TINTOS DO DÃO: O Dão para além da Touriga

A Touriga Nacional continua a ter um papel central na imagem do Dão, sendo responsável por 21,3% da área da vinha na região. Impositiva por natureza, mas quando bem integrada, a casta contribui com estrutura, profundidade aromática e identidade. Por isso, não fazia sentido excluí-la completamente desta prova; limitámos apenas a sua presença de forma […]
A Touriga Nacional continua a ter um papel central na imagem do Dão, sendo responsável por 21,3% da área da vinha na região. Impositiva por natureza, mas quando bem integrada, a casta contribui com estrutura, profundidade aromática e identidade. Por isso, não fazia sentido excluí-la completamente desta prova; limitámos apenas a sua presença de forma a não ultrapassar os 50% do lote.
O que é um blend tradicional do Dão?
Eis uma questão que só pode ser respondida sob um prisma histórico. O lote das quatro magníficas – Touriga Nacional, Tinta Roriz, Alfrocheiro e Jaen –, que, entendemos hoje, como “tradicional”, certamente não o foi antes da filoxera, nem em meados do século passado. A composição das vinhas e dos vinhos foi-se alterando conforme modas, estudos científicos que privilegiaram umas castas em detrimento de outras, avanços na viticultura, alterações climáticas e outros factores.
A Touriga Nacional passou por um período de abandono antes de alcançar o novo estrelato. A Jaen, que mal surgia nos registos, domina hoje as plantações. A Tinta Roriz, que aterrou na região nos anos oitenta do século XX, ascendeu rapidamente à liga das castas recomendadas. A Baga, outrora dominante, aparece agora em field blends ou como raridade monovarietal. Algumas variedades perderam-se pelo caminho; as mais sortudas foram resgatadas do oblívio, graças ao esforço de produtores, como a Lusovini.
De acordo com a Ampelografia Portuguesa de 1865, antes da praga da filoxera, três castas tintas presentes em praticamente todos os concelhos da atual região do Dão eram a Touriga Nacional (à época conhecida como Tourigo ou Mortágua), o Alvarelhão e o Bastardo. Para além destas, são mencionadas Amaral, Baga, Tinta Amarela, Tinta Carvalha e Tinta Francisca, bem como outras variedades cujos nomes hoje são pouco conhecidos, como Coração de Galo ou Pilongo.
Em 1953, Tourigo e Alvarelhão eram obrigatórias nas novas plantações, com um mínimo de 10%. Em 1985, a Touriga Nacional passou a ser a única obrigatória com um mínimo de 20% das novas plantações; as castas Alfrocheiro, Bastardo, Jaen, Tinta Pinheira, Tinta Roriz e Rufete podiam chegar até 80%, enquanto Alvarelhão, Tinta Amarela e Tinto Cão não deviam ultrapassar 20% das plantações.
Em 1993, as castas foram divididas em “autorizadas” e “recomendadas”. As primeiras incluíam o quarteto principal, para além de Alvarelhão, Bastardo, Rufete (Tinta Pinheira), Tinto Cão e Tinta Amarela. Foram ainda mencionadas as variedades que não podiam ultrapassar 40% do conjunto: Alicante Bouschet, Cabernet Sauvignon e Pinot (Noir, presume-se).
Os estilos de vinificação também recebiam as influências de cada época. No início dos anos 2000, os produtores do Dão sentiam-se tentados a apanhar a onda do Novo Mundo, com muita cor e concentração, procurando maior valorização no palco internacional. Isso criava uma certa incoerência com o perfil dos vinhos da década de 1960, quando o Dão era visto como a “Burgúndia de Portugal”. Não sou adepta destas alusões a regiões extra-lusas, mas percebe-se que o termo apelava à ideia de elegância. Hoje, temos produtores antigos, como a Casa da Passarella, ou mais recentes, como a Dona Sancha e o Domínio do Açor, que privilegiam este lado subtil e delicado, em detrimento da extração e opulência.
Há já quase 15 anos, três grandes enólogos do Douro — Jorge Moreira (Poeira), Francisco Olazabal (Quinta do Vale Meão) e Jorge Borges (Wine & Soul) — criaram no Dão o projecto conjunto com a abreviatura M.O.B. “Nos vinhos do Douro há sempre sensação de calor; no Dão também se consegue maturação fenólica, mas os vinhos são energéticos, tensos, com muita frescura e adquirem equilíbrio com menos extração”, explica Jorge Moreira.
Jaen: perfume e macieza
É uma casta de nacionalidade dupla: por um lado, é filha de progenitores portugueses, a Alfrocheiro e a Patorra; por outro, apresenta maior variabilidade genética em Espanha, onde é identitária nas denominações de origem Bierzo e Ribeira Sacra. Supõe-se que andou pelos caminhos de Santiago e atravessou fronteiras através das práticas de intercâmbio agronómico. As primeiras referências surgem em 1886 e 1889, nas regiões de Mangualde e Penalva do Castelo. Em 1973, a casta era permitida nas novas plantações até 30, 40% em alguns concelhos da região. Sendo produtiva, mereceu atenção dos viticultores, que entregavam uvas às adegas cooperativas. Outra vantagem era o grau alcoólico provável mais elevado, o que se reflectia na remuneração, ao contrário da Baga, que perdeu esta corrida a partir das décadas de 1950 e 1960.
A Jaen é quase exclusiva do Dão, onde lidera as plantações com 22,8%, segundo os dados oficiais da comissão vitivinícola da região. Porém, a sua presença dominante no encepamento, não se traduz em valorização. Nem sempre é plantada nos sítios mais adequados, não é pensada para brilhar, como em Bierzo. Sendo muito sensível ao terroir, não apresenta comportamento homogénio dentro da região e acaba por ser pouco consensual. Produz muito, sobretudo em terrenos férteis, mas é susceptível ao míldio e ao oídio, e apodrece com facilidade, o que obriga a evitar zonas mais húmidas. Resiste bastante bem ao stress hídrico, mas não gosta de calor em excesso.
Com produções entre seis e oito toneladas por hectare, e desde que esteja plantada no sítio certo, a Jaen é capaz de originar vinhos de qualidade. Em contexto de lote, pode ir até às dez toneladas por hectare.
A maturação é precoce, mas é difícil apanhá-la no ponto, porque a maturação fenólica é desfasada da acumulação de açúcar. A situação agrava-se, quando a casta é plantada em solos com maior humidade, porque com calor e água disponíveís, a maturação dispara e facilmente entra em sobrematuração. A janela de oportunidade é curta e crítica: quase de um dia para outro passa de rústica, com taninos verdes e aromas de sardinheira, para borracha queimada e acidez baixa. A Jaen contém a segunda maior concentração (após Touriga Nacional) de compostos terpénicos, apresentando, nos primeiros meses, um perfume intenso e delicado a flores, evoluindo, depois, para o aroma a fruta madura, a lembrar morangos e framboesas.
É frequentemente, para não dizer sobretudo, utilizada nos vinhos de entrada de gama, pois confere macieza e um perfume bonito e personalizado. Os vinhos arredondam depressa e ficam prontos a beber ainda jovens. O monovarietal nem sempre é possível e não em qualquer sítio. Numa recente apresentação dos vinhos da Dona Sancha, o enólogo Paulo Nunes explicou que só foi possível fazer Jaen em extreme com uvas de uma vinha com altitude mais elevada, numa zona mais fresca, onde se vindima mais tarde, pois o frio contraria o carácter primário da casta.
A idade da vinha também tem o seu impacto na produção e na maturação. Francisco Olazabal, do trio M.O.B., nota que “a Jaen das vinhas velhas parece outra casta”.
Alfrocheiro: frescura e elegância
A Alfrocheiro é uma das variedades mais fascinantes do Dão. Ausente nas referências ampelográficas do século XIX, revelou-se, mais tarde, como uma verdadeira “mãe genética” de várias castas portuguesas, incluindo o próprio Jaen. A sua designação actual surgiu no início do século XX, tendo sido conhecida, no passado, por outros nomes, como Tinta Bastardeira, Tinta Bastardinha e Tinta Francesa de Viseu. Em terras espanholas é conhecida como Bruñal, em Arribez del Duero, Caiño Gordo, na Galiza, Albarín Tinto, nas Astúrias, e Baboso Negro, nas ilhas Canárias.
Está disseminada por toda a região, sendo a quarta casta mais plantada, representando 5,9% do encepamento no Dão. Embora esteja presente noutras regiões do país, a nível nacional, não ultrapassa 1% da área de vinha. É uma casta exigente, irregular e difícil de prever. Sensível ao calor, ao stress hídrico e à insolação excessiva, não segue regras fixas: não há anos claramente “bons” ou “maus” para a Alfrocheiro. Em contrapartida, quando bem trabalhada e quando lhe apetece, oferece um equilíbrio notável entre álcool, taninos e acidez. Das quatro magníficas, revela-se mais fresca, mais elegante e mais subtil, produzindo vinhos de boa cor, taninos firmes, mas delicados e uma acidez natural mais pronunciada. Jorge Moreira vê semelhanças com Pinot Noir, mas reconhece que precisamos de 200 anos para a elevar ao mesmo nível de reconhecimento.
Tinta Roriz: omnipresente e controversa
É a casta ibérica mais conhecida internacionalmente como Tempranillo. A nível nacional é líder absoluto, ocupando 10% da área total da vinha. No Dão, surgiu no final do século passado, após o reconhecimento das suas aptidões pelo Centro de Estudos de Nelas. Em 1983, a par com a Tinto Cão, era a variedade com menor expressão na região (apenas dois hectares) e hoje ocupa 17,6% da área plantada, posicionando-se no terceiro lugar. Embora tenha registado um crescimento exponencial e esteja omnipresente nos lotes, é uma casta polémica, considerada por muitos um erro de casting. Funciona como uma verdadeira “fábrica de açúcar”, sem que a maturação fenólica acompanhe esse ritmo, o que conduz ao desequilíbrio: ou taninos verdes e adstringentes, ou teores alcoólicos elevados com baixíssima acidez. Prefere solos profundos e bem drenados. Facilmente produz quilos de uva com bagos grandes, muito líquido e muita polpa. Neste caso, perde drasticamente a qualidade. O controlo de produção é, por isso, indispensável.
Em anos favoráveis, pode dar vinhos intensos, estruturados e complexos; noutros, a qualidade é difícil de extrair. Exige decisões rigorosas na vinha e na adega. Alguns produtores optam por vindimas fracionadas, destinando parte da uva para a produção de rosé ou espumante, de forma a preservar frescura e equilíbrio. Outros preferem arrancá-la e substituí-la pelas castas mais ajustadas à região. Em anos favoráveis, pode originar vinhos intensos, estruturados e complexos; noutros, a qualidade é difícil de extrair.
Outras castas
A Tinta Pinheira (3,1% das plantações) é o nome local da Rufete. Queima-se com o sol e apodrece com a chuva, duas das razões pelas quais perdeu popularidade. É uma casta de perfil vegetal, mas delicada, que requer igual delicadeza na vinificação. Os vinhos não apresentam acidez particularmente elevada, mas transmitem sempre energia e frescura natural, segundo a informação dada por Luís Lopes, enólogo da Domínio do Açor. Na adega, optam pelo desengace total e por uma extracção muito ligeira, quase como de uma infusão se tratasse. Outro cuidado prende-se com o uso da barrica: se a Jaen “consegue mastigar a madeira”, a Tinta Pinheira é muito mais sensível. O estágio prolonga-se por dois anos em barricas com três a quatro anos de uso, de modo a que a madeira não se faça notar no vinho.
A Baga (4,9% das plantações) foi, em 1983, a casta com maior encepamento na região, totalizando 3.142 hectares. Em 2008 ainda mantinha uma presença significativa, mas, sendo de ciclo longo e sensível à podridão, não tinha qualquer hipótese. Como explica Paulo Nunes: “Nos anos 80 e 90, quem mandava na viticultura era o São Pedro, e as chuvas no equinócio aconteciam oito em cada dez anos. Hoje já é possível empurrar a decisão da vindima para dentro de Outubro.” Em algumas vinhas, realizam duas a três vindimas faseadas, em função do destino das uvas.
A Malvasia Preta resulta do cruzamento natural entre Alfrocheiro e Sarigo. Com a primeira referência datada de 1866, está mais presente no Nordeste de Portugal. Transmite acidez bastante elevada e aroma com fruta mais imediata e fácil de gostar.
A casta Monvedro é mais uma descendente do Alfrocheiro. Está presente na região em quantidades diminutas (em 1986 representava menos de 0,01% do encepamento). Medianamente produtiva, abrolha cedo e amadurece tardiamente. Mostra-se bastante sensível às vagas de calor, pelo que necessita de ser plantada em zonas mais frescas e sombrias. É uma variedade pouco consensual, bastante rústica e austera, com acidez e taninos elevados. Por sua vez, a Tinta Carvalha já teve alguma presença na região, mas, por apresentar pouca matéria corante e baixa produção de açúcar, deixou de ter expressão, não se adequando à imagem dos vinhos idealizados na década de 1990. Hoje, segundo Paulo Nunes, apresenta um perfil que “respira o Dão”.
Se as castas isoladas ajudam a compreender a região, os blends permitem interpretá-la. A essência do Dão reside na complexidade dos lotes, construídos na adega pelas mãos e sensibilidade humana ou na vinha com castas misturadas e, por vezes, centenárias.
Field blend e vinhas velhas
Não tendo nada a ver com a conotação romantizada de “field blend” de hoje, na época em que surgiram, estes lotes eram uma solução meramente prática, baseada no conhecimento empírico. Não se estudavam as castas a fundo do ponto de vista agronómico e enológico; plantava-se o que estava mais à mão ou, mais próximo de verdade, o que os enxertadores tinham disponível. O field blend funcionava como uma espécie de apólice contra as adversidades climáticas: com muitas variedades à mistura, colmatava-se a insegurança e conseguia-se estabilidade, tanto na produção, como na qualidade.
O desafio das vinhas velhas, com uma grande variedade de castas, consiste em garantir um controlo eficiente da maturação e definir a data de vindima. Às vezes, é possível identificar uma ou duas videiras que reflectem o nível de maturação da vinha toda, como faz Paulo Nunes, ou realizar várias passagens na vindima, como refere Álvaro de Castro, o proprietário da Quinta da Pellada.
As vinhas antigas são igualmente mais difíceis em termos fitossanitários e muito exigentes em trabalhos na vinha. É preciso conhecer bem não apenas a parcela, mas também as videiras, para podar cada uma de forma adequada. Nesta prova, tivemos alguns vinhos das vinhas velhas. Quinta da Pellada Vinhas com 70 anos, com predominância das castas Jaen, Alvarelhão, Tinta Pinheira, Tinta Carvalha, Bastardo, entre outras, e reduzida expressão de Touriga Nacional, Português Azul e Negro Mouro. O nome da parcela “Alto” é autoexplicativo, pois fica a 550 metros de altitude, em solo granitico com linhas de argila e areia.
Da Casa Américo veio um vinho de uma vinha centenária da Quinta da Cerca, localizada na sub-região da Serra da Estrela – desengace parcial e fermentação em lagar aberto com uma primeira pisa a pé. A partir daqui apenas molharam a manta uma vez por dia. O fim da fermentação e o estágio de 24 meses ocorreram em depósito de cimento, aos quais se somaram 24 meses em garrafa.
Tivemos uma boa amostra de monovarietais de Alfrocheiro (sete) e Jaen (quatro) e ainda um de Tinta Pinheira e um de Tinta Roriz. As castas estrangeiras, como é o caso de Syrah e Cabernet Franc, não são permitidas para denominação de origem, mas podem entrar nos vinhos regionais de Terras do Dão.
(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2026)
*Nota: A ordem das garrafas é meramente aleatória
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Morgado de Silgueiros
Tinto - 2023 -

Dom Vicente
Tinto - 2021 -

Conde de Anadia
Tinto - 2022 -

Castelo de Azurara
Tinto - 2017 -

Caminho
Tinto - 2023 -

Tazem
Tinto - 2022 -

Soito
Tinto - 2017 -

Taboadella
Tinto - 2021 -

Pedra Cancela
Tinto - 2020 -

Adega de Penalva
Tinto - 2020 -

Quinta Madre de Água
Tinto - 2019 -

Quinta dos Carvalhais Edição Especial
Tinto - 2019 -

Quinta do Perdigão
Tinto - 2018 -

Quinta de Lemos
Tinto - 2015 -

Quinta da Vegia
Tinto - 2019 -

Opta Imperatriz do Dão
Tinto - 2018 -

Dom Bella
Tinto - 2015 -

Desalinhado
Tinto - -

Cabriz Edição Especial
Tinto - 2018 -

Borges
Tinto - 2023 -

Vinha Negrosa
Tinto - 2021 -

O Estrangeiro Single Vineyard
Tinto - 2023 -

O Fugitivo Vinhas Centenárias
Tinto - 2019 -

M.O.B.
Tinto - 2023 -

Líquen
Tinto - 2022 -

Domínio do Açor
Tinto - 2022 -

Quinta da Pellada Alto
Tinto - 2019 -

Envelope
Tinto - 2018 -

Casa Americo Vinhas Centenárias
Tinto - 2018 -

Quinta das Corriças
Tinto - 2018
RUINART: A quintessência do espírito de Champagne

Acedemos ao 4 Rue de Crayères através de um caminho como que escondido, parecendo esculpido directamente no calcário. As primeiras impressões são fortemente sensoriais, desde a brancura do giz ao azul do céu, passando pelo verde das copas das árvores. À medida que percorremos esse caminho, emerge o Pavilhão Nicolas Ruinart, desenhado pelo arquitecto japonês […]
Acedemos ao 4 Rue de Crayères através de um caminho como que escondido, parecendo esculpido directamente no calcário. As primeiras impressões são fortemente sensoriais, desde a brancura do giz ao azul do céu, passando pelo verde das copas das árvores. À medida que percorremos esse caminho, emerge o Pavilhão Nicolas Ruinart, desenhado pelo arquitecto japonês Sou Fujimoto, um magnífico edifício calcário, todo ele aerodinâmico, com curvas suaves, longas linhas horizontais, inspirado na evanescência das bolhas de champagne, esculpidas pela luz. O telhado, assimétrico, forma uma curva e lembra a redondeza de uma bolha de champagne. Mudando gradualmente do transparente para o subtil opaco, criando a impressão do borbulhar num copo de champagne. A janela imensa emoldura a vista do pátio principal, para as maravilhosas fachadas do século XIX da Maison Ruinart.
Mas, sob toda esta beleza e grandiosidade, estão as caves, as famosas Crayères, classificadas como Património Mundial da UNESCO, e nada nos prepara verdadeiramente para tão grande monumentalidade. As caves estão a 38 metros de profundidade e possibilitam o acesso a oito quilómetros de túneis, pedreiras desactivadas, de pedra calcária e giz, algumas datadas da Era Medieval. Aqui, o ar é fresco e húmido, o som que se ouve é apenas o murmúrio do tempo. É onde milhares, ou milhões, de garrafas alinhadas – a Ruinart nunca revela os números de garrafas produzidas ou em cave – aguardam, pacientemente, os seus momentos de fama.
Expressão artística
Fundada em 1729, em plena Era das Luzes, a Maison Ruinart nasceu da ideia pioneira de fazer do champagne uma expressão cultural e uma arte de viver. Nicolas Ruinart, inspirado pelas visões de seu tio, o monge beneditino Dom Thierry Ruinart, fundou a primeira casa, da região de Champagne, oficialmente dedicada a este vinho com bolhas mágicas, que então passou a ser servido nas coroações dos Reis de França e no Palácio Real, e a encantar as demais cortes europeias.
Ao longo da história, a Maison Ruinart sobreviveu a crises e guerras, incluindo o bombardeamento das suas vinhas e edifícios durante a ocupação alemã, para além do roubo e delapidação quase total do seu stock de garrafas. Contudo, sempre conseguiu erguer-se e estar à altura dos desafios, sem nunca perder de vista a inovação e o desenvolvimento tecnológico, sempre numa busca incessante pela excelência e perfeição dos seus champagnes.
Dirigida pela família Ruinart até 1963, integra, desde 1987, o grupo do segmento de luxo LVMH (Louis Vuitton Moet Hennessy). A luz, o branco e a transparência tornaram-se símbolos da sua estética e do seu vinho, e a Chardonnay, casta que define a sua assinatura, é trabalhada como metáfora dessa luminosidade: um reflexo líquido da elegância e da precisão. A Ruinart conseguiu construir uma linguagem e um estilo muito próprios e distintos, sempre alicerçados na mais completa harmonia entre tradição, vanguarda e criatividade.
O ‘Petit R’ é, claramente, disso um exemplo maior. Trata-se de uma experiência gastronómica e visual, um show multimédia, imersivo e esteticamente encantador, que pudemos desfrutar durante o jantar na Maison. Ao mesmo tempo, é uma visão contemporânea de acontecimentos passados, da história de Champagne vista através da Maison Ruinart. Através da personagem ‘Petit R’, criada pelo artista japonês Kanako Kuno – sempre a tal ligação à arte, presente em todos os momentos definidores –, a história é contada em cima da mesa, literalmente. O mundo inteiro cabe no prato, a toalha transforma-se num ecrã gigante, onde tudo se desenvolve. As figuras dos animais e das pessoas ganham tridimensionalidade, saltam do prato, rodopiam, contam histórias. Tudo funciona de forma sincronizada até ao ponto em que ‘Petit R’ abre uma garrafa de champagne e se ouve o som bem real da rolha a saltar: é um sommelier que abre uma garrafa, verdadeira, em perfeita sincronia de tempo!
Caroline Fiot, a primeira mulher com a função de Cellar Master na região de Champagne, liderou o estudo do impacto da luz no Blanc de Blancs e a criação da Second Skin Case
A segunda pele
Na alvorada dos seus 300 anos – a Maison Ruinart celebrará o seu tricentenário em setembro de 2029 –, dois factores importantíssimos são alvo de dedicação máxima na Maison Ruinart: sustentabilidade e impacto das alterações climáticas em Champagne. Quanto ao primeiro, destaca-se a criação do estojo Second Skin, literalmente uma ‘segunda pele’ para a garrafa Ruinart, que as envolve à sua forma. De acordo com a marca, esta é “composta por 99% de papel (1% é cola), feito de fibra de madeira proveniente de florestas geridas ecologicamente na Europa, e é nove vezes mais leve que a anterior geração de gift boxes, reduzindo a pegada de carbono das embalagens em 60%.” Além da componente ecológica, a Second Skin protege o vinho da luz, é resistente à humidade e “permanece intacta num frapê de gelo até três horas”, refere a Ruinart. De cor branca, tem um padrão em relevo a invocar as Crayères, as caves calcárias da Maison.
Uma palavra é devida a Caroline Fiot, nova Cellar Master da Ruinart, que sucede a Frédéric Panaïotis, falecido este ano, num contexto delicado. Entrou na Ruinart em 2016, participou no comité de prova, supervisionou fermentações e liderou projetos de investigação, como o estudo do impacto da luz no Blanc de Blancs e a criação da Second Skin Case, embalagem sustentável que substitui o tradicional estojo em papel. É, também, a primeira mulher a desempenhar tais funções na história da região de Champagne.
História e inovação
Hoje em dia, talvez mais do que nunca, seja na região de Champagne, seja no mundo, torna-se necessário (re)pensar os nossos estilos de vida, a nossa cultura enraizada e, talvez, questionar o nosso conhecimento. E em vez de querermos que a natureza se adapte às nossas necessidades, talvez seja bom pensarmos em adaptar-nos àquilo que a natureza tem para nos oferecer.
Esta foi a grande mensagem que eu retive nesta minha viagem a Reims e à Ruinart. Há, de facto, trabalho muito sério a ser feito para adaptar a região às alterações climáticas, que vieram para ficar, e quando vemos uma das regiões vínicas mais fortes e mais unidas do mundo a trabalhar em conjunto para alcançar um determinado objectivo, vemos que a coisa é mesmo para levar a sério. No entanto, já havia sinais. É uma coisa antecipada, e que vem sendo pensada e testada há já vários anos, basta estarmos atentos ao que nos rodeia, o que, na maioria das vezes, se revela o mais difícil.
Ora vejamos. Grande parte do sucesso de Champagne deve-se à utilização mais ou menos generalizada do estilo non-vintage, expressão traduzida na mistura entre vinhos de reserva e o vinho da colheita mais recente, uma espécie de receita seguida pela grande maioria dos produtores de Champagne, das Big Marques aos pequenos vignerons. No fundo, pretende-se mitigar ou eliminar o mais possível o efeito colheita, ou seja, nos anos mais frios, quando as uvas são mais ácidas, porque não conseguem atingir pontos de maturação adequados, incorpora-se mais vinhos de reserva no blend, de modo a adicionar estrutura e complexidade à frescura e energia da nova colheita, ao passo que, em anos mais quentes, se incorpora menos vinhos de reserva, pois pretende-se manter a juventude da nova colheita.
De um modo geral, tem sido este o caminho percorrido na região até há bem pouco tempo. Porém, o impacto das alterações climáticas têm vindo a traduzir-se num registo consecutivo de fruta mais madura, ano após ano, e num aumento médio real de 1,2% de álcool nas uvas nos últimos 30 anos.
O novo normal
A grande diferença de uma região como Champagne é que, ao invés de olhar para as alterações climáticas como uma ameaça, decidiu encará-las como uma oportunidade. E, de repente, o estilo non-vintage, e até a própria dosage, deixaram de fazer tanto sentido, ou nenhum mesmo. Atualmente, é quase tudo produzido em estilo vintage, com nuances introduzidas pelas Reservas Perpétuas quando utilizadas, e, graças aos maiores níveis de açúcar nas uvas, Champagnes Brut Nature ou Extra Brut são a nova normalidade.
Assim, tudo nos começa a fazer sentido, quando a Krug criou o estilo multi-vintage das suas Grand Cuveés, quando Charles Heidsieck começou a identificar o ano base no contra-rótulo, a Laurent-Perrier criou a Cuvée Ultra Brut num estilo super seco e, mais recentemente, a icónica Maison Louis Roederer abandonou definitivamente o estilo non-vintage da sua Cuvée Brut Premier, criando a Collection, um blend de multi-vintages identificados.
E a Ruinart? Aí está a Cuvée Blanc Singulier, por enquanto só disponível em França, mas que, provavelmente, num futuro não muito longínquo, talvez venha a ser a nova normalidade da Ruinart, enquanto que a de hoje, o icónico Blanc de Blancs, talvez passe a ser a excepção. Aguardemos com serenidade e sempre com champagne no copo!
(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2026)
QUINTA DO PESSEGUEIRO: O Douro gracioso

Graciosidade talvez seja a palavra que melhor define a Quinta do Pessegueiro no seu conjunto, aqui englobando vinhos, arquitectura, imagem, forma de estar e receber. Localizada em Ervedosa do Douro, concelho de São João da Pesqueira, a propriedade foi adquirida, em 1991, por Roger Zannier, empresário francês que criou um gigante têxtil orientado para a […]
Graciosidade talvez seja a palavra que melhor define a Quinta do Pessegueiro no seu conjunto, aqui englobando vinhos, arquitectura, imagem, forma de estar e receber. Localizada em Ervedosa do Douro, concelho de São João da Pesqueira, a propriedade foi adquirida, em 1991, por Roger Zannier, empresário francês que criou um gigante têxtil orientado para a moda infantil e que acabou por conhecer o Douro no âmbito das suas visitas profissionais a Portugal, ali decidindo deixar a sua “marca”. Em 2003, com o apoio do genro Marc Monrose, borgonhês de gema, ligado à terra e ao vinho, Zannier deu início à reconversão das vinhas existentes e à plantação de novas áreas, com sucessivas intervenções em 2007, 2008, 2011 e, mais recentemente, em 2021. A construção da adega, localizada numa zona mais alta da propriedade, arrancou em 2008, ficando terminada em 2010, ano da primeira colheita. Trata-se de um projecto arquitectónico arrojado da autoria de Artur Miranda e Jacques Bec, com a área de vinificação e armazenagem a estender-se por cinco pisos, de forma a aproveitar ao máximo a gravidade e a excluir a bombagem de massas e líquidos, contando, para tal, com a ajuda de uma cuba elevatória.
A casa principal é também um alojamento de charme, aberto ao turismo, integrando-se na rede de unidades Zannier Private Estates e Hotels
Em 2012 terminou a reconstrução do edifício principal da quinta, localizado a três quilómetros da adega. Esta bela casa integra-se perfeitamente na paisagem, num estilo que une a tradição duriense com um design mais moderno, acima de tudo ao nível de interiores. Além de apoiar a estrutura de trabalho da propriedade, o edifício é também um alojamento de charme, aberto ao turismo, integrando-se na rede de unidades Zannier Private Estates e Hotels, espalhadas por França, Espanha, Namíbia, Maurícias, Cambodja e Vietname.
No dia-a-dia da Quinta do Pessegueiro, sobretudo a partir de 2008, e com impacto decisivo no que toca à estratégia, da arquitectura, da imagem e, claro, dos vinhos, têm estado envolvidas três outras pessoas: Célia Varela, Directora-Geral, que acompanhou o nascimento e desenvolvimento do projecto; João Nicolau de Almeida, enólogo responsável pelos vinhos da casa desde a primeira hora; e Hugo Helena, Director de Viticultura e Enologia que, desde 2010, trabalha em estreita colaboração com o enólogo.
Três parcelas
As vinhas da Quinta do Pessegueiro abrangem 28 hectares em produção, distribuídos por três propriedades distintas. A Teixeira é a maior e mais próxima da adega, com 18 hectares, exposta a noroeste, com uma altitude que varia entre 75 e 418 metros. Parte das vinhas foram plantadas no início dos anos 80 do século XXI e, desde 2011, decorreram novas replantações com inúmeras castas. Ali foram igualmente recuperados socalcos pré-filoxera e plantado meio hectare com mais de 30 castas, que deverá originar, no futuro, um field blend muito especial. A seguir vem a vinha do Pessegueiro, propriamente dita, de nove hectares de vinhedos em encostas íngremes viradas a oeste, entre os 197 e os 355 metros de altitude. Vinhas velhas com mais de 110 anos (1,5 hectares) e vinhas plantadas há mais de 40 anos compõem esta área, onde as uvas amadurecem mais tarde. Finalmente, a Afurada tem apenas um hectare, acima dos 500 metros de altitude e com exposição sul.
Em termos de encepamento, predomina, nos tintos, a Touriga Nacional, seguindo-se Touriga Franca, Tinta Roriz, Sousão e Tinto Cão. Numa fase mais recente, plantaram-se outras tintas tradicionais mais raras (Tinta da Barca, Tinta Amarela, Rufete, Alicante Bouschet) e apostou-se decididamente nas uvas brancas, com destaque para Rabigato, pouco comum nesta zona do Cima Corgo, mas que os dois enólogos apreciam particularmente pela vivacidade e frescura, e Folgasão. Todas as plantações foram feitas a partir de seleção massal própria, não foi utilizada seleção clonal.
As três propriedades possuem também, como é habitual no Douro, velhas oliveiras, com as variedades Madural, Cobrançosa, Verdeal, Picual e Carrasquenha. Da apanha manual com extração a frio, a quinta produz um azeite de superior qualidade. E na Teixeira, algumas colmeias permitem, igualmente, uma pequena produção de mel, reforçando, assim, a biodiversidade do terroir, contribuindo, ao mesmo tempo, para o equilíbrio do ecossistema.
Pureza e elegância
A abordagem vitícola e enológica de João Nicolau de Almeida, aqui totalmente apoiada por Hugo Helena, é bem conhecida: vinha velha sempre que seja boa, agricultura biológica, vinificação clássica. Assim se tem feito na Quinta do Pessegueiro, onde, por exemplo, herbicidas não entram nas vinhas, um desafio acrescido face aos diferentes modelos de plantação existentes, que vão dos patamares de um bardo à vinha ao alto, passando por parcelas não mecanizadas com muros tradicionais.
Tradicional é também a vinificação, com a fermentação a decorrer com leveduras indígenas, privilegiando-se lagares de granito com pisa a pé, balseiros de madeira para os tintos e cubas inox e pipos de 600 litros para os brancos. Na adega, os vinhos são separados por parcelas, permitindo exaltar cada uma das suas singularidades, depois conservadas em cubas de pequena dimensão. A ausência total de bombagem (a cuba elevatória é preciosa) permite manter a fruta no seu estado mais puro.
A pureza da fruta é precisamente aquilo que mais marca, e impressiona, os vinhos da Quinta do Pessegueiro. Numa produção relativamente pequena – cerca de 100 mil garrafas, entre Douro e Porto –, esta expressão de fruta é transversal às várias referências, acompanhada de evidente frescura, leveza, equilíbrio e elegância. Estes vinhos, brancos ou tintos, não se destacam pela grande estrutura ou potência, antes pela notável finura e pela absoluta proporção. Parece estar tudo no sítio certo. É esta precisão, esta graciosidade, que define a forma de ser e estar da Quinta do Pessegueiro. Num mercado onde a oferta é gigante e onde não é fácil conjugar qualidade e diferença, isto tem de valer alguma coisa.
(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2026)
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Quinta do Pessegueiro
Fortificado/ Licoroso - 2021 -

Quinta do Pessegueiro
Fortificado/ Licoroso - -

Quinta do Pessegueiro
Fortificado/ Licoroso - -

Quinta do Pessegueiro
Tinto - 2021 -

Quinta do Pessegueiro
Tinto - 2022 -

Quinta do Pessegueiro
Tinto - 2023 -

Quinta do Pessegueiro
Tinto - 2019 -

Pessegueiro
Tinto - 2022 -

Pessegueiro Aluzé
Tinto - 2020 -

Quinta do Pessegueiro
Branco - 2024 -

Quinta do Pessegueiro
Branco - 2024 -

Pessegueiro
Branco - 2024 -

Pessegueiro
Branco - 2024
TRÁS-OS-MONTES: O despertar do “reino maravilhoso”

É acima das nuvens que, junto à capela de Santa Comba, onde a bela pastora se entregou a Deus, que avistamos o território dual de Trás-os-Montes. Inóspito, simultaneamente verdejante, misterioso, mágico ou, como lhe chamava Miguel Torga, um “reino maravilhoso”. Por entre uma manta de retalhos geológicos, avistam-se formações de granito ou de xisto, neste […]
É acima das nuvens que, junto à capela de Santa Comba, onde a bela pastora se entregou a Deus, que avistamos o território dual de Trás-os-Montes. Inóspito, simultaneamente verdejante, misterioso, mágico ou, como lhe chamava Miguel Torga, um “reino maravilhoso”. Por entre uma manta de retalhos geológicos, avistam-se formações de granito ou de xisto, neste território do nordeste de Portugal. É o clima e a morfologia que definem a divisão destes mais de cinco mil quilómetros quadrados, dividido pelas sub-regiões de Chaves, Valpaços e o Planalto Mirandês.
A Terra Fria do Nordeste Transmontano estende-se pelos concelhos de Vinhais, Bragança, Miranda do Douro, Vimioso e Mogadouro, caracterizando-se pela elevada altitude e o clima frio e húmido. Pátria do porco de raça Bísara, da alheira, das chouriças de carne, do azedo e do butelo, do cabrito transmontano e do queijo de cabra e, claro, da posta mirandesa obtida a partir dessa raça magnífica de gado bovino, a Mirandesa. Não esquecendo esse rico e ancestral alimento, a castanha, aqui disponível em, nada mais, nada menos, em 10 variedades. Já a Terra Quente estende-se pelos concelhos de Alfândega da Fé, Macedo de Cavaleiros, Mirandela, Vila Flor, Carrazeda de Ansiães e Valpaços.
Foi precisamente em Valpaços, em vésperas da segunda edição do Trás-os-Montes Wine Experience, evento realizado no belíssimo Vidago Palace, que contou com a presença de uma vintena de produtores e um jantar assinado pelo Chef Vitor Matos, que fomos encontrar Ana Alves, a atual presidente da Comissão Vitivinícola Regional de Trás-os-Montes, que completou, agora, um ano de mandato, após um ato eleitoral com alguns percalços pelo meio. Com 44 anos e licenciada em enologia, iniciou a vida profissional na Adega de Valpaços, esteve envolvida em vários projetos a nível pessoal e, a partir de 2007, ingressou na Comissão Vitivinícola Regional como técnica, função que, dada a exiguidade de pessoal, acumula como presidente da referida entidade regional. O início desta função de liderança não foi fácil e revelou-se, de algum modo, complexa. Mais que racional, foi uma decisão de coração, não apenas sua, mas de toda a Direção, a de agarrar o leme da região. Trás-os-Montes foi notoriamente prejudicada com os incidentes ocorridos durante o processo eleitoral e mostrava-se urgente devolver a boa reputação à região, que, para esta nova direção, era um velho conhecido, apesar de estarem cientes das dificuldades que se lhes deparavam. A afirmação mostrava-se premente, havendo noção que o que se produz é de elevada qualidade e plenamente diferenciador. No entanto, haverá ainda algum preconceito ou aceitação deste território na sua plenitude, mostrando-se absolutamente relevante dar força a Trás-os-Montes e a tudo aquilo que identifica a afirmação da região, impondo-a no mercado.
Inóspito, simultaneamente verdejante, misterioso, mágico ou, como lhe chamava Miguel Torga, um “reino maravilhoso
Região diferenciadora
E o que podem os vinhos desta região aportar em identidade e diferenciação? Não há como não valorizar o terroir, assumido como território, solos, castas, orografia, costumes, práticas e, naturalmente, as gentes. Resumidas, talvez três: altitude, clima e solos. Este trio de variáveis dão uma identidade muito própria aos vinhos e viticultura de montanha, assumida pelas vinhas plantadas em cotas que vão dos 400 aos 800 metros de altitude, o que representa a grande maioria dos vinhedos da região, encontrando-se as cotas mais altas no Planalto Mirandês. O fator altitude mostra-se relevante pela moderação nas temperaturas e amplitudes térmicas mais regradas, garantindo uma marca evidente nos vinhos, aportando-lhe acidez natural mais elevada, maior frescura e destaque dos aromas primários.
A grande maioria dos solos são xistosos. Depois existem os afloramentos graníticos. A maior área de vinha ainda está implantada em solos graníticos, não obstante haver diversas parcelas em solos xistosos. A conjugação da altitude com esta tipologia também permite diferenciar o perfil dos vinhos: os de solos xistosos possuem maior matéria corante, maior concentração e, em tese, um teor alcoólico mais elevado. A heterogeneidade do território mostra-se através da diferenciação dos solos, podendo afirmar-se que, em Trás-os-Montes, é na terra de composição granítica que se obtêm os perfis mais frescos, com maior acidez, facto que promove a dita diferenciação nos vinhos desta região.
O encepamento de Trás-os-Montes apresenta semelhanças com a região duriense. A Tinta Amarela é, em termos absolutos, a casta mais plantada na região, e se falarmos de vinhas velhas, esta variedade é sempre a que predomina, mesmo nas vinhas mais antigas. Houve uma aposta muito forte nesta casta por toda a região, sobretudo na última década, a qual se traduz na crescente produção de monovarietais no mercado. Sendo uma uva muito sensível a doenças na região vizinha, o Douro, em Trás-os-Montes encontra, provavelmente, o melhor habitat e as melhores condições para se desenvolver de um modo imaculado, beneficiando da menor humidade e temperaturas mais frias no inverno, o que lhe permite um estado de hibernação sem interferência de pragas, que se desenvolvem com temperaturas mais elevadas.
Nas castas brancas há mais diversidade, cabendo uma maior predominância da Códega de Larinho, da Viosinho, da Gouveio e da Verdelho, aportando, estas duas últimas, elevada acidez aos vinhos, além de que também são as predominantes nas vinhas velhas. As qualidades destas castas são propícias à produção de vinhos cheios de tensão, perceção de mineralidade e frescura, que também inspiram os produtores a nelas apostar com maior determinação, dando azo à cada vez maior aposta em monovarietais, entendendo-se que este é o caminho e o perfil de diferenciação, e identidade da região. Há registo ainda de outras castas, como a Malvasia Fina e a Fernão Pires, com menor expressão, mas igualmente úteis para finalização e aperfeiçoamento dos lotes.
À semelhança de outras regiões, Trás-os-Montes também padece do fenómeno de diminuição substancial da área total de vinha. Os fatores são diversos. Entre eles constam os transversais ao território nacional, como a falta de mão-de-obra, o exponencial aumento dos custos de produção, bem como o envelhecimento dos agricultores e a falta de motivação das mais novas gerações, que não olham para a cultura da vinha como uma atividade aliciante. As dificuldades por que têm passado as adegas cooperativas também não são despiciendas, nomeadamente na falta de dinamismo e incapacidade para uma gestão mais avisada, levando os pequenos viticultores a uma situação de insegurança e desconfiança.
Vinhas antigas
O genoma de Trás-os-Montes não pode ser dissociado do riquíssimo património vitícola ali existente. As vinhas velhas são e podem vir a ser o fator determinante para a afirmação dos vinhos da região no país e, até mesmo, fora de portas. Ana Alves, refere que a comissão faz um esforço onde cabe o lado emotivo e de sensibilização dos agricultores na preservação dos vinhedos antigos, dando-lhes conta da mais-valia que os mesmos podem originar, uma vez que tudo o que é singular, terá maior aptidão a ser valorizado, não obstante o menor rendimento que essas mesmas vinhas dão origem. A viabilidade deste património passa pelo posicionamento dos vinhos de vinhas velhas num patamar de preço mais elevado, desde que isso também se traduza na valorização da uva no produtor. Felizmente, é um fator já há vários anos considerado, pelos principais produtores engarrafadores, como alavanca de valorização do património e, por via disso, da própria região. Das três sub-regiões, é no Planalto Mirandês que a política de valorização dos vinhedos mais antigos é mais premente, pelo facto de ser nesse território onde estão as maiores manchas de vinhas velhas e onde também há um maior número de castas autóctones, que as transformam num verdadeiro tesouro histórico da região. Falta, no entanto, a ousadia de valorizar o produto que se coloca no mercado, vencendo, sem pudor, um certo estigma que a região ainda não ultrapassou.
Para Amílcar Salgado (Quinta de Arcossó), a Tinta Amarela, em Trás-os-Montes, é uma casta que vale pelas suas características e pela perfeita adaptação ao território da região, tendo como mais-valia não necessitar de qualquer correção, revelando sempre teor alcoólico e acidez em perfeito equilíbrio. Será, para a Quinta de Arcossó, a casta que melhor se afirma no contexto da região e aquela que melhor identidade de terroir expressa, graças aos seus herbáceos conjugados com a fruta límpida, sendo sempre desafiante e arrojada. Fruto da sua rebentação mais tardia, é muito menos propensa ao desenvolvimento de doenças. É uma casta que desde sempre existiu na Quinta do Arcossó, sendo intemporais as vinhas, uma vez que não há qualquer registo das suas datas de plantação.
Rui Cunha, enólogo com profundo conhecimento de Trás-os-Montes, onde, há 29 anos, trabalha com Valle Pradinhos, enaltece igualmente as virtudes da Tinta Amarela na região. Porém, alerta para a enorme diversidade de clones da casta, predominando os mais produtivos, que são totalmente díspares das características desta variedade em vinha velha. Em Valle Pradinhos, o trabalho desenvolvido tem incidido na busca de vinhas velhas, uma vez que a enxertia não se mostra qualitativamente interessante, dadas as características da maioria dos clones disponíveis.
A mancha de vinha velha na região também diverge de uma sub-região para outra. O Planalto Mirandês, por exemplo, possui manchas de pequena dimensão, mas de elevado valor, com a Tinta Gorda a dominar. As maiores manchas, nas duas outras sub-regiões, possuem mais diversidade de castas, brancas e tintas, que permitem criar, por exemplo, vinho palhete, muito em voga nas tendências de consumo contemporâneas. Para Rui Cunha, a via de afirmação com uma identidade própria e singular tem de se alhear do Douro, como tem feito, insistindo na plantação de Touriga Nacional e Touriga Francesa, por forma a determinar o próprio caminho através da recuperação das castas mais típicas deste território e abandonar a produção de vinhos ao estilo do Douro, concentrados, alcoólicos e com muita expressão da madeira. Trás-os-Montes ainda insiste nesta mimética e essa linha não é, certamente, a identidade desta região, nem aquilo que o mercado hoje procura.
Lagares rupestres
A narrativa de Trás-os-Montes não pode ignorar o vasto número de lagares rupestres, muitos deles datados da ocupação romana e ainda existentes no território. É um dos vetores no modo como se pretende promover a região, percebendo-se que são uma evidente mais-valia. Para tal, desenvolveu-se um trabalho que incide neste legado ancestral, sobretudo no concelho de Valpaços, onde existem 113 lagares rupestres identificados.
Preservando uma riqueza arqueológica e cultural de enorme relevância, a comissão vitivinícola procurou meios para dinamizar estes achados, colocando essa identidade num vinho único que está a ser feito em Trás-os-Montes. Junto do Instituto da Vinha e do Vinho, certificou-se uma metodologia ancestral, que passa pela identificação prévia de vinhas velhas, comprovadamente com mais de 40 anos, sendo obrigatório que as massas vínicas sejam daí provenientes. De acordo com a regulamentação aprovada, as uvas são pisadas ou prensadas num dos lagares rupestres devidamente certificado e que conste no cadastro existente na Comissão Vitivinícola Regional, sendo vedada a utilização de qualquer solução enológica, com exceção do sulfuroso, de modo a tentar produzir um vinho que, teoricamente, é semelhante àqueles que ali teriam sido feitos há mais de 2000 anos.
A certificação de vinhos de lagares rupestres é algo inédito em Portugal e, julga-se, em todo o mundo. Atualmente, Trás-os-Montes já possui três produtores a certificar vinhos elaborados em lagares rupestres – Quinta do Salvante (Torcolarium), Sociedade Agrícola O Ferrador (Flandório Vinho de Lagar Rupestre) e Junta de Freguesia de Vale de Telhas (Pinetum) – e, dado o manifesto interesse de outros produtores, crê-se que, em breve, outros surgirão.
Provar Trás-os-Montes
Promoção e valorização são as bandeiras que a Comissão Vitivinícola Regional mais ergueu neste primeiro mandato, traduzidas em iniciativas de cariz regional, nacional e internacional. No âmbito de proximidade, desenvolveu-se o projeto que pretende implementar, na restauração da região, uma carta de vinhos “Eu provo Trás-os-Montes”, com o propósito de impulsionar uma maior apetência para servir vinhos certificados da região, em espaços onde a presença dos vinhos locais ainda é deficitária, colmatando-se a lacuna e valorizando a gastronomia local. Estranhamente, a restauração e a hotelaria da região ainda estão um pouco de costas voltadas aos vinhos de Trás-os-Montes. E, se à semelhança do que se passa, por exemplo, na região do Algarve, a hotelaria e a restauração deste território tivessem maior sensibilidade, apostando de forma veemente no consumo deste produto da região, garantidamente que os problemas de escoamento seriam ultrapassados.
Para aderir a este projeto, cada restaurante terá de possuir um mínimo de 10 referências de, pelo menos, cinco produtores de Trás-os-Montes. Cumpridos os requisitos, a comissão vitivinícola faculta as cartas físicas, os estabelecimentos passam a constar do site desta entidade regional. Por sua vez, cada um ostentará um selo que atesta ser um dos aderentes a este projeto de alavancagem dos vinhos da região, fomentando uma rede mobilizadora. O intuito é, já em 2026, ter esta medida totalmente implementada. No âmbito deste projeto, estão desenhadas ações de formação junto dos aderentes, que terão por base análise sensorial, serviço de vinhos e informação sobre castas e vinificação.
As ações a nível nacional também têm sido diversas no último ano, desenvolvendo-se através da participação dos produtores, tendo em conta a dimensão, perfil e estratégia de cada um, dando-os a conhecer a profissionais, canais de distribuição e consumidores finais. O “Eu provo Trás-os-Montes” já viajou por Lisboa, Porto e Algarve, com a finalidade de procurar uma implantação forte nos mais relevantes mercados do território nacional. A aceitação foi uma absoluta surpresa, nomeadamente no Algarve, onde os vinhos de Trás-os-Montes eram ainda desconhecidos, tendo a iniciativa aberto a porta a vários produtores, com a vertente negocial deste projeto a começar a dar bons frutos. A nível internacional, as iniciativas passaram pelo Brasil, com sete produtores, sendo este o mercado mais importante nas exportações de Trás-os-Montes, dando continuidade a um trabalho que teve um interregno, voltando agora a ser retomado.
A exportação ainda está num estado incipiente, representando apenas 17% do volume da produção. A Prowein Brasil e a Vinhos e Sabores, em São Paulo e Rio de Janeiro, foram os destinos da iniciativa com registos muito positivos em relação à região.
Não há como não valorizar o terroir, assumido como território, solos, castas, orografia, costumes, práticas e, naturalmente, as gentes
O enoturismo como alavanca
No que concerne ao enoturismo, e à sua preponderância como elemento determinante na faturação dos produtores, há todo um longo caminho a percorrer, com uma importância ainda residual. Neste momento, há uma tarefa de consciencialização do produtor para o valor que representa o enoturismo como fator de alavancagem da atividade. É visível uma ligeira adaptação por parte de um número ainda muito pequeno de produtores que já procuram afirmar o bem receber, o qual se traduz num volume assinalável de vendas à porta da adega, através da estruturação de programas e valências, visitas às vinhas, entre outras experiências, como passar o dia com enólogo, fazer o próprio lote e jantares vínicos. Apesar do valor ainda incipiente, acredita-se que esteja a crescer.
Exemplar tem sido o trabalho da Quinta das Corriças, do Pedra Pura Resort e de Valle de Passos, que se distinguem por possuírem a componente dormida nos programas para visitantes. Sente-se que faltam criar mecanismos de união, através de uma rota de turismo que congregue cada umas destas experiências, de modo a gerar dimensão e valor. Não existindo uma rota vendável, prevê-se, para 2026 e 2027, um plano, no âmbito de medidas de financiamento, vocacionado para o enoturismo e para a região norte, numa candidatura conjunta, que terá o intuito de formalizar a criação de uma Rota de Trás-os-Montes integrada na Grande Rota dos Vinhos e do Enoturismo do Norte. Informalmente, esta já possui cinco aderentes: Arcossó, Casa do Joa, Quinta das Corriças, Encostas de Sonim e Casa Grande do Seixo.
Se muito há para lapidar neste território, que tudo parece ter, nota-se que há uma vontade férrea de elevar esta região. Pelo pouco que vimos, há um trabalho intenso que, compensando oportunidades perdidas, augura, agora, algo absolutamente brilhante para Trás-os-Montes, ansiosa para ser descoberta e explorada.
A Tinta Amarela é, em termos absolutos, a casta mais plantada na região, e se falarmos de vinhas velhas, esta casta é sempre a que predomina, mesmo nestas mais antigas
Trás-os-Montes em Lisboa
No seguimento da segunda edição do Trás-os-Montes Wine Experience, 10 produtores deste território vitivinícola marcaram presença no restaurante O Nobre, em Lisboa, para Prova & Jantar a Quatro Mãos, em que a chef Justa Nobre, da casa, convidou Óscar e António Geadas, respetivamente, chef o escanção do restaurante G, da Pousada de Bragança. Objetivo? Dar mais visibilidade à região. Na lista de participantes constaram os projetos Casa José Pedro, Casa do Joa, Flandório, José Preto, Ninho da Pita, Quinta do Salvante, Quinta Serra D’Oura, Villela Seca, Vinho dos Mortos e Vinhas Velhas Mogadouro. “Abrimos o convite a todos os produtores, com o critério de virem a Lisboa os primeiros inscritos”, justificou Ana Alves, que refere a existência de “110 agentes económicos a produzir vinho e 120 marcas no mercado”.
Sobre o território, “uma manta de retalhos de paisagem e de vinhas”, com uma área total de 9.000 hectares, está ocupada por vinhas antigas, a presidente de Comissão Vitivinícola Regional de Trás-os-Montes frisou: “a região faz-se a partir de todos estes projetos, desta diversidade de produtores de vinhos identitários.” E acrescenta “o potencial para a produção de vinhos biológicos”, favorecido pela altitude e pelo clima rigoroso: invernos muito frios e verões muito quentes.
Além do vinho, à mesa fizeram furor a dezena de produtos DOP e IGP Trás-os-Montes: alheira de Mirandela, salpicão de Vinhais, azeitonas ou alcaparras, pão, queijo, azeite, castanhas, cuscus de Vinhais, porco de raça Bísara e amêndoas. Uma parte protagonizou os pratos dos chefs Justa Nobre e Óscar Geadas, entre receitas de infância e as origens de uma cozinha de família.
SOGRAPE: Mudança dentro da tradição

Da ligação à região e das profundas mudanças ocorridas… No ano de 1972, deu-se a criação do projeto e, com ele, foram justapostas apenas três letras que representam as iniciais das três províncias que constituem a denominação de origem da Rioja: Logronho, Álava e Navarra (LAN). Naquela época, a Rioja assumia-se como uma zona vínica […]
Da ligação à região e das profundas mudanças ocorridas…
No ano de 1972, deu-se a criação do projeto e, com ele, foram justapostas apenas três letras que representam as iniciais das três províncias que constituem a denominação de origem da Rioja: Logronho, Álava e Navarra (LAN). Naquela época, a Rioja assumia-se como uma zona vínica de luxo controlada por um monopólio de empresas históricas assumidamente voltadas, quase exclusivamente, para os escaparates nacionais, sonhando com uma internacionalização de sucesso.
A impressão digital de então a respeito da região estava, por um lado, ligada a empresas que detinham vários andares de barricas obscurecidas pelo lento passar do tempo, nas quais envelheciam o vinho. Por outro lado, perfilava-se uma longa fileira de pequenos produtores com adegas subterrâneas constituídas, grosso modo, por um enorme tonel de envelhecimento, vários depósitos de cimento e uma estreita passagem de acesso. Era o tempo em que a maioria dos engarrafadores detinha uma pequena quantidade de vinha própria, pois era mais rentável comprar vinho às cooperativas ou aos pequenos viticultores, loteando posteriormente com vinhos que poderiam provir das três sub-regiões entretanto criadas.
A LAN adotou o princípio básico de que a vinicultura começa com o cultivo da vinha, conceito inovador na altura que se traduziu num firme compromisso com as vinhas e com o sucesso do projeto.
… até às mudanças atuais
O sucesso alcançado dentro de portas não passou despercebido no nosso país, o que levou à aquisição da Bodegas LAN em 2012, pela Sogrape. Desde então, o projeto foi reformulado tendo em vista o alinhamento com as mais recentes tendências de mercado, sem nunca perder a essência da tradição da região. A cambiante mais recente da LAN passou pela alteração da rotulagem de praticamente toda a gama. Como referiu a responsável pela marca em território nacional, “o rótulo surge agora mais limpo e surpreendente nos escaparates. Tratou-se de um exercício focado em entender o consumidor e criar vínculos emocionais baseados no quotidiano geradores de satisfação e empatia entre a marca e as pessoas”.
O projeto congrega 72 hectares de vinhedos abraçados pelo rio Ebro, nos arredores de Fuenmayor, uma zona de excelência na produção de vinhos. A extensa oferta do projeto LAN totaliza cerca de quatro milhões de garrafas e é composta por várias referências, que compreendem um rosé, um branco e sete vinhos tintos, no qual se destaca o topo de gama (Culmen) bastante apreciado pelos consumidores.
Para a apresentação dos vinhos da Bodegas LAN, o local escolhido recaiu sobre o bar de vinhos By The Wine, espaço cosmopolita e descontraído na baixa da cidade do Porto. Na carta vínica, consta toda a gama de vinhos da Sogrape, incluindo as marcas das propriedades desta empresa familiar, que estão espalhadas pelo mundo.
(Artigo publicado na edição de Dezembro de 2025)
QUINTA DO VALLADO: Adelaide, a imagem do Douro

É um dia solarengo de outono e saímos da estação de Campanhã, na cidade ‘Invicta’. Dirigimo-nos ao Poente by Vallado, instalado num imponente edifício localizado em pleno centro da Ribeira no Porto, onde nos esperam o gestor João Alvares Ribeiro e os enólogos Francisco Ferreira e Francisco Olazabal, ‘altas patentes’ na estrutura do Vallado. Caprichosamente […]
É um dia solarengo de outono e saímos da estação de Campanhã, na cidade ‘Invicta’. Dirigimo-nos ao Poente by Vallado, instalado num imponente edifício localizado em pleno centro da Ribeira no Porto, onde nos esperam o gestor João Alvares Ribeiro e os enólogos Francisco Ferreira e Francisco Olazabal, ‘altas patentes’ na estrutura do Vallado. Caprichosamente recuperado, este novo projeto enoturístico da quinta vinhateira homónima do Douro contém a identificação um pouco por todo o piso térreo e cave, incluindo em bonitas bandeiras, com a habitual cor da casa. Está no coração turístico da cidade, tal como confirmámos, cruzando-nos, em poucos metros, com centenas de visitantes das mais variadas nacionalidades, ou não fosse a frente ribeirinha do Porto, efetivamente, hoje, uma Babilónia.
Sem mais delongas, este edifício pretende funcionar como um farol, sito defronte e concorrentemente aos armazéns das casas do Vinho do Porto do lado sul do rio Douro. Não se diga, porém, que, no Vallado, projeto iniciado em meados dos anos 90 do século passado, o enoturismo é uma vertente recente, bem pelo contrário. Com efeito, o Quinta do Vallado Wine Hotel na Régua há muito que tem as portas abertas, tempo ao longo do qual tem sido um sucesso nas suas ‘duas vidas’ – primeiro funcionou na casa antiga da propriedade, recuperada e adaptada à atualidade, operando, agora, num edifício moderno adjacente que mantém o bom gosto e a discrição.
A mesma discrição e qualidade, mas com maior exclusividade (são poucos os quartos), encontramos na maravilhosa unidade Casa do Rio, outro boutique hotel do Vallado, próximo de Foz Côa e que é já um marco no Douro Superior no que ao luxo rural diz respeito. Aliás, é mesmo caso para dizer que o projeto Vallado – liderado pelos já referido primos João Alvares Ribeiro e Francisco Ferreira, e, desde meados de 2023, também pela família Moreira da Silva que entrou no capital da sociedade –, esteve sempre particularmente atento ao enoturismo e bem consciente da existência de um grande número de visitantes seduzidos pelo Douro. De resto, as duas unidades hoteleiras mencionadas e a loja, na propriedade na Régua, contribuem já significativamente para a faturação e consolidação da marca.
Périplo vínico
Voltando à cidade do Porto, é de salientar que se tratava de um momento solene. Por um lado, com a estreia deste enoturismo na Ribeira, espaço constituído por uma loja de vinhos, pelo Wine Bar & Restaurante Poente e por duas salas de provas, uma das quais designada Sala Adelaide. Por outro lado, o motivo maior era a oportunidade de provar a décima e mais recente edição do tinto Vallado Adelaide, o pináculo produzido por esta casa na vertente DOC Douro. Sem esquecer uma coleção de cinco Portos velhos recém lançados no mercado.
Como de resto sucede com outros aspetos do Vallado, o tempo teve uma importância crucial na evolução do perfil da marca e vinho Adelaide. A esse respeito, voltemos atrás… no tempo, para recordar que os primeiros vinhos da época moderna do Vallado, já com Francisco Ferreira e Francisco Olazabal nos comandos enológicos, datam de meados dos anos 90 do século XX. Pouco depois, na entrada do milénio, foi lançado o Quinta do Vallado Reserva tinto merecedor de grande destaque pela imprensa, assim como os monocastas Touriga Nacional, Tinta Roriz e Sousão, todos sucessos junto dos enófilos. Os rosés foram aparecendo, incluindo um extreme de Touriga Nacional mantido em produção, sendo que o topo passou a ser o fantástico V rosé produzido a partir de Tinto Cão; e o mesmo se diga dos brancos, que começaram mais timidamente, mas estão, atualmente, muito bem posicionados, como demonstra a referência Vallado Reserva (excelentes as últimas edições), sem esquecer o exótico Prima, outro êxito, agora feito a partir de Moscatel Galego em versão totalmente seca.
Desde a primeira edição, em 2005, ou seja, desde há 20 anos, o Adelaide tinto tem como missão ser o topo de gama da marca do Vallado
Tempo em garrafa
Terminado este pequeno périplo pelos vinhos do Vallado que, ao longo dos anos, mais nos marcaram, voltemos ao Adelaide. Desde a primeira edição, em 2005, ou seja, desde há 20 anos, tem como missão ser o topo de gama da marca, ou seja, representar o melhor tinto do produtor, não carregasse, este vinho, o nome solene de Ferreirinha, a famosa Dona Antónia Adelaide Ferreira, de quem João Alvares Ribeiro, bem como Francisco Ferreira e Francisco Olazabal, são descendentes.
Nas primeiras edições, a referência vínica Adelaide era exclusivamente produzida a partir dos melhores lotes das vinhas mais velhas da propriedade matriz, situada junto ao Peso da Régua, e estagiava em barrica nova. Com a passagem do tempo, Francisco Ferreira foi aprofundando o conhecimento relativamente às vinhas mais antigas da Quinta do Vallado, começando a desenhar e elaboração de vinhos de uma vinha só, como o Vinha da Granja e o Vinha da Coroa. Isso fez com que o tinto Adelaide viesse a ser produzido também com recurso a uma vinha velha sita no rio Torto, a qual estava arrendada inicialmente, acabando por ser adquirida. Não admira que, desde 2005, os lotes não sejam todos iguais, além de que houve colheitas cujo estágio em barrica não foi totalmente submetido a madeira nova. Atualmente, ou melhor, desde a colheita de 2011, o Adelaide vem exclusivamente dessa vinha velha sita no rio Torto, parte centenária e parte com mais de 80 anos, tendo sido, esta última, batizada de vinha do Adelaide. Tem a particularidade – pouco comum nas vinhas velhas do Douro – de ter como casta maioritária a Touriga Franca, sendo que esta aprecia o calor característico do verão no rio Torto. O resultado traduz-se em boa concentração, grande expressão frutada e, simultaneamente, um perfil fino. A composição das castas na vinha contribui para um field blend tão específico, que, em 2026, será plantada, na Quinta do Vallado, uma réplica fiel da vinha do Adelaide, ou seja, serão plantadas as mesmas castas na exata proporção e com varas provenientes da vinha original, em alta densidade e com porta-enxerto montícola, como se fazia antigamente.
A nova colheita é a de 2017, sendo, obviamente, uma opção do produtor em lançar o vinho tantos anos depois. Nem sempre assim o foi com as anteriores edições, mas, como é bem sabido, os grandes vinhos agradecem um estágio prolongado e este tinto é mesmo exclusivo, agora também nesse aspeto. O ano de 2017 foi um ano seco – com bons vintages, não esquecer –, mas sem ondas de calor significativas, o que evitou a sobrematuração na vinha. No que releva às uvas do Adelaide, mas aconteceu um pouco por toda a região, a vindima ocorreu em agosto, cerca de duas a três semanas antes do era habitual, porque o ciclo vegetativo se antecipou, o que originou uma ligeira quebra na produção.
Palavra final para a aposta cada vez mais vincada do Vallado em vinhos do Portos velhos, em especial tawnies e colheitas. Com efeito, muitas fontes nos confidenciaram que Francisco Ferreira é um autêntico garimpeiro no Douro no que a este tipo de vinhos diz respeito, identificando e adquirindo lotes de vinhos velhos um pouco por onde eles possam existir. É algo que tem vindo a fazer há década e meia e os resultados são bem visíveis, com o Vallado a apresentar uma gama de Portos com dimensão e qualidade, para fazer frente às principais casas da região. É caso para dizer que o Vallado vai de vento em popa!
(Artigo publicado na edição de Dezembro de 2025)
KOPKE: O mais bem guardado segredo

O prelúdio da revelação trouxe-nos três Grandes Reservas da São Luiz, a marca que a Kopke tem vindo a valorizar, sobretudo, prestando especial atenção ao património de vinhas velhas ali plantadas, algumas anteriores a 1930, e no caso dos brancos, noutra sub-região. Quinta de São Luiz Vinhas Velhas Rumilã Grande Reserva tinto 2019 e Quinta […]
O prelúdio da revelação trouxe-nos três Grandes Reservas da São Luiz, a marca que a Kopke tem vindo a valorizar, sobretudo, prestando especial atenção ao património de vinhas velhas ali plantadas, algumas anteriores a 1930, e no caso dos brancos, noutra sub-região. Quinta de São Luiz Vinhas Velhas Rumilã Grande Reserva tinto 2019 e Quinta de São Luiz Vinhas Velhas Grande Reserva tinto 2021 são os dois tintos que tiram partido do património vitícola da propriedade situada no Cima Corgo. Já o branco São Luiz Winemaker’s Collection Reserva Folgazão e Rabigato 2021 resulta de um trabalho que tem sido desenvolvido no Baixo Corgo, dada a inexistência de uvas brancas na Quinta de São Luiz. Aqui, é feita uma escolha apurada de castas brancas oriundas de produtores selecionados e, mais recentemente, da Quinta do Bairro, onde, em 2015, o Kopke Group iniciou um projeto piloto de reconversão de encepamento de tintas para brancas.
A imagem de marca da Quinta de São Luiz reflete a tradição da propriedade de caiar os muros na época da Páscoa, criando um desenho de linhas brancas, que sublinha os patamares, a horografia, prestando homenagem aos DOC Douro da Kopke. O São Luiz Vinhas Velhas Rumilã Grande Reserva tinto 2019 nasce da parcela de vinha homónima e centenária, com produções muito reduzidas, daí que esta colheita esteja limitada a apenas 1.252 garrafas. O ano proporcionou menos intensidade e concentração, o que se traduziu numa melhor perceção da frescura, elegância e até uma certa delicadeza. Nesta vinha, os procedimentos são manuais e minuciosos. A fermentação alcoólica ocorreu sem esmagamento dos bagos, usando 20 por cento do engaço, passado, depois, para barricas de 225 litros, onde fez a fermentação maloláctica. O estágio foi expressivo, traduzindo-se em dois anos em barrica e outros dois em garrafa, para dar corpo a um vinho revelador do conhecimento de que existe uma micro parcela capaz de grandes feitos.
Pequenas parcelas, grandes vinhos
A espinha dorsal do São Luiz Vinhas Velhas Grande Reserva tinto 2021 tem origem em pequenas parcelas com mais de 50 anos, exposição maioritariamente a norte, em cotas baixas (80 metros de altitude) e mais elevadas (400 metros de altitude). O ano de 2021 revelou alguma atipicidade, com um inverno bastante frio e uma primavera instável, com ocorrência de trovoadas e granizos. A vindima em São Luiz iniciou-se em agosto com temperaturas moderadas, tendo a maturação abrandado em setembro, devido à ocorrência de precipitação. Em vinhas velhas de baixíssima produção, todos os detalhes contam, pelo que a escolha do momento correto da vindima é fundamental para o resultado pretendido. A produção de apenas 2.400 garrafas resulta do facto de se realizar uma segunda triagem de uvas para a elaboração dos lotes finais. O vinho foi submetido a um estágio de 16 meses em barrica, tempo esse que lhe conferiu carácter, bem definido pela maior imposição da Sousão, casta que predomina nestas parcelas de vinhas velhas.
É do exterior da Quinta de São Luiz, e mesmo da sub-região, que chegam as uvas de Folgazão e Rabigato que compõem o Winemaker’s Collection. Não possuindo uvas brancas na propriedade, Ricardo Macedo, o enólogo dos vinhos tranquilos do Kopke Group, tem um apurado processo de seleção no Baixo Corgo das uvas destas duas castas, que melhor preenchem o perfil desejado de tensão, frescura e mineralidade. A gama Winemaker’s Collection dá asas ao experimentalismo das equipas de viticultura e enologia, privilegiando a possibilidade de testar diversas castas e o seu desempenho em diversos micro terroirs, de modo a encontrar as melhores expressões. Daqui, resultam sempre edições limitadas e assinadas pelo ‘winemaker’, que, no caso, se traduziu em 3.970 garrafas.
Um Porto esculpido com devoção
Se havia casa que podia beneficiar da aprovação pelo Conselho Interprofissional do Instituto do Vinho do Douro e do Porto da menção tradicional DOP Porto com indicação de idade 80 anos, era, sem margem para dúvidas, a Kopke, nascida em 1638, bem antes do Douro se tornar numa região demarcada e regulamentada. Os quase 390 anos da marca conferem-lhe um estatuto especial que um inédito Tawny materializa numa criação demorada (foram três meses de afinação e aperfeiçoamento diário do lote) através da arte de blending e da inclusão, no mesmo, de vinhos de 1900, 1941 e 1947. Tal só é possível, porque existe um espólio que é património vivo e indelével de vinhos do Porto de várias idades, que acompanharam a história e os feitos da humanidade.
Com um longo e meticuloso envelhecimento nas caves da Kopke em cascos sem idade, agora despertados para criar um vinho quase místico, profundamente complexo e emotivo, este Kopke 80 anos é uma perícia de gerações a homenagear, desde os que o vinificaram, passando pelos que o guardaram. até à mais recente equipa de enologia que assumiu a responsabilidade de o acordar, esculpindo algo que merece a nossa mais intensa devoção. Absolutamente perfeito.
(Artigo publicado na edição de Dezembro de 2025)
CHARUTOS: Os puros, os Portos e os brandies exclusivos

O consumo de charutos interessa a muitos e desagrada a outros tantos. Por isso, um bom fumador sabe que não deve partilhar o seu prazer em ambientes onde nem todos os presentes aceitam aqueles aromas. Tudo melhora quando se juntam muitos, na mesma sala, e todos têm o puro nas mãos. Foi o caso no […]
O consumo de charutos interessa a muitos e desagrada a outros tantos. Por isso, um bom fumador sabe que não deve partilhar o seu prazer em ambientes onde nem todos os presentes aceitam aqueles aromas. Tudo melhora quando se juntam muitos, na mesma sala, e todos têm o puro nas mãos. Foi o caso no XI Habanos Day, que teve lugar no Montes Claros – Lisbon Secret Spot, em Lisboa, que reuniu cerca de 200 pessoas. Esteve presente José Ramón Saborido Loidi, Embaixador de Cuba, que relembrou aos presentes que o cultivo do tabaco começou há cinco séculos e que os puros são o verdadeiro ex-libris da ilha. Afinal, tratou-se de um evento pautado pelo savoir-faire associado aos verdadeiros Habanos. As boas-vindas foram igualmente partilhadas por Pedro Rocha e Luis Javier Bosch, respectivamente, Director-Geral e Director Comercial da Empor S.A., distribuidora exclusiva de Habanos em Portugal.
Muitos fumadores de charutos são também apreciadores de destilados. Nesta grande família encontramos “charutadores” com gostos por vezes muito específicos: para alguns nada bate um whisky de malte com um puro, outros conheci que se deliciavam com uma boa aguardente velha, fosse ela um Cognac, um Armagnac ou uma aguardente portuguesa de qualidade. Neste capítulo, temos muitas aguardentes (e, por vezes, a preços de saldo), que se batem com as melhores aguardentes estrangeiras. Menos habitual é encontrar apreciadores de puros que acompanhem o prazer do fumo com um vinho do Porto. Já em tempos organizei uma prova desse tipo, todas com o mesmo modelo de charuto.
Será que liga bem?
O evento teve três momentos distintos de prova correspondentes à Sandeman, ao Rum Diplomático e ao Ximénez-Spínola. A Grandes Escolhas esteve presente apenas no primeiro, no qual o brand ambassador da Sandeman, David Faísca, falou sobre os diversos tipos de Porto dentro das duas famílias de rubis e tawnies. Enquanto decorria a explicação sobre o Porto Sandeman, apoiada em material fotográfico projectado em ecrã, as pessoas presentes na sala entretinham-se a fumar o primeiro charuto fornecido para o efeito, um modelo da marca Trinidad. Não é fácil estar numa sala com tanta gente a fumar ao mesmo tempo, mas a verdade é que, para aqueles apreciadores e apreciadoras, isso era assunto de somenos. Todos estavam interessados em tentar acertar no quizz que ia sendo anunciado e que tinha como prémio uma garrafa de Sandeman. O perfil Tawny parece reunir mais consenso quanto à boa ligação com o charuto; os rubis são mais agressivos, mas, ainda assim, não deixam de ter adeptos. O ambiente de frutos secos, de notas de mel, figos e fruta em calda são tudo ingredientes que casam bem com o charuto que, de resto, tem da folha de tabaco um descritor, por vezes, usado na apreciação de vinhos.
O segundo momento do XI Habanos Day, a que já não assistimos, esteve em alta, com a prova dos brandies Ximenez-Spinola Cigar Club Nº 1, Nº 2 e Nº 3, produtos exclusivos e detentores de elevado valor mercado, resultantes da aposta reforçada no savoir-faire cubano, degustados no âmbito da actividade “Aliança Habanos”, durante a qual houve a oportunidade de saborear a Edição Regional de Portugal de 2017.
Para terminar em ambiente de festa, houve um concurso para ver quem conseguia manter a cinza mais longa, sem cair. É mais difícil do que parece e é seguramente bem divertido. Recordo que também os apreciadores de cachimbo têm concursos igualmente divertidos. Soubemos que o protagonista do concurso foi o Habano Edição Regional de Portugal de 2014 desfrutado na companhia do rum Diplomático Single Vintage e Diplomático Reserva Exclusiva. Luis Javier Bosch foi quem apresentou o projecto da Empor para Habanos envelhecidos, o Empor Collection, lançado em 2025 pela Empor S.A. e será desenvolvido nos próximos anos.
Em suma, o evento traduziu-se no ponto de encontro para aficionados, colecionadores e grandes apreciadores do Habano no nosso país, culminado pelo jantar de gala com a degustação de mais duas Edições Regionais para Portugal, uma das quais lançada recentemente no mercado. Os Habanos foram acompanhados por referências da Sogrape e Ximénez-Spínola Delicado. Foram entregues igualmente os prémios aos vencedores das actividades do dia, terminando, a noite, com música tradicional ao vivo, em profunda celebração da cultura cubana.
(Artigo publicado na edição de Dezembro de 2025 e actualizado a 23 de Janeiro de 2026)

















































