Editorial: Os amigos do vinho

Editorial da edição nrº 114 (Outubro de 2026) Imaginem um restaurante com todas as mesas cheias. Com grupos de amigos, com casais, com pessoas de idades diferentes, de nacionalidades diferentes. E em todas as mesas bebem vinho. Mesmo naquelas com duas pessoas, vê-se uma garrafa, ou um frapé ao lado, e dois copos. You […]
Editorial da edição nrº 114 (Outubro de 2026)
Imaginem um restaurante com todas as mesas cheias. Com grupos de amigos, com casais, com pessoas de idades diferentes, de nacionalidades diferentes. E em todas as mesas bebem vinho. Mesmo naquelas com duas pessoas, vê-se uma garrafa, ou um frapé ao lado, e dois copos. You may say I’m a dreamer. E, no entanto, já vi isto acontecer.
Estive com uns amigos em Vila Nova de Milfontes, onde fomos jantar a um restaurante típico e bem conhecido desde 1990. Estou a falar da Tasca do Celso. Éramos seis. Comemos várias entradas e partilhámos pratos. A casa tem uma grande garrafeira, mas o que mais me impressionou foi a forma como, organicamente, o vinho é envolvido no serviço.
O escanção, que julgo ser também o chefe de sala, era antes de tudo um verdadeiro anfitrião: conversava com os clientes em cada mesa de maneira descontraída e afável, mostrava-se disponível para ajudar na escolha de vinhos, com convicção, mas sem superioridade. Conseguia criar uma relação de confiança, quase de cumplicidade, com quem estava à mesa. Recebeu-nos logo com um Cava, depois sugeriu alguns brancos e tintos, praticamente um vinho para cada prato, e um Madeira no final. Percebendo que gostávamos de vinho, trouxe duas garrafas às cegas. Tudo servido em bons copos, adequados para cada vinho.
Observei as mesas à minha volta, umas com estrangeiros, outras com portugueses. Todos tinham vinho nos copos. A certa altura fui ver a outra sala. A mesma coisa: cheia de gente e todos com vinho. Por momentos, pensei que a crise não tinha chegado até aqui. Lembrei-me de alguns restaurantes em Lisboa e noutras localidades do país, até em zonas vitivinícolas, onde se via gente a acompanhar a refeição com água ou imperiais.
Uma casa amiga do vinho é onde existe curadoria humana. Vai para além de uma extensa carta de vinhos e preços adequados. Tem a ver com a forma como o vinho chega à mesa e pela relação de confiança que se cria à sua volta
No final, esperava uma conta bem alta. Pagámos apenas 50 euros por pessoa. Um preço mais do que razoável por tudo o que comemos e bebemos, pela qualidade da comida e dos vinhos e, sobretudo, pelo que sentimos à mesa e pelo serviço.
O tema dos preços dos vinhos na restauração é polarizante. Não pretendo entrar por esta via, porque o exercício dos preços tem de ser feito com uma calculadora na mão, contemplando todas as variáveis, caso a caso. Não me cabe dizer aos proprietários de restaurantes como devem gerir o seu negócio. O mercado encarrega-se de corrigir os erros: ou os vinhos não vão rodar, ou o restaurante não consegue cobrir os custos e criar lucro. Por isso, uns duram décadas e outros fecham as portas quando a moda passa. E também por isso que admiro quem consegue encontrar um equilíbrio nos preços, para que o restaurante seja sustentável e o cliente não se sinta roubado.
Ora, se este restaurante se considera um amigo do vinho, quais não o são? Novamente, a questão não se resume apenas ao preço. Diria que são os que não se interessam pelo vinho como componente gastronómica, por preguiça ou falta de critério. Aqueles que trabalham sempre com quatro ou cinco marcas e nem sequer experimentam algo novo, porque “em equipa que ganha não se mexe”. Ou, pelo contrário, os que estão prontos a tirar um vinho da carta, só porque alguém ofereceu outro cinco cêntimos mais barato.
Oxalá haja mais restaurantes onde exista curadoria humana. Pois o segredo vai muito para além de uma extensa carta de vinhos e preços adequados. É preciso conhecer a casa, conhecer a comida, conhecer os clientes, ou rapidamente perceber o que procuram e ter vontade genuína de arranjar o vinho certo para esta ou aquela mesa. É mais do que serviço, é verdadeira hospitalidade vínica. V.Z.
Naquele tempo… por Luís Lopes

Quanto custava, há 30 anos, um vinho famoso? Que marcas se vendiam? Das que sobreviveram, quais as que mais valorizaram? No decorrer de uma limpeza das prateleiras lá de casa, a descoberta de um conjunto de catálogos de feiras de vinho deu resposta a algumas destas questões e trouxe-me de regresso à idade de ouro […]
Quanto custava, há 30 anos, um vinho famoso? Que marcas se vendiam? Das que sobreviveram, quais as que mais valorizaram? No decorrer de uma limpeza das prateleiras lá de casa, a descoberta de um conjunto de catálogos de feiras de vinho deu resposta a algumas destas questões e trouxe-me de regresso à idade de ouro do negócio do vinho em Portugal.
Antes de mais, importa contextualizar. Há mais de três décadas, as feiras de vinho dos hipermercados nada tinham a ver com as actuais. Hoje, são uma concentração de campanhas e promoções. Naquela época, eram uma oportunidade única para um consumidor, cada vez mais interessado e interessante (em termos de poder de compra), aceder, em qualquer ponto do país, a vinhos consagrados, vinhos que só se vendiam em raras lojas de Lisboa e Porto. A importância destas feiras era de tal ordem, que os grandes produtores esperavam por elas para lançar as novas colheitas. E os compradores dos hipermercados corriam o país, batendo à porta dos produtores mais pequenos e reputados, pedindo o especial favor de lhes ser vendido o vinho mais raro e mais caro. A feira do Pingo Doce foi pioneira e líder nesse conceito, apresentando os vinhos em catálogos luxuosos, que eram, depois, distribuídos nas lojas e encartados no jornal Expresso do fim de semana anterior à feira. Os catálogos, autênticas revistas especializadas, com informação didáctica, reportagens, etc., eram avidamente lidos e pesquisados pelos apreciadores, que irrompiam pelas lojas com o caderno debaixo do braço, em busca dos vinhos que tinham anotado.
Apenas dois exemplos, para mostrar o impacto da coisa: marcas como Ferreirinha Reserva Especial, Quinta do Côtto Grande Escolha, Duas Quintas Reserva, Cartuxa Garrafeira (sim, existiu um Cartuxa Garrafeira!), Mouchão ou Luís Pato Vinhas Velhas eram das que primeiro esgotavam nas prateleiras; e a vasta campanha de marketing televisiva da edição de 1995 foi protagonizada por um rapaz chamado Dirk Niepoort. Outros tempos, como se percebe.
Talvez um dia volte a este tema das feiras, mas, hoje, centro-me no que aqui me trouxe: os preços de antigamente e a maior ou menor valorização das marcas. À minha frente, tenho os catálogos das Feiras Pinto Doce entre 1991 e 2004 (este último, com a curiosidade de ter os preços em euros e escudos, não fosse alguém baralhar-se nas contas). Apontando a um número redondo, recuemos então 30 anos, à feira de 1996.
O exercício que vos proponho, nada tem de científico, é apenas lúdico. Trata-se de comparar quanto custava em 1996 e quanto custa hoje um determinado vinho; e reflectir sobre isso, tirando as ilações possíveis
Comparar preços com um intervalo de três décadas é sempre muito pouco rigoroso. Para calcular o efeito da inflação com a conversão de escudos para euros, existe uma excelente ferramenta, o Índice de Preços no Consumidor (IPC), disponibilizado no site do Instituto Nacional de Estatística. Há que ter o cuidado de escolher a opção que exclui o mercado imobiliário (a valorização dos imóveis distorce tudo o resto), mas a fórmula que calcula entre anos (e meses!) é muito boa.
No entanto, quando se aborda um sector tão específico quanto o do vinho, a inflação média é um dado enganador. É que, em 30 anos, os custos de produção nesta vertente agroindustrial subiram muito mais do que a inflação, começando pelos salários agrícolas (que dispararam face à escassez de mão de obra), e continuando nos produtos para a vinha, gasóleo, garrafas, rolhas, transportes, distribuição, marketing, etc. E, não sendo eu economista (muito, muito longe disso!), acredito que os naturais ganhos de eficiência trazidos pela gestão moderna e pela tecnologia estão muito longe de compensar o enorme aumento dos custos de produzir e vender uma garrafa de vinho.
Assim, o exercício que vos proponho, nada tem de científico, é apenas lúdico. Trata-se de comparar quanto custava em 1996 e quanto custa hoje um determinado vinho; e reflectir sobre isso, tirando as ilações possíveis.
Na região dos Vinhos Verdes, várias marcas consagradas perderam valor, o que, de alguma forma, se compreende pelo enorme crescimento do volume engarrafado. O Adega de Ponte de Lima Loureiro de 1995 custava, em 1996, 435$00, o que, segundo o IPC, equivale hoje, actualizando inflação e convertendo em euros, a €3,98. Uma pesquisa na web diz-me que posso comprar a colheita de 2025 por €4,29. Objectivamente, e pelos motivos acima apontados, há aqui uma desvalorização. O mesmo se passa com o Adega de Monção Alvarinho 1995 (a adega de Monção ainda não tinha a marca Deu-la-Deu). Era o melhor vinho da casa e custava 989$00 (IPC €9,06), o que era um preço muito elevado para um branco. Compra-se hoje o Deu-la-Deu por €7,89. Mais uma vez, é necessário contextualizar: há 30 anos, estes vinhos de Monção e Ponte de Lima eram engarrafados em quantidades comparativamente pequenas e a competição nos varietais de Loureiro e Alvarinho era reduzida.
No Douro, um nome absolutamente incontornável, em meados dos anos 90, era o Quinta do Côtto Grande Escolha. A colheita de 1994 vendia-se a 3.995$00 (IPC €36,58) e era o vinho tinto mais caro da feira de 1996, o que diz muito do seu estatuto. O tempo, opções erradas e o disparar da concorrência no Douro trouxeram enorme erosão a esta marca, que ainda assim recuperou algum do brilho de outrora após a sua aquisição pelo grupo Mello/WineStone em 2023. Hoje, o Grande Escolha custa €65.
Para percebermos a escala da mudança, basta assinalar que o Quinta do Côtto Grande Escolha 1994 valia mais do que o Ferreirinha Reserva Especial 1986, que custava 3.249$00, algo como €29,75 aos dias de hoje, com actualização da inflação. Seria bom comprar uma garrafinha de Reserva Especial por esse preço, não era? Mas não. A colheita mais recente de Ferreirinha Reserva Especial (2017) custa entre €375 e €445. De entre os vinhos avaliados foi, em três décadas, e de muito longe, o que mais valorizou, quer na origem, quer no mercado especulativo. Mas só as grandes marcas suscitam tamanha apetência, geradora da especulação.
Se Côtto e Ferreirinha representavam o Douro antigo, os dois nomes seguintes espelhavam, como nenhum outro, o Douro moderno: Duas Quintas Reserva 1992 e Quinta da Gaivosa 1994, ambos lançando na feira a sua segunda edição. O Duas Quintas custava 2.695$00 (IPC €24,68). Hoje, custa €41. Dado curioso, na feira de 1995, o Reserva de 1991 valia 1.145$00. Num ano, duplicou de preço! O que revela não apenas o enorme frenesim que a marca suscitou nos primeiros anos de vida (há, no Douro, um antes e um depois do Duas Quintas) mas também a tremenda disponibilidade (apetite e dinheiro) do mercado, capaz de absorver um aumento de 100%, de um momento para o outro, como se nada fosse. Eram ou não tempos dourados? Ainda assim, a “explosão” de grandes marcas durienses na segunda metade da década de 90 e início de 2000 (Crasto, Vallado, Batuta, Pintas, etc.) viria, com o tempo, a abrandar o crescimento expectável do Duas Quintas Reserva, mais do que o do Quinta da Gaivosa, que passou de 1.799$00 (IPC €16,47), para os €45 actuais.
Os naturais ganhos de eficiência trazidos pela gestão moderna e pela tecnologia estão muito longe de compensar o enorme aumento dos custos de produzir e vender uma garrafa de vinho
Se o Douro estava a começar a dar que falar nos “não Porto”, o Alentejo era já, há vários anos, a região líder de vendas, com marcas de volume e vinhos de “conhecedores”. Nos lugares cimeiros, Mouchão, claro. O vinho de 1992 era proposto por 2.995$00 (IPC €27,42), um preço que o colocava no topo da oferta Alentejo da feira. A colheita mais recente do Mouchão compra-se por €50, uma valorização bem interessante, mais ainda se pensarmos que, entretanto, surgiu o Mouchão Tonel 3-4 e o que era então o “grande vinho” passou a “segundo vinho”.
Nome consagrado já era, na altura, o Reguengos Garrafeira dos Sócios. Também estava a ser lançada a colheita de 1992, por 1.735$00 (IPC €15,89). Muito bem, a valorização da marca ao longo destas três décadas, já que custa, hoje, €30. O que significa que o consumidor continua a vê-lo como vinho de topo, produzido em quantidades limitadas, sem lhe associar o “estigma de preço” de adega cooperativa.
Não se pode falar do Alentejo dos anos 90 sem mencionar Cartuxa. Curiosamente, no catálogo de 1996 não há Cartuxa tinto, não sei porquê (no ano seguinte, entrou o Cartuxa Reserva 1994, a 1.295$00). Mas havia o Cartuxa branco 1994. E custava 745$00 (IPC €6,82), valorizando desde então até aos €16, o que é muito bom. Tenhamos presente que, há três décadas, os vinhos brancos valiam quase metade dos tintos. Para um branco se aproximar dos 1.000$00 tinha de ser um Alvarinho ou então algo de muito especial em termos de notoriedade. Era o caso do Quinta dos Carvalhais de 1994, o vinho branco mais caro da feira, custando 1.195$00 (IPC €10,94). Hoje vale somente €9,90. A ter em conta: a linha Quinta dos Carvalhais tem passado por diversos reposicionamentos. Mas, sobretudo, em 1996, Quinta dos Carvalhais era a marca mais “in” do Dão, com a adega mais moderna e sofisticada de Portugal. O branco Carvalhais valia então mais do que o famoso Casa de Santar Reserva tinto. Deste, a colheita de 1992 custava 795$00 (IPC €7,28); hoje compramos a versão mais recente por €14,50.
Do Dão para a Bairrada, e para os dois nomes mais emblemáticos dos anos 90 na região, Casa de Saima e Luís Pato. O Casa de Saima Garrafeira 1991 era um vinho de enorme prestígio, mais do que justificado, diga-se, pois ainda hoje este tinto em concreto está grandioso (eu sei porque ainda tenho umas garrafas…). Custava 3.295$00 (IPC €30,17), mais caro do que o Ferreirinha Reserva Especial! O Casa de Saima Garrafeira (no mercado está o 2015) compra-se, agora, por €58, uma valorização sem dúvida importante, mas menor do que então prometia. Já o Luís Pato Vinhas Velhas de 1992 valia 2.199$00 (IPC €20,13) e uma colheita recente custa €17,50. Mas atenção: o Vinhas Velhas era então o topo de Luís Pato, pois Vinha Pan, Vinha Barrosa, Quinta do Ribeirinho Pé Franco, ainda não tinham surgido no mercado. Com a chegada destes, o Vinhas Velhas tomou um lugar mais abaixo na hierarquia.
O Ferreirinha Reserva Especial 1986, custava 3.249$00, algo como €29,75 aos dias de hoje, com actualização da inflação. Seria bom comprar uma garrafinha de Reserva Especial por esse preço, não era?
Para finalizar esta viagem a 1996, dois vinhos de outro tipo, um espumante e um Porto. No catálogo de 1996 está o Quinta das Bágeiras Super Reserva branco 1993, vendido por 925$00 (IPC €8,47) e que se compra agora por €17. Uma valorização muito consistente, sobretudo se considerarmos que, na altura, o produtor fazia muitíssimo menos espumante do que faz hoje.
O Porto é a categoria de vinho que menos valorizou (ou, dito de outra forma, que mais desvalorizou, confrontando o aumento de custos reais vs. preço de venda), mas isso não será propriamente uma surpresa para quem segue o mercado. O Tawny 20 anos da Niepoort era dos mais cotados na época. Custava então 4.945$00 (IPC €45,28) e custa, hoje, €56. Uma valorização apenas virtual, que não compensa o crescimento dos custos de produção e que espelha as dificuldades que a fileira do vinho do Porto atravessa. Recuar no tempo é um exercício fascinante, mas nem todas as memórias nos deixam completamente felizes. L.L.
(Artigo publicado na edição de setembro de 2026)
A herança de Michel Rolland: entre o vinho limpo e o palato globalizado

Michel Rolland (1947-2026) Foi, sem sombra de dúvida, o grande arquiteto da enologia contemporânea, o homem que dividiu o mundo do vinho em duas fações de contornos quase religiosos. De um lado, os acérrimos defensores que o percecionaram como o salvador iluminado portador da higiene às trevas das adegas sujas. Do outro, os detratores que […]
Michel Rolland (1947-2026)
Foi, sem sombra de dúvida, o grande arquiteto da enologia contemporânea, o homem que dividiu o mundo do vinho em duas fações de contornos quase religiosos. De um lado, os acérrimos defensores que o percecionaram como o salvador iluminado portador da higiene às trevas das adegas sujas. Do outro, os detratores que o diabolizaram como o grande destruidor da alma do “terroir” e o mercenário da padronização.
Hoje, afastados do calor das paixões mais imediatas que marcaram o início do milénio, torna-se imperativo separar o homem da sua caricatura pública e a ciência enológica do panfleto ideológico.
O homem e a lente
Para dissecarmos o “fenómeno Rolland”, somos obrigados a recuar ao abalo provocado por Mondovino, lançado em 2004. Realizado pelo luso-americano Jonathan Nossiter com uma câmara numa mão trémula. Este filme, nomeado para a Palma de Ouro, abalou as fundações da indústria. Mas sejamos claros, a película tratou-se de um manifesto cinematográfico e de um panfleto ideológico quase visceral contra a globalização cultural, usando o vinho como metáfora.
A lente cirúrgica do realizador transformou o consultor no “Darth Vader” da enologia. Rolland raramente pisa a terra no filme e é cinematografado, quase em exclusivo, no banco de trás de um carro com motorista, rindo e fumando charutos enquanto salta de propriedade em propriedade, consolidando a imagem do burocrata mercenário. A sua ordem repetida por telemóvel para “micro-oxigenar” os vinhos tornou-se o símbolo da manipulação laboratorial. A sua arrogância imperial ficou selada quando desvalorizou os críticos com sorrisos condescendentes.
Nossiter teve o mérito de iniciar um debate sobre a perda de tipicidade, mas a sua obra pecou por omissão. A realidade que o filme escondeu é que o vinho tradicional europeu estava frequentemente minado por defeitos bacterianos e outros praticamente intoleráveis nos dias de hoje: a acidez agressiva, os taninos verdes e a temível brettanomyces (que se traduz num odor a estábulo). Na altura eram romanticamente indulgenciados como produtos do “caráter local”. Rolland não inventou uma “fórmula do mal”, mas erradicou estes defeitos, trazendo higiene e ciência às adegas que viviam ancoradas no romantismo de vinhos difíceis. Técnicas diabolizadas, como a micro-oxigenação, salvaram muitos produtores da falência em anos desastrosos.
O A-B-C de Peynaud
Para compreender Michel Rolland, temos de ler a cartilha do seu professor, Émile Peynaud, o verdadeiro “pai” da enologia moderna. Se Peynaud foi o profeta que separou a idade média da idade moderna no vinho, provando que as uvas precisavam de estar fenolicamente maduras e desmistificando a fermentação malolática, Rolland foi o seu mensageiro global. Este assimilou a lição de Peynaud e transformou-a no princípio basilar dos vinhos redondos e agradáveis tornando-a na sua inconfundível assinatura enológica e estilística.
Na Argentina, Rolland encontrou a sua tela em branco. Livre das leis europeias e de adegas infetadas, construiu uma verdadeira utopia enológica, em Mendoza com o projeto “Clos de los Siete”, iniciado no final da década de 1990. Dispondo de 850 hectares a grande altitude, que garantiam uma maturação fenólica perfeita, construiu adegas quase à imagem de blocos operatórios, com higiene imaculada e controlo térmico milimétrico.
Misturou a rústica casta Malbec argentina com a Merlot, Cabernet Sauvignon, Syrah e Petit Verdot. O resultado foi um verdadeiro fenómeno global de vendas ao apresentar um vinho polido e sem arestas, que os detratores acusaram de ter “sotaque argentino, mas que falava francês”.
A “Parkerização” e a guerra em Portugal
Seria ingénuo aplaudir Rolland sem escrutinar a sua hegemonia. No livro de 2012, “Le Gourou du Vin”, Rolland descarta a acusação de padronização, ignorando o seu vínculo estilístico e enológico com o crítico Robert Parker.
Este ditava os preços globais através do seu sistema de pontuação, premiando vinhos opulentos e fortemente amadeirados. Rolland desenhou exatamente esse perfil para os produtores que precisavam dessas notas. Ao forçar a sobrematuração e ao usar proporções massivas de barricas de carvalho novo francês mascarou a tipicidade sob camadas de baunilha, café e tosta.
O resultado foi a “Parkerização”, na qual os vinhos, de vindimas tardias e baixa acidez do Novo Mundo, sabiam exatamente ao mesmo das de um produtor europeu. A sua obstinação dogmática revelou-se ainda no ataque feroz ao movimento dos vinhos naturais, rotulando-os de instáveis resultado de pura incompetência mascarada de marketing.
Em Portugal, a sua intervenção também se manifestou em várias regiões, mas foi no Alentejo, no final da década de 1990 e início de 2000, que ela foi mais cirúrgica.
Rolland prestou consultoria à Fundação Eugénio de Almeida e em especial na referência Pêra Manca. A sua chegada gerou uma verdadeira guerra civil entre críticos “Rollandistas” fascinados pela modernidade e puristas aterrorizados com a descaracterização de um símbolo pátrio.
O legado de um enólogo mitológico
Michel Rolland foi um técnico dotado com uma fé cega de que a ciência corrigiria a natureza. A sua influência saturou o mercado com vinhos pesados e exaustivos. No entanto, temos de reconhecer que ele limpou o mundo vitivinícola, retirando as adegas do quase obscurantismo medieval. O nosso copo, hoje, é indiscutivelmente mais limpo e sedoso por causa das suas premissas enológicas. No entanto, à custa das suas extrações e excessos de madeira, aprendemos que o verdadeiro fascínio do vinho reside muitas vezes na sua imperfeição regional, no bater de coração irregular de um “terroir” que recusa submeter-se à ditadura da perfeição globalizada.
Michel Rolland partiu, mas as suas lições, os seus gloriosos acertos e os seus dolorosos erros, continuarão a definir as vindimas das próximas gerações.
P.P.
EDITORIAL: Acima de tudo, clássico

Editorial da edição nrº 113 (Setembro de 2026) O Porto Vintage é uma das poucas categorias de vinho em que uma declaração geral continua a ter um significado colectivo e histórico extraordinariamente forte. Geram-se expectativas, opiniões e até alguma polémica. Paradoxalmente, todo este movimento se concentra no topo da pirâmide, numa ínfima parte, cerca […]
Editorial da edição nrº 113 (Setembro de 2026)
O Porto Vintage é uma das poucas categorias de vinho em que uma declaração geral continua a ter um significado colectivo e histórico extraordinariamente forte. Geram-se expectativas, opiniões e até alguma polémica. Paradoxalmente, todo este movimento se concentra no topo da pirâmide, numa ínfima parte, cerca de 1%, de todo o Vinho do Porto produzido.
Lembro-me de que, na altura das declarações gerais consecutivas de 2016 e 2017, os comentadores estrangeiros mais críticos referiam, com algum sarcasmo, que o Vintage clássico agora era todos os anos. Com a declaração de 2018, a ‘acusação’ ressurgiu, embora esse ano, apesar de excelente, não tenha sido considerado clássico. Entretanto, em Portugal ganhou força a convicção de que o velho padrão de três grandes Vintage por década já não fazia sentido: o Vintage é quando o homem quiser. A natureza parece ter discordado. Foram precisos sete anos para que chegasse outro clássico: 2024.
Será que hoje, com viticultura de precisão, adegas bem equipadas, melhores aguardentes e muito conhecimento científico, não se consegue produzir um grande Vintage todos os anos? Sim, temos hoje essa capacidade. Mas não em todo o lado e não ao mesmo tempo. Mesmo nos anos péssimos, há sempre qualidade algures. São vitórias de terroir. E a decisão de declarar um Vintage cabe ao produtor. As grandes casas podem encontrar condições óptimas numa ou noutra propriedade para um Single Quinta Vintage; os produtores mais pequenos interpretam o ano a partir das suas próprias vinhas. Se a Câmara de Provadores do IVDP aprovar, Vintage será.
O que verdadeiramente distingue um ano bom de um ano extraordinário é a qualidade transversal e generalizada. Quando tudo acontece no timing certo e na medida certa, ou quando um excesso é compensado por outro factor, como por exemplo, a falta de água no Verão, pela precipitação generosa no Inverno. Nestes anos, os Vintage das grandes casas são um lote de vinhos de várias propriedades sob o nome da marca principal – Graham’s, Dow’s, Taylor’s, Fonseca, Ferreira, Sandeman, Kopke – e não de uma só quinta. O resultado vai para além da soma das partes.
Foi o que aconteceu em 2024. Depois de anos muito secos, marcados por ondas de calor e precipitação errática, este veio com humidade suficiente no solo, sem vagas de calor prolongadas e com noites frescas, permitindo uma maturação lenta e uniforme de diversas castas em variadíssimas vinhas.
O barómetro do Vinho do Porto é sempre o desempenho da Touriga Franca. Em 2024, porém, muitos produtores destacam a Touriga Nacional. Até as castas mais complicadas, como a Tinta Roriz ou a Malvasia Preta, entregaram uma qualidade acima da média, como referiram vários enólogos na recente prova de 40 Vintages 2024 organizada pela Associação das Empresas de Vinho do Porto (AEVP). Esta prova, entre outras realizadas este ano, permite identificar alguns traços do Vintage 2024: pureza excepcional da fruta, muita frescura de boca, taninos sedosos e um charme imediato, mas com o potencial de envelhecimento.
Também foram partilhadas impressões sobre os vinhos de 2025 em estágio, muito opacos e densos, já uma grande promessa. Há indícios de que poderemos ter novamente uma declaração generalizada. Talvez seja essa a ironia: podemos estar cada vez mais preparados para fazer grandes Vintage, mas ainda não podemos comandar o ano. Podemos discutir quantos anos clássicos cabem numa década, mas a natureza continuará a decidir quando eles acontecem. (V.Z.)
Crónica: O Douro em brancos a chamar por nós

Em Murça, estamos em terras de brancos. Por aqui, são eles que marcam o compasso dos dias. Isso é claramente uma virtude numa época em que a tendência aponta mais para este tipo de vinhos. Daí a importância crescente do evento Brancos na Praça, que teve este ano a 4ª edição. Não será fácil dividir […]
Em Murça, estamos em terras de brancos. Por aqui, são eles que marcam o compasso dos dias. Isso é claramente uma virtude numa época em que a tendência aponta mais para este tipo de vinhos. Daí a importância crescente do evento Brancos na Praça, que teve este ano a 4ª edição.
Não será fácil dividir o Douro em zonas estanques, do tipo aqui brancos, ali tintos, aqui Touriga Francesa, acolá Rabigato. Ainda assim, começa a fazer sentido falar de áreas onde algumas castas e alguns tipos de vinho ganham mais preponderância. Isso é visível quer em zonas especialmente vocacionadas para produzir certos tipos de vinho do Porto, como o Cima Corgo, quer em áreas onde os brancos se dão especialmente bem. Historicamente, sabemos que a região sempre produziu muita uva branca que se destinava ao Porto branco, mas a História também nos disse que esse tipo de Porto nunca foi devidamente valorizado, uma vez que preenchia objectivos simples, destinando-se a ser servido como aperitivo, algo muito valorizado pelo mercado francês, por exemplo. Mas os tempos mudaram e a região, que nasceu para os DOC Douro, muito associada aos vinhos feitos com as uvas que não preenchiam o benefício, foi, aos poucos, descobrindo que as mesmas uvas brancas usadas para fazer o simples Porto branco, afinal também poderiam originar vinhos de muito boa qualidade. Foi assim que, em meados dos anos 90, várias empresas de Vinho do Porto se abalançaram a fazer vinhos brancos, secos e cheios de personalidade, com técnicas até então pouco ou nada utilizadas, como a fermentação em barrica, o estágio também em madeira, descobrindo virtudes em castas até então menosprezadas.
Varietais de Arinto no Douro são raros. Este é particularmente aromático na boca. A colheita anterior parece ter evoluído rapidamente
Uma nova febre tomou conta da região e os brancos começaram a surgir como se, até aí, estivessem escondidos debaixo das pedras. A febre não foi passageira e veio para ficar; e, hoje, o número de marcas e de produtores que se interessam pelos brancos não cessa de aumentar. Foi neste quadro de busca das melhores zonas e parcelas mais originais que Murça emergiu como zona com condições perfeitas para a produção de vinhos brancos: localização que joga com a altitude e o clima mais ameno, boa quantidade de vinhas velhas de castas misturadas (que continua a ser o maná para os grandes vinhos) e boa disponibilidade de uvas. Não tardou que vários produtores se começassem a interessar por Murça, vindo aqui comprar uvas para elaborarem os seus melhores lotes.
E foi do interesse dos produtores pela região e do empenho da Câmara Municipal que nasceu o evento Brancos na Praça, totalmente dedicado aos vinhos brancos e a que responderam quer os produtores locais, quer as empresas que nesta zona também se abastecem de uvas. O evento vai na 4ª edição e decorreu a 29 e 30 de Maio últimos.
Um dos pontos de interesse do certame são duas provas de vinhos brancos orientadas pelo autor destas linhas. Com uma assistência (mediante inscrição) que tem crescido em número todos os anos, organizam-se duas provas de brancos: uma de vinhos de Douro/Murça versus grandes vinhos do mundo e outra, mais específica, de brancos de Murça versus brancos originais do resto do país. Mas o certame não se esgota nestas provas: há um workshop sobre azeites de Murça (Francisco Vilela) e há percursos comentados nos vários stands orientados por Teresa Gomes. O espaço, desta vez bem mais amplo, acolheu uma população muito interessada, que também pôde comprar vinhos, algo sempre muito apelativo para os consumidores.
Murça está a fazer o seu trabalho, procurando o reconhecimento da valia dos seus vinhos no conjunto dos brancos do Douro. Tal reconhecimento não pode deixar de passar pela valorização do preço das uvas. Não há meio termo. Essa é a condição sine qua non para que o prestígio do vinho tenha correspondência na valorização do trabalho e na qualidade de vida de quem o produz. E a resposta-refúgio que muitas vezes se ouve a quem compra uvas, tipo “estou a pagar acima do preço do mercado”, não é suficiente, uma vez que no Douro se pagam as uvas a preços que não compensam o granjeio. A frase não é “pagar acima”, é pagar três ou quatro vezes o preço habitual do mercado. E quem começar a fazer isso vai perceber que a concorrência não poderá deixar de acompanhar a tendência. E, a ser assim, até se percebe melhor que as garrafas dos grandes brancos de Murça custem 100 ou mais euros. De outra forma, é um pouco escandaloso, convenhamos. (JPM)
Editorial: Negra Mole em pedra dura

Editorial da edição nrº 112 (Agosto de 2026) Tanto bate até que fura. A Negra Mole passou décadas a bater à porta do reconhecimento, até conseguir abrir caminho. Não por ser uma casta espampanante no copo, mas através do soft power que lhe é característico. Lembro-me de, em 2012, durante umas férias em Vilamoura, ter […]
Editorial da edição nrº 112 (Agosto de 2026)
Tanto bate até que fura. A Negra Mole passou décadas a bater à porta do reconhecimento, até conseguir abrir caminho. Não por ser uma casta espampanante no copo, mas através do soft power que lhe é característico.
Lembro-me de, em 2012, durante umas férias em Vilamoura, ter procurado o vinho monovarietal de Negra Mole lançado pela Quinta João Clara, mas os sommeliers nos restaurantes e wine bars encolhiam os ombros: nunca tinham ouvido falar da casta. Acabei por encontrar uma garrafa, curiosamente, em Lisboa.
O reencontro com a Negra Mole aconteceu há alguns anos, num contexto algo sui generis: o Concurso Mundial de Bruxelas. Num flight de amostras surgiu um vinho que se destacava de imediato pela sua cor translúcida. No aroma e na boca era suave e delicado, com uma fruta deliciosa, mas num registo contido. Não exibia uma acidez particularmente elevada, mas não pecava por falta da frescura, apresentando um equilíbrio exemplar dentro deste perfil. Gostei muito do vinho. Percebi que se tratava de uma casta autóctone, mas a Negra Mole nem sequer me ocorreu. Qual não foi, por isso, o meu espanto quando consultei a listagem entregue aos jurados no final da sessão de provas e descobri que era a Negra Mole da Arvad!
Na minha recente incursão pelo Algarve, tive a oportunidade de provar mais vinhos desta casta e rendi-me definitivamente à sua personalidade.
A Negra Mole sempre existiu no Algarve, mas durante décadas esteve fora do seu tempo. Numa época em que se procuravam cor, concentração e músculo, não tinha como se afirmar. Pouco lhe valeu ser uma das castas mais antigas de Portugal; teve de esperar décadas para, finalmente, ser compreendida e valorizada. E, mesmo hoje, não reúne consenso entre os produtores, e, na verdade, a casta é tudo menos consensual.
Tem bagos grandes e soltos, com película fina e polpa mole – daí o nome. Uma das características mais singulares da Negra Mole é a sua heterogeneidade cromática. Ou seja, na mesma videira e, frequentemente, no mesmo cacho coexistem bagos de diferentes cores do negro-azulado ao rosado e ao quase branco, embora todos estejam fisiologicamente maduros. Um palhete feito no cacho!
Pelas suas características, a Negra Mole facilita o trabalho na elaboração de rosés, blanc de noirs ou espumantes, porque, mesmo que se distraia durante a maceração, não passa cor em excesso. Pessoalmente, prefiro-a na sua forma mais pura, como vinho tinto, porque mantém a leveza, mas com maior expressão de sabor e uma cor sem igual, que faz lembrar a toranja. É uma casta com um poder de atracção singular e uma força identitária que lhe permitem assumir o papel de porta-bandeira da região vitivinícola onde nasceu.
Vejam só, quando os importadores internacionais procuram os Chillable Red Wines, em Portugal foram reabilitados os palhetes e claretes, e os produtores procuram fórmulas e castas adequadas à produção de tintos mais leves e apetecíveis, que não exijam um bife ao lado, a Negra Mole surge como a resposta algarvia a esta tendência internacional. É talhada precisamente para este perfil e com um storytelling já feito, não é preciso inventar nada.
Com isto não quero dizer que o Algarve tem que se resumir à Negra Mole, mas espero que haja cada vez mais produtores a descobrir as diferentes facetas desta casta. E espero, daqui a uns anos, poder fazer uma grande prova dedicada exclusivamente à Negra Mole. (V.Z.)
EDITORIAL: Quando a temperatura sobe…

Editorial da edição nrº 111 (Julho de 2026) … o vinho desmaia. E, com ele, toda a experiência sensorial fica inevitavelmente comprometida. Parece óbvio, mas é espantoso como esta questão continua actual e como, tantas vezes, mesmo nas apresentações, os vinhos são servidos à temperatura que calha e não à que deviam servir. E o […]
Editorial da edição nrº 111 (Julho de 2026)
… o vinho desmaia. E, com ele, toda a experiência sensorial fica inevitavelmente comprometida.
Parece óbvio, mas é espantoso como esta questão continua actual e como, tantas vezes, mesmo nas apresentações, os vinhos são servidos à temperatura que calha e não à que deviam servir. E o vinho tinto costuma sofrer mais. Com os brancos, rosés ou espumantes isto não acontece tanto, pois é de senso comum que estes devem ser servidos mais frescos. Agora, os tintos… Eu já nem falo no hábito de “chambrear um vinho” ou no conceito desactualizado de “temperatura ambiente”, refiro-me ao desleixo no simples cuidado de fazer chegar o vinho tinto à mesa a 16–18° C, ou até mais fresco, porque, dependendo da temperatura da sala, pode aquecer mais ou menos depressa.
Nas tascas, costumo pedir vinhos brancos por defeito, porque sei que estes vêm do frio e que, com um tinto, posso não ter essa sorte. E nem os eventos vínicos dirigidos por profissionais escapam a este inconveniente. E quanto maiores forem, pior, uma vez que as organizações simplesmente não conseguem arranjar frigoríficos para uma grande quantidade de garrafas.
Há pouco tempo estive num jantar comemorativo de considerável dimensão, onde foram servidos muitos vinhos. Os brancos estavam dentro de frappés com gelo, enquanto os tintos permaneciam simplesmente em cima das mesas. Não acredito que estivesse pelo menos uma pessoa naquela sala que não soubesse a temperatura de serviço do vinho tinto. 16–18° C? Certo, mas foi servido à temperatura ambiente, que naquela noite marcava 26° C.
Podemos criar muito glamour à volta dos copos, aplaudir as apresentações de Maximilian Riedel, apurar os formatos que melhor realçam as virtudes dos diferentes tipos de vinho, explicar porque um Chardonnay não deve ser bebido no copo de um Sauvignon Blanc, mas, se falharmos numa coisa tão básica como a temperatura de serviço, podemos arruinar toda a experiência. Afinal, se um vinho tinto for servido à temperatura de uma sopa morna, não há copo, por muito perfeito que seja, que redima a situação, nem há virtude que resista.
A temperatura funciona no vinho como um equalizador. O frio faz sobressair a acidez e a estrutura tânica, deixando os aromas e a doçura em segundo plano. O calor, por sua vez, amplifica a expressão da fruta, mas, com ela, faz emergir também o álcool, que facilmente passa a dominar o conjunto. Vários estudos de análise sensorial demonstram que o contexto térmico em que o vinho é provado altera significativamente a forma como ele é percebido. O aumento da temperatura intensifica a volatilidade dos compostos aromáticos: moléculas mais leves evaporam primeiro, o que faz com que o vinho possa parecer mais intenso no início, mas menos complexo pouco tempo depois. Em paralelo, o etanol, que também é volátil, torna-se mais presente na fase gasosa, mascarando aromas mais delicados.
Em palavras menos técnicas: bastam alguns graus a mais para comprometer uma prova. Não há temperatura capaz de transformar um vinho mediano num grande vinho. Mas há temperaturas erradas capazes de impedir um grande vinho de se mostrar. E isso é particularmente frustrante, uma vez que, entre todos os factores que influenciam a experiência, este é talvez o mais simples – e o menos dispendioso – de controlar. V.Z.
Editorial: O culto de acidez

Editorial da edição nrº 110 (Junho de 2026) Com a aproximação do verão, procuram-se vinhos mais leves: brancos, rosés, espumantes e tintos delicados. A frescura torna-se a palavra do dia, assim como tudo o que lhe está associado – vivacidade, tensão, suculência, acidez. E talvez nunca se tenha falado tanto de acidez como hoje. Uma […]
Editorial da edição nrº 110 (Junho de 2026)
Com a aproximação do verão, procuram-se vinhos mais leves: brancos, rosés, espumantes e tintos delicados. A frescura torna-se a palavra do dia, assim como tudo o que lhe está associado – vivacidade, tensão, suculência, acidez. E talvez nunca se tenha falado tanto de acidez como hoje.
Uma vez, numa feira de vinhos num país estrangeiro, troquei ideias com um sommelier que estava a provar ao meu lado. Questionada sobre o que achei de um monovarietal de Vermentino, respondi-lhe que tinha gostado, encontrando-o bastante equilibrado em termos de aroma, corpo e frescura. Seguiu-se um comentário “é porque tu não gostas de acidez tanto como eu”. Não é, porém, uma questão de gosto. A acidez não existe isoladamente, mas sim, como parte integrante e fundamental na matriz de um vinho. Será que vale a pena elevá-la ao culto?
Tal como na moda, as tendências no mundo do vinho funcionam como um pêndulo que oscila entre extremos. As calças skinny e as silhuetas justas são substituídas por modelos largos e oversize. No vinho, o movimento é semelhante: o que esteve em voga torna-se démodé, e vice-versa, desvaloriza-se aquilo que antes era o padrão a seguir.
Durante décadas, o prestígio no vinho esteve frequentemente associado à maturidade da fruta, ao volume de boca e à riqueza aromática e gustativa. Nos anos 90 e início dos anos 2000, muitas das referências mais reconhecidas internacionalmente procuravam concentração, extração, álcool elevado, textura densa e forte presença de barrica. Ainda há poucos anos, a acidez não tinha o protagonismo que hoje lhe é atribuído. Numa conversa recente, um produtor contou-me que, quando lançou os seus primeiros vinhos no Alentejo, em 2013, foi apelidado de “água com ácido” por apresentar vinhos menos frutados e com acidez elevada.
Hoje, o paradigma alterou-se. As vindimas anteciparam-se; a amplitude térmica, a altitude e a influência marítima passaram a dominar o discurso do vinho. É aqui que a acidez, lida como frescura, subiu ao palco, proclamando autenticidade, precisão e qualidade. O vocabulário vínico ganhou descritores como “nervo”, “tensão”, “energia” e “verticalidade”. E esta mudança não é apenas enológica, mas também psicológica, amplificada por críticos e sommeliers, o que, por si só, não é um problema.
A acidez é, de facto, um componente estruturante do vinho, sobretudo nos brancos. Para além de conferir frescura e de facilitar a harmonização gastronómica, uma acidez mais elevada, associada a um pH mais baixo, contribui para uma boa evolução em garrafa. Quem participou em provas verticais de Loureiros ou Alvarinhos, ou provou brancos e tintos antigos de Colares, do Dão ou da Bairrada, percebe do que estou a falar.
Mas quando a busca pela frescura se torna uma obsessão e as uvas submaduras são colocadas no altar da acidez, surgem vinhos magros, acídulos, com notas verdes e uma tensão que lembra fios descarnados. Costumo dizer que a acidez é uma grande virtude do vinho, mas quando é a única, este torna-se monocórdico, demasiado vertical, frio e metálico – como um varão sem dançarina à volta; falta-lhe corpo, dimensão estética e complexidade emocional.
Por isso, e voltando à questão inicial, reforço que gosto da acidez, mas não quando fica sozinha em palco. V.Z.

