PROVAM: Três décadas de história de Monção e Melgaço

Corria o ano de 1992 quando dez viticultores das freguesias de Barbeita e Messegães, em Monção, (Fernando Ferreira, Fernando Costa, Manuel Gil Batista, José Silva, Américo Barbosa, José Manuel Costa, Cândido Costa, Sofia Rodrigues, Cândido Rodrigues e João Sousa), tomaram uma decisão que mudaria para sempre o destino da Alvarinho nesta sub-região. Não era uma […]
Corria o ano de 1992 quando dez viticultores das freguesias de Barbeita e Messegães, em Monção, (Fernando Ferreira, Fernando Costa, Manuel Gil Batista, José Silva, Américo Barbosa, José Manuel Costa, Cândido Costa, Sofia Rodrigues, Cândido Rodrigues e João Sousa), tomaram uma decisão que mudaria para sempre o destino da Alvarinho nesta sub-região. Não era uma decisão fácil. O minifúndio sempre foi a marca da paisagem minhota, parcelas de meio hectare, vinhas de família, uma tradição de autossuficiência que tanto preservava a identidade, como limitava a ambição. Mas aqueles dez homens e mulheres viram mais longe. Quiseram juntar o que tinham de melhor: terra, conhecimento e vontade coletiva. Assim nasceu a PROVAM – Produtores de Vinhos Alvarinho de Monção.
A escolha do local não foi acidental. Barbeita ocupa uma posição privilegiada num microclima único, protegido por um anfiteatro de montanhas que mitiga a influência atlântica e cria as condições necessárias para que a uva Alvarinho atinja uma maturação lenta, aromática e com uma acidez que a distingue de qualquer outra casta portuguesa. Os verões são mais quentes e secos do que no restante território dos Vinhos Verdes, os solos são graníticos, pobres e bem drenados e as raízes das videiras descem fundo à procura de água e minerais. É desta integração que nasce a complexidade inconfundível dos vinhos desta casa.
A fundação oficial de 1992 foi apenas o primeiro passo. Em 1993, sob a orientação técnica dos enólogos Anselmo Mendes e Luís Euclides, foi o ano da primeira vindima da PROVAM, lançando as bases do Portal do Fidalgo, um nome que rapidamente se tornaria sinónimo do que de melhor se fazia na região. A designação não era uma afetação, mas uma declaração de intenções: tratar esta casta como se de um fidalgo se tratasse.
Desde o início, a equipa estabeleceu uma prática que seria determinante para o prestígio futuro da casa: guardar stock de cada colheita do Portal do Fidalgo. Este arquivo líquido, como alguns o chamam, permitiu estudar a evolução da Alvarinho ao longo das décadas seguintes, provando de forma inequívoca que esta casta, ao contrário do que o senso comum afirmava, tem um potencial de envelhecimento extraordinário, colocando-a ao lado dos grandes brancos do mundo.
Uma rede de 200 guardiões
Trinta e três anos depois, a PROVAM não é apenas a história dos seus fundadores. É o sustento e a razão de ser de aproximadamente 200 viticultores da sub-região de Monção e Melgaço, que, juntos, cultivam cerca de 160 hectares de vinha. Os dez sócios originais representam, hoje, cerca de um quarto da produção total, o restante provém de uma rede de micro-produtores e, muitos deles, fornecem a adega há mais de 20 anos.
Esta estrutura é, ao mesmo tempo, a maior força e o maior desafio da empresa. Por um lado, garante uma diversidade impossível de replicar numa exploração de propriedade única: parcelas em diferentes exposições, diferentes altitudes, diferentes idades de vinha. Por outro lado, exige uma logística e uma disciplina enológica rigorosas, para garantir que toda essa diversidade se converta em consistência de qualidade nas marcas comercializadas. Produzir cerca de meio milhão de garrafas por ano a partir de centenas de parcelas diferentes, mantendo o caráter e a identidade de cada linha, é um exercício que poucos conseguem dominar.
E domina-o a PROVAM, porque investiu, ao longo dos anos, tanto em infraestrutura, como em relações humanas.
A adega em Barbeita foi crescendo à medida que a ambição crescia. De instalações modestas passou a uma unidade moderna com capacidade para 830 mil litros, linha de engarrafamento capaz de processar 12 000 garrafas por dia, adegas climatizadas para espumantes e uma cave de barricas dedicada ao envelhecimento dos vinhos de grande qualidade. Só entre 2023 e 2025, sob a direção de Élio Lara, o mais recente enólogo da casa, foram investidos cerca de 300 mil euros em melhorias técnicas e de capacidade produtiva.
A relação com os viticultores vai além do contrato de fornecimento. A PROVAM paga habitualmente um preço superior à média regional pela uva Alvarinho, num mercado que movimenta 25 milhões de euros anuais e investe no acompanhamento técnico das vinhas. Esta política não é apenas ética, mas estratégica. Vinhas bem tratadas, com viticultores motivados e economicamente sustentados, produzem melhores uvas. E o envelhecimento progressivo de muitas dessas vinhas, algumas já com mais de 30 anos, está a transformar-se numa vantagem competitiva crescente.
A madeira e as rolhas
Há casas que constroem a sua reputação na continuidade, a PROVAM construiu a sua também na ousadia calculada. Em 1995, quando a adega tinha pouco mais de dois anos de vida, os seus enólogos iniciaram os primeiros ensaios de estágio da Alvarinho em barricas de carvalho francês. Era uma ideia heterodoxa para a época. A Alvarinho de Monção e Melgaço dava origem a vinhos de expressão fresca, aromática e de consumo jovem, nos quais a madeira, argumentavam os mais conservadores, mataria precisamente o que o tornava especial.
A PROVAM não aceitou esse argumento. Em 1996, lançou o Vinha Antiga, tornando-se uma das primeiras casas da sub-região a explorar a fermentação e o estágio em barrica para a Alvarinho. O objetivo não era sobrepor a madeira à casta, mas antes dar-lhe uma estrutura e uma untuosidade adicionais que permitissem ao vinho envelhecer com graça durante anos ou décadas. Os resultados deram-lhes razão. O Vinha Antiga tornou-se uma referência de culto entre os apreciadores mais sérios da Alvarinho e abriu portas a uma conversa mais ampla sobre o potencial de guarda desta casta. Uma conversa que hoje, 30 anos depois, é aceite como um dado adquirido.
O mesmo espírito pioneiro guiou a decisão, em 2000, de investir na espumantização da Alvarinho. Quando a PROVAM lançou o Côto de Mamoelas, o primeiro espumante de Alvarinho pelo método clássico da casa, o mercado ainda olhava com ceticismo para a ideia. Bolhas num Alvarinho? A acidez natural da casta, que tantos vinhos brancos estáticos tornava frescos e vibrantes, era precisamente o ativo mais valioso para a segunda fermentação em garrafa. A PROVAM reconheceu-o antes da maioria.
Hoje, o espumante não é apenas uma linha de produto, mas sim uma convicção estratégica. A cave de espumantes em Barbeita, construída em 2002 e progressivamente ampliada, tem capacidade para acolher volumes significativos. Na adega, foi criada uma sala intimista dedicada a provas exclusivas. Em 2026, após décadas de paciência e investimento, a PROVAM pode afirmar com plena confiança que foi uma das fundadoras de uma categoria que, hoje, é símbolo de distinção: o espumante de Alvarinho de Monção e Melgaço.
De Anselmo Mendes e Élio Lara
Uma casa com 33 anos de história também é uma história de pessoas. A PROVAM foi moldada por uma sucessão de enólogos que, cada um à sua maneira, deixaram marca na identidade dos seus vinhos. Anselmo Mendes, que acompanhou os primeiros anos da empresa juntamente com Luís Euclides, estabeleceu os alicerces técnicos e a ambição qualitativa que definiria os anos subsequentes. A passagem de José Domingues, entre 2003 e 2013, correspondeu a um período de consolidação e refinamento. Abel Codesso marcou uma fase de experimentação e aprofundamento da linguagem da madeira, até 2024.
A chegada de Élio Lara ao leme enológico, em 2025, coincide com o momento de maior investimento e renovação da história da casa. Sob a sua direção técnica, a PROVAM expandiu a capacidade produtiva de 600 para 830 mil litros, modernizou a linha de engarrafamento e introduziu novas abordagens na receção da uva e na vinificação em inox, que visam preservar, ao máximo, a frescura e os aromas primários que são a assinatura da região. É uma filosofia de intervenção mínima: deixar que a uva e o território falem sem interferências desnecessárias.
O portefólio que Élio Lara herda e continua a desenvolver é, simultaneamente, uma tradição e um laboratório. O Contradição, um dos vinhos mais intrigantes da casa, é uma reflexão sobre o que acontece quando se desafia a leitura convencional da Alvarinho. A linha Exemplar representa o padrão de qualidade que a adega pretende para os seus vinhos de topo. Em 2025, o vinho Exemplar foi distinguido com o Prémio de Design na categoria de Vinho de Curtimenta na segunda edição dos “Mutante Awards”, uma validação que vai além da qualidade intrínseca do vinho e reconhece a coerência entre produto, identidade e comunicação.
A adega como centro de experiências
Há uma transformação discreta, mas profunda a acontecer em Barbeita, e ela vai muito além da adega. A PROVAM tem vindo a afirmar-se como um dos operadores de enoturismo mais inovadores do Minho, transformando a sua unidade de produção num centro de experiências culturais e sensoriais que combina vinho, gastronomia, artesanato e tradição local de formas que poucos esperariam encontrar numa adega de dimensão média.
A oferta estruturada de visitas e provas cobre um espectro amplo de interesses e conhecimentos: desde a Prova Terroir, que introduz o visitante à génese da marca, através do Portal do Fidalgo e do Varanda do Conde, à Prova Fidalga, uma experiência completa com seis vinhos e petiscos regionais pensada para os conhecedores mais exigentes. A cave de espumantes ganhou, nos últimos anos, uma sala dedicada a provas mais íntimas e exclusivas, um espaço onde a segunda fermentação em garrafa é não apenas explicada, mas vivida, num ambiente que faz jus à importância do espumante na identidade da casa.
Mas é no chamado turismo criativo que a PROVAM mais surpreende. A ideia de cruzar vinho com outras expressões culturais e artesanais da região não é apenas uma estratégia de diferenciação: é uma declaração de valores. O workshop “Bordado e Vinho”, onde os participantes aprendem a arte do bordado tradicional minhoto enquanto degustam espumantes da casa, combina duas expressões identitárias do território de uma forma que nenhum catálogo turístico poderia inventar. O workshop “Roscas”, dedicado à doçaria ancestral de Monção harmonizada com os vinhos da casa, é outra proposta onde a gastronomia e o vinho se encontram não como categorias separadas, mas como expressões do mesmo saber local.
Para os próximos meses, a agenda continua a expandir-se com propostas que reforçam esta abordagem de colocar o vinho no centro de uma experiência mais ampla, onde gastronomia, cultura e território se articulam de forma natural e autêntica.
200 viticultores da sub-região de Monção e Melgaço cultivam cerca de 160 hectares de vinha
O mercado e os ventos da geopolítica
A PROVAM opera numa sub-região que vive um dos momentos mais interessantes da história comercial. A Alvarinho de Monção e Melgaço é, atualmente, uma das uvas mais valorizadas de Portugal e o conjunto dos produtores da sub-região movimenta uma faturação anual próxima dos 25 milhões de euros. A exportação representa uma fatia crescente desse valor em mercados, como os Estados Unidos, França, Reino Unido, Polónia e Alemanha, que absorvem parcelas cada vez maiores da produção regional.
Mas o contexto geopolítico dos últimos anos trouxe turbulência. A ameaça de tarifas aduaneiras elevadas por parte dos Estados Unidos, num cenário que chegou a contemplar a possibilidade de sobretaxas que tornariam inviável a exportação para o principal mercado externo dos vinhos verdes, e as complexidades burocráticas resultantes do Brexit obrigaram produtores, como a PROVAM, a repensar a geografia das suas exportações. A resposta tem sido a diversificação. Brasil, Coreia do Sul, Hungria, Austrália são destinos cada vez mais presentes nas estratégias comerciais da casa.
A valorização das certificações de Denominação de Origem e da distinção específica de Monção e Melgaço, que desde 2017 conta com um selo de garantia exclusivo que certifica a origem integral das uvas nesta sub-região, é vista como o principal argumento de resiliência. Num mercado global saturado de vinhos brancos, a especificidade geográfica e a impossibilidade de replicação do “terroir” são os ativos mais sólidos de que uma casa como a PROVAM dispõe. Um consumidor no Porto, em Paris ou em Seul que compra um Portal do Fidalgo não está apenas a comprar um vinho branco, está a comprar um lugar, uma tradição, uma promessa de autenticidade que não tem equivalente.
A sustentabilidade como modo de vida
Para uma empresa que depende de 200 pequenos produtores e de um território com características únicas e frágeis, a sustentabilidade não é uma tendência de marketing: é uma condição de sobrevivência. A PROVAM compreendeu-o desde cedo e a forma como estrutura a sua relação com os viticultores da rede é, em si mesma, um modelo de sustentabilidade social que vai muito além do que qualquer certificação pode certificar.
Garantir um preço justo pela uva, acima da média regional, é a forma mais direta de combater o abandono rural e a litoralização, que ameaça tantas regiões do interior português. As vinhas velhas que a PROVAM tanto valoriza existem, porque há famílias que as cultivaram por gerações e continuarão a existir apenas enquanto essa atividade for economicamente viável para essas famílias. Quando a adega investe no acompanhamento técnico das vinhas dos seus fornecedores, não está apenas a melhorar a qualidade da matéria-prima, mas a transferir conhecimento que perpetua um modo de vida e preserva um sistema agrícola com décadas de adaptação ao território.
Do ponto de vista ambiental, as vinhas velhas apresentam vantagens significativas: o seu sistema radicular profundo torna-as mais resilientes à seca, exige menos intervenções de irrigação e reduz a necessidade de tratamentos fitossanitários. Numa região onde as alterações climáticas estão já a fazer-se sentir em colheitas mais precoces e em verões mais quentes, preservar este capital vivo é uma aposta de longo prazo. A PROVAM afirma um “compromisso contínuo com a sustentabilidade, cuidando do território, das pessoas e do futuro” e os factos da sua operação sustentam essa afirmação.
Quando o copo confirma a promessa
Ao longo de três décadas, os vinhos da PROVAM acumularam um historial crítico que valida, prova a prova, a consistência do projeto. O Portal do Fidalgo é frequentador assíduo dos pódios de competições internacionais. Os diferentes vinhos produzidos pela empresa têm sido bem pontuados nas revistas, nacionais e estrangeiras, especializadas. O que se traduz numa validação particularmente significativa para um espumante de Alvarinho que está a construir a sua própria categoria.
Estes reconhecimentos funcionam como amplificadores da reputação em mercados externos onde a PROVAM ainda está a construir presença. Para um comprador em Nova Iorque, Berlim ou Seul que ainda não conhece a sub-região de Monção e Melgaço, uma medalha num concurso de referência ou uma pontuação elevada numa publicação especializada serve como prova de confiança e garantia de qualidade. É a tradução do terroir para uma linguagem universal.
Mas o prémio que, em 2025, mais revelou a evolução da casa foi talvez o menos esperado: o Prémio de Design na categoria de Vinho de Curtimenta para o Exemplar 2020, distinguido na segunda edição dos Mutante Awards. Num setor onde o design é frequentemente tratado como um exercício decorativo, a PROVAM escolheu encará-lo como o que realmente é: a extensão visual de uma identidade, o primeiro capítulo da história que um vinho conta antes de ser aberto. Este reconhecimento não premiou apenas um rótulo bonito, mas uma coerência entre produto, território e comunicação que a casa tem vindo a construir pacientemente ao longo de 33 anos.
Um futuro por escrever
Em 2026, quando se olha para o percurso da PROVAM desde aquelas primeiras reuniões entre dez amigos de Barbeita e Messegães, o que mais impressiona não é a dimensão do que foi construído – embora 830 mil litros de capacidade, 200 viticultores associados e presença em dezenas de mercados internacionais não seja pouco. O que impressiona é a coerência do percurso.
Esta é uma casa que nunca se esqueceu de onde veio. Que construiu o futuro sem demolir o passado. Que ousou na madeira e nas bolhas quando os outros hesitavam, mas nunca abandonou a mineralidade granítica e a acidez cítrica que são a alma da Alvarinho de Monção e Melgaço. Que renovou a imagem sem trair a essência. Que transformou a adega num centro cultural sem perder o foco na qualidade do que está na garrafa.
Os desafios que se avizinham são reais. O envelhecimento da rede de viticultores e a dificuldade em atrair novas gerações para uma atividade exigente e fisicamente árdua. A volatilidade geopolítica que torna os mercados de exportação cada vez mais imprevisíveis. A pressão crescente das alterações climáticas sobre um território que deve a sua singularidade precisamente ao seu microclima específico. A necessidade de crescer em escala sem perder a identidade que justifica o posicionamento alicerçado na qualidade.
Mas a PROVAM chega a este momento com ativos que poucos concorrentes têm em igual medida: um arquivo de colheitas que documenta 30 anos de evolução do Alvarinho no seu terroir de origem, uma rede de duzentos viticultores com profundo conhecimento das suas parcelas, uma cave de espumantes construída com paciência e convicção quando ninguém apostava nessa categoria, uma nova geração de vinhos, de comunicação e de experiências de enoturismo, que mostram que a capacidade de reinvenção está intacta. O que emerge destas páginas é o retrato de uma empresa “demasiado grande para ser pequena e demasiado pequena para ser grande”. No final, o vinho continua a ser uma forma de contar histórias. E na PROVAM, essas histórias continuam a escrever-se com tempo, com identidade e, sobretudo, com alma.
(Artigo publicado na edição de Junho de 2026)
PROVA BICAL: Entre Dão e Bairrada

Como acontece com tantas outras castas portuguesas, esta variedade viveu durante muito tempo misturada nas vinhas, onde ajudava ao field blend das vindimas feitas a eito. Por essa razão, é muito difícil procurar vinhos varietais nas duas regiões em que está mais presente. No Dão, por exemplo, encontrar vinhos brancos varietais é uma dificuldade generalizada, […]
Como acontece com tantas outras castas portuguesas, esta variedade viveu durante muito tempo misturada nas vinhas, onde ajudava ao field blend das vindimas feitas a eito. Por essa razão, é muito difícil procurar vinhos varietais nas duas regiões em que está mais presente. No Dão, por exemplo, encontrar vinhos brancos varietais é uma dificuldade generalizada, a que também não escapa a Encruzado, a tal variedade que só despertou da letargia nos anos 90 do século XX.
A Bical será filha da Malvasia Fina e de pai desconhecido. Esta é a linhagem que se conhece e é admitida como mais válida actualmente. Vem o tema a propósito porque, numa pesquisa no Google, somos informados que o “pai desconhecido” afinal seria a casta Esgana Cão (Sercial). Esta existe em Bucelas e na Madeira, segundo António Graça, investigador e cientista ligado à genética, nada nos conhecimentos actuais nos pode levar a pensar que Esgana Cão seja “pai” da Bical, variedade que encontrou na Bairrada um local excelente para se desenvolver, devido ao facto de ser uma casta precoce (e, por consequência, vindimada mais cedo do que outras) permite aos produtores colhê-la antes da chuva do equinócio, o verdadeiro trauma das gentes bairradinas.
O facto de ser precoce, só por si, não era, outrora, garantia segura. Do ponto de vista vitícola, era uma casta mal-amada na Bairrada, uma vez que era muito atreita ao desavinho e ao oídio, produzia mal e pouco (Ver As Castas do Vinho, João Afonso, 2023). Esta combinação de factores, que poderemos apelidar de “trágica”, só se alterou pela selecção clonal, controle das doenças da vinha e melhorias da viticultura. Foi assim que passou de mal-amada a uma variedade que Luís Lopes, enólogo do Dão (Domínio do Açor, Quinta das Marias) e na Bairrada, não hesitou em considerar “uma das melhores castas portuguesas”.
O que é que a Bical tem?
Dou aqui a palavra aos enólogos com quem debati este assunto. Luís Lopes reconhece-lhe a facilidade de cultivo, porém exigente no tipo de solo onde está implantada, porque “em solos secos perde muita acidez”. Terá sido este factor que levou os enólogos da Quinta dos Carvalhais, localizada no Dão, a optarem pelo arranque das vinhas de Bical. Manuel Vieira, em tempos enólogo nesta propriedade vitivinícola, explica: “só fizemos uma colheita com Bical, mas, em virtude da falta de acidez, tivemos de lhe juntar Loureiro, casta dos [Vinhos]Verdes que, no Dão, produzia muito. Saiu assim unicamente uma edição de Bical/Loureiro na colheita de 2000. Depois decidimo-nos pelo arranque”.
Do ponto de vista produtivo e na adega é casta que requer muita atenção do enólogo, pois “tão depressa fica o vinho reduzido, como pode oxidar rapidamente”, lembra Luís Lopes, que enaltece diferenças na variedade conforme a região: mais salinidade no Dão e mais notas de talco, que derivam do calcário, na Bairrada. Já Francisco Antunes, enólogo do Grupo Bacalhôa, que estudou a casta Bical no seu trabalho de fim de curso de enologia, elogia a casta, embora reconheça o quão é trabalhosa na vinha: “requer muita atenção e tratamentos adequados, mas, nas vinhas velhas, apesar da baixa produção, origina vinhos espectaculares. Parece pouco exuberante nos aromas, mas é casta que cresce imenso em garrafa e, por isso, pode considerar-se geradora de um vinho de guarda. As Caves Aliança tiveram uma colecção de vinhos debaixo do “chapéu” Galeria (a partir de 1989), que eram vinhos varietais e já, então, existia um branco de Bical”, recorda.
A fermentação, ainda segundo Francisco Antunes, pode decorrer em barrica. Contudo, a bâtonnage tem de ser muito moderada, para não resultar num branco muito pesado. Assim, no Bacalhôa 1931 faz-se a fermentação em quatro momentos: inox, barrica nova, barrica de um ano e barrica de dois anos; depois faz-se o lote nas percentagens determinadas pela prova. Normalmente, fica ainda um ano em garrafa antes da comercialização. É, portanto, uma casta que requer tempo e paciência. Ainda assim, como nos recordou, “tempo não se compra em enologia”. Luís Lopes, que trabalha a variedade nas duas regiões, recorda: “no Açor, temos solos com muito limo, que nos conservam bem a acidez do mosto e, na Bairrada, o calcário e a frescura do clima ajudam também à manutenção do ambiente de vivacidade no vinho”. Já Jorge Moreira, enólogo e um dos três fundadores do projecto M.O.B., acredita que é da combinação e proporção ajustada entre a Bical e a Encruzado que se conseguem os melhores resultados. Na empresa, o branco topo-de-gama é o Gauvé que, precisamente, é feito de 70% de Bical com 30% de Encruzado. Na zona onde estão as suas vinhas (Serra da Estrela), consegue-se excelente acidez. No entanto, “é preciso muito cuidado para não perder a estrutura de boca e a densidade que lhe são próprias”, adverte.
Da prova que fizemos, há algumas notas gerais que merecem destaque: olhando os 15 vinhos como um todo, verifica-se que há claramente uma preocupação com a diminuição da graduação, com nove amostras abaixo dos 13% de álcool e apenas uma com 13,5%. Apesar da maioria apresentar rolhas técnicas, houve, ainda assim, problema de rolha numa das referências.
O leque dos preços é variado, todavia isso também indica ao consumidor que muitos destes vinhos são abordáveis, sobretudo se adquiridos fora da restauração. Ficou igualmente claro que, tal como referimos no texto, o vinho ganha com o tempo em garrafa – nenhuma amostra de 2025 e duas de 2024, enquanto as restantes eram anteriores e mostraram que o tempo lhes fez bem. E mesmo ao Quinta dos Roques, já com 11 anos de idade, o tempo moldou-o, mas não o toldou.
(Artigo publicado na edição de Junho de 2026)
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Adega de Penalva
Branco - 2023 -

Terras Madre de Água
Branco - 2023 -

Desuso Borrado das Moscas
Branco - 2023 -

Alva Magna
Branco - 2024 -

Quinta dos Roques
Branco - 2015 -

M.O.B.
Branco - 2023 -

Código
Branco - 2024 -

Domínio do Açor Vinha Celta
Branco - 2022 -

Marquês de Marialva
Branco - 2023 -

Quinta dos Abibes
Branco - 2019
QUINTA DO PINTO: O sonho comanda a vida

Foi num dia cinzento, sentados no Defender, no ponto mais alto da mesma, de onde se visualiza a propriedade por inteiro, que Rita Cardoso Pinto desvendou os seus sonhos para a Quinta do Pinto, situada na Merceana, uma aldeia do coração de Alenquer, em plena Região Vitivinícola de Lisboa. Desde (re)colocar os vinhos no mapa […]
Foi num dia cinzento, sentados no Defender, no ponto mais alto da mesma, de onde se visualiza a propriedade por inteiro, que Rita Cardoso Pinto desvendou os seus sonhos para a Quinta do Pinto, situada na Merceana, uma aldeia do coração de Alenquer, em plena Região Vitivinícola de Lisboa. Desde (re)colocar os vinhos no mapa de consumidores, enófilos e restauração, do projecto de enoturismo e de alojamento, já aprovado, dos ‘Jardins d’Hiver’ à Paris – para serem utilizados em eventos, em vez das tradicionais tendas; tudo de enorme bom gosto, diga-se – e da introdução no remanescente da propriedade do cultivo de olival e citrinos.
O sonho comanda a vida…
“Eles não sabem, nem sonham, que o sonho comanda a vida. Que sempre que um homem sonha o mundo pula e avança como bola colorida entre as mãos de uma criança.”
E que avance é precisamente o que se pretende para a Quinta do Pinto.
A frase aparece no poema “Pedra Filosofal”, escrito por António Gedeão, pseudónimo de Rómulo de Carvalho (1906–1997), poeta, professor e divulgador científico português. O poema celebra a força criativa do sonho, afirmando que o mesmo é uma constante da vida, tão concreta quanto os elementos do quotidiano, como as pedras, os rios ou as árvores. O poema foi também musicalizado por Manuel Freire, tornando-se uma canção popular, que ajudou a imortalizar a frase e a difundir a sua mensagem de inspiração e liberdade criativa. “O sonho comanda a vida” rapidamente se tornou um lema motivacional e cultural em Portugal, lembrando que a imaginação e os ideais pessoais têm o poder de moldar a realidade e influenciar o mundo em redor.
A propriedade familiar da Quinta do Pinto estende-se por 120 hectares, circundando um solar do século XVIII geminado com uma adega de alvenaria de traça tradicional. Mais de metade da propriedade acolhe cerca de duas dezenas de castas tintas e brancas, nacionais e internacionais, que servem de base aos cartões-de-visita da casa, os vinhos, divididos pelas múltiplas referências Vinhas do Lasso, Terras do Anjo, Quinta do Pinto e Quinta do Pinto Grande Escolha.
Na verdade, o nome original da propriedade é Quinta do Anjo, mas, por questões de coincidência de marca com a homónima da região dos Queijos de Azeitão DOP, ficou Quinta do Pinto.
E porquê Pinto?
Reza a lenda que o vinho produzido, há três séculos, na propriedade, se destacava de tal forma na região que valia mais vinténs, isto é, mais Pintos, nome da moeda de ouro em circulação no reinado de D. João V. Acresce também a existência de um senhor Pinto, em tempos, um carismático feitor da propriedade, daí que, desde então, na região, a propriedade é referida como Quinta do Pinto. Feliz coincidência, ou destino mesmo, Pinto é igualmente o apelido dos actuais proprietários, os Cardoso Pinto, mais precisamente. Quinta do Pinto tornou-se, assim, o nome deste projecto vitivinícola.
Rita Cardoso Pinto é a front woman da quinta, mas uma palavra prévia será sempre devida ao seu pai, António Cardoso Pinto, o impulsionador do projecto. “É um homem muito intenso a nível familiar. Por ele estávamos todos juntos todos os dias – avós, pais, filhos e netos.” Provavelmente, terá sido essa pulsão que, juntamente com “a paixão de voltar a pôr na terra o que vinha da terra”, que o incitou, em 2003, a procurar um “tecto comum para a família num meio agrícola, mas que fosse próximo de Lisboa”. Encontrou-o precisamente em Alenquer, uma das nove denominações de origem da Região dos Vinhos de Lisboa. “Quando este tecto comum tem uma propriedade agrícola desta dimensão, há que a rentabilizar e dar resposta com o que de melhor esta terra tem para dar. E assim nasce o vinho na Quinta do Pinto”, continua Rita Cardoso Pinto.
“Quando este tecto comum tem uma propriedade agrícola desta dimensão, há que a rentabilizar e dar resposta com o que de melhor esta terra tem para dar. E assim nasce o vinho na Quinta do Pinto”, conta Rita Cardoso Pinto
A vinha e a Tinta Miúda
A vinha está plantada em suaves encostas de solos argilocalcários do período Jurássico, a ocupar metade da área da propriedade, com exposição a Sul e protegida pela Serra de Montejunto, que forma uma barreira face aos ventos proveniente do lado Norte. Beneficia da influência da costa atlântica, pois está a 25 quilómetros em linha recta em direcção ao mar, e usufrui de condições de excelência na região para as características diferenciadoras visadas pelo projecto. A folha contínua de vinha é palco de 27 variedades de castas, brancas e tintas, com primazia natural para as regionais de Lisboa e Alenquer, que se combinam com outras variedades nacionais e algumas internacionais – especialmente da região do Rhône, um gosto confesso e assumido por António Cardoso Pinto –, de forma singular e harmoniosa com o objectivo de dar origem a vinhos que espelham o projecto. Arinto, Fernão Pires, Viosinho, Alvarinho, Marsanne, Roussanne, Viognier, Chardonnay, Tinta Miúda, Touriga Nacional, Aragonez, Syrah, Petit Verdot, Cabernet Sauvignon e Merlot são algumas das muitas variedades plantadas.
“Os vinhos portugueses são muito ricos e são, tradicionalmente, muito feitos à base de lotes. É um bocadinho como a música. Temos um solista que tem de ser um Pavarotti nesta vida. Depois temos uma onda mais acústica. E depois temos uma orquestra. O lote é um bocadinho como uma orquestra, em que há vários instrumentos e todos tocam em harmonia”, exemplifica Rita Cardoso Pinto. E prossegue: “são vinhos feitos com muito amor e carinho. São ricos em aroma, estruturados e cheios de boca; têm uma frescura e uma acidez natural, que é expressão desta proximidade atlântica; e têm o cunho, um estilo muito típico da Quinta do Pinto. É um estilo muito próprio e que é elevado, sustentado, por estar nesta região. São vinhos com carácter, com alma. Este é o segredo.”
De todas as castas plantadas, a nossa anfitriã revela o carinho mantido “por um vinho monocasta feito de Tinta Miúda, que é uma casta antiga da região de Lisboa”. É vindimada numa vinha com cerca de 50 anos. “Fazia parte do ADN da casa quando comprámos esta propriedade e nunca a abandonámos.” Esta decisão comprova a preservação feita por parte da família Cardoso Pinto em relação ao que é local, “que é daqui”, daí que seja “um vinho que nos é muito querido. É um vinho com personalidade difícil. Precisa de tempo de garrafa”. Esta acção é, para Rita Cardoso Pinto, um exemplo de que “há coisas pelas quais nós temos de esperar. E a Tinta Miúda exige-nos essa espera. Portanto, é um vinho que nos desafia. Na sua acidez, na sua prova e depois no seu desenvolvimento. É um vinho que interage e que nos impacta”.
No dia que visitei a Quinta do Pinto tiveram a gentileza de abrir comigo um exemplar deste Tinta Miúda do ano de 2004 e, nem vos digo nem vos conto, o bom que estava. É esta magia do vinho, esta generosidade e autenticidade de quem produz vinho que nos move, a emoção visível entre os poucos que estávamos à mesa quando o vinho começou a abrir e desenrolar. Que maravilha! E que boas eram as favas cozinhadas pela avó Cardoso Pinto. E as duas coisas juntas? Divinais! Um verdadeiro momento de portugalidade.
A Quinta do Pinto estende-se por 120 hectares, que circundam um solar do século XVIII geminado com uma adega de alvenaria de traça tradicional
Viticultura sustentável e de precisão
Desde o início do projecto que a família tem seguido os princípios da intervenção mínima, por forma a obter o máximo do potencial das uvas vindimadas naquele terroir, minimizando qualquer outra intervenção e seguindo a filosofia de vinificação tradicional: “o vinho faz-se na vinha”. Com a consciência de uma agricultura sustentável, a Quinta do Pinto está certificada como Produção Integrada e há o espírito de partilha de conhecimento e experiências com entidades, como o Instituto Superior de Agronomia (ISA), de Lisboa, o Institut des Hautes Études de la Vigne et du Vin (IHEV), de Montpellier, com o INIAV (Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária) e com o CoLAB Vines & Wines. O objectivo consiste em garantir espaço para investigações científicas em prol do desenvolvimento vitivinícola.
No contexto da viticultura sustentável, é de evidenciar a relação com a viticultura de precisão, que consiste em analisar e actuar de forma diferenciada em cada parcela. Esta acção permite a redução de recursos gastos para o mesmo número de intervenções a efectuar. Com a passagem do tempo, e com base em campos de ensaio, optimizam-se ensaios de desfolha, aprimoram-se técnicas de poda, sistemas de monda, formas de fertilização orgânica, enrelvamentos e seleccionam-se clones e porta-enxertos mais resistentes às alterações climáticas.
O propósito de todo este trabalho incide na finalidade de potenciar a qualidade das uvas, adoptando uma postura de minimização da pegada ecológica, somada a uma viticultura livre de herbicidas, ou seja, feita com base numa fertilização 100% orgânica, o que tem vindo a contribuir para a implementação do conceito de “vinha viva”, no âmbito do qual existe o respeito máximo pelo ecossistema. A produção de uvas também não inclui rega. Já a enologia tem como regra a preservação total das caraterísticas das uvas, de modo a que cada vinho espelhe todo o terroir.
As cubas de cimento
António Cardoso Pinto confidencia-nos que, algures no início do projecto, chegou a ter um negócio praticamente fechado para instalação de modernas cubas de inox, mas a visita do famoso enólogo do Rhône, Michel Chapoutier, aquando de uma das suas vindas à Quinta do Monte d’Oiro (produtor localizado no concelho de Alenquer) tudo fez abortar essa ideia. Ao invés disso, recuperaram-se as dezenas de cubas de cimento centenárias, que, ainda hoje, existem e estão a funcionar.
Na verdade, em 2001, o enólogo Michel Chapoutier, projectou com a ajuda da empresa francesa Nomblot, um tanque de cimento inovador em forma de ovo – no fundo, o ovo não é mais do que uma evolução da ânfora romana e outros recipientes antigos, sendo o seu formato oblongo e curvo, com uma superfície interna lisa e sem cantos – dentro dos princípios da termodinâmica, a responsável pela criação de um vórtice dentro do fermentador, permitindo que o vinho se mova livremente e as borras fiquem suspensas, promovendo uma bâtonnage natural. Mas mais importante do que isso, até porque não há ovos de cimento na Quinta do Pinto, o principal ajuste feito pelo enólogo francês no tanque foi a troca de argila por cimento, um material neutro que não confere sabores extra. Nombolt usa cimento feito de areia do Rio Loire, enquanto o produtor argentino Zuccardi, por exemplo, usa pedras e argila de rios próximos, pretendendo com isso acrescentar um elemento extra de lugar e terroir aos seus vinhos.
Embora seja composta por cubas de cimento centenárias, a Quinta do Pinto também está equipada com a mais moderna tecnologia enológica, para garantir que as uvas seleccionadas sejam vinificadas com o objectivo de potenciar ao máximo a qualidade com que entram na adega. Na base, constam fermentações com leveduras indígenas, ajustes de acidez por loteamento e práticas o menos intrusivas possíveis, dando origem a vinhos de carácter o mais autêntico possível e com sentido de lugar.
Por conseguinte, as cubas de cimento são a peça-chave no processo; são porosas e, consequentemente, possibilitam a entrada de mais oxigénio, que permanece em contacto com o mosto durante o processo de fermentação. Esta característica facilita uma fermentação mais gradual e, por consequência, uma expressão mais autêntica do vinho, preservando os sabores e os aromas originais. As paredes grossas destas cubas centenárias também viabilizam o controlo e a mitigação das variações de temperatura.
Podemos afirmar que o cuidado com a vinha, as castas e as cubas de cimento constituem o ADN da Quinta do Pinto, sendo certo que também são utilizados recipientes de inox e barricas de madeira, mas sempre como complemento – nunca essencial e identitário. E, na minha opinião, os vinhos reflectem isso claramente.
Na etapa final do processo de produção, a preservação do meio ambiente não é esquecida. A prova está na alteração gradual de hábitos na adega, com a crescente aposta em garrafas mais leves e rolhas de cortiça natural e biodegradável, bem como na redução de lavagens com produtos químicos. A substituição das cápsulas de estanho por lacre, nos vinhos topo de gama, e a utilização de caixas de cartão reciclado, mais leves e com menos tinta, são outros dos requisitos postos em prática na Quinta do Pinto. Por fim, é de sublinhar a preocupação face à responsabilidade social, assumida como uma forma inequívoca de viabilizar economicamente quem ali vive, permitindo assegurar a sustentabilidade actual e garantir a das gerações futuras.
Quanto à concretização dos sonhos, o alojamento, o olival e os citrinos estão a ser pensados e planeados de forma sustentada, através da criação de parcerias com operadores de reconhecida experiência nas respectivas áreas. No entanto, sabemos que estas coisas também demoram o seu tempo. O importante é, entretanto, consolidar e fidelizar os consumidores através do vinho, e, quanto a isso, creio que estão no bom caminho. A prova está nos vinhos que provámos – muitos e bons.
A vinha está plantada em suaves encostas de solos argilocalcários do período Jurássico e é palco de 27 variedades de castas
(Artigo publicado na edição de Junho de 2026)
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Quinta do Pinto Grande Escolha
Tinto - 2019 -

Quinta do Pinto Limited Edition
Tinto - 2020 -

Quinta do Pinto Limited Edition
Tinto - 2017 -

Quinta do Pinto
Tinto - 2024 -

Quinta do Pinto Estate Collection
Tinto - 2021 -

Vinhas do Lasso Garrafeira
Tinto - 2013 -

Vinhas do Lasso Colheita Seleccionada
Tinto - 2019 -

Quinta do Pinto MMXIX Cimento
Branco - 2019 -

Quinta do Pinto Grande Escolha
Branco - 2022 -

Quinta do Pinto Limited Edition
Branco - 2021 -

Quinta do Pinto Limited Edition
Branco - 2021 -

Quinta do Pinto
Branco - 2024 -

Quinta do Pinto
Branco - 2024 -

Quinta do Pinto Estate Collection
Branco - 2024 -

Vinhas do Lasso Colheita Seleccionada
Branco - 2023
GRANDE PROVA LOUREIRO: Uma casta superstar

Segundo o Instituto do Vinho e da Vinha (IVV), a Loureiro é uma casta indígena do território dos Vinhos Verdes, provavelmente autóctone. É uma casta de maturação precoce, prefere solos profundos e de média fertilidade, e dá-se bem com a humidade do ar. Contudo, precisa de protecção do vento. A casta tem especial expressão na […]
Segundo o Instituto do Vinho e da Vinha (IVV), a Loureiro é uma casta indígena do território dos Vinhos Verdes, provavelmente autóctone. É uma casta de maturação precoce, prefere solos profundos e de média fertilidade, e dá-se bem com a humidade do ar. Contudo, precisa de protecção do vento. A casta tem especial expressão na região de Ponte de Lima. O site do IVV acrescenta, então, que os vinhos devem ser bebidos jovens. Porém, após esta prova, parece-me que vai ser preciso fazer uma actualização.
Os primeiros vinhos estremes de Loureiro que provei há uns 30 e tal anos tinham características muito específicas. Frescos, citrinos, de baixo teor alcoólico, acidez viva e algum gás a equilibrar uma doçura residual significativa. Este estilo jovem e frívolo era, muitas vezes, porta de entrada para os jovens no mundo vínico. Eram realmente vinhos que convinha beber novos e era esse o hábito face a muitos vinhos brancos em Portugal.
A pouco a pouco, o estilo foi mudando. Começaram a aparecer uns mais sérios e ambiciosos. O processo de melhoria global dos vinhos feitos a partir de Loureiro pode chamar-se de uma profecia auto-realizável. Para perceber esta evolução consultei o enólogo Anselmo Mendes, por vezes conhecido por Sr. Alvarinho, mas com igual propriedade se pode chamar Sr. Loureiro.
Para melhores resultados, apanha-se, por vezes, apenas o primeiro cacho da vara atempada, o qual detém maior concentração das componentes essenciais para a produção do vinho
Viticultura ambiciosa e desvelo na adega
Segundo Anselmo Mendes, a grande melhoria dos vinhos e o aumento da sua longevidade tem origem numa viticultura muito mais cuidada. Acrescento eu que a enologia portuguesa também evoluiu muito e os vinhos brancos beneficiaram dos melhores processos dentro da adega. Disse-me ainda que a Loureiro é uma variedade muito produtiva, chegando facilmente às 25 toneladas de uva por hectare.
Para garantir a qualidade, é preciso limitar severamente a produção, no máximo pode chegar-se às 15 toneladas. Para o seu Private, o mais bem pontuado desta prova, a produção da vinha velha é de oito toneladas. Para melhores resultados, a escolha é feita na vinha, apanhando, por vezes, apenas um cacho, o primeiro da vara atempada. Assim, este cacho vai ter uma maior concentração das componentes essenciais para a produção do vinho. Medições do extracto seco em várias amostras demonstram que esta estratégia é vencedora.
Para além do próprio vinho, Anselmo Mendes foi, durante muitos anos, enólogo da Quinta do Ameal, projecto que se tornou icónico na região. Quando foi comprado pelo Esporão, organizou uma prova vertical dos Quinta do Ameal e Quinta do Ameal Escolha, prova essa que mudou completamente a minha visão sobre a longevidade dos vinhos produzidos a partir de Loureiro. Provámos referências vínicas com mais de 20 anos, e a acidez vincada e afiada assegurou que o vinho estava bem vivo, oferecendo uma prova cheia de carácter e prazer.
Foi com projectos como este que a profecia se foi cumprindo. Houve pessoas que acreditavam no potencial da casta, praticavam uma viticultura cada vez mais ambiciosa, os vinhos melhoravam, evoluíam de forma muito positiva, o que justificava mais investimentos e de querer ir mais além. Um vinho que anteriormente se bebia no próprio ano, quase que o mais cedo possível, passou a tornar-se objeto de guarda. Lembro-me bem de os produtores se queixarem de não conseguirem vender o vinho do ano anterior. Tempos já idos.
Um vinho que anteriormente se bebia no próprio ano, quase que o mais cedo possível, passou a tornar-se objeto de guarda
Para todos os gostos
Dos 24 vinhos que vieram a esta prova, apenas seis são de 2025. Há oito de 2024, seis de 2023, três de 2022 e um de 2021. A justificação para a aposta em referências com idades variadas prende-se com o facto dos vinhos elaborados com a casta Loureiro terem sempre um grau alcoólico relativamente baixo e uma acidez precisa e vigorosa, que os torna bons companheiros à mesa. O uso de madeira para os estagiar é bastante raro, e muda um pouco o carácter fresco e divertido do vinho. Os aromas de frutos cítricos, como lima e limão, são frequentes, mas pode aparecer laranja e toranja. É frequente um lado vegetal a folhas de louro, talvez daí o nome da casta. Notas minerais aumentam a complexidade e algum trabalho com as borras pode ajudar a dar alguma textura cremosa ao vinho. Ainda existe o estilo frizante, com algum açúcar, um perfil que ainda encontra apreciadores. Os mais secos podem ter a acidez muito em evidência, e ficam bem com ostras – as ostras agradecem sempre os vinhos secos. Já os mais ‘ambiciosos’, com uma acidez suave bem integrada, podem acompanhar peixes e mariscos, bem como carnes, como pato assado.
O tempo passa e a nossa percepção em relação ao vinho vai mudando. A Loureiro foi levada a sério por pessoas que acreditaram e construíram um produto único, sensacional, com uma leveza e frescura irrepetíveis. À medida que cada vez mais Loureiros ambiciosos forem aparecendo, tenho a certeza de que ainda vamos ter muito boas surpresas com esta casta. Podemos apostar ainda em guardar umas garrafas para desfrutar mais tarde da sua evolução.
Nota: A Grande Prova Loureiro realizou-se em prova cega.
(Artigo publicado na edição de Junho de 2026)
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Ameal
Branco - 2024 -

Tojeira Unoaked
Branco - 2023 -

Quinta de S. Salvador da Torre
Branco - 2023 -

Pequenos Rebentos Vinhas Velhas
Branco - 2023 -

Inspir’ar
Branco - 2024 -

Contacto
Branco - 2024 -

Camaleão Barrel Aged
Branco - 2023 -

Borges
Branco - 2024 -

Barão do Hospital
Branco - 2023 -

Parcela do Convento
Branco - 2024 -

Germinar Vinhas Velhas
Branco - 2022
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Terras de Felgueiras
Branco - 2025 -

Casa de Vila Verde
Branco - 2025 -

Quinta da Lixa
Branco - 2025 -

Gábia
Branco - 2024 -

Adega Coop. de Ponte de Lima
Branco - 2025 -

Quinta do Tamariz
Branco - 2023 -

Quinta d’Amares Claustrum
Branco - 2022 -

Quinta de Linhares
Branco - 2025 -

Paço de Teixeiró
Branco - 2024 -

Maria Bonita
Branco - 2025 -

Aphros Daphne
Branco - 2022
VINHOS ITALIANOS: Como um produtor português se abre ao mundo

Na economia e na política, há momentos de transição discreta que dizem mais sobre o futuro de um país do que grandes anúncios de investimentos estratégicos. No vinho – mundo tantas vezes ancorado na tradição, no orgulho legítimo das origens e na defesa da identidade – esses momentos são raros. Mais raros são no “velho […]
Na economia e na política, há momentos de transição discreta que dizem mais sobre o futuro de um país do que grandes anúncios de investimentos estratégicos. No vinho – mundo tantas vezes ancorado na tradição, no orgulho legítimo das origens e na defesa da identidade – esses momentos são raros. Mais raros são no “velho mundo”, onde Portugal, Espanha, França e Itália olham essencialmente para dentro e quase sempre com desconhecimento sobre o contexto vínico do “vizinho do lado”. Mas, de quando em vez, esses momentos pivot acontecem. E quando acontecem, devem ser reconhecidos pelo que realmente são: sinais de maturidade, de visão e, acima de tudo, de confiança. A decisão de um grupo como o Grupo Amorim de integrar, no seu universo, o olhar e ação de um dos mais respeitados enólogos italianos, Riccardo Cotarella é, a nosso ver, um desses momentos.
Como é sabido, Portugal sempre se distinguiu pela riqueza das suas castas e dispersão territorial da plantação da vinha, diversidade dos seus terroirs e por uma cultura vínica profundamente enraizada. Agora, com este movimento do Grupo Amorim, esperamos que o mundo vínico português recupere a capacidade de se abrir ao exterior. É verdade que Portugal nunca esteve totalmente fechado, sendo disso bom exemplo alguns enólogos estrangeiros que se radicaram no nosso país, caso de Peter Bright, e, depois, David Baverstock, ambos australianos. E também é certo que tivemos outros nomes internacionais, sonantes até, que, pontualmente, cruzaram o nosso caminho, mas sempre sem destaque maior. Veja-se o caso de Michel Rolland, o mais célebre dos flying winemakers e uma das figuras mais influentes da enologia contemporânea.
Michel Rolland teve presença global avassaladora, trabalhando com centenas de produtores em mais de duas dezenas de países. No entanto, ao contrário do que aconteceu na Argentina, em Itália ou na Califórnia, EUA, a sua marca em Portugal foi ténue, quase periférica, sem nunca se traduzir numa aposta estruturada ou num projeto com impacto sistémico. Maior influência no nosso país, mas mesmo assim sem consolidar um impacto determinante no Portugal vínico moderno, teve o enólogo Pascal Chatonnet. Com uma ligação mais concreta ao país, colaborou, desde os anos 90 do século XX, com projetos no Douro, como a Quinta do Portal, e, mais tarde, desempenhou um papel menos esporádico na Bairrada e noutras regiões através do ex-grupo IdealDrinks, ainda exercendo a sua atividade pelo nosso país. Foram e são contributos importantes, sem dúvida, mas, ainda assim, inseridos em contextos específicos e sem o peso simbólico de uma opção estratégica assumida por um grande grupo nacional.
De fora para dentro
Pois bem, é esse movimento de fora para dentro que Luísa Amorim quer potenciar para os seus projetos localizados de norte a sul do país. Para tal, a produtora destaca a amizade de longa data da sua família com a família Cotarella, afirmando que tal não se trata de um detalhe biográfico, mas antes a base emocional e cultural de uma relação que transcende negócios ou estratégias. Para confirmar esse posicionamento, ou melhor, essa ponte entre os dois países, foi organizada uma prova de vinhos italianos, uma verdadeira imersão dedicada aos vinhos de Itália, no Instituto Superior de Agronomia em Lisboa.
O local não terá sido escolhido ao acaso, explorando a ligação à academia (Riccardo Cotarella colabora como professor de Enologia na Universidade da Tuscia), com vários alunos presentes, quer das licenciaturas de Engenharia Agronómica e Engenharia Alimentar, quer do Mestrado em Engenharia de Viticultura e Enologia.
Antes da prova propriamente dita, Riccardo Cotarella destacou, numa breve palestra, a forte cultura de vinho em Portugal – revelando até uma certa surpresa sobre a importância do vinho para os portugueses –, a diversidade de castas portuguesas, e a complexidade dos nossos lotes.
Mais do que termos muitas castas diferentes (em Itália existem ainda mais variedades), Riccardo Cotarella constatou que os enólogos portugueses têm uma capacidade quase intuitiva de equilibrar identidade e inovação, e, neste aspeto temos, de nos orgulhar quando alguém com o percurso de Riccardo Cotarella encontra, em Portugal, algo único e que não carece de ser corrigido, antes enaltecido. Talvez por isso, a consultoria do enólogo italiano é apresentada como uma colaboração apenas, sendo que ao seu lado estão os enólogos portugueses responsáveis pelas propriedades do Grupo Amorim, todos eles conhecedores dos seus territórios e com anos na casa – caso de António Bastos, na Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo (Douro), Rodrigo Costa, na Taboadella (Dão) e António Cavalheiro, na Herdade Aldeia de Cima (Alentejo).
Em suma, a apresentação do novo consultor internacional para o Grupo Amorim é, esperemos, um sinal de que o vinho português não se fecha ao exterior. No fim, talvez seja isso que verdadeiramente importa. Não se trata de trazer um grande nome da enologia italiana para Portugal, mas de ser capaz de mostrar que o nosso país pode dar-se ao luxo de se expor, porque quem sabe o que vale, não tem receio de partilhar e até de melhorar.
Os clássicos e a elegância no copo
Na masterclass, comentada por Riccardo Cotarella, o destaque, nos brancos, foi todo para o clássico Cervaro della Sala 2024, da Tenuta Castello della Sala (Grupo Antinori), que revelou a complexidade calcária do terroir de Umbria, localizada no centro de Itália, e muita precisão mineral. Também foram provados o fresco Il Punto 2023 (Lazio), o exuberante Vintage Tunina 2023, do produtor Jermann e da região norte Friuli‑Venezia Giulia, e o intenso Quartz Sauvignon 2024 do produtor Cantina Terlan do Adige Terlano (Val d’Aosta). Nos tintos, brilhou o Gran Selezione San Lorenzo 2021, do produtor Castelo di Ama, a provar que os Chianti Classicos seguem como os mais elegantes tintos italianos, lado a lado com a potência e juventude do Tenuta Nuova 2020, do produtor Casanova di Neri, em Brunello di Montalcino, e do carismático e rústico Montevetrano 2022, da Colli di Salerno, entre outros.
(Artigo publicado na edição de Junho de 2026)
ERVIDEIRA: Operação Invisível

No ano de 2010, quando o boom dos vinhos brancos ainda nem sequer tinha começado e sobre o branco de uvas tintas ainda não se ouvia falar, a Ervideira lançou o seu primeiro Invisível 2009, o vinho branco feito de Aragonez. Parecia mentira. Como se não bastasse, o lançamento foi marcado para o dia 1 […]
No ano de 2010, quando o boom dos vinhos brancos ainda nem sequer tinha começado e sobre o branco de uvas tintas ainda não se ouvia falar, a Ervideira lançou o seu primeiro Invisível 2009, o vinho branco feito de Aragonez. Parecia mentira. Como se não bastasse, o lançamento foi marcado para o dia 1 de Abril. Tal como hoje, mas há 16 anos, tornou-se uma tradição.
A surpresa do consumidor era grande e a curiosidade também. As 9000 garrafas esgotaram rapidamente e não era um vinho barato. À época, custava cerca de oito euros. O sucesso era absoluto e crescia de ano para ano. E, por muito que a produção aumentasse, a procura foi sempre superior, de maneira que em Julho todo o Invisível ficava mesmo invisível, demonstrando a apetência do mercado para absorver mais.
A curiosidade é um bom estímulo para experimentar um vinho. Uma vez. Não é suficiente para manter o nível de procura apenas com marketing adequado; o vinho tem que ter argumentos próprios, para manter o interesse do consumidor, como foi o caso. Assim, a edição de 2025 atingiu 180 000 garrafas. É o vinho mais vendido da Ervideira e não é o mais barato, custando agora 14,50 euros. Pela informação que conseguiram apurar na empresa no que toca aos vinhos tranquilos, o Invisível é o Blanc de Noirs mais vendido do mundo. Nada mau para um vinho de nicho. É um autêntico case study. 90% do Invisível é vendido no mercado nacional, 5% no Brasil e 5% em alguns países europeus.
É o vinho mais vendido da Ervideira e não é o mais barato
Um percurso Invisível
Recuando no tempo para lá do primeiro lançamento, estamos antes da vindima de 2008. A ideia foi, como sempre, de Duarte Leal da Costa, administrador da Ervideira, que trouxe, entusiasmado, vários Blanc de Noirs estrangeiros, para convencer o responsável de enologia, Nelson Rolo, a criar algo semelhante na Ervideira. O enólogo não partilhou o entusiasmo e disse que os vinhos que provou eram “uma treta”. “Então, vamos fazer um vinho que não seja uma treta”, concluiu Duarte.
E qual seria a casta escolhida para um papel tão importante? Várias foram as opções, no entanto, todas apresentavam algumas fraquezas. A Touriga Nacional era boa, mas precisavam dela para os vinhos tintos; Cabernet Sauvignon conferiu um aroma muito vegetal, enquanto os ensaios com a Trincadeira e a Moreto não tinham graça. A única casta que passou no casting com todos os requisitos foi a Aragonez.
Desde então, plantaram três vinhas novas e aumentaram a adega por três vezes para dar resposta ao aumento da produção do Invisível especialmente para a produção do Invisível. Actualmente estão a planear uma quarta alteração.
Paralelamente, o estilo também foi-se alterando um pouco ao longo dos anos, de acordo com o gosto do consumidor. Os primeiros vinhos tinham mais álcool (13-13,5%) e cerca de cinco gramas por litro de açúcar residual; agora são secos e não ultrapassam os 12,5%.
É um vinho muito exigente em termos técnicos, sobretudo a nível de frio, para não extrair a cor. Têm as vinhas em duas zonas do Alentejo: em Reguengos e na Vidigueira. Vindima-se tudo à máquina e à noite. A uva da Vidigueira vai logo para uma câmara frigorífica. Em Reguengos, como a vinha fica muito perto da adega, circulam dois tractores, a transportar rapidamente a uva até à adega, sempre de madrugada. A uva segue logo para a prensa, para minimizar o contacto com as películas.
Fazer o Invisível é como construir um puzzle, pois trata-se de um lote de Aragonez não só de várias parcelas, mas também apanhado em alturas diferentes. A vindima começa no final de Julho, ainda antes das uvas destinadas para a base de espumantes. As primeiras uvas que entram, asseguram a acidez. Nesta altura, os aromas ainda não estão desenvolvidos. Por isso, é preciso ir construindo as camadas do vinho, incluindo as uvas vindimadas mais tarde, por vezes quase com um mês de diferença. Há várias fermentações separadas e o lote final é construído a partir de múltiplos ingredientes, com cuidado especial e o objectivo bem definido, rejeitando aqueles em que ou há cor a mais ou acidez a mais, ou sabem a verde.
Fazer o Invisível é como construir um puzzle, pois trata-se de um lote de Aragonez
Invisível com bolhas
Estas são bem visíveis, já que se trata da versão espumante bruto natural, ou seja, sem adição de açúcar no licor de expedição. Aqui, à Aragonez juntou-se a Syrah e até em quantidade superior, pois não sobra muito do Invisível original. É feito por método clássico, com segunda fermentação em garrafa durante nove meses. As 12 000 garrafas produzidas do primeiro espumante esgotaram-se na empresa em cinco semanas. A segunda edição, que ainda está em cave a estagiar, já conta com 30 000 garrafas.
(Artigo publicado na edição de Maio de 2026)
ETHOS WINES: De Homero, de Aristóteles, de Heidegger e da Beira Interior

Sendo eu Jurista de formação, as Humanidades e a Filosofia sempre fizeram parte do meu currículo e aprendizagem. Para escrever sobre o Ethos fui matar saudades e rever os meus velhos livros de liceu e de curso, e, só por isso, já valeu a pena escrever este artigo. Encontrada pela primeira vez em Homero (928 […]
Sendo eu Jurista de formação, as Humanidades e a Filosofia sempre fizeram parte do meu currículo e aprendizagem. Para escrever sobre o Ethos fui matar saudades e rever os meus velhos livros de liceu e de curso, e, só por isso, já valeu a pena escrever este artigo. Encontrada pela primeira vez em Homero (928 – 898 a.C.), a palavra do grego ethos significa originalmente morada, seja o habitat dos animais, seja a morada do homem, lugar onde ele se sente acolhido e abrigado. Séculos mais tarde Martin Heidegger (1958) recupera e aprofunda os ensinamentos de Homero, defendendo que o ethos é o campo aberto da morada do homem, onde o Dasein (o ser humano) se relaciona com o Ser.
A célebre frase de Heidegger “a linguagem é a casa do Ser” completa o sentido de ethos. O homem mora habitando essa casa através do pensamento e da poesia… e não houve alguém que disse um dia que “um bom vinho é poesia engarrafada”?
Muito resumidamente, no pensamento de Heidegger, o ethos é a dimensão existencial e poética em que o ser humano habita e protege o Ser, situando-se autenticamente no mundo. O segundo sentido, proveniente deste, é costume, modo ou estilo habitual de ser. A morada, vista metaforicamente, indica justamente que, a partir do ethos, o espaço do mundo torna-se habitável para o homem. Assim, o espaço do ethos enquanto espaço humano, não é dado ao homem, mas por ele construído ou incessantemente reconstruído.
Para os filósofos gregos, especialmente Aristóteles, o ethos está diretamente relacionado ao nosso modo de ser, enquanto na cultura romana, a ideia de moral vem de moralis, que significa costume. Desta maneira, ethos é o nosso carácter e moral é um conjunto de normas de convivência que regulam o nosso comportamento. A partir da ideia de ethos estabelece-se a base da ideia de ética, ou seja, a reflexão sobre o nosso modo de vida. Enquanto a moral tem uma dimensão normativa e se baseia num conjunto de regras concretas, a ética é uma avaliação ou reflexão sobre as questões morais.
Na cultura grega, o ethos individual pode ser forjado com disciplina, já que vamos formando um ethos com os nossos hábitos. Em compensação, a ideia de phatos refere-se à paixão e à emoção; por outro lado, o termo logos faz referência à ideia de razão e linguagem.
Para Aristóteles, os três elementos intervêm na comunicação, a célebre retórica aristotélica, concebida como aperfeiçoamento da tese platónica de que a simples exposição ao conhecimento seria suficiente para conquistar uma audiência. Em discordância com o seu mentor Platão, Aristóteles acreditava que a retórica seria fundamental para conquistar o público.
É, pois, deste modo, que surgem o ethos, o pathos e o logos como meios de potenciar a capacidade de persuasão de um público. O primeiro refere-se à capacidade de o atingir, com base na ética, integridade e credibilidade do orador; o segundo alude à capacidade de apelar às emoções e à criação de empatia entre o orador e a audiência; e o terceiro sugere a utilização de argumentos racionais, de evidências e do raciocínio lógico.
Assim, muito resumidamente, transmitimos ideias com o nosso modo de ser, enquanto através do pathos individual expressamos emoções, e tudo está articulado pela razão e pela linguagem.
Família e herança
Da mesma forma, numa obra de arte, podemos encontrar um ethos, um pathos e um logos, isto é, uma personalidade, uma emoção e uma linguagem. É precisamente o que encontramos nos vinhos Ethos, da Beira Interior. A Ethos Wines é sobre vinho, mas também é sobre família, herança e sobrevivência nesta região selvagem e remota do centro de Portugal. Desde 2018, que Tiago Mendonça cultiva 12 hectares de vinha no concelho da Guarda, pertencente à região vitivinícola da Beira Interior.
Este é mais do que um projecto para Tiago Mendonça. É um verdadeiro trabalho de paixão e tradição. Tem raízes familiares profundas que o ligam a esta terra, pois os pais eram naturais da região. As férias de infância eram passadas com a família materna, na Quinta de São Lourenço, inserida no magnífico Vale do Mondego, dentro do Parque Natural da Serra da Estrela, na região da Guarda. Hoje, é frequentemente acompanhado pelo seu filho mais novo, Francisco Mendonça, que tem um gosto especial por trabalhar ao lado do pai.
As vinhas da Ethos Wines estão plantadas numa encosta voltada a nascente, com solos graníticos pobres, a uma altitude entre os 480 e os 520 metros. A vida das videiras aqui é exigente, com grandes amplitudes térmicas diurnas e níveis elevados de precipitação. Mais de 70% das vinhas têm mais de 60 anos, tendo algumas sido replantadas em 2012; e cerca de 50% está em co-plantação de castas tradicionais, a par com o decurso do trabalho de identificação das várias variedades presentes.
As castas são as tradicionais da região. Nos brancos encontramos Síria, Arinto, Tamarez, Malvasia Fina, Gouveio, Cerceal e Ferral. Nos tintos destacam-se a Rufete, a Mourisco, a Jaen, a Baga, a Trincadeira, entre outras. A viticultura está nas mãos do agrónomo Carlos Veiga, enquanto na adega, a enologia é acompanhada pela enóloga Mariana Salvador, cuja missão é interpretar as uvas de forma a reflectirem verdadeiramente a identidade da Beira Interior. A função de Mariana Salvador consiste em equilibrar o acompanhamento rigoroso da vinificação e do estágio. As leveduras são indígenas e os níveis de sulfuroso são mantidos no mínimo indispensável.
As vinhas estão certificadas em modo biológico desde 2020. A certificação biológica dos vinhos está prevista a partir da colheita de 2025. O trabalho na vinha e na adega é o que dá origem aos brancos minerais intensos e frescos, bem como aos tintos elegantes, gastronómicos e com excelente capacidade de envelhecimento.
Mas Ethos não é só vinho, também é azeite. Há mais de 20 anos que a família é proprietária de um lagar onde são produzidos alguns dos melhores azeites não só da região, mas do mundo, tal como comprovam os múltiplos e variadíssimos prémios obtidos. As azeitonas são colhidas de oliveiras com idades até 100 anos, incluindo variedades locais.
As vinhas estão plantadas numa encosta voltada a nascente, com solos graníticos pobres e mais de 70% ultrapassam os 60 anos
Acima de tudo, o projeto Ethos assenta num profundo respeito pela tradição e pelo terroir. A equipa demonstra-o e disso mesmo nos deu conta – uma determinação firme em revelar o potencial da Beira Interior, uma pequena região emergente que tem vindo a conquistar cada vez mais reconhecimento através da produção de vinhos distintivos e de azeite de classe mundial.
E Ethos é igualmente arte… por fora. O rótulo do Ethos Rufete tinto 2023 e do Ethos Vinho de Parcela tinto 2023 comprova este preâmbulo, através da assinatura de Ana Malta, artista plástica com formação académica em pintura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa e um mestrado em Gestão de Indústrias Criativas pela Universidade Católica do Porto. Ambos os rótulos denotam a prática artística associada à estética, onde as cores e os padrões se cruzam com contrastes e a inquietante expressão visual da artista. Personalidade, emoção, linguagem. Ethos, pathos, logos. Beira Interior, Tiago Mendonça, Ethos Wines.
(Artigo publicado na edição de Maio de 2026)
SYMINGTON FAMILY ESTATES: 2024, a declaração de um clássico

Havia um sereno júbilo no segundo andar do prédio onde fica o Matriarca, o elegante restaurante, bar de vinhos e academia de vinhos pertencente ao grupo Symington, com localização privilegiada na Praça Carlos Alberto, no Porto. A mesa de provas preparada, as garrafas em exposição. Ao fundo, quatro membros da família, Rupert e Charles, da […]
Havia um sereno júbilo no segundo andar do prédio onde fica o Matriarca, o elegante restaurante, bar de vinhos e academia de vinhos pertencente ao grupo Symington, com localização privilegiada na Praça Carlos Alberto, no Porto. A mesa de provas preparada, as garrafas em exposição. Ao fundo, quatro membros da família, Rupert e Charles, da geração actualmente à frente da empresa, ladeados por Harry e Anthony, a geração seguinte, pacatamente a preparar-se para a sua vez. O júbilo resultava da ocasião de apresentar os Portos Vintage de 2024, ano que vai ser de festiva declaração generalizada. Um grande clássico para Dow’s, Graham’s, Warre’s, Cockburn’s, Quinta do Vesúvio, bem como o Graham’s The Stone Terraces, o Capela da Quinta do Vesúvio e o Quinta de Roriz. Os Symington vão lançar todas as suas pérolas, desde as marcas clássicas, cujo terroir é o lote, assim se tem descrito, às novas marcas mais focadas no lugar, a definição mais usual de terroir.
O júbilo era ainda reforçado pela raridade da ocasião, já que a última declaração clássica generalizada tinha sido a vindima de 2017. São sete anos de diferença, o que se, por um lado perturba os financeiros da empresa, por outro descansa os clientes e admiradores. Afinal, a família Symington demonstra que não há cedências quando está em jogo o desejo de qualidade irrepreensível face à exigência estabelecida nestes vinhos, que representam o pináculo do vinho português e capturam a admiração dos winelovers do mundo.
Desde 2017, muito quente e de vindima precoce, não havia, no Douro, um ano agrícola tão perfeito para fazer Porto Vintage. Se pensarmos no período de tempo entre 2018 a 2023, encontramos sempre vinhos excepcionais, tintos, brancos e mesmo vinhos do Porto. Mas foram anos com “chuvas inconstantes e ciclos de crescimento desafiantes”, segundo os responsáveis da Symington. Temos de nos lembrar de que um Vintage clássico tem como perspectiva o consumo de muitas décadas. E, por que não, um século? Já lá vamos.
Mudanças e legado
Mesmo assim, e o enólogo principal Charles Symington não deixou de o enfatizar, os vintages mais recentes podem ser apreciados logo desde o lançamento para o mercado. Há boas razões para isso, entre a qualidade das aguardentes, as plantações de novas castas com ciclo vegetativo compatível com as alterações climáticas, o envelhecimento das vinhas, que também se vão adaptando aos sítios, e a enologia, que acumula cada vez mais sabedoria sobre os ingredientes e o processo para fazer um grande vinho, abordável desde o cedo. Um exemplo dos pormenores que contam: até o transporte das uvas melhorou muito. Charles Symington ainda se lembrava dos cestos de 60-70 kg, hoje uma longínqua memória. Também todas as quintas disporem de pequenas adegas ajuda ao processamento imediato das uvas, em vez de longas jornadas em camião. Hoje, “todos os vinhos têm um estilo mais polido”.
Entre os presentes, comentava-se também que a nossa idade já não nos permitirá a todos esperar as décadas que esses grandes vinhos mereceriam. A antiga regra de beber os vinhos comprados pelos nossos pais, enquanto compramos os vinhos para os nossos filhos, nem sempre foi aplicada a tempo. Por isso, bebamos estes jovens infantes, debiquemos os outros que tivemos a lucidez de comprar há uns anos. Contudo, não nos esqueçamos dos nossos filhos, que um grande Vintage na sua idade madura é um prazer raro que temos obrigação de lhes legar.
Para desfrutar ou guardar
Vamos aos 24’s. O ano agrícola teve uma perfeição cintilante. Foi um ano “à moda antiga.” Muita chuva no Inverno, o que é logo um bom começo. A saturação dos solos em Novembro foi a mais precoce já registada e durou até fim de Março, a mais tardia já registada. Todas as fases de desenvolvimento das uvas vieram na altura normal, o que, nos últimos anos, tem sido completamente anormal. Abrolhamento em Março, floração em Maio, tudo normal. Abril seco poupou as vinhas ao míldio, Maio e Junho com chuva média, o que manteve a vinha sem problemas. Julho foi quente, mas sem extremos. Agosto teve máximas nos 31, 32 ºC, mínimas nos 19 ºC, uma boa amplitude térmica que permite a maturação das uvas e boa preservação dos ácidos, essenciais para obter vinhos elegantes, equilibrados, com muita pureza de fruta. Setembro teve máximas inferiores a 30 ºC e mínimas nos 12 ºC, e as vindimas começaram no dia 4, com Sousão, Alicante Bouschet e vinha velha. A Touriga Nacional começou a ser colhida a 16 de Setembro, uma data típica, mas há anos que não se via. Era preciso colher mais cedo. A cereja no topo do bolo, segundo Charles Symington, foi a Touriga Franca, a casta decisiva para definir um grande ano. Uvas de grande qualidade asseguraram, assim, este Vintage que espalha sorrisos entre os provadores. Algumas pingas de água já no fim da vindima não tiveram influência, e as temperaturas foram perfeitas para as fermentações: nunca foi preciso aquecer os lagares no princípio, nem arrefecer no fim. Todos os vinhos foram fermentados em lagares, com o uso da pisa a pé tradicional na Quinta do Vesúvio; nas outras há lagares robóticos.
Cada vinho tem origem em quintas específicas tradicionalmente usadas para cada marca. São todas pertencentes ao grupo ou propriedade pessoal de membros da família. As combinações de origens e castas usadas em cada vinho também são específicas, além de que procuram preservar o estilo histórico e identidade própria.
A qualidade geral dos vintages de 2024 é fantástica, é realmente um ano fabuloso, para desfrutar já em jovem ou para guardar e envelhecer muitos anos. Justifica-se comprar caixas e acompanhar a evolução destas pérolas. É também incrível a distinção e variedade dos oito vinhos provados. Cada apreciador terá o seu favorito. Vale muito a pena procurar provar todos e escolher por si próprio. Dentro da minha experiência com cada uma destas marcas, em jovem e ao longo do tempo, vejo nuances que são específicas deste ano de 2024, que vai certamente ficar para fazer história.
O almoço não terminaria sem uma mousse de chocolate exemplar, que serviu de pista de aterragem para um mimo, o Dow’s Porto Vintage de 1924, jóia trazida das caves históricas da família. Termino com a sua descrição: cor âmbar translúcida. Nariz com a fruta muito escondida, notas minerais e vegetais; tudo é encantamento e sedução, num foco tawny-não-tawny. Fumo, caramelo, especiarias, chá, tabaco. A boca complementa a perfeição. Cognac, suave calor da madeira, taninos muito resolvidos, doçura suave e cintilante, acidez a dar frescura, final infinito e cheio de nuances. Um vinho inesquecível, sem nota. É para momentos como este que compramos Porto Vintage.
(Artigo publicado na edição de Maio de 2026)
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Capela da Quinta do Vesúvio
Fortificado/ Licoroso - 2024 -

Quinta do Vesúvio
Fortificado/ Licoroso - 2024 -

Cockburn’s
Fortificado/ Licoroso - 2024 -

Quinta de Roriz
Fortificado/ Licoroso - 2024 -

Graham’s The Stone Terraces
Fortificado/ Licoroso - 2024 -

Graham’s
Fortificado/ Licoroso - 2024 -

Dow’s
Fortificado/ Licoroso - 2024 -

Warre’s
Fortificado/ Licoroso - 2024

















































