CASA SANTOS LIMA: O gigante discreto

Casa Santos Lima

Alenquer, há muitos anos numa reportagem de vindima. Próximo de Lisboa, era o sítio mais fácil para visitar um verdadeiro compêndio de castas, bem como sua sequência de maturação e recolha. Foi em 2005. Ddeixem-me citar, desse artigo, a ordem de colheita das várias castas: Pinot Noir (T), Fernão Pires (B), Chardonnay (B), Vital (B), Sauvignon Blanc […]

Alenquer, há muitos anos numa reportagem de vindima. Próximo de Lisboa, era o sítio mais fácil para visitar um verdadeiro compêndio de castas, bem como sua sequência de maturação e recolha. Foi em 2005. Ddeixem-me citar, desse artigo, a ordem de colheita das várias castas: Pinot Noir (T), Fernão Pires (B), Chardonnay (B), Vital (B), Sauvignon Blanc (B), Viosinho (B), Seara Nova (B), Rabo de Ovelha (B), Merlot (T), Trincadeira (T), Camarate (T), Syrah (T), Touriga Franca (T), Tinta Roriz (T), Castelão (T), Cabernet Sauvignon (T), Tinto Cão (T), Preto Martinho (T), Arinto (B), Touriga Nacional (T), Tinta Barroca (T), Alicante Bouschet (T), Alfrocheiro (T), Caladoc (T), Sousão (T), Moscatel (B) e Tinta Miúda (T).

Nesta viagem de 20 anos percebe-se que, já naquela época, a filosofia da casa era, acima de tudo, diversificar. A estratégia não era de sucesso evidente, havia muitos outros produtores a apostar no contrário: num vinho forte, construir aí a marca e, depois, introduzir variedade a partir desse ponto focal. Seria fazer o tinto X, depois o X Reserva, a seguir o X branco, depois o X Touriga Nacional, e talvez ficar por aí.

Vejamos, o paradigma dos vinhos de sucesso em Bordéus é parecido: 300 mil garrafas do Château Blah, 30 mil do Petit Blah, feito com as vinhas mais novas, e o resto da produção é vendido a granel ou engarrafado discretamente com a Denominação de Origem (DO) em grande evidência no rótulo. Objectivo? Não estragar o prestígio nem o preço do Château, que faz quantidade a sério a multiplicar por bom preço. Na Borgonha, a estratégia também é enfatizar a notoriedade dos melhores vinhos, mas com o foco na raridade e particularidade de cada um dos terroirs, que podem ser minúsculos, originando pouquíssimas garrafas, posteriormente disputadas como jóias por apreciadores ávidos de exclusividade e luxo.

Em contrapartida, a Casa Santos Lima cedo escolheu e se especializou num rumo alternativo: alargar a gama, construir muitas marcas, muitas castas, muitos lotes, diversificar mercados, sempre com preços contidos, apostando em grandes quantidades com margens pequenas, organizando o crescimento da empresa a partir daí.

 

O mote da Casa Santos Lima: “atender às necessidades dos clientes e adaptar-se às rápidas mudanças nas tendências do mercado”

Para lá das 200 referências

José Luís Oliveira e Silva está na liderança desde 1995. Reformou-se nesse ano de uma carreira na banca de investimento, que incluiu períodos de trabalho em França e Inglaterra. Já em jovem gostava de acompanhar os trabalhos da quinta, com grandes extensões de vinha, mas não tinha vinho engarrafado. Logo de início, optou por criar várias marcas que tiveram sucesso imediato, como o Palha Canas ou o Quinta das Setencostas. O topo de gama Touriz era um nome feliz. Reflectia a sua composição feita a partir de Touriga Nacional, Touriga Franca e Tinta Roriz e espelhava um novo interesse do público português nas castas e suas diferenças enológicas. Também desde cedo apareceram os monovarietais da Casa Santos Lima, uma espécie de biblioteca de estudo, cujos temas estão listados acima.

Além da variedade, a Casa Santos Lima sempre manteve uma estratégia de preços muito contidos, mesmo que cada vinho tivesse uma margem bastante pequena. O negócio fazia-se na multiplicação. Portanto, era preciso apostar incisivamente na venda. Para tal, a estratégia era encarar cada mercado como um desafio específico. Dentro de cada país, a diversificação era muitas vezes feita com várias marcas para vários distribuidores.

Não há pruridos quanto ao tipo de embalagem, que abrange, hoje, a garrafa de vidro, o bag-in-box, a Tetra Pack ou os mais recentes pouches (ou bagnuns, bolsas de plástico de litro e meio com uma torneira, como a dos bag-in-box, e que têm a vantagem de caberem facilmente no frigorífico). Os vedantes das garrafas de vinho podem ser de rolha de cortiça inteiriça, rolha técnica ou rosca de metal. Em 2025 as roscas suplantaram a cortiça e, dentro da cortiça, 70% são rolhas técnicas.

O número de marcas foi crescendo, o número de vinhos de cada marca também. No total, são mais de 200 referências diferentes distribuídas por algumas dezenas de marcas. Perguntei a José Luís como conseguia criar tantos nomes e ele respondeu-me com simplicidade: “moro em Lisboa e todos os dias venho para a quinta. São 40 minutos para cada lado. Tenho muito tempo para pensar em nomes.” Alguns são sensacionais, como os blockbusters Red Blend (que melhor nome para um tinto de lote?) ou Duas Uvas (cujas iniciais 2U se lêem em inglês Para Ti), duas das marcas que vendem mais de dois milhões de garrafas cada uma.

As marcas “umbrella” Bons-Ventos e Lab (de Labrador) vendem, respectivamente, três e quatro milhões de garrafas, nos vários tipos de vinho, entre tintos, brancos, rosés, varietais e lotes. Todo este universo é de milhões. O vinho de produção mais pequena é o tinto topo de gama Utopia, com cerca de três mil garrafas. Das 200 referências, cerca de 40 são submetidos a estágio em barrica. Na região de Lisboa, esses vinhos estão, quer na Quinta da Boavista, quer nas instalações da vizinha Adega Cooperativa da Merceana.

 

90% da produção anual vai para 60 mercados dos cinco continentes, a qual se divide em 60% para a Europa e 40% para o resto do mundo

Exportação para 60 mercados

Globalmente, os números são impressionantes. A Casa Santos Lima produz, por ano, é de cerca de 30 milhões de garrafas, vendidos nas várias embalagens. 90% da produção é exportada, para um total de 60 mercados activos espalhados pelos cinco continentes. Na Europa, fica 60% destas vendas. O resto do mundo encaixa 40%. A percentagem de vinho vendido em garrafa é de 70%; e em bag-in-box e outros formatos é de 30%. Os mercados escandinavos têm uma forte preferência por estes últimos. Em muitos destes países nórdicos, notavelmente a Finlândia, a Casa Santos Lima tem vários lugares no top 10 dos vinhos mais vendidos, incluindo os três primeiros lugares. Os maiores mercados são Brasil, Bélgica, Canadá, Finlândia, Alemanha, Noruega, Portugal, Suécia, Reino Unido e Estados Unidos da América. Os tipos de vinho dividem-se por 77% de vinho tinto, 17% de vinho branco e 6% de rosé.

O enorme pavilhão de engarrafamento e expedição da Quinta da Boavista tem 12 mil metros quadrados e, além das linhas de engarrafamento, armazena cerca de três milhões de garrafas, quantidade que roda mensalmente, com cada peça a funcionar como um relógio. Há várias linhas de engarrafamento: uma que enche nove mil garrafas por hora, mas tem um set-up relativamente demorado, e outras duas mais lentas, usadas nos tempos mortos da principal e para marcas de mais reduzida quantidade. Muitas posições da linha tinham um trabalho desgastante, rotineiro e mecânico. Por isso, foram substituídos por robots modernos e incansáveis. Tarefas banais, como abrir uma grelha de cartão, para separar as garrafas umas das outras dentro da caixa de cartão, podem ser repetitivas e dadas a erros, para além de serem lentas, fastidiosas e desmotivantes. Se a tecnologia pode intervir e poupar aos humanos desse suplício, é bem-vinda. Os empregos não vão desaparecer, vão apenas evoluir para tarefas mais valorosas.

Um outro exemplo é o sistema robotizado para aceder ao armazém e trazer as bobinas de rótulos necessárias para os próximos engarrafamentos, parecido com o de algumas farmácias automatizadas. Muito impressionante, mesmo para uma pessoa como eu, que já visitei ao longo de décadas, muitas, muitas adegas.

 

A percentagem de vinho vendido em garrafa é de 70%. Em bag-in-box e outros formatos é de 30%

Mais de 700 hectares de vinha

O crescimento da Casa Santos Lima conduziu a investimentos sucessivos em várias regiões do país. Sob a batuta de José Luís Oliveira e Silva, o aumento da produção na região de Lisboa não fazia muito sentido, uma vez que a empresa já era responsável pela certificação de mais de metade dos vinhos da Comissão Vitivinícola da Região de Lisboa. Aliás, o mesmo é verdade para a DO Alenquer e IPR (Indicação de Proveniência Regulamentada) Algarve.

Na região de Lisboa a extensão de vinha chega aos 464 hectares. A expansão começou em 2011, com uma parceria, de longo prazo, com a Quinta de Porrais, no Douro, com o controlo de 100 hectares de vinha e consultoria enológica do famoso Xito Olazabal. Em 2013, avançaram para o Algarve, mais concretamente para próximo de Tavira, com 55 hectares de vinha. No ano seguinte, adquiriram a Quinta de Vila Verde, em Lousada, na região dos Vinhos Verdes, com 50 hectares de vinha, e fizeram uma parceria no Alentejo, com a exploração de 100 hectares de vinha, perto de Beja. Em 2022, avançaram para mais duas regiões: 18 hectares de vinha na ilha do Pico e 25 hectares de vinha em São João de Areias, no Dão. O total da área de vinha ultrapassa os 700 hectares.

Os vinhos são feitos em 12 adegas diferentes por uma equipa de 12 enólogos, aos quais se juntam enólogos estagiários na altura das vindimas. Chegaram a ser 20, mas, hoje em dia, tem sido mais difícil encontrar esse número. Segundo Vasco Martins, administrador responsável pela enologia, há algum esfriar em relação ao interesse dos jovens nestes lugares. A vindima é longa e sempre muito trabalhosa. Na Casa Santos Lima, começa em meados de Julho, no Algarve, e termina a meio de Outubro, nos Vinhos Verdes e no Dão.

A estrutura da equipa conta com dois directores que, tal como Vasco Martins, estão baseados na Quinta da Boavista. Manuel Lobo Carvalho é o responsável pelas regiões do Pico, Alentejo, Algarve, Vinhos Verdes e Dão. Hermano Veloso dirige as vindimas da região de Lisboa. Vasco Martins lidera pessoalmente as vindimas no Douro, contando ainda com a consultoria de Xito Olazabal. Além destes três, há um enólogo residente em cada região, e ainda outros dois na sede, para tratar de tarefas mais administrativas.

O desafio, obviamente, é coordenar uma equipa desta dimensão numa estrutura de produção com tamanha diversidade de locais, complexidade de terroirs e enorme variedade de marcas e vinhos de cada marca. Segundo José Luís Oliveira e Silva, para alguns vinhos de maior volume há uma base comum, que depois é adaptada para compor os lotes, que dão origem aos diferentes vinhos. O mote é sempre “atender às necessidades dos clientes e adaptar-se às rápidas mudanças nas tendências do mercado”. De “cada” mercado. Um exemplo curioso é a produção de vinho kosher, que obriga à vinda de um rabi, para dirigir todo o processo e fazer com as suas próprias mãos muitas das tarefas e manipulações necessárias. Entre tintos e brancos, contam-se já 100 mil garrafas anuais.

 

Lotes afinados e preços competitivos

As regiões têm diferentes exigências, em particular em relação ao engarrafamento. No Pico, Algarve e Douro, os vinhos são engarrafados localmente, enquanto os das outras regiões são convergidos para as adegas centrais, na zona de Alenquer, para simplificar os processos, controlar custos e optimizar a logística.

De entre as duas centenas de referências da Casa Santos Lima, na minha visita, pude provar uma amostra representativa dos vinhos, a qual me permitiu percorrer todas as regiões. Fiquei muito impressionado com a qualidade e carácter dos vinhos. Uma empresa desta dimensão tem acesso a massas vínicas excepcionais e demonstra que, com ambição e talento, é possível oferecer topos de gama que ombreiam com os melhores vinhos do país. Em algumas das denominações conseguem fazê-lo por um preço muito competitivo, seguindo a estratégia escolhida há 30 anos. Mas também é fascinante a qualidade que conseguem oferecer nos milhões de litros de vinho que fazem e muito interessante perceber que, em cada gama, os lotes são afinados para irem ao encontro de mercados específicos.

É ainda de louvar a autenticidade e respeito pelo carácter de cada uma das regiões. Muitos vinhos mostram o local de origem, apresentando uma autenticidade que vai ao encontro das expectativas e justifica a aposta em colocar mais pontos no mapa de Portugal. Os preços macios facilitam ainda a exploração da vasta gama da Casa Santos Lima, todo um prazer sensorial e intelectual.

Se alguma coisa dificulta essa tarefa é a falta de uma unidade, uma identificação, uma marca da casa. Já percebemos que isso não é defeito, é feitio. Muitos destes vinhos são concorrentes uns dos outros num determinado mercado e isso faz da gama um puzzle, que o apreciador pode tentar completar. Os enigmas são divertidos. Portanto, deixo um para o meu leitor: descobrir e provar o vinho que mais me fascinou, um prazer guloso que está descrito abaixo. Ao trabalho! Depois conte.

(Artigo publicado na edição de Fevereiro de 2026)

 

 

GRANDE PROVA BEIRA INTERIOR: Tudo o que a altitude proporciona

beira interior

Mal nos distraímos, deixamos o Douro em direcção a sul e, logo a seguir à Mêda, entramos na Beira Interior. A paisagem muda. Nessa zona específica, estamos em terrenos de planalto onde, para quem passa de carro, se torna óbvio pelo simples olhar, que “ali” parecem estar reunidas todas as condições para se fazer um […]

Mal nos distraímos, deixamos o Douro em direcção a sul e, logo a seguir à Mêda, entramos na Beira Interior. A paisagem muda. Nessa zona específica, estamos em terrenos de planalto onde, para quem passa de carro, se torna óbvio pelo simples olhar, que “ali” parecem estar reunidas todas as condições para se fazer um grande vinho: terrenos maioritariamente graníticos, que aparenta uma viticultura mais acessível, de muito menor declive, mais manobrável, por isso, mais amiga do lavrador. Em seguida, ao sair da estrada e entrando um pouco mais na paisagem longe da vista, descobrimos que ainda proliferam vinhas velhas, algumas raquíticas, seguramente todas condenadas à baixa produtividade, mas, crê-se, muito capazes de originar vinhos expressivos e com evidente classe. Depois pensamos em termos climáticos e orográficos, e entendemos tudo melhor. Afinal, estamos em altitude, onde as vinhas estão a 700 metros e não são raridades, e estamos no interior em tudo o que isso tem de específico: grandes amplitudes térmicas entre o dia e a noite, e condições óptimas para se produzirem vinhos que apostam, sobretudo, na elegância e na frescura ácida.

Porém, aqui também percebemos que não basta ter boas vinhas (ainda que velhas), uma boa paisagem, bom clima e gente com vontade de fazer bem e diferente; nesta equação tem de entrar um dado que é a verdadeira incógnita: o mercado. Ora “o mercado” e as suas leis são muito ingratos com as Beiras. Estar a sul do Douro, região que está nas bocas do mundo e nas páginas dos winewriters que proliferam por aí, e a leste do Dão, região cheia de pergaminhos, já com marcas de referência e nomes sonantes, é tudo menos fácil. É esse peso do mercado e da notoriedade que faz com que a Beira Interior tenha um patamar de preços de venda que, se por um lado podem ser interessantes para o consumidor, por outro sabemos que não puxam a região para a vanguarda dos vinhos portugueses. É uma batalha permanente, um work in progresso, como dizem os ingleses.

Ao todo, incluindo vinhos DOC e IG, a responsabilidade da produção recai sobre 81 produtores.

 

Do Douro a Castelo Branco

A região é extensa e, segundo informação da Comissão Vitivinícola Regional (CVR) da Beira Interior, a vinha espraia-se por 11 654 hectares, sendo possível dividi-la em três zonas. De norte para sul temos, em acentuada proximidade do Douro, a região de Pinhel e, colada a esta, a região de Castelo Rodrigo. São zonas de altitude média elevada, 650 metros, em Pinhel, e de 600 a 750 metros, em Castelo Rodrigo, de clima seco, com invernos frios e rigorosos, onde a neve é visita habitual, enquanto no Verão as amplitudes térmicas são elevadas, com os calores diurnos a serem compensados pelas noites frias, um fenómeno que todo o enólogo aprecia pelo equilíbrio que proporciona à maturação das uvas.

Mais para sul temos a Cova da Beira, a maior das três zonas em área, com a imponente serra da Estrela a delimitá-la a norte. Menos radical, podemos dizer assim, por se apresentar mais moderada nas variações, quer de temperatura quer de precipitação. Olhando para o mapa da Beira Interior, verificamos que há largas faixas de terreno que não estão contempladas nestas três sub-regiões. Por conseguinte, não têm direito a serem DOC Beira Interior, embora possam ostentar a designação de vinho regional, aqui chamado de IG Terras da Beira. Ao todo, incluindo vinhos DOC e IG, a responsabilidade da produção recai sobre 81 produtores. A prova que fizemos incluiu brancos e tintos, uma originalidade, mas que teve o mérito de permitir aferir se há produtores que se destaquem em ambos os modelos, o que de facto aconteceu.

Nestas terras do interior, a vinha, exactamente porque está longe das luzes da ribalta, mantém um perfil que ainda é tributário de um desenho antigo. Expliquemo-nos: aqui como em todo o resto do país vinhateiro, a tradição impôs o plantio de vinha a eito, com castas misturadas e, não raramente, com uvas brancas no meio das tintas, algumas delas de uvas de mesa. A razão era aqui a mesma das outras regiões: como a vindima era feita, também ela a eito, colhiam-se algumas uvas um pouco mais verdes, que forneciam mais acidez e outras eventualmente em estado demasiado maduro, mas que contribuíam com mais açúcar, logo, com mais potencial alcoólico. Porém, havia uma outra razão, muito importante, convenhamos: como a vinha é uma empresa a céu aberto e está sujeita às agruras do clima, o produtor percebeu que umas eram mais atreitas a doenças e poderiam não se darem bem; outras, por força na chuva, na altura errada, tinham desavinhado, além de outros imponderáveis. Desta forma, ao ter as castas misturadas na vinha, havia sempre a possibilidade de “umas se darem bem e as outras não”, salvando-se, desta forma, a produção anual.

Esta é a cartada segura da Beira Interior. Assim se saiba preservar estes velhos vinhedos que, não só contribuem para a preservação genética, como são o factor identitário que marca a região. As castas estrangeiras podem estar cá, todavia não acrescentam nada, tal como a proliferação de castas do Douro, que pode ser igualmente questionada. Não há que ter atitudes radicais em relação a este tema, porque o vinho é um negócio e o produtor tem de se adaptar ao gosto do mercado e procurar produzir aquilo que possa ser mais rentável. É um verdadeiro tabuleiro de xadrez em que precisamos saber como mover as peças, quais são os peões e por onde anda o Rei para não ser “comido” sem dar por isso.

beira interior

 

Nota-se uma aposta em vinhos mais abertos de cor, menos marcados pela madeira e menos alcoólicos, em resposta ao mercado e ao gosto actuais

 

As castas e o clima delas

Comecemos pelo clima e vamos reforçar aqui o que acima afirmámos: a altitude, a temperatura e a variação dia/noite faz com a que a Beira beneficie da interioridade e esteja menos sujeita às doenças da vinha, por força da menor presença de humidade. Há, neste factor, uma enorme vantagem, uma vez que aqui é mais fácil produzir uvas, quer em protecção integrada quer em modo biológico, o que ajuda a uma melhor sustentabilidade ambiental, contribuindo para solos mais saudáveis.

As uvas que por cá se plantam são de tipo variado. Em primeiro lugar, destacamos aquelas variedades, como a tinta Rufete (conhecida no Dão como Tinta Pinheira) e as brancas Fonte Cal (de que a Beira é quase território único) e Síria (a Roupeiro do Alentejo). A solo ou em lote, estas castas têm a marca que, por norma, atribuímos à região: mineralidade, frescura e delicadeza de fruta. No caso da tinta Rufete, que muito sofreu na época em que só se procurava cor e extracção nos tintos, confere uma forte marca de vegetal seco que remete a fruta para segundo plano, mas funciona como cartão de identidade, gerando vinhos abertos de cor, os verdadeiros “Pinot Noir à portuguesa”.

Naturalmente que outras variedades surgiram como companheiras de aventura destas variedades tradicionais: nas brancas, a Arinto, a Fernão Pires ou a Malvasia Fina e, nos tintos, a Touriga Nacional, a Trincadeira, a Touriga Francesa e a Tinta Roriz. Há ainda apontamentos de castas internacionais, como a ubíqua Chardonnay, além da Riesling e, nos tintos, Cabernet Sauvignon, Syrah e Merlot.

O painel de prova demostrou uma grande diversidade de estilos e nota-se claramente uma aposta em vinhos mais abertos de cor, menos marcados pela madeira, menos alcoólicos, correspondendo a um certo chamamento do mercado e do gosto actuais. Por último, é de salientar que em termos de preços, os vinhos apresentam uma paleta alargada de escolhas, mas, em geral, são bem amigos do consumidor.

(Artigo publicado na edição de Fevereiro de 2026)

OS BRANCOS:

 

OS TINTOS:

MÁRCIO LOPES WINEMAKER: O norte como destino

Marcio Lopes

Quando refletimos sobre um trabalho a realizar com um produtor, não podemos limitar-nos a debitar dados estatísticos sobre número de hectares, garrafas produzidas ou referências criadas. O modo de olhar terá de ser mais sensitivo, emotivo, transparecendo não apenas o vinho que se prova, mas o modo como se chegou até ali. Os millennials são, atualmente, a maior […]

Quando refletimos sobre um trabalho a realizar com um produtor, não podemos limitar-nos a debitar dados estatísticos sobre número de hectares, garrafas produzidas ou referências criadas. O modo de olhar terá de ser mais sensitivo, emotivo, transparecendo não apenas o vinho que se prova, mas o modo como se chegou até ali. Os millennials são, atualmente, a maior geração consumidora de vinho em países como os Estados Unidos. Contudo, este novo perfil de consumidor já não se satisfaz com meras degustações ou provas técnicas. Pelo contrário, procura experiências mais completas de contacto direto com o território, que abarquem uma maior plenitude sensorial e emocional. A cultura do vinho é isso mesmo, um compêndio de emoções e razões que tanto dissecam o produto, como expõem a nu quem o cria, mostrando, inclusive, as naturais fragilidades humanas.

O Caminho

Convidando Márcio Lopes a abordar o caminho percorrido desde 2010, a timidez vence-o, optando por criar uma metáfora desse percurso em capítulos, onde cada vinho conta uma história poética de revivalismo. Mas há mais para lá desta rota, ou não fosse O Caminho um vinho construído à volta da aprendizagem que se sedimentou, dos métodos de vinificação que foi apreendendo, das castas que foi estudando no decurso do ofício de enólogo. O Alvarinho, aos seus olhos, encontra-se ali na parcela certa e redunda num vinho que também espelha as pessoas especiais com quem se tem cruzado ao longo desta jornada. A primeira vindima do projeto nome próprio ocorre em 2010, com apenas 2000 garrafas de Pequenos Rebentos Alvarinho, em Melgaço, na região dos Vinhos Verdes, e 600 garrafas de Proibido, em Foz Côa, na sub-região do Douro Superior. Este início do percurso surge com uma vinha pertencente ao sogro, produtor dos vinhos D. Paterna, ainda que o espírito libertário sempre lhe insinuasse seguir um caminho de crenças solitárias.

A primeira vindima de Márcio Lopes é feita ainda durante os tempos da faculdade, ao lado do primeiro mestre, Anselmo Mendes, na antiga adega. À data, já figura de proa da enologia nacional, Anselmo Mendes recomenda Márcio Lopes como enólogo residente num agrupamento de produtores de Viana do Castelo, onde veio a permanecer até 2007. No ano seguinte, ruma à Austrália, para abrir horizontes sobre vinhos do mundo. No regresso, vai trabalhar para o Ribatejo, onde permanece apenas por nove meses. O destino estava-lhe traçado a norte…

Márcio Lopes insiste em preservar a vinha de enforcado, sistema de condução ancestral existente na região dos Vinhos Verdes

 

Os Primeiros Rebentos

A necessidade leva Márcio Lopes a fazer-se à vida na venda e distribuição de vinho. Começou do zero. Pegou nas parcas economias, comprou 20 caixas de vinho a um amigo produtor e lançou-se nas vendas. Nesse dia, apenas lhe restava pecúlio para colocar uns litros de combustível no automóvel; no seguinte, já tinha as primeiras caixas vendidas. Adquiriu mais duas dezenas de caixas e, ao final do mês, a vida já lhe sorria de outro modo.

Durante uns tempos, as vendas foram correndo de feição, mas o chamamento da terra seduzia-o. Em 2010, após uma longa conversa com a mulher, Cláudia Codesso, em que contabiliza todos os receios, alia a distribuição com a produção e cria os primeiros vinhos em Melgaço e no Douro. Às 2600 garrafas produzidas no primeiro ano somaram-se muitas mais, resultando num incremento traduzido em 15 mil em 2015. Contudo, o negócio ainda não era viável, nem lhe permitia viver somente dele. O crescimento mostrava-se indispensável. Por conseguinte, em 2017, duplica a produção para 70 mil garrafas. O drama existencial, não obstante o risco assumido, era tremendo. A hipótese do fracasso nas vendas e a incapacidade de não poder honrar os compromissos assolava Márcio Lopes. Talvez por isso tenha evitado, durante muitos anos, colaboradores, preferindo assumir a solo todos os desígnios da atividade.

Entretanto, em 2015, surge no horizonte a Vinha Velha do Pombal, localizada em Foz Côa, nas cercanias de outras parcelas onde já adquiria uva. O que lhe era oferecido era extremamente convidativo. A 500 metros de altitude, com exposição nascente e norte, os quatro hectares possuíam um riquíssimo património de vinha velha e uma multiplicidade de castas que garantiam a originalidade do que dali pudesse brotar. Foi a resiliência quem o orientou num processo de paciência, perante a reticência da proprietária duriense de lhe vender a vinha.

A venda concretizou-se, mas as incertezas continuavam a pairar. A falta de mão-de-obra já era uma doença que corroía a região. Márcio Lopes acumulava a viticultura com enologia, a responsabilidade comercial e a gestão da empresa. A vinha trazia-lhe exigência acrescida de dali querer retirar algo sublime e diferente. Desde a compra, respeitando o padrão do que deseja produzir, ainda só conseguiu lançar duas colheitas, estando, presentemente, a lançar a terceira, num horizonte de uma década volvida após a aquisição. Um critério que, segundo explicou, leva-o a estar há mais de dois meses a tentar elaborar o lote ideal, para definir o próximo Garrafeira.

 

A raiz do Princípio do Mundo 

Nos Vinhos Verdes, a obra nasce, igualmente, a partir da preservação revivalista de práticas ancestrais, onde as Vinhas de Ramada e as Vinhas de Enforcado são parte relevante de um património cultural que Márcio Lopes insiste em preservar, evitando que caiam no esquecimento do tempo e desapareçam. A Vinha de Enforcado, localizada em Telões, Amarante, de onde são colhidas as uvas para produzir o Pequenos Rebentos Selvagem, é um sistema de condução de vinha que remontará à Idade Média e que vingou no norte de Portugal, particularmente na atual região dos Vinhos Verdes. Eram práticas das famílias mais humildes, consistindo no cultivo das videiras nos limites das parcelas agrícolas, deixando o interior destas para o cultivo dos cereais, hortícolas ou culturas forrageiras, estas últimas destinadas à alimentação do gado. Neste sistema, as videiras trepam por postes vivos, as árvores cujos ramos sustentam a planta, que cresce, em muitos casos, ao longo de 10 a 12 metros.

A explosão demográfica ocorrida nos anos 50 do século passado levou a uma expansão deste sistema de condução de vinha. Salazar proibia o crescimento da vinha nas melhores terras aráveis, levando a que a capacidade e o engenho dos agricultores optasse pela vinha trepadeira a crescer, envolvendo as árvores. Hoje, são raras estas vinhas, às quais Rogério de Castro apelida de “Viticultura de vento”, sistema que, expondo a videira a um maior arejamento, torna menor a necessidade de tratamentos fitossanitários, poupando em mão de obra e produtos. Porém, este sistema de condução de vinha gera muitos desequilíbrios de maturação. A expertise de alcançar o equilíbrio dentro dos desequilíbrios – uvas com 6% a 7% de teor alcoólico provável e níveis de acidez alucinantes – tem de se iniciar dentro da vinha, com a finalidade de evitar correções posteriores, porque a Azal é uma casta de ciclo longo, mostra-se fundamental realizar uma desfolha substancial na altura da floração e, em início ou meados de julho, há que proceder a uma monda expressiva, para adiantar a maturação das uvas, de modo que o seu perfeito estado para a vindima ocorra antes do equinócio e das primeiras chuvas, trágicas para uma casta que, a acrescer, produz cachos muito compactos e, por isso, mais sensíveis à podridão. O Selvagem também revolucionou os procedimentos de adega no modo como se trabalha a casta, porque antes de trabalharem a desfolha, o surgimento de alguma podridão nos cachos obrigava ao desengace bago a bago. Hoje, tal já não é necessário. A fermentação é feita em ânforas de barro cru que, por força da libertação de cálcio, precipitam o tartárico e reduzem o excesso de acidez. O caráter redutivo da Azal é igualmente suprimido pelo estágio em barricas de carvalho português de maior porosidade. Não se pense, no entanto, que este procedimento foi encontrado no primeiro embate com a casta e a vinha. Foi da tentativa/erro, ação através da qual se encontraram soluções e, a montante, muito vinho se perdeu.

As vinhas velhas da região minhota são alvo da busca exploratória de Márcio Lopes. Trabalhando com cerca de 50 viticultores e em mais de 200 parcelas, o conhecimento sobre o acervo vitivinícola torna-se extenso. O Pequenos Rebentos Vinhas Velhas surge de uma dessas vinhas, pouco atraentes para o agricultor devido à baixa produção, mas extremamente atrativas para Márcio Lopes. Plantada em 1989, somente com a casta Loureiro, ia ser arrancada pelo proprietário, que nela via pouco rendimento. O enólogo tomou conta desta vinha, com sistema de condução em bardo, plantada em solos bastante compactos de argila. Dali idealizou a produção de um vinho exigente. A dimensão da matéria-prima imperava rigor e qualidade. Daí ter-se promovido, no processo de vinificação, um trabalho de barrica cuidado, por meio da seleção de exemplares de grão extremamente fino, com três e quatro anos de uso. Uma receita que resultou de modo gratificante num vinho feito a partir de uvas vindimadas numa vinha sem grande reconhecimento, nem atratividade, em termos de localização (entre Braga e Famalicão), mas que, em termos individuais, se veio a mostrar diferenciada. Isto, não obstante a produção ridícula. Se, num ano simpático, Márcio Lopes retira dali 2500 quilos de uva, 2025 trouxe-lhe somente uma colheita de 1.000 quilos, que se traduzirá em 600 garrafas da referência.

Ainda acerca da região dos Vinhos Verdes, a Márcio Lopes muito dizem as castas tradicionais do verde tinto: Alvarelhão, Cainho Tinto, Boçal e, sobretudo, Bastardo. Não sendo a aposta segura e convincente para os produtores da região, a Bastardo é uma uva com grande significado para o enólogo, que ainda a procurou na Ribeira Sacra, onde produziu o Telegrafo, cuja primeira edição, de 2017, ficou limitada a 350 garrafas. A segunda edição é da colheita de 2023. Ou seja, Márcio Lopes valoriza a exploração das variedades mais antigas da região, tendo apostado e valorizado o trabalho realizado pelos especialistas em ampelografia, Teresa Mota e Pedro Malheiro, em parceria com a PORVID (Associação Portuguesa para a Diversidade da Videira). O exercício coerente desta constante busca das práticas e castas ancestrais tem-se mostrado essencial, no sentido de minorar o risco de desaparecerem por força da uniformização dos territórios em detrimento da tradição.

Já o Pequenos Rebentos Touché é oriundo de apenas uma ramada de vinha em Melgaço, com uma produção que ronda os 2.000 e os 2.500 quilos por meio hectare. A maioria das vinhas que arrenda estão longe do radar dos grandes operadores, isto é, ao procurar parcelas com características muito específicas, encontra matéria-prima que lhe permite contrariar tabus associados à dureza e rusticidade das uvas tintas dos Vinhos Verdes, criando, neste caso, um tinto de intensa delicadeza, fino e muito elegante, revelando consistência desde a sua primeira edição.

Por sua vez, a inspiração cinéfila do Viagem ao Princípio do Mundo transcende a metáfora da obra do realizador Manoel de Oliveira. Há nele um regresso às origens, à Alvarinho e à exponenciação das suas virtudes, num registo interpretativo muito pessoal e íntimo dos vinhos que se escondem no nariz, para se afirmarem na boca, vincando o experimentalismo no uso de barricas de Jerez, com o vinho a evoluir por baixo de um “véu” de flor.

O Douro é o berço 

O ano de 2025 também se revelou um prenúncio de morte, com o inesperado fim da Centenária, a vinha localizada na Mêda, localizada na sub-região do Douro Superior, a qual dava origem ao branco de altitude Permitido Centenária. Não obstante os esforços, as perdas foram irreparáveis, obrigando a um trabalho de recuperação que está em curso. Era uma vinha singular, com mais de 15 castas plantadas, no final do século XIX, a 800 metros de altitude, em solo extremo de granito. Fica-nos a colheita de 2022, agora provada e que antecede as derradeiras colheitas de 2023 e 2024. Para além disso, permanece apenas a memória, a mesma memória de infância que transportou Márcio Lopes para o Douro-berço.

No início, e sempre com a vertente financeira presente, Márcio Lopes encontrava a opção mais razoável no Douro Superior, onde o preço de arrendamento ou aquisição de vinha é, ainda hoje, mais atrativa. O património genético está nas vinhas de Vale Mendiz e de Foz Côa, onde ainda há áreas significativas da casta da sua eleição, a Bastardo, não escondendo a paixão por vinhas onde estão clones antigos de Tinta Roriz, com menor expressão de cor.

No Douro, Márcio Lopes projeta o futuro da região e procura já criar vinhos que o antecipem. A respeito do Proibido Déjà Vu, o enólogo antevê-o com as castas tradicionais Touriga Nacional, a conferir-lhe a componente aromática, a Tinta Roriz, o esqueleto do vinho, o Alvarelhão, que lhe aporta a frescura, e a Tinta da Barca, com a amplitude. A interpretação é, uma vez mais, evitar correções posteriores à vindima, usando as castas mais propensas à resistência ao fenómeno incontornável do aquecimento global.

Nas criações, não há imutabilidade, mesmo nos vinhos que, aparentemente, possuem o caráter mais clássico (duriense). O Proibido Grande Reserva espelha essa evolução de perfil, colheita após colheita, mostrando-se, hoje, mais aberto na cor e com uma perceção de madeira mais ténue, o que também implicou uma adaptação por parte das câmaras de provadores e entidades certificadoras. Aqui, estamos na presença de um vinho elaborado a partir de uvas colhidas num conjunto de vinhas velhas do Douro Superior, com idades entre os 40 e 80 anos, e castas muito variadas, como Tinta Francisca, Tinta Amarela, Sousão, entre diversas videiras de variedades não identificadas.

A maturidade do projeto determina, em 2019, que Mário Lopes desça do Douro Superior para a sub-região do Cima Corgo, onde o processo contemplativo e explorador o leva ao Proibido Vale do Rio Pinhão, numa vinha a que chama “parque de diversões” para entusiastas do vinho. Gastão Taveira, o proprietário, abriu-lhe as portas para este paraíso de diversas e distintas parcelas de terraços pré-filoxéricos, com exposições norte e sul, e altitudes baixas, entre os 150 e 200 metros. É aqui que encontra uma Tinta Roriz distinta para deslumbrar.

Ao assinar o Proibido Garrafeira, vinho de opulência clássica duriense, com um estágio de sete anos em garrafa, encontra o seu oposto no Proibido Vinha Velha do Pombal, um tratado de elegância e leveza, enraizado numa vinha de antologia. Com exposição nascente, beneficia das brisas serenas e das temperaturas moderadas, onde quase não entram os tratamentos, mostrando a fruta no estado mais puro, numa parcela onde rareia a água e a vinha é obrigada a um trabalho de esforço e profundidade na busca de nutrição. Plantada em 1957, produziu umas diabólicas 666 garrafas. Estamos perante um perfil raro no Douro, exalando uma outra história tão própria, que obriga Márcio Lopes a possuir várias referências, cada uma delas muito singular e, por isso mesmo, a merecer um capítulo distinto.

(Artigo publicado na edição de Fevereiro de 2026)

Três propriedades vitivinícolas com uma estrela no Guia Michelin Portugal 2026

Michelin

Foram necessários mais de 50 segundos para conhecer o novo duas estrelas do Guia Michelin Portugal 2026, apresentado no Savoy Palace, o cinco estrelas do Funchal, ilha da Madeira, que recebeu a Gala do Guia Michelin Portugal 2026. Falamos do Fifty Seconds, nome atribuído ao restaurante instalado no topo da Torre Vasco da Gama, em […]

Foram necessários mais de 50 segundos para conhecer o novo duas estrelas do Guia Michelin Portugal 2026, apresentado no Savoy Palace, o cinco estrelas do Funchal, ilha da Madeira, que recebeu a Gala do Guia Michelin Portugal 2026. Falamos do Fifty Seconds, nome atribuído ao restaurante instalado no topo da Torre Vasco da Gama, em Lisboa, devido ao tempo que demora a viagem de elevador até às portas se abrirem para o spot culinário do chef Rui Silvestre. Sobe, assim, para nove o número de espaços de restauração com tão ansiada dupla de estrelas.

Sem mais delongas, vamos saltar para três propriedades vitivinícolas distinguidas com uma estrela Michelin pelo Guia Michelin Portugal 2026. Comecemos pelo Douro, a região demarcada mais antiga do mundo, mais concretamente para a sub-região do Baixo Corgo, onde está o Schistó. O restaurante de fine dining do hotel Torel Quinta da Vacaria, em Peso da Régua, é dirigido pelo chef Vitor Matos, com o apoio do chef Vítor Gomes – destaque para Vítor Matos, o chef responsável por mais restaurantes com mais estrelas no guia (Antiqvum e Blind, no Porto, Oculto, em Viana do Castelo, 2Monkeys, em Lisboa, e, agora, Schistó). Mais a sul, o Alentejo soma duas propriedades vitivinícolas a receberem a boa nova. Em jeito de viagem, a primeira paragem é feita no L’And Vineyards, em Montemor-o-Novo, até porque é necessário pernoitar e, já agora, observar as estrelas das suítes deste cinco estrelas da Relais & Châteaux, que revê o seu restaurante gastronómico, recentemente designado de Mapa, a voltar ao guia, com o mérito do chef David Jesus. O roteiro prossegue até ao histórico Paço do Morgado de Oliveira, nos arredores da cidade de Évora, graças ao trabalho executado pelo chef Afonso Dantas, na Cozinha do Paço, distinguido ainda com a Estrela Verde, galardão distribuído por mais seis restaurantes do país.

Porto em destaque

Na secção de uma estrela, a cidade Invicta a multiplicar evidências no Guia Michelin Portugal 2026. Os eleitos foram o DOP, de Rui Paula – que assiste à entrega do prémio Sommelier ao escanção Carlos Monteiro, da Casa de Chá da Boa Nova, em Leça da Palmeira –, o Éon, de Tiago Bonito, instalado no singular Palacete Severo, o Gastro by Elemento, do chef Ricardo Dias Ferreira, e o In Diferente, da chef Angélica Salvador, são as novidades. Acresce o Schistó, inserido no hotel Torel Quinta da Vacaria, a propriedade vitivinícola duriense localizada em Peso da Régua, dirigido pelo chef Vitor Matos com o apoio do chef Vítor Gomes – destaque para Vítor Matos, o chef responsável por mais restaurantes com mais estrelas no guia (Antiqvum e Blind, no Porto, Oculto, em Viana do Castelo, 2Monkeys, em Lisboa, e, agora, Schistó). Ainda no Porto, é de assinalar a entrega do prémio Serviço a Adácio Ribeiro, do laureado restaurante Vila Foz.

A 75 km do Porto está outra casa que reconquista a estrela Michelin. Falamos do Largo do Paço, no hotel Casa da Calçada, em Amarante, onde o chef Francisco Quintas conquistou os inspetores do referido guia igualmente para a categoria de Jovem Chef. Mais a sul, em Cascais, cabe a novidade do Kappo, do chef Tiago Penão, sem esquecer o prémio Abertura do Ano atribuído ao JNĉQUOI Table, em Lisboa. Por terras algarvias, chegou a vez do chef Rui Sequeira subir ao palco pelo seu Alameda, em Faro.

Nos Bib Gourmand, representativo dos restaurante com melhor relação qualidade/preço e já com 26 estabelecimentos, entraram o Taberna Sakra, em Alverca do Ribatejo, do chef Hugo China Ferreira e Débora Cardoso, e o Mesa15, em Leiria, de Petr Kiss, chef natural da República Checa.

QUINTA DO QUETZAL: A celebração do vinho através da arte

Quinta do Quetzal

A ideia da celebração do vinho através da arte não é nova, mas é sempre de saudar. Pela primeira vez, em 1924 e, mais tarde, a partir de 1945, o ano da Vitória, o icónico Château Mouton – Rothschild comemora a união da arte com o vinho, convidando grandes artistas mundiais a criarem uma obra […]

A ideia da celebração do vinho através da arte não é nova, mas é sempre de saudar. Pela primeira vez, em 1924 e, mais tarde, a partir de 1945, o ano da Vitória, o icónico Château Mouton – Rothschild comemora a união da arte com o vinho, convidando grandes artistas mundiais a criarem uma obra de arte para os rótulos. Francis Bacon, Joan Mirò, Marc Chagall, Salvador Dalì, Pablo Picasso e Andy Warhol, por exemplo, contribuíram para a criação do mito do mais famoso Château de Bordéus. Vietti, em Itália, por seu turno, também veste os seus vinhos com rótulos desenhados por artistas de renome desde 1974. A ideia surgiu à volta de uma garrafa de Barolo Rocche, juntamente com uns amigos. Incrível como os grandes vinhos podem ser inspiradores, não é?

Também os rótulos do produtor siciliano Donnafugata são facilmente identificáveis em qualquer prateleira do mundo, onde belas figuras femininas da Sicília são desenhadas pelo ilustrador Stefano Vitale (Dolce & Gabbana), num estilo miniatura, entre arte naif e linguagem de conto de fadas, e sempre com cores tipicamente sicilianas.

Do mundo para o Alentejo, a Quinta do Quetzal traduz-se num dos produtores nacionais a expressar uma visão muito particular em relação à arte. A propriedade situa-se no coração da região, nas encostas da Vidigueira. Está localizada nas imediações da mais antiga adega romana do Sudoeste da Península Ibérica. O microclima e as colinas criam as condições ideais para um terroir único, contrariando a típica propriedade alentejana. Os solos xistosos, as diferentes exposições solares e altitudes, permitidas pela morfologia em colina, e as áreas plantadas com vinhas velhas, formam uma combinação única num cenário habitual de planície da referida região.

A estética da Vidigueira

Soalheiro e quente, o Alentejo apresenta, por vezes, algumas nuances. O facto de a Quinta do Quetzal estar no sopé Sul da Serra do Mendro beneficia de ventos frescos veiculados por esta extensão montanhosa desde o Oceano Atlântico. Estas condições, que se traduzem em elevadas amplitudes térmicas diárias, dão às plantas o calor que precisam, para amadurecer as uvas, e as temperaturas frescas, para recuperarem. A qualidade, aliada a um trabalho de enologia alicerçado na experiência e no conhecimento profundo de cada planta, que compõe os 52 hectares de vinha, permite produzir vinhos que expressam verdadeiramente o carácter da região.

Como elemento fundamental da experiência Quetzal, foi criado de raiz o edifício, onde estão instalados o restaurante, a loja e o Centro de Arte. O xisto, que reveste as paredes, destaca-se e integra-se simultaneamente com fluidez na paisagem envolvente. Já o espaço circundante foi concebido para incorporar plantas nativas naturais, de modo a maximizar a experiência do habitat natural do Alentejo.

Cees e Inge de Bruin são coleccionadores e patrocinadores de arte contemporânea. Mantêm, há mais de 40 anos, juntamente com a família, uma forte ligação a Portugal. O projecto da Quinta do Quetzal expressa a sua paixão pela cultura, natureza, gastronomia e pelos vinhos portugueses que desejam partilhar. Todos os anos, em colaboração com a filha, Aveline de Bruin, organizam uma nova exposição na propriedade, tendo como ponto de partida o acervo privado da família, a Colecção de Bruin-Heijn, e as ligações ao mundo da arte.

‘Under the Mountain’

Esta ligação à arte transpõe-se para o vinho. A primeira edição do Arte tinto, lançada em 2021, contou com a colaboração da artista Müge Yilmaz, autora de “A Deusa da Colheita”, obra que hoje em dia vive no coração da vinha. Recentemente, a Quinta do Quetzal apresentou a segunda edição do Quetzal Arte tinto 2022, que nasce da parceria com o artista belga Kasper Bosmans. Para desenhar o rótulo desta nova colheita, inspirou-se no mural de sua autoria, intitulado ‘Under the Mountain’ e criado especificamente para a Quinta do Quetzal, o qual é parte integrante e permanente do seu espaço arquitectónico.

O imenso mural site-specific, com camadas de significados ocultos, cores terrosas profundas e inúmeros símbolos, ecoa as colinas e os vinhedos que se vislumbram através das janelas, também elas imensas, da sala do restaurante, funcionando como a representação de uma narrativa histórica imaginária, que vai desde a introdução das vinhas, feita pelos Romanos naquela região, até pormenores da actualidade. Tudo se mistura numa amálgama de significados, antigos e contemporâneos, pessoais e universais, convergindo numa reflexão única e multifacetada sobre a complexidade do mundo. Assim, cada garrafa torna-se uma extensão da sua obra, permitindo-nos trazer para casa um pedaço da criação artística.

Paralelamente, foi também criada uma caixa de coleccionador, edição limitada de apenas 100 exemplares. Esta é constituída por três garrafas do Quinta do Quetzal Arte tinto 2022 e uma serigrafia original inspirada no mural ‘Under the Mountain’ estampada no interior da tampa da caixa, com o respectivo certificado assinado e numerado pelo artista. “Cada vinho é uma interpretação distinta da Vidigueira, onde a frescura, a precisão e a estética se combinam para criar vinhos genuínos, elegantes e de carácter moderno. Os vinhos Arte são o reflexo do território através do olhar da arte, vinhos que se distinguem pela harmonia, subtileza e autenticidade, que revelam o Alentejo de hoje”, declara Reto Jörg, administrador da Quinta do Quetzal.

Fernando Pessoa disse um dia: “a arte descreve as coisas como são sentidas, como se sente que são’.

Se pararmos e pensarmos um pouco, talvez toda esta ligação umbilical entre arte e vinho, com representação física na Quinta do Quetzal, e estas edições Arte, sejam, precisamente, a maneira como a família de Bruin sente a Vidigueira, o Alentejo, Portugal e o mundo. Se calhar, é mesmo!

(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2026)

 

ADEGAMÃE: Três brancos para celebrar 15 anos

AdegaMãe

Diogo Lopes, enólogo, e Bernardo Alves, proprietário e Director-Geral, depressa se deram conta, no entanto, que aquele terroir de Torres Vedras, favorecido pelos ventos húmidos do Atlântico, reunia condições únicas para a produção de grandes vinhos brancos e a mudança de rumo não tardou a fazer-se. Não que a empresa tenha desistido de produzir vinhos […]

Diogo Lopes, enólogo, e Bernardo Alves, proprietário e Director-Geral, depressa se deram conta, no entanto, que aquele terroir de Torres Vedras, favorecido pelos ventos húmidos do Atlântico, reunia condições únicas para a produção de grandes vinhos brancos e a mudança de rumo não tardou a fazer-se. Não que a empresa tenha desistido de produzir vinhos tintos, mas encontrou outros terrenos para o fazer do outro lado da serra de Montejunto, perto de Alenquer, que protege a vinha da excessiva influência marítima e permite colher uvas mais maduras e conseguir tintos com maior concentração.

Passada essa aprendizagem inicial, por volta do ano 2010, construída a bonita e funcional adega, a empresa concentrou-se na produção de brancos. Não se estranha, por isso, que, para comemorar a marca histórica de 15 anos de actividade, com a devida pompa e circunstância, a AdegaMãe tenha resolvido fazê-lo com o lançamento de três brancos, dois dos quais absolutas novidades que ampliam o portefólio da casa.

Isso mesmo foi reconhecido por Bernardo Alves: “este lançamento simboliza o amadurecimento natural de um sonho familiar. Quinze anos depois, conseguimos unir rigor técnico, identidade e emoção num vinho que representa o melhor do nosso percurso e aquilo que queremos continuar a construir.” Estas palavras antecipavam a surpresa maior que estava reservada aos jornalistas e parceiros convocados para o almoço de apresentação no restaurante Kabuki. Diga-se de passagem, que a escolha do local não foi inocente, já que os vinhos provados, comprovaram a especial apetência para harmonizações com cozinhas de inspiração oriental, como era o caso.

O AdegaMãe branco Especial, é desse que falamos, é um projecto ambicioso e singular. Não apresenta ano de colheita e resulta da combinação de barricas consideradas excepcionais, com vinhos de várias vindimas tidas como exemplares. Diogo Lopes, mestre na arte de lotear, considerou os brancos das colheitas de 2017, 2019, 2020 e 2021para criar este vinho, cuja produção encheu as pouco mais de 1000 garrafas que compõem a primeira versão desta nova referência. “O branco Especial é a consolidação de tudo o que aprendemos sobre a arte do blend e sobre a evolução dos nossos brancos atlânticos. Só é possível fazer um vinho destes com colheitas únicas e… com muita paciência”, confessou Diogo Lopes, rematando com a seguinte frase: “O tempo é o grande protagonista deste projecto”. Revelador de um acentuado carácter e grande profundidade, este branco Especial teve origem em vinhos longamente estagiados em barricas de carvalho francês de 400 litros, cuidadosamente seleccionadas, alguns dos quais por mais de cinco anos. Por essa razão, o lote apresenta um perfil evolutivo a que não falta uma grande nobreza.

A par com este novo topo de gama da casa, a ocasião serviu anda para apresentar mais dois brancos que reforçam a expressão atlântica da AdegaMãe. Foi o caso do AdegaMãe Terroir branco 2018, produzido a partir das castas Viosinho e Arinto, resultante de um ano de estágio em barrica e de cinco em garrafa. Na linha de edições anteriores, mantém o perfil aromático acentuadamente mineral e de grande complexidade. A influência atlântica nota-se sobretudo na frescura, mercê de uma acidez vibrante a que não falta elegância e equilíbrio.

Novidade foi também o lançamento de um novo vinho varietal da AdegaMãe. Depois das bem-sucedidas experiências com as variedades Viosinho e Riesling, é agora colocado no mercado a primeira edição feita a partir da casta Gouveio, da colheita de 2024. Este vinho nasce de uma vinha experimental, onde são observadas diversas castas e onde esta variedade revelou aptidões que convenceram os responsáveis da AdegaMâe a lançá-la a solo. Totalmente fermentado em inox, esteve sujeito a batonnage durante seis meses. Em boa hora o disponibiliza ao consumidor, porque o vinho revelou-se muito versátil, com grande valia gastronómica ao harmonizar com pratos de sushi e mariscos. De edição limitada, este Gouveio 2024 apenas está disponível na loja da AdegaMãe ou na loja digital.

Com o rumo bem definido, estas novas referências comprovam o compromisso da AdegaMãe em aprofundar e respeitar a identidade atlântica.

(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2026)

 

QUINTA DOS LOIVOS: A promessa de uma nova estrela no Douro

Loivos

Se a isso juntarmos a ambição de ali, em Casal dos Loivos, erguer-se, em breve, uma adega e, a partir de Abril, um restaurante de referência com assinatura de um chefe com pergaminhos, de nome Vitor Adão, a que se seguirá, mais tarde, um hotel de charme, ficamos com a ideia que vontade e ambição […]

Se a isso juntarmos a ambição de ali, em Casal dos Loivos, erguer-se, em breve, uma adega e, a partir de Abril, um restaurante de referência com assinatura de um chefe com pergaminhos, de nome Vitor Adão, a que se seguirá, mais tarde, um hotel de charme, ficamos com a ideia que vontade e ambição não faltarão para ali estar, a breve prazo, um dos spots mais mediáticos do Douro. Esta é afinal uma pequena jóia com capitais brasileiros, por um lado, e a criatividade portuguesa, por outro, alicerçada numa meia dúzia de profissionais com provas dadas na região, tornaram possível concretizar em relativamente pouco tempo – foi há poucos meses que comecei a ouvir a experiente Ana Mota falar, com um entusiasmo de menina, sobre o novo projecto em que mergulhou de corpo inteiro.

Hoje, como directora de operações e responsável pela viticultura da Quinta dos Loivos, de 12 hectares, dos quais sete são vinha, sente-se no brilho dos seus olhos o quanto esta tarefa a entusiasma: “É um desafio apaixonante, um investimento de enorme qualidade, único e cativante.” Não está sozinha. Jorge Alves, enólogo consultor, volta a trabalhar na mesma equipa e partilha do entusiasmo: “A Quinta dos Loivos é um projecto emblemático. A altitude, o xisto, o microclima, tudo se junta para criar vinhos únicos.” Jorge Alves conta com o apoio de Adriana Covas, na função de enóloga residente. Por trás, tiveram a vasta experiência no Douro de Bruno Simões, como Business Developer, que concebeu o projecto e resumiu num parágrafo aquilo que o cativou: “A paisagem da Quinta dos Loivos é inigualável – uma visão circular sobre o Douro, onde o rio se revela em três direcções. Do ponto mais alto, junto a um antigo marco militar, vemos seis ou sete concelhos e sentimos o Douro em toda a sua dimensão.”

Produções limitadas

Na mente dos responsáveis, conforme foi insistentemente referido, esteve sempre a preocupação na conservação do riquíssimo património natural que a propriedade usufrui. Neste sentido, uma das grandes mais-valias da Quinta dos Loivos são as vinhas velhas, algumas delas centenárias, plantadas em solos de xisto muito duro e com grande inclinação, que obrigaram a um paciente e demorado trabalho de identificação das castas, operação que contou com a colaboração do viticultor António Magalhães. O resultado desta pesquisa foi surpreendente, na medida em que foram identificadas 74 variedades, o que dá bem a ideia do potencial que a propriedade encerra.

Os vinhos que foram dados a provar à imprensa especializada nesta primeira apresentação, decorrida no restaurante Plano, em Lisboa, dão algumas pistas sobre o que se pode esperar no futuro. Ainda com produções muito limitadas e com recurso a uvas compradas à produção, no caso dos vinhos de entrada de gama, nota-se o fio condutor que norteia o projecto. A marca Venera, constituída por seis vinhos com as gamas Colheita, Reserva e Grande Reserva compreendem as versões branco, rosé e tinto, e chegam ao mercado com uma tipologia de preços bem definida: cerca de 13€ para os Colheita, 30€ para os Reserva, e 40€ para os Grande Reserva.

Já os três vinhos apresentados com a chancela Quinta dos Loivos são produzidos exclusivamente a partir de vinhas próprias, em quantidades muito limitadas (na ordem das centenas de garrafas) e obedecem a um critério curioso e pouco frequente: são lotes feitos, não tanto a partir das suas castas – quase sempre vinhas velhas com variedades misturadas –, mas a partir da orientação solar das várias parcelas da quinta. Assim temos o Loivos Nascente, elaborado com uvas vindimadas nas vinhas voltadas para Leste; o Loivos Poente, de uvas colhidas nas vinhas viradas a Oeste; e o Loivos Sul, onde as vinhas acabam por ter o maior tempo de exposição solar. Esta opção reflecte-se necessariamente no perfil dos vinhos, embora o padrão qualitativo, muito alto, diga-se, não registe alterações significativas.

A expectativa criada é grande e será, por certo, interessante verificar até que ponto, no futuro, com a produção dos vinhos a entrar em modo standard, a qualidade agora apresentada se manterá quando as quantidades produzidas forem substancialmente aumentadas. Arrojo, competência e recursos não faltam para atingir esse desiderato.

 

Os três vinhos com a chancela Quinta dos Loivos são produzidos exclusivamente a partir de vinhas próprias e em quantidades muito limitadas

 Loivos

(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2026)

 

 

QUINTA DA FONTE SOUTO: A descoberta dos brancos

Fonte Souto

A viagem da Symington Family Estates – profundamente enraizada no Douro – para o Alentejo levou 135 anos, e não foi em vão. Numa estratégia de diversificação regional, a zona de Portalegre não foi escolhida por acaso. É aquele Alentejo que, contrariando o nosso imaginário colectivo, fica a norte de Lisboa. Está bem mais perto […]

A viagem da Symington Family Estates – profundamente enraizada no Douro – para o Alentejo levou 135 anos, e não foi em vão. Numa estratégia de diversificação regional, a zona de Portalegre não foi escolhida por acaso. É aquele Alentejo que, contrariando o nosso imaginário colectivo, fica a norte de Lisboa. Está bem mais perto de Espanha do que da costa, onde a continentalidade do clima aliada à altitude, entre os 490 e os 550 metros, providenciam uma frescura natural e maior amplitude térmica, mas sem ondas de calor superior a 45° C. As noites bem frescas, mesmo no verão, promovem uma maturação mais lenta e homogénea. “Isto permite esperar pelas uvas e, logo na vinha, fazer uma selecção através de várias passagens”, explica Ricardo Constantino, o enólogo residente da propriedade.

A Symington Family Estates adquiriu a propriedade a João Lourenço (outrora Altas Quintas), em 2017. O negócio incidiu apenas sobre a quinta e a vinha, sem marca nem stock de vinhos. À data da aquisição, dos cerca de 200 hectares da propriedade, 41 eram ocupados por vinha, maioritariamente com castas tintas, sendo apenas 2,5 hectares dedicados a variedades brancas (6% de plantação). “Comprámos esta quinta para [vinhos] tintos. Os brancos foram uma descoberta”, conta Rupert Symington, Presidente da empresa. Assim, os vinhos brancos deixaram de ser vistos apenas como um complemento do portefólio e, hoje, assumem um papel imprescindível na identidade da marca. Logicamente, tornou-se essencial aumentar a presença de castas brancas no encepamento. Entre novas plantações e sobreenxertia, a área dedicada a estas variedades atingiu os 15 hectares, correspondendo a 28% da vinha, composta por Verdelho, Arinto, Gouveio, Alvarinho e Bical, a par com duas internacionais: Viognier e Chardonnay. Nas castas tintas, contam com Syrah, Trincadeira, Alicante Bouschet, Alfrocheiro, Aragonez, Touriga Nacional, Grand Noir, Castelão, uma pequena área de 0,75 hectares com mistura de castas e ainda um pouco de Pinot Noir e de Monvedre. Esta última é uma casta do Dão, mas, em Portalegre, é conhecida como Tinta de Olho Branco, porque na altura de rebentação tem escamas brancas. “É muito ácida, tânica e rústica”, nota Ricardo Constantino.

Vindimam manualmente, uma vez que em Portalegre ainda é possível arranjar mão de obra. Praticam, desde o verão passado, a vindima noturna, o que permite que a uva chegue fresca à adega, dispensando o recurso à refrigeração e reduzindo o consumo energético. Por sua vez, a adega exigiu uma intervenção profunda. O telhado teve que ser reparado, pois “chovia dentro como se fosse na rua”, recorda Charles Symington, Director de Produção da empresa. Sem grande confiança no histórico dos balseiros existentes, optou-se pela sua substituição por cubas de inox. A zona de receção foi ampliada, no sentido de favorecer uma gestão mais cuidada da vindima. Foi recuperada a antiga adega com talhas. Contudo, para já, funciona apenas como um pequeno museu em homenagem à história da quinta e da região. Como refere o enólogo residente, na zona de Marvão ainda subsiste a tradição de se fazer vinho de talha, acção localmente conhecida como “fazer vinho em pote”.

As dificuldades e “surpresas” iniciais estão a ser ultrapassadas ao mesmo ritmo que se comprova o potencial do lugar e a qualidade dos vinhos. Para a Symington, a Quinta da Fonte Souto representa o investimento a longo prazo, um compromisso estratégico inscrito numa visão de futuro. “Não viemos cá para uns anos. Viemos para ficar muitos anos”, afirma Charles.

Mini-vertical

O Quinta da Fonte Souto branco resulta sempre de uma aliança entre Arinto, que representa cerca de 75% do lote, e Verdelho. Uma pequena prova vertical demostrou dois aspectos: a variação natural de cada colheita, própria de vinhos que procuram expressar o ano vitícola, e o processo de aprendizagem sobre as castas, as condições da Serra de São Mamede e da consequente adaptação da abordagem enológica. Na vindima inaugural de 2017, usou-se naturalmente mais barrica nova de 500 litros; em 2018 já houve barricas de segundo uso; e, em 2019 e 2023, utilizaram-se barricas de segundo e terceiro ano, com 10% e 15% do vinho, respectivamente, a estagiar em inox para preservar a frescura varietal. Também ficou claro que, no caso da casta Verdelho, determinados níveis de tosta não funcionam.

O Quinta da Fonte Souto 2017 resultou de um ano quente. “As maturações evoluíram rapidamente. Tivemos de fazer o jogo de cintura e tivemos muito menor área de brancos, na altura. Porém, mesmo assim, o resultado agradou muito e mostrou o potencial: volume, textura e frescura”, garante Charles Symington. O vinho revelou nariz com complexidade de evolução, repleto de laranja doce, tosta, especiaria, ervas aromáticas e mel; revela-se suculento, cremoso, com volume, frescura natural e leve amargo. (17)

A vindima de 2018 começou tardíssimo, devido a uma vaga de calor que atrasou o processo de maturação. “Só começámos vindimar a 12 de Setembro e terminámos em 19 de Outubro”, conta Pedro Correia, o enólogo da empresa. Dourado na cor, com aroma mais fresco, a lembrar ananás, laranja, leve flor de laranjeira, hortelã e gengíbre. Um pouco menos complexo na boca, madeira mais discreta, textura amanteigada e final salivante. (17)

Já o Quinta da Fonte Souto 2019 foi o fruto do ano ameno, com elevadas amplitudes térmicas durante os meses mais quentes e produções relativamente baixas. Uma particularidade: o vinho apresenta mais de 14% de teor alcoólico o que, na prova, não comprometeu a frescura. Novamente, sente-se a influência do ano: a videira fotossintetiza permanentemente durante o dia, mas, com noites frias, a acidez não cai tão depressa e a uva acaba por acumular bastante açúcar. Madeira menos evidente, notável complexidade com destaque para os citrinos, como laranja e tangerina, alperce e ananás; tudo muito afinado na boca. (17,5)

Segundo o enólogo residente, no ano 2023 a vindima foi muito precoce e longa. Decorreu de 7 de Agosto a 13 de Outubro. Tiveram uma semana de paragem devido à chuva e registaram um mês de diferença na maturação entre as parcelas de Arinto. Neste ano, entrou mais Verdelho no lote (35%). Ainda é muito jovem em comparação com os vinhos anteriores. Mostra-se citrino e mais vegetal, com folhas verdes, especiaria e cominhos; denso, com acidez presente e novamente a confirmar o componente vegetal, bem integrado no perfil. (17,5)

A produção do Quinta da Fonte Souto branco triplicou desde a primeira vindima em 2017, com cerca de 8.000 garrafas para aproximadamente 24.000 garrafas.

 

“Comprámos esta quinta para tintos. Os brancos foram uma descoberta”, afirma Rupert Symington

 

Ensaios de tintos

Provámos expressões monovarietais de duas castas, ambas de carácter vincado, embora manifestem comportamentos diametralmente opostos. Se o Alicante Bouschet é consistente e fiável na entrega de qualidade, o Alfrocheiro revela-se mais exigente e sensível, não tolerando bem a chuva. Como observa Pedro Correia, “nem sempre as condições se reúnem, mas quando isso acontece, dá um grande vinho”, como ficou demonstrado na prova a seguir.

Do Quinta da Fonte Souto Alicante Bouschet 2018 foram produzidas 6.267 garrafas e o vinho ainda se encontra disponível no mercado, com um PVP de €30. É uma expressão do ano mais tardio, quando era preciso esperar pelas maturações. Estágio em barricas de segundo ano, para preservar aromas varietais, escuro e opaco, groselha preta esmagada e macerada, casca de árvore fresca e vegetal doce. Cheio, denso, musculado e um pouco amargo no final a lembrar azeitona preta. (17,5)

Do Quinta da Fonte Souto Alfrocheiro 2019 foram produzidas 6.211 garrafas e esta referência está completamente esgotada (resta esperar quando as condições se reúnem novamente). Fragrante, atraente, intrigante; nuance floral bonita, cereja e ameixa, aneto e eucalipto, louro, mentol e caruma; suculento e envolvente, com fruta pura, mas também com complexidade, sedoso e sedutor. (18).

Fizeram também um Field Blend em 2020 e um monovarietal de Syrah em 2021, que ainda não se encontram em comercialização. Fica o teaser.

Taifa 2022 

Esta é a terceira edição. A primeira foi um monovarietal de Arinto, vinificado 100% em barrica nova. Este lote de 2022 combina 70% de Arinto com 30% de Verdelho, demonstrando uma notável sinergia entre as castas. Fruto de uma vindima minuciosa, realizada em várias passagens pelas mesmas parcelas, o vinho fermentou em barrica, com uma menor proporção de madeira nova (70%), de modo a realçar a fruta e conferir maior equilíbrio. Estagiou um ano em barricas de carvalho francês e húngaro e dois anos em garrafa, o que explica a sua óptima integração no momento do lançamento. Foram produzidas 3.215 garrafas e 15 em Magnum.

(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2026)