MADALENA: Capital do vinho dos Açores

Madalena

Há três constantes – ou condicionantes – na ilha do Pico: a montanha, ao centro, o mar, à sua volta, e os quilómetros de pedra que os separam. O chão, formado por extensos campos de lava solidificada, impróprio para o cultivo de cereais, ao contrário do que acontecia nas restantes ilhas do arquipélago, punha em […]

Há três constantes – ou condicionantes – na ilha do Pico: a montanha, ao centro, o mar, à sua volta, e os quilómetros de pedra que os separam. O chão, formado por extensos campos de lava solidificada, impróprio para o cultivo de cereais, ao contrário do que acontecia nas restantes ilhas do arquipélago, punha em causa a sobrevivência da população. Mas a necessidade aguça o engenho e o picaroto encontrou uma forma de plantar as videiras nas fendas da rocha, preenchidas com terra trazida do Faial. A vinha vingou, tal como as figueiras, até ao ponto de o vinho e a aguardente de figo terem sido utilizados como moeda de troca.

A escassez de recursos era compensada pela riqueza de espécies marinhas e pela forte vertente piscatória desenvolvida entre a população. A caça à baleia é outra forte realidade histórica que terminou em meados da década de 1980, no contexto da entrada de Portugal na União Europeia.

A ilha tem uma beleza austera e dramática, onde as cores vivas das casas e das antigas adegas contrastam com o basalto e trazem vida e uma certa alegria ao olhar. A realidade do povo, entre o mar, o vulcão e o fogo, nunca foi fácil, o que acabou por forjar o carácter do picaroto.

 

O picaroto encontrou uma forma de plantar as videiras nas fendas da rocha, preenchidas com terra trazida do Faial.

Os currais são construídos em pedra seca, sem uma única gota de argamassa ou cimento. As pedras encaixam-se simplesmente umas nas outras.

 

O concelho com o nome de uma santa

A origem do nome remonta aos primeiros tempos do povoamento da ilha. Os pioneiros que chegaram ao Pico no final do século XV ergueram uma ermida dedicada a Santa Maria Madalena. Em torno dessa ermida formou-se o núcleo habitacional, que passou a ser conhecido como Madalena. Mais tarde, o primitivo espaço de culto foi substituído pela actual Igreja Matriz de Santa Maria Madalena. Quando foi criado o concelho, este adoptou o nome da freguesia principal.

É no concelho da Madalena que se impõe a Montanha do Pico, que culmina a 2.351 metros de altitude, o ponto mais alto de Portugal. Embora seja visível de grande parte da ilha (e até das ilhas vizinhas), é mais fotogénica quando vista da costa ocidental, junto à vila da Madalena, onde a sua silhueta desenha um cone quase perfeito. É também neste município que se produz três vezes mais vinho do que no resto da ilha.

História cravada no basalto

No concelho da Madalena há dois lugares incontornáveis para conhecer a história do vinho do Pico: a Criação Velha e o Museu do Vinho.

Na Criação Velha encontra-se a maior concentração de vinha da ilha, numa paisagem única, classificada como Património Mundial da UNESCO em 2004. Vista do alto, faz lembrar uma manta de retalhos, desenhada pelos labirintos dos currais – pequenos muros rectangulares de basalto, com áreas que variam entre os três e os nove metros quadrados. São construídos em pedra seca, sem uma única gota de argamassa ou cimento. As pedras encaixam-se simplesmente umas nas outras.

Em cada curral desenvolvem-se entre quatro e seis videiras, conduzidas rente ao chão e protegidas dos ventos dominantes e da maresia. Mas nada consegue eliminar a influência marítima por completo. A pedra negra basáltica tem ainda outra vantagem: absorve o calor do sol durante o dia e liberta-o lentamente durante a noite, promovendo elevada concentração de açúcar e originando vinhos generosos de grande qualidade.

Entre o século XVIII e o início do século XIX, os vinhos do Pico alcançaram renome internacional, num período áureo de exportação. As grandes famílias do Faial eram, na prática, as proprietárias da produção vitivinícola, para quem trabalhavam os picarotos. Era pelo porto da Horta que o vinho partia para o mundo.

Madalena

A montanha do Pico domina a paisagem e magnetiza o olhar

 

Ao passear ao longo da costa, pode-se encontrar rampas talhadas na pedra, chamadas “rola-pipas”, que serviam para facilitar o transporte das pipas até ao mar. Outros vestígios desse passado são as “rilheiras”, gravadas nas lajes de lava pelo vai-e-vem dos carros de bois, o único meio de transporte de então para os produtos agrícolas.

Junto à zona costeira, as pequenas adegas serviam para que o viticultor pudesse aí permanecer quando se aproximava a altura das vindimas, período em que o trabalho na vinha se intensificava. Eram casas de apoio ao trabalho agrícola, com um quarto onde se podia pernoitar e onde as crianças chegavam a passar férias de verão.

Hoje, a vinha ocupa no Pico cerca de 1.100 hectares, aproximadamente cinco vezes menos do que antes da filoxera. Com apenas 14 mil habitantes, a mão de obra é escassa e a mecanização é impossível (pelo menos nas vinhas tradicionais). A produção é baixa e o trabalho continua a ser difícil e exigente, marcado por um clima ameno e húmido e por uma forte pressão de doenças, sustentado pela persistência dos produtores locais.

 

Fé, Espírito Santo e as lições de partilha

Conta o comendador Manuel Serpa, ex-padre, professor e político, grande conhecedor da história e contador de histórias, que foram os povoadores que trouxeram a devoção ao Espírito Santo na segunda metade do século XV. Uma prática que, nessa época, ressurgia na Europa, associada a uma maior proximidade aos pobres. Com o tempo, em muitos lugares esta devoção esmoreceu, enquanto nos Açores cresceu de forma extraordinária. Ainda hoje se mantém viva nas comunidades com descendentes açorianos espalhadas pelas Américas, de norte a sul.

Mas por que razão é que esta devoção cresceu e se manteve nos Açores? A resposta pode estar nos terramotos, nas tempestades e nos ciclones que, ao longo do tempo, foram sacudindo as ilhas. Nessa realidade marcada pela incerteza, o povo encontrou na fé uma forma de resistência e de força.

Em 1718, uma grande erupção vulcânica assolou a zona oeste da ilha. Perante a ameaça da lava, foi feita uma promessa: se as populações, casas e animais fossem poupados, seriam oferecidas rosquilhas a todos os que por ali passassem. Diz-se que a lava acabou por parar e que daí resultou o Mistério de São João, uma das quatro grandes escoadas de lava da ilha, assim chamadas porque as erupções vulcânicas eram, para as populações, fenómenos misteriosos e difíceis de compreender. A promessa passou a cumprir-se desde então e mantém-se até aos dias de hoje.

As rosquilhas são, assim, um dos símbolos gastronómicos das Festas do Divino Espírito Santo no Pico. Apesar do nome, não se assemelham às rosquilhas tradicionais do continente, sendo antes um pão doce em forma de argola, distribuído gratuitamente durante os arraiais, como expressão de partilha e hospitalidade.

Portanto, o grande dia de festividades nos Açores, para além do 10 de Junho, é o Dia da Região Autónoma dos Açores, que se celebra na segunda-feira do Espírito Santo, sete semanas depois da Páscoa. A festa dura quatro dias, de sexta a terça-feira, e é a única em que há uma forte participação dos jovens, juntamente com várias gerações das famílias, conta o nosso historiador.

 

Pico Vineyards – montanha, vinhas e conforto

No verão passado, abriu portas o Boutique Hotel Vinícola de quatro estrelas, integrado na Unlock Boutique Hotels, um grupo de gestão hoteleira em Portugal. Situado na freguesia de Bandeiras, o projecto nasceu no local onde funcionava o conhecido turismo rural Cancela do Porco, que também dá nome a uma marca de vinhos, mas já lá vamos.

O Pico Vineyards foi desenvolvido pela FCC Arquitectura, do norte de Portugal, fundada por Fernando Coelho e Ana Loureiro. Este gabinete é também responsável pela arquitectura do Cella Bar, no Pico, onde, quem o visita, encontrará certamente alguns traços comuns.

A montanha do Pico assume aqui um grande protagonismo, domina a paisagem e magnetiza o olhar. Nem sempre é possível vê-la por inteiro, pois muitas vezes esconde o cume nas nuvens ou desaparece quase por completo atrás do véu da neblina. Por isso, convém reservar vários dias para aumentar as hipóteses de a encontrar.

Com o Pico no horizonte, o hotel inscreve-se na paisagem de forma discreta. Inspirado na viticultura típica da ilha, o conjunto de unidades de alojamento (umas com terraços, outras com piscina privada) é composto por casas independentes, construídas em pedra e rodeadas por currais com vinha. No interior, combinam-se o basalto com a criptoméria, uma espécie abundante nas florestas do arquipélago açoriano, bem adaptada ao clima ameno e húmido. As paredes libertam um leve aroma amadeirado, discreto e relaxante. Existe ainda uma piscina interior aquecida e uma zona de spa.

Quanto ao vinho, o hotel dispõe de duas salas subterrâneas destinadas a provas ou jantares vínicos. A “Pedra & Vinho”, de formas arredondadas, tem as paredes revestidas em criptoméria e uma impressionante mesa monolítica de basalto. A pedra foi encontrada durante a construção. “Pesava 3,5 toneladas”, conta Pedro Saraiva, um dos empresários à frente da unidade hoteleira, lembrando o esforço necessário para a encaixar no interior da sala. Mesmo assim, depois de trabalhada, manteve 2.700 kg e ficou definitivamente fixada no espaço. Esta decoração cria um ambiente ecológico, sofisticado e acolhedor.

Desta sala parte uma porta que conduz à “Alma da Gruta”, esculpida na rocha que serve simultaneamente de estrutura e decoração. Um espaço misterioso, dedicado às provas mais intimistas, com uma garrafeira secreta, guardada em bolsas lávicas naturais, sem qualquer entrada de luz e com temperatura e humidade constantes.

O acesso às salas de prova faz-se por um túnel revestido a madeira que faz lembrar uma grande barrica e funciona como galeria, preparada para acolher exposições de diferentes artistas. Na altura em que estive lá presente, nesta passagem esteve instalada uma colecção fotográfica de Ricardo Lopes, autor do livro Arquipélago, uma obra que retrata os Açores através de um olhar atento e artístico.

Gastronomia à moda do Pico

Barriga de atum lascada, tártaro de atum, atum marinado… tudo isto foi preparado pelo chef Vítor Sobral a partir de um único peixe. É, de facto, um produto muito versátil e a principal matéria-prima da indústria conserveira, como ficou claro na visita à fábrica Conseran, na ilha do Pico, uma das mais recentes e tecnologicamente mais avançadas unidades de produção de conservas de peixe em Portugal. Actualmente, processa entre 7 a 8 toneladas de atum por dia. Existe capacidade para mais, mas falta mão-de-obra. A maior parte da produção é exportada, cerca de 60-80%, mas infelizmente, nos países de destino o consumidor final nem se apercebe que é um produto de Portugal.

A maior parte da produção é exportada, entre 60% e 80%, mas, nos países de destino, com marcas próprias, o consumidor final raramente se apercebe de que se trata de um produto português, a menos que observe com atenção a lata e repare nas discretas letras “PT”.

Uma das marcas de conservas chama-se Chamarrita, em homenagem à maior roda de Chamarritas do mundo, organizada pelo Município da Madalena, que entrou por duas vezes no Livro de Recordes do Guinness, em 2015 e 2023, como Largest Portuguese Folk Dance.

Há muitos outros tipos de peixe na ilha, como boca-negra, congro, garoupa, goraz, lírio e raia, não sendo esta lista exaustiva. Não é por acaso que um dos pratos típicos é o caldo de peixe à moda do Pico. “É o fruto da nossa pobreza”, recorda o comendador Manuel Serpa, explicando: “não tínhamos outras soluções; lembro-me de que, na minha meninice, carne de vaca, nesta ilha, havia três vezes por ano: no Natal, no dia do padroeiro e no dia do Espírito Santo.” O prato tradicional desta época são as sopas do Espírito Santo, que têm como base um caldo rico de carne de vaca, temperado com hortelã e especiarias, vertido sobre pão caseiro em terrinas. Servem-se acompanhadas de carnes cozidas, enchidos e legumes, num prato de partilha típico das festas do Divino Espírito Santo. O pão de massa sovada é também um elemento típico destas festas. Diz-se que era difícil de amassar, razão pela qual os homens ajudavam as mulheres na sua preparação.

Andando pelas ruas da Madalena, nas tascas típicas, podem encontrar-se as favas da festa – cozidas até rebentar e apuradas num refogado com cebola, alho, salsa, louro e polpa de tomate. Ficam macias e cheias de sabor.

Todos conhecemos o Queijo de São Jorge, mas na ilha do Pico também se produz queijo com denominação DOP, a partir de leite cru de vaca. Tem um sabor suave, ainda que característico, com uma pasta cremosa no interior e uma casca firme e comestível.

Vinho do Pico, o novo capítulo

E, voltando ao vinho, agora no seu capítulo mais recente, importa referir dois produtores com um denominador comum: a consultoria e acompanhamento do enólogo Paulo Laureano.

Marco Faria representa hoje o projeto Curral Atlantis, do qual o seu pai, o Sr. Manuel, foi um dos grandes impulsionadores, juntamente com Jorge Böhm, da Plansel. Em 1995, plantou-se um campo experimental com 24 castas. A partir de 1997, o enólogo Paulo Laureano passou a envolver-se nesta “aventura” e começou a deslocar-se ao Pico com regularidade.

O enólogo refere que o míldio é o principal problema da vinha no Pico, a par com doenças do lenho. “Não foi fácil”, recorda: “houve anos em que não tivemos um único bago de uva, mas ele [Manuel Faria] acreditou sempre… O ano passado foi bom e permitiu recuperar as vinhas.” E este inverno, com temperaturas baixas (menos de 10 ºC), também contribuiu nesse sentido.

De entre os vinhos provados, sobretudo Verdelho e lotes de Verdelho/Arinto de vários anos, destaco o “Vinha do Avô” 2020, com origem numa vinha centenária de Verdelho e Arinto dos Açores, a que se juntou Boal plantado mais tarde. Mostra grande complexidade, carácter e equilíbrio, com notas de mel e maresia, laranja e cardamomo, lima e ananás; é envolvente, longo e saboroso, sem nada comprometer, deixando ainda muito por revelar e evoluir.

Outro projecto tem a ver com o empresário Pedro Saraiva, restaurador, hoteleiro e produtor de vinho, com a marca Cancela do Porco, antigamente vendida exclusivamente no seu restaurante. O Verdelho de 2014, de tonalidade quase acobreada, surpreende pelo aroma inesperadamente fresco, composto e complexo, com notas de geleia de tangerina, alperce, maçã assada e ananás salgado, além de um toque de estragão, iodo, notas florais e apetroladas. Envolvente e com acidez salivante, evidencia que o tempo lhe conferiu cremosidade sem lhe retirar a sua vitalidade vibrante.

E assim, finalizamos com um brinde à ilha do Pico com o seu temperamento difícil e à força do espírito picaroto que a domou e dela fez o seu lar, produzindo alguns dos vinhos com mais identidade e carácter.

(Artigo publicado na edição de Julho de 2026)

KIMBREL WINES: Investimento americano no Douro

KIMBREL WINES

Com percurso consolidado nas áreas da estratégia empresarial e consultoria, e passagens pela The Boeing Company ou Coyvance LLC, e no setor vitivinícola, onde esteve envolvido na conceção, desenvolvimento e operação da adega Dakota Shy, em St. Helena, Napa Valley, nos Estados Unidos, o norte-americano David Sylvester apaixonou-se pelo Douro. Também é coproprietário de uma […]

Com percurso consolidado nas áreas da estratégia empresarial e consultoria, e passagens pela The Boeing Company ou Coyvance LLC, e no setor vitivinícola, onde esteve envolvido na conceção, desenvolvimento e operação da adega Dakota Shy, em St. Helena, Napa Valley, nos Estados Unidos, o norte-americano David Sylvester apaixonou-se pelo Douro. Também é coproprietário de uma garrafeira especializada em Washington, D.C. Junta-se a ele Isaac Campelo, rosto da quarta geração de uma família com tradição vitivinícola, com propriedades na região dos Vinhos Verdes e que, após ter feito vindimas lá fora, regressa, para cofundar a Kimbrel Wines.

“A Kimbrel foi desenhada para posicionar o Douro no mapa mundial do vinho de forma sofisticada e consistente. O nosso foco não é o volume, mas sim vinhos produzidos em parcelas únicas”, afirma David Sylvester. O investimento inicial foi de 800 mil euros, com a aquisição da Quinta do Roncão, de 30 hectares. Localizada no Vale de Roncão, data de 1851 e tem 12 hectares de vinha. Desde a aquisição, em 2022, foi feito um trabalho aprofundado, como a reconstrução de muros de xisto, a requalificação de acessos e a replantação de vinhas. O foco está no micro lote e na criação de vinhos tintos e vinhos do Porto. Porém, não está de parte a aquisição de uvas em cotas altas, para elaborar vinho branco. A produção anual não ultrapassa as 20 000 garrafas, estando o Vinho do Porto em vantagem, com 13 000. O objetivo é reforçar o posicionamento premium da marca. A aposta na viticultura de precisão, mínima intervenção e valorização das parcelas antigas são as premissas da equipa de enologia, constituída também por Hugo Silva (consultor) e Javiera Antúnez (assistente), para além do consultor de viticultura, José Carlos Oliveira.

O plano total de investimento prevê atingir os 10 milhões de euros até ao final da presente década. Com o mercado internacional, sobretudo os Estados Unidos, como prioridade, serão desenvolvidos o enoturismo e a recuperação de armazéns históricos, bem como a criação da adega, de uma guest house e de um espaço exterior para eventos, jantares e provas vínicas.

(Artigo publicado na edição de Junho de 2026)

QUINTA DA ROMEYRA: Um novo capítulo para Bucelas

Quinta da Romeyra

Se há região portuguesa subvalorizada na atualidade é Bucelas. O que é incompreensível perante a qualidade dos vinhos brancos e a vetusta história por detrás da denominação. Incompreensível, mas não sem explicação, sendo que anos de aposta num produto mais barato e comercial apenas serviram para banalizar um vinho – o Arinto de Bucelas e, […]

Se há região portuguesa subvalorizada na atualidade é Bucelas. O que é incompreensível perante a qualidade dos vinhos brancos e a vetusta história por detrás da denominação. Incompreensível, mas não sem explicação, sendo que anos de aposta num produto mais barato e comercial apenas serviram para banalizar um vinho – o Arinto de Bucelas e, concretamente, o Branco Velho de Bucelas –, que tinha tudo para manter-se como um néctar clássico de nicho. Mais recentemente, mas nos últimos anos apenas, assistimos a um reerguer da região, inclusivamente com novos produtores a disputar os poucos solos da ondulante e florestal região vinhateira. A Quinta da Romeyra não é um desses novos produtores. Por isso, e pela sua história e dimensão, tem ainda mais responsabilidade na região. Com origens documentadas desde 1218, o nome foi testemunha de episódios marcantes – da passagem do Duque de Wellington, durante as Invasões Francesas, à instituição do Morgado de Santa Catherina, em 1703.

Num contexto em que a Sogrape tem vindo a afirmar projetos em diversas regiões vitivinícolas, Bucelas surge, agora, como território de renovada ambição. Conhecida pelos seus brancos frescos, tensos e marcados por solos calcários únicos, a região começa a querer viver um momento de redescoberta. Esperemos, e tudo indica ser esse o futuro, que a Quinta da Romeyra se assuma como peça central dessa estratégia.

 

Conhecida pelos seus brancos frescos, tensos e marcados por solos calcários, Bucelas surge, agora, como território de renovada ambição

 

 

Nova grafia, novos vinhos

A nova grafia que recupera o original – com a utilização letra ‘y’, simultaneamente clássica e sofisticada – e as novidades do portefólio recentemente apresentadas, expressam, com clareza, essa visão: valorizar a Arinto e devolver a Bucelas o protagonismo que historicamente lhe pertence enquanto única denominação de origem portuguesa exclusivamente dedicada a vinhos brancos. Os vinhos apresentados espelham efetivamente um equilíbrio entre tradição e inovação, procurando interpretar Bucelas a partir da diversidade da própria propriedade: diferentes solos, diversas exposições, distintas expressões da mesma casta. No centro de tudo, a casta Arinto.

Entre as novidades do portefólio da Sogrape no que toca ao vinho produzido em Bucelas, destaca-se o Quinta da Romeyra Colheita 2025, com parte fermentada em barrica de 500 litros, e que se quer posicionar como expressão fiel e versátil da propriedade, o verdadeiro porta-estandarte do projeto.

Num registo mais ambicioso, surge também como boa nova um verdadeiro topo de gama, o Vinha dos Fósseis 2021, elaborado apenas em anos verdadeiramente notáveis. Como o nome indica, é proveniente de solos jurássicos ricos em fósseis marinhos, apresentando uma mineralidade intensa e grande complexidade. Lançado com cinco anos de evolução, assume-se como um gesto ousado que invoca os brancos velhos de antigamente e ombreiam com grandes brancos nacionais e não só.

Ainda sobre a gama dos vinhos, mantêm-se as referências emblemáticas, agora com nova imagem, caso do Prova Régia e do Espumante Bruto Quinta da Romeyra e, ainda, do neoclássico Morgado de Santa Catherina, marca que acompanhou mais do que uma geração de enófilos portugueses no que a brancos com estágio de madeira diz respeito.

A enologia está a cargo de Luís Cabral de Almeida, que destaca os investimentos feitos na adega e a renovação de grande parte da vinha. Para o experiente enólogo, a maior riqueza da propriedade é permitir-lhe explorar a casta Arinto em diversas derivações, sempre com detalhe.

Terminamos como começámos: num setor onde tradição e inovação se cruzam constantemente, renovamos os votos para que este novo capítulo da Quinta da Romeyra represente mais do que um relançamento e a apresentação de novos vinhos. Esperamos que seja um marcador do regresso ao futuro radioso de Bucelas.

 

A nova grafia da Quinta da Romeyra e as novidades do portefólio expressam a vontade de valorizar a Arinto e devolver a Bucelas o protagonismo que historicamente lhe pertence

Quinta da Romeyra

(Artigo publicado na edição de Junho de 2026)

 

MOUCHÃO: Tonel Nº 3-4, a expressão suprema de uma casta e de um lugar

mouchão

À entrada da Herdade do Mouchão, localizada em Casa Branca, no concelho de Sousel, tudo transmite uma sensação rara de permanência. Não há ostentação; parece um lugar que nunca teve pressa em modernizar-se para impressionar quem chega. Os edifícios agrícolas alinham-se com uma simplicidade austera: paredes grossas caiadas a branco, janelas pequenas, para proteger do […]

À entrada da Herdade do Mouchão, localizada em Casa Branca, no concelho de Sousel, tudo transmite uma sensação rara de permanência. Não há ostentação; parece um lugar que nunca teve pressa em modernizar-se para impressionar quem chega. Os edifícios agrícolas alinham-se com uma simplicidade austera: paredes grossas caiadas a branco, janelas pequenas, para proteger do calor o interior do edifício, telhados de telha escurecidos pelo tempo. A arquitectura é rural e profundamente alentejana, feita para resistir aos verões quentes e a uma história secular.

Foi aqui que um ramo da família inglesa Reynolds consolidou o projecto agrícola iniciado no Alentejo, ainda no século XIX, primeiro ligado à cortiça e depois ao vinho. Em 1901 foi construída a ala nascente da adega, ano gravado em cima da entrada –significa que este ano a Herdade do Mouchão celebra 125 anos. No entanto, a propriedade soma mais de 150 anos de viticultura. “Por isto, na altura, foi chamada ‘a adega nova’”, explica Iain Reynolds Richardson, que representa a sexta geração da família.

O tempo deixou marcas na herdade. Depois da Revolução de Abril de 1974, o Mouchão foi expropriado e devolvido à família apenas em meados da década de 1980, já bastante degradado. A adega foi recuperada e a vinha teve de ser replantada a partir do material genético original da propriedade.

A franja capilar garante que as raízes mais profundas conseguem alcançar reservas hídricas

 

O berço da Alicante Bouschet

Na Herdade do Mouchão, com 900 hectares, que incluem olival e montado, a vinha ocupa, hoje, 47 hectares. A maior parcela, com seis hectares, conhecida como Vinha dos Carapetos, está plantada com Alicante Bouschet e Trincadeira. É precisamente aqui que se encontram as raízes da casta protagonista do icónico Mouchão Tonel Nº 3-4, tanto na vinha como na história do Alentejo, num território que lhe oferece o terroir ideal.

A paisagem da propriedade assenta numa vasta planície de sedimentos do Cenozoico, que preencheu uma antiga bacia e originou uma superfície relativamente plana. Durante o Quaternário, esta planície foi sendo progressivamente entalhada pela acção do rio, que esculpiu os vales que actualmente marcam o território.

Adrian Mellin, geólogo com uma longa carreira na Shell, tem um fascínio particular pelo terroir do Mouchão e ajuda a compreender as suas particularidades. Na herdade distinguem-se dois vales principais: o Almadafe Molhado e o Almadafe Seco. Os respectivos nomes reflectem o seu comportamento hidrológico: o primeiro apresenta uma área de drenagem mais activa, concentrando e conduzindo a água ao longo do eixo do vale, enquanto o segundo tem um regime muito mais limitado, com escoamento reduzido e caudais pouco persistentes. Em ambos os casos, as águas provenientes das encostas alimentam o fundo dos vales, onde, durante milhares de anos, em zonas de estrangulamento do curso do rio, se acumulam aluviões, formando várzeas.

O próprio nome “mouchão” está ligado ao terroir e designa pequenos bancos de terra, lodo ou areia que se formam no leito dos rios ou estuários, resultantes da acumulação de aluviões. Segundo Iain, nos mapas de 1894, o rio que moldou o vale apresentava um traçado em ziguezague, dando origem a vários mouchões ao longo desta paisagem.

Passando muito tempo, na herdade, e medindo a água nos poços a 40 e a 80 centímetros de profundidade, Adrian observou uma relação interessante entre a precipitação e o comportamento do lençol freático. Em períodos de chuva significativa, a recarga do solo é intensa, alimentando a zona freática que soube entre duas a três vezes o nível de água que recebe. Cria-se uma zona de saturação capilar mais ampla, que se torna particularmente importante nos períodos secos prolongados e de maior calor, cada vez mais frequentes. Para suportar as temperaturas elevadas, a planta precisa de transpirar e, para isso, necessita de água disponível. A franja capilar garante que as raízes mais profundas conseguem alcançar reservas hídricas, mantendo a planta funcional.

Cria-se um pouco de tensão, um stress controlado, suficiente para equilibrar o desenvolvimento da videira sem comprometer os estados fenológicos. Atinge-se uma maturação completa, mas equilibrada, com menor degradação de ácidos, mantendo a tão preciosa frescura, que encontramos no Tonel Nº 3-4.

Os dados registados ao longo de três anos pela estação meteorológica instalada no vale mostram que as temperaturas máximas são muito semelhantes às de Évora. Já as temperaturas mínimas aproximam-se mais das de Portalegre, cerca de 200 metros acima, uma diferença explicada pela localização da herdade no fundo do vale, onde o ar frio tende a acumular-se durante a noite. O regime de precipitação também segue um padrão mais próximo do de Portalegre do que do de Estremoz ou Évora.

Na vinha, explica Iain, é feita uma monda em verde, removendo parte dos pâmpanos, com o objetivo de abrir a copa, melhorar a ventilação e reduzir a necessidade de tratamentos. O trabalho fitossanitário baseia-se quase exclusivamente em cobre e enxofre, embora, em situações excepcionais, possam ser utilizados outros tratamentos de recurso. Em meados de Julho, realiza-se igualmente a monda de cachos, para ajustar o potencial produtivo da vinha.

Nos últimos 12 anos, a produção média tem sido de cerca de quatro toneladas por hectare, descendo, em alguns anos, para valores próximos das duas toneladas. Em 2015, a produção atingiu 4,5 toneladas por hectare.

Mouchão vs. Tonel 3-4

Após o período de ocupação, quando a herdade regressou às mãos da família, já não havia vinho; tinha sido todo vendido. Para restaurar os grandes tonéis, os tanoeiros chegaram a viver na propriedade durante dois anos. Segundo Iain, os tonéis 3 e 4 são construídos a partir de diferentes madeiras (castanho, carvalho, macacaúba e mogno), com aduelas a rondar os 60 anos e topos a aproximarem-se dos 100 anos.

O primeiro vinho Tonel Nº 3-4 surgiu na colheita de 1996. Desde então, foram lançadas apenas sete edições, correspondendo à oitava a de 2015, a ser lançada agora.

Iain esclarece que esta referência só é produzida em anos em que “o Alicante Bouschet é fantástico” e está disponível em “quantidade suficiente, para assegurar também o Mouchão”. Se a primeira razão é óbvia, a segunda tem a ver com a filosofia da casa. Há anos em que, do ponto de vista qualitativo, seria possível produzir o Tonel Nº 3-4, mas tal não acontece, devido à reduzida quantidade de uva que não permite assegurar simultaneamente os dois vinhos.

“Nós somos conhecidos pelo Mouchão. Esse é o nosso fio de estabilidade ao longo dos últimos 70 anos e não queremos que este vinho sofra a custo do outro vinho […], o Mouchão, para nós, é o principal. Depois temos um enorme prazer, em anos como este, de lançar uma coisa absolutamente fantástica, completamente fora dos moldes do Mouchão.”

O enólogo Hamilton Reis resume, de forma poética, a relação entre os dois topos de gama da herdade, mas simultaneamente muito precisa. O Mouchão não é um segundo vinho da propriedade: “reúne numa garrafa o património e a identidade de duas famílias – os Reynolds, na sexta geração enquanto proprietários, e os Alabaça, na terceira geração enquanto adegueiros –, bem como as diferentes parcelas de Alicante Bouschet e Trincadeira”. Por sua vez, o Tonel Nº 3-4 vive numa realidade diferente. É, nas suas palavras, “um vinho egoísta”, “a expressão máxima de uma casta que encontrou o seu território perfeito” e “um produto absolutamente único que fala de si”.

Normalmente, a primeira noção de que poderá haver um Tonel surge ainda durante a vindima. O longo estágio permite adiar a decisão até ao momento em que já não restam dúvidas. A produção varia de ano para ano. O Mouchão é produzido na ordem das 35-40 mil garrafas. O Tonel Nº 3-4 de 2015 resultou em 11 mil garrafas. A produção total da herdade ronda as 150 mil garrafas.

 

Mini-vertical

Antes de conhecer o vinho que deu origem a este lançamento especial, provámos duas colheitas anteriores – 2001 e 2005 –, com o objetivo de evidenciar a capacidade de envelhecimento do Tonel Nº 3-4. João Alabaça explicou que “o ano 2001 teve alguma falta de água, mas viveu no que deixou o ano anterior. O 2005 foi o primeiro ano do ciclo de seca entre 2005-2008, mas o 2004 foi o ano de água, o que acabou por criar um equilíbrio”, resumiu.

Na prova, o Tonel Nº 3-4 2001 mostrou-se muito profundo no aroma, balsâmico, com couro fino e azeitona preta, alguma tinta-da-china, mas com fruta ainda fresca a lembrar amora e cereja bem madura. Muita frescura em evolução, firmeza de tanino e textura de linho. O 2005, ligeiramente mais fechado, revelou também fruta como a amora e a cereja preta, muito couro e eucalipto, pimenta e um fundo terroso com apontamentos de petrichor. Surgiram ainda nuances de açúcar mascavado e, com tempo no copo, especiaria doce. Musculado, muito fresco e ainda com uma energia jovem e uma ligeira nota verde do engaço, que acrescenta tensão. Nenhum dos dois se mostra pesado ou cansado; ambos projectam uma grande presença e afirmação de estilo e carácter.

O Tonel 3-4 2015

Segundo João Alabaça “o ano 2014 fechou com muita chuva e, quando começou o 2015, tornou-se um inverno extremamente seco e muito frio. A primavera foi mais amena, choveu pontualmente, mas a chuva estava com uma boa intensidade, por isto a água ficou no solo. A fase da primavera, com excelentes temperaturas. Em finais de Junho, princípio de Julho, tivemos um grande problema com temperaturas muito altas durante uma semana e nesta altura perdemos muita fruta queimada. Isto desenvolveu um cacho mais aberto, com as uvas mais pequenas, que resultou em concentração e muito equilíbrio no próprio cacho e na vinha. O verão correu plenamente, não muito quente, oscilações de noite e dia muito agradáveis até praticamente a vindima. Não tivemos nem pragas nem doenças na vinha, quase sem tratamento. A colheita das uvas na Vinha dos Carapetos, aconteceu entre o dia 9 e o dia 11 de Setembro. As uvas estavam fantasticamente sãs, com um equilíbrio muito grande entre a maturação alcoólica e a maturação fenólica. Os engaços estavam completamente maduros.”

Esta última referência aos engaços é particularmente relevante, uma vez que a filosofia de vinificação da propriedade se mantém inalterada desde sempre: fermentação em lagares de mármore, com pisa a pé e sem desengace. Após cerca de sete dias, o vinho é trasfegado para os tonéis, onde realiza a fermentação maloláctica e estagia durante três a quatro anos.

Depois do engarrafamento, o estágio continua por mais seis anos antes do lançamento para o mercado. Em princípio, a partir deste momento o vinho está num ponto óptimo para ser apreciado, mas facilmente aguentará mais uma década (ou mais) em garrafa.

(Artigo publicado na edição de Junho de 2026)

LAVRADORES DE FEITORIA: 25 anos de vida

Lavradores de Feitoria

«O Douro é vinho. Vinho e vinha. Pode ser rio, pode ser terra. Região ou vila. Mas é, sobretudo, vinho. A monocultura é assim, impregna tudo, os montes, as casas e os homens. Como em qualquer outra região do país, os Durienses participaram em toda a história de Portugal. Influenciaram‑na e por ela foram condicionados. […]

«O Douro é vinho. Vinho e vinha. Pode ser rio, pode ser terra. Região ou vila. Mas é, sobretudo, vinho. A monocultura é assim, impregna tudo, os montes, as casas e os homens. Como em qualquer outra região do país, os Durienses participaram em toda a história de Portugal. Influenciaram‑na e por ela foram condicionados. Têm as suas glórias e as suas misérias. Ajudaram a consolidar a nacionalidade e deram o seu contributo para as explorações marítimas. Estiveram presentes nas lutas dinásticas, perseguiram espanhóis, foram valentes no combate aos exércitos franceses de ocupação. Envolveram‑se nas guerras liberais e em quase todas as revoluções dos séculos XIX e XX.

Ainda há pouco tempo, no meio das dificuldades da fundação do Estado democrático, foi da Régua e dos vales do Douro que vieram gritos rebeldes em defesa das liberdades. A história dos Durienses vale a dos seus conterrâneos de qualquer região. Mas, se um Duriense fala da sua terra, o vinho será imediatamente o tema. Chamem‑lhe fino ou licoroso, generoso ou de feitoria, de embarque ou de carregação, ou simplesmente, como em todo o mundo, vinho do Porto: será esse o seu bilhete de identidade.

Os povos gostam de se identificar com algo que os distinga, uma glória do passado ou um especial traço do presente. O vinho é, no Douro, a memória de todos, o fio condutor de gerações. O vinho está presente do modo mais indelével que seja: nas consciências e nos sentimentos. Mas também reina na paisagem, naqueles formidáveis socalcos que, montanha acima, acabaram por lhe dar forma e feitio. “É o mais belo e mais doloroso monumento ao trabalho do povo português” (Jaime Cortesão). E é tema indispensável na literatura local ou sobre a região.

É evocado nos cantares e nas tradições culturais. É, finalmente, o centro da vida económica regional, tendo já sido o principal trunfo português no comércio externo. A sociedade contemporânea, com os serviços, a administração, as escolas, uma incipiente industrialização, os meios de comunicação e a televisão, é muito diferente daquela que ainda recordam os Durienses com cinquenta ou mais anos. O império do vinho parece menos marcado. O relógio das adegas e das vinhas deixou de governar os dias do Douro. O calendário das vindimas já não dita a sua lei. Os trabalhos da vinha e do vinho já não são obsessivamente os únicos que interessam e preocupam os Durienses. Isso é verdade. Mas o reino do vinho, embora menos despótico, ainda existe.

Grande parte do vinho produzido no mundo não tem origem. Ou antes, o local de nascimento é desconhecido. Ou é vago. Os lotes e as misturas, legais ou improvisados, são responsáveis pela massificação vinícola. Durante muito tempo, até meados do século vinte, esta era a situação dominante. Ora, nas últimas décadas, a evolução dos gostos e dos mercados alterou essa realidade, sendo cada vez mais numerosos os vinhos com nome de sítio. Os vinhos com origem demarcada constituem a fidalguia da espécie. E, como sempre acontece nestas coisas, há os que são mais fidalgos do que outros. Uma “região demarcada” é melhor do que uma “origem determinada”. Dentro das regiões demarcadas, há também diferenças, como na aristocracia. Há os que são “mais nobres” do que outros, ou mais antigos, ou com mais pergaminhos. Nesta classificação imaginada, o Douro vem entre os primeiros.

Com efeito, a região foi a primeira do mundo a ser demarcada, antes mesmo de se ter inventado o conceito. Desde o século XVIII que o vinho do Douro, mais propriamente o vinho do Porto, é aquele que provém de uma região bem definida. Décadas mais tarde, os franceses fizeram operação semelhante, demarcando o Bordéus, depois o Borgonha, o Champanhe e outros. Italianos e Espanhóis seguiram. E Alemães, Austríacos, Húngaros, Jugoslavos e Suíços. Hoje, Australianos, Sul‑Africanos e Americanos fazem o mesmo.

Demarcar significa dar identidade. A verdade é que um vinho, se tem personalidade, vem de um sítio. Para ter carácter, um vinho faz‑se numa região. Particulares condições naturais, o sol e a pedra, a terra e a água, ajudam a criar um produto singular, um vinho diferente. Mas isto é apenas o princípio. Nenhum vinho, tal como o conhecemos, é produto directo da natureza. Nenhum vinho que bebemos é igual ao que se bebia há dois ou três séculos, muito menos igual aos que se bebiam nos tempos da Bíblia, que de vinho tanto fala; ou dos conventos da Idade Média, que pelo vinho tanto fizeram; ou das explorações marítimas, que do vinho tantas saudades tiveram. É mesmo provável que, se nos fosse dado beber vinho feito como há um ou dois milénios, sentíssemos real repugnância em fazê‑lo.

Os vinhos que temos diante de nós são o resultado de um longo apuramento do gosto e de uma evolução ininterrupta dos métodos de fabrico e de conservação. O vinho da natureza não é o vinho dos homens. Este último é fabricado. Com sabor, gosto, lutas e mercado; com sonhos, riqueza, coragem e pobreza; com arte e ciência, com técnica e sofrimento.

No Douro, que produz um vinho complexo, um vinho mais feito e mais “fabricado” do que outros, os homens desbravaram o mato, subiram as encostas, aterraram e surribaram. Desfizeram a pedra, fabricaram terra, levantaram muros, construíram milhares de quilómetros de socalcos, serra acima e vale adentro. Quebraram a rocha, cavaram a terra, saltaram os rios, procuraram água e marcaram sítios para viver. Plantaram, enxertaram, podaram as vides, colheram as uvas, pisaram, trasfegaram, transportaram e fizeram o vinho. Conservaram, armazenaram, fizeram lotes, misturaram aguardente, envelheceram e apuraram.

Lavradores de Feitoria
Paulo Ruão comanda os destinos da enologia da Lavradores desde 2005

E o vinho fez uma região, fez os solares, as quintas e os casebres. Fez os lagares e os cardenhos; as pipas e os rabelos; os ricos e os pobres. Nada de importante, no Douro, é independente do vinho. Nem as Igrejas e os mosteiros, que o vinho fez e que vinho fizeram.

Foi o vinho que fez o Douro, porque o Douro, antes do vinho, era muito pouco o que é hoje. Até as montanhas são diferentes. Não foi o Douro que fez o vinho. Foi o homem que fez o vinho. O homem, as suas técnicas e o mercado. De volta, o vinho fez o Duriense. Condicionou‑o, influenciou‑o.

A história do vinho é a história do Douro e marcou a história dos Durienses. Por isso é possível dizer, com Orlando Ribeiro, que “…foi o homem que trouxe o maior reforço à meridionalidade da região”. E, com Virgílio Taborda, que “foi a vinha, o fabrico e o comércio do vinho do Porto que fizeram o Alto Douro”. O Douro de que aqui se fala é tão só o Alto Douro. Mas quase nem é preciso dizê‑lo.

A história e o vinho confiscaram o nome e expropriaram as outras regiões que dele se podiam reclamar. Da Régua ou de Barqueiros até ao Porto, até à Foz do Douro, para ser mais preciso, também é Douro, mas, para se saber de que se trata, é necessário acrescentar “Litoral”. De Barca d’Alva até Miranda, dir‑se‑á que é o Douro “internacional” e faz fronteira entre Portugal e a Espanha há séculos. O Douro demarcado, o Douro do vinho, Alto Douro para os geógrafos, é o Douro fidalgo, o que tem morgadio. Dentro dele, poder‑se‑á falar de Baixo Corgo, de Cima Corgo e de Douro Superior, mas isso já é nomenclatura técnica. Douro é Douro, é o Alto Douro e mais nenhum.»

 

Nenhuma destas palavras acima são minhas, não. Tomara eu. São palavras superiores, de uma mente superior, como a de António Barreto, sociólogo português, duriense e Presidente da Assembleia Geral de Lavradores de Feitoria entre 2002 a 2020. Mas quem escreve assim sobre o Douro, com este conhecimento, com esta crueza narrativa, com sentido de lugar e profundidade emocional, tem de ser, de forma inelutável, um dos principais responsáveis, senão o principal mesmo, pelo sucesso e pelos 25 anos de duração do projecto Lavradores de Feitoria. Esta é a pequena homenagem que aqui lhe presto.

A responsabilidade que ficou para quem veio a seguir, e para os que virão no futuro, é, certamente, enorme de igual modo, mas a parte mais difícil do trabalho ficou praticamente feita, como se António Barreto, em vez de ensinar só a pescar, tivesse também ensinado os peixes a morder o anzol, tornando a pesca e o trabalho das gerações seguintes de pescadores muito mais fácil e prazeirosa. E, assim, pode dizer-se que o vinho fez o Douro, fez o duriense e fez a Lavradores de Feitoria.

Lavradores de Feitoria
Alvarelhão é a casta vindimada numa parcela de 0,6 hectares de uma vinha plantada, em 1920, na Casa de Mateus

O início do projecto

O nome Lavradores de Feitoria tem a sua origem remota nos vinhos de feitoria da época Pombalina, uma suposta selecção dos melhores vinhos da região do Douro, que, a posteriori, o Marquês de Pombal destinava aos apreciadores mais exigentes do nosso país e do mundo, como forma de promover a ‘sua’ recém demarcada região do Douro.

Nascida no ano 2000, a Lavradores de Feitoria resulta inicialmente da união de 15 lavradores do Douro, proprietários de 19 quintas, sob um modelo de gestão e produção unificado, como forma de obter sinergias e ganhos de escala em todas as etapas da produção de vinho. Mas esta era, sobretudo, uma ideia e uma visão para o futuro – actualmente, é constituída por 51 accionistas, 15 dos quais possuem 20 propriedades na região.

A aquisição pela Lavradores de Feitoria, em 2008, da Quinta do Medronheiro, em Sabrosa, mesmo ao lado do Palácio de Mateus, com fundos exclusivamente próprios, marcou o início da produção de uva própria. Este feito culminou em 2021, com a conclusão da nova adega, transportando definitivamente o projecto para um patamar evolutivo e de qualidade superiores.

Paulo Ruão, comanda os destinos da enologia da Lavradores desde 2005. Conhecedor profundo de cada vinha, cada parcela, cada exposição, cada altitude e de cada lavrador, faz os vinhos, privilegiando sempre a frescura, a elegância e o equilíbrio, com o cunho do carácter único e vincado da região do Douro.

Boal, Códega, Gouveio, Malvasia, Sauvignon Blanc e Viosinho são as castas brancas, enquanto nas tintas, algumas de vinhas com mais de 80 anos, podemos encontrar Tinta Amarela, Tinta Barroca, Tinta Roriz, Tinto Cão, Touriga Francesa, Touriga Nacional e Alvarelhão.

Foi, em particular, o Alvarelhão que fomos provar. Proveniente de uma pequena parcela de 0,6 hectares de uma vinha plantada em 1920, na vizinha Casa de Mateus, esta casta nativa, ancestral e rara, impõe grandes desafios na viticultura, mas recompensa largamente pela sua extraordinária finesse. E é claro que não nos ficámos só pelo Alvarelhão. Afinal, são quase cinco horas de viagem de Lisboa até Sabrosa e a Lavradores de Feitoria tem sempre algo mais para mostrar.

(Artigo publicado na edição de Junho de 2026)

 

QUINTA DO NOVAL: Qualidade de um ano perfeito

Quinta do Noval

A história mais recente da Quinta do Noval sob a gestão de Christian Seely, Director-Geral da AXA Millésimes, é, sem dúvida, a mais intensa e rica desde a fundação da propriedade, em 1715. Para além da tradição que sempre se fez questão em preservar, para Christian Seely e toda a equipa da Quinta do Noval, […]

A história mais recente da Quinta do Noval sob a gestão de Christian Seely, Director-Geral da AXA Millésimes, é, sem dúvida, a mais intensa e rica desde a fundação da propriedade, em 1715. Para além da tradição que sempre se fez questão em preservar, para Christian Seely e toda a equipa da Quinta do Noval, estes 33 anos foram “um período de descobertas e redescobertas”. Em 1994 só se fazia Vinho do Porto; mais tarde descobriram que os terroirs da propriedade também tinham grande potencial para vinhos não fortificados. O primeiro tinto surgiu com a colheita de 2004 e, alguns anos mais tarde, chegaram os brancos. Outra redescoberta foi o potencial qualitativo das vinhas velhas e dos field blends.

 

O grande 2024

O porquê de 2024 ser extraordinário explica Carlos Agrellos, Director Técnico da Quinta do Noval: “tivemos uma série de anos secos. Primeiro 2020, depois 2021, um ano razoável, 2022 novamente seco e 2023 com alguns problemas de chuva na vindima. Mas 2024, em traços gerais, foi um ano muito equilibrado do ponto de vista climático. Tivemos um inverno chuvoso, o que é sempre positivo, seguido de uma primavera amena, com alguma chuva. E convém dizer que, em 2024 choveu menos do que em 2023, e a precipitação foi muito bem distribuída ao longo do ano. Apenas o mês de Agosto não teve qualquer pluviosidade. Isto permitiu um ciclo vegetativo mais longo e, olhando para as declarações passadas, podemos afirmar que um ano em que toda a vindima decorre sem paragens, geralmente conduz a bons vinhos. Houve alguma chuva nocturna a 16 e 23 de Setembro, que não impediu a continuidade da vindima. E foi muito esticada, tendo começado no dia 22 de Agosto e terminado a 11 de Outubro, e as uvas acabaram por ter uma maturação fenólica e uma acidez muito equilibradas.”

Nada melhor confirma estas observações do que os próprios vinhos. Posto isto, a sequência da prova começou nos brancos (que embora já tenham sido provados anteriormente, serviram de bom exemplo neste contexto), continuou com os tintos e terminou em grande com os vinhos do Porto Vintage, incluindo o mítico Noval Nacional. Mas antes vamos ver os pontos em comum entre os vinhos não fortificados e os do Porto.

Quinta do Noval

Vale de Mendiz e do Roncão

A Quinta do Noval e a Quinta do Passadouro, adquirida em 2019, têm vinhas em dois vales – Vale de Mendiz e Vale do Roncão. Carlos Agrellos explica que há uma diferença marcante entre os vales de Mendiz e do Roncão. O primeiro, situado na margem esquerda do rio Pinhão, situa-se no fundo do vale, numa zona muito quente, mas com uma identidade muito própria e particularmente importante para o Douro, marcada pelo carácter típico do Vale de Mendiz. A zona do Roncão, também conhecida como Ribeira do Roncão, que conduz ao Douro, embora seja quente, beneficia de um fluxo de vento que entra pelo vale acima e ajuda a manter as vinhas bem arejadas. “Curiosamente, os vinhos do Vale de Mendiz apresentam sempre muita pureza de fruta silvestre e notas florais, uma assinatura do Vale de Mendiz, que não encontramos no Roncão onde os vinhos são mais frutados, nem tanto florais, e têm mais estrutura”, conclui o Director Técnico da Quinta do Noval.

O monovarietal de Touriga Nacional da Quinta do Passadouro é uma combinação de parcelas do vale de Mendiz, onde se concentram as vinhas velhas, e da vinha do Síbio, no vale do Roncão, onde as plantações são organizadas por casta. Por sua vez, o monovarietal de Touriga Nacional da Quinta do Noval resulta de quatro parcelas: três no Vale de Mendiz e uma no Roncão.

Mesmo no Vintage da Quinta do Noval, que tem maior proporção de uva do Vale de Mendiz, alguma parte provém sempre do Roncão, “para lhe dar músculo”.

 

“É este paradoxo do Douro: uma zona quente onde conseguimos fazer vinhos destes, com frescura e finesse”, resume Carlos Agrellos

“Não queremos abdicar da possibilidade de produzir um Porto Vintage que expressa não só os nossos terroirs, mas também o ano”, explica Christian Seely

 

Vinhas velhas, o componente essencial

Como referiu no início Christian Seely, as vinhas velhas foram uma grande descoberta na Quinta do Noval e também no Passadouro. Quando a propriedade foi adquirida, as parcelas plantadas na década de 1930 estavam muito bem preservadas, exigindo apenas algumas retanchas. Foi também feito, em colaboração com a PORVID, o levantamento de todas as castas presentes (mais de 30), que hoje se encontram catalogadas. O lote do Quinta do Passadouro Reserva é composto maioritariamente por vinhas velhas (74%), mais 16% de Touriga Nacional e 10% de Touriga Francesa.

O Quinta do Noval Reserva era tipicamente um blend de Touriga Nacional e Touriga Francesa, mas em 2020, no Douro em geral, esta última amadureceu muito mais cedo do que o normal e não estava na sua melhor forma na altura da vindima. E, pela primeira vez, as uvas da vinha velha entraram no lote. O resultado foi tão relevante, que passaram a representar uma grande parte desta referência. O Reserva de 2024 conta com 50% de vinhas velhas, 32% de Touriga Nacional e 18% de Touriga Francesa.

A título de exemplo, o Quinta do Passadouro Reserva tem acidez total de 6,10 gramas por litro e um pH 3,54 e o Quinta do Noval Reserva regista 6,40 gramas por litro de acidez e um pH de 3,47. Ambos evidenciam taninos muito finos, do mesmo tipo que, com mais trabalho e pisa em lagar, dão origem aos Porto Vintage. “É este paradoxo do Douro: uma zona quente onde conseguimos fazer vinhos destes, com frescura e finesse”, resume Carlos Agrellos.

 

Abordagem na adega

Na adega, os vinhos da Quinta do Passadouro são trabalhados de forma diferente dos da Quinta do Noval. Os primeiros fermentam em lagar, mas por pouco tempo, privilegiando a extracção pré-fermentativa em detrimento da maceração pós-fermentativa. Por isso, após uma breve pisa, o vinho é trasfegado.

O estágio decorre integralmente em barrica, com uma proporção de 15-20% de madeira nova, 5-10% de segundo ano e 70-80% de terceiro ano. Esta utilização de barricas de segundo e terceiro ano preserva o carácter frutado e floral, sem dominar o vinho.

 

O Noval Nacional representa apenas 0,65% do volume total do Vinho do Porto produzido na propriedade.

Quinta do Noval

Terroir Series

A filosofia por trás desta designação é bastante simples: sempre que nas múltiplas vinificações surge um vinho claramente distinto dos restantes (seja monovarietal, seja de vinhas velhas, como até agora), é engarrafado como Terroir Series. Para já, existem dois vinhos feitos a partir de uvas provenientes de parcelas praticamente centenárias, com castas misturadas.

O Vinha da Marka viu a sua primeira expressão em vinho em 2019 e, desde então, tem sido lançado todos os anos. É uma parcela situada ao lado da Quinta do Crasto. A sequência da Vinha da Ponte, da Maria Teresa e da Marka, sugere uma contemporaneidade na plantação, parecendo ser vinhas da mesma época.  A vinha da Marka com mais de 30 castas a 140-180 metros de altitude junto ao rio, apresenta um rendimento médio de 15 hectolitros por hectare. Vindimou-se numa manhã no dia 30 Setembro e resultou em 1024 garrafas.

Mais uma vez a título de exemplo: o Vinha da Marka com 14%, tem 6,60 gramas por litro de acidez total e um pH 3,44. Na opinião do enólogo, estes valores indicativos das vinhas velhas “nunca entram em sobrematuração”, produzindo um grande equilíbrio entre tanino e frescura, com finesse e um potencial de evolução como se fosse um grande Vintage.

No caso do Vinha do Passadouro, trata-se de uma parcela com 28 castas (numa combinação diferente da Vinha da Marka) situada a 320 metros de altitude e com uma elevada densidade de plantação para uma vinha velha do Douro: cerca de 5500 pés. Também plantada na década de 1930, apresenta um rendimento ainda mais baixo, de 12 hectolitros por hectare. Foi produzido 2020, 2021 e 2024, com 968 garrafas neste último. E novamente, temos 6,30 gramas por litro de acidez total e um pH de 3,54.

Porto Vintage

Com vinhas situadas entre os 100 e os 480 metros de altitude e com diferentes exposições, desde 2011 a Quinta do Noval conseguiu fazer declarações de Vintage todos os anos. “São declarações pouco convencionais, porque não seguimos a regra de só declarar em anos clássicos. Mas, às vezes, são apenas 1000 caixas (12 mil garrafas), o que representa menos de 3% da nossa produção total do vinho do Porto. Fazemos isto, não porque queremos ganhar muito dinheiro, mas porque não queremos abdicar da possibilidade de produzir um Porto Vintage que expressa não só os nossos terroirs, mas também o ano. Esta é a nossa política”, explica Christian Seely.

A qualidade dos Porto Vintage percebe-se logo na vindima. Há parcelas que, historicamente, dão origem a Vintage, sendo vinificadas separadamente e mantidas até à decisão final, momento em que algumas acabam por ser rejeitadas. Segundo Carlos Agrellos, o Quinta do Passadouro Vintage resulta de seis parcelas, de um total inicial de dez, tendo quatro ficado de fora do lote final. No caso do Quinta do Noval Vintage, o processo começou com 14 parcelas, das quais quatro foram eliminadas. Isto resultou em 555 caixas (6600 garrafas) do Vintage da Quinta do Passadouro e 2166 caixas (25 992 garrafas) da Quinta do Noval.

O Noval Nacional provém sempre da mesma parcela de vinha velha, com menos de um hectare, situada em frente à casa. Foi vindimado numa manhã a 30 de Setembro. Com 167 caixas (2004 garrafas) representa apenas 0,65% do volume total do Vinho do Porto produzido na propriedade. É um vinho com uma concentração de outro mundo e uma finesse típica que só aquela parcela cirurgicamente preservada, consegue expressar num grande Porto Vintage.

(Artigo publicado na edição de Junho de 2026)

REAL COMPANHIA VELHA: 270 anos de história

Real Companhia Velha

Há momentos em que a história do vinho se cruza com a própria identidade de uma nação de forma tão visceral, que o cenário escolhido para a celebrar não pode ser fruto do acaso. Foi precisamente essa a sensação ao entrar na Alfândega do Porto, para comemorar os 270 anos da Real Companhia Velha. Pela […]

Há momentos em que a história do vinho se cruza com a própria identidade de uma nação de forma tão visceral, que o cenário escolhido para a celebrar não pode ser fruto do acaso. Foi precisamente essa a sensação ao entrar na Alfândega do Porto, para comemorar os 270 anos da Real Companhia Velha. Pela primeira vez, este edifício histórico, outrora a porta de entrada das mercadorias do mundo, testemunho da mudança de impérios e rotas comerciais, abriu as suas imponentes naves para acolher o legado vivo da mais antiga empresa vinícola de Portugal. Havia uma simetria quase literária nessa escolha: dois pilares da identidade portuense, frente a frente, a reconhecerem-se mutuamente.

Instituída a 10 de setembro de 1756, por Alvará Régio de D. José I, sob o punho visionário do Marquês de Pombal, a Real Companhia Velha nasceu para proteger e regular o comércio dos vinhos do Douro, numa época em que o vinho do Porto era já moeda de prestígio nas mesas da Europa. Chegar a 2026, com o mote “270 Anos de Excelência do Douro para o Mundo” estampado nos painéis negros e dourados que forram a nave central, mantendo a relevância, o vigor e a capacidade de surpreender, é um feito raro.

 

Pedro Silva Reis, a voz

À entrada do espaço, uma parede em cinzento antracite, com o numeral dourado “270” e as letras soltas de “Real Companhia Velha” a orbitarem em torno do logótipo comemorativo, serve de cenário às entrevistas concedidas pelo administrador da empresa, Pedro Silva Reis. De fato azul-marinho e lenço no bolso, os gestos largos de quem está habituado a discursar sobre história, mas que, acima de tudo, acredita genuinamente no que diz. As suas palavras, calmas e autorais, tão comuns neste tipo de celebrações, definem o tom do dia: “esta não é uma festa nostálgica, mas uma declaração de intenção sobre o futuro”.

A mensagem de Pedro Silva Reis é clara: a empresa que herdou do pai e que agora partilha com a geração seguinte não vive, nem pode viver, de acontecimentos do passado. Vive de os honrar com a mesma audácia com que foram construídos.

 

“Estes vinhos existem, porque nos propomos explorar diferentes ideias que nos ensinem algo passível de uso numa aplicação comercial”

 

Real Companhia Velha
Pedro Silva Reis

Tiago Silva Reis, a nova geração

Se o pai representa a continuidade e a solidez, Tiago Silva Reis, filmado no interior animado da Alfândega, com as bancas de vinho e os convidados ao fundo, encarna a transição com uma naturalidade que tranquiliza. Jovem, articulado, claramente apaixonado pelo que faz, fala do evento com o entusiasmo de quem o ajudou a conceber e não apenas de quem o herda.

Em segundo plano, a banca da Royal Oporto, com as garrafas alinhadas em prateleiras de madeira natural sobre fundo vermelho, confere ao enquadramento a profundidade cromática de um evento vínico. A casa tem um novo rosto que conhece o produto pela raiz.

 

Mapa vivo do Alto Douro Vinhateiro

O formato do evento abandonou a disposição clássica em favor de uma experiência imersiva. Distribuídas em bancas individuais, cada uma das cinco quintas da empresa apresentou-se como um universo próprio: a Quinta das Carvalhas, com as suas vinhas centenárias e uma das mais ricas coleções de castas autóctones durienses; a Quinta de Cidrô, o laboratório experimental localizado no planalto de São João da Pesqueira; a Quinta dos Aciprestes, abraçada ao curso do Douro; a Quinta do Casal da Granja, em Alijó, e a Quinta do Síbio, no vale do Roncão. No total, 557 hectares de vinha própria.

Ao longo da nave central, enormes painéis suspensos do alto da estrutura metálica verde da Alfândega do Porto, essa característica cobertura industrial que ainda cheira a século XIX, contavam a cronologia de uma casa que atravessou Invasões Francesas, o liberalismo, a ditadura e a democracia. Num deles, uma fotografia de família: Pedro Silva Reis rodeado pelos filhos, ao ar livre, numa das quintas. Sobre a imagem, o selo comemorativo “270 Years – 1756–2026”. Uma imagem que vale mais do que qualquer comunicado de imprensa: a empresa tem dono, tem nome, tem cara.

 

Real Companhia Velha
Tiago Silva Reis é o rosto da nova geração da família, na Real Companhia Velha

 

Os vinhos: do clássico ao experimental

A banca da inovação revelou uma empresa que não tem medo de se reinventar. O grande lançamento do ano, o Royal Oporto 10 Anos Tawny propõe uma entrada generosa, mas acessível no universo dos vinhos velhos da casa. Do mesmo patamar, o imponente Royal Oporto 40 Anos Tawny, com o rótulo bordô e o blend número 25036, lembra a quem visita que a Real Companhia Velha é, antes de mais, uma guardiã do tempo.

Mas a surpresa reservada para os conhecedores estava na linha Séries. Rotulagem branca, tipografia sóbria, a indicação “1.500 Garrafas” e a casta Baga na região Douro: um projeto de exploração vitícola que testa castas fora da sua zona canónica, com tiragens muito limitadas. Nas palavras de Pedro Silva Reis: “a Real Companhia Velha representa a procura de novos vinhos. Estes vinhos existem, porque nos propomos explorar diferentes ideias que nos ensinem algo passível de uso numa aplicação comercial.” É a linguagem da curiosidade científica a entrar pela adega dentro.

 

Futuro de família e de Douro

Ao final do dia, entre os 800 convidados que enchiam as naves da Alfândega, a narrativa do evento fechava-se com coerência, uma empresa que nasceu por decreto régio para proteger um território e que, 270 anos depois, continua a fazê-lo, agora também através da nova geração, dos vinhos experimentais, da garrafa redesenhada e do cenário escolhido para a celebração. Os homens criam as efemérides. O rio, a terra e a paciência permitem que a história continue a ser escrita. A Real Companhia Velha parece estar pronta para os próximos 270 anos.

(Artigo publicado na edição de Junho de 2026)

QUINTA DOS ARCOS Vinhos com sotaque francês

Quinta dos Arcos

Assim que passamos a entrada da Quinta dos Arcos, junto à Nacional 379, em Azeitão, o ligeiro declive que percorremos permite-nos visualizar parte do casario desta propriedade localizada na região vitivinícola da Península de Setúbal. Adquirida em 2013, é delimitada por uma área de 77 hectares, dos quais cerca de 13 estão confinados à vinha, […]

Assim que passamos a entrada da Quinta dos Arcos, junto à Nacional 379, em Azeitão, o ligeiro declive que percorremos permite-nos visualizar parte do casario desta propriedade localizada na região vitivinícola da Península de Setúbal. Adquirida em 2013, é delimitada por uma área de 77 hectares, dos quais cerca de 13 estão confinados à vinha, para além do montado, e está, hoje, nas mãos de uma família proveniente de Paris, França. Christine Antunes, que ali nasceu e exerceu advocacia durante 35 anos, radicou-se em Portugal em 2018. O filho mais velho, Rodolphe Antunes Bouquillard, arquiteto de formação, cuja licenciatura foi tirada na capital francesa e o mestrado na Universidade Autónoma de Lisboa, assume o papel de produtor. É, portanto, o responsável pelo projeto de recuperação de alguns dos edifícios, sempre alinhada com a traça da fachada original, enquanto outros já constam no papel e outros estão integrados no plano de reabilitação a médio prazo.

No entanto, a compra da propriedade estava destinada, inicialmente, para fundar centro destinado a autistas, para proporcionar atividades ao ar livre até surgir a ideia de plantar vinha, “porque o meu pai tinha direitos de vinha e eu aceitei os 13 hectares que me proporcionou”, começa por contar a nossa anfitriã. De certa forma, o vinho não é assunto

Christine Antunes: “provei muitos. Acho que tudo o que existe de bom passou por mim, além de vinhos que valem muito dinheiro. Os grandes Bordeaux, os grandes Borgonha… mais tarde, passei a provar vinhos estrangeiros.” Ou seja, referências vínicas produzidas fora de Portugal e França. “Quando vim para Portugal, também provei quase todos os vinhos que são feitos por cá.”

Castas francesas como bandeira

Christine Antunes foi advogada da revista Sommeliers International dirigida, na época pelo escanção Jean Frambourg e era parceira da Association de la Sommellerie Internationale e da Union de la Sommellerie Française. Esta ligação favoreceu o passo seguinte: a plantação da vinha. Isto é, a nossa anfitriã decidiu recorrer a técnicos franceses com provas dadas na viticultura. “Quem aconselhou a vinda dos técnicos franceses à minha mãe, foi o sommelier Philippe Faure-Brac, que se tornou, em 2016, presidente da Union de la Sommellerie Française”, conta Rodolphe Antunes Bouquillard. “Fizeram análises ao solo da propriedade, provaram vinhos da região e acharam que a única forma de fazer a diferença seria optar por castas francesas, até porque se iriam adaptar muito bem aqui”, descreve Christine Antunes.

Merlot, Cabernet Franc e Cabernet Sauvignon, nas tintas; Sauvignon Blanc, nas brancas. Christine Antunes fez questão de incluir uma quinta casta a esta curta lista, a Moscatel Graúdo, “para ter uma variedade representativa da região da Península de Setúbal”, justifica. Dada a indicação dos sítios onde se iria plantar cada variedade – as duas primeiras castas foram plantadas em solos maioritariamente arenosos, enquanto as restantes estão implantadas nas zonas predominantemente argilocalcárias –, deu-se início à plantação da vinha. Este processo demorou aproximadamente dois anos, entre 2014 e 2016, com a Merlot a protagonizar a última plantação.

Depois, foi preciso recorrer a quem sabe a matéria de enologia. A verdade é que Christine Antunes desejava ter António Saramago, decano da enologia no país e nome bem conhecido na Península de Setúbal, na Quinta dos Arcos. “Apresentamos-lhe o projeto da adega, dos vinhos e da vinha.” Entusiasmado, aceitou a proposta, fazendo parte da equipa desde 2024. “Estou cá todos os dias”, afirma o profissional com veemência. E com ele foi a adegueira brasileira, Lariza Camelatto.

“Há muito Sauvignon Blanc, mas eu não tenho de fazer vinhos iguais. Com as mesmas uvas, posso fazer 500 vinhos diferentes, uma força de expressão, porque há várias técnicas de trabalhar as uvas, e dentro dessas técnicas, sobretudo para quem as conhece, pela experiência, podemos pôr na mesa vinhos diferentes”, exemplifica António Saramago.

A vinha está repartida, ora por encostas suaves da Quinta dos Arcos, uma das quais pontilhada por sobreiros e ladeada por montado, ora na pequena planície junto à ribeira que delimita atravessa um dos extremos da propriedade delimitada por floresta, que empresta a quietude à paisagem. A nossa anfitriã refere a importância da fauna neste ecossistema, entre raposas, águas, texugos e javalis.

Devido à ribeira e à influência atlântica sentida na propriedade, “temos de usar produtos para o oídio e o míldio”, combatidos através de tratamentos fitossanitários, “quando estritamente necessário e dependendo do ano”, assegura, “mas, ainda assim, temos de tratar a vinha com produtos mais eficientes, porque os biológicos não são suficientes, sobretudo junto à ribeira”, descreve. No âmbito dos trabalhos da vinha, são utilizados intercepas e o corta-mato, com a finalidade de suprimir o excesso do coberto vegetal, mantendo alguma da vegetação, com o intuito de proteger o solo do sol.

Há 15 ânforas de barro de Impruneta e dois ovos da Fornace Artenova, ambos feitos em Itália, dois balseiros de carvalho francês do Allier e barricas de carvalho de Vosges

 

Estreia é feita com colheita tardia

A vindima ocorre, habitualmente, a meio do mês de agosto. É manual e a seleção dos cachos é efetuada na vinha, “para qualquer tipo de vinho”, reforça Christine Antunes. O mesmo critério rigoroso está implementado na adega, onde a seleção se repete no tapete de escolha.

Tudo estava preparado para que a primeira apanha da uva tivesse lugar em 2018, “mas o escaldão desse ano devastou a uva”. Curiosamente, em novembro desse ano, Christine Antunes constatou que alguns talhões próximos da ribeira tinham uvas com Botrytis cinerea. Incrédula, pois até então não tinha imaginado que fosse possível a propriedade reunir condições para dar origem à podridão nobre, avançou para a produção de uma colheita tardia feita a partir da casta Sauvignon Blanc.

O resultado traduziu-se em 150 litros para consumo próprio. Ao invés das cubas de inox ou de barricas, todo o processo de vinificação foi feito em ânfora, objeto de eleição de Christine Antunes no que à elaboração de vinho diz respeito. “Encontro harmonia entre as castas francesas e as ânforas”, elucida. Esta conclusão vem na sequência de sucessivos ensaios realizados ao longo dos primeiros cinco anos do projeto vitivinícola, “o que contribuiu para o arranque da Quinta dos Arcos”, sublinha.

Não é por acaso que há 15 ânforas na adega, todas feitas a partir de barro de Impruneta, provenientes de Itália. “É dos melhores barros do mundo para ânforas, nos quais fazemos vinhos tardios”, evidencia, referindo-se à colheita tardia.

A exceção foi a produção de um passito, inspirado no célebre vinho italiano feito a partir de uvas desidratadas ao sol, pois a nossa anfitriã é apreciadora deste tipo de vinho. É da colheita de 2025 e foi elaborado com Moscatel Graúdo, “que se encontra em cinco destas ânforas”, sob a supervisão de António Saramago.

 

Ânforas, balseiros e barricas

Vamos por partes. Sangue Real é a designação que consta no rótulo da gama de entrada. Foi atribuído em homenagem a “uma zona específica da propriedade, que já se chamava assim”, esclarece. O mesmo sítio tinha sido, em tempos, ocupado por vinha plantada pelos antigos donos da Quinta dos Arcos, que resultou, em tempos idos, da compra de várias propriedades. No alinhamento do portefólio vínico consta o rótulo Adega das Ânforas. Tal como o nome indica, está reservado aos vinhos feitos nas ânforas. “Todas têm um pez à base de mel, feito em Itália.” Aqui, enquadram-se o Rodolphe’s Merlot 2023, bem como as duas colheitas tardias de 2024: um de Sauvignon Blanc e outro de Moscatel Graúdo

A linha Quinta dos Arcos contempla, por sua vez, vinhos feitos em balseiros e em barricas. É o caso do primeiro vinho deste produtor. Trata-se de uma colheita tardia DOC Palmela de 2020, em que as uvas de Sauvignon Blanc foram vinificadas em inox e submetidas a um estágio de 36 meses em barrica. Neste patamar estão, ainda, o Quinta dos Arcos Reserva tinto 2023, bem como três outros vinhos de 2024: o Sauvignon Blanc, o Sauvignon Blanc Reserva e o Sauvignon Blanc. Os rótulos de todos os vinhos são da autoria de Rodolphe Antunes Bouquillard, que eleva a pintura como forma de expressão vínica, se assim a podemos designar.

Os dois balseiros de 5000 litros dispostos na adega são de carvalho francês do Allier e têm o cunho da Tanoaria JM Gonçalves, situada em Palaçoulo, no concelho de Miranda do Douro, Trás-os-Montes. São usados apenas para tintos – primeiramente para fermentação e, depois da remoção das massas, são reutilizados no processo de vinificação. As uvas de cada variedade são vinificadas a solo e, uma vez que são três, “há uma casta que tem de esperar que uma acabe a fermentação, para ser acolhida”, avança Christine Antunes. As barricas, de 300 litros, foram encomendadas à mesma empresa e são feitas a partir de carvalho de Vosges. Segundo António Saramago, esta madeira é adequada para os vinhos brancos, que aqui fermentam e estagiam. É o caso do Quinta dos Arcos Reserva Sauvignon Blanc. Já o Grande Reserva Sauvignon Blanc 2024, “que já está em garrafa, mas ainda não está comercializado, estagiou em barricas de carvalho francês das Vosges”, acrescenta Rodolphe Antunes Bouquillard.

Os balseiros são usados pela “tendência para aumentar o tempo de estágio, porque estamos a falar de volumes grandes”. A respeito das barricas, “estamos à procura de aromas, de complexidade, de finesse nos brancos”, afirma António Saramago. Juntam-se ainda os dois recipientes em forma oval da Fornace Artenova, produzidos no sul de Florença, Itália, para estágios de vinhos tintos. O interior também é revestido com o mesmo pez das ânforas. “É preciso provar muito”, sublinha o enólogo.

Adega de filigrana

De acordo com as contas feitas pelos novos proprietários, a Quinta dos Arcos foi palco de produção de vinho até à década de 70 do século XX. “Havia esta adega e uma pequena adega”, que, embora degradada, ainda existe. “Servia de apoio a esta e já era mais moderna”, constata Christine Antunes. Os registos fotográficos que possuem indicam a antiguidade dos imóveis. “São anteriores a 1951. Veem-se na fotografia de 1947 e esse prédio [a pequena adega] é posterior, porque não existe nessa fotografia de 1947”, continua.

A adega atual está instalada na outrora primeira adega da propriedade. Foi parcialmente concluída em 2024, ano da estreia na receção da uva e de todo o processo de vinificação. O término aconteceu em 2025. “Todo o vinho que faço na Quinta dos Arcos tem controlo de temperatura. O que é inovador aqui é o caso do barro”, comenta António Saramago, referindo-se às ânforas, acrescentando que os balseiros também estão equipados de sistema de frio, assim como as cubas de inox. “Das ânforas saíram coisas fantásticas. É um componente para que o vinho tenha alguma coisa de diferente”, destaca o enólogo.

Toda a adega foi pensada e desenhada na totalidade por Rodolphe Antunes Bouquillard, quer a arquitetura, quer o sistema tecnológico e de segurança. É provida de detetores de monóxido de carbono, que, em caso de alerta, comandam a abertura automática das portadas espalhadas pelo edifício. “Os pilares azuis têm uma tinta especial, pelo que, se houver um incêndio, faz uma espuma, para abafar o oxigénio”, explica o produtor. A manga azul que atravessa o teto permite aquecer ou arrefecer o ambiente, consoante a necessidade baseada na temperatura registada, a tinta branca que reveste as paredes da adega é antibacteriana e o chão é revestido com resina epóxi. A água usada na adega vai para uma ETAR da propriedade e o teto foi desenhado de modo a reter a água da chuva, com destino a um depósito, disposto no exterior, que a encaminha diretamente para a vinha. Nas traseiras do edifício, estão os geradores de emergência e painéis solares.

Os 13 hectares de vinha são predominados por quatro castas francesas e uma portuguesa, a Moscatel Graúdo

 

Experiências no terreno

Ao lado da adega está o antigo picadeiro do mestre Nuno de Oliveira, em tempos, figura incontornável da cultura equestre portuguesa. O edifício foi igualmente recuperado por Rodolphe Antunes Bouquillard. No interior, os quadros da sua autoria emprestam o colorido às paredes brancas, enquanto a sala do estágio de barricas resulta de uma pequena mostra de um painel de azulejos do século XVIII. Do lado oposto a esta sala, está o armazém, destinado à rotulagem e armazenamento das garrafas. O engarrafamento é feito por intermédio de aluguer.

Em outro edifício está a loja. A abertura prevista para a época de estio deste ano. O teto é digno de contemplação, graças à mestria de Rodolphe Antunes Bouquillard. Em breve, o terraço deste espaço encher-se-á de apreciadores de vinho, que, em contrapartida receberão a oferta da vista para a Serra da Arrábida. Petiscos, queijos e enchidos protagonizarão tábuas que acompanharão os vinhos produzidos na acalmia da Quinta dos Arcos. “Aqui serão feitas as provas de vinho”, informa Christine Antunes ao abrir a porta. Já as provas premium estão pensadas para a mina de água da Quinta dos Arcos recuperada pelo produtor e arquiteto da propriedade. Os programas são complementados por visita à adega e vinha.

Em jeito de conclusão, Christine Antunes deixa uma nota: “vamos aguardar o sucesso com os vinhos. Depois, plantamos a Boal de Setúbal (tem a Sémillon como sinonímia) e alguma Chardonnay, que o senhor engenheiro António Saramago quer, e a Pinot Noir.” E ainda haverá espaço para fundar o centro destinado a pessoas com autismo. Até lá, contemos com dois espumantes no final deste ano da colheita de 2024, um Blanc de Blanc de Sauvignon Blanc e Moscatel Graúdo e um rosé de Cabernet Franc.

(Artigo publicado na edição de Junho de 2026)

00