QUINTA DO QUETZAL: A celebração do vinho através da arte

Quinta do Quetzal

A ideia da celebração do vinho através da arte não é nova, mas é sempre de saudar. Pela primeira vez, em 1924 e, mais tarde, a partir de 1945, o ano da Vitória, o icónico Château Mouton – Rothschild comemora a união da arte com o vinho, convidando grandes artistas mundiais a criarem uma obra […]

A ideia da celebração do vinho através da arte não é nova, mas é sempre de saudar. Pela primeira vez, em 1924 e, mais tarde, a partir de 1945, o ano da Vitória, o icónico Château Mouton – Rothschild comemora a união da arte com o vinho, convidando grandes artistas mundiais a criarem uma obra de arte para os rótulos. Francis Bacon, Joan Mirò, Marc Chagall, Salvador Dalì, Pablo Picasso e Andy Warhol, por exemplo, contribuíram para a criação do mito do mais famoso Château de Bordéus. Vietti, em Itália, por seu turno, também veste os seus vinhos com rótulos desenhados por artistas de renome desde 1974. A ideia surgiu à volta de uma garrafa de Barolo Rocche, juntamente com uns amigos. Incrível como os grandes vinhos podem ser inspiradores, não é?

Também os rótulos do produtor siciliano Donnafugata são facilmente identificáveis em qualquer prateleira do mundo, onde belas figuras femininas da Sicília são desenhadas pelo ilustrador Stefano Vitale (Dolce & Gabbana), num estilo miniatura, entre arte naif e linguagem de conto de fadas, e sempre com cores tipicamente sicilianas.

Do mundo para o Alentejo, a Quinta do Quetzal traduz-se num dos produtores nacionais a expressar uma visão muito particular em relação à arte. A propriedade situa-se no coração da região, nas encostas da Vidigueira. Está localizada nas imediações da mais antiga adega romana do Sudoeste da Península Ibérica. O microclima e as colinas criam as condições ideais para um terroir único, contrariando a típica propriedade alentejana. Os solos xistosos, as diferentes exposições solares e altitudes, permitidas pela morfologia em colina, e as áreas plantadas com vinhas velhas, formam uma combinação única num cenário habitual de planície da referida região.

A estética da Vidigueira

Soalheiro e quente, o Alentejo apresenta, por vezes, algumas nuances. O facto de a Quinta do Quetzal estar no sopé Sul da Serra do Mendro beneficia de ventos frescos veiculados por esta extensão montanhosa desde o Oceano Atlântico. Estas condições, que se traduzem em elevadas amplitudes térmicas diárias, dão às plantas o calor que precisam, para amadurecer as uvas, e as temperaturas frescas, para recuperarem. A qualidade, aliada a um trabalho de enologia alicerçado na experiência e no conhecimento profundo de cada planta, que compõe os 52 hectares de vinha, permite produzir vinhos que expressam verdadeiramente o carácter da região.

Como elemento fundamental da experiência Quetzal, foi criado de raiz o edifício, onde estão instalados o restaurante, a loja e o Centro de Arte. O xisto, que reveste as paredes, destaca-se e integra-se simultaneamente com fluidez na paisagem envolvente. Já o espaço circundante foi concebido para incorporar plantas nativas naturais, de modo a maximizar a experiência do habitat natural do Alentejo.

Cees e Inge de Bruin são coleccionadores e patrocinadores de arte contemporânea. Mantêm, há mais de 40 anos, juntamente com a família, uma forte ligação a Portugal. O projecto da Quinta do Quetzal expressa a sua paixão pela cultura, natureza, gastronomia e pelos vinhos portugueses que desejam partilhar. Todos os anos, em colaboração com a filha, Aveline de Bruin, organizam uma nova exposição na propriedade, tendo como ponto de partida o acervo privado da família, a Colecção de Bruin-Heijn, e as ligações ao mundo da arte.

‘Under the Mountain’

Esta ligação à arte transpõe-se para o vinho. A primeira edição do Arte tinto, lançada em 2021, contou com a colaboração da artista Müge Yilmaz, autora de “A Deusa da Colheita”, obra que hoje em dia vive no coração da vinha. Recentemente, a Quinta do Quetzal apresentou a segunda edição do Quetzal Arte tinto 2022, que nasce da parceria com o artista belga Kasper Bosmans. Para desenhar o rótulo desta nova colheita, inspirou-se no mural de sua autoria, intitulado ‘Under the Mountain’ e criado especificamente para a Quinta do Quetzal, o qual é parte integrante e permanente do seu espaço arquitectónico.

O imenso mural site-specific, com camadas de significados ocultos, cores terrosas profundas e inúmeros símbolos, ecoa as colinas e os vinhedos que se vislumbram através das janelas, também elas imensas, da sala do restaurante, funcionando como a representação de uma narrativa histórica imaginária, que vai desde a introdução das vinhas, feita pelos Romanos naquela região, até pormenores da actualidade. Tudo se mistura numa amálgama de significados, antigos e contemporâneos, pessoais e universais, convergindo numa reflexão única e multifacetada sobre a complexidade do mundo. Assim, cada garrafa torna-se uma extensão da sua obra, permitindo-nos trazer para casa um pedaço da criação artística.

Paralelamente, foi também criada uma caixa de coleccionador, edição limitada de apenas 100 exemplares. Esta é constituída por três garrafas do Quinta do Quetzal Arte tinto 2022 e uma serigrafia original inspirada no mural ‘Under the Mountain’ estampada no interior da tampa da caixa, com o respectivo certificado assinado e numerado pelo artista. “Cada vinho é uma interpretação distinta da Vidigueira, onde a frescura, a precisão e a estética se combinam para criar vinhos genuínos, elegantes e de carácter moderno. Os vinhos Arte são o reflexo do território através do olhar da arte, vinhos que se distinguem pela harmonia, subtileza e autenticidade, que revelam o Alentejo de hoje”, declara Reto Jörg, administrador da Quinta do Quetzal.

Fernando Pessoa disse um dia: “a arte descreve as coisas como são sentidas, como se sente que são’.

Se pararmos e pensarmos um pouco, talvez toda esta ligação umbilical entre arte e vinho, com representação física na Quinta do Quetzal, e estas edições Arte, sejam, precisamente, a maneira como a família de Bruin sente a Vidigueira, o Alentejo, Portugal e o mundo. Se calhar, é mesmo!

(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2026)

 

ADEGAMÃE: Três brancos para celebrar 15 anos

AdegaMãe

Diogo Lopes, enólogo, e Bernardo Alves, proprietário e Director-Geral, depressa se deram conta, no entanto, que aquele terroir de Torres Vedras, favorecido pelos ventos húmidos do Atlântico, reunia condições únicas para a produção de grandes vinhos brancos e a mudança de rumo não tardou a fazer-se. Não que a empresa tenha desistido de produzir vinhos […]

Diogo Lopes, enólogo, e Bernardo Alves, proprietário e Director-Geral, depressa se deram conta, no entanto, que aquele terroir de Torres Vedras, favorecido pelos ventos húmidos do Atlântico, reunia condições únicas para a produção de grandes vinhos brancos e a mudança de rumo não tardou a fazer-se. Não que a empresa tenha desistido de produzir vinhos tintos, mas encontrou outros terrenos para o fazer do outro lado da serra de Montejunto, perto de Alenquer, que protege a vinha da excessiva influência marítima e permite colher uvas mais maduras e conseguir tintos com maior concentração.

Passada essa aprendizagem inicial, por volta do ano 2010, construída a bonita e funcional adega, a empresa concentrou-se na produção de brancos. Não se estranha, por isso, que, para comemorar a marca histórica de 15 anos de actividade, com a devida pompa e circunstância, a AdegaMãe tenha resolvido fazê-lo com o lançamento de três brancos, dois dos quais absolutas novidades que ampliam o portefólio da casa.

Isso mesmo foi reconhecido por Bernardo Alves: “este lançamento simboliza o amadurecimento natural de um sonho familiar. Quinze anos depois, conseguimos unir rigor técnico, identidade e emoção num vinho que representa o melhor do nosso percurso e aquilo que queremos continuar a construir.” Estas palavras antecipavam a surpresa maior que estava reservada aos jornalistas e parceiros convocados para o almoço de apresentação no restaurante Kabuki. Diga-se de passagem, que a escolha do local não foi inocente, já que os vinhos provados, comprovaram a especial apetência para harmonizações com cozinhas de inspiração oriental, como era o caso.

O AdegaMãe branco Especial, é desse que falamos, é um projecto ambicioso e singular. Não apresenta ano de colheita e resulta da combinação de barricas consideradas excepcionais, com vinhos de várias vindimas tidas como exemplares. Diogo Lopes, mestre na arte de lotear, considerou os brancos das colheitas de 2017, 2019, 2020 e 2021para criar este vinho, cuja produção encheu as pouco mais de 1000 garrafas que compõem a primeira versão desta nova referência. “O branco Especial é a consolidação de tudo o que aprendemos sobre a arte do blend e sobre a evolução dos nossos brancos atlânticos. Só é possível fazer um vinho destes com colheitas únicas e… com muita paciência”, confessou Diogo Lopes, rematando com a seguinte frase: “O tempo é o grande protagonista deste projecto”. Revelador de um acentuado carácter e grande profundidade, este branco Especial teve origem em vinhos longamente estagiados em barricas de carvalho francês de 400 litros, cuidadosamente seleccionadas, alguns dos quais por mais de cinco anos. Por essa razão, o lote apresenta um perfil evolutivo a que não falta uma grande nobreza.

A par com este novo topo de gama da casa, a ocasião serviu anda para apresentar mais dois brancos que reforçam a expressão atlântica da AdegaMãe. Foi o caso do AdegaMãe Terroir branco 2018, produzido a partir das castas Viosinho e Arinto, resultante de um ano de estágio em barrica e de cinco em garrafa. Na linha de edições anteriores, mantém o perfil aromático acentuadamente mineral e de grande complexidade. A influência atlântica nota-se sobretudo na frescura, mercê de uma acidez vibrante a que não falta elegância e equilíbrio.

Novidade foi também o lançamento de um novo vinho varietal da AdegaMãe. Depois das bem-sucedidas experiências com as variedades Viosinho e Riesling, é agora colocado no mercado a primeira edição feita a partir da casta Gouveio, da colheita de 2024. Este vinho nasce de uma vinha experimental, onde são observadas diversas castas e onde esta variedade revelou aptidões que convenceram os responsáveis da AdegaMâe a lançá-la a solo. Totalmente fermentado em inox, esteve sujeito a batonnage durante seis meses. Em boa hora o disponibiliza ao consumidor, porque o vinho revelou-se muito versátil, com grande valia gastronómica ao harmonizar com pratos de sushi e mariscos. De edição limitada, este Gouveio 2024 apenas está disponível na loja da AdegaMãe ou na loja digital.

Com o rumo bem definido, estas novas referências comprovam o compromisso da AdegaMãe em aprofundar e respeitar a identidade atlântica.

(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2026)

 

QUINTA DOS LOIVOS: A promessa de uma nova estrela no Douro

Loivos

Se a isso juntarmos a ambição de ali, em Casal dos Loivos, erguer-se, em breve, uma adega e, a partir de Abril, um restaurante de referência com assinatura de um chefe com pergaminhos, de nome Vitor Adão, a que se seguirá, mais tarde, um hotel de charme, ficamos com a ideia que vontade e ambição […]

Se a isso juntarmos a ambição de ali, em Casal dos Loivos, erguer-se, em breve, uma adega e, a partir de Abril, um restaurante de referência com assinatura de um chefe com pergaminhos, de nome Vitor Adão, a que se seguirá, mais tarde, um hotel de charme, ficamos com a ideia que vontade e ambição não faltarão para ali estar, a breve prazo, um dos spots mais mediáticos do Douro. Esta é afinal uma pequena jóia com capitais brasileiros, por um lado, e a criatividade portuguesa, por outro, alicerçada numa meia dúzia de profissionais com provas dadas na região, tornaram possível concretizar em relativamente pouco tempo – foi há poucos meses que comecei a ouvir a experiente Ana Mota falar, com um entusiasmo de menina, sobre o novo projecto em que mergulhou de corpo inteiro.

Hoje, como directora de operações e responsável pela viticultura da Quinta dos Loivos, de 12 hectares, dos quais sete são vinha, sente-se no brilho dos seus olhos o quanto esta tarefa a entusiasma: “É um desafio apaixonante, um investimento de enorme qualidade, único e cativante.” Não está sozinha. Jorge Alves, enólogo consultor, volta a trabalhar na mesma equipa e partilha do entusiasmo: “A Quinta dos Loivos é um projecto emblemático. A altitude, o xisto, o microclima, tudo se junta para criar vinhos únicos.” Jorge Alves conta com o apoio de Adriana Covas, na função de enóloga residente. Por trás, tiveram a vasta experiência no Douro de Bruno Simões, como Business Developer, que concebeu o projecto e resumiu num parágrafo aquilo que o cativou: “A paisagem da Quinta dos Loivos é inigualável – uma visão circular sobre o Douro, onde o rio se revela em três direcções. Do ponto mais alto, junto a um antigo marco militar, vemos seis ou sete concelhos e sentimos o Douro em toda a sua dimensão.”

Produções limitadas

Na mente dos responsáveis, conforme foi insistentemente referido, esteve sempre a preocupação na conservação do riquíssimo património natural que a propriedade usufrui. Neste sentido, uma das grandes mais-valias da Quinta dos Loivos são as vinhas velhas, algumas delas centenárias, plantadas em solos de xisto muito duro e com grande inclinação, que obrigaram a um paciente e demorado trabalho de identificação das castas, operação que contou com a colaboração do viticultor António Magalhães. O resultado desta pesquisa foi surpreendente, na medida em que foram identificadas 74 variedades, o que dá bem a ideia do potencial que a propriedade encerra.

Os vinhos que foram dados a provar à imprensa especializada nesta primeira apresentação, decorrida no restaurante Plano, em Lisboa, dão algumas pistas sobre o que se pode esperar no futuro. Ainda com produções muito limitadas e com recurso a uvas compradas à produção, no caso dos vinhos de entrada de gama, nota-se o fio condutor que norteia o projecto. A marca Venera, constituída por seis vinhos com as gamas Colheita, Reserva e Grande Reserva compreendem as versões branco, rosé e tinto, e chegam ao mercado com uma tipologia de preços bem definida: cerca de 13€ para os Colheita, 30€ para os Reserva, e 40€ para os Grande Reserva.

Já os três vinhos apresentados com a chancela Quinta dos Loivos são produzidos exclusivamente a partir de vinhas próprias, em quantidades muito limitadas (na ordem das centenas de garrafas) e obedecem a um critério curioso e pouco frequente: são lotes feitos, não tanto a partir das suas castas – quase sempre vinhas velhas com variedades misturadas –, mas a partir da orientação solar das várias parcelas da quinta. Assim temos o Loivos Nascente, elaborado com uvas vindimadas nas vinhas voltadas para Leste; o Loivos Poente, de uvas colhidas nas vinhas viradas a Oeste; e o Loivos Sul, onde as vinhas acabam por ter o maior tempo de exposição solar. Esta opção reflecte-se necessariamente no perfil dos vinhos, embora o padrão qualitativo, muito alto, diga-se, não registe alterações significativas.

A expectativa criada é grande e será, por certo, interessante verificar até que ponto, no futuro, com a produção dos vinhos a entrar em modo standard, a qualidade agora apresentada se manterá quando as quantidades produzidas forem substancialmente aumentadas. Arrojo, competência e recursos não faltam para atingir esse desiderato.

 

Os três vinhos com a chancela Quinta dos Loivos são produzidos exclusivamente a partir de vinhas próprias e em quantidades muito limitadas

 Loivos

(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2026)

 

 

QUINTA DA FONTE SOUTO: A descoberta dos brancos

Fonte Souto

A viagem da Symington Family Estates – profundamente enraizada no Douro – para o Alentejo levou 135 anos, e não foi em vão. Numa estratégia de diversificação regional, a zona de Portalegre não foi escolhida por acaso. É aquele Alentejo que, contrariando o nosso imaginário colectivo, fica a norte de Lisboa. Está bem mais perto […]

A viagem da Symington Family Estates – profundamente enraizada no Douro – para o Alentejo levou 135 anos, e não foi em vão. Numa estratégia de diversificação regional, a zona de Portalegre não foi escolhida por acaso. É aquele Alentejo que, contrariando o nosso imaginário colectivo, fica a norte de Lisboa. Está bem mais perto de Espanha do que da costa, onde a continentalidade do clima aliada à altitude, entre os 490 e os 550 metros, providenciam uma frescura natural e maior amplitude térmica, mas sem ondas de calor superior a 45° C. As noites bem frescas, mesmo no verão, promovem uma maturação mais lenta e homogénea. “Isto permite esperar pelas uvas e, logo na vinha, fazer uma selecção através de várias passagens”, explica Ricardo Constantino, o enólogo residente da propriedade.

A Symington Family Estates adquiriu a propriedade a João Lourenço (outrora Altas Quintas), em 2017. O negócio incidiu apenas sobre a quinta e a vinha, sem marca nem stock de vinhos. À data da aquisição, dos cerca de 200 hectares da propriedade, 41 eram ocupados por vinha, maioritariamente com castas tintas, sendo apenas 2,5 hectares dedicados a variedades brancas (6% de plantação). “Comprámos esta quinta para [vinhos] tintos. Os brancos foram uma descoberta”, conta Rupert Symington, Presidente da empresa. Assim, os vinhos brancos deixaram de ser vistos apenas como um complemento do portefólio e, hoje, assumem um papel imprescindível na identidade da marca. Logicamente, tornou-se essencial aumentar a presença de castas brancas no encepamento. Entre novas plantações e sobreenxertia, a área dedicada a estas variedades atingiu os 15 hectares, correspondendo a 28% da vinha, composta por Verdelho, Arinto, Gouveio, Alvarinho e Bical, a par com duas internacionais: Viognier e Chardonnay. Nas castas tintas, contam com Syrah, Trincadeira, Alicante Bouschet, Alfrocheiro, Aragonez, Touriga Nacional, Grand Noir, Castelão, uma pequena área de 0,75 hectares com mistura de castas e ainda um pouco de Pinot Noir e de Monvedre. Esta última é uma casta do Dão, mas, em Portalegre, é conhecida como Tinta de Olho Branco, porque na altura de rebentação tem escamas brancas. “É muito ácida, tânica e rústica”, nota Ricardo Constantino.

Vindimam manualmente, uma vez que em Portalegre ainda é possível arranjar mão de obra. Praticam, desde o verão passado, a vindima noturna, o que permite que a uva chegue fresca à adega, dispensando o recurso à refrigeração e reduzindo o consumo energético. Por sua vez, a adega exigiu uma intervenção profunda. O telhado teve que ser reparado, pois “chovia dentro como se fosse na rua”, recorda Charles Symington, Director de Produção da empresa. Sem grande confiança no histórico dos balseiros existentes, optou-se pela sua substituição por cubas de inox. A zona de receção foi ampliada, no sentido de favorecer uma gestão mais cuidada da vindima. Foi recuperada a antiga adega com talhas. Contudo, para já, funciona apenas como um pequeno museu em homenagem à história da quinta e da região. Como refere o enólogo residente, na zona de Marvão ainda subsiste a tradição de se fazer vinho de talha, acção localmente conhecida como “fazer vinho em pote”.

As dificuldades e “surpresas” iniciais estão a ser ultrapassadas ao mesmo ritmo que se comprova o potencial do lugar e a qualidade dos vinhos. Para a Symington, a Quinta da Fonte Souto representa o investimento a longo prazo, um compromisso estratégico inscrito numa visão de futuro. “Não viemos cá para uns anos. Viemos para ficar muitos anos”, afirma Charles.

Mini-vertical

O Quinta da Fonte Souto branco resulta sempre de uma aliança entre Arinto, que representa cerca de 75% do lote, e Verdelho. Uma pequena prova vertical demostrou dois aspectos: a variação natural de cada colheita, própria de vinhos que procuram expressar o ano vitícola, e o processo de aprendizagem sobre as castas, as condições da Serra de São Mamede e da consequente adaptação da abordagem enológica. Na vindima inaugural de 2017, usou-se naturalmente mais barrica nova de 500 litros; em 2018 já houve barricas de segundo uso; e, em 2019 e 2023, utilizaram-se barricas de segundo e terceiro ano, com 10% e 15% do vinho, respectivamente, a estagiar em inox para preservar a frescura varietal. Também ficou claro que, no caso da casta Verdelho, determinados níveis de tosta não funcionam.

O Quinta da Fonte Souto 2017 resultou de um ano quente. “As maturações evoluíram rapidamente. Tivemos de fazer o jogo de cintura e tivemos muito menor área de brancos, na altura. Porém, mesmo assim, o resultado agradou muito e mostrou o potencial: volume, textura e frescura”, garante Charles Symington. O vinho revelou nariz com complexidade de evolução, repleto de laranja doce, tosta, especiaria, ervas aromáticas e mel; revela-se suculento, cremoso, com volume, frescura natural e leve amargo. (17)

A vindima de 2018 começou tardíssimo, devido a uma vaga de calor que atrasou o processo de maturação. “Só começámos vindimar a 12 de Setembro e terminámos em 19 de Outubro”, conta Pedro Correia, o enólogo da empresa. Dourado na cor, com aroma mais fresco, a lembrar ananás, laranja, leve flor de laranjeira, hortelã e gengíbre. Um pouco menos complexo na boca, madeira mais discreta, textura amanteigada e final salivante. (17)

Já o Quinta da Fonte Souto 2019 foi o fruto do ano ameno, com elevadas amplitudes térmicas durante os meses mais quentes e produções relativamente baixas. Uma particularidade: o vinho apresenta mais de 14% de teor alcoólico o que, na prova, não comprometeu a frescura. Novamente, sente-se a influência do ano: a videira fotossintetiza permanentemente durante o dia, mas, com noites frias, a acidez não cai tão depressa e a uva acaba por acumular bastante açúcar. Madeira menos evidente, notável complexidade com destaque para os citrinos, como laranja e tangerina, alperce e ananás; tudo muito afinado na boca. (17,5)

Segundo o enólogo residente, no ano 2023 a vindima foi muito precoce e longa. Decorreu de 7 de Agosto a 13 de Outubro. Tiveram uma semana de paragem devido à chuva e registaram um mês de diferença na maturação entre as parcelas de Arinto. Neste ano, entrou mais Verdelho no lote (35%). Ainda é muito jovem em comparação com os vinhos anteriores. Mostra-se citrino e mais vegetal, com folhas verdes, especiaria e cominhos; denso, com acidez presente e novamente a confirmar o componente vegetal, bem integrado no perfil. (17,5)

A produção do Quinta da Fonte Souto branco triplicou desde a primeira vindima em 2017, com cerca de 8.000 garrafas para aproximadamente 24.000 garrafas.

 

“Comprámos esta quinta para tintos. Os brancos foram uma descoberta”, afirma Rupert Symington

 

Ensaios de tintos

Provámos expressões monovarietais de duas castas, ambas de carácter vincado, embora manifestem comportamentos diametralmente opostos. Se o Alicante Bouschet é consistente e fiável na entrega de qualidade, o Alfrocheiro revela-se mais exigente e sensível, não tolerando bem a chuva. Como observa Pedro Correia, “nem sempre as condições se reúnem, mas quando isso acontece, dá um grande vinho”, como ficou demonstrado na prova a seguir.

Do Quinta da Fonte Souto Alicante Bouschet 2018 foram produzidas 6.267 garrafas e o vinho ainda se encontra disponível no mercado, com um PVP de €30. É uma expressão do ano mais tardio, quando era preciso esperar pelas maturações. Estágio em barricas de segundo ano, para preservar aromas varietais, escuro e opaco, groselha preta esmagada e macerada, casca de árvore fresca e vegetal doce. Cheio, denso, musculado e um pouco amargo no final a lembrar azeitona preta. (17,5)

Do Quinta da Fonte Souto Alfrocheiro 2019 foram produzidas 6.211 garrafas e esta referência está completamente esgotada (resta esperar quando as condições se reúnem novamente). Fragrante, atraente, intrigante; nuance floral bonita, cereja e ameixa, aneto e eucalipto, louro, mentol e caruma; suculento e envolvente, com fruta pura, mas também com complexidade, sedoso e sedutor. (18).

Fizeram também um Field Blend em 2020 e um monovarietal de Syrah em 2021, que ainda não se encontram em comercialização. Fica o teaser.

Taifa 2022 

Esta é a terceira edição. A primeira foi um monovarietal de Arinto, vinificado 100% em barrica nova. Este lote de 2022 combina 70% de Arinto com 30% de Verdelho, demonstrando uma notável sinergia entre as castas. Fruto de uma vindima minuciosa, realizada em várias passagens pelas mesmas parcelas, o vinho fermentou em barrica, com uma menor proporção de madeira nova (70%), de modo a realçar a fruta e conferir maior equilíbrio. Estagiou um ano em barricas de carvalho francês e húngaro e dois anos em garrafa, o que explica a sua óptima integração no momento do lançamento. Foram produzidas 3.215 garrafas e 15 em Magnum.

(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2026)

 

QUINTA DONA SANCHA: Vinho frescos e sedutores

dona sancha

A Quinta Dona Sancha apresentou num almoço, que decorreu no restaurante Pabe, em Lisboa, seis referências de vinho, de três gamas diferentes, entre as quais estiveram presentes as novas colheitas da gama Avarenta tinto e branco, o Quinta Dona Sancha Encruzado e Touriga Nacional. O Vinha Ancestral tinto de 2019 e o monocasta de Jaen […]

A Quinta Dona Sancha apresentou num almoço, que decorreu no restaurante Pabe, em Lisboa, seis referências de vinho, de três gamas diferentes, entre as quais estiveram presentes as novas colheitas da gama Avarenta tinto e branco, o Quinta Dona Sancha Encruzado e Touriga Nacional. O Vinha Ancestral tinto de 2019 e o monocasta de Jaen de 2022 foram as duas novidades absolutas.

Rui Parente, o produtor da Quinta Dona Sancha, defende que os seus vinhos já demonstram hoje uma matriz de sabores e aromas que os diferenciam

 

Pensados ao detalhe

Segundo Rui Parente, fundador do projecto e proprietário da Quinta Dona Sancha, os vinhos apresentados “foram pensados ao detalhe, para despertar lembranças e emoções”, expressando “a identidade que procuram afirmar, desde a primeira vindima”, o terroir de Silgueiros, da região do Dão. O enólogo Paulo Nunes tem sido o consultor da empresa desde o primeiro dia, contribuindo, com o seu conhecimento, e saber fazer, para a produção e comercialização de vinhos, com a frescura e elegância que os caracteriza. Rui Parente, que já o conhecia há muitos anos, ainda antes de se dedicar à produção de vinhos, já tinha encetado conversações, para que se envolvesse neste projecto antes de o iniciar.

O objectivo, desde o início, foi procurar fazer vinhos com identidade, marcados pelas características que diferenciam o terroir de Silgueiros e do Dão, “acreditando que havia espaço para colocar a região na rota do sucesso, o lugar que um território com pergaminhos históricos na produção de vinho de qualidade merece”, defendeu Rui Parente no dia do lançamento, salientando que, à sexta vindima, a empresa mostra que é uma empresa representativa daquilo que é a sub-região de Silgueiros, a quinta e o terroir. “Acabámos de os provar e a identidade da quinta nota-se em todos os vinhos”, salientou, com algum orgulho, nesse dia, defendendo que mostram “uma matriz que identifica o projecto, o que tem sido o meu objectivo de médio e longo prazo desde o primeiro dia”.

dona sancha
Paulo Nunes, enólogo consultor da empresa

50 hectares de vinha

A Quinta Dona Sancha nasceu de um sonho de Rui Parente. Os pais produziam vinhos para terceiros, sem marca, mas o empresário teve sempre esse desejo de criar um projecto próprio na Região do Dão. Talvez tenha sido essa a finalidade de iniciar o percurso no sector ainda muito jovem, lançando-se por conta própria em 2011, quando criou o seu negócio, a Cave Lusa, em Viseu, que inclui uma garrafeira e uma empresa distribuidora de vinhos.

A oportunidade de se estrear na produção surgiu em 2018, com a compra de duas propriedades que constituem, hoje, a Quinta Dona Sancha, uma referência na região do Dão situada a 12 quilómetros de Viseu, com cerca de 47 hectares de vinha e um portefólio reconhecido pela autenticidade e pela elegância dos seus vinhos.

(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2026)

SOGRAPE: Mudança dentro da tradição

Sogrape

Da ligação à região e das profundas mudanças ocorridas… No ano de 1972, deu-se a criação do projeto e, com ele, foram justapostas apenas três letras que representam as iniciais das três províncias que constituem a denominação de origem da Rioja: Logronho, Álava e Navarra (LAN). Naquela época, a Rioja assumia-se como uma zona vínica […]

Da ligação à região e das profundas mudanças ocorridas…

No ano de 1972, deu-se a criação do projeto e, com ele, foram justapostas apenas três letras que representam as iniciais das três províncias que constituem a denominação de origem da Rioja: Logronho, Álava e Navarra (LAN). Naquela época, a Rioja assumia-se como uma zona vínica de luxo controlada por um monopólio de empresas históricas assumidamente voltadas, quase exclusivamente, para os escaparates nacionais, sonhando com uma internacionalização de sucesso.

A impressão digital de então a respeito da região estava, por um lado, ligada a empresas que detinham vários andares de barricas obscurecidas pelo lento passar do tempo, nas quais envelheciam o vinho. Por outro lado, perfilava-se uma longa fileira de pequenos produtores com adegas subterrâneas constituídas, grosso modo, por um enorme tonel de envelhecimento, vários depósitos de cimento e uma estreita passagem de acesso. Era o tempo em que a maioria dos engarrafadores detinha uma pequena quantidade de vinha própria, pois era mais rentável comprar vinho às cooperativas ou aos pequenos viticultores, loteando posteriormente com vinhos que poderiam provir das três sub-regiões entretanto criadas.

A LAN adotou o princípio básico de que a vinicultura começa com o cultivo da vinha, conceito inovador na altura que se traduziu num firme compromisso com as vinhas e com o sucesso do projeto.

… até às mudanças atuais

O sucesso alcançado dentro de portas não passou despercebido no nosso país, o que levou à aquisição da Bodegas LAN em 2012, pela Sogrape. Desde então, o projeto foi reformulado tendo em vista o alinhamento com as mais recentes tendências de mercado, sem nunca perder a essência da tradição da região. A cambiante mais recente da LAN passou pela alteração da rotulagem de praticamente toda a gama. Como referiu a responsável pela marca em território nacional, “o rótulo surge agora mais limpo e surpreendente nos escaparates. Tratou-se de um exercício focado em entender o consumidor e criar vínculos emocionais baseados no quotidiano geradores de satisfação e empatia entre a marca e as pessoas”.

O projeto congrega 72 hectares de vinhedos abraçados pelo rio Ebro, nos arredores de Fuenmayor, uma zona de excelência na produção de vinhos. A extensa oferta do projeto LAN totaliza cerca de quatro milhões de garrafas e é composta por várias referências, que compreendem um rosé, um branco e sete vinhos tintos, no qual se destaca o topo de gama (Culmen) bastante apreciado pelos consumidores.

Para a apresentação dos vinhos da Bodegas LAN, o local escolhido recaiu sobre o bar de vinhos By The Wine, espaço cosmopolita e descontraído na baixa da cidade do Porto. Na carta vínica, consta toda a gama de vinhos da Sogrape, incluindo as marcas das propriedades desta empresa familiar, que estão espalhadas pelo mundo.

Sogrape

(Artigo publicado na edição de Dezembro de 2025)

QUINTA DO VALLADO: Adelaide, a imagem do Douro

Vallado

É um dia solarengo de outono e saímos da estação de Campanhã, na cidade ‘Invicta’. Dirigimo-nos ao Poente by Vallado, instalado num imponente edifício localizado em pleno centro da Ribeira no Porto, onde nos esperam o gestor João Alvares Ribeiro e os enólogos Francisco Ferreira e Francisco Olazabal, ‘altas patentes’ na estrutura do Vallado. Caprichosamente […]

É um dia solarengo de outono e saímos da estação de Campanhã, na cidade ‘Invicta’. Dirigimo-nos ao Poente by Vallado, instalado num imponente edifício localizado em pleno centro da Ribeira no Porto, onde nos esperam o gestor João Alvares Ribeiro e os enólogos Francisco Ferreira e Francisco Olazabal, ‘altas patentes’ na estrutura do Vallado. Caprichosamente recuperado, este novo projeto enoturístico da quinta vinhateira homónima do Douro contém a identificação um pouco por todo o piso térreo e cave, incluindo em bonitas bandeiras, com a habitual cor da casa. Está no coração turístico da cidade, tal como confirmámos, cruzando-nos, em poucos metros, com centenas de visitantes das mais variadas nacionalidades, ou não fosse a frente ribeirinha do Porto, efetivamente, hoje, uma Babilónia.

Sem mais delongas, este edifício pretende funcionar como um farol, sito defronte e concorrentemente aos armazéns das casas do Vinho do Porto do lado sul do rio Douro. Não se diga, porém, que, no Vallado, projeto iniciado em meados dos anos 90 do século passado, o enoturismo é uma vertente recente, bem pelo contrário. Com efeito, o Quinta do Vallado Wine Hotel na Régua há muito que tem as portas abertas, tempo ao longo do qual tem sido um sucesso nas suas ‘duas vidas’ – primeiro funcionou na casa antiga da propriedade, recuperada e adaptada à atualidade, operando, agora, num edifício moderno adjacente que mantém o bom gosto e a discrição.

A mesma discrição e qualidade, mas com maior exclusividade (são poucos os quartos), encontramos na maravilhosa unidade Casa do Rio, outro boutique hotel do Vallado, próximo de Foz Côa e que é já um marco no Douro Superior no que ao luxo rural diz respeito. Aliás, é mesmo caso para dizer que o projeto Vallado – liderado pelos já referido primos João Alvares Ribeiro e Francisco Ferreira, e, desde meados de 2023, também pela família Moreira da Silva que entrou no capital da sociedade –, esteve sempre particularmente atento ao enoturismo e bem consciente da existência de um grande número de visitantes seduzidos pelo Douro. De resto, as duas unidades hoteleiras mencionadas e a loja, na propriedade na Régua, contribuem já significativamente para a faturação e consolidação da marca.

 

Périplo vínico

Voltando à cidade do Porto, é de salientar que se tratava de um momento solene. Por um lado, com a estreia deste enoturismo na Ribeira, espaço constituído por uma loja de vinhos, pelo Wine Bar & Restaurante Poente e por duas salas de provas, uma das quais designada Sala Adelaide. Por outro lado, o motivo maior era a oportunidade de provar a décima e mais recente edição do tinto Vallado Adelaide, o pináculo produzido por esta casa na vertente DOC Douro. Sem esquecer uma coleção de cinco Portos velhos recém lançados no mercado.

Como de resto sucede com outros aspetos do Vallado, o tempo teve uma importância crucial na evolução do perfil da marca e vinho Adelaide. A esse respeito, voltemos atrás… no tempo, para recordar que os primeiros vinhos da época moderna do Vallado, já com Francisco Ferreira e Francisco Olazabal nos comandos enológicos, datam de meados dos anos 90 do século XX. Pouco depois, na entrada do milénio, foi lançado o Quinta do Vallado Reserva tinto merecedor de grande destaque pela imprensa, assim como os monocastas Touriga Nacional, Tinta Roriz e Sousão, todos sucessos junto dos enófilos. Os rosés foram aparecendo, incluindo um extreme de Touriga Nacional mantido em produção, sendo que o topo passou a ser o fantástico V rosé produzido a partir de Tinto Cão; e o mesmo se diga dos brancos, que começaram mais timidamente, mas estão, atualmente, muito bem posicionados, como demonstra a referência Vallado Reserva (excelentes as últimas edições), sem esquecer o exótico Prima, outro êxito, agora feito a partir de Moscatel Galego em versão totalmente seca.

 

Desde a primeira edição, em 2005, ou seja, desde há 20 anos, o Adelaide tinto tem como missão ser o topo de gama da marca do Vallado

 

Tempo em garrafa

Terminado este pequeno périplo pelos vinhos do Vallado que, ao longo dos anos, mais nos marcaram, voltemos ao Adelaide. Desde a primeira edição, em 2005, ou seja, desde há 20 anos, tem como missão ser o topo de gama da marca, ou seja, representar o melhor tinto do produtor, não carregasse, este vinho, o nome solene de Ferreirinha, a famosa Dona Antónia Adelaide Ferreira, de quem João Alvares Ribeiro, bem como Francisco Ferreira e Francisco Olazabal, são descendentes.

Nas primeiras edições, a referência vínica Adelaide era exclusivamente produzida a partir dos melhores lotes das vinhas mais velhas da propriedade matriz, situada junto ao Peso da Régua, e estagiava em barrica nova. Com a passagem do tempo, Francisco Ferreira foi aprofundando o conhecimento relativamente às vinhas mais antigas da Quinta do Vallado, começando a desenhar e elaboração de vinhos de uma vinha só, como o Vinha da Granja e o Vinha da Coroa. Isso fez com que o tinto Adelaide viesse a ser produzido também com recurso a uma vinha velha sita no rio Torto, a qual estava arrendada inicialmente, acabando por ser adquirida. Não admira que, desde 2005, os lotes não sejam todos iguais, além de que houve colheitas cujo estágio em barrica não foi totalmente submetido a madeira nova. Atualmente, ou melhor, desde a colheita de 2011, o Adelaide vem exclusivamente dessa vinha velha sita no rio Torto, parte centenária e parte com mais de 80 anos, tendo sido, esta última, batizada de vinha do Adelaide. Tem a particularidade – pouco comum nas vinhas velhas do Douro – de ter como casta maioritária a Touriga Franca, sendo que esta aprecia o calor característico do verão no rio Torto. O resultado traduz-se em boa concentração, grande expressão frutada e, simultaneamente, um perfil fino. A composição das castas na vinha contribui para um field blend tão específico, que, em 2026, será plantada, na Quinta do Vallado, uma réplica fiel da vinha do Adelaide, ou seja, serão plantadas as mesmas castas na exata proporção e com varas provenientes da vinha original, em alta densidade e com porta-enxerto montícola, como se fazia antigamente.

A nova colheita é a de 2017, sendo, obviamente, uma opção do produtor em lançar o vinho tantos anos depois. Nem sempre assim o foi com as anteriores edições, mas, como é bem sabido, os grandes vinhos agradecem um estágio prolongado e este tinto é mesmo exclusivo, agora também nesse aspeto. O ano de 2017 foi um ano seco – com bons vintages, não esquecer –, mas sem ondas de calor significativas, o que evitou a sobrematuração na vinha. No que releva às uvas do Adelaide, mas aconteceu um pouco por toda a região, a vindima ocorreu em agosto, cerca de duas a três semanas antes do era habitual, porque o ciclo vegetativo se antecipou, o que originou uma ligeira quebra na produção.

Palavra final para a aposta cada vez mais vincada do Vallado em vinhos do Portos velhos, em especial tawnies e colheitas. Com efeito, muitas fontes nos confidenciaram que Francisco Ferreira é um autêntico garimpeiro no Douro no que a este tipo de vinhos diz respeito, identificando e adquirindo lotes de vinhos velhos um pouco por onde eles possam existir. É algo que tem vindo a fazer há década e meia e os resultados são bem visíveis, com o Vallado a apresentar uma gama de Portos com dimensão e qualidade, para fazer frente às principais casas da região. É caso para dizer que o Vallado vai de vento em popa!

(Artigo publicado na edição de Dezembro de 2025)

KOPKE: O mais bem guardado segredo

Kopke

O prelúdio da revelação trouxe-nos três Grandes Reservas da São Luiz, a marca que a Kopke tem vindo a valorizar, sobretudo, prestando especial atenção ao património de vinhas velhas ali plantadas, algumas anteriores a 1930, e no caso dos brancos, noutra sub-região. Quinta de São Luiz Vinhas Velhas Rumilã Grande Reserva tinto 2019 e Quinta […]

O prelúdio da revelação trouxe-nos três Grandes Reservas da São Luiz, a marca que a Kopke tem vindo a valorizar, sobretudo, prestando especial atenção ao património de vinhas velhas ali plantadas, algumas anteriores a 1930, e no caso dos brancos, noutra sub-região. Quinta de São Luiz Vinhas Velhas Rumilã Grande Reserva tinto 2019 e Quinta de São Luiz Vinhas Velhas Grande Reserva tinto 2021 são os dois tintos que tiram partido do património vitícola da propriedade situada no Cima Corgo. Já o branco São Luiz Winemaker’s Collection Reserva Folgazão e Rabigato 2021 resulta de um trabalho que tem sido desenvolvido no Baixo Corgo, dada a inexistência de uvas brancas na Quinta de São Luiz. Aqui, é feita uma escolha apurada de castas brancas oriundas de produtores selecionados e, mais recentemente, da Quinta do Bairro, onde, em 2015, o Kopke Group iniciou um projeto piloto de reconversão de encepamento de tintas para brancas.

A imagem de marca da Quinta de São Luiz reflete a tradição da propriedade de caiar os muros na época da Páscoa, criando um desenho de linhas brancas, que sublinha os patamares, a horografia, prestando homenagem aos DOC Douro da Kopke. O São Luiz Vinhas Velhas Rumilã Grande Reserva tinto 2019 nasce da parcela de vinha homónima e centenária, com produções muito reduzidas, daí que esta colheita esteja limitada a apenas 1.252 garrafas. O ano proporcionou menos intensidade e concentração, o que se traduziu numa melhor perceção da frescura, elegância e até uma certa delicadeza. Nesta vinha, os procedimentos são manuais e minuciosos. A fermentação alcoólica ocorreu sem esmagamento dos bagos, usando 20 por cento do engaço, passado, depois, para barricas de 225 litros, onde fez a fermentação maloláctica. O estágio foi expressivo, traduzindo-se em dois anos em barrica e outros dois em garrafa, para dar corpo a um vinho revelador do conhecimento de que existe uma micro parcela capaz de grandes feitos.

Pequenas parcelas, grandes vinhos

A espinha dorsal do São Luiz Vinhas Velhas Grande Reserva tinto 2021 tem origem em pequenas parcelas com mais de 50 anos, exposição maioritariamente a norte, em cotas baixas (80 metros de altitude) e mais elevadas (400 metros de altitude). O ano de 2021 revelou alguma atipicidade, com um inverno bastante frio e uma primavera instável, com ocorrência de trovoadas e granizos. A vindima em São Luiz iniciou-se em agosto com temperaturas moderadas, tendo a maturação abrandado em setembro, devido à ocorrência de precipitação. Em vinhas velhas de baixíssima produção, todos os detalhes contam, pelo que a escolha do momento correto da vindima é fundamental para o resultado pretendido. A produção de apenas 2.400 garrafas resulta do facto de se realizar uma segunda triagem de uvas para a elaboração dos lotes finais. O vinho foi submetido a um estágio de 16 meses em barrica, tempo esse que lhe conferiu carácter, bem definido pela maior imposição da Sousão, casta que predomina nestas parcelas de vinhas velhas.

É do exterior da Quinta de São Luiz, e mesmo da sub-região, que chegam as uvas de Folgazão e Rabigato que compõem o Winemaker’s Collection. Não possuindo uvas brancas na propriedade, Ricardo Macedo, o enólogo dos vinhos tranquilos do Kopke Group, tem um apurado processo de seleção no Baixo Corgo das uvas destas duas castas, que melhor preenchem o perfil desejado de tensão, frescura e mineralidade. A gama Winemaker’s Collection dá asas ao experimentalismo das equipas de viticultura e enologia, privilegiando a possibilidade de testar diversas castas e o seu desempenho em diversos micro terroirs, de modo a encontrar as melhores expressões. Daqui, resultam sempre edições limitadas e assinadas pelo ‘winemaker’, que, no caso, se traduziu em 3.970 garrafas.

Kopke

Um Porto esculpido com devoção

Se havia casa que podia beneficiar da aprovação pelo Conselho Interprofissional do Instituto do Vinho do Douro e do Porto da menção tradicional DOP Porto com indicação de idade 80 anos, era, sem margem para dúvidas, a Kopke, nascida em 1638, bem antes do Douro se tornar numa região demarcada e regulamentada. Os quase 390 anos da marca conferem-lhe um estatuto especial que um inédito Tawny materializa numa criação demorada (foram três meses de afinação e aperfeiçoamento diário do lote) através da arte de blending e da inclusão, no mesmo, de vinhos de 1900, 1941 e 1947. Tal só é possível, porque existe um espólio que é património vivo e indelével de vinhos do Porto de várias idades, que acompanharam a história e os feitos da humanidade.

Com um longo e meticuloso envelhecimento nas caves da Kopke em cascos sem idade, agora despertados para criar um vinho quase místico, profundamente complexo e emotivo, este Kopke 80 anos é uma perícia de gerações a homenagear, desde os que o vinificaram, passando pelos que o guardaram. até à mais recente equipa de enologia que assumiu a responsabilidade de o acordar, esculpindo algo que merece a nossa mais intensa devoção. Absolutamente perfeito.

(Artigo publicado na edição de Dezembro de 2025)