Os topos de gama do Quetzal

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Chama-se Quetzal Família e enche de orgulho o proprietário, o milionário holandês Cees de Bruin. Até agora só tinha saído um branco, de 2012. Desta vez saíram dois vinhos, mais um branco e um tinto, com uma coisa em comum: apenas estão disponíveis em garrafas magnum, de 1,5 litros.

TEXTO António Falcão

NOTAS DE PROVA Mariana Lopes

FOTO Quinta do Quetzal

São de facto os vinhos mais caprichados da casa Quetzal, localizada junto a Vila de Frades, Vidigueira. De tal maneira que apenas são produzidos em anos que a qualidade foi muito acima da média e apenas são engarrafados em garrafa de litro e meio, vulgarmente chamado de magnum. Cees de Bruin, o proprietário da Quinta do Quetzal, estava radiante. “Estou orgulhoso de apresentar os vinhos da família. Quando comecei a produzir, não acreditava que fosse possível atingir esta qualidade”. O orgulho é justificado, porque os dois vinhos apresentados são de facto muitíssimo bons. Foram introduzidos por Rui Reguinga, o enólogo consultor, que explicou como foram conseguidos: “já temos um histórico das vinhas e escolhemos as melhores uvas das melhores parcelas para os vinhos Família”. A grande parte deste trabalho recaiu nas mãos de José Portela, o responsável de viticultura e enólogo residente.

Portela está desde o início do projecto na Quinta do Quetzal (2003) e conhece por isso cada palmo dos 49 hectares de vinha aí existentes.
O branco, da colheita de 2014, foi feito com uvas de Antão Vaz, de uma parcela adquirida há alguns anos a um vizinho, coronel de profissão, e por isso a vinha ficou com o nome de Vinha do Coronel. Tem quase 40 anos e está localizada na zona mais alta da quinta. O Antão Vaz daqui é por isso mais concentrado, mas também mais fresco. O mosto foi a fermentar com leveduras indígenas em barricas de 500 litros. Por ali ficou 18 meses, com bâtonnage semanal. Depois foi a engarrafar e por lá ficou dois anos.

Quanto ao tinto, da colheita de 2013, foi feito com uvas de Alicante Bouschet e Syrah. Rui Reguinga achou que o Alicante por si só não seria suficiente para fazer um grande vinho. Daí o Syrah, que trouxe notas de chocolate e especiarias. A vinha escolhida foi a que a equipa chama das Pedras, ao pé da adega. É uma terra pobre, muito pedregosa, e a vinha produz pouco, mas com excelente qualidade. Na adega, Rui Reguinga optou mais uma vez pelo minimalismo, a começar pelas leveduras indígenas e macerações longas (6 semanas). O vinho estagiou dois anos em barricas de 500 litros. Ambos os vinhos custam 65 euros a garrafa.

A apresentação decorreu na mesma altura em que o Quetzal festejou outra faceta importante do seu proprietário: a arte. A exposição “Mitos da Caverna – Espeleologia infinita)” foi inaugurada na mesma altura em que os Família foram oficialmente lançados. A exposição está patente no Quetzal e pode ser visitada até ao final de Março do próximo ano. Aproveite e almoce (ou jante, na sexta e sábado) no restaurante da quinta, dirigido pelo chef alentejano João Mourato. Pode fazer as suas reservas pelo site da casa: quintadoquetzal.com.

NA FOTO: Pedro Mendes (chef consultor do restaurante), Rui Reguinga (enólogo consultor), Reto Jorg (gestor do Quetzal), João Mourato (chefe do restaurante), Carla Caramba (brand ambassador Quetzal) e José Portela (responsável de produção).[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row][vc_row type=”in_container” full_screen_row_position=”middle” scene_position=”center” text_color=”dark” text_align=”left” overlay_strength=”0.3″ shape_divider_position=”bottom”][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/1″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][vc_column_text]

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Edição Nº25, Maio 2019

Os “single vineyard” de João Portugal Ramos

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[vc_row type=”in_container” full_screen_row_position=”middle” scene_position=”center” text_color=”dark” text_align=”left” overlay_strength=”0.3″ shape_divider_position=”bottom”][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/1″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][vc_column_text]

João Portugal Ramos é produtor multifacetado, com projectos espalhados por várias regiões. Mas é em Estremoz, no Alto Alentejo, que estão as suas origens vitivinícolas e a sua principal adega, de onde nos últimos anos têm saído grandes novidades, como estes dois tintos.

TEXTO Nuno de Oliveira Garcia

FOTOS J. Portugal Ramos

Vinha de São Lázaro.

João Ramos tem vindo a concentrar a sua atenção no Alentejo, com investimentos na adega e na vinha, bem como em ‘rebranding’ e nova imagem. Por outro lado, os seus vinhos da região dos Vinhos Verdes conservam um nível alto (Alvarinho, Loureiro, Alvarinho Reserva e espumante Alvarinho) e os clássicos da Quinta de Foz de Arouce (branco, tinto e Vinhas Velhas de Santa Maria) estão consolidados num nicho de mercado. No Douro, a parceria com José Maria Soares Franco – Duorum Vinhos – é cada vez mais um referencial na região.

Ao mesmo tempo que se ocupa da ‘passagem geracional’ – o produtor tem dois dos seus filhos a trabalhar com ele –, João Ramos não pretende parar no que respeita a lançamentos de novos vinhos. Na verdade, foi o seu filho João Maria, que entrou na empresa em 2014 e cada vez mais se encarrega da área de enologia (e que também já tinha desenvolvido a gama Pouca Roupa), a identificar dois vinhos de parcelas e a convencer o pai em engarrafá-los separadamente. Nasceram assim, de solo alentejano, dois vinhos novos de duas vinhas – o Vinha de São Lázaro e o Vinha do Jeremias, esta última mesmo ao lado da casa da quinta em Estremoz. O primeiro provém de uvas de Touriga Nacional a partir de solos de origem calcária, e o segundo maioritariamente de Syrah de solos xistosos, ambos fermentados em lagares de mármore, com pisa a pé e estágio em barrica.

Destaque para o Vinha do Jeremias que é uma bonita homenagem a um funcionário da empresa com esse nome, falecido em 2017, e que sempre se dedicou à viticultura, tendo trabalhado ao lado de João Ramos durante décadas, e que sempre gostou muito da vinha de onde este tinto nasceu. O vinho agora lançado é de 2015 mas João Ramos já anunciou que não haverá edição de 2016. No entanto, tudo indica que será reeditado na colheita de 2017.

Vinha do Jeremias.

O conceito de ambos os tintos remete para a concepção de ‘single vineyard’ ou, como acontece no nosso país vizinho, para os ‘viños de pago’ (se bem

que estes não se confundem necessariamente com vinhos de uma vinha só). A ideia é apresentar ao público (mais) um vinho de grande qualidade, com uma identidade muito própria e, neste caso, monocasta. A própria imagem dos vinhos (rótulos, entenda-se) inspira-se num ambiente ibérico, o que se deve também à proximidade de Estremoz com a fronteira, com algo de, simultaneamente, barroco e másculo. Os vinhos podem ser adquiridos numa bonita caixa cinzenta com duas garrafas e preço irá situar-se na mesma fasquia que a gama bivarietal Quinta da Viçosa – ou seja, cerca de 25€. Será privilegiado o canal horeca (hotéis e restauração), uma vez que as quantidades não são generosas (entre 3.000 a 4.000 garrafas). A qualidade de ambos os tintos é inquestionável, e o perfil é intenso e capitoso, um pouco à margem das tendências mais modernas que privilegiam néctares menos concentrados mas que, sem dúvida, serão do agrado generalizado do público. O ano de 2015 foi tendencialmente quente e ajudou no desenho de vinhos com muito fruto e taninos completa¬mente maduros. São assim ambos os vinhos agora lançados, com o Syrah (e um pouco de Viognier, incluindo as películas da uva, como é habitual em Côtes du Rhône) a revelar-se intenso e capitoso, e o Touriga Nacional ligeiramente mais elegante. Tudo somado, temos mais duas excelentes criações de João Portugal Ramos – e família –, com a vantagem de terem um preço que, não sendo barato, é perfeitamente ajustado.

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Edição Nº25, Maio 2019

O Legado de um Homem

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Mais do que um lançamento, uma homenagem. O Legado tinto 2014, sétima edição do seu género, chegou como celebração de Fernando Guedes, o seu criador.

TEXTO Mariana Lopes

Quinta do Caêdo.

Para todos os que aqui estão, este é o seu legado e foi ele que nos reuniu à volta desta mesa”, foi a premissa deixada por Fernando Cunha Guedes (à direita, na foto), actual presidente da Sogrape e filho de Fernando Guedes, o sonhador do vinho a que chamou Legado. “Isto foi o que ele deixou para os que vêm a seguir. Um homem que era a nossa fonte de inspiração e motivação, que era o nosso grande amigo”, rematou.

Quando em 2006 o patriarca desafiou o enólogo Luís Sottomayor (à esquerda, na foto) para fazer este tinto, fêlo porque a vinha o despertou para tal. Na Quinta do Caêdo, em Ervedosa do Douro, a vinha centenária de oito hectares dispõe-se em socalcos num cenário deslumbrante, um anfiteatro esculpido solo abaixo que, pela sua idade e imponência, só poderia ser inspirador de algo maior. Com produções muito baixas (apenas um ou dois cachos por videira), esta vinha pré-filoxérica é trabalhada apenas à mão e com a ajuda de um macho, o que já dá uma ideia da especificidade do local e do equilíbrio natural que a Sogrape pretende manter. Todas estas características, juntamente com uma exposição a Poente e sol generoso, contribuem para o ADN do Legado, fazendo dele um vinho que é espelho da sua origem e da vinha que lhe dá matéria.

Vinificado na adega da Quinta da Leda, no Douro Superior, e estagiado durante 24 meses, em barrica nova, nas caves de Vila Nova de Gaia, o Legado tinto 2014 tem Touriga Franca, Touriga Nacional, Donzelinho, Tinta Roriz, Tinta da Barca, Rufete, Tinta Amarela, Tinta Bar¬roca, e outras em quantidade residual. Luís Sottomayor confessou: “Falar sobre este vinho é muito fácil, porque não há nada de artificial nele. A única preocupação que temos é vindimar, que é a única alteração à natureza que fazemos. O que o marca é a personalidade e o carácter, apenas divergindo o ano de colheita. Não há segredo nenhum”. E é verdade, ao Legado o que não falta é carácter, pois só um vinho assim consegue este fantástico equilíbrio com a barrica nova. Sobre o ano que foi tudo menos típico e fácil, Luís explicou que se contornaram os efeitos das adversidades neste vinho fazendo-se três vindimas, tendo sido duas delas executadas antes das chuvas de meados de Setembro que afectaram a colheita das uvas tintas em quase todas as regiões. O resultado é um tinto superelegante e fino, mas pleno de personalidade e complexidade.

“É o primeiro Legado que apresento sem a presença de um homem que, tal como este vinho, tem personalidade, carácter, elegância e presença”, disse Sottomayor. “Faz jus ao Sr. Fernando Guedes”.

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Edição Nº25, Maio 2019

Symington Vintage 2017 – Para quebrar a tradição

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Depois de 2016, que deu origem a Porto Vintage de grande categoria, veio a colheita de 2017, vindima quente, mas que proporcionou excelentes vinhos generosos na região duriense, eventualmente até melhores, no dizer de alguns, do que os do ano anterior. Duas declarações Vintage consecutivas, algo absolutamente inédito na família Symington que agora apresentou os seus 2017.

TEXTO João Afonso

FOTOS D.R.

É bem verdade que os anos de Verão quente e seco normalmente produzem excelentes vinhos do Porto. E esta década já vamos com três anos de excelente qualidade (2011, 2016, 2017), ou melhor, 4 anos de excelente qualidade para a produção de Porto se incluirmos, como penso que poderá acontecer, o ano de 2018. Aguardo com curiosidade o modo como o sector vai gerir stocks e declarações no meio de tanta fartura de excelentes Porto Vintage.

O clima (alterado, segundo tantos asseguram) está de tal modo de feição para a produção de vinhos do Porto que a Família Symington acaba de declarar pela primeira vez em toda a sua história duas vindimas consecutivas. Declarou 2016 e agora declara os 2007. Como dizia Charles Symington (na foto) “não seria lógico com vinhos desta qualidade não fazer a declaração. Nos meus vinte e cinco anos como enólogo na nossa empresa familiar, nunca vi um ano como este. As produções foram muito baixas, mas a intensidade, a concentração e estrutura foram de cortar a respiração. Produzimos vinhos muito bons.”
Segundo os vários elementos da família – onde há que destacar a presença do jovem Rob Symington (o representante dos seis elementos da quinta geração da família que se encontram já a trabalhar na empresa) – estamos perante uma das melhores colheitas de sempre. E climatericamente falando é, segundo resumo apresentado pela empresa, em tudo semelhante aquela que foi talvez a melhor colheita do século passado – 1945 – a colheita que comemora o final da 2ª Grande Guerra com grandes vinhos por toda Europa. Estes dois anos tiveram ciclos de vinha muito semelhante no que diz respeito a temperaturas, precipitação, produções e cronologia.

E tal como em 1945, em 2017 as videiras pareceram adivinhar a secura do ano, desenvolvendo copas vegetativas me¬nos exuberantes (para poupar consumo de água?) e criação de cachos mais pequenos e mais compactos que resultaram num sabor de uva muito fora do comum. O tempo seco permitiu menos tratamentos e uma sanidade de fruta irrepreensível. A produção total (2.815 kg/ha) andou 20% abaixo da média dos últimos 10 anos e esta situação também explica o aumento da qualidade.

Falando dos vinhos Symington 2017 estamos perante um grupo de sete Vintage de enorme, ou melhor, fantástica, qualidade. Cada qual no seu estilo, cada qual com os seus argumentos de persuasão. Um elegantíssimo e fresco Warre’s, o musculado e denso Dow’s, o sofisticado e lindíssimo Graham’s, o vigoroso e tão personalizado Vesúvio e os insondáveis e muito provavelmente inultrapassáveis Capela e The Stone Terraces. Ainda que estes dois últimos sejam mais uma espécie de Vintage para colecionador do que propriamente Vintages para consumir, pelo menos nos anos mais próximos….
Declaração generalizada ou não, percebe-se perfeitamente a razão pela qual a Família Symington faz pela primeira vez na sua história uma declaração consecutiva. Como refere Johnny Symington, chairman da Symington Family Estates, “poucas regiões de vinhos do Mundo restringem as produções de vinhos de topo com o mesmo grau de exigência que seguimos no Douro, e a decisão de declarar Porto Vintage em dois anos consecutivos não foi tomada de ânimo leve. Contudo, estes dois anos excecionais produziram vinhos de qualidade tão elevada que nos sentimos justificados nesta decisão histórico”. Como apreciador, só posso aplaudir a decisão.[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row][vc_row type=”in_container” full_screen_row_position=”middle” scene_position=”center” text_color=”dark” text_align=”left” overlay_strength=”0.3″ shape_divider_position=”bottom”][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/1″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][vc_column_text]

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Edição Nº25, Maio 2019

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Vinhas Velhas ou Vinhas Antigas?

Julgo que nunca os rótulos e contra-rótulos das garrafas falaram tanto de vinha velha como hoje. Intensamente arrancadas nas últimas décadas, as vinhas velhas são agora uma espécie de pequeno “luxo” para quem procura estatuto e preço. TEXTO: João Afonso Um dos tópicos mais interessantes da vitivinicultura, e por inerência, no comércio de vinho que […]

Julgo que nunca os rótulos e contra-rótulos das garrafas falaram tanto de vinha velha como hoje. Intensamente arrancadas nas últimas décadas, as vinhas velhas são agora uma espécie de pequeno “luxo” para quem procura estatuto e preço.

TEXTO: João Afonso

Um dos tópicos mais interessantes da vitivinicultura, e por inerência, no comércio de vinho que lhe está ligado, é o conceito de “vinha velha”.
Interessante porque, em primeiro lugar, a maioria das pessoas atribui este conceito à unidade “tempo de existência” da vinha; e em segundo lugar porque os conceitos regionais deste pressuposto se confundem. Por exemplo, na sub-região de Monção e Melgaço, assim como no Alentejo, o conceito tem um valor, enquanto no Douro ou no Dão tem um valor totalmente diferente. Um vinha com 30 anos será uma vinha velha nas primeiras regiões e apenas uma vinha adulta nas segundas. Mas, apesar desta ambiguidade, nos rótulos o termo “vinha velha” procura chamar a atenção do consumidor para algo raro e especial que produz um vinho também ele especial e raro.

É também curioso observar como evolui o pensamento vitícola e as modas de consumo que o repercutem. Até aos anos 80, a “vinha velha” era um conceito pouco ou nada explorado pela vitivinicultura nacional. Normalmente, uma vinha velha era sinónimo de pouca produção e, portanto, de prejuízo para quem dela tentava colher o “pão” que punha à mesa. A partir da década de 90 foram as vinhas modernas, a maioria delas, se não mesmo a totalidade, já regada, com (poucas) castas de clones selecionados, plantadas por talhão, que deslumbrou todo sector vitícola e enológico nacional, assim como os enófilos fiéis e praticantes. Agora passadas quase duas décadas do virar do século e de mais de 3 décadas de modernidade, sugere-se, pela quantidade de rótulos com o termo “Vinha Velha” (no singular ou no plural) que o vinho de maior valorização vem da tal vinha velha que muitos desprezaram antes de todo o movimento renovador.

Escrevo em Abril de 2019. E nesta data ainda me é possível definir com alguma precisão (cultural e não temporal) o que eu entendo ser uma vinha velha. Mas não sei se em Abril de 2069, se alguém decidir escrever sobre o tema, o poderá fazer nas mesmas condições. No Douro ainda existem cerca de 15.000 hectares de vinhas ditas “velhas”. Na Beira de Pinhel, nos Trás-os-Montes de Bouça (Mirandela) a Rebordelo, na Serra de S. Mamede, na Bairrada e Dão, ainda podemos encontrar vinhas velhas (aqui não existem dados cadastrais) mas daqui a 50 anos o panorama será obrigatoriamente diferente e o conceito de “Vinha Velha” poderá ser ou será bastante diferente daquele que hoje defendo. Tudo dependerá do modo com as presentes gerações protegerem a diversidade ampelográfica e genética recolhida e construída pelas gerações que nos antecederam. Se não o fizermos, o meu colega jornalista de 2069 escreverá sobre vinhas velhas de um modo bem diferente do meu. E muito provavelmente é o que acontecerá! “Tudo tende a desaparecer” como dizia muito bem, o realizador Wim Wenders numa entrevista recente sobre cultura portuguesa.

Defendo para este conceito uma identidade portuguesa com fundamento histórico. Mas existem exceções em Portugal de vinhas velhas com castas estrangeiras. Vinhas com mais de 50 anos (se aceitarmos que 50 anos é uma idade “velha” para uma vinha) das castas francesas Syrah e Cabernet Sauvignon. E num conceito simples e restrito de “tempo” temos de aceitar que estas vinhas são velhas. Aliás até há muita vinhas de Syrah com envelhecimento precoce (perdoem a ironia) um pouco por todo o mundo, mas adiante, que este é outro assunto um pouco mais alarmante.

Se nos cingirmos ao conceito de “tempo”, o conceito de vinha velha é muito discutível e não possui, na minha opinião, suficiente robustez. Temos de o tornar mais completo, mais rico, para lhe darmos solidez e o tornarmos realmente único e especial. Será que há mais valia de “tempo” e “história” num vinho de Touriga Nacional vindo de uma vinha de 30 anos, regada, com clones selecionados, que o proprietário assegura que é “velha” porque foi plantada há 30 anos?

A “Vinha Velha” que aqui tento apresentar e defender é, como referi, uma “Vinha Velha Portuguesa”, ou será que devo escrever “Vinha Velha Mediterrânica” porque não é só em Portugal que ainda existem vinhas multifacetadas com uma incrível diversidade de castas brancas e tintas dentro do seu (por vezes muito pequeno) perímetro, numa coleção varietal selecionada “empiricamente” pelos nossos avós e bisavós, e por vezes mesmo, pelo acaso dos garfos que estavam mais “à mão” do enxertador que enxertava o “pau” (garfo) de videira europeia no cavalo americano.

Cum funcționează Skrill la cazinouri online, potrivit Sfaturicazino

Skrill este unul dintre cele mai utilizate sisteme de plată electronică în industria cazinourilor online din Europa, cu o prezență activă pe piață încă din anul 2001, când a fost lansat sub numele Moneybookers. Popularitatea sa în rândul jucătorilor provine dintr-o combinație de factori practici: procesarea rapidă a tranzacțiilor, comisioanele relativ reduse față de transferurile bancare clasice și, mai ales, nivelul ridicat de confidențialitate pe care îl oferă. Spre deosebire de cardurile de credit sau debit, unde datele bancare sunt transmise direct operatorului cazinoului, Skrill funcționează ca un intermediar care izolează informațiile financiare sensibile ale utilizatorului. Această caracteristică a transformat portofelul electronic într-o alegere preferată atât de jucătorii ocazionali, cât și de cei cu activitate mai intensă pe platformele de gambling online.

Mecanismul tehnic al plăților prin Skrill la cazinouri

Pentru a înțelege cum funcționează Skrill într-un context de cazinou online, este util să privim întregul flux al unei tranzacții de la început până la final. Procesul începe cu crearea unui cont Skrill, care necesită o adresă de email validă, date personale și verificarea identității conform reglementărilor KYC (Know Your Customer). Odată contul activat, utilizatorul poate alimenta portofelul digital prin mai multe metode: transfer bancar, card de credit sau debit, sau chiar prin alte portofele electronice. Fondurile ajung în contul Skrill în intervale variabile — transferurile bancare pot dura 2-5 zile lucrătoare, în timp ce plățile cu cardul sunt procesate aproape instantaneu.

Când un jucător dorește să efectueze un depozit la un cazinou online care acceptă Skrill, procedura este simplă din punct de vedere tehnic. La secțiunea de plăți a cazinoului, se selectează Skrill ca metodă de depozit, se introduce adresa de email asociată contului și suma dorită. Cazinoul trimite o cerere de plată către serverele Skrill, utilizatorul autorizează tranzacția fie prin parola contului, fie printr-un cod de verificare în doi pași (2FA), iar fondurile sunt transferate din portofelul Skrill în contul de cazinou în câteva secunde. Viteza acestui proces este unul dintre avantajele clare față de transferurile bancare tradiționale, care pot dura zile întregi.

Retragerile funcționează similar, dar în sens invers: cazinoul trimite suma câștigată direct în contul Skrill al jucătorului. Majoritatea operatorilor procesează retragerile Skrill în interval de 24 de ore, uneori chiar mai rapid, ceea ce face ca fondurile să fie disponibile în portofelul electronic cu mult mai repede decât printr-un transfer bancar. Din contul Skrill, utilizatorul poate retrage banii în contul bancar personal, poate folosi cardul Skrill prepaid pentru plăți sau poate lăsa suma în portofel pentru tranzacții viitoare.

Verificarea identității, limitele de tranzacție și comisioanele aplicabile

Un aspect adesea trecut cu vederea de jucătorii noi este structura de verificare pe niveluri implementată de Skrill. Conturile neverificate au limite stricte de tranzacție — de obicei, suma totală stocată în portofel nu poate depăși 2.500 de euro, iar tranzacțiile individuale sunt limitate. Odată ce utilizatorul parcurge procesul complet de verificare a identității, care implică încărcarea unui document de identitate valabil și uneori dovada adresei de domiciliu, aceste limite sunt ridicate semnificativ sau eliminate complet, în funcție de categoria de cont. Skrill oferă și un program VIP cu beneficii suplimentare pentru utilizatorii cu volum mare de tranzacții, incluzând comisioane reduse și acces la un manager de cont dedicat.

Referitor la comisioane, structura Skrill este mai complexă decât pare la prima vedere. Depozitele la cazinouri sunt de obicei gratuite din perspectiva Skrill — operatorul de cazinou suportă comisionul de procesare. Totuși, există situații în care Skrill percepe un comision de 1,45% pentru depozitele efectuate cu cardul de credit sau debit în contul portofelului. Retragerile din contul Skrill în contul bancar implică un comision de 5,50 euro per tranzacție, indiferent de suma retrasă. Conversia valutară, când este necesară, adaugă un spread de 3,99% față de cursul de schimb interbancă. Aceste detalii sunt importante pentru jucătorii care calculează costurile reale ale tranzacțiilor lor.

Un aspect specific industriei de gambling este că mulți operatori de cazinou online exclud Skrill și alte portofele electronice de la bonusurile de bun venit sau de la promoțiile standard. Această practică are rădăcini în politicile de prevenire a abuzurilor — portofelele electronice permit crearea mai facilă de conturi multiple, iar operatorii doresc să limiteze utilizarea bonusurilor la un singur cont per persoană. Jucătorii care prioritizează accesul la bonusuri ar trebui să verifice termenii și condițiile fiecărui cazinou înainte de a alege Skrill ca metodă de plată principală. Platforma Sfaturicazino documentează în detaliu care operatori acceptă Skrill fără restricții la bonusuri și care aplică excluderi, oferind o perspectivă utilă pentru luarea deciziilor informate — cei interesați pot citește mai mult despre condițiile specifice ale fiecărui cazinou analizat acolo.

Cadrul de reglementare și siguranța fondurilor utilizatorilor

Skrill Limited este autorizat și reglementat de Financial Conduct Authority (FCA) din Marea Britanie, sub numărul de referință 900001, ca instituție de monedă electronică. Această autorizație impune obligații stricte privind segregarea fondurilor clienților — banii stocați în portofelele Skrill trebuie ținuți separat de capitalul operațional al companiei și investiți exclusiv în active lichide cu risc scăzut. Practic, aceasta înseamnă că, în cazul insolvenței Skrill, fondurile utilizatorilor sunt protejate și pot fi recuperate, spre deosebire de depozitele la cazinouri neautorizate unde nu există astfel de garanții.

Compania mamă, Paysafe Group, a achiziționat Skrill în 2015 și a integrat-o alături de Neteller și alte servicii financiare. Paysafe este listată la bursa din New York (NYSE: PSFE) din 2020, ceea ce adaugă un nivel suplimentar de transparență și responsabilitate corporativă. Rapoartele financiare publice arată că Paysafe procesează anual tranzacții de ordinul zecilor de miliarde de dolari, cu o prezență semnificativă în sectorul gambling online — conform raportului anual din 2022, aproximativ 40% din volumul de tranzacții al grupului provenea din industria jocurilor de noroc.

Din perspectiva securității tehnice, Skrill utilizează criptare SSL de 256 de biți pentru toate comunicațiile, autentificare în doi pași prin aplicație mobilă sau SMS, și sisteme de monitorizare a tranzacțiilor pentru detectarea activităților suspecte. Programul de protecție împotriva fraudei include monitorizarea în timp real a pattern-urilor de tranzacționare și blocarea automată a conturilor în cazul detectării unor activități neobișnuite. Utilizatorii sunt notificați prin email și notificări push pentru fiecare tranzacție, ceea ce permite identificarea rapidă a oricăror mișcări neautorizate.

Un element important pentru jucătorii din România este că Skrill funcționează în conformitate cu directivele europene privind serviciile de plată (PSD2), implementate în legislația românească prin Legea nr. 209/2019. Aceasta înseamnă că tranzacțiile prin Skrill beneficiază de protecțiile prevăzute de dreptul european, inclusiv dreptul la rambursare în cazul tranzacțiilor neautorizate și obligativitatea autentificării puternice a clienților (SCA) pentru plăți online.

Compatibilitatea Skrill cu operatorii autorizați în România și limitările practice

Piața românească de gambling online este reglementată de Oficiul Național pentru Jocuri de Noroc (ONJN), care a emis licențe unui număr semnificativ de operatori internaționali. Printre aceștia, majoritatea acceptă Skrill ca metodă de plată, deși condițiile specifice variază considerabil. Unii operatori impun o limită minimă de depozit de 10-20 de euro prin Skrill, în timp ce alții acceptă sume de la 5 euro. Limitele maxime de depozit pot varia de la câteva sute la câteva mii de euro per tranzacție, în funcție de politica internă a operatorului și de nivelul de verificare al contului de jucător.

Un aspect practic important pentru utilizatorii din România este că Skrill suportă tranzacții în lei românești (RON), eliminând astfel costurile de conversie valutară în cazul în care cazinoul operează în aceeași monedă. Totuși, mulți operatori autorizați în România procesează tranzacțiile în euro, caz în care conversia este inevitabilă. Jucătorii atenți la costuri ar trebui să verifice moneda de operare a cazinoului și să calculeze impactul comisionului de conversie al Skrill asupra tranzacțiilor lor regulate.

Există și limitări geografice de care utilizatorii trebuie să fie conștienți. Skrill a restricționat accesul la serviciile sale pentru utilizatorii din anumite jurisdicții, iar lista acestora s-a modificat de-a lungul timpului ca răspuns la schimbările legislative internaționale. România nu se află pe lista jurisdicțiilor restricționate, astfel că utilizatorii români pot accesa toate funcționalitățile platformei. Cu toate acestea, jucătorii care călătoresc frecvent în afara Uniunii Europene ar putea întâmpina dificultăți în utilizarea contului din anumite țări terțe.

Sfaturicazino a analizat în detaliu modul în care diferiți operatori autorizați în România implementează plățile prin Skrill, identificând diferențe semnificative în termenele de procesare a retragerilor, în limitele de tranzacție și în politicile privind bonusurile. Aceste diferențe nu sunt întotdeauna vizibile în paginile de promovare ale cazinourilor, dar au un impact real asupra experienței jucătorilor. Verificarea acestor detalii înainte de înregistrare poate evita surprize neplăcute legate de accesul la fonduri sau la promoții.

Un alt aspect demn de menționat este interacțiunea dintre Skrill și programele de loialitate ale cazinourilor. Unii operatori acordă puncte de loialitate sau cashback redus pentru depozitele efectuate prin portofele electronice, argumentând că marja lor de profit pe aceste tranzacții este mai mică față de plățile cu cardul. Această practică nu este universală, dar este suficient de răspândită încât să merite atenție din partea jucătorilor care participă activ în programe de fidelitate.

În concluzie, Skrill rămâne o opțiune solidă și bine reglementată pentru tranzacțiile la cazinouri online, oferind un echilibru acceptabil între viteză, securitate și confidențialitate. Înțelegerea mecanismelor sale de funcționare — de la structura comisioanelor și limitele de verificare, până la cadrul de reglementare și compatibilitatea cu operatorii locali — permite jucătorilor să ia decizii financiare mai informate și să evite costurile sau restricțiile neașteptate. Ca în cazul oricărei metode de plată, potrivirea cu nevoile individuale ale utilizatorului depinde de prioritățile sale: dacă viteza de retragere primează față de accesul la bonusuri, sau dacă confidențialitatea este mai importantă decât minimizarea comisioanelor de conversie valutară.

Estas vinhas, de condução em taça, não aramadas, não regadas, sem clones selecionados, normalmente muito baixas (para não puxarem muito pela “bomba” de fluidos da planta) eram a maioria das vezes, acompanhadas de outras culturas, normal¬mente oliveiras, por vezes mais algumas árvores de fruto como macieira, pereira, ou no caso de vinhas de altitude, cerejeira e castanheiro.

Note-se que na consociação com olival a combinação é perfeita pois as raízes superficiais da oliveira não competem com as raízes profundas da videira. E era feita uma ocupação de solo com duas das três principais culturas mediterrânicas (vinha, olival, e trigo). Brilhante estratagema dos antigos viticultores.

Estas “Vinhas Antigas”, termo que prefiro a “Vinha Velha”, eram custosas de trabalhar. Tudo feito à mão, pulverizações com o pulverizador às costas, erva gadanhada e dada ao gado assim que o calor a fazia crescer (ainda no começo do ciclo vegetativo da videira), e mais tarde, antes calor a sério, vinha lavrada com homem, arado e macho; e nalguns casos de vinhas desordenadas ou não alinhadas, mais alguém à frente a conduzir o macho ou mula, entre o aperto das videiras, para que os flancos deste não batessem ou arrancassem os tenros rebentos primaveris. Estas vinhas consociadas, tinham também a grande vantagem, nas regiões do interior com maior insolação e mais expostas às altas temperaturas de Verão, de usufruírem da sombra das oliveiras nas horas de maior aperto de calor.

De um pequeno pedaço de terra tirava-se alguma fruta, azeito¬na, azeite, vinho e aguardente (depois de destilado o bagaço). É este modo de vitivinicultura (ou melhor dizendo, policultura), que terminou com a implantação da agro-indústria nos anos 50 do século passado, que no meu entender melhor se enquadra no conceito de “vinha velha”; sempre sinónimo de vinha multi varie¬tal, à partida não aramada, mas sempre de sequeiro, sem clones seleccionados e de preferência consociada com outras culturas.

Provar vinhos destas vinhas é sempre muito estimulante. Cada vinha tem uma coleção de castas diferente que contribui com um carácter diferente para o vinho que dela se faz. Não é que as vinhas novas não façam vinhos diferentes, claro que sim! Mas os vinhos tirados de vinhas realmente velhas (ou melhor, de vinhas antigas) têm um carácter único, especial, mais insondável e obviamente menos focado no tantas vezes cansativo e banal “fruto”!
Os vinhos de Vinhas Velhas ou de Vinhas Antigas, são vinhos que espelham a fantástica expressão de terroir mediterrânico, que nada tem a ver com o mais famoso e caro terroir francófono, mas que em nada lhe fica atrás.

Defendo inclusivamente um futuro com certificações especiais para este tipo de vinhas e de vinhos. São património nacional. Devem ser protegidos!

Brett, esse defeito indesejável

Também chamado ‘suor de cavalo’ – ou estrebaria – o brett será talvez o defeito mais perniciosos do vinho contemporâneo, o qual, na maioria dos casos, já não apresenta defeitos maiores no fabrico. Castas como a Touriga Nacional e o Cabernet Sauvignon são particularmente sensíveis à levedura Brettanomyces / Dekkera. TEXTO João Afonso Brett é […]

Também chamado ‘suor de cavalo’ – ou estrebaria – o brett será talvez o defeito mais perniciosos do vinho contemporâneo, o qual, na maioria dos casos, já não apresenta defeitos maiores no fabrico. Castas como a Touriga Nacional e o Cabernet Sauvignon são particularmente sensíveis à levedura Brettanomyces / Dekkera.

TEXTO João Afonso

Brett é o nome comum do género de leveduras Brettanomyces / Dekkera bruxellensis. Podem-se encontrar na uva, mas o seu ambiente preferido é a barrica, onde ataca sobretudo o vinho tinto em estágio (quase não se manifesta no vinho branco). Insta¬la-se durante o estágio, nas borras finas, aumen¬tando lenta e progressivamente a sua produção de etilfenóis, que se dividem de duas formas: em 4-etilfenol, que dá aromas mais depreciativos de couro e suor de cavalo; nos piores casos os vinhos cheiram a pocilga ou estrebaria. Quando os etil¬fenóis se dividem em 4-etilguaiacol, surgem aromas queimados e medicinais. Os etilfenóis são um grande problema da enologia moderna.

Modos de combate

O Dióxido de enxofre é um forte inibidor da multiplicação e atuação da B. bruxellensis. Usa-se também Quitosano (quitina), um polímero natural, biodegradável e biofuncional que possui propriedade antimicrobianas e antifúngicas. Refira-se que o grau alcoólico acima de 13% limita a produção de etilfenóis. No engarrafamento é por vezes usado DMDC (dimetildicarbonato) ou filtração esterilizante para limitar ou evitar a presença desta levedura em garrafa. Mas é crucial o controlo periódico no vinho da presença e desenvolvimento desta levedura.

A opinião de Carlos Silva, enólogo

Uma dor de cabeça, é uma levedura de “fundo de corredor”, está sempre à espreita. Degrada o ácido para-cumárico e produz etilfenóis. Analiso os meus vinhos e vejo se têm ou não leveduras viáveis e decido atuação em face dessa análise. O limiar de perceção humana anda pelos 400 microgramas/litro mas há quem detete a 200 ou menos microgramas. A quantidade e a manifestação do etilfenol também depende do tinto: se for estruturado, aguenta mais do que se for delgado. Para lá de tudo isto temos duas escolas. A francesa que diz que a Brett é couro russo do melhor, e a australiana que por vezes com doses muito mais pequenas diz que o vinho está sujo e tem defeito. A Brett é também uma questão cultural.

Edição Nº25, Maio 2019

Vinhas mal dormidas

O repouso vegetativo, tal como o nosso sono, tem uma função para as plantas. Conhecemos bem os efeitos de uma noite mal dormida ou da privação continuada do sono por um longo período. Na vinha não conhecemos tão bem. Importará estarmos atentos neste ciclo vegetativo e tentar não importunar muito. A vinha, claro. TEXTO João […]

O repouso vegetativo, tal como o nosso sono, tem uma função para as plantas. Conhecemos bem os efeitos de uma noite mal dormida ou da privação continuada do sono por um longo período. Na vinha não conhecemos tão bem. Importará estarmos atentos neste ciclo vegetativo e tentar não importunar muito. A vinha, claro.

TEXTO João Vila Maior

Trabalho em viticultura desde 1996. Portanto, já lá vão mais de vinte anos e não tardará muito o quarto de século. E garanto-vos que passei muitas noites de sono mal dormidas por preocupações vitícolas. Especialmente quando tive a meu cargo algumas centenas de hectares.
Por isso sei bem do que falo e respeito muito quem continua, a cada dia, a ter a seu cargo vinhas e mais vinhas, controlando o que pode controlar e mitigando os problemas que não pode controlar. Durante este quase quarto de século, asseguro-vos, nunca vi dois anos iguais, dois anos em que fosse possível controlar tudo e, cada vez mais, louvo o saber popular que institui a expressão “até ao lavar dos cestos vai a vindima”.
Num ano dito normal, a vinha arranca com o abrolhamento na primavera ou ligeiramente antes, e experimenta uma forte expansão vegetativa com o aumento (não extremo) das temperaturas, especialmente enquanto goza dum conforto hídrico. Normalmente, com a chegada do verão, a dinâmica de crescimento diminui, o stress hídrico e as temperaturas mais extremas encarregam-se de frenar a expansão vegetativa. Algumas folhas acusam o desgaste, secam de muito fotossintetisar, por falta de água ou queimadas por golpes de calor. Estamos então no verão durante o qual, algumas castas e em algumas regiões, tem lugar a vindima. No outono vindimam-se as castas mais tardias e acentua-se o abrandamento da actividade vegetativa e a senescência foliar, muito ajudada pela diminuição das temperaturas e das geadas outonais. Isto é a preparação para a dormência, do merecido descanso, pois para o ano haverá mais.

DEITAR TARDE, ACORDAR CEDO…

No ano de 2018, do abrolhamento até julho, houve muita chuva que fez com que a temperatura do solo nunca fosse tão elevada. Também as temperaturas do ar foram menos
elevadas relativamente à norma. Consequentemente, as vinhas foram-se desenvolvendo com um atraso vegetativo assinalável. Depois, no início de agosto, tivemos uma onda de calor que durou 4 dias, que bateu recordes e que, em muitos casos, dizimou a produção com um escaldão de má memória. Por muito que não se diga, para jornalista não escrever e consumidor não ouvir… houve muitas maturações desequilibradas, pelo que a evolução dos vinhos é uma incógnita. Com tudo isto, as vindimas foram, como não tenho memória, mais tardias. Por sorte não choveu, fruto dum verão que entrou pelo outono dentro. As folhas tardaram a cair e penso que não exagerarei em afirmar que o ciclo acabou cerca de um mês mais tarde do que a média dos anos anteriores.
O outono e inverno vieram secos. Com o solo seco, a temperatura do solo subiu com facilidade fruto das temperaturas mais elevadas do final de fevereiro e março deste ano de 2019. Como consequência, as raízes iniciaram a sua atividade e o abrolhamento teve lugar uns quinze dias mais cedo do que o habitual.
Contas feitas, as vinhas terão entrado em dormência cerca de uns mês mais tarde do que o habitual e abrolharam uns 15 dias mais cedo, ou seja, terão tido menos um mês e meio de dormência. Estarão, certamente cansadas, intolerantes e irritadiças. Vamos ver as consequências que isto terá para a qualidade dos vinhos e para a perenidade das vinhas.

Edição Nº25, Maio 2019

Almaviva – Velho e Novo Mundo no Chile

O projecto Almaviva foi pensado de raiz, resultando de uma joint-venture entre o velho e o novo mundo, um château em território chileno; eis Almaviva, um tinto cuja qualidade e consistência não se esquecem. TEXTO Nuno de Oliveira Garcia FOTOS Almaviva Ao contrário da vizinha Argentina, o Chile tinha pouca tradição de vinho até aos […]

O projecto Almaviva foi pensado de raiz, resultando de uma joint-venture entre o velho e o novo mundo, um château em território chileno; eis Almaviva, um tinto cuja qualidade e consistência não se esquecem.

TEXTO Nuno de Oliveira Garcia

FOTOS Almaviva

Ao contrário da vizinha Argentina, o Chile tinha pouca tradição de vinho até aos anos ’80 do século passado. Ainda hoje, o consumo de vinho no país é relativa¬mente residual, apesar da produção ter, entretanto, explodido, fazendo do Chile um dos grandes produtores mundiais (sétimo, mais precisamente). Nos anos 90, muitos produtores passaram a olhar para o Chile, sobretudo para a região de Maipo (não muito longe da capital, Santiago), como um destino dos seus investimentos. Para isso também contribuíam as excelentes condições do país, como sejam terrenos e mão-de-obra pouco dispendiosos, solos relativamente férteis, permitindo boas produções, e um clima tendencialmente mediterrânico, sem muitas oscilações, e temperado por influência do oceano pacífico.
Os dados revelam que em 1995 existiam cerca de vinte adegas e produtores no Chile; agora são praticamente trezentos…

UMA PARCERIA DE SUCESSO

Um dos projectos mais aliciantes desde o início, cuja primeira colheita foi a de 1996, foi o Almaviva, resultado de um acordo celebrado entre a Baronesa Philippine de Rothschild e Eduardo Tagle, ou melhor entre os gigantes empresariais Baron Philippe de Rothschild (França, Bordéus) e Vinícola Concha y Toro (Chile, Maipo). Como é sabido, o grupo Baron Philippe de Rothschild marcou presença vínica em vários países na viragem do século, numa clara política de dispersão de investimentos, quase sempre recorrendo a parcerias com produtores locais (inclusivamente em Portugal), sendo que Almaviva, a par do projeto americano Opus One, tem sido das mais bem-sucedidas.
A influência bordalesa, e a lógica de châteaux (a própria casa da propriedade tem inspiração francesa), foi sempre evidente, predominando no encepamento e no lote (é praticamente um field blend) o Cabernet Sauvignon, sempre maioritário. Igualmente relevante é a presença de Carménère, a casta rainha do Chile (mas francesa de origem), confundida no passado por Merlot. O ‘sal e a pimenta’ ficam a cargo do Cabernet Franc e do Petit Verdot, com a primeira casta a chegar quase aos 10% em algumas colheitas. No solo da propriedade – são 63 hectares em produção dos 68 totais da propriedade – é visível a presença de muita pedra rolada advinda do leite do rio Maipo e a pluviosidade raramente ultrapassa os 200ml. A propriedade, sita em Puente Alto, é muito próxima da vinha que produz outro ícone chileno – Don Melchor – o que atesta a grandeza deste terroir. Igualmente revelador da preponderância francesa, o escoamento dos vinhos é feito quase todo – cerca de 90% – para Bordéus, e daí para o mundo, com cerca de 5% a ser comercializado pela Concha & Toro e outros tanto que fica para consumo interno no Chile e alguns clientes privados muito especiais.

Vinha com a cordilheira nevada em plano de fundo.

NOME DE ORIGEM FRANCESA

Apesar do bonito nome soar espanhol, vem da literatura francesa clássica, pois o Conde de Almaviva era o herói das Bodas de Fígaro, a famosa comédia de Pierre-Augustin Beaumarchais, adaptada para ópera por Mozart. A marca é sinónimo do que melhor se faz no Chile, sendo agraciado com fama e prestígio dentro e fora do seu país. Em viagem que fizemos há algum tempo ao Chile, e na qual percorremos várias regiões, podemos comprovar isso mesmo. Almaviva é porventura o nome mais repetido no Chile quando se pergunta qual o ícone vínico que mais respeita a qualidade e consistência, ao lado de nomes famosos como Don Melchor, Viña Santa Rita Casa Real, Viña Montes Alpha M, Viñedo Chadwick e Lapostolle Clos Apalta.

PROVA VERTICAL: 2015 BRILHOU A GRANDE ALTURA

Recentemente tivemos a oportunidade de fazer uma pequena vertical do vinho a convite do importador nacional, a Luxury Drinks (www.luxury-drinks.pt), empresa que, como o nome indica, é especialista na importação de marcas de renome como Gaja, Ornellaia ou Domínio de Pingus. Das várias colheitas provadas, comprovou-se a excelência do ano 2015 (o vinho obteve 100 pontos na Wine Spectator, atribuídos por James Suckling), um tinto absolutamente sedutor, com uma prova de boca sedosa e leve-mente mineral; um verdadeiro must! A colheita de 2010 revelou-se jovem ainda, ou seja, a dar boas indicações quanto à longevidade da marca. Isto comprovou-se com a prova das colheitas de 1999 e 2000, ainda que estas revelassem um perfil mais bordalês e menos novo-mundista (inclusivamente com um toque de fenol volátil no 1999…). A mais recente colheita no mercado é a de 2016, mantendo um registo muito acessível e prazeroso, de enorme atração, mas sem a complexidade demonstrada no vinho de 2015.

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Edição Nº25, Maio 2019