Alentejo, referência mundial do Vinho de Talha

Com cerca de 50 produtores provenientes de seis países e 1850 visitantes, a 8ª edição do Amphora Wine Day voltou a afirmar que o Alentejo é o palco mundial do Vinho de Talha. O evento decorreu, uma vez mais, na Herdade do Rocim, propriedade vinhateira localizada no concelho de Cuba, onde reuniu jornalistas, especialistas e […]
Com cerca de 50 produtores provenientes de seis países e 1850 visitantes, a 8ª edição do Amphora Wine Day voltou a afirmar que o Alentejo é o palco mundial do Vinho de Talha. O evento decorreu, uma vez mais, na Herdade do Rocim, propriedade vinhateira localizada no concelho de Cuba, onde reuniu jornalistas, especialistas e apaixonados pelo vinho, em particular por esta tradição milenar.
Um dos momentos altos foi o Amphora Wine Talks. A conversa, moderada pelo especialista de vinhos Nuno Oliveira Garcia, incidiu no tema “Da Argila ao Copo: como promover o Vinho de Talha”. Jamie Goode, nome incontornável da crítica internacional, Jenia Nikolaichuk, Wine Expert, Agathe Plantade, Wine Manager, e João Soares, produtor da Herdade da Malhadinha, em Albernôa, Beja, e da Quinta da Teixinha, na serra de São Mamede, Portalegre. Fomentar a confiança, criar cultura, reforçar a identidade alentejana e promover a autenticidade foram alguns dos aspetos debatidos ao longo deste momento.
Face a este cenário, Pedro Ribeiro, CEO e enólogo da Herdade do Rocim, e mentor do evento, declara: “o que começou no Alentejo, já não pertence apenas ao Alentejo. Pertence ao mundo.” A afirmação resulta do desafio manifestado por vários produtores, a par com a crescente afluência de uma comunidade internacional unida pela paixão pela vinificação em ânfora.
Este interesse crescente pelo Vinho de Talha tem vindo a refletir-se nas exportações. Em 2025, registou um crescimento de 22% nas exportações, com especial incremento na Ucrânia, onde o Rocim já marca presença. Estados Unidos, Alemanha, Polónia e Japão reforçam, igualmente, a aposta nos vinhos de ânfora.
Editorial: Renovar

Editorial da edição nrº 103 (Novembro de 2025) A renovação é essencial ao desenvolvimento e à própria sobrevivência das organizações. O que é válido para o mundo académico ou empresarial, é-o mais ainda para os media em geral e para a imprensa em particular, onde novas e diferentes formas de experienciar e comunicar o […]
Editorial da edição nrº 103 (Novembro de 2025)
A renovação é essencial ao desenvolvimento e à própria sobrevivência das organizações. O que é válido para o mundo académico ou empresarial, é-o mais ainda para os media em geral e para a imprensa em particular, onde novas e diferentes formas de experienciar e comunicar o mundo são condição de sucesso.
A entrada, no passado mês de julho, da jornalista Patrícia Serrado para a chefia de redacção da Grandes Escolhas, marca o início de um processo de renovação que teve, em outubro, um outro momento determinante, com a nomeação de Valéria Zeferino, colaboradora desta revista desde a primeira hora, para sub-directora. São duas profissionais de grande gabarito, que encaram com entusiasmo o desafio que têm pela frente e que, para o superar, contam com um quadro de colaboradores sem paralelo em termos de experiência e conhecimento da temática do vinho. Pretende-se, assim, uma transição suave, sem sobressaltos, que conduza a uma revista mais abrangente em termos de público-alvo, dando resposta às necessidades de informação quer dos leitores mais clássicos, quer daqueles que privilegiam o ecrã do telemóvel como transmissor de conteúdos.
Fui contratado como director de publicações periódicas aos 23 anos, ainda a concluir a universidade. Durante cinco anos dirigi, simultaneamente, revistas especializadas em diversas áreas (com destaque para informática e automóveis) até lançar a Revista de Vinhos em 1989, nascendo aí uma paixão pelo tema, que me obrigou a abandonar tudo o resto. Com 64 anos de idade, atingi 41 anos de direcção ininterrupta de revistas mensais. Acho eu, acham a minha família e os meus amigos, que já é suficiente. Quando, dentro de alguns meses, o processo de transição estiver concluído na Grandes Escolhas, poderei fazer finalmente o que há muito ambiciono: escrever e falar sobre o vinho e o seu mundo, sem qualquer outra responsabilidade, além daquela que o rigor e a consciência me ditam.
Luís Lopes
Pretende-se uma transição suave, sem sobressaltos, que conduza a uma revista mais abrangente em termos de público-alvo, dando resposta às necessidades quer dos leitores mais clássicos quer daqueles que privilegiam o ecrã do telemóvel como transmissor de conteúdos.
Com origens moscovitas, passei quase metade da minha vida em Portugal. Sou formada em Gestão e trabalhei nessa área até descobrir o melhor que este país tem: o vinho. E, quando gosto de alguma coisa, dedico-me profundamente ao tema. Estou ligada ao mundo dos vinhos desde 2012 e, com a primeira edição da Grandes Escolhas, em maio de 2017, comecei a minha colaboração com a revista. Antes disso, era assinante e fiel leitora da Revista de Vinhos, de onde toda a equipa saiu naquela altura, para fundar um novo projeto.
Tenho a sorte de trabalhar com colegas que admiro e com quem aprendi muito: João Paulo Martins, o grande guru e “papa dos vinhos”, com a sua visão crítica e impressionante consistência na prova; Nuno Oliveira Garcia, com nariz apurado e afiado sentido de humor; e Luís Antunes, que escreve maravilhosamente bem. E, claro, Luís Lopes, que considero o meu mentor e tem sido a minha referência em tudo o que faço profissionalmente.
Sem estas pessoas, eu não seria quem sou hoje. Mas também o sou porque nunca deixei de aprender. Tirei o Diploma da WSET, em Londres, que me abriu horizontes. Mas quis ir mais a fundo. Fiz o Mestrado em Viticultura e Enologia no ISA. A área a que mais me dedico é a análise sensorial, tema da minha tese, que espero concluir em breve.
O desafio é grande. Enorme, mesmo. E farei tudo para estar à altura. Nunca serei como o Luís Lopes – é impossível. Serei, sim, diferente, mas trarei as minhas qualidades, competências e dedicação à revista e aos nossos leitores, para que as escolhas sempre sejam grandes. Este é o meu novo começo, que, no fundo, é uma continuidade do caminho que me trouxe até aqui. Valéria Zeferino
Martta Reis Simões integra a Boas Quintas

Foi anunciada a passagem de testemunho na Boas Quintas. Martta Reis Simões assume a liderança da enologia, dando início a um novo ciclo dentro do projecto vitivinícola do produtor e enólogo Nuno Cancela de Abreu, que soma 43 vindimas e um percurso inteiramente dedicado à viticultura e à enologia. A ligação entre ambos advém do […]
Foi anunciada a passagem de testemunho na Boas Quintas. Martta Reis Simões assume a liderança da enologia, dando início a um novo ciclo dentro do projecto vitivinícola do produtor e enólogo Nuno Cancela de Abreu, que soma 43 vindimas e um percurso inteiramente dedicado à viticultura e à enologia.
A ligação entre ambos advém do trabalho conjunto nas regiões de Bucelas e do Tejo, a qual se tem mantido a nível profissional e pessoal, graças ao rigor e à confiança partilhados. “Nesta passagem de testemunho, sinto serenidade e orgulho em ver a enologia da Boas Quintas nas mãos de alguém muito competente e profissional”, reforça Nuno Cancela de Abreu.
Segundo Martta Reis Simões, que se despediu da Quinta da Alorna em Junho deste ano, “é um verdadeiro privilégio fazer parte da Boas Quintas, uma casa que honra a tradição vitivinícola desde 1884 e uma reputação que representa o melhor de Portugal. Encaro esta oportunidade com entusiasmo e sentido de responsabilidade por contribuir para a valorização da região do Dão e para o contínuo crescimento da empresa, dando continuidade ao notável legado enológico de Nuno Cancela de Abreu.”
A Boas Quintas produz vinhos nas regiões do Dão, de Bucelas e da Península de Setúbal e marca presença em mais de 25 países.
Conservas, a arte de preservar

E se reunisse 19 diferentes conservas numa só refeição? Sem qualquer dificuldade, diríamos, até porque existem 36 espécies de pescado e marisco em lata, de acordo com os dados da Associação Nacional dos Industriais das Conservas de Peixe (ANICP), trabalhadas por 20 empresas ativas em Portugal, e mais de 800 referências, tendo em conta a […]
E se reunisse 19 diferentes conservas numa só refeição? Sem qualquer dificuldade, diríamos, até porque existem 36 espécies de pescado e marisco em lata, de acordo com os dados da Associação Nacional dos Industriais das Conservas de Peixe (ANICP), trabalhadas por 20 empresas ativas em Portugal, e mais de 800 referências, tendo em conta a diversidade de molhos e coberturas. Mas o Chef transmontano Vítor Adão foi além do que se estava à espera, no restaurante Plano, em Lisboa, com as quase 20 variedades. Objetivo? Mostrar quão versáteis são os enlatados e quão criativa se pode tornar uma refeição.
Do início ao fim, o Chef Vítor Adão juntou três ingredientes conservados em cada momento. O primeiro reuniu uma manteiga sem sal de salmão, cavala e anchovas, as duas últimas servidas sem qualquer intervenção. Para acompanhar, foram dispostos, na mesa, pão de trigo e pão de centeio, o azeite biológico de Valpaços e as azeitonas, que fazem parte dos menus de degustação deste espaço de bem comer, onde os fermentados, os preservados e as conservas caseiros são uma constante.
A delicadeza de cada criação foi revelada ao longo do almoço. O piso de espinafres selvagens e amêndoa a acompanhar a raia, o lingueirão e o berbigão, encimados por um pickle de pêra, testemunhou a arte conjugar sabores e texturas. A subtileza do detalhe foi comprovada igualmente pelo mil folhas de sardinha e batata, constituído por três variedades deste tubérculo: Kennebec, Désirée e outra de Aljezur. “Os camarões foram aquecidos directamente na lata”, aos quais o Chef Vítor Adão juntou “uma salada, para realçar o sabor”. A tartelete de mexilhões de escabeche complementou este prato.
O mais arrojado prato foi o das ovas de bacalhau e búzios, inusitadamente conjugados com coco e batata doce. Os citrinos mão-de-buda e limão galego, usados com parcimónia, conferiram a acidez necessária, a par com os amendoins ligeiramente caramelizados. No fundo, comprovou, uma vez mais, que uma simples conservas é a base de uma criatividade infinita, aprimorada pela pelo trio composta por pescada, polvo e enguia. A estes, o Chef Vítor Adão juntou choco, halófita, batata Atlântica, de Boticas, no distrito de Vila Real, e acrescentou beurre blanc, bem como espuma da pescada.
Para finalizar o almoço, inteiramente harmonizado com vinhos da Quinta de Cypriano, localizada em Ponte de Lima, na região dos Vinhos Verdes, o Chef transmontano preparou um lingote de chocolate e lemon curd, cuja acidez cítrica se conjugou na perfeição, com o granizado de Queijo Terrincho, sendo este feito a partir de leite de ovelha Churra, existente na Terra Quente de Trás-os-Montes. Este último fez a ligação com as raspas deste produto, que Vítor Adão coloca generosamente por cima do pão-de-ló, a clássica sobremesa do Plano.
De volta às conservas, arte ancestral de preservar sabores e de promover a sustentabilidade alimentar, é de salientar que cerca de 80 por cento da produção é destinada à exportação, segundo as palavras de Marta Azevedo, Directora de Marca e Comunicação da ANICP, fundada em 1977. Além da diversidade, a nossa cicerone salienta a praticidade deste produto, que facilmente ganha protagonismo numa refeição intensamente saborosa e claramente criativa. Para o ano, ficou no ar a ideia de se fazer um almoço em que os presentes iriam “pôr a mão na massa”.
Enquanto esse dia não chega, nada melhor do que assinalar este Dia Nacional das Conservas de Peixe, que se comemora hoje, 15 de Novembro, com uma visita (2,50€ estudantes, professores e reformados/5€ público geral) à exposição “O Milagre da Sardinha – Memórias e Mistérios de um Ícone Nacional”, patente no Padrão dos Descobrimentos, em Lisboa, até 30 de Dezembro. A mostra convida a viajar pelas variadas fases inerentes à conserva, desde a pesca à preservação de uma espécie de peixe que é símbolo de Portugal, e é complementada com uma conversa partilhada entre António Marques, do Centro de Arqueologia de Lisboa, e Ana Ferreira Fernandes, autora da transcrição sobre o regulamento de venda das sardinhas, no próximo dia 23 de Novembro, sob o título “O Milagre da Sardinha”.
AXA MILLÉSIMES: Pichon Baron e Suduiraut, esplendor bordalês

Quando se fala da AXA Millésimes em Portugal, a memória recai quase inevitavelmente sobre a reputada Quinta do Noval, um nome de peso no Douro. Alguns lembrar-se-ão também da Quinta do Passadouro. Porém, esta divisão da seguradora francesa está na origem de um portefólio internacional de propriedades vitivinícolas históricas, adquiridas numa altura menos favorável, revitalizadas […]
Quando se fala da AXA Millésimes em Portugal, a memória recai quase inevitavelmente sobre a reputada Quinta do Noval, um nome de peso no Douro. Alguns lembrar-se-ão também da Quinta do Passadouro. Porém, esta divisão da seguradora francesa está na origem de um portefólio internacional de propriedades vitivinícolas históricas, adquiridas numa altura menos favorável, revitalizadas e elevadas novamente à excelência.
Nesse conjunto cintilam dois nomes maiores de Bordéus: Château Pichon Baron e Château Suduiraut, ambos presentes na famosa Classificação de 1855. Aos vinhos destas duas propriedades foi dedicada a masterclasse organizada pela Vinitrust e conduzida por Ana Carvalho, embaixadora global da AXA Millésimes.
Pichon Baron, a majestade de Pauillac
Quem percorre a Estrada D2, ao longo do Médoc, conhecida como “Route des Châteaux”, dificilmente passa sem reparar no Château Pichon Baron. Trata-se de um castelo de arquitectura renascentista francesa do século XIX, com duas torres e pináculos simétricos. A sua silhueta, digna de um conto de fadas e reflectida num lago artificial em frente, faz dele um dos postais mais reconhecíveis e fotografados da região.
Fundado no final do século XVII por Jacques de Pichon, barão de Longueville, o château permaneceu nas mãos da família por mais de duzentos anos. Em 1850, uma partilha familiar deu origem ao Château Pichon Baron tal como o conhecemos hoje, erguido por Raoul de Pichon, herdeiro da casa. À sua frente, do outro lado da estrada, fica o Château Pichon Longueville Comtesse de Lalande que outrora pertencia à mesma família.
O século XX trouxe as inevitáveis oscilações da fortuna. Foi em 1987 que a história ganhou novo impulso: a aquisição pela AXA Millésimes marcou o renascimento da propriedade. O Director Técnico Jean-René Matignon, que entrou praticamente na mesma altura, conduziu a transição com sabedoria até 2022, ano em que passou o testemunho a Pierre Montégut, também responsável pela enologia no Château Suduiraut.
Os 75 hectares de vinha, que é uma dimensão média para a região, representam o encepamento clássico de Pauillac com 66% de Cabernet Sauvignon, 27% de Merlot, 5% de Cabernet Franc e 1% de Petit Verdot, sendo que as últimas duas variedades nunca entram no Grand Vin. No passado utilizavam Petit Verdot e Cabernet Franc, mas hoje não, pois “o Cabernet Franc tem manias e o Petit Verdot confere rusticidade ao vinho”. Ainda têm cerca de 1% Semillon, o resultado da selecção massal “importada” do Château Suduiraut, do qual fazem um vinho branco seco. A idade média das videiras ronda os 35 anos, fruto de uma política de replantação anual de cerca de 1% de encepamento.
A vindima é feita manualmente e de forma muito selectiva, ao contrário de um período menos feliz da propriedade, quando a uva era colhida à máquina. A fermentação ocorre separadamente, por parcelas e castas, para isso contam com depósitos de variadíssimas dimensões.
Nos anos 1990, o Grand Vin superava as 300 mil garrafas. Hoje, em busca quase obsessiva pela qualidade, esse número foi reduzido para metade através dos critérios da selecção mais exigentes. Les Griffons de Pichon Baron, criado em 2012, junta-se ao já conhecido Les Tourelles de Longueville, como segundo vinho, mas com perfis distintos. O primeiro espelha a seriedade tânica do Grand Vin; o segundo, mais dominado pelo Merlot, revela-se pronto mais cedo. O uso de barrica nova no Grand Vin corresponde a 80% e é mais moderada nos restantes.
Château Suduiraut, a doçura repensada
A história de Château Suduiraut começou em 1580, por meio do casamento entre Nicole d’Allard e Léonard de Suduiraut. Os jardins do château, desenhados por André Le Nôtre, o mesmo de Versailles, ainda hoje testemunham grande ambição estética. Ao longo dos séculos, o Château Suduiraut foi passando de mão em mão, até mudou de nome durante algum tempo. A propriedade encontrou novo fôlego, quando foi adquirida, em 1992, pela AXA Millésimes.
Sob a direção técnica de Pierre Montégut, a casa soube adaptar-se à nova realidade: o Sauternes doce, outrora símbolo de luxo e longevidade, nas últimas décadas ia perdendo o terreno na mente do consumidor. O caminho foi claro — manter o grande vinho em doce, mas abrir espaço para a frescura dos brancos secos, também mais económicos em termos de produção e menos dependentes das condições climatéricas. Estes, não podendo levar o nome de Sauternes por imposição legal, surgem sob o rótulo genérico de Bordeaux Blanc Sec. Uma injustiça, talvez, mas uma realidade, por enquanto.
O primeiro branco seco, S de Suduiraut, foi lançado em 2004. Rebaptizado como Lions de Suduiraut, em 2021, assumiu outra ambição. É um blend de Sémillon, Sauvignon Blanc e Sauvignon Gris (casta que Pierre Montégut aprecia bastante por ser menos aromática do que o Sauvignon Blanc e conferir mais corpo), feito com maceração pelicular e fermentação parcial em barrica. A produção ronda as 70 mil garrafas.
Num patamar acima surge o Château Suduiraut Vieilles Vignes, com primeira colheita em 2020, feito a partir das vinhas mais velhas (45 anos) de Sémillon e Sauvignon Blanc. Sujeito a uma prensagem longa, extraindo alguns polifenóis, com fermentação e estágio em barrica (12% nova) de 9 meses.
No capítulo doce, o Château Suduiraut 2010 que provámos tinha 90% Sémillon e 10% Sauvignon Blanc. Em anos recentes, optaram por fazer o vinho exclusivamente com Sémillon, numa afirmação de identidade. A colheita, em várias passagens entre setembro e novembro, antecede um estágio de 20 meses, com 50% de barrica nova.
(Artigo publicado na edição de Outubro de 2025)
Canastra do Fidalgo: Entre a ria e o mar

Os antigos “palheiros” de madeira construídos pelos pescadores, posteriormente transformados em casas de veraneio, pintadas às riscas, são o mais conhecido cartão de visita da Costa Nova do Prado, atraindo muitos milhares de visitantes. Na época balnear, as praias, de extensos areais, juntam uma multidão. A partir de setembro, a fauna muda, deixando mais espaço […]
Os antigos “palheiros” de madeira construídos pelos pescadores, posteriormente transformados em casas de veraneio, pintadas às riscas, são o mais conhecido cartão de visita da Costa Nova do Prado, atraindo muitos milhares de visitantes. Na época balnear, as praias, de extensos areais, juntam uma multidão. A partir de setembro, a fauna muda, deixando mais espaço aos surfistas e àqueles que buscam as delícias que a ria e o mar têm para oferecer.
Bons restaurantes não faltam na Costa Nova (curiosamente, na Barra, mesmo ali ao lado, ainda não houve um que conseguisse ganhar notoriedade). O mais antigo, a Marisqueira da Costa Nova, fundada em 1940, pode considerar-se a mãe (ou pai) de todos os outros. Dali, saíram profissionais de cozinha e de sala que depois impulsionaram restaurantes, como o Praia do Tubarão ou o Dóri, nomes seguros na lista de “imperdíveis” da Costa, lista essa que, nos últimos anos, tem vindo a ser liderada pela Canastra do Fidalgo, sobretudo desde a aquisição do espaço, em 2018, pelo casal Leandro Mota e Joana Martins.
De uma geração diferente dos outros empresários locais, que aprenderam fazendo, Leandro e Joana conheceram-se na escola de hotelaria, onde ele concluiu a formação em Cozinha e ela em Gestão Hoteleira. O percurso académico influenciou a forma cuidada como a cozinha e o serviço são trabalhados na Canastra do Fidalgo, apoiando-se numa equipa jovem que conta, ainda, com Leonardo Costa (nos fogões) e João Candeias (na sala), e que fez deste espaço um verdadeiro hino à arte de bem comer e bem servir.
A ementa assenta na matéria prima local, entre enguias, ostras, ameijoas e berbigão, da ria, os robalos, pregados, rodovalhos, bacalhau, etc., tudo do mar, transformados em pratos – ensopados, massadas, grelhados, frituras… – que honram o receituário regional, aqui moldada com um toque contemporâneo. A carta de vinhos, vasta e coerente, busca igualmente a proximidade, com destaque para a Bairrada. E o ambiente, entre sala e a esplanada, protegida do vento norte e aquecida no inverno, alia-se à comida saborosa e genuína e ao serviço de excelência. Tudo isto torna a Canastra do Fidalgo um restaurante de visita tão obrigatória quanto as casinhas às riscas.
Canastra do Fidalgo
Av. José Estevão, 240 – Costa Nova do Prado
Fecha às segundas e domingo ao jantar.
Tel: 234394859 – geral@canastradofidalgo.pt
Palhete ou Clarete? 7 Sugestões para acompanhar castanhas

Já ouviu falar dos vinhos Palhete e Clarete? Há cada vez mais produtores a produzirem estas referências porque os consumidores também começam a procurar por este tipo de vinhos mais leves. O vinho Palhete é feito com maioria de uvas tintas, mas com alguma uva branca misturada no máximo até 15%, fermenta com as películas, […]
Já ouviu falar dos vinhos Palhete e Clarete? Há cada vez mais produtores a produzirem estas referências porque os consumidores também começam a procurar por este tipo de vinhos mais leves.
O vinho Palhete é feito com maioria de uvas tintas, mas com alguma uva branca misturada no máximo até 15%, fermenta com as películas, mas por pouco tempo e tem uma cor rosada mais carregada, às vezes quase tinto muito leve.
O vinho Clarete é um tinto com pouca maceração, feito apenas de uvas tintas. Tem um tom claro, mas mais escuro que um rosé e fermenta como um tinto (com películas).
Para acompanhar castanhas sugerimos estes dois tipos de vinho porque são simples, saborosos e descomplicados, tal como as castanhas! Podemos considerar que são a versão moderna da água pé!
GRANDE PROVA: PORTO LBV, o futuro aqui tão perto

Era uma vez um bar de vinhos em Lisboa que nasceu no ano da Expo 98. Ali, à revelia do que a legislação autorizava na época, decidiu-se servir vinho a copo; não uma zurrapa que resultava dos restos acumulados das garrafas deixadas nas mesas, mas sim, vinho de marca, de boa marca, servido em bons […]
Era uma vez um bar de vinhos em Lisboa que nasceu no ano da Expo 98. Ali, à revelia do que a legislação autorizava na época, decidiu-se servir vinho a copo; não uma zurrapa que resultava dos restos acumulados das garrafas deixadas nas mesas, mas sim, vinho de marca, de boa marca, servido em bons copos e à temperatura correcta. Ali havia dois Menus de Prova, nome aportuguesado de menu dégustation, constituído por quatro momentos (para usar a terminologia actual). Num dos menus, a sobremesa era servida com Porto LBV e, no chamado Menu Especial, o tal Porto passava a ser Vintage. Tudo raro na época, dos copos Riedel ao menu de prova e com a ousadia do Porto. Menu fixo e, logo, quem o encomendasse, tinha o Porto para beber. Ah e tal “não gosto muito de Porto”, mas, como estava “à mão” e incluído no preço, vamos beber. As surpresas foram mais que muitas. O que mais se ouvia, perante o LBV, eram frases do género: “mas isto é vinho do Porto? Mas eu nunca bebi nada assim! Isto é maravilhoso!” E assim foram muitas as garrafas que ali se consumiram e muitos os consumidores que foram conquistados.
Vamos ver a história de outro ângulo: num dos mais conhecidos restaurantes de Lisboa, daqueles que vendem centenas de garrafas por dia, reparo que, na cave, há muitas garrafas de Porto. Indago: porquê tantas garrafas, se não servem Porto à mesa? Resposta desconcertante de quem manda na casa: “o problema é que se os clientes começam a beber Porto e nunca mais se vão embora e o que eu quero é rodar as mesas!” Não é preciso dizer mais. Se a restauração não aposta no Porto e se as empresas não apostam na restauração ou, para ser mais justo, na promoção em geral, e se o IVDP faz menos do que deveria pela promoção do Porto no mercado nacional, não há grande futuro pela frente. Mesmo que fosse servido como “oferta da casa” ou “mimo do Chef” ou outra designação pomposa, uma garrafa de Porto LBV faria felizes 10 a 15 clientes. Dizer que seria uma boa maneira de os convidar a voltar é tão óbvio que nos abstemos de o comentar.
Verdadeiramente especial
O LBV integra as Categorias Especiais de Vinho do Porto, dentro da família Ruby, os Porto de tonalidade vermelha e vocacionados para a evolução em garrafa, como o Vintage. Na outra família encontramos os Tawnies, os vinhos do casco, onde vamos encontrar as referências com indicação de idade, e os Colheita, todos longamente estagiados em madeira.
Tal como aconteceu com outras categorias de Porto, o LBV nasceu sem nome identificativo; era um Porto que não era Vintage, que tinha ficado para trás e que algumas casas engarrafavam com alguns anos, na expectativa de poderem vender com outra marca. Algumas, como a Ramos Pinto, tinham mesmo vinhos da década de 20 do século passado correspondentes a essa categoria. Assim, quando finalmente a legislação saiu em 1973, e entrou em vigor em Janeiro de 1974, algumas casas – com base nas contas correntes que tinham no IVDP – resolveram colocar no mercado vinhos com a designação LBV, engarrafados entre o 4º e o 6º ano após a vindima, de boa concentração de cor e mais acessíveis, para serem consumidos novos.
Ao operador eram deixadas várias opções: fazer um LBV previamente filtrado ou, em alternativa, engarrafar vinho sem filtração, com essa indicação (facultativa) no rótulo; esta categoria permitia ainda que um vinho fosse guardado na empresa muito mais tempo do que o previsto na lei, podendo então ser usada a designação Bottled Aged.
Nesta Grande Prova vamos encontrar LBV dos três tipos. Algumas empresas têm crescido muito nesta categoria, como a Taylor’s, que faz do LBV a sua principal referência, com cerca de 1.500.000 garrafas/ano. Trata-se de um vinho filtrado e que, por via disso, tem todas as características para ser um “Porto de restaurante”, uma vez que não requer decantação nem manuseamento especial e, sem problema, pode viver com qualidade até um mês depois de aberto. Tudo boas razões que, infelizmente, a nossa restauração não parece querer aproveitar. Ainda no grupo Quinta and Vineyard Bottlers (a que pertence a Taylor’s), a Fonseca faz “somente” 66.000 garrafas. Cremos que pelo facto da sua marca emblemática não ser um LBV, mas sim o Ruby Reserva Bin 27, um Porto que se situa a meio caminho entre o Ruby e o LBV. A Croft, mais comedida, faz cerca de 26. 500 garrafas.
Em Portugal e no mundo
Mesmo o consumidor mais avisado tende, por vezes, a olhar para o LBV como um Porto de consumo enquanto jovem. Tal não deve ser encarado como regra: apesar de ser bebível logo que é colocado à venda, o LBV mantém boas condições de prova durante décadas. Recordo-me de um LBV não comercializado, de um ano menos bom (1969) e que Peter Symington, então enólogo da empresa, resolveu engarrafar para comemorar o nascimento do filho. Passados 50 anos o vinho continua a dar boa prova.
O grupo Symington Family Estates é também muito forte nesta categoria: a marca Graham’s faz 740.000 garrafas, muito acima das restantes marcas do grupo; mais recentemente, também levou a cabo uma edição especial do LBV Graham’s Malvedos 2018, feito unicamente com uvas desta quinta, num total de 36.000 garrafas.
Os principais grupos do sector apostam forte nesta categoria, diversificando muito os mercados de destino. O grupo Kopke (antiga Sogevinus) faz 600.000 garrafas de LBV distribuídas pelas várias marcas; a Granvinhos vende 225.000 garrafas; a Sogrape, engarrafou 120.000 unidades em 2024, com maior foco nas marcas Ferreira e Sandeman, significativamente mais do que engarrafou em 2025. Para a Sogrape, o mercado interno representa 54% das vendas.
Este tipo de Porto presta-se muito para o engarrafamento de BOB, ou seja, vinhos com a marca do comprador (seja um distribuidor ou grande superfície) e isso é válido, quer para o mercado interno, quer para a exportação. A Granvinhos, tradicionalmente muito forte no mercado francês, faz cerca de 150.000 garrafas com a marca do comprador e qualquer visita que possamos fazer a uma loja de vinhos ou supermercado no centro/norte da Europa, vamos encontrar, com certeza, Porto LBV com marcas que não conhecemos.
Quando a categoria nasceu, o mercado inglês terá sido o destino inicial (muito por força das empresas inglesas do sector) mas, hoje, o mercado europeu, os EUA e o Canadá absorvem a maioria da produção, com o Brasil a mostrar igualmente algum interesse. E, claro, o mercado interno, beneficiando da exposição em termos de locais de enoturismo e onde é possível provar e comprar estes vinhos, quer no Porto (e Gaia), quer no Douro.
Vamos lá com calma ou a correr?
Por norma, os LBV são engarrafados logo que a lei autoriza, ou seja, ao 4º ano após a vindima. Quer isto dizer que poderíamos estar a provar agora o 2021 mas, dessa colheita, nesta prova, só tivemos um vinho, do Vallado; a esmagadora maioria dos vinhos avaliados nasceram na colheita de 2020 e, aqui e ali, algum mais antigo, como a Quinta do Grifo. Quanto a antiguidade, já se sabe, por experiência anterior, o LBV da Warre é sempre o vinho mais antigo destas provas. Longamente estagiado em cave, este, agora provado, tem a bonita idade de 15 anos, mas, como se percebe, apresenta uma saúde de ferro. Trata-se de um modelo de LBV que não teve seguidores noutras casas, mas que fazemos força para que continue. Com uma relação preço/prazer absolutamente esmagadora, é sempre dos vinhos que mais gostamos de provar. Depois de quatro dezenas de vinhos provados, fica-nos a eterna dúvida: devemos beber o LBV novo ou esperar por ele e deixá-lo dormir em cave? As respostas seguem dentro de momentos…
(Artigo publicado na edição de Outubro de 2025)
-

Kopke
Fortificado/ Licoroso - 2020 -

Graham’s
Fortificado/ Licoroso - 2020 -

Fonseca Unfiltered
Fortificado/ Licoroso - 2019 -

Ferreira
Fortificado/ Licoroso - 2021 -

Churchill’s
Fortificado/ Licoroso - 2019 -

Warre’s Bottle Aged
Fortificado/ Licoroso - 2011 -

Ramos Pinto
Fortificado/ Licoroso - 2019 -

Quinta da Gaivosa
Fortificado/ Licoroso - 2019 -

Burmester
Fortificado/ Licoroso - 2019 -

Andresen Unfiltered
Fortificado/ Licoroso - 2020
-

Vasques de Carvalho
Fortificado/ Licoroso - 2020 -

Van Zellers & Co Unfiltered
Fortificado/ Licoroso - 2020 -

Rozès Unfiltered
Fortificado/ Licoroso - 2019 -

Quinta do Noval Single Vineyard Unfiltered
Fortificado/ Licoroso - 2019 -

Quinta de la Rosa
Fortificado/ Licoroso - 2019 -

Quinta das Carvalhas
Fortificado/ Licoroso - 2020 -

Quinta da Romaneira Unfiltered
Fortificado/ Licoroso - 2019 -

Poças
Fortificado/ Licoroso - 2020 -

Pacheca Unfiltered
Fortificado/ Licoroso - 2018 -

Menin
Fortificado/ Licoroso - 2019
-

DR
Fortificado/ Licoroso - 2016 -

Dow’s
Fortificado/ Licoroso - 2020 -

Dalva
Fortificado/ Licoroso - 2019 -

Cruz
Fortificado/ Licoroso - 2019 -

Croft
Fortificado/ Licoroso - 2019 -

Cockburn’s
Fortificado/ Licoroso - 2019 -

Borges
Fortificado/ Licoroso - 2019 -

Barros
Fortificado/ Licoroso - 2019 -

Vista Alegre Unfiltered
Fortificado/ Licoroso - 2019 -

Vieira de Sousa Unfiltered
Fortificado/ Licoroso - 2019
-

Velhotes
Fortificado/ Licoroso - 2019 -

Messias Unfiltered
Fortificado/ Licoroso - 2019 -

Cálem
Fortificado/ Licoroso - 2019 -

Vallado
Fortificado/ Licoroso - 2021 -

Taylor’s
Fortificado/ Licoroso - 2020 -

Sandeman
Fortificado/ Licoroso - 2021 -

Quinta do Grifo
Fortificado/ Licoroso - 2015 -

Quinta do Crasto Unfiltered
Fortificado/ Licoroso - 2017 -

Quinta de Ventozelo
Fortificado/ Licoroso - 2021 -

Offley
Fortificado/ Licoroso - 2021








































