“Foi uma vindima de paciência”, diz-nos David Guimaraens, chefe de enologia da Fladgate Family Wines, agora a completar 40 vindimas no Douro. O porquê da paciência vem de seguida: muita água disponível no solo derivado ao inverno chuvoso de 2023/24; depois, de 2 de Junho até à vindima não voltou a chover e, apesar dos […]
“Foi uma vindima de paciência”, diz-nos David Guimaraens, chefe de enologia da Fladgate Family Wines, agora a completar 40 vindimas no Douro. O porquê da paciência vem de seguida: muita água disponível no solo derivado ao inverno chuvoso de 2023/24; depois, de 2 de Junho até à vindima não voltou a chover e, apesar dos calores de Junho e Julho, as vinhas estavam viçosas.
Neste jogo, pode dizer-se que o Ás de Espadas saiu a partir de 18 de Agosto: noites muito frescas permitiram que a maturação se desenrolasse com toda a calma. Assim foi possível decidir o momento exacto da vindima de cada parcela, sem stress, sem o sufoco da perspectiva de chuva ou outros acidentes muito vulgares nesta época do ano. Poder escolher o dia certo da vindima é o sonho de qualquer enólogo e estender a vindima quanto se quiser é o sonho 2.0. A principal consequência deste “estender de vindima” é a qualidade da fruta e dos taninos, que resultam com grande finura. Tudo isso aconteceu em 2024.
Quinta da Roêda
Há um método especial para vintages?
A resposta não é óbvia. Todavia, David Guimaraens tem os seus pontos-chave e as suas irritações crónicas, quando o assunto são os vintages. Começando pelo princípio, a defesa da pisa a pé, sobretudo no início do corte do lagar é determinante, ainda que na segunda parte do trabalho de lagar já se usem muitos pisadores mecânicos. Nas quatro adegas onde decorrem os trabalhos, há lagares para pisa a pé e em três delas há pisadores para a segunda fase da pisa, complementada com o trabalho dos “macacos de madeira”, para envolver e baixar a manta. Cerca de 70% do Vinho do Porto da empresa é feito em lagar e o restante em inox.
David Guimaraens considera que o uso de 100% do engaço continua a ser fundamental, embora alguns outros produtores apontem para a diminuição da percentagem do mesmo. O engaço é elemento equilibrador na doçura natural do Vinho do Porto. Na prensagem, tem uma influência física que se transforma, no envelhecimento, numa influência organoléptica. Das irritações, David Guimaraens também não as esconde: o uso “exagerado” de Touriga Nacional, que veio introduzir um estilo novo (muito aromático), mas que, como sempre acontece com o Vintage. Portanto, convém ter algum cuidado com as mudanças, pois os resultados só serão visíveis dentro de 20 ou 30 anos.
Outro factor a que torce o nariz é ao uso crescente da casta Alicante Bouschet (e também Sousão) para fazer Vinho do Porto, principalmente porque têm muita cor. Ora, opina, a cor não é necessariamente uma condição exclusiva e não é por ter cor a mais que o Vintage é melhor. Estão, agora, a fazer-se vintages com mais cor do que nunca, mas “só cor não é o que me interessa”, afirma.
Aqui não se confunde qualidade com identidade e, ao gerir parcelas em propriedades muito diferentes, David Guimaraens procura que cada quinta transmita ao Vintage a identidade do lugar. E, afirma, “o que faz um grande Vintage é o binómio qualidade e longevidade.” Nos anos mais quentes este tipo de vinho tende a “abrir” muito tarde, precisa de muito anos para se revelar. Porém, nos anos frescos, os vintages dão sempre boa prova em qualquer momento.
Um dos elementos que muito tem contribuído para a qualidade actual dos vintages é a aguardente, hoje muito melhor quando comparada com a dos anos 80 e 90, do século passado, por exemplo. Com a inovação introduzida por Charles Symington, aplaudida por David Guimaraens, a aguardente é, agora, adicionada a baixa temperatura ao mosto, preservando assim muitos aromas outrora perdidos.
Os vintages de 2024 estão já todos alocados, continuando a ser o Reino Unido (40%) e os Estados Unidos (30%) os principais mercados, mas o consumo interno é cada vez mais importante
Os 2024 à lupa
Dos vintages de 2024, em que as três principais empresas do da Fladgate Family Wines fizeram em média metade da produção habitual em anos clássicos, registamos estes dados, sempre interessantes e úteis. Do vintage Croft fizeram-se 19 200 garrafas. Cerca de 85% do vinho tem origem na Quinta da Roêda, desde sempre a base destes vinhos, aqui acrescidos com alguns vinhos do vale do Pinhão. Maioritariamente vinhas velhas com muita Tinta Francisca, embora a base seja composta por Touriga Francesa, Tinta Roriz e Barroca e, curiosamente, alguma Alicante Bouschet, que já lá existia. Tem 92 gramas de açúcar.
A Fonseca, cuja base é a Quinta do Panascal, associada, aqui, a vinhos das propriedades no vale do Pinhão – Santo António e Cruzeiro –, além das uvas de uma vinha localizada ao lado do Panascal e recentemente adquirida, a Quinta Socalcos de Vale de Muros. A soma perfaz 48 000 garrafas e o vinho apresenta-se com cerca de 96 gramas de açúcar. A uvas vinificadas do Panascal dão a gordura, mas as outras confer
em a frescura e os taninos, vitais para o equilíbrio do conjunto.
Já a Taylor’s – desde sempre baseada na Quinta de Vargellas – totaliza 60 000 garrafas, também aqui cerca de metade da quantidade habitual. O que David Guimaraens mais salienta no Taylor’s é a precisão e, apesar de nunca brilhar nas provas, tem sempre um futuro radioso. Apresenta igualmente 92 gramas de açúcar.
O Vintage Taylor’s Sentinels (vai na 3ª edição) ganhou o nome inspirado nos marcos de Feitoria que existem em algumas propriedades do vale do Pinhão. É todo ele daquela zona, beneficiando não só das uvas que não foram incluídas nas outras marcas, como também das boas propriedades que a empresa dispõe na região, onde se destaca o Junco e Eira Velha, por exemplo. Fizeram-se 31 200 garrafas, aqui também com cerca de 92 gramas de açúcar.
Como aconteceu com outras declarações anteriores, para satisfazer todos os mercados onde a Fladgate Family Wines está presente, os vintages de 2024 estão já todos alocados, continuando a ser o Reino Unido (40%) e os Estados Unidos (30%) os principais mercados, com a procura interna a ser cada vez mais importante.
Cerca de 70% do Vinho do Porto da empresa é feito em lagar e o restante em inox
David Guimaraens
Revisitar o passado
Após a prova dos vintages de 2024, David Guimaraens fez-nos regressar a alguns vintages da Fonseca de anos anteriores, recuando até 1994. Assim começámos pelos mais novos e provámos o 2017, nascido num ano quente e seco. Mostra-se ainda muito concentrado e rico, um Vintage rijo, com muitos anos pela frente. O 2016, com algumas parecenças com o 2017, mas mais elegante e a mostrar uma grande harmonia de conjunto. Já no 2007 encontrámos algumas semelhanças de estilo com o de 2024, ambos nascidos em anos mais frescos, este já a mostrar alguns aromas de garrafa. Dá muito prazer a beber.
O ano de 2003 foi especialmente quente e gerou vinhos com muita concentração e cor. É um tipo de Vintage que precisa de muitos anos para começar a mostrar o seu melhor perfil. É este o caso. Com 23 anos de vida, começa agora a abrir e a mostrar muita elegância, com curiosas notas de eucalipto e leve mentol. Uma bela surpresa. Terminámos esta viagem ao passado com o 1994, este a mostrar uma (eventual?) evolução algo precoce, a dizer-nos que poderá estar já no seu melhor momento de prova. Mas bebe-se muito bem agora.
Globalmente, o negócio do Vinho do Porto vai mal, com o registo de quedas acentuadas nas vendas mas, a contrario sensu, “nunca se vendeu tanto Vinho do Porto de categorias especiais como agora”. E hoje há muito mais empresas a engarrafar Vinho do Porto do que havia há algumas décadas. No caso do Vintage, a tradição sempre o ligou às empresas de Vila Nova de Gaia, porque recebiam vinhos de vários produtores e, depois, faziam o lote e distinguiam os anos de maior e menor guarda (daí nasceu a ideia do Clássico e não Clássico, ou single quinta).
Os novos produtores do Douro não têm a tradição da declaração do Vintage, nem dispõem da mesma diversidade de lotes de zonas diferentes, como sempre aconteceu com as empresas. David Guimaraens não deixou nada para o fim e afirmou: “os Vintages não são vinhos democráticos, são vinhos para os apaixonados. Se queremos democracia, já temos os tawnies”. E os 2025? perguntámos em antecipação. É cedo para dizer, mas “têm muita cor”, concluiu o enólogo.
A apresentação dos vintages da Sogrape foi um momento de celebração e, claro, de regozijo. É que desde 2018 que a Ferreira não declarava um Vintage Clássico. O termo clássico, muito caro às empresas inglesas e muito negligenciado por muitas outras, é aqui empregue, porque foi nesses termos que Luís Sottomayor, chefe da equipa de […]
A apresentação dos vintages da Sogrape foi um momento de celebração e, claro, de regozijo. É que desde 2018 que a Ferreira não declarava um Vintage Clássico. O termo clássico, muito caro às empresas inglesas e muito negligenciado por muitas outras, é aqui empregue, porque foi nesses termos que Luís Sottomayor, chefe da equipa de enologia da Sogrape, se referiu à edição de 2024 dos vintages da empresa.
Recordemos que, para os ingleses, clássico significa que se trata de um ano excepcional em que são editados vinhos com o próprio nome da empresa, como Fonseca, Taylor’s, Graham, etc. A distinção faz-se em relação aos anos não clássicos, para os quais a comunidade inglesa criou a designação single quinta, vintages com nomes das quintas, bem mais baratos e, em princípio, sem a profundidade e longevidade dos clássicos.
O ano de 2014 é um ano clássico e todo o sector está a declarar com as principais marcas. Isso já não acontecia desde o último Clássico, o de 2017. Curiosamente, e teimosamente, a Ferreira, optou por não declarar o 2017, mas sim o 2018. E Luís Sottomayor não se arrepende, tal como deixou transparecer recentemente, reafirmando o seguinte: “no futuro, ainda me vão dar razão de ter declarado o 18 e não o 17!”
Em relação aos mais recentes anos realmente declarados por todos (2011), poderia haver a tentação de uma comparação com o 2024. No entanto, o 2011 foi um ano muito mais quente. Gerou vinhos poderosos, mas mais gordos e cheios, ao contrário do 2024 que, beneficiando de um clima favorável, originou vinhos muito mais elegantes e finos. Percebe-se, assim, melhor o comentário do enólogo: “o vintage [20]24 tem uma classe que o [20]11 não tinha!”
Duas casas, diferentes tempos e estilos
As uvas vêm da mesma região, por vezes de zonas bem próximas, e com elas podem fazer-se perfis de Vinho do Porto bem diferenciados. No caso da Ferreira e da Sandeman, esse aspecto é relevante. O facto de, em novos, os vinhos serem mais ou menos robustos não condiciona necessariamente a evolução em cave. Se no momento do nascimento forem feitos com equilíbrio e bom balanço, podem atingir o mesmo nível de qualidade. Na Ferreira fazem-se vinhos que nascem com elegância, no seguimento do estilo criado por Fernando Nicolau de Almeida, sempre bem distinto do estilo dos ingleses; já na Sandeman são vinhos mais rijos, com taninos bem presentes, feitos com muito engaço, para terem aromas um pouco mais herbáceos e vegetais.
A Sandeman só entrou para o universo Sogrape em 2002 e houve uma mudança de estilo uma vez que, segundo Luís Sottomayor, sobretudo nos anos 80 do século XX, os vinhos estavam em perda de definição. Em 1994 o vinho mostrou uma recuperação de perfil que se concretizou, depois, no de 1997, ora provado. Tradicionalmente, a Sandeman abastecia-se em pequenos produtores, em Celeirós, Pinhão e Rio Torto; a primeira propriedade que esta casa possuiu foi a Quinta do Vau. No fundo, todas as empresas ainda compravam (e compram) vinho feito, sobretudo em adegas cooperativas, para suprir as lacunas em vinho e, ao mesmo tempo, cumprir o benefício.
Luís Sottomayor não tem dúvidas: “o vintage 2024 tem uma classe que o 2011 não tinha!”
Feitas as apresentações, importa falar acerca da prova de vintages, momento em que foram revisitadas algumas edições antigas das duas empresas. Da Ferreira, provámos o Vintage de 1952, nascido numa década muito parca em bons vintages. O grande ano Clássico dos anos 50 foi o Vintage de 1955; nos outros anos, aqui e ali, houve vintages interessantes. O de 1952, nascido provavelmente em vinhas de field blend, teria uvas da Quinta do Seixo, Eira Velha (propriedade que, hoje, pertence à Fladgate), Quinta de Roriz e, talvez, algum vinho da Quinta do Vesúvio. As uvas eram vinificadas nas propriedades do Douro. Os lotes eram feitos em Gaia. Este Vintage de 1952 mostrou-se acastanhado na cor, com uma delicadeza aromática estonteante, uma riqueza de pequenas nuances, onde já se revelavam alguns frutos secos ao lado de notas licoradas e fruta em calda, caramelo e leite-creme, com perfeito equilíbrio na boca (19,5). Este Vintage nasceu no mesmo ano do primeiro Barca Velha e Luís Sottomayor fez questão em salientar: “ainda está aqui com capacidade para viver, e bem, em garrafa!”
Provou-se também o Vintage Sandeman 1963, um ano verdadeiramente marcante na história do Vinho do Porto. Foi o primeiro fôlego positivo depois do ambiente depressivo do pós 2ª Guerra, em que o vinho não se vendia e as empresas estavam descapitalizadas. Foi também o último ano que, no Douro, todo o Vinho do Porto foi feito a lagar. A partir de 1964 começaram a usar-se os auto-vinificadores e o Douro não voltou a ser o mesmo. O Vintage de 1963 que, em conjunto com o de 1966, formam os dois anos clássicos da mesma década, mostrou ainda bons tons avermelhados (ao contrário do Ferreira de 1952), com muito boa presença aromática, muito fino, a notarem-se com evidência os tradicionais aromas de garrafa. Licorado na boca, ainda com atractiva austeridade (19).
Da Sandeman provámos também o 1997. Aqui também falamos de um ano Clássico. Mostrou-se com muita cor, aroma com leve oxidação, mas boa fruta vermelha em compota. Ainda com taninos firmes, combinando estrutura com suavidade. Nesta época seria seguramente a Quinta do Vau a base das uvas para este Vintage (18).
Para completar esta prova, que antecedeu a dos 2024, ainda provámos o Ferreira Vinhas Velhas 2018. O vinho mostrou-se extraordinário, com grande estrutura, vigoroso, doce, mas no ponto certo, a revelar uma saúde de ferro e um equilíbrio a que a acidez deu forma. Logo na altura da pisa a pé, nos lagares da Quinta do Seixo, Luís Sottomayor afirmou, ao provar o mosto do 2018 que não se lembrava de ter provado um vinho de vindima com aquela qualidade; a mesma sensação foi evidente em 2024. São vinhos com um açúcar que ronda os 100 gramas por litro, embora essa doçura não seja evidente, permanecendo escondida pela complexidade do vinho.
Nos Vintage Ferreira, encontramos sobretudo Touriga Nacional, Touriga Francesa e Sousão, tudo vinificado em conjunto. Nos Sandeman, temos uvas de vinha velha, Touriga Nacional, Touriga Francesa e mais Sousão, com mais peso do engaço.
O facto da Sogrape dispor de 600 hectares de vinha na região do Douro permite identificar as parcelas que poderão contribuir para o estilo de cada uma das casas. Podemos afirmar que o backbone da Sandeman é a Quinta do Seixo (margem esquerda) e o da Ferreira é a Quinta do Porto (margem direita). Também foi declarado o Vintage Offley que terá, sobretudo, expressão em alguns mercados externos, como a Dinamarca. Não foi objecto de prova.
Os vinhos novos são colocados em tonéis não atestados, com algum ar e é isso que permite verificar quais os que aguentam esse embate. Os que oxidarem rapidamente mostram que não têm garra para aguentar o futuro. É um teste fundamental. Estes, cremos, têm um longo futuro pela frente. Os preços são indicativos e não vinculativos.
Estamos na época dele. Consumido cru em salada, integrado em caldos ou no fundo de cozinhados longos, este é o momento certo de lhe fazer a justa homenagem. Portugal tem fortes responsabilidades no consumo do fruto que se vende na secção de legumes. Não é o maior amigo do vinho, mas há caminhos bons para […]
Estamos na época dele. Consumido cru em salada, integrado em caldos ou no fundo de cozinhados longos, este é o momento certo de lhe fazer a justa homenagem. Portugal tem fortes responsabilidades no consumo do fruto que se vende na secção de legumes. Não é o maior amigo do vinho, mas há caminhos bons para o explorar.
O que temos como certo é que é coisa recente na história da Europa. Há 400 anos apenas, o tomate ainda era tratado como coisa rara, apenas ao alcance da realeza e da corte espanhola. Hoje, nem nos atrevemos a pensar que o tomate pode faltar nas nossas hortas e nas nossas mesas. Foram os descobridores espanhóis que lhe pressentiram a utilidade e, mesmo assim, de forma renitente. Vieram da América do Sul com a designação que lhes foi então comunicada, de zitomatl, como incas e astecas se lhe referiam.
Os irrequietos mercadores turcos terão divulgado com mais eficácia o produto, limando as arestas à grafia original. Nasceu assim o “tomato” e o tomate, que é atualmente como conhecemos o nosso amigo. Volta diferente levou por Itália, já que aí entrou como “fruta dourada” ou pomo d’oro. Em italiano, o produto ficou imortalizado como pomodoro, e é assim que se diz tomate em Itália.
Por cá, ficámos numa situação intermédia, mas é inequivocamente tomate o que lhe chamamos. Solanum lycopersicum é o nome científico que lhe é internacionalmente atribuído. Quer dizer que é um legume do grande grupo das solanáceas, no qual encontramos também a batata, o pimento e a beringela, entre muitos outros. É possível, no entanto, considerá-lo como fruto do tomateiro. No supermercado, encontramo-lo inequivocamente entre os legumes, mas ligações ao tomate cereja e a doçura que adoramos no tomate coração de boi fazem-nos pensar que não é assim tão óbvio. O assunto é tão apaixonante quanto fraturante. Há que assumir, contudo, essa dualidade, se lhe quisermos sondar a dualidade que evidentemente tem.
Produção mundial e por cá
O maior produtor de tomate é a China, onde a produção total ultrapassa 67 milhões de toneladas anuais. Número impressionante, com a qual talvez não contássemos. Em segundo lugar surge a Índia, com os incríveis 21 milhões de toneladas anuais. A Turquia é o terceiro maior na produção deste fruto, com 13 milhões de toneladas a seu cargo, no quadro global. Os EUA produzem dez milhões de toneladas. A Itália é responsável pela produção de sete milhões de toneladas, seguida do Egito (6,2 mil toneladas) e Espanha (4,7 mil toneladas). Portugal ocupa um honroso 15º lugar, com a surpreendente produção de 1700 toneladas.
O cenário muda muito quando olhamos para a produção per capita. Aí, podemos dizer que Portugal é campeão mundial, já que a produção anual no nosso país é de cerca de 170 quilos por pessoa. A Turquia ocupa o segundo lugar, com 160 quilos por pessoa, e a Itália o terceiro, com 110 quilos por pessoa. O Ribatejo concentra a maioria da produção do tomate português, e a Unilever sabe-o bem.
Numa longa conversa que tive há uns anos com o presidente desse industrial da alimentação mundial, confidenciou-me que a referida empresa é o maior comprador de tomate do nosso país. Também me disse que era para sopa de tomate Knorr, líder absoluta de vendas e muito do gosto de todo o mundo. Tive o raro privilégio de visitar uma unidade de produção na Alemanha que mudou a forma. Como olho para o mercado global. No caso vertente, com admiração imensa, claro. E passei a ser cliente desta sopa de tomate. Ainda hoje utilizo o muito que aprendi com os chefs que produzem delícias a partir desta simples sopa de pacote.
É bom para a saúde
Sabemos, por experiência própria, que o tomate apresenta uma acidez fixa notável. E aprendemos que contém boa doçura. Na sua época, podemos comê-lo à dentada, como se de uma maçã se tratasse ou de um fruto ainda mais doce. O tomate é, de facto, um fruto notável, e atinge o seu auge exatamente nesta altura do ano. Conhecemo-lo em cores e pontos de maturação variáveis e utilizamo-lo intensamente, em diversas aplicações.
Em jeito de voo rasante, vale a pena olhar para o seu perfil nutricional e energético. Começa por ser benéfico para o coração. Por ser rico em elementos antioxidantes, mantém veias e artérias mais limpas, favorecendo muito a circulação. Além disso, é precioso na regulação da tensão arterial. O licopeno, componente importante do tomate, juntamente com vitamina C e outros antioxidantes, contribui muito para a saúde e condição do sistema cardiovascular. Encontram no potássio parceiro forte nessa tarefa.
Outro aspeto para o qual tendencialmente olhamos menos, o consumo regular de tomate ajuda a manter uma pele macia e corretamente hidratada. Minimiza os poros dilatados e ajuda a regular com maior eficácia a perda excessiva de líquidos. A visão também beneficia muito com o consumo de tomate. A riqueza em vitaminas A e C é determinante para esse efeito e, sobretudo, os betacarotenos, que, entre outros, combatem o surgimento de perturbações, como as cataratas. Tornam-nos mais eficazes na ação anti-inflamatória de que precisamos todos os dias. A composição dos ossos é favorecida com a presença forte de vitamina K. Na forma direta, faz frente a maleitas crónicas, como a osteoporose.
Tem trono na cozinha portuguesa
Praticamente todas as preparações de caldos e fundos de cozinha portugueses utilizam o tomate como base. A mais evidente é o gaspacho, a sopa fria de que tanto gostamos. Podemos fazê-lo à moda andaluza, com base triturada de tomate e ervas aromáticas, depois gelada e consumida como se de um refresco se tratasse. Juntamos-lhe brunesa apertada de pepino e outros hortícolas e temos uma fonte rica e sápida que na canícula nos salva a vida.
O gaspacho alentejano é mais explícito neste aspeto nutritivo, pois é estritamente baseado no corte dos ingredientes crus; o resto é feito pela alquimia a que a boa cozinha alentejana nos habituou. Confesso a minha preferência por esta abordagem, pois aprecio particularmente a interação com os diferentes componentes frios na mastigação. Se acrescentar uns pedaços de presunto, cria mais uma dimensão na perceção do gosto. Gosto muito de harmonizar o gaspacho com um Chardonnay de Lisboa sem madeira. A riqueza aromática do vinho vai combinar na perfeição com o património de ervas aromáticas que utilizar.
Um bom fundo de caldo para estufar ou assar uma peça de carne também gosta e agradece a presença de bom tomate. O processo de cozedura prolonga-se por mais tempo, e o proveito é maior, em termos de sabor. Aliás, é muitas vezes aqui que está a transição para vinho tinto no momento de harmonizar. Uma perdiz estufada à portuguesa precisa e gosta de um tinto encorpado, ainda que elegante. Por outro lado, um pargo assado fica muito valorizado com uma cama de legumes que inclua tomate. Está aqui a combinação ótima para tomate chucha. Com um piso de orégãos e alho por debaixo, o sabor vai mais longe, assim como o prazer.
Na cozinha de inspiração italiana o tomate é fundamental. Pegue num tomate e escalde-o ligeiramente, para que pelá-lo se torne tarefa mais simples. Pique um alho bem picado, junte-lhe azeite numa sertã, folhas frescas de manjericão e faça um fundo para massas que, juntamente com o tomate salteado e cortado, vai dar origem a um fundo que pode congelar em porções a utilizar a gosto quando precisar. Na ligação com o vinho, não se esqueça de que talvez resulte melhor um tinto ligeiro ou mesmo um rosé do que um branco, por ser mais acídulo. Ideal é um tinto alentejano pouco extraído, sem estágio em madeira.
Um galo estufado em vinho tinto precisa e merece bom tomate na composição do fundo. Trata-se de um prato de gosto internacional que não vive sem tomate na composição do fundo de cozinha utilizado. Uma boa base de partida é o maravilhoso capão à Freamunde, que, hoje, já se garante ao longo de todo o ano. Uma perna de capão assada no forno faz-se e aguenta da mesma forma que se faz um pernil de porco. A gordura que tem na sua estrutura vai-se libertando lentamente e nós vamos esperando pacientemente, num jogo que dura três horas, a última das quais passada na companhia de tomate, em fusão perfeita de sabores e texturas. Do caldo do assado faz-se um ótimo arroz e do tomate que restou faz-se uma bela salada caprese. Corta-se o tomate em rodelas e junta-se queijo mozarela fresco e rega-se com bom azeite virgem extra. É a glória e o triunfo da autêntica cozinha mediterrânea.
Em compota, iguaria de deuses
Estava eu na escola primária quando a professora Beatriz, num dia para mim inesquecível, se apresentou logo de manhã com um frasco de doce de tomate e bolachas de água e sal. Apenas duas colegas minhas de família ribatejana conheciam, e adoravam. Todos os outros, meninos da cidade, estavam completamente no escuro neste assunto. Nessa altura, eu fugia do tomate como o diabo da cruz e foi a medo que provei um pouco do doce de tomate da Beatriz. A minha reação foi tão efusiva que, mais tarde, tive direito a um frasco inteiro para levar para casa e dar a provar à minha família. Tinha o sabor do tomate, mas explorava apenas o lado frutado, nada de amargos nem acidez que provocasse sequer a mínima rejeição. Depois conversámos durante algumas aulas sobre o tomate e fiquei rendido. Passei a gostar de tomate maduro em salada e em sopa. É com despertares destes que verdadeiramente despertamos para a vida. E o doce de tomate da minha querida e primeira professora Beatriz ficou-me marcado na memória como o melhor do mundo. Até hoje, não foi destronado, o que quer dizer que fui bem iniciado.
Tenho tido, nos últimos anos, o grato prazer de provar tomate coração de boi do Douro. Aconteceu ocasionalmente a iniciação como acompanhamento de um excecional cabrito numa quinta da referida região, com os olhos postos no rio Távora e na torreira do sol. Achei excelente e quis visitar a horta, no que fui atendido, mas no final da tarde, porque a temperatura ultrapassava os 50º C.
O tomate coração de boi é universal, mas no Douro tem expressão particular. Tanto, que um grupo de produtores se junta atualmente em evento e concurso dedicado ao copioso fruto. Hoje, temos concursos para tudo, e ainda hoje não estou convencido de que se deva fazer tal aproveitamento de um produto excecional como é o tomate coração de boi do Douro. A festa que acontece e a dinamização cultural que com os anos consolidou, no entanto, justificam vastamente que se aprofunde o assunto.
Seco, pelado e em creme
Quando a família dinamarquesa Jorgensen decidiu fixar-se no Alentejo, dedicou-se a duas produções muito especiais: o tomate seco e a meloa. Só conheci a Carrie e o Hans Jorgensen anos mais tarde, quando ambos os negócios tinham sido derrotados pela voracidade da grande distribuição e por resistência à mudança; e quando o consultor de viticultura australiano Richard Smart os estava a assistir na plantação das que viriam a ser as vinhas de Cortes de Cima.
No entanto, em casa consumiam e utilizavam tomate seco em muitas aplicações. Hoje, a filha Anna Jorgensen é a responsável pelos vinhos e já diversificaram as vinhas, a ponto de terem produção junto ao mar. Fazem belíssimos vinhos e o assunto do tomate seco ficou devidamente arquivado. Como sou do contra, continuo a utilizá-lo em saladas e num lombo de porco assado que faço em casa. Confesso que lamento o abandono prematuro da produção. Porém, vou-me consolando com o que vou encontrando no Apolónia, no Algarve, e no El Corte Inglés, em Lisboa.
O já referido gaspacho andaluz pode ser feito com tomate pelado de lata, desde que se escolha bem o produtor. Falei sobre ele na conversa longa que tive com o presidente da Unilever, e é sem dúvida um produto premium que Portugal tem , mas pode não estar a utilizar em pleno. Por outro lado, está omnipresente em soluções culinárias de menos qualidade. Importante é reter que não temos de estar à espera do tempo do tomate para ter um bom gaspacho na mesa. A indústria já tratou disso. Tanto, que até temos hoje bisnagas de creme de tomate prontas a utilizar. No Apolónia existe em várias marcas, todas ótimas. Para enriquecer uma massa italiana ou para fazer um arroz rápido, funciona perfeitamente.
Histórias e estórias com tomate
Não posso deixar de partilhar algumas petites histoires com o fruto de que temos estado a falar. E algumas glórias que guardarei para sempre na memória. Quando vamos ao maravilhoso Manjar do Marquês, em Pombal, damos com uma grande casa capaz de albergar centenas de comensais. A cozinha tem ótimos profissionais, mas continua a ser Maria de Lurdes Graça, a proprietária, a fazer o arroz de tomate. A grande senhora confidenciou-me, há muitos anos, que o dito arroz é feito em nunca mais de dois quilos de cada vez, para manter intactos o cereal e o sabor. O arroz é carolino, como tem de ser, mas o segredo maior está no tomate. É que em cada campanha, a casa abastece-se de tomate e mantém-no em câmaras frigoríficas brutais, instaladas por debaixo de todo o espaço do restaurante.
Em Lisboa, no restaurante Galito, faz-se a melhor sopa de tomate que conheço. Henrique Galito e seu filho Leonardo produzem o que outrora só existia na Serra d’Ossa, perto do Redondo. Falo da sopa de tomate com garoupa e ovo escalfado, absolutamente redentora. Foi Gertrudes Forte, mãe de Henrique Galito e avó de Leonardo, que lançou as bases desta maravilha, que continua a fazer-se. E a fazer-nos mais felizes.
Também pelo Alentejo, pulsa bem forte um coração inquieto e desinstalado, no peito do enorme chef António Nobre. Neste momento da sua vida, está retirado das lides profissionais, mas é a ele que devo uma das maiores surpresas à mesa. Falo das coxas de rã de tomatada, iguaria que devia constar da bandeira nacional. Nem toda a gente gosta, sobretudo quem nunca provou e tem aversão a provar. Quem provou, quer e deseja. Equilíbrio notável de sabores, comem-se à mão uma a seguir à outra, e nada nem ninguém nos faz parar. Devemos todos muito a António Nobre, por delícias como esta, que soube aprimorar como ninguém. E viva o tomate!
“Tudo isto nasce de um sonho, de querer fazer algo diferente.” As palavras de Paulo Teixeira, proferidas na inauguração da nova loja Paulo Teixeira Vinhos, revelam a enorme paixão manifestada pelo próprio em relação ao mundo dos vinhos, pelo qual enveredou nos anos 90 do século XX. Situado no Caminho da Levada, “a dois quilómetros, […]
“Tudo isto nasce de um sonho, de querer fazer algo diferente.” As palavras de Paulo Teixeira, proferidas na inauguração da nova loja Paulo Teixeira Vinhos, revelam a enorme paixão manifestada pelo próprio em relação ao mundo dos vinhos, pelo qual enveredou nos anos 90 do século XX. Situado no Caminho da Levada, “a dois quilómetros, em linha reta, do centro de Ponta Delgada”, este espaço dedicado aos vinhos, bebidas espirituosas e azeites marca o novo capítulo da história da família, ou não estivesse o filho mais velho, “Paulo Teixeira Júnior”, inteiramente focado neste novo desafio.
A nova loja ocupa uma área de 157 metros quadrados, permitindo a capacidade para a expor 12 500 garrafas de meia centena de produtores nacionais e de todas as regiões vitivinícolas de Portugal, inclusivamente de cinco ilhas do arquipélago açoriano, além do armazém, com 150 metros quadrados. Itália, França e Espanha são outros dos países representados neste espaço amplo e com uma decoração sóbria e contemporânea traçada pelo bom gosto, e devidamente climatizada.
Carlos Farinha, Diretor Regional do Turismo da Secretaria Regional do Turismo, Mobilidade e Infraestruturas dos Açores, presente na inauguração, salientou a importância que este espaço representa para o turismo da região. O representante do Turismo do Governo Regional dos Açores evidenciou ainda a preponderância “da sala de provas e de formação” da Paulo Teixeira Vinhos, “onde se vão realizar formações ligadas ao vinho, particularmente numa altura em que tanto se fala da necessidade de qualificação da nossa oferta turística”.
Loja com sala de provas
Para assumir a missão de conduzir provas as vínicas na sala de provas, Paulo Teixeira reuniu “três pessoas com curso de formação de formadores e grande conhecimento sobre vinhos”. O porquê desta decisão? “Temos consumidores atentos, clientes fiéis e consumidores que querem provas, formações, que querem aprender mais sobre vinho”, justifica.
Além dos cursos de iniciação à prova, um de duas horas e outro de quatro horas, sendo que, este último, inclui um jantar no final, estão desenhadas provas de vinhos regionais, seja de Portugal Continental, seja das ilhas, por forma “a mostrar a diversidade sobre o que se faz nos Açores”. Sem esquecer a Madeira. Por último, mas não menos importante, há a vertente de formação para os profissionais de restauração e hotelaria. Para o nosso anfitrião, é fundamental aprimorar o conhecimento na área da hotelaria e da restauração: “como vender vinho, como sugerir vinho, como articular o vinho com a gastronomia.”
“Quero que o espaço seja versátil”, acrescenta Paulo Teixeira. O proprietário destaca a vontade de a garrafeira abrir portas a apresentações de livros sobre vinhos, de um vinho topo de gama, de uma bebida de excelente qualidade, de uma moto, de uma máquina agrícola ou a uma exposição de pintura. “Por que não fazê-lo na ilha de São Miguel?”
“Tudo isto só é possível quando há clientes, quando há mercado, quando há uma economia que responde, e à vontade de fazer”, declara Paulo Teixeira, revelador da arte de bem receber e saber ler o que o cliente pretende. Afinal, a experiência neste setor já o acompanha há cerca de três décadas, quando de um cargo ligado à distribuição de vinhos passou a pôr em prática a venda direta ao público, numa garrafeira em Ponta Delgada. Daí a “traçar o próprio caminho”, com uma distribuidora em nome próprio, foi quase um passo.
Viajar para conhecer
Foi o que aconteceu a 1 de fevereiro de 2010, data marcada pelo arranque da Paulo Teixeira Vinhos no então armazém, agora reconvertido em loja de vinhos com o mesmo nome. “Trabalhei sozinho durante quatro anos: comprar, vender, cobrar, entregar e pagar. De 2010 a 2014.” No final de 2014, admitiu o primeiro funcionário.
Pelo meio, frequentou e concluiu cursos associados à prova de vinhos. Inicialmente, não “Nesta altura, não tinha um nariz tão evoluído como tenho hoje. Era o grande desgosto que eu tinha. Cheguei a estar uma semana inteira em Lisboa, só para fazer um curso de iniciação à prova”, mas assegura que concluiu cada curso com distinção, muito à conta das provas sistemáticas que foi fazendo, para conseguir atingir a perfeição. Ia às feiras nacionais e visitava produtores.
“Fiz provas que marcaram a minha vida” e convites para visitar adegas não faltam, “mas não visitei todas, por não ter tempo disponível para o fazer. Montei uma empresa do zero e precisei de ir construindo e solidificando relações, parcerias e portefólio, ser criterioso e sentir o projeto”, sublinha. Visitou feiras internacionais, como a Vinexpo, a Prowein e a Vinitaly, para ampliar conhecimento.
“Ultimamente, tenho investido muito em formação de vinho estrangeiro. Tenho ido lá fora para provar em Itália, França, Espanha, Austrália, Chile. Quero trazer mais vinhos do mundo para cá. Os açorianos merecem ter este conhecimento e terem acesso a vinhos que se produzem lá fora”, afirma Paulo Teixeira, que, no novo espaço, abre o leque das diversidades no contexto das bebidas espirituosas. “Já foi a Cuba provar runs, a Inglaterra, para ver como se faz gin, ao Brasil pela cachaça, a Cognac…” O propósito é ir às raízes, para perceber como são as bebidas originais, “poder vender com conhecimento e adequar o produto à necessidade do cliente. Há que ser profissional na área”, evidencia o nosso anfitrião, que mantém a operação de distribuição, a partir do armazém inaugurado a 1 de fevereiro de 2025, no Pico D’Agua Park, com 560 metros quadrados. Sobre este tema, Paulo Teixeira informa que distribui para perto de 50 restaurantes da ilha de São Miguel, para além dos que reúne nas ilhas das Flores, do Faial, da Graciosa, da Terceira e de Santa Maria.
O Douro Superior é a sub-região duriense mais oriental, localizada entre o Cachão da Valeira e a fronteira com Espanha, e reúne a maior extensão de terra, cerca de 110 000 hectares, de acordo com os dados do Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto. É considerado o território vinhateiro mais quente, quando comparado […]
O Douro Superior é a sub-região duriense mais oriental, localizada entre o Cachão da Valeira e a fronteira com Espanha, e reúne a maior extensão de terra, cerca de 110 000 hectares, de acordo com os dados do Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto. É considerado o território vinhateiro mais quente, quando comparado com o Cima Corgo e o Baixo Corgo. Do rio ao topo da montanha, o desnível é acentuado, chegando aos 700 metros de altitude. O clima denuncia verões muito quentes e secos, sendo a pluviosidade, que decresce à medida que se aproxima a zona raiana, um dos fatores que mais contribui para este cenário de extremos.
No entanto, os guardiões do Douro Superior mantêm a atividade de produção de uva nos mais de 10 000 hectares de vinha plantada nesta sub-região. E os produtores de vinho integram uma lista eclética, desde quem preserva um legado secular aos investidores mais recentes, passando pelas adegas cooperativas, onde os agricultores desempenham um papel fundamental. Eis precisamente três exemplos de visita efetuada por ocasião da edição de 2026 do Festival dos Vinhos do Douro Superior, iniciativa organizada pelo Município de Vila Nova de Foz Côa e produzida pela Revista Grandes Escolhas
“A Quinta da Silveira é uma das quintas mais antigas do Douro Superior”, declara Manuel Maria Martinho
Manuel Maria Martinho e Manuel Marinha Martinho, filho e pai
Quinta da Silveira
Em busca de terras livres
“A Quinta da Silveira é uma das quintas mais antigas do Douro Superior.” A apresentação é iniciada por Manuel Maria Martinho, médico da especialidade de cirurgia plástica reconstrutiva e estética, em Lisboa, anfitrião, produtor de vinho e enólogo. Segue a explicação: “O Douro Superior nasceu da necessidade dos produtores do Baixo Corgo e Cima Corgo deslocarem as suas vinhas quando houve a filoxera, da procura por terras que estivessem livres e que estivessem mais longe do ataque da filoxera, ou seja, onde não houvesse vinhas.” No entanto, António Caetano d’Oliveira, o trisavô de Manuel Maria Martinho, não era proveniente de nenhuma das duas sub-regiões do Douro acima referidas. “Era de Moncorvo.” Portanto, nascera no Douro Superior.
Quando, em tempos idos, surgiu a oportunidade de plantar vinha nesta sub-região, António Caetano d’Oliveira decidiu adquirir terrenos no Vale da Vilariça, no concelho de Torre de Moncorvo, e criou a Quinta da Silveira, com o rio Sabor a um quilómetro de distância. A propriedade, com localização perpendicular ao rio Douro, que dista seis quilómetros dali, é do século XIX e está na família desde 1851. Em 1871, são erigidos os armazéns e a adega em granito. A primeira estrutura da casa também é iniciada nesse ano.
Aquando do falecimento da avó do nosso anfitrião, os descendentes herdaram a quinta e, posteriormente, os netos: Ana Maria Martinho, mais conhecida pelo público, sobretudo pelos leitores de palmo e meio, por Ana Maria Magalhães, Tozé Martinho, ator e argumentista da ficção televisiva nacional (atualmente representado pelos filhos) e Manuel Maria Martinho. Perante tamanho desafio, Manuel Maria Martinho decidiu complementar o conhecimento inerente à medicina com as formações na Escola Profissional Agrícola D. Dinis e na Faculté D’Oenologie, da Universidade de Bordéus, em França, e o mestrado em viticultura e enologia no Instituto Superior de Agronomia, em Lisboa.
Solos, exposições e vindima
Atualmente, a área total de vinha é de 65 hectares, dos quais 25 hectares estão na Quinta do Tourão, a outra propriedade da família, localizada a seis quilómetros dali, também no Vale da Vilariça. Contando com a Quinta da Silveira, a produção incide nos Douro DOC e no Vinho do Porto. Numa era em que o mercado se afirma na competição, Manuel Maria Martinho faz questão de enaltecer os atributos da Quinta da Silveira. “É que nestes 65 hectares de vinha, temos montanha, temos a terra mais fértil do país, que é a parte baixa do Vale da Vilariça, considerada, juntamente com os Barros de Beja e a Veiga de Chaves, uma das três partes mais férteis do país. E isso, não tem uma grande vantagem aparente para as vinhas, porque as vinhas querem terreno com muita pedra”, descreve.
Junto à Ribeira da Vilariça, as vinhas estão a 100 metros de altitude; até ao muro da propriedade, estão até aos 150 metros de altitude; atrás do casario, estão em socalcos e vão até aos 300 metros de altitude. No caso da Quinta do Tourão, onde o xisto predomina nos solos, as vinhas, em patamares, vão dos 100 aos 200 metros de altitude. Por conseguinte, todas as videiras deste produtor estão contempladas com várias exposições, além de que as temperaturas variam desde a cota mais baixa à mais alta. Os vinhos brancos, por exemplo, são feitos a partir de uvas vindimadas nas vinhas situadas a 100 metros de altitude.
As vinhas mais velhas têm 45 anos, ou seja, não remontam ao tempo em que a Quinta da Silveira foi fundada, e as castas estão separadas, e não misturadas em campo, tal como se fazia outrora. O vinho é produzido apenas a partir das uvas das duas propriedades e a colheita ocorre quando a matéria-prima atinge o ponto de maturação “que nós queremos. Isso só acontece quando temos as castas separadas”. Viosinho, Gouveio, Arinto, Rabigato, Códega de Larinho e Malvasia Fina estão contempladas na lista das variedades brancas, enquanto, nas tintas, constam Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Barroca, Sousão e Tinta Amarela. “São estas que usamos mais”, acrescenta Manuel Maria Martinho.
Lagares em granito
Os edifícios originais da propriedade permanecem de pé e “o vinho continua a ser feito onde sempre foi”, afirma o nosso anfitrião, embora a parte técnica tenha sido melhorada à medida que as exigências com a produção foram evoluindo. No interior da adega, estão sete lagares, cada um com 20 metros quadrados. “Todos em granito”, reforça Manuel Maria Martinho, onde as uvas são esmagadas a pé, no primeiro dia. “Depois trabalha-se com as remontas de bomba”. O mosto é retirado para a lagareta (pequena pia em granito instalada na parte exterior dos lagares) e, posteriormente, “remontado para cima ou por baixo, dependendo se queremos ou não baixar a manta”, elucida.
Da sala dos lagares, o acesso ao espaço onde estão instaladas as barricas do vinho Douro DOC e os tonéis do Vinho do Porto é feito por uma escada. Muito do Vinho do Porto aqui produzido era vendido diretamente às casas exportadoras. Nos anos 90 do século XX, o fortificado passou a ser engarrafado. Os Douro DOC um pouco mais tarde. Na enologia, Manuel Maria Martinho conta com o apoio do enólogo Rodrigo Martins (mentor do projeto Espera Wines e consultor em outras propriedades). “Ajuda a fazer os lotes comigo e provar – prova muito bem”, reforça. A dois passos dali, num vetusto armazém, estão guardadas pipas bem antigas, a respeito das quais Manuel Maria Martinho deixa a garantia que jamais as venderá!
Em 2019, João Carvalho comprou a Quinta do Pocinho, no concelho de Vila Nova de Foz Côa, cujas vinhas ocupam uma área de 23 hectares
Antes do Douro
A 13 quilómetros da Quinta da Silveira, rumo a norte, está a Quinta do Pocinho, de João Carvalho, nome indissociável à Quinta dos Termos, na região da Beira Interior. “Foi lá que nasci, foi lá que fui criado e, quando fui para a universidade disse ‘adeus e não me apanhas cá mais’”, afirma o engenheiro têxtil e proprietário da referida propriedade vitivinícola com 60 hectares de vinha localizada em Belmonte, mais concretamente nos termos dos distritos de Castelo Branco e Guarda. Com uma área total de cerca de 200 hectares, e situada entre os 500 e os 550 metros de altitude, abrange dois concelhos e três freguesias, e está na família há mais de 300 anos – foi vendida no final do século XIX e recomprada, em 1945, pelo pai, Alexandre Carvalho. No mesmo território vitivinícola, detém, desde 2015, a Herdade do Lousial, em pleno Campo Albicastrense, também no distrito de Castelo Branco, localizada a aproximadamente 450 metros de altitude e com 53 hectares de vinha, aos quais, em 2027, serão somados 7,5 hectares.
Apesar da multidisciplinaridade da química, amplamente apreendida na época universitária, João Carvalho manifesta-se um defensor do “conceito da terra, conceito da natureza”. Ou seja, “nós somos totalmente avessos a químicos em qualquer uma das quintas”, à exceção dos herbicidas de contacto. Esta ação contribuiu para o facto de a Quinta dos Termos ter sido, no início da década de 2000, “a primeira adega, em Portugal, certificada em sustentabilidade” e a única com este selo durante uma década. Porém, “se recuarmos dez, 12 anos no tempo, não utilizávamos qualquer tipo de herbicida. Mantinha um batalhão de gente, desde princípios de abril a finais de junho. Hoje, já não é possível”.
Pelas castas tradicionais
Em 2019, investiu na sub-região do Douro Superior. Destino? A Quinta do Pocinho, na aldeia do Pocinho, no concelho de Vila Nova de Foz Côa, propriedade certificada com o selo oficial de certificação de sustentabilidade. Quanto ao pocinho, apesar da sentença muitas vezes lida, permanece na propriedade.
A zona mais alta desta quinta regista entre 380 e 400 metros de altitude. As boas práticas estendem-se para esta aquisição recente, cujas vinhas ocupam uma área de 23 hectares – serão plantados mais 3,5 hectares –, mas a rega é nula. “Em desespero, regamos por aspersão, mas temos de retirar as ervas”, para evitar a competição com as videiras. “Limpamos a erva do meio do talude para baixo, do meio do talude para cima e deixamos uma faixa com revestimento, para proteger o ecossistema, e temos várias manchas de mato, que deixámos ficar, para a natureza falar por si”, esclarece João Carvalho. E “quando é necessário, faço monda de cachos”, acrescenta. Sobre as castas, o proprietário mencionou a Rabigato e a Viosoinho, nas brancas; Touriga Franca, Touriga Nacional, Tinto Cão e Tinta Roriz, nas tintas.
No seguimento da recuperação das castas antigas – com a Fonte Cal a ter o primeiro campo de seleção clonal próprio na Quinta dos Termos e um outro mais desenvolvido, na Herdade do Lousial – aqui, esta ação estará centrada na variedade tinta Cornifesto, missão essa a pôr em prática em 2027 ou 2028. À semelhança das duas quintas acima referidas, João Carvalho garante o desvelo com a fauna e a flora local, e mantém o olival, que contabiliza mais de 200 anos, ocupando seis hectares de terra – em Castelo Branco, são 18 hectares. “Está em bom estado”, assegura.
Aproveitamento térmico
A nova adega, construída de raiz, está pronta para a vindima deste ano, a qual é feita à mão, tal como acontece nas duas outras propriedades que João Carvalho possui na Beira Interior. Com a forte aposta no enoturismo, o edifício tem loja e sala de provas, com uma varanda imensa virada para o ondulante rio Douro, onde os serpenteantes socalcos cravejados de videiras complementam a paisagem.
Ainda neste andar, há uma janela envidraçada para a sala ocupada pelas cubas, onde, ao fundo, está à vista o núcleo afeto à receção das uvas. Já a cave de barricas, também instalada no piso inferior, está “enterrada” a cinco metros de profundidade. Na sala contígua a esta há uma mina, “que bifurca e tem cerca de 200 metros de profundidade”. Segundo o nosso anfitrião, a água mantém-se entre os 14,5 e os 15,5º C, preservando o ambiente, de todo este espaço, naturalmente fresco.
Sobre os vinhos do Douro, a primeira colheita é de 2019. Os Reserva branco são submetidos a estágio em barrica com grão extrafino, sem tosta. Já os tintos envelhecem em barricas de tosta média. “De uma forma geral, produzimos vinhos com leveduras indígenas”, remata.
Alexandre Chéu, enólogo, e José Ferreira, presidente da Cooperativa de Freixo Numão
Cooperativa em mudança
A cerca de 17, 5 quilómetros de distância está a Cooperativa de Freixo de Numão, originalmente de viticultores e olivicultores, localizada em Vila Nova de Foz Côa. Segundo o presidente, José Ferreira, até há três anos, “esta casa estava fechada ao exterior. Só vendia, praticamente, vinho a granel”. A partir de 2023, ano em que assumiu a referida função, até hoje, o portefólio aumentou para mais de uma dezena de referências vínicas engarrafadas, entre generoso branco e tinto, licor branco e tinto, amuado, vinho de mesa, Reserva, Grande Reserva e DOC Douro. Escorna Bois, nas versões de branco, rosé e tinto, e Castelo Velho, branco e tinto, constituem a dupla de vinhos mais badalados desta casa, e o Numantino, o licor de uva cuja produção incide na paragem antecipada da fermentação com a adição de aguardente vínica, permanece na lista da exclusividade.
Para firmar esta mudança, Alexandre Chéu, enólogo da Cooperativa de Freixo de Numão, em consonância com José Ferreira, implementou a regra de que quem entregasse uvas em mau estado seria penalizado em 50%. O regulamento foi cumprido. O resultado traduz-se em €450 por pipa, valor correspondente ao pagamento efetuado a alguns sócios, cujo total, respeitante ao setor do vinho, se traduz em aproximadamente cinco centenas.
Em 2027, haverá o lançamento de um Grande Reserva chamado ‘Colheita dos Sócios’ a distribuir, primeiramente, pelos sócios por ocasião do 70º aniversário da Cooperativa de Freixo de Numão. Na lista das boas novas consta a venda de Vinho do Porto, nas categorias Tawny e Ruby, aqui produzidas, assim como o ensaio realizado com a casta Alicante Bouschet, apresentado no Festival do Vinho do Douro Superior. Esta variedade tinta foi submetida a um estágio de oito meses ocorrido em barricas diferentes. “As madeiras foram escolhidas em prova cega”, conta Anastácia Morais, enóloga da Cooperativa de Freixo de Numão e braço direito de Alexandre Chéu, das quais foram selecionadas cinco. Destas, três dividem-se em carvalho francês, americano e nacional, às quais se somaram as de acácia e de cerejeira. O objetivo deste desafio consistiu, desde o início, em mostrar as características que diferem relativamente a cada tipo de madeira que aporta no vinho, bem como dar a conhecer uma Alicante Bouschet sem madeira. O resultado? Seis monovarietais
As uvas entregues da Cooperativa de Freixo Numão são provenientes de 1000 hectares de vinha espalhada pela sub-região do Douro Superior
1000 hectares de vinha
Do passado, permanecem de pé as cubas em betão, outrora usadas na fermentação. Hoje, há duas salas reservadas a esta fase do processo. No entanto, a fermentação não pode exceder muito para lá de uma dezena de dias, uma vez que, durante a vindima, a receção de uva é uma ação constante. “Todas as uvas são selecionadas à entrada”, assegura Alexandre Chéu e todas são provenientes de 1000 hectares de vinha espalhada pela sub-região do Douro Superior. As principais castas são a Touriga Nacional, a Touriga Francesa e a Sousão, para além da Tinta Roriz e da Tinta Barroca, nas tintas, que, no total, ocupam 60% da área de vinha; a Rabigato, a Viosinho, a Arinto e a Malvasia Fina, nas brancas.
De acordo com o nosso cicerone, o ano de 2025 registou uma produção de cinco milhões de litros de vinho, a qual foi totalmente vendida; em 2026, foram produzidos três milhões e meio. Em maio, tinham apenas 60 000 litros de vinho. Alexandre Chéu destacou ainda a reformulação das marcas e o melhoramento da imagem como fórmula de firmar o novo caminho traçado por quem lidera e faz parte da equipa da Cooperativa de Freixo de Numão. “Estamos a crescer e é isso que queremos.”
200 mil litros de azeite
Alexandre Chéu afirma que, no âmbito do azeite DOP Trás-os-Montes, a Cooperativa de Freixo de Numão é “o maior lagar do Douro Superior”. Cobrançosa, Verdeal, Picoal, Galega e a Negrita, esta última “com uma percentagem muito reduzida”, são as variedades de azeitona colhidas em olivais centenários e entregues nesta casa por cerca de centena e meia de associados. A campanha inicia em novembro. A produção deste líquido dourado resulta em 200 mil litros por ano. Chama-se Casa Grande. “É todo extra virgem e fazemos algum biológico.”
Para obter a qualidade superior da matéria-prima, o enólogo sublinha que o lagar funciona 24 horas por dia e todos os dias da semana, asseverando o alto padrão de higiene do lagar. “Toda a azeitona é controlada, é feita a desinfeção, tudo é lavado quando mudamos de um biológico para outro azeite e ali só entram os funcionários”, acrescenta. Terminada a extração, a 22º C, o azeite é transferido para a cuba, onde, à temperatura de 15º C, é feita a decantação por três, quatro meses. Findo este período, “é engarrafado e não leva qualquer tipo de aditivo”. Ou seja, “o azeite que sai da azeitona é o que vai para a garrafa”, afirma.
Este ano, o investimento está a ser feito igualmente neste produto, “com um preço apelativo”. A finalidade é fazer frente ao valor médio estipulado por litro. Em maio, “as nossas vendas de azeite já chegaram aos €15 000, o que é muito bom”, declara o enólogo. A respeito do consumidor, Alexandre Chéu enaltece o mercado além-fronteiras, com a Noruega e a Dinamarca no topo da lista, quão grandes apreciadores do azeite Casa Grande.
Os três dias passados no Algarve em visitas aos produtores, em provas de vinhos e conversas com enólogos e com a Presidente da Comissão Vitivinícola do Algarve (CVA), Sara Silva, foram bastante elucidativos. Confirmou-se a sensação que tinha acerca de uma eventual grande mudança, uma (r)evolução em curso que deixa de ser silenciosa e passa a ser evidente no território […]
Os três dias passados no Algarve em visitas aos produtores, em provas de vinhos e conversas com enólogos e com a Presidente da Comissão Vitivinícola do Algarve (CVA), Sara Silva, foram bastante elucidativos. Confirmou-se a sensação que tinha acerca de uma eventual grande mudança, uma (r)evolução em curso que deixa de ser silenciosa e passa a ser evidenteno território mais a sul do país.
Esta região, quente e árida, que no imaginário colectivo português pouco está associada a vinhos a sério, tem uma característica que mais nenhuma região do nosso país tem: o mercado à porta. O mercado que não se importa de pagar o preço bem mais alto do que no resto de Portugal, sem esmagar as margens aos produtores, como por hábito acontece na exportação. Por isso, hoje, como nunca, o Algarve atrai investimento na área vitivinícola. Já para não falar que cerca de 70% do vinho do Algarve se vende na região.
Em 2016 havia 30 agentes económicos registados na CVA e, numa década, esse número duplicou. O tecido empresarial é muito diverso, desde produtores algarvios que sempre estiveram porcá; um grande núcleo de produtores estrangeiros (o equivalente a 40%), alguns com o foco em potenciar o negócio, outros porque querem ter a sua vinha no quintal; e até grandes empresas que trouxeram o know how de outros regiões do país e uma visão estratégica, como é o caso da Aveleda e da Casa Santos Lima. E há espaço para todos.
Enoturismo e restauração
Eis dois grandes pilares de comercialização e promoção dos vinhos no Algarve. A maior parte dos projectos vitivinícolas na região já nascem com enoturismo pensado de raiz. Naturalmente, mais vocacionado para o público estrangeiro. O turista português não vai ao Algarve para provar vinhos, vai pelas praias e numa de relaxar. O estrangeiro quer tudo o que este territórioportuguês banhado pelo sol oferece, vinho incluído.
O mercado dita as regras do jogo: há uma procura muito forte por brancos frescos, rosés de qualidade e espumantes. O turista do Algarve está acostumado ao Sauvignon Blanc e ao rosé francês. Este vende-se pela cor. Portanto, quanto mais clarinho, melhor. E a proximidade do mercado, quer com o consumidor final, quer com a restauração e agentes de enoturismo, faz com que o feedback recebido pelo produtor seja directo e quase imediato, o que lhe permite ir adaptando o seu portefólio.
Segundo Sara Silva, dos vinhos produzidos no Algarve, 60% são tintos, entre os 30% e 40% são brancos e o restante é rosé. A partir de 2020 também passaram a certificar espumantes e já têm 12 produtores a apostar em bolhas, utilizando, sobretudo, as castas Negra Mole eArinto para esse efeito.
A forma como a restauração algarvia olha para os vinhos da própria região também mudou bastante nos últimos tempos. Há 20 anos a abertura era quase nula, os produtores eram praticamente expulsosdos restaurantes. É claro que, na altura, os vinhos dificilmente competiam com Douro ou Alentejo, mas o cenário mudou.
Cerca de 70% do vinho do Algarve vende-se na região.
DO vs. IG
As denominações de origem, no Algarve, foram demarcadas em 1980, seguindo um critério administrativo e não técnico. Basicamente, a cada adega cooperativa correspondia uma DO. E foram quatro: Portimão, Lagos, Lagoa e Tavira. O vinho regional Algarve só surgiu nos anos 2000, quando as adegas começaram a colapsar. A de Tavira e a de Portimão encerraram ainda no final do século passado e, mais tarde, a fusão da Adega Cooperativa de Lagoa com a Adega de Lagos deu origem à ÚNICA – Adega Cooperativa do Algarve. Literalmente.
As denominações de origem ficaram praticamente atrofiadas, enquanto, a partir de 2000, começaram a surgir produtores privados na região. Estes tinham noção quem era o principal consumidor deles – o turista estrangeiro – e preferiram plantar castas internacionais e nacionais mais conhecidas, como a Touriga Nacional. A IG (Indicação Geográfica) serviu perfeitamente para enquadrar vinhos produzidos com estas castas. E vamos mais longe: internacionalmente, o Algarve tem mais expressão do que qualquer das DO existentes. Coloca logo o vinho no mapa vínico do mundo.
Se mantivermos as antigas DO, de que identidade estamos a falar? As castas são praticamente as mesmas das já existentes nas outras regiões do país. Provavelmente, as variedades estrangeiras trazem mais identidade ao Algarve, do que as portuguesas, com algumas excepções. E são mais facilmente percebidas pelo consumidor, a quem pouco importa se a Sauvignon Blanc que tem no copo é de Lagos ou de Lagoa.
Agora fazia mais sentido unir as quatro DO dentro de uma só, para elevar o nome Algarve, e criar o Regional Algarvio, à semelhança de DO Alentejo e IG Alentejano,por exemplo. Mas administrativamente e burocraticamente não é fácil alterar estas nomenclaturas. A ver vamos.
Negra Mole com bagos de cores diferentes no mesmo cacho, dá vinhos de cor aberta e bastante leves.
Negra Mole
Negra Mole: sunset no copo
Mal-amada durante décadas, a Negra Mole está a ser promovida, a pouco e pouco, a uma estrela ascendente no universo algarvio. Fruto dos investimentos mais recentes, não tem aumentado em termos de área, ainda mais por falta de bacelos para plantar.
É uma casta autóctone, típica da região e uma das mais antigas variedades portuguesas. Com bagos de cores diferentes no mesmo cacho, dá vinhos de cor aberta e bastante leves. Como refere Diogo Campilho “por muito que se tente extrair, a cor nunca vai muito além disto.”
Na década de 80 do século XX, a Negra Mole representava 75% daplantação da região. Mas a partir dos anos 90, este perfil de vinho tinto não era valorizado, tendo sido gradualmente posta de parte. Actualmente, ocupa o segundo lugar nos vinhedos da região, ocupando 15% da área, a seguir à Castelão, com 16%. Parece que chegou o seu momento. Por um lado, os produtores profissionalizaram-se e conseguem tirar o melhor proveito das particularidades desta casta; por outro, o consumidor também está mais aberto a este tipo de vinho.
Se há alguma casta tinta que identifica o Algarve, o seu perfil ligeiro e descontraído, com aquela cor que é só dela, que faz lembrar uma toranja, é, claramente, a Negra Mole. Ela própria é o sunset no copo: vermelho, com tons alaranjados. Esta, sim, deveria ser protegida no âmbito da denominação de origem do Algarve, seja ela qual for.
Dos vinhos produzidos no Algarve, 60% são tintos, entre os 30% e 40% são brancos e o restante é rosé.
Vinho, arte e turismo
A Quinta dos Vales, em Estômbar, no concelho de Lagoa, é bastante conhecida pela sua ligação à arte, da qual o fundador do projecto, oempresário alemão Karl Heinz Stock, era grande apreciador. Em 2024, a “quinta das esculpturas” mudou de mãos, sendo adquirida por um grupo de empresários do sector de hotelaria.
A produção de vinho manteve-se, tal como as marcas existentes: Marquês dos Vales e Grace. A equipa de enologia, jovem e dinâmica, é composta pela algarvia Rita Xavier, que durante o seu percurso profissional já passou por Alentejo, Douro e Argentina, e pelochileno Rafael Merce, com vasta experiência internacional na Argentina, México, Estados Unidos e Brasil, para além do seu país natal. Amboscontam ainda com consultoria de Paulo Laureano.
“Estamos a cinco quilómetros do mar e a três do rio [Arade], em linha reta”, afirma Rita Xavier. “Os solos são argilo-calcários e, na vinha, estamos sempre a encontrar fósseis”, continua. Dos 44 hectares da propriedade, a vinha ocupa 19, dos quais três foram replantados recentemente. Para ir ao encontro do mercado, aSyrah foi reconvertida em Sauvignon Blanc e aCastelão em Arinto. “Adaptamo-nos um bocado à realidade em que estamos inseridos, porque tanto o branco como o rosé é o que mais se consome aqui”, justifica a enóloga. Cerca de metade da produção é dominada pelos vinhos brancos, 30% sãotintos e 20% sãorosé. Selecta é a gama de entrada, Duo, a gama média, que é sempre bivarietal, e a marca Grace representa a gama mais alta.
A adega tem capacidade de produção para 150 mil litros, mas, actualmente, produzem cerca de metade. Isto tem a ver com a reestruturação da vinha e com o facto de deixarem de ter uma vinha em Silves, que pertencia ao antigo proprietário.
A vertente de enoturismo é muito forte. Têm parcerias com hotéis, dispõem de alojamento próprio e deorganização de eventos na quinta (casamentos, baptizados, jantares privados), os quais contribuem para a promoção das suas marcas de vinhos.
Uma oferta muito particular que desenvolveram na Quinta dos Valesé The Winemaker Experience. Pressupõe o aluguer de uma vinha com uma ou mais variedades em função do tipo de vinho que se pretende produzir. O contrato, normalmente, dura um ou dois anos e inclui todas as despesas com a vinha e o acompanhamento enológico. Quanto mais cedo começar, mais interessante será o processo, porque a data de vindima e a abordagem na adega são definidas em parceria com a equipa de enologia. Basta imaginar que a mesma casta, como, por exemplo, aSyrah, pode originar um rosé, um blanc de noir, um tinto ligeiro ou um tinto com estágio em barrica; e cada opção envolve manuseamento diferente. Para a vindima de 2026 já fecharam as oportunidades, mas para 2027 há mais.
A Quinta do Francês é uma das mais antigas quintas privadas no Algarve. Localizada no Vale da Ribeira de Odelouca, em Silves, esta pequena pérola pertence, desde 2000, a Patrick Agostini, de origem italiana, nascido em França. Médico de formação, radicado em Portugal, com a sua mulher Fátima, levou o projecto tão a sério, que tirou o curso de Enologia em Bordéus. Em 2002, plantaram a primeira vinha e, em 2008, estava pronta a adega. Hoje, contam com 12 hectares de castas, portuguesas e internacionais. A produção ronda as 80 000 garrafas por ano.
A propriedade está no sopé da Serra de Monchique e émarcada mais pela influência da serra do que do mar. “Quase todas as outras quintas apanham alguma maresia. Aqui, a influência marítima é quase nula, mas há sempre o ventinho da serra”, explica o enólogo Pedro Mendes. E no Inverno refere a diferença de 5º C para menos, comparativamente com a zona próxima da autoestrada, localizada aapenas a quatro quilómetros de distância.
Os solos também são fortemente marcados pela orografia. Na cota mais abaixo da quinta, onde o afluente do Arade, o Odelouca, cravou um vale, os solos são calcários, com uma percentagem de argila, zona conhecida no Algarve como Barrocal. No início da serra, nas colinas, já se nota a presença de xisto, mas quando chegamos a Monchique, muda para solos graníticos.
Vindima-se tudo à mão. A mecanização não é fácil e a dimensão relativamente pequena também não a justifica. A produção é reduzida, rondando as três toneladas por hectare. Tem a ver com os solos pouco férteis e, com o clima tão quente, “a videira também se protege um bocado para não produzir muito”, resume o enólogo.
A vinificação é separada casta por casta, para “ter mais ferramentas para trabalhar no final” e Patrick participa sempre nas decisões de lote. “Hoje em dia, estamos a usar mais as barricas de 500 litros, porque fazemos estágios mais prolongados”, justifica Pedro Mendes. A gama de entrada chama-se Odelouca e a gama superior ostenta o nome da quinta, com destaque para o Syrah Terrasses e Ianthis Cabernet Sauvignon.
O enoturismo é uma componente importante da oferta. Inclui visitas guiadas às vinhas e à adega, bem como diferentes provas de vinho, realizadas numa sala ou num pitoresco terraço, sombreado por vegetação trepadeira, com vista, naturalmente, para as vinhas.
O turista português não vai ao Algarve para provar vinhos, vai pelas praias e numa de relaxar.
Rigor e definição
Villa Alvor
Pedro Furriel, enólogo na Villa Alvor
O projecto Villa Alvor começou em 2019, quando a Aveleda adquiriu a propriedade em Alvor, no concelho de Portimão, e criou esta marca. “Já fizemos investimentos grandes na vinha e também vamos investir em grande a nível de enoturismo. É um projecto que nós gostamos e pelo qual temos um carinho enorme”, declara Diogo Campilho, Director de Enologia da Aveleda. Na sua equipa conta com o enólogo Rui Viana, que passou a acompanhar o Villa Alvor em 2024, e com Pedro Furriel, que ali começou a trabalhar como enólogo residente no ano passado.
O grande foco, neste momento, é organizar a área de produção, de modo a que o trabalho seja feitoda forma mais eficiente possível, com o menor recurso a mão-de-obra. Para o ano, vão começar as obras, para compor a zona de enoturismo. Vai haver uma loja e um espaço criado para refeições ligeiras, que podem ser acompanhadas com vinhos, e uma grande esplanada.
A visita à vinha revelou solos são argilo-calcários, com muita pedra à vista. Entre as castas nacionais e internacionais há particular destaque para a Negra Mole, Moscatel Galego Roxo (da qual fazem um belíssimo rosé) e Crato Branco.
As vindimas de 2020 a 2022 foram feitas à mão, mas não é nada vantajoso apanhar uva à mão em 30 hectares, devido ao calor algarvio e à escassez de recursos humanos. Aqui, onde o terreno é bastante plano, a vindima nocturna à máquina é a melhor solução. A vantagem de ser uma empresa grande, permite aproveitar as sinergias. “Isto antes era impensável no Algarve. Agora fazemos controlo de maturação, provamos, decidimos, vem a nossa máquina da Aveleda, com o operador especializado para vindimar tudo no ponto”, refere Diogo Campilho com satisfação.
Atendendo às preferências do mercado, dos 200-250 mil litros por ano, metade são vinhos brancos, 30% rosés e 20% tintos. Os perfis dos vinhos são bem definidos entre todas as gamas e também se percebe a filosofia do produtor. “O nosso estilo é muito frutado e limpo, tudo protegido das oxidações. Com o tempo, vamos começar a criar aqui uns vinhos mais de autor, que eu acho que é interessante. Até lá, queremos cimentar a marca que temos”, resume o Director de Enologia.
No enoturismo, para além dos “casais que batem à porta”, têm visitas organizadas através das parcerias com as agências turísticas. E, de 15 em 15 dias, à sexta-feira, organizam uns sunsets.
Arvad é um projeto relativamente recente em Estômbar, Lagoa. Começou em 2016, com vinhas plantadas de raiz. Os proprietários da família Garcia de Matos compraram, em 2012, um monte e com os anos foram comprando os terrenos à volta. Neste momento, são 120 hectares.
“É um lugar muito bom para a plantação de vinha, porque nós estamos na curva do rio. De um lado, temos uma exposição a Norte. Quando está vento Norte, recebemos aqui nortadas frias. Do outro lado, estamos expostos a Oeste, de onde recebemos mais a influência do Oceano Atlântico. A outra frente do terreno está virada para a Serra de Monchique, que bloqueia os ventos do Norte, mas, ao mesmo tempo, temos um vale, onde corre a Ribeira de Odelouca, que afunila os ventos e concentra a frescura”, conta Mariana Canelas, responsável de vendas e exportação do Arvad.
No início do projecto, foi contratado um historiador, para saber mais sobre a história deste lugar. Parece que o nome do rio Arade provém da palavra “Arvad”, porque era a designação que os fenícios atribuíam a esta parte deste curso fluvial. Quer dizer “refúgio”, “porto seguro”, porque, naquela época, fugiam para dentro do rio, com o intuito de se refugiarem das tempestades e dos piratas. E foram os primeiros a introduzir vinho na Península Ibérica. Pensa-se que aqui, nesta zona, em Silves, foi a primeira região, onde se provou vinho, trazido pelos fenícios, em ânforas vinárias. Daí a grande aposta do produtor em ânforas.
O projecto foi pensado no enoturismo de raiz. Em 2016, plantaram nove hectares de vinha, com uma selecção de castas portuguesas e internacionais: Arinto, Alvarinho e Sauvignon Blanc, para os brancos; para os tintos, Touriga Nacional, Cabernet Sauvignon e Alicante Bouschet. Estrearam-se navindima em 2019 e lançaram os primeiros vinhos em 2020, em plena pandemia. Correu tudo tão bem, que decidiram apostar na plantação de mais vinhas e, nessa altura, introduziram a Negra Mole. Primeiro alugaram cinco hectares de vinhas velhas desta casta, que ficamperto do Morgado do Quintão (outro produtor do Algarve), e depois plantaram parcelas novas. Neste momento, já contam com 12 hectares de Negra Mole, a protagonista de um tinto, um rosé, um blanc de noirs e um espumante.
Ainda ficaram com uma quinta em Alvor, com 27 hectares de vinhas, onde fizeram um projecto diferente, para um público diferente e uma abordagem diferente, e lançaram uma segunda marca, a Uca.
Em 2021, recuperaram as primeiras ruínas. Agora têm uma sala de estágio, uma sala de provas e uma sala de eventos. Segundo Mariana Canelas, o enoturismo tem corrido muito bem. Neste momento oferecem uma série de experiências, além das provas de vinho durante todos os dias do ano. As actividades incluem piqueniques nas vinhas: “os clientes podem vir de barco e provar vinhos ou almoçar no deck; podem fazer provas e almoços privados na casa do rio, com um chefe e show cooking.” Às quintas-feiras organizam o sunset com DJ ou com música ao vivo, “que é um sucesso”. O espaço é grande e bem decorado, e ainda dispõe de uma esplanada. Enche-se de gente alegre e de copos de vinhos brancos e rosés, maioritariamente.
“Neste momento o enoturismo é, sem dúvida, uma fatia grande da nossa faturação, mais de metade”, refere a anfitriã. Neste momento, estão a construir um hotel de cinco estrelas, com abertura prevista para o final de 2027.
“A exportação ainda é reduzida, mas eu posso dizer de uma forma geral o seguinte: 70% do vinho que é produzido no Algarve é vendido e consumido no Algarve. Cerca de 18%, creio eu, nem chega a 20%, é consumido noutras regiões do país. O resto, que é uma minoria, 1,8% mais ou menos, é para exportação.” Actualmente, estão a exportar em quantidades pequenas, para Alemanha, Áustria, Holanda, Inglaterra, e a Negra Mole para Ibiza.
A Quinta dos Capinhas nasceu de uma história de amor. O alemão Horst Lieberwirth, depois de reformado, mudou-se para o Algarve, onde conheceu a sua futura esposa, Inês Capinha, portuguesa com raízes nestas terras. Casaram-se e adquiriram uma propriedade, em Porches, onde fundaram o projecto vitivinícola, em 2013, com o nome Quinta dos Capinhas.
A quinta tem cerca de 30 hectares, dos quais oito são de vinha plantada pelo casal, com castas portuguesas e internacionais: Cabernet Sauvignon, Chardonnay, Touriga Nacional, Alfrocheiro, Arinto, Verdelho. Mais recentemente acrescentaram a Negra Mole.
“Temos o mar ali à nossa frente a dois quilómetros. Depois, temos esta brisa, que é muito frequente, é óptima para não termos doenças nas plantas. Estamos no segundo ano de conversão para biológico e tem corrido bem. Não estamos com grandes problemas em comparação com o ano passado”, esclarece Sofia Saraiva, gestora do projecto.
A equipa é pequena, à dimensão do empreendimento. Para além do enólogo consultor Pedro Mendes, entrou recentemente o enólogo residente, Marco Crispim. Na parte do enoturismo, contratam uma pessoa de fora para a época alta. Felizmente, têm a possibilidade de lhe oferecer alojamento durante essa temporada. Durante o verão, praticamente todos os dias, têm provas de manhã e à tarde, organizam jantares vínicos com catering feito por um restaurante local. Há ainda três casas na propriedade, que podem ser arrendadasa turistas.
Para além de enoturismo, os vinhos vendem-se na restauração e em algumas garrafeiras. Uma pequena percentagem é exportada para a Alemanha, graças à ligação do dono da empresa a este mercado.
Os colheitas, ou entradas de gama, são sempre blends; depois há vinhos monovarietais em função do ano. Os best-sellers são a Alicante Bouschet e Antão Vaz. A novidade mais recente é um colheita tardia de Moscatel Galego, com podridão nobre. E ainda adquiriram um Moscatel produzido no Algarve nos anos 50 do século passado. Este não tem o nome da quinta. Chamam-no Testamento.
Praticamente em todos os rótulos existe um camaleão. Sofia Saraiva explica a razão: “esta zona do Algarve é uma das únicas zonas onde o camaleão não está em vias de extinção.” E, de tempos em tempos, o colega que trabalha no tractor, mostra fotografias dos camaleões que tem encontrado na vinha. “Mais uma razão para a transição para o biológico, porque nós estamos inseridos aqui nesta zona de grande biodiversidade. E para nós é mais do que uma certificação, é um objectivo de manter aqui o ecossistema da quinta equilibrado”, resume.
Nos planos, está a construção de uma adega na propriedade e o projecto já foi submetido para a câmara. Na colina, de onde se vê toda a vinha e o mar ao fundo, planeia-se a construção de um restaurante. Enfim, será bom voltar cá daqui a uns anos.
Al-Lagar começou com dois hectares de vinha plantada numa propriedade que José Luís Santos Lima Oliveira da Silva,administrador e proprietário da Casa Santos Lima, adquiriu em 2008. À medida que ia comprando terrenos com casas para alojar as pessoas que precisava para trabalhar, ia plantando mais vinha. Depois investiu em adega própria, porque o volume de produção o justificava. Agora, a empresa possui cerca de 60 hectares, que é uma grande dimensão para o Algarve.
Segundo José Luís Santos Lima Oliveira da Silva, a Casa Santos Lima é não só o maior produtor de vinhos na região, como destacadamente o maior exportador de vinhos do Algarve, colocando, lá fora, 65% do vinho que produz neste território vitivinícola, estando presentes nos 30 mercados estrangeiros, com destaque para Reino Unido e Suécia, com dois vinhos registados no regime de monopólio; e depois desde a Ucrânia, à Tailândia e Nova Zelândia, só para nomear alguns. Mas é na própria região, onde se consome mais oseuvinho – 35% do que produz –, porque existe um grande consumo doméstico.
Em 2025, produziu cerca de 320 mil litros, entre branco e rosé e, este ano, está a contar com o crescimento de 10%. Cerca de 25% são vinhos brancos, 5% rosé e o resto tintos. Entretanto, devido à grande procura pelos brancos e rosés, as próximas plantações irão contar com esta tendência em termos de castas.
A vinha é toda regada. A água é proveniente das barragens de Beliche e de Odeleite, próximas de Castro Marim. “Também temos uns furos, mas nunca faltou a água da barragem”, assegura o produtor.
Ao contrário de muitos produtores que nasceram já a pensar no enoturismo, para a Casa Santos Lima, que sempre se focou na produção, esta actividade é recente, mas no Algarve faz todo o sentido. Está em desenvolvimento um projecto de alojamento local, com 18 quartos, no meio da vinha, com uma vista fantástica para o mar e para Vila Real de Santo António; e Al-Lagar, é a marca do enoturismo já a funcionar. Brevemente também será lançado um vinho com esse nome. Era um antigo lagar dos anos 80 do século passado, recuperado e transformado em espaço de enoturismo. Durante a restauração, preservou ao máximo o traço antigo e ficou um blend perfeito entre o rústico e o moderno. Nesta sala, que se mantém naturalmente fresca no ambiente acalorado da Tavira, podem ser feitas provas de vinhos, acompanhadas de refeições ligeiras e também podem ser adquiridos os vinhos da casa, abrangendo todas as regiões do país, onde têm produção. Ao lado, no antigo edifício de apoio ao lagar, chamado Casa da Nora, totalmente recuperado, existem salas para eventos ou provas privativas.
Durante o Verão, organizam sessões de cinema ao ar livre, em parceria com a empresa local All Stars Cinema. “Ontem, tivemos, aqui, à noite, a projecção do Sideways. Estiveram cento e tal pessoas aqui sentadas ao ar livre”, recorda José Luís Santos Lima Oliveira da Silva. É uma experiência para repetir.
Para um pai, poucas alegrias se comparam à de ver o filho seguir o seu caminho. Talvez apenas uma seja maior: poder caminhar ao seu lado. José Miguel Almeida é enólogo e empresário, fundador e principal rosto da CVD – Companhia dos Vinhos do Douro, tendo na marca Oboé a sua principal referência. Concluída a […]
Para um pai, poucas alegrias se comparam à de ver o filho seguir o seu caminho. Talvez apenas uma seja maior: poder caminhar ao seu lado.
José Miguel Almeida é enólogo e empresário, fundador e principal rosto da CVD – Companhia dos Vinhos do Douro, tendo na marca Oboé a sua principal referência. Concluída a formação em Enologia, em 1993, estagiou na Symington e integrou a equipa da Quinta do Crasto, antes de fundar a sua própria empresa, em 2001. Seis anos mais tarde adquiriu a Quinta do Cabeço, em Tabuaço, na margem esquerda do Douro, onde o projecto ganhou a configuração actual. Com cerca de 30 hectares de vinha, produz hoje mais de 200.000 garrafas por ano.
José Miguel Almeida, o filho, nasceu com o projecto, cresceu entre as vinhas e a adega, acompanhando desde cedo o trabalho do pai e tudo o que envolve a produção de vinho. Por isso, não foi de estranhar: enveredou pelo mesmo caminho. Concluiu a licenciatura em Bioengenharia, com especialização em Engenharia Alimentar, prosseguindo depois para o mestrado na mesma área, na Universidade Católica Portuguesa, no Porto. Actualmente frequenta uma pós-graduação em Enologia, formação que complementa com o curso de especialização em Wine Management, no ISAG, e com o curso de nível intermédio em Vinificações da AgroB Business School.
O novo projecto JM Almeida mostra um pouco das duas gerações da família. A colheita da estreia é de 2020, em que o João Miguel, estando ainda na faculdade, participou de corpo e alma. Em plena pandemia, com as aulas online, pôde acompanhar o trabalho na adega, ajudando, aprendendo e contribuindo com a sua opinião. Os lotes foram feitos de forma a que os dois se identificassem com o resultado final.
Ambos os vinhos resultam de um field-blend de várias castas. O branco estagiou 12 meses em barricas de carvalho francês e a produção traduz-se em 1.430 garrafas standard, 50 magnums e 35 garrafas de 3 litros. O tinto foi vinificado em lagar, com pisa a pé, fermentou em cubas de inox e estagiou depois 12 meses em barricas de carvalho francês, das quais 40% novas. Foram produzidas 1.275 garrafas, 72 magnums e 35 garrafas de 3 litros.
O universo minhoto de Anselmo Mendes estende-se de Monção e Melgaço até ao Vale do Lima e abrange mais de 130 hectares. Destes, 61 situam-se em Monção e Melgaço e 75 no Vale do Lima. A maior área dedicada ao Loureiro, aliada ao seu maior rendimento por hectare, faz com que o volume desta casta […]
O universo minhoto de Anselmo Mendes estende-se de Monção e Melgaço até ao Vale do Lima e abrange mais de 130 hectares. Destes, 61 situam-se em Monção e Melgaço e 75 no Vale do Lima. A maior área dedicada ao Loureiro, aliada ao seu maior rendimento por hectare, faz com que o volume desta casta seja bastante superior ao do Alvarinho. A relação de Anselmo Mendes com o Loureiro também é mais antiga do que muitos imaginam. Remonta a 2005, quando começou a recuperar as vinhas de antigas quintas senhoriais do Vale do Lima.
É preciso recuar ainda mais no tempo para perceber o contexto da produção de vinho na região. Nos anos 80 do século XX, surgiu o conceito de vinho de quinta. Empresários ligados ao têxtil, à construção civil e a outros sectores, com capacidade financeira para investir em propriedades com solares, criaram marcas próprias e começaram a engarrafar os seus vinhos. Como recorda Anselmo Mendes, no final da década existiriam cerca de 30 a 40 vinhos de quinta. Investiu-se em adegas, bem equipadas à época, e nasceram marcas ambiciosas, que conquistaram alguma notoriedade no mercado. Na altura, “o normal era um vinho custar cem escudos; estes já custavam 500 ou 600 escudos”, refere o produtor. Contudo, produzir vinhos secos, sérios e expressivos não era tarefa fácil, e muitos nunca conseguiram descolar-se dos Vinhos Verdes “clássicos”, adamados e gaseificados. Segundo Anselmo Mendes, “o que falhou, foi a viticultura”, mais precisamente, a falta de conhecimento nesta área não permitiu dar o salto qualitativo. No fundo, “sem uma boa viticultura não há hipótese nenhuma de atingir vinhos de excelência”.
Quinta da Ferreira
O Loureiro consegue manter um bom nível qualitativo até cerca das dez toneladas por hectare
Vale do Lima
Toda a vinha que Anselmo Mendes explora no Vale do Lima assenta em contratos de arrendamento. A razão é simples: muitos proprietários das antigas quintas estão dispostos a vendê-las, mas estas propriedades são pouco aliciantes do ponto de vista prático para quem vive da viticultura. Têm “muita casa e pouca terra”, uma característica que encarece as quintas, enquanto um viticultor procura sobretudo terra com vinha, sem o “peso” dos imóveis.
Das várias propriedades que integram o projecto de Anselmo Mendes no Vale do Lima, visitámos a Quinta da Ferreira, situada em Gondufe. Aqui, uma boa parte da vinha está implantada numa encosta que atinge cerca de 150 metros de altitude, contrastando com outras quintas em cotas muito baixas. Uma delas encontra-se mesmo dez metros abaixo do nível do mar.
Os anos de trabalho em duas sub-regiões próximas, mas distintas, permitem-lhe comparar, a partir da sua própria experiência, as condições de cada uma delas. Na sub-região do Lima há menos problemas de geadas do que em Monção, onde o ar frio, por vezes, drena mal e se acumula nos vales. No Lima, o vale é mais aberto, permitindo uma melhor circulação do ar, e a maior influência atlântica contribui para um clima mais moderado. A amplitude térmica também é diferente. No Vale do Minho, no final de Agosto, é possível registar 35º C durante o dia e temperaturas próximas dos 12º C à noite. No Vale do Lima, as máximas não atingem valores tão elevados, mas as temperaturas nocturnas também não descem tanto.
A pluviosidade anual na região é comparável à de Bordeaux, mas a distribuição da precipitação ao longo do ano é diferente. “No nosso caso, em Julho e Agosto não chove. Aliás, os grandes anos são aqueles em que chovem 30 milímetros em cada um desses meses. Isso é o ano perfeito. E depois não chove na vindima. Mas isso não existe”, lamenta o nosso anfitrião.
Estas condições tornam a rega uma necessidade, sobretudo nas vinhas jovens e em situações extremas que possam comprometer a sobrevivência das plantas, uma questão que continua a dividir os viticultores. Para Anselmo Mendes, porém, não há dúvidas: “instalámos rega praticamente em todas as vinhas. Sabendo regar de acordo com a textura do solo, estamos a poupar água no futuro. Temos vinhas com quatro e cinco anos que já não regamos.”
Segundo Anselmo Mendes, o que verdadeiramente distingue esta quinta é a conjugação de vários factores: a altitude, a boa drenagem e uma eficaz colonização subterrânea das vinhas. Esta última depende, em grande medida, das características do solo e da densidade de plantação. “Optámos sempre por uma densidade maior. Aqui estamos nas 3 300 a 3 500 plantas por hectare. A densidade, por si só, não diz nada sobre a qualidade, mas há um mínimo. Menos de 2 500 plantas comprometem a colonização subterrânea das vinhas”, explica. A lógica é simples: uma competição moderada entre videiras obriga as raízes a explorar um maior volume de solo, favorecendo o desenvolvimento do sistema radicular. Já o extremo oposto, com 10 000 plantas por hectare, também não faz sentido, sobretudo nos solos menos férteis, porque, a partir desse ponto, a competição entre videiras torna-se excessiva e deixa de ser benéfica.
Sem uma boa viticultura não há hipótese nenhuma de atingir vinhos de excelência
A natureza da Loureiro
Há duas características que definem o Loureiro: a elevada produtividade e a exuberância aromática. Foram precisamente estas duas características que Anselmo Mendes procurou contrariar.
Na reestruturação das vinhas, a escolha de material policlonal seguiu dois critérios: evitar clones muito produtivos e excessivamente terpénicos. Apesar de ser esse o perfil que o mercado mais associa à casta, Anselmo Mendes confessa que “os Loureiros amuscatelados” não fazem parte das suas preferências.
A questão da produtividade vai muito além das preferências pessoais, porque condiciona diretamente a qualidade do vinho. Ao contrário do Alvarinho, cuja produção ronda naturalmente entre as sete e as oito toneladas por hectare, o Loureiro chega facilmente às 15 toneladas e, em alguns clones, pode atingir as 29 toneladas por hectare. Não há milagres: nestas condições, a maturação resulta apenas numa “solução hidroalcoólica” pouco definida, verde e ácida.
Para Anselmo Mendes, o Loureiro consegue manter um bom nível qualitativo até cerca das dez toneladas por hectare. Nos seus vinhos da gama Private procura não ultrapassar as oito toneladas. Mas também aqui não existe uma relação direta de causa e efeito: produções muito baixas nem sempre se traduzem em vinhos melhores. “Temos vinhas que não passam das cinco toneladas. Vamos reestruturá-las porque não é viável. E mais impressionante é que o resultado não nos impressiona. Ou seja, o facto de ter aquela produção baixa não aumenta a qualidade.”
O Loureiro é uma casta particularmente sensível à podridão e, em anos de chuva durante a vindima, a qualidade da produção pode ficar comprometida. Anselmo Mendes explica que prefere evitar os tratamentos convencionais com fungicidas e aposta antes no controlo da traça-da-uva através da confusão sexual. Os difusores instalados na vinha libertam feromonas que confundem os machos e dificultam o acasalamento, reduzindo a postura de ovos e o desenvolvimento das larvas. Assim, evitam-se perfurações nos bagos, que funcionam como portas de entrada para fungos.
Como o Loureiro frutifica muito bem nos gomos mais próximos da base do sarmento e apresenta um crescimento vigoroso, adapta-se bem à condução em cordão ascendente e à poda a talão e vara. Esta opção permite controlar o vigor e ajuda a manter uma copa equilibrada. Mas o equilíbrio da videira não se constrói apenas no inverno. Ao longo do ciclo vegetativo, é através da intervenção em verde que se ajusta a relação entre vegetação e produção.
Quinta da Ferreira
Intervenção em verde
Ir com Anselmo Mendes à vinha é como ter uma aula de viticultura, com explicação e demonstração ao vivo. As práticas culturais têm uma influência directa na qualidade das uvas. Para o produtor, há quatro operações fundamentais na gestão da vinha: supressão, orientação, desponta e desfolha. E têm que ser executadas rapidamente, porque “com boa temperatura e água no solo, isto chega a crescer mais de cinco centímetros por dia”.
“Suprimir é tirar aquilo que não interessa, mesmo que tenha um cacho”, exemplifica o mestre, removendo os lançamentos “que nem dão para o ano seguinte e estão a contribuir para a má qualidade global”. É fundamental criar “buracos” na parede vegetal para garantir o arejamento e criar um bom microclima junto dos cachos.
Numa casta vigorosa como o Loureiro, que tende a desenvolver muita vegetação, a orientação dos lançamentos é essencial para construir uma parede vegetal equilibrada, evitando sobreposições e excesso de densidade, e tendo em conta que a variedade é sensível à desnoca – quebra de sarmentos.
A desfolha tem a vantagem de expor precocemente os cachos à luz, permitindo que se adaptem gradualmente à radiação solar. Mais tarde, a desponta promove o aparecimento de folhas novas, que nas palavras do produtor “trabalham bem” e reduzem a exposição direta dos cachos. Ao mesmo tempo, ajuda a controlar o vigor, evita que a vegetação tombe e contribui para um melhor equilíbrio entre folhas e cachos. “Feito isto, é meio caminho andado para ter qualidade”, resume Anselmo Mendes.
Anselmo Mendes confessa que “os Loureiros amuscatelados” não fazem parte das suas preferências
Loureiro ao longo dos 20 anos
Muros Antigos, é um blend das várias quintas. Não passa por barrica; as uvas são vinificadas apenas em inox e expressam a casta, a sub-região, o produtor e o ano. A influência deste último factor tem a ver com temperatura com que se vindima. O Loureiro vindimado à noite, sem ser sulfitado, oxida ao fim de 3,5 horas, enquanto vindimado a 25º C oxida ao fim da meia hora.
Para assinalar os 20 anos de Loureiro, provámos 18 vinhos monvoarietais, dos quais 12 Muros Antigos, desde a primeira colheita de 2005 até ao mais recente; e mais seis Loureiros de outras gamas de vários anos.
2024 – Mais discreto no aroma que o 2025, com folhas e erva-príncipe, menos floral; menos concentrado e menos salino, ligeiramente amargo e com muita tensão. (17); 2022 – Lima, limão, até alguma laranja, não propriamente aromático, tisanas, mineral em boca, muito mais seco e muito fresco. (16,5); 2019 – Muito bom no aroma, aquela evolução que não se sente, mas harmoniza o vinho; limão, parte floral bonita, manjericão e estragão; está muito bem na boca, tenso e extremamente fresco, sem transparecer a idade. (17,5); 2017 – Apetrolado ao ponto de fazer lembrar um Riesling; cogumelos, ervas aromáticas, resinoso, tem imensa força, vida, suculência e projecção de sabor; textura deslizante. (17,5); 2016 – Limão a passar para dourado; no aroma limão cristalizado, laranja, mel, muito fresco, concentrado no sabor e mais amplo. (17); 2014 – Limão dourado; laranja, limão cristalizado, tisanas, salino, talvez mais magro, mas não lhe fica mal; palato com laranja amarga, suculento, com toque de botrytis que até se enquadra bem. (17); 2013 – Dourado; cogumelos, manteiga, mel, a lembrar pêra, fruta em calda e ananás salgado; no palato balança entre o amargo e o salgado, firme e guloso. (16,5); 2011 – Dourado; fruta muito boa e fresca, cardamomo, notas de Riesling novamente, com muito vigor na prova, resinoso, caruma, limão cristalizado, lemon curd; boca espectacular, cheio, fresco, cremoso e longo. (17,5); 2010 – Dourado; xarope de limão, ananás, tisanas, austero em boca, pouco conversador, também algumas notas apetroladas. (16,5); 2008 – Doce de laranja, ananás, em caldo, muito bem projectado em boca, sem indícios de vinho velho, algum cogumelo; meloso mas com tensão. (16,5); 2005 – o ano de estreia; dourado; cogumelo, xaropes de limão e laranja, flores secas e tisanas, erva-príncipe, suculento e amplo, cremoso, levemente salino e ainda cheio de vida. (17,5)
Anselmo Mendes Private Loureiro
Este vinho é o resultado de uma única vinha da Quinta da Ferreira, localizada numa encosta da margem esquerda do Rio Lima; também não vê a barrica, mas estagia durante nove meses em inox com bâtonnage, mais um ano em garrafa.
2021 – Limão Dourado; mais quente, mais fruta; quase fumado no nariz, pimenta branca, lima e limão maduro, alguma tília e louro; tenso, cremoso, mastigável, com muita estrutura e matéria. (18,5); 2020 – Limão leve; querosene, fumado, pimenta branca, pedra lascada e muita lima no sabor; acidez incisiva, mas bem coberta pela textura suculenta; salino e longo. (18,5); 2019 – Citrino dourado, fechado no nariz, ervas aromáticas, citrinos discretos, austero também na boca e com menos volume. (18,5); 2017 – Flores e querosene, menta e mentol, lima e limão e ainda caruma; austero na boca, com pedra raspada; prima pela tensão e frescura. (18,5)
Loureiro do Tiago 2020 – a interpretação de Tiago, filho de Anselmo Mendes. Fermentou em barricas usadas de 400 litros, onde depois permaneceu durante seis meses, e com um longo estágio de quatro anos em garrafa. Limão, ligeiro fumado, um toque mineral e caruma de pinheiro; discreto, mas completo, sem exuberância, muita textura, elegante, fino com barrica muito bem integrada. (18,5);
Anselmo Mendes Tempo Loureiro 2019 – Curtimenta total e estágio de 24 meses em barrica de carvalho francês de 400 litros com bâtonnage. Dourado. Ananás maduro, caruma, limão, xarope muito aromático, profundo, farmácia, tangerina, doce de laranja, mel fresco, a tensão de tanino bem coberta de textura e sabor muito sabor, amplo e preciso, atlanticamente salino, com acidez filigrana e flores caramelizadas. (19)