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Rumo a um futuro melhor

By 13 Dezembro, 2019 Sem comentários

A Beira Interior é uma região com múltiplas facetas na produção de vinho. Mas uma grande força vai-se mantendo, que é o domínio das cooperativas na produção de vinho. A Cooperativa Beira Serra é das mais pequenas e há alguns anos alterou um rumo que perdurava há décadas. E em boa hora o fez…

TEXTO António Falcão
FOTOS Ricardo Gomez

Rumamos a Vila Franca das Naves, povoação do concelho de Trancoso, distrito da Guarda. Esta¬mos a norte do enorme Parque Natural da Serra da Estrela, que engloba a mais alta serra de Portugal Continental, mas, curiosamente, aqui o terreno nem sequer é montanhoso. Estamos numa espécie de planalto – mas, para que não existam dúvidas, o nosso altímetro ronda quase sempre os 550 metros. Paisagem tipicamente agrícola, com pequenas vinhas espalhadas um pouco por todo o lado, alguma floresta e muito granito à vista. Mesmo muito. Terras pobres, portanto. Enfim, nada que seja estranho à região da Beira Interior, que a sul, na Beira Baixa, encosta ao Alto Alentejo, e a Norte, junto a Figueira de Castelo Rodrigo, se aproxima do Douro. O Dão está a sul, também muito perto, especialmente das zonas vitícolas encostadas à Serra da Estrela. Gouveia, por exemplo, está a menos de 40 quilómetros em linha recta.
Não é preciso perguntar a ninguém do local para adivinhar que estas são terras de clima fresco, mas seco, que provocam maturações lentas. E é exactamente isso que nos diz João Guerra: “já cheguei a vindimar a 20 de Outubro (a casta Touriga Nacional). Nós somos os últimos a vindimar na região”. João Guerra tem vinhas a mais de 700 metros de altitude. Médico de família local, João Guerra é o presidente da Beira Serra Vinhos, o nome comercial da Cooperativa Beira Serra (beiraserravinhos.pt), que lhe dá um toque mais sofisticado e, ao mes¬mo tempo, indica a proximidade à Serra da Estrela, e, porque não, a vizinhança às serras da Marofa e Malcata

UMA ADEGA COM 63 ANOS DE IDADE
A adega nasceu em 1956 mas até 2000, mais ou menos, viveu sobretudo do vinho a granel. Tinha grandes clientes e Joaquim Gamboa, o director executivo da casa, ainda se lembra de ouvir falar desses tempos: “toda a gente nos vinha comprar vinho branco e rosé. O Mateus Rosé, por exemplo, chegou a sair daqui já em garrafa. E saía muito vinho para espumantes, também”. A estratégia foi funcionando durante várias décadas, mas não deixou a adega rica. Entretanto, mudanças nos mercados e a concorrência de produtores mais poderosos, como a vizinha adega de Pinhel, por exemplo, com quase 20 milhões de litros (uma das maiores do país), ditou mudanças de estratégia no início do século. Diz Joaquim Gamboa que “a partir de 2000, as direcções entenderam começar a engarrafar algum”. Ao que parece, este vinho ia-se venden¬do, mas sem grandes resultados. Joaquim Gamboa fala da falta de notoriedade nas marcas e pouca agressividade comercial. Já no final da década, os associados votaram numa nova direcção e entraram Joaquim Gamboa, João Guerra e Jorge Lucas. Corria o ano de 2013.
Os três directores são associados da cooperativa, mas Joaquim Gamboa, que passou cerca de 40 anos em Lisboa e chegou a ter uma garrafeira na capital (Culto do Vinho), arrancou, entretanto, uma parte da vinha que herdou. Pouco percebia de agricultura e o pai, ainda nestas terras, foi o principal ‘responsável’: “isto não é vida para vocês”, dizia ele enquanto o enxotava das tarefas do campo. Mas Gamboa regressou a Vila Franca das Naves e é aqui que é feliz. Uma das vinhas sobreviventes tem provavelmente mais de um século.

UMA NOVA ERA COMEÇA EM 2013
Corria 2013 e a nova direcção decide gerir a cooperativa como uma empresa. Sabendo que o mercado de granel tinha os dias contados, começa a apostar cada vez mais no vinho engarrafado (ou em bag in box). E decide voltar-se cada vez mais para a qualidade.
Joaquim recorda: “Mudámos rótulos, mudámos garrafas, alterámos a imagem da cooperativa. Tomámos iniciativas de marketing e promoção dos vinhos, investimos muito em feiras, mas apenas no mercado nacional. Mas sabe¬mos que promover marcas leva anos…”
As mudanças não ficaram por aqui. “As coisas estavam muito degradadas quando entrámos”, diz João Guerra. A direcção decide por isso investir na área técnica, tanto na fermentação como no armazenamento. Por exemplo, os antigos depósitos de cimento foram revestidos a epoxy e levaram placas de frio. Este ano comprou-se uma linha de engarrafamento. Tudo a pouco e pouco, porque o dinheiro é escasso.
A estratégia passou ainda pelos recursos humanos. Houve um melhor aproveitamento do enólogo consultor Carlos Silva, que já exercia aqui há uns anos. Carlos, na altura da equipa da Vines & Wines, trabalha sobretudo na vizinha região do Dão e é um técnico tão à vontade com grandes volumes como em pequenas tiragens de vinhos de quinta. Para o ajudar na adega está Artur Figueiredo, o enólogo residente. Esta dupla, com os novos equipamentos, tem conseguido tirar melhor partido das uvas que chegam todos os anos à adega de Vila Franca das Naves. Ou seja, a qualidade média dos vinhos foi melhorando. Mas há ainda muita margem para crescer…

UMA QUESTÃO DE NOTORIEDADE
O passado negro começa a ficar para trás, mas a Beira Serra Vinhos enfrenta diversos desafios importantes para o futuro próximo. O primeiro é criar maior notoriedade nas suas marcas de topo da casa: Fora de Jogo, Boa Pergunta e Óptima Pergunta. João Guerra – na altura na Assembleia Geral (órgão não executivo) – assistiu à origem destes exóticos nomes. O primeiro surgiu por um mau motivo: por questões legais e desleixo, a empresa perdeu a marca Vilas Francas, forte na altura, e alguém disse que estavam agora “Fora de Jogo” no mercado. Nas discussões à volta destes temas, alguém colocou uma questão pertinente e surgiu o comentário: “essa é uma boa pergunta”. “Boa pergunta?” para aqui e para ali, e logo ali se decidiu avançar com a marca, que chamava a atenção. Daí até passar para o Óptima Pergunta foi um pequeno passo, dentro do mesmo conceito, uma espécie de ‘upgrade’ e o vinho mais caro da casa.
O outro grande desafio tem mais a ver com a demografia que com o negócio. De facto, poucas regiões sofrerão os custos da interioridade como esta: a maioria da população está envelhecida e não se sabe quantos serão os viticultores que estarão em condições de tratar dos vinhedos da região. Na realidade, são cerca de 400 os associados que entregam uva na Beira Serra, com data programada e geralmente por castas. Mas inscritos estão cerca de um milhar. “Como o cadastro não foi actualizado, mui¬tos sócios morreram, entretanto, ou arrancaram a vinha, ou saíram da região”, diz Gamboa. O panorama actual divide-se, de grosso modo, desta forma: de um lado muitos sócios já idosos com cerca de 1 hectare e ainda com força para tratarem da vinha, quase sempre velha; depois, alguns jovens com 4 ou 5 hectares, que reestruturaram a vinha; e meia dúzia que têm áreas superiores e também possuem vinhas reestruturadas. As castas mais tradicionais – as brancas Fonte Cal e Síria e a tinta Rufete, por exemplo – estão a desparecer a pouco e pouco, à medida que as vinhas velhas vão desaparecendo. Uma estratégia seria pagar melhor estas uvas, mas a Beira Serra não tem condições para isso. Mesmo o preço base para as uvas, numa base de quilo e grau alcoólico provável de 10 graus, ronda os 21 cêntimos. Mas poderá chegar aos 30 e mais cêntimos, com uvas de bom grau de Touriga Nacional, por exemplo. A Tinta Roriz também tem bonificação. As boas uvas de vinhas velhas acabam por compor os lotes dos melhores vinhos, mas não têm especiais bonificações.
Para piorar as coisas, os anos de 2017 e 2018 foram madrastos para os viticultores locais. Condições climatéricas adversas fizeram com que a produção descesse substancialmente. E, finalmente, começa a existir uma preocupante falta de mão-de-obra, especialmente na vindima. Este, infelizmente, começa a ser um problema nacional…

À PROCURA DE FAMA
Este grupo heterogéneo de que falámos atrás coloca na adega cerca de 4 mil toneladas de uva, o correspondente a mais de 3 milhões de litros de vinho. Cerca de um terço para vinho branco, o resto para tinto.
Para garrafa vai cerca de um terço da produção e a direcção sabe que existe aqui muita margem para crescer. O problema, aparente¬mente, não está na qualidade dos vinhos. Joaquim Gamboa explica: “os nossos vinhos são muito bons e mesmo os Beira Serra colheita (como o Colheita Seleccionada e o Selecção dos Sócios) batem-se contra alguns reservas de outras regiões. O nosso problema número 1 é o rótulo dizer Beira Interior…”. Pior ainda, tem histórias que, segundo ele, comprovam isto.
O médico João Guerra sabe que é assim, mas o problema tem raízes mais fundas: “esta zona é desprotegida, mesmo no contexto do que é o interior de Portugal”. Joaquim Gamboa reforça: “Não queremos dinheiro a fundo perdido, não acredito nisso; basta-nos linhas de crédito com juros razoáveis”.
Ambos os directores sabem dos riscos do abandono da propriedade na Beira Interior. “Ainda hoje veio aqui um sócio a dizer que já não tem força para tratar da vinha e disse-nos que vai arrancá-la. Nós não podemos fazer nada”, diz o director. E acrescenta: “se hoje fechássemos portas, metade dos cafés e casas comerciais fechavam também”. João Guerra acha que as próprias câmaras municipais poderiam dar uma ajuda.

UMA REGIÃO COM MUITO POTENCIAL
Os pensamentos negativos ficam para trás. João Guerra quer focar-se nos positivos: “Temos coisas muito boas, muita sustentabilidade: eu, por exemplo, faço produção integrada há mais de 30 anos! E gastamos muito menos produtos fitossanitários que em várias outras regiões do país. Este ano, por exemplo, apenas fiz três tratamentos!”. Vinhos com poucos químicos é música para os ouvidos de muitos consumidores. Tal como a frescura. João Guerra sabe que o clima desta região potencia vinhos brancos e tintos muito frescos e longevos, é verdade, mas tintos com tendência para mostrarem taninos aguerridos e alguma adstringência. Por isso, ‘suavizar’ os vinhos é uma parte do trabalho da equipa de enologia, mas não só. É frequente membros da direcção estarem presentes na feitura dos lotes e J. Gamboa justifica: “quem anda lá fora sabe melhor aquilo que os consumi¬dores gostam”.
Outro desafio vai para a comercialização. A casa tem alguns agentes na zona de Lisboa e outras zonas do país, mas Gamboa tem pena que não consigam fazer uma maior promoção do vinho da Beira Serra. “faz-nos falta um vendedor na zona de Lisboa”. Para o estrangeiro também vai bastante vinho, especialmente para França: o ano passado saiu para a terra dos gauleses quase 1 milhão de euros de vinho! A grande maioria, infeliz¬mente, vinho muito barato. “Muito rosé para as francesas”, diz Gamboa, mas sobretudo para abastecer o mercado da saudade.

RUMO A UM FUTURO MELHOR
“Desde 2013 a casa tem crescido muito em notoriedade”, diz Gamboa. “Conseguimos arrumar a casa. Este ano vamos distribuir 500.000 euros aos sócios e note que foi um ano de pouca produção”, acrescenta João Guerra.
Existe ainda um projecto para enoturismo, a fazer em conjunto com a Comissão da Beira Interior, que está a criar a Rota dos Vinhos. Uma casa dos anos 60 dentro do parque da adega poderá assim ser recuperada e convertida em loja de vinhos e merchandising.
São boas notícias, mas Joaquim e João sabem bem que muito há ainda para fazer. Mas, afastando de vez maus pensamentos, João Guerra não hesita: “esta casa é para continuar. E para contribuir que a região da Beira Interior tenha o lugar que merece no panorama vitícola nacional”.

VINHOS EM PROVA
  • Portas D’El Rei
    Beira Interior, Reserva, Branco, 2017

    16.0
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Óptima Pergunta
    Beira Interior, Tinto, 2015

    17.0
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Boa Pergunta
    Beira Interior, Colheita Seleccionada, Tinto, 2015

    15.5
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Sou do Alto Bruto
    Beira Interior, Espumante Branco, 2012

    16.5
    guarda em pé
    *PVP médio indicado pelo produtor
  • Boa Pergunta
    Beira Interior, Colheita Seleccionada, Branco, 2015

    16.0
    guarda inclinada
    *PVP médio indicado pelo produtor

Edição Nº27, Julho 2019

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