CASA SANTOS LIMA: O gigante discreto

Casa Santos Lima

Alenquer, há muitos anos numa reportagem de vindima. Próximo de Lisboa, era o sítio mais fácil para visitar um verdadeiro compêndio de castas, bem como sua sequência de maturação e recolha. Foi em 2005. Ddeixem-me citar, desse artigo, a ordem de colheita das várias castas: Pinot Noir (T), Fernão Pires (B), Chardonnay (B), Vital (B), Sauvignon Blanc […]

Alenquer, há muitos anos numa reportagem de vindima. Próximo de Lisboa, era o sítio mais fácil para visitar um verdadeiro compêndio de castas, bem como sua sequência de maturação e recolha. Foi em 2005. Ddeixem-me citar, desse artigo, a ordem de colheita das várias castas: Pinot Noir (T), Fernão Pires (B), Chardonnay (B), Vital (B), Sauvignon Blanc (B), Viosinho (B), Seara Nova (B), Rabo de Ovelha (B), Merlot (T), Trincadeira (T), Camarate (T), Syrah (T), Touriga Franca (T), Tinta Roriz (T), Castelão (T), Cabernet Sauvignon (T), Tinto Cão (T), Preto Martinho (T), Arinto (B), Touriga Nacional (T), Tinta Barroca (T), Alicante Bouschet (T), Alfrocheiro (T), Caladoc (T), Sousão (T), Moscatel (B) e Tinta Miúda (T).

Nesta viagem de 20 anos percebe-se que, já naquela época, a filosofia da casa era, acima de tudo, diversificar. A estratégia não era de sucesso evidente, havia muitos outros produtores a apostar no contrário: num vinho forte, construir aí a marca e, depois, introduzir variedade a partir desse ponto focal. Seria fazer o tinto X, depois o X Reserva, a seguir o X branco, depois o X Touriga Nacional, e talvez ficar por aí.

Vejamos, o paradigma dos vinhos de sucesso em Bordéus é parecido: 300 mil garrafas do Château Blah, 30 mil do Petit Blah, feito com as vinhas mais novas, e o resto da produção é vendido a granel ou engarrafado discretamente com a Denominação de Origem (DO) em grande evidência no rótulo. Objectivo? Não estragar o prestígio nem o preço do Château, que faz quantidade a sério a multiplicar por bom preço. Na Borgonha, a estratégia também é enfatizar a notoriedade dos melhores vinhos, mas com o foco na raridade e particularidade de cada um dos terroirs, que podem ser minúsculos, originando pouquíssimas garrafas, posteriormente disputadas como jóias por apreciadores ávidos de exclusividade e luxo.

Em contrapartida, a Casa Santos Lima cedo escolheu e se especializou num rumo alternativo: alargar a gama, construir muitas marcas, muitas castas, muitos lotes, diversificar mercados, sempre com preços contidos, apostando em grandes quantidades com margens pequenas, organizando o crescimento da empresa a partir daí.

 

O mote da Casa Santos Lima: “atender às necessidades dos clientes e adaptar-se às rápidas mudanças nas tendências do mercado”

Para lá das 200 referências

José Luís Oliveira e Silva está na liderança desde 1995. Reformou-se nesse ano de uma carreira na banca de investimento, que incluiu períodos de trabalho em França e Inglaterra. Já em jovem gostava de acompanhar os trabalhos da quinta, com grandes extensões de vinha, mas não tinha vinho engarrafado. Logo de início, optou por criar várias marcas que tiveram sucesso imediato, como o Palha Canas ou o Quinta das Setencostas. O topo de gama Touriz era um nome feliz. Reflectia a sua composição feita a partir de Touriga Nacional, Touriga Franca e Tinta Roriz e espelhava um novo interesse do público português nas castas e suas diferenças enológicas. Também desde cedo apareceram os monovarietais da Casa Santos Lima, uma espécie de biblioteca de estudo, cujos temas estão listados acima.

Além da variedade, a Casa Santos Lima sempre manteve uma estratégia de preços muito contidos, mesmo que cada vinho tivesse uma margem bastante pequena. O negócio fazia-se na multiplicação. Portanto, era preciso apostar incisivamente na venda. Para tal, a estratégia era encarar cada mercado como um desafio específico. Dentro de cada país, a diversificação era muitas vezes feita com várias marcas para vários distribuidores.

Não há pruridos quanto ao tipo de embalagem, que abrange, hoje, a garrafa de vidro, o bag-in-box, a Tetra Pack ou os mais recentes pouches (ou bagnuns, bolsas de plástico de litro e meio com uma torneira, como a dos bag-in-box, e que têm a vantagem de caberem facilmente no frigorífico). Os vedantes das garrafas de vinho podem ser de rolha de cortiça inteiriça, rolha técnica ou rosca de metal. Em 2025 as roscas suplantaram a cortiça e, dentro da cortiça, 70% são rolhas técnicas.

O número de marcas foi crescendo, o número de vinhos de cada marca também. No total, são mais de 200 referências diferentes distribuídas por algumas dezenas de marcas. Perguntei a José Luís como conseguia criar tantos nomes e ele respondeu-me com simplicidade: “moro em Lisboa e todos os dias venho para a quinta. São 40 minutos para cada lado. Tenho muito tempo para pensar em nomes.” Alguns são sensacionais, como os blockbusters Red Blend (que melhor nome para um tinto de lote?) ou Duas Uvas (cujas iniciais 2U se lêem em inglês Para Ti), duas das marcas que vendem mais de dois milhões de garrafas cada uma.

As marcas “umbrella” Bons-Ventos e Lab (de Labrador) vendem, respectivamente, três e quatro milhões de garrafas, nos vários tipos de vinho, entre tintos, brancos, rosés, varietais e lotes. Todo este universo é de milhões. O vinho de produção mais pequena é o tinto topo de gama Utopia, com cerca de três mil garrafas. Das 200 referências, cerca de 40 são submetidos a estágio em barrica. Na região de Lisboa, esses vinhos estão, quer na Quinta da Boavista, quer nas instalações da vizinha Adega Cooperativa da Merceana.

 

90% da produção anual vai para 60 mercados dos cinco continentes, a qual se divide em 60% para a Europa e 40% para o resto do mundo

Exportação para 60 mercados

Globalmente, os números são impressionantes. A Casa Santos Lima produz, por ano, é de cerca de 30 milhões de garrafas, vendidos nas várias embalagens. 90% da produção é exportada, para um total de 60 mercados activos espalhados pelos cinco continentes. Na Europa, fica 60% destas vendas. O resto do mundo encaixa 40%. A percentagem de vinho vendido em garrafa é de 70%; e em bag-in-box e outros formatos é de 30%. Os mercados escandinavos têm uma forte preferência por estes últimos. Em muitos destes países nórdicos, notavelmente a Finlândia, a Casa Santos Lima tem vários lugares no top 10 dos vinhos mais vendidos, incluindo os três primeiros lugares. Os maiores mercados são Brasil, Bélgica, Canadá, Finlândia, Alemanha, Noruega, Portugal, Suécia, Reino Unido e Estados Unidos da América. Os tipos de vinho dividem-se por 77% de vinho tinto, 17% de vinho branco e 6% de rosé.

O enorme pavilhão de engarrafamento e expedição da Quinta da Boavista tem 12 mil metros quadrados e, além das linhas de engarrafamento, armazena cerca de três milhões de garrafas, quantidade que roda mensalmente, com cada peça a funcionar como um relógio. Há várias linhas de engarrafamento: uma que enche nove mil garrafas por hora, mas tem um set-up relativamente demorado, e outras duas mais lentas, usadas nos tempos mortos da principal e para marcas de mais reduzida quantidade. Muitas posições da linha tinham um trabalho desgastante, rotineiro e mecânico. Por isso, foram substituídos por robots modernos e incansáveis. Tarefas banais, como abrir uma grelha de cartão, para separar as garrafas umas das outras dentro da caixa de cartão, podem ser repetitivas e dadas a erros, para além de serem lentas, fastidiosas e desmotivantes. Se a tecnologia pode intervir e poupar aos humanos desse suplício, é bem-vinda. Os empregos não vão desaparecer, vão apenas evoluir para tarefas mais valorosas.

Um outro exemplo é o sistema robotizado para aceder ao armazém e trazer as bobinas de rótulos necessárias para os próximos engarrafamentos, parecido com o de algumas farmácias automatizadas. Muito impressionante, mesmo para uma pessoa como eu, que já visitei ao longo de décadas, muitas, muitas adegas.

 

A percentagem de vinho vendido em garrafa é de 70%. Em bag-in-box e outros formatos é de 30%

Mais de 700 hectares de vinha

O crescimento da Casa Santos Lima conduziu a investimentos sucessivos em várias regiões do país. Sob a batuta de José Luís Oliveira e Silva, o aumento da produção na região de Lisboa não fazia muito sentido, uma vez que a empresa já era responsável pela certificação de mais de metade dos vinhos da Comissão Vitivinícola da Região de Lisboa. Aliás, o mesmo é verdade para a DO Alenquer e IPR (Indicação de Proveniência Regulamentada) Algarve.

Na região de Lisboa a extensão de vinha chega aos 464 hectares. A expansão começou em 2011, com uma parceria, de longo prazo, com a Quinta de Porrais, no Douro, com o controlo de 100 hectares de vinha e consultoria enológica do famoso Xito Olazabal. Em 2013, avançaram para o Algarve, mais concretamente para próximo de Tavira, com 55 hectares de vinha. No ano seguinte, adquiriram a Quinta de Vila Verde, em Lousada, na região dos Vinhos Verdes, com 50 hectares de vinha, e fizeram uma parceria no Alentejo, com a exploração de 100 hectares de vinha, perto de Beja. Em 2022, avançaram para mais duas regiões: 18 hectares de vinha na ilha do Pico e 25 hectares de vinha em São João de Areias, no Dão. O total da área de vinha ultrapassa os 700 hectares.

Os vinhos são feitos em 12 adegas diferentes por uma equipa de 12 enólogos, aos quais se juntam enólogos estagiários na altura das vindimas. Chegaram a ser 20, mas, hoje em dia, tem sido mais difícil encontrar esse número. Segundo Vasco Martins, administrador responsável pela enologia, há algum esfriar em relação ao interesse dos jovens nestes lugares. A vindima é longa e sempre muito trabalhosa. Na Casa Santos Lima, começa em meados de Julho, no Algarve, e termina a meio de Outubro, nos Vinhos Verdes e no Dão.

A estrutura da equipa conta com dois directores que, tal como Vasco Martins, estão baseados na Quinta da Boavista. Manuel Lobo Carvalho é o responsável pelas regiões do Pico, Alentejo, Algarve, Vinhos Verdes e Dão. Hermano Veloso dirige as vindimas da região de Lisboa. Vasco Martins lidera pessoalmente as vindimas no Douro, contando ainda com a consultoria de Xito Olazabal. Além destes três, há um enólogo residente em cada região, e ainda outros dois na sede, para tratar de tarefas mais administrativas.

O desafio, obviamente, é coordenar uma equipa desta dimensão numa estrutura de produção com tamanha diversidade de locais, complexidade de terroirs e enorme variedade de marcas e vinhos de cada marca. Segundo José Luís Oliveira e Silva, para alguns vinhos de maior volume há uma base comum, que depois é adaptada para compor os lotes, que dão origem aos diferentes vinhos. O mote é sempre “atender às necessidades dos clientes e adaptar-se às rápidas mudanças nas tendências do mercado”. De “cada” mercado. Um exemplo curioso é a produção de vinho kosher, que obriga à vinda de um rabi, para dirigir todo o processo e fazer com as suas próprias mãos muitas das tarefas e manipulações necessárias. Entre tintos e brancos, contam-se já 100 mil garrafas anuais.

 

Lotes afinados e preços competitivos

As regiões têm diferentes exigências, em particular em relação ao engarrafamento. No Pico, Algarve e Douro, os vinhos são engarrafados localmente, enquanto os das outras regiões são convergidos para as adegas centrais, na zona de Alenquer, para simplificar os processos, controlar custos e optimizar a logística.

De entre as duas centenas de referências da Casa Santos Lima, na minha visita, pude provar uma amostra representativa dos vinhos, a qual me permitiu percorrer todas as regiões. Fiquei muito impressionado com a qualidade e carácter dos vinhos. Uma empresa desta dimensão tem acesso a massas vínicas excepcionais e demonstra que, com ambição e talento, é possível oferecer topos de gama que ombreiam com os melhores vinhos do país. Em algumas das denominações conseguem fazê-lo por um preço muito competitivo, seguindo a estratégia escolhida há 30 anos. Mas também é fascinante a qualidade que conseguem oferecer nos milhões de litros de vinho que fazem e muito interessante perceber que, em cada gama, os lotes são afinados para irem ao encontro de mercados específicos.

É ainda de louvar a autenticidade e respeito pelo carácter de cada uma das regiões. Muitos vinhos mostram o local de origem, apresentando uma autenticidade que vai ao encontro das expectativas e justifica a aposta em colocar mais pontos no mapa de Portugal. Os preços macios facilitam ainda a exploração da vasta gama da Casa Santos Lima, todo um prazer sensorial e intelectual.

Se alguma coisa dificulta essa tarefa é a falta de uma unidade, uma identificação, uma marca da casa. Já percebemos que isso não é defeito, é feitio. Muitos destes vinhos são concorrentes uns dos outros num determinado mercado e isso faz da gama um puzzle, que o apreciador pode tentar completar. Os enigmas são divertidos. Portanto, deixo um para o meu leitor: descobrir e provar o vinho que mais me fascinou, um prazer guloso que está descrito abaixo. Ao trabalho! Depois conte.

(Artigo publicado na edição de Fevereiro de 2026)

 

 

GRANDE PROVA BEIRA INTERIOR: Tudo o que a altitude proporciona

beira interior

Mal nos distraímos, deixamos o Douro em direcção a sul e, logo a seguir à Mêda, entramos na Beira Interior. A paisagem muda. Nessa zona específica, estamos em terrenos de planalto onde, para quem passa de carro, se torna óbvio pelo simples olhar, que “ali” parecem estar reunidas todas as condições para se fazer um […]

Mal nos distraímos, deixamos o Douro em direcção a sul e, logo a seguir à Mêda, entramos na Beira Interior. A paisagem muda. Nessa zona específica, estamos em terrenos de planalto onde, para quem passa de carro, se torna óbvio pelo simples olhar, que “ali” parecem estar reunidas todas as condições para se fazer um grande vinho: terrenos maioritariamente graníticos, que aparenta uma viticultura mais acessível, de muito menor declive, mais manobrável, por isso, mais amiga do lavrador. Em seguida, ao sair da estrada e entrando um pouco mais na paisagem longe da vista, descobrimos que ainda proliferam vinhas velhas, algumas raquíticas, seguramente todas condenadas à baixa produtividade, mas, crê-se, muito capazes de originar vinhos expressivos e com evidente classe. Depois pensamos em termos climáticos e orográficos, e entendemos tudo melhor. Afinal, estamos em altitude, onde as vinhas estão a 700 metros e não são raridades, e estamos no interior em tudo o que isso tem de específico: grandes amplitudes térmicas entre o dia e a noite, e condições óptimas para se produzirem vinhos que apostam, sobretudo, na elegância e na frescura ácida.

Porém, aqui também percebemos que não basta ter boas vinhas (ainda que velhas), uma boa paisagem, bom clima e gente com vontade de fazer bem e diferente; nesta equação tem de entrar um dado que é a verdadeira incógnita: o mercado. Ora “o mercado” e as suas leis são muito ingratos com as Beiras. Estar a sul do Douro, região que está nas bocas do mundo e nas páginas dos winewriters que proliferam por aí, e a leste do Dão, região cheia de pergaminhos, já com marcas de referência e nomes sonantes, é tudo menos fácil. É esse peso do mercado e da notoriedade que faz com que a Beira Interior tenha um patamar de preços de venda que, se por um lado podem ser interessantes para o consumidor, por outro sabemos que não puxam a região para a vanguarda dos vinhos portugueses. É uma batalha permanente, um work in progresso, como dizem os ingleses.

Ao todo, incluindo vinhos DOC e IG, a responsabilidade da produção recai sobre 81 produtores.

 

Do Douro a Castelo Branco

A região é extensa e, segundo informação da Comissão Vitivinícola Regional (CVR) da Beira Interior, a vinha espraia-se por 11 654 hectares, sendo possível dividi-la em três zonas. De norte para sul temos, em acentuada proximidade do Douro, a região de Pinhel e, colada a esta, a região de Castelo Rodrigo. São zonas de altitude média elevada, 650 metros, em Pinhel, e de 600 a 750 metros, em Castelo Rodrigo, de clima seco, com invernos frios e rigorosos, onde a neve é visita habitual, enquanto no Verão as amplitudes térmicas são elevadas, com os calores diurnos a serem compensados pelas noites frias, um fenómeno que todo o enólogo aprecia pelo equilíbrio que proporciona à maturação das uvas.

Mais para sul temos a Cova da Beira, a maior das três zonas em área, com a imponente serra da Estrela a delimitá-la a norte. Menos radical, podemos dizer assim, por se apresentar mais moderada nas variações, quer de temperatura quer de precipitação. Olhando para o mapa da Beira Interior, verificamos que há largas faixas de terreno que não estão contempladas nestas três sub-regiões. Por conseguinte, não têm direito a serem DOC Beira Interior, embora possam ostentar a designação de vinho regional, aqui chamado de IG Terras da Beira. Ao todo, incluindo vinhos DOC e IG, a responsabilidade da produção recai sobre 81 produtores. A prova que fizemos incluiu brancos e tintos, uma originalidade, mas que teve o mérito de permitir aferir se há produtores que se destaquem em ambos os modelos, o que de facto aconteceu.

Nestas terras do interior, a vinha, exactamente porque está longe das luzes da ribalta, mantém um perfil que ainda é tributário de um desenho antigo. Expliquemo-nos: aqui como em todo o resto do país vinhateiro, a tradição impôs o plantio de vinha a eito, com castas misturadas e, não raramente, com uvas brancas no meio das tintas, algumas delas de uvas de mesa. A razão era aqui a mesma das outras regiões: como a vindima era feita, também ela a eito, colhiam-se algumas uvas um pouco mais verdes, que forneciam mais acidez e outras eventualmente em estado demasiado maduro, mas que contribuíam com mais açúcar, logo, com mais potencial alcoólico. Porém, havia uma outra razão, muito importante, convenhamos: como a vinha é uma empresa a céu aberto e está sujeita às agruras do clima, o produtor percebeu que umas eram mais atreitas a doenças e poderiam não se darem bem; outras, por força na chuva, na altura errada, tinham desavinhado, além de outros imponderáveis. Desta forma, ao ter as castas misturadas na vinha, havia sempre a possibilidade de “umas se darem bem e as outras não”, salvando-se, desta forma, a produção anual.

Esta é a cartada segura da Beira Interior. Assim se saiba preservar estes velhos vinhedos que, não só contribuem para a preservação genética, como são o factor identitário que marca a região. As castas estrangeiras podem estar cá, todavia não acrescentam nada, tal como a proliferação de castas do Douro, que pode ser igualmente questionada. Não há que ter atitudes radicais em relação a este tema, porque o vinho é um negócio e o produtor tem de se adaptar ao gosto do mercado e procurar produzir aquilo que possa ser mais rentável. É um verdadeiro tabuleiro de xadrez em que precisamos saber como mover as peças, quais são os peões e por onde anda o Rei para não ser “comido” sem dar por isso.

beira interior

 

Nota-se uma aposta em vinhos mais abertos de cor, menos marcados pela madeira e menos alcoólicos, em resposta ao mercado e ao gosto actuais

 

As castas e o clima delas

Comecemos pelo clima e vamos reforçar aqui o que acima afirmámos: a altitude, a temperatura e a variação dia/noite faz com a que a Beira beneficie da interioridade e esteja menos sujeita às doenças da vinha, por força da menor presença de humidade. Há, neste factor, uma enorme vantagem, uma vez que aqui é mais fácil produzir uvas, quer em protecção integrada quer em modo biológico, o que ajuda a uma melhor sustentabilidade ambiental, contribuindo para solos mais saudáveis.

As uvas que por cá se plantam são de tipo variado. Em primeiro lugar, destacamos aquelas variedades, como a tinta Rufete (conhecida no Dão como Tinta Pinheira) e as brancas Fonte Cal (de que a Beira é quase território único) e Síria (a Roupeiro do Alentejo). A solo ou em lote, estas castas têm a marca que, por norma, atribuímos à região: mineralidade, frescura e delicadeza de fruta. No caso da tinta Rufete, que muito sofreu na época em que só se procurava cor e extracção nos tintos, confere uma forte marca de vegetal seco que remete a fruta para segundo plano, mas funciona como cartão de identidade, gerando vinhos abertos de cor, os verdadeiros “Pinot Noir à portuguesa”.

Naturalmente que outras variedades surgiram como companheiras de aventura destas variedades tradicionais: nas brancas, a Arinto, a Fernão Pires ou a Malvasia Fina e, nos tintos, a Touriga Nacional, a Trincadeira, a Touriga Francesa e a Tinta Roriz. Há ainda apontamentos de castas internacionais, como a ubíqua Chardonnay, além da Riesling e, nos tintos, Cabernet Sauvignon, Syrah e Merlot.

O painel de prova demostrou uma grande diversidade de estilos e nota-se claramente uma aposta em vinhos mais abertos de cor, menos marcados pela madeira, menos alcoólicos, correspondendo a um certo chamamento do mercado e do gosto actuais. Por último, é de salientar que em termos de preços, os vinhos apresentam uma paleta alargada de escolhas, mas, em geral, são bem amigos do consumidor.

(Artigo publicado na edição de Fevereiro de 2026)

OS BRANCOS:

 

OS TINTOS:

MÁRCIO LOPES WINEMAKER: O norte como destino

Marcio Lopes

Quando refletimos sobre um trabalho a realizar com um produtor, não podemos limitar-nos a debitar dados estatísticos sobre número de hectares, garrafas produzidas ou referências criadas. O modo de olhar terá de ser mais sensitivo, emotivo, transparecendo não apenas o vinho que se prova, mas o modo como se chegou até ali. Os millennials são, atualmente, a maior […]

Quando refletimos sobre um trabalho a realizar com um produtor, não podemos limitar-nos a debitar dados estatísticos sobre número de hectares, garrafas produzidas ou referências criadas. O modo de olhar terá de ser mais sensitivo, emotivo, transparecendo não apenas o vinho que se prova, mas o modo como se chegou até ali. Os millennials são, atualmente, a maior geração consumidora de vinho em países como os Estados Unidos. Contudo, este novo perfil de consumidor já não se satisfaz com meras degustações ou provas técnicas. Pelo contrário, procura experiências mais completas de contacto direto com o território, que abarquem uma maior plenitude sensorial e emocional. A cultura do vinho é isso mesmo, um compêndio de emoções e razões que tanto dissecam o produto, como expõem a nu quem o cria, mostrando, inclusive, as naturais fragilidades humanas.

O Caminho

Convidando Márcio Lopes a abordar o caminho percorrido desde 2010, a timidez vence-o, optando por criar uma metáfora desse percurso em capítulos, onde cada vinho conta uma história poética de revivalismo. Mas há mais para lá desta rota, ou não fosse O Caminho um vinho construído à volta da aprendizagem que se sedimentou, dos métodos de vinificação que foi apreendendo, das castas que foi estudando no decurso do ofício de enólogo. O Alvarinho, aos seus olhos, encontra-se ali na parcela certa e redunda num vinho que também espelha as pessoas especiais com quem se tem cruzado ao longo desta jornada. A primeira vindima do projeto nome próprio ocorre em 2010, com apenas 2000 garrafas de Pequenos Rebentos Alvarinho, em Melgaço, na região dos Vinhos Verdes, e 600 garrafas de Proibido, em Foz Côa, na sub-região do Douro Superior. Este início do percurso surge com uma vinha pertencente ao sogro, produtor dos vinhos D. Paterna, ainda que o espírito libertário sempre lhe insinuasse seguir um caminho de crenças solitárias.

A primeira vindima de Márcio Lopes é feita ainda durante os tempos da faculdade, ao lado do primeiro mestre, Anselmo Mendes, na antiga adega. À data, já figura de proa da enologia nacional, Anselmo Mendes recomenda Márcio Lopes como enólogo residente num agrupamento de produtores de Viana do Castelo, onde veio a permanecer até 2007. No ano seguinte, ruma à Austrália, para abrir horizontes sobre vinhos do mundo. No regresso, vai trabalhar para o Ribatejo, onde permanece apenas por nove meses. O destino estava-lhe traçado a norte…

Márcio Lopes insiste em preservar a vinha de enforcado, sistema de condução ancestral existente na região dos Vinhos Verdes

 

Os Primeiros Rebentos

A necessidade leva Márcio Lopes a fazer-se à vida na venda e distribuição de vinho. Começou do zero. Pegou nas parcas economias, comprou 20 caixas de vinho a um amigo produtor e lançou-se nas vendas. Nesse dia, apenas lhe restava pecúlio para colocar uns litros de combustível no automóvel; no seguinte, já tinha as primeiras caixas vendidas. Adquiriu mais duas dezenas de caixas e, ao final do mês, a vida já lhe sorria de outro modo.

Durante uns tempos, as vendas foram correndo de feição, mas o chamamento da terra seduzia-o. Em 2010, após uma longa conversa com a mulher, Cláudia Codesso, em que contabiliza todos os receios, alia a distribuição com a produção e cria os primeiros vinhos em Melgaço e no Douro. Às 2600 garrafas produzidas no primeiro ano somaram-se muitas mais, resultando num incremento traduzido em 15 mil em 2015. Contudo, o negócio ainda não era viável, nem lhe permitia viver somente dele. O crescimento mostrava-se indispensável. Por conseguinte, em 2017, duplica a produção para 70 mil garrafas. O drama existencial, não obstante o risco assumido, era tremendo. A hipótese do fracasso nas vendas e a incapacidade de não poder honrar os compromissos assolava Márcio Lopes. Talvez por isso tenha evitado, durante muitos anos, colaboradores, preferindo assumir a solo todos os desígnios da atividade.

Entretanto, em 2015, surge no horizonte a Vinha Velha do Pombal, localizada em Foz Côa, nas cercanias de outras parcelas onde já adquiria uva. O que lhe era oferecido era extremamente convidativo. A 500 metros de altitude, com exposição nascente e norte, os quatro hectares possuíam um riquíssimo património de vinha velha e uma multiplicidade de castas que garantiam a originalidade do que dali pudesse brotar. Foi a resiliência quem o orientou num processo de paciência, perante a reticência da proprietária duriense de lhe vender a vinha.

A venda concretizou-se, mas as incertezas continuavam a pairar. A falta de mão-de-obra já era uma doença que corroía a região. Márcio Lopes acumulava a viticultura com enologia, a responsabilidade comercial e a gestão da empresa. A vinha trazia-lhe exigência acrescida de dali querer retirar algo sublime e diferente. Desde a compra, respeitando o padrão do que deseja produzir, ainda só conseguiu lançar duas colheitas, estando, presentemente, a lançar a terceira, num horizonte de uma década volvida após a aquisição. Um critério que, segundo explicou, leva-o a estar há mais de dois meses a tentar elaborar o lote ideal, para definir o próximo Garrafeira.

 

A raiz do Princípio do Mundo 

Nos Vinhos Verdes, a obra nasce, igualmente, a partir da preservação revivalista de práticas ancestrais, onde as Vinhas de Ramada e as Vinhas de Enforcado são parte relevante de um património cultural que Márcio Lopes insiste em preservar, evitando que caiam no esquecimento do tempo e desapareçam. A Vinha de Enforcado, localizada em Telões, Amarante, de onde são colhidas as uvas para produzir o Pequenos Rebentos Selvagem, é um sistema de condução de vinha que remontará à Idade Média e que vingou no norte de Portugal, particularmente na atual região dos Vinhos Verdes. Eram práticas das famílias mais humildes, consistindo no cultivo das videiras nos limites das parcelas agrícolas, deixando o interior destas para o cultivo dos cereais, hortícolas ou culturas forrageiras, estas últimas destinadas à alimentação do gado. Neste sistema, as videiras trepam por postes vivos, as árvores cujos ramos sustentam a planta, que cresce, em muitos casos, ao longo de 10 a 12 metros.

A explosão demográfica ocorrida nos anos 50 do século passado levou a uma expansão deste sistema de condução de vinha. Salazar proibia o crescimento da vinha nas melhores terras aráveis, levando a que a capacidade e o engenho dos agricultores optasse pela vinha trepadeira a crescer, envolvendo as árvores. Hoje, são raras estas vinhas, às quais Rogério de Castro apelida de “Viticultura de vento”, sistema que, expondo a videira a um maior arejamento, torna menor a necessidade de tratamentos fitossanitários, poupando em mão de obra e produtos. Porém, este sistema de condução de vinha gera muitos desequilíbrios de maturação. A expertise de alcançar o equilíbrio dentro dos desequilíbrios – uvas com 6% a 7% de teor alcoólico provável e níveis de acidez alucinantes – tem de se iniciar dentro da vinha, com a finalidade de evitar correções posteriores, porque a Azal é uma casta de ciclo longo, mostra-se fundamental realizar uma desfolha substancial na altura da floração e, em início ou meados de julho, há que proceder a uma monda expressiva, para adiantar a maturação das uvas, de modo que o seu perfeito estado para a vindima ocorra antes do equinócio e das primeiras chuvas, trágicas para uma casta que, a acrescer, produz cachos muito compactos e, por isso, mais sensíveis à podridão. O Selvagem também revolucionou os procedimentos de adega no modo como se trabalha a casta, porque antes de trabalharem a desfolha, o surgimento de alguma podridão nos cachos obrigava ao desengace bago a bago. Hoje, tal já não é necessário. A fermentação é feita em ânforas de barro cru que, por força da libertação de cálcio, precipitam o tartárico e reduzem o excesso de acidez. O caráter redutivo da Azal é igualmente suprimido pelo estágio em barricas de carvalho português de maior porosidade. Não se pense, no entanto, que este procedimento foi encontrado no primeiro embate com a casta e a vinha. Foi da tentativa/erro, ação através da qual se encontraram soluções e, a montante, muito vinho se perdeu.

As vinhas velhas da região minhota são alvo da busca exploratória de Márcio Lopes. Trabalhando com cerca de 50 viticultores e em mais de 200 parcelas, o conhecimento sobre o acervo vitivinícola torna-se extenso. O Pequenos Rebentos Vinhas Velhas surge de uma dessas vinhas, pouco atraentes para o agricultor devido à baixa produção, mas extremamente atrativas para Márcio Lopes. Plantada em 1989, somente com a casta Loureiro, ia ser arrancada pelo proprietário, que nela via pouco rendimento. O enólogo tomou conta desta vinha, com sistema de condução em bardo, plantada em solos bastante compactos de argila. Dali idealizou a produção de um vinho exigente. A dimensão da matéria-prima imperava rigor e qualidade. Daí ter-se promovido, no processo de vinificação, um trabalho de barrica cuidado, por meio da seleção de exemplares de grão extremamente fino, com três e quatro anos de uso. Uma receita que resultou de modo gratificante num vinho feito a partir de uvas vindimadas numa vinha sem grande reconhecimento, nem atratividade, em termos de localização (entre Braga e Famalicão), mas que, em termos individuais, se veio a mostrar diferenciada. Isto, não obstante a produção ridícula. Se, num ano simpático, Márcio Lopes retira dali 2500 quilos de uva, 2025 trouxe-lhe somente uma colheita de 1.000 quilos, que se traduzirá em 600 garrafas da referência.

Ainda acerca da região dos Vinhos Verdes, a Márcio Lopes muito dizem as castas tradicionais do verde tinto: Alvarelhão, Cainho Tinto, Boçal e, sobretudo, Bastardo. Não sendo a aposta segura e convincente para os produtores da região, a Bastardo é uma uva com grande significado para o enólogo, que ainda a procurou na Ribeira Sacra, onde produziu o Telegrafo, cuja primeira edição, de 2017, ficou limitada a 350 garrafas. A segunda edição é da colheita de 2023. Ou seja, Márcio Lopes valoriza a exploração das variedades mais antigas da região, tendo apostado e valorizado o trabalho realizado pelos especialistas em ampelografia, Teresa Mota e Pedro Malheiro, em parceria com a PORVID (Associação Portuguesa para a Diversidade da Videira). O exercício coerente desta constante busca das práticas e castas ancestrais tem-se mostrado essencial, no sentido de minorar o risco de desaparecerem por força da uniformização dos territórios em detrimento da tradição.

Já o Pequenos Rebentos Touché é oriundo de apenas uma ramada de vinha em Melgaço, com uma produção que ronda os 2.000 e os 2.500 quilos por meio hectare. A maioria das vinhas que arrenda estão longe do radar dos grandes operadores, isto é, ao procurar parcelas com características muito específicas, encontra matéria-prima que lhe permite contrariar tabus associados à dureza e rusticidade das uvas tintas dos Vinhos Verdes, criando, neste caso, um tinto de intensa delicadeza, fino e muito elegante, revelando consistência desde a sua primeira edição.

Por sua vez, a inspiração cinéfila do Viagem ao Princípio do Mundo transcende a metáfora da obra do realizador Manoel de Oliveira. Há nele um regresso às origens, à Alvarinho e à exponenciação das suas virtudes, num registo interpretativo muito pessoal e íntimo dos vinhos que se escondem no nariz, para se afirmarem na boca, vincando o experimentalismo no uso de barricas de Jerez, com o vinho a evoluir por baixo de um “véu” de flor.

O Douro é o berço 

O ano de 2025 também se revelou um prenúncio de morte, com o inesperado fim da Centenária, a vinha localizada na Mêda, localizada na sub-região do Douro Superior, a qual dava origem ao branco de altitude Permitido Centenária. Não obstante os esforços, as perdas foram irreparáveis, obrigando a um trabalho de recuperação que está em curso. Era uma vinha singular, com mais de 15 castas plantadas, no final do século XIX, a 800 metros de altitude, em solo extremo de granito. Fica-nos a colheita de 2022, agora provada e que antecede as derradeiras colheitas de 2023 e 2024. Para além disso, permanece apenas a memória, a mesma memória de infância que transportou Márcio Lopes para o Douro-berço.

No início, e sempre com a vertente financeira presente, Márcio Lopes encontrava a opção mais razoável no Douro Superior, onde o preço de arrendamento ou aquisição de vinha é, ainda hoje, mais atrativa. O património genético está nas vinhas de Vale Mendiz e de Foz Côa, onde ainda há áreas significativas da casta da sua eleição, a Bastardo, não escondendo a paixão por vinhas onde estão clones antigos de Tinta Roriz, com menor expressão de cor.

No Douro, Márcio Lopes projeta o futuro da região e procura já criar vinhos que o antecipem. A respeito do Proibido Déjà Vu, o enólogo antevê-o com as castas tradicionais Touriga Nacional, a conferir-lhe a componente aromática, a Tinta Roriz, o esqueleto do vinho, o Alvarelhão, que lhe aporta a frescura, e a Tinta da Barca, com a amplitude. A interpretação é, uma vez mais, evitar correções posteriores à vindima, usando as castas mais propensas à resistência ao fenómeno incontornável do aquecimento global.

Nas criações, não há imutabilidade, mesmo nos vinhos que, aparentemente, possuem o caráter mais clássico (duriense). O Proibido Grande Reserva espelha essa evolução de perfil, colheita após colheita, mostrando-se, hoje, mais aberto na cor e com uma perceção de madeira mais ténue, o que também implicou uma adaptação por parte das câmaras de provadores e entidades certificadoras. Aqui, estamos na presença de um vinho elaborado a partir de uvas colhidas num conjunto de vinhas velhas do Douro Superior, com idades entre os 40 e 80 anos, e castas muito variadas, como Tinta Francisca, Tinta Amarela, Sousão, entre diversas videiras de variedades não identificadas.

A maturidade do projeto determina, em 2019, que Mário Lopes desça do Douro Superior para a sub-região do Cima Corgo, onde o processo contemplativo e explorador o leva ao Proibido Vale do Rio Pinhão, numa vinha a que chama “parque de diversões” para entusiastas do vinho. Gastão Taveira, o proprietário, abriu-lhe as portas para este paraíso de diversas e distintas parcelas de terraços pré-filoxéricos, com exposições norte e sul, e altitudes baixas, entre os 150 e 200 metros. É aqui que encontra uma Tinta Roriz distinta para deslumbrar.

Ao assinar o Proibido Garrafeira, vinho de opulência clássica duriense, com um estágio de sete anos em garrafa, encontra o seu oposto no Proibido Vinha Velha do Pombal, um tratado de elegância e leveza, enraizado numa vinha de antologia. Com exposição nascente, beneficia das brisas serenas e das temperaturas moderadas, onde quase não entram os tratamentos, mostrando a fruta no estado mais puro, numa parcela onde rareia a água e a vinha é obrigada a um trabalho de esforço e profundidade na busca de nutrição. Plantada em 1957, produziu umas diabólicas 666 garrafas. Estamos perante um perfil raro no Douro, exalando uma outra história tão própria, que obriga Márcio Lopes a possuir várias referências, cada uma delas muito singular e, por isso mesmo, a merecer um capítulo distinto.

(Artigo publicado na edição de Fevereiro de 2026)

QUINTA DONA SANCHA: Vinho frescos e sedutores

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A Quinta Dona Sancha apresentou num almoço, que decorreu no restaurante Pabe, em Lisboa, seis referências de vinho, de três gamas diferentes, entre as quais estiveram presentes as novas colheitas da gama Avarenta tinto e branco, o Quinta Dona Sancha Encruzado e Touriga Nacional. O Vinha Ancestral tinto de 2019 e o monocasta de Jaen […]

A Quinta Dona Sancha apresentou num almoço, que decorreu no restaurante Pabe, em Lisboa, seis referências de vinho, de três gamas diferentes, entre as quais estiveram presentes as novas colheitas da gama Avarenta tinto e branco, o Quinta Dona Sancha Encruzado e Touriga Nacional. O Vinha Ancestral tinto de 2019 e o monocasta de Jaen de 2022 foram as duas novidades absolutas.

Rui Parente, o produtor da Quinta Dona Sancha, defende que os seus vinhos já demonstram hoje uma matriz de sabores e aromas que os diferenciam

 

Pensados ao detalhe

Segundo Rui Parente, fundador do projecto e proprietário da Quinta Dona Sancha, os vinhos apresentados “foram pensados ao detalhe, para despertar lembranças e emoções”, expressando “a identidade que procuram afirmar, desde a primeira vindima”, o terroir de Silgueiros, da região do Dão. O enólogo Paulo Nunes tem sido o consultor da empresa desde o primeiro dia, contribuindo, com o seu conhecimento, e saber fazer, para a produção e comercialização de vinhos, com a frescura e elegância que os caracteriza. Rui Parente, que já o conhecia há muitos anos, ainda antes de se dedicar à produção de vinhos, já tinha encetado conversações, para que se envolvesse neste projecto antes de o iniciar.

O objectivo, desde o início, foi procurar fazer vinhos com identidade, marcados pelas características que diferenciam o terroir de Silgueiros e do Dão, “acreditando que havia espaço para colocar a região na rota do sucesso, o lugar que um território com pergaminhos históricos na produção de vinho de qualidade merece”, defendeu Rui Parente no dia do lançamento, salientando que, à sexta vindima, a empresa mostra que é uma empresa representativa daquilo que é a sub-região de Silgueiros, a quinta e o terroir. “Acabámos de os provar e a identidade da quinta nota-se em todos os vinhos”, salientou, com algum orgulho, nesse dia, defendendo que mostram “uma matriz que identifica o projecto, o que tem sido o meu objectivo de médio e longo prazo desde o primeiro dia”.

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Paulo Nunes, enólogo consultor da empresa

50 hectares de vinha

A Quinta Dona Sancha nasceu de um sonho de Rui Parente. Os pais produziam vinhos para terceiros, sem marca, mas o empresário teve sempre esse desejo de criar um projecto próprio na Região do Dão. Talvez tenha sido essa a finalidade de iniciar o percurso no sector ainda muito jovem, lançando-se por conta própria em 2011, quando criou o seu negócio, a Cave Lusa, em Viseu, que inclui uma garrafeira e uma empresa distribuidora de vinhos.

A oportunidade de se estrear na produção surgiu em 2018, com a compra de duas propriedades que constituem, hoje, a Quinta Dona Sancha, uma referência na região do Dão situada a 12 quilómetros de Viseu, com cerca de 47 hectares de vinha e um portefólio reconhecido pela autenticidade e pela elegância dos seus vinhos.

(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2026)

MANICHE: Depois do futebol, o champanhe

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Nuno Ricardo de Oliveira Ribeiro, mais conhecido como Maniche dentro das quatro linhas do retângulo futebolístico nacional, foi um dos raros atletas que envergou a camisola dos três clubes conhecidos como os grandes do futebol português. Germinou no Benfica, foi campeão europeu no Futebol Clube do Porto e pendurou a chuteiras, depois de uma rápida […]

Nuno Ricardo de Oliveira Ribeiro, mais conhecido como Maniche dentro das quatro linhas do retângulo futebolístico nacional, foi um dos raros atletas que envergou a camisola dos três clubes conhecidos como os grandes do futebol português. Germinou no Benfica, foi campeão europeu no Futebol Clube do Porto e pendurou a chuteiras, depois de uma rápida passagem pelo Sporting, clube do coração e do qual era sócio. Entretanto, foi ainda atleta de clubes bem conhecidos dos adeptos de bom futebol.

Enquanto jogador foi um médio com grande apetência para municiar o ataque e explorou, com grande sucesso, a apetência para a marcação de golos muito vistosos de longa distância. Para a história, ficou aquele contra a Holanda, no Euro 2004, de um dos ângulos da grande área. Em todo este percurso de sucesso houve um denominador comum – a camisola com o número 18.

Quando pendurou as chuteiras, em 2011, ainda tentou enveredar pela carreira de treinador. Orientou o Paços de Ferreira e a Académica de Coimbra, enquanto adjunto. No entanto, no ano de 2016 encerrou esta nova faceta no mundo de futebol, para dar lugar a uma paixão que fermentava com cada vez maior intensidade.

 

“Eu não podia escolher um parceiro qualquer. A mim só me interessam os produtos de topo”, afirma Maniche

 

Do Douro para Champagne

O pontapé de saída no mundo dos vinhos foi dado em 2016 com a compra de vinhas no Douro e posterior lançamento de dois vinhos em parceria com a Quinta da Pacheca. A enologia coube a Maria Serpa Pimentel. Esse seria apenas o primeiro passo na fileira vínica nacional. Tal como na vida futebolística, a paixão de Maniche cresceu e galgou fronteiras em direção à região de Champagne, mais especificamente Reims, localizada no nordeste de França, onde assinou uma nova parceria com uma casa com 400 anos de história desenvolvida ao longo de treze gerações de produtores. Nada mais do que uma das mais prestigiadas referências da região, a Maison Cattier, casa fundada em 1625 pela família homónima. Tal como referiu Maniche: “este foi um passo muito pensado e ponderado tendo em vista a internacionalização do nosso portefólio. Eu não podia escolher um parceiro qualquer. A mim só me interessam os produtos de topo.”

Ainda assim, o vínculo entre o futebol e o vinho volta a fortalecer-se através de um acaso que deveria estar escrito no firmamento futebolístico. Jean-Jacques Cattier, líder da pretérita geração familiar, que conseguiu guindar e cimentar a marca como um produto muito exclusivo e de grande sucesso mundial, também é um dos principais acionistas da equipa Stade de Reims.

O Reims é um dos clubes com mais vitórias na história do futebol francês, com um palmarés que inclui a conquista de seis títulos da Ligue 1, duas Taças da França e cinco Troféus dos Campeões. O clube também ostenta um bom desempenho a nível europeu – no currículo apresenta duas finais, nas edições de 1956 e 1959, da Taça dos Campeões da Europa, a conquista da Taça Latina e da Taça dos Alpes em 1953 e 1977.

Nas palavras de Maniche: “Esta é uma união carregada de pontos comuns, com um futebol ganhador de títulos e de conquistas memoráveis”.

 

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“Esta é uma união carregada de pontos comuns, com um futebol ganhador de títulos e de conquistas memoráveis”, declara o ex-futebolista

 

Novas aquisições vínicas

Nesta renovada temporada de desafios, Maniche apresenta dois champanhes denominados, Cattier Emedezoito by Maniche Brut rosé Premier Cru e Cattier Emedezoito by Maniche Brut Premier Cru. Ambos foram lançados ao público na cidade do Porto, seguido de um evento internacional em Madrid.

Segundo as palavras de Maniche, o primeiro foi produzido “pela adição de vinho tinto à mistura”. É um Brut rosé Premier Cru, que “reflete a qualidade das castas Pinot Noir e Pinot Meunier da Montagne de Reims e a sua deslumbrante complexidade aromática”. Já o segundo “foi produzido a partir de uma mistura dominada por Pinot Noir das minhas nove aldeias favoritas, caracterizando-se pela sua elegância, generosidade e personalidade intensamente frutada, dada pelos três anos de estágio”, concluiu.

(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2026)

 

TINTOS DO DÃO: O Dão para além da Touriga

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A Touriga Nacional continua a ter um papel central na imagem do Dão, sendo responsável por 21,3% da área da vinha na região. Impositiva por natureza, mas quando bem integrada, a casta contribui com estrutura, profundidade aromática e identidade. Por isso, não fazia sentido excluí-la completamente desta prova; limitámos apenas a sua presença de forma […]

A Touriga Nacional continua a ter um papel central na imagem do Dão, sendo responsável por 21,3% da área da vinha na região. Impositiva por natureza, mas quando bem integrada, a casta contribui com estrutura, profundidade aromática e identidade. Por isso, não fazia sentido excluí-la completamente desta prova; limitámos apenas a sua presença de forma a não ultrapassar os 50% do lote.

O que é um blend tradicional do Dão?

Eis uma questão que só pode ser respondida sob um prisma histórico. O lote das quatro magníficas – Touriga Nacional, Tinta Roriz, Alfrocheiro e Jaen –, que, entendemos hoje, como “tradicional”, certamente não o foi antes da filoxera, nem em meados do século passado. A composição das vinhas e dos vinhos foi-se alterando conforme modas, estudos científicos que privilegiaram umas castas em detrimento de outras, avanços na viticultura, alterações climáticas e outros factores.
A Touriga Nacional passou por um período de abandono antes de alcançar o novo estrelato. A Jaen, que mal surgia nos registos, domina hoje as plantações. A Tinta Roriz, que aterrou na região nos anos oitenta do século XX, ascendeu rapidamente à liga das castas recomendadas. A Baga, outrora dominante, aparece agora em field blends ou como raridade monovarietal. Algumas variedades perderam-se pelo caminho; as mais sortudas foram resgatadas do oblívio, graças ao esforço de produtores, como a Lusovini.

De acordo com a Ampelografia Portuguesa de 1865, antes da praga da filoxera, três castas tintas presentes em praticamente todos os concelhos da atual região do Dão eram a Touriga Nacional (à época conhecida como Tourigo ou Mortágua), o Alvarelhão e o Bastardo. Para além destas, são mencionadas Amaral, Baga, Tinta Amarela, Tinta Carvalha e Tinta Francisca, bem como outras variedades cujos nomes hoje são pouco conhecidos, como Coração de Galo ou Pilongo.
Em 1953, Tourigo e Alvarelhão eram obrigatórias nas novas plantações, com um mínimo de 10%. Em 1985, a Touriga Nacional passou a ser a única obrigatória com um mínimo de 20% das novas plantações; as castas Alfrocheiro, Bastardo, Jaen, Tinta Pinheira, Tinta Roriz e Rufete podiam chegar até 80%, enquanto Alvarelhão, Tinta Amarela e Tinto Cão não deviam ultrapassar 20% das plantações.

Em 1993, as castas foram divididas em “autorizadas” e “recomendadas”. As primeiras incluíam o quarteto principal, para além de Alvarelhão, Bastardo, Rufete (Tinta Pinheira), Tinto Cão e Tinta Amarela. Foram ainda mencionadas as variedades que não podiam ultrapassar 40% do conjunto: Alicante Bouschet, Cabernet Sauvignon e Pinot (Noir, presume-se).
Os estilos de vinificação também recebiam as influências de cada época. No início dos anos 2000, os produtores do Dão sentiam-se tentados a apanhar a onda do Novo Mundo, com muita cor e concentração, procurando maior valorização no palco internacional. Isso criava uma certa incoerência com o perfil dos vinhos da década de 1960, quando o Dão era visto como a “Burgúndia de Portugal”. Não sou adepta destas alusões a regiões extra-lusas, mas percebe-se que o termo apelava à ideia de elegância. Hoje, temos produtores antigos, como a Casa da Passarella, ou mais recentes, como a Dona Sancha e o Domínio do Açor, que privilegiam este lado subtil e delicado, em detrimento da extração e opulência.

Há já quase 15 anos, três grandes enólogos do Douro — Jorge Moreira (Poeira), Francisco Olazabal (Quinta do Vale Meão) e Jorge Borges (Wine & Soul) — criaram no Dão o projecto conjunto com a abreviatura M.O.B. “Nos vinhos do Douro há sempre sensação de calor; no Dão também se consegue maturação fenólica, mas os vinhos são energéticos, tensos, com muita frescura e adquirem equilíbrio com menos extração”, explica Jorge Moreira.

Jaen: perfume e macieza
É uma casta de nacionalidade dupla: por um lado, é filha de progenitores portugueses, a Alfrocheiro e a Patorra; por outro, apresenta maior variabilidade genética em Espanha, onde é identitária nas denominações de origem Bierzo e Ribeira Sacra. Supõe-se que andou pelos caminhos de Santiago e atravessou fronteiras através das práticas de intercâmbio agronómico. As primeiras referências surgem em 1886 e 1889, nas regiões de Mangualde e Penalva do Castelo. Em 1973, a casta era permitida nas novas plantações até 30, 40% em alguns concelhos da região. Sendo produtiva, mereceu atenção dos viticultores, que entregavam uvas às adegas cooperativas. Outra vantagem era o grau alcoólico provável mais elevado, o que se reflectia na remuneração, ao contrário da Baga, que perdeu esta corrida a partir das décadas de 1950 e 1960.
A Jaen é quase exclusiva do Dão, onde lidera as plantações com 22,8%, segundo os dados oficiais da comissão vitivinícola da região. Porém, a sua presença dominante no encepamento, não se traduz em valorização. Nem sempre é plantada nos sítios mais adequados, não é pensada para brilhar, como em Bierzo. Sendo muito sensível ao terroir, não apresenta comportamento homogénio dentro da região e acaba por ser pouco consensual. Produz muito, sobretudo em terrenos férteis, mas é susceptível ao míldio e ao oídio, e apodrece com facilidade, o que obriga a evitar zonas mais húmidas. Resiste bastante bem ao stress hídrico, mas não gosta de calor em excesso.
Com produções entre seis e oito toneladas por hectare, e desde que esteja plantada no sítio certo, a Jaen é capaz de originar vinhos de qualidade. Em contexto de lote, pode ir até às dez toneladas por hectare.
A maturação é precoce, mas é difícil apanhá-la no ponto, porque a maturação fenólica é desfasada da acumulação de açúcar. A situação agrava-se, quando a casta é plantada em solos com maior humidade, porque com calor e água disponíveís, a maturação dispara e facilmente entra em sobrematuração. A janela de oportunidade é curta e crítica: quase de um dia para outro passa de rústica, com taninos verdes e aromas de sardinheira, para borracha queimada e acidez baixa. A Jaen contém a segunda maior concentração (após Touriga Nacional) de compostos terpénicos, apresentando, nos primeiros meses, um perfume intenso e delicado a flores, evoluindo, depois, para o aroma a fruta madura, a lembrar morangos e framboesas.
É frequentemente, para não dizer sobretudo, utilizada nos vinhos de entrada de gama, pois confere macieza e um perfume bonito e personalizado. Os vinhos arredondam depressa e ficam prontos a beber ainda jovens. O monovarietal nem sempre é possível e não em qualquer sítio. Numa recente apresentação dos vinhos da Dona Sancha, o enólogo Paulo Nunes explicou que só foi possível fazer Jaen em extreme com uvas de uma vinha com altitude mais elevada, numa zona mais fresca, onde se vindima mais tarde, pois o frio contraria o carácter primário da casta.
A idade da vinha também tem o seu impacto na produção e na maturação. Francisco Olazabal, do trio M.O.B., nota que “a Jaen das vinhas velhas parece outra casta”.

Alfrocheiro: frescura e elegância
A Alfrocheiro é uma das variedades mais fascinantes do Dão. Ausente nas referências ampelográficas do século XIX, revelou-se, mais tarde, como uma verdadeira “mãe genética” de várias castas portuguesas, incluindo o próprio Jaen. A sua designação actual surgiu no início do século XX, tendo sido conhecida, no passado, por outros nomes, como Tinta Bastardeira, Tinta Bastardinha e Tinta Francesa de Viseu. Em terras espanholas é conhecida como Bruñal, em Arribez del Duero, Caiño Gordo, na Galiza, Albarín Tinto, nas Astúrias, e Baboso Negro, nas ilhas Canárias.
Está disseminada por toda a região, sendo a quarta casta mais plantada, representando 5,9% do encepamento no Dão. Embora esteja presente noutras regiões do país, a nível nacional, não ultrapassa 1% da área de vinha. É uma casta exigente, irregular e difícil de prever. Sensível ao calor, ao stress hídrico e à insolação excessiva, não segue regras fixas: não há anos claramente “bons” ou “maus” para a Alfrocheiro. Em contrapartida, quando bem trabalhada e quando lhe apetece, oferece um equilíbrio notável entre álcool, taninos e acidez. Das quatro magníficas, revela-se mais fresca, mais elegante e mais subtil, produzindo vinhos de boa cor, taninos firmes, mas delicados e uma acidez natural mais pronunciada. Jorge Moreira vê semelhanças com Pinot Noir, mas reconhece que precisamos de 200 anos para a elevar ao mesmo nível de reconhecimento.

Tinta Roriz: omnipresente e controversa
É a casta ibérica mais conhecida internacionalmente como Tempranillo. A nível nacional é líder absoluto, ocupando 10% da área total da vinha. No Dão, surgiu no final do século passado, após o reconhecimento das suas aptidões pelo Centro de Estudos de Nelas. Em 1983, a par com a Tinto Cão, era a variedade com menor expressão na região (apenas dois hectares) e hoje ocupa 17,6% da área plantada, posicionando-se no terceiro lugar. Embora tenha registado um crescimento exponencial e esteja omnipresente nos lotes, é uma casta polémica, considerada por muitos um erro de casting. Funciona como uma verdadeira “fábrica de açúcar”, sem que a maturação fenólica acompanhe esse ritmo, o que conduz ao desequilíbrio: ou taninos verdes e adstringentes, ou teores alcoólicos elevados com baixíssima acidez. Prefere solos profundos e bem drenados. Facilmente produz quilos de uva com bagos grandes, muito líquido e muita polpa. Neste caso, perde drasticamente a qualidade. O controlo de produção é, por isso, indispensável.

Em anos favoráveis, pode dar vinhos intensos, estruturados e complexos; noutros, a qualidade é difícil de extrair. Exige decisões rigorosas na vinha e na adega. Alguns produtores optam por vindimas fracionadas, destinando parte da uva para a produção de rosé ou espumante, de forma a preservar frescura e equilíbrio. Outros preferem arrancá-la e substituí-la pelas castas mais ajustadas à região. Em anos favoráveis, pode originar vinhos intensos, estruturados e complexos; noutros, a qualidade é difícil de extrair.

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Outras castas

A Tinta Pinheira (3,1% das plantações) é o nome local da Rufete. Queima-se com o sol e apodrece com a chuva, duas das razões pelas quais perdeu popularidade. É uma casta de perfil vegetal, mas delicada, que requer igual delicadeza na vinificação. Os vinhos não apresentam acidez particularmente elevada, mas transmitem sempre energia e frescura natural, segundo a informação dada por Luís Lopes, enólogo da Domínio do Açor. Na adega, optam pelo desengace total e por uma extracção muito ligeira, quase como de uma infusão se tratasse. Outro cuidado prende-se com o uso da barrica: se a Jaen “consegue mastigar a madeira”, a Tinta Pinheira é muito mais sensível. O estágio prolonga-se por dois anos em barricas com três a quatro anos de uso, de modo a que a madeira não se faça notar no vinho.

A Baga (4,9% das plantações) foi, em 1983, a casta com maior encepamento na região, totalizando 3.142 hectares. Em 2008 ainda mantinha uma presença significativa, mas, sendo de ciclo longo e sensível à podridão, não tinha qualquer hipótese. Como explica Paulo Nunes: “Nos anos 80 e 90, quem mandava na viticultura era o São Pedro, e as chuvas no equinócio aconteciam oito em cada dez anos. Hoje já é possível empurrar a decisão da vindima para dentro de Outubro.” Em algumas vinhas, realizam duas a três vindimas faseadas, em função do destino das uvas.

A Malvasia Preta resulta do cruzamento natural entre Alfrocheiro e Sarigo. Com a primeira referência datada de 1866, está mais presente no Nordeste de Portugal. Transmite acidez bastante elevada e aroma com fruta mais imediata e fácil de gostar.

A casta Monvedro é mais uma descendente do Alfrocheiro. Está presente na região em quantidades diminutas (em 1986 representava menos de 0,01% do encepamento). Medianamente produtiva, abrolha cedo e amadurece tardiamente. Mostra-se bastante sensível às vagas de calor, pelo que necessita de ser plantada em zonas mais frescas e sombrias. É uma variedade pouco consensual, bastante rústica e austera, com acidez e taninos elevados. Por sua vez, a Tinta Carvalha já teve alguma presença na região, mas, por apresentar pouca matéria corante e baixa produção de açúcar, deixou de ter expressão, não se adequando à imagem dos vinhos idealizados na década de 1990. Hoje, segundo Paulo Nunes, apresenta um perfil que “respira o Dão”.
Se as castas isoladas ajudam a compreender a região, os blends permitem interpretá-la. A essência do Dão reside na complexidade dos lotes, construídos na adega pelas mãos e sensibilidade humana ou na vinha com castas misturadas e, por vezes, centenárias.

Field blend e vinhas velhas

Não tendo nada a ver com a conotação romantizada de “field blend” de hoje, na época em que surgiram, estes lotes eram uma solução meramente prática, baseada no conhecimento empírico. Não se estudavam as castas a fundo do ponto de vista agronómico e enológico; plantava-se o que estava mais à mão ou, mais próximo de verdade, o que os enxertadores tinham disponível. O field blend funcionava como uma espécie de apólice contra as adversidades climáticas: com muitas variedades à mistura, colmatava-se a insegurança e conseguia-se estabilidade, tanto na produção, como na qualidade.

O desafio das vinhas velhas, com uma grande variedade de castas, consiste em garantir um controlo eficiente da maturação e definir a data de vindima. Às vezes, é possível identificar uma ou duas videiras que reflectem o nível de maturação da vinha toda, como faz Paulo Nunes, ou realizar várias passagens na vindima, como refere Álvaro de Castro, o proprietário da Quinta da Pellada.
As vinhas antigas são igualmente mais difíceis em termos fitossanitários e muito exigentes em trabalhos na vinha. É preciso conhecer bem não apenas a parcela, mas também as videiras, para podar cada uma de forma adequada. Nesta prova, tivemos alguns vinhos das vinhas velhas. Quinta da Pellada Vinhas com 70 anos, com predominância das castas Jaen, Alvarelhão, Tinta Pinheira, Tinta Carvalha, Bastardo, entre outras, e reduzida expressão de Touriga Nacional, Português Azul e Negro Mouro. O nome da parcela “Alto” é autoexplicativo, pois fica a 550 metros de altitude, em solo granitico com linhas de argila e areia.

Da Casa Américo veio um vinho de uma vinha centenária da Quinta da Cerca, localizada na sub-região da Serra da Estrela – desengace parcial e fermentação em lagar aberto com uma primeira pisa a pé. A partir daqui apenas molharam a manta uma vez por dia. O fim da fermentação e o estágio de 24 meses ocorreram em depósito de cimento, aos quais se somaram 24 meses em garrafa.
Tivemos uma boa amostra de monovarietais de Alfrocheiro (sete) e Jaen (quatro) e ainda um de Tinta Pinheira e um de Tinta Roriz. As castas estrangeiras, como é o caso de Syrah e Cabernet Franc, não são permitidas para denominação de origem, mas podem entrar nos vinhos regionais de Terras do Dão.

(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2026)

*Nota: A ordem das garrafas é meramente aleatória

RUINART: A quintessência do espírito de Champagne

Ruinart

Acedemos ao 4 Rue de Crayères através de um caminho como que escondido, parecendo esculpido directamente no calcário. As primeiras impressões são fortemente sensoriais, desde a brancura do giz ao azul do céu, passando pelo verde das copas das árvores. À medida que percorremos esse caminho, emerge o Pavilhão Nicolas Ruinart, desenhado pelo arquitecto japonês […]

Acedemos ao 4 Rue de Crayères através de um caminho como que escondido, parecendo esculpido directamente no calcário. As primeiras impressões são fortemente sensoriais, desde a brancura do giz ao azul do céu, passando pelo verde das copas das árvores. À medida que percorremos esse caminho, emerge o Pavilhão Nicolas Ruinart, desenhado pelo arquitecto japonês Sou Fujimoto, um magnífico edifício calcário, todo ele aerodinâmico, com curvas suaves, longas linhas horizontais, inspirado na evanescência das bolhas de champagne, esculpidas pela luz. O telhado, assimétrico, forma uma curva e lembra a redondeza de uma bolha de champagne. Mudando gradualmente do transparente para o subtil opaco, criando a impressão do borbulhar num copo de champagne. A janela imensa emoldura a vista do pátio principal, para as maravilhosas fachadas do século XIX da Maison Ruinart.

Mas, sob toda esta beleza e grandiosidade, estão as caves, as famosas Crayères, classificadas como Património Mundial da UNESCO, e nada nos prepara verdadeiramente para tão grande monumentalidade. As caves estão a 38 metros de profundidade e possibilitam o acesso a oito quilómetros de túneis, pedreiras desactivadas, de pedra calcária e giz, algumas datadas da Era Medieval. Aqui, o ar é fresco e húmido, o som que se ouve é apenas o murmúrio do tempo. É onde milhares, ou milhões, de garrafas alinhadas – a Ruinart nunca revela os números de garrafas produzidas ou em cave – aguardam, pacientemente, os seus momentos de fama.

Expressão artística

Fundada em 1729, em plena Era das Luzes, a Maison Ruinart nasceu da ideia pioneira de fazer do champagne uma expressão cultural e uma arte de viver. Nicolas Ruinart, inspirado pelas visões de seu tio, o monge beneditino Dom Thierry Ruinart, fundou a primeira casa, da região de Champagne, oficialmente dedicada a este vinho com bolhas mágicas, que então passou a ser servido nas coroações dos Reis de França e no Palácio Real, e a encantar as demais cortes europeias.

Ao longo da história, a Maison Ruinart sobreviveu a crises e guerras, incluindo o bombardeamento das suas vinhas e edifícios durante a ocupação alemã, para além do roubo e delapidação quase total do seu stock de garrafas. Contudo, sempre conseguiu erguer-se e estar à altura dos desafios, sem nunca perder de vista a inovação e o desenvolvimento tecnológico, sempre numa busca incessante pela excelência e perfeição dos seus champagnes.

Dirigida pela família Ruinart até 1963, integra, desde 1987, o grupo do segmento de luxo LVMH (Louis Vuitton Moet Hennessy). A luz, o branco e a transparência tornaram-se símbolos da sua estética e do seu vinho, e a Chardonnay, casta que define a sua assinatura, é trabalhada como metáfora dessa luminosidade: um reflexo líquido da elegância e da precisão. A Ruinart conseguiu construir uma linguagem e um estilo muito próprios e distintos, sempre alicerçados na mais completa harmonia entre tradição, vanguarda e criatividade.

O ‘Petit R’ é, claramente, disso um exemplo maior. Trata-se de uma experiência gastronómica e visual, um show multimédia, imersivo e esteticamente encantador, que pudemos desfrutar durante o jantar na Maison. Ao mesmo tempo, é uma visão contemporânea de acontecimentos passados, da história de Champagne vista através da Maison Ruinart. Através da personagem ‘Petit R’, criada pelo artista japonês Kanako Kuno – sempre a tal ligação à arte, presente em todos os momentos definidores –, a história é contada em cima da mesa, literalmente. O mundo inteiro cabe no prato, a toalha transforma-se num ecrã gigante, onde tudo se desenvolve. As figuras dos animais e das pessoas ganham tridimensionalidade, saltam do prato, rodopiam, contam histórias. Tudo funciona de forma sincronizada até ao ponto em que ‘Petit R’ abre uma garrafa de champagne e se ouve o som bem real da rolha a saltar: é um sommelier que abre uma garrafa, verdadeira, em perfeita sincronia de tempo!

Ruinart

Caroline Fiot, a primeira mulher com a função de Cellar Master na região de Champagne, liderou o estudo do impacto da luz no Blanc de Blancs e a criação da Second Skin Case

 

A segunda pele

Na alvorada dos seus 300 anos – a Maison Ruinart celebrará o seu tricentenário em setembro de 2029 –, dois factores importantíssimos são alvo de dedicação máxima na Maison Ruinart: sustentabilidade e impacto das alterações climáticas em Champagne. Quanto ao primeiro, destaca-se a criação do estojo Second Skin, literalmente uma ‘segunda pele’ para a garrafa Ruinart, que as envolve à sua forma. De acordo com a marca, esta é “composta por 99% de papel (1% é cola), feito de fibra de madeira proveniente de florestas geridas ecologicamente na Europa, e é nove vezes mais leve que a anterior geração de gift boxes, reduzindo a pegada de carbono das embalagens em 60%.” Além da componente ecológica, a Second Skin protege o vinho da luz, é resistente à humidade e “permanece intacta num frapê de gelo até três horas”, refere a Ruinart. De cor branca, tem um padrão em relevo a invocar as Crayères, as caves calcárias da Maison.

Uma palavra é devida a Caroline Fiot, nova Cellar Master da Ruinart, que sucede a Frédéric Panaïotis, falecido este ano, num contexto delicado. Entrou na Ruinart em 2016, participou no comité de prova, supervisionou fermentações e liderou projetos de investigação, como o estudo do impacto da luz no Blanc de Blancs e a criação da Second Skin Case, embalagem sustentável que substitui o tradicional estojo em papel. É, também, a primeira mulher a desempenhar tais funções na história da região de Champagne.

História e inovação

Hoje em dia, talvez mais do que nunca, seja na região de Champagne, seja no mundo, torna-se necessário (re)pensar os nossos estilos de vida, a nossa cultura enraizada e, talvez, questionar o nosso conhecimento. E em vez de querermos que a natureza se adapte às nossas necessidades, talvez seja bom pensarmos em adaptar-nos àquilo que a natureza tem para nos oferecer.
Esta foi a grande mensagem que eu retive nesta minha viagem a Reims e à Ruinart. Há, de facto, trabalho muito sério a ser feito para adaptar a região às alterações climáticas, que vieram para ficar, e quando vemos uma das regiões vínicas mais fortes e mais unidas do mundo a trabalhar em conjunto para alcançar um determinado objectivo, vemos que a coisa é mesmo para levar a sério. No entanto, já havia sinais. É uma coisa antecipada, e que vem sendo pensada e testada há já vários anos, basta estarmos atentos ao que nos rodeia, o que, na maioria das vezes, se revela o mais difícil.

Ora vejamos. Grande parte do sucesso de Champagne deve-se à utilização mais ou menos generalizada do estilo non-vintage, expressão traduzida na mistura entre vinhos de reserva e o vinho da colheita mais recente, uma espécie de receita seguida pela grande maioria dos produtores de Champagne, das Big Marques aos pequenos vignerons. No fundo, pretende-se mitigar ou eliminar o mais possível o efeito colheita, ou seja, nos anos mais frios, quando as uvas são mais ácidas, porque não conseguem atingir pontos de maturação adequados, incorpora-se mais vinhos de reserva no blend, de modo a adicionar estrutura e complexidade à frescura e energia da nova colheita, ao passo que, em anos mais quentes, se incorpora menos vinhos de reserva, pois pretende-se manter a juventude da nova colheita.

De um modo geral, tem sido este o caminho percorrido na região até há bem pouco tempo. Porém, o impacto das alterações climáticas têm vindo a traduzir-se num registo consecutivo de fruta mais madura, ano após ano, e num aumento médio real de 1,2% de álcool nas uvas nos últimos 30 anos.

O novo normal

A grande diferença de uma região como Champagne é que, ao invés de olhar para as alterações climáticas como uma ameaça, decidiu encará-las como uma oportunidade. E, de repente, o estilo non-vintage, e até a própria dosage, deixaram de fazer tanto sentido, ou nenhum mesmo. Atualmente, é quase tudo produzido em estilo vintage, com nuances introduzidas pelas Reservas Perpétuas quando utilizadas, e, graças aos maiores níveis de açúcar nas uvas, Champagnes Brut Nature ou Extra Brut são a nova normalidade.

Assim, tudo nos começa a fazer sentido, quando a Krug criou o estilo multi-vintage das suas Grand Cuveés, quando Charles Heidsieck começou a identificar o ano base no contra-rótulo, a Laurent-Perrier criou a Cuvée Ultra Brut num estilo super seco e, mais recentemente, a icónica Maison Louis Roederer abandonou definitivamente o estilo non-vintage da sua Cuvée Brut Premier, criando a Collection, um blend de multi-vintages identificados.

E a Ruinart? Aí está a Cuvée Blanc Singulier, por enquanto só disponível em França, mas que, provavelmente, num futuro não muito longínquo, talvez venha a ser a nova normalidade da Ruinart, enquanto que a de hoje, o icónico Blanc de Blancs, talvez passe a ser a excepção. Aguardemos com serenidade e sempre com champagne no copo!

(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2026)

QUINTA DO PESSEGUEIRO: O Douro gracioso

Quinta do Pessegueiro

Graciosidade talvez seja a palavra que melhor define a Quinta do Pessegueiro no seu conjunto, aqui englobando vinhos, arquitectura, imagem, forma de estar e receber. Localizada em Ervedosa do Douro, concelho de São João da Pesqueira, a propriedade foi adquirida, em 1991, por Roger Zannier, empresário francês que criou um gigante têxtil orientado para a […]

Graciosidade talvez seja a palavra que melhor define a Quinta do Pessegueiro no seu conjunto, aqui englobando vinhos, arquitectura, imagem, forma de estar e receber. Localizada em Ervedosa do Douro, concelho de São João da Pesqueira, a propriedade foi adquirida, em 1991, por Roger Zannier, empresário francês que criou um gigante têxtil orientado para a moda infantil e que acabou por conhecer o Douro no âmbito das suas visitas profissionais a Portugal, ali decidindo deixar a sua “marca”. Em 2003, com o apoio do genro Marc Monrose, borgonhês de gema, ligado à terra e ao vinho, Zannier deu início à reconversão das vinhas existentes e à plantação de novas áreas, com sucessivas intervenções em 2007, 2008, 2011 e, mais recentemente, em 2021. A construção da adega, localizada numa zona mais alta da propriedade, arrancou em 2008, ficando terminada em 2010, ano da primeira colheita. Trata-se de um projecto arquitectónico arrojado da autoria de Artur Miranda e Jacques Bec, com a área de vinificação e armazenagem a estender-se por cinco pisos, de forma a aproveitar ao máximo a gravidade e a excluir a bombagem de massas e líquidos, contando, para tal, com a ajuda de uma cuba elevatória.

Quinta do Pessegueiro

A casa principal é também um alojamento de charme, aberto ao turismo, integrando-se na rede de unidades Zannier Private Estates e Hotels

 

Em 2012 terminou a reconstrução do edifício principal da quinta, localizado a três quilómetros da adega. Esta bela casa integra-se perfeitamente na paisagem, num estilo que une a tradição duriense com um design mais moderno, acima de tudo ao nível de interiores. Além de apoiar a estrutura de trabalho da propriedade, o edifício é também um alojamento de charme, aberto ao turismo, integrando-se na rede de unidades Zannier Private Estates e Hotels, espalhadas por França, Espanha, Namíbia, Maurícias, Cambodja e Vietname.

No dia-a-dia da Quinta do Pessegueiro, sobretudo a partir de 2008, e com impacto decisivo no que toca à estratégia, da arquitectura, da imagem e, claro, dos vinhos, têm estado envolvidas três outras pessoas: Célia Varela, Directora-Geral, que acompanhou o nascimento e desenvolvimento do projecto; João Nicolau de Almeida, enólogo responsável pelos vinhos da casa desde a primeira hora; e Hugo Helena, Director de Viticultura e Enologia que, desde 2010, trabalha em estreita colaboração com o enólogo.

Três parcelas

As vinhas da Quinta do Pessegueiro abrangem 28 hectares em produção, distribuídos por três propriedades distintas. A Teixeira é a maior e mais próxima da adega, com 18 hectares, exposta a noroeste, com uma altitude que varia entre 75 e 418 metros. Parte das vinhas foram plantadas no início dos anos 80 do século XXI e, desde 2011, decorreram novas replantações com inúmeras castas. Ali foram igualmente recuperados socalcos pré-filoxera e plantado meio hectare com mais de 30 castas, que deverá originar, no futuro, um field blend muito especial. A seguir vem a vinha do Pessegueiro, propriamente dita, de nove hectares de vinhedos em encostas íngremes viradas a oeste, entre os 197 e os 355 metros de altitude. Vinhas velhas com mais de 110 anos (1,5 hectares) e vinhas plantadas há mais de 40 anos compõem esta área, onde as uvas amadurecem mais tarde. Finalmente, a Afurada tem apenas um hectare, acima dos 500 metros de altitude e com exposição sul.

Em termos de encepamento, predomina, nos tintos, a Touriga Nacional, seguindo-se Touriga Franca, Tinta Roriz, Sousão e Tinto Cão. Numa fase mais recente, plantaram-se outras tintas tradicionais mais raras (Tinta da Barca, Tinta Amarela, Rufete, Alicante Bouschet) e apostou-se decididamente nas uvas brancas, com destaque para Rabigato, pouco comum nesta zona do Cima Corgo, mas que os dois enólogos apreciam particularmente pela vivacidade e frescura, e Folgasão. Todas as plantações foram feitas a partir de seleção massal própria, não foi utilizada seleção clonal.

As três propriedades possuem também, como é habitual no Douro, velhas oliveiras, com as variedades Madural, Cobrançosa, Verdeal, Picual e Carrasquenha. Da apanha manual com extração a frio, a quinta produz um azeite de superior qualidade. E na Teixeira, algumas colmeias permitem, igualmente, uma pequena produção de mel, reforçando, assim, a biodiversidade do terroir, contribuindo, ao mesmo tempo, para o equilíbrio do ecossistema.

Pureza e elegância

A abordagem vitícola e enológica de João Nicolau de Almeida, aqui totalmente apoiada por Hugo Helena, é bem conhecida: vinha velha sempre que seja boa, agricultura biológica, vinificação clássica. Assim se tem feito na Quinta do Pessegueiro, onde, por exemplo, herbicidas não entram nas vinhas, um desafio acrescido face aos diferentes modelos de plantação existentes, que vão dos patamares de um bardo à vinha ao alto, passando por parcelas não mecanizadas com muros tradicionais.

Tradicional é também a vinificação, com a fermentação a decorrer com leveduras indígenas, privilegiando-se lagares de granito com pisa a pé, balseiros de madeira para os tintos e cubas inox e pipos de 600 litros para os brancos. Na adega, os vinhos são separados por parcelas, permitindo exaltar cada uma das suas singularidades, depois conservadas em cubas de pequena dimensão. A ausência total de bombagem (a cuba elevatória é preciosa) permite manter a fruta no seu estado mais puro.

A pureza da fruta é precisamente aquilo que mais marca, e impressiona, os vinhos da Quinta do Pessegueiro. Numa produção relativamente pequena – cerca de 100 mil garrafas, entre Douro e Porto –, esta expressão de fruta é transversal às várias referências, acompanhada de evidente frescura, leveza, equilíbrio e elegância. Estes vinhos, brancos ou tintos, não se destacam pela grande estrutura ou potência, antes pela notável finura e pela absoluta proporção. Parece estar tudo no sítio certo. É esta precisão, esta graciosidade, que define a forma de ser e estar da Quinta do Pessegueiro. Num mercado onde a oferta é gigante e onde não é fácil conjugar qualidade e diferença, isto tem de valer alguma coisa.

(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2026)