GRANDE PROVA CASTELÃO

Castelão 2.0: new beginnings A expressão remete-nos para toda uma ideia de começar de novo, de fresco, frequentemente com um novo sentido de esperança e renovação. Significa mudança, de um capítulo da nossa vida para outro, amiúde após um período de reflexão ou crescimento. Significa todo um deixar para trás, em consciência, de velhos hábitos, […]
Castelão 2.0: new beginnings
A expressão remete-nos para toda uma ideia de começar de novo, de fresco, frequentemente com um novo sentido de esperança e renovação. Significa mudança, de um capítulo da nossa vida para outro, amiúde após um período de reflexão ou crescimento. Significa todo um deixar para trás, em consciência, de velhos hábitos, experiências e circunstâncias, em direcção ao futuro, com uma renovada perspectiva.
Não vos parece que isto tem vindo a acontecer com a casta tinta Castelão? A mim sim, e que bom que assim é.
Não tenho medo de assumir – aliás, até acho que o devo fazer – o quanto gosto destas renovadas perspectivas da Castelão, do Douro, do Tejo, do Alentejo, embora na sua região de sempre também já existam novos começos. Gosto destes novos Castelões que se parecem com a Sangiovese de um Rosso di Montalcino ou com uma Nero d’Ávola da Sicília, ou, claro, com um bom Pinot Noir, ou uma Grenache, porque não, mas, no fundo, não são nenhuma delas, não. É um Castelão, nosso, português, com um novo rumo, virado para o futuro e com renovada perspectiva.
Produtividade e adaptação
O equivalente ao nosso Cartão do Cidadão, para uma casta é o VIVC – Vitis International Variety Catalogue, no qual a Castelão figura com o nº 2324. Variedade originária da Península Ibérica, resulta do cruzamento natural de Cayetana Blanca com Alfrocheiro Preto. A sua cultura aparece referenciada antes de 1799. Ruy Fernandes, em 1531, refere a Castelão como sendo cultivada na região de Lamego.
Actualmente, representa cerca de 5% do encepamento nacional, com aproximadamente 10 000 hectares e com especial incidência nas regiões de Lisboa, Tejo, Península de Setúbal e Alentejo. É a quinta variedade com maior área de cultura.
A Castelão é considerada a casta-referência para os estados fenológicos das variedades tintas. O abrolhamento e a floração são precoces, o pintor e a maturação ocorrem em época média, na altura da floração adquire um aspecto bastante característico, em que as folhas se dispõem como telhas de um telhado, apresentando-se a cepa bastante fechada, vertical e vigorosa.
Tem boa produtividade, com tendência para rebentação múltipla; é sensível ao desavinho e à podridão, no período de floração, o qual ataca o pedúnculo do cacho. Mas já é pouco vulnerável à podridão no período de maturação e é pouco susceptível ao oídio. É muito versátil, pois adapta-se bem a terrenos húmidos e ajusta-se a várias situações edafoclimáticas, agradecendo, contudo, solos de média a baixa fertilidade, para exprimir todo o seu potencial enológico. Encontra na Península de Setúbal a região onde atinge maior notoriedade, goste-se ou não do perfil generalizado que a casta aí apresenta. A sua capacidade de adaptação deve-se, em grande parte, ao facto de possuir uma película grossa, dotando-a da capacidade de resistência aos escaldões.
É amiga do lavrador, no sentido de que se traduz numa elevada produtividade, podendo chegar às 15 toneladas por hectare, todavia com um grande senão: a qualidade da matéria-prima é inversamente proporcional ao volume e as melhores práticas apontam para rendimentos entre as seis e as sete toneladas por hectare. Exigente em potássio, é sensível a excesso de azoto, o causador do desavinho (acidente fisiológico caracterizado pela ausência de fecundação das flores, impedindo estas a não se transformem em fruto).
Devido à grande capacidade de adaptação, encontramos a Castelão desde as regiões mais frescas e húmidas do Norte do país até às áreas mais quentes e áridas do Sul
Sinonímia e disseminação
A Castelão é uma das variedades mais emblemáticas do património vitivinícola português. Durante muito tempo, foi conhecida como Periquita, nome popularizado graças a José Maria da Fonseca, que, no século XIX, plantou varas desta uva na Cova da Periquita, em Azeitão. O sucesso dos vinhos aí produzidos foi tão grande, que o nome acabou por se confundir com a própria casta.
Oficialmente designada Castelão, esta variedade também foi chamada de João Santarém, Castelão Francês, Trincadeira (sem relação com a verdadeira Trincadeira), em diferentes regiões do país, e Tinta Merousa, na sub-região duriense Baixo Corgo. A multiplicidade de nomes revela a sua longa história e disseminação por boa parte do território nacional, assim como o seu papel central no mapa vínico português.
Devido à grande capacidade de adaptação, encontramos a Castelão desde as regiões mais frescas e húmidas do Norte do país até às áreas mais quentes e áridas do Sul. Espalhou-se pela maioria das regiões portuguesas, incluindo Trás-os-Montes, Douro, Távora-Varosa, Beira interior, Lisboa, Tejo, Alentejo e Algarve, e estabeleceu o seu reduto forte na região da Península de Setúbal onde, na década de 60 do século passado, chegou a cobrir mais de 90% da área ali plantada.
A casta ganha especial relevância nas vinhas velhas e de baixa produtividade, reveladoras do melhor do seu potencial, dando origem a vinhos de enorme complexidade e estrutura, mas frescos, apesar da concentração, com notas de groselha, ameixa e frutos silvestres, muitas vezes em calda ou compotados. Nos solos arenosos de Palmela e Poceirão, onde o clima quente e seco favorece a maturação, dá origem a vinhos estruturados, concentrados, densos, de cor violácea e aroma intenso, capazes de envelhecer durante muitos anos. E nos solos argilo-calcários da Arrábida, gera vinhos mais leves e elegantes, de menor grau alcoólico, mais frutados e frescos.
Fruto de vários factores, que não importa trazer agora à tona, a partir de meados da década de 2000, a Castelão perdeu terreno. Foram arrancadas vinhas substituídas por outras variedades, inclusive internacionais. Todavia, nem de propósito, em conversa recente com Luís Sousa Mendes, da Associação de Viticultores do Concelho de Palmela (AVIPE), se há dez anos era típico plantar Syrah em vez de Castelão, agora esta tendência travou. Curiosamente, é com agrado que se regista que há mais gente na região a plantar Castelão. E alguns substituem as cepas velhas por novas, utilizando o material policlonal.
A este cenário acresce o facto de que, nos últimos anos, as novas perspectivas da Castelão, aqueles new beginnings, se têm feito sentir, às vezes parecendo até com maior profusão, fora desta zona/região de conforto da casta. Desde o Douro, passando pelo Tejo e pelas zonas mais Atlânticas de Setúbal, até ao Alentejo, a versão 2.0 desta variedade, os tais os novos começos, têm produzido vinhos extremamente interessantes e mais originais até, em que a Castelão transmite, no copo, todo o potencial, a elegância e a frescura de um vinho de clima costeiro, ou que beneficia de alguma influência marítima, em que a extração foi claramente substituída por um trabalho de adega menos intrusivo, mostrando a sua incrível capacidade de adaptação e versatilidade, tão necessária aos dias de hoje, para responder aos desafios inerentes às alterações climáticas. É também, nesse sentido, uma casta muito actual e, por conseguinte, de não menos futuro.
Perfis e a influência climática
O perfil geral dos vinhos feitos a partir de Castelão continua a ser marcado pela rusticidade, com taninos firmes e uma acidez vincada, atributos que, à partida, garantem longevidade e capacidade de evolução em garrafa. Apresentam notas expressivas de groselha, ameixa em calda e frutos silvestres, como amora e framboesa, e, em exemplares mais antigos ou sujeitos a estágio em madeira, há a probabilidade de surgir nuances de caça, tostados e boa complexidade que, em grandes anos, podem até lembrar vinhos com vários anos de garrafa da margem esquerda de uma certa região famosa. Bordéus, isso mesmo.
Acidez natural elevada e estrutura firme torna a casta facilmente compatível com estágio em madeira, preferencialmente barricas de carvalho francês, unanimemente consideradas as melhores. Mas a exemplo da Baga, Sangiovese ou Nebbiolo, a Castelão também responde positivamente quando envelhecida em tonéis de madeira de grande porte.
Por sua vez, o clima ameno do Algarve, com a sua característica de assinatura, em que as amplitudes térmicas entre o dia e noite não variam radicalmente, transmitindo aos vinhos boa intensidade aromática, aqueles mostram-se mais abertos, são mais redondos e estão prontos para beber mais cedo. Têm, no entanto, o senão de, à partida, não possuírem grande capacidade de envelhecimento.
Por sua vez, Domingos Soares Franco tem sido, ao longo da sua vida enológica, reiterada e repetidamente categórico no que diz respeito à origem dos melhores vinhos de Castelão: a qualidade e dimensão da madeira é importante é certo, mas são os solos arenosos que abrigam as vinhas velhas de baixo rendimento, na Península de Setúbal, a darem origem não somente aos melhores vinhos, mas também aos mais longevos, sendo possível encontrar garrafas de Castelão com mais de meio século que ainda estão na sua plenitude.
A plasticidade da casta
Que Castelão quer o consumidor, essa pessoa que ninguém conhece, mas que legitima grandes tomadas de decisão enológicas, comerciais e outras? Não resta qualquer dúvida que a casta exibe diferentes perfis e é extremamente versátil. A esta versatilidade e capacidade de adaptação eu gosto de acrescentar plasticidade, atributo comum à casta Arinto, nas brancas. É uma variedade que, com a viticultura e a enologia adequadas, consegue exprimir e entregar cada terroir, cada região, cada produtor de maneira superior e diferenciada. Sejam eles vinhos de Castelão fáceis, prontos e confortáveis para se beber ou tintos sérios, personalizados, estruturados e longevos, capazes de surpreender colecionadores e apaixonados pelo vinho, mas sempre sem nunca perderem, quer uns quer outros, elegância, frescura e sofisticação.
São assim estes novos tempos da Castelão. 2.0 é a nova versão. E foi isso mesmo que testemunhamos nos 25 vinhos que se seguem, todos provados às cegas, para não haver ideias predefinidas, estigmas ou preferências pessoais. No fim, ganhou… a Castelão!
Ganha especial relevância nas vinhas velhas e de baixa produtividade, dando origem a vinhos de enorme complexidade e estrutura
Douro e Algarve
O número de vinhos provados é 28 e creio que é seguro afirmar que a Castelão está de parabéns, do Douro ao Algarve. Não houve um vinho extraordinário, é certo, com aquele factor wow que sempre procuramos e que nos entusiasma verdadeiramente, mas é minha opinião que aí a responsabilidade é mais da casta Castelão em si mesma do que dos produtores. Simplesmente não acho que seja uma casta adequada a grandes vinhos ou vinhos extraordinários. Mas que resulta em vinhos muito bons, disso não pode haver dúvidas, e com bom potencial de guarda e envelhecimento; e tivémo-los aqui, mas, testemunhamos, sobretudo, uma grande qualidade global nas várias regiões do país que por aqui desfilaram.
Uma nota de realce: apraz-me registar a revelação de outras interpretações da Castelão, mais abertas, menos extraídas, com menos grau alcoólico. Creio que a casta também se expressa muito bem dessa maneira. Porém, os clássicos são clássicos e merecem sempre o nosso respeito. É de notar ainda que muito me agradou o facto de, ao longo de toda a prova, não termos encontrado nenhum vinho com excesso de madeira ou com esta a sobrepor-se. Pelo contrário, nas referências com estágio em madeira, esta apresentou-se muito bem integrada, a confirmar a qualidade dos vinhos apresentados, bem como o trabalho afinado de enologia que, hoje em dia, se pratica, de forma transversal a várias regiões vínicas de Portugal.
Uma menção especial para os dois vinhos mais pontuados: a Castelão do Douro, de Luís Seabra, um terroir pouco usual para a casta, mas onde se percebe o grande talento e afinamento por parte do produtor; e a Castelão da Casa da Atela, aqui num terroir mais habitual para a casta, que também revelou uma performance a assinalar.
Nota – A Grande prova Castelão realizou-se em Prova Cega por: Rui Caroço dos Santos, João Paulo Martins, Valéria Zeferino
(Artigo publicado na edição de Agosto de 2026)
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ALGARVE: Um mundo à parte

Os três dias passados no Algarve em visitas aos produtores, em provas de vinhos e conversas com enólogos e com a Presidente da Comissão Vitivinícola do Algarve (CVA), Sara Silva, foram bastante elucidativos. Confirmou-se a sensação que tinha acerca de uma eventual grande mudança, uma (r)evolução em curso que deixa de ser silenciosa e passa a ser evidente no território […]
Os três dias passados no Algarve em visitas aos produtores, em provas de vinhos e conversas com enólogos e com a Presidente da Comissão Vitivinícola do Algarve (CVA), Sara Silva, foram bastante elucidativos. Confirmou-se a sensação que tinha acerca de uma eventual grande mudança, uma (r)evolução em curso que deixa de ser silenciosa e passa a ser evidente no território mais a sul do país.
Esta região, quente e árida, que no imaginário colectivo português pouco está associada a vinhos a sério, tem uma característica que mais nenhuma região do nosso país tem: o mercado à porta. O mercado que não se importa de pagar o preço bem mais alto do que no resto de Portugal, sem esmagar as margens aos produtores, como por hábito acontece na exportação. Por isso, hoje, como nunca, o Algarve atrai investimento na área vitivinícola. Já para não falar que cerca de 70% do vinho do Algarve se vende na região.
Em 2016 havia 30 agentes económicos registados na CVA e, numa década, esse número duplicou. O tecido empresarial é muito diverso, desde produtores algarvios que sempre estiveram por cá; um grande núcleo de produtores estrangeiros (o equivalente a 40%), alguns com o foco em potenciar o negócio, outros porque querem ter a sua vinha no quintal; e até grandes empresas que trouxeram o know how de outros regiões do país e uma visão estratégica, como é o caso da Aveleda e da Casa Santos Lima. E há espaço para todos.
Enoturismo e restauração
Eis dois grandes pilares de comercialização e promoção dos vinhos no Algarve. A maior parte dos projectos vitivinícolas na região já nascem com enoturismo pensado de raiz. Naturalmente, mais vocacionado para o público estrangeiro. O turista português não vai ao Algarve para provar vinhos, vai pelas praias e numa de relaxar. O estrangeiro quer tudo o que este território português banhado pelo sol oferece, vinho incluído.
O mercado dita as regras do jogo: há uma procura muito forte por brancos frescos, rosés de qualidade e espumantes. O turista do Algarve está acostumado ao Sauvignon Blanc e ao rosé francês. Este vende-se pela cor. Portanto, quanto mais clarinho, melhor. E a proximidade do mercado, quer com o consumidor final, quer com a restauração e agentes de enoturismo, faz com que o feedback recebido pelo produtor seja directo e quase imediato, o que lhe permite ir adaptando o seu portefólio.
Segundo Sara Silva, dos vinhos produzidos no Algarve, 60% são tintos, entre os 30% e 40% são brancos e o restante é rosé. A partir de 2020 também passaram a certificar espumantes e já têm 12 produtores a apostar em bolhas, utilizando, sobretudo, as castas Negra Mole e Arinto para esse efeito.
A forma como a restauração algarvia olha para os vinhos da própria região também mudou bastante nos últimos tempos. Há 20 anos a abertura era quase nula, os produtores eram praticamente expulsos dos restaurantes. É claro que, na altura, os vinhos dificilmente competiam com Douro ou Alentejo, mas o cenário mudou.
Cerca de 70% do vinho do Algarve vende-se na região.
DO vs. IG
As denominações de origem, no Algarve, foram demarcadas em 1980, seguindo um critério administrativo e não técnico. Basicamente, a cada adega cooperativa correspondia uma DO. E foram quatro: Portimão, Lagos, Lagoa e Tavira. O vinho regional Algarve só surgiu nos anos 2000, quando as adegas começaram a colapsar. A de Tavira e a de Portimão encerraram ainda no final do século passado e, mais tarde, a fusão da Adega Cooperativa de Lagoa com a Adega de Lagos deu origem à ÚNICA – Adega Cooperativa do Algarve. Literalmente.
As denominações de origem ficaram praticamente atrofiadas, enquanto, a partir de 2000, começaram a surgir produtores privados na região. Estes tinham noção quem era o principal consumidor deles – o turista estrangeiro – e preferiram plantar castas internacionais e nacionais mais conhecidas, como a Touriga Nacional. A IG (Indicação Geográfica) serviu perfeitamente para enquadrar vinhos produzidos com estas castas. E vamos mais longe: internacionalmente, o Algarve tem mais expressão do que qualquer das DO existentes. Coloca logo o vinho no mapa vínico do mundo.
Se mantivermos as antigas DO, de que identidade estamos a falar? As castas são praticamente as mesmas das já existentes nas outras regiões do país. Provavelmente, as variedades estrangeiras trazem mais identidade ao Algarve, do que as portuguesas, com algumas excepções. E são mais facilmente percebidas pelo consumidor, a quem pouco importa se a Sauvignon Blanc que tem no copo é de Lagos ou de Lagoa.
Agora fazia mais sentido unir as quatro DO dentro de uma só, para elevar o nome Algarve, e criar o Regional Algarvio, à semelhança de DO Alentejo e IG Alentejano, por exemplo. Mas administrativamente e burocraticamente não é fácil alterar estas nomenclaturas. A ver vamos.
Negra Mole com bagos de cores diferentes no mesmo cacho, dá vinhos de cor aberta e bastante leves.

Negra Mole: sunset no copo
Mal-amada durante décadas, a Negra Mole está a ser promovida, a pouco e pouco, a uma estrela ascendente no universo algarvio. Fruto dos investimentos mais recentes, não tem aumentado em termos de área, ainda mais por falta de bacelos para plantar.
É uma casta autóctone, típica da região e uma das mais antigas variedades portuguesas. Com bagos de cores diferentes no mesmo cacho, dá vinhos de cor aberta e bastante leves. Como refere Diogo Campilho “por muito que se tente extrair, a cor nunca vai muito além disto.”
Na década de 80 do século XX, a Negra Mole representava 75% da plantação da região. Mas a partir dos anos 90, este perfil de vinho tinto não era valorizado, tendo sido gradualmente posta de parte. Actualmente, ocupa o segundo lugar nos vinhedos da região, ocupando 15% da área, a seguir à Castelão, com 16%. Parece que chegou o seu momento. Por um lado, os produtores profissionalizaram-se e conseguem tirar o melhor proveito das particularidades desta casta; por outro, o consumidor também está mais aberto a este tipo de vinho.
Se há alguma casta tinta que identifica o Algarve, o seu perfil ligeiro e descontraído, com aquela cor que é só dela, que faz lembrar uma toranja, é, claramente, a Negra Mole. Ela própria é o sunset no copo: vermelho, com tons alaranjados. Esta, sim, deveria ser protegida no âmbito da denominação de origem do Algarve, seja ela qual for.
Dos vinhos produzidos no Algarve, 60% são tintos, entre os 30% e 40% são brancos e o restante é rosé.
Vinho, arte e turismo
A Quinta dos Vales, em Estômbar, no concelho de Lagoa, é bastante conhecida pela sua ligação à arte, da qual o fundador do projecto, o empresário alemão Karl Heinz Stock, era grande apreciador. Em 2024, a “quinta das esculpturas” mudou de mãos, sendo adquirida por um grupo de empresários do sector de hotelaria.
A produção de vinho manteve-se, tal como as marcas existentes: Marquês dos Vales e Grace. A equipa de enologia, jovem e dinâmica, é composta pela algarvia Rita Xavier, que durante o seu percurso profissional já passou por Alentejo, Douro e Argentina, e pelo chileno Rafael Merce, com vasta experiência internacional na Argentina, México, Estados Unidos e Brasil, para além do seu país natal. Ambos contam ainda com consultoria de Paulo Laureano.
“Estamos a cinco quilómetros do mar e a três do rio [Arade], em linha reta”, afirma Rita Xavier. “Os solos são argilo-calcários e, na vinha, estamos sempre a encontrar fósseis”, continua. Dos 44 hectares da propriedade, a vinha ocupa 19, dos quais três foram replantados recentemente. Para ir ao encontro do mercado, a Syrah foi reconvertida em Sauvignon Blanc e a Castelão em Arinto. “Adaptamo-nos um bocado à realidade em que estamos inseridos, porque tanto o branco como o rosé é o que mais se consome aqui”, justifica a enóloga. Cerca de metade da produção é dominada pelos vinhos brancos, 30% são tintos e 20% são rosé. Selecta é a gama de entrada, Duo, a gama média, que é sempre bivarietal, e a marca Grace representa a gama mais alta.
A adega tem capacidade de produção para 150 mil litros, mas, actualmente, produzem cerca de metade. Isto tem a ver com a reestruturação da vinha e com o facto de deixarem de ter uma vinha em Silves, que pertencia ao antigo proprietário.
A vertente de enoturismo é muito forte. Têm parcerias com hotéis, dispõem de alojamento próprio e de organização de eventos na quinta (casamentos, baptizados, jantares privados), os quais contribuem para a promoção das suas marcas de vinhos.
Uma oferta muito particular que desenvolveram na Quinta dos Vales é The Winemaker Experience. Pressupõe o aluguer de uma vinha com uma ou mais variedades em função do tipo de vinho que se pretende produzir. O contrato, normalmente, dura um ou dois anos e inclui todas as despesas com a vinha e o acompanhamento enológico. Quanto mais cedo começar, mais interessante será o processo, porque a data de vindima e a abordagem na adega são definidas em parceria com a equipa de enologia. Basta imaginar que a mesma casta, como, por exemplo, a Syrah, pode originar um rosé, um blanc de noir, um tinto ligeiro ou um tinto com estágio em barrica; e cada opção envolve manuseamento diferente. Para a vindima de 2026 já fecharam as oportunidades, mas para 2027 há mais.
Vinho de autor
A Quinta do Francês é uma das mais antigas quintas privadas no Algarve. Localizada no Vale da Ribeira de Odelouca, em Silves, esta pequena pérola pertence, desde 2000, a Patrick Agostini, de origem italiana, nascido em França. Médico de formação, radicado em Portugal, com a sua mulher Fátima, levou o projecto tão a sério, que tirou o curso de Enologia em Bordéus. Em 2002, plantaram a primeira vinha e, em 2008, estava pronta a adega. Hoje, contam com 12 hectares de castas, portuguesas e internacionais. A produção ronda as 80 000 garrafas por ano.
A propriedade está no sopé da Serra de Monchique e é marcada mais pela influência da serra do que do mar. “Quase todas as outras quintas apanham alguma maresia. Aqui, a influência marítima é quase nula, mas há sempre o ventinho da serra”, explica o enólogo Pedro Mendes. E no Inverno refere a diferença de 5º C para menos, comparativamente com a zona próxima da autoestrada, localizada a apenas a quatro quilómetros de distância.
Os solos também são fortemente marcados pela orografia. Na cota mais abaixo da quinta, onde o afluente do Arade, o Odelouca, cravou um vale, os solos são calcários, com uma percentagem de argila, zona conhecida no Algarve como Barrocal. No início da serra, nas colinas, já se nota a presença de xisto, mas quando chegamos a Monchique, muda para solos graníticos.
Vindima-se tudo à mão. A mecanização não é fácil e a dimensão relativamente pequena também não a justifica. A produção é reduzida, rondando as três toneladas por hectare. Tem a ver com os solos pouco férteis e, com o clima tão quente, “a videira também se protege um bocado para não produzir muito”, resume o enólogo.
A vinificação é separada casta por casta, para “ter mais ferramentas para trabalhar no final” e Patrick participa sempre nas decisões de lote. “Hoje em dia, estamos a usar mais as barricas de 500 litros, porque fazemos estágios mais prolongados”, justifica Pedro Mendes. A gama de entrada chama-se Odelouca e a gama superior ostenta o nome da quinta, com destaque para o Syrah Terrasses e Ianthis Cabernet Sauvignon.
O enoturismo é uma componente importante da oferta. Inclui visitas guiadas às vinhas e à adega, bem como diferentes provas de vinho, realizadas numa sala ou num pitoresco terraço, sombreado por vegetação trepadeira, com vista, naturalmente, para as vinhas.
O turista português não vai ao Algarve para provar vinhos, vai pelas praias e numa de relaxar.
Rigor e definição
O projecto Villa Alvor começou em 2019, quando a Aveleda adquiriu a propriedade em Alvor, no concelho de Portimão, e criou esta marca. “Já fizemos investimentos grandes na vinha e também vamos investir em grande a nível de enoturismo. É um projecto que nós gostamos e pelo qual temos um carinho enorme”, declara Diogo Campilho, Director de Enologia da Aveleda. Na sua equipa conta com o enólogo Rui Viana, que passou a acompanhar o Villa Alvor em 2024, e com Pedro Furriel, que ali começou a trabalhar como enólogo residente no ano passado.
O grande foco, neste momento, é organizar a área de produção, de modo a que o trabalho seja feito da forma mais eficiente possível, com o menor recurso a mão-de-obra. Para o ano, vão começar as obras, para compor a zona de enoturismo. Vai haver uma loja e um espaço criado para refeições ligeiras, que podem ser acompanhadas com vinhos, e uma grande esplanada.
A visita à vinha revelou solos são argilo-calcários, com muita pedra à vista. Entre as castas nacionais e internacionais há particular destaque para a Negra Mole, Moscatel Galego Roxo (da qual fazem um belíssimo rosé) e Crato Branco.
As vindimas de 2020 a 2022 foram feitas à mão, mas não é nada vantajoso apanhar uva à mão em 30 hectares, devido ao calor algarvio e à escassez de recursos humanos. Aqui, onde o terreno é bastante plano, a vindima nocturna à máquina é a melhor solução. A vantagem de ser uma empresa grande, permite aproveitar as sinergias. “Isto antes era impensável no Algarve. Agora fazemos controlo de maturação, provamos, decidimos, vem a nossa máquina da Aveleda, com o operador especializado para vindimar tudo no ponto”, refere Diogo Campilho com satisfação.
Atendendo às preferências do mercado, dos 200-250 mil litros por ano, metade são vinhos brancos, 30% rosés e 20% tintos. Os perfis dos vinhos são bem definidos entre todas as gamas e também se percebe a filosofia do produtor. “O nosso estilo é muito frutado e limpo, tudo protegido das oxidações. Com o tempo, vamos começar a criar aqui uns vinhos mais de autor, que eu acho que é interessante. Até lá, queremos cimentar a marca que temos”, resume o Director de Enologia.
No enoturismo, para além dos “casais que batem à porta”, têm visitas organizadas através das parcerias com as agências turísticas. E, de 15 em 15 dias, à sexta-feira, organizam uns sunsets.
Rio, ânforas e Negra Mole

Arvad é um projeto relativamente recente em Estômbar, Lagoa. Começou em 2016, com vinhas plantadas de raiz. Os proprietários da família Garcia de Matos compraram, em 2012, um monte e com os anos foram comprando os terrenos à volta. Neste momento, são 120 hectares.
“É um lugar muito bom para a plantação de vinha, porque nós estamos na curva do rio. De um lado, temos uma exposição a Norte. Quando está vento Norte, recebemos aqui nortadas frias. Do outro lado, estamos expostos a Oeste, de onde recebemos mais a influência do Oceano Atlântico. A outra frente do terreno está virada para a Serra de Monchique, que bloqueia os ventos do Norte, mas, ao mesmo tempo, temos um vale, onde corre a Ribeira de Odelouca, que afunila os ventos e concentra a frescura”, conta Mariana Canelas, responsável de vendas e exportação do Arvad.
No início do projecto, foi contratado um historiador, para saber mais sobre a história deste lugar. Parece que o nome do rio Arade provém da palavra “Arvad”, porque era a designação que os fenícios atribuíam a esta parte deste curso fluvial. Quer dizer “refúgio”, “porto seguro”, porque, naquela época, fugiam para dentro do rio, com o intuito de se refugiarem das tempestades e dos piratas. E foram os primeiros a introduzir vinho na Península Ibérica. Pensa-se que aqui, nesta zona, em Silves, foi a primeira região, onde se provou vinho, trazido pelos fenícios, em ânforas vinárias. Daí a grande aposta do produtor em ânforas.
O projecto foi pensado no enoturismo de raiz. Em 2016, plantaram nove hectares de vinha, com uma selecção de castas portuguesas e internacionais: Arinto, Alvarinho e Sauvignon Blanc, para os brancos; para os tintos, Touriga Nacional, Cabernet Sauvignon e Alicante Bouschet. Estrearam-se na vindima em 2019 e lançaram os primeiros vinhos em 2020, em plena pandemia. Correu tudo tão bem, que decidiram apostar na plantação de mais vinhas e, nessa altura, introduziram a Negra Mole. Primeiro alugaram cinco hectares de vinhas velhas desta casta, que ficam perto do Morgado do Quintão (outro produtor do Algarve), e depois plantaram parcelas novas. Neste momento, já contam com 12 hectares de Negra Mole, a protagonista de um tinto, um rosé, um blanc de noirs e um espumante.
Ainda ficaram com uma quinta em Alvor, com 27 hectares de vinhas, onde fizeram um projecto diferente, para um público diferente e uma abordagem diferente, e lançaram uma segunda marca, a Uca.
Em 2021, recuperaram as primeiras ruínas. Agora têm uma sala de estágio, uma sala de provas e uma sala de eventos. Segundo Mariana Canelas, o enoturismo tem corrido muito bem. Neste momento oferecem uma série de experiências, além das provas de vinho durante todos os dias do ano. As actividades incluem piqueniques nas vinhas: “os clientes podem vir de barco e provar vinhos ou almoçar no deck; podem fazer provas e almoços privados na casa do rio, com um chefe e show cooking.” Às quintas-feiras organizam o sunset com DJ ou com música ao vivo, “que é um sucesso”. O espaço é grande e bem decorado, e ainda dispõe de uma esplanada. Enche-se de gente alegre e de copos de vinhos brancos e rosés, maioritariamente.
“Neste momento o enoturismo é, sem dúvida, uma fatia grande da nossa faturação, mais de metade”, refere a anfitriã. Neste momento, estão a construir um hotel de cinco estrelas, com abertura prevista para o final de 2027.
“A exportação ainda é reduzida, mas eu posso dizer de uma forma geral o seguinte: 70% do vinho que é produzido no Algarve é vendido e consumido no Algarve. Cerca de 18%, creio eu, nem chega a 20%, é consumido noutras regiões do país. O resto, que é uma minoria, 1,8% mais ou menos, é para exportação.” Actualmente, estão a exportar em quantidades pequenas, para Alemanha, Áustria, Holanda, Inglaterra, e a Negra Mole para Ibiza.
A biodiversidade como compromisso
A Quinta dos Capinhas nasceu de uma história de amor. O alemão Horst Lieberwirth, depois de reformado, mudou-se para o Algarve, onde conheceu a sua futura esposa, Inês Capinha, portuguesa com raízes nestas terras. Casaram-se e adquiriram uma propriedade, em Porches, onde fundaram o projecto vitivinícola, em 2013, com o nome Quinta dos Capinhas.
A quinta tem cerca de 30 hectares, dos quais oito são de vinha plantada pelo casal, com castas portuguesas e internacionais: Cabernet Sauvignon, Chardonnay, Touriga Nacional, Alfrocheiro, Arinto, Verdelho. Mais recentemente acrescentaram a Negra Mole.
“Temos o mar ali à nossa frente a dois quilómetros. Depois, temos esta brisa, que é muito frequente, é óptima para não termos doenças nas plantas. Estamos no segundo ano de conversão para biológico e tem corrido bem. Não estamos com grandes problemas em comparação com o ano passado”, esclarece Sofia Saraiva, gestora do projecto.
A equipa é pequena, à dimensão do empreendimento. Para além do enólogo consultor Pedro Mendes, entrou recentemente o enólogo residente, Marco Crispim. Na parte do enoturismo, contratam uma pessoa de fora para a época alta. Felizmente, têm a possibilidade de lhe oferecer alojamento durante essa temporada. Durante o verão, praticamente todos os dias, têm provas de manhã e à tarde, organizam jantares vínicos com catering feito por um restaurante local. Há ainda três casas na propriedade, que podem ser arrendadas a turistas.
Para além de enoturismo, os vinhos vendem-se na restauração e em algumas garrafeiras. Uma pequena percentagem é exportada para a Alemanha, graças à ligação do dono da empresa a este mercado.
Os colheitas, ou entradas de gama, são sempre blends; depois há vinhos monovarietais em função do ano. Os best-sellers são a Alicante Bouschet e Antão Vaz. A novidade mais recente é um colheita tardia de Moscatel Galego, com podridão nobre. E ainda adquiriram um Moscatel produzido no Algarve nos anos 50 do século passado. Este não tem o nome da quinta. Chamam-no Testamento.
Praticamente em todos os rótulos existe um camaleão. Sofia Saraiva explica a razão: “esta zona do Algarve é uma das únicas zonas onde o camaleão não está em vias de extinção.” E, de tempos em tempos, o colega que trabalha no tractor, mostra fotografias dos camaleões que tem encontrado na vinha. “Mais uma razão para a transição para o biológico, porque nós estamos inseridos aqui nesta zona de grande biodiversidade. E para nós é mais do que uma certificação, é um objectivo de manter aqui o ecossistema da quinta equilibrado”, resume.
Nos planos, está a construção de uma adega na propriedade e o projecto já foi submetido para a câmara. Na colina, de onde se vê toda a vinha e o mar ao fundo, planeia-se a construção de um restaurante. Enfim, será bom voltar cá daqui a uns anos.
O projecto algarvio da Casa Santos Lima
Al-Lagar começou com dois hectares de vinha plantada numa propriedade que José Luís Santos Lima Oliveira da Silva,administrador e proprietário da Casa Santos Lima, adquiriu em 2008. À medida que ia comprando terrenos com casas para alojar as pessoas que precisava para trabalhar, ia plantando mais vinha. Depois investiu em adega própria, porque o volume de produção o justificava. Agora, a empresa possui cerca de 60 hectares, que é uma grande dimensão para o Algarve.
Segundo José Luís Santos Lima Oliveira da Silva, a Casa Santos Lima é não só o maior produtor de vinhos na região, como destacadamente o maior exportador de vinhos do Algarve, colocando, lá fora, 65% do vinho que produz neste território vitivinícola, estando presentes nos 30 mercados estrangeiros, com destaque para Reino Unido e Suécia, com dois vinhos registados no regime de monopólio; e depois desde a Ucrânia, à Tailândia e Nova Zelândia, só para nomear alguns. Mas é na própria região, onde se consome mais o seu vinho – 35% do que produz –, porque existe um grande consumo doméstico.
Em 2025, produziu cerca de 320 mil litros, entre branco e rosé e, este ano, está a contar com o crescimento de 10%. Cerca de 25% são vinhos brancos, 5% rosé e o resto tintos. Entretanto, devido à grande procura pelos brancos e rosés, as próximas plantações irão contar com esta tendência em termos de castas.
A vinha é toda regada. A água é proveniente das barragens de Beliche e de Odeleite, próximas de Castro Marim. “Também temos uns furos, mas nunca faltou a água da barragem”, assegura o produtor.
Ao contrário de muitos produtores que nasceram já a pensar no enoturismo, para a Casa Santos Lima, que sempre se focou na produção, esta actividade é recente, mas no Algarve faz todo o sentido. Está em desenvolvimento um projecto de alojamento local, com 18 quartos, no meio da vinha, com uma vista fantástica para o mar e para Vila Real de Santo António; e Al-Lagar, é a marca do enoturismo já a funcionar. Brevemente também será lançado um vinho com esse nome. Era um antigo lagar dos anos 80 do século passado, recuperado e transformado em espaço de enoturismo. Durante a restauração, preservou ao máximo o traço antigo e ficou um blend perfeito entre o rústico e o moderno. Nesta sala, que se mantém naturalmente fresca no ambiente acalorado da Tavira, podem ser feitas provas de vinhos, acompanhadas de refeições ligeiras e também podem ser adquiridos os vinhos da casa, abrangendo todas as regiões do país, onde têm produção. Ao lado, no antigo edifício de apoio ao lagar, chamado Casa da Nora, totalmente recuperado, existem salas para eventos ou provas privativas.
Durante o Verão, organizam sessões de cinema ao ar livre, em parceria com a empresa local All Stars Cinema. “Ontem, tivemos, aqui, à noite, a projecção do Sideways. Estiveram cento e tal pessoas aqui sentadas ao ar livre”, recorda José Luís Santos Lima Oliveira da Silva. É uma experiência para repetir.
(Artigo publicado na edição de Agosto de 2026)
CVD – Companhia dos Vinhos do Douro estreia a JM ALMEIDA FAMILY

Para um pai, poucas alegrias se comparam à de ver o filho seguir o seu caminho. Talvez apenas uma seja maior: poder caminhar ao seu lado. José Miguel Almeida é enólogo e empresário, fundador e principal rosto da CVD – Companhia dos Vinhos do Douro, tendo na marca Oboé a sua principal referência. Concluída a […]
Para um pai, poucas alegrias se comparam à de ver o filho seguir o seu caminho. Talvez apenas uma seja maior: poder caminhar ao seu lado.
José Miguel Almeida é enólogo e empresário, fundador e principal rosto da CVD – Companhia dos Vinhos do Douro, tendo na marca Oboé a sua principal referência. Concluída a formação em Enologia, em 1993, estagiou na Symington e integrou a equipa da Quinta do Crasto, antes de fundar a sua própria empresa, em 2001. Seis anos mais tarde adquiriu a Quinta do Cabeço, em Tabuaço, na margem esquerda do Douro, onde o projecto ganhou a configuração actual. Com cerca de 30 hectares de vinha, produz hoje mais de 200.000 garrafas por ano.
José Miguel Almeida, o filho, nasceu com o projecto, cresceu entre as vinhas e a adega, acompanhando desde cedo o trabalho do pai e tudo o que envolve a produção de vinho. Por isso, não foi de estranhar: enveredou pelo mesmo caminho. Concluiu a licenciatura em Bioengenharia, com especialização em Engenharia Alimentar, prosseguindo depois para o mestrado na mesma área, na Universidade Católica Portuguesa, no Porto. Actualmente frequenta uma pós-graduação em Enologia, formação que complementa com o curso de especialização em Wine Management, no ISAG, e com o curso de nível intermédio em Vinificações da AgroB Business School.
O novo projecto JM Almeida mostra um pouco das duas gerações da família. A colheita da estreia é de 2020, em que o João Miguel, estando ainda na faculdade, participou de corpo e alma. Em plena pandemia, com as aulas online, pôde acompanhar o trabalho na adega, ajudando, aprendendo e contribuindo com a sua opinião. Os lotes foram feitos de forma a que os dois se identificassem com o resultado final.
Ambos os vinhos resultam de um field-blend de várias castas. O branco estagiou 12 meses em barricas de carvalho francês e a produção traduz-se em 1.430 garrafas standard, 50 magnums e 35 garrafas de 3 litros. O tinto foi vinificado em lagar, com pisa a pé, fermentou em cubas de inox e estagiou depois 12 meses em barricas de carvalho francês, das quais 40% novas. Foram produzidas 1.275 garrafas, 72 magnums e 35 garrafas de 3 litros.
(Artigo publicado na edição de Julho de 2026)
ANSELMO MENDES: O lado Loureiro do Senhor Alvarinho

O universo minhoto de Anselmo Mendes estende-se de Monção e Melgaço até ao Vale do Lima e abrange mais de 130 hectares. Destes, 61 situam-se em Monção e Melgaço e 75 no Vale do Lima. A maior área dedicada ao Loureiro, aliada ao seu maior rendimento por hectare, faz com que o volume desta casta […]
O universo minhoto de Anselmo Mendes estende-se de Monção e Melgaço até ao Vale do Lima e abrange mais de 130 hectares. Destes, 61 situam-se em Monção e Melgaço e 75 no Vale do Lima. A maior área dedicada ao Loureiro, aliada ao seu maior rendimento por hectare, faz com que o volume desta casta seja bastante superior ao do Alvarinho. A relação de Anselmo Mendes com o Loureiro também é mais antiga do que muitos imaginam. Remonta a 2005, quando começou a recuperar as vinhas de antigas quintas senhoriais do Vale do Lima.
É preciso recuar ainda mais no tempo para perceber o contexto da produção de vinho na região. Nos anos 80 do século XX, surgiu o conceito de vinho de quinta. Empresários ligados ao têxtil, à construção civil e a outros sectores, com capacidade financeira para investir em propriedades com solares, criaram marcas próprias e começaram a engarrafar os seus vinhos. Como recorda Anselmo Mendes, no final da década existiriam cerca de 30 a 40 vinhos de quinta. Investiu-se em adegas, bem equipadas à época, e nasceram marcas ambiciosas, que conquistaram alguma notoriedade no mercado. Na altura, “o normal era um vinho custar cem escudos; estes já custavam 500 ou 600 escudos”, refere o produtor. Contudo, produzir vinhos secos, sérios e expressivos não era tarefa fácil, e muitos nunca conseguiram descolar-se dos Vinhos Verdes “clássicos”, adamados e gaseificados. Segundo Anselmo Mendes, “o que falhou, foi a viticultura”, mais precisamente, a falta de conhecimento nesta área não permitiu dar o salto qualitativo. No fundo, “sem uma boa viticultura não há hipótese nenhuma de atingir vinhos de excelência”.

O Loureiro consegue manter um bom nível qualitativo até cerca das dez toneladas por hectare
Vale do Lima
Toda a vinha que Anselmo Mendes explora no Vale do Lima assenta em contratos de arrendamento. A razão é simples: muitos proprietários das antigas quintas estão dispostos a vendê-las, mas estas propriedades são pouco aliciantes do ponto de vista prático para quem vive da viticultura. Têm “muita casa e pouca terra”, uma característica que encarece as quintas, enquanto um viticultor procura sobretudo terra com vinha, sem o “peso” dos imóveis.
Das várias propriedades que integram o projecto de Anselmo Mendes no Vale do Lima, visitámos a Quinta da Ferreira, situada em Gondufe. Aqui, uma boa parte da vinha está implantada numa encosta que atinge cerca de 150 metros de altitude, contrastando com outras quintas em cotas muito baixas. Uma delas encontra-se mesmo dez metros abaixo do nível do mar.
Os anos de trabalho em duas sub-regiões próximas, mas distintas, permitem-lhe comparar, a partir da sua própria experiência, as condições de cada uma delas. Na sub-região do Lima há menos problemas de geadas do que em Monção, onde o ar frio, por vezes, drena mal e se acumula nos vales. No Lima, o vale é mais aberto, permitindo uma melhor circulação do ar, e a maior influência atlântica contribui para um clima mais moderado. A amplitude térmica também é diferente. No Vale do Minho, no final de Agosto, é possível registar 35º C durante o dia e temperaturas próximas dos 12º C à noite. No Vale do Lima, as máximas não atingem valores tão elevados, mas as temperaturas nocturnas também não descem tanto.
A pluviosidade anual na região é comparável à de Bordeaux, mas a distribuição da precipitação ao longo do ano é diferente. “No nosso caso, em Julho e Agosto não chove. Aliás, os grandes anos são aqueles em que chovem 30 milímetros em cada um desses meses. Isso é o ano perfeito. E depois não chove na vindima. Mas isso não existe”, lamenta o nosso anfitrião.
Estas condições tornam a rega uma necessidade, sobretudo nas vinhas jovens e em situações extremas que possam comprometer a sobrevivência das plantas, uma questão que continua a dividir os viticultores. Para Anselmo Mendes, porém, não há dúvidas: “instalámos rega praticamente em todas as vinhas. Sabendo regar de acordo com a textura do solo, estamos a poupar água no futuro. Temos vinhas com quatro e cinco anos que já não regamos.”
Segundo Anselmo Mendes, o que verdadeiramente distingue esta quinta é a conjugação de vários factores: a altitude, a boa drenagem e uma eficaz colonização subterrânea das vinhas. Esta última depende, em grande medida, das características do solo e da densidade de plantação. “Optámos sempre por uma densidade maior. Aqui estamos nas 3 300 a 3 500 plantas por hectare. A densidade, por si só, não diz nada sobre a qualidade, mas há um mínimo. Menos de 2 500 plantas comprometem a colonização subterrânea das vinhas”, explica. A lógica é simples: uma competição moderada entre videiras obriga as raízes a explorar um maior volume de solo, favorecendo o desenvolvimento do sistema radicular. Já o extremo oposto, com 10 000 plantas por hectare, também não faz sentido, sobretudo nos solos menos férteis, porque, a partir desse ponto, a competição entre videiras torna-se excessiva e deixa de ser benéfica.
Sem uma boa viticultura não há hipótese nenhuma de atingir vinhos de excelência
A natureza da Loureiro
Há duas características que definem o Loureiro: a elevada produtividade e a exuberância aromática. Foram precisamente estas duas características que Anselmo Mendes procurou contrariar.
Na reestruturação das vinhas, a escolha de material policlonal seguiu dois critérios: evitar clones muito produtivos e excessivamente terpénicos. Apesar de ser esse o perfil que o mercado mais associa à casta, Anselmo Mendes confessa que “os Loureiros amuscatelados” não fazem parte das suas preferências.
A questão da produtividade vai muito além das preferências pessoais, porque condiciona diretamente a qualidade do vinho. Ao contrário do Alvarinho, cuja produção ronda naturalmente entre as sete e as oito toneladas por hectare, o Loureiro chega facilmente às 15 toneladas e, em alguns clones, pode atingir as 29 toneladas por hectare. Não há milagres: nestas condições, a maturação resulta apenas numa “solução hidroalcoólica” pouco definida, verde e ácida.
Para Anselmo Mendes, o Loureiro consegue manter um bom nível qualitativo até cerca das dez toneladas por hectare. Nos seus vinhos da gama Private procura não ultrapassar as oito toneladas. Mas também aqui não existe uma relação direta de causa e efeito: produções muito baixas nem sempre se traduzem em vinhos melhores. “Temos vinhas que não passam das cinco toneladas. Vamos reestruturá-las porque não é viável. E mais impressionante é que o resultado não nos impressiona. Ou seja, o facto de ter aquela produção baixa não aumenta a qualidade.”
O Loureiro é uma casta particularmente sensível à podridão e, em anos de chuva durante a vindima, a qualidade da produção pode ficar comprometida. Anselmo Mendes explica que prefere evitar os tratamentos convencionais com fungicidas e aposta antes no controlo da traça-da-uva através da confusão sexual. Os difusores instalados na vinha libertam feromonas que confundem os machos e dificultam o acasalamento, reduzindo a postura de ovos e o desenvolvimento das larvas. Assim, evitam-se perfurações nos bagos, que funcionam como portas de entrada para fungos.
Como o Loureiro frutifica muito bem nos gomos mais próximos da base do sarmento e apresenta um crescimento vigoroso, adapta-se bem à condução em cordão ascendente e à poda a talão e vara. Esta opção permite controlar o vigor e ajuda a manter uma copa equilibrada. Mas o equilíbrio da videira não se constrói apenas no inverno. Ao longo do ciclo vegetativo, é através da intervenção em verde que se ajusta a relação entre vegetação e produção.

Intervenção em verde
Ir com Anselmo Mendes à vinha é como ter uma aula de viticultura, com explicação e demonstração ao vivo. As práticas culturais têm uma influência directa na qualidade das uvas. Para o produtor, há quatro operações fundamentais na gestão da vinha: supressão, orientação, desponta e desfolha. E têm que ser executadas rapidamente, porque “com boa temperatura e água no solo, isto chega a crescer mais de cinco centímetros por dia”.
“Suprimir é tirar aquilo que não interessa, mesmo que tenha um cacho”, exemplifica o mestre, removendo os lançamentos “que nem dão para o ano seguinte e estão a contribuir para a má qualidade global”. É fundamental criar “buracos” na parede vegetal para garantir o arejamento e criar um bom microclima junto dos cachos.
Numa casta vigorosa como o Loureiro, que tende a desenvolver muita vegetação, a orientação dos lançamentos é essencial para construir uma parede vegetal equilibrada, evitando sobreposições e excesso de densidade, e tendo em conta que a variedade é sensível à desnoca – quebra de sarmentos.
A desfolha tem a vantagem de expor precocemente os cachos à luz, permitindo que se adaptem gradualmente à radiação solar. Mais tarde, a desponta promove o aparecimento de folhas novas, que nas palavras do produtor “trabalham bem” e reduzem a exposição direta dos cachos. Ao mesmo tempo, ajuda a controlar o vigor, evita que a vegetação tombe e contribui para um melhor equilíbrio entre folhas e cachos. “Feito isto, é meio caminho andado para ter qualidade”, resume Anselmo Mendes.
Anselmo Mendes confessa que “os Loureiros amuscatelados” não fazem parte das suas preferências
Loureiro ao longo dos 20 anos
Muros Antigos, é um blend das várias quintas. Não passa por barrica; as uvas são vinificadas apenas em inox e expressam a casta, a sub-região, o produtor e o ano. A influência deste último factor tem a ver com temperatura com que se vindima. O Loureiro vindimado à noite, sem ser sulfitado, oxida ao fim de 3,5 horas, enquanto vindimado a 25º C oxida ao fim da meia hora.
Para assinalar os 20 anos de Loureiro, provámos 18 vinhos monvoarietais, dos quais 12 Muros Antigos, desde a primeira colheita de 2005 até ao mais recente; e mais seis Loureiros de outras gamas de vários anos.
2024 – Mais discreto no aroma que o 2025, com folhas e erva-príncipe, menos floral; menos concentrado e menos salino, ligeiramente amargo e com muita tensão. (17); 2022 – Lima, limão, até alguma laranja, não propriamente aromático, tisanas, mineral em boca, muito mais seco e muito fresco. (16,5); 2019 – Muito bom no aroma, aquela evolução que não se sente, mas harmoniza o vinho; limão, parte floral bonita, manjericão e estragão; está muito bem na boca, tenso e extremamente fresco, sem transparecer a idade. (17,5); 2017 – Apetrolado ao ponto de fazer lembrar um Riesling; cogumelos, ervas aromáticas, resinoso, tem imensa força, vida, suculência e projecção de sabor; textura deslizante. (17,5); 2016 – Limão a passar para dourado; no aroma limão cristalizado, laranja, mel, muito fresco, concentrado no sabor e mais amplo. (17); 2014 – Limão dourado; laranja, limão cristalizado, tisanas, salino, talvez mais magro, mas não lhe fica mal; palato com laranja amarga, suculento, com toque de botrytis que até se enquadra bem. (17); 2013 – Dourado; cogumelos, manteiga, mel, a lembrar pêra, fruta em calda e ananás salgado; no palato balança entre o amargo e o salgado, firme e guloso. (16,5); 2011 – Dourado; fruta muito boa e fresca, cardamomo, notas de Riesling novamente, com muito vigor na prova, resinoso, caruma, limão cristalizado, lemon curd; boca espectacular, cheio, fresco, cremoso e longo. (17,5); 2010 – Dourado; xarope de limão, ananás, tisanas, austero em boca, pouco conversador, também algumas notas apetroladas. (16,5); 2008 – Doce de laranja, ananás, em caldo, muito bem projectado em boca, sem indícios de vinho velho, algum cogumelo; meloso mas com tensão. (16,5); 2005 – o ano de estreia; dourado; cogumelo, xaropes de limão e laranja, flores secas e tisanas, erva-príncipe, suculento e amplo, cremoso, levemente salino e ainda cheio de vida. (17,5)
Anselmo Mendes Private Loureiro
Este vinho é o resultado de uma única vinha da Quinta da Ferreira, localizada numa encosta da margem esquerda do Rio Lima; também não vê a barrica, mas estagia durante nove meses em inox com bâtonnage, mais um ano em garrafa.
2021 – Limão Dourado; mais quente, mais fruta; quase fumado no nariz, pimenta branca, lima e limão maduro, alguma tília e louro; tenso, cremoso, mastigável, com muita estrutura e matéria. (18,5); 2020 – Limão leve; querosene, fumado, pimenta branca, pedra lascada e muita lima no sabor; acidez incisiva, mas bem coberta pela textura suculenta; salino e longo. (18,5); 2019 – Citrino dourado, fechado no nariz, ervas aromáticas, citrinos discretos, austero também na boca e com menos volume. (18,5); 2017 – Flores e querosene, menta e mentol, lima e limão e ainda caruma; austero na boca, com pedra raspada; prima pela tensão e frescura. (18,5)
Loureiro do Tiago 2020 – a interpretação de Tiago, filho de Anselmo Mendes. Fermentou em barricas usadas de 400 litros, onde depois permaneceu durante seis meses, e com um longo estágio de quatro anos em garrafa. Limão, ligeiro fumado, um toque mineral e caruma de pinheiro; discreto, mas completo, sem exuberância, muita textura, elegante, fino com barrica muito bem integrada. (18,5);
Anselmo Mendes Tempo Loureiro 2019 – Curtimenta total e estágio de 24 meses em barrica de carvalho francês de 400 litros com bâtonnage. Dourado. Ananás maduro, caruma, limão, xarope muito aromático, profundo, farmácia, tangerina, doce de laranja, mel fresco, a tensão de tanino bem coberta de textura e sabor muito sabor, amplo e preciso, atlanticamente salino, com acidez filigrana e flores caramelizadas. (19)
(Artigo publicado na edição de Setembro de 2026)
GRANDE ENTREVISTA: LUÍS SOTTOMAYOR

“O Legado nasce na terra, o Barca Velha, na sala de provas” O que te levou a enveredar pela enologia? Nasci no Porto, mas, na verdade, sou natural de Moreira da Maia. Na altura, a quinta onde eu vivi a minha infância e juventude era campo. A cidade da Maia ainda não tinha lá […]
“O Legado nasce na terra, o Barca Velha, na sala de provas”
O que te levou a enveredar pela enologia?
Nasci no Porto, mas, na verdade, sou natural de Moreira da Maia. Na altura, a quinta onde eu vivi a minha infância e juventude era campo. A cidade da Maia ainda não tinha lá chegado. E vivíamos ao ritmo das estações, da apanha das batatas, das ceifas, do gado, do corte da lenha na mata para os fogões e para o aquecimento. E fazia-se lá um vinho, um Verde de uvas de ramadas. Desconfio que não seria grande coisa, pois lembro-me de ouvir o meu pai, que era enólogo – foi, aliás, dos primeiros portugueses a ir estudar enologia para fora, em Dijon – dizer que era intragável, algo que enfurecia muito a minha avó materna, a matriarca da casa. Era um tinto de lagar e eu lembro-me bem de todo esse processo, a vindima, a prensagem, a preparação das pipas e tonéis…
O teu pai teve influência na tua orientação profissional?
Sim, claro, mas não só. Ele era enólogo numa empresa de Vinho do Porto, mas a família também tinha propriedades no Douro. Por exemplo, a Quinta do Seixo foi construída pelo meu trisavô paterno e a Quinta do Bom Retiro pertenceu à minha família até 1919. Todas essas raízes e vivências tiveram influência na minha decisão de seguir enologia. Eu via fotos do meu pai, de bata na sala de provas, rodeado de copos e garrafas, e lembro-me que, desde miúdo – para além da fase comum a todas as crianças de querer ser jogador de futebol, bombeiro, etc. –, tive o sonho de mexer com vinhos.
Estudaste em França e na Austrália, duas escolas completamente distintas, senão opostas. Quais foram, para ti, os principais ensinamentos que recolheste de cada uma delas?
A escola francesa de Dijon, nos anos 80, era ainda muito tradicionalista. A enologia era muito desligada da viticultura, por exemplo. Mas era excelente em termos de prova e de trabalho de adega. O curso que fiz depois pela Universidade Charles Sturt, uma escola especializada no ensino à distância, foi feito na Universidade Católica do Porto, durante dois anos, e terminou com uma viagem de estudo à Austrália, durante um mês e meio. Aí, a componente vitícola era bastante mais intensa. Os australianos já tinham um entrosamento grande entre a viticultura e a enologia.
“Sou apaixonado por aquela quinta. A funcionalidade da adega, a diversidade da vinha, a beleza esmagadora da paisagem, aquele Douro Superior austero e quase selvagem. Sempre que posso, fujo para a Leda…”
Até entrares na Ferreira, em 1989, por onde andaste?
Quando vim de França, em 1988, fui fazer a vindima para a João Pires, na Península de Setúbal. O pai da minha então namorada, hoje minha mulher, conhecia o António Francisco Avillez e arranjou forma de ele me receber como estagiário na vindima de 1988. E acabei por ficar mais algum tempo. Foi extremamente interessante para a minha aprendizagem, pois o responsável era o Peter Bright, um enólogo australiano que tinha uma ideia totalmente diferente do que era a enologia portuguesa da época. Foi uma excelente escola para mim, um período riquíssimo em ensinamentos. O Peter Bright tinha uma enorme intuição, olhava para as uvas e percebia de imediato o perfil de vinho que podia fazer com elas. Embora o período na João Pires tenha sido muito curto, marcou-me bastante, e, ao longo da carreira, procurei usar vários dos conceitos que ali apreendi.
Depois, num fim de semana que vim passar a casa, o meu pai disse-me que tinha falado em mim às pessoas da Ferreira e fui chamado para uma conversa com José Maria Soares Franco. Voltei a Lisboa, nunca mais pensei no assunto, mas passado algum tempo, recebi de José Maria o convite para vir trabalhar na Ferreira, já integrada na Sogrape desde 1987. E por cá fiquei.
Quando chegaste, em 1989, a Sogrape já tinha Barca Velha, Vinha Grande, Esteva, Planalto. Mas nessa época a dimensão do negócio DOC Douro nada tinha a ver com o que é hoje. Que impacto teve para ti, enquanto enólogo, o crescimento do “Douro para além do Porto”?
A dimensão é hoje muito maior, é verdade. Mas, apesar de tudo, a Ferreira já tinha bastante DOC Douro. Para mim, o mais marcante, foi a diferença de cultura entre uma empresa de vinhos tranquilos com algum fortificado (João Pires) e uma empresa de fortificados com algum vinho tranquilo (Ferreira). Na João Pires, em 1988, eu andava com um ajudante numa camionete, com uma prensa e um esmagador, a fazer a vindima em Carcavelos, por exemplo, carregando mangueiras de um lado para o outro, muito “à australiana”. Na Ferreira, na vindima de 1989, se agarrava numa mangueira vinha logo alguém a correr tirá-la da minha mão. Para o funcionário de adega, era quase um insulto eu estar a fazer um trabalho que deveria ser dele. Mas o fortificado, o Porto, era, de longe, o mais importante. Primeiro fazia-se o Porto, que representava três quartos de tudo o que fazíamos, e só depois vinha o momento de fazer Douro.
Quando é que sentiste que a vinha começou a entrar no dia a dia da enologia do Douro?
Quanto entrei na Sogrape, em 1989, a empresa era proprietária, no Douro, da Quinta do Seixo, Quinta do Porto e Quinta da Leda, que tinha, na altura, trinta e poucos hectares de vinha. E havia, claro, muitos lavradores com quem trabalhávamos. Mas o “ir à vinha” não era assim uma coisa tão significativa para a enologia. Havia pessoas que tratavam disso, não era propriamente o enólogo. Conversávamos com quem acompanhava a vinha, havia um controlo da maturação, marcava-se a vindima, mas não havia consciência da importância de estarmos “por dentro” da vinha. Da diferença que era fazer um vinho Tinta Roriz com monda ou sem monda, por exemplo. Ou da diferença que fazia ter uma casta plantada no local indicado para ela. Isso foi algo que fomos adquirindo com o tempo. A “escola australiana” foi, para mim, fundamental para ganhar essa percepção. Paralelamente, a partir de 1992, a Sogrape começou a adquirir propriedades no Douro, começando com a Quinta do Caêdo. À medida que novas propriedades se juntavam às quintas da Ferreira, e que se faziam reestruturações e plantações, a vinha começou a ganhar peso na Sogrape e no dia-a-dia da enologia.
“Quando cheguei, em 1989, não podia entrar livremente na sala de provas. José Maria Soares Franco e Manuel Vieira estavam lá dentro, juntamente com o senhor Fernando Nicolau de Almeida. Eles provavam, e eu ficava à porta, à espera”
Quando entraste na Sogrape era mais adega ou sala de provas?
O período de vindima era muito intenso e concentrado, dominado pelos ritmos da produção de Porto, 24 sobre 24 horas. Depois, o resto do ano era muito mais sala de provas. Mas a sala de provas era um espaço muito especial, não se chegava lá de imediato. Eu cheguei em 1989 e até meados de 1991 não podia entrar livremente na sala de provas. José Maria Soares Franco e Manuel Vieira estavam lá dentro, juntamente com o senhor Fernando Nicolau de Almeida que, embora reformado, ia todos os dias à Sogrape. Eles provavam e eu ficava à porta, à espera. Só quando acabavam de provar é que abriam a porta. Eu entrava e explicavam o que tinham feito. E eu ficava a ouvir. E só passado uns meses me deixaram provar.
Esse processo de integração, a dada altura, avançou rapidamente, porque a Sogrape tinha acabado de comprar a Quinta dos Carvalhais, estava a construir a adega, e Manuel Vieira e José Maria Soares Franco passavam muito do seu tempo no Dão. Por outro lado, um dos provadores principais faleceu inesperadamente. Como resultado, fiquei sozinho na sala de provas a ter de tomar decisões sobre os lotes. A minha sorte foi o senhor Fernando Nicolau de Almeida. Nessa altura, socorri-me da sua experiência e conhecimento, aprendi muitíssimo com ele na elaboração dos lotes, não apenas de vinho do Porto, mas também dos vinhos do Douro, sobretudo o chamado Douro Especial, a base do Ferreirinha Reserva Especial e do Barca Velha. E a Fernando Nicolau de Almeida, dava um prazer imenso, apesar de reformado, continuar a ser chamado por José Maria Soares Franco, para participar nas decisões sobre o Douro Especial.
Falemos então – é incontornável – do Barca Velha, um vinho que desde a sua criação, em 1952, só teve três enólogos responsáveis. Quando o testemunho do “Douro Especial” passa de mãos, como passou de Fernando Nicolau de Almeida para José Maria Soares Franco e deste para ti, e como irás passar ao teu sucessor, qual deve ser a postura do novo enólogo? Mais conservadora, de continuidade, ou mais inovadora, introduzindo mudanças, mesmo que pequenas?
Eu diria que deve ser uma postura mais conservadora. Porque se dermos um passo em falso, corremos o risco de estragar um trabalho de mais de 70 anos. É evidente que devemos tirar partido dos desenvolvimentos qualitativos na vinha e na adega, para conseguirmos fazer Barca Velha mais vezes e em maior volume. Mas atenção: há limites. Com as vinhas e adegas de que dispomos actualmente, poderíamos fazer uma grande quantidade de Barca Velha. Só que, hoje, somos bem mais exigentes do que éramos nos anos 70 e 80. Porque o mundo mudou, o Douro mudou. A concorrência no “campeonato” dos grandes vinhos é muito maior. Se nós facilitamos um pouco, corremos o risco de ser ultrapassados. Há belíssimos vinhos no Douro e em Portugal. Por isso, o nosso nível de autoexigência tem de ser altíssimo, impondo a nós mesmos critérios cada vez mais apertados. E dá-nos imenso prazer perceber, nas provas comparativas que fazemos, que o Barca Velha continua a destacar-se. E, obviamente, também registamos com muito agrado, que o apreciador reconhece esse estatuto.
Sei que tens um carinho muito particular pela Quinta da Leda, uma propriedade que viste crescer, em todos os sentidos. O que é que a Leda tem de tão especial?
A Leda é importantíssima, é crucial para o projecto Sogrape no Douro. E digo isto racionalmente, mesmo sabendo que o meu apreço pela Leda tem alguma componente emocional, porque foi para a Leda que fui trabalhar quando entrei na Sogrape. Assisti às enormes mudanças que ocorreram desde então e participei em todas elas, com menor grau de responsabilidade primeiro, com muito maior peso depois. A construção da adega da Quinta da Leda, em 2001, foi um momento absolutamente histórico, revolucionário. Estive lá recentemente com José Maria Soares Franco, que deixou a Sogrape em 2006 e que, 20 anos depois, revisitou a adega da qual foi primeiro responsável, e chegámos à mesma conclusão: ainda hoje a adega da Leda continua a ser a mais prática e funcional que nós conhecemos. E conhecemos muitas! A adega da Leda tem algo que a distingue das outras: apesar de fazer dois milhões de quilos, tem uma dimensão humana. O enólogo sente o pulsar da adega, nada do que ali acontece lhe escapa.
E depois, há a vinha…
Sou apaixonado por aquela quinta. Não é que não goste das outras propriedades da Sogrape no Douro, antes pelo contrário, cada uma tem características fascinantes. E com a Quinta do Seixo até tenho um histórico familiar. Mas a Leda é diferente de tudo. Eram menos de 40 hectares de vinha quando cheguei, hoje são 160, fruto de sucessivas, muito pensadas e bem planeadas plantações. E, para além da dimensão, a diversidade: são 16 tipos de solo já estudados, variadas altitudes e exposições solares. Tudo isso empresta às uvas da propriedade uma complexidade fora do comum. E finalmente, a beleza esmagadora da quinta, a paisagem, aquele Douro Superior austero e quase selvagem. Sempre que posso, fujo para a Leda…
Apesar do potencial da quinta e da enorme qualidade dos vinhos ali produzidos, o Quinta da Leda tinto ainda não alcançou no mercado a notoriedade que merece. Ter acima dele, na hierarquia Ferreira, nomes como Reserva Especial ou Barca Velha é demasiado peso?
Eu não sou especialista em marketing, longe disso. Mas sei que o Quinta da Leda tinto é feito com todos os cuidados, na propriedade onde nasce o Barca Velha e o Reserva Especial. E parte das uvas até são as mesmas. Sei que a sombra desses ícones pesa e, de algum modo, abafa a notoriedade do Quinta da Leda. Mas acho igualmente que, quando lançámos o Quinta da Leda como blend, na colheita de 1997, não fomos suficientemente ambiciosos no seu posicionamento em termos de preço e de marca. O vinho merecia mais. E depois de tantos anos, é difícil reposicionar.
Deixa-me mudar a conversa para os vinhos brancos. Existe o histórico Planalto, que já ultrapassou os 3 milhões de litros, algo impensável há alguns anos. Há também o mais recente Vinha Grande branco. Mas não parece ter havido grande interesse em criar um branco de topo. Algo que contrasta com o crescente interesse do mercado pelos brancos durienses de primeira grandeza. Como avalias o potencial do Douro para a criação de grandes brancos? E para quando um branco de topo na Ferreira?
O potencial é bem evidente no reconhecimento que os melhores brancos do Douro têm vindo a alcançar junto dos apreciadores. A região tem esta capacidade única e maravilhosa: é possível fazer vinhos de grande maturação a baixas altitudes e vinhos de enorme leveza, elegância e acidez – mas sempre com concentração e sabor – nas zonas altas. E os vinhos brancos do Douro têm tido o reconhecimento merecido.
Sem querer fugir à pergunta sobre o “grande branco da Ferreira”, deixa-me dizer que, tal como acontece com o Quinta da Leda, o Vinha Grande branco também entrega muito mais do que aquilo que se paga por ele. Para mim, é um branco de primeira linha. nós sabemos possuir todas as condições para fazer vinhos brancos ainda mais ambiciosos. E estamos a trabalhar para isso. Em breve haverá novidades.
A base desse branco de topo será a Quinta do Sairrão?
Será um mix entre uvas do Sairrão e de zonas mais altas do Douro Superior. Mas, sobre isso é tudo o que posso dizer por agora…
Um dos maiores casos de sucesso dos últimos anos foi o Papa Figos, um vinho de grande impacto comercial que ditou tendências e se tornou o padrão do segmento. E que foi criado por ti de raiz. Quando o projecto Papa Figos começou a ser construído, o que é que te foi pedido pela administração?
Pediram-me para fazer um vinho diferente do Esteva – marca com longa história e perfeitamente consolidada –, claramente mais ambicioso, mas também fácil de beber, jovem, atraente, guloso. E, sobretudo, com o carácter Douro bem vincado. A experiência ajuda-nos muito. E conhecendo a região e a origem da grande maioria das uvas do Esteva, foi fácil perceber o caminho a seguir: é ir para o Douro Superior. Não para zonas demasiado baixas, para evitar sobrematurações, mas de média encosta, onde encontramos uvas com boa maturação, mas ainda cheias de fruta e com aqueles taninos naturalmente gordos e polidos que caracterizam o Douro Superior.
E como lidaste com o enorme crescimento da marca em volume? Tem sido fácil encontrar a matéria-prima com as características pretendidas?
O Papa Figos, na colheita de 2010, nasceu com 110 mil garrafas. Hoje estamos a falar em cerca de 2 milhões de litros, 2 milhões e 600 mil garrafas em números redondos. É evidente que este crescimento implica desafios, mas tem sido relativamente fácil resolvê-los. Não esqueçamos que a Sogrape tem 600 hectares no Douro. Logo aí temos uma boa âncora de uvas que nos sobram depois de fazermos o Porto e os vinhos de maior prestígio. Essas uvas representam entre 30 a 40% do que precisamos para o Papa Figos. Depois temos mais de 1000 lavradores, com quem trabalhamos há muito tempo, sabemos quem pode disponibilizar as uvas que precisamos. Escolhemos sobretudo lavradores do Douro Superior, cujas uvas são vinificadas na Leda e na Adega de Vila Real, recentemente modernizada e preparada para fazer volumes com grande qualidade. Com uva própria e adquirida, cobrimos praticamente 100% das necessidades do Papa Figos. Mas se ainda assim não for suficiente, temos fornecedores que conhecemos bem e que nos podem entregar lotes de vinho com o perfil que pretendemos. Deste modo, temos conseguido manter o perfil e qualidade estabelecidos para o Papa Figos, apesar do grande aumento de volume.
Como enólogo, és conhecido, sobretudo, pelos vinhos Douro, com o Barca Velha à cabeça. Mas o vinho do Porto continua a ser incontornável no teu trabalho. E assististe de perto à transição ocorrida no final dos anos 80, com o provador clássico de Gaia a dar lugar ao enólogo, com formação científica. O que é que o segundo aproveitou da arte do primeiro?
Eu acredito que os vinhos do Douro beneficiaram imenso com o conhecimento e a prática do vinho do Porto. Desde logo, a fermentação. No Porto não se falava de castas, a fermentação era feita em conjunto. Nós, para muitos vinhos Douro, continuamos a utilizar essa filosofia: o lote começa a ser feito na vinha, misturando origens mais do que castas. Depois, o lote final. O facto de estarmos todos os dias na sala de provas, a fazer lotes de Porto, ajuda-nos muito a identificar e diferenciar as componentes dos lotes para Callabriga, Vinha Grande ou Quinta da Leda, a perceber qualidades e perfis, como vinhos de distintas parcelas ou origens se complementam. A arte do lote que os provadores clássicos tinham acabou por transitar para o vinho do Douro, com enormes vantagens.
Nos anos 90, dizia-se que as casas de origem inglesa eram especialistas de Vintage e as casas portuguesas faziam os melhores Tawny. Como se enquadra a casa Ferreirinha nesse histórico?
Quando entrei, em 1989, havia realmente essa ideia estabelecida. Mas devo dizer que, já nessa altura, quem assim pensava estava errado. Hoje, eu provo Ferreira Vintage 1934 ou Vintage 1952 e encontro vinhos absolutamente extraordinários. E já em 1989 provava excelentes tawnies velhos de casas inglesas, Symington por exemplo. Creio que esse conceito de casa inglesa versus casa portuguesa tem a ver sobretudo com o mercado. O mercado britânico queria sobretudo Vintage e, naturalmente, privilegiava as casas de origem inglesa; e o mercado português queria sobretudo Tawny e privilegiava as casas portuguesas.
O que sempre houve, isso sim, foram distintos perfis de Vintage. Eu estou à vontade para falar nisso, porque a Sogrape é, desde 2002, proprietária da Sandeman, casa de origem britânica. O Vintage Sandeman era o paradigma do clássico, robusto e potente, e o Ferreira era orientado para a harmonia e elegância. Hoje, podemos provar um Sandeman 1963 e um Ferreira do mesmo ano e estão ambos em grande forma, um não evoluiu melhor do que outro. E ainda hoje os perfis distintos caracterizam estas marcas. Portanto, essa ideia de que os ingleses eram bons em Vintage e os portugueses em Tawny não tem qualquer razão de ser.
“Com as vinhas e adegas de que dispomos, poderíamos fazer uma grande quantidade de Barca Velha. Só que, hoje, somos bem mais exigentes do que éramos nos anos 70 e 80. Porque o mundo mudou, o Douro mudou”
Vou deixar-te um conjunto de perguntas curtas para respostas concisas, no plano profissional e pessoal. Primeiro, ao Luís Sottomayor enólogo. Touriga Nacional ou Touriga Francesa, e porquê?
O que eu gosto é do blend das duas. Num ano frio, mais Touriga Francesa e menos Nacional. Num ano mais quente, mais Nacional e menos Francesa.
Blend de Tourigas, Nacional e Francesa ou Vinhas Velhas? Ou, se quiseres, Barca Velha ou Legado?
Isso é como perguntares se gosto mais de caçar perdizes ou galinholas… Gosto muito de ambas e de ambos os vinhos, em perfis completamente diferentes. Mas, simplificando, podemos dizer que uma vinha velha faz o vinho, o vinho já nasce ali feito. Por outro lado, num vinho de base Nacional e Francesa vamos buscar o que aprendemos com o vinho do Porto, o lote. O Legado vem da terra, é aquilo que ali está; o Barca Velha vem da sala de provas, como se fosse um Vintage. Um Reserva Especial ou um Barca Velha nunca poderia vir de vinhas velhas. Seria um outro vinho, sem nada a ver com o estilo da marca.
Vintage ou Tawny velho?
Resposta difícil. Mas acredito que um grande Vintage muito velho, com os aromas e sabores criados com o tempo de garrafa, é imbatível. É para beber de joelhos…
E agora, para o Luís Sottomayor apreciador de vinhos, alguns desafios. Aí vai o primeiro: uma região de brancos e uma de tintos fora de Portugal?
Tintos, pode ser Borgonha. E brancos também…
É a escola de Dijon a deixar marca… A mesma pergunta, mas agora em Portugal e deixando de fora o Douro, senão já saberia a resposta…
Brancos, o Dão. Nos tintos, acho que Trás-os-Montes pode ter uma relevância extraordinária.
Um branco e um tinto do Douro que aprecies particularmente. E Ferreirinha não conta…
Gosto muito do tinto Chryseia. E gosto muito do branco Guru.
E qual o Barca Velha que mexe mais contigo, que corresponde melhor ao teu perfil de apreciador?
O 2008. Pela contenção, austeridade e potencial de longevidade.
Última pergunta. Ainda faltam uns anos para a tua reforma, mas sei que uma das tarefas de que é incumbido um responsável de enologia na Sogrape é formar e designar os seus sucessores, deixando o futuro preparado. Que conselhos darias aos mais jovens, com quem trabalhas, e que te irão suceder um dia?
Há poucos dias organizei um encontro entre os elementos da minha equipa e os profissionais que já aqui estavam antes de mim, e que tiveram um papel fundamental não apenas na Ferreira, mas também na região do Douro. Portanto, o conselho é este: muito mais do que ter boa formação e ser-se bom enólogo, é preciso conhecer em profundidade a história, a cultura, a geografia, o carácter da região e dos vinhos que fazemos. E para isso é preciso falar com as pessoas que cá estiveram e é preciso saber ouvir.
(Artigo publicado na edição de Agosto de 2026)
QUINTA NOVA DE N. SRª DO CARMO: Serenidade na mudança

Fiel às origens, a Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo, localizada no concelho de Sabrosa, pertencente à região do Douro, assume que o tempo é de mudança de atitude. Não porque se renegue o passado, mas sobretudo porque o futuro será exigente, e quem se preparar antecipadamente, terá maiores possibilidades de sucesso. A história […]
Fiel às origens, a Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo, localizada no concelho de Sabrosa, pertencente à região do Douro, assume que o tempo é de mudança de atitude. Não porque se renegue o passado, mas sobretudo porque o futuro será exigente, e quem se preparar antecipadamente, terá maiores possibilidades de sucesso.
A história da Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo inicia-se bem lá atrás, em 1764. Em meados do século XVIII, o Douro era o Vinho do Porto e toda a dinâmica de planeamento de viticultura e vinificação fazia-se à sua volta.
Após a aquisição desta propriedade pela família Amorim, a adega, já em 2003, é ainda recuperada à imagem da tradição duriense e, mais de dois terços da capacidade é afeta à produção de Vinho do Porto, cabendo o remanescente para os vinhos DOC Douro. A atual filosofia é diametralmente diversa e assume-se, sem reservas, vocacionada para os vinhos DOC, tendo sido esse o propósito da total renovação da adega em 2024.
Mas as mudanças não ficaram por aí. Em 2025, estenderam-se à viticultura, passando para a coordenação de Pedro Prata. Já a enologia, agora liderada por António Bastos, tem como objetivo partilhar conhecimento com uma figura ímpar da enologia e do ensino, Riccardo Cotarella, o enólogo italiano ligado à família Amorim por uma relação antiga de amizade.
A colaboração de Riccardo Cotarella com as três propriedades do universo Amorim (Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo, Taboadella, no Dão, e Herdade Aldeia de Cima, no Alentejo) não será de estrita consultoria, mas, sobretudo, de mútua partilha de experiências e diálogo, que tem como elo comum dois países com tradição multimilenar de sabedoria empírica no cuidado da vinha e do vinho. A admiração é mútua, reconhecendo Riccardo Cotarella em Luísa Amorim a virtude do detalhe, do saber fazer profundamente conectado com cada lugar, cada ecossistema, sobretudo no que se relaciona com viticultura de montanha.
A colaboração de Riccardo Cotarella com as três propriedades do universo Amorim será sobretudo, de mútua partilha de experiências e diálogo
A preponderância do cimento
A principal e mais notória mudança surge no trio de vinhos Reserva lançados, um branco e dois tintos, que ostentam não apenas um rebranding da imagem, mas também um maior cuidado com a identidade que transparece de cada uma das 41 parcelas plantadas em altitudes, exposições e perfis distintos. Aqui, busca-se uma leitura mais aprofundada, não apenas das origens, mas igualmente de uma adega de múltiplas potencialidades, onde o cimento ganha uma crescente preponderância, na busca de vinhos mais diretos, genuínos e, sobretudo, mais frescos.
Luísa Amorim, CEO da Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo, fala sobre o novo perfil dos Reserva: “sentimo‑nos profundamente realizados com estes três vinhos Reserva – uma gama que tem para nós um significado especial e uma importância estratégica no nosso portefólio. Estes vinhos traduzem, com grande fidelidade, a essência das parcelas da Quinta Nova e todo o trabalho de viticultura que temos desenvolvido ao longo de 26 anos.”
Em 2000, foram plantados 50 hectares de vinha traduzida em 41 parcelas, “de dimensão muito reduzida, totalizando 85 hectares, numa zona histórica e emblemática da margem direita do Douro, diria mesmo, na zona do Cima Corgo onde existiam os vinhos de feitoria, eleita no Alto Douro, para a primeira demarcação do Douro, a mais antiga do Mundo”, acrescenta. Por conseguinte, “ver, hoje, o resultado no copo, dá‑nos a certeza de que cada hora dedicada ao projeto de remodelação desta adega – construída em 1764, apenas oito anos após a primeira demarcação do Douro – é um esforço que sentimos que valeu a pena. Ao longo dos anos, sempre soubemos que o clima estava em mudança; já não é tabu para ninguém. A adaptação a esta nova realidade era uma necessidade urgente, não apenas para o presente, mas sobretudo para garantir a continuidade da qualidade e a solidez deste projeto de futuro”, esclarece Luísa Amorim.
Hoje, a capacidade de adaptação a cada vindima é uma realidade nesta propriedade duriense. “Dispomos de circuitos de produção distintos, com mesas de escolha específicas para rosés, brancos e tintos, e a possibilidade de conduzir fermentações mais longas, mais calmas e mais precisas, parcela a parcela. A instalação das 32 cubas de cimento foi determinante: permitiu‑nos afinar textura, reforçar a frescura natural das nossas uvas e preservar uma acidez viva e vibrante, resultando em vinhos aromaticamente mais puros, precisos e expressivos, com o classicismo que só o Vale do Douro consegue oferecer”, sublinha a CEO da Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo.
O mote desta nova abordagem é um exercício de contemporaneidade, equilíbrio e elegância, o que de facto se confirma. Na caracterização dos anos vitícolas, 2024 e 2025 foram distintos. Contudo, em ambos foi na precocidade da vindima que esteve o click redentor, permitindo captar mais frescura, vibrância e tensão, afastando sobrematurações e concentração alcoólica. Já a nova imagem dos Quinta Nova Reserva se afirma, sobretudo, como reforço da identidade e da origem, tendo como elemento central a Capela de Nossa Senhora do Carmo, construída pelos barqueiros no Penedo do Carmo, um dos locais mais temidos da navegação no Douro.
“Estes vinhos traduzem a essência das parcelas da Quinta Nova e todo o trabalho de viticultura que temos desenvolvido ao longo de 26 anos”, afirma Luísa Amorim
A incontornável referência de brancos
Sobre o Mirabilis branco e a sua importância no contexto da afirmação dos grandes brancos durienses, provavelmente, podemos escrever um tratado. Se a memória não me trai, o Mirabilis branco, ao contrário do seu congénere tinto, tem sido lançado todos os anos desde 2011.
Se a filosofia da origem da uva não se tem alterado, podendo somente variar as parcelas, a vinificação tem conhecido diversas experimentações ao longo de mais de uma década. Viosinho e Gouveio, em vinhas com mais de 70 anos e, algumas, centenárias, altitude, maioritariamente superior a 500 metros, solos de transição xisto/granito de Murça, Alijó e Sabrosa. Na adega é onde tudo se transforma, com a integração de diversos materiais: madeira nova de carvalho francês das florestas Tronçais, Vosges, Nevers, Jura e Allier, foudre novo de 1200 litros, barrica de segundo e terceiro ano e, claro, o cimento cru. Um tempero complexo de lote traduzido num resultado de afirmação de amplitude, complexidade, presença de fruta e um mineral salino que lhe define um estilo que, não sendo imutável, lhe define a personalidade.
Rosé de inspiração
O Quinta Nova Rosé 2025 continua a evidenciar a inspiração provençal, cuja vinificação ocorre com prensagem de cacho inteiro. O critério de seleção das uvas – Tinta Roriz (50%), Tinta Francisca (30%) e Touriga Franca (20%) – é rigoroso, desde a escolha das parcelas, passando pela vindima manual e seleção na mesa de escolha.
A vinificação, contudo, ganha, a cada colheita, uma abordagem diversa de modo a garantir e exponenciar a pureza aromática e a delicadeza que se exige num rosé desta dimensão. Metade do lote estagia em barricas usadas de carvalho francês, 25% evolui em cubas de cimento e os restantes 25% em depósitos de inox. Convenhamos, mudar é apenas uma das mais naturais leis da vida. Quem permanecer agarrado ao passado e ao presente, dificilmente terá um futuro.
(Artigo publicado na edição de Julho de 2026)
VILA GALÉ: Improváveis e prazerosos

Quando um enólogo coloca a mão em adega alheia, é possível que nasça um vinho improvável. Foi este o desafio que Marta Maia, da alentejana Casa Santa Vitória, e Ricardo Gomes, da empresa duriense Quinta Val Moreira, ambos pertencentes ao grupo hoteleiro Vila Galé, decidiram colocar em marcha, com a finalidade de produzirem dois vinhos […]
Quando um enólogo coloca a mão em adega alheia, é possível que nasça um vinho improvável. Foi este o desafio que Marta Maia, da alentejana Casa Santa Vitória, e Ricardo Gomes, da empresa duriense Quinta Val Moreira, ambos pertencentes ao grupo hoteleiro Vila Galé, decidiram colocar em marcha, com a finalidade de produzirem dois vinhos diferentes, não só dentro da gama das adegas respectivas, mas também inesperados e apetecíveis para o mercado. Com o aval da empresa, Marta Maia trocou temporariamente o Alentejo pelo Douro, para elaborar um vinho em Val Moreira; já Ricardo Gomes fez o percurso inverso, isto é, rumou ao Alentejo para igual desafio.
Desta troca nasceram os Vinhos Improváveis, um do Douro e outro do Alentejo. São duas edições exclusivas, produzidas em quantidades limitadas, que reflectem a visão pessoal de cada enólogo fora do seu ambiente habitual, celebram a capacidade criativa de ambos e mostram ser possível haver liberdade na interpretação de cada terroir dentro da mesma casa. Cada referência dispõe de 1800 garrafas, sendo estas vendidas em caixas duplas. “Foi um desafio que nos deu muito gozo, numa reinterpretação que nunca tinha sido feita”, salientou Marta Maia. “O objectivo foi fazer dois vinhos que não tivessem nada a ver um com o outro, diferentes, mas ambos prazerosos”, sublinhou Ricardo Gomes.
Durante a festa de lançamento, que decorreu no Hotel Vila Galé Ópera, em Lisboa, foram apresentadas outras três referências do Grupo Vila Galé, o Paço do Curutelo Colheita, da região dos Vinhos Verdes, um novo reserva rosé colheita e o mais recente Touriga Nacional da Casa de Santa Vitória.
Tudo começou em 2023
O projecto surgiu durante a convenção do Grupo Vila Galé, em Fevereiro de 2023, quando Marta Maia e Ricardo Gomes resolveram desafiar-se e transmitir, aos seus superiores, a decisão de trocar de casa e cada um fazer um vinho na adega do outro. O nome Improváveis para a marca surgiu a posteriori, por serem vinhos um pouco fora da caixa e provenientes de duas regiões completamente diferentes.
“Eu nunca tinha trabalhado a sério no Douro, a não ser em estágio de vindima, e o Ricardo também nunca o fez a sério no Alentejo, a não ser como estagiário de vindima”, contou Marta Maia, acrescentando que ambos pretendiam criar coisas diferentes das existentes dentro das respectivas gamas, que contribuíssem “para se falar mais das duas empresas”.
Depois de colocada a sugestão, a administração incentivou-os a irem para a frente com o projecto, “com o desafio de desenvolver o processo com um custo razoável”, revelou Ricardo Gomes. O repto foi aceite, mas foi concretizado com algumas dificuldades.
A ideia de trocar de casa e cada um fazer um vinho na adega do outro surgiu durante a convenção do Grupo Vila Galé, em Fevereiro de 2023
Muitos quilómetros entre vinhas
A primeira foram os muitos quilómetros que ambos tiveram de fazer, em plena vindima: Marta Maia entre o Alentejo e o Douro, e Ricardo Gomes em sentido inverso. “O que fizemos foi uma vinificação diferente da tradicional na casa um do outro”, afirmou, acrescentando que inventou pormenores que não existiam na Quinta Val Moreira, o que envolveu mais trabalho à equipa local. No Alentejo, aconteceu o mesmo. Mas à procura de quê? “De criar um vinho que fosse a imagem daquilo que é o enólogo”, respondeu a enóloga. Ou seja, o vinho que criou no Douro corresponde à sua interpretação da região.
O Val Moreira Improváveis tinto 2023 é feito a partir de uvas apanhadas em vinhas velhas, das quais “nunca se saberão as castas em concreto”, e com base “num processo de vinificação duro, porque incluiu dois dias complicados em termos de recepção de uvas durante a vindima”. Foram vinifcadas em cinco barricas usadas de 500 litros, às quais foi tirado o topo. A fermentação decorreu com uva desengaçada em três e, em duas, com engaço, de cacho inteiro, pisado a pé, processo esse que durou quatro horas por barrica. Segundo Marta Maia, “as uvas estavam muito frias, porque as guardamos durante 24 horas num contentor refrigerado antes do processamento”, o que dificultou o processo.
Após a fermentação, decorreu o estágio, realizado na mesma madeira e já com as barricas tapadas. Este processo deu origem a um vinho mais rústico e com carácter mais duriense do que os tradicionais da Quinta Val Moreira, segundo a opinião de Ricardo Gomes, que, por seu turno, esteve no Alentejo a criar um vinho improvável.
Com os recursos que as adegas tinham, a ideia foi inovar em termos de tipos de fermentação, para criar algo diferente
Vinhos elegantes e um clarete
“Na Casa de Santa Vitória, os vinhos são muito elegantes, desde que a Marta assumiu o projecto. Têm muita personalidade. E eu tentei levar isso a um extremo. O resultado foi um clarete”, conta o enólogo, explicando que a produção ocorreu com base em extracções de início de fermentação que estavam a decorrer na adega da Casa de Santa Vitória, as quais foram submetidas, posteriormente, a um estágio de um ano em barricas usadas, tal como o vinho de Marta Maia no Douro.
“Ou seja, com os recursos que as adegas tinham, porque era preciso concretizar a nossa ideia sem grandes investimentos, a ideia foi inovar em termos de fermentações, para criarmos algo diferente”, esclareceu Ricardo Gomes, que, tal como Marta Maia, manifestou contentamento em relação ao resultado. Por um lado, do Douro, saiu um vinho mais rústico e poderoso, com um carácter regional marcado, sem perder a elegância tradicional dos tintos de Val Moreira; por outro lado, mais a sul, surgiu o Santa Vitória Improváveis 2023, um clarete fresco, mas também com um toque de rusticidade e notas de fruta silvestre, que o tornam apetecível para os comeres da estação quente do ano.
(Artigo publicado na edição de Julho de 2026)
ADEGA DA HERDADE DA COMPORTA: A reinterpretação de um terroir

À entrada da loja da Adega da Herdade da Comporta está disposto o mapa da Península de Tróia. A área traçada a negro assinala esta propriedade de exploração agrícola, localizada entre a costa atlântica, a poente, e o rio Sado, a nascente, com Pinheiro da Cruz, a sul, e a Carrasqueira, a norte, englobando o […]
À entrada da loja da Adega da Herdade da Comporta está disposto o mapa da Península de Tróia. A área traçada a negro assinala esta propriedade de exploração agrícola, localizada entre a costa atlântica, a poente, e o rio Sado, a nascente, com Pinheiro da Cruz, a sul, e a Carrasqueira, a norte, englobando o célebre Cais Palafítico da Carrasqueira, “incluindo uma parte do rio Sado”, acrescenta José Oliveira, diretor financeiro e responsável pela Adega da Herdade da Comporta referindo-se à Reserva Natural do Estuário do Sado, e sete aldeias. “Há cerca de 3000 pessoas que vivem permanentemente dentro da herdade”, sublinhou o nosso anfitrião. O total ultrapassa os 11 mil hectares. Estes estão distribuídos por arrozais a perder de vista, pinhal e floresta, formações dunares, traduzidas em nove quilómetros de linha costeira, e 35 hectares de vinha, dos quais 29 estão no concelho de Grândola e seis já fazem parte do concelho de Alcácer do Sal.
Eis o ponto de partida para as boas novas. Mas não sem antes se fazer uma pequena descrição do território vitivinícola da Adega da Herdade da Comporta. A proximidade do Atlântico, cuja distância é de seis quilómetros, e o chão de areia são fatores, desde logo, evidenciados pelo enólogo Jorge Rosa Santos. A ambos, soma os sistemas montanhosos que exercem influência na vinha: serra de Sintra, serra de Montejunto e serra da Arrábida. Além de que, “aqui, há mais horas de sol do que a norte e a sul”, dando origem a “um micro-clima na Herdade da Comporta”, segundo palavras do enólogo.
Feita a descrição do território em termos edafoclimáticos, Jorge Rosa Santos evidencia a importância da sazonalidade da Comporta, no que à produção de vinhos diz respeito, até porque “os brancos não são só para o verão” e “os tintos já não são só para o inverno”. A par com esta mudança ditada pela atualidade, os brancos da Adega da Herdade da Comporta estão a conquistar terreno e os tintos estão a enveredar por outros caminhos, contrariamente ao que vinha a ser feito até hoje. Como tal, Jorge Rosa Santos e Renata Madeira, que, em conjunto, constituem a equipa de enologia da casa, mostram, agora, “abordagens mais disruptivas” reveladoras da “criatividade própria dos enólogos”.

Portefólio vínico restruturado
Conclusão? A Adega da Herdade da Comporta avança para um novo posicionamento e restruturação do portefólio de vinhos constituído por quatro gamas: Nativo, Brisa Bay, Experimentalista/Monovarietais e Micro Terroir. Todas as uvas que ‘dão corpo’ a estas boas novas são vindimadas à mão. O objetivo desta mudança pauta pela “reinterpretação da Comporta, mantendo o classicismo e a simplicidade” locais, sublinha o enólogo. Mas para Jorge Rosa Santos, os vinhos produzidos na Adega da Herdade da Comporta pouco têm a ver com os vinhos da Península de Setúbal, região vitivinícola onde este produtor está inserido.
“São vinhos com sentido de lugar”, continua o enólogo, com o intuito de justificar essa diferença enaltecida pelo registo de álcool médio baixo, mais acidez e salinidade presente, atributos obtidos graças à antecipação da vindima das castas brancas e à apanha tardia das variedades tintas. Neste contexto, Jorge Rosa Santos salienta, uma vez mais, a importância dos solos arenosos, favoráveis ao timing de ambas as ações na vinha implantada na zona sul da propriedade.
Mas vamos por partes. A gama Nativo está disponível em branco, rosé e tinto e traduzem-se em vinhos diretos em relação às propriedades das castas selecionadas para este trio vínico. “É a porta de entrada para a Adega da Herdade da Comporta que, agora, se quer revisitada”, resume o enólogo. Já a Brisa Bay – um branco de 2024 e um rosé de 2025 – transmite uma mensagem mais descontraída e associada à época de estio e ao estilo Comporta.
A gama Experimentalista/Monovarietais é composta por edições limitadas que refletem o resultado de ensaios feitos pelos dois enólogos e tem a exploração de castas como denominador comum. Outro dos fatores é a seleção de microparcelas específicas que, nesta estreia, integra escolha da variedade branca Verdelho, da colheita de 2025, e a tinta Castelão, cuja vindima remonta a 2022 e incide “nos setores 30 e 31, mais próximos da várzea”, informa Renata Madeira. Nesta gama, encaixam ainda as novas abordagens enológicas nascidas “na onda da espontaneidade”, que, por ora, se dividem num vinho curtimenta e num palhete de 2024. No primeiro, a casta eleita é a Alvarinho, que, a meio da fermentação, passou a estar em contacto com as películas de Fernão Pires, seguindo-se o estágio, perfazendo, esta combinação, um período de dois meses. O palhete é, de acordo com Jorge Rosa Santos, inspirado na produção do Vinho Medieval de Ourém. Neste lote, entram a Castelão e a Malvasia de Colares. “É um grande vinho de verão”, garante a enóloga. E apesar da supressão da Malvasia de Colares da vinha, o palhete permanecerá no portefólio, paralelamente a outras novidades.
Microterroir é a gama que mais faz justiça às declarações de Jorge Rosa Santos, para quem a proximidade do Atlântico, os solos arenosos e a proteção da serra da Arrábida desempenham um papel fundamental na produção dos vinhos da Adega da Herdade da Comporta.
Nativo, Brisa Bay, Experimentalista/Monovarietais e Micro Terroir são os nomes escolhidos para as novas gamas da Adega da Herdade da Comporta
Identidade visual renovada
A acompanhar esta redefinição estratégica, a Adega da Herdade da Comporta apresenta o trabalho desenvolvido no âmbito da nova identidade firmado no património da propriedade. Em suma, no símbolo composto pelo C, de Comporta, e da cruz que o acompanha, ambos em azul. A finalidade é levar o consumidor a identificar prontamente os vinhos produzidos nesta casa.
Instalada em, outrora, estaleiros e oficinas de apoio à exploração agrícola da Herdade da Comporta, entidade privada e centenária, fundada em 1925, e com uma decoração que imprime a arquitetura local, a loja é uma montra das novas gamas, entre outros produtos, como o arroz e o pinhão da propriedade. Este espaço é contíguo à adega, em atividade desde 2022, e às salas de provas distribuídas pelo piso térreo e o primeiro andar, no âmbito das ações de enoturismo. A loja é ainda o ponto de partida para visitar o Museu do Arroz, inserido na antiga fábrica de descasque e situado a dois passos do aglomerado de edifícios que compõem o centro nevrálgico associado ao vinho.
(Artigo publicado na edição de Julho de 2026)
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Herdade da Comporta Micro Terroir
Tinto - 2022 -

Herdade da Comporta Micro Terroir
Branco - 2023 -

Herdade da Comporta Micro Terroir
Rosé - 2024 -

Herdade da Comporta
Tinto - 2024 -

Herdade da Comporta Curtimenta
Branco - 2024 -

Herdade da Comporta
Branco - 2025 -

Herdade da Comporta Nativo
Tinto - 2023 -

Herdade da Comporta Nativo
Branco - 2025 -

Herdade da Comporta Nativo
Rosé - 2025

































































