Grande Prova: Tintos 2016, uma década depois

Tintos 10 anos

Este texto está a ser escrito quando quase todo o país está debaixo de água, com rios a um nível altíssimo e acidentes em diferentes zonas. Há já muitos anos que não se viam cheias com esta amplitude, como que a relembrar que o clima manda em nós e não o contrário. A ligação, vá […]

Este texto está a ser escrito quando quase todo o país está debaixo de água, com rios a um nível altíssimo e acidentes em diferentes zonas. Há já muitos anos que não se viam cheias com esta amplitude, como que a relembrar que o clima manda em nós e não o contrário. A ligação, vá lá, ténue, com 2016 é que o Inverno de 2015/16 foi especialmente chuvoso, com muito mais água do que era habitual. Regiões, como o Douro, chegaram mesmo a ter cheias ainda na Primavera. Tudo como está a acontecer agora, ainda que com mais moderação. O excesso de chuva, ao prolongar-se, já se sabe o que traz consigo: doenças da vinha, com o míldio e o oídio a exigir intervenção constante e muitos tratamentos. Por arrasto, os pequenos produtores, sem folga financeira, dimensão ou conhecimento, são quem mais sofre as consequências com elevada perda de produção das vinhas.

O ano de 2016 correspondeu exactamente à ideia de “vindima desafiante”, frase usada vezes sem conta pelos enólogos, para caracterizar uma colheita árdua. Esta foi mesmo difícil e ainda que, com tratamentos feitos a tempo e horas, o ano foi diverso de qualidade. Porque é que este painel não espelha isso? Porque os produtores que aqui estão, representam, de certa forma, a nata da produção nacional (ou parte da nata…), gente que é profissional e não se preocupa com a “muita intervenção” em vez da “pouca”, apregoada por quem não consegue tratar as uvas. Trabalhar bem, e a tempo, ajuda na qualidade da vindima. Já Charles Symington, enólogo responsável do grupo Symington, indicava, no relatório de vindima de 2016, o seguinte: “O tempo ao longo da vindima esteve excepcionalmente bom, o que possibilitou o desenrolar perfeito das maturações. Pudemos decidir os momentos de vindimar sem nos preocuparmos com alterações no estado do tempo e, assim, escolher o melhor momento para vindimar em cada propriedade de acordo com o estado de maturação de cada.” E mais adiante, “Touriga Franca poderá ter produzido os melhores vinhos desta vindima”. A consequência deste final de vindima tranquilo e sem pressas foi que a apanha da uva só terminou em meados de Outubro. Raro e cada vez menos visto.

Tintos 10 anos

Elegância acima de tudo

O Palácio da Bacalhôa, com origem na região de Setúbal, foi uma das surpresas da prova. É um tinto que mudou de perfil nos últimos anos: passou de um estilo muito extraído (moda Robert Parker, dizemos nós) dos inícios deste milénio, para um vinho que, com redobrados cuidados de enologia, ficou mais franco e aberto, no qual os 5% de Petit Verdot ajudam, aliados aos 70% de Cabernet Sauvignon e aos 25% de Merlot. Menos extracção e mais elegância deram este resultado, o que se aplaude vivamente. E Vasco Penha Garcia, enólogo da empresa, reforça a ideia que, quando se trabalha com profissionalismo na vinha, as diferenças entre as várias colheitas se diluem, porque a enologia acaba por compor o que houver a compor.

No caso do Alentejo, o ciclo vegetativo foi mais favorável do que no Norte do país, com menos problemas sanitários. A Fundação Eugénio de Almeida, no seu registo de vindima, assinala: “no que respeita ao potencial produtivo, foi um ano com fertilidade geral média a baixa, tendo a maturação ocorrido um pouco mais tarde que nos últimos anos, mas em excelentes condições (…) para as tintas que atingiram uma adequada maturação fenólica”.

Os anos, como o 2016, sobretudo quando têm um final de Verão quente e sem chuva, geram sempre a dúvida habitual na região do Douro e entre os produtores de Vinho do Porto: será ano de Porto Vintage? Se sim, será do agrado de todos ou os “ingleses” irão avançar com as declarações de Vintage Single Quinta? Para muitos consumidores isto é “assunto de lana caprina”, mas para o sector do Porto não é, porque as declarações consideradas clássicas são momentos importantes no negócio, uma alavanca sempre bem-vinda em termos comerciais. O ano de 2016 foi ainda complicado porque algumas casas não tinham declarado o 2015 e ficaram à espera de declarar o 2016. Aconteceu, então, que a declaração de 2016 foi clássica (cerca de 100 vinhos declarados) e muito poucos produtores terem resolvido ficar de fora, como a Ramos Pinto, que declarou o 2015. A situação pode repetir-se este ano: tudo estava encaminhado para a declaração clássica do Vintage 2024 e eis que, de repente, a qualidade do 2025 veio baralhar tudo. Aguardemos os próximos capítulos. Este assunto interessa-nos na qualificação do 2016 porque há uma regra no Douro que é quase matemática: os anos melhores para Vintage não são os melhores para DOC Douro. E o 2016 poderá confirmar isso: grandes tintos, mas…vintages gloriosos.

Qualidade e grande potencial

Uma ideia que podemos registar desta prova é que os vinhos muito bons se distribuíram geograficamente e, quer o Alentejo, quer a região de Setúbal, ainda que com presença em número normalmente inferior (ou mesmo muito inferior) ao Douro, revelaram vinhos de grande qualidade e com enorme potencial. Para vários provadores do painel isso foi especialmente evidente no tinto da Bacalhôa, um tinto de perfil bordalês que, passados 10 anos, está num patamar incrível, ainda em crescimento. Quase apetece dizer que, se se fizesse uma prova de tintos com 20 anos, talvez este Bacalhôa já estivesse no ponto de excelência e perfeição, algo que ainda não está.

Como é de esperar, a evolução dos vinhos é desigual e alguns mostraram que, estando bons, já não têm argumentos para longas vidas em cave. No caso de um dos vencedores, foi a segunda garrafa que salvou a prova, porque a primeira estava em estado duvidoso. Com isso também aprendemos que as conclusões, com apenas uma garrafa aberta, são sempre precipitadas. No painel, seguimos isso à risca e três vinhos foram retirados de prova.

A qualidade dos 2016 mostrou-se muito boa, talvez até melhor do que se poderia esperar. Quase todos os vinhos estão em grande momento de prova e é bom que não se tirem “conclusões hierárquicas” precipitadas. Os vinhos que integram o último grupo dão muito boa prova agora, são verdadeiros tintos prazenteiros que já chegaram ao melhor momento, grandes companheiros da refeição; apenas perderam para outros que ainda estão em crescendo e que o painel valorizou. E, num painel alargado como este, a classificação mais baixa ser 17 valores dá clara indicação que estamos perante um conjunto notável de tintos.

19

Chryseia

Douro tinto 2016

Prats & Symington

Excelente evolução, ganhou em polimento e harmonia, com fruta madura muito bem integrada, taninos de luxo, tudo com balanço perfeito. No palato mostra-se envolvente, cheio, maduro, mas aqui nada há de excessivo, a fruta negra é muito agradável e saborosa. Dá muito prazer a beber, rico e sério. (14%)

19

Mouchão

Alentejo tinto 2016

Vinhos da Cavaca Dourada

Duas garrafas provadas, a primeira muito evoluída. A segunda está muito bem, com aquele foco na fruta madura, mas com o lado mais mentolado, mais mineral, mais químico, que sempre se reconhece no Mouchão. Clássico na boca, com muita elegância de taninos, excelente perfil e a mostrar muita personalidade. (15%)

19

Palácio da Bacalhôa

Reg. Pen. Setúbal tinto 2016

Bacalhôa Vinhos

Muito escuro na cor, ainda em fase ascendente, muito complexo, cheio de fruta negra, groselha preta e amoras, leves apimentados; intensa presença na boca, com taninos finos e um perfil bordalês clássico, muito bem desenhado e surpreendentemente jovem e atraente. Numa versão robusta, embora com boa frescura de boca. É um grande tinto. (14%)

19

Pintas

Douro tinto 2016

Wine & Soul

Aroma de luxo, com a dispersão de aromas comum nas vinhas velhas, polimento geral de grande nível, fruta bonita e barrica bem inserida, a mostrar uma saúde incrível num ano menos fácil. Prazer enorme na boca, com uma elegância arrebatadora. Cativante, com imenso para dar; um grande tinto que faz jus à marca. (14%)

19

Quinta da Touriga Chã

Douro tinto 2016

Jorge Rosas

Em muito boa forma, cheio de fruta especiada, polido e elegante, com madeira no ponto, tudo em muito bom equilíbrio, perfeito balanço de taninos e fruta. Este tinto é sempre muito seguro na enorme qualidade que apresenta, muito apetecível e com muito sabor. Uma grande aposta. (14,5%)

18,5

Gauvé

Dão tinto 2016

Moreira, Olazabal & Borges

Tem origem em vinhas velhas com castas misturadas. Muito elegante no aroma, leve nota floral que lembra Touriga Nacional, com delicadeza de fruta, erva seca e madeira no ponto. Grande harmonia de boca, um toque mineral bem atractivo e um polimento de grande nível. (13%)

18,5

Monte Branco

Reg. Alentejano tinto 2016

Luís Louro

O lote inclui Alicante Bouschet e Aragonez. Concentrado na cor, a sugerir um tinto hermético. Porém, mostra grande finura, com fruta negra em destaque, madeira bem ligada e, no conjunto, resulta com elegância. Taninos filigrânicos, mas presentes, o conjunto mostra-se muito bem, polido e apetecível. (14%)

18,5

Poeira 42 barricas

Douro tinto 2016

Jorge Nobre Moreira

Feito em lagar. Fruta vermelha no aroma, vivo e com muita frescura que resulta atractiva, madeira superiormente inserida no conjunto, notas terrosas, muito bem proporcionado. Arredonda na boca, macio, seco, fruta vermelha, cereja preta e amoras. Este tinto nunca desilude, mesmo num ano menos conseguido. (14%)

18,5

Quinta da Leda

Douro tinto 2016

Sogrape Vinhos

Muito bem na cor, vivo e complexo no aroma, com muita fruta madura e as primeiras notas licoradas a surgirem. Grande polimento no palato, ainda com taninos presentes, embora muito finos; um tinto robusto, mas muito bem equilibrado e desenhado. (13,5%)

18,5

Quinta do Crasto Vinha Maria Teresa

Douro tinto 2016

Quinta do Crasto

O que mais se destaca no aroma é a fruta madura, em camadas, especialmente bem casada com a madeira de luxo, a verdadeira marca da casa. Excelente complexidade, especiarias de pimenta e cardamomo; fresco na boca, polido e muito envolvente, todo ele em grande forma. Dá muito prazer a beber. (14,5%)

18,5

Quinta do Vale Meão

Douro tinto 2016

Olazabal & Filhos

Temos, nesta edição, um Meão de maceração moderada e daí resulta um aroma fino, sempre num registo de bom equilíbrio com a madeira ainda presente, mas apenas a amparar o conjunto. No palato, mostra-se muito bem, bem mais elegante que noutras edições, resultando num tinto que pode dar todo o prazer de consumo desde já. (14%)

18,5

Quinta Vale D. Maria Vinha da Francisca

Douro tinto 2016

Quinta Vale D. Maria

Aroma clássico dos tintos do Douro, com madeira de luxo bem trabalhada, notas apimentadas e fruta negra, ainda em ascensão, leve nota floral, muito boa complexidade. Muita especiaria e notas de grafite, muito tanino no palato; um tinto com garra e boa rugosidade. (14%)

18,5

Terrenus Vinhas Velhas

Alentejo Portalegre Reserva tinto 2016

Rui Reguinga

Média concentração de cor, típica de vinhas velhas. Aroma complexo e difuso onde a fruta se espraia com elegância, com boa definição da barrica aqui bem inserida. Muito fino na boca, taninos presentes, mas delicados. Dá muito prazer a beber. Teve 18 meses em barrica e 24 em garrafa, o que gerou um tinto muito equilibrado. (14%)

18,5

Villa Oliveira Vinha das Pedras Altas

Dão tinto 2016

O Abrigo da Passarella

Muito boa concentração na cor, polimento aromático conseguido com o estágio em madeira usada, com boa definição de fruta na boca, perfil fino e com muito para dar, agora e no futuro. Leve e agradável nota mentolada, taninos presentes, excelente acidez. Tudo a garantir um bom futuro. (14%)

18

Casa de Saima

Bairrada Baga Garrafeira tinto 2016

Graça Miranda

Este é um clássico tinto da Bairrada, com imensa fidelidade à casta Baga que aqui surge com as notas de ginja, ambiente balsâmico, sempre num registo mais elegante do que assente em potência; polido no copo, fruta em calda no aroma. Muito prazer a beber. (14%)

18

Esporão Private Selection

Alentejo tinto 2016

Esporão

O lote inclui Aragonez, Touriga Francesa e Alicante Bouschet. Concentrado na cor, fruta negra e levemente compotado, é um tinto que pende para o lado robusto das castas com que é feito; taninos muito presentes, envolvente, cheio, algo complicado, que só o tempo poderá ajudar a descomplicar os vários elementos. (14,5%)

18

Giz Vinhas Velhas

Bairrada tinto 2016

Luís Manuel Gomes

Elaborado com a casta Baga, feito em lagar na melhor tradição bairradina, estágio em carvalho francês. Fiel à casta, com um estilo polido na fruta, taninos macios e bom equilíbrio de conjunto, pronto a beber. Os 20 meses em barrica ajudaram a que tudo se harmonizasse e está, agora, no seu melhor. (13%)

18

Herdade do Rocim Clay Aged

Alentejo Reserva tinto 2016

Rocim

Feito com Alicante Bouschet, Petit Verdot, Trincadeira e Tannat. Nota-se uma cor mais aberta, leve nota de barro, muito ligeiro mentolado. As castas usadas conferem aqui um lado austero na boca, com taninos finos e ambiente bem curioso. Ainda jovem, apesar de se sentir já alguma evolução. (14,5%)

18

Malhadinha

Reg. Alentejano tinto 2016

Herd da Malhadinha Nova

Feito com Alicante Bouschet, Touriga Nacional, Syrah, Cabernet Sauvignon e Aragonez; lagares com pisa, 15 meses em barrica nova. Notas de azeitona, fruta madura, aroma complexo resultante de múltiplas castas, de onde não há protagonismos. Com perfil fino, um tinto da planície, tudo muito bem conseguido, macio, bem desenhado. (15%)

18

Marquesa do Cadaval

DoTejo tinto 2016

Casa Cadaval

Feito com Touriga Nacional, Trincadeira e Alicante Bouschet, com um ano de estágio em barrica. Detecta-se uma boa ligação entre as três castas, ambiente especiado, elegante, directo e com bom perfil. Clássico pelo equilíbrio que mostra na boca, notas de noz moscada e fruta madura, taninos finos, leves licorados. Tudo no ponto. (13,5%)

18

Quinta do Carmo

Reg. Alentejano Reserva tinto 2016

Soc. Agr. Quinta do Carmo

Lote de Alicante Bouschet e Aragonez, 18 meses de estágio em barrica. O primeiro impacto é muito atraente, com uma combinação entre fruta e madeira em perfeito diálogo, taninos muito polidos, fácil na boca, perfeito na acidez. Absolutamente consensual. Este tinto já chegou ao seu melhor momento. (14,5%)

18

Quinta do Monte d’Oiro Parcela 24

Reg. Lisboa tinto 2016

José Bento dos Santos

Deste produtor chega-nos, com frequência, uma versão muito original desta casta. Este mostra-se muito elegante no aroma, fruta fina e boas notas vegetais, alguma mineralidade, muito polimento, terra húmida. Muito delicado no palato, com elegância de corpo. É um Syrah muito fiel à origem francesa. (14%)

18

Quinta do Noval

Douro Reserva tinto 2016

Quinta do Noval

Aroma com boa vibração, tenso, cheio e ainda algo fechado, fruta madura, mas elegante com leves florais e mato seco, ou seja, muito duriense. Muito bem na boca, a mostrar ainda enorme juventude, sendo seguro que não haverá pressa em consumi-lo, tem ainda muito para dar no futuro. (13,5%)

18

Quinta do Vesúvio

Douro tinto 2016

Symington Family Estates

Este tinto é sempre fiel aos calores do Douro Superior, mostra fruta densa, notas terrosas, mato seco, leve pimento vermelho, madeira no ponto que aqui, claramente, envolve e amacia o conjunto. Muito bem definido na boca, redondo, gastronómico, muito bom para consumir agora ou no futuro. Mudou de estilo desde as primeiras edições, cremos que para melhor. (14%)

18

Quinta Nova Referência

Douro Grande Reserva tinto 2016

Quinta Nova Nossa Senhora do Carmo

Cerca de metade do lote é Tinta Roriz e o resto vinha velha, com castas misturadas e uma produtividade baixíssima. Muito carregado na cor, cremos que por maceração intensa, apresenta notas de azeitona, leves químicos, amoras e ameixas pretas. Todo ele denso, com peso; um estilo maduro, mas que resulta macio. (14%)

18

Vallado

Douro Reserva tinto 2016

Quinta do Vallado

Neste tinto procurou-se uma maceração e extracção moderadas, o que vem sendo habitual nas últimas edições. Aqui, o peso da barrica é sem excessos, apesar dos 16 meses de estágio. Resulta polido, fácil, bem organizado e sempre muito capaz para prova imediata. Muito agradável na boca, macio e a revelar muita qualidade de conjunto. (14,5%)

17,5

Envelope

Dão tinto 2016

Magnum Carlos Lucas

O aroma aposta, sobretudo, no lado mais elegante e, assim, as notas mentoladas que surgem conferem-lhe esse lado mais fino, aliado a fruta vermelha; mostra alguma evolução de conjunto, mas está muito bem. Correcto e de boa definição na boca, acidez marcante, taninos secos no final.  (13,5%)

17,5

Guarita da Chocapalha

Reg. Lisboa tinto 2016

Casa Agr. das Mimosas

Muito carregado na cor, aroma fechado, fruta negra e notas de azeitona, sério, enigmático. Tudo aqui nos diz que os primeiros 10 anos de vida foram apenas a introdução para o longo estágio que poderá ter em cave. Boa complexidade na boca, cheio, taninos rijos. Precisa de tempo. (14,5%)

17,5

Herdade dos Grous

Reg. Alentejano Reserva tinto 2016

Monte do Trevo

Elaborado com Alicante Bouschet, Tinta Miúda e Touriga Nacional, feito em lagares e com 16 meses de estágio em barrica. Aromas vegetais secos, madeira presente, média concentração, boa evolução, leve especiaria. Boa prova de boca, está já num patamar de onde não crescerá mais, ainda com bons taninos. Neste momento está a dar uma prova de grande valia. (14%)

17,5

Quinta da Gaivosa Vinha do Lordelo

Douro tinto 2016

Domingos Alves de Sousa

Menos concentrado na cor do que em anteriores edições, a mostrar alguma evolução, agora com aroma de fruta madura, maceração evidente, notas leves de bacon e mentol. Um tinto macio, envolvente, de tonalidades doces, conjunto complexo, mas já muito exposto. (14,5%)

17,5

Quinta das Carvalhas Vinhas Velhas

Douro tinto 2016

Real Companhia Velha

Muita pureza de fruta, nascida em vinhas de castas misturadas, com o lado enigmático que daí deriva, com barrica a envolver; tudo muito bem composto, com alguma barrica em evidência, mas está bem no conjunto. O tinto mostra todas as condições para ser apreciado agora, sem mais delongas. Primeira garrafa com rolha. Tira-se? (13,5%)

17,5

Quinta do Bronze Vinha do Plagão

Douro tinto 2016

Lua-Cheia Saven

Aroma muito maduro, denso na cor, notas de chocolate, cacau fresco, fruta preta madura, algo sobreextraído. Gordo no palato, cheio, com toque muito denso e algo pesado. É também um certo tipo de tinto que a região permite, apontando para um perfil mais Novo Mundo. (14,5%)

17,5

Scala Coeli

Reg. Alentejano Alicante Bouschet tinto 2016

Fundação Eugénio de Almeida

Muito concentrado na cor, capitoso, com evidência do álcool, notas de azeitonas e casca de árvore, madeira presente, tudo em camadas, tudo denso, tudo complexo. Muito macerado, resulta num perfil pesado e escuro, ainda longe do seu melhor. 6500 garrafas produzidas. (15%)

17

Adega Mãe Terroir

Reg. Lisboa tinto 2016

Adega Mãe

Notas de fruta madura, algum couro, sem espessura aromática, mas com boa prova de boca, num perfil maduro, sem perder alguma elegância de conjunto. A leve secura final não acrescenta nada ao vinho, mas não chega a perturbar a boa prova. (14%)

17

Marquês de Borba Vinhas Velhas

Alentejo tinto 2016

Portugal Ramos

Média concentração de cor, fruta madura no aroma, sempre num registo em que se pretende privilegiar a elegância e a boa integração da barrica onde estagiou um ano. Prova de boca com excelente polimento, resulta assim especialmente agradável, para consumir agora. (14,5%)

17

Pedra Cancela Amplitude

Dão tinto 2016

Lusovini

O vinho sugere estar em fase de transição, a perder algum fulgor juvenil, apesar de manter ainda alguma redução no nariz. No aroma destacam-se muitas notas da madeira, notas doces e de caramelo salgado. Leve floral na boca ajuda à prova. Poderá não ter argumentos para mais estágio em cave. (13%)

17

Quinta da Giesta

Dão Grande Reserva tinto 2016

Soc. Agr. Boas Quintas

Feito com Touriga Nacional, Tinta Roriz e Alicante Bouschet. Fruta madura no aroma, leve nota de rebuçado, alguma especiaria, notas florais combinadas com algum vegetal seco e azeitonas. É um clássico tinto do Dão, mais apostado no bom diálogo das castas e na elegância de conjunto. Poderá estar já no seu melhor momento. (13,5%)

17

Quinta de Lemos

Dão Touriga Nacional tinto 2016

Quinta de Lemos

Sente-se a casta, mas aqui com algum peso notório da fruta e da madeira, escondendo o lado mais floral que lhe é reconhecido. Sugere muita maceração, embora melhore muito na boca, com estilo polido e sem arestas, por isso muito capaz de dar boa prova desde já, assim se encontre o pairing perfeito. (14%)

17

Quinta de Ventozelo Essência

Douro tinto 2016

Quinta de Ventozelo

O aroma traz-nos uma fruta madura, algumas notas de eucalipto que lhe dão boa frescura, mas não faz esconder alguma evolução evidente. Tonalidade doce na fruta que se percebe na boca, mostra-se envolvente, leve balsâmico; tudo indicando que poderá já estar no seu melhor momento de prova. (14%)

17

Quinta do Perdigão

Dão Touriga Nacional tinto 2016

Quinta do Perdigão

Média concentração de cor, leve redução aromática, que faz esconder um pouco a casta. Na boca, temos um tinto elegante e fino (o que é a marca da casa), está bem, ainda que carecendo de mais complexidade. Seguramente, mostra-se muito gastronómico e dará prazer a beber agora, sem mais esperas. (13%)

(Artigo publicado na edição de Março de 2026)

 

O Prémio Enólogo/a do ano é….. Marta Lourenço

A produção de espumantes pelo método clássico – a segunda fermentação ocorre em garrafa, com leveduras livres – é, naturalmente, herdeira do saber e da técnica usada em Champagne, a região que serve de modelo a todas as outras que querem seguir este procedimento. A técnica pode ser muito simples ou extremamente complicada, pode ser […]

A produção de espumantes pelo método clássico – a segunda fermentação ocorre em garrafa, com leveduras livres – é, naturalmente, herdeira do saber e da técnica usada em Champagne, a região que serve de modelo a todas as outras que querem seguir este procedimento. A técnica pode ser muito simples ou extremamente complicada, pode ser muito rápida ou demorar mais de uma década. Recordo-me de ter provado espumantes que saiam para o mercado em Dezembro/Janeiro, feitos a partir de uvas colhidas três meses antes, mas também me recordo de provar vinhos que estiveram dez e mais anos em cave, à espera que o tempo fizesse o seu papel, para, então, serem colocados no mercado.

Na Murganheira (e na Raposeira) o método clássico é levado muito a sério e todos os vinhos seguem esta técnica. Isso obriga a longos períodos de estágio em cave e são muitos milhões as garrafas que nas adegas descansam à espera que lhes seja dada “guia de marcha”, para poderem ser consumidas. Ainda que usando algumas castas portuguesas e locais, é com as clássicas champanhesas – Pinot Noir e Chardonnay – que os topos de gama se fazem, porque são as variedades que melhores resultados mostram.

Marta Lourenço entrou para a Murganheira como estagiária em 2006. Dois anos depois, passou a responsável da enologia e da viticultura, quer da Murganheira, quer da Raposeira. Confessa que a primeira aprendizagem a sério nos espumantes foi feita com os Cava da casa Gramona, mas todos os anos ruma a Champagne onde, com os contactos que tem, vai actualizando o saber e as técnicas. Beneficia da relação privilegiada com a Station Oenotechnique de Champagne (herdada do Professor Lourenço) e uma ligação pessoal forte com a equipa técnica da Möet & Chandon. Apesar do portefólio já muito completo, Marta reconhece que há vinhos que lhe dão muito mais trabalho que outros, como é o caso do Czar, um rosé especialmente exigente na fase do acompanhamento da prensagem, porque o clima e as castas da região não são propícios àquele tipo de espumante. Está a trabalhar em espumantes bio e também em espumantes feitos pelo método ancestral. Responsável pela enologia e viticultura de duas empresas tão grandes não é um desafio excessivo? “É, mas eu gosto”, diz-nos Marta! J.P.M.

O Prémio Enóloga do ano é patrocinado por: Cosvalinox 

(Artigo publicado na edição de Março de 2026)

O Prémio Singularidade do Ano é…. Materramenta

Materramenta

A par com mais duas ou três regiões no continente, dúvidas não existem de que os Açores, com destaque para o Pico e para a Terceira, produzem alguns dos mais excitantes vinhos brancos portugueses. Aliás, nunca como agora os vinhos daquele arquipélago foram tão frescos e definidos, conseguindo-se néctares cuja salinidade e frescura não se […]

A par com mais duas ou três regiões no continente, dúvidas não existem de que os Açores, com destaque para o Pico e para a Terceira, produzem alguns dos mais excitantes vinhos brancos portugueses. Aliás, nunca como agora os vinhos daquele arquipélago foram tão frescos e definidos, conseguindo-se néctares cuja salinidade e frescura não se encontravam no perfil tradicional e antigo das ilhas, por regra licoroso e com alguma uva atacada por podridão.

Pois bem, nestes últimos 15 anos muito trabalho foi feito e esse perfil clássico ficou confinado aos licorosos, cuja qualidade também tem melhorado muito. Durante este período, a Cooperativa Vitivinícola da Ilha do Pico teve um labor resiliente e modernizou-se. O experiente enólogo e produtor Paulo Machado consolidou marcas e apresentou referências memoráveis. No meio desta concorrência feroz, um outro nome tem-se imposto lentamente na última década, estabelecendo-se como um dos melhores produtores (senão o melhor…) da ilha Terceira, graças ao seu magnífico DO Biscoitos, apresentando, ainda, um portefólio de vinhos da Graciosa e do Pico. O nome? Materramenta. E antes que o leitor conclua ser uma designação arrevesada, quero lembrar-lhe que Materramenta foi o primeiro proprietário das terras dos Biscoitos, na ilha Terceira, tendo vendido essas terras a Pero Anes do Canto, Provedor das Armadas e Naus da Índia em todo o arquipélago.

À frente do projeto Materramenta está Luís Vasco Cunha, empresário cuidadoso e experiente, cujo currículo e maneira de ser atestam profissionalismo e rigor. Prova disso é a adega e sala de provas, de dimensões contidas e ajustadas a produções e visitantes, resultantes de uma recuperação zelosa de um edifício do século XIX, junto às vinhas de Biscoitos. Prova disso é também a escolha dos enólogos, com Constantino Ramos a capitanear, sendo os vinhos fora da Terceira feitos por Paulo Machado. Acresce ainda o alojamento para o número crescente de turistas que visitam a região.

Após várias provas de todos os vinhos produtores açorianos, grande parte dos quais provados lado a lado, ficamos com a certeza que os vinhos Materramenta estão entre os melhores da região e são os mais interessantes da DO Biscoitos. O perfil é esteticamente depurado e autêntico, com tensão e salinidade, sem perder em elegância e equilíbrio. Numa palavra, são singulares! N.O.G.

O Prémio Singularidade do Ano é patrocinado por: Casa Havaneza

(Artigo publicado na edição de Março de 2026)

O Senhor do Vinho é…. António Ventura

antónio ventura

Nascido em Paínho, no concelho do Cadaval (1958), António Ventura descende de várias gerações de vitivinicultores. Talvez por isso tenha iniciado a sua formação na Escola Superior Agrária de Santarém, terminando a licenciatura em Agronomia, na Universidade de Évora. Rumou, depois, ao Instituto de Viticultura e Horticultura de Geisenheim (Alemanha), onde se especializou em Viticultura […]

Nascido em Paínho, no concelho do Cadaval (1958), António Ventura descende de várias gerações de vitivinicultores. Talvez por isso tenha iniciado a sua formação na Escola Superior Agrária de Santarém, terminando a licenciatura em Agronomia, na Universidade de Évora. Rumou, depois, ao Instituto de Viticultura e Horticultura de Geisenheim (Alemanha), onde se especializou em Viticultura e Enologia. Procurando sempre novas experiências e fontes de conhecimento, obteve, na Charles Sturt University (Austrália), o diploma Applied Science (Winemaking), finalizando o percurso académico com uma pós-graduação em viticultura e enologia na Universidade Católica do Porto. Nessa altura, tinha já vasta experiência de enologia em diversas casas, o que o levou, em 2000, a constituir a Provintage, empresa de consultoria enológica e estratégica. Ele próprio agricultor e viticultor, possui cerca de 100 hectares na região de Lisboa, 50 dos quais são vinha e os restantes dedicados à floresta.

António Ventura sempre apreciou trabalhar em equipas. Para além dos profissionais que consigo colaboram nas múltiplas adegas e a quem transmite diariamente os seus conhecimentos, foi presidente da Associação Portuguesa de Enologia em dois mandatos, sendo também membro efectivo, desde 1995, da Australian Society of Viticulture and Oenology.

antónio ventura

Ao longo de uma carreira de mais de 45 anos, António Ventura passou por oito regiões vitivinícolas de Portugal, tendo ajudado a fundar inúmeros projectos, com muitas vinhas e adegas a terem o seu cunho pessoal

 

Ao longo de uma carreira de mais de 45 anos, António Ventura passou por oito regiões de Portugal, tendo ajudado a fundar inúmeros projectos, com muitas vinhas e adegas a terem o seu cunho pessoal. Na sua actual “carteira de clientes”, estão nomes tão distintos na dimensão, objectivos e perfis de vinho como Adega de S. Mamede da Ventosa, Adega da Batalha, Quinta do Gradil, Casa das Gaeiras, Paço das Cortes e Casa Romana Vini (Lisboa); Adega de Almeirim, Quinta da Atela, Quinta do Côro, Quinta dos Pegões, Quinta da Badula e Quinta de Vale de Fornos (Tejo); Adega de Cantanhede (Bairrada); Adega Camolas (Península de Setúbal); Altas Quintas, Sovibor e Herdade do Monte Branco (Alentejo). No grupo Abegoaria é consultor para as regiões de Lisboa (Vidigal Wines, com o best seller Porta 6), Tejo, Douro e Beiras.

O facto de ser, muito provavelmente, o enólogo português com mais litros de vinho sob sua directa responsabilidade não lhe tira o sono. Metódico, dotado de prodigiosa memória e sentido de organização, acompanha cada produtor como se fosse o único. E ainda arranja tempo para dar uma ajuda numa prova ou concurso onde o nome dos vinhos de Portugal possa sair valorizado. Sempre espalhando gentileza e sabedoria, a forma de estar no mundo deste grande Senhor do Vinho. L.L.

O Prémio Senhor do Vinho é patrocinado por Cork Supply.

(Artigo publicado na edição de Março de 2026)

A Empresa de Vinhos Generosos do ano é… Real Companhia Velha

Real Companhia Velha

A história das empresas de Vinho do Porto, que chegaram até nós, é rica e complexa de explicar em poucas palavras. O que hoje conhecemos é o resultado de inúmeras fusões, aquisições e doações; famílias antigas que deixaram de produzir e outras que conseguiram manter o espírito de grupo e criaram algo de novo, com […]

A história das empresas de Vinho do Porto, que chegaram até nós, é rica e complexa de explicar em poucas palavras. O que hoje conhecemos é o resultado de inúmeras fusões, aquisições e doações; famílias antigas que deixaram de produzir e outras que conseguiram manter o espírito de grupo e criaram algo de novo, com base no espólio adquirido.

A Real Companhia Velha (RCV) é um caso paradigmático de empresa, que resulta da união de várias companhias e conserva, hoje, um carácter familiar. Os Silva Reis compraram a empresa Miguel de Souza Guedes em 1953 (e com ela a Quinta das Carvalhas) e, em 1960, a RCV. Com a aquisição da Real Vinícola, em 1963, a empresa tornou-se um gigante, mas não deixou de ser familiar. Actualmente, já há uma nova geração de Silva Reis empenhada na continuação deste legado. E o legado inclui muitos e extraordinários vinhos velhos que pudemos apreciar em 2025, tawnies que desafiam o tempo e revelam toda a apetência que o Vinho do Porto tem pelo “sono em cave”.

Real Companhia Velha

Pedro Silva Reis, CEO da empresa, ainda que nunca escondendo o seu gosto pelo Vinho do Porto e pela arte do blend, tem mostrado total abertura a novos rumos, nomeadamente nos DOC Douro, deixando, à nova geração, o poder de decisão sobre novos produtos e novas experiências, com base em uvas das várias quintas, sempre “abençoadas” pela mão segura de Álvaro Lopes e o “nariz” apurado do enólogo Jorge Moreira.

O portefólio dos vinhos velhos é muito completo, de que são bom exemplo os tawnies 50 e 80 anos provados, bem como os Very Old Tawny que não nos saem da memória. A conservação destes vinhos muito velhos reveste-se de grande dificuldade e um provador tem de ser formado ao longo de muitos anos. Não é assunto que se aprenda na Faculdade. E é esse saber antigo que as actuais empresas do sector têm de ser capazes de assegurar para as gerações futuras. A RCV já está a trabalhar nesse assunto. Pedro Silva Reis tem mostrado uma disponibilidade e uma abertura ao diálogo com a imprensa que é de registar: abre as portas, abre os livros, mostra os “segredos” e a conversa flui. Assim deveria ser sempre e na Real já é! J.P.M.

O Prémio Empresa de Vinhos Generosos do ano foi patrocinado por: BA Glass

(Artigo publicado na edição de Março de 2026)

 

PINHAL DA TORRE VINHOS: A identidade de um terroir do Tejo

A Pinhal da Torres Vinhos fica em terras planas, de lezíria, bem próximas do Rio Tejo e de Alpiarça, terra da Casa dos Patudos, a casa de José Relvas transformada em museu, que vale a pena visitar, e a Reserva Natural do Cavalo do Sorraia, onde se podem ver alguns exemplares daquele que era o […]

A Pinhal da Torres Vinhos fica em terras planas, de lezíria, bem próximas do Rio Tejo e de Alpiarça, terra da Casa dos Patudos, a casa de José Relvas transformada em museu, que vale a pena visitar, e a Reserva Natural do Cavalo do Sorraia, onde se podem ver alguns exemplares daquele que era o cavalo primitivo e autóctone do sul da Península Ibérica, segundo os escritos desta entidade. Paulo Saturnino Cunha, gestor do Pinhal da Torre, conta que a família produzia vinhos, na zona, há muitos anos. Lembra-se mesmo que os bisavôs que conheceu, três ao todo, tinham cada um uma adega, numa terra onde houve sempre produção de vinho a granel, como se fazia em quase todo o Portugal de outros tempos.

Pinhal da Torre
A sala de barricas da Pinhal da Torre, onde os vinhos estagiam entre três e quatro anos antes de saírem para o mercado

Volume e algumas coisas boas

O Ribatejo, hoje região vitivinícola do Tejo, era conhecido por produzir enormes quantidades de vinho, que abasteciam, principalmente, os restaurantes e as tabernas de Lisboa e as ex-colónias de África. As vinhas desenvolviam-se nos solos mais férteis e tinham produções elevadas, e as grandes casas agrícolas pretendiam obter o máximo rendimento, produzindo vinho de pouca qualidade, com o intuito de ser vendido a granel. A família de Paulo Saturnino Cunha chegou a ter 200 hectares de vinha com essa função, mas o pai “engarrafava algumas das coisas boas que produzia, para consumir em casa e dar aos amigos”, conta o nosso anfitrião. Nessa altura, a empresa familiar dedicava-se sobretudo à produção de morangos, para além das culturas de milho, tomate, entre outros produtos. Era o negócio principal. Ocupava 50 hectares de estufas e estufins na lezíria do Tejo, com uma produção média de cerca de 40 toneladas por hectare, parte exportada em fresco, em camiões, com destino a vários países europeus.

“Geadas tardias, que chegavam a dizimar toda a produção de morangos e obrigavam a esperar o nascimento de novos frutos, tornavam a actividade muito complicada”, conta o gestor. Outro problema era a mão de obra, em particular durante a colheita, época do ano em que podiam participar mais de 600 pessoas, que se tornou cada vez mais difícil de angariar na zona. Devido a este cenário, os seus antecessores chegavam a disponibilizar autocarros, para recolher pessoas em Alvaiázere e Pedrógão Grande, de modo a suprir as necessidades do negócio. Até que, em 1995, a casa suprimiu esta produção, por decisão familiar. “Nessa altura também vendíamos muito vinho a granel, e, quando se acabou com a produção de morangos, decidiu-se que iríamos apostar a sério na de vinho”, revela Paulo Saturnino Cunha, que vivia, na época, no Brasil.

Entretanto, o pai tinha tirado um curso na Estação Vitivinícola de Nelas. Influenciado talvez por isso e por ter mantido um relacionamento próximo com docentes, plantou nas suas terras clones do Dão da casta Touriga Nacional, bem como as brancas Cerceal-Branco e Bical, que “não vingaram, porque a qualidade dos vinhos a que deram origem não era muito boa”, declara, acrescentando que o primeiro engarrafamento de vinhos decorreu em 1999. No ano seguinte, foi produzido um “grande Touriga Nacional, que nunca perdeu uma prova às cegas com os melhores vinhos do mundo, incluindo os Mouton, Margaux e outros”, que os seus amigos organizavam enquanto esteve no Brasil.

Reconhecimento e notoriedade

A partir daí, os vinhos da empresa começaram a ganhar algum reconhecimento e notoriedade, sobretudo lá fora, “porque, em Portugal, tínhamos o problema de sermos da região que somos e, quando chegávamos a algum lugar para vender os nossos vinhos, os compradores mostravam-se desinteressados”, comenta Paulo Saturnino Cunha, referindo-se à reputação que a região tinha, o que não acontece hoje. Por isso, os responsáveis do Pinhal da Torre voltaram-se para o mercado externo, para onde chegou a ser vendida 93% da produção, sobretudo países como os Estados Unidos, Brasil, Inglaterra, China, Holanda, Luxemburgo e Suíça.

Foram dois os factores que levaram Paulo Saturnino Cunha a apostar no mercado externo. O primeiro foram as ‘reclamações’ que recebia dos amigos brasileiros, por não encontrarem os seus vinhos à venda, em Portugal, quando visitavam o país. O segundo foi a pandemia de Covid-19, que impediu as suas deslocações aos mercados externos para vender. A solução foi dedicar mais tempo ao nosso país a partir desse período.

“Dar mais atenção ao mercado nacional durante a pandemia, levou-nos a estarmos, hoje, presentes numa percentagem significativa dos melhores restaurantes de Portugal, do Algarve ao Norte, o que contribuiu para que tenhamos, hoje, uma disseminação muito grande no país, para onde vendemos, actualmente, 50% dos nossos vinhos”, conta o responsável pelo Pinhal da Torre, acrescentando que a distribuição é feita através de empresas de implantação regional. No exterior, o principal mercado, hoje, é o Brasil.

Pinhal da Torre
Apostar na oferta variada e diferenciada em termos de preço e perfis de vinho, tem sido fundamental para o negócio de Paulo Saturnino Cunha

 

Pelo menos, três anos em cave

Os vinhos são produzidos na Quinta de São João, na Quinta do Alqueve e em Águas Vivas, propriedades que perfazem um total de 40 hectares, dos quais 30 estão ocupados por vinha. A produção média é de cinco toneladas de uva por hectare, em resposta à obsessão de Paulo Saturnino Cunha por produzir vinhos com qualidade. É isso que o leva, e ao enólogo consultor da empresa, Mário Andrade, a guardar os vinhos em cave, pelo menos, três anos antes de os comercializar. É esse o tempo mínimo que as referências Antagonista e Protagonista, as de topo do portefólio da empresa, estão em madeira, nova e/ou usada, “que está presente, sem marcar o vinho, o que também tem a ver com o estilo do Mário Andrade”, informa o gestor.

Quanto a castas, são cerca de 20, com evidência para Verdelho, Arinto, Alvarinho, Fernão Pires e Malvasia Fina, que foi plantada o ano passado, nas brancas. Entre as tintas, refere Tinto Cão, Tinta Francisca, Sousão, Touriga Nacional, Touriga Franca, Alicante Bouschet, Ramisco e Baga. Ou seja, há uma grande panóplia de variedades para uma área não muito grande de vinha, com o intuito de disponibilizar uma oferta diferenciada.

“Um vinho, como nós o encaramos aqui, no Pinhal da Torre, não é um produto industrial”, defende, a propósito, Mário Andrade, acrescentando que é, sim exemplo de diferenciação, diversidade, “de uma conceptualização estética que implica ‘agarrar’ num solo, num clima, num sítio e interpretar isso de forma a ser reconhecido nos aromas e gostos do vinho que deitamos no copo e, de preferência, proporcionar prazer a quem o bebe”. E salienta que não é preciso fazer muito para isso acontecer.

 

Produzir uva pensando no vinho

Basta que a instalação da vinha tenha sido bem feita, adequada à produção de vinho e que “a sua nutrição obedeça a critérios enológicos, e não agrícolas”, que “não servem quando o objectivo do maneio da vinha é produzir uvas para vinho”. Para Mário Andrade, é necessário ir ainda mais ao pormenor, quando a finalidade é um vinho branco ou um vinho tinto, ou quando as castas são diferentes. “Se tenho um Aragonês e uma Trincadeira, estamos perante situações completamente diferentes, que implicam nutrir o solo para as condições mais adequadas à produção do vinho que queremos produzir, naquele terroir, a partir de cada uma das castas lá plantadas.” Depois é necessária alguma estratégia durante o ciclo vegetativo, para fornecer ar e luz à vinha e aos cachos. “Isto não significa luz directa nem correntes de ar, mas sim na medida certa conforme o ano”, explica o enólogo, acrescentando que é necessário ir adequando isso a cada ano vitícola.

Na produção de uva, o Pinhal da Torre segue um Plano Anual de Viticultura Biológica e Fertilização Sustentável, sem esquecer que as uvas têm de ser produzidas de forma a originar vinhos. “Para mim o papel da enologia começa no campo e acaba no copo do consumidor”, argumenta Mário Andrade. “Como a perfeição não existe e há contingências, vai-se tentando adaptar o caminho, tentando fazer o melhor possível”, assevera. Para o efeito, é importante que haja um bom planeamento na adega, de modo a “que as uvas sigam o seu processo natural na adega. Apenas é necessário fazer algum acompanhamento, provando os mostos durante a fermentação, para ver se fazemos mais ou menos maceração, de forma mais intensa ou menos, definir a altura de desencubar, juntar mosto de prensa ou separar e seguir isso naturalmente”, esclarece o enólogo.

“Apostarmos na produção de vinhos de qualidade numa região que não é fácil, como a do Tejo, e na criação de uma oferta variada e diferenciada em termos de preço e perfis de vinho, tem sido fundamental para nós e sente-se na forma como as pessoas reagem quando os provam”, diz, por seu turno, Paulo Saturnino Cunha. O gestor defende que ainda mantém o envolvimento, dedicação e esforço no negócio, “para não ser mais um. Quem prova os nossos vinhos, mesmo em provas comparativas, pode verificar isso”, continua o gestor, realçando o desempenho de Mário Andrade, cujo trabalho se afirma numa linha condutora, “uma identidade, que também se deve a usarmos apenas as nossas uvas para produzir os nossos vinhos”. O resultado desta acção traduz-se em, por vezes, em apenas três a quatro mil garrafas. “Apostamos na qualidade e não abrimos mão disso”, remata.

(Artigo publicado na edição de Março de 2026)

Conheça o TOP 30 dos Prémios Grandes Escolhas

TOP 30

Portugal é um país produtor de vinhos de excelência. E se alguém pode afirmá-lo com conhecimento de causa são os provadores da Grandes Escolhas: João Paulo Martins, José Miguel Dentinho, Luís Antunes, Luís Lopes, Miguel Ferreira, Nuno de Oliveira Garcia, Paulo Pimenta, Rui Caroço dos Santos, Sérgio Lopes e Valéria Zeferino. Ninguém, no nosso país, […]

Portugal é um país produtor de vinhos de excelência. E se alguém pode afirmá-lo com conhecimento de causa são os provadores da Grandes Escolhas: João Paulo Martins, José Miguel Dentinho, Luís Antunes, Luís Lopes, Miguel Ferreira, Nuno de Oliveira Garcia, Paulo Pimenta, Rui Caroço dos Santos, Sérgio Lopes e Valéria Zeferino. Ninguém, no nosso país, avalia tantos vinhos e tão diversos quanto esta equipa, que conjuga experiência e juventude, irreverência e sensatez, e tem, como denominador comum, o rigor, a isenção e o sentido de responsabilidade.

Quase 5.000 notas de prova, individuais e colectivas, foram sendo compiladas ao longo do ano, e a conclusão foi a esperada: os vinhos portugueses mostram uma qualidade média elevada, vincado carácter regional e, em muitos casos, aliam uma notável expressão de terroir à excelência qualitativa.

Identificar e premiar os vinhos que mais se destacaram em cada região, ou categoria, não foi, por isso, tarefa fácil. E seleccionar o nosso Top 30 foi mais árduo ainda. Para levar a cabo esta missão, de forma rigorosa e, tanto quanto possível, justa, estabelecemos critérios. Desde logo, não considerámos vinhos já premiados em anos anteriores. Depois, deixámos de fora os vinhos produzidos em quantidade inferior a 1.000 garrafas. E, adicionalmente, para ser elegível perante o exclusivo “clube” Top 30, o vinho em questão deverá ter sido provado e aprovado como merecedor por, pelo menos, três dos 10 provadores. Tal como habitualmente, optamos ainda por escolher o melhor entre os seus pares, nas categorias espumante, branco, rosé, tinto e fortificado.

Mas a excelência dos vinhos nacionais não se esgota nestes 30 exemplos. Muitos outros igualmente merecedores poderão ser encontrados nas páginas seguintes, agrupados por região e categoria. São todos eles vinhos de primeira grandeza, vinhos de sonho que espelham o Melhor de Portugal.

Nota: A ordem das imagens é aleatória e nada tem a ver com a pontuação dos vinhos. Consulte a nota de prova de cada referência clicando em cima das imagens das garrafas.

 

 

 

A empresa do ano é…. Sociedade dos Vinhos Borges

vinhos borges

A Sociedade dos Vinhos Borges foi criada em 1884 pelos irmãos António e Francisco Borges, fundadores do Banco Borges & Irmão, para a comercialização de vinho Verde e do Porto em Portugal, e para exportação. Mais tarde, no início do século XX, após a entrada de Artur Lello no capital da empresa e na sua […]

A Sociedade dos Vinhos Borges foi criada em 1884 pelos irmãos António e Francisco Borges, fundadores do Banco Borges & Irmão, para a comercialização de vinho Verde e do Porto em Portugal, e para exportação. Mais tarde, no início do século XX, após a entrada de Artur Lello no capital da empresa e na sua gestão, também foi impulsionado o negócio de produção de vinhos com a compra da Quinta da Soalheira, no Douro, em 1904. Segundo Gil Frias, Presidente da Comissão Executiva do grupo José Maria Vieira (JMV) e administrador responsável pela Borges, os anos mais prósperos decorreram desde o final da Segunda Guerra Mundial até ao período da revolução do 25 de Abril de 1974, quando a empresa passou para o Estado português, em conjunto com o banco Borges & Irmão, quando toda a banca foi nacionalizada. Só voltou para as mãos de privados em 1988, quando integrou o Grupo BPI.

A José Maria Vieira foi, desde os anos 70 até aos 90 do século XX, distribuidora da Borges de Coimbra para Norte de Portugal, quando o Grupo BPI decidiu alienar os seus activos não financeiros, incluindo a Sociedade dos Vinhos Borges. Constituído por sete empresas ligadas à produção de café e vinho, e distribuição, a “JMV viu aí uma oportunidade de entrar na produção de vinho, para verticalizar o negócio, da vinha quase ao copo do consumidor, estender a distribuição a todo o país e incorporar a carteira de clientes de exportação da Borges”, explica Gil Frias. A seguir, foi feito um “trabalho de reconstrução da empresa, da base ao telhado”.

Um dos pilares que sustenta o negócio é a produção. Inclui uma viticultura assente numa capacidade produtiva de cerca de 330 hectares e um sector de transformação, estágio e engarrafamento baseado em “adegas equipadas com a melhor tecnologia, para produzirmos vinhos como queremos”, salienta Gil Frias. Recentemente foi feito o remapeamento da vinha, com o intuito de colocar as melhores castas nas melhores parcelas e construída uma nova adega em Sabrosa, na região duriense, “melhor equipada tecnologicamente, a nível logístico, na recepção de uva, na forma de trabalhar e na capacidade em inox, mais adequada aos tipos de vinho que queremos fazer, o que nos permitiu ter um salto qualitativo muito grande em termos de vinhos do Douro”, acrescenta Gil Frias. Um investimento já recompensado pela qualidade dos vinhos que vão chegando ao mercado e pelo sucesso junto dos consumidores. J.M.D.

O prémio Empresa do ano é patrocinado por: Domino Portugal

(Artigo publicado na edição de Março de 2026)