QUINTA DE RONFE: O mundo dos Nicolau de Almeida

No concelho de Lousada estão inventariadas 22 casas nobres. Em diferente estado de conservação e uso, mas o número é significativo e foi bem estudado e explicado em tese universitária a que tivemos acesso. A Casa de Ronfe está, naturalmente, incluída neste levantamento. Trata-se de uma construção do século XVII, com pedra de armas datada […]
No concelho de Lousada estão inventariadas 22 casas nobres. Em diferente estado de conservação e uso, mas o número é significativo e foi bem estudado e explicado em tese universitária a que tivemos acesso. A Casa de Ronfe está, naturalmente, incluída neste levantamento. Trata-se de uma construção do século XVII, com pedra de armas datada da segunda metade do século XVIII. O estado de conservação é excelente, fruto de restauros vários ao longo do tempo e a sensação que se tem ao entrar é que estamos, de facto, numa vetusta casa submetida a obras, mas em que o “espírito do lugar” se conservou. É mais raro do que se imagina e a família está, por isso, de parabéns.
A ligação às famílias Rosas e Nicolau de Almeida é já muito antiga e aqui, além de local de férias das famílias, também se produziu vinho, com a mesma marca, durante muitos anos. A primeira edição deste Ronfe, cujo rótulo, ajuizadamente, se manteve com o aspecto gráfico original, data de 1935. A recepção que nos estava reservada não poderia ser mais completa: estava o pai João Nicolau de Almeida e os três filhos, Mafalda, João e Mateus. Para o almoço tivemos a companhia de António Leitão e sua mulher, primos de João Nicolau de Almeida. Foi o bisavô dos manos Nicolau de Almeida o adquiridor desta propriedade que, anteriormente, tinha pertencido à família Archer e que a vendeu a José Rosas em 1889. A vinha foi plantada pelo avô e, na época, até castas francesas foram selecionadas; nas nacionais já estava incluída, inesperadamente, dizemos nós, a Touriga Nacional. A vinha sempre incluiu uvas tintas, como Azal Tinto, Padeiro e Alvarelhão.
A ligação aos Nicolau de Almeida está bem patente nos desenhos que Fernando Nicolau de Almeida (para todo o sempre, o “pai” do Barca Velha) aqui deixou, cheios de humor, revelando que, além da enologia, o desenho era uma das suas paixões.
Ainda que estejamos no vale do Sousa, aqui, algo teimosamente e contra a corrente, optou-se por dar destaque à Trajadura
O valor da Trajadura
Ainda que estejamos no vale do Sousa, sub-região dos Vinhos Verdes muito conotada com a casta Arinto, aqui, algo teimosamente e contra a corrente, optou-se por dar destaque à variedade Trajadura. Dizemos teimosamente porque, à pobre da Trajadura, nunca se lhe deu mais valor que não fosse servir de complemento às castas nobres minhotas, fossem elas a Alvarinho ou a Loureiro. Procurava-se, então, que o lado mais gordo e de menor acidez servisse de complemento às castas mais ácidas da região. A forma como aqui foi tratada mostra que a Trajadura pode estar destinada a outros voos.
O nosso passeio começou por uma visita às vinhas que mostraram uma exuberância notável, fruto de muito cuidado, algo que, como se imagina, obriga a muito trabalho e muita atenção, contrariando a tese muito em voga da “pouca intervenção”. Numa zona tão atreita a míldio e oídio, a pouca intervenção apenas teria como resultado a perda da produção.
E, já ao almoço, seguindo a conversa do jornalista José Gomes Ferreira que sempre afirma “não há outra forma de dizer isto”, eu também digo: o cabrito assado do almoço foi dos melhores que comi nos últimos anos! Ponto!
Nos vinhos provados, alguns aspectos merecem atenção: as colheitas de 2021 e 2022 ainda se chamavam Casa de Ronfe. Foram também provadas e deram muito boa conta de si. A casta mostra que, se bem trabalhada, consegue conservar o seu traço próprio – vinho com corpo e acidez ajustada – e o perfil aponta sempre para uma boa aptidão gastronómica. Ambos em boa forma, embora o 2022 seja ligeiramente mais citrino e mais fresco. Da prova integral dos brancos de Trajadura, é perceptível que o estilo está ainda em construção e, assim, são perceptíveis variações de colheita para colheita.
Em 2026 irão fazer, retomando a tradição do avô, um tinto com uvas da quinta que incluirá uvas de ramadas, com Alvarelhão, Touriga Nacional e Vinhão.
A marca Nicolau de Almeida, criada ainda no século XIX e associada a uma casa comerciante de Vinho do Porto, estava actualmente na posse da Real Companhia Velha (por via das inúmeras fusões e aquisições que foram feitas ao longo do tempo), mas foi graciosamente cedida a João Nicolau de Almeida, que, assim, assume de novo a marca da família, conservando-se a estrela que encima o nome da empresa.
O Monte Xisto é uma propriedade familiar, plantada de raiz e onde se pratica uma agricultura amiga do ambiente. O plantio da vinha começou em 2005
A prova dos bagos no Douro
O Monte Xisto fica em Foz Côa. É uma propriedade familiar plantada de raiz e onde se pratica uma agricultura amiga do ambiente, tão próxima da natureza quanto possível. As aquisições começaram em 1993 e o plantio da vinha em 2005. A localização e sobretudo a orientação solar das várias parcelas é um dois em um: parcelas a norte, parcelas a sul e com altitudes diversas. A escolha do que vindimar e quando depende da prova dos bagos. É como se o blend fosse, maioritariamente, feito na vinha. A própria vindima é cadenciada pela variada maturação das uvas, dependendo da altitude da parcela a da orientação.
A vinificadas faz-se em Foz Côa, mas os vinhos amadurecem nas caves de Vila Nova de Gaia, onde também são engarrafados. O portefólio abrange várias marcas, desde logo o topo de gama Quinta do Monte Xisto, a que se seguiram alguns anos mais tarde, o Quinta do Monte Xisto Oriente e o Monte Xisto Órbita: o primeiro mais estruturado e com maior densidade, os dois restantes num registo de maior leveza e elegância.
Nos vinhos do Porto, temos o Vintage e um Porto Branco leve e seco, uma categoria meio esquecida pelo sector. É para este Porto Branco que é usada a casta Rabigato, a única variedade branca plantada na referida propriedade. Já nas tintas temos as clássicas da região: Touriga Nacional, Touriga Francesa, Tinto Cão, Tinta Francisca, Sousão, Tinta Roriz e Tinta da Barca, esta última uma velha paixão de João Nicolau de Almeida. Neste encontro apenas se provaram dois tintos e o novíssimo Vintage 2024.
(Artigo publicado na edição de Julho de 2026)
ENOTURISMO: HERDADE DAS SERVAS

O Alentejo apresenta-se como o guardião de mais de 20 000 hectares de vinha e é constituído por oito sub-regiões concentradas no interior da região. Caracterizado pelo clima mediterrâneo, é conhecido pelos verões quentes e secos. As amplitudes térmicas variam, com as sub-regiões de Portalegre e da Vidigueira a registarem noites mais frescas comparativamente às restantes, […]
O Alentejo apresenta-se como o guardião de mais de 20 000 hectares de vinha e é constituído por oito sub-regiões concentradas no interior da região. Caracterizado pelo clima mediterrâneo, é conhecido pelos verões quentes e secos. As amplitudes térmicas variam, com as sub-regiões de Portalegre e da Vidigueira a registarem noites mais frescas comparativamente às restantes, cujos registos vão dos extremos no que ao calor diz respeito, com noites de temperaturas mais altas, nas sub-regiões de Moura e Granja-Amareleja, a moderadas, nas sub-regiões de Évora, Reguengos, Redondo e Borba.
Como complemento, os solos ora são xistosos, como acontece no sul do Alentejo, sobretudo na transição para as zonas ribeirinhas, ora são graníticos, com Portalegre, Évora e Reguengos a ganhar pontos no que toca à especificidade desta matéria. Já as zonas mais planas são tomadas pelos solos argilocalcários, com os mármores a predominar de forma gradual a sub-região de Borba.
É precisamente na sub-região de Borba que está o foco desta peça, mais concretamente em Estremoz, concelho do distrito de Évora, no Alentejo Central, o qual ocupa uma área que ultrapassa os 500 quilómetros quadrados. Está limitado pelos concelhos de Sousel (distrito de Portalegre), a noroeste, de Arraiolos, a oeste, de Évora e Redondo, a sul, de Borba, a nascente, e de Monforte (distrito de Portalegre), a nordeste. É constituído por 13 freguesias. O mar de vinhas estende-se por aproximadamente 2 000 hectares e é tido como o concelho que reúne o maior número de produtores de vinho de toda a região alentejana: 22 adegas.

Património alentejano
Antes de chegar à entrada da Herdade das Servas, impera uma revisão geral a respeito do património gastronómico de um Alentejo pleno de sabor e diversidade. Tamanha riqueza se estende por tão grande território, onde o peixe inunda as casas do litoral, ao passo que a carne domina o interior. Sopa de cação, sopa de tomate, sopa de beldroegas, gaspacho, açorda à alentejana, sargalheta, a imensidão de migas, cabeça de xara, carne de porco à alentejana, ensopado de borrego, pezinhos de porco de coentrada, burras assadas no forno e cozida à alentejana são alguns dos exemplares culinários que, a cada palavra nos faz crescer água na boca.
Acresce a época de caça, com a perdiz, a lebre, o coelho e o javali a protagonizar empadas, feijoadas e arrozes caldosos, assim como os enchidos, nomeadamente de porco alentejano, e os queijos. Sem esquecer o pão alentejano, acima de tudo aquele que ainda é feito no forno a lenha, nem as plantas aromáticas, como os coentros, o poejo, os orégãos ou hortelã da ribeira.
Do convento para as casas das famílias, muito se faz à base de ovos, amêndoas e gila. Neste alinhamento, é de destacar o pão de rala, as queijadas de Évora, o pudim de água de Estremoz, o gadanha, a sericaia, a encharcada, o bolo fidalgo, os rebuçados de ovo, a boleima, o porquinho doce ou a enxovalhada.
Paralelamente, o vinho desempenha um papel importante à mesa. Entre a frescura e a complexidade atribuídas comummente às referências vínicas de Portalegre e Vidigueira e o encorpado outorgado a uma grande parte da lista do Alentejo, passando pelos clássicos, há uma enorme diversidade à escolha neste mundo quase sem fim à vista, já que é de incluir, aqui, os vinhos de talha – muito embora não constem no portefólio da casa que se segue. Importa ainda realçar a lista de castas partilhadas pelos vinhos DOP (Denominação de Origem Protegida) Alentejo e IGP (Indicação Geográfica Protegida) Alentejano: Aragonez, Castelão, Trincadeira, Alfrocheiro, Alicante Bouschet, Cabernet Sauvignon, Carignan, Grand Noir, Moreto e Tinta Caiada.

Porquê o enoturismo?
Da Estrada Nacional 4, via de comunicação que atravessa longitudinalmente o Alentejo Central, com a cidade de Estremoz ao fundo, os olhos recaem nos vinhedos que tomam conta da paisagem. À medida que avançamos para lá do portão, cedros altos pontilham o caminho empedrado de acesso ao casario da Herdade das Servas, projeto fundado em 2001.
Estamos na freguesia de São Bento do Ameixial. Aqui, “o enoturismo foi implementado logo no início, em 2001”, avança Luís Serrano Mira, proprietário da Herdade das Servas, projeto esse que começou a ser objeto de reflexão em 1997. As idas à loja e as visitas marcam os primeiros passos rumo ao sucesso, o fundamento para a integração, em 2008, de uma pessoa dedicada ao ofício do enoturismo. Volvidos três anos, passa a haver três elementos destinados a receber e guiar visitantes, bem como efetuar provas vínicas e, em 2013, abre o restaurante. A justificação para apostar nesta atividade ligada ao turismo é dada sem hesitar: “nasci no vinho. Por isso, viajava muito com os meus pais para tanto lado.”
Todos estes roteiros permitiram que Luís Serrano Mira conhecesse in loco projetos focados nesta atividade turística e, ao mesmo tempo, experienciar o profissionalismo indissociável a este contexto. Espanha, Itália, França, entre outros países da Europa cabem no roteiro enoturístico descoberto na companhia dos pais. A solo, o nosso anfitrião viajou até aos Estados Unidos, África do Sul, Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai, Brasil… O enoturismo era já uma realidade quando avança com a Herdade das Servas. “Sempre pensei neste projeto com visitas. Aliás, para mim era primordial, porque se não mostrarmos o que fazemos, dificilmente conseguimos uma proposição da nossa marca”, sublinha. Por conseguinte, o enoturismo está aberto todos os dias do ano, com a exceção do 25 de dezembro. A procura é feita substancialmente por visitantes nacionais a somar a brasileiros, norte-americanos, holandeses, alemães e escandinavos.
Jardim de vinhas
“Adaptamos o discurso de acordo com a pessoa que está à nossa frente e ao solicitado”, responde o nosso anfitrião, pois é comum receberem produtores ou clubes internacionais que solicitam provas mais técnicas. “Recebe o Renato [Neves, o enólogo] ou, por vezes, recebo eu.” Com efeito, a Herdade das Servas é casa de bem-receber, arte digna de enaltecimento e a preservar, ou não fosse o profissionalismo o reflexo de desvelo e cortesia.
A visita começa na vinha do jardim, implantada entre o edifício e o miradouro da propriedade. É composta por um quarteto de variedades brancas e outro tanto de tintas, respectivamente, Encruzado, Roupeiro Verdelho e Arinto; Touriga Nacional, Trincadeira, Aragonez e Alicante Bouchet. A diferença entre as folhas serve de registo de diferenciação no que às castas diz respeito, como se de “uma impressão digital” se tratasse, nas palavras de Luís Serrano Mira.
O passeio prossegue para o miradouro, contíguo a esta pequena mostra, para observar uma parte das vinhas da propriedade, já que, na Herdade das Servas, estas ultrapassam os 70 hectares. A agricultura regenerativa (ver caixa) é o tema da atualidade na Herdade das Servas. As perguntas vão surgindo e as respostas são dadas prontamente. Quem manifestar interesse em pôr os pés na vinha, para se inteirar mais sobre este ou outro assunto, é claramente bem-vindo. Afinal, no Alentejo o tempo é tido como um aliado a cada momento que passa.
Os três elementos da equipa de enoturismo partilham a história da família Serrano Mira, cuja ligação ao mundo vitivinícola remonta a 1667. A data está gravada em duas talhas guardadas no interior do edificado. Ambas foram o ponto de partida para uma aprofundada investigação sobre o histórico dos antepassados do proprietário, dando origem ao livro A história da vinha e do vinho no Alentejo – Legado de uma família a produzir desde 1667 e à criação do símbolo adaptado para a identidade da casa. “É importante, para nós, este lado familiar e do legado”, reforça o nosso anfitrião, que nos conduz à adega, cujo desenho inicial foi pensado no sentido de ser visitada “e que houvesse um fluxo de entrada e saída”, ou seja, “não entramos e saímos pelo mesmo sítio”, informa.
Centro interpretativo na adega
Chegados a este espaço, onde o bulício das vindimas já se faz sentir no presente mês de julho, somos incentivados a descobrir detalhes acerca dos 350 hectares de vinha de sequeiro integrada no universo da Herdade das Servas. Para o efeito, há oito pontos interativos correspondentes às vinhas da Herdade das Servas e da Louseira, no concelho de Estremoz, assim como as do Azinhal, da Cardeira Velha (de 1972 e onde estão plantados 13 hectares da casta Carignan, de génese espanhola), da Cardeira Nova, do Clérigo (com uma vinha de 10 hectares datada de 1940) e de Pêro Lobo, em Orada, no concelho de Borba, enquanto o correspondente à Vinha da Judia, em Orada, permanece em atualização, pois esta “está em transformação”. Este esclarecimento imersivo surgiu com “a necessidade de explicar às pessoas as oito vinhas diferentes, porque, ou dispunham de um dia para as visitar ou nós passaríamos a explicá-las aqui”, esclarece o nosso anfitrião, ou não estivesses as vinhas dispersas entre os concelhos de Estremoz e Borba.
Em cima de cada um destes postos, está disposto um recipiente em vidro com uma mostra dos respectivos solos. Entre as características mais comuns, constam os tons vermelhos e amarelos, derivados do xisto. Todos estão dispostos numa espécie de corredor, do qual visualizamos os lagares em granito, onde a pisa a pé é igualmente posta em prática por visitantes que queiram experienciar este momento. Mas já lá vamos.
Segue-se a explicação inerente ao processo de vinificação das uvas na adega e os equipamentos disponíveis para o efeito. Rotulagem a engarrafamento também fazem parte dos procedimentos. Quanto ao volume, a produção vínica oscila muito. Luís Serrano Mira justifica esta diferença com o facto de 80% das vinhas estar em sequeiro. Portanto, “depende do ano, se é mais chuvoso ou menos chuvoso”. Durante a visita, são visíveis equipamentos muito antigos, outrora utilizados na vinificação das uvas.
Biblioteca vínica
Já na cave, de tetos arqueados, colunas grossas e chão de pedra escura, a luz ténue torna este espaço subterrâneo ainda mais intimista. Todos os vinhos que repousam em barricas são provados com o rigor de um mestre, tarefa à qual se junta Luís Serrano Mira. O mesmo sucede com os vinhos elaborados nas cubas de inox. No mesmo piso, mas mais à frente, está aquela que o proprietário da Herdade das Serras chama de biblioteca.
“Aqui estão os livros que fomos escrevendo e vamos lendo os capítulos daquilo que é a obra, e percebendo se ela está ajustada no tempo. Para mim, é muito importante que os vinhos transponham o tempo. É uma forma que tenho de ver o vinho. Gosto que sejam bons no momento em que são lançados, mas também gosto que sejam bons daí a uns anos. Para isso, é importante perceber o que fizemos e o potencial que tiveram no tempo”, declara o nosso anfitrião, para descrever a enoteca da propriedade. Dentro deste espaço, estão expostas peças associados à cultura da vinha e do vinho, como tesouras de poda, serrotes, um saca-rolhas com mais de 200 anos, saca-rolhas de bancada. A colheita mais antiga é de 1999.
Alentejo à prova… e não só
O término da visita acontece na sala de prova e loja, onde é dado início à experiência dotada pelo olfato e pelo paladar. Pão alentejano, paio e painho de porco alentejano, queijo regional, tosta de pão alentejano enchidos e compota vão à mesa a pedido. Tantos os enchidos como o queijo são selecionados por Luís Serrano Mira, um entusiasta dos produtos do Alentejo.
Iguarias à parte, faça-se à “Prova cega” ou entre “De corpo e alma” na Herdade das Servas, para conhecer melhor cinco referências deste universo alentejano. A condução de ambas é acompanhada pela explicação. Nada de novo, diria, mas se o visitante revelar interesse em comprar vinho para lá do provado, logo se abre a oportunidade de experimentar um ou outro, para dissipar a decisão. Para quem prefere um reportório mais alargado e mais profundo, a escolha recai na “Seleção do enólogo”. Para um momento mais demorado, é de eleger a “Winegrowing Legacy com harmonização”, a realizar, de preferência, na esplanada. A seleção dos vinhos baseia-se na produção da casa – seja na Herdade das Servas, seja na Casa da Tapada, propriedade vitivinícola da Serrano Mira situada no concelho de Amares, em território dos Vinhos Verdes – e está associada a vários patamares de valores, com o propósito de abranger vários públicos.
Nas vindimas, a pisa pé permanece na lista de atividades da Herdade das Servas. Ao contrário do que acontecia anteriormente, em que os visitantes vestiam um fato-macaco e calçavam botas, para realizar esta tarefa, hoje essa indumentária é substituída pela t-shirt e os calções, por forma a simplificar a logística. Mas “são devidamente higienizados”, avança o nosso anfitrião.
Memória de sabores
Ter o tempo como um aliado é mais do que uma virtude nesta região onde o vagar é atributos, pois vale a pena esquecer o compasso dos ponteiros do relógio, para entrar no Legacy Winery Restaurant, ali mesmo ao lado. Outrora amplamente primado pela gastronomia tradicional alentejana, quis o proprietário fechar as portas deste espaço, para o submeter a obras de fundo, desde a cozinha à reformulação da sala.
A reabertura acontece em 2022, sob o nome Legacy Winery Restaurant. “Antigamente, tínhamos mesas de dez pessoas, hoje temos mesas para duas pessoas”, informa. Atualmente, a ocupação da sala é de 52 lugares acrescidos pelos 24 disponíveis na esplanada. A cozinha é de cariz alentejano, “mas com uma aproximação ao fine dining” sem purismos, mas com muito sabor, pois “insistimos no lado regional”, declara.
Nas carnes, predomina o porco de raça alentejana e a carne bovina Alentejana. Os pratos de caça é outra das sugestões mais recomendadas do restaurante, com os croquetes de javali e o escabeche de perdiz a conquistar o olhar atento – e, depois, o estômago – dos apreciadores de boa comida. A proeza tem um nome, Ricardo Gonçalves, que, com saber, seleciona a matéria-prima, implementa a confeção e envolve texturas em cada prato, com o intuito de elevar os sabores da cozinha alentejana. Não se perde tempo, para saborear o arroz cremoso de javali, as bochechas de novilho estufadas e as plumas de porco alentejano. Entretanto, há quem deite os olhos na desconstrução de bacalhau à Brás, sugestão a ir à mesa numa próxima viagem.
Claramente que a ementa vai para além destas propostas de inspiração alentejana, a qual se estende às sobremesas. É o caso do célebre pudim de água de Estremoz, confecionado a preceito e que merece a atenção dos nossos sentidos, e da boleima de maçã, típica do Alto Alentejo. Fora de horas, está disponível a ementa de petiscos a comer na companhia de vinho a copo, por exemplo, da Herdade das Servas ou da Casa da Tapada. Há, portanto, boas razões para regressar.
Pela regeneração e pelo biológico
A vontade de implementar a agricultura regenerativa resulta de uma vontade partilhada por Luís Serrano Mira e Renato Neves. Segundo o enólogo, que faz parte da equipa da Herdade das Servas desde 2022, a agricultura regenerativa é tomada como uma espécie de “cuidado paliativo” em prol da restituição da vida dos solos. Para o efeito, estes têm de permanecer cobertos a maior parte do tempo, de modo a que fiquem protegidos da erosão causada pelo sol e pelo vento. “Neste momento, o coberto vegetal já está a mudar. Já estão a aparecer plantas mais espontâneas, mais locais”. Estas espécies cresceram, ativaram os solos e começaram a gerar biomassa. Objetivo? Contribuir para o aparecimento da matéria orgânica. Em simultâneo, a água passou a ficar retida e há a constante necessidade de equilibrar os níveis de carbono e azoto nos solos. “Quando há necessidade de mais carbono, compramos melaço de cana-de-açúcar e pulverizamos juntamente com micróbios” e “quando os cortes são em seco, pulverizamos com aminoácidos – extrato de algas, extrato de lã”, para compensar os níveis de azoto. “Simulamos como se estivesse a ser pastoreado e a regeneração é natural.”
Entretanto, já depois da supressão total dos fitofármacos, em 2024, deu-se o início ao período de conversão para modo de produção biológico dos 350 hectares de vinha do universo da Herdade das Servas. A partir da vindima de 2027, o vinho desta adega passa a biológico.
No entanto, estas alterações interfiram com o marcador epigenético das plantas. Renato Neves explica: “os nossos genes não mudam, mas podem ser silenciados. É como o botão do volume, com o qual podemos aumentar ou diminuir o volume.” Ou seja, “quando se aplica constantemente pesticida nas plantas, os genes que estão associados ao sistema imunitário vão sendo silenciados. Por isso, nos anos de transição, as plantas não sabem o que hão de fazer”. Face a este cenário, há uma quebra na produção de uva, tal como aconteceu em 2024, ano em que “a transição foi mais brusca”.
Com a passagem do tempo, e face ao “desmame” de tratamentos fitossanitários, as plantas começam a ativar as próprias defesas. Para acelerar essa atuação, é aplicado um tratamento com levedura saccharomyces ainda viva. O propósito é despertar o sistema imunitário da planta, como se de uma vacina se tratasse. “A planta vai sentir um ataque e produz metabolismos secundários para lutar contra algo. No fundo, queremos que a vinha se mantenha alerta”, sublinha.
CADERNO DE VISITA
Comodidades e Serviços
Línguas faladas: Português, Inglês e Espanhol
Loja de vinhos: 12 lugares
Restaurante: 32 lugares
Esplanada de rua: 24 lugares
Sala de prova: 12 lugares
Sala de Reuniões: 10 lugares
Provas comentadas: Por marcação
Wifi gratuito disponível: Sim
Visita às vinhas: Sim
Visita à adega: Sim
Eventos
Eventos corporativos: Sim (min 12 pax/ max 50pax)
Atividades team building: sim ou não e nº de pessoas (mínimo e máximo) – Sim (min 12 pax/ max 50pax)
Programas e experiências
Visita Simples
À vinha do jardim, adega e cave sem prova de vinhos
Preço: €6
De corpo e alma
Visita à vinha do jardim, adega e cave, com prova de cinco vinhos: Capela da Tapada, Monte Servas branco, Herdade Servas branco, Monte Servas tinto e Herdade Servas tinto
Preço: €18
Prova cega
Visita à vinha do jardim, adega e cave, com prova cega de quatro vinhos.
Mínimo: 2 pax
Preço: €25
Seleção do enólogo
Visita à vinha do jardim, adega e cave, com prova de seis vinhos: Casa da Tapada Superior, HS Sangiovese rosé, HS Reserva branco, HS Sem Barrica tinto, HS Reserva tinto e HS Vinhas Velhas tinto
Preço: €30
Winegrowing Legacy (com harmonização)
Visita à vinha do jardim, adega e cave, com prova de seis vinhos: HS Sangiovese rosé, HS Reserve branco, HS Vinhas Velhas branco, HS Reserve tinto, HS Parcela C tinto e HS Parcela V
Mínimo: 2 pax
Preço: €65
Harmonização
(disponível para todas as provas)
Paio e painho de porco alentejano, um queijo regional, tostas de pão alentejano
Preço: €16
Programas Especiais
Pisa a Pé
(disponível apenas na época das vindimas)
Visita à vinha do jardim, adega e cave, pisa a pé em lagares de mármore, prova de vinhos com harmonização, oferta de uma garrafa de vinho
Mínimo: 2 pax
Preço sob consulta
Um dia na Herdade das Servas
Passeio a cavalo pela Herdade das Servas, visita à vinha do jardim, adega, cave e lagares de mármore, prova de vinhos com harmonização, almoço ou jantar com menu de degustação
Mínimo: 2 pax
Preço sob consulta
Horários de visita disponíveis
10h30 e 12h00 (manhã)
15h30 e 17h00 (tarde)
Notas e recomendações
Recomenda-se a marcação prévia;
As visitas em exclusivo e programas personalizados, estão disponíveis mediante consulta;
Caso haja rutura de stock de algum dos vinhos, o mesmo será substituído por um equivalente.
Legacy Winery Restaurant
Inverno e verão das 12h30 às 15h00 e das 19h30 às 22h00
(encerra à quarta e à quinta-feira, e domingos à noite)
Reservas
Enoturismo
Horário: de segunda-feira a domingo, das 10h00 às 19h00
E-mail: enoturismo@serranomira.pt
Tel.: 268 322 9490
Legacy Winery Restaurante
E-mail: legacy@serranomira.pt
Tel.: 268 098 080
Contactos:
Herdade das Servas
EN 4 KM 136,4, 7100-600 S. Bento do Ameixial, Estremoz
www.herdadedasservas.com
pr@serranomira.pt
Tel.: 268 322 949
(Artigo publicado na edição de Julho de 2026)
QUEIJO SERRA DA ESTRELA: O sabor das terras

Constituída pela Comunidade Intermunicipal da Região Beiras e Serra da Estrela, pela Comunidade Intermunicipal Viseu Dão-Lafões e pela Comunidade Intermunicipal Região de Coimbra, a Região Demarcada do Queijo Serra da Estrela reúne 18 concelhos do centro do país. “Só para se situarem, vai desde a Guarda até Tábua”, resume Joaquim Lé de Matos. É este […]
Constituída pela Comunidade Intermunicipal da Região Beiras e Serra da Estrela, pela Comunidade Intermunicipal Viseu Dão-Lafões e pela Comunidade Intermunicipal Região de Coimbra, a Região Demarcada do Queijo Serra da Estrela reúne 18 concelhos do centro do país. “Só para se situarem, vai desde a Guarda até Tábua”, resume Joaquim Lé de Matos. É este o lar da ovelha da raça Serra da Estrela Bordaleira, cujo leite é o único que está apto para a produção do Queijo Serra da Estrela DOP. Para o efeito, os animais têm de estar inscritos no Caderno Genealógico gerido pela Associação Nacional de Criadores de Ovinos da Serra da Estrela (ANCOSE).
Por isso, “quando as pessoas estão a comer um queijo, não estão a comer apenas um queijo. Estão a comer património, estão a comer paisagem, estão a comer história.” Para enfatizar esta frase inerente ao Queijo Serra da Estrela com Denominação de Origem Protegida (DOP), Joaquim Lé de Matos, presidente, desde março de 2021, da Estrelacoop – Produtores de Queijo Serra da Estrela, e proprietário da queijaria Quinta de São Cosme, localizada em Vila Nova de Tazem, no concelho de Gouveia, cita um ditado: “a alma da serra é o sabor das terras.”
A alma do Queijo Serra da Estrela DOP começa nos pastores. “Da cadeia de valor toda, o pastor é o elo mais vulnerável”, sublinha Joaquim Lé de Matos. Há pouco mais de 230, dos quais 146 fornecem leite para a produção de Queijo Serra da Estrela DOP. “Em 2021, recebia por litro de leite, em média, €1,35. Hoje, recebe €2,20, €2,30 o litro.”
Acerca dos animais, os números decresceram entre os últimos dez a 15 anos, período durante o qual “existiam cerca de 120 000 efetivos. Hoje, existem 23 000”, continua o nosso anfitrião, com o intuito de mostrar o crescente desinteresse em relação a esta profissão. Mesmo assim, “o leite fornecido para a produção do Queijo Serra da Estrela é proveniente de entre 14 000 e 15 000 animais”, informa.

Missão: pastorear
Ricardo Pimenta, de 47 anos, é pastor. Aos cinco já ordenhava ovelhas. “Cheguei a sair daqui por um ano e meio”, pois a ligação à terra chamou mais alto. Hoje, possui 250, cujos nomes sabe de cor. O leite, obtido a partir de mais de 140 ovelhas em época de alavão, uma vez de manhã e uma vez à noite, é fornecido à queijaria Quinta de São Cosme.
A Quinta da Ferragem, onde habitualmente pastam, ocupa uma área de 30 hectares. A estes juntam-se 40 hectares, situados junto a esta propriedade. O solo é de origem granítica. Aliás, muitos dos afloramentos formados por este tipo de rocha são bem visíveis. Já sobre o pasto, Ricardo Pimenta afirma que é maioritariamente natural, mas uma parte é melhorada, para providenciar uma alimentação equilibrada e saudável aos animais. Velhaca, larica, favaca, serradela, leituga, língua-de-ovelha, gorga, trevo-branco são parte integrante do léxico ligado ao pastoreio e cada planta dita o teor de gordura do leite.
Em matéria de produção de leite, Ricardo Pimenta afirma que a ovelha, em média, é viável até aos sete ou oito anos, mas o pico favorável é dos dois aos seis anos. A genética é outro assunto digno de relevância, até porque, para o pastor, aquela comporta 50%, enquanto a outra metade tem a gestão alimentar e produtiva como mais-valias.
Salvaguarda de um património
Juntamente com os pastores, os 24 produtores de Queijo Serra da Estrela DOP também têm um papel preponderante a respeito desta matéria. Ambos são os detentores de conhecimento de um ciclo que envolve um saber milenar indissociável a este produto sazonal, cuja produção vai de outubro a junho. “A prova está numa francela com 2500 anos”, esclarece o nosso anfitrião, referindo-se ao recipiente em madeira, onde, em tempos há muito idos, se colocava o queijo, para deixar escorrer o soro, e o qual só existe na região da Serra da Estrela.
Eis o pretexto para a apresentação da candidatura do Queijo Serra da Estrela DOP, bem como o queijo artesanal produzido na Região Histórica da Serra da Estrela, a Património Cultural e Imaterial da Humanidade da UNESCO, intitulada A arte de queijar no fabrico do Queijo e do Requeijão na Serra da Estrela – programa para a sua salvaguarda e promoção enquanto património cultural. O porquê do título? Porque “o Queijo Serra da Estrela está na iminência de desaparecer devido à falta de interesse em ser-se pastor por parte das gerações mais novas”, destaca Joaquim Lé de Matos. Para o efeito, a Estrelacoop uniu 17 dos 18 concelhos abrangidos pela Região Demarcada do Queijo Serra da Estrela. A estes somou a Associação de Criadores de Ovinos da Serra da Estrela (ANCOSE).
Paralelamente, foi determinado o aumento do preço do Queijo Serra da Estrela DOP: “em 2021, estava nos €18 o quilo”. Com a valorização deste produto, o preço subiu para os €25 por quilo “ou mais.” A par com esta ação, todos estes queijos ostentam a marca caseína entregue pela Estrelacoop a todos os produtores, para fomentar a rastreabilidade, comprovar a origem de como produto bater a fraude. “A única coisa que muda é a identidade do produtor”, informa.
A Quinta de São Cosme recebe, diariamente, entre 600 e 700 litros de leite, exceto ao domingo, dia em que este ingrediente fica em tanques de refrigeração
A arte de queijar
Quem se dedica à feitura do Queijo Serra da Estrela DOP, respeita a tradição no que à seleção de ingredientes diz respeito: leite cru de ovelhas de raça autóctone Serra da Estrela, sal e flores do cardo (Cynara cardunculus L.). Os três são utilizados na queijaria Quinta de São Cosme, fundada, em 1982, por Maria Celeste Lé de Matos, mãe de Joaquim Lé de Matos. A supervisão de cada etapa dos trabalhos é da responsabilidade de José Alfredo. Está na Quinta de São Cosme há 26 anos, mas o conhecimento empírico relacionado com a arte de queijar começou na infância.
À Quinta de São Cosme chegam, diariamente, entre 600 e 700 litros de leite, exceto ao domingo, “dia em que fica em tanques de refrigeração, para ser utilizado à segunda-feira”, explica o nosso cicerone, os quais devem registar entre os 2º C e os 4º C. São 15 os pastores que o fornecem e alguns mantêm uma relação de quase 20 anos com a queijaria. São precisos cinco litros de leite por quilo, quantidade que aumenta para 6,5 ou sete litros em outubro, novembro. Para os queijos de meio quilo utilizam-se 2,7 litros de leite.
Quanto ao sal, José Alfredo usa uma das mãos como medidor, ou não fosse esta tarefa um hábito acrescido de saber-fazer. A coagulação é feita por intermédio das flores do cardo, que são secas e trituradas na queijaria. “Utilizamos 0,05 gramas de cardo por cada litro de leite”, quando a temperatura do leite atinge os 30, 31º C.
Ao fim de 45 minutos, o leite começa a solidificar. “Com o leite da manhã, que ainda vem quente, o processo é mais rápido.” Mas se estiver refrigerado, o processo “demora mais um quarto de hora, 20 minutos”, afirma José Alfredo.
A coalhada é cortada manualmente, para o soro se separar, e aquela massa é colocada nas formas. Molda-se e espreme-se com as mãos. Dispõe-se a marca caseína, “o BI do queijo”, que é submetido a uma prensa própria, para expelir o excesso de soro e uniformizar o produto. Com uma faca aparam-se as bordas e coloca-se um pouco de sal em redor do produto, para secar e “encascar” mais rápido.
Depois de envolvidos numa faixa de tecido branco, os queijos vão para a câmara frigorífica, com controlo de temperatura e humidade. A partir do décimo dia, são lavados, um a um, para suprimir a reima, isto é, as impurezas libertadas pelo queijo, e são transladados para outra câmara frigorífica. “Temos de os virar todos os dias até ao 30º dia”, quando, segundo a legislação, o Queijo Serra da Estrela DOP está apto para venda. Mas José Alfredo reforça que o ideal é sair entre os 40 e os 45 dias. Terminado este período, todos são rotulados manualmente na Quinta de São Cosme.
Do soro se faz Requeijão Serra da Estrela DOP, o qual deve estar pasteurizado. Quando atinge os 40, 45º C adiciona-se uma percentagem de leite de cabra, para se obter um produto mais cremoso, “desde que [estas cabras] acompanhem o rebanho da ovelha Bordaleira”, adverte Célia Henriques, técnica da Estrelacoop. “O requeijão fica mais branco”, reforça José Alfredo, está pronto para consumo em 30 minutos, mas dura, no máximo, até dez dias.
Perto de 95% do Queijo Serra da Estrela DOP produzido na Quinta de São Cosme é de meio quilo, mas também produzem de quilo. No total, são feitos cerca de 200 queijos por dia. A quantidade de Requeijão Serra da Estrela DOP ascende a aproximadamente 1000 unidades.
Singularidade e rigor
Para Célia Henriques, técnica da Estrelacoop, “o leite cru tem de se trabalhar consoante ele está. Esse é o maior desafio dos produtores”, uma vez que o resultado não é sempre igual. No entanto, “a gente não consegue replicar o Queijo Serra da Estrela [DOP] numa outra região”. A explicação está associada ao leite, ao clima e ao pasto desta região da Serra da Estrela. Com o acréscimo das mudanças inerentes a cada estação do ano e o que isso implica, “o queijo de outubro não é igual ao queijo de dezembro, que não é igual ao queijo de janeiro, que não é igual ao queijo de maio”.
No entanto, impera o desvelo e o rigor no que toca à saúde pública, daí o controlo implementado em relação à saúde dos animais, bem como à higiene das instalações da ordenha às instalações da queijaria. “Por isso, temos de garantir que os queijos de leite cru nunca são vendidos com menos de 30 dias.”
Paralelamente, cada queijaria tem de seguir as instruções estipuladas pela Estrelacoop a respeito das câmaras de refrigeração. Na primeira fase da cura do Queijo Serra da Estrela DOP, a temperatura tem de registar até os 7ºC e, na segunda fase, entre os dez e os 12ºC, devendo a transferência do produto ser efetuada entre o 10º e o 15º dia.
A primeira lavagem deve acontecer aos dez dias. “Mas se uma queijaria decide fazer essa transferência ao 10º dia, as características organolépticas do produto já são diferentes, se esta ação decorrer no 15º dia”, elucida Célia Henriques.
Para o efeito, há um painel de provadores especializados na avaliação das características, das diferenças sensoriais e do estado de maturação do Queijo Serra da Estrela DOP, o qual é controlado pela Kiwa Sativa. Esta missão ocorre em novembro/dezembro e em março/abril.
“O Queijo Serra da Estrela DOP pode ir dos 400 aos 1700 gramas”. A forma é regular e a crosta tem de apresentar um abaulamento lateral, ou seja, não pode ter arestas, e a cor tem de ser amarela palha. A pasta tem de apresentar uma cor branco-marfim e ser uniforme. “Deve abaular, mas não derramar aquando do corte”; o sabor ligeiramente acidulado deve-se às flores do cardo. “Mas há diferenças de queijaria para queijaria”, adverte, pois cada uma possui o seu estilo numa analogia às casas de Vinho do Porto.
Sobre o Requeijão Serra da Estrela DOP, “é preciso ter atenção ao ponto certo”, salienta a técnica da Estrelacoop. É cremoso, funde-se na boca, é branco e granulado, e tem uma forma definida. “É um produto sazonal e pode ser vendido em cuvete ou embrulhado em papel vegetal.” O peso padrão é 260 gramas.
“Com queijo e vinho se faz o caminho”
Já dita o provérbio popular mais reconfortante para o palato e o estômago. A este, Paulo Nunes, enólogo da Casa Passarella, propriedade centenária localizada na sub-região da Serra da Estrela, concelho de Gouveia, região do Dão, acrescenta: “ninguém produz um vinho que não tenha a ver com a gastronomia local”.
Como tal, disponibilizou cinco referências vínicas. Sem recorrer às componentes organolépticas de cada casta, Paulo Nunes deixou os presentes provarem cada vinho livremente na companhia de queijos Serra da Estrela DOP: O Fugitivo Tinta Pinheira, O Fugitivo Branco em Curtimenta 2016, Casa da Passarella Encruzado 2011, Villa Oliveira Encruzado 2022 e O Fugitivo Espumante Bruto Baga 2018.
O quinteto vínico acompanhou o Queijo Serra da Estrela DOP aberto ao meio e fatiado ou cortado à cunha. “Nunca abrir por cima. O sabor que tem no meio não é igual ao que está junto à crosta, que é comestível”, reforça Célia Henriques. “O doce sente-se na ponta da língua, o amargo é atrás, e de lado temos o salgado e o ácido – o acidulado vem da flor do cardo” e “falta de sal é apontada como um defeito”, defende. A mesma indicação do corte é atribuída ao Queijo Serra da Estrela Velho DOP. Esta pressupõe uma cura de 120 dias, perdendo cerca de 30% de peso em relação a um queijo novo. “Perde humidade, mas ganha em intensidade.” Portanto, “quem procura Queijo da Serra da Estrela Velho é um apreciador de queijo e também é um apreciador de vinho”, assume Célia Henriques.
No entanto, “o Queijo Serra da Estrela designado de amanteigado, é o mais procurado, é o mais apetecível”, assegura Joaquim Lé de Matos. “Se apresentarmos um queijo velho a um estrangeiro, ele vai pensar que é um queijo novo de Portugal”.
“Quando as pessoas estão a comer um queijo, não estão a comer apenas um queijo. Estão a comer património, estão a comer paisagem, estão a comer história”, afirma Joaquim Lé de Matos
São flores do cardo
Raros são os campos de cardos em Portugal, mas a Quinta da Caramuja, localizada no concelho de Gouveia, possui um bonito jardim composto com esta planta. Com uma área de 70 hectares, esta propriedade de Paulo Mota está centrada na produção de ovos, mas também de azeite, graças às oliveiras dispersas pelo terreno, de vinho e do Queijo Serra da Estrela DOP Conde do Vinhó – bem como de Requeijão Serra da estrela DOP, queijo de cabra biológico ou kefir de leite de cabra bio, entre outros produtos. “Toda a produção agrícola está em modo biológico desde 2007, mas a vinha ainda está em conversão”, acrescenta o nosso anfitrião, que às provas de vinho junta o “lactoturismo”. Ou seja, as provas de queijo feito na casa.
Paulo Mota possui dois rebanhos: um de ovelhas, com cerca de 300 animais, e um outro com 170 cabras. Ambos são de raças autóctones. Ao longo dos três últimos anos têm vindo a aprender a fazer queijo de ovelha e de cabra – no primeiro, utilizam o leite cru e, no segundo, fazem do leite pasteurizado, como manda a cartilha.
O campo de cardos é uma mais-valia. “São raras as queijarias que têm um campo de cardo à porta”, pronuncia-se Para Paulo Barracosa, investigador e docente do Departamento de Ecologia e Agricultura Sustentável da Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Viseu, que dá preferência à designação de “flores do cardo” ao invés de simplesmente cardo, quando se fala da coagulação do leite, durante o processo de produção de queijo.
Numa analogia à vinha, também “este campo de cardo é constituído por plantas que se diferenciam geneticamente” e vai dar azo a um field blend de flores do cardo, particularidade que influencia o sabor dos queijos. Esta questão está ligada à complexidade destas flores que contêm cardosinas, enzimas que “têm uma atividade proteolítica muito intensa”, ou seja, “quebram proteínas”, explica Paulo Barracosa. Já os pigmentos violeta das flores do cardo são flavonóides que atuam como antioxidantes. Contudo, se o corte for feito mais abaixo, isto é, apanhar a parte acastanhada que existe mais abaixo da violeta, consegue-se obter “uma maior quantidade de cardosina B”, nas palavras de Paulo Barracosa, a qual contribui para que o queijo fique mais amanteigado.
Embora fosse interessante dividir o leite em lotes, de acordo com a proveniência, leia-se, com cada pastor, e colher as flores do cardo de acordo com a variabilidade atribuída a esta planta, o certo é que, “enquanto a vinha tem uma vindima por ano, uma queijaria faz queijos diariamente” e a viabilidade económica continua a prevalecer. Mas será que pudesse haver quem o começasse a fazer, com a finalidade de se perceber as diferenças de sabor e textura de cada Queijo Serra da Estrela DOP?
(Artigo publicado na edição de Julho de 2026)
O que é que a Beira Interior tem?

“O que é que a baiana tem? / O que é que a baiana tem? / Tem torso de seda tem (Tem) / Tem brinco de ouro tem (Tem) / Colares de ouro tem (Tem) / Tem bata rendada tem (Tem)…” Todos nós temos esta canção popular brasileira no nosso universo de memórias, celebrizada pela […]
“O que é que a baiana tem? / O que é que a baiana tem? / Tem torso de seda tem (Tem) / Tem brinco de ouro tem (Tem) / Colares de ouro tem (Tem) / Tem bata rendada tem (Tem)…”
Todos nós temos esta canção popular brasileira no nosso universo de memórias, celebrizada pela artista Carmen Miranda e interpretada, pela primeira vez, no filme Banana da Terra, em 1939. Memórias sim, mas só de ver na televisão, diga-se, uma vez que não sou assim tão antigo. Além de descrever a vestimenta da mulher baiana, a canção celebra e exalta o seu charme e graça naturais, reflectindo a alegria e a vivacidade da cultura baiana. Pois, alegria, vivacidade e algum charme, e graça naturais são precisamente características que podemos encontrar nos vinhos da Beira. Então, o que é que esta região tem?
Sobre este território
Foquemo-nos na Beira Interior, mais precisamente. É território raiano localizado no centro de Portugal Continental, destacando-se como a nossa região vitivinícola mais alta, com as suas vinhas plantadas entre os 350 e os 750 metros de altitude. Divide-se em três sub-regiões. A saber: Pinhel, com os concelhos de Pinhel, Meda, Trancoso e Celorico da Beira, que se distinguindo pelas altitudes elevadas e clima continental; Castelo Rodrigo, situada no planalto de Figueira de Castelo Rodrigo e áreas envolventes, a qual abrange os municípios de Figueira de Castelo Rodrigo e Almeida, e beneficia de amplitudes térmicas significativas; e, por último, Cova da Beira, influenciada pelo clima mediterrânico em contexto de vinhas de altitude, contemplando os municípios de Manteigas, Belmonte, Covilhã, Penamacor, Fundão e Castelo Branco.
O território vitivinícola é moldado por quatro serras – da Marofa, da Malcata, da Gardunha e parte da Estrela – em conjunto com os rios que a delimitam – Côa e Águeda, a Norte, Tejo e Zêzere, a Sul. Com um clima continental caracterizado por invernos longos e verões secos, a região beneficia de grandes amplitudes térmicas, factor determinante para a preservação da acidez das uvas, as quais, por sua vez, contribuem para o desenvolvimento dos aromas. A altitude elevada promove uma maturação gradual dos frutos, favorecendo o equilíbrio e a frescura dos vinhos. Todos estas variantes, juntamente com os solos predominantemente graníticos, embora também haja zonas de xisto e quartzito, fomentam a identidade dos vinhos produzidos na região.
Adicionalmente, a Beira Interior reúne condições favoráveis às práticas vitícolas sustentáveis. A altitude e o clima geralmente seco contribuem para uma menor pressão de doenças criptogâmicas (míldio, oídio, botrytis, etc.) na vinha, reduzindo, em muitos casos, a necessidade de intervenções fitossanitárias. Estas características, aliadas a uma gestão adequada da vinha, favorecem abordagens de produção de menor impacto ambiental.
Em suma, a Beira Interior é uma das regiões vitivinícolas portuguesas com maior área de vinha certificada em modo de produção biológica. Esta aposta em práticas vitícolas mais sustentáveis tem vindo a reforçar o posicionamento da Beira Interior entre as regiões nacioanais que apostam numa gestão firme no que aos recursos naturais diz respeito.
Porém, o vinho não se faz sozinho, não, e a Inteligência Artificial, por enquanto, também ainda não o produz. São precisas pessoas. E a Beira Interior muito tem sido construída por pessoas e projectos que, diariamente, dão expressão aos seus vinhos e são reconhecidos como embaixadores de um património vitivinícola profundamente enraizado, reflectindo uma identidade plural, desde pequenas produções artesanais a grandes estruturas cooperativas. Passando por marcas estabelecidas e novos projectos de vanguarda, todos partilham um compromisso com a excelência e a valorização do território.
Os 15 hectares de vinhas incluem a Quinta Vale Ruivo, com cerca de dez hectares de vinhas quase centenárias
Casas Altas, o fulgor de José Madeira Afonso
Casas Altas é o nome do projecto pessoal do médico e viticultor José Madeira Afonso, nascido em Coimbra, mas com raízes profundas em Souropires, no concelho de Pinhel, Beira Alta, onde a sua família habita há, pelo menos, oito gerações. Desde muito cedo se apaixonou pela freguesia ligada às suas origens, onde passava longos períodos na casa da avó materna. O fascínio pela vida no campo levou-o a matricular-se na Escola de Regentes Agrícolas de Coimbra, onde concluiu o curso aos 18 anos. Posteriormente, estudou Medicina – a sua outra paixão – e licenciou-se em 1974.
Por motivos profissionais, viveu durante três anos em Bergen, na Noruega, onde descobriu os encantos do vinho, graças ao tempo que partilhou com grandes conhecedores, que estudavam e provavam o melhor que se produzia no mundo. As viagens e férias em Bordéus, na Borgonha, na Alsácia, no Mosel ou na Toscana tornaram-se naturais, frequentes e irresistíveis.
No início da década de 1990, concretizou o sonho de plantar vinhas em Souropires, construir uma adega moderna e produzir o próprio vinho – esta última acção ocorre desde 1994. Trata-se do projecto Casas Altas, ao qual se dedica actualmente, já reformado, valorizando as castas autóctones da região, nos seus 15 hectares de vinhas distribuídas por várias parcelas, incluindo a Quinta Vale Ruivo com cerca de dez hectares de vinhas quase centenárias.
As castas dominantes são Rufete, Baga, e Touriga Nacional, nas tintas; Síria, Fonte Cal e Arinto, nas brancas. Uma vez que a Borgonha e o Mosel são as regiões internacionais que ficaram na memória e no coração do ‘Doutor’, existem duas pequenas parcelas com as castas Chardonnay e Riesling. Ambas resultam em vinhos absolutamente extraordinários, deixem que vos diga – não é que sejam melhores que um Premier Cru na Borgonha ou um VDP Grossen Lage do Mosel, não, nunca vão ser, nem na Beira nem em qualquer outro lado do mundo se consegue replicar aquilo que estas duas castas produzem naquelas regiões; são produções únicas –, mas são duas expressões fantásticas da Chardonnay e da Riesling, plantadas em solos de granito e em território português, disso não tenhamos a menor dúvida.
A viticultura é totalmente biológica, com total respeito pelo ambiente, sem fertilizantes químicos, insecticidas ou herbicidas, e – alvíssaras, alvíssaras –, desde a vindima de 2024 que a consultadoria de enologia passou a estar sob a responsabilidade de Nuno Mira do Ó.
Há pouco, acima, falámos sobre Inteligência Artificial, que, quem sabe, um dia, ainda vai fazer vinho. Todavia, há uma coisa que podemos ter a certeza: nunca o vai conseguir provar nem beber. Para o fazer, temos e teremos de ser nós! Assim fizemos aquando da visita às Casas Altas, onde analisámos as novidades ao pormenor. Trataram-se de colheitas disponíveis no mercado, algumas preciosidades, como o Chardonnay de 2004, e amostras de 2024 de Rufete e da vinha centenária do Ruivo, já sob a batuta de Nuno Mira do Ó. Deixem só que vos diga: olhos bem abertos, pois há boas novas verdadeiramente excepcionais a caminho!
Barroca da Malhada, uma quinta histórica
“Em 2021, diante de uma mudança de vida, e finalizando um ciclo de trabalhos ligados à agricultura no Brasil, comecei a ir atrás de um sonho antigo de ter o próprio vinhedo e produzir o próprio vinho. Desde os 20 anos de idade que sou um apaixonado por vinhos, sempre fazendo cursos e procurando degustações e harmonizações, principalmente nas viagens. Assim, em setembro de 2021, em plena pandemia, depois de procurar muito, encontrei a Quinta de Santo Isidro, conhecida também como Barroca da Malhada, uma propriedade histórica. Eu e minha irmã, Luciana Teixeira de Camargo, adquirimos juntos a propriedade, e ela também entrou como sócia no projeto.” Fernando Camargo, coproprietário, é Arquitecto, e isso nota-se quando se visita a propriedade. Tudo tem um sentido estético e uma simetria própria dentro do possível, e tudo está impecavelmente arranjado e conservado.
Com pós-graduação em economia e MBA em e-commerce, também com extensão universitária em Administração Rural, em 2018, já com várias certificações em vinho, fez um curso de Agricultura Biodinâmica no Brasil. Foi precisamente nesse curso que surgiu a ideia de convidar um dos companheiros de classe, Valdir Zanirato, para juntos desenvolverem este projecto de vinho e azeite em Portugal.
As vinhas, plantadas em solos predominantemente argilo-arenosos, são trabalhadas sob práticas de agricultura biológica e biodinâmica.
A Barroca da Malhada é uma quinta histórica da Beira Interior, com origens que remontam à Idade Média, outrora pertencente aos Viscondes de Tinalhas. Integralmente murada em redor, como uma espécie de clos gigante, a propriedade, localizada em Tinalhas, no concelho de Castelo Branco, Beira Baixa, tem vista privilegiada para a Serra da Gardunha. São 17,5 hectares, dos quais cinco são de vinhas e cinco são ocupados por oliveiras. Em 2023, Fábio Fernandes ingressou como o novo enólogo da casa e Joaquim Barbosa, como adegueiro e colaborador.
As vinhas estão plantadas em solos predominantemente argilo-arenosos, com partes de granito decomposto. São trabalhadas de acordo com práticas de agricultura biológica e biodinâmica. Nove variedades estão cultivadas e são colhidas manualmente: Arinto, Fernão Pires, Bical, Touriga Nacional, Trincadeira, Aragonez, Baga, Cabernet Sauvignon e Alicante Bouschet.
A primeira vindima ocorreu em 2021. A produção limitada é de cerca de 3000 garrafas. Cada vinho é elaborado com baixa intervenção, reflectindo o respeito pelo solo, pelas vinhas e pelo tempo, num compromisso entre tradição, autenticidade e sustentabilidade. Hoje, a Barroca da Malhada está em fase de transição para a certificação bio e são produzidas quatro gamas de vinho: Barroca da Malhada (clássica), Dolia (Ânforas), BRQA (vinhos de entrada) e Edição Especial. “São vinhos intensos, estruturados, gastronómicos e muito versáteis” afirma Fernando Camargo. E tem razões para isso.
(Artigo publicado na edição de Julho de 2026)
SOALHEIRO: De alma regenerada

Hoje, quando chegamos à Soalheiro, percebemos que estamos perante uma empresa que voa positivamente baixinho, de olhos postos na terra, onde tudo começa e se constrói a partir dela. Maria João Cerdeira, quer queira, quer não, é o rosto de uma nova forma de entendimento da criação de vinhos, que não se dissocia, nem por […]
Hoje, quando chegamos à Soalheiro, percebemos que estamos perante uma empresa que voa positivamente baixinho, de olhos postos na terra, onde tudo começa e se constrói a partir dela. Maria João Cerdeira, quer queira, quer não, é o rosto de uma nova forma de entendimento da criação de vinhos, que não se dissocia, nem por um momento, do sonho inicial dos pais: erguer algo que os fixasse ao lugar que os viu nascer, Melgaço, criando riqueza suficiente para lhes permitir ali permanecer e, ao mesmo tempo, possibilitar que outros como eles fizessem o mesmo.
Em 2018, ano da primeira visita deste vosso cronista à Soalheiro, já ela se colocava, ainda que nos bastidores, na liderança viva e serena de uma equipa em constante movimento. Assumindo a condição, nunca viu na figura feminina uma fragilidade. A educação que lhe foi dada, nunca a limitou por ser mulher, antes lhe deu, desde cedo, muita liberdade aliada à responsabilidade de que tinha de mostrar rigor e muito profissionalismo. Numa casa desde cedo ligada à viticultura, decidiu começar pela medicina veterinária, e com ela cresceu.
Há bem mais de uma década, o pai, João António Cerdeira, pioneiro da plantação de Alvarinho estreme em Melgaço, desafiou-a a coordenar toda a viticultura da família. Desde o princípio, Maria João Cerdeira não desejou procurar outros destinos. Melgaço estava-lhe no sangue e, concluídos os estudos, ali se fixou, diz ela, para todo o sempre. A obstinação e uma elevada consciência ambiental fizeram-na contrapor um outro desafio ao progenitor: assumiria o legado, sob a condição de lhe ser permitido converter todas as vinhas para modo de produção biológico, exigência que, à primeira vista, parecia um contrassenso, conhecendo-se as características da região dos Vinhos Verdes, garantidamente a mais pluviosa de todas as regiões vitivinícolas portuguesas. Contrariamente ao que antevia, a sua proposta foi prontamente aceite por João António Cerdeira, que lhe deu total confiança e liberdade para essa concretização.
Primeiras vinhas
A ousadia da decisão de João António Cerdeira só se estranharia a quem o não conhecesse. Em 1974, foi o responsável e pioneiro pela alteração da paisagem de Melgaço. A vinha de bordadura, sem rentabilidade, foi por ele abandonada e, em seu lugar, faz nascer as chamadas primeiras vinhas de Alvarinho naquele território, à semelhança do que já se fazia na vizinha Monção. A obtenção de um rendimento satisfatório das pequenas parcelas era fundamental para evitar o êxodo migratório, tão comum no início dos anos 70 do século XX.
Já casado, em 1971, com Palmira, João António Cerdeira possuía a firme esperança de que aquela terra havia de lhes garantir o futuro. No ano da revolução, inicia a sua própria. As terras de milho minguavam as gentes. Ali, à beira de casa, numa parcela que os antigos chamavam de Soalheiro, ergueu esteios de cimento, rodeando, cada um deles, de seis pequenas videiras atadas aos postes. Da vizinhança, apenas se observava a plantação de postes que se assemelhavam a cruzes, uma bizarria que motivava conversas jocosas por parte dos agricultores manietados pelos antigos costumes do empobrecimento com alegria. Volvidos quatro anos, a vinha florescia e produzia abundantemente, permitindo à família Cerdeira obter um pecúlio significativo com a venda de uva à Adega de Monção. Parte desta matéria-prima era guardada para as experiências de vinificação de João António Cerdeira, enólogo por autodidatismo e empirismo herdado dos seus pais. O sucesso evidente, converte a outrora vizinhança reticente que, mimetizando as práticas do pioneiro, pintam as suas pequenas parcelas do verdejante Alvarinho, começando ali a alteração da paisagem de Melgaço.
A garagem foi, a partir de 1978, o centro de vinificação. Em 1982, nasce a marca Soalheiro e os primeiros vinhos rotulados da casa. À primeira vinha, poucos metros abaixo da residência familiar, o casal vai, por herança familiar e aquisição, agregando parcelas adjacentes e a Soalheiro vai crescendo, mantendo a raiz na casa de família, entretanto convertida em adega.
Quando, em 2004, Maria João Cerdeira assume a viticultura, o processo de conversão inicia-se imediatamente. O conhecimento, porém, ainda era limitado, e, sentindo essa necessidade de adquirir a vertente científica que lhe permitisse apreender os porquês da natureza, embrenha-se na especialização académica em viticultura biológica, regenerativa e biodinâmica. Nesse processo, certificado em 2006, há todo um pragmatismo de levar a ciência à terra. As vicissitudes do clima do Alto Minho não se compadecem com romantismo absoluto. Desde logo, criam-se protocolos rigorosos e métodos de atuação, que passaram pela criação de estações meteorológicas e modelos de controlo de pragas. O rendilhado dos 18 hectares de pequenas parcelas detidas pela Soalheiro, somado às cerca de 700 outras parcelas, num total de 100 hectares, que integram o total de vinhas controladas pela empresa, determinam um nível de profissionalismo imenso, ainda que os trabalhos de maior exigência, inovação, experimentalismo e, também, maior risco, sejam exclusivamente realizados nas vinhas próprias da empresa. Se a inovação tem um custo, é assumido exclusivamente pela casa. Para os produtores de uva fica a preocupação com a rentabilidade, fator essencial de sustentabilidade humana do território e fórmula exata para evitar o seu abandono.
Miguel Alves é o responsável de viticultura e coordenador dos viticultores do Clube dos Produtores, traduzido em 200 as famílias que o integram e produzem as uvas do universo Soalheiro
O clima e a importância dos solos
O microclima associado à Soalheiro é, de certo modo, transversal a todo o vale do rio Minho. As parcelas exploradas vão mais além e estendem-se por mais dois vales, os dos rios Mouro e Gadanho. O clima, notoriamente continental e pluvioso, é complexo e exige conhecimento científico apurado, conjugado com capacidade de atuação rápida e eficaz. Os solos variam de composição do vale para as cotas mais elevadas: no vale predominam os franco-arenosos, de elevada fertilidade, na altitude, dão lugar ao granito.
Os solos e a sua diversidade são a paixão maior de Maria João Cerdeira. As vinhas do vale, da qual as Primeiras Vinhas são exemplo, caracterizam-se por uma vegetação permanente de suporte de vida e sanidade da videira. Um olhar atento rente ao chão permite observar azevém, língua-de-ovelha e dente-de-leão (sinal de compactação dos solos), hortelã (revelador de um pH ácido e solo fértil e húmido), aveia selvagem…
A interpretação dos solos, a sua composição, compactação ou teor de humidade são analisados por Maria João Cerdeira por mera visualização das plantas que espontaneamente ali brotam. Reconhece-se, por confirmação igualmente científica, que a videira beneficia da biodiversidade e a sua correta interpretação e preservação permite aumentar o seu tempo médio de vida, que, com cargas elevadas, pode esgotar-se ao fim de duas décadas. Por conseguinte, há que intervir apenas e só se for necessário. Qualquer ação mais agressiva, encurta substancialmente a vida de uma videira e pode ter consequências graves no ecossistema. O conhecimento é fundamental neste novo paradigma da sub-região que, no espaço de 50 anos, assistiu a uma mudança tremenda na paisagem, outrora ocupada por sementeiras e, atualmente, ocupada quase na totalidade por vinha.
Clube dos Produtores
Subindo a uma das elevações que rodeiam o vale, é possível ver parte da manta de retalhos tricotada a diversos tons de verde. Ali se encontram parte das parcelas de vinhas do Clube dos Viticultores, uma associação informal constituída por cavalheiros, viticultores, imbuídos de um espírito comum que, empiricamente, trilha todos os requisitos da agricultura regenerativa, aquela que acima da sustentabilidade, melhora o ecossistema envolvente. Ali não há solos nus. A Alvarinho ainda é um bom negócio, produzindo por hectare uma média de oito a dez mil quilos.
O Clube dos Viticultores foi idealizado por João António Cerdeira nos idos anos 80 e, volvidos mais de 40 anos, vem crescendo. São 200 as famílias que dele fazem parte e produzem as uvas do universo Soalheiro, o que mostra a dimensão social de um projeto cuja sustentabilidade só é possível pela rentabilização da atividade. A Alvarinho é, provavelmente, a uva mais bem paga no território nacional continental. Em 2025, a Soalheiro pagou 1,30 euros por cada quilo de uva que entrou na adega. E é nessa relação de respeito e compromisso que se sustenta o conceito do referido clube, valorizando-se a exclusividade e a diferenciação, em que a Vinha Velha é superiormente remunerada. Estas práticas têm permitido não só que não haja abandono das terras, mas também contribuem para que a área de plantio da vinha de Alvarinho tenha aumentado em Melgaço.
A importância do Clube dos Viticultores foi recentemente imortalizada num livro editado pela Soalheiro, dando rosto aos 200 viticultores que preenchem esta comunidade coesa de dignificação de um território valiosíssimo.
Projeto Germinar
É neste contexto social que germinam projetos integradores. Germinar é o projeto que nasce em 2019, no Clube de Produtores, com o associado viticultor António Matos, cujas vinhas se encontram no sopé do Monte de Faro, já fora da sub-região de Monção e Melgaço. Neste projeto de solidariedade social, a Alvarinho é preterida em nome da Loureiro, casta que melhor vinga fora desta sub-região.
António Matos abandonou a carreira como assistente social para se dedicar à viticultura. Porém, o altruísmo, a vontade de recuperar pessoas com adições, fá-lo abraçar, com a Soalheiro, este projeto de reabilitação humana e integração, onde o trabalho na viticultura surge como o paliativo recuperador. Hoje, o Germinar, financiado pela Soalheiro, conta com quatro participantes que vencem os fantasmas do dia a dia junto das vinhas das quais nasceu o vinho homónimo.
Vinhas de altitude
Quando entramos na moderna adega da Soalheiro, somos levados a observar uma maquete que simula a visão aérea de todo o território da região. A orografia é diversa e as vinhas dispõem-se pelas variadas altitudes, entre as mais próximas dos rios até às mais inóspitas altitudes, dissemelhança que obriga uma metodologia precisa e presença constante da equipa de vitivinicultura da empresa. Com vinhas no vale e em altitude, os tempos de maturação divergem muito de parcela para parcela e a marcação de vindimas requer uma planificação perfeita num puzzle de pequenos retalhos, cada qual com a sua personalidade e temperamento.
No Soalheiro Clássico, trabalha-se com uvas oriundas do Vale e de Altitude, variando a percentagem de um e de outro em cada colheita, no sentido de manter uma homogeneidade no perfil. Subindo do vale para as montanhas adjacentes, a partir dos 300 até aos 500 metros de altitude, encontramos as parcelas destinadas ao Granit. Solos mais pobres, totalmente o oposto dos vales férteis do Minho, que tendem a conferir aos vinhos uma perceção de maior seriedade, mineralidade e tensão. Maior acidez e pH mais baixo é comum nestes vinhos. Os atuais limites de 500 metros de altitude serão, a breve trecho, alterados. As alterações climáticas criam desafios e o futuro está a ser salvaguardado com experimentações.
Saindo do vale do rio Minho para o vale do rio Mouro, a paisagem modifica-se e, nas cotas altas, a vinha desaparece do olhar, subsistindo o mato rasteiro e a forragem que alimenta os bovinos de raça Cachena e os equídeos de raça Garrana que por ali vagueiam em liberdade.
O campo experimental
A Vinha da Branda da Abeleira é um verdadeiro desafio aos limites da viticultura e, por isso mesmo, é assumida integralmente pela Soalheiro. A cultura da vinha busca agora a intromissão nos territórios da transumância das brandas (residências de altitude dos pastores, ocupadas durante a primavera e o verão) e inverneiras (habitação dos pastores localizadas nas cotas mais baixas e ocupadas durante o rigor do inverno).
A Vinha da Branda da Abeleira é um campo experimental situado a 1100 metros de altitude, que, por ora, não projeta a produção convencional de uva. Estamos perante uma vinha que visa aprofundar o conhecimento e a resistência da Alvarinho em cotas muito elevadas, numa parcela sujeita a todos os rigores das estações do ano, sobretudo dos invernos gélidos, que transforma a vinha num manto branco de neve.
Motivada pelas notórias alterações climáticas, a Branda da Abeleira foi plantada há sete anos. Tem permitido demonstrar diversas conclusões a nível das amplitudes térmicas, perceção dos solos, sua composição xistosa e granítica e mutações microbiológicas, que levaram a algumas intervenções nos solos. Atualmente, volvida uma primeira fase, existe já conhecimento que, por exemplo, conduziu a uma multiplicação de microrganismos que podem auxiliar à sobrevivência da videira em condições extremas.
Miguel Alves é o responsável de viticultura e o maestro que coordena os viticultores do Clube dos Produtores. O semblante mostra que as alterações climáticas são uma evidência que urge assumir. Durante o ano, os dias com picos de calor têm aumentado substancialmente, com impacto significativo no ciclo vegetativo da planta. Portanto, a Vinha da Branda é já um reflexo de antecipação do futuro, promovendo o conhecimento sobre o comportamento da videira em cotas onde jamais foi plantada.
Asun Caballo e a cave de inovação
Regressados à adega, encontramos Asun Caballo, a enóloga que, após vaguear pela Bodegas Gramona, Valdeorras, Chile, aportou na Soalheiro há quase sete anos e por lá permanece. Na verdade, Asun Caballo é quase vizinha. Mora numa povoação galega do outro lado do rio Minho, donde, do terraço de casa, avista a Soalheiro. Os estudos foram concluídos em Tarragona, porém, a uva e o vinho fazem parte da tradição familiar, pois os pais, desde sempre, produziram e venderam uva, tendo também raízes pesqueiras, tal qual como a família Cerdeira.
A filosofia de criação de vinhos de baixa intervenção, fá-la comungar em pleno com Maria João Cerdeira. Mais do que a intervenção, valoriza-se a possibilidade do experimentalismo na adega e na Cave de Inovação, na multiplicidade de vasilhame usado – recipientes de diversos formatos e composições, entre foudres, barricas de carvalho francês, novas e usadas, tonéis de castanho muito velhos, ovos e cubas de cimento, ânforas, vidro. Nesta cave, tudo é permitido em nome do processo criativo, plasticidade e exploração dos limites da Alvarinho, se é que existem. Um dos desafios mais recentes passa pela recuperação das barricas originais da Soalheiro, as relíquias de castanho onde tudo começou. Encontradas numa casa nas vizinhanças, estão agora a ser recuperadas, por forma a replicar uma espécie de pecado original da empresa.
Mosto Flor, vinho da equipa Soalheiro, elaborado normalmente a partir de vinhas velhas em cotas mais elevadas, Terra Mater, onde o cimento surge incorporado num vinho que, para a enóloga, tão bem define o vale de Monção e Melgaço, espumantes que, na Soalheiro, existem desde 1995, sendo o primeiro elaborado pelo Método Clássico, exclusivamente de uva Alvarinho, produzido na Península Ibérica, ou os vibrantes Pet-Nat, que buscam palatos mais joviais, são alguns dos projetos-exemplo que brotam na cave do Soalheiro.
No fim, e com muito ainda por dizer, fica a ideia de um Soalheiro como expressão genuína de um ecossistema, de uma comunidade de raízes, sotaque e valores num território que se regenera através de um coletivo. Mais de 40 colaboradores, 200 famílias de viticultores reunidas numa comunhão de preservação.
(Artigo publicado na edição de Julho de 2026)
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Soalheiro Revirado
Branco - 2023 -

Soalheiro Revirado
Branco - 2023 -

Soalheiro Barrica
Espumante - 2021 -

Soalheiro
Espumante - 2022 -

Soalheiro Germinar Vinhas Velhas
Branco - 2023 -

Soalheiro Terra Matter
Branco - 2024 -

Soalheiro Mosto Flor
Branco - 2023 -

Soalheiro Nature Pur Terroir
Branco - 2025 -

Soalheiro Cota 27
Branco - 2024 -

Soalheiro Granit
Branco - 2025 -

Soalheiro Primeiras Vinhas
Branco - 2024 -

Soalheiro
Branco - 2025
PINOT NOIR: Da vulnerabilidade nasce a grandeza

Há poucas descrições tão felizes da Pinot Noir como a que chegou ao grande público através de Sideways (2004), filme que permanece vivo na memória de tantos enófilos. Num determinado momento desta longa metragem, frente a frente a uma mulher que deseja, Miles descreve a casta como quem se confessa e suplica: apelida-a de sensível, […]
Há poucas descrições tão felizes da Pinot Noir como a que chegou ao grande público através de Sideways (2004), filme que permanece vivo na memória de tantos enófilos. Num determinado momento desta longa metragem, frente a frente a uma mulher que deseja, Miles descreve a casta como quem se confessa e suplica: apelida-a de sensível, frágil, caprichosa, exigente. Retrata-a como uma uva que pede cuidado constante, atenção demorada na videira e quase uma forma de devoção. A metáfora, em tom de subcontexto (Miles fala de si, evidentemente), permanece eficaz, porque toca um traço essencial da Pinot Noir: é uma casta que não se entrega de imediato; pede tempo para ser compreendida, guiada e revelada.
É precisamente dessa vulnerabilidade que nasce a sua grandeza. No quase monólogo de Miles, a Pinot Noir surge em contraste com a robusta Cabernet Sauvignon, “que prospera com aparente indiferença”, como se uma encarnasse a força e a outra (a Pinot) a delicadeza extrema. Mais do que uma descrição técnica, é uma sugestão e imagem de perfeição, uma verdadeira ética do desvelo, da paciência e do lugar na elaboração de um vinho.
Aromas, solo e clima
Originária da Borgonha, no nordeste de França, a Pinot Noir é uma casta antiga, muito ligada à ideia de elegância, de finesse e à possibilidade de gerar vinhos de grande subtileza aromática. Ao contrário dos vinhos dos fidalgos, geralmente nobre de Bordéus, os Pinot dos camponeses da Borgonha revelavam-se de película fina e baixa concentração tânica, dando quase sempre origem a vinhos de cor aberta, por vezes translúcida, de corpo leve a médio, como se a matéria cedesse espaço à nuance.
No plano aromático, move-se entre dois grandes registos. Num extremo, os frutos encarnados – cereja, framboesa, morango, por vezes em forma de rebuçado – quase sempre acompanhados por um sopro floral. No outro, sobretudo em ambientes mais frios, um perfil mais seco, terroso e vegetal, com sugestões de sub-bosque, folhas caídas, cogumelo e turfa, como se o vinho trouxesse consigo a memória húmida da floresta.
Esta sensibilidade ao clima e ao solo ajuda a explicar por que razão a Pinot Noir atinge a sua expressão máxima em poucos lugares do mundo. A Borgonha continua a ser a grande referência, mas há exemplos notáveis noutras regiões, como Ahr, na Alemanha, Marlborough, na Nova Zelândia, Oregon, nos Estados Unidos, e Casablanca, no Chile. É essa exigência – quase caprichosa – que a distingue de castas como a Cabernet Sauvignon, a Syrah ou a Merlot (o ódio de estimação de Miles no filme já citado), muito mais resistentes e difundidas à escala global.
Na Borgonha, a casta encontrou um dos seus destinos maiores. O clima continental fresco, com invernos rigorosos e verões moderadamente quentes, contribui para uma maturação lenta, quase paciente. Já os solos calcários, pobres, bem drenados e ricos em fósseis marinhos, ajudam a moldar vinhos de notável elegância e mineralidade. O resultado é um mosaico de pequenas diferenças, em que parcelas contíguas podem dar vinhos profundamente distintos, como se cada pedaço de terra falasse uma inflexão própria da mesma língua.
Diz-se muitas vezes que a Pinot Noir é uma casta de transparência e não apenas por causa da sua cor no copo
Adaptação exigente por cá
Em Portugal, a Pinot Noir enfrenta um contexto muito diferente. O clima, globalmente mais quente e seco, e a diversidade de solos colocam desafios claros à sua expressão. Fora alguns casos especiais – muitos deles ligados à produção de bases para espumante, como sucede na Bairrada, no Dão e, mais recentemente, em Távora-Varosa –, a sua presença continua a ser relativamente limitada.
À primeira vista, e se aceitarmos as generalizações mais correntes sobre o clima e os solos portugueses, poder-se-ia concluir que a casta não foi feita para o nosso país. Mas essa leitura é apressada. Portugal guarda uma diversidade rara de terroirs, onde se cruzam influências atlânticas e continentais, altitudes distintas e composições de solo que mudam em poucos metros, e é justamente nessa diversidade que a Pinot Noir encontra, aqui e ali, a possibilidade de se afirmar. É, por isso, que algumas regiões – sobretudo aquelas onde a frescura, a influência atlântica ou a altitude atenuam as temperaturas mais elevadas – têm demonstrado verdadeira aptidão para a Pinot Noir.
A Bairrada é, talvez, o território onde a Pinot Noir mais se aproxima de um registo clássico. A influência atlântica, feita de humidade persistente e temperaturas moderadas, preserva a acidez e alonga a maturação. Os solos argilo-calcários que, por momentos, fazem lembrar a Borgonha, favorecem o surgimento de vinhos tensos, de fruta encarnada fresca, estrutura leve a média e uma evidente vocação gastronómica. Lisboa surge como outra região particularmente sugestiva. Também aqui a escolha de solos calcários, muitas vezes ricos em fósseis marinhos, se revela determinante. Nas zonas mais próximas do mar, as brisas atlânticas moderam o calor estival e prolongam o ciclo vegetativo, permitindo que dali saiam alguns dos mais convincentes Pinot Noirs portugueses. Os vinhos mais pontuados na nossa prova vieram, precisamente, da Bairrada e de Lisboa.
No Dão, embora a tradição esteja mais ligada a castas autóctones, a Pinot Noir não é uma desconhecida. Em parcelas mais altas, encontra condições favoráveis e tende a ganhar estrutura e frescura, num perfil elegante, por vezes mais austero e menos exuberante na fruta. A sua presença histórica na região, muitas vezes associada à produção de bases para espumante, está documentada, por exemplo, nos registos da Casa da Passarella desde 1930.
Já a altitude é o fator decisivo no Douro. Numa região de verões quentes, a casta exige uma procura criteriosa de microclimas, com preferência por cotas elevadas, exposições a norte ou proximidade de cursos de água. Para rosés e espumantes, já demonstrou muito bons resultados. Nos tintos, os exemplos continuam ratos e quase experimentais, mas revelam qualidade, em particular na definição do fruto e na elegância de boca, sendo disso um bom exemplo a versão monovaritel da casta nas marcas Aneto e Quinta do Cidrô.
A Pinot Noir está muito ligada à possibilidade de gerar vinhos de grande subtileza aromática
Transparência e imprevisibilidade
Diz-se muitas vezes que a Pinot Noir é uma casta de transparência e não apenas por causa da sua cor no copo. A expressão é feliz, porque esta variedade funciona, acima de tudo, como um marcador de terroir. Com efeito, poucas variedades expõem com tanta nitidez as virtudes e os limites de um lugar; poucas devolvem com semelhante fidelidade a paisagem de onde vieram.
Foi precisamente essa constatação que nos levou a rever a ambição inicial desta seleção de vinhos. Assumimos que partimos com alguma reserva quanto à qualidade dos Pinot Noirs portugueses, mas os resultados obrigam a corrigir esse ceticismo. Embora Portugal não ofereça a consistência dos grandes territórios clássicos da casta, há nichos muito bem definidos, com produtores atentos e condições naturais capazes de lhe dar expressão convincente. Imaginar Pinot Noir no Douro Superior, no Tejo ou na planície entre Évora e Beja pode continuar a parecer improvável, apesar de termos bons vinhos nessas localizações.
Mas já o mesmo não se diga da costa vicentina, das imediações da serra de Sintra, das zonas altas e graníticas próximas da Serra da Estrela, ou de outras zonas onde o frescor e o solo favorecem a sua delicadeza natural. Talvez resida aí a sua maior sedução: a Pinot Noir nunca é inteiramente previsível, raramente é banal, mas, quando tudo se alinha, oferece vinhos fantásticos com muita personalidade e diferentes no perfil mais habitual das castas nacionais autóctones, daí que mereçam mais atenção e consumo.
(Artigo publicado na edição de Julho de 2026)
MADALENA: Capital do vinho dos Açores

Há três constantes – ou condicionantes – na ilha do Pico: a montanha, ao centro, o mar, à sua volta, e os quilómetros de pedra que os separam. O chão, formado por extensos campos de lava solidificada, impróprio para o cultivo de cereais, ao contrário do que acontecia nas restantes ilhas do arquipélago, punha em […]
Há três constantes – ou condicionantes – na ilha do Pico: a montanha, ao centro, o mar, à sua volta, e os quilómetros de pedra que os separam. O chão, formado por extensos campos de lava solidificada, impróprio para o cultivo de cereais, ao contrário do que acontecia nas restantes ilhas do arquipélago, punha em causa a sobrevivência da população. Mas a necessidade aguça o engenho e o picaroto encontrou uma forma de plantar as videiras nas fendas da rocha, preenchidas com terra trazida do Faial. A vinha vingou, tal como as figueiras, até ao ponto de o vinho e a aguardente de figo terem sido utilizados como moeda de troca.
A escassez de recursos era compensada pela riqueza de espécies marinhas e pela forte vertente piscatória desenvolvida entre a população. A caça à baleia é outra forte realidade histórica que terminou em meados da década de 1980, no contexto da entrada de Portugal na União Europeia.
A ilha tem uma beleza austera e dramática, onde as cores vivas das casas e das antigas adegas contrastam com o basalto e trazem vida e uma certa alegria ao olhar. A realidade do povo, entre o mar, o vulcão e o fogo, nunca foi fácil, o que acabou por forjar o carácter do picaroto.
O picaroto encontrou uma forma de plantar as videiras nas fendas da rocha, preenchidas com terra trazida do Faial.
Os currais são construídos em pedra seca, sem uma única gota de argamassa ou cimento. As pedras encaixam-se simplesmente umas nas outras.
O concelho com o nome de uma santa
A origem do nome remonta aos primeiros tempos do povoamento da ilha. Os pioneiros que chegaram ao Pico no final do século XV ergueram uma ermida dedicada a Santa Maria Madalena. Em torno dessa ermida formou-se o núcleo habitacional, que passou a ser conhecido como Madalena. Mais tarde, o primitivo espaço de culto foi substituído pela actual Igreja Matriz de Santa Maria Madalena. Quando foi criado o concelho, este adoptou o nome da freguesia principal.
É no concelho da Madalena que se impõe a Montanha do Pico, que culmina a 2.351 metros de altitude, o ponto mais alto de Portugal. Embora seja visível de grande parte da ilha (e até das ilhas vizinhas), é mais fotogénica quando vista da costa ocidental, junto à vila da Madalena, onde a sua silhueta desenha um cone quase perfeito. É também neste município que se produz três vezes mais vinho do que no resto da ilha.
História cravada no basalto
No concelho da Madalena há dois lugares incontornáveis para conhecer a história do vinho do Pico: a Criação Velha e o Museu do Vinho.
Na Criação Velha encontra-se a maior concentração de vinha da ilha, numa paisagem única, classificada como Património Mundial da UNESCO em 2004. Vista do alto, faz lembrar uma manta de retalhos, desenhada pelos labirintos dos currais – pequenos muros rectangulares de basalto, com áreas que variam entre os três e os nove metros quadrados. São construídos em pedra seca, sem uma única gota de argamassa ou cimento. As pedras encaixam-se simplesmente umas nas outras.
Em cada curral desenvolvem-se entre quatro e seis videiras, conduzidas rente ao chão e protegidas dos ventos dominantes e da maresia. Mas nada consegue eliminar a influência marítima por completo. A pedra negra basáltica tem ainda outra vantagem: absorve o calor do sol durante o dia e liberta-o lentamente durante a noite, promovendo elevada concentração de açúcar e originando vinhos generosos de grande qualidade.
Entre o século XVIII e o início do século XIX, os vinhos do Pico alcançaram renome internacional, num período áureo de exportação. As grandes famílias do Faial eram, na prática, as proprietárias da produção vitivinícola, para quem trabalhavam os picarotos. Era pelo porto da Horta que o vinho partia para o mundo.
A montanha do Pico domina a paisagem e magnetiza o olhar
Ao passear ao longo da costa, pode-se encontrar rampas talhadas na pedra, chamadas “rola-pipas”, que serviam para facilitar o transporte das pipas até ao mar. Outros vestígios desse passado são as “rilheiras”, gravadas nas lajes de lava pelo vai-e-vem dos carros de bois, o único meio de transporte de então para os produtos agrícolas.
Junto à zona costeira, as pequenas adegas serviam para que o viticultor pudesse aí permanecer quando se aproximava a altura das vindimas, período em que o trabalho na vinha se intensificava. Eram casas de apoio ao trabalho agrícola, com um quarto onde se podia pernoitar e onde as crianças chegavam a passar férias de verão.
Hoje, a vinha ocupa no Pico cerca de 1.100 hectares, aproximadamente cinco vezes menos do que antes da filoxera. Com apenas 14 mil habitantes, a mão de obra é escassa e a mecanização é impossível (pelo menos nas vinhas tradicionais). A produção é baixa e o trabalho continua a ser difícil e exigente, marcado por um clima ameno e húmido e por uma forte pressão de doenças, sustentado pela persistência dos produtores locais.
Fé, Espírito Santo e as lições de partilha
Conta o comendador Manuel Serpa, ex-padre, professor e político, grande conhecedor da história e contador de histórias, que foram os povoadores que trouxeram a devoção ao Espírito Santo na segunda metade do século XV. Uma prática que, nessa época, ressurgia na Europa, associada a uma maior proximidade aos pobres. Com o tempo, em muitos lugares esta devoção esmoreceu, enquanto nos Açores cresceu de forma extraordinária. Ainda hoje se mantém viva nas comunidades com descendentes açorianos espalhadas pelas Américas, de norte a sul.
Mas por que razão é que esta devoção cresceu e se manteve nos Açores? A resposta pode estar nos terramotos, nas tempestades e nos ciclones que, ao longo do tempo, foram sacudindo as ilhas. Nessa realidade marcada pela incerteza, o povo encontrou na fé uma forma de resistência e de força.
Em 1718, uma grande erupção vulcânica assolou a zona oeste da ilha. Perante a ameaça da lava, foi feita uma promessa: se as populações, casas e animais fossem poupados, seriam oferecidas rosquilhas a todos os que por ali passassem. Diz-se que a lava acabou por parar e que daí resultou o Mistério de São João, uma das quatro grandes escoadas de lava da ilha, assim chamadas porque as erupções vulcânicas eram, para as populações, fenómenos misteriosos e difíceis de compreender. A promessa passou a cumprir-se desde então e mantém-se até aos dias de hoje.
As rosquilhas são, assim, um dos símbolos gastronómicos das Festas do Divino Espírito Santo no Pico. Apesar do nome, não se assemelham às rosquilhas tradicionais do continente, sendo antes um pão doce em forma de argola, distribuído gratuitamente durante os arraiais, como expressão de partilha e hospitalidade.
Portanto, o grande dia de festividades nos Açores, para além do 10 de Junho, é o Dia da Região Autónoma dos Açores, que se celebra na segunda-feira do Espírito Santo, sete semanas depois da Páscoa. A festa dura quatro dias, de sexta a terça-feira, e é a única em que há uma forte participação dos jovens, juntamente com várias gerações das famílias, conta o nosso historiador.
Pico Vineyards – montanha, vinhas e conforto
No verão passado, abriu portas o Boutique Hotel Vinícola de quatro estrelas, integrado na Unlock Boutique Hotels, um grupo de gestão hoteleira em Portugal. Situado na freguesia de Bandeiras, o projecto nasceu no local onde funcionava o conhecido turismo rural Cancela do Porco, que também dá nome a uma marca de vinhos, mas já lá vamos.
O Pico Vineyards foi desenvolvido pela FCC Arquitectura, do norte de Portugal, fundada por Fernando Coelho e Ana Loureiro. Este gabinete é também responsável pela arquitectura do Cella Bar, no Pico, onde, quem o visita, encontrará certamente alguns traços comuns.
A montanha do Pico assume aqui um grande protagonismo, domina a paisagem e magnetiza o olhar. Nem sempre é possível vê-la por inteiro, pois muitas vezes esconde o cume nas nuvens ou desaparece quase por completo atrás do véu da neblina. Por isso, convém reservar vários dias para aumentar as hipóteses de a encontrar.
Com o Pico no horizonte, o hotel inscreve-se na paisagem de forma discreta. Inspirado na viticultura típica da ilha, o conjunto de unidades de alojamento (umas com terraços, outras com piscina privada) é composto por casas independentes, construídas em pedra e rodeadas por currais com vinha. No interior, combinam-se o basalto com a criptoméria, uma espécie abundante nas florestas do arquipélago açoriano, bem adaptada ao clima ameno e húmido. As paredes libertam um leve aroma amadeirado, discreto e relaxante. Existe ainda uma piscina interior aquecida e uma zona de spa.
Quanto ao vinho, o hotel dispõe de duas salas subterrâneas destinadas a provas ou jantares vínicos. A “Pedra & Vinho”, de formas arredondadas, tem as paredes revestidas em criptoméria e uma impressionante mesa monolítica de basalto. A pedra foi encontrada durante a construção. “Pesava 3,5 toneladas”, conta Pedro Saraiva, um dos empresários à frente da unidade hoteleira, lembrando o esforço necessário para a encaixar no interior da sala. Mesmo assim, depois de trabalhada, manteve 2.700 kg e ficou definitivamente fixada no espaço. Esta decoração cria um ambiente ecológico, sofisticado e acolhedor.
Desta sala parte uma porta que conduz à “Alma da Gruta”, esculpida na rocha que serve simultaneamente de estrutura e decoração. Um espaço misterioso, dedicado às provas mais intimistas, com uma garrafeira secreta, guardada em bolsas lávicas naturais, sem qualquer entrada de luz e com temperatura e humidade constantes.
O acesso às salas de prova faz-se por um túnel revestido a madeira que faz lembrar uma grande barrica e funciona como galeria, preparada para acolher exposições de diferentes artistas. Na altura em que estive lá presente, nesta passagem esteve instalada uma colecção fotográfica de Ricardo Lopes, autor do livro Arquipélago, uma obra que retrata os Açores através de um olhar atento e artístico.
Gastronomia à moda do Pico
Barriga de atum lascada, tártaro de atum, atum marinado… tudo isto foi preparado pelo chef Vítor Sobral a partir de um único peixe. É, de facto, um produto muito versátil e a principal matéria-prima da indústria conserveira, como ficou claro na visita à fábrica Conseran, na ilha do Pico, uma das mais recentes e tecnologicamente mais avançadas unidades de produção de conservas de peixe em Portugal. Actualmente, processa entre 7 a 8 toneladas de atum por dia. Existe capacidade para mais, mas falta mão-de-obra. A maior parte da produção é exportada, cerca de 60-80%, mas infelizmente, nos países de destino o consumidor final nem se apercebe que é um produto de Portugal.
A maior parte da produção é exportada, entre 60% e 80%, mas, nos países de destino, com marcas próprias, o consumidor final raramente se apercebe de que se trata de um produto português, a menos que observe com atenção a lata e repare nas discretas letras “PT”.
Uma das marcas de conservas chama-se Chamarrita, em homenagem à maior roda de Chamarritas do mundo, organizada pelo Município da Madalena, que entrou por duas vezes no Livro de Recordes do Guinness, em 2015 e 2023, como Largest Portuguese Folk Dance.
Há muitos outros tipos de peixe na ilha, como boca-negra, congro, garoupa, goraz, lírio e raia, não sendo esta lista exaustiva. Não é por acaso que um dos pratos típicos é o caldo de peixe à moda do Pico. “É o fruto da nossa pobreza”, recorda o comendador Manuel Serpa, explicando: “não tínhamos outras soluções; lembro-me de que, na minha meninice, carne de vaca, nesta ilha, havia três vezes por ano: no Natal, no dia do padroeiro e no dia do Espírito Santo.” O prato tradicional desta época são as sopas do Espírito Santo, que têm como base um caldo rico de carne de vaca, temperado com hortelã e especiarias, vertido sobre pão caseiro em terrinas. Servem-se acompanhadas de carnes cozidas, enchidos e legumes, num prato de partilha típico das festas do Divino Espírito Santo. O pão de massa sovada é também um elemento típico destas festas. Diz-se que era difícil de amassar, razão pela qual os homens ajudavam as mulheres na sua preparação.
Andando pelas ruas da Madalena, nas tascas típicas, podem encontrar-se as favas da festa – cozidas até rebentar e apuradas num refogado com cebola, alho, salsa, louro e polpa de tomate. Ficam macias e cheias de sabor.
Todos conhecemos o Queijo de São Jorge, mas na ilha do Pico também se produz queijo com denominação DOP, a partir de leite cru de vaca. Tem um sabor suave, ainda que característico, com uma pasta cremosa no interior e uma casca firme e comestível.
Vinho do Pico, o novo capítulo
E, voltando ao vinho, agora no seu capítulo mais recente, importa referir dois produtores com um denominador comum: a consultoria e acompanhamento do enólogo Paulo Laureano.
Marco Faria representa hoje o projeto Curral Atlantis, do qual o seu pai, o Sr. Manuel, foi um dos grandes impulsionadores, juntamente com Jorge Böhm, da Plansel. Em 1995, plantou-se um campo experimental com 24 castas. A partir de 1997, o enólogo Paulo Laureano passou a envolver-se nesta “aventura” e começou a deslocar-se ao Pico com regularidade.
O enólogo refere que o míldio é o principal problema da vinha no Pico, a par com doenças do lenho. “Não foi fácil”, recorda: “houve anos em que não tivemos um único bago de uva, mas ele [Manuel Faria] acreditou sempre… O ano passado foi bom e permitiu recuperar as vinhas.” E este inverno, com temperaturas baixas (menos de 10 ºC), também contribuiu nesse sentido.
De entre os vinhos provados, sobretudo Verdelho e lotes de Verdelho/Arinto de vários anos, destaco o “Vinha do Avô” 2020, com origem numa vinha centenária de Verdelho e Arinto dos Açores, a que se juntou Boal plantado mais tarde. Mostra grande complexidade, carácter e equilíbrio, com notas de mel e maresia, laranja e cardamomo, lima e ananás; é envolvente, longo e saboroso, sem nada comprometer, deixando ainda muito por revelar e evoluir.
Outro projecto tem a ver com o empresário Pedro Saraiva, restaurador, hoteleiro e produtor de vinho, com a marca Cancela do Porco, antigamente vendida exclusivamente no seu restaurante. O Verdelho de 2014, de tonalidade quase acobreada, surpreende pelo aroma inesperadamente fresco, composto e complexo, com notas de geleia de tangerina, alperce, maçã assada e ananás salgado, além de um toque de estragão, iodo, notas florais e apetroladas. Envolvente e com acidez salivante, evidencia que o tempo lhe conferiu cremosidade sem lhe retirar a sua vitalidade vibrante.
E assim, finalizamos com um brinde à ilha do Pico com o seu temperamento difícil e à força do espírito picaroto que a domou e dela fez o seu lar, produzindo alguns dos vinhos com mais identidade e carácter.
(Artigo publicado na edição de Julho de 2026)
KIMBREL WINES: Investimento americano no Douro

Com percurso consolidado nas áreas da estratégia empresarial e consultoria, e passagens pela The Boeing Company ou Coyvance LLC, e no setor vitivinícola, onde esteve envolvido na conceção, desenvolvimento e operação da adega Dakota Shy, em St. Helena, Napa Valley, nos Estados Unidos, o norte-americano David Sylvester apaixonou-se pelo Douro. Também é coproprietário de uma […]
Com percurso consolidado nas áreas da estratégia empresarial e consultoria, e passagens pela The Boeing Company ou Coyvance LLC, e no setor vitivinícola, onde esteve envolvido na conceção, desenvolvimento e operação da adega Dakota Shy, em St. Helena, Napa Valley, nos Estados Unidos, o norte-americano David Sylvester apaixonou-se pelo Douro. Também é coproprietário de uma garrafeira especializada em Washington, D.C. Junta-se a ele Isaac Campelo, rosto da quarta geração de uma família com tradição vitivinícola, com propriedades na região dos Vinhos Verdes e que, após ter feito vindimas lá fora, regressa, para cofundar a Kimbrel Wines.
“A Kimbrel foi desenhada para posicionar o Douro no mapa mundial do vinho de forma sofisticada e consistente. O nosso foco não é o volume, mas sim vinhos produzidos em parcelas únicas”, afirma David Sylvester. O investimento inicial foi de 800 mil euros, com a aquisição da Quinta do Roncão, de 30 hectares. Localizada no Vale de Roncão, data de 1851 e tem 12 hectares de vinha. Desde a aquisição, em 2022, foi feito um trabalho aprofundado, como a reconstrução de muros de xisto, a requalificação de acessos e a replantação de vinhas. O foco está no micro lote e na criação de vinhos tintos e vinhos do Porto. Porém, não está de parte a aquisição de uvas em cotas altas, para elaborar vinho branco. A produção anual não ultrapassa as 20 000 garrafas, estando o Vinho do Porto em vantagem, com 13 000. O objetivo é reforçar o posicionamento premium da marca. A aposta na viticultura de precisão, mínima intervenção e valorização das parcelas antigas são as premissas da equipa de enologia, constituída também por Hugo Silva (consultor) e Javiera Antúnez (assistente), para além do consultor de viticultura, José Carlos Oliveira.
O plano total de investimento prevê atingir os 10 milhões de euros até ao final da presente década. Com o mercado internacional, sobretudo os Estados Unidos, como prioridade, serão desenvolvidos o enoturismo e a recuperação de armazéns históricos, bem como a criação da adega, de uma guest house e de um espaço exterior para eventos, jantares e provas vínicas.
(Artigo publicado na edição de Junho de 2026)

















































































