QUINTA DA FONTE SOUTO: A descoberta dos brancos

A viagem da Symington Family Estates – profundamente enraizada no Douro – para o Alentejo levou 135 anos, e não foi em vão. Numa estratégia de diversificação regional, a zona de Portalegre não foi escolhida por acaso. É aquele Alentejo que, contrariando o nosso imaginário colectivo, fica a norte de Lisboa. Está bem mais perto […]
A viagem da Symington Family Estates – profundamente enraizada no Douro – para o Alentejo levou 135 anos, e não foi em vão. Numa estratégia de diversificação regional, a zona de Portalegre não foi escolhida por acaso. É aquele Alentejo que, contrariando o nosso imaginário colectivo, fica a norte de Lisboa. Está bem mais perto de Espanha do que da costa, onde a continentalidade do clima aliada à altitude, entre os 490 e os 550 metros, providenciam uma frescura natural e maior amplitude térmica, mas sem ondas de calor superior a 45° C. As noites bem frescas, mesmo no verão, promovem uma maturação mais lenta e homogénea. “Isto permite esperar pelas uvas e, logo na vinha, fazer uma selecção através de várias passagens”, explica Ricardo Constantino, o enólogo residente da propriedade.
A Symington Family Estates adquiriu a propriedade a João Lourenço (outrora Altas Quintas), em 2017. O negócio incidiu apenas sobre a quinta e a vinha, sem marca nem stock de vinhos. À data da aquisição, dos cerca de 200 hectares da propriedade, 41 eram ocupados por vinha, maioritariamente com castas tintas, sendo apenas 2,5 hectares dedicados a variedades brancas (6% de plantação). “Comprámos esta quinta para [vinhos] tintos. Os brancos foram uma descoberta”, conta Rupert Symington, Presidente da empresa. Assim, os vinhos brancos deixaram de ser vistos apenas como um complemento do portefólio e, hoje, assumem um papel imprescindível na identidade da marca. Logicamente, tornou-se essencial aumentar a presença de castas brancas no encepamento. Entre novas plantações e sobreenxertia, a área dedicada a estas variedades atingiu os 15 hectares, correspondendo a 28% da vinha, composta por Verdelho, Arinto, Gouveio, Alvarinho e Bical, a par com duas internacionais: Viognier e Chardonnay. Nas castas tintas, contam com Syrah, Trincadeira, Alicante Bouschet, Alfrocheiro, Aragonez, Touriga Nacional, Grand Noir, Castelão, uma pequena área de 0,75 hectares com mistura de castas e ainda um pouco de Pinot Noir e de Monvedre. Esta última é uma casta do Dão, mas, em Portalegre, é conhecida como Tinta de Olho Branco, porque na altura de rebentação tem escamas brancas. “É muito ácida, tânica e rústica”, nota Ricardo Constantino.
Vindimam manualmente, uma vez que em Portalegre ainda é possível arranjar mão de obra. Praticam, desde o verão passado, a vindima noturna, o que permite que a uva chegue fresca à adega, dispensando o recurso à refrigeração e reduzindo o consumo energético. Por sua vez, a adega exigiu uma intervenção profunda. O telhado teve que ser reparado, pois “chovia dentro como se fosse na rua”, recorda Charles Symington, Director de Produção da empresa. Sem grande confiança no histórico dos balseiros existentes, optou-se pela sua substituição por cubas de inox. A zona de receção foi ampliada, no sentido de favorecer uma gestão mais cuidada da vindima. Foi recuperada a antiga adega com talhas. Contudo, para já, funciona apenas como um pequeno museu em homenagem à história da quinta e da região. Como refere o enólogo residente, na zona de Marvão ainda subsiste a tradição de se fazer vinho de talha, acção localmente conhecida como “fazer vinho em pote”.
As dificuldades e “surpresas” iniciais estão a ser ultrapassadas ao mesmo ritmo que se comprova o potencial do lugar e a qualidade dos vinhos. Para a Symington, a Quinta da Fonte Souto representa o investimento a longo prazo, um compromisso estratégico inscrito numa visão de futuro. “Não viemos cá para uns anos. Viemos para ficar muitos anos”, afirma Charles.
Mini-vertical
O Quinta da Fonte Souto branco resulta sempre de uma aliança entre Arinto, que representa cerca de 75% do lote, e Verdelho. Uma pequena prova vertical demostrou dois aspectos: a variação natural de cada colheita, própria de vinhos que procuram expressar o ano vitícola, e o processo de aprendizagem sobre as castas, as condições da Serra de São Mamede e da consequente adaptação da abordagem enológica. Na vindima inaugural de 2017, usou-se naturalmente mais barrica nova de 500 litros; em 2018 já houve barricas de segundo uso; e, em 2019 e 2023, utilizaram-se barricas de segundo e terceiro ano, com 10% e 15% do vinho, respectivamente, a estagiar em inox para preservar a frescura varietal. Também ficou claro que, no caso da casta Verdelho, determinados níveis de tosta não funcionam.
O Quinta da Fonte Souto 2017 resultou de um ano quente. “As maturações evoluíram rapidamente. Tivemos de fazer o jogo de cintura e tivemos muito menor área de brancos, na altura. Porém, mesmo assim, o resultado agradou muito e mostrou o potencial: volume, textura e frescura”, garante Charles Symington. O vinho revelou nariz com complexidade de evolução, repleto de laranja doce, tosta, especiaria, ervas aromáticas e mel; revela-se suculento, cremoso, com volume, frescura natural e leve amargo. (17)
A vindima de 2018 começou tardíssimo, devido a uma vaga de calor que atrasou o processo de maturação. “Só começámos vindimar a 12 de Setembro e terminámos em 19 de Outubro”, conta Pedro Correia, o enólogo da empresa. Dourado na cor, com aroma mais fresco, a lembrar ananás, laranja, leve flor de laranjeira, hortelã e gengíbre. Um pouco menos complexo na boca, madeira mais discreta, textura amanteigada e final salivante. (17)
Já o Quinta da Fonte Souto 2019 foi o fruto do ano ameno, com elevadas amplitudes térmicas durante os meses mais quentes e produções relativamente baixas. Uma particularidade: o vinho apresenta mais de 14% de teor alcoólico o que, na prova, não comprometeu a frescura. Novamente, sente-se a influência do ano: a videira fotossintetiza permanentemente durante o dia, mas, com noites frias, a acidez não cai tão depressa e a uva acaba por acumular bastante açúcar. Madeira menos evidente, notável complexidade com destaque para os citrinos, como laranja e tangerina, alperce e ananás; tudo muito afinado na boca. (17,5)
Segundo o enólogo residente, no ano 2023 a vindima foi muito precoce e longa. Decorreu de 7 de Agosto a 13 de Outubro. Tiveram uma semana de paragem devido à chuva e registaram um mês de diferença na maturação entre as parcelas de Arinto. Neste ano, entrou mais Verdelho no lote (35%). Ainda é muito jovem em comparação com os vinhos anteriores. Mostra-se citrino e mais vegetal, com folhas verdes, especiaria e cominhos; denso, com acidez presente e novamente a confirmar o componente vegetal, bem integrado no perfil. (17,5)
A produção do Quinta da Fonte Souto branco triplicou desde a primeira vindima em 2017, com cerca de 8.000 garrafas para aproximadamente 24.000 garrafas.
“Comprámos esta quinta para tintos. Os brancos foram uma descoberta”, afirma Rupert Symington
Ensaios de tintos
Provámos expressões monovarietais de duas castas, ambas de carácter vincado, embora manifestem comportamentos diametralmente opostos. Se o Alicante Bouschet é consistente e fiável na entrega de qualidade, o Alfrocheiro revela-se mais exigente e sensível, não tolerando bem a chuva. Como observa Pedro Correia, “nem sempre as condições se reúnem, mas quando isso acontece, dá um grande vinho”, como ficou demonstrado na prova a seguir.
Do Quinta da Fonte Souto Alicante Bouschet 2018 foram produzidas 6.267 garrafas e o vinho ainda se encontra disponível no mercado, com um PVP de €30. É uma expressão do ano mais tardio, quando era preciso esperar pelas maturações. Estágio em barricas de segundo ano, para preservar aromas varietais, escuro e opaco, groselha preta esmagada e macerada, casca de árvore fresca e vegetal doce. Cheio, denso, musculado e um pouco amargo no final a lembrar azeitona preta. (17,5)
Do Quinta da Fonte Souto Alfrocheiro 2019 foram produzidas 6.211 garrafas e esta referência está completamente esgotada (resta esperar quando as condições se reúnem novamente). Fragrante, atraente, intrigante; nuance floral bonita, cereja e ameixa, aneto e eucalipto, louro, mentol e caruma; suculento e envolvente, com fruta pura, mas também com complexidade, sedoso e sedutor. (18).
Fizeram também um Field Blend em 2020 e um monovarietal de Syrah em 2021, que ainda não se encontram em comercialização. Fica o teaser.
Taifa 2022
Esta é a terceira edição. A primeira foi um monovarietal de Arinto, vinificado 100% em barrica nova. Este lote de 2022 combina 70% de Arinto com 30% de Verdelho, demonstrando uma notável sinergia entre as castas. Fruto de uma vindima minuciosa, realizada em várias passagens pelas mesmas parcelas, o vinho fermentou em barrica, com uma menor proporção de madeira nova (70%), de modo a realçar a fruta e conferir maior equilíbrio. Estagiou um ano em barricas de carvalho francês e húngaro e dois anos em garrafa, o que explica a sua óptima integração no momento do lançamento. Foram produzidas 3.215 garrafas e 15 em Magnum.
(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2026)
QUINTA DONA SANCHA: Vinho frescos e sedutores

A Quinta Dona Sancha apresentou num almoço, que decorreu no restaurante Pabe, em Lisboa, seis referências de vinho, de três gamas diferentes, entre as quais estiveram presentes as novas colheitas da gama Avarenta tinto e branco, o Quinta Dona Sancha Encruzado e Touriga Nacional. O Vinha Ancestral tinto de 2019 e o monocasta de Jaen […]
A Quinta Dona Sancha apresentou num almoço, que decorreu no restaurante Pabe, em Lisboa, seis referências de vinho, de três gamas diferentes, entre as quais estiveram presentes as novas colheitas da gama Avarenta tinto e branco, o Quinta Dona Sancha Encruzado e Touriga Nacional. O Vinha Ancestral tinto de 2019 e o monocasta de Jaen de 2022 foram as duas novidades absolutas.
Rui Parente, o produtor da Quinta Dona Sancha, defende que os seus vinhos já demonstram hoje uma matriz de sabores e aromas que os diferenciam
Pensados ao detalhe
Segundo Rui Parente, fundador do projecto e proprietário da Quinta Dona Sancha, os vinhos apresentados “foram pensados ao detalhe, para despertar lembranças e emoções”, expressando “a identidade que procuram afirmar, desde a primeira vindima”, o terroir de Silgueiros, da região do Dão. O enólogo Paulo Nunes tem sido o consultor da empresa desde o primeiro dia, contribuindo, com o seu conhecimento, e saber fazer, para a produção e comercialização de vinhos, com a frescura e elegância que os caracteriza. Rui Parente, que já o conhecia há muitos anos, ainda antes de se dedicar à produção de vinhos, já tinha encetado conversações, para que se envolvesse neste projecto antes de o iniciar.
O objectivo, desde o início, foi procurar fazer vinhos com identidade, marcados pelas características que diferenciam o terroir de Silgueiros e do Dão, “acreditando que havia espaço para colocar a região na rota do sucesso, o lugar que um território com pergaminhos históricos na produção de vinho de qualidade merece”, defendeu Rui Parente no dia do lançamento, salientando que, à sexta vindima, a empresa mostra que é uma empresa representativa daquilo que é a sub-região de Silgueiros, a quinta e o terroir. “Acabámos de os provar e a identidade da quinta nota-se em todos os vinhos”, salientou, com algum orgulho, nesse dia, defendendo que mostram “uma matriz que identifica o projecto, o que tem sido o meu objectivo de médio e longo prazo desde o primeiro dia”.

50 hectares de vinha
A Quinta Dona Sancha nasceu de um sonho de Rui Parente. Os pais produziam vinhos para terceiros, sem marca, mas o empresário teve sempre esse desejo de criar um projecto próprio na Região do Dão. Talvez tenha sido essa a finalidade de iniciar o percurso no sector ainda muito jovem, lançando-se por conta própria em 2011, quando criou o seu negócio, a Cave Lusa, em Viseu, que inclui uma garrafeira e uma empresa distribuidora de vinhos.
A oportunidade de se estrear na produção surgiu em 2018, com a compra de duas propriedades que constituem, hoje, a Quinta Dona Sancha, uma referência na região do Dão situada a 12 quilómetros de Viseu, com cerca de 47 hectares de vinha e um portefólio reconhecido pela autenticidade e pela elegância dos seus vinhos.
(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2026)
Sua excelência a batata

A batata tem uma história longa para contar. São mais de oito mil anos, desde que os primeiros exemplares medraram e eclodiram nos planaltos da grande cordilheira dos Andes, na América do Sul. É um tubérculo, pois cresce enterrada até ser colhida. Assim retém e acumula o máximo de nutrientes e de água. É fonte […]
A batata tem uma história longa para contar. São mais de oito mil anos, desde que os primeiros exemplares medraram e eclodiram nos planaltos da grande cordilheira dos Andes, na América do Sul. É um tubérculo, pois cresce enterrada até ser colhida. Assim retém e acumula o máximo de nutrientes e de água. É fonte importante de energia e podemos compará-la com alimentos da mesma categoria. Um quilo de batatas fornece-nos 73,6 kcal e contém 14,8 gramas de hidratos de carbono. Destes, 14,1 gramas são de amido e 0,7 gramas são de fibra. E há outros dados importantes, distintivos e diferenciadores da batata em relação aos restantes tubérculos e rizomas. Nesse mesmo quilo de produto, obtemos 2,3 gramas de proteínas e 0,11 gramas de gordura. Em termos de minerais, a vitamina C contabiliza 17 miligramas e o cálcio 6,9 miligramas. A cenoura mostra-nos um cenário diferente. O conteúdo energético é de 39,5 kcal, cerca de metade da batata, 6,9 gramas de hidratos de carbono, dos quais 4,3 gramas de amido e 2,6 gramas de fibra. Já a batata doce apresenta 114 kcal e 24,1 gramas de hidratos de carbono. O conteúdo aproximado de hidratos de carbono é de 24,1 gramas. Destes, 19,5 gramas são amido e 3,1 gramas são fibra.
É impossível não deitar o olho à cherovia ou pastinaca. O conteúdo energético é de 70,1 kcal, semelhante à batata, enquanto tem apenas 11,1 gramas de hidratos de carbono, e uns parcos 5,6 gramas de amido. São as pequenas diferenças que fazem da batata um alimento único e, quando cozinhado e consumido com contenção, é bastante saudável. O teor de amido é o elemento diferenciador das variedades de batata entre si e, deste modo, lhes damos destinos culinários distintos. Os oito mil anos iniciais da batata devem ser 12 mil, se tivermos em conta que foi no Chile tudo começou. A adopção do tubérculo no estado selvagem terá acontecido com os índios mapuches e araucanos.
A domesticação da batata, tal como a conhecemos, dá-se aproximadamente dois mil anos antes da era cristã. Aconteceu nos planaltos dos Andes. A flor da batata do Perú e da Bolívia é cor de rosa, enquanto a do Chile é branca. O assunto não é despiciendo, porque a maioria da carreira da batata ao serviço dos humanos aconteceu enquanto planta ornamental. Que, diga-se, tem os seus encantos.
Bem-vinda à humanidade!
A batata chegou à Europa no século XVI pela mão dos conquistadores espanhóis. O primeiro registo foi feito por Pedro de Cieza de León, numa obra exaustiva dedicada à história do Peru. Trabalhou intensamente com Francisco Pizarro, conhecido como o feroz conquistador espanhol, anotando, descrevendo e levantando costumes, técnicas e produtos. Dedicou parte significativa da sua obra à batata. Conta, em particular, que o consumo no Perú terá começado em 1538 e como se secavam ao sol, para aumentar a sua longevidade. As primeiras batatas foram inicialmente enviadas a Filipe II, rei de Espanha, em 1834, que, por sua vez, as enviou para o Papa Pio IV. E foi assim que se iniciou a epopeia deste tubérculo em Espanha e em Itália. E não só. Um enviado do Vaticano levou amostras do tubérculo a Philippe de Sivry, governador belga em Sivry, que o passou, em 1588, ao reputado botânico Charles de l’Écluse, também conhecido como Clusius. Em 1601, este publica a primeira descrição científica da papas peruanorum, o que difundiu este tubérculo por toda a Europa, incluindo Portugal.
Entretanto, em 1580, tinham já chegado as primeiras batatas a Inglaterra, provenientes da província americana da Virgínia, trazida pelos primeiros colonos. A proveniência mais provável terá sido do México. Dali terá migrado para a América do Norte, donde transpôs o Atlântico rumo a Inglaterra e à Irlanda, e, depois, o resto da Europa. A que conhecemos como batata é, provavelmente, resultado do cruzamento dos tubérculos da Virgínia e do Perú.
O termo batata surge da designação em espanhol “patata”. Curiosamente, vem da batata doce, variedade Ipomea batatas. O país vizinho concatenou “papa” – da língua nativa Quechua – com “batata”, que, numa língua ainda mais ancestral, queria dizer batata doce. O batismo definitivo de batata, patata e patate, respetivamente, em português, espanhol e francês, aconteceu nos relatos escritos da grande viagem de Fernão de Magalhães.
Eis que surge Parmentier
Mesmo após ganhar reconhecimento de iguaria comestível e interessante, a evolução da batata tardou a penetrar no quotidiano. Em França, gozava de má reputação, principalmente por não se conseguir panificar – imagine-se! – e também por apresentar parco sabor. Pior ainda, eram-lhe atribuídas diversas doenças graves, algumas mortais. As coisas não foram, de facto, fáceis para o pequeno tubérculo. Porém, tudo mudou com Antoine Augustin Parmentier. O consagrado especialista conseguiu impor as virtudes deste produto hortícola. Ele próprio foi prisioneiro das tropas prussianas, que lhe deram batata para comer, com o fim de o torturar, mas espantosamente sobreviveu. Uma coisa leva à outra e, em 1785, acontece o momento mais feliz da epopeia da batata: o rei Luís XVI foi convencido por Parmentier a plantar os primeiros botões de flor deste tubérculo.
Grandes vultos da época, como Benjamim Franklin, Vilmorin, Lavoisier e até mesmo o próprio Voltaire, renderam-se aos encantos da batata. França, famosa pela vanguarda culinária e agrícola, adoptou com força e apego a batata. Num golpe de génio, Parmentier decide plantar batatas em Paris, em hortas vigiadas pelo exército. Conhecedor profundo do género humano, sabia que isso iria despoletar a migração imediata para as hortas da periferia. O fenómeno contagiou todo o continente europeu e o tubérculo ganhou grande popularidade, para nunca mais a perder.
Nós, por cá, ainda oferecemos alguma resistência à adopção estrita da batata enquanto acompanhamento preferencial. São vários os pratos da grande tradição nacional que ainda apresentam este tubérculo com arroz e, muitas vezes, com castanhas. Ainda estamos a atravessar um período de transição, para o qual ainda não se vê nem se prevê o fim. Por outro lado, os nutricionistas parecem estar contra a batata na alimentação diária. Dizem, demonstram e provam que engorda.
O mítico chef francês Joel Robuchon trocou as voltas à ciência ao criar o puré de batata que veio a receber o seu nome. Fê-lo com base em batatas da variedade Ratte, originárias da província de Ardeche, em França. Trata-se de uma batata pequena e alongada, com pele muito fina e sabor evocativo da castanha. A receita é incrivelmente simples e o resultado é sempre brilhante. Um quilo de batata Ratte, 300 gramas de manteiga e 30 centilitros de leite gordo são os ingredientes de que precisamos para chegar ao puré genial do grande mestre. As batatas são cozidas com casca e, quando amornam, pelam-se com cuidado e passam-se pelo passevite. A manteiga, bem fria, corta-se em pequenos cubos, que se vão juntando, um a um, ao preparado do puré, batendo à mão devagar. O leite morno vai-se juntando e homogeneizando. Ao fim de cerca de uma hora, está feito o puré. E, em princípio, ficamos sem forças no braço. A verdade é que é um grande desafio. Tentei várias vezes fazê-lo com a varinha mágica e o resultado foi medíocre. Na Bimby, ainda foi pior. Tem mesmo de ser batido à mão, com varas.
Quando se consegue o primeiro, nunca mais se quer outro. Nem aqueles para quem cozinhamos habitualmente. Confesso que não sou tão kafkiano, mas dou razão a quem fica viciado. O puré deixa de ser acompanhamento para passar a ingrediente primordial. É mesmo uma delícia! Só consegui fazer com Ratte uma vez, porque trouxe de França, mas normalmente faço com a variedade de batata Agria, que tem bastante amido, característica muito favorável no que concerne ao processamento do puré. Curiosamente, também gosta da fritura, fica estaladiça por fora e impecável por dentro. Há apenas que fazer alguns testes por sua conta, para afinar a técnica.
Uma batata rica em amido é a melhor para fritar ou assar. Já o baixo teor de amido aponta mais para cozer. Mas as que têm um nível de amido médio são flexíveis. Por isso, vale a pena sistematizar um pouco e escolher a que melhor se adapta ao objetivo pretendido.
Sucesso mundial
Quando por terras de Annecy, na Alta Sabóia francesa, provei o primeiro gratin dauphinois vieram-me as lágrimas aos olhos. As batatas cortadas bem fininhas na mandolina e montadas com molho branco em camadas, alternadas com três queijos, e levadas ao forno, são gloriosas e acompanhamento universal de um prato de carne forte e apurado. Raramente, faço ensopado de borrego sem o gratin a acompanhar. Curiosamente, liga melhor com um branco de Arinto de três ou quatro anos, do que com um tinto. Se for um bom Sauvignon Blanc, ainda melhor. É o céu!
Uma outra preparação favorita de batata é o rosti. A batata é moída e ligada com legumes à escolha; por exemplo, cenoura. Junta-se-lhe queijo São Jorge novo moído, montam-se os pastéis achatados e fritam-se na sertã, em óleo bem quente. Quando se utiliza presunto no rosti, um tinto sem madeira pode funcionar bem, mas se optarmos, por exemplo, por feijão verde ou brócolos – fica delicioso, já agora –, há que chegar-lhe um Alvarinho jovem. A batata rosti recebe, muitas vezes, a designação de batata suíça, justamente pela utilização forte de queijos diversos. É das mais flexíveis e não enjeita um tinto jovem aromático pouco extraído. Merlot é casta amiga da empreitada.
A batata frita é uma extraordinária invenção e configura perdição, quando bem aplicada. Chamamos batata frita à belga, aquela de que mais gostamos, e passa por duas frituras. A primeira a cerca de 150º C e a segunda a 180º C. Há que ter o cuidado de as demolhar por meia hora antes de todo o processo, para libertar o máximo de amido possível. Caso contrário, uma batata rica em amido carameliza e perde o interesse enquanto alimento. No intervalo das duas frituras, é importante escorrer bem e passar por papel absorvente.
A tortilha de batata à espanhola é a delícia de que todos gostamos e é parente próxima da batata suíça, de que falámos atrás. As batatas poutine, muito populares no Canadá, são fritas e consomem-se com pasta de queijo derretido e um molho de carne assada por cima. Já os gnocchi, italianos de gema, são feitos de batata cozida amassada com queijo e posteriormente processados como se de uma massa se tratasse. A preparação aloo gobi, popular na Índia, para mim deliciosa, utiliza um método semelhante ao dos gnocchi e é feita com couve-flor e batata. Excelente com rosé. Prove-a com Mateus rosé e vai ver como se converte em três tempos ao nosso campeão mundial. Mais canónico é o aligot, que se faz por terras de França. É uma esmagada de batata com queijo. Aqui vale a pena ensaiar o mágico e infalível Cabernet Sauvignon. Surpresa garantida!
Nos países da Europa de Leste, as latkes, pequenas panquecas de batata, são fascinantes bases de uma refeição. Pode acrescentar vários ingredientes à vez ou fazer experiências à vontade. Gosto muito das batatas Hasselback. Pegue numa batata grande, coza-a com casca, faça-lhe incisões com uma faca quase até ao fundo e leve-a ao forno quente por algum tempo. Mostarda de Dijon bem picante faz desta iguaria uma delícia dos deuses. Não se esqueça, contudo, da nossa batata assada a murro. Não há igual no mundo para acompanhar o bacalhau ou o polvo à lagareiro.
A viagem que fizemos pela excelente e rainha batata não nos coloca propriamente na crista da onda da história, no tocante à alimentação. Mas temos as nossas boas recompensas e mil receitas históricas, que adoramos e não dispensamos. E, à boa maneira portuguesa, temos todo o direito a fazer iscas com batatas fritas. Ou empadões de quase tudo, que harmonizamos com combinações de purés e legumes, e nos fazem viajar mentalmente, esvoaçando pelo mundo. Entre considerações e efabulações, não toquei nos pratos da cozinha peruana, nem na diversidade incrível das batatas ainda em produção pelas escarpas altas do Perú. Fica para uma próxima. Boas experiências!
(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2026)
Nuno Ricardo de Oliveira Ribeiro, mais conhecido como Maniche dentro das quatro linhas do retângulo futebolístico nacional, foi um dos raros atletas que envergou a camisola dos três clubes conhecidos como os grandes do futebol português. Germinou no Benfica, foi campeão europeu no Futebol Clube do Porto e pendurou a chuteiras, depois de uma rápida […]MANICHE: Depois do futebol, o champanhe

Nuno Ricardo de Oliveira Ribeiro, mais conhecido como Maniche dentro das quatro linhas do retângulo futebolístico nacional, foi um dos raros atletas que envergou a camisola dos três clubes conhecidos como os grandes do futebol português. Germinou no Benfica, foi campeão europeu no Futebol Clube do Porto e pendurou a chuteiras, depois de uma rápida passagem pelo Sporting, clube do coração e do qual era sócio. Entretanto, foi ainda atleta de clubes bem conhecidos dos adeptos de bom futebol.
Enquanto jogador foi um médio com grande apetência para municiar o ataque e explorou, com grande sucesso, a apetência para a marcação de golos muito vistosos de longa distância. Para a história, ficou aquele contra a Holanda, no Euro 2004, de um dos ângulos da grande área. Em todo este percurso de sucesso houve um denominador comum – a camisola com o número 18.
Quando pendurou as chuteiras, em 2011, ainda tentou enveredar pela carreira de treinador. Orientou o Paços de Ferreira e a Académica de Coimbra, enquanto adjunto. No entanto, no ano de 2016 encerrou esta nova faceta no mundo de futebol, para dar lugar a uma paixão que fermentava com cada vez maior intensidade.
“Eu não podia escolher um parceiro qualquer. A mim só me interessam os produtos de topo”, afirma Maniche
Do Douro para Champagne
O pontapé de saída no mundo dos vinhos foi dado em 2016 com a compra de vinhas no Douro e posterior lançamento de dois vinhos em parceria com a Quinta da Pacheca. A enologia coube a Maria Serpa Pimentel. Esse seria apenas o primeiro passo na fileira vínica nacional. Tal como na vida futebolística, a paixão de Maniche cresceu e galgou fronteiras em direção à região de Champagne, mais especificamente Reims, localizada no nordeste de França, onde assinou uma nova parceria com uma casa com 400 anos de história desenvolvida ao longo de treze gerações de produtores. Nada mais do que uma das mais prestigiadas referências da região, a Maison Cattier, casa fundada em 1625 pela família homónima. Tal como referiu Maniche: “este foi um passo muito pensado e ponderado tendo em vista a internacionalização do nosso portefólio. Eu não podia escolher um parceiro qualquer. A mim só me interessam os produtos de topo.”
Ainda assim, o vínculo entre o futebol e o vinho volta a fortalecer-se através de um acaso que deveria estar escrito no firmamento futebolístico. Jean-Jacques Cattier, líder da pretérita geração familiar, que conseguiu guindar e cimentar a marca como um produto muito exclusivo e de grande sucesso mundial, também é um dos principais acionistas da equipa Stade de Reims.
O Reims é um dos clubes com mais vitórias na história do futebol francês, com um palmarés que inclui a conquista de seis títulos da Ligue 1, duas Taças da França e cinco Troféus dos Campeões. O clube também ostenta um bom desempenho a nível europeu – no currículo apresenta duas finais, nas edições de 1956 e 1959, da Taça dos Campeões da Europa, a conquista da Taça Latina e da Taça dos Alpes em 1953 e 1977.
Nas palavras de Maniche: “Esta é uma união carregada de pontos comuns, com um futebol ganhador de títulos e de conquistas memoráveis”.
“Esta é uma união carregada de pontos comuns, com um futebol ganhador de títulos e de conquistas memoráveis”, declara o ex-futebolista
Novas aquisições vínicas
Nesta renovada temporada de desafios, Maniche apresenta dois champanhes denominados, Cattier Emedezoito by Maniche Brut rosé Premier Cru e Cattier Emedezoito by Maniche Brut Premier Cru. Ambos foram lançados ao público na cidade do Porto, seguido de um evento internacional em Madrid.
Segundo as palavras de Maniche, o primeiro foi produzido “pela adição de vinho tinto à mistura”. É um Brut rosé Premier Cru, que “reflete a qualidade das castas Pinot Noir e Pinot Meunier da Montagne de Reims e a sua deslumbrante complexidade aromática”. Já o segundo “foi produzido a partir de uma mistura dominada por Pinot Noir das minhas nove aldeias favoritas, caracterizando-se pela sua elegância, generosidade e personalidade intensamente frutada, dada pelos três anos de estágio”, concluiu.
(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2026)
THE FLADGATE PARTNERSHIP: Encontro intimista com o Douro

Numa época em que o consumo do vinho, em particular do Vinho do Porto, regista uma diminuição significativa no país, o enoturismo é considerado uma fórmula eficaz na retoma do incremento do sector vitivinícola, mas com a salvaguarda óbvia: ‘beba com moderação’. Até porque, vale a pena percorrer parte da ‘melhor estrada do mundo’, designativo […]
Numa época em que o consumo do vinho, em particular do Vinho do Porto, regista uma diminuição significativa no país, o enoturismo é considerado uma fórmula eficaz na retoma do incremento do sector vitivinícola, mas com a salvaguarda óbvia: ‘beba com moderação’. Até porque, vale a pena percorrer parte da ‘melhor estrada do mundo’, designativo atribuído ao troço curvilíneo, com cerca de 30 quilómetros, da Estrada Nacional 222. Aquele liga a cidade de Peso da Régua ao Pinhão, acompanha a margem do rio Douro e oferece uma vista singular para os patamares serpenteantes característicos da região demarcada mais antiga do mundo, à qual foi dado o nome do referido curso fluvial.
Estrada fora, ninguém fica indiferente à beleza paisagística que muda de tom consoante a estação do ano. Do verde da primavera aos tons dourados e avermelhados do outono, passando pelo salpicar de cores várias pontuadas pelo movimento formigante dos ranchos, aquando da vindima, a marcar a época de estio, terminando nas tonalidades escuras das cepas espalhadas pelos montes, desde a quota mais baixa ao topo das colinas, onde tudo muda a bel-prazer da natureza entre equinócio e solstício. À boleia da The Fladgate Partnership – grupo detentor de casas do Vinho do Porto e com um portefólio recentemente complementado por vinhos tranquilos das regiões do Douro, Vinhos Verdes, Dão e Bairrada –, fomos conduzidos a quatro propriedades concentradas no Alto Douro Vinhateiro, onde, acima de tudo, o Vinho do Porto está na base do enoturismo. São elas a Quinta do Panascal e a Quinta da Roêda, as unidades The Manor House Celeirós e The Vintage House Hotel, para além do The Yeatman, o hotel vínico localizado fora deste circuito.
Sobre as duas primeiras, tudo indica que o número de visitantes deverá chegar, respectivamente, perto dos 90 000 visitantes e dos 17 000 visitantes, o que representa um aumento de 20% registado nos últimos três anos. O The Vintage House Hotel é o complemento das duas quintas e pode tornar-se indissociável da The Manor House Celeirós, que está a iniciar um novo processo enoturístico dentro da The Fladgate Partnership. O The Yeatman é, por sua vez, a imagem do cliente de nicho curioso com a visita privada à Quinta da Roêda e a refeição intimista na Quinta do Panascal. Mas vamos por partes.
Quinta do Panascal, o diamante duriense
Ao longo do passeio de carro, impera o pequeno desvio de pouco mais de 1,5 quilómetros até à Quinta do Panascal, localizada na freguesia de Valença do Douro, no concelho de Tabuaço. “Temos um dos vales mais antigos do Douro, onde está o Mosteiro de São Pedro das Águas, um mosteiro da era do Românico, fundado no século XIII pelos monges cistercienses. À época, já se produzia vinho e eles próprios adicionavam aguardente, como forma de conservar o vinho”, conta Miguel Campos, coordenador das equipas de enoturismo das quintas do Panascal e da Roêda, e do Centro de Visitas do hotel The Manor House Celeirós, que, juntamente com Paulo Santos, responsável pelo Turismo no Douro, no âmbito da The Fladgate Partnership, aguardam a nossa chegada a esta propriedade de 70 hectares, de portas abertas ao turismo desde 1992. Pertence à The Fladgate Partnership desde 1978 e tem como representante David Guimaraens, diretor técnico de enologia do grupo e rosto da sexta geração desta secular casa de vinhos do Porto da Fonseca, fundada em 1815. O encontro ocorre sob a sombra da esplanada ampliada em 2024, onde são feitas provas com a chancela da casa, a Fonseca. Afinal, estamos no território em que o Vinho do Porto é uma herança cultural a preservar, e onde há uma forte ligação com o vale do rio Távora, que atravessa duas regiões vitivinícolas: Douro e a vizinha Távora-Varosa, separando a Quinta do Panascal – localizada na margem direita deste curso de água – da propriedade situada no lado oposto.
Para conhecer a monumentalidade dos terraços empedrados representativos do Alto Douro Vinhateiro, fez-se a visita guiada de 30 minutos, às vinhas, de 50 hectares. A visita com áudio-guia, disponível em nove idiomas, é a alternativa e realiza-se em 40 minutos. “Há aqui vinhas desde o início do século XX”, avança Miguel Campos, indicando os patamares mais estreitos e com muros toscos, onde, agora, estão plantadas oliveiras. Já a vinha está distribuída por socalcos mais largos, embora o património genético do Douro prevaleça por aqui. Hoje, mais do que nunca, a mudança centra-se nas castas. Segundo o nosso cicerone, estas são selecionadas em função da adaptabilidade relativamente ao solo e à orientação solar. Na lista, constam Tinta Amarela, Touriga Francesa, Tinta Roriz, Touriga Nacional, Tinta Barroca e Tinto Cão. Na época da vindima, as uvas colhidas em vinhas velhas são submetidas a pisa a pé nos lagares em granito instalados no piso térreo da casa principal da Quinta do Panascal, para extrair o mosto. A fermentação é interrompida por meio da adição de aguardente. O vinho é transportado, posteriormente, para os balseiros de mogno e tonéis de carvalho francês, dispostos no espaço contíguo à sala dos lagares. O resultado deste trabalho traduz-se em três tipos de Vintage: o Clássico, o Quinta do Panascal e o Guimaraens.
A herança gastronómica duriense traduz-se na comida dita de conforto confecionada na Quinta do Panascal
O programa de enoturismo vai além de uma das nove provas de vinhos, da ‘Classic’ à ‘Signature’, bem como da ampla loja instalada na casa secular da propriedade, entre outras sugestões, como o workshop de Vinho do Porto ou o passeio de barco no rio Douro e no rio Távora. Na propriedade, e com o intuito de dar resposta à crescente procura da gastronomia duriense por parte dos turistas, decidiu-se abrir a sala contígua, tornando-a maior, para receber dois grupos e servir entradas diferentes. Cabrito e o bacalhau assados, e o arroz de pato constam na lista das sugestões, além dos bolos de bacalhau e dos rissóis, protagonistas do início de cada refeição.
“Aqui não há fine dining e a ficha técnica é a mão. É uma experiência verdadeiramente regional, com comida de conforto, feita por duas senhoras locais e que transmite cultura e o amor que têm na cozinha e transmitem todo o saber que foram herdando ao longo do tempo”, reforça o coordenador de enoturismo do grupo, referindo-se aos dotes culinários de D. Lúcia e D. Emília, que mantêm este ofício há, respectivamente, 40 e 20 anos, na The Fladgate Partnership. Ambas preservam o serviço personalizado, com reserva obrigatória efetuada, no mínimo, com 24 horas de antecedência, com a garantia de um serviço traduzido na herança cultural no prato.
Quando o tempo não está de feição, a refeição é servida na Sala Fonseca, instalada logo à entrada da casa principal da propriedade. Nos dias soalheiros, o almoço é servido sob a pérgola do terraço, ao ar livre.
Na pacata aldeia de Celeirós
Chegada a hora da despedida, rumamos até à The Manor House Celeirós, unidade de alojamento anexada, em março de 2024, ao portefólio hoteleiro da The Fladgate Partnership. A aquisição reforça a aposta nos vinhos tranquilos – esta compra inclui ainda as Quinta do Confradeiro, com 55 hectares de vinha, e Abelheira, onde está concentrado o encepamento de castas estrangeiras.
Instalado em Casal de Celeirós, no concelho de Sabrosa, este alojamento é constituído por Casa Principal, Casa do Lagar, Casa das Pipas Restaurant e Centro de Visitas de Celeirós. Apesar da estrutura estar montada, foi necessário fazer o levantamento sobre a história e a identidade desta propriedade, para criar a marca e a lançar no mercado. Foi como começar do zero.
A Casa Principal dispõe de 12 quartos. Cada um apresenta uma decoração diferente. Em todos os espaços do interior deste edifício, as alterações passaram a favorecer a entrada de luz natural, desde o piso térreo ao primeiro andar. “Foi preciso libertar do sufoco do mobiliário”, afirma Paulo Santos. Os sofás foram revestidos com novos tecidos de tons mais suaves, para contrastar com a madeira escura predominante no teto e nos armários distribuídos pela casa. “O que interessa está lá fora”, continua o responsável pelo Turismo no Douro da The Fladgate Partnership, chamando a atenção para parte dos 17 hectares de vinha, que preguiça pela propriedade. Em contrapartida, onde outrora havia um lagar de azeite e outro de vinho, está a Casa do Lagar. Esta foi submetida a uma intervenção mais profunda. Aos quatro quartos já existentes somaram outros três, incluindo uma suíte com kitchenette e acesso direto à pacata aldeia de Celeirós. Aliás, dos sete quartos, dois são familiares. “A The Manor House Celeirós é ideal para os hóspedes que gostam de estar ligados à parte da natureza”, resume Paulo Santos. Neste contexto, encaixam as caminhadas pela vinha e pela aldeia, e os passeios de bicicleta. Espaço ao ar livre não falta para os mais novos, bem como a aguardada tranquilidade, requisito tão apreciado pelos casais.
The Manor House Celeirós é o mais recente hotel da The Fladgate Partnership, onde o restaurante e o Centro de Visitas dispõem de todo o portefólio de vinhos tranquilos do grupo
A vista privilegiada para a vinha estende-se à Casa das Pipas Restaurant. Espaçoso e luminoso, este edifício foi ligeiramente intervencionado, no sentido de o tornar mais funcional, e ganhou mais vida com a exposição fotográfica alusiva à temática do Douro de outrora. A cozinha permanece nas mãos do chef Milton Ferreira, ofício partilhado no The Vintage House Hotel, com localização privilegiada no Pinhão. “O chef Milton estava na Quinta do Portal e aceitou o desafio de transmitir a identidade do Douro à mesa do restaurante”, resume Paulo Santos. O foco está nos produtos locais e regionais, e a inspiração tem como base as receitas tradicionais. Porém, o chef Milton Ferreira não se inibe em aliar influências de outras latitudes culinárias aos pratos confecionados neste espaço de restauração. A carta de vinhos engloba todo o portefólio vínico da The Fladgate Partnership, com referências do Douro, do Dão, da Bairrada e dos Vinhos Verdes. Para Miguel Campos, esta realidade é uma mais-valia. “Temos todos os vinhos do grupo para prova, para além dos vinhos da Taylor’s e do Portal”, exemplifica.
No Centro de Visitas de Celeirós, onde o xisto e a cortiça coabitam com o betão, a entrada é feita pela loja de vinhos e de produtos regionais, com porta de acesso para a cave de envelhecimento destinada ao Vinho do Porto e ao moscatel. Já o vinho tranquilo descansa a nove metros abaixo da terra, onde os 12º C são uma constante e a humidade prevalece nos 80%. No piso superior, há uma sala de provas complementada por uma área técnica – copa e zona de apoio – e porta envidraçada de acesso ao terraço, com vista para um Douro sem fim. A ideia é destinar este espaço exterior para provas vínicas, ao mesmo tempo que se oferece a envolvente paisagística predominada pelos vinhedos e a morfologia durienses. Os hóspedes do The Manor House Celeirós têm 50% de desconto na visita e prova de vinhos no Centro de Visitas de Celeirós.

Quinta da Roêda, a joia da coroa
A manhã soalheira abre caminho à curta viagem até à Quinta da Roêda, com uma área que ultrapassa os 100 hectares. É, desde 1889, a casa da Croft, com localização privilegiada na vila do Pinhão e tem como insígnia o lendário Croft Vintage 1945 ou a eterna relíquia, o Vintage Roêda 1914. A paisagem circundante carregada de vinhas (cerca de 70 hectares) empresta as cores da estação a esta propriedade duriense, adquirida, em 2001, pelo grupo Taylor Fonseca, ano esse em que o grupo passa a designar-se The Fladgate Partnership.
Face ao tamanho do estacionamento, admite-se a popularidade da Quinta da Roêda, cuja “estrutura está centrada no Vinho do Porto”, salienta Miguel Campos. Aqui, o enoturismo é implementado em 2016 e “a partir de 2018, 2019 houve uma explosão enorme de visitas. Atualmente, está em velocidade cruzeiro, mas temos de estar muito atentos, porque o mercado é muito dinâmico e a oferta no Douro é muito maior do que há oito anos”, continua o nosso cicerone. Entre maio e outubro, a Quinta da Roêda tem muita procura, com as manhãs muito requisitadas por grupos grandes. “Da parte da tarde, separo os grupos, de maneira a que as pessoas tenham visitas mais privadas.” Só na época de estio recebe entre 400 a 500 pessoas por dia. “Entre outubro e abril, podemos oferecer aqui visitas praticamente privadas”, acrescenta o coordenador de enoturismo da The Fladgate Partnership.
A cidade do Porto é o ponto de partida para a maioria dos visitantes, dos quais 90% são estrangeiros. “Aqui, 98% das visitas são guiadas”, informa Miguel Campos, mas também há espaço para o self-guided tour, para o qual basta aceder ao QR Code desenhado para o efeito. Ou seja, a aposta no enoturismo tem vindo a ser reforçada, graças ao aumento de turistas de vários pontos do mundo. Segundo Paulo Santos, “2022 foi o ano da recuperação e 2023 foi o ano do grande arranque”. Setembro de 2025 é o mês com a maior receita de sempre.
Entre o vinhedo que se estende colina abaixo, há três hectares de um património vitícola preservado nas vinhas da Ferradura, da Benedita e do Forno, o qual remonta ao início do século XX, isto é, à fase pós-filoxera, onde estão plantados os primeiros exemplares da casta tinta Touriga Francesa, resultante do cruzamento da Mourisco e da Touriga Nacional. O legado estende-se aos patamares desse período da história do Vinho do Porto. As vinhas com mais de 40 anos ocupam 30% da plantação.
O regresso ao Centro de Visitas, instalado nos antigos estábulos restaurados de acordo com a traça tipicamente duriense, ocorre à hora do almoço. A escolha reparte-se entre o buffet regional e o barbecue, servidos no interior ou no terraço do casario. Ambos são preparados para grupos, com o mínimo de 30 pessoas. O piquenique na quinta é a alternativa. É apresentado em formato tradicional nas versões ‘Cesto Clássico’, ‘Cesto Premium’ e ‘Cesto Vegetariano’, e pode ser saboreado com vagar em um dos muitos sítios espalhados pela propriedade. As experiências passam ainda pelas nove provas, que vão da ‘Roêda’ à ‘Commoisseur’, sempre com Vinho do Porto Croft. Em época de vindima, há a possibilidade de somar à visita a degustação de quatro vinhos do Porto e pisar as uvas num dos três lagares tradicionais em granito, na Casa dos Lagares.
Mais abaixo, está outra casa datada dos anos 1920, com tetos em madeira e paredes em xisto, ideal para eventos para grupos grandes, que arrecadam daqui momentos gastronómicos cingidos ao receituário da região do Douro. “Há um constante trabalho relacionado com a memória, porque estiveram numa quinta onde é produzido o vinho que experimentaram no local”, sublinha Miguel Campos.
A Quinta da Roêda preserva três hectares de um património vitícola dividido pelas vinhas da Ferradura, da Benedita e do Forno, o qual remonta ao início do século XX, isto é, à fase pós-filoxera
Hotel de charme à beira-rio
Com a memória fotográfica bem viva, agraciada pela beleza paisagística impregnada de socalcos e de um verde infinitos, e mais saber acerca do Vinho do Porto, partimos para o The Vintage House Hotel, situado a 1,7 quilómetros da Quinta da Roêda. Contíguo à estação de comboio do Pinhão, este cinco estrelas tem registado um acréscimo em termos de procura. O facto de não fechar as portas desde o verão de 2021 comprova o sucesso. Vale pela presença do rio Douro, do qual é separado apenas pela rua sobranceira a este curso de água, e pela vista para as colinas durienses. A decoração clássica em tons suaves e o conforto complementam a lista de preferências.
A propriedade tinha, em tempos há muito idos, um armazém de vinhos. Pertencia às famílias de Adrian Bridge, CEO da The Fladgate Partnership, e de David Guimaraens. Em 1998, foi transformado numa unidade de charme em pleno Douro vinhateiro, com 43 quartos. Pouco tempo depois, passou por duas empresas hoteleiras e, em 2015, voltou para o grupo. Um ano mais tarde, com as mudanças estruturais no edifício, a oferta passou para 50 quartos. Destes, quatro são master suítes e estão instaladas no piso acima da zona da receção transposta, nesse ano, para o local atual. Com a passagem do tempo, decidiu-se pela instalação, ao ar livre, da estrutura disposta sobre as mesas do Restaurante Rabelo, a par com a fonte construída de raiz. À semelhança do Casa das Pipas Restaurant, a cozinha deste espaço de restauração é da responsabilidade do chef Milton Ferreira, com a primazia dos sabores durienses no prato e uma aposta clara na apresentação contemporânea. Já o Salão do Rio, sobranceiro ao curso de água com o nome da região, é palco do pequeno-almoço. O Bar Library é ideal para uma refeição mais descontraída ou um brinde, antes de seguir para Restaurante Rabelo, ou beber um chá pela tarde, na companhia de um livro, à lareira, nos dias frios de inverno. Aproveite para se informar sobre as experiências vínicas disponíveis no hotel.
Os mercados americanos, inglês e português são de de valor acrescentado para o The Vintage House Hotel, bem como o brasileiro, segundo Paulo Santos. “Trabalhamos muito com grupos. É uma fatia muito importante da nossa faturação”, sobretudo em termos de food & beverage (F&B). “Os meses mais impactantes são abril e maio, setembro e outubro”, continua o responsável pelo Turismo no Douro da The Fladgate Partnership. Quanto a 2026, Paulo Santos mostra-se otimista, revelando que ainda “bebemos muito do turista que passa pela cidade do Porto”.
Montra de vinhos raros e exclusivos
O número de garrafas aproxima-se das 40 000 divididas por 1400 referências vínicas, das quais 97% são nacionais, existentes na Garrafeira, considerada uma das maiores caves de vinhos portugueses do mundo, reservada a provas cegas, masterclasses ou jantares vínicos exclusivos, entre outras experiências desenhadas para hóspedes e visitantes do The Yeatman, o hotel vínico urbano com 15 anos de história, localizado entre caves de Vinho do Porto, em Vila Nova de Gaia. “A Garrafeira é o nosso showroom”, afirma Elisabete Fernandes, diretora de vinhos deste cinco estrelas pertencente ao grupo The Fladgate Partnership. É a responsável pela formação das equipas na The Yeatman Wine School e, por conseguinte, pelos seis escanções da unidade, bem como pela elaboração do vasto programa associados ao vinho, como os jantares vínicos a ter lugar à quinta-feira de cada mês, as cartas de vinhos nos bares e restaurantes, o Christmas Wine Experience, que decorre anualmente no início de dezembro, ou os sunsets de verão.
“O facto de termos parceiros associados ao hotel filtra muito”, explica Elisabete Fernandes referindo-se aos mais de uma centena de produtores, cujos nomes estão distribuídos por cada quarto do The Yeatman. Cada vinho é provado antes de constarem no The Wine Book. Além de referências nacionais e internacionais, esta lista inclui a seleção de edições raras e exclusivas feita pela diretora de vinhos. “As edições muito exclusivas já vêm alocadas ao restaurante gastronómico”, onde a harmonização do menu de degustação muda com regularidade. Falamos do multipremiado espaço centrado na cozinha do chef executivo aveirense Ricardo Costa, onde, desde o início, tem apostado na valorização do receituário regional do país e da matéria-prima nacional, através de uma ação baseada na contemporaneidade e na criatividade. No entanto, não é descurar a carta de vinhos do The Orangerie, restaurante familiar de comida designada de conforto. Por outras palavras, cada espaço tem uma lista específica no que às edições vínicas diz respeito. Sem esquecer as linhas de copos escolhidos a dedo por Elisabete Fernandes, ação reveladora do rigor implementado, desde o primeiro momento, no The Yeatman, um anfiteatro alusivo aos socalcos do Douro, com vista para o rio Douro e a ‘Invicta’. Inicialmente com seis pisos e 82 quartos, número que cresce para 10 pisos e 109 quartos a partir de 2019, oferece, na maioria dos casos, terraços privados de jardins relvados. “Todos os pisos acompanham a morfologia do terreno”, sintetiza Claire Aukett, diretora de comunicação e relações públicas do hotel.

A filosofia do hotel é visível nas exposições distribuídas pelo hotel, inclusive nas escadas de acesso a cada andar do edifício, com o propósito de cruzar a cultura do vinho e as artes, desde a fotografia à escultura, passando pela pintura. Douro, Porto, Portugal, viagens, cortiça e vinho são temas abordados nesta mostra cultural extensível ao The Yeatman Wine Spa, onde a uva desempenha o papel principal e o vinho tinto partilha protagonismo com a própria matéria-prima a partir da qual é feito.
(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2026)
TINTOS DO DÃO: O Dão para além da Touriga

A Touriga Nacional continua a ter um papel central na imagem do Dão, sendo responsável por 21,3% da área da vinha na região. Impositiva por natureza, mas quando bem integrada, a casta contribui com estrutura, profundidade aromática e identidade. Por isso, não fazia sentido excluí-la completamente desta prova; limitámos apenas a sua presença de forma […]
A Touriga Nacional continua a ter um papel central na imagem do Dão, sendo responsável por 21,3% da área da vinha na região. Impositiva por natureza, mas quando bem integrada, a casta contribui com estrutura, profundidade aromática e identidade. Por isso, não fazia sentido excluí-la completamente desta prova; limitámos apenas a sua presença de forma a não ultrapassar os 50% do lote.
O que é um blend tradicional do Dão?
Eis uma questão que só pode ser respondida sob um prisma histórico. O lote das quatro magníficas – Touriga Nacional, Tinta Roriz, Alfrocheiro e Jaen –, que, entendemos hoje, como “tradicional”, certamente não o foi antes da filoxera, nem em meados do século passado. A composição das vinhas e dos vinhos foi-se alterando conforme modas, estudos científicos que privilegiaram umas castas em detrimento de outras, avanços na viticultura, alterações climáticas e outros factores.
A Touriga Nacional passou por um período de abandono antes de alcançar o novo estrelato. A Jaen, que mal surgia nos registos, domina hoje as plantações. A Tinta Roriz, que aterrou na região nos anos oitenta do século XX, ascendeu rapidamente à liga das castas recomendadas. A Baga, outrora dominante, aparece agora em field blends ou como raridade monovarietal. Algumas variedades perderam-se pelo caminho; as mais sortudas foram resgatadas do oblívio, graças ao esforço de produtores, como a Lusovini.
De acordo com a Ampelografia Portuguesa de 1865, antes da praga da filoxera, três castas tintas presentes em praticamente todos os concelhos da atual região do Dão eram a Touriga Nacional (à época conhecida como Tourigo ou Mortágua), o Alvarelhão e o Bastardo. Para além destas, são mencionadas Amaral, Baga, Tinta Amarela, Tinta Carvalha e Tinta Francisca, bem como outras variedades cujos nomes hoje são pouco conhecidos, como Coração de Galo ou Pilongo.
Em 1953, Tourigo e Alvarelhão eram obrigatórias nas novas plantações, com um mínimo de 10%. Em 1985, a Touriga Nacional passou a ser a única obrigatória com um mínimo de 20% das novas plantações; as castas Alfrocheiro, Bastardo, Jaen, Tinta Pinheira, Tinta Roriz e Rufete podiam chegar até 80%, enquanto Alvarelhão, Tinta Amarela e Tinto Cão não deviam ultrapassar 20% das plantações.
Em 1993, as castas foram divididas em “autorizadas” e “recomendadas”. As primeiras incluíam o quarteto principal, para além de Alvarelhão, Bastardo, Rufete (Tinta Pinheira), Tinto Cão e Tinta Amarela. Foram ainda mencionadas as variedades que não podiam ultrapassar 40% do conjunto: Alicante Bouschet, Cabernet Sauvignon e Pinot (Noir, presume-se).
Os estilos de vinificação também recebiam as influências de cada época. No início dos anos 2000, os produtores do Dão sentiam-se tentados a apanhar a onda do Novo Mundo, com muita cor e concentração, procurando maior valorização no palco internacional. Isso criava uma certa incoerência com o perfil dos vinhos da década de 1960, quando o Dão era visto como a “Burgúndia de Portugal”. Não sou adepta destas alusões a regiões extra-lusas, mas percebe-se que o termo apelava à ideia de elegância. Hoje, temos produtores antigos, como a Casa da Passarella, ou mais recentes, como a Dona Sancha e o Domínio do Açor, que privilegiam este lado subtil e delicado, em detrimento da extração e opulência.
Há já quase 15 anos, três grandes enólogos do Douro — Jorge Moreira (Poeira), Francisco Olazabal (Quinta do Vale Meão) e Jorge Borges (Wine & Soul) — criaram no Dão o projecto conjunto com a abreviatura M.O.B. “Nos vinhos do Douro há sempre sensação de calor; no Dão também se consegue maturação fenólica, mas os vinhos são energéticos, tensos, com muita frescura e adquirem equilíbrio com menos extração”, explica Jorge Moreira.
Jaen: perfume e macieza
É uma casta de nacionalidade dupla: por um lado, é filha de progenitores portugueses, a Alfrocheiro e a Patorra; por outro, apresenta maior variabilidade genética em Espanha, onde é identitária nas denominações de origem Bierzo e Ribeira Sacra. Supõe-se que andou pelos caminhos de Santiago e atravessou fronteiras através das práticas de intercâmbio agronómico. As primeiras referências surgem em 1886 e 1889, nas regiões de Mangualde e Penalva do Castelo. Em 1973, a casta era permitida nas novas plantações até 30, 40% em alguns concelhos da região. Sendo produtiva, mereceu atenção dos viticultores, que entregavam uvas às adegas cooperativas. Outra vantagem era o grau alcoólico provável mais elevado, o que se reflectia na remuneração, ao contrário da Baga, que perdeu esta corrida a partir das décadas de 1950 e 1960.
A Jaen é quase exclusiva do Dão, onde lidera as plantações com 22,8%, segundo os dados oficiais da comissão vitivinícola da região. Porém, a sua presença dominante no encepamento, não se traduz em valorização. Nem sempre é plantada nos sítios mais adequados, não é pensada para brilhar, como em Bierzo. Sendo muito sensível ao terroir, não apresenta comportamento homogénio dentro da região e acaba por ser pouco consensual. Produz muito, sobretudo em terrenos férteis, mas é susceptível ao míldio e ao oídio, e apodrece com facilidade, o que obriga a evitar zonas mais húmidas. Resiste bastante bem ao stress hídrico, mas não gosta de calor em excesso.
Com produções entre seis e oito toneladas por hectare, e desde que esteja plantada no sítio certo, a Jaen é capaz de originar vinhos de qualidade. Em contexto de lote, pode ir até às dez toneladas por hectare.
A maturação é precoce, mas é difícil apanhá-la no ponto, porque a maturação fenólica é desfasada da acumulação de açúcar. A situação agrava-se, quando a casta é plantada em solos com maior humidade, porque com calor e água disponíveís, a maturação dispara e facilmente entra em sobrematuração. A janela de oportunidade é curta e crítica: quase de um dia para outro passa de rústica, com taninos verdes e aromas de sardinheira, para borracha queimada e acidez baixa. A Jaen contém a segunda maior concentração (após Touriga Nacional) de compostos terpénicos, apresentando, nos primeiros meses, um perfume intenso e delicado a flores, evoluindo, depois, para o aroma a fruta madura, a lembrar morangos e framboesas.
É frequentemente, para não dizer sobretudo, utilizada nos vinhos de entrada de gama, pois confere macieza e um perfume bonito e personalizado. Os vinhos arredondam depressa e ficam prontos a beber ainda jovens. O monovarietal nem sempre é possível e não em qualquer sítio. Numa recente apresentação dos vinhos da Dona Sancha, o enólogo Paulo Nunes explicou que só foi possível fazer Jaen em extreme com uvas de uma vinha com altitude mais elevada, numa zona mais fresca, onde se vindima mais tarde, pois o frio contraria o carácter primário da casta.
A idade da vinha também tem o seu impacto na produção e na maturação. Francisco Olazabal, do trio M.O.B., nota que “a Jaen das vinhas velhas parece outra casta”.
Alfrocheiro: frescura e elegância
A Alfrocheiro é uma das variedades mais fascinantes do Dão. Ausente nas referências ampelográficas do século XIX, revelou-se, mais tarde, como uma verdadeira “mãe genética” de várias castas portuguesas, incluindo o próprio Jaen. A sua designação actual surgiu no início do século XX, tendo sido conhecida, no passado, por outros nomes, como Tinta Bastardeira, Tinta Bastardinha e Tinta Francesa de Viseu. Em terras espanholas é conhecida como Bruñal, em Arribez del Duero, Caiño Gordo, na Galiza, Albarín Tinto, nas Astúrias, e Baboso Negro, nas ilhas Canárias.
Está disseminada por toda a região, sendo a quarta casta mais plantada, representando 5,9% do encepamento no Dão. Embora esteja presente noutras regiões do país, a nível nacional, não ultrapassa 1% da área de vinha. É uma casta exigente, irregular e difícil de prever. Sensível ao calor, ao stress hídrico e à insolação excessiva, não segue regras fixas: não há anos claramente “bons” ou “maus” para a Alfrocheiro. Em contrapartida, quando bem trabalhada e quando lhe apetece, oferece um equilíbrio notável entre álcool, taninos e acidez. Das quatro magníficas, revela-se mais fresca, mais elegante e mais subtil, produzindo vinhos de boa cor, taninos firmes, mas delicados e uma acidez natural mais pronunciada. Jorge Moreira vê semelhanças com Pinot Noir, mas reconhece que precisamos de 200 anos para a elevar ao mesmo nível de reconhecimento.
Tinta Roriz: omnipresente e controversa
É a casta ibérica mais conhecida internacionalmente como Tempranillo. A nível nacional é líder absoluto, ocupando 10% da área total da vinha. No Dão, surgiu no final do século passado, após o reconhecimento das suas aptidões pelo Centro de Estudos de Nelas. Em 1983, a par com a Tinto Cão, era a variedade com menor expressão na região (apenas dois hectares) e hoje ocupa 17,6% da área plantada, posicionando-se no terceiro lugar. Embora tenha registado um crescimento exponencial e esteja omnipresente nos lotes, é uma casta polémica, considerada por muitos um erro de casting. Funciona como uma verdadeira “fábrica de açúcar”, sem que a maturação fenólica acompanhe esse ritmo, o que conduz ao desequilíbrio: ou taninos verdes e adstringentes, ou teores alcoólicos elevados com baixíssima acidez. Prefere solos profundos e bem drenados. Facilmente produz quilos de uva com bagos grandes, muito líquido e muita polpa. Neste caso, perde drasticamente a qualidade. O controlo de produção é, por isso, indispensável.
Em anos favoráveis, pode dar vinhos intensos, estruturados e complexos; noutros, a qualidade é difícil de extrair. Exige decisões rigorosas na vinha e na adega. Alguns produtores optam por vindimas fracionadas, destinando parte da uva para a produção de rosé ou espumante, de forma a preservar frescura e equilíbrio. Outros preferem arrancá-la e substituí-la pelas castas mais ajustadas à região. Em anos favoráveis, pode originar vinhos intensos, estruturados e complexos; noutros, a qualidade é difícil de extrair.
Outras castas
A Tinta Pinheira (3,1% das plantações) é o nome local da Rufete. Queima-se com o sol e apodrece com a chuva, duas das razões pelas quais perdeu popularidade. É uma casta de perfil vegetal, mas delicada, que requer igual delicadeza na vinificação. Os vinhos não apresentam acidez particularmente elevada, mas transmitem sempre energia e frescura natural, segundo a informação dada por Luís Lopes, enólogo da Domínio do Açor. Na adega, optam pelo desengace total e por uma extracção muito ligeira, quase como de uma infusão se tratasse. Outro cuidado prende-se com o uso da barrica: se a Jaen “consegue mastigar a madeira”, a Tinta Pinheira é muito mais sensível. O estágio prolonga-se por dois anos em barricas com três a quatro anos de uso, de modo a que a madeira não se faça notar no vinho.
A Baga (4,9% das plantações) foi, em 1983, a casta com maior encepamento na região, totalizando 3.142 hectares. Em 2008 ainda mantinha uma presença significativa, mas, sendo de ciclo longo e sensível à podridão, não tinha qualquer hipótese. Como explica Paulo Nunes: “Nos anos 80 e 90, quem mandava na viticultura era o São Pedro, e as chuvas no equinócio aconteciam oito em cada dez anos. Hoje já é possível empurrar a decisão da vindima para dentro de Outubro.” Em algumas vinhas, realizam duas a três vindimas faseadas, em função do destino das uvas.
A Malvasia Preta resulta do cruzamento natural entre Alfrocheiro e Sarigo. Com a primeira referência datada de 1866, está mais presente no Nordeste de Portugal. Transmite acidez bastante elevada e aroma com fruta mais imediata e fácil de gostar.
A casta Monvedro é mais uma descendente do Alfrocheiro. Está presente na região em quantidades diminutas (em 1986 representava menos de 0,01% do encepamento). Medianamente produtiva, abrolha cedo e amadurece tardiamente. Mostra-se bastante sensível às vagas de calor, pelo que necessita de ser plantada em zonas mais frescas e sombrias. É uma variedade pouco consensual, bastante rústica e austera, com acidez e taninos elevados. Por sua vez, a Tinta Carvalha já teve alguma presença na região, mas, por apresentar pouca matéria corante e baixa produção de açúcar, deixou de ter expressão, não se adequando à imagem dos vinhos idealizados na década de 1990. Hoje, segundo Paulo Nunes, apresenta um perfil que “respira o Dão”.
Se as castas isoladas ajudam a compreender a região, os blends permitem interpretá-la. A essência do Dão reside na complexidade dos lotes, construídos na adega pelas mãos e sensibilidade humana ou na vinha com castas misturadas e, por vezes, centenárias.
Field blend e vinhas velhas
Não tendo nada a ver com a conotação romantizada de “field blend” de hoje, na época em que surgiram, estes lotes eram uma solução meramente prática, baseada no conhecimento empírico. Não se estudavam as castas a fundo do ponto de vista agronómico e enológico; plantava-se o que estava mais à mão ou, mais próximo de verdade, o que os enxertadores tinham disponível. O field blend funcionava como uma espécie de apólice contra as adversidades climáticas: com muitas variedades à mistura, colmatava-se a insegurança e conseguia-se estabilidade, tanto na produção, como na qualidade.
O desafio das vinhas velhas, com uma grande variedade de castas, consiste em garantir um controlo eficiente da maturação e definir a data de vindima. Às vezes, é possível identificar uma ou duas videiras que reflectem o nível de maturação da vinha toda, como faz Paulo Nunes, ou realizar várias passagens na vindima, como refere Álvaro de Castro, o proprietário da Quinta da Pellada.
As vinhas antigas são igualmente mais difíceis em termos fitossanitários e muito exigentes em trabalhos na vinha. É preciso conhecer bem não apenas a parcela, mas também as videiras, para podar cada uma de forma adequada. Nesta prova, tivemos alguns vinhos das vinhas velhas. Quinta da Pellada Vinhas com 70 anos, com predominância das castas Jaen, Alvarelhão, Tinta Pinheira, Tinta Carvalha, Bastardo, entre outras, e reduzida expressão de Touriga Nacional, Português Azul e Negro Mouro. O nome da parcela “Alto” é autoexplicativo, pois fica a 550 metros de altitude, em solo granitico com linhas de argila e areia.
Da Casa Américo veio um vinho de uma vinha centenária da Quinta da Cerca, localizada na sub-região da Serra da Estrela – desengace parcial e fermentação em lagar aberto com uma primeira pisa a pé. A partir daqui apenas molharam a manta uma vez por dia. O fim da fermentação e o estágio de 24 meses ocorreram em depósito de cimento, aos quais se somaram 24 meses em garrafa.
Tivemos uma boa amostra de monovarietais de Alfrocheiro (sete) e Jaen (quatro) e ainda um de Tinta Pinheira e um de Tinta Roriz. As castas estrangeiras, como é o caso de Syrah e Cabernet Franc, não são permitidas para denominação de origem, mas podem entrar nos vinhos regionais de Terras do Dão.
(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2026)
*Nota: A ordem das garrafas é meramente aleatória
-

Morgado de Silgueiros
Tinto - 2023 -

Dom Vicente
Tinto - 2021 -

Conde de Anadia
Tinto - 2022 -

Castelo de Azurara
Tinto - 2017 -

Caminho
Tinto - 2023 -

Tazem
Tinto - 2022 -

Soito
Tinto - 2017 -

Taboadella
Tinto - 2021 -

Pedra Cancela
Tinto - 2020 -

Adega de Penalva
Tinto - 2020 -

Quinta Madre de Água
Tinto - 2019 -

Quinta dos Carvalhais Edição Especial
Tinto - 2019 -

Quinta do Perdigão
Tinto - 2018 -

Quinta de Lemos
Tinto - 2015 -

Quinta da Vegia
Tinto - 2019 -

Opta Imperatriz do Dão
Tinto - 2018 -

Dom Bella
Tinto - 2015 -

Desalinhado
Tinto - -

Cabriz Edição Especial
Tinto - 2018 -

Borges
Tinto - 2023 -

Vinha Negrosa
Tinto - 2021 -

O Estrangeiro Single Vineyard
Tinto - 2023 -

O Fugitivo Vinhas Centenárias
Tinto - 2019 -

M.O.B.
Tinto - 2023 -

Líquen
Tinto - 2022 -

Domínio do Açor
Tinto - 2022 -

Quinta da Pellada Alto
Tinto - 2019 -

Envelope
Tinto - 2018 -

Casa Americo Vinhas Centenárias
Tinto - 2018 -

Quinta das Corriças
Tinto - 2018
RUINART: A quintessência do espírito de Champagne

Acedemos ao 4 Rue de Crayères através de um caminho como que escondido, parecendo esculpido directamente no calcário. As primeiras impressões são fortemente sensoriais, desde a brancura do giz ao azul do céu, passando pelo verde das copas das árvores. À medida que percorremos esse caminho, emerge o Pavilhão Nicolas Ruinart, desenhado pelo arquitecto japonês […]
Acedemos ao 4 Rue de Crayères através de um caminho como que escondido, parecendo esculpido directamente no calcário. As primeiras impressões são fortemente sensoriais, desde a brancura do giz ao azul do céu, passando pelo verde das copas das árvores. À medida que percorremos esse caminho, emerge o Pavilhão Nicolas Ruinart, desenhado pelo arquitecto japonês Sou Fujimoto, um magnífico edifício calcário, todo ele aerodinâmico, com curvas suaves, longas linhas horizontais, inspirado na evanescência das bolhas de champagne, esculpidas pela luz. O telhado, assimétrico, forma uma curva e lembra a redondeza de uma bolha de champagne. Mudando gradualmente do transparente para o subtil opaco, criando a impressão do borbulhar num copo de champagne. A janela imensa emoldura a vista do pátio principal, para as maravilhosas fachadas do século XIX da Maison Ruinart.
Mas, sob toda esta beleza e grandiosidade, estão as caves, as famosas Crayères, classificadas como Património Mundial da UNESCO, e nada nos prepara verdadeiramente para tão grande monumentalidade. As caves estão a 38 metros de profundidade e possibilitam o acesso a oito quilómetros de túneis, pedreiras desactivadas, de pedra calcária e giz, algumas datadas da Era Medieval. Aqui, o ar é fresco e húmido, o som que se ouve é apenas o murmúrio do tempo. É onde milhares, ou milhões, de garrafas alinhadas – a Ruinart nunca revela os números de garrafas produzidas ou em cave – aguardam, pacientemente, os seus momentos de fama.
Expressão artística
Fundada em 1729, em plena Era das Luzes, a Maison Ruinart nasceu da ideia pioneira de fazer do champagne uma expressão cultural e uma arte de viver. Nicolas Ruinart, inspirado pelas visões de seu tio, o monge beneditino Dom Thierry Ruinart, fundou a primeira casa, da região de Champagne, oficialmente dedicada a este vinho com bolhas mágicas, que então passou a ser servido nas coroações dos Reis de França e no Palácio Real, e a encantar as demais cortes europeias.
Ao longo da história, a Maison Ruinart sobreviveu a crises e guerras, incluindo o bombardeamento das suas vinhas e edifícios durante a ocupação alemã, para além do roubo e delapidação quase total do seu stock de garrafas. Contudo, sempre conseguiu erguer-se e estar à altura dos desafios, sem nunca perder de vista a inovação e o desenvolvimento tecnológico, sempre numa busca incessante pela excelência e perfeição dos seus champagnes.
Dirigida pela família Ruinart até 1963, integra, desde 1987, o grupo do segmento de luxo LVMH (Louis Vuitton Moet Hennessy). A luz, o branco e a transparência tornaram-se símbolos da sua estética e do seu vinho, e a Chardonnay, casta que define a sua assinatura, é trabalhada como metáfora dessa luminosidade: um reflexo líquido da elegância e da precisão. A Ruinart conseguiu construir uma linguagem e um estilo muito próprios e distintos, sempre alicerçados na mais completa harmonia entre tradição, vanguarda e criatividade.
O ‘Petit R’ é, claramente, disso um exemplo maior. Trata-se de uma experiência gastronómica e visual, um show multimédia, imersivo e esteticamente encantador, que pudemos desfrutar durante o jantar na Maison. Ao mesmo tempo, é uma visão contemporânea de acontecimentos passados, da história de Champagne vista através da Maison Ruinart. Através da personagem ‘Petit R’, criada pelo artista japonês Kanako Kuno – sempre a tal ligação à arte, presente em todos os momentos definidores –, a história é contada em cima da mesa, literalmente. O mundo inteiro cabe no prato, a toalha transforma-se num ecrã gigante, onde tudo se desenvolve. As figuras dos animais e das pessoas ganham tridimensionalidade, saltam do prato, rodopiam, contam histórias. Tudo funciona de forma sincronizada até ao ponto em que ‘Petit R’ abre uma garrafa de champagne e se ouve o som bem real da rolha a saltar: é um sommelier que abre uma garrafa, verdadeira, em perfeita sincronia de tempo!
Caroline Fiot, a primeira mulher com a função de Cellar Master na região de Champagne, liderou o estudo do impacto da luz no Blanc de Blancs e a criação da Second Skin Case
A segunda pele
Na alvorada dos seus 300 anos – a Maison Ruinart celebrará o seu tricentenário em setembro de 2029 –, dois factores importantíssimos são alvo de dedicação máxima na Maison Ruinart: sustentabilidade e impacto das alterações climáticas em Champagne. Quanto ao primeiro, destaca-se a criação do estojo Second Skin, literalmente uma ‘segunda pele’ para a garrafa Ruinart, que as envolve à sua forma. De acordo com a marca, esta é “composta por 99% de papel (1% é cola), feito de fibra de madeira proveniente de florestas geridas ecologicamente na Europa, e é nove vezes mais leve que a anterior geração de gift boxes, reduzindo a pegada de carbono das embalagens em 60%.” Além da componente ecológica, a Second Skin protege o vinho da luz, é resistente à humidade e “permanece intacta num frapê de gelo até três horas”, refere a Ruinart. De cor branca, tem um padrão em relevo a invocar as Crayères, as caves calcárias da Maison.
Uma palavra é devida a Caroline Fiot, nova Cellar Master da Ruinart, que sucede a Frédéric Panaïotis, falecido este ano, num contexto delicado. Entrou na Ruinart em 2016, participou no comité de prova, supervisionou fermentações e liderou projetos de investigação, como o estudo do impacto da luz no Blanc de Blancs e a criação da Second Skin Case, embalagem sustentável que substitui o tradicional estojo em papel. É, também, a primeira mulher a desempenhar tais funções na história da região de Champagne.
História e inovação
Hoje em dia, talvez mais do que nunca, seja na região de Champagne, seja no mundo, torna-se necessário (re)pensar os nossos estilos de vida, a nossa cultura enraizada e, talvez, questionar o nosso conhecimento. E em vez de querermos que a natureza se adapte às nossas necessidades, talvez seja bom pensarmos em adaptar-nos àquilo que a natureza tem para nos oferecer.
Esta foi a grande mensagem que eu retive nesta minha viagem a Reims e à Ruinart. Há, de facto, trabalho muito sério a ser feito para adaptar a região às alterações climáticas, que vieram para ficar, e quando vemos uma das regiões vínicas mais fortes e mais unidas do mundo a trabalhar em conjunto para alcançar um determinado objectivo, vemos que a coisa é mesmo para levar a sério. No entanto, já havia sinais. É uma coisa antecipada, e que vem sendo pensada e testada há já vários anos, basta estarmos atentos ao que nos rodeia, o que, na maioria das vezes, se revela o mais difícil.
Ora vejamos. Grande parte do sucesso de Champagne deve-se à utilização mais ou menos generalizada do estilo non-vintage, expressão traduzida na mistura entre vinhos de reserva e o vinho da colheita mais recente, uma espécie de receita seguida pela grande maioria dos produtores de Champagne, das Big Marques aos pequenos vignerons. No fundo, pretende-se mitigar ou eliminar o mais possível o efeito colheita, ou seja, nos anos mais frios, quando as uvas são mais ácidas, porque não conseguem atingir pontos de maturação adequados, incorpora-se mais vinhos de reserva no blend, de modo a adicionar estrutura e complexidade à frescura e energia da nova colheita, ao passo que, em anos mais quentes, se incorpora menos vinhos de reserva, pois pretende-se manter a juventude da nova colheita.
De um modo geral, tem sido este o caminho percorrido na região até há bem pouco tempo. Porém, o impacto das alterações climáticas têm vindo a traduzir-se num registo consecutivo de fruta mais madura, ano após ano, e num aumento médio real de 1,2% de álcool nas uvas nos últimos 30 anos.
O novo normal
A grande diferença de uma região como Champagne é que, ao invés de olhar para as alterações climáticas como uma ameaça, decidiu encará-las como uma oportunidade. E, de repente, o estilo non-vintage, e até a própria dosage, deixaram de fazer tanto sentido, ou nenhum mesmo. Atualmente, é quase tudo produzido em estilo vintage, com nuances introduzidas pelas Reservas Perpétuas quando utilizadas, e, graças aos maiores níveis de açúcar nas uvas, Champagnes Brut Nature ou Extra Brut são a nova normalidade.
Assim, tudo nos começa a fazer sentido, quando a Krug criou o estilo multi-vintage das suas Grand Cuveés, quando Charles Heidsieck começou a identificar o ano base no contra-rótulo, a Laurent-Perrier criou a Cuvée Ultra Brut num estilo super seco e, mais recentemente, a icónica Maison Louis Roederer abandonou definitivamente o estilo non-vintage da sua Cuvée Brut Premier, criando a Collection, um blend de multi-vintages identificados.
E a Ruinart? Aí está a Cuvée Blanc Singulier, por enquanto só disponível em França, mas que, provavelmente, num futuro não muito longínquo, talvez venha a ser a nova normalidade da Ruinart, enquanto que a de hoje, o icónico Blanc de Blancs, talvez passe a ser a excepção. Aguardemos com serenidade e sempre com champagne no copo!
(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2026)
QUINTA DO PESSEGUEIRO: O Douro gracioso

Graciosidade talvez seja a palavra que melhor define a Quinta do Pessegueiro no seu conjunto, aqui englobando vinhos, arquitectura, imagem, forma de estar e receber. Localizada em Ervedosa do Douro, concelho de São João da Pesqueira, a propriedade foi adquirida, em 1991, por Roger Zannier, empresário francês que criou um gigante têxtil orientado para a […]
Graciosidade talvez seja a palavra que melhor define a Quinta do Pessegueiro no seu conjunto, aqui englobando vinhos, arquitectura, imagem, forma de estar e receber. Localizada em Ervedosa do Douro, concelho de São João da Pesqueira, a propriedade foi adquirida, em 1991, por Roger Zannier, empresário francês que criou um gigante têxtil orientado para a moda infantil e que acabou por conhecer o Douro no âmbito das suas visitas profissionais a Portugal, ali decidindo deixar a sua “marca”. Em 2003, com o apoio do genro Marc Monrose, borgonhês de gema, ligado à terra e ao vinho, Zannier deu início à reconversão das vinhas existentes e à plantação de novas áreas, com sucessivas intervenções em 2007, 2008, 2011 e, mais recentemente, em 2021. A construção da adega, localizada numa zona mais alta da propriedade, arrancou em 2008, ficando terminada em 2010, ano da primeira colheita. Trata-se de um projecto arquitectónico arrojado da autoria de Artur Miranda e Jacques Bec, com a área de vinificação e armazenagem a estender-se por cinco pisos, de forma a aproveitar ao máximo a gravidade e a excluir a bombagem de massas e líquidos, contando, para tal, com a ajuda de uma cuba elevatória.
A casa principal é também um alojamento de charme, aberto ao turismo, integrando-se na rede de unidades Zannier Private Estates e Hotels
Em 2012 terminou a reconstrução do edifício principal da quinta, localizado a três quilómetros da adega. Esta bela casa integra-se perfeitamente na paisagem, num estilo que une a tradição duriense com um design mais moderno, acima de tudo ao nível de interiores. Além de apoiar a estrutura de trabalho da propriedade, o edifício é também um alojamento de charme, aberto ao turismo, integrando-se na rede de unidades Zannier Private Estates e Hotels, espalhadas por França, Espanha, Namíbia, Maurícias, Cambodja e Vietname.
No dia-a-dia da Quinta do Pessegueiro, sobretudo a partir de 2008, e com impacto decisivo no que toca à estratégia, da arquitectura, da imagem e, claro, dos vinhos, têm estado envolvidas três outras pessoas: Célia Varela, Directora-Geral, que acompanhou o nascimento e desenvolvimento do projecto; João Nicolau de Almeida, enólogo responsável pelos vinhos da casa desde a primeira hora; e Hugo Helena, Director de Viticultura e Enologia que, desde 2010, trabalha em estreita colaboração com o enólogo.
Três parcelas
As vinhas da Quinta do Pessegueiro abrangem 28 hectares em produção, distribuídos por três propriedades distintas. A Teixeira é a maior e mais próxima da adega, com 18 hectares, exposta a noroeste, com uma altitude que varia entre 75 e 418 metros. Parte das vinhas foram plantadas no início dos anos 80 do século XXI e, desde 2011, decorreram novas replantações com inúmeras castas. Ali foram igualmente recuperados socalcos pré-filoxera e plantado meio hectare com mais de 30 castas, que deverá originar, no futuro, um field blend muito especial. A seguir vem a vinha do Pessegueiro, propriamente dita, de nove hectares de vinhedos em encostas íngremes viradas a oeste, entre os 197 e os 355 metros de altitude. Vinhas velhas com mais de 110 anos (1,5 hectares) e vinhas plantadas há mais de 40 anos compõem esta área, onde as uvas amadurecem mais tarde. Finalmente, a Afurada tem apenas um hectare, acima dos 500 metros de altitude e com exposição sul.
Em termos de encepamento, predomina, nos tintos, a Touriga Nacional, seguindo-se Touriga Franca, Tinta Roriz, Sousão e Tinto Cão. Numa fase mais recente, plantaram-se outras tintas tradicionais mais raras (Tinta da Barca, Tinta Amarela, Rufete, Alicante Bouschet) e apostou-se decididamente nas uvas brancas, com destaque para Rabigato, pouco comum nesta zona do Cima Corgo, mas que os dois enólogos apreciam particularmente pela vivacidade e frescura, e Folgasão. Todas as plantações foram feitas a partir de seleção massal própria, não foi utilizada seleção clonal.
As três propriedades possuem também, como é habitual no Douro, velhas oliveiras, com as variedades Madural, Cobrançosa, Verdeal, Picual e Carrasquenha. Da apanha manual com extração a frio, a quinta produz um azeite de superior qualidade. E na Teixeira, algumas colmeias permitem, igualmente, uma pequena produção de mel, reforçando, assim, a biodiversidade do terroir, contribuindo, ao mesmo tempo, para o equilíbrio do ecossistema.
Pureza e elegância
A abordagem vitícola e enológica de João Nicolau de Almeida, aqui totalmente apoiada por Hugo Helena, é bem conhecida: vinha velha sempre que seja boa, agricultura biológica, vinificação clássica. Assim se tem feito na Quinta do Pessegueiro, onde, por exemplo, herbicidas não entram nas vinhas, um desafio acrescido face aos diferentes modelos de plantação existentes, que vão dos patamares de um bardo à vinha ao alto, passando por parcelas não mecanizadas com muros tradicionais.
Tradicional é também a vinificação, com a fermentação a decorrer com leveduras indígenas, privilegiando-se lagares de granito com pisa a pé, balseiros de madeira para os tintos e cubas inox e pipos de 600 litros para os brancos. Na adega, os vinhos são separados por parcelas, permitindo exaltar cada uma das suas singularidades, depois conservadas em cubas de pequena dimensão. A ausência total de bombagem (a cuba elevatória é preciosa) permite manter a fruta no seu estado mais puro.
A pureza da fruta é precisamente aquilo que mais marca, e impressiona, os vinhos da Quinta do Pessegueiro. Numa produção relativamente pequena – cerca de 100 mil garrafas, entre Douro e Porto –, esta expressão de fruta é transversal às várias referências, acompanhada de evidente frescura, leveza, equilíbrio e elegância. Estes vinhos, brancos ou tintos, não se destacam pela grande estrutura ou potência, antes pela notável finura e pela absoluta proporção. Parece estar tudo no sítio certo. É esta precisão, esta graciosidade, que define a forma de ser e estar da Quinta do Pessegueiro. Num mercado onde a oferta é gigante e onde não é fácil conjugar qualidade e diferença, isto tem de valer alguma coisa.
(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2026)
-

Quinta do Pessegueiro
Fortificado/ Licoroso - 2021 -

Quinta do Pessegueiro
Fortificado/ Licoroso - -

Quinta do Pessegueiro
Fortificado/ Licoroso - -

Quinta do Pessegueiro
Tinto - 2021 -

Quinta do Pessegueiro
Tinto - 2022 -

Quinta do Pessegueiro
Tinto - 2023 -

Quinta do Pessegueiro
Tinto - 2019 -

Pessegueiro
Tinto - 2022 -

Pessegueiro Aluzé
Tinto - 2020 -

Quinta do Pessegueiro
Branco - 2024 -

Quinta do Pessegueiro
Branco - 2024 -

Pessegueiro
Branco - 2024 -

Pessegueiro
Branco - 2024

























































