Editorial: Vinho? Nem vê-lo!

Editorial da edição nrº 106 (Fevereiro de 2026) Imaginem o mundo sem vinho. Um mundo onde séculos de cultura, economia e conhecimento agrícola e enológico seriam descartados em prol de um zelo sanitário. Nada de brindes ou convívios, nada de partilha ou harmonização de vinho e comida. Apenas uma sensação de satisfação de que conseguimos […]
Editorial da edição nrº 106 (Fevereiro de 2026)
Imaginem o mundo sem vinho. Um mundo onde séculos de cultura, economia e conhecimento agrícola e enológico seriam descartados em prol de um zelo sanitário. Nada de brindes ou convívios, nada de partilha ou harmonização de vinho e comida. Apenas uma sensação de satisfação de que conseguimos reduzir um ou dois por cento de risco estatístico comunicado pelas instituições oficiais, incluindo a Organização Mundial da Saúde, que tanto se preocupam com o nosso bem-estar. Nesta realidade, eu ficaria sem trabalho, é certo, mas será que o mundo realmente se tornaria mais saudável?
O “tsunami” de campanhas anti-álcool, que atingiu a indústria vitivinícola no último ano, promove uma narrativa que demoniza o vinho ao colocá-lo indiscriminadamente no mesmo saco de todas as bebidas alcoólicas, como se fosse o responsável directo por uma extensa lista de doenças, ignorando contextos culturais, padrões de consumo e diferenças entre produtos.
Longe vai o tempo em que beber vinho era, em termos sanitários, menos arriscado do que beber água (embora, em alguns países, ainda seja verdade). Hoje, o vinho é tratado como inimigo da saúde pública; ao mesmo tempo, a cannabis é reabilitada e ressurge quase como uma nova panaceia da indústria do bem-estar. Não sou apologista de teorias de conspiração, mas não posso ignorar a realidade: as vendas do vinho continuam a descer a nível mundial, enquanto a indústria legal da cannabis movimenta quase 70 mil milhões de dólares por ano, alimentada por grandes investidores, farmacêuticas e multinacionais de bebidas. Os setores tradicionais, como a vitivinicultura, tornam-se alvos convenientes para campanhas alarmistas. E como normalmente acontece com temas polémicos, poucos se dão ao trabalho de ir além dos títulos sensacionalistas. Leem na diagonal, veem os bonecos de infográfica e retêm os slogans do género “o vinho provoca cancro”, que depois se propagam como fogo nas redes sociais. Raramente alguém lê os estudos originais, que muitas vezes nem estão disponíveis ao público. Mas o que está sempre ao alcance são artigos anti-álcool repletos de números assustadores que, muitas vezes, distorcem a realidade pela forma como os riscos estão apresentados. A maior parte das publicações que relacionam vinho e doenças apoia-se em estudos que identificam correlações estatísticas, mas não demonstram a causalidade directa. Estes estudos não controlam de forma suficiente variáveis como dieta, sedentarismo, fatores socioeconómicos, poluição, estilo de vida, outras doenças ou medicação associada. A medicina não é uma ciência exacta, como física ou matemática, porque o corpo humano é complexo e nem sempre previsível. O conhecimento evolui à medida que novas investigações surgem, muitas vezes para corrigir ou contrariar conclusões anteriores. As organizações governamentais e reguladoras, com as suas agendas políticas, acabam inevitavelmente por influenciar a forma como estes estudos são comunicados.
Não quero negar o óbvio: o vinho contém álcool, cujo consumo abusivo é, realmente, prejudicial à saúde, tal como o consumo abusivo de açúcar, sal e até água. Existe uma diferença abismal entre beber vodka, para cair redondo no sofá, e desfrutar uma experiência enogastronómica, em que o vinho é um elemento cultural, social, sensorial e intelectual, se quiserem, e não um atalho para a embriaguez. A moderação é essencial e tem raízes na cultura gastronómica e vínica, que pode e deve ser ensinada. Neste mundo – ainda com vinho, felizmente – continuamos a precisar de bom senso e, ocasionalmente, de um bom copo para enfrentar a realidade. Aliás, alguém já se lembrou de estudar o impacto do vinho na felicidade humana? V.Z.
Novo ciclo

No final do passado mês de Dezembro, deixei as funções executivas na Grande Escolhas, como gerente da sociedade, director de negócios e publisher. Foi uma opção livre, ponderada e pensada, para coincidir com a chegada aos meus 70 anos. Gostaria, contudo, de esclarecer que com esta decisão não estou propriamente a despedir-me. Continuarei ligado ao […]
No final do passado mês de Dezembro, deixei as funções executivas na Grande Escolhas, como gerente da sociedade, director de negócios e publisher. Foi uma opção livre, ponderada e pensada, para coincidir com a chegada aos meus 70 anos. Gostaria, contudo, de esclarecer que com esta decisão não estou propriamente a despedir-me. Continuarei ligado ao projecto como sócio, com uma quota relevante na sociedade proprietária da revista e terei, a partir de agora, se para tanto tiver vida e saúde, bem mais tempo para fazer aquilo que mais gosto: viajar, desfrutar e escrever livremente, sem pressão e compromissos de agenda, sobre vinhos e gastronomia, afinal as áreas a que dediquei a minha vida.
Nesta hora de mudança, quero deixar aqui duas notas. A primeira é que foi um orgulho imenso fundar com o meu amigo Luis Lopes e a companhia dos meus colegas, a Grandes Escolhas no ano já longínquo de 2017. Este foi verdadeiramente o meu grande projecto de vida profissional, finalmente realizado já numa fase bem madura, depois de mais 30 anos a trabalhar nesta área. Ao contrário do que ingenuamente pensei na altura, não foi de todo fácil. Os pressupostos sobre os quais tínhamos planeado o projecto Grandes Escolhas ficaram subitamente alterados e, como quase sempre acontece, dificuldades de conjuntura foram semeando obstáculos inesperados. Vieram depois os anos terríveis da pandemia, em que tudo esteve em jogo, mas que permitiram por à prova uma resiliência que até a mim me surpreendeu.
A outra nota que gostava de sublinhar é que deixo estas funções de coração cheio. As relações que ao longo de tantos anos pude estabelecer com tanta gente nesta área, colegas, parceiros, clientes, fornecedores, leitores, consumidores, frequentadores de eventos e tantos outros, constituiu um capital riquíssimo que só posso dar graças de ter acumulado. Não tenho a pretensão de ter agradado a todos os que comigo se cruzaram, mas guardo a convicção gratificante que com a grande maioria conseguimos construir relações de respeito mútuo e em muitos casos de amizade que ultrapassam em muito as meras relações profissionais.
Uma das coisas que a vida me ensinou é que as pessoas não se devem eternizar nos cargos e que sangue novo, novas dinâmicas, ideias inovadoras e, muitas vezes, disruptivas são o fermento que as organizações precisam para continuar a crescer. É o que espero que aconteça com a Grandes Escolhas.
Como todos sabemos, os tempos não estão fáceis e muitas incertezas se advinham no horizonte. Mas tenho a plena confiança que os meus sócios e todos os colegas na Grandes Escolhas continuarão este trabalho e farão certamente mais e melhor. O futuro está à porta e nós continuaremos a vermo-nos por aí.
Um sentido abraço!
João Geirinhas
Editorial: 2026

Editorial da edição nrº 105 (Janeiro de 2026) O primeiro editorial do ano é, normalmente, dedicado àquele exercício de adivinhação que os cronistas adoram fazer, apontando padrões e tendências para os 12 meses que se seguem. Para não fugir à tradição, aqui fica a minha antevisão do mercado do vinho em Portugal, sabendo bem que, […]
Editorial da edição nrº 105 (Janeiro de 2026)
O primeiro editorial do ano é, normalmente, dedicado àquele exercício de adivinhação que os cronistas adoram fazer, apontando padrões e tendências para os 12 meses que se seguem. Para não fugir à tradição, aqui fica a minha antevisão do mercado do vinho em Portugal, sabendo bem que, como dizia um conceituado futebolista, os prognósticos mais acertados são feitos no final do jogo.
O consumo – o vinho, em termos gerais, está a ficar menos “cool”, em Portugal e no mundo, e a tendência parece ser para continuar. Não é tanto o álcool (perguntem aos jovens da tão falada geração Z que, nas noites de sexta-feira, bebem qualquer zurrapa que os desiniba), é mesmo o vinho. O preço nos restaurantes é desmotivador, claro, mas olhem para as mesas cheias de jarros de sangria a €25…
As cores – ainda assim, a quebra não acontece por igual. É mais acentuada nos vinhos tintos, tendo os rosés estabilizado (quem pensava que ia vender rosé aos contentores, desiluda-se) e os brancos estão em franco crescimento. De tal forma que a queda de produção nesta vindima levou, em algumas regiões, à procura desenfreada de uva branca e de brancos a granel, com os preços a atingir valores recorde.
Os perfis – tirando vinho mau, vale quase tudo. É evidente que nos segmentos de entrada, coisas como acidez, vegetal ou taninos mais ríspidos continuam a ser inaceitáveis. Mas mesmo nos vinhos de €2,99 podemos ter estilos diversos, desde os super docinhos aos secos (mas macios, claro, e, de preferência, com 14% álcool). A partir dos €15, a tolerância à acidez e ao tanino é muito maior, mas, ainda assim, não tenhamos dúvidas: a procura de vinhos tintos abertos, com pouco álcool e bastante acidez continuará a ser um super nicho. A esmagadora maioria dos consumidores que paga €30 numa loja por uma garrafa de tinto quer um vinho encorpado e poderoso, que impressione os amigos.
Espumantes – há 30 anos, um bairradino, infelizmente já desaparecido, dizia-me muitas vezes: “um dia, o espumante vai conquistar o mundo”. E o mundo veio a dar-lhe razão, a categoria continua e continuará em alta. Na verdade, tem tudo para dar certo: é leve, é fresco, é alegre, é sexy. Dos mais simples pet-nat aos mais sofisticados “método clássico”, com vários anos de cave, as bolhas estão na moda.
“Naturais” – o balão parece estar a esvaziar-se. Lojistas e sommeliers dizem que a onda grande passou e que, num tempo em que cada euro conta, os clientes procuram marcas de confiança, não querem surpresas desagradáveis. E não querem pagar por algo que não lhes sabe bem só porque alguém, supostamente mais entendido, lhes diz que aquilo é suposto ser assim.
Amadores – se isto está difícil para os profissionais, o que dizer dos amadores? E amadores são todos aqueles que investiram numa empresa de vinho sem lhe poderem entregar dedicação total (a sua vida é outra), nem possuem escala para montar uma estrutura profissional. São muitos, muitos mesmo, e ou a sua actividade principal aguenta o prejuízo da acessória, ou grande parte vai fechar ou vender a loja nos próximos anos.
Turismo – 2025 foi, de novo, ano recorde para o turismo em Portugal. Mais de 30 mil milhões de euros entraram nos cofres, euros que, para a economia nacional, valem o dobro, porque vieram de fora. E só as gargantas sedentas dos turistas explicam que Portugal tenha o maior consumo per capita do mundo. Aproveitar este fluxo de pessoas para os levar aos locais de produção, é fundamental. O enoturismo justifica, cada vez mais, a mesma atenção e investimento do que a vinha ou a adega. Em condições ideais, a loja da marca deverá ser o principal e mais rentável ponto de venda do produtor. Não perceber isto, é não perceber nada.
Editorial: My precious

Editorial da edição nrº 104 (Dezembro de 2025) Serão as festividades o momento certo para abrir grandes vinhos? Chega a época festiva e instala-se o habitual desfile: produtores com “sugestões imperdíveis”, supermercados e garrafeiras com caixas de “oportunidades únicas” e revistas a apresentarem os vinhos mais pontuados. E lá vamos nós revistar a garrafeira, à […]
Editorial da edição nrº 104 (Dezembro de 2025)
Serão as festividades o momento certo para abrir grandes vinhos?
Chega a época festiva e instala-se o habitual desfile: produtores com “sugestões imperdíveis”, supermercados e garrafeiras com caixas de “oportunidades únicas” e revistas a apresentarem os vinhos mais pontuados. E lá vamos nós revistar a garrafeira, à procura daquele tesouro esquecido que, supostamente, só deve ser aberto quando os astros se alinham. É grande a tentação de provar, finalmente, aquela garrafa rara, guardada cuidadosamente durante anos à espera do momento perfeito.
Ora o que pode acontecer. Entre confirmar se há guardanapos suficientes e se a carne está no ponto, resolver as últimas tarefas e responder às dúvidas existenciais das crianças sobre o Pai Natal, é difícil controlar a temperatura a que o vinho é servido e, sobretudo, a que é realmente consumido. A conversa anima-se, soltam-se as gargalhadas e o vinho vai aquecenddo no copo, a não ser que festeje o Natal num convento medieval, onde a temperatura ambiente não ultrapassa 12-14ºC.
A azáfama de uma festa raramente permite prestar a atenção desejada ao que está no copo. Um vinho mítico pode acabar por perder todo o protagonismo e, quando damos por ele, resta apenas um gole no fundo do copo e nem nos lembramos bem de como era. Eu própria caí nesse erro há muitos anos, num almoço em minha casa: tinha amigos de Moscovo a visitar-me e, por coincidência, os meus pais estavam de férias em Portugal. Os amigos apareceram com uma garrafa de Quinta do Ribeirinho, de Luís Pato (compraram o vinho mais caro que havia numa loja) e eu coloquei-a na mesa. No turbilhão do almoço, mal tive oportunidade de parar e desfrutar o vinho. Acabei por ter de marcar um novo encontro com este grande Baga para o conhecer como merecia. Valeu muito a pena, mas isto dará uma outra história.
Desde então, estou convencida que um vinho excepcional deve ter um momento próprio, só para ele, fora de qualquer outro contexto.
Este ano, vi, na Netflix, uma minissérie norueguesa chamada La Palma. Retrata um desastre natural na ilha com o mesmo nome, no arquipélago das Canárias: um sismo que desencadeia um tsunami e uma erupção vulcânica. Há um momento particularmente marcante, pouco antes de um tsunami devastar o arquipélago, em que Álvaro Pérez, o chefe do observatório sísmico (interpretado por Jorge de Juan), partilha com um colega uma garrafa de Pingus 2013, que lhe foi oferecido no aniversário e ficou guardado. “As pessoas acham que precisam de uma ocasião especial para abrir um grande vinho. Estão enganadas. O vinho é a ocasião”, diz ele e eu subscrevo por completo. Na iminência de morrer na catástrofe, os dois saboreiam o vinho, o último prazer genuíno no meio do dramatismo. E, numa das cenas finais, os sismólogos, em fatos à prova de fogo, aproximam-se da cratera em erupção. Um deles leva a garrafa para acabar o vinho e ambos desaparecem na lava, a desfrutar o derradeiro gole de Pingus.
Não é preciso esperar pelo fim do mundo para abrir uma tal garrafa, mas também não vale a pena desperdiçá-la numa festa agitada. Para uma celebração em casa, costumo abrir vinhos que conheço bem e que garantidamente me darão prazer, mesmo quando a atenção está dividida, deixando os mais raros e especiais que não conheço para momentos em que realmente posso apreciá-los. Porque estes não precisam de um motivo especial, eles próprios o são.
Valéria Zeferino
Editorial: Renovar

Editorial da edição nrº 103 (Novembro de 2025) A renovação é essencial ao desenvolvimento e à própria sobrevivência das organizações. O que é válido para o mundo académico ou empresarial, é-o mais ainda para os media em geral e para a imprensa em particular, onde novas e diferentes formas de experienciar e comunicar o […]
Editorial da edição nrº 103 (Novembro de 2025)
A renovação é essencial ao desenvolvimento e à própria sobrevivência das organizações. O que é válido para o mundo académico ou empresarial, é-o mais ainda para os media em geral e para a imprensa em particular, onde novas e diferentes formas de experienciar e comunicar o mundo são condição de sucesso.
A entrada, no passado mês de julho, da jornalista Patrícia Serrado para a chefia de redacção da Grandes Escolhas, marca o início de um processo de renovação que teve, em outubro, um outro momento determinante, com a nomeação de Valéria Zeferino, colaboradora desta revista desde a primeira hora, para sub-directora. São duas profissionais de grande gabarito, que encaram com entusiasmo o desafio que têm pela frente e que, para o superar, contam com um quadro de colaboradores sem paralelo em termos de experiência e conhecimento da temática do vinho. Pretende-se, assim, uma transição suave, sem sobressaltos, que conduza a uma revista mais abrangente em termos de público-alvo, dando resposta às necessidades de informação quer dos leitores mais clássicos, quer daqueles que privilegiam o ecrã do telemóvel como transmissor de conteúdos.
Fui contratado como director de publicações periódicas aos 23 anos, ainda a concluir a universidade. Durante cinco anos dirigi, simultaneamente, revistas especializadas em diversas áreas (com destaque para informática e automóveis) até lançar a Revista de Vinhos em 1989, nascendo aí uma paixão pelo tema, que me obrigou a abandonar tudo o resto. Com 64 anos de idade, atingi 41 anos de direcção ininterrupta de revistas mensais. Acho eu, acham a minha família e os meus amigos, que já é suficiente. Quando, dentro de alguns meses, o processo de transição estiver concluído na Grandes Escolhas, poderei fazer finalmente o que há muito ambiciono: escrever e falar sobre o vinho e o seu mundo, sem qualquer outra responsabilidade, além daquela que o rigor e a consciência me ditam.
Luís Lopes
Pretende-se uma transição suave, sem sobressaltos, que conduza a uma revista mais abrangente em termos de público-alvo, dando resposta às necessidades quer dos leitores mais clássicos quer daqueles que privilegiam o ecrã do telemóvel como transmissor de conteúdos.
Com origens moscovitas, passei quase metade da minha vida em Portugal. Sou formada em Gestão e trabalhei nessa área até descobrir o melhor que este país tem: o vinho. E, quando gosto de alguma coisa, dedico-me profundamente ao tema. Estou ligada ao mundo dos vinhos desde 2012 e, com a primeira edição da Grandes Escolhas, em maio de 2017, comecei a minha colaboração com a revista. Antes disso, era assinante e fiel leitora da Revista de Vinhos, de onde toda a equipa saiu naquela altura, para fundar um novo projeto.
Tenho a sorte de trabalhar com colegas que admiro e com quem aprendi muito: João Paulo Martins, o grande guru e “papa dos vinhos”, com a sua visão crítica e impressionante consistência na prova; Nuno Oliveira Garcia, com nariz apurado e afiado sentido de humor; e Luís Antunes, que escreve maravilhosamente bem. E, claro, Luís Lopes, que considero o meu mentor e tem sido a minha referência em tudo o que faço profissionalmente.
Sem estas pessoas, eu não seria quem sou hoje. Mas também o sou porque nunca deixei de aprender. Tirei o Diploma da WSET, em Londres, que me abriu horizontes. Mas quis ir mais a fundo. Fiz o Mestrado em Viticultura e Enologia no ISA. A área a que mais me dedico é a análise sensorial, tema da minha tese, que espero concluir em breve.
O desafio é grande. Enorme, mesmo. E farei tudo para estar à altura. Nunca serei como o Luís Lopes – é impossível. Serei, sim, diferente, mas trarei as minhas qualidades, competências e dedicação à revista e aos nossos leitores, para que as escolhas sempre sejam grandes. Este é o meu novo começo, que, no fundo, é uma continuidade do caminho que me trouxe até aqui. Valéria Zeferino
E se o vinho fosse menos caro nos restaurantes?

Esta é uma realidade comum, que tanto afeta o consumidor, como prejudica o consumo consciente e sustentado de vinho nos espaços de restauração. Mas, afinal, por que motivo o vinho é mais caro nos restaurantes? E mais importante ainda: poderá esta realidade ser diferente, sem comprometer a rentabilidade do negócio? Vamos explorar esta questão com […]
Esta é uma realidade comum, que tanto afeta o consumidor, como prejudica o consumo consciente e sustentado de vinho nos espaços de restauração. Mas, afinal, por que motivo o vinho é mais caro nos restaurantes? E mais importante ainda: poderá esta realidade ser diferente, sem comprometer a rentabilidade do negócio? Vamos explorar esta questão com uma análise clara, justa e através de propostas construtivas.
Porque é que o vinho é mais caro nos restaurantes?
A valorização do vinho na restauração é uma prática comum em todo o mundo e, muitas vezes, assume proporções que afastam o consumidor. Vamos analisar alguns dos vários fatores que influenciam os preços:
- a) Margem comercial: a margem praticada pode variar entre 200% a 400%. Um vinho comprado por 5€ pode surgir facilmente na carta por 15€ a 25€. Esta margem cobre custos operacionais, desperdícios, impostos e, em muitos casos, ajuda a compensar as baixas margens dos pratos.
- b) Custo de armazenamento e stock: o vinho ocupa espaço, exige condições específicas (temperatura, humidade, luz), e nem sempre roda com rapidez. O capital investido em stock parado também é um risco que o restaurante tenta compensar com o preço final.
- c) Perdas e desperdício: uma garrafa aberta que não é vendida até ao fim pode representar perda total. É o maior risco quando temos vinhos a copo. A margem tem de cobrir este possível desperdício.
- d) Custo do serviço: bons copos, sommelier, formação da equipa e serviço de qualidade são diferenciadores. Este conjunto de factores tem um custo real que precisa de ser refletido.
- e) IVA elevado: em Portugal, o vinho é tributado com IVA de 23% na restauração. No retalho, é tributado com IVA de 13%. Esta diferença impacta diretamente no preço final ao consumidor, no restaurante.
- f) Necessidade de margem nos restaurantes pequenos: muitos restaurantes vivem com margens reduzidas na comida e usam o vinho e as bebidas como forma de equilibrar a rentabilidade global do serviço.
Por conseguinte, a valorização do vinho não surge de forma arbitrária. Resulta, isso sim, de uma série de condicionantes económicas, logísticas e fiscais.
O Impacto da margem elevada no consumo
Apesar de compreensíveis, estas práticas têm efeitos colaterais claros:
Menor consumo por parte do cliente: muitos evitam pedir vinho à refeição ou limitam-se ao jarro ou à garrafa mais barata.
Desinteresse em vinhos mais valiosos: vinhos de gama média e alta ficam esquecidos na carta por terem preços pouco atrativos ou, até mesmo, proibitivos.
Perda de oportunidade de valor: um cliente que gasta menos em vinho não representa apenas menos receita; representa menos prazer, menos partilha e menor experiência.
O vinho não deve ser encarado como um extra; pode, isso sim, ser o fio condutor de uma refeição memorável. Contudo, quando o preço se impõe como barreira, perde-se a oportunidade de criar fidelização e valor.
Boas práticas e alternativas sustentáveis
O caminho não passa por eliminar a margem, mas por ajustá-la com estratégia. Aqui ficam algumas sugestões:
- a) Margens mais realistas: em vez de aplicar uma margem linear a toda a carta, importa considerar escalas variáveis. Vinhos mais baratos podem ter margens mais altas, enquanto os de gama média podem ter margens menores, tornando-se mais acessíveis e com maior rotação.
- b) Cartas inteligentes e curadas: menos referências, maior conhecimento sobre os produtos, melhor formação da equipa. Uma carta bem pensada pode rodar melhor e exigir menos margem, ganhando valor no volume.
- c) Parceria com distribuidores competentes: em Portugal, o contacto direto com o produtor ainda é limitado, mas um distribuidor com boa curadoria e apoio ao restaurante pode criar valor.
- d) Opções por copo com sistema de preservação: investir em sistemas, como o Coravin ou semelhantes permite servir vinhos mais caros a copo sem risco de desperdício.
- e) Educação do cliente: cartas com informação clara, storytelling sobre o vinho, origem, produtor e harmonização. Uma carta que educa gera confiança e valor percebido.
Com boas práticas, é possível reduzir as margens e, paradoxalmente, aumentar o consumo e o lucro final. É a diferença entre vender duas garrafas com muita margem ou 10 com margem mais moderada.
Benefícios de um modelo mais acessível
Fidelização do cliente: preços justos aumentam a perceção de valor e a satisfação.
Aumento de ticket médio: se o vinho se torna mais acessível, o cliente pede mais vezes.
Mais rotação de stock: reduz o capital imobilizado e melhora a gestão.
Criar cultura de vinho: torna-se um hábito, valorizando toda a cadeia sem se tornar um luxo ocasional.
Conclusão: um convite ao equilíbrio
O vinho é cultura, prazer, partilha. Mas também é negócio e, como em todo o negócio, o segredo está no equilíbrio: margens justas, experiência positiva, relação de confiança entre restaurante e cliente. Não se trata de abdicar do lucro, mas de pensar a longo prazo. De transformar cada refeição com vinho num momento que fideliza. Num país produtor, onde o vinho faz parte da identidade, não faz sentido continuar a tratá-lo como um produto de luxo inalcançável. O convite fica feito aos restauradores: vamos refletir sobre a forma como tratamos o vinho nas cartas. E se, em vez de pensar em quanto mais podemos ganhar com cada garrafa, pensássemos em quantas mais podemos vender?
Por: Helder Cunha* Enólogo e produtor de vinho
(Artigo publicado na edição de Setembro de 2025)
Editorial: Atreva-se a descobrir

Editorial da edição nrº 102 (Outubro de 2025) No meu círculo de amigos serei, certamente, um dos que menos recorre às chamadas redes sociais. Utilizo apenas Instagram, onde publico uma foto por mês, se tanto, e nunca sobre vinhos. Os temas que me apetece fotografar/comentar têm quase sempre a ver com carros, cães, pesca, caça […]
Editorial da edição nrº 102 (Outubro de 2025)
No meu círculo de amigos serei, certamente, um dos que menos recorre às chamadas redes sociais. Utilizo apenas Instagram, onde publico uma foto por mês, se tanto, e nunca sobre vinhos. Os temas que me apetece fotografar/comentar têm quase sempre a ver com carros, cães, pesca, caça e, tirando raríssimas excepções (e sempre com autorização prévia) família e amigos nunca são envolvidos nos conteúdos. Serve isto unicamente para dizer que estou muito longe de poder ser considerado um especialista em redes sociais, e bem assim da linguagem, regras, códigos, que lhes são inerentes.
No entanto, e por dever de ofício, ao longo dos últimos anos tenho acompanhado bastante mais de perto as plataformas digitais e redes sociais das empresas ligadas ao mundo do vinho. Estou atento ao desempenho, à forma, ao conteúdo, e reconheço a crescente importância que as redes sociais têm na estratégia de comunicação de uma marca, operando como complemento dos outros formatos e modelos.
Ao visualizar as publicações de dezenas de empresas, distintas nos seus perfis, conceitos e cliente alvo, é impossível não reparar em, pelo menos, dois denominadores comuns: primeiro, o desconhecimento generalizado do tema (vinha, vinho, mercado) e também da cultura e especificidades do proprietário da conta, originando arrepiantes “gaffes”, sobretudo quando se fala de castas, vindima, vinificação ou consumo (a excepção está, naturalmente, nas raras ocasiões em que é o produtor a encarregar-se do conteúdo); segundo, a absurda quantidade de lugares comuns, clichés, verbos, advérbios e adjectivos repetidos até à exaustão, amontoados de palavras sem significado algum, formando frases surreais.
Assim, pelo que leio nas redes sociais, não posso, simplesmente, querer beber um vinho. Tenho de me “atrever” a isso. E, de preferência, ficar “surpreendido” com o resultado. E como não, se todos os vinhos são “únicos” e “prometem” coisas? Além de que estão cheios de “segredos desafiantes” para “descobrir”. De tal forma “fascinantes” e “inesquecíveis” que deixam de ser uma bebida e se transformam numa “experiência”, feita de “aromas de partilha” e “sabores de tradição”. Apetece “brindar” pois então, “à vida, aos amigos, ao verão”.
Sei perfeitamente que uma publicação deste tipo se quer curta e apelativa, numa linguagem simples, acessível, sem complicações, de apreensão imediata. Mas tantas e tantas vezes, o que leio é algo como isto: “Atreva-se a experienciar o nosso terroir único. Convidamo-lo a mergulhar num momento fascinante e inesquecível, juntando paixão e tradição. Descubra os segredos de vinhos que prometem surpreender pela sua frescura e brinde à amizade num ambiente repleto de natureza”.
Não pretendo, de modo algum, ver numa conta empresarial do Facebook ou Instagram a linguagem de um jornalista ou romancista. Mas gostaria de deparar-me com uma escrita um pouco mais criativa, inteligente e conhecedora. A verdade é que, após ler as mesmas frases replicadas de marca para marca, fico com a sensação de que a esmagadora maioria das pessoas que escreve estes conteúdos nem sequer bebe ou gosta de vinho. O que, convenhamos, não será o melhor cartão de visita, se o propósito da publicação for levar um potencial consumidor a “atrever-se” a abrir uma garrafa… L.L.
Editorial: Então é assim

Editorial da edição nrº 101 (Setembro de 2025) É uma das mais clássicas interrogações do jornalismo: até que ponto a isenção é condicionada pelos gostos ou preferências de quem escreve? A deontologia profissional exige que o jornalista seja independente e isento. Mas o jornalista não deixa de ser uma pessoa. E podendo e devendo salvaguardar, […]
Editorial da edição nrº 101 (Setembro de 2025)
É uma das mais clássicas interrogações do jornalismo: até que ponto a isenção é condicionada pelos gostos ou preferências de quem escreve? A deontologia profissional exige que o jornalista seja independente e isento. Mas o jornalista não deixa de ser uma pessoa. E podendo e devendo salvaguardar, com afinco, a sua independência, dificilmente consegue assegurar a completa isenção.
Os jornalistas escondem, sempre, as suas preferências. Na tradição europeia, os que escrevem sobre política nunca dirão em quem votam nem apelarão a um sentido de voto. E, no entanto, enquanto apaixonados pelo tema, é certo que se identificam com determinadas ideias, pessoas e partidos. E rejeitam outras e outros. Pode então a sua análise aos méritos deste ou daquele político, ou desta ou daquela proposta, ser inteiramente isenta?
Algo quase impossível no jornalismo desportivo, sobretudo no futebol, onde o adepto é irracional por natureza. Não existe uma razão para se ser deste ou daquele clube. É-se, simplesmente. Sendo os jornalistas desportivos também adeptos, com que isenção avaliam um jogo ou um jogador?
Já quem escreve sobre gastronomia (ou vinhos) não vê o mundo a duas cores. É normal apreciar sabores muito distintos ou estilos bem diversos. Ainda assim, terá favoritos e ódios de estimação. Se um jornalista detestar abóbora (é o meu caso…) com que rigor vai avaliar um prato baseado naquele fruto?
Felizmente, não escrevo sobre comida. Mas escrevo sobre vinhos. E tal como os jornalistas de outras áreas, tenho as minhas preferências. E tal como eles (ou, acredito, a maioria deles) esforço-me ao máximo por impedir que os meus gostos influenciem o meu julgamento. Sei que, conscientemente, não beneficio ou prejudico um vinho em função de apreciar mais este ou aquele estilo ou região. Mas não posso garantir, com toda a certeza, que nunca o faça sem dar por isso. Essa garantia, nenhum ser humano pode dar.
Um crítico de vinhos (ou comentador político) não é suposto ser isento. Mas um crítico de vinhos que seja, ao mesmo tempo, jornalista, tem a obrigação de, a todo o custo, procurar sê-lo. E embora entenda que a exposição pública possa ser mal interpretada, seria bem melhor para o profissional do jornalismo, qualquer que seja a sua área, se os seus leitores soubessem para onde o seu coração (ou cabeça, ou estômago…) se inclina.
Não me importo de dar o primeiro passo. Então é assim. Sou bastante eclético, aprecio vinhos muito distintos no perfil. Mas nos tintos, gosto de garra tânica, estrutura e boa acidez. E nos brancos, sou pela untuosidade, elegância e frescura crocante. Não sou fã da fruta exuberante, prefiro os aromas e sabores vegetais de bosque ou frutos citrinos, às framboesas, groselhas e frutos tropicais. Entre vinhos de igual qualidade, escolho beber os menos alcoólicos. Mas detesto vinhos de uvas verdes (uma moda ridícula que, espero, passe depressa). A barrica em nada me incomoda se for boa e discreta. Nos varietais tranquilos, vou nos Encruzado, Baga, Alvarinho, Loureiro, Alicante Bouschet e Cabernet e passo Viognier, Merlot, Moscatel, Pinot e Gewurztraminer. Adoro espumantes “bruto zero” e com longo estágio em cave (aqui o Pinot é muito bem-vindo) e dispenso Pet Nat, Late Harvest e destilados.
Regiões? Na minha garrafeira estão todas bem representadas. Mas se fosse possível aferir as favoritas pelas garrafas que espreitam nas prateleiras, poderia dizer que, em tintos, prevalecem Bairrada, Douro e Alentejo, em partes quase iguais. E em brancos, Monção e Melgaço (dominante), Bairrada e Dão. Nos licorosos, Porto (bem maioritário), Madeira e Setúbal. Para terminar esta declaração de interesses, devo acrescentar que gosto imenso de tintos Barolo e Bordeaux e brancos Mosel, Bourgogne e Jerez mas, infelizmente, não abundam cá em casa… L.L.

