QUINTA DOS FRADES: Postal ilustrado do Douro

A história da Quinta dos Frades funde-se com a própria história do Douro, tendo sido, desde logo, incluída nas Demarcações do Douro, realizadas entre 1757 e 1761, e levadas a cabo pela então Companhia da Agricultura dos Vinhos do Alto Douro. A quinta possui, inclusive, um marco Pombalino classificado como IIP (Imóvel de Interesse Público) […]
A história da Quinta dos Frades funde-se com a própria história do Douro, tendo sido, desde logo, incluída nas Demarcações do Douro, realizadas entre 1757 e 1761, e levadas a cabo pela então Companhia da Agricultura dos Vinhos do Alto Douro. A quinta possui, inclusive, um marco Pombalino classificado como IIP (Imóvel de Interesse Público) muito bem conservado. Está associada, ainda, com a afirmação da própria freguesia da Folgosa do Douro. Por isso, lhe chamaram, em tempos, a Quinta da Folgosa e, ainda hoje, os populares a designam de “universidade dos grandes homens da Folgosa”.
A propriedade está a caminho dos oito séculos de história. As origens remontam ao século XIII, aquando da sua doação aos monges do Mosteiro de Santa Maria de Salzedas, em 1256. Administrada durante séculos pelos monges, Jerónimo de Almeida Brandão e Souza, 1.º barão da Folgosa, arrematou-a em hasta pública em 1841. A Quinta dos Frades é, sem sombra de dúvida, uma das maiores e mais belas propriedades do Douro Vinhateiro. “A beleza é a única coisa preciosa na vida. É difícil encontrá-la, mas quem consegue descobre tudo”, disse um dia Charles Chaplin.
Em 1941, o Comendador Delfim Ferreira descobriu-a e logo não tardou em adquirir esta propriedade duriense. Foi um homem notável, um importante industrial e impulsionador da economia portuguesa no século XX, que investiu em fábricas têxteis e na produção de energia eléctrica, tendo fundado, inclusive, em 1953, a Hidro Eléctrica do Douro. Homem de visão, criou e deixou um imenso património, que incluía a icónica Casa de Serralves, no Porto, onde, aliás, vivia, e ordenou a construção do emblemático hotel Infante Sagres situado na cidade ‘Invicta’. Os descendentes continuaram a investir em várias áreas de negócio, sendo a mais notória a dos sabonetes de luxo, bem conhecida em todo o mundo, a Ach. Brito.

20 hectares de vinha centenária
“Sempre que passava naquele troço da EN 222 o mais normal era virar-me para o pendura do dia e repetir-me: ‘Olha para esta propriedade incrível, a Quinta dos Frades. Um património de vinhas velhas brutal, quilómetros junto ao rio, exposições diversas, uma história incrível. Uma das grandes quintas do Douro. E um dia fazer vinhos aqui? Um sonho!’, confessa o enólogo Diogo Lopes. Em 2023, o sonho tornou-se realidade. “Conheço bem a Quinta dos Frades, onde o mestre Anselmo Mendes está há muitos anos. Acompanhei-o lá muitas vezes, nas suas incursões de trabalho e ficava deliciado com os vinhos que provávamos”, continua.
Diogo Lopes afirma que se trata “de uma das mais importantes e imponentes propriedades do Douro” e é conhecida “pelo seu potencial para fazer vinhos grandiosos. A fórmula vencedora é simples e única: detém um dos mais extensos patrimónios de vinha velha do Douro, com 20 hectares e mais de 100 anos”. Esta mancha específica é constituída por mais de 20 variedades tradicionais, originando field blends, expressão muito associada à viticultura duriense.
A presença da Touriga Francesa destaca-se nas vinhas velhas como a grande casta do Douro, adaptada tanto a vinhos de mesa, como a fortificados. Algumas das dezenas de variedades dominantes são Touriga Nacional, Tinta Roriz, Touriga Francesa, Tinta Branca, Tinta Amarela, Tinta Carvalha, Donzelinho e Rabigato. Já a exposição das vinhas, a nascente e a poente, é determinante para a obtenção de equilíbrio nos diferentes anos agrícolas, conferindo aos vinhos uma variedade de aromas, sabores e estrutura que garantem a singularidade da produção da Quinta dos Frades. Diogo Lopes acrescenta a relevância da “exposição Norte, os lagares tradicionais de granito, a frente de rio. Enfim, uma incrível classificação 100% vinhas de Letra A”.
“Com o convite da família proprietária para assumir a enologia, em parceria com Anselmo Mendes, concretiza-se, então, um sonho antigo, de acompanhar o meu grande mestre e integrar uma equipa e propriedade tão especial. E agora, mãos à obra, porque numa quinta com este percurso a responsabilidade é grande. É para continuar a fazer história”, afirma Diogo Lopes.
A aquisição da Quinta dos Frades resultou num processo de reabilitação, modernização de infraestruturas de produção e de lazer. A começar pela vinha, cujo método de plantação em declive livre substituiu as tradicionais vinhas em socalcos murados.
A Quinta do Castelo
Em 1941, o Comendador Delfim Ferreira adquiriu não só a Quinta dos Frades, mas também a Quinta do Castelo. Com uma forte reputação centenária, marcada pela actividade agrícola, em particular pela produção de vinhos e azeites, esta propriedade localizada em Santa Marta de Penaguião, na sub-região do Cima Corgo, tem 43 hectares, dos quais 35 estão ocupados por vinha, com um património de castas tradicionais durienses, brancas e tintas.
Evidencia um terroir de altitude e proporciona condições de maturação mais lenta, derivadas da amplitude térmica e da diversidade de exposições. Estes dois factores potenciam a expressão de vinhos marcados por elegância, frescura, precisão e grande equilíbrio. Conhecendo nós Anselmo Mendes e Diogo Lopes, óbvio se torna que, desde logo, a Quinta do Castelo foi, e tem vindo a ser, afinada, sobretudo para a produção de vinhos brancos, e alguns tintos, é certo, marcados pela pureza aromática e pela acidez natural.
No fundo, pretende-se um complemento aos vinhos da Quinta dos Frades, que se diferenciam pela estrutura, profundidade e complexidade, em expressão de um terroir marcado por field blends durienses de vinhas velhas e parcelas centenárias.
A Quinta dos Frades “detém um dos mais extensos patrimónios de vinha velha do Douro, com 20 hectares e mais de 100 anos”, afirma o enólogo Diogo Lopes
As granjas monásticas e o solar
E foram precisamente esse terroir, essas parcelas centenárias, essas vinhas velhas, esses declives acentuados, capazes de causar vertigem às gentes mais urbanas, que Aquiles de Brito, bisneto do fundador da Quinta dos Frades e responsável da família pelo negócio do vinho, e Diogo Lopes nos deram a conhecer num passeio pela propriedade.
Subimos até ao Marco Pombalino do século XVIII, a partir do qual pudemos desfrutar da vista deslumbrante sobre as vinhas e o Douro; subimos mais um pouco até ao mirante em forma de castelo, mandado construir pelo Barão de Folgosa. Passámos pelas matas plantadas pelos monges do Mosteiro de Salzedas – as granjas monásticas, como é o caso da Quinta dos Frades, possuíam todos os recursos para serem autossuficientes. Parámos na lindíssima Casa de Chá desenvolvida entre 1943 e 1945, de acordo com o projeto da autoria do arquitecto Rogério de Azevedo, e localizada num ponto estratégico da propriedade, proporcionando uma vista panorâmica sobre a paisagem e o rio em especial.
Seguimos caminho até ao jardim do solar projetado por Jacinto de Mattos, um dos maiores jardineiros paisagistas portugueses da primeira metade do século XX. Trata-se de um jardim ao estilo romântico italiano, que se apresenta a partir da escadaria de granito de acesso ao solar, com canteiros forrados a azulejos, bancos em granito, sebes de buxo e esculturas de Soares dos Reis de finais do século XIX.
A referida escadaria em granito permite o acesso ao solar da Quinta dos Frades, o qual data de meados do século XIX e onde outrora esteve implantado o edifício habitacional destinado aos Monges de Salzedas.
São seis os novos vinhos que assinalam um dos momentos mais relevantes do percurso recente da propriedade
Sexteto de vinhos e de rótulos
Sob o tecto de madeira da sala, composta por mesa e cadeiras senhoriais, foi provado o que de novo foi feito, por dentro, e por fora da garrafa, que os olhos também bebem. O enfoque esteve na apresentação da nova imagem institucional e da nova gama de vinhos da Quinta dos Frades. Foram seis novos rótulos e seis novos vinhos já disponíveis no mercado, os quais assinalam um dos momentos mais relevantes do percurso recente da propriedade.
O lançamento marca a conclusão de um processo de renovação, que teve início em 2023, desencadeado pela família proprietária, com o objectivo de reforçar a identidade de uma das mais antigas quintas do Douro. Paralelamente, foi feito o reforço do posicionamento da marca através da reformulação da identidade visual, dos rótulos e da própria arquitectura da gama. Esta mudança coincidiu com a entrada de Diogo Lopes na liderança enológica da Quinta dos Frades. Ao mesmo tempo, a nova gama está desenhada para integrar e valorizar a Quinta do Castelo.
“A nova identidade surge como uma evolução em continuidade. O logótipo foi renovado, mantendo os símbolos históricos associados à propriedade – a cruz e a esfera armilar presentes no emblemático solar da Quinta dos Frades –, agora interpretados através de uma linguagem gráfica mais contemporânea, elegante e impactante. A nova tipografia serifada firma a ligação à história e ao património da propriedade. “No fundo, estamos a fazer o que sempre nos propusemos enquanto família: preservar o legado e preparar o futuro, honrando uma identidade e um património absolutamente únicos”, sublinha Aquiles de Brito.
A renovação da imagem estende-se igualmente à reorganização da gama, que abandona designações coexistentes com a marca principal, como Vinha dos Deuses e Vinha dos Santos, de modo a evidenciar o protagonismo da identidade Quinta dos Frades em todas as referências. A arquitectura da gama é alinhada, sobretudo, com a estratégia de valorização da marca-mãe e com o nome da propriedade, para criar maior consistência e afirmar notoriedade.
Além da marca principal, surge, agora, a linha Frades alinhada com a mesma identidade. Esta integra, por exemplo, o potencial de vinhos brancos provenientes da Quinta do Castelo, uma vez que na Quinta dos Frades a produção cinge-se exclusivamente nos vinhos tintos.
São seis os novos vinhos: Frades Colheita branco 2024, Frades Colheita tinto 2023, Frades Reserva branco 2024; Quinta dos Frades rosé 2024, Quinta dos Frades Reserva tinto 2021 e o Quinta dos Frades Vinhas Centenárias Grande Reserva tinto 2017.
“Com os vinhos Frades Colheita propomos uma abordagem a um Douro de maior frescura e elegância. Nesta referência, sem perder a identidade Frades, conseguimos potenciar, também, as melhores uvas brancas que produzimos na segunda propriedade da família, a Quinta do Castelo, no terroir de altitude de Santa Marta Penaguião. Todas as restantes referências potenciam as uvas tintas da Quinta dos Frades, em particular a expressão do património de vinhas velhas e vinhas centenárias, que se impõem com toda a autenticidade e todo o carácter. O nosso objectivo é conhecer e concretizar toda a riqueza destas vinhas, field blends de exposições diversas, com mais de 20 castas identificadas; um Douro genuíno, que construiu a reputação de vinhos de topo da Quinta dos Frades e que pode vir a dar-nos ainda mais referências de excelência”, resumiu Diogo Lopes.
Da minha parte, creio que a finalidade está mais do que conseguida. Falta agora iniciar ou, de certo modo, continuar melhor dizendo, todo aquele longo processo de consistência, ano após ano, colheita após colheita, junto do consumidor, para que este, toda e cada vez que abra uma garrafa de Quinta dos Frades, possa verdadeiramente sentir, desfrutar e saborear o terroir e identidade verdadeiramente únicos de que são feitos estes vinhos.
(Artigo publicado na edição de Setembro de 2026)
ENOTURISMO: MONÇÃO E MELGAÇO

A sub-região de Monção e Melgaço não se oferece de imediato, nem se deixa compreender pela pressa. Exige tempo, silêncio e disponibilidade interior. Talvez porque tudo ali pareça nascer de uma negociação antiga entre forças contrárias: Alto Minho e Galiza, montanha e rio, granito e vinha, calor e frescura, memória e experimentação. Durante três dias, […]
A sub-região de Monção e Melgaço não se oferece de imediato, nem se deixa compreender pela pressa. Exige tempo, silêncio e disponibilidade interior. Talvez porque tudo ali pareça nascer de uma negociação antiga entre forças contrárias: Alto Minho e Galiza, montanha e rio, granito e vinha, calor e frescura, memória e experimentação.
Durante três dias, encetei um itinerário destinado à contemplação de um território divino, localizado no extremo norte da Região dos Vinhos Verdes, convicto que tinha sido bafejado pela sorte dos deuses. Aproveitei para usufruir do Open Cellars Edition, designação administrativa que pouco dizia sobre o que realmente tive o prazer de experienciar. Não foi apenas uma sucessão de visitas, provas e refeições. Foi uma aproximação lenta a uma paisagem que parece ter sido desenhada para produzir vinho e, ao mesmo tempo, reflexão.
Ao longo do caminho, houve queijos de cabra e vinhos de montanha, provas verticais e colheitas antigas, piqueniques entre vinhas, museus, ioga ao ar livre, jantares demorados e conversas com produtores que falaram sobre o vinho como quem fala de um filho, de uma herança ou de uma promessa. No final, tornou-se difícil separar o que vinha da terra do que vinha das pessoas.
A fronteira como princípio
À medida que me aproximava de Melgaço, o território adensava-se. As encostas tornavam-se mais presentes, a vegetação mais compacta e o verde multiplicava-se. O rio Minho corre nas proximidades, separando países e unindo modos de vida.
Durante séculos, a fronteira foi simultaneamente limite e passagem. Separou administrações, mas não impediu a circulação de pessoas, palavras, mercadorias, hábitos e afetos. Entre o Alto Minho e a Galiza, a identidade foi sempre mais fluida do que as linhas desenhadas nos mapas. Os segredos das pessoas amontoavam-se, na penumbra da noite, que, durante décadas, assistiram ao passar do rio, em silêncio, em permanente troca de produtos que faziam falta do lado de cá.
Monção e Melgaço cresceram nesse cenário de contacto. Ambas partilham a história que se cruza com a própria formação de Portugal, numa relação íntima com o rio Minho e a paisagem marcada pelo trabalho persistente das suas comunidades. O território foi sendo moldado pela agricultura, pelas pequenas propriedades, pelos caminhos rurais e pelas vinhas que se adaptaram às encostas, aos vales e aos solos de granito.
Mas a fronteira não é apenas geográfica. Também existe no vinho. Só de pensar que esta era uma região de vinhos tintos, ficamos naturalmente incrédulos, pois, hoje, é um território de brancos, graças a uma casta que despontou, para se tornar a rainha: a Alvarinho.
Em Monção e Melgaço, a Alvarinho não é simplesmente uma casta. É uma forma de interpretar o mundo, de sentir a terra, de respirar a pureza das vinhas, os aromas que exalam frescura. É uma variedade que, aqui, nasce de um ponto de tensão entre maturação e frescura. A montanha protege o vale dos ventos atlânticos mais intensos, enquanto os verões quentes e secos favorecem a concentração organolética da uva. As noites mais frescas ajudam a preservar a acidez. Essas condições são particularmente adequadas à casta, permitindo a produção de vinhos elegantes, complexos e com capacidade de envelhecimento. Mas já lá iremos, até porque a chegada ao The Vinea Collection Hotel marca o início formal da viagem, durante a qual as casas dispersas, os campos cultivados e as montanhas, que parecem vigiar o vale, desenham a paisagem. O quadro é idílico.

A delicadeza das cabras felizes
Chegado ao destino, o roteiro começava com uma visita à Queijaria Prados de Melgaço. A experiência teve um nome desarmante: “Cabrinhas Felizes”. Há títulos que parecem concebidos para simplificar aquilo que é complexo. Este faz o contrário. Por detrás da leveza da expressão existe uma reflexão séria sobre o bem-estar animal, a produção artesanal, a identidade rural e a relação com o território. Afinal, as cabras não são uma atração decorativa. Fazem parte de um sistema. Alimentam-se, crescem e produzem leite numa paisagem específica, sob determinadas condições e integradas numa economia local que depende do conhecimento ao longo de várias gerações.
À mesa, os queijos de cabra eram apresentados em harmonização com vinhos das Quintas de Melgaço. O encontro revelava uma afinidade evidente: a acidez do vinho limpava a textura do queijo, a mineralidade encontrava os sabores mais terrosos e a frescura prolongava a intensidade láctea. Se mais não houvesse, este início de itinerário celestial já me tinha conquistado. Beber e comer, lado a lado, não é apenas uma questão de harmonização técnica. É uma forma de reconhecer que os produtos de um território raramente existem isoladamente. Conversam entre si, são moldados pelo mesmo clima e chegam à mesa através de comunidades que partilham ritmos semelhantes.
A gastronomia local não procura impressionar pela exuberância, mas sim pela precisão. Um queijo bem feito, um vinho servido à temperatura certa, pão, tempo e conversa constituem uma experiência mais profunda do que qualquer encenação.
A noite e arte da mesa
Ao anoitecer, a viagem prosseguiu rumo ao centro histórico de Melgaço. Destino: Adega Regional Sabino. Aqui, atravessamos uma porta que conduz a várias camadas de tempo. O presente senta-se à mesa com o passado, com a cozinha a preservar discretamente a memória e o vinho a manifestar-se um grande companheiro.
A história desta casa remonta a 1939, quando Maria José Saraiva e João António Marinho abriram uma pequena tasca. Décadas depois, o espaço tornou-se casa de pasto, servindo petiscos: cozido à portuguesa, sardinha assada, entre outros. Em 1993, após obras de remodelação e ampliação, Manuel Augusto de Castro, mais conhecido por Sabino, e Odete Amorim Costa deram um novo impulso ao restaurante, consolidando uma identidade dedicada à gastronomia tradicional do Alto Minho. Esta sucessão de vidas fica no limite entre quem recebe e quem chega, na ausência de cerimónias desnecessárias, no rumor das conversas e na convicção de que a comida deve alimentar antes de impressionar.
Na Adega do Sabino, a tradição não parecia exposta como peça de museu. Continua a ser cozinhada. À mesa chegavam entradas de porco Bísaro, símbolo da ruralidade e dos ritmos lentos de um território onde, durante muito tempo, quase nada era desperdiçado, o cabrito do monte reforçava a identidade de montanha, e o bacalhau servido com broa, um ‘fiel amigo’ que, apesar de vir de longe, faz parte da memória portuguesa com a intimidade das coisas que foram adotadas há séculos. Por encomenda, há pratos ligados ao ciclo das águas e das estações: lampreia, salmão e sável do rio Minho. Além do arroz de cabidela, ou “pica no chão”. Nas sobremesas, o bucho doce e a tacinha da casa prolongam uma refeição feita de reconhecimento e continuidade. A mesa criava um pequeno mundo provisório, dentro do qual os desconhecidos podem aproximar-se e as histórias encontram espaço para ser contadas.

Irreverência e a serenidade
Foi nessa atmosfera que a Adega do Sabino recebeu um dos jantares do itinerário por Monção e Melgaço. Os vinhos de Márcio Lopes e Dona Paterna acompanharam a cozinha da casa, construindo uma narrativa feita de sabores e conversas e colocando, frente a frente, duas maneiras de compreender o mesmo território, duas velocidades da tradição e duas gerações ligadas por laços familiares. De um lado, Márcio Lopes, o genro, com uma irreverência respeitosa, inquieta e experimental. Do outro, Carlos Alberto Codesso, da Dona Paterna, o sogro, com uma serenidade moderna inerente ao que o tempo já demonstrou.
Márcio Lopes representa a vontade de deslocar ligeiramente os limites sem romper com a origem. A sua irreverência nasce da curiosidade perante tudo aquilo que ela ainda pode oferecer. Há, nos seus vinhos, uma energia interrogativa. Que outras expressões pode assumir a casta Alvarinho? Que novas leituras podem surgir de vinhas antigas, parcelas específicas, técnicas menos convencionais ou tempos distintos de vindima e estágio? É uma irreverência respeitosa. Não procura o gesto gratuito nem a diferença pela diferença. Avança, porque estudou o caminho anterior. Experimenta, porque reconhece a força da matéria-prima e acredita que a identidade de um território não se fragiliza quando é questionada com inteligência. Pelo contrário, pode tornar-se mais nítida.
Por sua vez, Carlos Alberto Codesso ocupa outro lugar nesse diálogo. Na Dona Paterna, a tradição não surge como peso nem como nostalgia, mas como tranquilidade. É a confiança de quem sabe afirmar uma identidade. A sua modernidade manifesta-se na precisão, na consistência e na capacidade de fazer chegar ao presente uma herança sem a congelar. Há uma serenidade particular em quem trabalha a partir de referências sólidas, compreendendo que evoluir não significa necessariamente romper. Nos vinhos da Dona Paterna, a tradição parece ter encontrado uma forma contemporânea de respirar.
No final do jantar, a oposição inicial parecia dissolver-se. Havia duas formas legítimas de cuidar da mesma herança. A noite terminava sem conclusões definitivas. Se as “cabras” já me tinham conquistado, o vinho consolidou o meu pensamento: vou ser muito feliz.

Poético tempo em garrafa
Na manhã seguinte, a primeira paragem foi na Quinta do Louridal. Aqui o vinho começa numa encosta voltada para o rio Minho, entre solos graníticos, montanhas protetoras e vinhas dispostas em anfiteatro. Começa também numa memória familiar que atravessa séculos. Ali, em Melgaço, a Alvarinho assume uma forma poética. O nome da marca não é apenas uma escolha estética. Resume uma determinada maneira de produzir, familiar e profundamente ligada ao lugar.
A propriedade encontra-se na mesma família há várias gerações. Segundo a história divulgada na quinta, os antepassados trabalhavam, desde o século XVI, com a casta Alvarinho. Hoje, a sexta geração continua a atividade, dedicando cada colheita aos ascendentes. A paisagem não é apenas o lugar onde se produz o vinho. É um dos seus ingredientes.
Foi nesse cenário que a visita da Open Cellars Edition encontrou um dos momentos mais reveladores do itinerário, uma prova vertical do Poema Reserva. Colocar diferentes colheitas lado a lado permitiu observar não apenas a evolução do vinho, mas a passagem do tempo sobre o território. Numa prova vertical, cada copo documentava o respetivo ano de colheita e as suas consequências – a influência da chuva e do calor, a maturação das uvas e as decisões tomadas na vinha e na adega. A identidade mantém-se, mas nunca se repete por inteiro. Havia colheitas mais tensas, com a fruta a elevar-se, a par com a energia própria dos vinhos mais jovens, enquanto noutras a mineralidade ou a textura ocupavam o centro da narrativa. Conclusão? A Alvarinho de Monção e Melgaço não precisa de viver apenas da juventude. O Poema Reserva parecia justificar o nome, já que cada ano representava um verso escrito em condições diferentes traduzidas numa obra mais ampla.
Em suma, a Alvarinho de Monção e Melgaço demonstrava capacidade de se transformar e ganhar complexidade. Envelhecer bem não significa apenas resistir ao tempo, significa saber dialogar com ele. E um território não se define porque produz sempre o mesmo vinho. Define-se porque, mesmo variando, continua reconhecível.

Laboratório de tradição
O itinerário avançou para a Quinta de Soalheiro. A prova foi dedicada às interpretações mais experimentais da casa, num percurso em que cada vinho parecia testar uma nova possibilidade. Mais do que apresentar um conjunto de referências, a experiência revelava um método de trabalho assente na curiosidade – observar a vinha, identificar diferenças e perceber até onde a mesma casta pode ser conduzida sem perder a ligação ao lugar.
Inovação tornou-se uma das palavras mais repetidas. Serviu para descrever processos, tecnologias e produtos. No vinho, porém, inovar não significa necessariamente substituir o que existe por algo mais vistoso ou inesperado. Pode significar observar nova e aprofundadamente para aquilo que se julgava conhecido.
Na Quinta de Soalheiro, a tradição não surgia como uma fronteira destinada a impedir o avanço, funcionava como um território de investigação. O conhecimento acumulado ao longo dos anos permitia experimentar com maior precisão. Altitude, orientação das parcelas, composição dos solos, momento da vindima, fermentações e estágio tornavam-se instrumentos, para revelar diferentes identidades dentro da mesma uva.
A Alvarinho, tantas vezes apresentada como uma assinatura regional facilmente reconhecível, desdobrava-se em várias vozes. Podia mostrar tensão ou volume, contenção ou exuberância, juventude imediata ou vocação para permanecer em garrafa. A unidade não desaparecia, mas deixava de ser uniforme. A questão era descobrir quantas Alvarinhos podem existir dentro do mesmo território.
Essa inquietação constitui uma das forças da Quinta de Soalheiro. A experiência não procurava contrariar a história da região, mas ampliar o seu vocabulário. Cada ensaio parecia partir de um princípio simples: uma tradição que deixa de fazer perguntas corre o risco de se transformar numa fórmula.
A verdadeira inovação começa, por isso, antes da adega. Nasce da leitura das parcelas, da atenção às variações do clima e da consciência de que uma vinha nunca responde exatamente da mesma maneira. O produtor não impõe apenas uma ideia à matéria-prima, procura compreender o que cada lugar está disponível para oferecer.
O piquenique interrompeu o ritmo analítico da prova. Depois dos copos observados com concentração, das comparações e das explicações técnicas, o vinho regressou ao espaço para o qual, em última instância, sempre foi feito, a mesa. Ao ar livre, desaparecia parte do cerimonial associado à degustação. Essa mudança não diminuía a experiência, tornava-a mais completa. Entre as vinhas, o vinho recuperava a sua dimensão territorial. O que estava dentro do copo podia ser reconhecido na inclinação das encostas, na vegetação, no movimento do ar, na luz variável e na sucessão de relevos que define Monção e Melgaço. O piquenique mostrava também que um vinho experimental pode ser rigorosamente pensado e, ainda assim, cumprir a missão de acompanhar uma refeição e aproximar pessoas.
Talvez tenha sido esse o contraste mais revelador da visita. Na prova, os vinhos surgiam como resultado de pesquisa, decisões e riscos calculados. À mesa, tornavam-se naturais, quase inevitáveis. O trabalho desaparecia atrás da fluidez da experiência.
A passagem pela Quinta de Soalheiro revelou, assim, uma casa onde o património vitivinícola da região é assumido como ponto de partida para avançar sem apagar as pegadas do caminho. A tradição oferece a memória necessária para saber de onde se parte. A experimentação permite imaginar outros destinos.

A vila construída pelo vinho
O centro histórico de Monção também passou a protagonista deste roteiro, com a visita ao Museu do Alvarinho e pelo Museu Monção e Memória, espaço de interpretação da história da sub-região e do papel do vinho na construção da identidade local, e de oferta de outra perspetiva. Mostrou que o vinho não é apenas agricultura nem apenas bebida. É economia, símbolo, património e linguagem coletiva.
Ao longo do tempo, a Alvarinho ajudou a organizar a paisagem, definiu ciclos de trabalho, influenciou relações comerciais e projetou o nome de Monção para além das suas muralhas. Tornou-se parte da forma como a comunidade se reconhece e se apresenta.
Nos espaços museológicos, os objetos ganhavam uma densidade particular. Ferramentas agrícolas e demais objetos, documentos e imagens antigas recordavam que a realidade, hoje associada ao enoturismo, à excelência e ao prestígio comercial, nasceu de trabalho físico, repetitivo e frequentemente anónimo. Antes de o vinho ser servido em copos finos, foi transportado em cestos, pisado, prensado, guardado, negociado e defendido. Antes de se tornar narrativa, foi sobrevivência. Essa memória impede que seja reduzido a um produto de luxo desligado da terra. Mesmo nas suas expressões mais sofisticadas, permanece ligado ao esforço de quem podou no inverno, tratou a vinha na primavera, esperou durante o verão e vindimou quando chegou o momento. A história do vinho é também a história de corpos inclinados sobre a terra, de mãos marcadas, de ombros carregados, de gerações que trabalharam sem saber que, um dia, os visitantes percorreriam estas paisagens em busca de autenticidade. E esta, porém, não é um adereço turístico. É o rasto deixado pelo tempo.
Ioga entre vinhas
Na Quinta de Santiago, o itinerário abandonou por instantes a linguagem habitual do vinho. Antes dos copos, das colheitas e das explicações técnicas, houve uma sessão de ioga entre vinhas. A proposta poderia ter parecido apenas mais uma experiência desenhada para responder às novas tendências do enoturismo. No entanto, naquele momento do percurso, adquiriu outra densidade. Depois de dois dias a observar a paisagem, a provar vinhos, a registar imagens e a ouvir produtores, faltava conhecer o território através do corpo. Entre as videiras, o ritmo alterou-se. A respiração tornou-se mais consciente, os movimentos abrandaram e a atenção afastou-se da sucessão de estímulos que acompanha qualquer viagem, o chão deixou de ser apenas superfície, o ar ganhou temperatura, as folhas fizeram-se ouvir, a paisagem, até então contemplada como cenário, começou a ser percebida como presença.
O silêncio não era absoluto. Havia vento, aves, insetos e o ruído discreto da vegetação. Mas esses sons já não competiam entre si, formavam uma composição lenta, capaz de devolver ao lugar uma dimensão que as palavras, por vezes, não alcançam.
Terminada a sessão, a prova vertical de Sou ganhou uma leitura inesperada. O nome parecia ultrapassar a identidade comercial do vinho e transformar-se numa afirmação mais ampla. “Sou” remetia para origem, presença e reconhecimento. Diferentes colheitas permitiam acompanhar a passagem dos anos sobre uma mesma identidade. O vinho conservava uma linha de continuidade, mas nunca se repete por inteiro. Cada vindima transportava as condições de um ciclo, as decisões tomadas na vinha e na adega e a transformação ocorrida dentro da garrafa.
Se o “Sou” colocava em cena a permanência, “Rascunho” introduzia a possibilidade. Provar um vinho em primeur é como entrar numa narrativa antes da revisão final. O vinho ainda não tinha chegado à forma com que será apresentado ao mundo. Conservava arestas, movimentos e direções que podiam vir a acentuar-se ou a desaparecer. O nome “Rascunho” traduzia com precisão esse estado intermédio, uma obra em construção. A prova em primeur também contrariava a ideia de que o valor depende sempre de uma forma definitiva. Num setor que procura apresentar garrafas irrepreensíveis, identidades facilmente reconhecíveis, mostrar um vinho ainda em desenvolvimento é admitir que a criação inclui dúvida.
Na Quinta de Santiago, a sequência da experiência revelou uma coerência discreta. O momento dedicado ao ioga preparou o corpo para a atenção, o “Sou” falou de identidade e continuidade, e o “Rascunho” abriu espaço à transformação.

Capacidade gastronómica no prato e no copo
O segundo dia terminou no restaurante Monte da Mina, com um jantar harmonizado por vinhos da Quinta das Pereirinhas, onde a mesa assumiu uma função maior do que a de encerrar o programa, tornou-se o lugar onde todas as experiências do dia encontraram sentido. O restaurante revelou-se à altura desse momento. Na cozinha, havia rigor sem ostentação, técnica sem excesso e uma leitura segura dos sabores do território. Cada prato chegava com identidade própria, deixando espaço para o vinho respirar.
Os vinhos da Quinta das Pereirinhas apresentaram-se com clareza, elegância e consistência. Havia neles frescura, estrutura e uma definição que permitia acompanhar a refeição sem se apagar diante dos pratos. Em vez de funcionarem como simples complemento, participavam ativamente na construção do jantar, prolongando sabores, criando contrastes e abrindo novas leituras a cada serviço.
À volta da mesa reuniram-se produtores, técnicos, comunicadores e anfitriões. Cada um observava o vinho a partir de um lugar diferente. Para uns, tudo começava na vinha. Para outros, na adega, na garrafa, na comunicação ou no serviço. Havia quem pensasse no clima, quem falasse de mercado e quem reparasse apenas no instante exato em que um vinho encontrava o prato certo. Mas, naquela noite, toda esta comunidade se tornou visível.
Esse é um dos sinais de excelência de uma casa, como o Monte da Mina: saber que a experiência não depende apenas da qualidade isolada de cada elemento, mas da forma como todos se relacionam. Os vinhos da Quinta das Pereirinhas beneficiaram desse cuidado, mas também o justificaram. Mostraram equilíbrio, personalidade e capacidade gastronómica. Eram vinhos que não procuravam dominar a refeição, mas também não aceitavam ficar em segundo plano. Entravam neste diálogo com segurança, preservando as origens. Primeiro, observados. Depois, comparados. Mais tarde, partilhados. A análise técnica dava lugar à conversa, e a conversa tornava-se cada vez menos técnica. Davam voz à vinha e os convidados completavam o circuito ao provar, comentar e guardar memória. Tudo convergia para o copo. No final, sobravam pratos vazios, garrafas abertas e conversas que ainda não tinham encontrado um ponto de conclusão. Era sinal de que o jantar tinha cumprido a sua função.
Geografia em estado líquido
Na manhã do terceiro dia, a Quinta do Hospital, da Falua, surgiu como a abertura do último capítulo do itinerário. A paisagem já não era apenas observada, começava a ser reconhecida, e também o vinho deixara de ser recebido como uma sucessão de novidades.
Nos primeiros momentos da viagem, cada copo valia sobretudo por si. Era uma descoberta autónoma, ligada a um produtor, a uma parcela, a uma opção de adega. À medida que o percurso avançava, essa leitura isolada tornava-se impossível. Os vinhos começavam a formar relações entre si, como páginas de uma mesma narrativa territorial. Uma textura evocava uma colheita mais antiga, uma acidez mais firme parecia trazer consigo a frescura de uma encosta. Notas minerais faziam regressar o granito observado ao longo da estrada. O território, antes exterior ao copo, passava a existir dentro dele.
Conhecer uma região vitivinícola é construir, lentamente, uma espécie de arquivo sensorial. Esse arquivo organiza-se por associações, impressões e permanências. Um vinho pode chamar outro à memória precisamente por revelam diferenças. A prova deixa de ser um instante fechado, tornando-se um processo acumulativo.
Na Quinta do Hospital, essa aprendizagem tornou-se particularmente evidente. A visita permitiu perceber que Monção e Melgaço possui uma identidade forte. A origem comum não apaga as variações internas, torna-as mais interessantes. Mudam a altitude, a exposição solar, a proximidade do rio, a circulação do vento e a composição dos solos, mudam também as decisões humanas: o momento da vindima, o modo de prensagem, a fermentação, o estágio e o tempo concedido ao vinho antes de chegar à garrafa.
É nessa combinação entre natureza e interpretação que uma região se torna verdadeiramente legível. O território fornece a matéria, mas não escreve sozinho, precisa do olhar de quem cultiva, da experiência de quem decide e da sensibilidade de quem transforma a uva sem lhe retirar a origem. E uma garrafa não guarda o passado de forma imóvel, reorganiza-o ao longo do tempo. Na Quinta do Hospital, os copos mostravam que a identidade de Monção e Melgaço não depende da repetição de um modelo. Reconhece-se antes numa energia que atravessa expressões distintas. Há vinhos mais diretos e outros mais reservados, alguns de leitura imediata e outros que exigem tempo. Todos, porém, pertencem a uma única geografia.

Em prol do envelhecimento
A Quinta da Torre marcou a última grande paragem do itinerário. Ligada ao produtor Anselmo Mendes, traduziu-se num encontro centrado com o que o vinho consegue fazer com o passado. Envelhecimento foi, portanto, o tema. Abrir uma garrafa com vários anos continua a ser um gesto de expectativa. Por mais conhecimento que exista sobre a origem, a colheita ou o modo como o vinho foi guardado, há sempre uma margem de incerteza. A rolha é retirada, o vinho chega ao copo e o tempo, finalmente, mostra o resultado do seu trabalho. Porém, nem todas as garrafas envelhecem da mesma forma. Algumas ganham profundidade, umas aproximam-se do silêncio, outras encontram uma nova voz.
Um vinho antigo não é apenas um resistente, é uma matéria transformada. A fruta mais imediata recua, os aromas tornam-se menos óbvios e a textura pode adquirir outra gravidade. Surgem notas de cera, ervas secas, especiarias, frutos secos ou mel. A acidez, quando permanece firme, sustenta o conjunto e impede que o vinho se entregue ao cansaço. Provar colheitas antigas de Alvarinho era confrontar uma perceção ainda demasiado comum, a de que a casta deve ser lida sobretudo pela juventude, pela fruta e pela frescura imediata. Não nos esqueçamos de que estamos no território de Anselmo Mendes, o ‘Senhor Alvarinho’, que leva muito a sério o trabalho na vinha. O rigor é o seu mote no que a esta casta diz respeito e com a qual tudo é possível fazer, desde que seja feito com respeito.
A prova não celebrava a idade por si só. Uma garrafa antiga não é automaticamente uma grande garrafa. O valor estava na forma como alguns vinhos atravessaram os anos sem perder identidade. Envelhecer bem, naquele contexto, significava transformar-se sem desaparecer.
Vivemos cercados por produtos e imagens pensados para causar impacto no primeiro contacto. Contudo, o vinho envelhecido exige o oposto, não se explica depressa. Pede atenção, silêncio e disponibilidade. Obriga a abandonar a expectativa de aromas evidentes e a aceitar que a complexidade pode chegar por camadas. Por isso, a mesa da Quinta da Torre adquiriu um significado particular. O almoço prolongava a prova e retirava-lhe qualquer rigidez excessiva. Os vinhos deixavam de ser apenas objetos de análise e passavam a acompanhar a comida, a conversa e o ritmo natural da refeição.
A Quinta da Torre ofereceu, assim, uma das imagens mais completas de todo o percurso. De um lado, a paisagem e a origem. Do outro, a passagem dos anos. Entre ambas, o trabalho humano, a decisão de vindimar, vinificar, guardar e esperar. Implica resistir à pressa comercial, aceitar a imobilização de garrafas e confiar que o tempo acrescentará mais do que retira. Nem sempre é assim, mas, quando acontece, o resultado ultrapassa a simples conservação.
Após três dias entre vinhas, produtores, refeições e diferentes interpretações da casta Alvarinho, as colheitas antigas funcionavam como uma espécie de síntese. Tudo o que tinha sido observado regressava ali sob outra forma. A paisagem surgia convertida em aroma, a acidez recordava as noites frescas, a textura falava da maturação. Na realidade, as diferenças entre os anos mostravam que um território nunca se repete.
Fui profundamente feliz… voltarei.
(Artigo publicado na edição de Setembro de 2026)
ADEGAS COOPERATIVAS: Tintos de topo em ascensão

Cooperar é uma boa ideia. Mesmo os biólogos, seguindo as ideias de Darwin sobre a selecção natural e a competição, com o propósito de perpetuar os próprios genes, não deixam de enfatizar que muitas espécies passam 1% do seu tempo nessa competição, enquanto os outros 99% servem para assegurar colectivamente a segurança e o alimento […]
Cooperar é uma boa ideia. Mesmo os biólogos, seguindo as ideias de Darwin sobre a selecção natural e a competição, com o propósito de perpetuar os próprios genes, não deixam de enfatizar que muitas espécies passam 1% do seu tempo nessa competição, enquanto os outros 99% servem para assegurar colectivamente a segurança e o alimento do grupo. Cooperar significa que o grupo no seu conjunto é mais forte do que os seus indivíduos separados ou somados. Significa que em conjunto se podem assegurar recursos que podem ser usados pelo grupo, mas que cada um dos membros dificilmente conseguiria adquirir sozinho. Um exemplo simples: uma linha de engarrafamento privada só se justifica para um produtor que faça pelo menos 300 000 garrafas de vinho anualmente. Verifique na caixa abaixo a dimensão média dos viticultores, para perceber que esse é um número muito longínquo.
Desde sempre, os grupos cooperaram. Cooperar não é uma ideia de esquerda nem de direita. É apenas uma boa ideia. Uma ideia inevitável. No mundo do vinho, a primeira cooperativa registada é a Adega Regional de Colares, fundada em 1931. Em Colares, a ideia foi mais além do que unir forças, embora a especificidade do sítio bem o exigisse. Micro-terroirs e nano-produções tornavam imperativa a cooperação. Ninguém consegue fazer vinho de forma competente a partir de 15 quilos de uvas, e ainda hoje, passados quase 100 anos, é essa a quantidade que alguns produtores entregam. A adega teve, com base na lei, o direito a recolher toda a produção da DOC (antes de se designar DOC) e o dever de assegurar todas as obrigações ligadas à manutenção dos cânones ancestrais: Ramisco/Malvasia, pé-franco, chão de areia. Só assim os vinhos de Colares sobreviveram até ao presente, quando, a pouco e pouco, voltam a estar na moda, ao mesmo tempo que a sua qualidade, apoiada pela competência e sabedoria que a adega soube manter, vai melhorando a olhos vistos.
Porém, nem todas as cooperativas desempenharam este papel. Muitas outras, espalhadas por grande parte do país vitícola, foram fundadas na década de 1950. Eu mesmo, diga-se de passagem, nasci em frente a uma adega cooperativa, a das Cortes (Leiria), e lembro-me bem de ficar à janela a ver chegar as uvas, ou de acompanhar os trabalhos de recepção, há muitos, muitos anos. Entretanto, fechou e já foi demolida. Fechou, porque, à semelhança de outras cooperativas, entraram em crise. À medida que o mundo português do vinho se modernizava e melhorava em todos os capítulos, muitas adegas foram ficando para trás. Cada uma terá a sua história, no entanto acredito que a tentação dos proprietários de vinhas desenvolverem as suas próprias marcas tirou muitas uvas de qualidade das adegas. Alguns dos cooperantes passaram a guardar as melhores uvas, escoando o resto da produção para a cooperativa. Com as piores massas vínicas à disposição, e com maiores dificuldades de gestão e competição na contratação de pessoal qualificado, fazer bons vinhos tornou-se uma missão mais árdua.
Muitas vezes, são vinhos de excelente relação qualidade/preço, perfeitos para pedir num restaurante
Entrada em cena
A boa ideia continuou boa e algumas adegas mantiveram a chama acesa. Muitas cooperativas estão, agora, a festejar o 75º aniversário, uma idade bem bonita. Recordemos o Baron Philippe de Rothschild, o único que conseguiu promover um château da classificação de 1855 de deuxième cru para premier cru, com o seu Mouton-Rothschild, promovido em 1973 (aliás, péssima colheita, mas muito procurada, graças ao rótulo do Picasso); ele disse: “o mais difícil são os primeiros 100 anos.” As cooperativas estão a chegar lá. Portanto, está na altura de estar sob a ribalta.
Em palco, estiveram algumas das melhores. Quem segue os prémios anuais da Revista Grandes Escolhas sabe bem quais são. Participei muitas vezes nas reuniões onde esses prémios eram decididos e sei bem que a escolha rodeava, na maioria das vezes, as mesmas candidatas. Contudo, há alguns anos, o cenário mudou. Começaram a aparecer outras cooperativas a trabalhar muito bem e a entregar vinhos de grande qualidade, em todos os segmentos de preço. Os prémios começaram a diversificar. E ainda bem.
Exemplo das primeiras? A Adega Cooperativa de Borba, constantemente na vanguarda. Segundo Óscar Gato, administrador responsável pela enologia, poderiam ter enviado qualquer um de seis vinhos para esta prova de tintos topos de gama. Exemplo das segundas: Adega Cooperativa de São Mamede da Ventosa. Trata-se do maior produtor de vinho do país, com cerca de 20 milhões de litros anuais, e que continua a focar-se no granel. Todavia, desde 2022, sob a batuta da direcção de Nuno Silva, transformou-se. Já vende cinco milhões de litros embalados e tem planos para aumentar a quota. Além disso, a enologia de António Ventura assegura a qualidade de topo, com vinhos ambiciosos e bem definidos.
Esta prova que concebi e executei tem um pressuposto que pretendi demonstrar. Não vamos tapar o sol com a peneira, pois estas adegas mantêm o estigma: se é de cooperativa, o vinho não pode ser bom. Mas urge ultrapassá-lo. Ora, sempre vi qualidade em crescendo nos vinhos produzidos nestas cooperativas, em particular nos seus topos de gama, graças, também, ao facto de terem uma quantidade enorme de massas vínicas à disposição. Muitas vezes, são vinhos de excelente relação qualidade/preço, perfeitos para pedir num restaurante, onde o markup nos afasta dos rótulos da moda. Sejamos nós consumidores a definir o rumo do mercado.
Números
A dimensão das cooperativas em número de associados activos e total de hectares de vinha controlados:
Adega Regional de Colares:12 associados • 14 hectares
Adega Cooperativa de Borba: 220 associados • 2200 hectares
Adega Cooperativa de Cantanhede: 600 associados • 1000 hectares
Adega Cooperativa do Cartaxo: 160 associados • 820 hectares
Adega Cooperativa de Dois Portos: 100 associados • 420 hectares
Adega Cooperativa de Mangualde: 240 associados • 270 hectares
Adega Cooperativa de Penalva do Castelo: 1000 associados • 1200 hectares
Adega Cooperativa de Santo Isidro de Pegões: 100 associados • 1000 hectares
Adega Cooperativa de São Mamede da Ventosa: 400 associados • 1800 hectares
Adega Cooperativa de Silgueiros: 500 associados • 600 hectares
Adega Cooperativa da Vidigueira, Cuba e Alvito: 236 associados • 1200 hectares
CARMIM: 400 associados • 3000 hectares
(Artigo publicado na edição de Setembro de 2026)
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Caves Dois Portos
Tinto - 2020 -

Castelo de Azurara
Tinto - 2023 -

Vila de Frades 1656
Tinto - 2025 -

Adega de Penalva
Tinto - 2020 -

Adega de Pegões
Tinto - 2021 -

Foral de Cantanhede Gold Edition
Tinto - 2013 -

Desalmado
Tinto - 2020 -

Arenae
Tinto - 2017 -

Reguengos Garrafeira dos Sócios
Tinto - 2021 -

Havendo Tempo
Tinto - 2021 -

D. Daganel
Tinto - 2021 -

Adega São Mamede
Tinto - 2019
MÉDICOS PRODUTORES – Operação cirúrgica: vinha e vinho

Há semelhanças a apontar entre a medicina e a produção de vinho? É possível conciliar a prática clínica com os ciclos da vinha? Em que medida o dia a dia de um médico influencia a forma como trata as suas uvas? Quão similar é o cuidado que põe em prática no âmbito da sua especialidade […]
Há semelhanças a apontar entre a medicina e a produção de vinho? É possível conciliar a prática clínica com os ciclos da vinha? Em que medida o dia a dia de um médico influencia a forma como trata as suas uvas? Quão similar é o cuidado que põe em prática no âmbito da sua especialidade e o trabalho efetuado na adega? É um negócio autossustentável? Estas e outras perguntas foram feitas a médicos que complementam a prática clínica com a atividade vitivinícola. Outros há que se entregaram inteiramente à vinha e à produção vínica.
Entre as respostas, a capacidade de observação e o rigor são palavras-chave, para poder atuar com consistência e consciência na vinha. Acresce a higienização, tema preponderante no contexto da adega, e o fator tempo, primordial face à melhoria de um paciente e, por outro lado, à gestão da vinha, indissociável aos contratempos associados ao clima e aos ciclos da natureza, bem como, e como não poderia deixar de ser, à evolução do vinho.
No entanto, há quem se afaste da postura de médico, para encarar com serenidade as contradições intrínsecas à de um produtor, seja a viticultura a sequência de um legado traduzido numa ode aos antepassados, seja o resultado de uma paixão despertada e transformada em realidade.
Vamos conhecer António José Rodrigues, da Quinta do Mascanho (Vinhos Verdes), Jorge Tenreiro, da Quinta do Cume (Douro), António Canto Moniz, da Quinta da Leira (Dão), Manuela Carmona, da Adega 23 (Beira Interior), Lúcia e Américo Ferraz, da Souvall (Beira Interior), José Madeira Afonso, do projeto Casas Altas (Beira Interior), e Nuno Monteiro Pereira, da Quinta do Cerrado da Porta (Lisboa).
António José Rodrigues
Médico de ortopedia e produtor-engarrafador
Alvarinho é a casta eleita em exclusivo pela Ceivinhas, a sociedade vitivinícola familiar de António José Rodrigues, cuja especialidade em ortopedia foi exercida em regime de exclusividade no Serviço Público. A casta ocupa quatro hectares de vinha distribuídos por duas propriedades. Uma está localizada no lugar da Valinha, na freguesia de Ceivães, concelho de Monção, e a outra no lugar de Mascanho, freguesia de Vila e Roussas, no concelho de Melgaço. “80% das parcelas sempre pertenceram à família, tendo sido uma pequena parte, entretanto, adquirida” e “os vinhos são comercializados sob a marca Quinta do Mascanho”.
A cultura da vinha e do vinho é a atividade complementar à carreira de médico de António José Rodrigues, desde 1994. O ano coincide com o término da formação da especialidade e o regresso ao meio rural, às origens. Com esta mudança, adquire casa de família no lugar da Valinha, onde reside, e terrenos de produção de cereais e vinhas. “Com incentivo financeiro existente para reconversão de vinhas, foi efetuado o projeto de plantação de acordo com as boas práticas”, dando continuidade ao cultivo da vinha, “que vem das gerações anteriores, devidamente adaptado aos novos tempos”, explica. A comercialização dos vinhos começou em 1997 e, em 2015, acrescenta o espumante feito a partir da casta Alvarinho ao portefólio vínico Quinta do Mascanho.
“Ser médico é cuidar da vida. Ser produtor de vinho é cuidar da terra”
“Ser médico é cuidar da vida. Ser produtor de vinho é cuidar da terra.” Ambas as missões permitem o encontro do “equilíbrio entre a ciência e a tradição, entre o rigor da medicina e a arte da vitivinicultura”. E acrescenta: “produzir vinho é muito mais do que elaborar uma bebida. É preservar uma herança, valorizar o território e criar momentos de partilha à volta de uma mesa.” É, no fundo, uma enorme paixão de António José Rodrigues.
Paralelamente, o ortopedista e produtor de vinho faz a analogia do reconhecimento atribuído pelos pacientes no que às cirurgias e aos tratamentos efetuados diz respeito com a qualidade dos vinhos que produz. E o tempo é factor preponderante nas duas profissões, ou não fosse este primordial na melhoria dos pacientes e, por outro lado, necessário para o afinamento dos vinhos. “A produção do vinho é autossustentável. Evidentemente que só por si os proveitos não seriam dignos para viver”, remata.
Jorge Tenreiro
Cirurgião vascular e produtor de vinho
Da juventude, recorda o gosto pelo mundo rural, em particular pela vinha e pelas pessoas do Douro, das férias passadas numa propriedade familiar da referida região vinhateira, cuja venda deixou saudades. Anos mais tarde, concretizou o sonho de adquirir uma propriedade duriense, com cerca de três hectares, localizada no cume de Provesende, freguesia pertencente ao concelho de Sabrosa, “um terreno que muitos consideravam improvável para produzir grandes vinhos”. Um desafio, que, com o apoio da mulher, Claudia Cudell, deu início à Quinta do Cume, no final da década de 90 do século passado.
Com a passagem do tempo, adquire parcelas vizinhas, privilegiando sempre as vinhas em altitude e com diferentes exposições. Objectivo? “Construir um património vitícola diversificado e representativo do Douro”, esclarece. Atualmente, a área total da propriedade é de 25 hectares, dos quais 15 são de vinha. Rabigato, Gouveio, Viosinho e Malvasia Fina são as castas brancas em destaque. Estão plantadas em maior altitude, factor que proporciona “excelentes condições para produzir vinhos de grande frescura, precisão e longevidade”, descreve Jorge Tenreiro. Nas cotas mais baixas, estão as tintas, com especial evidência para Touriga Franca, Touriga Nacional, Tinta Roriz e Alicante Bouschet, pois é aí que “expressam muito bem a identidade do Douro elegante, quando trabalhadas com equilíbrio”, acrescenta.
A Quinta do Cume “é um projeto economicamente sustentável”, graças ao investimento efetuado no princípio, “muito antes de existirem resultados”. A par com paciência, persistência e visão de futuro, conta, desde sempre, com Claudia Cudell, responsável pela área comercial e “pela notoriedade que a Quinta do Cume tem vindo a ganhar, tanto no mercado nacional, como no internacional”.
“A medicina permite-me cuidar das pessoas. O vinho permite-me criar algo que reúne pessoas à mesa”
No entanto, a medicina permanece como a profissão principal, sendo a produção de vinho um complemento da realização pessoal de Jorge Tenreiro. Apesar das “devidas diferenças, há uma enorme responsabilidade”, avança, pois “tanto um doente como uma vinha dependem de escolhas feitas no momento certo”. Organização e uma equipa competente são vetores cruciais a considerar em ambos os casos. Afinal, “a vinha exige acompanhamento permanente, mas também exige o estímulo e a confiança nas pessoas que trabalham diariamente no terreno”, afirma Jorge Tenreiro, que faz questão de marcar presença nas vindimas, “mas o sucesso resulta sempre de um trabalho coletivo”, enaltece.
Persistência, disciplina, rigor e capacidade de observação são os princípios apreendidos no âmbito da medicina e aplicados na viticultura. “Na vinha, tal como na medicina, muitas vezes, a melhor intervenção consiste apenas em acompanhar atentamente a evolução natural e intervir quando é realmente necessário”, elucida. Na cirurgia vascular, tal como na adega, “a precisão faz toda a diferença”. Neste contexto, Jorge Tenreiro refere “o momento da colheita, a temperatura da fermentação, o tempo de estágio ou a seleção dos lotes”. Aliás, o tempo é determinante, seja na melhoria de um doente, seja na evolução de um vinho, assim como o acompanhamento e o ato de proporcionar as “condições certas, para atingir o seu melhor potencial”, embora no caso do paciente, a recuperação seja idealmente atingida o mais rapidamente possível, enquanto no vinho a evolução é lenta, quando se pretende que ganhe complexidade ao longo dos anos.
Em suma, “a medicina permite-me cuidar das pessoas. O vinho permite-me criar algo que reúne pessoas à mesa, celebra momentos especiais e transmite a identidade de um território. São formas diferentes de contribuir para a qualidade de vida”.
António Canto Moniz
Médico cirurgião oncológico e produtor de vinho
Quinta da Leira é o nome da propriedade de António Canto Moniz. Está localizada na freguesia de São João de Lourosa e estende-se para Silgueiros, no concelho de Viseu, pertencente ao território vinhateiro do Dão. A área total de vinha, com exposição norte-nascente, ronda os dez hectares. Aqui, prevalecem as castas tradicionais. “Touriga Nacional, Alfrocheiro Preto e Jaen, que são as três castas clássicas do Dão, e Tinta Roriz”, afirma. Nas brancas, constam a Encruzado, a Malvasia Fina e a Gouveio.
“A designação Quinta da Leira já é muito antiga. Vem do tempo do meu trisavô, um senhor que também se dedicou à vinha e a fazer vinho”, descreve António Canto Moniz, que refere a cultura da vinha e do vinho como dominante no passado, na região. No seguimento da história da família, a propriedade passa para o avô, Silvério Abranches, deputado na I República e o primeiro presidente eleito da Federação dos Viticultores do Dão, e, mais tarde, para a mãe, Maria da Paz Othon. Porém, é o pai de António Canto Moniz, igualmente médico cirurgião e com o mesmo nome, quem continua o legado da vinha e do vinho, tendo assumido ainda a função de presidente de uma adega cooperativa. “O meu pai fazia vinho cientificamente. Tinha tudo na adega para calcular a acidez, para calcular tudo. Apesar de não ser um analista, estudou o assunto. Aprendi a fazer vinho com o meu pai”, revela. Por conseguinte, “a história de eu, como médico, fazer vinho, é muito simples: segui a tradição dos donos das terras, que, ou continuavam ou as vendiam”, afirma. “Conheci muitos médicos filhos de antigos agricultores, porque havia uma certa tradição nos agricultores ter um filho médico, doutor. Isto no século XX”, afiança. Portanto, “ser médico e fazer vinho é mais uma relação do que se herda”, resume, assumindo que “não há relação entre medicina e entre ser vinhateiro. Tenho amor à terra, à tradição”.
Quando António Canto Moniz passa a tomar conta da Quinta da Leira, preserva a venda a granel, pois “era mais simples do que o engarrafar”. Contudo, houve quem convencesse o médico cirurgião oncológico a dispor o vinho em garrafa. Miguel Viegas Louro, proprietário da Quinta do Mouro e produtor de vinho, em Estremoz, “foi um dos que me convenceu a fazer vinho” em nome próprio “e começamos a usar barricas, que não se usavam no Dão”. Com este passo, em 2002 surge o primeiro Vinha Paz, em homenagem à mãe do produtor – o rótulo Vinha Othon está igualmente neste alinhamento.
“Fazer vinho não é muito difícil. É preciso ter boas cepas no local certo e isso já as tinha eu”
Contudo, a carreira de cirurgião oncológico permanece como atividade principal de António Canto Moniz, um dos fundadores do IPO do Porto e, posteriormente, médico do Hospital da Prelada, no Porto. “Como médico trabalhava 12 horas por dia e ainda tinha funções associativas na direção da Ordem dos Médicos, e o governo requisitava-me para entidade reguladora da saúde.” Como tinha tempo para tudo isto? “Ao fim de semana lá ia eu para Viseu, mas a cultura do vinho não era tão difícil. Hoje, sim, porque há falta de pessoal, e como não utilizamos herbicidas, mais complicado é. Mas quando se quer, consegue-se.” Além disso, “fazer vinho não é muito difícil. É preciso ter boas cepas no local certo e isso já as tinha eu”, sublinha.
No alinhamento da passagem de testemunho entre gerações, numa sociedade constituída com os filhos, a meio da primeira década do século XXI, entrega a pasta a Henrique Canto Moniz, que “há, mais ou menos, 15 anos passou a tomar conta do negócio”, isto é, assume o cargo de gerente. “Agora, é o meu filho que trata de tudo”, contando com o apoio de João Paulo Gouveia, na viticultura, e de Carlos Silva, na enologia. É ainda responsável pela exportação para a América, Suíça, Bélgica, Noruega, países nomeados por António Canto Moniz, que considera o negócio do vinho autossustentável, “na medida em que dá emprego ao meu filho e concretiza dinheiro que se reinveste na vinha”.
Em suma, ser produtor de vinho tem a ver com “uma certa devoção à minha infância”, declara António Canto Moniz, recordando-se que em setembro, ia para a quinta, por ser a época das colheitas. “E na altura da vindima também, enquanto o mês de agosto era passado na praia. Lembro-me do meu pai fazer a vindima em outubro. Eu também fiz vindima em outubro, mas agora é tudo muito mais precoce.” Nas palavras do médico cirurgião oncológico, esta mudança deve-se às alterações climáticas. E face à atual crise no vinho? “Nós cá vamos aguentando.”
Manuela Carmona
Médica oftalmologista e produtora de vinho
A proximidade de uma autoestrada, a A23 é o mote para o nome da casa produtora de vinhos de Manuela Carmona, a Adega 23. Está localizada no limite dos concelhos de Castelo Branco e de Vila Velha de Ródão, e a inauguração acontece em 2018. Mas a ligação à região vitivinícola da Beira Interior remonta ao seu nascimento, sendo Manuela Carmona natural de Castelo Branco, onde viveu até concluir o liceu. Apesar da formação em medicina acontecer em Lisboa, com os anos acaba por conquistar uma relação permanente com as suas origens, mediante as quais o vinho é feito apenas para consumo próprio.
Portanto, a paixão pela cultura do vinho surge anos mais tarde, após ter recebido Le Grand Larousse du Vin. Com tempo e dedicação, o gosto por este produto evoluiu para o desenvolvimento do projeto Adega 23, em 2013. Em 2015, são plantadas as primeiras vinhas e, dois anos depois, são lançadas as primeiras colheitas. Inicialmente, o negócio do vinho teve a medicina como pilar no contexto financeiro. “Hoje, está equilibrado e autossustentavel”, assegura.
“Provar os vinhos das cubas e analisar a sua evolução é um fantástico exercício para estimular os sentidos e a memória”
“É como viver intensamente várias vidas numa só. Uma forma de descansar de uma profissão com uma atividade diferente. É salutar e refrescante”, começa por explicar Manuela Carmona a forma como vivencia os dois mundos, o da medicina com o do vinho. Ainda a respeito deste último, faz questão de salientar a eficácia desta cultura: “andar no campo pelo meio da vinha, aceitar a natureza e o seu tempo é retemperador. Provar os vinhos das cubas e analisar a sua evolução é um fantástico exercício para estimular os sentidos e a memória.”
Para a médica oftalmologista, tanto a medicina como a vitivinicultura “existem a pensar nas pessoas”. A primeira incita “a resolver problemas, encontrar soluções e decidir rapidamente, e, muitas vezes, sob pressão”, argumenta, acrescentando a viabilidade dessa aprendizagem, a qual lhe permite encarar os problemas na vinha e na adega. De uma forma geral, “são duas áreas desafiantes”, na medida em que exigem rigor e atenção a cada pormenor. Contudo, “não há dois doentes iguais nem duas vindimas iguais”, o que obriga Manuela Carmona a conviver com a imprevisibilidade e a diversidade.
Por outro lado, enquanto médica, destaca o rigor, a segurança e a rapidez face a cada diagnóstico, destacando o valor da saúde, pois “o erro tem consequências” e a perda “pode ser devastadora”. Este comportamento repete-se frente aos imprevistos na vinha e na adega, mas Manuela Carmona prefere encarar estas contrariedades de forma serena.
O desvelo na adega é comparável com o que põe em prática no âmbito da especialidade, em particular no bloco operatório. Organização, rigor e higiene estão no topo da lista das exigências estabelecidas em ambos os casos, pois “a saúde depende muito do que fazemos – alimentação, estilo de vida, hábitos”. Por conseguinte, o trabalho de campo é proporcionalmente primordial para a qualidade do vinho, ou não fossem necessários ter “vinha saudável, boas uvas, vindima manual e no momento certo”.
Em jeito de conclusão, Manuela Carmona fala sobre o papel do vinho em várias áreas, ao longo de milénios, bem como na atualidade: “na medicina foi desinfetante, anestésico, analgésico, anti depressivo. Na oftalmologia , as propriedades antioxidantes recomendam-no para prevenir o envelhecimento da retina.”
José Madeira Afonso
Médico radiologista e produtor de vinho
Casas Altas é nome indissociável a José Madeira Afonso. Natural de Coimbra, passa muitas das férias de verão ao Souropires, no concelho e sub-região de Pinhel, distrito da Guarda, pertencente ao território vinhateiro da Beira Interior, onde mantém a casa de família, onde, em tempos idos, viveu a avó materna, e as propriedades da família.
A formação em medicina ocorre na cidade natal e em Lisboa, mas primeiramente estudou na Escola de Regentes Agrícolas de Coimbra e de Santarém. Com o canudo na mão, vive e exerce medicina na Noruega, tendo sido a Escandinávia o ponto de partida para o gosto pelo vinho. O primeiro vinho produzido data de 1994; é feito a partir de uvas vindimadas na propriedade da família, então na posse do pai.
A sustentabilidade financeira do negócio do vinho é visto “com muita dificuldade. A jardinagem é um luxo que não sei se será possível sustentar”
Dos solos graníticos e às grandes amplitudes térmicas, José Madeira Afonso tira os proveitos, para dar primazia às castas regionais – Fonte Cal, Síria, Verdelho e Malvasia, nas brancas; Rufete, Baga e Touriga Nacional, nas tintas –, pois estão mais adaptadas e “são as que dão menos problema”. A estas, junta variedades d’além-fronteiras: Chardonnay e Riesling. Ainda acerca da vitivinicultura, não considera esta missão um complemento ou uma alternativa à medicina. “É, antes, a procura do ‘paraíso’ na terra, criando o local paradisíaco, as vinhas” e “uma fuga ao quotidiano”. Finda a atividade médica há cerca de cinco anos, a vitivinicultura passa a ser uma missão “a tempo inteiro”, tarefa apaixonante, com destaque para a origem das uvas, o estado de maturação, o processo de fermentação, entre outras etapas de cada processo na vinha e na adega. No entanto, “na vinha e na adega não sou médico, sou viticultor”, embora haja necessidade de “diagnosticar os problemas ou doenças em tempo útil, e tratar de forma adequada, sobretudo sem causar mais mal”, afirma. E tal como na medicina, “a adega também exige calma, reflexão e muita higiene”. Quanto à evolução de um vinho, “é preciso ter condições” para melhorar com o tempo.
Porém, a sustentabilidade financeira do negócio do vinho é visto “com muita dificuldade. A jardinagem é um luxo que não sei se será possível sustentar. Claro, que este problema não é só dos médicos”, remata.
Lúcia e Américo Ferraz
Médicos dentistas e produtores de vinho
A história começa com Álvaro Ferraz e Maria Fernanda Ferraz, pais de Américo Ferraz, e as suas vinhas em Vale Flor, na União das Freguesias de Vale Flor, Carvalhal e Pai Penela, concelho de Mêda, distrito da Guarda e integradas na região vitivinícola da Beira Interior. Esta profunda ligação à terra, à vinha e ao vinho é “familiar, emocional e identitária” e “representa uma herança feita de terra, trabalho, memórias e valores”, descreve Lúcia Ferraz. Por outro lado, “a produção de vinho é uma atividade real, exigente e com responsabilidades muito concretas”.
Com precisão, dedicação, responsabilidade e atenção ao detalhe, o casal Lúcia e Américo Ferraz decide “dar uma nova dimensão a essa herança” através da construção de uma adega moderna e da criação das condições necessárias, para desenvolver um projeto vitivinícola centrado na produção de vinhos “com maior rigor, consistência e identidade”.
Porém, a medicina dentária permanece no epicentro da atividade profissional de ambos: “não se tratou de abandonar a medicina dentária, mas de fazer coexistir duas vocações: cuidar de pessoas e cuidar de um património familiar e agrícola.” Mesmo assim, Lúcia Ferraz anuncia a existência de mais semelhanças entre ambas as profissões, com a condição de “observar, interpretar, prevenir e intervir no momento certo”. Isto é, “um médico não pode olhar apenas para um sintoma isolado; tem de compreender a pessoa no seu todo”. Na vinha, também é fundamental conhecer o todo: “o solo, o clima, a exposição solar, o comportamento de cada casta e a evolução de cada parcela ao longo do ciclo vegetativo.” Lúcia Ferraz enfatiza o conhecimento científico, a experiência e a capacidade de decisão como fatores comuns às duas missões do casal, mas impera sempre o respeito pelo tempo: “podemos acompanhar, orientar e criar melhores condições, mas temos de respeitar os seus ritmos.”
Conciliar a medicina com os ciclos da vinha é tarefa que carece de “planeamento e uma equipa de confiança”. Afinal, as fases de trabalho na vinha não podem ser adiadas, exigindo disponibilidade no momento da poda, dos tratamentos, do controlo do desenvolvimento vegetativo e da vindima, “pelo que procuramos antecipar cada fase do calendário vitivinícola e acompanhar de perto as decisões mais importantes”, informa Lúcia Ferraz. Para o efeito, são distribuídas responsabilidades, mantida a comunicação com a equipa e feito o acompanhamento da evolução de cada etapa. O mesmo se aplica na medicina dentária no que há disponibilidade diz respeito. Como complemento, Lúcia e Américo Ferraz implementaram a necessidade de observar, fazer uma leitura minuciosa das causas e apostar na prevenção. “Tal como na saúde, prevenir é, geralmente, mais eficaz do que tentar corrigir um problema numa fase avançada”, justifica a médica dentista, daí que cada casta seja tratada de forma diferente e se procure compreender as necessidades de cada parcela. Em contrapartida, “prática clínica exige concentração permanente, decisões rápidas e uma grande responsabilidade perante cada pessoa”; enquanto a vinha ensina a esperar em função do ritmo das estações. “Esse contacto com a terra ajuda-nos a recuperar energia e a relativizar algumas das tensões do quotidiano clínico”, resume, embora haja uma constante incerteza em relação ao clima, à mão de obra e às decisões de investimento inerentes à atividade agrícola.
“Tal como na saúde, prevenir é, geralmente, mais eficaz do que tentar corrigir um problema numa fase avançada”
Na adega, e à semelhança do desempenho profissional do casal, “trabalhamos frequentemente à escala do milímetro. A precisão, a higiene, o controlo dos procedimentos e a escolha dos materiais são determinantes para o resultado final”. Além de que, a qualidade do vinho depende, para Lúcia Ferraz, da prática estabelecida no momento da vindima e do procedimento na adega. “Um pequeno desvio numa destas fases pode alterar significativamente o resultado”, destaca. Sem descurar a estética comum às duas práticas: “na medicina dentária procuramos aliar saúde, função e harmonia; no vinho procuramos equilíbrio, autenticidade e prazer sensorial.”
Sobre a sustentabilidade financeira, Lúcia Ferraz afirma que o projeto “ainda não atingiu plenamente esse objetivo”, pois depende da atividade na medicina dentária para suportar os custos inerentes à vinha e à produção de vinho. “O nosso objetivo é que o projeto se torne progressivamente autossustentável, preservando uma visão de longo prazo. Mais do que produzir em quantidade, queremos consolidar uma marca credível, associada à qualidade, à família e ao território da Beira Interior”, sustenta.
No contexto odontológico, Lúcia Ferraz aponta para o facto de o vinho ser uma bebida ácida. Logo, “a exposição frequente ou prolongada aos seus ácidos pode contribuir para a erosão do esmalte dentário. No caso dos vinhos tintos, os pigmentos e os taninos também podem contribuir para o aparecimento de manchas superficiais, sobretudo em pessoas com maior predisposição ou com acumulação de placa bacteriana.” Por conseguinte, após a ingestão de vinho, Lúcia Ferraz aconselha a beber água e escovar os dentes 30 minutos depois, bem como recorrer regularmente ao médico dentista. “O vinho pode fazer parte de momentos de convívio, gastronomia e cultura, mas deve ser sempre consumido com moderação.”
Nuno Monteiro Pereira
Médico urologista e produtor de vinho
“A reviravolta começou quando tinha cerca de 45 anos. Exercia urologia em Lisboa, com uma atividade muito intensa entre o hospital público e a prática privada. Senti então a necessidade de equilibrar essa vida profissional com um projeto completamente diferente, que me permitisse fugir ao ritmo da cidade e concretizar um antigo sonho: produzir espumantes e vinhos tranquilos.” Tomada a decisão, Nuno Monteiro Pereira procurou, durante um ano, pela propriedade ideal, “com potencial vitícola e espaço para construir uma casa, uma adega e plantar a minha vinha”, de preferência próxima da capital. A extensiva procura levou o médico urologista a optar, em dezembro de 1996, pela aquisição de uma casa rural do século XVIII, “então bastante degradada, rodeada por cerca de quatro hectares de terreno, incluindo uma velha vinha”, conta. Está localizada no lugar da Patameira, concelho de Sobral de Monte Agraço, pertencente ao território vinhateiro dos Vinhos de Lisboa. Chama-se Quinta do Cerrado da Porta.
O projeto vitivinícola começou em 2011. As vinhas são plantadas em 2012 e 2013 e as castas “selecionadas em função da orografia, da exposição das encostas e das características do clima atlântico da região”: Arinto, Chardonnay, Moscatel Graúdo, Touriga Nacional, Pinot Noir, Syrah, Merlot e Castelão. A estreia na vindima ocorre no ano de 2015 e no engarrafamento acontece em 2016. Um ano mais tarde é dado início à comercialização. A vinha ocupa uma área de 13 hectares. O portefólio vínico divide-se em quatro rótulos: Troviscal (vinhos tranquilos e grandes reservas), Peripécia (monocastas), Quinta do Cerrado da Porta (espumantes) e Capicua (licorosos e colheita tardia).
Sobre os pontos comuns entre a medicina e a produção de vinho, refere a necessidade de ter “paciência, respeito pelos seus ritmos e a consciência de que nem tudo pode ser acelerado”. Paralelamente, há um exigente “estudo permanente, a atualização técnica, o rigor, a disciplina e uma grande capacidade de adaptação”, sendo as pequenas decisões cruciais, uma vez que “podem ter consequências importantes”. Por esse motivo, durante o período em que conciliou a medicina com a prática agrícola teve de instituir “uma gestão muito rigorosa do tempo”, porque “a vinha não espera”. Perante esta realidade, durante muitos anos, recorre a empresas especializadas.
“Na medicina lutamos contra o tempo. No vinho aprendemos a trabalhar com ele”.
A mesma necessidade imperiosa ocorre na época das vindimas, o que o obriga a reagendar consultas, entre outros compromissos profissionais. Atualmente, acompanha e põe em prática as recomendações do viticultor Amândio Cruz, “e isso permite-me um controlo muito mais próximo e fiável”, salienta. E acompanha o trabalho de campo e na adega sob a orientação da enóloga Alexandra Mendes. “Quando olho para trás, pergunto-me, com alguma surpresa, como consegui conciliar durante tanto tempo duas atividades tão absorventes.”
“Observar, estudar, medir e decidir com base na evidência disponível” fazem parte da prescrição de Nuno Monteiro Pereira face à viticultura. Apesar de ter igualmente maleitas, não faz questão “de olhar para a vinha como um doente”, pois há que respeitar o próprio ritmo da videira. E à semelhança do que acontece no bloco operatório, a higiene “é uma condição absoluta” no que toca ao trabalho efetuado na adega. “A limpeza, o controlo microbiológico e o respeito pelas boas práticas são determinantes para o resultado final”, independentemente dos objetivos.
A respeito das semelhanças encontradas entre a medicina e a produção de vinho, Nuno Monteiro Pereira é peremptório: “felizmente poucas e isso é uma boa notícia.” O fascínio advém precisamente das diferenças que encontra neste mundo do vinho: “a medicina, e particularmente a cirurgia, intervém e transforma na permanente procura de devolver a saúde às pessoas; a produção de vinhos procura respeitar e valorizar aquilo que a natureza produz.” Em relação ao fator tempo, enquanto médico, o objetivo é o doente recuperar “melhor e o mais depressa possível. Já um grande vinho necessita de tempo para revelar toda a sua complexidade. Na medicina lutamos contra o tempo. No vinho aprendemos a trabalhar com ele”, elucida.
Em todo o caso, Nuno Monteiro Pereira manifesta preocupação com o consumo excessivo de álcool, uma vez que “aumenta a produção de urina e pode agravar sintomas urinários em algumas pessoas”, daí que defenda a integração moderada de vinho “numa alimentação equilibrada e num estilo de vida saudável”. Portanto, “enquanto médico, sempre aconselhei moderação. Enquanto produtor, continuo a defender exatamente o mesmo”.
No âmbito da sustentabilidade financeira deste negócio associado ao vinho, Nuno Monteiro Pereira declara que a medicina “permitiu suportar os maiores investimentos na vinha e na adega. Já reformado, o projeto procura ser economicamente sustentável”, com uma produção entre 1300 e 5000 garrafas por referência, as quais se destinam “exclusivamente ao mercado nacional, através de garrafeiras e restaurantes selecionados”.
(Artigo publicado na edição de Setembro de 2026)
INFINITUDE: Perspectivas infinitas

Para Maria d’Assunção Osório de Vasconcelos, da Távora-Varosa, e Jorge Jardim Gonçalves, da Madeira, o cultivo da vinha fazia parte da tradição familiar. Por influência destas memórias, na propriedade que adquiriram em Galamares, a Quinta da Azenha, plantaram também vinha, em 2000. As castas foram escolhidas ao gosto pessoal da família: Pinot Noir e Merlot. […]
Para Maria d’Assunção Osório de Vasconcelos, da Távora-Varosa, e Jorge Jardim Gonçalves, da Madeira, o cultivo da vinha fazia parte da tradição familiar. Por influência destas memórias, na propriedade que adquiriram em Galamares, a Quinta da Azenha, plantaram também vinha, em 2000. As castas foram escolhidas ao gosto pessoal da família: Pinot Noir e Merlot. Inicialmente pensada como elemento do jardim, e não com o propósito de produzir vinho para comercialização, a vinha acabou, como tantas vezes acontece, por dar origem a um negócio e a uma marca: Infinitude.
Mas vamos por partes. Os primeiros vinhos foram produzidos a partir de 2010, ainda exclusivamente para consumo da família. Em 2017, a Infinitude apresentou as suas primeiras referências no mercado. Dos cinco filhos do casal, o mais novo, Rodrigo Jardim, acompanha o projecto desde o início.
Com o tempo, o projecto foi amadurecendo e tornou-se evidente a necessidade de integrar uma pessoa com experiência nas áreas da enologia e da viticultura, a tempo inteiro, que assumisse responsabilidades e contribuísse para a definição da sua estratégia e posicionamento. Em 2024, João Lino assumiu as funções de director-geral e enólogo, dando um novo impulso à profissionalização do projecto.
No ano seguinte, a produção passou de cerca de 5000 para 16 000 garrafas. “Sempre houve mais uva, mas nunca se engarrafou tudo o que se produzia”, explica João Lino, adiantando que, este ano, poderão chegar às 40 000 garrafas. O aumento da escala é, para o director-geral, também uma forma de ganhar visibilidade: “tem que haver alguma massa crítica para as pessoas começarem a conhecer a marca.” O objectivo é que essa notoriedade chegue ao consumidor, para que passe a procurar os vinhos da Infinitude: “eventualmente, o momento-chave é quando o consumidor final começar a pedir o nosso vinho, não só a restauração.”

Devoção a castas francesas
As cinco vinhas representam pouco mais de cinco hectares, a maior parte dos quais ocupados por castas estrangeiras. E é aqui que se impõe uma breve digressão histórica, pois existe a pressuposição de a presença de variedades francesas na zona de Sintra e Colares ser mais antiga do que se pensa.
O historiador Visconde de Juromenha, na sua obra Cintra pinturesca, ou Memória descritiva das villas de Cintra, Colares e seus arredores, de 1838, refere a intenção de D. Afonso III de promover a cultura da vinha, em 1255, na região de Sintra e Colares, numa altura em que o rei administrava e reorganizava activamente o património régio desta zona. Juromenha conjectura que, nessa ocasião, o monarca poderá ter introduzido cepas originárias de França.
Embora não possa ser dada como comprovada, a hipótese encontra algum fundamento indirecto no contexto histórico. Antes de subir ao trono, D. Afonso III viveu vários anos na corte francesa e a sua primeira mulher, D. Matilde II, era uma aristocrata pertencente à linhagem dos reis de França. O seu reinado assim ficou marcado pela influência francesa, o que torna plausível a possibilidade de castas oriundas daquele país terem chegado à região ainda no século XIII.
Voltando às vinhas, tudo começou na Quinta da Azenha. São cerca de dois hectares, plantados em chão rijo, onde predominam Pinot Noir e Merlot. Seguiu-se a Quinta do Torrado, não muito longe dali, com cerca de 2,5 hectares plantados em 2019. Para além de Pinot Noir e Merlot, a parcela inclui ainda Riesling, Sémillon e Chardonnay. Com apenas meio hectare, a vinha do Casalinho, plantada em 2000 apenas com Merlot, está rodeada por pinheiros, sobreiros, cedros e eucaliptos. A uva daqui, com um perfil mais fresco, é destinada à produção de rosé.
Na encosta da Serra de Sintra fica a pequena vinha da Boca da Mata, na aldeia do Penedo, a cerca de 100 metros de altitude. É a mais elevada de todas, está em agricultura biológica e é exclusivamente plantada com a casta Sémillon.
Praia seca de Ramisco e Malvasia
E, por fim, há um hectare de chão de areia, com Malvasia e Ramisco, a menos de um quilómetro do mar. O terreno foi adquirido precisamente com a finalidade de plantar estas castas e incluir, no portefólio, uma referência que represente a cultura vitivinícola da região.
A vinha passou a ser conhecida como ‘Praia Seca’, nome dado pelos filhos de Rodrigo Jardim, que viam a areia sem o mar. Foi plantada em 2020, de forma tradicional, em pé-franco, abrindo-se valas com cerca de cinco metros de profundidade. Um processo trabalhoso, que exige tempo até as videiras se estabelecerem e começarem a produzir.
Em 2024, aqui fizeram a primeira vindima, mas a produção foi ainda muito reduzida e as plantas apresentavam bastante heterogeneidade. “No ano passado, só fizemos cerca de uma tonelada por hectare. Mas sinto que este será um ano de maior produção”, afirma João Lino.
A produção em modo biológico aqui não funciona. O director-geral refere-se à praga do pulgão que afecta as folhas da videira: “se fosse em biológico, não conseguíamos dar a volta, quase que tínhamos de estar aqui dia sim, dia não a tratar a vinha”. Outra dificuldade são os pinheiros à volta da parcela, cujas raízes prejudicam as videiras devido à competição por água e nutrientes. Nas vinhas novas, plantadas em solo de areia, esta disputa deixa as videiras em desvantagem. A solução passa pela poda regular das raízes dos pinheiros, de forma a proteger a vinha.
Para ser sustentável, a vinha tem de produzir o máximo possível, desde que não comprometa a qualidade dos valores da marca
Qualidade sustentável
Dada a dimensão e a topografia das vinhas, quase todos os trabalhos de viticultura na Infinitude são manuais, com excepção da mobilização do solo e do corte da erva. No que toca à produção de vinho, ambição e pragmatismo não são conceitos contraditórios; pelo contrário, complementam-se. É isso mesmo que ressalta da conversa com João Lino e da prova dos vinhos.
Na viticultura, não seguem uma abordagem fundamentalista, privilegiando antes uma visão pragmática da sustentabilidade, como explica o enólogo: “a qualidade tem de ser top. Mas a produção tem de ser sustentável. Tem de se pagar, tem de criar emprego. E tem de haver uva. Porque, se estamos a tratar a vinha, a gastar gasóleo, produtos fitossanitários, mão de obra e de repente não sai uva… Então nem é ambiental.”
Há vinhas que produzem 12 toneladas por hectare, outras produzem oito, e as do chão de areia ainda nem chegam a duas toneladas por hectare. A produtividade varia bastante em função das características de cada vinha, mas a lógica é a mesma em todas: “para ser sustentável, a vinha tem de produzir o máximo possível, desde que não comprometa a qualidade e os valores da marca.”
O momento-chave é quando o consumidor final começar a pedir o nosso vinho
Adega à medida
No início do projecto, os vinhos eram vinificados na Adega Regional de Colares, sob a orientação enológica de Francisco Figueiredo. Mais tarde, porém, tornou-se evidente a necessidade de dispor de uma adega própria, que permitisse maior controlo sobre todo o processo de vinificação.
Como não havia espaço na propriedade para construir uma nova adega, e a burocracia na região de Sintra não facilitaria o processo, aproveitaram duas garagens, que foram unidas e devidamente equipadas. Nasceu, assim, uma adega à medida do projecto, com capacidade para vinificar 50 000 litros por ano, número mais do que suficiente para a meta de 40 000 garrafas previstas para este ano. Privilegiou-se a funcionalidade em detrimento da beleza. Os depósitos foram dimensionados para o espaço e dispostos de forma a permitir “que uma pessoa sozinha, sem a ajuda de outra, consiga facilmente trabalhar aqui”.
No fundo, o Infinitude é um projecto garagista requintado, já com alguma dimensão que, agora, exige uma estratégia comercial à altura.
De Sintra, de Colares e os Indie
A estratégia assenta em três gamas de vinhos bem definidas. A primeira é a Infinitude, com um conjunto alargado de referências, todas provenientes de chão rijo. São vinhos de castas internacionais que “espelham muito bem a região de Sintra” apresentados em blends ou, nos topos de gama, em versões monovarietais. São bases da marca que abrangem diferentes perfis de consumidor.
A segunda, com raízes na tradição vitivinícola da região, é dedicada aos vinhos DOC Colares produzidos a partir de Ramisco e Malvasia em chão de areia. A terceira reúne referências ‘Indie’: vinhos independentes, de capricho e fora da caixa, que não têm de seguir as regras das linhas essenciais da marca, “mas são coisas que achamos que podem fazer sentido”, explica João Lino.
Entre chão rijo e chão de areia, tradição e experimentação, abre-se uma infinitude de perspectivas, não fosse este, afinal, o nome da marca.
(Artigo lançado na edição de Setembro de 2026)
QUINTA DAS HERÉDIAS: Entre o passado e o futuro

Há lugares na Região Demarcada do Douro onde o silêncio não é apenas a ausência de som, mas sim uma densa acumulação de história, sussurrada pelo vento que corre entre os vales alcantilados. Quando nos aproximamos das encostas abruptas que desenham o vale do rio Távora, no concelho de Tabuaço, deparamo-nos com uma paisagem que […]
Há lugares na Região Demarcada do Douro onde o silêncio não é apenas a ausência de som, mas sim uma densa acumulação de história, sussurrada pelo vento que corre entre os vales alcantilados. Quando nos aproximamos das encostas abruptas que desenham o vale do rio Távora, no concelho de Tabuaço, deparamo-nos com uma paisagem que desafia a gravidade e a própria persistência humana. Na freguesia de Granjinha, onde se ergue a Quinta das Herédias, uma propriedade mítica de 108 hectares de área total que, após enfrentar anos de esquecimento, abandono e pilhagens, vive agora, em pleno ano de 2026, o seu definitivo e mais ambicioso renascimento vitivinícola e patrimonial.
Longe de ser apenas a recuperação convencional de uma marca de vinhos, o que aqui se testemunha é uma autêntica operação de arqueologia agrícola e de resgate cultural. Na linha da frente deste ressurgimento está Carlos Lucas, uma das figuras mais consagradas e respeitadas da enologia nacional. Secundado por uma equipa determinada, o reputado enólogo liderou um processo que testou os limites do isolamento humano, tudo com um objetivo claro: devolver o brilho e a dignidade a um terrunho de exceção que o tempo e o abandono teimavam em apagar.
Nesta reportagem, mergulhámos nas profundezas históricas de uma propriedade que já foi o sustento de monges cistercienses, pertenceu a famílias ligadas ao regicídio e à coroa, e hoje posiciona-se na vanguarda do setor, com um investimento robusto focado na elegância, no dinamismo, na excelência vínica e na fulgente hotelaria.
Numa ironia genealógica sem paralelo, a árvore da família une o sangue de um conspirador do regicídio de 1908 e a representação da família real portuguesa
O manto de Cister e os senhores de Távora
Para compreender a história e o espírito da Quinta das Herédias, é obrigatório recuar no tempo, até à época em que as fundações de Portugal ainda se consolidavam. A análise toponímica e os pergaminhos eclesiásticos revelam que a atual povoação de Granjinha nasceu diretamente sob a égide e a influência económica dos monges cistercienses, do Mosteiro de São Pedro das Águias.
O que começou por ser uma estrutura rústica e rudimentar, estritamente destinada a garantir a autossuficiência alimentar do mosteiro, expandiu-se com o passar das décadas, ganhando relevância demográfica e económica até se transformar numa paróquia autónoma.
A transição para a esfera secular começou a desenhar-se nos séculos seguintes. No ano de 1537, de acordo com os registos históricos, estes terrenos e o antigo concelho de Paradela, no qual a localidade da Granjinha se inseria, encontravam-se sob o domínio senhorial de Luís Álvares de Távora. Estendendo a sua influência por quatro séculos, a propriedade conhecida como Quinta das Herédias foi identificada nos arquivos históricos por diferentes nomenclaturas, dependendo dos contratos e das famílias que a exploravam. Surgiu frequentemente documentada como “Quinta do Aranda” ou “Quinta de Pontezellos”.
Durante este vasto período, o Mosteiro de São Pedro das Águias manteve a propriedade direta da terra, mas adotou a estratégia de arrendar sistematicamente as suas parcelas a famílias nobres e a lavradores influentes da região. Foram estes homens e mulheres que, desafiando a inclinação vertiginosa das encostas, testaram as primeiras e primitivas técnicas de armação do terreno em socalcos. Sem a maquinaria moderna, erguendo pedra sobre pedra em muros de xisto seco, tornaram viável a cultura sistemática da vinha e do olival em declives de extremo rigor geométrico, moldando a paisagem que hoje define a identidade visual do Douro.
Política, regicídio e sangue real
A transição da propriedade para a estrutura fundiária moderna e a consequente atribuição do nome pelo qual é reconhecida hoje nos mercados internacionais, Quinta das Herédias, ocorreram na sequência da extinção das ordens religiosas em Portugal, decretada pelo governo liberal em 1834. Com a nacionalização em massa dos bens da Igreja Católica, a antiga Quinta do Aranda foi colocada à venda em hasta pública pelo Estado, transitando definitivamente para o domínio da alta aristocracia secular.
A primeira proprietária privada da propriedade foi D. Leonor Amália Falcão Sarmento, descrita de forma unânime nos arquivos paroquiais e nos registos genealógicos da Beira Douro como a última legítima descendente do ramo da família Herédia que se estabelecera naquela região. O apelido Herédia foi originalmente introduzido em Portugal por D. António de Herédia, natural de Ávila, em Castela. Este capitão militar entrou no país no ano de 1580, integrando o exército do Duque de Alba, durante a crise de sucessão dinástica. Ao longo dos séculos subsequentes, os seus descendentes dividiram-se em fações ideológicas opostas, oscilando entre a lealdade cega à coroa absolutista e o republicanismo radical, gerando figuras de enorme relevância histórica nacional. Francisco Correia de Herédia Júnior, elevado a 1.º Visconde da Ribeira Brava, foi um destacado e influente político republicano na transição do século XIX para o século XX. Rompendo com as origens monárquicas da sua linhagem, tornou-se um dos conspiradores ativamente envolvidos no planeamento e na execução do regicídio de 1908, o atentado no Terreiro do Paço que vitimou o rei D. Carlos I e o Príncipe Real D. Luís Filipe.
Numa ironia genealógica e histórica sem paralelo, a bisneta do revolucionário Visconde da Ribeira Brava, Isabel de Herédia casou-se, em 1995, com Duarte Pio de Bragança, o atual pretendente ao trono português, assumindo o título de Duquesa de Bragança. Os seus descendentes unem de forma indissociável na mesma árvore genealógica o sangue da antiga aristocracia proprietária de terras no Douro, o legado histórico de um conspirador regicida e a representação contemporânea da antiga família real portuguesa.
Com o país paralisado pela pandemia, a equipa viveu em isolamento absoluto na quinta, dedicada exclusivamente a resgatar vinhas centenárias
A era de Carlos Lucas
A entrada de Carlos Lucas na história da Quinta das Herédias marca o início de uma das operações de resgate agrícola, enológico e patrimonial mais complexas e dispendiosas da história recente da Região Demarcada do Douro. Carlos Lucas, natural de Coimbra e licenciado em Enologia, é uma figura amplamente consagrada no panorama vinícola nacional, acumulando mais de 25 anos de experiência.
Após fundar, com sucesso, a empresa Magnum – Carlos Lucas Vinhos, na região do Dão, o enólogo decidiu expandir a sua filosofia de intervenção e preservação do património vitícola antigo para a sub-região do Cima Corgo. Em 2018, iniciou as negociações e a intervenção direta na Quinta das Herédias, cuja aquisição formal foi selada no arranque de 2019.
Quando a equipa técnica da Magnum assumiu o controlo operacional da propriedade, o cenário encontrado era de quase total ruína agrícola e desolação. A propriedade estivera votada ao abandono contínuo durante cerca de quatro anos. Muros centenários de xisto, construídos com a técnica tradicional de pedra seca, tinham desmoronado sob o peso das chuvas e da falta de manutenção. O mato rústico e as infestantes tinham invadido as parcelas, sufocando as videiras e as infraestruturas residenciais e agrícolas tinham sido alvo de saques e vandalismo, com o roubo de vários objetos de valor histórico e material.
Carlos Lucas identificou de imediato que a autêntica joia da propriedade residia num núcleo duro de nove hectares de vinhas centenárias mistas. O enólogo descreveu estas parcelas sobreviventes como verdadeiros “diamantes em bruto”, que corriam o risco iminente de morrer por sufocamento vegetativo, caso não houvesse uma intervenção cirúrgica e imediata.
Para liderar esta espinhosa e dramática operação de resgate no terreno, o desafio assumiu contornos quase épicos e dramáticos, quando coincidiu com o rebentamento da crise sanitária global e o consequente primeiro confinamento da pandemia da COVID-19. Com o país paralisado, a equipa de Carlos Lucas optou por viver em isolamento absoluto na remodelada Casa do Senhorio. Totalmente privados de televisão ou de ligação à internet, dedicaram-se exclusivamente aos trabalhos de recuperação da vinha. Estes envolveram a reconstrução manual dos suportes de arame, a replantação minuciosa das falhas vegetativas nas vinhas velhas e a condução rigorosa de uma poda de recuperação estrutural para devolver a produtividade às cepas velhas.
Como símbolo vivo deste período de reconquista, isolamento e resiliência face aos elementos, a quinta passou a ser protegida e vigiada por um imponente exemplar da raça Cão de Gado Transmontano, batizado apropriadamente com o nome de “Baton”. A presença protetora, a lealdade e a imponência física do animal no meio dos socalcos isolados foram de tal forma marcantes para toda a equipa fundadora que inspiraram o nome da primeira marca comercial da propriedade, o vinho Baton, cujo lançamento no mercado assinalou o novo capítulo da empresa.

Proibido de construir novas adegas industriais, devido à proteção patrimonial, Carlos Lucas adotou um modelo dual e ambiciona atingir um milhão de garrafas
O mapeamento do território agrícola
Sob a direção técnica e o planeamento estratégico de Carlos Lucas, a propriedade de 108 hectares foi submetida a um rigoroso, científico e sistemático ordenamento do território agrícola, dividindo-se em parcelas claramente diferenciadas pelo seu potencial geológico e microclimático.
As vinhas da Quinta das Herédias estão distribuídas ao longo de encostas com altitudes que variam entre os 120 e os 400 metros. Esta variação altimétrica expõe as videiras a diferentes amplitudes térmicas e níveis de maturação. No plano geológico, as plantas enfrentam uma transição de solos atípica e rara no Douro: a matriz predominante de xisto duriense é abruptamente cortada por afloramentos e veios de granito subjacente, o que confere aos vinhos um perfil muito específico.
O verdadeiro coração enológico da propriedade é constituído por nove hectares de vinhas com mais de um século, comprovadamente acima dos 130 anos. Nestas parcelas heróicas, as castas encontram-se misturadas na mesma linha de plantação, seguindo o método tradicional de field blend implementado pelos antigos lavradores do Douro. Caminhar por estas linhas é fazer uma viagem pela ampelografia esquecida da região, detetando-se a presença de variedades raras e de baixa produtividade, mas de enorme complexidade organolética, tais como a Malvasia Preta, a Tinta Francisca, a Tinta Pomar e a Rufete, entre outras.
Historicamente, a Quinta das Herédias era uma propriedade devotada de forma quase exclusiva à vinificação de uvas para a produção de vinhos do Porto. Contudo, ao identificar o enorme potencial de frescura mineral e a preservação de acidez oferecidos pelas manchas de solo granítico e pela circulação de ventos frios no vale do rio Távora, Carlos Lucas tomou a decisão estratégica de plantar, no ano de 2020, quatro novos hectares de castas brancas nos locais mais altos da propriedade. A aposta recaiu nas variedades autóctones de maior prestígio da região: a Viosinho, a Rabigato e a Gouveio.
Na cota mais baixa da propriedade, estendendo-se colada à margem espelhada do rio Távora, a uma altitude que pouco ultrapassa os 100 metros, localiza-se uma mancha contínua de 35 hectares de olival tradicional constituído por árvores centenárias. Esta imensa parcela é plenamente aproveitada para diversificar a atividade económica da quinta, através da produção e comercialização de um azeite virgem extra de extração estritamente a frio, que capta a essência daquele microclima ribeirinho.
Engenharia enológica e o património
Um dos maiores e mais complexos segredos operacionais da transição da Quinta das Herédias para a era moderna reside na gestão inteligente das restrições legais e urbanísticas que incidem sobre a propriedade. Devido ao rigoroso estatuto de proteção patrimonial e paisagística que impende sobre a quinta, classificada como imóvel de interesse municipal e integrada na área protegida do Douro, as autoridades administrativas locais, os organismos de tutela do património e as entidades ambientais proíbem terminantemente a edificação de qualquer nova estrutura industrial, armazém de betão ou adega de grande volumetria.
Para contornar este bloqueio logístico e legal sem descaracterizar a identidade da marca, Carlos Lucas desenhou um modelo de vinificação dual, dividindo a produção em dois polos complementares. A adega original de xisto da propriedade foi totalmente recuperada e equipada de forma minimalista e cirúrgica. Ali funcionaram alguns lagares de granito tradicionais que deram origem ao primeiro vintage do projeto, mas rapidamente foram desativados devido à falta de capacidade para processar toda a produção. Com o intuito de contornar as limitações físicas da propriedade original e otimizar o circuito logístico, o produtor adquiriu, em 2023, vários lotes de terreno na zona industrial de Sabrosa. O investimento resultou numa área de implantação de 3500 metros quadrados, onde foram edificados 2000 destinados a sustentar um plano de negócios de grande escala. As novas instalações concentram agora todas as etapas críticas do negócio: a vinificação, o engarrafamento e a expedição.
De resto, a meta imediata está traçada: a colheita de 2026 será a primeira a ser totalmente vinificada nesta nova infraestrutura, que estará plenamente operacional e dotada de todas as condições logísticas para a vindima. O investimento responde às metas ambiciosas traçadas pela administração. Atualmente, o projeto coloca no mercado 250 mil garrafas, com um portefólio que inclui brancos, tintos e vinhos do Porto, além de uma forte aposta nos espumantes: 50 mil garrafas distribuídas por três referências distintas. O objetivo a curto prazo, contudo, é quadruplicar o volume e atingir a fasquia de um milhão de garrafas.
Além do reforço da capacidade industrial, os planos de expansão estendem-se à área do turismo. Para um futuro muito próximo, está já projetado o lançamento de um programa de enoturismo próprio. A nova centralidade do projeto em Sabrosa irá abrir portas ao público com uma oferta integrada de visitas guiadas, provas orientadas e uma loja física para a compra direta de vinhos.
Num mercado global, onde o verdadeiro luxo passou a ser o espaço, o tempo e o silêncio, o novo refúgio aposta numa experiência ultra exclusiva de 11 quartos
Novo refúgio de luxo
As ruínas da antiga casa do senhorio e dos seus edifícios anexos, que outrora marcaram a paisagem da Quinta das Herédias, deram lugar a um ambicioso projeto de hotelaria de charme. As obras iniciaram-se formalmente em setembro de 2024, após um meticuloso trabalho de recuperação do património edificado, que no passado tinha sido fustigado por saques. O projeto promete devolver a dignidade histórica à propriedade num cenário de total renovação, cumprindo a promessa dos seus promotores: devolver a dignidade histórica e a imponência arquitetónica a uma propriedade que parecia condenada ao esquecimento. Cada pedra recuperada e cada viga restaurada contam, agora, uma narrativa de resiliência.
Num mercado global, onde o verdadeiro luxo passou a ser o espaço, o tempo e o silêncio, a Quinta das Herédias lança uma proposta de valor clara e cirúrgica. Com um conceito focado inteiramente no segmento premium, o hotel conta com 11 quartos. Esta escala reduzida foi uma escolha deliberada, para garantir aos hóspedes uma experiência de alojamento ultra exclusiva, caracterizada pela privacidade absoluta e por uma profunda imersão na natureza circundante. Afinal, as janelas abrem-se para o anfiteatro natural das vinhas e para a serenidade que caracteriza o Douro profundo.
Para lá do alojamento de excelência, o complexo turístico foi desenhado para ser um polo de atração por direito próprio. A propriedade inclui uma magnífica piscina exterior, estrategicamente posicionada para potenciar as vistas sobre o vale, e um restaurante que nasce com uma ambição assumida: converter-se numa das principais referências gastronómicas de toda a região duriense. A carta privilegia os produtos endógenos e a harmonização com os vinhos locais.
Com esta boa nova, a Quinta das Herédias reforça, de forma significativa, a oferta de turismo de qualidade na região. O projeto demonstra que é possível aliar a preservação rigorosa da memória histórica ao conforto contemporâneo e às exigências do viajante do século XXI. O Douro ganha, assim, um novo guardião da sua herança cultural.
Desta forma, a região continua a afirmar-se como um dos destinos mais vibrantes e magnéticos do turismo de luxo mundial, e o próximo capítulo desta história de sucesso está a ser escrito. As ruínas, que outrora marcaram de forma melancólica a paisagem da Quinta das Herédias, deram, finalmente, lugar a um ambicioso e sofisticado projeto de hotelaria de charme.
O ano de todas as decisões
Depois de anos de planeamento silencioso, reconstrução de muros de xisto, microvinificações experimentais, isolamento em períodos pandémicos e reestruturação financeira complexa, o ponto de viragem histórico e definitivo para esta propriedade está formalmente agendado para 2026. Aliando de forma inteligente a produção vinícola de excelência a um projeto hoteleiro disruptivo que promete fixar e reter um turismo de qualidade internacional na sub-região do Cima Corgo, este investimento de dez milhões de euros cumpre uma dupla função social e económica no Douro. Não só reabilita, limpa e dignifica um espaço físico e patrimonial outrora saqueado, votado ao abandono e à mercê do mato rústico, mas coloca uma nova e orgulhosa marca na linha da frente do panorama vitivinícola nacional.
A Quinta das Herédias, que já sobreviveu às convulsões políticas do regicídio, prova, em 2026 que o xisto e o granito, quando moldados pelo talento e pela persistência humana, continuam a produzir alguns dos vinhos mais emocionantes e profundos do mundo. Para os enófilos e colecionadores de todo o planeta, resta apenas aguardar que o conteúdo destas garrafas, agora produzidas com todas as condições de excelência, chegue aos copos, para ditar o veredicto final. Uma coisa é certa: o gigante do vale do Távora acordou e o seu brilho voltou a iluminar o Douro.
(Artigo publicado na edição de Setembro de 2026)
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Quinta das Herédias
Fortificado/ Licoroso - 2019 -

Quinta das Herédias
Fortificado/ Licoroso - 2020 -

Quinta das Herédias
Fortificado/ Licoroso - -

Quinta das Herédias
Fortificado/ Licoroso - -

Quinta das Herédias
Fortificado/ Licoroso - -

Quinta das Herédias
Fortificado/ Licoroso - -

Herédias +130
Tinto - 2022 -

Herédias
Tinto - 2022 -

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Tinto - 2022 -

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Branco - 2025 -

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Branco - 2025 -

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Branco - 2025 -

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Espumante - 2019 -

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Espumante - 2019
GRANDE PROVA MOSCATEL: Das abelhas e dos pássaros

Não é assunto que nos roube o sono. Por isso, sem investigações aturadas e reflexões profundas, vamos aceitar que a origem da casta Moscatel se situa no Médio Oriente, talvez mesmo no Egipto. A expansão por toda a zona envolvente do Mediterrâneo, da Sicília a Málaga, de Hamburgo a várias zonas da França, bem como […]
Não é assunto que nos roube o sono. Por isso, sem investigações aturadas e reflexões profundas, vamos aceitar que a origem da casta Moscatel se situa no Médio Oriente, talvez mesmo no Egipto. A expansão por toda a zona envolvente do Mediterrâneo, da Sicília a Málaga, de Hamburgo a várias zonas da França, bem como por todo o império, terá sido obra de romanos que, tal como as abelhas, lhe apreciavam a doçura e o gosto. Sabemos, porém, que a Moscatel é, das poucas castas usadas para fazer vinho, a que tem a particularidade de ter o mesmo sabor, comendo-se os bagos ou provando o vinho. Porquê?
Acontece que esta variedade é especialmente rica em monoterpenos, compostos que são responsáveis pelo perfume de alguns frutos e das flores, os quais estão em grande concentração nesta variedade. Com estes atributos não é difícil perceber que até à África do Sul, mais propriamente à zona do Cabo, tenha chegado a Moscatel, dando aí origem a um dos vinhos que, durante séculos, foi ultrafamoso. Esteve à mesa de reis e mesmo no exílio de Napoleão. Refiro-me ao vinho de Constância, região de vinhedos bem próxima da cidade do Cabo. Para lá foi levada pelos holandeses, que colonizaram a zona no século XVII.
Com esta antiguidade toda, é natural que a casta tenha sofrido mutações. Por conseguinte, conhecemos múltiplas variantes, ainda que haja as que dispõem de vários sinónimos. Algumas das principais variedades incluem o Muscat à Petits Grains, Muscat of Alexandria, Muscat Ottonel, entre outros; por cá, Moscatel Galego (igual a Muscat à Petits Grains), no Douro, sobretudo em Favaios, Moscatel Graúdo (ou de Alexandria), em Setúbal e, ainda em Setúbal, o Moscatel Roxo, que é uma mutação do Moscatel do Douro.
Falamos, então, de uma variedade que gosta de climas quentes e de terrenos arenosos, tudo o que em Azeitão há em abundância. Não se estanha assim a grande implantação que teve no século XIX nesta região. Ainda que não se faça a distinção, há duas zonas diferenciadas para a produção: as areias de Palmela e Poceirão e os argilo-calcários da Serra da Arrábida. São diferentes, ainda que todos com a mesma Denominação de Origem.
Muito divulgada no século XIX na região de Setúbal, a Moscatel era acompanhada por outra variedade que gerava um licoroso muito apreciado, o Bastardinho de Azeitão. Em tímida recuperação, a Bastardo foi casta muito plantada, desde o Barreiro até Alcochete, e o vinho destacado por Ferreira Lapa (Memória Sobre os Processos de Vinificação, Lisboa, 1867), que dizia dele, “espécie licorosa fina e balsâmica, como não se produz melhor n’outras partes” e identificava, como melhores zonas para a produção, Barreiro, Samouco, Moita e Seixal!
Actualmente, e enquanto se espera pela recuperação da variedade (a que acresce o longo tempo de estágio), o melhor mesmo é provar as últimas garrafas, ainda à venda, pertencentes à José Maria da Fonseca, as quais estão disponíveis em garrafeiras e na loja da empresa, em Azeitão.
A uva do sol e do calor
No mesmo texto de Ferreira Lapa se anota a prática antiga, em Setúbal, de colocar os cachos de Moscatel ao sol (de uma semana a 12 dias), para, através da desidratação, concentrarem açúcares e, consequentemente, aumentarem o potencial alcoólico. Hoje, a prática parece ter desaparecido, mas esta casta é sempre a última a ser vindimada. Sim, esta é a última. Contudo, a Moscatel Roxo é, de longe, a primeira, normalmente ainda em Julho, com a finalidade de evitar os ataques da passarada. Neste caso, talvez Plínio lhe chamasse Uvae avium (vinha dos pássaros). Em Setúbal, falamos de cachos e bagos grandes, de película rija; no Douro, com Moscatel Galego temos um cacho e bagos mais pequenos e de pele mais fina. Já o Moscatel Roxo adquire, em plena maturação, uma tonalidade rosada (daí o nome).
A produção segue a mesma prática de todos os licorosos: fermentação em contacto com as películas, adição da aguardente (geralmente, a 77% volume) a meio do processo fermentativo, para o interromper. Nesta fase, procura-se conferir ao vinho um teor em torno dos 16º de álcool, deixando o restante para acertos finais ao longo do processo de envelhecimento. O vinho fica, então, por via da morte das leveduras “afogadas” em aguardente, com açúcar residual, podendo este ir dos 90 aos 200 gramas por litro, e registar um teor alcoólico final em torno dos 17 ou 18%. Findo o processo de fermentação, o vinho continua em contacto com as películas por vários meses, mais propriamente de três a quatro meses na José Maria da Fonseca, conferindo mais complexidade ao vinho. Segue-se o estágio em barricas usadas; no caso da Bacalhôa, sem atesto dos cascos ao longo do envelhecimento.
O torna-viagem
A empresa José Maria da Fonseca, a mais antiga da região a fazer Moscatel, ainda tem, em casco, vinhos da colheita de 1900 e vários do século passado. Ao todo, serão cerca de 500 000 litros de vinhos com mais de 20 anos. Nesta empresa, está em curso a produção de vinhos Torna-Viagem, resultantes de uma cooperação com o navio-escola Sagres que, nas suas viagens, leva, no convés, pipas com Moscatel, sujeitas a oscilações de temperatura e agitação do vinho dentro do casco. Este era o conceito inicial dos vinhos torna-viagem, igualmente usado na Madeira para os vinhos que eram exportados e regressavam.
Actualmente, e após o regresso, os cascos ficam em repouso na sede da José Maria da Fonseca, em Azeitão. Estamos a falar de cerca de 50 000 litros. Com o propósito de proteger a zona onde estão os cascos, foi preciso colocar uma parede de vidro, porque a circulação de ar (correntes de ar?) estava a provocar uma evaporação de 12% por ano contra os normais 3%. Para quando o engarrafamento? Domingos Soares Franco (DSF), durante décadas enólogo da referida empresa, é peremptório: “isso é assunto para a sétima geração!”
Na colecção DSF, a empresa mantém também a originalidade do uso de aguardentes das regiões francesas Cognac e Armagnac para os moscatéis. São dois vinhos diferentes com indicação na garrafa do tipo de aguardente usada. Para vinhos que se pretende que envelheçam (20 anos, digamos) Domingos Soares Franco comenta: “prefiro a de Cognac porque, com o tempo, faz realçar as notas de frutos secos e citrinos confitados.”
Os ensaios da Bacalhôa
A Bacalhôa tem plantados cerca de 52 hectares de Moscatel de Alexandria e 4 hectares de Moscatel Roxo, sobretudo na Serra da Arrábida, em encostas viradas a norte. Para a entrada de gama, a empresa adquire também uvas na zona arenosa de Palmela. O mercado interno absorve cerca de 40% da produção.
O estágio em madeira é feito com base em métodos diferentes nas duas empresas com mais tradição na produção do generoso. Na Bacalhôa, entre outras, ainda se usam barricas que têm origem na Escócia e serviram anteriormente ao whisky. A importação destas barricas está, para já, suspensa. A aposta é, agora, estagiar este fortificado em barricas que serviram anteriormente a vinhos tintos, depois moscatéis de entrada de gama, e só então, os de gama superior. Existe uma estufa exterior, onde estas barricas são dispostas para envelhecimento. Com as variações de temperatura e os grandes calores estivais (que originam uma pequena, mas significativa, variação de temperatura dentro da barrica), o vinho adquire mais complexidade e riqueza aromáticas sem atesto dos cascos ao longo do envelhecimento. Reproduz-se, assim, o método de canteiro usado na Madeira, em que os cascos começam o seu envelhecimento nos sótãos dos armazéns e vão transitando, de anos em anos, para os andares de baixo, até ao nível térreo. Na estufa da Bacalhôa, as variações de temperatura, medidas no vinho, oscilam entre os 10º no Inverno e os 28º no Verão.
Em curso, estão ensaios com barricas de Jerez (Oloroso) e também ensaios de aguardentação mais tardia, visando a produção de moscatéis com menor teor de açúcar. Para já, segundo João Ramos, enólogo da Bacalhôa, ainda é cedo para conclusões, porque, nestas barricas de Jerez só têm vinhos de dez anos a estagiar há três meses. São dez barricas de 300 litros, com muito uso, que chegaram de Jerez ainda húmidas, favorecendo, deste modo, a permuta de aromas e sabores. Quanto tempo lá vão ficar? Depende das provas que se façam ao longo do tempo.
Este Moscatel em barricas de Oloroso será sempre usado numa colecção de experiências e não para integrar lotes gerais. Prática antiga na região, e que aqui se reproduz, é manter as borras no fundo da barrica, ou seja, esta nunca se esvazia por completo e o vinho novo é colocado sobre as borras do vinho velho. Também não se atestam totalmente as barricas, deixando-se dois a três dedos, para evitar que, com o calor, o vinho saia da barrica.
Um outro projecto que está agora no início é a conservação em vidro de vinhos muito velhos, já com exagerada concentração, a serem usados para bases e não para serem vendidos como Colheita. Serem mantidos em casco não tem, dizem-nos, qualquer vantagem.
Favaios e Alijó
No Douro, destaca-se, desde há décadas, a região de Favaios e Alijó como as zonas onde a casta melhor se expressa, graças à altitude. No entanto, sem a delimitação da zona de Favaios, os rótulos do Douro indicam genericamente “Moscatel do Douro”, que pode ser ou não de Favaios, mas não há distinção oficial.
Em Favaios sobressai a Adega Cooperativa fundada em 1952 e que se assume como principal produtor de Moscatel do Douro, com 80% da produção da região. Possui, segundo informação da própria adega, 52% da quota de mercado a nível nacional. Com o lançamento da marca Favaíto, em minúsculas garrafas, a cooperativa deu um grande salto em termos de negócio, vendendo, actualmente, 32 milhões de unidades por ano, o que corresponde a 61% das vendas de Moscatel desta adega. Os stocks atingem os 9,5 milhões de litros em madeira, ou seja, o triplo das vendas anuais.
Pelos resultados da prova se percebe que o “universo” Moscatel contempla tipos de vinho muito variados. O fluxo de vinhos para prova chegou-nos, sobretudo, de Setúbal, apesar do Douro ter, aqui, uma boa representação. Ainda que seja possível encontrar vinho licoroso de Moscatel noutras zonas do país, como Tejo e Lisboa, a verdade é que foram poucos os produtores que enviaram amostras. Uma conclusão se impõe: são vinhos de enorme qualidade, que dão muito prazer na prova e que têm um preço bem convidativo. Como se diz no anúncio de uma marca de café bem conhecida: ‘What else?’
No que diz respeito ao consumo, este é um generoso ao qual o epíteto de bom e barato se aplica na perfeição. Servido ligeiramente refrescado no final da refeição, acompanha, em modo de excelência, sobremesas que incluam doces de ovos, a começar pelas tortas de Azeitão e pelo pão-de-ló de Ovar, prosseguindo pelos doces de ovos de Aveiro, os pastéis de Tentúgal, os travesseiros de Sintra, num desfilar de parcerias sem fim. Bebê-lo é dignificar um produto secular, um dos nossos três reis-magos dos vinhos fortificados. E, ao contrário do que se diz em relação aos livros que “o mais difícil é lê-los”, aqui, em relação ao Moscatel, é o inverso: o mais fácil é bebê-lo!
Os reinos da Moscatel
A demarcação da região da Península de Setúbal data do início do século XX, incluída na primeira vaga de demarcações após a da região do Douro. As vinhas da casta aptas à Denominação de Origem estendem-se pelos concelhos de Palmela (68%), Setúbal (17%), Montijo (13%) e Sesimbra, além dos ligeiros aumentos (2%). A área de vinha tem-se mantido estável, com poucas oscilações.
Existem duas Denominações:
Setúbal: o vinho tem de ter no mínimo 67% da casta.
Moscatel de Setúbal: a percentagem obrigatória sobe para os 85%.
O Moscatel Roxo de Setúbal corresponde, actualmente, a cerca de 66 hectares de vinhas (em 1999 seriam apenas sete hectares, então considerado à beira da extinção) e distribuem-se pelos quatro concelhos referidos. Também em relação a esta casta se mantêm as mesmas regras: para DO Setúbal o vinho tem de ter 67% da casta e, para Moscatel Roxo de Setúbal, 85%.
A produção oscila entre os 2 e os 2,5 milhões de garrafas. O crescimento do plantio de Moscatel prende-se, segundo a Comissão Vitivinícola Regional da Península de Setúbal, com o renovado interesse na casta para a produção de vinhos tranquilos. A legislação permite a comercialização de vinhos com data de colheita ou com indicação de idade – 5, 10, 15, 20, 25, 30, 35 e 40 anos. Estranhamente, também permite o uso simultâneo das mesmas indicações – idade e data –, como se pode confirmar pelos vinhos provados.
A produção na região do Douro está concentrada na zona de Favaios, destacando-se, entre todos os operadores, a Adega Cooperativa de Favaios, gestora de uma área de vinha que, em dez anos, passou de 545 para 623 hectares. Em termos de produção, é responsável por 82,7% de quota de mercado, de acordo com os registos de 2025 (a maior percentagem desde há 15 anos). As vendas cresceram, de 2015 a 2025, cerca de 40%. Em 2025, dos cerca de quatro milhões de litros comercializados como Moscatel do Douro, a Adega de Favaios foi responsável por pouco menos de 3 300 000 litros. As castas aqui plantadas são a Moscatel Galego e Moscatel Galego Roxo.
Nota – A Grande prova Moscatel realizou-se em Prova Cega por: João Paulo Martins, Valéria Zeferino e Luís Antunes
(Artigo publicado na edição de Setembro de 2026)
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Niepoort
Fortificado/ Licoroso - -

Família Horácio Simões Excellent Single Cask
Fortificado/ Licoroso - -

Casa Ermelinda Freitas
Fortificado/ Licoroso - 2011 -

Adega de Palmela
Fortificado/ Licoroso - -

Moscatel de Setúbal
Fortificado/ Licoroso - -

Quinta do Piloto
Fortificado/ Licoroso - -

DSF Colecção Privada
Fortificado/ Licoroso - 2002
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Mingorra
Fortificado/ Licoroso - 2019 -

Martha’s
Fortificado/ Licoroso - -

Adega Camolas
Fortificado/ Licoroso - 2021 -

Venâncio da Costa Lima Rúbrica
Fortificado/ Licoroso - -

Fernão de Magalhães
Fortificado/ Licoroso - -

Venâncio da Costa Lima
Fortificado/ Licoroso - 2016 -

Fragulho
Fortificado/ Licoroso - 2011 -

Moscatel de Setúbal
Fortificado/ Licoroso - -

Adega Camolas
Fortificado/ Licoroso - -

Secret Spot
Fortificado/ Licoroso -
Naquele tempo… por Luís Lopes

Quanto custava, há 30 anos, um vinho famoso? Que marcas se vendiam? Das que sobreviveram, quais as que mais valorizaram? No decorrer de uma limpeza das prateleiras lá de casa, a descoberta de um conjunto de catálogos de feiras de vinho deu resposta a algumas destas questões e trouxe-me de regresso à idade de ouro […]
Quanto custava, há 30 anos, um vinho famoso? Que marcas se vendiam? Das que sobreviveram, quais as que mais valorizaram? No decorrer de uma limpeza das prateleiras lá de casa, a descoberta de um conjunto de catálogos de feiras de vinho deu resposta a algumas destas questões e trouxe-me de regresso à idade de ouro do negócio do vinho em Portugal.
Antes de mais, importa contextualizar. Há mais de três décadas, as feiras de vinho dos hipermercados nada tinham a ver com as actuais. Hoje, são uma concentração de campanhas e promoções. Naquela época, eram uma oportunidade única para um consumidor, cada vez mais interessado e interessante (em termos de poder de compra), aceder, em qualquer ponto do país, a vinhos consagrados, vinhos que só se vendiam em raras lojas de Lisboa e Porto. A importância destas feiras era de tal ordem, que os grandes produtores esperavam por elas para lançar as novas colheitas. E os compradores dos hipermercados corriam o país, batendo à porta dos produtores mais pequenos e reputados, pedindo o especial favor de lhes ser vendido o vinho mais raro e mais caro. A feira do Pingo Doce foi pioneira e líder nesse conceito, apresentando os vinhos em catálogos luxuosos, que eram, depois, distribuídos nas lojas e encartados no jornal Expresso do fim de semana anterior à feira. Os catálogos, autênticas revistas especializadas, com informação didáctica, reportagens, etc., eram avidamente lidos e pesquisados pelos apreciadores, que irrompiam pelas lojas com o caderno debaixo do braço, em busca dos vinhos que tinham anotado.
Apenas dois exemplos, para mostrar o impacto da coisa: marcas como Ferreirinha Reserva Especial, Quinta do Côtto Grande Escolha, Duas Quintas Reserva, Cartuxa Garrafeira (sim, existiu um Cartuxa Garrafeira!), Mouchão ou Luís Pato Vinhas Velhas eram das que primeiro esgotavam nas prateleiras; e a vasta campanha de marketing televisiva da edição de 1995 foi protagonizada por um rapaz chamado Dirk Niepoort. Outros tempos, como se percebe.
Talvez um dia volte a este tema das feiras, mas, hoje, centro-me no que aqui me trouxe: os preços de antigamente e a maior ou menor valorização das marcas. À minha frente, tenho os catálogos das Feiras Pinto Doce entre 1991 e 2004 (este último, com a curiosidade de ter os preços em euros e escudos, não fosse alguém baralhar-se nas contas). Apontando a um número redondo, recuemos então 30 anos, à feira de 1996.
O exercício que vos proponho, nada tem de científico, é apenas lúdico. Trata-se de comparar quanto custava em 1996 e quanto custa hoje um determinado vinho; e reflectir sobre isso, tirando as ilações possíveis
Comparar preços com um intervalo de três décadas é sempre muito pouco rigoroso. Para calcular o efeito da inflação com a conversão de escudos para euros, existe uma excelente ferramenta, o Índice de Preços no Consumidor (IPC), disponibilizado no site do Instituto Nacional de Estatística. Há que ter o cuidado de escolher a opção que exclui o mercado imobiliário (a valorização dos imóveis distorce tudo o resto), mas a fórmula que calcula entre anos (e meses!) é muito boa.
No entanto, quando se aborda um sector tão específico quanto o do vinho, a inflação média é um dado enganador. É que, em 30 anos, os custos de produção nesta vertente agroindustrial subiram muito mais do que a inflação, começando pelos salários agrícolas (que dispararam face à escassez de mão de obra), e continuando nos produtos para a vinha, gasóleo, garrafas, rolhas, transportes, distribuição, marketing, etc. E, não sendo eu economista (muito, muito longe disso!), acredito que os naturais ganhos de eficiência trazidos pela gestão moderna e pela tecnologia estão muito longe de compensar o enorme aumento dos custos de produzir e vender uma garrafa de vinho.
Assim, o exercício que vos proponho, nada tem de científico, é apenas lúdico. Trata-se de comparar quanto custava em 1996 e quanto custa hoje um determinado vinho; e reflectir sobre isso, tirando as ilações possíveis.
Na região dos Vinhos Verdes, várias marcas consagradas perderam valor, o que, de alguma forma, se compreende pelo enorme crescimento do volume engarrafado. O Adega de Ponte de Lima Loureiro de 1995 custava, em 1996, 435$00, o que, segundo o IPC, equivale hoje, actualizando inflação e convertendo em euros, a €3,98. Uma pesquisa na web diz-me que posso comprar a colheita de 2025 por €4,29. Objectivamente, e pelos motivos acima apontados, há aqui uma desvalorização. O mesmo se passa com o Adega de Monção Alvarinho 1995 (a adega de Monção ainda não tinha a marca Deu-la-Deu). Era o melhor vinho da casa e custava 989$00 (IPC €9,06), o que era um preço muito elevado para um branco. Compra-se hoje o Deu-la-Deu por €7,89. Mais uma vez, é necessário contextualizar: há 30 anos, estes vinhos de Monção e Ponte de Lima eram engarrafados em quantidades comparativamente pequenas e a competição nos varietais de Loureiro e Alvarinho era reduzida.
No Douro, um nome absolutamente incontornável, em meados dos anos 90, era o Quinta do Côtto Grande Escolha. A colheita de 1994 vendia-se a 3.995$00 (IPC €36,58) e era o vinho tinto mais caro da feira de 1996, o que diz muito do seu estatuto. O tempo, opções erradas e o disparar da concorrência no Douro trouxeram enorme erosão a esta marca, que ainda assim recuperou algum do brilho de outrora após a sua aquisição pelo grupo Mello/WineStone em 2023. Hoje, o Grande Escolha custa €65.
Para percebermos a escala da mudança, basta assinalar que o Quinta do Côtto Grande Escolha 1994 valia mais do que o Ferreirinha Reserva Especial 1986, que custava 3.249$00, algo como €29,75 aos dias de hoje, com actualização da inflação. Seria bom comprar uma garrafinha de Reserva Especial por esse preço, não era? Mas não. A colheita mais recente de Ferreirinha Reserva Especial (2017) custa entre €375 e €445. De entre os vinhos avaliados foi, em três décadas, e de muito longe, o que mais valorizou, quer na origem, quer no mercado especulativo. Mas só as grandes marcas suscitam tamanha apetência, geradora da especulação.
Se Côtto e Ferreirinha representavam o Douro antigo, os dois nomes seguintes espelhavam, como nenhum outro, o Douro moderno: Duas Quintas Reserva 1992 e Quinta da Gaivosa 1994, ambos lançando na feira a sua segunda edição. O Duas Quintas custava 2.695$00 (IPC €24,68). Hoje, custa €41. Dado curioso, na feira de 1995, o Reserva de 1991 valia 1.145$00. Num ano, duplicou de preço! O que revela não apenas o enorme frenesim que a marca suscitou nos primeiros anos de vida (há, no Douro, um antes e um depois do Duas Quintas) mas também a tremenda disponibilidade (apetite e dinheiro) do mercado, capaz de absorver um aumento de 100%, de um momento para o outro, como se nada fosse. Eram ou não tempos dourados? Ainda assim, a “explosão” de grandes marcas durienses na segunda metade da década de 90 e início de 2000 (Crasto, Vallado, Batuta, Pintas, etc.) viria, com o tempo, a abrandar o crescimento expectável do Duas Quintas Reserva, mais do que o do Quinta da Gaivosa, que passou de 1.799$00 (IPC €16,47), para os €45 actuais.
Os naturais ganhos de eficiência trazidos pela gestão moderna e pela tecnologia estão muito longe de compensar o enorme aumento dos custos de produzir e vender uma garrafa de vinho
Se o Douro estava a começar a dar que falar nos “não Porto”, o Alentejo era já, há vários anos, a região líder de vendas, com marcas de volume e vinhos de “conhecedores”. Nos lugares cimeiros, Mouchão, claro. O vinho de 1992 era proposto por 2.995$00 (IPC €27,42), um preço que o colocava no topo da oferta Alentejo da feira. A colheita mais recente do Mouchão compra-se por €50, uma valorização bem interessante, mais ainda se pensarmos que, entretanto, surgiu o Mouchão Tonel 3-4 e o que era então o “grande vinho” passou a “segundo vinho”.
Nome consagrado já era, na altura, o Reguengos Garrafeira dos Sócios. Também estava a ser lançada a colheita de 1992, por 1.735$00 (IPC €15,89). Muito bem, a valorização da marca ao longo destas três décadas, já que custa, hoje, €30. O que significa que o consumidor continua a vê-lo como vinho de topo, produzido em quantidades limitadas, sem lhe associar o “estigma de preço” de adega cooperativa.
Não se pode falar do Alentejo dos anos 90 sem mencionar Cartuxa. Curiosamente, no catálogo de 1996 não há Cartuxa tinto, não sei porquê (no ano seguinte, entrou o Cartuxa Reserva 1994, a 1.295$00). Mas havia o Cartuxa branco 1994. E custava 745$00 (IPC €6,82), valorizando desde então até aos €16, o que é muito bom. Tenhamos presente que, há três décadas, os vinhos brancos valiam quase metade dos tintos. Para um branco se aproximar dos 1.000$00 tinha de ser um Alvarinho ou então algo de muito especial em termos de notoriedade. Era o caso do Quinta dos Carvalhais de 1994, o vinho branco mais caro da feira, custando 1.195$00 (IPC €10,94). Hoje vale somente €9,90. A ter em conta: a linha Quinta dos Carvalhais tem passado por diversos reposicionamentos. Mas, sobretudo, em 1996, Quinta dos Carvalhais era a marca mais “in” do Dão, com a adega mais moderna e sofisticada de Portugal. O branco Carvalhais valia então mais do que o famoso Casa de Santar Reserva tinto. Deste, a colheita de 1992 custava 795$00 (IPC €7,28); hoje compramos a versão mais recente por €14,50.
Do Dão para a Bairrada, e para os dois nomes mais emblemáticos dos anos 90 na região, Casa de Saima e Luís Pato. O Casa de Saima Garrafeira 1991 era um vinho de enorme prestígio, mais do que justificado, diga-se, pois ainda hoje este tinto em concreto está grandioso (eu sei porque ainda tenho umas garrafas…). Custava 3.295$00 (IPC €30,17), mais caro do que o Ferreirinha Reserva Especial! O Casa de Saima Garrafeira (no mercado está o 2015) compra-se, agora, por €58, uma valorização sem dúvida importante, mas menor do que então prometia. Já o Luís Pato Vinhas Velhas de 1992 valia 2.199$00 (IPC €20,13) e uma colheita recente custa €17,50. Mas atenção: o Vinhas Velhas era então o topo de Luís Pato, pois Vinha Pan, Vinha Barrosa, Quinta do Ribeirinho Pé Franco, ainda não tinham surgido no mercado. Com a chegada destes, o Vinhas Velhas tomou um lugar mais abaixo na hierarquia.
O Ferreirinha Reserva Especial 1986, custava 3.249$00, algo como €29,75 aos dias de hoje, com actualização da inflação. Seria bom comprar uma garrafinha de Reserva Especial por esse preço, não era?
Para finalizar esta viagem a 1996, dois vinhos de outro tipo, um espumante e um Porto. No catálogo de 1996 está o Quinta das Bágeiras Super Reserva branco 1993, vendido por 925$00 (IPC €8,47) e que se compra agora por €17. Uma valorização muito consistente, sobretudo se considerarmos que, na altura, o produtor fazia muitíssimo menos espumante do que faz hoje.
O Porto é a categoria de vinho que menos valorizou (ou, dito de outra forma, que mais desvalorizou, confrontando o aumento de custos reais vs. preço de venda), mas isso não será propriamente uma surpresa para quem segue o mercado. O Tawny 20 anos da Niepoort era dos mais cotados na época. Custava então 4.945$00 (IPC €45,28) e custa, hoje, €56. Uma valorização apenas virtual, que não compensa o crescimento dos custos de produção e que espelha as dificuldades que a fileira do vinho do Porto atravessa. Recuar no tempo é um exercício fascinante, mas nem todas as memórias nos deixam completamente felizes. L.L.
(Artigo publicado na edição de setembro de 2026)


















































