MÉDICOS PRODUTORES – Operação cirúrgica: vinha e vinho

Há semelhanças a apontar entre a medicina e a produção de vinho? É possível conciliar a prática clínica com os ciclos da vinha? Em que medida o dia a dia de um médico influencia a forma como trata as suas uvas? Quão similar é o cuidado que põe em prática no âmbito da sua especialidade […]
Há semelhanças a apontar entre a medicina e a produção de vinho? É possível conciliar a prática clínica com os ciclos da vinha? Em que medida o dia a dia de um médico influencia a forma como trata as suas uvas? Quão similar é o cuidado que põe em prática no âmbito da sua especialidade e o trabalho efetuado na adega? É um negócio autossustentável? Estas e outras perguntas foram feitas a médicos que complementam a prática clínica com a atividade vitivinícola. Outros há que se entregaram inteiramente à vinha e à produção vínica.
Entre as respostas, a capacidade de observação e o rigor são palavras-chave, para poder atuar com consistência e consciência na vinha. Acresce a higienização, tema preponderante no contexto da adega, e o fator tempo, primordial face à melhoria de um paciente e, por outro lado, à gestão da vinha, indissociável aos contratempos associados ao clima e aos ciclos da natureza, bem como, e como não poderia deixar de ser, à evolução do vinho.
No entanto, há quem se afaste da postura de médico, para encarar com serenidade as contradições intrínsecas à de um produtor, seja a viticultura a sequência de um legado traduzido numa ode aos antepassados, seja o resultado de uma paixão despertada e transformada em realidade.
Vamos conhecer António José Rodrigues, da Quinta do Mascanho (Vinhos Verdes), Jorge Tenreiro, da Quinta do Cume (Douro), António Canto Moniz, da Quinta da Leira (Dão), Manuela Carmona, da Adega 23 (Beira Interior), Lúcia e Américo Ferraz, da Souvall (Beira Interior), José Madeira Afonso, do projeto Casas Altas (Beira Interior), e Nuno Monteiro Pereira, da Quinta do Cerrado da Porta (Lisboa).
António José Rodrigues
Médico de ortopedia e produtor-engarrafador
Alvarinho é a casta eleita em exclusivo pela Ceivinhas, a sociedade vitivinícola familiar de António José Rodrigues, cuja especialidade em ortopedia foi exercida em regime de exclusividade no Serviço Público. A casta ocupa quatro hectares de vinha distribuídos por duas propriedades. Uma está localizada no lugar da Valinha, na freguesia de Ceivães, concelho de Monção, e a outra no lugar de Mascanho, freguesia de Vila e Roussas, no concelho de Melgaço. “80% das parcelas sempre pertenceram à família, tendo sido uma pequena parte, entretanto, adquirida” e “os vinhos são comercializados sob a marca Quinta do Mascanho”.
A cultura da vinha e do vinho é a atividade complementar à carreira de médico de António José Rodrigues, desde 1994. O ano coincide com o término da formação da especialidade e o regresso ao meio rural, às origens. Com esta mudança, adquire casa de família no lugar da Valinha, onde reside, e terrenos de produção de cereais e vinhas. “Com incentivo financeiro existente para reconversão de vinhas, foi efetuado o projeto de plantação de acordo com as boas práticas”, dando continuidade ao cultivo da vinha, “que vem das gerações anteriores, devidamente adaptado aos novos tempos”, explica. A comercialização dos vinhos começou em 1997 e, em 2015, acrescenta o espumante feito a partir da casta Alvarinho ao portefólio vínico Quinta do Mascanho.
“Ser médico é cuidar da vida. Ser produtor de vinho é cuidar da terra”
“Ser médico é cuidar da vida. Ser produtor de vinho é cuidar da terra.” Ambas as missões permitem o encontro do “equilíbrio entre a ciência e a tradição, entre o rigor da medicina e a arte da vitivinicultura”. E acrescenta: “produzir vinho é muito mais do que elaborar uma bebida. É preservar uma herança, valorizar o território e criar momentos de partilha à volta de uma mesa.” É, no fundo, uma enorme paixão de António José Rodrigues.
Paralelamente, o ortopedista e produtor de vinho faz a analogia do reconhecimento atribuído pelos pacientes no que às cirurgias e aos tratamentos efetuados diz respeito com a qualidade dos vinhos que produz. E o tempo é factor preponderante nas duas profissões, ou não fosse este primordial na melhoria dos pacientes e, por outro lado, necessário para o afinamento dos vinhos. “A produção do vinho é autossustentável. Evidentemente que só por si os proveitos não seriam dignos para viver”, remata.
Jorge Tenreiro
Cirurgião vascular e produtor de vinho
Da juventude, recorda o gosto pelo mundo rural, em particular pela vinha e pelas pessoas do Douro, das férias passadas numa propriedade familiar da referida região vinhateira, cuja venda deixou saudades. Anos mais tarde, concretizou o sonho de adquirir uma propriedade duriense, com cerca de três hectares, localizada no cume de Provesende, freguesia pertencente ao concelho de Sabrosa, “um terreno que muitos consideravam improvável para produzir grandes vinhos”. Um desafio, que, com o apoio da mulher, Claudia Cudell, deu início à Quinta do Cume, no final da década de 90 do século passado.
Com a passagem do tempo, adquire parcelas vizinhas, privilegiando sempre as vinhas em altitude e com diferentes exposições. Objectivo? “Construir um património vitícola diversificado e representativo do Douro”, esclarece. Atualmente, a área total da propriedade é de 25 hectares, dos quais 15 são de vinha. Rabigato, Gouveio, Viosinho e Malvasia Fina são as castas brancas em destaque. Estão plantadas em maior altitude, factor que proporciona “excelentes condições para produzir vinhos de grande frescura, precisão e longevidade”, descreve Jorge Tenreiro. Nas cotas mais baixas, estão as tintas, com especial evidência para Touriga Franca, Touriga Nacional, Tinta Roriz e Alicante Bouschet, pois é aí que “expressam muito bem a identidade do Douro elegante, quando trabalhadas com equilíbrio”, acrescenta.
A Quinta do Cume “é um projeto economicamente sustentável”, graças ao investimento efetuado no princípio, “muito antes de existirem resultados”. A par com paciência, persistência e visão de futuro, conta, desde sempre, com Claudia Cudell, responsável pela área comercial e “pela notoriedade que a Quinta do Cume tem vindo a ganhar, tanto no mercado nacional, como no internacional”.
“A medicina permite-me cuidar das pessoas. O vinho permite-me criar algo que reúne pessoas à mesa”
No entanto, a medicina permanece como a profissão principal, sendo a produção de vinho um complemento da realização pessoal de Jorge Tenreiro. Apesar das “devidas diferenças, há uma enorme responsabilidade”, avança, pois “tanto um doente como uma vinha dependem de escolhas feitas no momento certo”. Organização e uma equipa competente são vetores cruciais a considerar em ambos os casos. Afinal, “a vinha exige acompanhamento permanente, mas também exige o estímulo e a confiança nas pessoas que trabalham diariamente no terreno”, afirma Jorge Tenreiro, que faz questão de marcar presença nas vindimas, “mas o sucesso resulta sempre de um trabalho coletivo”, enaltece.
Persistência, disciplina, rigor e capacidade de observação são os princípios apreendidos no âmbito da medicina e aplicados na viticultura. “Na vinha, tal como na medicina, muitas vezes, a melhor intervenção consiste apenas em acompanhar atentamente a evolução natural e intervir quando é realmente necessário”, elucida. Na cirurgia vascular, tal como na adega, “a precisão faz toda a diferença”. Neste contexto, Jorge Tenreiro refere “o momento da colheita, a temperatura da fermentação, o tempo de estágio ou a seleção dos lotes”. Aliás, o tempo é determinante, seja na melhoria de um doente, seja na evolução de um vinho, assim como o acompanhamento e o ato de proporcionar as “condições certas, para atingir o seu melhor potencial”, embora no caso do paciente, a recuperação seja idealmente atingida o mais rapidamente possível, enquanto no vinho a evolução é lenta, quando se pretende que ganhe complexidade ao longo dos anos.
Em suma, “a medicina permite-me cuidar das pessoas. O vinho permite-me criar algo que reúne pessoas à mesa, celebra momentos especiais e transmite a identidade de um território. São formas diferentes de contribuir para a qualidade de vida”.
António Canto Moniz
Médico cirurgião oncológico e produtor de vinho
Quinta da Leira é o nome da propriedade de António Canto Moniz. Está localizada na freguesia de São João de Lourosa e estende-se para Silgueiros, no concelho de Viseu, pertencente ao território vinhateiro do Dão. A área total de vinha, com exposição norte-nascente, ronda os dez hectares. Aqui, prevalecem as castas tradicionais. “Touriga Nacional, Alfrocheiro Preto e Jaen, que são as três castas clássicas do Dão, e Tinta Roriz”, afirma. Nas brancas, constam a Encruzado, a Malvasia Fina e a Gouveio.
“A designação Quinta da Leira já é muito antiga. Vem do tempo do meu trisavô, um senhor que também se dedicou à vinha e a fazer vinho”, descreve António Canto Moniz, que refere a cultura da vinha e do vinho como dominante no passado, na região. No seguimento da história da família, a propriedade passa para o avô, Silvério Abranches, deputado na I República e o primeiro presidente eleito da Federação dos Viticultores do Dão, e, mais tarde, para a mãe, Maria da Paz Othon. Porém, é o pai de António Canto Moniz, igualmente médico cirurgião e com o mesmo nome, quem continua o legado da vinha e do vinho, tendo assumido ainda a função de presidente de uma adega cooperativa. “O meu pai fazia vinho cientificamente. Tinha tudo na adega para calcular a acidez, para calcular tudo. Apesar de não ser um analista, estudou o assunto. Aprendi a fazer vinho com o meu pai”, revela. Por conseguinte, “a história de eu, como médico, fazer vinho, é muito simples: segui a tradição dos donos das terras, que, ou continuavam ou as vendiam”, afirma. “Conheci muitos médicos filhos de antigos agricultores, porque havia uma certa tradição nos agricultores ter um filho médico, doutor. Isto no século XX”, afiança. Portanto, “ser médico e fazer vinho é mais uma relação do que se herda”, resume, assumindo que “não há relação entre medicina e entre ser vinhateiro. Tenho amor à terra, à tradição”.
Quando António Canto Moniz passa a tomar conta da Quinta da Leira, preserva a venda a granel, pois “era mais simples do que o engarrafar”. Contudo, houve quem convencesse o médico cirurgião oncológico a dispor o vinho em garrafa. Miguel Viegas Louro, proprietário da Quinta do Mouro e produtor de vinho, em Estremoz, “foi um dos que me convenceu a fazer vinho” em nome próprio “e começamos a usar barricas, que não se usavam no Dão”. Com este passo, em 2002 surge o primeiro Vinha Paz, em homenagem à mãe do produtor – o rótulo Vinha Othon está igualmente neste alinhamento.
“Fazer vinho não é muito difícil. É preciso ter boas cepas no local certo e isso já as tinha eu”
Contudo, a carreira de cirurgião oncológico permanece como atividade principal de António Canto Moniz, um dos fundadores do IPO do Porto e, posteriormente, médico do Hospital da Prelada, no Porto. “Como médico trabalhava 12 horas por dia e ainda tinha funções associativas na direção da Ordem dos Médicos, e o governo requisitava-me para entidade reguladora da saúde.” Como tinha tempo para tudo isto? “Ao fim de semana lá ia eu para Viseu, mas a cultura do vinho não era tão difícil. Hoje, sim, porque há falta de pessoal, e como não utilizamos herbicidas, mais complicado é. Mas quando se quer, consegue-se.” Além disso, “fazer vinho não é muito difícil. É preciso ter boas cepas no local certo e isso já as tinha eu”, sublinha.
No alinhamento da passagem de testemunho entre gerações, numa sociedade constituída com os filhos, a meio da primeira década do século XXI, entrega a pasta a Henrique Canto Moniz, que “há, mais ou menos, 15 anos passou a tomar conta do negócio”, isto é, assume o cargo de gerente. “Agora, é o meu filho que trata de tudo”, contando com o apoio de João Paulo Gouveia, na viticultura, e de Carlos Silva, na enologia. É ainda responsável pela exportação para a América, Suíça, Bélgica, Noruega, países nomeados por António Canto Moniz, que considera o negócio do vinho autossustentável, “na medida em que dá emprego ao meu filho e concretiza dinheiro que se reinveste na vinha”.
Em suma, ser produtor de vinho tem a ver com “uma certa devoção à minha infância”, declara António Canto Moniz, recordando-se que em setembro, ia para a quinta, por ser a época das colheitas. “E na altura da vindima também, enquanto o mês de agosto era passado na praia. Lembro-me do meu pai fazer a vindima em outubro. Eu também fiz vindima em outubro, mas agora é tudo muito mais precoce.” Nas palavras do médico cirurgião oncológico, esta mudança deve-se às alterações climáticas. E face à atual crise no vinho? “Nós cá vamos aguentando.”
Manuela Carmona
Médica oftalmologista e produtora de vinho
A proximidade de uma autoestrada, a A23 é o mote para o nome da casa produtora de vinhos de Manuela Carmona, a Adega 23. Está localizada no limite dos concelhos de Castelo Branco e de Vila Velha de Ródão, e a inauguração acontece em 2018. Mas a ligação à região vitivinícola da Beira Interior remonta ao seu nascimento, sendo Manuela Carmona natural de Castelo Branco, onde viveu até concluir o liceu. Apesar da formação em medicina acontecer em Lisboa, com os anos acaba por conquistar uma relação permanente com as suas origens, mediante as quais o vinho é feito apenas para consumo próprio.
Portanto, a paixão pela cultura do vinho surge anos mais tarde, após ter recebido Le Grand Larousse du Vin. Com tempo e dedicação, o gosto por este produto evoluiu para o desenvolvimento do projeto Adega 23, em 2013. Em 2015, são plantadas as primeiras vinhas e, dois anos depois, são lançadas as primeiras colheitas. Inicialmente, o negócio do vinho teve a medicina como pilar no contexto financeiro. “Hoje, está equilibrado e autossustentavel”, assegura.
“Provar os vinhos das cubas e analisar a sua evolução é um fantástico exercício para estimular os sentidos e a memória”
“É como viver intensamente várias vidas numa só. Uma forma de descansar de uma profissão com uma atividade diferente. É salutar e refrescante”, começa por explicar Manuela Carmona a forma como vivencia os dois mundos, o da medicina com o do vinho. Ainda a respeito deste último, faz questão de salientar a eficácia desta cultura: “andar no campo pelo meio da vinha, aceitar a natureza e o seu tempo é retemperador. Provar os vinhos das cubas e analisar a sua evolução é um fantástico exercício para estimular os sentidos e a memória.”
Para a médica oftalmologista, tanto a medicina como a vitivinicultura “existem a pensar nas pessoas”. A primeira incita “a resolver problemas, encontrar soluções e decidir rapidamente, e, muitas vezes, sob pressão”, argumenta, acrescentando a viabilidade dessa aprendizagem, a qual lhe permite encarar os problemas na vinha e na adega. De uma forma geral, “são duas áreas desafiantes”, na medida em que exigem rigor e atenção a cada pormenor. Contudo, “não há dois doentes iguais nem duas vindimas iguais”, o que obriga Manuela Carmona a conviver com a imprevisibilidade e a diversidade.
Por outro lado, enquanto médica, destaca o rigor, a segurança e a rapidez face a cada diagnóstico, destacando o valor da saúde, pois “o erro tem consequências” e a perda “pode ser devastadora”. Este comportamento repete-se frente aos imprevistos na vinha e na adega, mas Manuela Carmona prefere encarar estas contrariedades de forma serena.
O desvelo na adega é comparável com o que põe em prática no âmbito da especialidade, em particular no bloco operatório. Organização, rigor e higiene estão no topo da lista das exigências estabelecidas em ambos os casos, pois “a saúde depende muito do que fazemos – alimentação, estilo de vida, hábitos”. Por conseguinte, o trabalho de campo é proporcionalmente primordial para a qualidade do vinho, ou não fossem necessários ter “vinha saudável, boas uvas, vindima manual e no momento certo”.
Em jeito de conclusão, Manuela Carmona fala sobre o papel do vinho em várias áreas, ao longo de milénios, bem como na atualidade: “na medicina foi desinfetante, anestésico, analgésico, anti depressivo. Na oftalmologia , as propriedades antioxidantes recomendam-no para prevenir o envelhecimento da retina.”
José Madeira Afonso
Médico radiologista e produtor de vinho
Casas Altas é nome indissociável a José Madeira Afonso. Natural de Coimbra, passa muitas das férias de verão ao Souropires, no concelho e sub-região de Pinhel, distrito da Guarda, pertencente ao território vinhateiro da Beira Interior, onde mantém a casa de família, onde, em tempos idos, viveu a avó materna, e as propriedades da família.
A formação em medicina ocorre na cidade natal e em Lisboa, mas primeiramente estudou na Escola de Regentes Agrícolas de Coimbra e de Santarém. Com o canudo na mão, vive e exerce medicina na Noruega, tendo sido a Escandinávia o ponto de partida para o gosto pelo vinho. O primeiro vinho produzido data de 1994; é feito a partir de uvas vindimadas na propriedade da família, então na posse do pai.
A sustentabilidade financeira do negócio do vinho é visto “com muita dificuldade. A jardinagem é um luxo que não sei se será possível sustentar”
Dos solos graníticos e às grandes amplitudes térmicas, José Madeira Afonso tira os proveitos, para dar primazia às castas regionais – Fonte Cal, Síria, Verdelho e Malvasia, nas brancas; Rufete, Baga e Touriga Nacional, nas tintas –, pois estão mais adaptadas e “são as que dão menos problema”. A estas, junta variedades d’além-fronteiras: Chardonnay e Riesling. Ainda acerca da vitivinicultura, não considera esta missão um complemento ou uma alternativa à medicina. “É, antes, a procura do ‘paraíso’ na terra, criando o local paradisíaco, as vinhas” e “uma fuga ao quotidiano”. Finda a atividade médica há cerca de cinco anos, a vitivinicultura passa a ser uma missão “a tempo inteiro”, tarefa apaixonante, com destaque para a origem das uvas, o estado de maturação, o processo de fermentação, entre outras etapas de cada processo na vinha e na adega. No entanto, “na vinha e na adega não sou médico, sou viticultor”, embora haja necessidade de “diagnosticar os problemas ou doenças em tempo útil, e tratar de forma adequada, sobretudo sem causar mais mal”, afirma. E tal como na medicina, “a adega também exige calma, reflexão e muita higiene”. Quanto à evolução de um vinho, “é preciso ter condições” para melhorar com o tempo.
Porém, a sustentabilidade financeira do negócio do vinho é visto “com muita dificuldade. A jardinagem é um luxo que não sei se será possível sustentar. Claro, que este problema não é só dos médicos”, remata.
Lúcia e Américo Ferraz
Médicos dentistas e produtores de vinho
A história começa com Álvaro Ferraz e Maria Fernanda Ferraz, pais de Américo Ferraz, e as suas vinhas em Vale Flor, na União das Freguesias de Vale Flor, Carvalhal e Pai Penela, concelho de Mêda, distrito da Guarda e integradas na região vitivinícola da Beira Interior. Esta profunda ligação à terra, à vinha e ao vinho é “familiar, emocional e identitária” e “representa uma herança feita de terra, trabalho, memórias e valores”, descreve Lúcia Ferraz. Por outro lado, “a produção de vinho é uma atividade real, exigente e com responsabilidades muito concretas”.
Com precisão, dedicação, responsabilidade e atenção ao detalhe, o casal Lúcia e Américo Ferraz decide “dar uma nova dimensão a essa herança” através da construção de uma adega moderna e da criação das condições necessárias, para desenvolver um projeto vitivinícola centrado na produção de vinhos “com maior rigor, consistência e identidade”.
Porém, a medicina dentária permanece no epicentro da atividade profissional de ambos: “não se tratou de abandonar a medicina dentária, mas de fazer coexistir duas vocações: cuidar de pessoas e cuidar de um património familiar e agrícola.” Mesmo assim, Lúcia Ferraz anuncia a existência de mais semelhanças entre ambas as profissões, com a condição de “observar, interpretar, prevenir e intervir no momento certo”. Isto é, “um médico não pode olhar apenas para um sintoma isolado; tem de compreender a pessoa no seu todo”. Na vinha, também é fundamental conhecer o todo: “o solo, o clima, a exposição solar, o comportamento de cada casta e a evolução de cada parcela ao longo do ciclo vegetativo.” Lúcia Ferraz enfatiza o conhecimento científico, a experiência e a capacidade de decisão como fatores comuns às duas missões do casal, mas impera sempre o respeito pelo tempo: “podemos acompanhar, orientar e criar melhores condições, mas temos de respeitar os seus ritmos.”
Conciliar a medicina com os ciclos da vinha é tarefa que carece de “planeamento e uma equipa de confiança”. Afinal, as fases de trabalho na vinha não podem ser adiadas, exigindo disponibilidade no momento da poda, dos tratamentos, do controlo do desenvolvimento vegetativo e da vindima, “pelo que procuramos antecipar cada fase do calendário vitivinícola e acompanhar de perto as decisões mais importantes”, informa Lúcia Ferraz. Para o efeito, são distribuídas responsabilidades, mantida a comunicação com a equipa e feito o acompanhamento da evolução de cada etapa. O mesmo se aplica na medicina dentária no que há disponibilidade diz respeito. Como complemento, Lúcia e Américo Ferraz implementaram a necessidade de observar, fazer uma leitura minuciosa das causas e apostar na prevenção. “Tal como na saúde, prevenir é, geralmente, mais eficaz do que tentar corrigir um problema numa fase avançada”, justifica a médica dentista, daí que cada casta seja tratada de forma diferente e se procure compreender as necessidades de cada parcela. Em contrapartida, “prática clínica exige concentração permanente, decisões rápidas e uma grande responsabilidade perante cada pessoa”; enquanto a vinha ensina a esperar em função do ritmo das estações. “Esse contacto com a terra ajuda-nos a recuperar energia e a relativizar algumas das tensões do quotidiano clínico”, resume, embora haja uma constante incerteza em relação ao clima, à mão de obra e às decisões de investimento inerentes à atividade agrícola.
“Tal como na saúde, prevenir é, geralmente, mais eficaz do que tentar corrigir um problema numa fase avançada”
Na adega, e à semelhança do desempenho profissional do casal, “trabalhamos frequentemente à escala do milímetro. A precisão, a higiene, o controlo dos procedimentos e a escolha dos materiais são determinantes para o resultado final”. Além de que, a qualidade do vinho depende, para Lúcia Ferraz, da prática estabelecida no momento da vindima e do procedimento na adega. “Um pequeno desvio numa destas fases pode alterar significativamente o resultado”, destaca. Sem descurar a estética comum às duas práticas: “na medicina dentária procuramos aliar saúde, função e harmonia; no vinho procuramos equilíbrio, autenticidade e prazer sensorial.”
Sobre a sustentabilidade financeira, Lúcia Ferraz afirma que o projeto “ainda não atingiu plenamente esse objetivo”, pois depende da atividade na medicina dentária para suportar os custos inerentes à vinha e à produção de vinho. “O nosso objetivo é que o projeto se torne progressivamente autossustentável, preservando uma visão de longo prazo. Mais do que produzir em quantidade, queremos consolidar uma marca credível, associada à qualidade, à família e ao território da Beira Interior”, sustenta.
No contexto odontológico, Lúcia Ferraz aponta para o facto de o vinho ser uma bebida ácida. Logo, “a exposição frequente ou prolongada aos seus ácidos pode contribuir para a erosão do esmalte dentário. No caso dos vinhos tintos, os pigmentos e os taninos também podem contribuir para o aparecimento de manchas superficiais, sobretudo em pessoas com maior predisposição ou com acumulação de placa bacteriana.” Por conseguinte, após a ingestão de vinho, Lúcia Ferraz aconselha a beber água e escovar os dentes 30 minutos depois, bem como recorrer regularmente ao médico dentista. “O vinho pode fazer parte de momentos de convívio, gastronomia e cultura, mas deve ser sempre consumido com moderação.”
Nuno Monteiro Pereira
Médico urologista e produtor de vinho
“A reviravolta começou quando tinha cerca de 45 anos. Exercia urologia em Lisboa, com uma atividade muito intensa entre o hospital público e a prática privada. Senti então a necessidade de equilibrar essa vida profissional com um projeto completamente diferente, que me permitisse fugir ao ritmo da cidade e concretizar um antigo sonho: produzir espumantes e vinhos tranquilos.” Tomada a decisão, Nuno Monteiro Pereira procurou, durante um ano, pela propriedade ideal, “com potencial vitícola e espaço para construir uma casa, uma adega e plantar a minha vinha”, de preferência próxima da capital. A extensiva procura levou o médico urologista a optar, em dezembro de 1996, pela aquisição de uma casa rural do século XVIII, “então bastante degradada, rodeada por cerca de quatro hectares de terreno, incluindo uma velha vinha”, conta. Está localizada no lugar da Patameira, concelho de Sobral de Monte Agraço, pertencente ao território vinhateiro dos Vinhos de Lisboa. Chama-se Quinta do Cerrado da Porta.
O projeto vitivinícola começou em 2011. As vinhas são plantadas em 2012 e 2013 e as castas “selecionadas em função da orografia, da exposição das encostas e das características do clima atlântico da região”: Arinto, Chardonnay, Moscatel Graúdo, Touriga Nacional, Pinot Noir, Syrah, Merlot e Castelão. A estreia na vindima ocorre no ano de 2015 e no engarrafamento acontece em 2016. Um ano mais tarde é dado início à comercialização. A vinha ocupa uma área de 13 hectares. O portefólio vínico divide-se em quatro rótulos: Troviscal (vinhos tranquilos e grandes reservas), Peripécia (monocastas), Quinta do Cerrado da Porta (espumantes) e Capicua (licorosos e colheita tardia).
Sobre os pontos comuns entre a medicina e a produção de vinho, refere a necessidade de ter “paciência, respeito pelos seus ritmos e a consciência de que nem tudo pode ser acelerado”. Paralelamente, há um exigente “estudo permanente, a atualização técnica, o rigor, a disciplina e uma grande capacidade de adaptação”, sendo as pequenas decisões cruciais, uma vez que “podem ter consequências importantes”. Por esse motivo, durante o período em que conciliou a medicina com a prática agrícola teve de instituir “uma gestão muito rigorosa do tempo”, porque “a vinha não espera”. Perante esta realidade, durante muitos anos, recorre a empresas especializadas.
“Na medicina lutamos contra o tempo. No vinho aprendemos a trabalhar com ele”.
A mesma necessidade imperiosa ocorre na época das vindimas, o que o obriga a reagendar consultas, entre outros compromissos profissionais. Atualmente, acompanha e põe em prática as recomendações do viticultor Amândio Cruz, “e isso permite-me um controlo muito mais próximo e fiável”, salienta. E acompanha o trabalho de campo e na adega sob a orientação da enóloga Alexandra Mendes. “Quando olho para trás, pergunto-me, com alguma surpresa, como consegui conciliar durante tanto tempo duas atividades tão absorventes.”
“Observar, estudar, medir e decidir com base na evidência disponível” fazem parte da prescrição de Nuno Monteiro Pereira face à viticultura. Apesar de ter igualmente maleitas, não faz questão “de olhar para a vinha como um doente”, pois há que respeitar o próprio ritmo da videira. E à semelhança do que acontece no bloco operatório, a higiene “é uma condição absoluta” no que toca ao trabalho efetuado na adega. “A limpeza, o controlo microbiológico e o respeito pelas boas práticas são determinantes para o resultado final”, independentemente dos objetivos.
A respeito das semelhanças encontradas entre a medicina e a produção de vinho, Nuno Monteiro Pereira é peremptório: “felizmente poucas e isso é uma boa notícia.” O fascínio advém precisamente das diferenças que encontra neste mundo do vinho: “a medicina, e particularmente a cirurgia, intervém e transforma na permanente procura de devolver a saúde às pessoas; a produção de vinhos procura respeitar e valorizar aquilo que a natureza produz.” Em relação ao fator tempo, enquanto médico, o objetivo é o doente recuperar “melhor e o mais depressa possível. Já um grande vinho necessita de tempo para revelar toda a sua complexidade. Na medicina lutamos contra o tempo. No vinho aprendemos a trabalhar com ele”, elucida.
Em todo o caso, Nuno Monteiro Pereira manifesta preocupação com o consumo excessivo de álcool, uma vez que “aumenta a produção de urina e pode agravar sintomas urinários em algumas pessoas”, daí que defenda a integração moderada de vinho “numa alimentação equilibrada e num estilo de vida saudável”. Portanto, “enquanto médico, sempre aconselhei moderação. Enquanto produtor, continuo a defender exatamente o mesmo”.
No âmbito da sustentabilidade financeira deste negócio associado ao vinho, Nuno Monteiro Pereira declara que a medicina “permitiu suportar os maiores investimentos na vinha e na adega. Já reformado, o projeto procura ser economicamente sustentável”, com uma produção entre 1300 e 5000 garrafas por referência, as quais se destinam “exclusivamente ao mercado nacional, através de garrafeiras e restaurantes selecionados”.
(Artigo publicado na edição de Setembro de 2026)
INFINITUDE: Perspectivas infinitas

Para Maria d’Assunção Osório de Vasconcelos, da Távora-Varosa, e Jorge Jardim Gonçalves, da Madeira, o cultivo da vinha fazia parte da tradição familiar. Por influência destas memórias, na propriedade que adquiriram em Galamares, a Quinta da Azenha, plantaram também vinha, em 2000. As castas foram escolhidas ao gosto pessoal da família: Pinot Noir e Merlot. […]
Para Maria d’Assunção Osório de Vasconcelos, da Távora-Varosa, e Jorge Jardim Gonçalves, da Madeira, o cultivo da vinha fazia parte da tradição familiar. Por influência destas memórias, na propriedade que adquiriram em Galamares, a Quinta da Azenha, plantaram também vinha, em 2000. As castas foram escolhidas ao gosto pessoal da família: Pinot Noir e Merlot. Inicialmente pensada como elemento do jardim, e não com o propósito de produzir vinho para comercialização, a vinha acabou, como tantas vezes acontece, por dar origem a um negócio e a uma marca: Infinitude.
Mas vamos por partes. Os primeiros vinhos foram produzidos a partir de 2010, ainda exclusivamente para consumo da família. Em 2017, a Infinitude apresentou as suas primeiras referências no mercado. Dos cinco filhos do casal, o mais novo, Rodrigo Jardim, acompanha o projecto desde o início.
Com o tempo, o projecto foi amadurecendo e tornou-se evidente a necessidade de integrar uma pessoa com experiência nas áreas da enologia e da viticultura, a tempo inteiro, que assumisse responsabilidades e contribuísse para a definição da sua estratégia e posicionamento. Em 2024, João Lino assumiu as funções de director-geral e enólogo, dando um novo impulso à profissionalização do projecto.
No ano seguinte, a produção passou de cerca de 5000 para 16 000 garrafas. “Sempre houve mais uva, mas nunca se engarrafou tudo o que se produzia”, explica João Lino, adiantando que, este ano, poderão chegar às 40 000 garrafas. O aumento da escala é, para o director-geral, também uma forma de ganhar visibilidade: “tem que haver alguma massa crítica para as pessoas começarem a conhecer a marca.” O objectivo é que essa notoriedade chegue ao consumidor, para que passe a procurar os vinhos da Infinitude: “eventualmente, o momento-chave é quando o consumidor final começar a pedir o nosso vinho, não só a restauração.”

Devoção a castas francesas
As cinco vinhas representam pouco mais de cinco hectares, a maior parte dos quais ocupados por castas estrangeiras. E é aqui que se impõe uma breve digressão histórica, pois existe a pressuposição de a presença de variedades francesas na zona de Sintra e Colares ser mais antiga do que se pensa.
O historiador Visconde de Juromenha, na sua obra Cintra pinturesca, ou Memória descritiva das villas de Cintra, Colares e seus arredores, de 1838, refere a intenção de D. Afonso III de promover a cultura da vinha, em 1255, na região de Sintra e Colares, numa altura em que o rei administrava e reorganizava activamente o património régio desta zona. Juromenha conjectura que, nessa ocasião, o monarca poderá ter introduzido cepas originárias de França.
Embora não possa ser dada como comprovada, a hipótese encontra algum fundamento indirecto no contexto histórico. Antes de subir ao trono, D. Afonso III viveu vários anos na corte francesa e a sua primeira mulher, D. Matilde II, era uma aristocrata pertencente à linhagem dos reis de França. O seu reinado assim ficou marcado pela influência francesa, o que torna plausível a possibilidade de castas oriundas daquele país terem chegado à região ainda no século XIII.
Voltando às vinhas, tudo começou na Quinta da Azenha. São cerca de dois hectares, plantados em chão rijo, onde predominam Pinot Noir e Merlot. Seguiu-se a Quinta do Torrado, não muito longe dali, com cerca de 2,5 hectares plantados em 2019. Para além de Pinot Noir e Merlot, a parcela inclui ainda Riesling, Sémillon e Chardonnay. Com apenas meio hectare, a vinha do Casalinho, plantada em 2000 apenas com Merlot, está rodeada por pinheiros, sobreiros, cedros e eucaliptos. A uva daqui, com um perfil mais fresco, é destinada à produção de rosé.
Na encosta da Serra de Sintra fica a pequena vinha da Boca da Mata, na aldeia do Penedo, a cerca de 100 metros de altitude. É a mais elevada de todas, está em agricultura biológica e é exclusivamente plantada com a casta Sémillon.
Praia seca de Ramisco e Malvasia
E, por fim, há um hectare de chão de areia, com Malvasia e Ramisco, a menos de um quilómetro do mar. O terreno foi adquirido precisamente com a finalidade de plantar estas castas e incluir, no portefólio, uma referência que represente a cultura vitivinícola da região.
A vinha passou a ser conhecida como ‘Praia Seca’, nome dado pelos filhos de Rodrigo Jardim, que viam a areia sem o mar. Foi plantada em 2020, de forma tradicional, em pé-franco, abrindo-se valas com cerca de cinco metros de profundidade. Um processo trabalhoso, que exige tempo até as videiras se estabelecerem e começarem a produzir.
Em 2024, aqui fizeram a primeira vindima, mas a produção foi ainda muito reduzida e as plantas apresentavam bastante heterogeneidade. “No ano passado, só fizemos cerca de uma tonelada por hectare. Mas sinto que este será um ano de maior produção”, afirma João Lino.
A produção em modo biológico aqui não funciona. O director-geral refere-se à praga do pulgão que afecta as folhas da videira: “se fosse em biológico, não conseguíamos dar a volta, quase que tínhamos de estar aqui dia sim, dia não a tratar a vinha”. Outra dificuldade são os pinheiros à volta da parcela, cujas raízes prejudicam as videiras devido à competição por água e nutrientes. Nas vinhas novas, plantadas em solo de areia, esta disputa deixa as videiras em desvantagem. A solução passa pela poda regular das raízes dos pinheiros, de forma a proteger a vinha.
Para ser sustentável, a vinha tem de produzir o máximo possível, desde que não comprometa a qualidade dos valores da marca
Qualidade sustentável
Dada a dimensão e a topografia das vinhas, quase todos os trabalhos de viticultura na Infinitude são manuais, com excepção da mobilização do solo e do corte da erva. No que toca à produção de vinho, ambição e pragmatismo não são conceitos contraditórios; pelo contrário, complementam-se. É isso mesmo que ressalta da conversa com João Lino e da prova dos vinhos.
Na viticultura, não seguem uma abordagem fundamentalista, privilegiando antes uma visão pragmática da sustentabilidade, como explica o enólogo: “a qualidade tem de ser top. Mas a produção tem de ser sustentável. Tem de se pagar, tem de criar emprego. E tem de haver uva. Porque, se estamos a tratar a vinha, a gastar gasóleo, produtos fitossanitários, mão de obra e de repente não sai uva… Então nem é ambiental.”
Há vinhas que produzem 12 toneladas por hectare, outras produzem oito, e as do chão de areia ainda nem chegam a duas toneladas por hectare. A produtividade varia bastante em função das características de cada vinha, mas a lógica é a mesma em todas: “para ser sustentável, a vinha tem de produzir o máximo possível, desde que não comprometa a qualidade e os valores da marca.”
O momento-chave é quando o consumidor final começar a pedir o nosso vinho
Adega à medida
No início do projecto, os vinhos eram vinificados na Adega Regional de Colares, sob a orientação enológica de Francisco Figueiredo. Mais tarde, porém, tornou-se evidente a necessidade de dispor de uma adega própria, que permitisse maior controlo sobre todo o processo de vinificação.
Como não havia espaço na propriedade para construir uma nova adega, e a burocracia na região de Sintra não facilitaria o processo, aproveitaram duas garagens, que foram unidas e devidamente equipadas. Nasceu, assim, uma adega à medida do projecto, com capacidade para vinificar 50 000 litros por ano, número mais do que suficiente para a meta de 40 000 garrafas previstas para este ano. Privilegiou-se a funcionalidade em detrimento da beleza. Os depósitos foram dimensionados para o espaço e dispostos de forma a permitir “que uma pessoa sozinha, sem a ajuda de outra, consiga facilmente trabalhar aqui”.
No fundo, o Infinitude é um projecto garagista requintado, já com alguma dimensão que, agora, exige uma estratégia comercial à altura.
De Sintra, de Colares e os Indie
A estratégia assenta em três gamas de vinhos bem definidas. A primeira é a Infinitude, com um conjunto alargado de referências, todas provenientes de chão rijo. São vinhos de castas internacionais que “espelham muito bem a região de Sintra” apresentados em blends ou, nos topos de gama, em versões monovarietais. São bases da marca que abrangem diferentes perfis de consumidor.
A segunda, com raízes na tradição vitivinícola da região, é dedicada aos vinhos DOC Colares produzidos a partir de Ramisco e Malvasia em chão de areia. A terceira reúne referências ‘Indie’: vinhos independentes, de capricho e fora da caixa, que não têm de seguir as regras das linhas essenciais da marca, “mas são coisas que achamos que podem fazer sentido”, explica João Lino.
Entre chão rijo e chão de areia, tradição e experimentação, abre-se uma infinitude de perspectivas, não fosse este, afinal, o nome da marca.
(Artigo lançado na edição de Setembro de 2026)
QUINTA DAS HERÉDIAS: Entre o passado e o futuro

Há lugares na Região Demarcada do Douro onde o silêncio não é apenas a ausência de som, mas sim uma densa acumulação de história, sussurrada pelo vento que corre entre os vales alcantilados. Quando nos aproximamos das encostas abruptas que desenham o vale do rio Távora, no concelho de Tabuaço, deparamo-nos com uma paisagem que […]
Há lugares na Região Demarcada do Douro onde o silêncio não é apenas a ausência de som, mas sim uma densa acumulação de história, sussurrada pelo vento que corre entre os vales alcantilados. Quando nos aproximamos das encostas abruptas que desenham o vale do rio Távora, no concelho de Tabuaço, deparamo-nos com uma paisagem que desafia a gravidade e a própria persistência humana. Na freguesia de Granjinha, onde se ergue a Quinta das Herédias, uma propriedade mítica de 108 hectares de área total que, após enfrentar anos de esquecimento, abandono e pilhagens, vive agora, em pleno ano de 2026, o seu definitivo e mais ambicioso renascimento vitivinícola e patrimonial.
Longe de ser apenas a recuperação convencional de uma marca de vinhos, o que aqui se testemunha é uma autêntica operação de arqueologia agrícola e de resgate cultural. Na linha da frente deste ressurgimento está Carlos Lucas, uma das figuras mais consagradas e respeitadas da enologia nacional. Secundado por uma equipa determinada, o reputado enólogo liderou um processo que testou os limites do isolamento humano, tudo com um objetivo claro: devolver o brilho e a dignidade a um terrunho de exceção que o tempo e o abandono teimavam em apagar.
Nesta reportagem, mergulhámos nas profundezas históricas de uma propriedade que já foi o sustento de monges cistercienses, pertenceu a famílias ligadas ao regicídio e à coroa, e hoje posiciona-se na vanguarda do setor, com um investimento robusto focado na elegância, no dinamismo, na excelência vínica e na fulgente hotelaria.
Numa ironia genealógica sem paralelo, a árvore da família une o sangue de um conspirador do regicídio de 1908 e a representação da família real portuguesa
O manto de Cister e os senhores de Távora
Para compreender a história e o espírito da Quinta das Herédias, é obrigatório recuar no tempo, até à época em que as fundações de Portugal ainda se consolidavam. A análise toponímica e os pergaminhos eclesiásticos revelam que a atual povoação de Granjinha nasceu diretamente sob a égide e a influência económica dos monges cistercienses, do Mosteiro de São Pedro das Águias.
O que começou por ser uma estrutura rústica e rudimentar, estritamente destinada a garantir a autossuficiência alimentar do mosteiro, expandiu-se com o passar das décadas, ganhando relevância demográfica e económica até se transformar numa paróquia autónoma.
A transição para a esfera secular começou a desenhar-se nos séculos seguintes. No ano de 1537, de acordo com os registos históricos, estes terrenos e o antigo concelho de Paradela, no qual a localidade da Granjinha se inseria, encontravam-se sob o domínio senhorial de Luís Álvares de Távora. Estendendo a sua influência por quatro séculos, a propriedade conhecida como Quinta das Herédias foi identificada nos arquivos históricos por diferentes nomenclaturas, dependendo dos contratos e das famílias que a exploravam. Surgiu frequentemente documentada como “Quinta do Aranda” ou “Quinta de Pontezellos”.
Durante este vasto período, o Mosteiro de São Pedro das Águias manteve a propriedade direta da terra, mas adotou a estratégia de arrendar sistematicamente as suas parcelas a famílias nobres e a lavradores influentes da região. Foram estes homens e mulheres que, desafiando a inclinação vertiginosa das encostas, testaram as primeiras e primitivas técnicas de armação do terreno em socalcos. Sem a maquinaria moderna, erguendo pedra sobre pedra em muros de xisto seco, tornaram viável a cultura sistemática da vinha e do olival em declives de extremo rigor geométrico, moldando a paisagem que hoje define a identidade visual do Douro.
Política, regicídio e sangue real
A transição da propriedade para a estrutura fundiária moderna e a consequente atribuição do nome pelo qual é reconhecida hoje nos mercados internacionais, Quinta das Herédias, ocorreram na sequência da extinção das ordens religiosas em Portugal, decretada pelo governo liberal em 1834. Com a nacionalização em massa dos bens da Igreja Católica, a antiga Quinta do Aranda foi colocada à venda em hasta pública pelo Estado, transitando definitivamente para o domínio da alta aristocracia secular.
A primeira proprietária privada da propriedade foi D. Leonor Amália Falcão Sarmento, descrita de forma unânime nos arquivos paroquiais e nos registos genealógicos da Beira Douro como a última legítima descendente do ramo da família Herédia que se estabelecera naquela região. O apelido Herédia foi originalmente introduzido em Portugal por D. António de Herédia, natural de Ávila, em Castela. Este capitão militar entrou no país no ano de 1580, integrando o exército do Duque de Alba, durante a crise de sucessão dinástica. Ao longo dos séculos subsequentes, os seus descendentes dividiram-se em fações ideológicas opostas, oscilando entre a lealdade cega à coroa absolutista e o republicanismo radical, gerando figuras de enorme relevância histórica nacional. Francisco Correia de Herédia Júnior, elevado a 1.º Visconde da Ribeira Brava, foi um destacado e influente político republicano na transição do século XIX para o século XX. Rompendo com as origens monárquicas da sua linhagem, tornou-se um dos conspiradores ativamente envolvidos no planeamento e na execução do regicídio de 1908, o atentado no Terreiro do Paço que vitimou o rei D. Carlos I e o Príncipe Real D. Luís Filipe.
Numa ironia genealógica e histórica sem paralelo, a bisneta do revolucionário Visconde da Ribeira Brava, Isabel de Herédia casou-se, em 1995, com Duarte Pio de Bragança, o atual pretendente ao trono português, assumindo o título de Duquesa de Bragança. Os seus descendentes unem de forma indissociável na mesma árvore genealógica o sangue da antiga aristocracia proprietária de terras no Douro, o legado histórico de um conspirador regicida e a representação contemporânea da antiga família real portuguesa.
Com o país paralisado pela pandemia, a equipa viveu em isolamento absoluto na quinta, dedicada exclusivamente a resgatar vinhas centenárias
A era de Carlos Lucas
A entrada de Carlos Lucas na história da Quinta das Herédias marca o início de uma das operações de resgate agrícola, enológico e patrimonial mais complexas e dispendiosas da história recente da Região Demarcada do Douro. Carlos Lucas, natural de Coimbra e licenciado em Enologia, é uma figura amplamente consagrada no panorama vinícola nacional, acumulando mais de 25 anos de experiência.
Após fundar, com sucesso, a empresa Magnum – Carlos Lucas Vinhos, na região do Dão, o enólogo decidiu expandir a sua filosofia de intervenção e preservação do património vitícola antigo para a sub-região do Cima Corgo. Em 2018, iniciou as negociações e a intervenção direta na Quinta das Herédias, cuja aquisição formal foi selada no arranque de 2019.
Quando a equipa técnica da Magnum assumiu o controlo operacional da propriedade, o cenário encontrado era de quase total ruína agrícola e desolação. A propriedade estivera votada ao abandono contínuo durante cerca de quatro anos. Muros centenários de xisto, construídos com a técnica tradicional de pedra seca, tinham desmoronado sob o peso das chuvas e da falta de manutenção. O mato rústico e as infestantes tinham invadido as parcelas, sufocando as videiras e as infraestruturas residenciais e agrícolas tinham sido alvo de saques e vandalismo, com o roubo de vários objetos de valor histórico e material.
Carlos Lucas identificou de imediato que a autêntica joia da propriedade residia num núcleo duro de nove hectares de vinhas centenárias mistas. O enólogo descreveu estas parcelas sobreviventes como verdadeiros “diamantes em bruto”, que corriam o risco iminente de morrer por sufocamento vegetativo, caso não houvesse uma intervenção cirúrgica e imediata.
Para liderar esta espinhosa e dramática operação de resgate no terreno, o desafio assumiu contornos quase épicos e dramáticos, quando coincidiu com o rebentamento da crise sanitária global e o consequente primeiro confinamento da pandemia da COVID-19. Com o país paralisado, a equipa de Carlos Lucas optou por viver em isolamento absoluto na remodelada Casa do Senhorio. Totalmente privados de televisão ou de ligação à internet, dedicaram-se exclusivamente aos trabalhos de recuperação da vinha. Estes envolveram a reconstrução manual dos suportes de arame, a replantação minuciosa das falhas vegetativas nas vinhas velhas e a condução rigorosa de uma poda de recuperação estrutural para devolver a produtividade às cepas velhas.
Como símbolo vivo deste período de reconquista, isolamento e resiliência face aos elementos, a quinta passou a ser protegida e vigiada por um imponente exemplar da raça Cão de Gado Transmontano, batizado apropriadamente com o nome de “Baton”. A presença protetora, a lealdade e a imponência física do animal no meio dos socalcos isolados foram de tal forma marcantes para toda a equipa fundadora que inspiraram o nome da primeira marca comercial da propriedade, o vinho Baton, cujo lançamento no mercado assinalou o novo capítulo da empresa.

Proibido de construir novas adegas industriais, devido à proteção patrimonial, Carlos Lucas adotou um modelo dual e ambiciona atingir um milhão de garrafas
O mapeamento do território agrícola
Sob a direção técnica e o planeamento estratégico de Carlos Lucas, a propriedade de 108 hectares foi submetida a um rigoroso, científico e sistemático ordenamento do território agrícola, dividindo-se em parcelas claramente diferenciadas pelo seu potencial geológico e microclimático.
As vinhas da Quinta das Herédias estão distribuídas ao longo de encostas com altitudes que variam entre os 120 e os 400 metros. Esta variação altimétrica expõe as videiras a diferentes amplitudes térmicas e níveis de maturação. No plano geológico, as plantas enfrentam uma transição de solos atípica e rara no Douro: a matriz predominante de xisto duriense é abruptamente cortada por afloramentos e veios de granito subjacente, o que confere aos vinhos um perfil muito específico.
O verdadeiro coração enológico da propriedade é constituído por nove hectares de vinhas com mais de um século, comprovadamente acima dos 130 anos. Nestas parcelas heróicas, as castas encontram-se misturadas na mesma linha de plantação, seguindo o método tradicional de field blend implementado pelos antigos lavradores do Douro. Caminhar por estas linhas é fazer uma viagem pela ampelografia esquecida da região, detetando-se a presença de variedades raras e de baixa produtividade, mas de enorme complexidade organolética, tais como a Malvasia Preta, a Tinta Francisca, a Tinta Pomar e a Rufete, entre outras.
Historicamente, a Quinta das Herédias era uma propriedade devotada de forma quase exclusiva à vinificação de uvas para a produção de vinhos do Porto. Contudo, ao identificar o enorme potencial de frescura mineral e a preservação de acidez oferecidos pelas manchas de solo granítico e pela circulação de ventos frios no vale do rio Távora, Carlos Lucas tomou a decisão estratégica de plantar, no ano de 2020, quatro novos hectares de castas brancas nos locais mais altos da propriedade. A aposta recaiu nas variedades autóctones de maior prestígio da região: a Viosinho, a Rabigato e a Gouveio.
Na cota mais baixa da propriedade, estendendo-se colada à margem espelhada do rio Távora, a uma altitude que pouco ultrapassa os 100 metros, localiza-se uma mancha contínua de 35 hectares de olival tradicional constituído por árvores centenárias. Esta imensa parcela é plenamente aproveitada para diversificar a atividade económica da quinta, através da produção e comercialização de um azeite virgem extra de extração estritamente a frio, que capta a essência daquele microclima ribeirinho.
Engenharia enológica e o património
Um dos maiores e mais complexos segredos operacionais da transição da Quinta das Herédias para a era moderna reside na gestão inteligente das restrições legais e urbanísticas que incidem sobre a propriedade. Devido ao rigoroso estatuto de proteção patrimonial e paisagística que impende sobre a quinta, classificada como imóvel de interesse municipal e integrada na área protegida do Douro, as autoridades administrativas locais, os organismos de tutela do património e as entidades ambientais proíbem terminantemente a edificação de qualquer nova estrutura industrial, armazém de betão ou adega de grande volumetria.
Para contornar este bloqueio logístico e legal sem descaracterizar a identidade da marca, Carlos Lucas desenhou um modelo de vinificação dual, dividindo a produção em dois polos complementares. A adega original de xisto da propriedade foi totalmente recuperada e equipada de forma minimalista e cirúrgica. Ali funcionaram alguns lagares de granito tradicionais que deram origem ao primeiro vintage do projeto, mas rapidamente foram desativados devido à falta de capacidade para processar toda a produção. Com o intuito de contornar as limitações físicas da propriedade original e otimizar o circuito logístico, o produtor adquiriu, em 2023, vários lotes de terreno na zona industrial de Sabrosa. O investimento resultou numa área de implantação de 3500 metros quadrados, onde foram edificados 2000 destinados a sustentar um plano de negócios de grande escala. As novas instalações concentram agora todas as etapas críticas do negócio: a vinificação, o engarrafamento e a expedição.
De resto, a meta imediata está traçada: a colheita de 2026 será a primeira a ser totalmente vinificada nesta nova infraestrutura, que estará plenamente operacional e dotada de todas as condições logísticas para a vindima. O investimento responde às metas ambiciosas traçadas pela administração. Atualmente, o projeto coloca no mercado 250 mil garrafas, com um portefólio que inclui brancos, tintos e vinhos do Porto, além de uma forte aposta nos espumantes: 50 mil garrafas distribuídas por três referências distintas. O objetivo a curto prazo, contudo, é quadruplicar o volume e atingir a fasquia de um milhão de garrafas.
Além do reforço da capacidade industrial, os planos de expansão estendem-se à área do turismo. Para um futuro muito próximo, está já projetado o lançamento de um programa de enoturismo próprio. A nova centralidade do projeto em Sabrosa irá abrir portas ao público com uma oferta integrada de visitas guiadas, provas orientadas e uma loja física para a compra direta de vinhos.
Num mercado global, onde o verdadeiro luxo passou a ser o espaço, o tempo e o silêncio, o novo refúgio aposta numa experiência ultra exclusiva de 11 quartos
Novo refúgio de luxo
As ruínas da antiga casa do senhorio e dos seus edifícios anexos, que outrora marcaram a paisagem da Quinta das Herédias, deram lugar a um ambicioso projeto de hotelaria de charme. As obras iniciaram-se formalmente em setembro de 2024, após um meticuloso trabalho de recuperação do património edificado, que no passado tinha sido fustigado por saques. O projeto promete devolver a dignidade histórica à propriedade num cenário de total renovação, cumprindo a promessa dos seus promotores: devolver a dignidade histórica e a imponência arquitetónica a uma propriedade que parecia condenada ao esquecimento. Cada pedra recuperada e cada viga restaurada contam, agora, uma narrativa de resiliência.
Num mercado global, onde o verdadeiro luxo passou a ser o espaço, o tempo e o silêncio, a Quinta das Herédias lança uma proposta de valor clara e cirúrgica. Com um conceito focado inteiramente no segmento premium, o hotel conta com 11 quartos. Esta escala reduzida foi uma escolha deliberada, para garantir aos hóspedes uma experiência de alojamento ultra exclusiva, caracterizada pela privacidade absoluta e por uma profunda imersão na natureza circundante. Afinal, as janelas abrem-se para o anfiteatro natural das vinhas e para a serenidade que caracteriza o Douro profundo.
Para lá do alojamento de excelência, o complexo turístico foi desenhado para ser um polo de atração por direito próprio. A propriedade inclui uma magnífica piscina exterior, estrategicamente posicionada para potenciar as vistas sobre o vale, e um restaurante que nasce com uma ambição assumida: converter-se numa das principais referências gastronómicas de toda a região duriense. A carta privilegia os produtos endógenos e a harmonização com os vinhos locais.
Com esta boa nova, a Quinta das Herédias reforça, de forma significativa, a oferta de turismo de qualidade na região. O projeto demonstra que é possível aliar a preservação rigorosa da memória histórica ao conforto contemporâneo e às exigências do viajante do século XXI. O Douro ganha, assim, um novo guardião da sua herança cultural.
Desta forma, a região continua a afirmar-se como um dos destinos mais vibrantes e magnéticos do turismo de luxo mundial, e o próximo capítulo desta história de sucesso está a ser escrito. As ruínas, que outrora marcaram de forma melancólica a paisagem da Quinta das Herédias, deram, finalmente, lugar a um ambicioso e sofisticado projeto de hotelaria de charme.
O ano de todas as decisões
Depois de anos de planeamento silencioso, reconstrução de muros de xisto, microvinificações experimentais, isolamento em períodos pandémicos e reestruturação financeira complexa, o ponto de viragem histórico e definitivo para esta propriedade está formalmente agendado para 2026. Aliando de forma inteligente a produção vinícola de excelência a um projeto hoteleiro disruptivo que promete fixar e reter um turismo de qualidade internacional na sub-região do Cima Corgo, este investimento de dez milhões de euros cumpre uma dupla função social e económica no Douro. Não só reabilita, limpa e dignifica um espaço físico e patrimonial outrora saqueado, votado ao abandono e à mercê do mato rústico, mas coloca uma nova e orgulhosa marca na linha da frente do panorama vitivinícola nacional.
A Quinta das Herédias, que já sobreviveu às convulsões políticas do regicídio, prova, em 2026 que o xisto e o granito, quando moldados pelo talento e pela persistência humana, continuam a produzir alguns dos vinhos mais emocionantes e profundos do mundo. Para os enófilos e colecionadores de todo o planeta, resta apenas aguardar que o conteúdo destas garrafas, agora produzidas com todas as condições de excelência, chegue aos copos, para ditar o veredicto final. Uma coisa é certa: o gigante do vale do Távora acordou e o seu brilho voltou a iluminar o Douro.
(Artigo publicado na edição de Setembro de 2026)
-

Quinta das Herédias
Fortificado/ Licoroso - 2019 -

Quinta das Herédias
Fortificado/ Licoroso - 2020 -

Quinta das Herédias
Fortificado/ Licoroso - -

Quinta das Herédias
Fortificado/ Licoroso - -

Quinta das Herédias
Fortificado/ Licoroso - -

Quinta das Herédias
Fortificado/ Licoroso - -

Herédias +130
Tinto - 2022 -

Herédias
Tinto - 2022 -

Herédias
Tinto - 2022 -

Herédias Vinha das Estacas
Branco - 2025 -

Herédias Agosto
Branco - 2025 -

Herédias
Branco - 2025 -

Herédias
Espumante - 2019 -

Herédias
Espumante - 2019
GRANDE PROVA MOSCATEL: Das abelhas e dos pássaros

Não é assunto que nos roube o sono. Por isso, sem investigações aturadas e reflexões profundas, vamos aceitar que a origem da casta Moscatel se situa no Médio Oriente, talvez mesmo no Egipto. A expansão por toda a zona envolvente do Mediterrâneo, da Sicília a Málaga, de Hamburgo a várias zonas da França, bem como […]
Não é assunto que nos roube o sono. Por isso, sem investigações aturadas e reflexões profundas, vamos aceitar que a origem da casta Moscatel se situa no Médio Oriente, talvez mesmo no Egipto. A expansão por toda a zona envolvente do Mediterrâneo, da Sicília a Málaga, de Hamburgo a várias zonas da França, bem como por todo o império, terá sido obra de romanos que, tal como as abelhas, lhe apreciavam a doçura e o gosto. Sabemos, porém, que a Moscatel é, das poucas castas usadas para fazer vinho, a que tem a particularidade de ter o mesmo sabor, comendo-se os bagos ou provando o vinho. Porquê?
Acontece que esta variedade é especialmente rica em monoterpenos, compostos que são responsáveis pelo perfume de alguns frutos e das flores, os quais estão em grande concentração nesta variedade. Com estes atributos não é difícil perceber que até à África do Sul, mais propriamente à zona do Cabo, tenha chegado a Moscatel, dando aí origem a um dos vinhos que, durante séculos, foi ultrafamoso. Esteve à mesa de reis e mesmo no exílio de Napoleão. Refiro-me ao vinho de Constância, região de vinhedos bem próxima da cidade do Cabo. Para lá foi levada pelos holandeses, que colonizaram a zona no século XVII.
Com esta antiguidade toda, é natural que a casta tenha sofrido mutações. Por conseguinte, conhecemos múltiplas variantes, ainda que haja as que dispõem de vários sinónimos. Algumas das principais variedades incluem o Muscat à Petits Grains, Muscat of Alexandria, Muscat Ottonel, entre outros; por cá, Moscatel Galego (igual a Muscat à Petits Grains), no Douro, sobretudo em Favaios, Moscatel Graúdo (ou de Alexandria), em Setúbal e, ainda em Setúbal, o Moscatel Roxo, que é uma mutação do Moscatel do Douro.
Falamos, então, de uma variedade que gosta de climas quentes e de terrenos arenosos, tudo o que em Azeitão há em abundância. Não se estanha assim a grande implantação que teve no século XIX nesta região. Ainda que não se faça a distinção, há duas zonas diferenciadas para a produção: as areias de Palmela e Poceirão e os argilo-calcários da Serra da Arrábida. São diferentes, ainda que todos com a mesma Denominação de Origem.
Muito divulgada no século XIX na região de Setúbal, a Moscatel era acompanhada por outra variedade que gerava um licoroso muito apreciado, o Bastardinho de Azeitão. Em tímida recuperação, a Bastardo foi casta muito plantada, desde o Barreiro até Alcochete, e o vinho destacado por Ferreira Lapa (Memória Sobre os Processos de Vinificação, Lisboa, 1867), que dizia dele, “espécie licorosa fina e balsâmica, como não se produz melhor n’outras partes” e identificava, como melhores zonas para a produção, Barreiro, Samouco, Moita e Seixal!
Actualmente, e enquanto se espera pela recuperação da variedade (a que acresce o longo tempo de estágio), o melhor mesmo é provar as últimas garrafas, ainda à venda, pertencentes à José Maria da Fonseca, as quais estão disponíveis em garrafeiras e na loja da empresa, em Azeitão.
A uva do sol e do calor
No mesmo texto de Ferreira Lapa se anota a prática antiga, em Setúbal, de colocar os cachos de Moscatel ao sol (de uma semana a 12 dias), para, através da desidratação, concentrarem açúcares e, consequentemente, aumentarem o potencial alcoólico. Hoje, a prática parece ter desaparecido, mas esta casta é sempre a última a ser vindimada. Sim, esta é a última. Contudo, a Moscatel Roxo é, de longe, a primeira, normalmente ainda em Julho, com a finalidade de evitar os ataques da passarada. Neste caso, talvez Plínio lhe chamasse Uvae avium (vinha dos pássaros). Em Setúbal, falamos de cachos e bagos grandes, de película rija; no Douro, com Moscatel Galego temos um cacho e bagos mais pequenos e de pele mais fina. Já o Moscatel Roxo adquire, em plena maturação, uma tonalidade rosada (daí o nome).
A produção segue a mesma prática de todos os licorosos: fermentação em contacto com as películas, adição da aguardente (geralmente, a 77% volume) a meio do processo fermentativo, para o interromper. Nesta fase, procura-se conferir ao vinho um teor em torno dos 16º de álcool, deixando o restante para acertos finais ao longo do processo de envelhecimento. O vinho fica, então, por via da morte das leveduras “afogadas” em aguardente, com açúcar residual, podendo este ir dos 90 aos 200 gramas por litro, e registar um teor alcoólico final em torno dos 17 ou 18%. Findo o processo de fermentação, o vinho continua em contacto com as películas por vários meses, mais propriamente de três a quatro meses na José Maria da Fonseca, conferindo mais complexidade ao vinho. Segue-se o estágio em barricas usadas; no caso da Bacalhôa, sem atesto dos cascos ao longo do envelhecimento.
O torna-viagem
A empresa José Maria da Fonseca, a mais antiga da região a fazer Moscatel, ainda tem, em casco, vinhos da colheita de 1900 e vários do século passado. Ao todo, serão cerca de 500 000 litros de vinhos com mais de 20 anos. Nesta empresa, está em curso a produção de vinhos Torna-Viagem, resultantes de uma cooperação com o navio-escola Sagres que, nas suas viagens, leva, no convés, pipas com Moscatel, sujeitas a oscilações de temperatura e agitação do vinho dentro do casco. Este era o conceito inicial dos vinhos torna-viagem, igualmente usado na Madeira para os vinhos que eram exportados e regressavam.
Actualmente, e após o regresso, os cascos ficam em repouso na sede da José Maria da Fonseca, em Azeitão. Estamos a falar de cerca de 50 000 litros. Com o propósito de proteger a zona onde estão os cascos, foi preciso colocar uma parede de vidro, porque a circulação de ar (correntes de ar?) estava a provocar uma evaporação de 12% por ano contra os normais 3%. Para quando o engarrafamento? Domingos Soares Franco (DSF), durante décadas enólogo da referida empresa, é peremptório: “isso é assunto para a sétima geração!”
Na colecção DSF, a empresa mantém também a originalidade do uso de aguardentes das regiões francesas Cognac e Armagnac para os moscatéis. São dois vinhos diferentes com indicação na garrafa do tipo de aguardente usada. Para vinhos que se pretende que envelheçam (20 anos, digamos) Domingos Soares Franco comenta: “prefiro a de Cognac porque, com o tempo, faz realçar as notas de frutos secos e citrinos confitados.”
Os ensaios da Bacalhôa
A Bacalhôa tem plantados cerca de 52 hectares de Moscatel de Alexandria e 4 hectares de Moscatel Roxo, sobretudo na Serra da Arrábida, em encostas viradas a norte. Para a entrada de gama, a empresa adquire também uvas na zona arenosa de Palmela. O mercado interno absorve cerca de 40% da produção.
O estágio em madeira é feito com base em métodos diferentes nas duas empresas com mais tradição na produção do generoso. Na Bacalhôa, entre outras, ainda se usam barricas que têm origem na Escócia e serviram anteriormente ao whisky. A importação destas barricas está, para já, suspensa. A aposta é, agora, estagiar este fortificado em barricas que serviram anteriormente a vinhos tintos, depois moscatéis de entrada de gama, e só então, os de gama superior. Existe uma estufa exterior, onde estas barricas são dispostas para envelhecimento. Com as variações de temperatura e os grandes calores estivais (que originam uma pequena, mas significativa, variação de temperatura dentro da barrica), o vinho adquire mais complexidade e riqueza aromáticas sem atesto dos cascos ao longo do envelhecimento. Reproduz-se, assim, o método de canteiro usado na Madeira, em que os cascos começam o seu envelhecimento nos sótãos dos armazéns e vão transitando, de anos em anos, para os andares de baixo, até ao nível térreo. Na estufa da Bacalhôa, as variações de temperatura, medidas no vinho, oscilam entre os 10º no Inverno e os 28º no Verão.
Em curso, estão ensaios com barricas de Jerez (Oloroso) e também ensaios de aguardentação mais tardia, visando a produção de moscatéis com menor teor de açúcar. Para já, segundo João Ramos, enólogo da Bacalhôa, ainda é cedo para conclusões, porque, nestas barricas de Jerez só têm vinhos de dez anos a estagiar há três meses. São dez barricas de 300 litros, com muito uso, que chegaram de Jerez ainda húmidas, favorecendo, deste modo, a permuta de aromas e sabores. Quanto tempo lá vão ficar? Depende das provas que se façam ao longo do tempo.
Este Moscatel em barricas de Oloroso será sempre usado numa colecção de experiências e não para integrar lotes gerais. Prática antiga na região, e que aqui se reproduz, é manter as borras no fundo da barrica, ou seja, esta nunca se esvazia por completo e o vinho novo é colocado sobre as borras do vinho velho. Também não se atestam totalmente as barricas, deixando-se dois a três dedos, para evitar que, com o calor, o vinho saia da barrica.
Um outro projecto que está agora no início é a conservação em vidro de vinhos muito velhos, já com exagerada concentração, a serem usados para bases e não para serem vendidos como Colheita. Serem mantidos em casco não tem, dizem-nos, qualquer vantagem.
Favaios e Alijó
No Douro, destaca-se, desde há décadas, a região de Favaios e Alijó como as zonas onde a casta melhor se expressa, graças à altitude. No entanto, sem a delimitação da zona de Favaios, os rótulos do Douro indicam genericamente “Moscatel do Douro”, que pode ser ou não de Favaios, mas não há distinção oficial.
Em Favaios sobressai a Adega Cooperativa fundada em 1952 e que se assume como principal produtor de Moscatel do Douro, com 80% da produção da região. Possui, segundo informação da própria adega, 52% da quota de mercado a nível nacional. Com o lançamento da marca Favaíto, em minúsculas garrafas, a cooperativa deu um grande salto em termos de negócio, vendendo, actualmente, 32 milhões de unidades por ano, o que corresponde a 61% das vendas de Moscatel desta adega. Os stocks atingem os 9,5 milhões de litros em madeira, ou seja, o triplo das vendas anuais.
Pelos resultados da prova se percebe que o “universo” Moscatel contempla tipos de vinho muito variados. O fluxo de vinhos para prova chegou-nos, sobretudo, de Setúbal, apesar do Douro ter, aqui, uma boa representação. Ainda que seja possível encontrar vinho licoroso de Moscatel noutras zonas do país, como Tejo e Lisboa, a verdade é que foram poucos os produtores que enviaram amostras. Uma conclusão se impõe: são vinhos de enorme qualidade, que dão muito prazer na prova e que têm um preço bem convidativo. Como se diz no anúncio de uma marca de café bem conhecida: ‘What else?’
No que diz respeito ao consumo, este é um generoso ao qual o epíteto de bom e barato se aplica na perfeição. Servido ligeiramente refrescado no final da refeição, acompanha, em modo de excelência, sobremesas que incluam doces de ovos, a começar pelas tortas de Azeitão e pelo pão-de-ló de Ovar, prosseguindo pelos doces de ovos de Aveiro, os pastéis de Tentúgal, os travesseiros de Sintra, num desfilar de parcerias sem fim. Bebê-lo é dignificar um produto secular, um dos nossos três reis-magos dos vinhos fortificados. E, ao contrário do que se diz em relação aos livros que “o mais difícil é lê-los”, aqui, em relação ao Moscatel, é o inverso: o mais fácil é bebê-lo!
Os reinos da Moscatel
A demarcação da região da Península de Setúbal data do início do século XX, incluída na primeira vaga de demarcações após a da região do Douro. As vinhas da casta aptas à Denominação de Origem estendem-se pelos concelhos de Palmela (68%), Setúbal (17%), Montijo (13%) e Sesimbra, além dos ligeiros aumentos (2%). A área de vinha tem-se mantido estável, com poucas oscilações.
Existem duas Denominações:
Setúbal: o vinho tem de ter no mínimo 67% da casta.
Moscatel de Setúbal: a percentagem obrigatória sobe para os 85%.
O Moscatel Roxo de Setúbal corresponde, actualmente, a cerca de 66 hectares de vinhas (em 1999 seriam apenas sete hectares, então considerado à beira da extinção) e distribuem-se pelos quatro concelhos referidos. Também em relação a esta casta se mantêm as mesmas regras: para DO Setúbal o vinho tem de ter 67% da casta e, para Moscatel Roxo de Setúbal, 85%.
A produção oscila entre os 2 e os 2,5 milhões de garrafas. O crescimento do plantio de Moscatel prende-se, segundo a Comissão Vitivinícola Regional da Península de Setúbal, com o renovado interesse na casta para a produção de vinhos tranquilos. A legislação permite a comercialização de vinhos com data de colheita ou com indicação de idade – 5, 10, 15, 20, 25, 30, 35 e 40 anos. Estranhamente, também permite o uso simultâneo das mesmas indicações – idade e data –, como se pode confirmar pelos vinhos provados.
A produção na região do Douro está concentrada na zona de Favaios, destacando-se, entre todos os operadores, a Adega Cooperativa de Favaios, gestora de uma área de vinha que, em dez anos, passou de 545 para 623 hectares. Em termos de produção, é responsável por 82,7% de quota de mercado, de acordo com os registos de 2025 (a maior percentagem desde há 15 anos). As vendas cresceram, de 2015 a 2025, cerca de 40%. Em 2025, dos cerca de quatro milhões de litros comercializados como Moscatel do Douro, a Adega de Favaios foi responsável por pouco menos de 3 300 000 litros. As castas aqui plantadas são a Moscatel Galego e Moscatel Galego Roxo.
Nota – A Grande prova Moscatel realizou-se em Prova Cega por: João Paulo Martins, Valéria Zeferino e Luís Antunes
(Artigo publicado na edição de Setembro de 2026)
-

Niepoort
Fortificado/ Licoroso - -

Família Horácio Simões Excellent Single Cask
Fortificado/ Licoroso - -

Casa Ermelinda Freitas
Fortificado/ Licoroso - 2011 -

Adega de Palmela
Fortificado/ Licoroso - -

Moscatel de Setúbal
Fortificado/ Licoroso - -

Quinta do Piloto
Fortificado/ Licoroso - -

DSF Colecção Privada
Fortificado/ Licoroso - 2002
-

Mingorra
Fortificado/ Licoroso - 2019 -

Martha’s
Fortificado/ Licoroso - -

Adega Camolas
Fortificado/ Licoroso - 2021 -

Venâncio da Costa Lima Rúbrica
Fortificado/ Licoroso - -

Fernão de Magalhães
Fortificado/ Licoroso - -

Venâncio da Costa Lima
Fortificado/ Licoroso - 2016 -

Fragulho
Fortificado/ Licoroso - 2011 -

Moscatel de Setúbal
Fortificado/ Licoroso - -

Adega Camolas
Fortificado/ Licoroso - -

Secret Spot
Fortificado/ Licoroso -
Naquele tempo… por Luís Lopes

Quanto custava, há 30 anos, um vinho famoso? Que marcas se vendiam? Das que sobreviveram, quais as que mais valorizaram? No decorrer de uma limpeza das prateleiras lá de casa, a descoberta de um conjunto de catálogos de feiras de vinho deu resposta a algumas destas questões e trouxe-me de regresso à idade de ouro […]
Quanto custava, há 30 anos, um vinho famoso? Que marcas se vendiam? Das que sobreviveram, quais as que mais valorizaram? No decorrer de uma limpeza das prateleiras lá de casa, a descoberta de um conjunto de catálogos de feiras de vinho deu resposta a algumas destas questões e trouxe-me de regresso à idade de ouro do negócio do vinho em Portugal.
Antes de mais, importa contextualizar. Há mais de três décadas, as feiras de vinho dos hipermercados nada tinham a ver com as actuais. Hoje, são uma concentração de campanhas e promoções. Naquela época, eram uma oportunidade única para um consumidor, cada vez mais interessado e interessante (em termos de poder de compra), aceder, em qualquer ponto do país, a vinhos consagrados, vinhos que só se vendiam em raras lojas de Lisboa e Porto. A importância destas feiras era de tal ordem, que os grandes produtores esperavam por elas para lançar as novas colheitas. E os compradores dos hipermercados corriam o país, batendo à porta dos produtores mais pequenos e reputados, pedindo o especial favor de lhes ser vendido o vinho mais raro e mais caro. A feira do Pingo Doce foi pioneira e líder nesse conceito, apresentando os vinhos em catálogos luxuosos, que eram, depois, distribuídos nas lojas e encartados no jornal Expresso do fim de semana anterior à feira. Os catálogos, autênticas revistas especializadas, com informação didáctica, reportagens, etc., eram avidamente lidos e pesquisados pelos apreciadores, que irrompiam pelas lojas com o caderno debaixo do braço, em busca dos vinhos que tinham anotado.
Apenas dois exemplos, para mostrar o impacto da coisa: marcas como Ferreirinha Reserva Especial, Quinta do Côtto Grande Escolha, Duas Quintas Reserva, Cartuxa Garrafeira (sim, existiu um Cartuxa Garrafeira!), Mouchão ou Luís Pato Vinhas Velhas eram das que primeiro esgotavam nas prateleiras; e a vasta campanha de marketing televisiva da edição de 1995 foi protagonizada por um rapaz chamado Dirk Niepoort. Outros tempos, como se percebe.
Talvez um dia volte a este tema das feiras, mas, hoje, centro-me no que aqui me trouxe: os preços de antigamente e a maior ou menor valorização das marcas. À minha frente, tenho os catálogos das Feiras Pinto Doce entre 1991 e 2004 (este último, com a curiosidade de ter os preços em euros e escudos, não fosse alguém baralhar-se nas contas). Apontando a um número redondo, recuemos então 30 anos, à feira de 1996.
O exercício que vos proponho, nada tem de científico, é apenas lúdico. Trata-se de comparar quanto custava em 1996 e quanto custa hoje um determinado vinho; e reflectir sobre isso, tirando as ilações possíveis
Comparar preços com um intervalo de três décadas é sempre muito pouco rigoroso. Para calcular o efeito da inflação com a conversão de escudos para euros, existe uma excelente ferramenta, o Índice de Preços no Consumidor (IPC), disponibilizado no site do Instituto Nacional de Estatística. Há que ter o cuidado de escolher a opção que exclui o mercado imobiliário (a valorização dos imóveis distorce tudo o resto), mas a fórmula que calcula entre anos (e meses!) é muito boa.
No entanto, quando se aborda um sector tão específico quanto o do vinho, a inflação média é um dado enganador. É que, em 30 anos, os custos de produção nesta vertente agroindustrial subiram muito mais do que a inflação, começando pelos salários agrícolas (que dispararam face à escassez de mão de obra), e continuando nos produtos para a vinha, gasóleo, garrafas, rolhas, transportes, distribuição, marketing, etc. E, não sendo eu economista (muito, muito longe disso!), acredito que os naturais ganhos de eficiência trazidos pela gestão moderna e pela tecnologia estão muito longe de compensar o enorme aumento dos custos de produzir e vender uma garrafa de vinho.
Assim, o exercício que vos proponho, nada tem de científico, é apenas lúdico. Trata-se de comparar quanto custava em 1996 e quanto custa hoje um determinado vinho; e reflectir sobre isso, tirando as ilações possíveis.
Na região dos Vinhos Verdes, várias marcas consagradas perderam valor, o que, de alguma forma, se compreende pelo enorme crescimento do volume engarrafado. O Adega de Ponte de Lima Loureiro de 1995 custava, em 1996, 435$00, o que, segundo o IPC, equivale hoje, actualizando inflação e convertendo em euros, a €3,98. Uma pesquisa na web diz-me que posso comprar a colheita de 2025 por €4,29. Objectivamente, e pelos motivos acima apontados, há aqui uma desvalorização. O mesmo se passa com o Adega de Monção Alvarinho 1995 (a adega de Monção ainda não tinha a marca Deu-la-Deu). Era o melhor vinho da casa e custava 989$00 (IPC €9,06), o que era um preço muito elevado para um branco. Compra-se hoje o Deu-la-Deu por €7,89. Mais uma vez, é necessário contextualizar: há 30 anos, estes vinhos de Monção e Ponte de Lima eram engarrafados em quantidades comparativamente pequenas e a competição nos varietais de Loureiro e Alvarinho era reduzida.
No Douro, um nome absolutamente incontornável, em meados dos anos 90, era o Quinta do Côtto Grande Escolha. A colheita de 1994 vendia-se a 3.995$00 (IPC €36,58) e era o vinho tinto mais caro da feira de 1996, o que diz muito do seu estatuto. O tempo, opções erradas e o disparar da concorrência no Douro trouxeram enorme erosão a esta marca, que ainda assim recuperou algum do brilho de outrora após a sua aquisição pelo grupo Mello/WineStone em 2023. Hoje, o Grande Escolha custa €65.
Para percebermos a escala da mudança, basta assinalar que o Quinta do Côtto Grande Escolha 1994 valia mais do que o Ferreirinha Reserva Especial 1986, que custava 3.249$00, algo como €29,75 aos dias de hoje, com actualização da inflação. Seria bom comprar uma garrafinha de Reserva Especial por esse preço, não era? Mas não. A colheita mais recente de Ferreirinha Reserva Especial (2017) custa entre €375 e €445. De entre os vinhos avaliados foi, em três décadas, e de muito longe, o que mais valorizou, quer na origem, quer no mercado especulativo. Mas só as grandes marcas suscitam tamanha apetência, geradora da especulação.
Se Côtto e Ferreirinha representavam o Douro antigo, os dois nomes seguintes espelhavam, como nenhum outro, o Douro moderno: Duas Quintas Reserva 1992 e Quinta da Gaivosa 1994, ambos lançando na feira a sua segunda edição. O Duas Quintas custava 2.695$00 (IPC €24,68). Hoje, custa €41. Dado curioso, na feira de 1995, o Reserva de 1991 valia 1.145$00. Num ano, duplicou de preço! O que revela não apenas o enorme frenesim que a marca suscitou nos primeiros anos de vida (há, no Douro, um antes e um depois do Duas Quintas) mas também a tremenda disponibilidade (apetite e dinheiro) do mercado, capaz de absorver um aumento de 100%, de um momento para o outro, como se nada fosse. Eram ou não tempos dourados? Ainda assim, a “explosão” de grandes marcas durienses na segunda metade da década de 90 e início de 2000 (Crasto, Vallado, Batuta, Pintas, etc.) viria, com o tempo, a abrandar o crescimento expectável do Duas Quintas Reserva, mais do que o do Quinta da Gaivosa, que passou de 1.799$00 (IPC €16,47), para os €45 actuais.
Os naturais ganhos de eficiência trazidos pela gestão moderna e pela tecnologia estão muito longe de compensar o enorme aumento dos custos de produzir e vender uma garrafa de vinho
Se o Douro estava a começar a dar que falar nos “não Porto”, o Alentejo era já, há vários anos, a região líder de vendas, com marcas de volume e vinhos de “conhecedores”. Nos lugares cimeiros, Mouchão, claro. O vinho de 1992 era proposto por 2.995$00 (IPC €27,42), um preço que o colocava no topo da oferta Alentejo da feira. A colheita mais recente do Mouchão compra-se por €50, uma valorização bem interessante, mais ainda se pensarmos que, entretanto, surgiu o Mouchão Tonel 3-4 e o que era então o “grande vinho” passou a “segundo vinho”.
Nome consagrado já era, na altura, o Reguengos Garrafeira dos Sócios. Também estava a ser lançada a colheita de 1992, por 1.735$00 (IPC €15,89). Muito bem, a valorização da marca ao longo destas três décadas, já que custa, hoje, €30. O que significa que o consumidor continua a vê-lo como vinho de topo, produzido em quantidades limitadas, sem lhe associar o “estigma de preço” de adega cooperativa.
Não se pode falar do Alentejo dos anos 90 sem mencionar Cartuxa. Curiosamente, no catálogo de 1996 não há Cartuxa tinto, não sei porquê (no ano seguinte, entrou o Cartuxa Reserva 1994, a 1.295$00). Mas havia o Cartuxa branco 1994. E custava 745$00 (IPC €6,82), valorizando desde então até aos €16, o que é muito bom. Tenhamos presente que, há três décadas, os vinhos brancos valiam quase metade dos tintos. Para um branco se aproximar dos 1.000$00 tinha de ser um Alvarinho ou então algo de muito especial em termos de notoriedade. Era o caso do Quinta dos Carvalhais de 1994, o vinho branco mais caro da feira, custando 1.195$00 (IPC €10,94). Hoje vale somente €9,90. A ter em conta: a linha Quinta dos Carvalhais tem passado por diversos reposicionamentos. Mas, sobretudo, em 1996, Quinta dos Carvalhais era a marca mais “in” do Dão, com a adega mais moderna e sofisticada de Portugal. O branco Carvalhais valia então mais do que o famoso Casa de Santar Reserva tinto. Deste, a colheita de 1992 custava 795$00 (IPC €7,28); hoje compramos a versão mais recente por €14,50.
Do Dão para a Bairrada, e para os dois nomes mais emblemáticos dos anos 90 na região, Casa de Saima e Luís Pato. O Casa de Saima Garrafeira 1991 era um vinho de enorme prestígio, mais do que justificado, diga-se, pois ainda hoje este tinto em concreto está grandioso (eu sei porque ainda tenho umas garrafas…). Custava 3.295$00 (IPC €30,17), mais caro do que o Ferreirinha Reserva Especial! O Casa de Saima Garrafeira (no mercado está o 2015) compra-se, agora, por €58, uma valorização sem dúvida importante, mas menor do que então prometia. Já o Luís Pato Vinhas Velhas de 1992 valia 2.199$00 (IPC €20,13) e uma colheita recente custa €17,50. Mas atenção: o Vinhas Velhas era então o topo de Luís Pato, pois Vinha Pan, Vinha Barrosa, Quinta do Ribeirinho Pé Franco, ainda não tinham surgido no mercado. Com a chegada destes, o Vinhas Velhas tomou um lugar mais abaixo na hierarquia.
O Ferreirinha Reserva Especial 1986, custava 3.249$00, algo como €29,75 aos dias de hoje, com actualização da inflação. Seria bom comprar uma garrafinha de Reserva Especial por esse preço, não era?
Para finalizar esta viagem a 1996, dois vinhos de outro tipo, um espumante e um Porto. No catálogo de 1996 está o Quinta das Bágeiras Super Reserva branco 1993, vendido por 925$00 (IPC €8,47) e que se compra agora por €17. Uma valorização muito consistente, sobretudo se considerarmos que, na altura, o produtor fazia muitíssimo menos espumante do que faz hoje.
O Porto é a categoria de vinho que menos valorizou (ou, dito de outra forma, que mais desvalorizou, confrontando o aumento de custos reais vs. preço de venda), mas isso não será propriamente uma surpresa para quem segue o mercado. O Tawny 20 anos da Niepoort era dos mais cotados na época. Custava então 4.945$00 (IPC €45,28) e custa, hoje, €56. Uma valorização apenas virtual, que não compensa o crescimento dos custos de produção e que espelha as dificuldades que a fileira do vinho do Porto atravessa. Recuar no tempo é um exercício fascinante, mas nem todas as memórias nos deixam completamente felizes. L.L.
(Artigo publicado na edição de setembro de 2026)
Conheça os vencedores do Concurso Escolha da Imprensa

O concurso escolha da Imprensa contou com mais de 670 amostras de vinho em prova nas categorias de Espumantes, Rosés, Brancos, Tintos e Fortificados. Com um painel de jurados de excelência foram apurados e agora divulgados todos os resultados. A entrega dos diplomas a todos os premiados decorreu hoje no evento Vinhos & Sabores. Conheça […]
O concurso escolha da Imprensa contou com mais de 670 amostras de vinho em prova nas categorias de Espumantes, Rosés, Brancos, Tintos e Fortificados. Com um painel de jurados de excelência foram apurados e agora divulgados todos os resultados.
A entrega dos diplomas a todos os premiados decorreu hoje no evento Vinhos & Sabores. Conheça todos os vencedores:
Concurso a escolha da imprensa – Grandes Escolhas
Vinhos & Sabores 2026: Alentejo é convidado especial

De 17 a 19 de Outubro, a Feira Grandes Escolhas | Vinhos & Sabores regressa à FIL, no Parque das Nações, em Lisboa, com uma boa nova: o Alentejo é a região em destaque desta edição de 2026. De acordo com o programa, o início do certame é marcado pelo anúncio dos resultados dos Prémios […]
De 17 a 19 de Outubro, a Feira Grandes Escolhas | Vinhos & Sabores regressa à FIL, no Parque das Nações, em Lisboa, com uma boa nova: o Alentejo é a região em destaque desta edição de 2026. De acordo com o programa, o início do certame é marcado pelo anúncio dos resultados dos Prémios Escolha da Imprensa, iniciativa que, ao longo de uma manhã, colocou profissionais de diferentes meios de comunicação a provar, às cegas, e aferir perto de 600 vinhos de produção nacional.
Nos dias 17 e 18, há 12 Provas Especiais comentadas a explorar. Trata-se de uma oportunidade única para provar vinhos excecionais, muitos dos quais raridades e colheitas históricas, que convidam a viajar por Portugal, incluindo Açores e Madeira, a somar a dois destinos d’além mar: Califórnia, nos Estados Unidos, e Austrália.
Quanto a 19 de Outubro, o dia é inteiramente dedicado a profissionais.
Provas Especiais
Passo seguinte? Anote na agenda o dia 17 de Outubro o alinhamento das Provas Especiais, com Justino’s: Uma Viagem no Tempo à boleia de grandes vinhos da Madeira, em particular da longevidade, da complexidade e da identidade de uma das casas históricas da ilha; Arinto de Bucelas: A Tradição de um Grande Branco, dedicada a um dos binómios clássicos e mais antigos, onde os vinhos brancos são uma exclusividade; Poeira: 25 anos a Fazer o Douro à sua Maneira, na qual Jorge Moreira revisita um quarto de século do projecto em nome próprio ao longo de várias colheiras; e O Mundo da Penfolds, dedicada ao universo de uma das mais icónicas casas de vinho australianas. Some a descoberta de vinhos raros e singulares produzidos a partir de variedades pouco conhecidas no Dão: O Tesouro das Castas Esquecidas e os dez vindimas por meio de numa prova vertical que permite acompanhar a evolução de um dos clássicos do Alentejo, a Tapada de Coelheiros: Uma Década de uma Nova Era.
O dia 18 de Outubro é marcado por um novo itinerário vínico, iniciado com a Henriques & Henriques: A Arte de Fazer Madeira, que traz uma selecção de vinhos da Madeira para descobrir a dimensão do tempo da mais antiga empresa na ilha, seguindo-se Monção e Melgaço, A Casta e o Território, onde é explorada a relação entre este território, a casta Alvarinho e o trabalho dos seus produtores, e os Grandes Tintos de 2016, a clássica prova de tintos com dez anos centrada em vinhos de referência de diferentes regiões nacionais. Junte os Vinhos de Talha: o Alentejo antes do Vinho Moderno, que cruza o legado ancestral de vinificação com novas interpretações, os Terroirs de California, nos Estados Unidos, sessão dedicada à descoberta de castas e estilos que distinguem este território e como os produtores interpretam o lugar, e a ilha Terceira: Atlântico como Aliado, onde o poder do Atlântico, aliado aos solos de basalto vulcânico, contribui para a criação de vinhos feitos a partir de castas autóctones, com raízes no século XV.
Para o público em geral, há as habituais sessões do Prove Connosco, a decorrer num pequeno anfiteatro em que os expositores são convidados a fazer apresentações descontraídas e provas de vinhos. A finalidade é potenciar o diálogo entre produtores e consumidores.
Gastronomia e arte
A gastronomia volta a ter lugar de destaque através dos showcookings, desta vez com o Alentejo em alta. Sob o mote “Um Alentejano cai sempre bem”, nove chefes vão ter como missão apresentar um prato de autor, com o foco nos produtos alentejanos, e propor o diálogo entre a cozinha e diferentes perfis de vinhos da região. Entre as sugestões culinárias constam as Bochechas de porco preto estufadas em vinho tinto, de Lucas Mendes, o Tártaro de atum com molho ponzu, sorvete de manga e coentros, de Ruben Ferreira (Casa do Gadanha, Estremoz), as Saladas frias do Alentejo, de Adelina Costa, e o Pregado inspirado em sabores históricos, de João Narigueta (Poda e Híbrido, Montemor-o-Novo). Estes momentos são de livre acesso para os visitantes da feira e decorrem às 15h30, às 17h30 e às 19h30 de Sábado e Domingo; às 12h00, 14h00 e 16h00 de Segunda-feira, dia reservado a profissionais.
No capítulo das artes, chega uma das novidades da Feira Grandes Escolhas | Vinhos & Sabores 2026 através da artista Ekaterina Zavodun, que terá um espaço próprio no certame. Além da exposição “If Wine had a Face”, a artista realizará sessões de pintura ao vivo, explorando o vinho enquanto matéria e linguagem artística.
Negócio para fora de portas
Face à importância inerente à dimensão internacional, a Feira Vinhos & Sabores 2026 mantém o Business Lounge, área projectada especificamente para a vertente profissional do evento, centrada na criação de negócio. O espaço permite promover reuniões entre produtores portugueses e potenciais parceiros internacionais, com o intuito de fomentar dinâmicas concretas para iniciar contactos, desenvolver relações comerciais e abrir portas para novos mercados.
A aposta na internacionalização está associada à recepção de mais 30 convidados, entre compradores e jornalistas, provenientes de mercados tão diversos, como Alemanha, Áustria, Bélgica, Brasil, Dinamarca, Finlândia, Grécia, Hungria, Índia, Irlanda, Japão, Macau, Noruega, Países Baixos, Polónia, Singapura, Suíça e Turquia. Paralelamente, conta com uma rede de parceiros e apoios institucionais que inclui o Turismo de Portugal, a AICEP, a ViniPortugal, o Instituto da Vinha e do Vinho e a Comissão Vitivinícola Regional Alentejana.
Programa Provas Especiais comentadas
17 de Outubro
15h30 • Sala 1: Justino’s: Uma Viagem no Tempo (€75)
- Rui Viegas, Director Comercial e Wine Educator da Justino’s Madeira Wines
15h30 • Sala 2: O Mundo da Penfolds (€50)
- Toby Amphlett, Brand Ambassador da Penfolds
17h30 • Sala 1: Arinto de Bucelas: A Tradição de um Grande Branco (€50)
- Enólogos Nuno Cancela de Abreu, Bernardo Cabral, Paulo Laureano, Alfredo Milne e Carmo e Nuno Faria
17h30 • Sala 2: Dão: O Tesouro das Castas Esquecidas (€50)
- Paulo Nunes, enólogo da Casa da Passarella, e Sónia Martins, enóloga da Lusovini
19h30 • Sala 1: Poeira: 25 anos a Fazer o Douro à sua Maneira (€50)
- Jorge Moreira, produtor e enólogo
19h30 • Sala 1: Tapada de Coelheiros: Uma Década de uma Nova Era (€50)
- Alberto Weisser, produtor, e Luís Patrão, enólogo
18 de Outubro
15h30 • Sala 1: Henriques & Henriques: A Arte de Fazer Madeira (€50)
- Fernanda Martins, Madeira Wine Specialist pelo IVBAM
15h30 • Sala 2: Vinhos de Talha: o Alentejo antes do Vinho Moderno (€50)
- Nuno Oliveira Garcia, crítico de vinhos da Revista Grandes Escolhas
17h30 • Sala 1: Monção e Melgaço, A Casta e o Território (€25)
- Luís Lopes, crítico de vinhos da Revista Grandes Escolhas
17h30 • Sala 2: Terroirs da California (€75)
- Ivo Peralta, Wine Educator e Brands Account Manager, e Mafalda Almeida, Brands Director da Luxury Drinks
19h30 • Sala 1: Grandes Tintos de 2016 (€75)
- João Paulo Martins, crítico de vinhos da Grandes Escolhas
19h30 • Sala 2: Terceira: Atlântico como Aliado (€50)
- Miguel Ferreira, crítico de vinhos da Revista Grandes Escolhas, Sandro Mendonça, da Adega dos Sentidos, Rui Martins, da Casa Agrícola, e Luís Vasco Cunha, da Materramenta
Para informação completa e vinhos à prova, consultar: https://grandesescolhas.com/vinhosesabores/programa/provas-especiais/
Local: FIL, Pavilhão 3 — Parque das Nações, Lisboa
17 e 18 de outubro: 15h00–21h00
19 de outubro: 11h00–18h00 — reservado a profissionais
Bilhete diário com copo: 20 €
Passe de dois dias com copo: 30 €
Informações e bilhetes: vinhosesabores.com
Conheça os compradores e jornalistas estrangeiros presentes no Vinhos & Sabores

Estão confirmados os convidados (compradores e jornalistas) que estarão presentes na edição deste ano do evento Grandes Escolhas | Vinhos & Sabores, a decorrer entre 17 e 19 de Outubro, na FIL , Parque das Nações, em Lisboa. Com o apoio do Turismo de Portugal, AICEP e Viniportugal, foi possível juntar um extraordinário grupo de […]
Estão confirmados os convidados (compradores e jornalistas) que estarão presentes na edição deste ano do evento Grandes Escolhas | Vinhos & Sabores, a decorrer entre 17 e 19 de Outubro, na FIL , Parque das Nações, em Lisboa.
Com o apoio do Turismo de Portugal, AICEP e Viniportugal, foi possível juntar um extraordinário grupo de profissionais de países como Alemanha, Áustria, Bélgica, Brasil, Dinamarca, Finlândia, Grécia, Hungria, Índia, Irlanda, Japão, Países Baixos, Polónia, Singapura, Suíça, e Turquia.
Estes profissionais irão estar presentes para estabelecer contactos e relações de negócio com os expositores portugueses presentes na feira, tendo a organização preparado para o efeito um Business Lounge com 10 salas de reuniões e serviços de apoio.
Mas a experiência não termina no evento! Com o apoio da CVR Alentejana, muitos destes importadores participarão ainda numa exclusiva Wine Tour pelo Alentejo, onde terão a oportunidade de conhecer alguns dos produtores mais emblemáticos da região, explorar o território, contactar diretamente com os seus protagonistas e descobrir toda a riqueza e diversidade da cultura, gastronomia e vinhos alentejanos.
A Mr. Vertigo é uma empresa grega importadora e distribuidora de vinhos, com uma ligação consolidada ao vinho português. Importa regularmente vinhos de regiões
como Dão, Douro, Lisboa, Vinho Verde e Porto. O objectivo é estabelecer novas parcerias e continuar a diversificar o seu portefólio de vinhos portugueses no mercado grego.
A BILLA AG é uma das principais cadeias de retalho alimentar da Áustria e integra o Grupo REWE. A BILLA conta com cerca de 1.000 pontos de venda na Áustria e está também presente em vários mercados da Europa Central e Oriental, nomeadamente em Itália, Eslováquia, República Checa, Croácia, Hungria, Roménia, Bulgária e Lituânia.
A Einfach guter Wein é uma loja especializada em vinhos localizada em Viena, focada em vinhos de média-alta e elevada qualidade, pouco disponíveis no mercado austríaco. A sua oferta dirige-se sobretudo a consumidores e apreciadores de vinho, colecionadores e clientes de perfil premium. O objetivo é descobrir produtores independentes e verdadeiros “hidden treasures” do vinho português, com potencial para conquistar um espaço diferenciado no mercado austríaco.
A Nordalco Oy é uma empresa finlandesa importadora e distribuidora de vinhos, com uma forte presença no canal HoReCa, que representa cerca de 50% do seu volume de negócios.
A Château Brillant é uma empresa belga dedicada ao vinho, com atividade de aconselhamento e comercialização para particulares, restauração e empresas, sediada em Pollare, Ninove. A empresa é liderada por Wouter De Nul, Wereldwijnmeester e Maître Sommelier, com uma vasta experiência na descoberta, seleção e divulgação de vinhos de diferentes regiões do mundo.
A VINOTTO GIDA TURIZM PAZ.DIS.TIC. LTD. STI. é uma empresa turca com uma relação de quase 15 anos com os vinhos portugueses, desenvolvendo atividade de importação e comercialização no mercado turco. A empresa já possui experiência com vinhos da região do Porto, procurando agora alargar o seu conhecimento e portefólio a outras regiões vitivinícolas portuguesas.
A Oliven & Öl Handelshaus AG é uma empresa suíça, sediada em Zurique, especializada na importação e comercialização de produtos alimentares gourmet. Com um posicionamento focado em produtos de nicho e de elevada qualidade, a empresa privilegia marcas e produtores de pequena dimensão, em detrimento de produtos de produção massificada.
A César Ritz Colleges Switzerland é uma instituição suíça de referência na área da Hotelaria, Hospitality e Gastronomia, com uma forte ligação ao sector do vinho e da restauração. A instituição dedica particular atenção aos vinhos portugueses, que são regularmente abordados em aulas e provas comparativas.
A One Minor Group, liderada por Patrick Sng, é uma das principais plataformas de venda online de vinhos, espirituosas e sake em Singapura, através da OneCellar. Conta atualmente com 12 prestigiadas marcas portuguesas no seu portefólio.
A Aromatic Status é uma empresa húngara de importação e exportação, especializada na comercialização de produtos portugueses na Hungria e noutros mercados da Europa de Leste, nomeadamente na Eslováquia e Roménia. A empresa trabalha com diferentes categorias de produtos, incluindo azeite, café, conservas de peixe e vinhos. A participação no evento representa assim uma oportunidade para alargar o atual portefólio e reforçar a presença dos vinhos portugueses na Hungria e nos mercados vizinhos.
A iDrinks, integrada na RiMiKer Plus Kft., é uma das principais redes de retalho da Hungria especializada em vinhos e bebidas espirituosas. A empresa desenvolve a sua atividade através de três lojas físicas, uma plataforma online e uma sala de provas, combinando a comercialização de vinhos com uma forte componente de educação e contacto direto com os consumidores. O vinho português assume uma presença relevante no seu portefólio, que a empresa pretende continuar a desenvolver.
A Roadster Magazine é uma revista de lifestyle sediada em Budapeste, com uma edição online e uma edição impressa, publicada desde 2017. O objetivo é apresentar a diversidade e a riqueza da produção vitivinícola portuguesa, explorando as diferentes regiões, estilos e identidades dos seus vinhos e mostrando o lugar que ocupam no panorama vitivinícola europeu.
A Weinwirtschaft é uma publicação alemã especializada no setor do vinho, integrada num grupo editorial que inclui também títulos de referência como a VINUM e a Weinwisser. Com uma forte experiência na cobertura do setor vitivinícola, a publicação tem desenvolvido diversos trabalhos dedicados aos vinhos portugueses e ao enoturismo.
A Portugal Wijn Import é uma empresa neerlandesa especializada na importação e divulgação de vinhos portugueses, com uma forte ligação ao mercado profissional e à promoção dos vinhos de Portugal nos Países Baixos. A empresa desenvolve também atividades de enoturismo e organiza viagens gastronómicas e vínicas a Portugal.
A James Nicholson Wine é uma empresa irlandesa especializada na importação e distribuição de vinhos, com uma presença consolidada no mercado irlandês. A empresa trabalha regularmente com vinhos portugueses. A participação permitirá também acompanhar a evolução da produção vitivinícola portuguesa e identificar novas referências com potencial para complementar a oferta atualmente disponível no mercado.
A Husted Vin é uma empresa dinamarquesa de importação e comercialização de vinhos, sediada em Copenhaga, integrada num grupo que reúne lojas de vinhos, wine bars e restaurantes. A empresa apresenta um portefólio diversificado, com particular atenção a vinhos de produtores independentes e a estilos diferenciadores, incluindo vinhos naturais, biológicos, biodinâmicos e de baixa intervenção.
A Cerville Investments é uma empresa polaca especializada na importação e distribuição de vinhos e bebidas espirituosas, sediada em Varsóvia. A empresa conta com um portefólio diversificado de vinhos de diferentes regiões do mundo, complementado por uma seleção de bebidas espirituosas, com especial atenção a produtos de caráter artesanal e diferenciador.
A Lusostar é uma empresa suíça dedicada à importação e comercialização de produtos portugueses, com uma presença consolidada no mercado suíço. No setor dos vinhos, trabalha atualmente com produtores de diferentes regiões de Portugal, incluindo algumas regiões do Norte, mantendo-se aberta a novas parcerias.
A Vila Porto Vinhos é uma empresa brasileira dedicada à importação e comercialização de vinhos, com interesse consolidado na oferta vitivinícola portuguesa. Para esta edição, pretende sobretudo identificar novos produtores portugueses com potencial para integrar e diversificar o seu portefólio no mercado brasileiro.
A Elan Distribution é uma empresa indiana de importação e distribuição de vinhos, bebidas espirituosas e outras bebidas, sediada em Nova Deli. A participação no evento constitui uma oportunidade para aprofundar o contacto com a produção vitivinícola portuguesa e conhecer novos produtores e referências que possam complementar a sua atual oferta no mercado indiano.
A BOTELLA Pte Ltd é uma empresa sediada em Singapura, especializada na importação e distribuição de vinhos, com um foco particular em vinhos espanhóis e italianos. Embora ainda não tenha explorado de forma significativa a oferta vitivinícola portuguesa, a empresa vê Portugal como uma extensão natural do seu atual portefólio de vinhos ibéricos.
A Vinos Yamazaki é uma empresa japonesa de importação e comercialização de vinhos, com experiência consolidada no mercado português. A empresa já trabalha com vinhos portugueses e pretende continuar a desenvolver e diversificar o seu portefólio.
A Sol Deli Kft. é uma empresa húngara sediada em Budapeste, dedicada à comercialização de produtos alimentares, com uma oferta centrada em produtos de origem mediterrânica. A empresa trabalha com produtos provenientes de países como Portugal, Espanha, Itália e Grécia, dando particular atenção a produtos artesanais e de pequenos produtores.
A Iberian Aesthetics é uma empresa espanhola dedicada à comercialização de produtos e referências de origem ibérica, com interesse particular na descoberta e desenvolvimento de produtos portugueses com potencial para o mercado espanhol.



















































