Grande Prova- Alentejo tinto Potência com elegância: afinal é possível…

Alentejo tinto

Ao pensar num topo de gama do Alentejo, imediatamente no nosso imaginário surgem vinhos poderosos, carnudos, macios e densos. A qualidade nem se coloca em causa, está lá por defeito. Entretanto, existem muito mais estilos nos vinhos que representam a crème de la crème da região. E descobrimos vários nesta prova de mais de cinco […]

Ao pensar num topo de gama do Alentejo, imediatamente no nosso imaginário surgem vinhos poderosos, carnudos, macios e densos. A qualidade nem se coloca em causa, está lá por defeito. Entretanto, existem muito mais estilos nos vinhos que representam a crème de la crème da região. E descobrimos vários nesta prova de mais de cinco dezenas de tintos alentejanos.

Texto: Valéria Zeferino Fotos: Ricardo Palma Veiga

 

Sendo o Alentejo extenso e muito heterogéneo em termos de solos e clima, a diversidade dentro da região é enorme. Para além das zonas quentes e mais áridas, tem o litoral, temperado pela influência atlântica e Portalegre, onde altitude em combinação com um clima continental, confere uma frescura própria aos vinhos. Não é por acaso que nos últimos anos assinalou-se um investimento nesta zona. As serras de São Mamede, do Mendro, de Ossa moldam as condições microclimáticas dos territórios adjacentes. A falha da Vidigueira com escarpas orientadas no sentido Este-Oeste permitem que os ventos do Atlântico empurrem o ar frio, promovendo o arrefecimento significativo do ar à noite. Luís Cabral de Almeida, responsável pela enologia na Herdade do Peso, conta que isto acontece quase todos os anos: as temperaturas de dia podem chegar a 38-39˚C e à noite caem até 15-17˚C o que tem um efeito benéfico na composição das uvas.

O calor e a água (ou falta dela)

O clima quente e seco do Alentejo, em certa medida, beneficia os produtores. Luís Cabral de Almeida que já trabalhou noutras regiões onde a Sogrape tem produção, como o Douro, Dão e até na Argentina, considera o Alentejo uma região consistente, com baixa carga de doenças. Não é por acaso que no Alentejo há muita produção biológica. As características da região e a sua fama junto do consumidor motivam alguns produtores de outras regiões a investir no Alentejo. É o caso do projecto da Symington na Quinta da Fonte Souto em Portalegre e da Costa Boal na Quinta dos Cardeais, entre os mais recentes.

Por outro lado, a seca é capaz de comprometer não apenas a quantidade e a qualidade de uma ou outra colheita, mas colocar em causa a sobrevivência das videiras, pois na falta de água esta não tem forma de buscar os nutrientes do solo e distribuí-los de forma correcta na própria planta. Por isto, a rega é indispensável em muitas partes do Alentejo, sobretudo nos solos mais pobres e com baixa retenção de água.

Contudo, a rega não visa proporcionar à videira um acesso desmedido à água. O equilíbrio da área foliar e rega controlada são essenciais, sublinha Luís Cabral de Almeida. Até à fase do pintor (quando os bagos ganham cor) dá-se água à videira (quando a chuva não vem) para obter os nutrientes do solo, e construir a área foliar para garantir actividade fotossintética. A partir do pintor, limita-se a água, para a videira investir na maturação da fruta.

Por exemplo, o enólogo Pedro Hipólito tem um sistema de rega instalado na Herdade da Mingorra, pronto para qualquer eventualidade, mas nas vinhas velhas não tem sido preciso. Tem 7 talhões que nunca foram regados.

Entretanto, no Alentejo ainda existem vinhas de sequeiro, mas estas encontram-se plantadas em áreas muito especiais. Como conta António Maçanita, há zonas na região, onde as águas freáticas ficam mais perto da superfície, permitindo que as raízes das videiras possam chegar até lá. O produtor e enólogo Luís Louro, que em 2004 iniciou o seu projecto do Monte Branco, também tem algumas vinhas em sequeiro. Estas estão implantadas em solos mais profundos e relativamente férteis, num xisto argiloso, que tem melhor capacidade de retenção do que o xisto normal.

Tudo no sítio e momento certos

As castas certas no sítio certo + momento de vindima + filosofia do produtor: é este o segredo do sucesso. Conseguir potência no Alentejo é fácil, juntar a elegância, às vezes, é um desafio. Nos topos de gama a tentação de criar vinhos poderosos é natural e as principais castas também ajudam. A triologia de Alicante Bouschet, Aragonez e Trincadeira que predominam nos lotes de há 30 anos, proporcionam muita estrutura e potência, diz António Maçanita, enólogo e produtor com projectos em várias regiões do país. Cabernet e Syrah também ajudam à festa. As castas “mais fracas” como Castelão ou Alfrocheiro não são das mais presentes nos topos de gama. Mas há excepções.

Repetindo as palavras de Luís Louro, um vinho é um produto de vinha e filosofia. O principal foco é nas castas certas e na época de colheita. A principal preocupação é “colher maduro, mas nunca sobremaduro”.

António Maçanita partilha a sua experiência, referindo que Castelão, Tinta Carvalha e Alfrocheiro têm muita tolerância para o momento da vindima, enquanto o Moreto não. As castas tânicas como Aragonez, Alicante Bouschet ou Syrah se não forem vindimadas maduras, são verdes e difíceis.

As castas certas por vezes já se encontram numa vinha, sobretudo numa vinha velha bem adaptada ao local e que expressa o seu carácter único. Tivemos alguns exemplos interessantes nesta prova. O Chão dos Eremitas Os Paulistas, da Fita Preta, por exemplo, com as castas (curiosamente, não misturadas, o que facilita a vindima) Tinta Carvalha, Moreto, Castelão, Alfrocheiro e Trincadeira, plantadas há 50 anos.

A Vinha da Ira, da Mingorra, é uma pequena parcela de 2 ha, plantada nos anos 80. É um resultado da selecção massal  de uma vinha mãe da Vidigueira. Chamava-se o Talhão de Alfrocheiro e no início fez muita confusão, porque quando a uva chegava à adega, era óbvio que não se tratava só de Alfrocheiro, até porque tinha muita uva tintureira. Em 2004 fizeram uma biblioteca genética das castas que tinham nesta vinha e estavam lá 12 variedades misturadas, onde 50% era Alicante Bouschet, também Aragonez, Touriga Nacional entre outras. O Alfrocheiro só representa 7% da vinha. Vindima-se tudo junto e o Alicante Bouschet serve de referência para a colheita.

Na Herdade do Peso, da Sogrape, o conceito do vinho Parcelas é diferente do Reserva, ou do Revelado, que têm que ter um determinado perfil. Os vinhos da gama Parcelas podem ter um perfil próprio em função do ano, explica Luís Cabral de Almeida. Por exemplo o Parcelas Block 21 é 100% Alicante Bouschet.

Dos produtores entrevistados, há unanimidade que o futuro passa muito pelas castas de ciclo longo: Touriga Nacional, Petit Verdot, Tinta Miúda, como exemplo.

A filosofia do produtor começa na escolha de terrenos e castas e acaba na abordagem na adega e até no tempo do estágio em garrafa antes de lançar para o mercado. Os produtores como Julian Reynolds ou Luís Louro não abdicam deste estágio o que sempre se reflecte no momento da prova.

Os estilos dos tintos do Alentejo

 Normalmente fala-se de dois principais estilos de vinhos no Alentejo: um clássico (mais balsâmico, com bosque e resinas, com vegetal seco e até uma certa rusticidade) e um moderno, de grande polimento, com fruta mais imediata, mais intensa e mais presente.

Na realidade, o Alentejo é muito mais do que isto. Depois de provar mais de 50 vinhos, eu diria que existem quatro estilos: dois clássicos – um que consegue aliar potência à elegância (vinhos profundos, perfeitos em cada momento de contacto) e outro onde a potência predomina, com vinhos muito extraídos e alcoólicos, mornos e quase doces (secos tecnicamente, mas pela sensação da doçura de fruta sobremadura e muita presença de barrica). Estes últimos são bem-feitos e impactantes, impressionam ao primeiro gole, mas a partir do segundo o entusiasmo diminui.

Nos vinhos de estilo dito “moderno”, também há duas variações. Um é mais sensual e consensual, guloso, com fruta bonita, encorporando normalmente as “castas melhoradoras” no lote, como a Syrah ou Touriga Nacional. Uma espécie de Novo Mundo no Alentejo.

O outro “novo” estilo do Alentejo é uma regressão ao passado, dando protagonismo às castas antigas, com fruta simples e pura, sem o lustro da Touriga ou Syrah. Podem não ser tão consensuais, mas têm muito bom senso na sua essência, são pensados, ensaiados e bem interpretados. São elegantes com estrutura, extremamente precisos e sofisticados.

Com isto não pretendo dizer que tem que se excluir castas ou estilos. Há gostos para tudo. As tendências vêm e vão, e o que é realmente bom acaba por perdurar.

Castas: as nossas, as outras e o Alicante Bouschet

 De acordo com o cadastro da CVR Alentejo, nos últimos dez anos a área de vinha tem crescido, tendo aumentado 4.003 hectares (21%) e em 2021 ocupou 23.277 ha. As castas tintas predominam com 79%. A vinha nas sub-regiões D.O. representa 72% da área total do Alentejo e 74% da produção total de uvas da região.

Nas castas tintas é notória a importância adquirida pelo Alicante Bouschet, que aumenta em área e representatividade na região e, com menor intensidade, também a Syrah e Touriga Nacional. Em diminuição estão as castas Aragonez, Trincadeira e Castelão, que perdem área e expressão na área vitícola.

As castas dividem-se em dois polos principais: portuguesas típicas do Alentejo (Aragonez, Trincadeira) ou vindas de outras regiões como a Touriga Nacional ou Touriga Franca, e estrangeiras como o Cabernet Sauvignon, a Syrah ou o Petit Verdot.

E depois há Alicante Bouschet que é a casta estrangeira mais portuguesa. Entrou no país há mais de 100 anos e ganhou a cidadania e reconhecimento que nunca teve no seu país natal. Luís Cabral de Almeida compara o percurso do Alicante Bouschet em Portugal como o do Malbec na Argentina: ambas as castas são de origem francesa e ambas encontraram a sua expressão máxima nos países de adopção. Hoje, Alicante Bouschet é parte importante da tipicidade dos vinhos do Alentejo e está em franco crescimento na região, sendo a segunda tinta mais plantada.

Para Luís Louro, Alicante Bouschet é uma casta fantástica que conjuga potência e acidez se for colhida a tempo. Tem uma parcela na zona de sequeiro que dá óptimos resultados.

Para Luís Cabral de Almeida, Alicante Bouschet é a garantia de fruta, cor e sabor, mas há que lhe aumentar a complexidade. Considera que não adianta forçar a extracção através de remontagens, por exemplo, pois vai-se extrair o que tem de bruto e agressivo. Prefere aplicar o engaço maduro na fermentação, que confere ao vinho tanino de meio de boca, diferente do tanino da madeira que é mais lateral.

Frederico Rosa Santos sublinha que as uvas de Alicante Bouschet têm de estar bem maduras e muitas vezes só amadurece a parte fenólica com o grau alcoólico alto. Não se dá bem em todo o lado. Mais a sul de Beja é demasiado quente para o Alicante e a ondas de calor em Julho ou Agosto fazem com que não amadureça. Fica bem de Estremoz para cima.

Das castas portuguesas, Aragonez continua a ser a uva mais plantada (com 23% de encepamento), mas não é de todo a mais amada. Muitos produtores reconhecem as suas limitações, começando por ser altamente sensível à produção. Se não for controlada, não consegue amadurecer a parte fenólica e apresenta taninos verdes e duros. Também precisa de amplitudes térmicas significativas.

Pedro Hipólito, enólogo da Herdade da Mingorra, conta que quando temperatura se mantém durante algum tempo acima dos 35˚C, a videira fecha os estomas e deixa de funcionar. Ainda por cima, como se sabe, o Aragonez com o stress hídrico sacrifica folhas o que faz difícil a sua maturação posterior.

Usar o clone certo também é importante. Frederico Rosa Santos conta que quando decidiram plantar Aragonez na propriedade da família, foram buscar o clone de Tinta de Toro num viveirista em Navarra. A vinha, no seu máximo, produz 4 tn/ha.

A Trincadeira, outrora muito popular, mantém-se em 3º lugar com 14,9% de encepamento, mas está a perder posição. Os enólogos são da opinião que com produções elevadas, perde todo o carácter e torna-se muito vegetal, fazendo lembrar um “mau Cabernet do Alentejo”. É capaz de produzir excelentes vinhos mas tem que se descobrir o seu ponto de equilíbrio. A casta também não gosta do stress hídrico, embora o aguente melhor que o Aragonez mas, se for preciso, vai buscar água aos bagos desidratando-os.

Já Luís Louro defende esta casta polémica, afirmando que cada vez gosta mais dela. No lote com Alicante Bouschet tira-lhe a brutalidade. Basta 15% e já se nota a diferença, diz.

A Touriga Nacional é a 5ª casta mais plantada no Alentejo, ocupando 8% de encepamento e com tendência a crescer. Há muitos argumentos a favor, começando por ser de maturação longa o que traz vantagens no Alentejo. Frederico Rosa Santos reconhece que a casta aguenta muito bem a seca, e o bago está sempre túrgido. Aromaticamente agradável, mas às vezes no Alentejo torna-se um pouco enjoativa, com violetas em excesso e canela.

Ainda se fala pouco da Tinta Miúda que representa apenas 0,5% de encepamento da região, mas já há produtores atentos a esta casta. Luís Louro gosta dela porque é poderosa, com concentração e intensidade, é menos rústica do que o Alicante Bouschet, tem classe.

Das castas estrangeiras mais recentes destaca-se claramente a Syrah, cujas plantações têm vindo a crescer e que hoje em dia fica no 4º lugar com 12%.

Frederico Rosa Santos não tem dúvidas que Syrah se dá bem em todo o lado, variando em estilo. Pedro Hipólito repara que até num ano bem difícil como este, teve uma boa evolução. Luís Louro reconhece que é uma casta fácil, melhoradora, mas acha que se impõe muito e tira a identidade aos vinhos. António Maçanita admite que Syrah em monocasta pode expressar o terroir e é capaz de ser interessante, mas no lote marca demasiado. Melhora sim, mas desvirtua o perfil, como a Touriga Nacional.

Embora o Cabernet Sauvignon tenha chegado ao Alentejo mais cedo do que a Syrah e ocupe uma área significativa (4,4% do encepamento, 7ª casta mais plantada) a sua presença está lentamente a diminuir. Faz parte de muitos lotes, mas não identifica a região.

Pedro Hipólito explica isto pelo ciclo do Cabernet Sauvignon ser relativamente curto para o Alentejo. Com um tipo de taninos próprio e o lado herbáceo, a casta necessita de tempo de maturação. E no Altentejo os ciclos estão a encurtar. Antigamente vindimava-se de Setembro até quase início de Outubro e agora começa-se no início de Agosto. O Cabernet pode ter 15% de álcool e continuar vegetal o que de todo não se enquadra no perfil dos vinhos que procuram. Por isto, na Herdade da Mingorra, que fica a 15 km a sul de Beja, numa zona muito quente, acabou-se com o Cabernet Sauvignon.

Frederico Rosa Santos sempre teve reticências relativametne ao Cabernet no Alentejo. É demasiado quente para a casta, acredita. Os bagos relativamente pequenos rapidamente transformam-se em passas. Mas reconhece que em bons anos beneficia alguns lotes.

Uma estrela em ascenção é o Petit Verdot que se dá lindamente no Alentejo e agora ocupa 1,9% da plantação. Para Frederico Rosa Santos foi uma agradável surpresa depois de a ter provado durante um estágio em Bordeaux, onde não tem condições para amadurecer bem a parte fenólica, ficando muito dura e difícil. Por cá, a casta apresenta tanino maduro, sensação de boca e corpo, fica muito mais completa e equilibrada. E pode produzir imenso sem diminuir a qualidade. António Maçanita está de acordo e diz que o Petit Verdot funciona como um relógio suíço, sem problemas sanitários, muito no registo de Alicante Bouschet, ou seja, não marca demasiado, não passa por cima do perfil da região.

Os tintos do Alentejo, como se vê, são em si mesmo um mundo. Feito de corpo, maturação, vigor, mas também elegância, finura, frescura. Os estilos abundam, a qualidade também. É bom que assim seja: nenhum apreciador sai insatisfeito.

(Artigo publicado na edição de Outubro de 2022)

 

Ermo Wines: Roque do Vale versão 3.0

Ermo Wines

Os primeiros frutos do projecto pessoal de Mariana Roque do Vale já estão nas prateleiras das lojas e, embora assentes num histórico legado familiar, revelam um cunho muito próprio. Como próprias são as uvas utilizadas, oriundas de duas propriedades, uma na serra do Mendro, Vidigueira, outra em Moura. Objectivo declarado: expressar um lado moderno do […]

Os primeiros frutos do projecto pessoal de Mariana Roque do Vale já estão nas prateleiras das lojas e, embora assentes num histórico legado familiar, revelam um cunho muito próprio. Como próprias são as uvas utilizadas, oriundas de duas propriedades, uma na serra do Mendro, Vidigueira, outra em Moura. Objectivo declarado: expressar um lado moderno do Alentejo, com vinhos diferenciadores e produzidos em pequena escala.

 Texto: Luís Lopes  Fotos: Ermo Wines

Roque do Vale é um nome que soa forte juntos de apreciadores que reúnam duas condições: gostar de vinhos do Alentejo e andar por cá há alguns anos. Curiosamente, as raízes mais profundas dos Roque do Vale não são alentejanas mas sim da zona de Torres Vedras, onde a agricultura sempre fez parte da actividade familiar ao longo de muitas gerações. No entanto, foi no Alentejo, e a partir dos anos 80, que Carlos e Clara Roque do Vale deixaram marca profunda, enquanto produtores de vinho (na altura, na sub-região de Redondo, com a marca Redondo, dos rótulos com pratos de barro, ou o conhecido Tinto da Talha) e enquanto dinamizadores do Alentejo como região vitivinícola, muito tendo contribuído para a sua afirmação naqueles primeiros anos da demarcação. Neste contexto, nunca é demais recordar que Carlos Roque do Vale foi um dos fundadores da ATEVA (Associação Técnica dos Viticultores do Alentejo), que chegou a dirigir, e que Clara Roque do Vale foi a primeira presidente da Comissão Vitivinícola Regional Alentejana, onde esteve 12 anos, implementando toda a estrutura de certificação e promoção dos vinhos do Alentejo e da Rota dos Vinhos do Alentejo. Em 2000 o casal lançou-se num novo ciclo empresarial e criou a empresa Monte da Capela, em Moura, recentemente rebaptizada como Casa Clara, onde produz vinhos e azeites.

Ermo WinesFilha de Carlos e Clara, Mariana Roque do Vale tem, pois, toda esta “carga histórica” com que lidar. E, no entanto, não estava previsto que assim fosse. Licenciada em Direito pela Universidade Católica de Lisboa, Mariana desenvolveu o seu percurso

profissional na área da consultoria, da banca e de gestão, entre Lisboa e Londres onde viveu cinco anos. Em final 2019, porém, resolveu aplicar os seus conhecimentos do mundo empresarial e financeiro ao projecto Casa Clara, tornando-se sócia dos seus pais. Desde o início, porém, que ambicionou ter, em paralelo, o seu próprio negócio vitivinícola. E assim, nasceu o Ermo. “O Ermo é algo de muito pessoal”, diz Mariana Roque do Vale. “Enquanto a Casa Clara tem estatuto e perfil mais clássicos, aqui pretendi fazer algo mais arrojado, trazendo uma visão e abordagem moderna no mundo dos vinhos.” A intenção passou por criar vinhos “de baixa intervenção e de produção limitada”. Para acentuar a diferença, o conceito enológico teria de ser distinto e, foi nesse sentido que Mariana convidou Joana Pinhão para dirigir a enologia. Joana, com larga experiência no Tejo, Douro e Vinhos Verdes, nunca tinha trabalhado no Alentejo e aceitou entusiasmada o novo desafio.

ENTRE MOURA E VIDIGUEIRA

Para fazer vinho, é preciso uvas. Mariana Roque do Vale optou por basear os Ermo exclusivamente em uvas próprias. À partida, tinha desde logo o conforto da matéria prima da Herdade da Capela, propriedade da Casa Clara, a sociedade familiar. Mas a produtora queria ter algo mesmo seu e deste modo adquiriu a Quinta de D. Maria, na serra do Mendro, Vidigueira (não confundir com a quinta e marca Dona Maria, em Estremoz…). Assim, os primeiros vinhos que agora chegam ao mercado assentam nas duas propriedades e com divisão bem clara na origem das uvas: os brancos, são da Herdade da Capela; os tintos, da Quinta de D. Maria.  A Herdade da Capela localiza-se na sub-região de Moura, na margem esquerda do Guadiana. É uma propriedade de 70 hectares, de suaves encostas, com solos de derivados de calcário com algum granito, à beira do espelho de água do Alqueva. Ali estão plantados 54 hectares de vinha com diversas castas tintas e brancas, mas no Ermo entram apenas estas últimas, e em concreto as variedades, Arinto, Antão Vaz, Verdelho e Viosinho, de videiras com cerca de 25 anos.

A Quinta de D. Maria encontra-se localizada na Serra do Mendro, acompanhando uma das suas encostas que desce desde a cota de 300 metros até à margem do rio Guadiana. É uma propriedade de 231 hectares, com 26 hectares de vinha em produção, 40 hectares de olival tradicional (de onde vem o azeite Ermo), montado e floresta. Os solos são de xisto e pedra rolada do rio e as variedades plantadas são exclusivamente tintas: Alfrocheiro, Alicante Bouschet, Aragonez, Castelão e Trincadeira, às quais se junta uma pequena parcela de Cabernet Sauvignon. Estas videiras, com mais de 30 anos, têm história no Alentejo. É que, a partir de final dos anos 90 e ao longo de uma década, deram origem aos famosos tintos do produtor Francisco Garcia, vinhos ambiciosos na qualidade e no preço. O que, se traz garantias da excelência do terroir, também acentua a responsabilidade de Mariana Roque do Vale, da enóloga Joana Pinhão e do consultor de viticultura João Torres.

Mariana, porém, não se limitou a recuperar as videiras plantadas naquela encosta do Mendro, com um microclima mais ameno criado pela escarpa da falha da Vidigueira. Aproveitando o relevo da propriedade, plantou 10 hectares de vinha nova, parcialmente desenhada em patamares que, de algum modo, lembram o Douro. A opção varietal passou por reforçar algumas das castas clássicas já existentes na vinha antiga (Alicante Bouschet e Castelão) e introduzir castas portuguesas menos tradicionais na região: Tinta Francisca, Tinta Miúda, Touriga Franca, Touriga Nacional e Sousão. É a expressão de “Alentejo moderno” que Mariana Roque do Vale pretende implementar na marca Ermo. “Queremos novas potencialidades para os nossos vinhos”, refere, “e estas são castas que acreditamos virem a adaptar-se bem ao clima e solo da propriedade, aportando frescura e acidez.” A experiência e conhecimento científico de João Torres foram fundamentais nesta decisão. Foi feito um estudo detalhado do solo, orientação solar e topografia do local, para que cada casta ficasse plantada na parcela mais apropriada. E a construção de parte da vinha em patamares permitiu que algumas variedades, como o Sousão, ficassem viradas a nascente, protegendo-se do calor das tardes de Verão.

Ermo Wines

ALENTEJO MODERNO

A viticultura do Ermo encontra-se no modo de produção integrada, utilizando recursos naturais e mecanismos de regulação natural, e uma parte está em processo de migração para o modo de produção biológico. “As uvas são todas colhidas à mão e na adega, tentamos ser o menos interventivos possível, apostando em fermentações espontâneas e vinhos com macerações mais suaves”, diz a enóloga Joana Pinhão. “Na base do projecto está uma visão moderna da vitivinicultura e da enologia, assente numa filosofia de sustentabilidade nos seus diversos pilares, e numa aproximação de baixa intervenção, respeitando o solo e o carácter das vinhas”, complementa Mariana Roque do Vale.

A primeira vindima (a vinificação é feita na adega da Casa Clara, em Pias) teve lugar em 2020, com os vinhos a começarem a chegar às lojas em finais de 2021. Para já, são cerca de 20.000 garrafas, mas prevê-se um crescimento suave e sustentado ao longo dos próximos anos. No mercado estão dois brancos de Arinto (um deles feito em ânfora) e um tinto de Castelão, pensado num perfil mais leve e elegante. Em breve, chegará um novo tinto, também de 2020, desta vez um blend, com as castas Trincadeira, Alicante Bouschet e Cabernet Sauvignon. Os vinhos provados prometem muito, e vale bem a pena manter este projecto Ermo debaixo de olho.

Um projecto que não se esgota no vinho, nem sequer no Alentejo. Mariana Roque do Vale é apaixonada pela arquitectura e pela maneira como o espaço influi na nossa vivência. E como quer introduzir outras formas de pensar o Alentejo e os seus vinhos, está a criar no bairro da Lapa, em Lisboa, numa casa projectada pelo arquitecto brasileiro Paulo Mendes da Rocha (1928-2021) um espaço para jantares vínicos e provas que vai funcionar como extensão enoturística do Ermo e de outros produtores. Em princípio, os primeiros eventos ocorrerão ainda este ano. Em estudo estão também um hotel rural, uma cave de estágio e um pavilhão de provas, com assinatura de alguns dos mais cotados gabinetes de arquitetura contemporânea.

“Quero dar continuidade ao legado de meus pais, mas quero fazer mais coisas, estabelecer uma ponte para o futuro, para um moderno Alentejo”, diz Mariana. Se o Alentejo moderno é assim, venha mais.

(Artigo publicado na edição de Setembro de 2022)

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Grupo Terras & Terroir entra no Alentejo com compra da Herdade da Rocha

Terras terroir herdade rocha

Com a compra da Herdade da Rocha, no Crato, o Grupo Terras e Terroir alargou a sua área de actividade ao Alentejo. O grupo, fundado em 2020, integra já a Quinta da Pacheca e a Quinta do Barrilário, no Douro; a Caminhos Cruzados, no Dão; e a Quinta do Ortigão, na Bairrada. A Herdade da […]

Com a compra da Herdade da Rocha, no Crato, o Grupo Terras e Terroir alargou a sua área de actividade ao Alentejo. O grupo, fundado em 2020, integra já a Quinta da Pacheca e a Quinta do Barrilário, no Douro; a Caminhos Cruzados, no Dão; e a Quinta do Ortigão, na Bairrada.

A Herdade da Rocha estende-se por 60 hectares, junto à serra de S. Mamede, dos quais 9 são de vinha.


A empresa
, que lançou a sua primeira colheita em 2012, colocou o ano passado no mercado cerca de 75 mil garrafas de vinho, abrangendo, para além de brancos tintos e rosés, varietaisde Alvarinho, Arinto, Alicante Bouschet e Syrah. Os vinhos são produzidos numa adega de dois mil metros quadrados que integra três lagares de granito.

Mas, nem só de vinho vive a Herdade da Rocha. A propriedade possui enoturismo com oito unidades de alojamento, divididas entre o edifício principal e suites externas individuais e ainda um restaurante focado na gastronomia regional alentejana e um campo de golfe.

Enóloga Sandra Alves termina caminho de 22 anos no Esporão

Sandra Alves Esporão

Após a 23ª vindima na empresa, Sandra Alves deixa o Esporão para abraçar novos desafios. “Cheguei à Herdade do Esporão no dia 16 de agosto de 2000, plena de motivação, ambição, ideias e sonhos. Entretanto passaram 22 anos, que parecem ter corrido à velocidade de 22 meses. Decidi agora terminar este ciclo fantástico e dar-me […]

Após a 23ª vindima na empresa, Sandra Alves deixa o Esporão para abraçar novos desafios.

“Cheguei à Herdade do Esporão no dia 16 de agosto de 2000, plena de motivação, ambição, ideias e sonhos. Entretanto passaram 22 anos, que parecem ter corrido à velocidade de 22 meses. Decidi agora terminar este ciclo fantástico e dar-me a oportunidade de poder abraçar outros desafios, experiências, ritmos, ideias e sonhos, com a confiança, alegria, tranquilidade e o sentimento de missão cumprida” declara Sandra Alves.

Por sua vez, João Roquette, Presidente do Conselho de Administração do Esporão, comenta: “Observando o percurso da Sandra Alves no Esporão só sinto agradecimento, respeito, amizade e satisfação por tantos anos bem vividos e pelos muitos vinhos especiais que ficam na história do Esporão. O destino protege os audazes e o nosso desejo é que o futuro lhe traga o que procura”.

Hoje, a equipa de enologia do grupo Esporão é consistida por José Luís Moreira da Silva, que lidera o departamento e faz parte, em simultâneo, do Conselho de Administração; João Ramos, enólogo dos vinhos tintos no Alentejo; Teresa Gaspar, responsável pelos brancos nesta região; e Lourenço Charters, responsável pela enologia e viticultura da Quinta dos Murças, no Douro, e da Quinta do Ameal, nos Vinhos Verdes.

Vinhos do Alentejo têm novo embaixador no Brasil

Vinhos Alentejo embaixador Brasil

Esta é já a 9ª edição do concurso “O Melhor Sommelier de Vinhos do Alentejo no Brasil”, que elegeu o grande vencedor: Gabriel Raele. A iniciativa, dirigida ao maior mercado de exportação de vinhos alentejanos, conta agora com um dos melhores sommeliers de São Paulo, que durante o próximo ano vai poder apresentar aos consumidores […]

Esta é já a 9ª edição do concurso “O Melhor Sommelier de Vinhos do Alentejo no Brasil”, que elegeu o grande vencedor: Gabriel Raele. A iniciativa, dirigida ao maior mercado de exportação de vinhos alentejanos, conta agora com um dos melhores sommeliers de São Paulo, que durante o próximo ano vai poder apresentar aos consumidores brasileiros as particularidades dos vinhos da região. Esta iniciativa, com a assinatura da Comissão Vitivinícola Regional Alentejana (CVRA), pretende fortalecer a relação já existente entre o Alentejo e o Brasil, país no qual os vinhos alentejanos cresceram, no primeiro semestre deste ano, 23% em valor e 26% em volume, um balanço que reforça a liderança do mercado nos destinos de exportação.  

“Esta acção, que mantemos anualmente desde 2014, é fundamental para a imagem que o mercado brasileiro tem dos nossos vinhos, reforçando a nossa presença junto destes consumidores que, sem dúvida, valorizam os Vinhos do Alentejo e que, cada vez mais, conhecem a diversidade e particularidades da região”, explica Tiago Caravana, director de marketing da CVRA. Para o responsável, o concurso tem sido, ao longo dos anos, “muito bem-sucedido, ao aproximar os especialistas de enólogos e produtores e ao formar os sommeliers para que estes possam promover no seu mercado de origem aquilo que de melhor se faz no Alentejo.” 

Os jurados – Luís Lopes, director da revista Grandes Escolhas, Tiago Caravana, director de marketing da CVRA, Ricardo Morais, wine director do Grupo JNcQUOI, Marc Pinto, wine director no restaurante Fifty Seconds e Domingos Meirelles, director da Exponor Brasil – concluíram que o grande vencedor do ano 2022 se destacou tanto no teste escrito sobre o Alentejo e seus vinhos, como no exame prático de simulação de serviço de vinhos alentejanos em contexto de restaurante, tendo demonstrado “um elevado conhecimento sobre a região e, claro, uma capacidade excepcional de promover os Vinhos do Alentejo e as suas particularidades”.

No Wine Bar da Herdade do Esporão já se pode almoçar

Wine Bar Esporão

Utilizando os mesmos ingredientes do restaurante da Herdade do Esporão — cuja cozinha, a cargo do chef Carlos Teixeira e segundo o Esporão, tem foco na sustentabilidade e no produto — no Wine Bar da propriedade são agora servidos “pratos de conforto sazonais, frescos e simples”, além da oferta já existente de provas de vinho, […]

Utilizando os mesmos ingredientes do restaurante da Herdade do Esporão — cuja cozinha, a cargo do chef Carlos Teixeira e segundo o Esporão, tem foco na sustentabilidade e no produto — no Wine Bar da propriedade são agora servidos “pratos de conforto sazonais, frescos e simples”, além da oferta já existente de provas de vinho, azeite e cerveja artesanal.

António Roquette, Gestor de Operações do Esporão, explica o conceito: “Planeávamos há algum tempo melhorar e alargar a oferta gastronómica do nosso Wine Bar. Queríamos estar disponíveis para receber grupos mais alargados neste espaço mais descontraído, ao mesmo tempo que nos tornamos ainda mais sustentáveis e eficientes. É um espaço novo onde podemos aproveitar os ingredientes frescos, e na sua totalidade, que chegam diariamente às nossas cozinhas. A sazonalidade, os ingredientes disponíveis no momento e a criatividade da equipa de cozinha estão na base do menu, que pode mudar todos os dias”.

Os pratos actuais passam por exemplos como “Peixinhos da nossa horta”, que tanto podem ser de feijão verde, como de curgete, pimento ou couve-flor; o “Escabeche do campo”, cujas possibilidades vão do pato, ao frango ou coelho, a “Salada de beterraba” acompanhada por ameixas, pêssegos ou dióspiros dependendo da época, ou os “Croquetes” e a “Pá de Borrego” assada lentamente no forno, que nos permitem a utilização de animais no seu todo. Mas ao domingo e à segunda-feira, dias em que o restaurante está encerrado, o Esporão desvenda que “podem haver surpresas provenientes directamente do menu do restaurante”.

O Wine Bar — cujo menu completo, com preços, pode ser consultado AQUI — está aberto todos os dias, entre as 12h30 e as 15h30, e os preços poderão variar entre 5 euros e 25 euros. Aconselha-se reserva prévia através do e-mail reservas@esporao.com ou do telefone (+351) 266 509 280.

Alentejo: De Santa Vitória, com Beja à vista

Santa Vitória

Em visita à Santa Vitória, o produtor alentejano apresentou cinco novidades vínicas e dois azeites, estes últimos de qualidade virgem extra, sendo um de agricultura biológica. O conjunto de vinhos compôs-se dum espumante e quatro tranquilos: dois brancos, um rosé e um tinto, com destaque para o Verdelho, uma novidade absoluta.  Texto: João Barbosa    […]

Em visita à Santa Vitória, o produtor alentejano apresentou cinco novidades vínicas e dois azeites, estes últimos de qualidade virgem extra, sendo um de agricultura biológica. O conjunto de vinhos compôs-se dum espumante e quatro tranquilos: dois brancos, um rosé e um tinto, com destaque para o Verdelho, uma novidade absoluta.

 Texto: João Barbosa     Notas de Prova: Mariana Lopes    Fotos: Santa Vitória

A ondulação suave do Baixo Alentejo engana a vista da distância. Olhando, das vinhas de Santa Vitória, Beja figura-se estar já ali, com o seu castelo que ainda domina o campo. Por vezes, nos dias nítidos e em que o céu e a terra ficam mais contrastados, parece bastar esticar o braço para alcançar a torre do século XIV.

Só que o “já ali” é relativo, especialmente quando se percebe que a distância é a mesma de Lisboa a Cascais ou do Porto a Santa Maria da Feira, rondando os 30 quilómetros. De algum modo, ainda com exagero, poder-se-á dizer que há uma ilusão de óptica. É bonito de se ver.

Os barros de Beja são famosos, reconhecidos quando o trigo dominava a paisagem. A água do sistema de Alqueva trouxe o regadio e novas culturas à região. Todavia, para tantas pessoas, as searas, ora verdes, ora amarelas, são ainda os verdadeiros bilhetes-postais.

A água é importante no Baixo Alentejo e não é diferente em Santa Vitória – nome tirado de freguesia do concelho de Beja – que é a última propriedade do perímetro de rega de Alqueva. Uma sorte nos anos de chuva escassa, como aconteceu no ano agrícola de 2021/2022.

O enchimento do lago começou sensivelmente quando o Grupo Vila Galé investiu na concretização da Casa de Santa Vitória, designação que seria abreviada nos rótulos em 2019, ficando somente a referência à virgem católica que foi martirizada no ano de 249. Nos 1.260 hectares espalhados por cinco herdades, compradas em 2001, convivem o empreendimento hoteleiro, instalações industriais, vinhas, olivais, pomares e floresta – o montado ocupa a maior parte do espaço, abrangendo cerca de mil hectares.

A composição do domínio – constituído com a soma das herdades de Faleira, Faleira Grande, Figueirinha, Malhada e Vilar – será mexida. No espaço de um ano, vai haver alterações, tanto em construção quanto ao cultivo da vinha. O pomar tem pera-rocha, ameixa, nectarina e pêssego – daí não vai passar, nem na variedade das árvores nem em área. A fruta desses 95 hectares vai alguma para os hotéis do grupo, mas a maioria é vendida, através de empresas fruteiras, noutros países. Entre o que existia e o que anteriores proprietários projectavam, o Grupo Vila Galé mudou muita coisa. O campo de golfe não avançou, desistiu-se do couto e acabou a ganadaria brava, que tinha uma pequena praça de touros. Porém, o semental não se foi embora, vive com “meia dúzia de namoradas”, diz Tomás Pires, director do hotel. De antigamente, ficaram também gamos e veados. A vedação tem competência relativa, pois os animais selvagens saltam-na com frequência.

Santa Vitória
Patrícia Peixoto, enóloga de Santa Vitória.

A TERRA E O VINHEDO

 Em produção, estão plantados 127 hectares de vinha, com dez castas tintas e seis brancas. As vinhas estão divididas em três parcelas, com as castas em talhões. Nos 52,45 hectares da Vinha da Mina há variedades das duas cores. Os 23,37 hectares da Vinha da Encosta e os 51,77 hectares da Vinha de Albernoa têm plantadas apenas cultivares escuras. “O terroir é muito homogéneo”, informa Patrícia Peixoto, responsável pela enologia. O chão é xisto-argiloso – ondulado a cerca de 280 metros de altitude. O clima, bem quente, do Baixo Alentejo tem de ser vigiado de perto para que seja domado. “Quem prova os nossos vinhos não se engana. Diz que são alentejanos, mas com elegância. Evitamos o excesso de álcool, o excesso de suavidade e a falta de acidez”, refere.

As primeiras vinhas foram plantadas no final da década de 90, mas a área era pequena. Assim, logo em 2002 começou a ampliação. “A primeira produção foi em 2003. Não foi feita aqui, não havia adega. A primeira vez que a adega laborou foi em 2004. Começámos, muito humildemente, com um crescimento orgânico, à medida das nossas necessidades”, salienta Patrícia Peixoto. No início foram 200 toneladas de uva; hoje, serão 1.200, estabilizando por aqui.

Presentemente, a produção assenta nas castas tintas Alfrocheiro, Alicante Bouschet, Aragonez, Baga, Cabernet Sauvignon, Merlot, Syrah, Tinta Caiada, Touriga Nacional e Trincadeira. E nas brancas Antão Vaz, Arinto, Chardonnay, Sauvignon Blanc, Verdelho e Viosinho. Nesta fase, chegou o momento de reestruturar. Há plantas com pouca produção e áreas com falhas. A intervenção vai desde a renovação até ao plantio de novas castas, envolvendo um total de 20 hectares. Agora, entram a branca Cerceal e as tintas Castelão, Touriga Franca e Tinta Miúda. No entanto, a intervenção envolve também as Alicante Bouschet e Syrah, que serão reforçadas. Este ano foi plantada uma área de 5,5 hectares, em sequeiro e modo de produção biológico, com Alvarinho, Petit Verdot e Touriga Franca. No redesenho, as vítimas serão a Tinta Caiada e a Alfrocheiro, “que não acrescentam grande coisa para os nossos vinhos”. Patrícia Peixoto realça a escolha da Castelão, variedade que não é estranha ao Alentejo. “Achamos que se vai adaptar muito bem, pode trazer mais alguma frescura”.

A vindima de 2021 vai ficar na memória. “É um ano difícil de igualar. Como este ano que passou, registo o de 2019. Tivemos grande homogeneidade e equilíbrio em termos de maturação, não tivemos de corrigir mostos. As análises eram perfeitas, pareciam vinhos acabados. É muito difícil conseguir isto. A natureza foi a nossa maior aliada”, sublinha a enóloga.

A vindima é sobretudo mecânica, mas para os vinhos premium a apanha é feita à mão, com as uvas levadas para a adega em caixas para 25 quilogramas. Reduzida é igualmente a pisa a pé. As uvas, quando chegam à adega, vão para a mesa de escolha. A partir daí começam a construir-se mais opções de destino.

14 VINHOS NO PORTEFÓLIO

  gPatrícia Peixoto sublinha a preocupação de conseguir um perfil de elegância e frescura, cumprindo a individualidade das castas e o carácter do terroir. “São vinhos que respeitam o Alentejo e a fruta. Pouca intervenção, porque a uva sendo boa não tem grandes segredos. Claro que alguns vinhos vão à barrica, mas não queremos que a madeira seja a vencedora. Queremos gama de vinhos muito elegantes, muito a puxar à fruta e às castas”. A enóloga realça que querem estabelecer, em cada gama, “preços muitos justos, com uma qualidade sempre a surpreender as expectativas do consumidor, mas tentando manter sempre perfil da casa”.

A gama não é tão pequena quanto isso, mas também não é muito vasta. O portefólio é composto por 14 vinhos. Na base estão os Versátil, disponíveis em branco, rosé e tinto. Seguem-se os Seleção, também com as três cores. Os rosados não estão nos Reserva e Grande Reserva. Ao monovarietal de Touriga Nacional juntou-se o de Verdelho e o espumante é aposta para reforçar.

Como certamente acontece na maioria das famílias, nos vinhos também há alguns com características de personalidade mais incomuns. Em Santa Vitória é o Inevitável, o topo da gama. “Aqui não temos respeito por nada, não há perfil a imitar ou procurar. Basicamente, são sempre as melhores uvas, das melhores castas daquele ano”, diz Patrícia.

O Inevitável é sempre tinto, sem castas fixas e só vem ao mundo em anos de excelência. A edição de Inevitável de 2019 fez-se com Alicante Bouschet e Trincadeira, um casamento inédito na casa. Na calha está o 2020, já engarrafado, e cuja formulação está, por agora, em segredo. A enóloga não descarta a hipótese de novos monovarietais. “É possível. Há duas castas em que acredito muito, que têm muito potencial e que já tivemos como monocasta. Foram edições limitadas, que não voltámos a fazer. Mas poderá haver, de novo, Syrah e Alicante Bouschet”.

BRACARENSE ALENTEJANA

 Patrícia Peixoto nasceu e cresceu em Braga – ainda é apanhada pelo sotaque, mas às vezes as palavras saem-lhe com alguma tonalidade alentejana. Isso é natural, pois quase toda a sua vida profissional tem sido passada no Alentejo. Licenciou-se em Enologia, em 2002, na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. O primeiro emprego foi na Adega Cooperativa da Covilhã, onde esteve cerca de dois anos. Passou pela Solouro e pela Enoport antes de entrar para a equipa de Santa Vitória.

Chegou a Beja há 16 anos, quando Bernardo Cabral era o responsável pela enologia, para a vindima de 2006. “Eu era assistente dele. Fazia tudo o que era controlo de qualidade, analítico, microbiológico e apoiava na produção. Entretanto, ele passou para um regime de consultor e fiquei como directora técnica, em 2012. Há mais de um ano saiu definitivamente e fiquei sozinha”.

Em 16 anos muita coisa pode mudar, e mudou. No início, a empresa produzia praticamente só para os hotéis Vila Galé. Hoje, o Grupo Vila Galé absorve entre 25% e 30% da produção, mas Santa Vitória também trabalha o canal Horeca, tem distribuidores, supermercados e clientes individuais, que adquirem quer nos empreendimentos, quer através da loja online. Patrícia Peixoto realça que, pela ligação ao turismo, há uma importante comunicação com os clientes. “Os consumidores de Lisboa e do Algarve têm perfis muito diferenciados. A parte boa é que temos vinhos para todos os gostos e tipos de consumidor”. Patrícia Peixoto destaca a importância, para o reconhecimento da marca Santa Vitória, dos vinhos mais ambiciosos, com estágio em barrica e que exigem “outro tempo, outro momento à mesa, para serem apreciados”. A enóloga exemplifica: “o Reserva Branco é uma novidade, nunca tinha sido feito. O vinho teve uma aceitação fantástica”.

Santa Vitória não trabalha apenas com madeira nova. O uso é optimizado, passando pelas várias referências a partir do Seleção. As barricas novas estão reservadas aos vinhos de topo, “No Grande Reserva posso pôr um bocadinho de barrica de segundo ano”, refere Patrícia Peixoto, “mas o Inevitável estagia a 100% em barricas novas”.

AZEITES, DOCE E PICANTE

 O olival ocupa 195 hectares, estabelecido em modos super-intensivo, intensivo e tradicional. O olival tradicional, em sequeiro, tem apenas 7,19 hectares. É formado por árvores centenárias da variedade Galega e daí saiu o primeiro azeite biológico da casa, agora colocado no mercado.

Antes de 2019, o azeite era produzido noutro lagar. Desde então, é tudo trabalhado na propriedade. Santa Vitória faz actualmente dois azeites; um virgem extra e outro virgem extra biológico. O Premium tem um sabor a verde, picante e amargo. Já o Biológico tem doçura da fruta mais madura, embora se sinta algum picante.

No conjunto de olival existem sete cultivares, sobretudo Cobrançosa, mas também Arbequina, Arbosana, Cordovil, Galega, Koroneiki e Picoal. A colheita das árvores em sebe é 100% feita mecanicamente. Já as oliveiras de copa, mais pesadas, são trabalhadas com vibrador, sendo que a fruta cai para panos, evitando o contacto directo com o solo.

A apanha da azeitona começa na segunda quinzena de Outubro, “quando ainda é dia”, refere Tomás Jónatas. O oleólogo informa que a colheita vai até Dezembro, o que obriga a trabalho mais exigente. “Em Dezembro já chove; há lama e a azeitona vem mais suja. É lavada, passa por uma ventilação para retirar essa água, é encaminhada para uma balança. Fica armazenada temporariamente, no máximo de oito ou 12 horas”, diz. As azeitonas são processadas quase sempre por ordem de chegada, com atenção ao estado de maturação e à variedade, refere Tomás Jónatas. São trituradas em moinhos de martelo, a massa de azeitona é encaminhada para a sala de extracção. A extracção a frio faz-se entre 25 a 26ºC por um período de até 45 minutos, ao ritmo de 400 Kg por hora. Contudo, a empresa aproveita tudo, sublinha Tomás Jónatas: “minimizar o desperdício de gordura é um ganho para o lagar”. O bagaço ainda contém 3% de gordura, mas a qualidade é menor, situa-se nos virgens ou até lampantes. Para estes azeites – vendidos a granel – o tempo e o modo de laboração são bem diferentes face aos virgem extra. A massa é batida até mais de duas horas, a cerca de 40ºC. O caroço serve para aquecer a caldeira industrial. “Precisamos de muitos graus celsius para aquecer 4000 quilos de massa. Tem de se ter capacidade de aquecer a água a 90 graus”, informa o oleólogo. Depois, tudo o que sobra é vendido como biomassa ou para alimentação animal.

TURISMO E VINHO

Santa Vitória realiza visitas guiadas de manhã e tarde, durante a semana, e só de manhã, ao fim-de-semana. Há percursos focados no azeite, com visitas ao olival e ao lagar. A experiência culmina com uma demostração culinária, orientada pelo chef Romão Reis, com refeição. A componente hoteleira (Vila Galé Clube de Campo) foi renovada em 2014 e disponibiliza 81 quartos. As actividades vão do enoturismo ao ecoturismo. Uma das atracções é a equitação: um garanhão e quatro éguas, de raça puro-sangue lusitano, vivem no campo. Em estábulo estão duas fêmeas frísias, que são de fácil montada, e um casal de burros mirandeses para passeios.

Afastadas, entre si e do actual hotel, vão surgir duas unidades, com abertura prevista para 2023, com conceitos diferenciados. Um só para crianças, com 80 quartos, e outro só para adultos, de apenas seis alojamentos. Os miúdos não vão estar, propriamente sozinhos, mas é-lhes dada a primazia de serem os responsáveis em várias vertentes, nomeadamente o check-in e a saída, indica o responsável da hotelaria.

E é hora de voltar aos vinhos. Em visita a Santa Vitória, o produtor apresentou cinco novidades vínicas e dois azeites. O conjunto de vinhos compôs-se de um espumante e quatro tranquilos, brancos, rosé e tinto: Santa Vitória Seleção branco 2021, rosé 2021 e tinto 2020; Santa Vitória Verdelho 2021; e Santa Vitória Espumante 2018 (cuja nota de prova sairá em edição futura).

O Seleção branco é feito de Arinto e Verdelho, enquanto o rosé usa Alfrocheiro e Baga. Já o tinto fez-se com Aragonez e Touriga Nacional e estagiou nove meses em barrica. Barrica essa que não entra no Verdelho para preservar a pureza aromática da casta. Finalmente, o espumante Blanc de Noirs fez-se com uvas Arinto e Baga, colhidas em 2018, e foi elaborado pelo método clássico, com dois anos de estágio “em cave”.

Com vinhos, azeites, fruta, floresta, turismo, hotel, restaurante, Santa Vitória é uma propriedade diversa e polivalente, com imensos polos de interesse. Ali, no coração do Baixo Alentejo, com Beja à vista.

(Artigo publicado na edição de Julho de 2022)

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Amphora Wine Tour: Rocim leva visitantes em roteiro do Vinho de Talha

Amphora Wine Tour

Depois do Amphora Wine Day — evento anual que celebra o Vinho de Talha, tradição no Alentejo com mais de 2 mil anos — a Herdade do Rocim surge com o Amphora Wine Tour, um roteiro enoturístico que, só em Maio e Julho deste ano, já levou dezenas de enófilos e curiosos a conhecer vários […]

Depois do Amphora Wine Day — evento anual que celebra o Vinho de Talha, tradição no Alentejo com mais de 2 mil anos — a Herdade do Rocim surge com o Amphora Wine Tour, um roteiro enoturístico que, só em Maio e Julho deste ano, já levou dezenas de enófilos e curiosos a conhecer vários produtores de Vinho de Talha, entre a Vidigueira e Cuba.

Segundo o produtor da Vidigueira, esta é “já uma das atividades de enoturismo que mais procura tem tido por parte dos visitantes da Herdade do Rocim”, e é por isso que a empresa anuncia, agora, que esta actividade que “celebra o terroir e a cultura que dá origem ao Vinho de Talha português” é para continuar.

O programa, personalizável consoante quem o procura, não se esgota apenas na visita em si: das provas de vinhos, passando pelas harmonizações com os menus vínicos, as buchas ou tábuas alentejanas, às experiências nas vinhas, a Amphora Wine Tour é bastante abrangente, destinando-se a grupos maiores ou mais pequenos. Com valores que oscilam entre os €95 e os €125 por pessoa, dependendo do número de participantes, as marcações podem ser feitas através do endereço de e-mail enoturismo@herdadedorocim.com.

Pedro Ribeiro, enólogo e diretor-geral da Herdade do Rocim, sublinha que “estando na região com maior tradição do Vinho de Talha em Portugal, a Vidigueira, onde se produz este vinho há mais de 2000 anos, acreditamos que faz todo o sentido organizar eventos que celebrem o uso de ânforas. Acreditamos também que há aqui um extraordinário potencial para dar ao mundo do vinho, e os números têm-nos mostrado isso mesmo”.