Barbeito: Cascos únicos, vinhos únicos

Barbeito

Já descrevemos nesta revista o fantástico percurso de Ricardo Diogo Barbeito, que pegou na empresa familiar em que nasceu e a transformou numa das marcas mais dinâmicas do Vinho da Madeira. Apesar da notoriedade alcançada, é um homem discreto que não procura as luzes da ribalta e raras vezes faz aparato aquando do lançamento dos […]

Já descrevemos nesta revista o fantástico percurso de Ricardo Diogo Barbeito, que pegou na empresa familiar em que nasceu e a transformou numa das marcas mais dinâmicas do Vinho da Madeira. Apesar da notoriedade alcançada, é um homem discreto que não procura as luzes da ribalta e raras vezes faz aparato aquando do lançamento dos seus magníficos vinhos. Por isso foi com redobrado prazer que estivemos no lançamento recente de, nada menos, nada mais, 6 novos vinhos da Barbeito.

 

Foi o primeiro na ilha a engarrafar “cascos únicos, por regra uma ou duas vezes por ano. Agora também pela primeira vez, lançou seis ao mesmo tempo e alguns deles com vinho de uma só vinha…

 

Como não poderia deixar de ser, quando falamos de Ricardo Diogo, não se trata de vinhos sem contornos diferenciadores… São todos lançamentos da sua gama “casco único”, ou Single Cask, uma gama criada pelo produtor com assumida inspiração no exemplo das bebidas destiladas, com o whisky à cabeça. O conceito encaixa na perfeição no perfil de um produtor que gosta de produzir pequenas quantidades e de ir lançando vinhos com alguma regularidade, em alguns casos algumas vezes ao ano. O cuidado e afinação de cada casco é uma paixão do produtor, não sendo de estranhar que o rótulo de cada vinho identifique o número do casco e o, ou os, armazéns em que o vinho foi envelhecido. Com efeito, na Barbeito, cada vinho é envelhecido atendendo ao seu perfil individual, não sendo raros os casos em que, por determinado vinho precisar de maior vivacidade, acabar por ser transportado para outro local mais fresco do armazém.

Outras vezes até, um casco passa por mais do que um armazém, sempre na busca do estilo que Ricardo Diogo pretende, ou seja, vinhos com boa acidez, tendencialmente secos e muito viçosos. Outra novidade é que quase todos os vinhos agora lançados provém de vinhas específicas, identificadas nos rótulos também, ou seja, o vinho engarrafado não resulta de um lote de diferentes vinhas, como tantas vezes sucede nos Madeira. Temos por isso um Tinta Negra de uma vinha plantada a sul da ilha acima dos 550 metros de altitude, e temos também um Sercial da costa norte junto à praia. E temos também um Malvasia Cândida da Fajã dos Padres (pois só ali ela existe) na costa sul e ainda um Verdelho, neste caso Frasqueira, de vinha em latada no Arco de S. Jorge no norte da ilha. Em comum a qualidade, o exotismo e a marca da frescura vibrante do produtor.

Destaque ainda para a degustação, durante uma refeição servida no final da prova, dos vinhos tranquilos da Barbeito, todos a merecer elogios, com destaque para o Vinhas do Lanço, um Verdelho da colheita de 2021, parcialmente estagiado em barrica, do qual foram produzidas menos de 800 garrafas. No final, o privilégio de beber um copo do Barbeito 50 anos Três Amigos, um extraordinário vinho, meio doce, com pouco mais de 500 exemplares engarrafados no final de 2022.

(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2024)

 

 

2015 é ano de Barca-Velha

Barca - Velha

A mais recente edição de Barca-Velha, um dos vinhos mais icónicos de Portugal, irá chegar ao mercado em Junho próximo. Desde 1952, até hoje, apenas foram lançadas 21 referências, de um tinto que é o expoente máximo da Casa Ferreirinha. “Graciosidade, carácter e persistência” são alguns dos adjetivos que o enólogo Luís de Sottomayor utiliza […]

A mais recente edição de Barca-Velha, um dos vinhos mais icónicos de Portugal, irá chegar ao mercado em Junho próximo. Desde 1952, até hoje, apenas foram lançadas 21 referências, de um tinto que é o expoente máximo da Casa Ferreirinha.

“Graciosidade, carácter e persistência” são alguns dos adjetivos que o enólogo Luís de Sottomayor utiliza para descrever um vinho que destaca pela sua “impressionante capacidade de guarda”. Foi isso que ditou a decisão final de lançamento do Barca-Velha 2015.

Declarado apenas em anos verdadeiramente excecionais, o Barca-Velha é, desde a sua criação, produzido a partir de uvas selecionadas em diferentes altitudes no Douro Superior. A Quinta da Leda, com 170 hectares de vinha, dá atualmente origem à maior parte do lote, que é composto por castas tradicionais da região.

“O anúncio de um novo Barca-Velha é sempre um momento muito especial e de enorme alegria”, salienta Fernando da Cunha Guedes, presidente da Sogrape, acrescentando que “por um lado, há o orgulho de ver nascer um dos mais emblemáticos e reconhecidos vinhos nacionais e, por outro, a consciência do cuidado imprescindível para escrever um novo capítulo, nesta história sem igual no setor vitivinícola”.

Castelão: O príncipe de Palmela

Castelão, o resultado do cruzamento natural do Alfrocheiro e Cayetana Blanca (conhecida também como Sarigo e Mourisco Branco), é uma das variedades mais antigas em Portugal, mencionada desde 1531 na zona de Lamego. Foi também conhecida como Castelão Francês (e não tem nada a ver com Castelão Nacional, que é Camarate), entre outras sinonímias menos […]

Castelão, o resultado do cruzamento natural do Alfrocheiro e Cayetana Blanca (conhecida também como Sarigo e Mourisco Branco), é uma das variedades mais antigas em Portugal, mencionada desde 1531 na zona de Lamego. Foi também conhecida como Castelão Francês (e não tem nada a ver com Castelão Nacional, que é Camarate), entre outras sinonímias menos populares.
Actualmente, o IVV reconhece dois sinónimos com restrições regionais – João de Santarém na DO DoTejo e Periquita, que está intrinsecamente ligado à sua história na Península de Setúbal. Tem a ver com a propriedade Cova da Periquita, em Azeitão, onde foram plantadas as primeiras varas por José Maria da Fonseca nos meados do século XIX. A casta adaptou-se lindamente à região e afirmou-se como parte da sua identidade no que toca aos vinhos tranquilos. Na segunda parte do século passado, o encepamento tinto representava 90% da área total da vinha da Península de Setúbal, dos quais 95% era Castelão. Ainda hoje, a DO Palmela exige 66,7% de Castelão no lote. Tirando a DO Colares com Ramisco, é a maior expressão identitária oficialmente estipulada de uma casta tinta no seu terroir de excelência.

Entretanto, o reinado na vinha não se reflectiu no sucesso comercial, por variadíssimas razões, algumas mais objectivas e óbvias do que outras. Como sempre, nestas situações as castas estrangeiras e nacionais de outras regiões parecem uma salvação. Hoje é preciso ser um entusiasta para preferir uma casta rústica e tradicional às alternativas modernas. E felizmente há produtores que reconhecem as qualidades do Castelão e apostam na casta – Casa Horácio Simões, Quinta do Piloto, Sociedade Vinícola de Palmela (SVP) e um projecto conjunto com marca Trois. A SVP, directa ou indirectamente ligada aos outros projectos citados, organizou a masterclasse dedicada à casta.
Mesmo com significativo declínio em plantação, os dados mais recentes do IVV indicam que Castelão, com cerca de 3600 ha, é responsável por 44% das vinhas na Península de Setúbal. É a região com mais Castelão em Portugal.

Luís Mendes da Associação de Viticultores do Concelho de Palmela (AVIPE) contou que, de acordo com o registo da região, existem vinhas de todas as idades, incluindo 26 ha de vinhas velhas, com cerca de 90 anos, plantadas na década de 30 do século passado e 35 ha com idade média de 80 anos. A maior parte (quase 35%) das vinhas presentes hoje na região, foi plantada na última década do século passado, um pouco menos a partir de 2000 e daí para frente a casta perde terreno. Entretanto, se há 10 anos era típico plantar Syrah em vez de Castelão, agora esta tendência travou. Curiosamente (e é bom sinal), há mais gente na região a plantar Castelão; e alguns substituem as cepas velhas por novas, utilizando o material policlonal, exemplifica Luís Mendes.

 

Castelão
Luís Mendes, da Associação de Viticultores do Concelho de Palmela, conhece a casta em profundidade.

 

O senhor das areias

A serra da Arrábida cria a barreira física para os ventos do Norte e canaliza-os em direcção a Palmela. Os rios Tejo e Sado contribuem com humidade nocturna. A proximidade do mar reflecte-se em nevoeiros que trazem frescura e também humidade. Luís Mendes exemplifica que no verão, por vezes, as temperaturas podem chegar aos 40°C de dia e cair até aos 18°C à noite. Juntamente com humidade isto permite a planta a equilibrar-se em termos hídricos.
Da Palmela a Pegões, a maior parte do Castelão, incluindo as vinhas velhas, encontra-se plantada nas planícies com solo de origem arenosa, onde as uvas amadurecem bem. São poucas as plantações que ocupam os terrenos de argilo-calcário nas encostas da Serra da Arrábida. A vindima normalmente ocorre na segunda-terceira semana de Setembro e dura até a primeira semana de Outubro. Na Serra da Arrábida a maturação é mais tardia 1 semana. A janela de oportunidade de vindima no caso de Castelão é relativamente confortável.
O Castelão resiste bem às amplitudes térmicas e à falta de água o que faz uma óptima correspondência com as condições da região. Muitas das vinhas velhas não são regadas, nas vinhas mais recentes a rega é comum. O solo arenoso é pobre e esvazia-se de água muito rapidamente, mas em algumas zonas as toalhas freáticas ajudam a salvar a situação, desde que a planta consiga fazer crescer as raízes (o que se verifica nas vinhas mais velhas, bem enraizadas).

Castelão é uma casta muito produtiva, sem controlo facilmente ultrapassa os 15 tn/ha. Como é natural, esta característica fica condicionada com idade da planta. As vinhas velhas produzem cerca de 3-4-5 tn/ha, dependendo dos clones envolvidos e das características do terreno. Os solos arenosos geralmente têm menos capacidade de retenção de água e nutrientes em comparação com solos argilosos, limitando naturalmente a produtividade e promovendo maior concentração nos bagos.
Em termos agronómicos, o calcanhar de Aquiles do Castelão é a sua grande sensibilidade ao desavinho. Também é sensível à Cigarrinha Verde, uma praga móvel, difícil de controlar que ultimamente tem dificultado muito a viticultura na região. Foi referido que, apesar de ter a película rija, os cachos sofrem bastante com escaldões. No entanto, aguenta melhor a conservação do cacho do que a Trincadeira.

Visitámos uma vinha antiga plantada entre 1954 e 1956 que pertence à Casa Agrícola Monte dos Pardais, uma das sócias da SVP. No solo tipicamente arenoso, erguem-se os troncos não aramados de vigor evidente, que mesmo na altura pós-vindima com a vinha despida se apresentavam bastante imponentes. O compasso de 2,70-2,80 m permite a passagem de um trator para fazer os tratamentos fitossanitários, enquanto outras operações não podem ser mecanizadas, devido à condução da vinha. Ao contrário das vinhas novas, onde a zona de frutificação fica a 70-80 cm do solo, nesta vinha velha, os cachos não se afastam do solo mais de 40 cm o que, obviamente, dá mais trabalho, mas afecta beneficamente a maturação. Esta vinha dá 6-8 tn/ha – nada mal para uma vinha com mais de 60 anos.

 

Versatilidade comprovada

A prova, comentada por Filipe Cardoso (sócio/enólogo da SVP e da Quinta do Piloto), José Nuno Caninhas (enólogo da SVP) e Luís Simões (sócio/enólogo da Casa Horácio Simões e director geral da SVP), foi bem didáctica, permitindo sentir a versatilidade de Castelão em função das proveniências e abordagens enológicas.
Começámos por provar as amostras desta vindima de 2023. As duas primeiras foram da Casa Horácio Simões, provenientes das vinhas com 60-70 anos de sítios diferentes. Uma da vinha Cachamurrão numa zona mais fresca localizada na Serra do Louro, que leva com ventos do Norte. Outra da vinha das Oliveiras junto a Palmela, de uma zona mais abrigada e mais quente. A vinificação foi igual – em lagar com pisa a pé e com 30% de engaço. O primeiro vinho é mais imediato, de grande limpeza aromática já nesta fase (ainda não finalizou a maloláctica), taninos mais verdes, mais perfumado, com menos concentração e acidez um pouco dura no final de boca. O segundo com mais tanino maduro e mais estrutura. O vinho final é sempre o lote dos dois, proporcionando o equilíbrio.

O terceiro vinho era da vinha mais nova, com 25 anos, da Quinta do Piloto, vinificado em cubas argelinas, onde durante a fermentação as remontagens são feitas aproveitando a pressão criada pela libertação do dióxido de carbono, sem o recurso a bombas. Estava um pouco reduzido, mas com óptima estrutura de tanino, equilíbrio e textura. “Temos que arriscar até ao final da fermentação maloláctica para não tirar o vinho a limpo, tem que ficar com a borra toda” – explicou Filipe Cardoso. Seguiu o Castelão das areias da vinha que vimos hoje. Tanino mais proeminente, ligeiro CO2 ainda, mais corpo, notas de fruta preta com destaque para amora.
O quinto vinho foi do projecto Trois, com um conceito próprio. É um pas de trois dos produtores, enólogos e amigos de longa data: Filipe Cardoso, Luís Simões e José Caninhas. Para além da amizade, une-os a predileção por Castelão. Tudo a multiplicar por três – três terroirs (das areias e da serra), três barricas diferentes, três vinificações, que no final resultam num vinho especial. O 2021 ainda não está no mercado e encontra-se numa fase intermédia a precisar de garrafa, consideram os produtores. Só é lançado quando estiver pronto. Bela fruta e elegância no nariz, barrica já está bem integrada, um apontamento vegetal q.b. para acrescentar a complexidade, não há muita secura de tanino. Suculento, elegante, fresco, delicioso. Percebe-se que o estágio em garrafa lhe vai dar mais integração geral.

Península de Setúbal é a região com mais Castelão em Portugal.

Os próximos dois vinhos da Sociedade Vinícola de Palmela já se encontram no mercado. No Serra Mãe 2020 o objectivo é enfatizar os aromas da casta. A influência da madeira é muito reduzida neste caso: apenas para melhorar a percepção geral do vinho, o pH é mais alto para não dificultar a prova. O produtor vê o vinho como “mais democrático, mas belo exemplo de casta”, como refere Luís Simões. Arbusto, groselha, framboesa e novamente arbusto com flores. Bem feito, não perde identidade, nem rusticidade, mas apresenta também algumas características facilitadoras. Funciona como uma porta de entrada para o consumidor menos experiente.
O Serra Mãe Reserva 2020 tem origem na vinha mais antiga, com 12-14 meses em barrica, sendo 10-20% barrica nova que o vinho aguenta bem graças à maior extracção. Aqui já exploraram a rusticidade, algumas rugas de tanino ficam-lhe bem. Notas carnudas, especiaria, estrutura, mas não há muita untuosidade, é enxuto, atlético, com óptima acidez. É claramente para outro tipo de consumidor.
Esta vinha dá origem ao Botelharia 2017, com o estágio mais prolongado em garrafa. Foi engarrafado em 2019. Mentol, eucalipto, esteva bem presentes no aroma para além da fruta. O volume de boca corresponde à textura, não peca por falta de frescura, musculado, mas não é difícil, até é bem sedutor e envolvente.
O Trois 2015 está no momento óptimo para beber, um Castelão feito propositadamente para ser consumido mais tarde. Tanino domesticado; complexo, mentol, cânfora, ainda fruta fresca (ameixa e cereja), cominhos, terra. De grande polimento e ainda com muita pujança. Secura elegante do tanino a pedir proteína, mas não a encortiçar a boca.
O Horácio Simões Reserva 2014, de um ano difícil com chuva na vindima, mostrou-se distinto e cheio de carácter com mentol, fruta negra, ameixa, ervas aromáticas, manjericão, tabaco e chá na vertente aromática; tanino com certa dureza, mas com os ângulos já arredondados, o que sabe bem com a frescura que o vinho apresenta. Não é pujante, sabe a vinho com certa rusticidade, bonita e bem-vinda. Óptima acidez. Clássico.

O Quinta do Piloto Reserva 2014, também feito em cubas argelinas, com 40% de engaço para fixar as antocianas, por isso a cor ainda está muito viva. Castanhas, notas mentoladas e terrosas. Contido no sabor, sendo bem vocacionado para comida.
O Quinta do Piloto Reserva 2012, foi o primeiro vinho com a marca desta propriedade. As temperaturas no verão foram sem excessos, vindima normal a partir da segunda semana de Setembro. Vinhas velhas. Barrica nova 100%. Este vinho resultou também num late release como Garrafeira 2012. Nos bons anos guardam-no para mostrar a capacidade de envelhecimento do Castelão. Muito especiado, com cravinho, tabaco, couro, eucalipto e alecrim. Tanino a agarrar as gengivas, bem seco, menos fruta, mais vegetal, couro e especiaria no final.
O Serra Mãe 2012, feito em balseiro e barricas usadas. Não foi dos mais harmoniosos no nariz, apresentando algumas notas de ferrugem; acidez bem marcante coloca o vinho fora do consenso. O Serra Mãe 2005 era o quarto vinho desde o início do projecto em 1999. Antigamente só o faziam em anos de topo. Tem bela complexidade aromática, mirtilo, mentol, eucalipto, tabaco. Vivo, denso, impetuoso, com tanino potente, rústico e robusto, com uma elegância própria que ganhou com idade.

Castelão

 

Dentro da versatilidade da casta, deve existir uma segmentação clara e uma mensagem correcta ao consumidor.

 

O que fica do Castelão?

A masterclasse proporcionada pela SVP-Sociedade Vinícola de Palmela a um grupo de jornalistas e profissionais HoReCa cumpriu por inteiro, oferecendo uma visão abrangente sobre o passado, presente e futuro da casta, na vinha, na adega, no mercado.
Historicamente, enquanto o Castelão mais polido e com menos cor levava ao desinteresse do consumidor e do produtor, o Castelão mais rústico e com carácter chegava ao mercado cedo demais. No entanto, a casta é tremendamente versátil e, quando plantada nos locais certos, muito consistente na sua qualidade. Mas dentro da sua versatilidade, deverá existir uma segmentação clara desde a vinha à abordagem enológica, pois para conquistar novamente o consumidor é necessário ter foco na mensagem. Quem procura vinhos mais fáceis, prontos e confortáveis tem de os ter, até porque a casta presta-se muito bem para isto. E quem busca os tintos sérios, personalizados, estruturados e longevos, mas sem nunca perder elegância, frescura e sofisticação, tem no Castelão de Palmela uma variedade com imenso potencial. Os vinhos estão aí a demonstrá-lo.

(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2024)

Sustentabilidade dos Vinhos do Alentejo destacada

O Programa de Sustentabilidade dos Vinhos do Alentejo (PSVA) foi distinguido nos prémios V d’Or 2024, na categoria “Best Joint Initiative”, que o destaca como melhor iniciativa conjunta do setor vitivinícola mundial. A cerimónia de entrega de prémios decorreu em Paris, na “La Nuit des V’Or”, evento que marcou o arranque da Wine Paris & […]

O Programa de Sustentabilidade dos Vinhos do Alentejo (PSVA) foi distinguido nos prémios V d’Or 2024, na categoria “Best Joint Initiative”, que o destaca como melhor iniciativa conjunta do setor vitivinícola mundial. A cerimónia de entrega de prémios decorreu em Paris, na “La Nuit des V’Or”, evento que marcou o arranque da Wine Paris & Vinexpo Paris, uma das principais feiras internacionais de vinhos.

Esta iniciativa celebra a excelência dos agentes do setor em termos de desempenho e desenvolvimento sustentável, destacados em cinco categorias: iniciativa coletiva, iniciativa de transmissão, novas soluções para negócios, experiência de marca e marketing ecologicamente responsável. A organização distinguiu o PSVA “pela atenção aos pormenores, equilíbrio e rigor, bem como pela capacidade de promover a biodiversidade e, ainda, fortalecer a reputação dos Vinhos do Alentejo em todo o globo”.

José Maria da Fonseca renova equipa de enologia e viticultura

José Maria da Fonseca

A empresa de Azeitão acaba de anunciar a nova equipa que vai dirigir os destinos da enologia e viticultura da casa. Com a anunciada retirada de Domingos Soares Franco da liderança da enologia após 40 vindimas, houve necessidade de refrescar as equipas com novos elementos. Assim, embora se mantenha ligado sobretudo às edições especiais de […]

A empresa de Azeitão acaba de anunciar a nova equipa que vai dirigir os destinos da enologia e viticultura da casa. Com a anunciada retirada de Domingos Soares Franco da liderança da enologia após 40 vindimas, houve necessidade de refrescar as equipas com novos elementos. Assim, embora se mantenha ligado sobretudo às edições especiais de moscatéis de Setúbal e aos vinhos da Colecção Privada, Domingos disse à Grandes Escolhas que entendeu que estava na hora de deixar os trabalhos quotidianos ligados à produção dos vinhos. Desta forma entrou uma nova geração de enólogos e viticultores que vão dar continuidade ao trabalho das gerações anteriores. São eles:  José Maria Bettencourt (Enólogo Principal), Francisca Figueira (Enóloga Coordenadora), Paulo Amaral (Enólogo Residente Adega José de Sousa), Tiago Mau (Enólogo Assistente e o mais recente membro da equipa) e Edgar Gomes (Viticultor Principal).

A direcção da Enologia e Viticultura ficará entregue a Paulo Hortas, que transita da anterior equipa e com muitos anos de trabalho junto de Domingos Sores Franco. Entretanto a 7ª geração da família já está há algum tempo a trabalhar na gestão e comunicação da José Maria da Fonseca (JMF), empresa familiar que completará, em 2034, 200 anos de existência. Com uma forte presença nos mercados interno e externo, nomeadamente em cerca de 70 países, a JMF tem o seu foco principal nas regiões de Setúbal e Alentejo.

No âmbito do fecho da sua carreira como enólogo da casa, Domingos Soares Franco concedeu à Grandes Escolhas uma entrevista que será publicada na edição de Março. (JPM)

Prova de conservas nacionais em Lisboa

A Associação Nacional dos Industriais de Conservas de Peixe (ANICP) organizou, recentemente, em Lisboa, uma prova comentada de conservas no restaurante Taberna Albricoque. Durante o evento foram servidos vários tipos de conservas, desde as mais tradicionais, como a Barriga de atum, às criadas mais recentemente em Portugal, como a Bicuda fumada dos Açores, para mostrar […]

A Associação Nacional dos Industriais de Conservas de Peixe (ANICP) organizou, recentemente, em Lisboa, uma prova comentada de conservas no restaurante Taberna Albricoque.

Durante o evento foram servidos vários tipos de conservas, desde as mais tradicionais, como a Barriga de atum, às criadas mais recentemente em Portugal, como a Bicuda fumada dos Açores, para mostrar o potencial da oferta nacional nesta área, que inclui quase 800 referências de 34 espécies de peixes e moluscos.

Entre outros, foi servido um patê de ovas de pescada picante, que fez boa companhia ao Marquês de Marialva Bical, da Adega de Cantanhede, um dos vinhos selecionados para acompanhar a prova, tal como com as conservas selecionadas para entrada durante este almoço, onde se salientaram o Taco de polvo com salicórnia e o Chicharro fumado dos Açores em ceviche de aipo. Outro dos vinhos seleccionados para o repasto, o Serra Mãe Reserva Branco, um Arinto da Sociedade Vinícola de Palmela, fez grande companhia com o resto do repasto, onde se salientou a Bicuda fumada dos Açores com mexilhões de caldeirada e xarém.

As conservas apresentadas são produzidas por 10 empresas do sector de Portugal Continental e Açores. Foram seleccionadas na loja da ANICP, em Lisboa, e trabalhadas na cozinha pelo chef Bertílio Gomes, proprietário do restaurante e apreciador convicto das conservas portuguesas, com o objectivo de mostrar a sua qualidade e salientar os seus aromas e sabores diferenciados, na companhia de uma selecção de vinhos portugueses. J.M.D.

António Braga: O início da aventura

António Braga

Há muitos anos que conheço o António Braga como enólogo da Sogrape. Fui ficando com a ideia de que a carreira estava traçada e que por lá ficaria muitos e bons anos. Por isso, quando nos comunicou que iria sair da empresa, fiquei muito admirado e ao mesmo tempo expectante. A conversa veio depois e […]

Há muitos anos que conheço o António Braga como enólogo da Sogrape. Fui ficando com a ideia de que a carreira estava traçada e que por lá ficaria muitos e bons anos. Por isso, quando nos comunicou que iria sair da empresa, fiquei muito admirado e ao mesmo tempo expectante. A conversa veio depois e as explicações também: “se queria ter um projecto meu, tinha mesmo de sair da Sogrape, andava há muito a magicar vinhos que gostava de fazer e por isso achei que era agora ou nunca”. Foi agora. Braga acrescenta: “não tendo eu vinhas ou adegas, não estou preso a uma região específica ou a uma vinha, isso permite-me, de uma forma bastante flexível, fazer vinhos onde quero, nos terroirs que mais me impressionam, com as castas que mais gosto”. E tratou logo de se colocar em campo para poder organizar um projecto coerente que lhe permitisse gerir melhor o tempo e fazer o que gostava: criar vinhos seus e apoiar outros projectos, como consultor. Nasceu assim a Terra Vinea, uma empresa com cinco sócios onde juntou mais quatro amigos, reservando para si a maioria do capital. A ideia é fazer vinhos originais, buscar parcelas esquecidas ou castas menos badaladas, mas conseguir que sejam vinhos expressivos e com alma. A ideia é boa e até se pode ter quem forneça uvas para o projecto mas… onde é que se põe um plano destes em prática?

A resposta a esta pergunta representou um grande passo dado por António Braga: no Douro existe uma adega da família de Mafalda Machado (enóloga) onde, juntamente com o seu marido americano – Eric Nurmi – se criou a empresa Grape to Bottle – com prestação de serviços em todas as etapas da produção de vinho. Assim, na mesma adega temos vários produtores, cada um a fazer o seu vinho, com especificações diferentes. O estágio em barrica faz-se também aqui e só o engarrafamento se efectua com recurso a aquisição externa de serviços. Eric é quem, a tempo inteiro, coordena os vários trabalhos. Foi lá que o encontrámos, em plena vindima, com muita gente na adega. Uma festa! São neste momento mais de uma dúzia os produtores que recorrem a esta adega para poderem fazer os seus vinhos. A localização (muito perto da Régua) é também uma vantagem por estar no centro da região. E com o crescimento de novas consultorias (mesmo no Douro e Verdes), António Braga já tem um jovem enólogo – João Alvares Ribeiro – a trabalhar com ele a tempo inteiro. Adquiriram-se cubas e barricas sobretudo usadas, algumas que chegaram da Borgonha com 4 anos de uso. O projecto aponta muito mais para madeira usada do que para barricas novas.

Resolvido o primeiro problema foi preciso diversificar a aquisição de uvas e partir para a descoberta de vinhas e parcelas que pudessem corresponder ao objectivo. Nasceram assim os primeiros vinhos, para já um branco feito com Alvarinho em Monção, e um tinto do Douro elaborado com uvas de Mourisco, a tal casta que há alguns (poucos) anos ninguém queria ouvir falar. Os produtores que forneceram as uvas para a primeira vindima, de que saíram agora os primeiros vinhos, voltaram a fornecer em 2023 e assim se espera que continuem, criando uma relação forte entre produtor e enólogo. Para António Braga, a sua nova aventura desenrola-se em planos bem distintos: os seus vinhos que saem com diferentes rótulos mas sempre com a sua assinatura, e o trabalho de consultoria que se estende por várias zonas do país, desde os Verdes (quinta da Minhoteira), passando pelo Douro (quinta da Ervedosa, quinta da Eiró, quinta D. Mafalda e Solar de Cambres). Em alguns casos trata-se de pequenas quintas ainda desconhecidas do grande público e de onde sairão vinhos com o acompanhamento técnico (quer na viticultura, quer na enologia) da Terra Vinea. No Alentejo está a desenvolver novos projectos com a empresa Abegoaria – criação de uma linha de Fine Wines – a partir da Herdade do Gamito mas não só, e também com a Casa Relvas.

O portefólio tem assim duas linhas: uma assente em terroirs mais tradicionais e, como nos disse, “Com uma estética mais convencional”. Essa é a gama Ipiranga. Saiu em Novembro o Ipiranga Alvarinho 2022, feito em Monção e fermentado em barricas usadas com estágio sobre borras totais durante 10 meses. Em Março, acontecerá o lançamento de 3.600 Garrafas do Ipiranga Douro tinto 2022, este feito com Touriga Francesa, Touriga Nacional, Tinto Cão e Sousão. Existirá uma segunda linha que é composta de vinhos mais originais, castas menos conhecidas, processos menos comuns. O primeiro vinho dessa gama é o Cão que Ladra Mourisco Douro tinto 2022, de que se fizeram apenas 891 garrafas. As uvas vêm de uma vinha com cerca de 40 anos, plantada a 550 metros de altitude, na freguesia da Lousa no Douro Superior; fermentou em lagar com 50% de cacho inteiro, estagiou em barrica usada

Tal como acontece com todos os novos projectos do sector do vinho, António Braga vai sentir as dores do crescimento: as garrafas chegarão a tempo? Os rótulos foram aprovados? As rolhas estão certas para a garrafa que temos? E as caixas de cartão quando é que são entregues? E como é que vou distribuir os vinhos? Entrego tudo a um ou prefiro vários distribuidores? E onde é que quero chegar? Fico-me pela paróquia ou vou tentar os mercados externos? Estas são o tipo de questões que nunca se colocaram a António Braga enquanto foi enólogo de uma grande casa de vinhos. Feito o balanço, confessou-nos que continua a acreditar que foi a melhor decisão que podia ter tomado. Como diz o ditado (nem sei bem se é ditado…), a sorte só sorri aos ousados!

 

Para António Braga, a sua nova aventura desenrola-se em planos bem distintos: os seus vinhos que saem com diferentes rótulos mas sempre com a sua assinatura, e o trabalho de consultoria.

(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2024)

Porto Ruby Reserva: Um vinho com Character

Porto Ruby Reserva

Recordo-me bem que, na época longínqua em que comecei a poder comprar as primeiras garrafas de Vinho do Porto, havia para mim a “tal” categoria do Vintage, que eu nunca tinha provado. Depois descobri que havia uma outra categoria, esta chamada Vintage Character. Continuando sem saber a distinção entre as duas – à época ninguém […]

Recordo-me bem que, na época longínqua em que comecei a poder comprar as primeiras garrafas de Vinho do Porto, havia para mim a “tal” categoria do Vintage, que eu nunca tinha provado. Depois descobri que havia uma outra categoria, esta chamada Vintage Character. Continuando sem saber a distinção entre as duas – à época ninguém explicava nada e a imprensa do sector quase não existia -, a verdade é que, comparando os preços, cheguei facilmente à conclusão que o preço do Vintage Character era muito mais convidativo. Recordo-me que o primeiro que comprei era da casa Burmester, tinha um rótulo discreto mas bonito e eu fiquei todo contente porque me estava a aproximar do altar (os Vintages…) sem ter de empatar mais do que, à época, podia. E mostrava aos amigos o tal rótulo, dizendo mesmo, “estão a ver, este Porto é do tipo Vintage”, ao que eles (ainda mais ignorantes que eu) aquiesciam com um sorriso amarelo.
Esta história, verdadeira, aconteceu comigo, mas deverá ter ocorrido com muito consumidor. O sector do Porto era muito prolífico em conceitos, categorias e nomes que, invariavelmente, apenas serviam para confundir o apreciador. Será que alguém acreditava que o vinho Founder’s Reserve correspondia exactamente a lotes de vinho que vinham do tempo da fundação da Sandeman? Ou que o Reserva Pessoal da D. Antónia era efectivamente vinho que ela tinha deixado e que continuava a ser vendido hoje? Os exemplos são vários. Estes vinhos ainda hoje existem (como se vê na minha selecção) e continuo sem ter a certeza de que todos os consumidores percebem que se trata a penas de uma marca.

Foi para clarificar a terminologia que o Instituto dos Vinhos do Douro e Porto (IVDP) acabou com a categoria Vintage Character que passou a ser designada como Ruby Reserva. Passou, tal como os Tawny Reserva, a estar incluída nas Categorias Especiais de Vinho do Porto. A nova designação, que também admite a palavra Reserve em vez de Reserva, permite ainda alguns qualificativos extra, como Especial, Special e Finest. Desta forma não há nenhuma categoria que possa incluir (em letra grande ou miudinha) a palavra Vintage, a não ser o propriamente dito ou o LBV (Late Bottled Vintage). Para o consumidor a confusão acabou aqui. De acordo com a legislação em vigor, um Porto Ruby Reserva é “um vinho do Porto de muito boa qualidade, apresentando complexidade de aroma e sabor, obtido por lotação de vinhos de grau de estágio variável que lhe conferem características organolépticas específicas e reconhecido pelo IVDP”. A primeira legislação que regulamentou as Categorias Especiais data de 1973, publicada no início de 1974.
Na história dessa categoria – Vintage Character – há que dizer que esse termo não era usado no rótulo por todas as casas. A Fonseca, por exemplo, usa hoje, como sempre usou, o nome Bin 27 para o seu Ruby Reserva, que se encaixava na categoria Vintage Character — e a Cockburn’s tinha no seu Special Reserve o vinho emblemático que era a marca de Porto mais vendida em Inglaterra.

 

Porto Ruby Reserva

 

O consumo do Ruby Reserva tem tudo de descomplicado: o vinho é filtrado antes de ser engarrafado e por isso não vai criar depósito na garrafa.

 

O que distingue o Ruby do Ruby Reserva?

Nessa categoria – Ruby – a palavra Reserva faz toda a diferença; enquanto no Ruby corrente estamos a falar de vinhos muito jovens, de pouca concentração e que provavelmente nunca passaram em madeira (também devido ao enorme montante de vinho de que estamos a falar), no Reserva já iremos encontrar vinhos com mais estrutura, onde se procurará um balanço entre vinhos que tiveram algum estágio em madeira com outros mais jovens que possam transmitir mais alegria ao lote final. Têm em comum o facto de serem vinhos que resultam do lote de várias colheitas e que têm um perfil que tende a mantar-se idêntico ano após ano. Até por isto fez todo o sentido retirar a palavra Vintage da antiga designação. Como qualquer outro vinho, tem de ser a Câmara de Provadores do IVDP a dar a aprovação do lote como sendo Reserva.

Para algumas casas – a Fonseca, a Sandeman e a Cockburn’s – esta é uma categoria emblemática, responsável por vendas em larga escala. No caso da Fonseca, Bin 27 tem tido, por informação cedida pela empresa, um crescimento anual de 3,5% ao ano e as vendas em 2022 atingiram as 40000 caixas de 12 garrafas. O principal mercado é americano, com Estados Unidos e Canadá a representarem uma grande fatia.
No caso da Symington, a marca Special Reserve é muito importante no Reino Unido (é o Ruby Reserva mais vendido naquele mercado) mas para o desenvolvimento do mercado interno a empresa enviou para esta prova o Six Grapes, o Ruby Reserva da Graham’s. Com o “peso” que o vinho da Cockburn’s tem no conjunto das vendas (62%), a Symington detém, segundo nos informou, cerca de 56% da quota mundial.
A Sandeman assume uma posição forte no mercado americano, onde o seu Founder’s Reserve tem um peso muito forte nas vendas; segue-se o Reino Unido e o mercado interno, com um bom foco no turismo (travel retail).
Na selecção que fiz para esta prova incluí vinhos com produções muito diferentes. Será sempre um erro comparar, sem explicar e integrar, a pequena produção de um produtor “de quinta” com a de uma empresa que vende milhares e milhares de caixas. Há lugar para todos e os exemplos que aqui deixamos de grandes produções mostram que, também nesta categoria, é possível fazer muito e com muita qualidade.

 

Foi para clarificar a terminologia que o Instituto dos Vinhos do Douro e Porto (IVDP) acabou com a categoria Vintage Character que passou a ser designada como Ruby Reserva.

 

O consumo do Ruby Reserva tem tudo de descomplicado: o vinho é filtrado antes de ser engarrafado e por isso não vai criar depósito na garrafa. Isto significa que o manuseamento da garrafa não requer cuidados especiais (importante na venda a retalho, nomeadamente para turistas) e é um vinho para qualquer ocasião. Os que forem um pouco mais encorpados poderão ser perfeitos companheiros para queijos mas este é aquele tipo de Porto que se bebe mesmo sem acompanhamento, mas em boa companhia.
Apenas mais três indicações finais. Primeiro, o Ruby Reserva não merece guarda, não foi para a cave que foi pensado. Por isso a ideia é comprar e beber. Também por esta razão é conveniente evitar comprar garrafas que estejam há anos e anos perdidas nas prateleiras. Apesar de ele viver bem em garrafa o tempo exagerado de estágio (espera?) em garrafa acaba por fazer com que perca brilho. Em segundo lugar, o vinho não requer decantação, mas há que ter algum cuidado na temperatura de serviço. Cerca de 30 a 45 minutos de frigorífico será o suficiente. Finalmente, ainda que possa beber com calma o seu Porto Ruby Reserva depois de abrir a garrafa, será ajuizado não a ter aberta mais de um mês porque o vinho irá perder frescura.

(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2024)

Crasto: Na vinha, onde tudo começa

Quinta do Crasto

Na Quinta do Crasto, nem todos os anos são anos de “Maria Teresa” ou “Ponte”. Do mesmo modo, os varietais de Touriga Nacional, Touriga Franca e Tinta Roriz não surgem em todas as vindimas, dependendo do comportamento de cada casta na vinha, mais regulares as duas primeiras, mais temperamental a última, exigindo também ao vinho […]

Na Quinta do Crasto, nem todos os anos são anos de “Maria Teresa” ou “Ponte”. Do mesmo modo, os varietais de Touriga Nacional, Touriga Franca e Tinta Roriz não surgem em todas as vindimas, dependendo do comportamento de cada casta na vinha, mais regulares as duas primeiras, mais temperamental a última, exigindo também ao vinho mais tempo de garrafa até chegar ao mercado. Precisamente, ao mercado chegaram agora os tintos de topo da Quinta do Crasto da colheita de 2019, desde logo o Vinha Maria Teresa (essa vindima não “deu” Vinha da Ponte), o Touriga Franca e o Touriga Nacional.
Para o enólogo Manuel Lobo “2019 foi um ano excepcional, caracterizado por uma produtividade acima da média (mais do que em 2017 e18). No entanto, a Primavera e Inverno foram bastante secos, levando níveis de reservas de água no solo demasiado baixos para as necessidades das videiras”. Porém, o deficit hídrico acabou por não afectar as videiras, uma vez que nos meses de Verão (Junho, Julho, Agosto) as temperaturas foram amenas (“menos 5ºC do que a média dos últimos 5 anos na Quinta do Crasto”, refere o enólogo). “As videiras mostravam áreas foliares equilibradas e de aparência saudável”, diz, e a vindima, iniciada com as uvas brancas no dia 26 de Agosto (as tintas começaram a 31 de Agosto), decorreu com noites frias e dias quentes. “Essencial mesmo foi a chuva que chegou nos dias 21 e 22 de Setembro, que ajudou a apurar a maturação das castas mais tardias”, adianta Manuel Lobo. No Crasto, a colheita encerrou no dia 11 de Outubro, com as uvas das vinhas situadas a maior altitude. “Um ano perfeito, de maturações lentas, como eu gosto”, confessa o enólogo.
Aqui, como em muitas outras propriedades no Douro, as diversas parcelas têm comportamentos muito distintos consoante a sua idade, castas plantadas, composição do solo, altitude ou exposição solar. Este último factor, por exemplo, é determinante nas vinhas (e consequentemente nos vinhos) Vinha Maria Teresa e Vinha da Ponte. Enquanto a primeira aprecia os anos quentes (“protegida do sol, às 4 da tarde já está à sombra”, diz Manuel Lobo), a segunda, mais soalheira, prefere os anos mais frios.
De qualquer modo, por melhores que sejam as uvas, para os vinhos de topo é feita muita selecção à entrada da adega. E depois da vinificação (na super-equipada “adega das vinhas velhas”, como lhe chamam na casa) e do estágio em madeira, só mesmo as melhores barricas chegam ao lote final de Maria Teresa ou Vinha da Ponte. As restantes vão parar ao Crasto Vinhas Velhas Reserva, que assim beneficia da qualidade e carácter que estas emblemáticas vinhas transmitem aos vinhos.

Quinta do Crasto
Miguel Roquette está envolvido na gestão da propriedade familiar, aqui acompanhado pelo enólogo Manuel Lobo.

MARIA TERESA, PLANTA A PLANTA

Na Quinta do Crasto, rodeados por aquela paisagem magnífica, espraiando os olhos pelo rio Douro, qualquer conversa começa e acaba com as vinhas. E quando abordamos os três tintos de 2019 agora apresentados, isso torna-se ainda mais inevitável, já que todos têm uma origem bem precisa. E Tiago Nogueira, o responsável de viticultura da empresa, conhece-a melhor do que ninguém.
Maria Teresa, cujo nome deriva da neta de Constantino de Almeida, fundador da Quinta do Crasto, é uma vinha mais do que centenária, e é também uma das maiores (se não a maior) vinha velha do Douro, com os seus impressionantes 4,7 hectares em socalcos tradicionais virados a nascente. São 54 castas as que ali se encontram identificadas. Representa uma autêntica arca do tesouro que a família Roquette, proprietária da quinta, tem procurado preservar e multiplicar, já que, como é natural em vinhas desta idade, muitas videiras vão morrendo ao longo do tempo (na Maria Teresa há 30% de falhas).
O primeiro grande passo no sentido dessa preservação foi o projecto PatGen Vineyards, implementado em 2013, já lá vão mais de 10 anos, portanto. “Precisávamos de salvaguardar e, consequentemente, perpetuar o património genético das vinhas velhas, dada a antiguidade destas plantações e a multiplicidade de variedades, incluindo as minoritárias ou mesmo inexistentes noutros locais”, explica Tiago Nogueira.
Assim, numa primeira abordagem, foi então realizada a piquetagem da vinha (com geo-referenciação diferencial com precisão à videira) resultando no mapeamento das 58 parcelas que compõem a vinha Maria Teresa e a sua integração num Sistema Integrado de Gestão de Propriedades (SIGP). No final, foram contabilizados 31.825 pontos de plantação com coordenadas GPS (que representam o somatório do número de videiras, falhas e bacelos), das quais 21.922 são videiras. Com recurso a drone e imagens de satélite, que possibilitam imagens de alta resolução, é igualmente possível antecipar a perda de material genético e a contagem de plantas em risco. Toda esta informação fica disponível de forma digital, funcionando como uma espécie de “vigia”, que permite perceber o estado de saúde de cada uma das plantas que existem na vinha, cuidando-as de forma mais optimizada às suas necessidades.
“Com a informação fornecida, as equipas de viticultura e enologia podem intervir, por exemplo, na fertilização manual de videiras que estejam mais vulneráveis ou em falência, e até decidir a data de vindima. Esta tecnologia permite igualmente identificar os pontos débeis e actuar com rapidez, fazendo as correcções necessárias na planta ou salvaguardar esse material genético”, refere Tiago Nogueira.
No âmbito deste trabalho, foi igualmente feita uma classificação ampelográfica das videiras, por parte de ex-colaboradores do IVDP, culminando na identificação visual das tais 54 variedades, maioritariamente tintas (tais como Alvarelhão, Casculho, Pilongo, São Saul), contabilizando-se também uma variedade tinta desconhecida e 4 brancas (Alvaraça, Malvasia Fina, Malvasia Rei e Gouveio). Como base em todo este manancial de informação, foi criado um campo de multiplicação de genótipos na propriedade, ou seja, uma espécie de “viveiro reserva” onde todas estas castas estão representadas, o que permite proceder à reposição das videiras que morrem por variedades geneticamente idênticas, perpetuando, desta forma, o encepamento integral da vinha Maria Teresa. Numa terceira abordagem, em parceria com a UTAD, está-se a proceder à caracterização genética, agronómica e química/enológica das castas desta histórica vinha.
“Queremos ter um conhecimento mais profundo da tipicidade e diversidade de variedades do Douro, um dos factores diferenciadores mais importantes da região. Quanto maior for esse conhecimento, maiores serão também as hipóteses de fazer face a pragas, doenças e alterações climáticas”, diz o viticólogo. Num futuro próximo, a Quinta do Crasto espera extrapolar este trabalho para as restantes vinhas velhas da propriedade, nomeadamente a igualmente histórica Vinha da Ponte.

VINHA NOVA, À MODA ANTIGA

No entanto, apesar de todos os cuidados, a vinha Maria Teresa não vai durar eternamente. Do mesmo modo, como acontece em todas as vinhas velhas, nem todas as castas que lá se encontram são excelentes do ponto de vista enológico. Assim, de forma faseada, em 2019, 2021 e 2023, a Quinta do Crasto resolveu plantar dois hectares de vinha em socalcos tradicionais suportados por muros de pedra de xisto. O material genético para as enxertias veio, naturalmente, da vinha Maria Teresa, mas das 54 variedades ali identificadas foram seleccionadas “apenas” 40, aquelas que se enquadram no perfil enológico pretendido por Manuel Lobo, descartando-se as castas que por norma são rejeitadas no campo e na mesa de escolha durante vindima. Das castas seleccionadas, foram pré-definidos “blends de variedades” para em função dos conhecimentos existentes sobre cada casta, se poderem aplicar especificamente a diferentes zonas da parcela, tentando obter o melhor enquadramento entre a casta e as características microclimáticas e de solo. Ou seja, sendo um field blend, a localização/enxertia de cada casta não foi feita forma aleatória. Tiago Nogueira exemplifica: “Numa zona mais fértil e húmida da parcela, fez parte do blend de variedades pré-definido, por exemplo a Tinta Barroca e o Sousão, e evitamos nestas micro-zonas, a presença, por exemplo, de Tinta Roriz ou Tinta Amarela, que naturalmente ocuparam zonas de solo mais pobre e seco.” Ou seja, respeitando os princípios tradicionais, estes foram aplicados de forma científica e com base nos conhecimentos de hoje. Das três plantações de porta-enxertos, a de 2019 já se encontra enxertada e em produção, a de 2021 foi enxertada no ano que passou, e a de 2023 será enxertada em 2025. A plantação, em alta densidade (6500 videiras por hectare) está a ser conduzida no tradicional Guyot e apoiada por rega gota-a-gota para garantir o sucesso da implantação.
“Este modelo tem muitas vantagens”, defende Tiago Nogueira. “Desde logo, a maior densidade de plantação implica menor vigor e menos produção por cepa, o que irá aumentar a qualidade da uva e dos mostos sem baixar a produtividade por hectare. Por outro lado, acreditamos que não vamos precisar de esperar tantos anos quanto num modelo convencional para obter vinhos de primeira linha. E conseguimos obter o blend pretendido directamente do campo para a adega, tentando mimetizar as vinhas velhas mais importantes da Quinta do Crasto. Há também uma componente estética: a beleza da vinha tradicional enquadra-se no património paisagístico da propriedade.”
Nem tudo são vantagens, porém. O declive dos socalcos e o compasso de plantação não permitem a mecanização da maioria das tarefas, sendo muito dependente de mão de obra, um bem cada vez mais escasso no Douro. “É uma questão de proporção”, diz Tiago Nogueira. “Por enquanto, a capacidade operativa da estrutura de viticultura da empresa consegue lidar bem com a área de vinha tradicional existente”.

TOURIGAS, NACIONAL E FRANCA

A verdade é que nem só de field blend e castas raras com nomes estranhos vivem os vinhos de topo da Quinta do Crasto. As igualmente clássicas, ainda que menos “exóticas”, Touriga Nacional e Touriga Franca são muito importantes para a construção do vasto portefólio da empresa. E, desde logo, para os seus mais famosos vinhos varietais. No entanto, tal como acontece com os tintos Maria Teresa e Vinha da Ponte, também aqui a vinha faz diferença, e muito. E estas parcelas de Nacional e Franca (e Roriz, já agora) têm também uma estória para contar.
Antes de mais, é preciso ver o contexto: nos anos 80, a Quinta do Crasto produzia unicamente vinho do Porto. Antecipando, quem sabe, a possibilidade de desenvolver um projecto de vinhos Douro (o que viria a acontecer na vindima de 1994), o casal Leonor e Jorge Roquette decidiu plantar cerca de 10 hectares de vinha nas encostas da Quinta do Crasto. Para tal, solicitaram o apoio do conceituado viticólogo Professor Nuno Magalhães que os aconselhou a plantar as três castas mais estruturantes da região: Tinta Roriz, Touriga Nacional e Touriga Franca. Escolheram-se as parcelas de meia encosta, entre os 250 e os 350 metros de altitude, situadas acima das emblemáticas vinhas velhas da Quinta que, contra o pensamento dominante na época, entenderam preservar. Assim, em 1984, 1985 e 1986, numa encosta com um declive de 30 a 40% de inclinação, exposta maioritariamente a Sul, construíram-se os patamares de 2 linhas de plantação que começavam a surgir no Douro como forma de permitir a mecanização das vinhas, até à data pouco frequente. A plantação foi feita com porta-enxertos, depois enxertados com varas de selecção massal recomendadas por Nuno Magalhães. Estas novas parcelas, plantadas em sequeiro (sem rega), totalizaram 5 ha de Tinta Roriz, 3,5 de Touriga Nacional (a Touriga “antiga”, não a de selecção clonal) e 1,5 ha de Touriga Franca.
A enxertia foi feita em ‘rupestres du lot’ e (“afortunadamente”, como diz Tiago Nogueira), foram utilizados clones pouco produtivos. “No caso da Tinta Roriz é por demais evidente, quando comparamos a produção desta parcela com as parcelas de Roriz plantadas mais recentemente, estas produzem 3 a 4 vezes mais”, refere o técnico. Somando a isto o facto de as parcelas em causa estarem bem expostas, em solos de baixa fertilidade, e serem constituídas por videiras com quase 40 anos é relativamente fácil perceber que a fruta ali originada “merece ser vinificada de forma isolada e aparecer no mercado em vinhos varietais”, remata o enólogo Manuel Lobo.

DE VOLTA AO VINHO

Ainda que não envolvidas nos vinhos agora apresentados, importa referir que a Quinta do Crasto tem também uvas brancas, de parcelas plantadas entre 2015 e 2017 nas zonas mais altas da propriedade. São cerca de 10 hectares de vinha ao alto, a mais de 500 metros de altitude, plantada com as castas Viosinho, Gouveio, Verdelho, Folgasão e Arinto. Nos últimos anos tem sido ali feito um trabalho muito intenso de melhoria da fertilidade do solo e em 2023 foi instalado um sistema de rega-gota-a-gota para complementar a disponibilidade hídrica das plantas e promover o seu equilíbrio. O destino destas uvas é o Crasto branco.
Para terminar esta volta por algumas das mais emblemáticas vinhas do Crasto, nada como regressar ao ponto de partida, o tinto Quinta do Crasto Vinha Maria Teresa. Ao lado do 2019 agora apresentado, tive oportunidade de provar os 2017 e 2018. E, mais uma vez, como tantas outras ao longos destes 30 e muitos anos de escrita de vinhos, fiquei convencido de que só percebemos inteiramente a grandeza de um vinho quando o colocamos ao lado de outros potencialmente tão grandes quanto ele. Se o 2018 se mostra fechado de aroma, mais em elegância do que potência, muito redondo, polido, profundo, rico, cheio de classe, o 2017 é ainda uma criança, enorme, tenso, pleno de raça, com fruta madura de enorme qualidade, textura de seda, especiaria, muita frescura e imenso brilho, com anos e anos pela frente. Só que, comparado com estes, o 2019 vai ainda mais longe, atingindo uma dimensão até agora, porventura, inalcançada. A nota de prova reflecte aquilo que o Maria Teresa 2019 mostra ser: absoluta perfeição numa garrafa.

(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2024)

 

Quinta Dona Sancha: Vinhos de vinha e vinhos de casta, em Silgueiros

É claramente um projecto muito local que nasceu da fusão de duas propriedades – quinta da Avarenta e quinta do Senhor Rocha. O mentor enológico do projecto continua a ser Paulo Nunes com suporte do responsável de viticultura Filipe Oliveira e o novo enólogo-residente Diogo Santos. Os vinhos da linha Vinha da Avarenta são de […]

É claramente um projecto muito local que nasceu da fusão de duas propriedades – quinta da Avarenta e quinta do Senhor Rocha. O mentor enológico do projecto continua a ser Paulo Nunes com suporte do responsável de viticultura Filipe Oliveira e o novo enólogo-residente Diogo Santos.
Os vinhos da linha Vinha da Avarenta são de lote por ter ênfase na vinha e não numa casta. Na composição do branco entram mais de três variedades, incluindo Cerceal-Branco, Malvasia Fina e Bical, curiosamente, sem Encruzado. “A matriz do vinho passa por Cerceal, uma das castas mais ácidas” – sublinha Paulo Nunes. Sem estágio em barrica, para preservar os aromas primários mais nítidos; para dar volume de boca e alguma untuosidade, faz-se batonnage na cuba.

O tinto da Vinha da Avarenta, desta vez com Jaen, Tinta Pinheira e Baga, ainda não está no mercado e só será lançado no final do 1º semestre – inicio do 2º semestre de 2024. Neste momento está a descansar em garrafa, mas a prova que fizemos revelou um vinho muito fino, de grande beleza sensorial a expressar a região e a sub-região. É só esperar por ele.
Novas colheitas de monovarietais incluem Encruzado e Cerceal-Branco (não confundir com Cercial na Bairrada e Sercial na Madeira).
Na quinta existe Encruzado de várias parcelas distintas. Para o estágio em barrica procuram uvas com acidez mais alta e o pH mais baixo. O vinho fermenta e estagia em barricas de carvalho francês e húngaro de 500 litros, novas e usadas. O Cerceal-Branco “é consistente em termos de produção e tem componente ácido forte, mas é uma casta subvalorizada no Dão” – conta Paulo Nunes. Na sua vinificação é preciso sempre trabalhar uma parte em inox (fermentação e estágio), porque ao contrário do Encruzado que “consegue romper a madeira, o Cerceal é mais lento no desenvolvimento dos aromas”. Por exemplo, mesmo sendo uma casta bastante contida em termos aromáticos, se fermentar o Encruzado a temperaturas mais baixas, consegue-se alguma exuberância. No Cerceal é mais difícil de conseguir. “A casta é muito neutra, mas evolui muito bem” – assegura.

Dona Sancha
O monovarietal de Touriga Nacional 2019 já está no mercado e foi provado pela GE anteriormente. Entretanto, merece ser mencionado por ter um carácter muito distinto da maioria das Tourigas e apresentar uma bela evolução. Há 15 anos Paulo Nunes pensou que era fácil de fazer um brilharete com Touriga Nacional. Hoje, está convencido que é uma das castas mais difíceis de trabalhar. “É tão impositiva que é preciso ter muito cuidado a tomar conta dela. Na Touriga Nacional como na Pinot Noir, é muito ténue a linha que separa o vinho que soa a música clássica daquele que é música pimba”. Sobretudo numa sub-região mais quente, como Silgueiros, cai facilmente na fruta muito madura, doce e enjoativa. No caso do Quinta Dona Sancha a Touriga não quer ser demasiado óbvia. Tem aromas de cereja (mas muito sóbria) e esteva, concentrado, mas não efusivo. Encorpado e austero, com energia de acidez perfeita, nada ostensivo, com grande vocação para mesa.

Dona Sancha

 

 

Um dos objectivos da casa é recuperar as castas antigas e tradicionais do Dão, para contrariar a tendência geral de afunilar o leque das castas em meia-dúzia principais, e para mostrar que há mais vida para além da Touriga Nacional ou Encruzado. A solução prática passou pela plantação das 39 variedades existentes no Centro de Estudo de Nelas numa parcela para avaliar o potencial de cada uma. Algumas, claro, ficam pelo caminho, até porque não se dão todas de igual forma em sítios diferentes dentro da mesma região. Por exemplo, uma das castas chamada Arinto do Interior (que, para variar, não tem nada a ver com Arinto) tem um comportamento em Nelas completamente diferente daquele que demonstra na quinta em Silgueiros. E há muitos factores por trás desta variação de comportamento. Um deles é o solo. Ao contrário da generalização, o solo no Dão não é todo granítico e não é todo pobre. “O solo da Serra é mais rico do que o solo no vale do rio Dão” – exemplifica Paulo Nunes.
Fazer ensaios com tantas castas plantadas é um projecto de longo prazo, mas o proprietário da Quinta Dona Sanha vê a sua missão neste trabalho minucioso: “a procura de irreverência, experimentação, que acaba por ser benéfico à região”. “Será um trabalho geracional e não só mais um projecto” – esta é a visão de Rui Parente.

(Artigo publicado na edição de Dezembro de 2023)