, que vieram para ficar, como, pensamos, virá a ser o caso deste rosé ou do Vinho da Roga, entre outros, entretanto repetidos.

A gama Fora da Série está assente em três pilares: alterações climáticas, sustentabilidade e o cliente final. André Barbosa explica: “por um lado, as alterações do clima, a falta de água, a incerteza que hoje temos (parece que nem temos estações do ano), afetam a maturação das uvas e, por consequência, o perfil dos vinhos; por outro lado, é muito importante sermos uma empresa mais sustentável e, finalmente, o consumidor que, hoje, procura vinhos mais versáteis (para diferentes tipos de harmonização), com menos teor alcoólico, mais complexos e com personalidade.  A gama Fora da Série tenta abranger todos estes temas”.

Valorizar o produto local

O que mais impressiona no trabalho de André Barbosa é a mesma consistência que aplica nos Colheita, nos Reserva e nos Grande Reserva da casa, bem como na criação de vinhos diferenciadores, expressões de grande personalidade da referida gama Fora da Série. No total, são produzidas entre 1.5 a 1.8 milhões de garrafas de vinhos do Porto e DOC Douro num universo constituído por três propriedades vinhateiras, uma em cada uma das sub-regiões do Douro. Trata-se da Quinta das Quartas, localizada no Baixo Corgo, que passou a integrar o património da Poças em 1932 e onde se encontra localizado o centro de vinificação, bem como o primeiro armazém de envelhecimento; da Quinta de Vale de Cavalos, em Numão, no Douro Superior, adquirida em 1987; e da Quinta de Santa Bárbara, em Ervedosa do Douro, no Cima Corgo, adquirida nos anos 90 do século XX.

“Vale de Cavalos é onde temos maior altitude e solos de transição de xisto para granito; Santa Bárbara é a zona mais quente, com vinha velha, onde vou buscar concentração e estrutura; a Quinta das Quartas tem mostrado um perfil muito elegante e equilibrado, sempre com uma frescura incrível onde vou buscar o ingrediente secreto para equilibrar alguns lotes. Esta diversidade, esta multiplicidade de terroirs permite-nos ter o portefólio que temos atualmente, incluindo os Fora da Série. O projeto vive muito da interpretação de vários locais do Douro”, remata André Barbosa.

Em curso está a implementação da vertente de enoturismo na Quinta das Quartas, com o objetivo de levar as pessoas ao Douro. “Esta abertura ao turismo na Quinta das Quartas também passa por valorizar mais os produtos da própria região, ou seja, olhar para o território e não apenas para o vinho. O Douro produz azeite – que já deu um salto enorme, mas também tem amêndoas, tem laranjas, tem figos. Enfim, transmitir um pouco dessa história e achamos que será mais fácil fazê-lo lá, pois quem vai ao Douro, também já vai mais com essa abertura”, salienta Pedro Pintão, presidente do Conselho de Administração da Poças e um dos quatro primos à frente desta empresa secular e familiar, que já se faz representar pela quarta geração.

À mesa tivemos oportunidade de provar um desses exemplos, o azeite de bordadura Fora da Série, feito a partir de azeitona apanhada no olival tradicional que rodeia a vinha. Foram ainda apresentadas as novas colheitas do Poças Reserva branco 2025 e do Poças Branco da Ribeira 2024, que, juntamente com o rosé, acompanharam na perfeição o delicioso menu preparado pelo chef Pedro Braga, do restaurante Mito, no Porto. A refeição fechou em grande com o Poças Vintage 2024, um Vinho do Porto de grande nível, para celebrar os 100 anos do lagar da Quinta das Quartas. Que bela experiência!

(Artigo publicado na edição de Maio de 2026)

DUORUM: Tributo à “família” de vinhos

Duorum

Foi com a vindima de 2025 que se inaugurou a nova adega da empresa, situada em Foz Côa. Até então, as uvas eram vinificadas em adega alugada, em Ervedosa. São muitas as vantagens: maior proximidade em relação à Quinta de Castelo Melhor, o epicentro do projeto, mais disponibilidade de mão-de-obra, que não está sujeita a […]

Foi com a vindima de 2025 que se inaugurou a nova adega da empresa, situada em Foz Côa. Até então, as uvas eram vinificadas em adega alugada, em Ervedosa. São muitas as vantagens: maior proximidade em relação à Quinta de Castelo Melhor, o epicentro do projeto, mais disponibilidade de mão-de-obra, que não está sujeita a deslocações, com a poupança que daí advém, e painéis solares e ETAR de última geração, com a reciclagem monitorizada por TV. Nesta adega recebem ainda as uvas que compram para a marca Tons de Duorum.

Com espaço para crescer se necessário e com boas vias de acesso, a adega é funcional, cumprindo todos os requisitos, à excepção do engarrafamento, assunto sempre melindroso para João Portugal Ramos, que não entende a proibição de se fazer os engarrafamentos em Estremoz, onde a empresa tem todas as condições para efectuar esta tarefa. São as regras da Denominação de Origem. O enoturismo, a desenvolver, será na Quinta de Castelo Melhor, com apiário e onde as preocupações ambientais são uma constante, ou não houvesse o registo de um grande aumento das espécies locais, “mais do dobro do que quando começámos”, relembra João Portugal Ramos. A actividade turística poderá incluir mesmo alguns quartos bem perto do rio Douro, junto à antiga linha de comboio.

Duorum

Mudanças no perfil

É na marca Duorum Colheita que mais se aposta. Esta já representa cerca de 200 000 garrafas, enquanto a Tons anda pelas 600 000. A finalidade é ir invertendo gradualmente estes números, com o intuito de crescer no Colheita. O tinto Reserva representa cerca de 15 000 garrafas e o topo de gama O. Leucura fica-se pelas 3000. O portefólio inclui igualmente as marcas Altitude, Vinha dos Muros e Vinha das Abelhas. Mas o filho, João Maria Ramos não quer alargar mais, porque “na distribuição é muito complicado estar sempre a inovar, não se consegue criar marca dessa forma”.

Aos comandos da enologia, João Perry Vidal reconhece que muito mudou desde o início do projecto – cresceram em importância algumas castas, como a Alicante Bouschet e a Sousão, e mudou-se um pouco o perfil dos tintos, apontando para vindimas mais antecipadas (alguma já mecânica), mais maceração pré-fermentativa, por forma a obter mais elegância e menos álcool. Reconhece que “nos Reserva e nos vinhos especiais poderá haver mais maceração, para maior extracção de taninos”.

Por outro lado, “ainda não nasceu o nosso grande branco, mas estamos a trabalhar no assunto. Aqui na zona há boas vinhas velhas e muita gente quer nos fornecer uvas”. Entretanto, foi descartado a Viosinho que, por aqui, não dava grande resultado, tal como a Verdelho. As duas variedades são adquiridas agora na sub-região do Cima Corgo. Códega do Larinho? “Também temos”, diz-nos, “mas ainda não nos convenceu totalmente. A aposta é sobretudo em Arinto, Rabigato e Gouveio. Depois há as castas de tempero”, acrescenta.

O tinto O. Leucura é muito atractivo para consumidores brasileiros, que o adquirem na loja do aeroporto

 

Boas novas no portefólio

Dos vinhos provados de novo e, dos que foram revisitados, há notas a tomar. Nas novidades há que dizer que sobre o Reserva tinto se fizeram 14 666 garrafas. É um tinto que tem origem em uvas de vinhas velhas, algumas com 50 anos; após a fermentação e 18 dias de cuvaison, estagia em barrica (70% nova).

O ex-libris da empresa, O. Leucura, apenas foi editado em anos especiais – 2008, 2011, 2012, 2015 e agora 2017. Segundo o produtor, há três colheitas em cave à espera de decisão, sendo que há a vontade de repetir este intervalo de espera entre a colheita e o lançamento, tal como se fez nesta edição. Comparando com as anteriores, percebe-se que o objectivo é fazer um tinto com uvas colhidas mais cedo, menos macerado na fermentação, mais elegante e fino, seguindo as tendências do gosto. Curiosamente é um tinto bem aceite, sobretudo no mercado interno e por consumidores brasileiros, que o adquirem na loja do aeroporto.

No próximo ano, em jeito de comemoração dos 20 anos do projecto, tenciona lançar um Porto Colheita 2007, entrando, deste modo, no “universo tawny” de que estavam arredados até agora.

Já ao almoço revisitaram-se vários vinhos: Duorum 2012 em magnum, Vinho dos Muros brancos 2023 e 2024. No final, o Porto Vintage 2011 (para mim um dos grandes vintages dessa declaração clássica) foi servido em magnum e mostrou-se perfeito na concentração e no perfil denso, muito especiado, com anos e anos pela frente.

(Artigo publicado na edição de Maio de 2026)

Estão apurados os galardoados do Concurso de Vinhos dos Altos e do Concurso de Azeites da Feira dos Vinhos & Sabores dos Altos, iniciativa da Câmara Municipal de Alijó. O evento que teve lugar nos dias 19 e 21 de junho, no Parque da Vila de Alijó, no Alto Douro Vinhateiro, recebeu cerca de 5000 visitantes, reuniu cinco dezenas de produtores e teve novidades.

Mas falemos, primeiro, das duas competições. De acordo com o resultado obtido no Concurso de Vinhos dos Altos, que teve lugar na Casa dos Noura, em Alijó, e foi presidido por Valéria Zeferino, diretora da Revista Grandes Escolhas, a distinção de “Melhor Vinho” foi atribuída a três referências: FozTua Reserva 2023 (Foz do Tua), Lacrau Garrafeira 2019 (Secret Spot Wines) e Costa Boal Porto Tawny 30 anos (Costa Boal Family Estates), respectivamente, nas categorias de Branco, Tinto e Fortificado. Este trio de referências está incluído na lista dos 30 galardoados, com os Espumantes a destacarem-se apenas com uma medalha de Prata, os vinhos Brancos a dividirem-se entre cinco Ouros e cinco Pratas, em ex aequo com os Tintos, os Rosés com um Ouro e duas Pratas, enquanto os Fortificados arrecadaram três Ouros. As 97 referências vínicas inscritas foram aferidas em prova cega por um conjunto de 17 jurados, entre jornalistas, importadores, distribuidores, representantes de garrafeiras e consultores. (consultar lista no final)

Já o Concurso de Azeites 2026 decorreu no Centro Interpretativo D’Olival ao Azeite D’Ouro, em Castedo, e foi presidido por Francisco Pavão, presidente da APPITAD – Associação de Agricultores de Portugal e especialista em azeites. Dos 14 azeites avaliados em prova cega, os dez elementos do júri medalharam o Quinta de Rio Pequeno Azeite Virgem Extra com a insígnia de “Melhor Azeite”. As restantes sete distinções dividem-se em duas distinções de Ouro, quatro de Prata e uma Menção Honrosa. (consultar lista no final)

Às duas competições, somaram-se três provas de vinhos comentadas: a prova focada nos brancos foi conduzida por Sérgio Lopes, crítico de vinhos da Revista Grandes Escolhas, enquanto os vinhos tintos e os fortificados foram concretizadas por Valéria Zeferino. No contexto dos “Azeites do Concelho de Alijó”, a prova contou com a oratória de Francisco Pavão.

No capítulo das novidades, cabem o Wine Bar Experience e o Buyers Lounge. O Wine Bar Experience esteve nas mãos da dupla de bartenders Pedro Margarido e Nazar Vershynin, da Piratas de Rio, empresa especializada na feitura de bebidas e cocktails. Ambos criaram uma carta constituída por cinco cocktails protagonizados por vinhos, moscatéis e espumantes produzidos neste território vitivinícola. O Buyers Lounge foi o espaço reservado a reuniões e encontros agendados, respectivamente, entre os produtores e cinco compradores internacionais da Eslovénia, Espanha, Letónia, Noruega e Reino Unidos, assim como com oito profissionais nacionais.

Concurso de vinhos

Concurso de Vinhos dos Altos 2026

Melhores Vinhos

Branco

FozTua Reserva 2023 (Foz do Tua)

Tinto
Lacrau Garrafeira 2019 (Secret Spot Wines)

Fortificado
Costa Boal Porto Tawny 30 anos (Costa Boal Family Estates)

 Espumantes

Medalha de Prata

Uivo Cronológico Ancestral 2018, Folias de Baco

Brancos

Medalha de Ouro

Águia Moura Gouveio Grande Reserva 2021 (Casa Agr. Águia de Moura)

Lacrau Superior 2023 (Secret Spot Wines)

Olgas 2023 (Maçanita Vinhos)

Venera 2023 (Quinta dos Loivos)

Viós 2024 (Newton’s Dynamic GPU)

Medalha de Prata

Circa 2021 (Faustino Meireles Moreira)

Grimalde 2025 (José Carlos Sousa Pimentel)

Guru 2024 (Wine & Soul)

Quinta Sanradela Velha Grande Reserva 2022 (Sabor de Pétalas Wine)

Vale do Tábua Reserva 2022 (Vale do Tábua)

Rosés

Medalha de Ouro

Venera Reserva 2023 (Quinta dos Loivos)

Medalha de Prata

Costa Boal Homenagem 2024 (Costa Boal Family Estates)

Quinta Sanradela Velha 2023 (Sabor de Pétalas Wine)

Tintos

Medalha de Ouro

Circa Reserva 2018 (Faustino Meireles Moreira)

Fragulho Reserva 2022 (Casa dos Lagares)

Quinta da Pedra Alta 2022 (Quinta da Pedra Alta)

Submerso Touriga Nacional 17 2024 (Submerso Vinhos)

Vale do Tábua D’Outrora Grande Escolha 2020 (Vale do Tábua)

Medalha de Prata

Costa Boal Superior 2022 (Costa Boal Family Estates)

Herança 2017 (D’Origem)

Lugar da Corredoura Touriga Nacional Reserva 2022 (Casa do Piàska)

Quinta do Jalloto 2024 (Faustino Meireles Moreira)

Rio Pequeno Field Blend Reserva 2020 (Quinta de Rio Pequeno)

Fortificados

Medalha de Ouro

Adega de Favaios Moscatel do Douro 2007 (Adega de Favaios)

Secret Spot Moscatel do Douro 20 anos (Secret Spot Wines)

Tapada de Favaios Moscatel do Douro (Vinhos de Favaios)

 

2º Concurso de Azeites

Melhor Azeite

Quinta de Rio Pequeno (Quinta de Rio Pequeno)

Medalha de Ouro

Cartageno’s (Cartageno’s – Serviços & Produtos)

Pintas (Wine & Soul)

Medalha de Prata

Águia Moura (Casa Agr. Águia Moura)

Fragulho (Casa dos Lagares)

Porca de Murça Biológico (Coop Agr. dos Olivicultores de Murça)

Uivo (Folias de Baco)

Menção Honrosa

Porca de Murça DOP (Coop Agr. dos Olivicultores de Murça)

QUINTA DO CARMO: Mudam os tempos, fica o lugar

Quinta do Carmo

A Quinta do Carmo, cujas origens remontam ao século XVIII, situa-se no concelho de Estremoz, na localidade de nome Glória. Cerca de 1000 hectares distribuem-se por montado, olival, pastagens e, aproximadamente, 120 hectares de vinha, estendendo-se por uma paisagem de grande diversidade, entre o planalto de Estremoz, a Nordeste, e os relevos ondulados da Serra […]

A Quinta do Carmo, cujas origens remontam ao século XVIII, situa-se no concelho de Estremoz, na localidade de nome Glória. Cerca de 1000 hectares distribuem-se por montado, olival, pastagens e, aproximadamente, 120 hectares de vinha, estendendo-se por uma paisagem de grande diversidade, entre o planalto de Estremoz, a Nordeste, e os relevos ondulados da Serra de Ossa, a Sudoeste.

A entrada principesca da Quinta do Carmo impressiona pela geometria das vinhas, na horizontal, e das palmeiras, na vertical, que formam uma longa alameda até ao imponente portal de entrada. As primeiras 12 palmeiras-das-Canárias foram plantadas durante a gestão dos franceses; mais tarde, juntaram-se outras de espécies diferentes, que constituem uma assinatura da Bacalhôa.

A produção da Quinta do Carmo representa 6% do total do grupo. A maior parte dos vinhos é vendida no mercado nacional, sendo apenas 17% destinada à exportação. Os principais mercados externos são Angola, Brasil, França, Reino Unido, Suíça e Hong Kong.

As castas brancas foram plantadas pelos franceses muito antes do boom dos vinhos brancos

 

História

No caminho para a Quinta do Carmo, Vasco Penha Garcia, que durante muitos anos foi responsável pela enologia da Bacalhôa e que, actualmente, desempenha funções de Director do Departamento de Relações Institucionais, contou a história da propriedade.

Em meados do século XIX existiam duas vinhas muito especiais no Alentejo – uma na Quinta do Carmo e outra na Herdade do Mouchão – exploradas pela união de duas famílias incontornáveis na região do Alentejo, ligadas pelo casamento entre John Reynolds e Isabel d’Andrade Bastos. Para além das castas tipicamente alentejanas, o denominador comum era a variedade francesa Alicante Bouschet, introduzida em Portugal após a praga da filoxera. Hoje, é a casta mais presente no Alentejo, representando cerca de 18% das plantações, mas, na época, era exclusiva destas duas propriedades.

A partir dos anos 80 do século passado, com a enologia de João Portugal Ramos, os vinhos da Quinta do Carmo começaram a ganhar a devida projecção. Os enófilos dessa época suspiravam pelas colheitas de 1985, 1986 e 1987. A fama era tal que despertou o interesse dos proprietários da Lafite Rothschild e, em 1992, o grupo entrou com 50% de capital no negócio, em parceria com Júlio Bastos, então proprietário da Quinta do Carmo. Segundo o acordo estabelecido, Júlio Bastos cedeu as vinhas e a marca, enquanto os Rothschild construíram uma nova adega state of the art à data. O palácio do século XVIII não foi incluído neste negócio, nem a bonita capela de Nossa Senhora do Carmo, que deu nome à quinta.

Nesta parceria surgiram várias divergências de visão estratégica e, em 2000, Júlio Bastos vendeu a sua parte à Bacalhôa, que mais tarde, em 2008, acabou também por comprar a participação do Domaine Baron de Rothschild (Lafite).

Mais de uma década de gestão francesa trouxe várias mudanças na propriedade, de acordo com a sua visão. Nem todas as decisões foram acertadas, como, por exemplo, a substituição de Alicante Bouschet por Cabernet Sauvignon, mas também deixou um conjunto de contributos relevantes. Para além do aumento da área de vinha, havia a ambição de produzir um grande branco do Alentejo, pelo que foram plantadas castas brancas numa altura em que este tipo de vinho ainda não estava em ascensão – estamos a falar da viragem do século. Apostaram na variedade Roupeiro, que se revelou muito boa naquela zona, Arinto e Antão Vaz, bem como nas castas francesas Viognier e Marsanne, que permanecem nas vinhas em quantidades residuais.

Roupeiro e Alicante Bouschet são as castas de eleição na Quinta do Carmo

 

Vinha e o anticlinal de Estremoz

A vinha da Quinta do Carmo apresenta uma particularidade, como explicou Vasco Penha Garcia: situa-se no anticlinal de Estremoz. Trata-se de uma dobra das camadas rochosas, formada por movimentos tectónicos, semelhante a um tapete comprimido lateralmente, que acaba por se elevar ao centro, formando um arco. Neste processo, as camadas mais antigas ficam expostas. O anticlinal de Estremoz é um dos exemplos mais notáveis deste tipo de estrutura em Portugal, não apenas pela sua dimensão, mas sobretudo pela natureza das rochas que revela. Faz parte do famoso “triângulo do mármore” localizado entre Estremoz, Borba e Vila Viçosa, dois outros concelhos do Alentejo.

O terreno da Quinta do Carmo estende-se perpendicularmente ao alinhamento das principais unidades geológicas, o que lhe confere uma grande heterogeneidade de solos. Na zona Nordeste da propriedade predominam mármores cobertos por barros vermelhos. No extremo oposto, já na proximidade da Serra de Ossa, surgem solos de natureza xistosa. Existem ainda solos de transição, como na vinha do Seixo, de onde provêm uvas para os Quinta do Carmo Reserva branco e tinto.

Ao percorrer a vinha, observa-se claramente toda esta diversidade: desde os solos claros e pedregosos, passando por zonas com maior presença de argila vermelha e afloramentos de quartzo, até à transição para xisto (na vinha da Cabeça Alta).

A maior parte destes solos tem uma fertilidade moderada e oferece boa drenagem, mas a capacidade de retenção de água é limitada. Por isso, em períodos de calor intenso e seca, as vinhas entram facilmente em stress hídrico, necessitando de rega. Nas zonas de vale, os solos são naturalmente mais profundos, com melhor retenção de água e maior fertilidade.

As vinhas mais antigas datam da década de 1990 e do início dos anos 2000. Após a aquisição, a Bacalhôa aumentou a área de vinha branca e de Alicante Bouschet, reduzindo as plantações de Syrah e Cabernet Sauvignon. Mais tarde, a partir de 2018, voltaram a plantar-se Alicante Bouschet, Roupeiro, Arinto e um pouco de Fernão Pires. Também existe Trincadeira, que “é extraordinária, mas pouco consistente” pela experiência do enólogo residente e responsável de viticultura, João Chamorro.

Está previsto o aumento da área de vinha em cerca de 20 hectares, dependente do esperado reforço dos recursos hídricos. No entanto, existe uma pequena barragem localizada na zona central da propriedade. Mesmo assim, a água que retém é insuficiente para assegurar novos projectos. Por esse motivo, aguardam a sua ampliação, para fazer face aos anos de escassez hídrica no contexto das alterações climáticas. Como referiu João Chamorro, a nova barreira fluvial irá chamar-se Barragem da Mesquita e deverá, não só funcionar como reserva estratégica de água, mas também criar uma albufeira, contribuindo, assim, para a biodiversidade da área.

Outro benefício é a possibilidade de desenvolver ecoturismo em torno da barragem e actividades, como a observação de animais.

 

Adega, a herança dos franceses melhorada

A adega da Quinta do Carmo foi construída pelos Rothschild, perto da vinha, tal como na região francesa de Bordeaux, para facilitar a logística e minimizar o tempo de transporte das uvas durante a vindima. Estava muito bem equipada à época, com os depósitos de cimento de 20 toneladas e uma zona especificamente dedicada aos vinhos brancos.

Já na era da Bacalhôa, a adega beneficiou de uma ampliação e foi munida com equipamentos e depósitos mais variados, incluindo os de 10 toneladas para a elaboração de lotes mais precisos da gama Quinta do Carmo, lagares com pisa robótica e controlo de temperatura, onde fermentam os Reserva tinto, bem como depósitos de maiores dimensões destinados à produção de lotes mais volumosos. Fizeram ainda uma segunda recepção perfeitamente equipada (para além de outra “francesa” que já existiu). Desta forma conseguem processar uvas brancas e tintas ao mesmo tempo. “É uma adega com uma enorme flexibilidade”, conclui Vasco Penha Garcia. As barricas são fornecidas pela tanoaria Seguin Moreau, sendo produzidas de acordo com os requisitos da quinta.

Quinta do Carmo
João Chamorro, enólogo residente e responsável pela viticultura, Vasco Penha Garcia, Director do Departamento de Relações Institucionais, e Francisco Antunes, Director de Enologia do Grupo Bacalhôa

As castas protagonistas

A Quinta do Carmo produz cerca de um milhão de garrafas, das quais dois terços são de vinho tinto e um terço de branco. As três gamas principais, todas nas versões branco e tinto, incluem a marca Dom Martinho, que representa quase metade da produção, a Quinta do Carmo e a Quinta do Carmo Reserva, com 35% e 15% da produção, respectivamente.

Nos vinhos brancos, a Roupeiro tem um papel importante e representa cerca de 30% das variedades brancas. É algo raro no Alentejo e no país. Embora esteja presente de Norte a Sul, sendo a quarta casta branca mais plantada e correspondendo a 2% de plantações de vinha em Portugal, “sempre foi o patinho feio”, como a apelidou Vasco Penha Garcia, por não suscitar grande admiração por parte dos consumidores, nem dos produtores.

Conhecida por várias sinonímias, das quais três são oficiais – Roupeiro, no Sul, Síria, na Beira Interior, e Códega, no Norte –, é uma casta bastante produtiva e de maturação tardia. Pode sofrer com as chuvas de Setembro e, se não for colhida no momento certo, sobretudo em zonas quentes, perde acidez de forma acentuada e “queima” os aromas, que são algo delicados. Na Quinta do Carmo, situada regionalmente numa zona elevada, a cerca de 400 metros de altitude e com solos de fertilidade média, a casta revela um comportamento acima da média, mantendo acidez suficiente, para originar vinhos equilibrados, com pH entre 3,0 e 3,2.

No Dom Martinho, a Roupeiro atinge 70% do lote, com auxílio da Arinto, variando entre 50% e 60% no Quinta do Carmo. A Antão Vaz e, por vezes, a Fernão Pires também podem entrar no lote em percentagens menores. O Dom Martinho e o Quinta do Carmo branco não passam por madeira, mas este último beneficia de um estágio prolongado sobre as borras, que lhe confere mais estrutura e complexidade. Já o Reserva fermenta e evolui em barricas de carvalho francês, novas e usadas.

Nos tintos, o estágio em madeira começa a partir do Quinta do Carmo. “O conceito é fazer um vinho não exuberante, com boa estrutura, e domar o Alicante Bouschet, que é uma casta de grande rusticidade”, explicam o Director de Enologia Francisco Antunes e Vasco Penha Garcia.

A Alicante Bouschet tem vindo a ganhar protagonismo no lote, atingindo 60%. Foram inclusivamente realizados ensaios com a casta em extreme. Ao contrário da Roupeiro, a Alicante Bouschet goza de uma popularidade indiscutível no Alentejo. Praticamente desprezada em França, em Portugal já é a quarta casta mais plantada e, no Alentejo lidera mesmo as plantações. Bem domada, confere aos vinhos uma cor opaca, sendo uma casta tintureira (com polpa corada), grande concentração, volume de boca, estrutura e longevidade.

Os outros componentes do lote variam consoante o ano. Mais do que as castas em si, procura-se um estilo definido de elegância. Por exemplo, no Quinta do Carmo 2019, o lote, para além do Alicante Bouschet, incluiu Aragonez e Trincadeira; já o 2022 (em prova) conta com Cabernet Sauvignon e Syrah a acompanhar a Alicante Bouschet. Entretanto, na vindima de 2025, a Cabernet Sauvignon não atingiu a maturação desejada, pelo que a solução para esta colheita será diferente.

Cada talhão e cada casta são fermentados em separado. À semelhança do método bordalês, realiza-se uma maceração pré e pós-fermentativa, naturalmente controlada através de provas diárias, para separar o mosto das massas e o transferir para barricas de carvalho francês de 225 litros. A madeira nova representa entre 15% a 20%, sendo o restante de segundo uso. O lote final é definido após um estágio de 12 meses.

O Quinta do Carmo Reserva é uma herança da passagem dos franceses, foi “inventado” em 2000. Na altura tinha Cabernet Sauvignon em maioria no lote, pois não confiavam muito na Alicante Bouschet, baseando na sua experiência em França, onde a casta, de facto, não se expressa da mesma forma. Actualmente, o estilo é diferente, tendo a Alicante Bouschet proveniente da vinha do Seixo, com solos mais argilosos à superfície sobre mármore, como figura central, deixando, para as restantes castas, o papel secundário. Em 2017, esse papel coube à Aragonez da vinha da Cabeça Alta, com solo xistoso. Fermenta em lagares e permanece em maceração com massas durante mais 15 dias para extrair a estrutura que aguenta o estágio de 18 meses em barricas novas de carvalho francês de 225 litros, seguido de anos em garrafa.

De todos os vinhos, provei duas colheitas, uma mais recente e outra com mais anos de garrafa. No caso do Reserva tinto, tratou-se de uma mini-vertical, com as colheitas de 2016, 2015 e 2004. As duas primeiras estavam em belíssima forma, cheias de vida, com grande polimento e integração; o último vinho já denotava bastante a idade, mais contido no aroma, com notas de fruta desidratada e compotada, existindo ainda alguma fruta fresca no conjunto.

A sensação que tive ao provar os vinhos da Quinta do Carmo é que, muitas vezes, corremos atrás das novidades, descobertas de produtores, vinhos diferentes e promessas inovadoras, esquecendo, nessa corrida, como é bom provar os clássicos, sentir a sua afinação, alcançada ao longo de sucessivas colheitas.

(Artigo publicado na edição de Maio de 2026)

ADEGA D’ARROCHA: Vital, a nobre casta

ADEGA D’ARROCHA

Esta história tem origem numa herança cultural com mais de 100 anos. Consta na cronologia das famílias Rato e Carlotas, da Lourinhã, isto é, está ligada, respectivamente, “ao avô João Rato, pai do meu sogro, José Paulo Rato” e “ao pai da minha sogra, Helena Alexandre”, começa por explicar Ricardo Oliveira Guimarães, CEO e responsável […]

Esta história tem origem numa herança cultural com mais de 100 anos. Consta na cronologia das famílias Rato e Carlotas, da Lourinhã, isto é, está ligada, respectivamente, “ao avô João Rato, pai do meu sogro, José Paulo Rato” e “ao pai da minha sogra, Helena Alexandre”, começa por explicar Ricardo Oliveira Guimarães, CEO e responsável pela enologia da Adega d’Arrocha, nome criado em 2019, ano da constituição da empresa e marco do início da atividade e comercialização dos vinhos. Mas já lá iremos, até porque existe o registo de um hiato no tempo, durante o qual a dificuldade agravada pela escassez de mão de obra para a execução dos trabalhos de campo e a vinificação das uvas, determina a substituição das vinhas pela plantação de hortícolas e árvores de fruto. Paralelamente, João Rato e José Paulo Rato optam por ingressar na atividade piscatória.

Mais tarde, já após a incursão mundial a bordo de grandes embarcações, José Paulo Rato decide regressar à terra natal. Em 2010, na sequência da “necessidade de recriar a ligação à viticultura, planta cerca de 1,5 hectares de vinha”, conta Ricardo Oliveira Guimarães. A Castelão é a casta eleita, a par com outra igualmente itinerante quanto o sogro, a Cabernet Sauvignon. Com a produção dos primeiros vinhos, surge a vontade de renovar a aposta na cultura da vinha e do vinho, ação que acicata a vontade de mudar de vida por parte de Ricardo Oliveira Guimarães e da mulher, Vera Alexandre Rato, filha de José Paulo Rato.

Em 2017, isto é, depois de uma década dedicada à profissão de psicólogo, ambos regressam à Lourinhã “com a vontade de criar um projeto na nossa região”. Trata-se, portanto, da Adega d’Arrocha. É uma homenagem ao Vale da Rocha, “zona onde foi plantada a primeira vinha na família. Localmente, as pessoas dizem que vão ‘Á’rrocha e não ao Vale da Arrocha”, esclarece, daí o nome.

O desejo de voltar às raízes tem uma explicação: “a família tem a capacidade de mudar muita coisa.” E o facto de ambos poderem contar com os sogros – José Paulo Rato e Helena Alexandre – também contribuiu para esta mudança. Mas, “o meu conhecimento não era suficiente para desenvolver o projeto que tinha idealizado”. Para colmatar este hiato, estudou engenharia de viticultura e enologia no Instituto Superior de Agronomia (ISA), em Lisboa.

ADEGA D’ARROCHA

Vinhos de uvas próprias

A Adega d’Arrocha tem Helena Alexandre e os filhos, Vera e Ricardo Rato na gerência da empresa. José Paulo Rato é o responsável pela viticultura e tem uma equipa de trabalho, enquanto Ricardo Oliveira Guimarães está inteiramente dedicado à enologia. “Estou envolvido em toda a estrutura, que vai desde o acompanhamento da área comercial ao enoturismo, passando pela certificação de vinhos, rotulagem… Acabo por estar por trás de tudo isso. É uma vida relativamente complicada em termos de tempo e disponibilidade, pois também vou para o trabalho de pai de quatro filhos, tarefa extremamente desafiante.”

Quanto à vinha, no princípio com 23 hectares, regista, atualmente, 40, dos quais se destaca a de 1970. A área total combina a aquisição de propriedades com a plantação decorrida entre 2017 e 2024. “Hoje temos cerca de 40 hectares de vinha própria, todos em produção”. Porém “todos os vinhos que não interessam para o perfil dos nossos vinhos, são vendidos a granel”, assegura.

Paralelamente, é feita uma alteração na seleção de castas. A lista de variedades brancas é constituída por Vital, Fernão Pires, Arinto, Seara Nova e Viosinho, bem como a Chardonnay, sendo, esta última uma opção em resposta ao desafio apresentado ao enólogo da Adega d’Arrocha por parte de um professor do ISA, Carlos Lopes. Castelão, Tinta Roriz, Syrah Touriga Nacional, Cabernet Sauvignon e Alicante Bouschet representam as castas tintas.

“Quando comecei o projeto, toda a família estava ainda muito ligada ao passado, com o tinto a predominar e a casta branca a ser considerada um subproduto. Tendo em conta que estamos na melhor, senão numa das melhores regiões de Portugal para produzir vinhos brancos devido à fantástica influência atlântica, que características tão especiais atribui aos nossos vinhos”, a aposta sai reforçada a favor das variedades brancas, com uma forte tendência para as tintas perderem terreno.

ADEGA D’ARROCHA

Porquê a Vital?

De todas as castas, a Vital é a bandeira da Adega d’Arrocha. Ricardo Oliveira Guimarães explica que a origem histórica desta variedade “está associada à região da Lourinhã” e à produção de aguardente da Lourinhã. Porém, os mais antigos advertem o enólogo da Adega d’Arrocha para a forte apetência para a oxidação por parte desta casta. Solução? “Temos de proteger as uvas desde o momento em que cortamos o cacho e o colocamos nas caixas até à altura em que entravam na adega. Durante o processo fermentativo e o processo de estágio estamos insistentemente em cima da casta, para que não haja oxidação.”

Cumpridos estes requisitos, Ricardo Oliveira Guimarães garante que o resultado se traduz em “vinhos excecionais”, graças à plasticidade da Vital, que “nos permite fazer vinhos em inox, em madeira, coisas mais diferentes em barricas da Lourinhã ou em estágios no fundo do mar”. Um dos exemplos é o Vital Reserva Especial, vinho estagiado em duas barricas de 250 litros – uma de castanheiro e uma de carvalho nacional – utilizadas em estágio de aguardente durante mais de 20 anos. “Colocamos o mosto de Vital a fermentar dentro dessas barricas, retiramos, lavamos e tornamos a colocar o vinho”. A duração do estágio foi de nove meses. “Toda a complexidade, toda a parte aromática das madeiras, do aguardentado neste vinho, deram uma nuance incrível que o torna um dos vinhos mais diferenciadores na nossa adega”, realça.

 

Rótulos, boas novas e mercados

Carlotas é o rótulo que estreia o portefólio vínico da d’Arrocha. Já a gama premium é designada por Adega d’Arrocha. É aqui que entram os monovarietais: Vital Reserva, Vital Grande Escolha, feito a partir da “seleção das melhores uvas, mas sem contacto com barrica, para mostrar toda a expressão da casta”; Chardonnay Reserva, Viosinho Reserva, Arinto Reserva e Fernão Pires Reserva. Todos estes vinhos Reserva são submetidos a seis meses de carvalho francês e carvalho americano. Acresce o Adega d’Arrocha Maré Arinto Vital Reserva 2021 ou o Adega d´Arrocha O Vale Grande Reserva 2021, com dois anos de estágio em barricas de carvalho francês. “Temos, neste momento, mais três vinhos tintos além deste: Carlotas Touriga Nacional e Cabernet Sauvignon 2020 sem estágio em barrica (apenas inox), Carlotas Reserva tinto 2020 e um vinho de entrada de gama Carlotas Tinto IG Lisboa 2022”. Já o Adega d´Arrocha Vestido Rosa rosé vai na segunda edição. Todos os vinhos do portefólio são elaborados “sempre e só com uvas próprias”, frisa.

A lista de referências cresce este mês de maio, com um trio de boas novas: o primeiro Grande Reserva branco do projeto – Adega d´Arrocha Maré Grande Reserva branco 2024, feito a partir das castas Viosinho, Chardonnay, Vital e Arinto, e submetido a 15 meses de estágio em barricas de carvalho francês e carvalho americano; e os primeiros monovarietais – Adega d´Arrocha Castelão Reserva tinto 2024 e Adega d´Arrocha Touriga Nacional Reserva tinto 2024. Estes dois últimos permanecem por 12 meses em barricas de carvalho francês.

Para breve, está previsto o lançamento “do primeiro espumante com duas castas, talvez não tão usuais na produção dos mesmos. Mas não vou revelar já”, avança Ricardo Oliveira Guimarães. A ligação à Adega Cooperativa da Lourinhã é, por sua vez, pretexto para o eventual desenvolvimento, “a curto-médio prazo”, da primeira aguardente.

Relativamente à exportação, desafio iniciado em 2024, a percentagem ronda os 10%. “Contudo, já temos os nossos vinhos em França, Luxemburgo, Holanda e estamos a tentar ultimar, ainda este ano, com os EUA e Brasil.”

ADEGA D’ARROCHA

Enoturismo: proximidade e detalhe

O ano de 2022 é marcado pela construção da adega, em Casais de Fonte de Lima, no concelho de Lourinhã, para a vindima. O edifício é concluído em 2023 e, no ano seguinte, abrem-se as portas da loja, seguindo-se a atividade de enoturismo.

Para Ricardo Oliveira Guimarães, trata-se de uma atividade de proximidade e de detalhe. Passear pelas vinhas e almoçar na Casa da Vinha, “inicialmente criada apenas para a família”, é o ponto alto das experiências desenhadas para os visitantes, que, deste modo, têm a oportunidade de contactar com a natureza, o qual se estende ao piquenique na vinha e à vindima com a família.

A casa está apta para provas e refeições para até 12 pessoas. Somem-se os almoços e jantares vínicos na adega. Arroz de tamboril e gambas, arroz de polvo, caldeirada e arroz de lagosta são as sugestões apresentadas e todas têm uma ligação ao mar, em homenagem ao passado da família Rato. São confecionados “com produtos frescos e locais”. Em última instância, recorrem ao comércio local, com a garantia de se tratarem de produtos “de altíssima qualidade”, enfatiza.

Já a sala de provas tem capacidade para 16 pessoas, por forma de Ana Germano, responsável pelo enoturismo, poder contar com a participação de todos os presentes. Há provas de três e seis vinhos, com ou sem tábuas de queijos e enchidos, e o desafio de lotear vinhos na adega.

(Artigo publicado na edição de Maio de 2026)

CARM: De Almendra para o mundo

CARM

A sub-região do Douro Superior é uma terra de extremos. Conhecido pela sua aridez e pelo calor intenso, onde o rio Douro se torna fronteira e se prepara para entrar em Portugal, tem o xisto mais duro e a paisagem mais indomável da região demarcada com o mesmo nome. É na aldeia de Almendra, rodeada […]

A sub-região do Douro Superior é uma terra de extremos. Conhecido pela sua aridez e pelo calor intenso, onde o rio Douro se torna fronteira e se prepara para entrar em Portugal, tem o xisto mais duro e a paisagem mais indomável da região demarcada com o mesmo nome. É na aldeia de Almendra, rodeada pela reserva arqueológica do Vale do Côa, que a CARM – Casa Agrícola Roboredo Madeira S.A. se afirma como um dos produtores mais consistentes e respeitados do país.

Com uma história familiar documentada desde meados do século XVII, a CARM, enquanto marca, reflete um compromisso inabalável com a qualidade e com o território. É um projeto no âmbito do qual o trabalho incide estritamente na utilização dos frutos das suas próprias terras. “Nós só trabalhamos com castas portuguesas. Desde o início. Sou totalmente apologista da defesa de Portugal e as nossas raízes”, afirma com orgulho Filipe Roboredo Madeira, proprietário da CARM, que nos conduziu pela história da empresa familiar.

Desde o início, o objetivo da família Roboredo Madeira foi claro: produzir azeites e vinhos de excelência, utilizando apenas uvas e azeitonas provenientes das suas próprias quintas. Esta filosofia de produtor-engarrafador garante o controlo total da qualidade da matéria-prima, desde a vinha até ao produto final. A empresa gere atualmente cerca de 200 hectares de vinha, 220 hectares de olival e 60 hectares de amendoal. “Esta diversificação agrícola ajuda a manter o equilíbrio ecológico e a resiliência das culturas, bem como fixar gente à terra [Almendra], que, assim, tem trabalho durante todo o ano”, sublinha António Ribeiro, enólogo residente desde 2002 e responsável pelas áreas de produção e viticultura da CARM.

CARM

O “ouro verde” de Almendra

Embora a CARM, tal como a conhecemos hoje, tenha ganho projeção nas últimas décadas, as raízes da família Roboredo Madeira mergulham no século XVII. Originários da zona de Almendra, em Vila Nova de Foz Côa, os antepassados sempre foram lavradores. Durante gerações, a atividade centrou-se na policultura mediterrânica: a vinha, o olival e o amendoal. ​Durante grande parte do século XX, a produção seguia o modelo tradicional do Douro Superior: as uvas de alta qualidade eram vendidas às grandes casas de Vinho do Porto e o azeite era entregue a cooperativas locais. Foi precisamente com o azeite que tudo mudou.

Filipe Roboredo Madeira estudou medicina em Itália. Aluno brilhante, acabou por nunca exercer a profissão de médico. Graças a um grupo de amigos de elite, apostou na moda e nos investimentos, vivendo uma vida de estilo e exclusividade, que o fez conhecer personalidades famosas. Um percurso que lhe deu a disciplina do bom gosto – adepto dos grandes prazeres da vida, conheceu os melhores restaurantes gourmet e, claro, os melhores vinhos. E azeites.

Quando estudava em Itália, Filipe Roboredo Madeira levava, claro está, Vinho do Porto, mas também “um azeite que cá fazíamos e que nem sequer era comercializado, a um amigo italiano. Até que um dia, esse amigo disse-nos para nunca mais o fazermos, porque o azeite era mau, uma porcaria! Não queríamos acreditar, mas de facto havia uma diferença enorme entre os azeites portugueses e os italianos. Até que o meu pai foi ter com o guru mundial dos azeites, o professor [Giuseppe] Fontanazza. Levou-lhe algumas azeitonas e perguntou-lhe o que daí poderia sair. Ele disse-lhe que poderia ser um ótimo azeite, se fosse feito como deve ser. Depois, comprámos todas as máquinas novíssimas para o lagar e arriscámos”, conta.

A dada altura, quase sem querer, o nosso anfitrião viu-se sozinho, num lagar ultra tecnológico, a comandar a primeira produção por telefone. “Foi surreal. Não havia ninguém para fazer funcionar o lagar. O técnico italiano já lá não estava e eu tinha de colocar aquelas máquinas a funcionar. Entram as azeitonas e eu a telefonar para os técnicos italianos, que, à distância, davam indicações.” Assim foi feito o primeiro azeite CARM, em 2004 e, com ele, nasceu o logotipo da marca, constituído por azeitonas e folhas de oliveira, a origem do projeto.

CARM
Celso Madeira

Celso Madeira reconverteu, em 1995, a exploração agrícola para o modo de produção biológico

 

O legado de Celso Madeira

A família Roboredo Madeira sempre esteve ligada à terra, à agricultura, tendo em Celso Madeira (pai de Filipe Roboredo Madeira) o grande impulsionador. Irrequieto, fez crescer o património. Às vinhas centenárias que a família possuía, o patriarca somou mais terras e mais vinha. A título de curiosidade, em 1995, procedeu à reconversão da exploração agrícola para o modo de produção biológico. A partir de então, continuou a plantar e a aprimorar a seleção de clones de castas tradicionais.

Atualmente, a família totaliza cinco propriedades. Quinta do Bispado, situada no sopé do monte Calabre, com um total de cerca de 45 hectares, apresenta solos xistosos, expostos a sul e a nascente, divididos por sete hectares de vinhas datadas de meados da década de 80 do século XX, 27 hectares de olival e 3 hectares de amendoal. A Quinta da Calabria, de 49 hectares e predominada por solos xistosos, detém 14 hectares de vinha plantados em meados da década de 80 do século passado, com as castas Touriga Nacional, Touriga Franca e Tinta Roriz; os olivais e os amendoais, de variedades autóctones (Madural os primeiros e Casanova os segundos), têm áreas de 10 e 21 hectares, respectivamente. Embora dê frutos que resultam nos melhores vinhos e azeites da CARM, a Quinta das Marvalhas, com uma área de 70 hectares, tem cerca de 28 hectares de olival e 23 hectares de amendoal, foi a eleita para a instalação do lagar de azeite e da nova adega de vinificação. A Quinta das Verdelhas, de 45 hectares, tem 14 hectares de vinha, onde estão plantadas as castas Touriga Nacional, Tinta Roriz e Touriga Franca, 17 hectares de olival centenário e cerca de 10 hectares de amendoal autóctone. A Quinta da Urze, sede da exploração agrícola que integra propriedades próximas, com um total de 190 hectares e onde as vinhas atingem, em alguns pontos, os 600 metros, possui a maioria das variedades brancas tais como Rabigato, Códega do Larinho, Arinto ou Gouveio, plantadas em solos maioritariamente de xisto, mas também de transição para granito e quartzo, as quais resultam em brancos de eleição. Ainda sobre esta última propriedade, as diferentes exposições solares, altitudes, castas e transição de solos contribuem para a criação de vinhos com perfis distintos e diferenciadores. Trata-se de uma quinta lindíssima, a qual tivemos o prazer de percorrer, lado a lado com um casal de perdizes selvagens. A título de curiosidade, sairá muito em breve o vinho “Carm Granito” precisamente para mostrar a expressão de uma parcela muito especial, uma vinha velha com castas misturadas plantada em solo de granito da Quinta da Urze. A provar em breve.

CARM
Quinta do Bispado e Quinta da Calabria

Respeito pela terra

Inspirado pelo sucesso da produção de azeite, Filipe Roboredo Madeira percebe que, nas terras do Douro Superior, esse legado de vinhas velhas e esse terroir de eleição a explorar era um tesouro impossível de ignorar. Assim, no começo do século XXI, e à boleia do sucesso obtido com a produção do “ouro verde”, a família decide apostar também na produção de vinho em nome próprio. ​Filipe Roboredo Madeira, cuja trajetória de vida o levou a regressar às origens (já tinhas descrito anteriormente que estudou medicina e teve uma vida folgada), para liderar este projeto com uma sensibilidade cosmopolita e, simultaneamente, um respeito religioso pela terra.

No início, as uvas eram vinificadas numa adega alugada. A enologia estava a cargo de João Silva e Sousa e o irmão de Filipe, Rui Roboredo Madeira.

O ano de 2004 marca um ponto de viragem fundamental, com a construção da adega moderna em Almendra. Mas é precisamente nessa altura da construção da adega que se dá a rutura entre Rui Roboredo Madeira e o pai. E o enólogo deixa a CARM. Seguiu-se António Braga, que acaba por sair para a Sogrape, deixando, mais uma vez, Filipe Roboredo Madeira sozinho, que tem novamente de “arregaçar as mangas” para aguentar o barco. Eis que, em 2008, surge António Magalhães Ribeiro, assumindo o papel de enólogo residente, função desempenhada até hoje. “Vivi muito tempo lá fora e não gostava de vinhos portugueses. Eram muito rústicos. Por isso, disse ao António ‘nós temos de fazer vinhos muito mais limpos, com mais acidez. Algo totalmente diferente’”, revela Filipe Roboredo Madeira.

Paralelamente, e apesar de a produção de vinhos de excelência se manter, a nova infraestrutura permitiu aliar a tecnologia de ponta ao respeito pelos métodos ancestrais, como a pisa em lagares de pedra. Destaque para a impressionante linha de frio ajustada a todas as cubas de vinificação: “esta linha de frio é fundamental para garantir o rigoroso controlo total da temperatura durante a vinificação e estágio, de modo a preservar a qualidade, consistência e estabilidade do vinho até chegar à garrafa”, explica o enólogo. António Magalhães Ribeiro também trouxe um olhar profissional no tocante à viticultura, respeito pelo terroir e o cuidado com a matéria-prima de excelência que tem ao dispor desde há aproximadamente duas décadas.

Neste momento, a empresa produz em média 1,2 milhões de garrafas, das gamas Carm Colheita (branco, tinto e rosé), Carm Reserva e Grande Reserva (ambas nas versões branco e tinto), para além dos monovarietais Rabigato, Códega do Larinho, Touriga Nacional e Gouveio e os topos de gama, Maria de Lourdes (branco e tinto), produzida em homenagem à mãe de Filipe Roboredo Madeira, e CARM CM (branco e tinto), numa ode ao patriarca Celso Madeira. Do total da produção, 70% vai para o mercado nacional, enquanto o restante é para exportação.

Tivemos oportunidade de provar estes vinhos, resultando precisos, elegantes e que mostram o terroir de onde provêm. À mesa, desfilou ainda a linha de produtos gourmet disponível no site da empresa, como os pimentos com atum, pimentos com queijo, corações de alcachofra, azeitonas em salmoura ou as pastas de azeitona e de tomate seco, entre outros petiscos que merecem igual destaque. Todos brilharam ao lado de vinhos de um Douro Superior repleto de identidade, moderno, sem perder a sua tipicidade.

CARM
Quinta das Verdelhas

(Artigo publicado na edição de maio de 2026)

 

Conheça os vencedores e premiados do Concurso Escolha do Mercado

vencedores

Após a estreia em 2020 e com organização a cargo da Grandes Escolhas, o Concurso Escolha do Mercado, até então direcionado apenas para vinhos brancos nacionais, passou, a partir desta 7ª edição, a abranger também rosés e espumantes. O total de inscrições ultrapassou as 650 referências produzidas em Portugal, uma verdadeira maratona vínica, que obrigou […]

Após a estreia em 2020 e com organização a cargo da Grandes Escolhas, o Concurso Escolha do Mercado, até então direcionado apenas para vinhos brancos nacionais, passou, a partir desta 7ª edição, a abranger também rosés e espumantes. O total de inscrições ultrapassou as 650 referências produzidas em Portugal, uma verdadeira maratona vínica, que obrigou à ampliação do número de jurados face aos anos anteriores.

Todos os vinhos foram escrutinados na manhã do passado dia 18 de Maio, através de prova cega e pontuados exclusivamente por um painel constituído por 74 pessoas, entre profissionais do canal HoReCa, proprietários e gestores de restaurantes, lojas de vinho e wine bars, sommeliers, empresários de distribuição, compradores ou consultores de cadeias de grande retalho e empresas de catering.

As referências vínicas submetidas ao Concurso Escolha do Mercado foram avaliadas por etapas, ou seja, foram distribuídas por três faixas de preço – até €7, entre €7 e €20, e acima de €20 –valores de venda ao público em loja. A esmagadora maioria destes vinhos (mais de 80%) entraram recentemente no mercado ou serão lançados até ao verão.

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