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Vinho, o segredo mais bem guardado da Suíça

By 16 de Dezembro, 2019 Sem comentários

A banca e a relojoaria são tradicionalmente associadas à Suíça, chocolate e queijos são os seus ícones gastronómicos e as montanhas e lagos caracterizam a sua paisagem, enquanto os vinhos suíços são quase incógnitos para o resto do mundo. Os suíços bebem-no quase todo…

TEXTO Valéria Zaferino

Poucos podem dizer que conhecem ou que já provaram algum vinho daquele país montanhoso. E razão é muito simples: a Suíça exporta apenas 1% de vinho que produz, tudo o resto é consumido no mercado interno. E não se trata de uma actividade recente. A vinha é cultivada na Suíça desde a época dos romanos. Antes da filoxera, que chegou a estas terras em 1871, a área de vinha era o dobro da plantada hoje (30.000 contra quase 15.000 hectares).

ENTRE LAGOS E MONTANHAS
As condições edafoclimáticas da Suíça são moldadas pelos lagos e montanhas. Os Alpes ocupam 61% do seu território, por isso em mui¬tos casos trata-se de viticultura de montanha, com diferentes altitudes e exposições. As vinhas sobem encostas, por vezes vertiginosas, com escadaria de socalcos, o que impossibilita mecanização, dificulta o tra¬balho na vinha e aumenta o custo de produção.
Se em Bordeaux por ano são necessárias cerca de 300 horas/hectare de trabalho, nas vinhas da Suíça este valor vai de 400 a 1500 horas/ hectare (como no nosso Douro, diga-se de passagem). Em contrapartida, os viticultores suíços recebem 4,5-5 francos por quilo de uva. Os vinhos também não são baratos, é difícil encontrar vinho por menos de 10 francos suíços. Em alguns cantões até o preço de Grand Cru é controlado. Por exemplo, segundo um produtor em Valais, o vinho classificado como Grand Cru não pode ser vendido por um preço inferior a 25 francos.
Os lagos também desempenham um papel importante, amenizando a continentalidade do clima e reflectindo o sol através dos grandes espelhos de água. O lago Léman, três lagos interligados (Neuchâtel, Bienne e Morat), de Zurique, de Constance e de Lugano são os maiores.

MUITAS CASTAS
A área de vinha na Suíça é apenas cerca de 15 000 hectares (ao nível do nosso Trás-os-Montes ou Dão). A grande surpresa é o número de castas existentes. São 252, das quais 80 autóctones! Nestas últimas também estão incluídas as castas criadas por cruzamentos, como Gamaret e Garanoir (filhas de Gamay e Reichensteiner), Divona e Dívico (filhas de Gamaret e Bronner) entre muitas outras, e híbridos de Vitis Vinifera com outras espécies de videira. Desde os anos 70, o centro de soluções para agricultura na Suíça, Agroscope, é incansável na criação de castas novas com determinadas características e mais resistentes a doenças.
As castas estrangeiras, plantadas antes de 1900, obtiveram o estatuto de tradicionais, por terem grande histórico de plantação no país. É o caso de Pinot Noir, Gamay, Sylvaner, Savagnin entre outras.
O ícone da Suíça vitivinícola é Chasselas (aka Fendant na região de Valais e Gutedel na região de Zurique), a mais importante e mais plantada das castas autóctones, com área de 3.733 hectares, que representa 61% das castas brancas do país. É originária do norte do lago Léman, com referências desde o século XVII, está mais plantada na parte francesa da Suíça, em cantões de Vaud, Valais, Genebra e Três Lagos. Produz vinhos delicados, com certa subtileza, a expressar aro¬mas de flores brancas, pera e limão e apontamentos amanteigados e minerais. Na Suíça até existe um concurso mundial só de Chasselas, organizado desde 2012.
A Petite Arvine é outra das castas autóctones, embora com muito me¬nos expressão (197 ha), que é capaz de produzir vinhos brancos de grande qualidade com aromas citrinos e de ananás, notas salinas e óptima acidez. Dá origem a vinhos tranquilos, espumantes e colheitas tardias.
A Pinot Noir é plantada em todas as regiões da Suíça e já ultrapassou Chasselas em termos de área, ocupando 4070 hectares. É muito utilizada para fazer rosé clarinho, chamado Oeil de Perdrix (Olho de perdiz), onde pode ser adicionada uma décima parte de Pinot Gris; Em Neuchâtel produzem a sua versão branca – Perdrix Blanche.
Gamay é outra casta com uma área de plantação significativa (1277 ha), cuja popularidade anda a oscilar um pouco ao gosto do consumidor. Pinot Noir e Gamay constituem 85% (e Pinot Noir predomina) do vinho Dôle, simples, fresco e frutado, tradicional na região de Valais.

AS PRINCIPAIS REGIÕES
Valais é a maior e, aparentemente, mais antiga região vitivinícola da Suíça, responsável pela 33% da plantação de vinha no país. Rodeada de montanhas e com solos variados, segue o curso do rio Rhône/Ró¬dano. O clima é seco e solarengo, a contar com 2500 horas de sol e 650 mm de precipitação anuais (a lembrar o nosso Cima Corgo no Douro), é acentuado pelos secos e quentes ventos “Foehn”. Nestas condições, a rega torna-se importante. Felizmente, a água das glaciares não falta, e para colhê-la foram construídos os canais de irrigação chamados “bisses” e muitos deles continuam a ser usados.
A maior parte das vinhas ficam numa altitude de 460-760 metros. A inclinação em certos pontos chega a ser 90% (42˚) e o transporte da uva vindimada só pode ser feito por um sistema de mono¬carril. As castas mais utilizadas em Valais são Pinot Noir, Chasselas e Gamay.
Vaud é a segunda maior região com 26% da área de vinha e é a única na Suíça que produz mais vinho branco do que tinto. Os vinhedos abraçam a margem norte do lago Léman. As vinhas do AOC Lavaux esculpidas em estreitos terraços, são impressionantes e fazem parte do património mundial da humanidade da UNESCO desde 2007. É o reino da Chasselas que expressa bem os diferentes terroirs, provavelmente por isto, nos rótulos figura não o nome da casta, mas sim o nome do local da sua origem, como por exemplo os Grand Crus Calamin e Dézaley, cujos solos argiloso-calcários originam vinhos particularmente expressivos. Pinot Noir e Gamay também estão bem presentes na região, mas dado às novas tendências, as castas Gamaret, Garanoir e Merlot estão a ganhar terreno.
As vinhas na região de Genebra começam a poucos quilo¬metros do centro da cidade e ultrapassam a fronteira com França, sendo que 122 dos 1413 hectares situados no ter¬ritório francês pertencem aos produtores suíços e podem ser certificados como AOC Genebra. Gamay e Chasselas são as principais castas utilizadas, seguidas de Ponot Noir, Gamaret e Chardonnay.

TICINO – PARAÍSO PARA ENOTURISTAS
É a região que não se parece com nenhuma outra na Suíça. É a única que fica do lado sul dos Alpes. Para lá chegar é preciso atravessar uma montanha num túnel de 57 km, o mais comprido do mundo. Ou quem não tem pressa, pode ir observando as vistas fabulosas pelas janelas enormes do comboio panorâmico (Gotthard Panorama Express ou Bernina Express).
Com fronteira com o norte de Itália, é um autêntico oasis mediterrânico da Suíça, que se tornou numa zona de fé¬rias por excelência para o resto do país. É uma combinação perfeita da cultura latina com organização suíça.
O clima é mais moderado do que no resto do país. É uma região com sol generoso (2.200 horas por ano), mas também com chuvas frequentes. A precipitação anual fica nos 1600 mm, a lembrar o nosso Minho. Mas as chuvas lá não são prolongadas, caem de repente em grande quantidade. O vento “foehn”, que também sopra nestes lados, ajuda a secar as vinhas depois das chuvas. O granizo é frequente, por isso proteger as vinhas com uma rede especial é quase imperativo.
O Monte Ceneri divide a região pelo sul (Sopraceneri) e norte (Sottoceneri). A parte sul é mais pequena em termos de dimensão, mas tem mais produtores, maior área plantada nas suas encostas pacatas e produz vinhos elegantes e com mais fruta. A parte norte, dado ao seu relevo montanhoso, embora tenha um território maior, tem menos vinha. Nos seus solos pedregosos nascem os vinhos mais austeros que precisam de tempo em garrafa.
Ao contrário de outras regiões da Suíça, onde reina Chasselas, em Ticino a estrela é Merlot, responsável por 80% dos vinhos. A seguir ao surto da filoxera que chegou a Ticino só em 1897, foram iniciados os estudos das castas que melhor se adaptassem e pudessem trazer sucesso à região, superando as videiras americanas (York Madeira e omnipresente Isabella) e castas rústicas autóctones, como a Bondola, por exemplo. Esta perdeu terreno até quase à sua extinção e está agora a atravessar um ligeiro renascimento.
De Merlot, em Ticino faz-se tudo, começando pelos sérios e aveludados tintos, inspirados por Bordeaux, com alguns vinhos a rivalizar com os melhores Merlot do mundo; leves rosés; espumantes e até bastante popular Bianco di Merlot, vinificado em branco. Este corresponde a cerca de 20% de Merlot produzido na região. É mesmo o caso para dizer que a casta foi bem adotada e bem adaptada.
Qualquer enófilo, ao visitar a região, será sempre bem vindo a Casa del Vino Ticino, onde pode obter toda a informação e provar mais de 200 referências, que representam 90% dos produtores da região. Mas não há nada mais enriquecedor do que visitar produtores diferentes em termos de dimensão e filosofia.
A Valsangiacomo Vini é a casa mais antiga em Ticino, fundada em 1831, primeiro como importadora e distribuidora de vinho e a partir do início do século 20 focou-se na produção própria. Já está nas mãos da sexta geração.

Família Tamborini, um dos maiores (à medida da região) produtores, possui uma propriedade, Vallombrosa, onde foram plantadas as primeiras vinhas de Merlot em Ticino em 1908. Para além dos 25 hectares de vinha própria, compram muitas uvas a viticultores da região. Esta propriedade ainda dispõe de um conjunto de quartos no conceito Bed&Breackfast, decorados por artistas locais. Em 2012 Cláudio Tamborini foi considerado o enólogo do ano no concurso nacional “Grand Prix des Vins Suisses”. Dois anos antes este prémio foi entregue ao enólogo da Agriloro, fundada em 1981, onde em cada vinho reconhece bem o estilo do produtor.
A aliança de Gialdi e Brivio resultou no maior produtor da região, que produz anualmente cerca de 1 milhão de garrafas. Funciona como negociante: não possui vinhas, mas trabalha com cerca de 320 produtores no Sopraceneri e no Sottoceneri, controlando toda a parte da viticultura.
Cantine Monti é uma pequena empresa familiar com muita alma. Ivo Monti, depois de deixar uma carreira de oficial num cargueiro, encontrou a sua verdadeira vocação junto do seu pai que adquiriu a propriedade em 1976. Uma adega, pequena, mas extremamente funcional e bem pensada, fica numa altitude de 550 metros numa encosta inclinada obrigando a grande exercício físico de quem os visita e lá trabalha. Ainda bem que só têm 4 hectares. Os vinhos produzidos são cheios de personalidade.
A moderna e bem equipada adega da Fattoria Moncucchetto projectada pelo famoso arqui-teto Mario Botta fica a mais de 400 m de altitude e oferece uma vista magnífica sobre dois lagos. E ainda poussuem um espaço elegante para eventos com cozinha à responsabilidade do chef Andrea Muggiano.
A imponente adega de Zanini Vinotierri com uma sala de barricas a lembrar um anfiteatro e outra feita em espiral com 18 metros de profundidade. O seu topo de gama Castello Luigi Rosso de 2,5 ha com 80% Merlot e 20% de Cabernet Franc e Cabernet Sauvignon, vinho aristocrata vendido a 139 euros, certamente é um dos melhores de Ticino.

Sabia que

  • O chamado Vinho dos Glaciares é um vinho branco sujeito ao estágio oxidativo tipo solera (mantido durante muitos anos em grandes cascos, que de tempos em tempos são atestados com vinho novo). É produzido apenas num vale, Val d’Annivers, no centro do cantão de Valais e feito de um blend de castas, incluindo a autóctone Rèze.
  • As vinhas de Visperterminen numa altitude de 1100 metros ficam entre as mais altas da Europa e foram poupadas da filoxera que não conseguiu lá chegar. Aqui ainda hoje existem vinhas não enxertadas de Savagnin Blanc, chamada nesta zona Païen.
  • A vinha mais pequena do mundo, em termos de dimensão, fica numa aldeia medieval Saillon, na região de Valais, e contem apenas 3 videiras

Edição Nº28, Agosto 2019

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