KIMBREL WINES: Investimento americano no Douro

KIMBREL WINES

Com percurso consolidado nas áreas da estratégia empresarial e consultoria, e passagens pela The Boeing Company ou Coyvance LLC, e no setor vitivinícola, onde esteve envolvido na conceção, desenvolvimento e operação da adega Dakota Shy, em St. Helena, Napa Valley, nos Estados Unidos, o norte-americano David Sylvester apaixonou-se pelo Douro. Também é coproprietário de uma […]

Com percurso consolidado nas áreas da estratégia empresarial e consultoria, e passagens pela The Boeing Company ou Coyvance LLC, e no setor vitivinícola, onde esteve envolvido na conceção, desenvolvimento e operação da adega Dakota Shy, em St. Helena, Napa Valley, nos Estados Unidos, o norte-americano David Sylvester apaixonou-se pelo Douro. Também é coproprietário de uma garrafeira especializada em Washington, D.C. Junta-se a ele Isaac Campelo, rosto da quarta geração de uma família com tradição vitivinícola, com propriedades na região dos Vinhos Verdes e que, após ter feito vindimas lá fora, regressa, para cofundar a Kimbrel Wines.

“A Kimbrel foi desenhada para posicionar o Douro no mapa mundial do vinho de forma sofisticada e consistente. O nosso foco não é o volume, mas sim vinhos produzidos em parcelas únicas”, afirma David Sylvester. O investimento inicial foi de 800 mil euros, com a aquisição da Quinta do Roncão, de 30 hectares. Localizada no Vale de Roncão, data de 1851 e tem 12 hectares de vinha. Desde a aquisição, em 2022, foi feito um trabalho aprofundado, como a reconstrução de muros de xisto, a requalificação de acessos e a replantação de vinhas. O foco está no micro lote e na criação de vinhos tintos e vinhos do Porto. Porém, não está de parte a aquisição de uvas em cotas altas, para elaborar vinho branco. A produção anual não ultrapassa as 20 000 garrafas, estando o Vinho do Porto em vantagem, com 13 000. O objetivo é reforçar o posicionamento premium da marca. A aposta na viticultura de precisão, mínima intervenção e valorização das parcelas antigas são as premissas da equipa de enologia, constituída também por Hugo Silva (consultor) e Javiera Antúnez (assistente), para além do consultor de viticultura, José Carlos Oliveira.

O plano total de investimento prevê atingir os 10 milhões de euros até ao final da presente década. Com o mercado internacional, sobretudo os Estados Unidos, como prioridade, serão desenvolvidos o enoturismo e a recuperação de armazéns históricos, bem como a criação da adega, de uma guest house e de um espaço exterior para eventos, jantares e provas vínicas.

(Artigo publicado na edição de Junho de 2026)

LAVRADORES DE FEITORIA: 25 anos de vida

Lavradores de Feitoria

«O Douro é vinho. Vinho e vinha. Pode ser rio, pode ser terra. Região ou vila. Mas é, sobretudo, vinho. A monocultura é assim, impregna tudo, os montes, as casas e os homens. Como em qualquer outra região do país, os Durienses participaram em toda a história de Portugal. Influenciaram‑na e por ela foram condicionados. […]

«O Douro é vinho. Vinho e vinha. Pode ser rio, pode ser terra. Região ou vila. Mas é, sobretudo, vinho. A monocultura é assim, impregna tudo, os montes, as casas e os homens. Como em qualquer outra região do país, os Durienses participaram em toda a história de Portugal. Influenciaram‑na e por ela foram condicionados. Têm as suas glórias e as suas misérias. Ajudaram a consolidar a nacionalidade e deram o seu contributo para as explorações marítimas. Estiveram presentes nas lutas dinásticas, perseguiram espanhóis, foram valentes no combate aos exércitos franceses de ocupação. Envolveram‑se nas guerras liberais e em quase todas as revoluções dos séculos XIX e XX.

Ainda há pouco tempo, no meio das dificuldades da fundação do Estado democrático, foi da Régua e dos vales do Douro que vieram gritos rebeldes em defesa das liberdades. A história dos Durienses vale a dos seus conterrâneos de qualquer região. Mas, se um Duriense fala da sua terra, o vinho será imediatamente o tema. Chamem‑lhe fino ou licoroso, generoso ou de feitoria, de embarque ou de carregação, ou simplesmente, como em todo o mundo, vinho do Porto: será esse o seu bilhete de identidade.

Os povos gostam de se identificar com algo que os distinga, uma glória do passado ou um especial traço do presente. O vinho é, no Douro, a memória de todos, o fio condutor de gerações. O vinho está presente do modo mais indelével que seja: nas consciências e nos sentimentos. Mas também reina na paisagem, naqueles formidáveis socalcos que, montanha acima, acabaram por lhe dar forma e feitio. “É o mais belo e mais doloroso monumento ao trabalho do povo português” (Jaime Cortesão). E é tema indispensável na literatura local ou sobre a região.

É evocado nos cantares e nas tradições culturais. É, finalmente, o centro da vida económica regional, tendo já sido o principal trunfo português no comércio externo. A sociedade contemporânea, com os serviços, a administração, as escolas, uma incipiente industrialização, os meios de comunicação e a televisão, é muito diferente daquela que ainda recordam os Durienses com cinquenta ou mais anos. O império do vinho parece menos marcado. O relógio das adegas e das vinhas deixou de governar os dias do Douro. O calendário das vindimas já não dita a sua lei. Os trabalhos da vinha e do vinho já não são obsessivamente os únicos que interessam e preocupam os Durienses. Isso é verdade. Mas o reino do vinho, embora menos despótico, ainda existe.

Grande parte do vinho produzido no mundo não tem origem. Ou antes, o local de nascimento é desconhecido. Ou é vago. Os lotes e as misturas, legais ou improvisados, são responsáveis pela massificação vinícola. Durante muito tempo, até meados do século vinte, esta era a situação dominante. Ora, nas últimas décadas, a evolução dos gostos e dos mercados alterou essa realidade, sendo cada vez mais numerosos os vinhos com nome de sítio. Os vinhos com origem demarcada constituem a fidalguia da espécie. E, como sempre acontece nestas coisas, há os que são mais fidalgos do que outros. Uma “região demarcada” é melhor do que uma “origem determinada”. Dentro das regiões demarcadas, há também diferenças, como na aristocracia. Há os que são “mais nobres” do que outros, ou mais antigos, ou com mais pergaminhos. Nesta classificação imaginada, o Douro vem entre os primeiros.

Com efeito, a região foi a primeira do mundo a ser demarcada, antes mesmo de se ter inventado o conceito. Desde o século XVIII que o vinho do Douro, mais propriamente o vinho do Porto, é aquele que provém de uma região bem definida. Décadas mais tarde, os franceses fizeram operação semelhante, demarcando o Bordéus, depois o Borgonha, o Champanhe e outros. Italianos e Espanhóis seguiram. E Alemães, Austríacos, Húngaros, Jugoslavos e Suíços. Hoje, Australianos, Sul‑Africanos e Americanos fazem o mesmo.

Demarcar significa dar identidade. A verdade é que um vinho, se tem personalidade, vem de um sítio. Para ter carácter, um vinho faz‑se numa região. Particulares condições naturais, o sol e a pedra, a terra e a água, ajudam a criar um produto singular, um vinho diferente. Mas isto é apenas o princípio. Nenhum vinho, tal como o conhecemos, é produto directo da natureza. Nenhum vinho que bebemos é igual ao que se bebia há dois ou três séculos, muito menos igual aos que se bebiam nos tempos da Bíblia, que de vinho tanto fala; ou dos conventos da Idade Média, que pelo vinho tanto fizeram; ou das explorações marítimas, que do vinho tantas saudades tiveram. É mesmo provável que, se nos fosse dado beber vinho feito como há um ou dois milénios, sentíssemos real repugnância em fazê‑lo.

Os vinhos que temos diante de nós são o resultado de um longo apuramento do gosto e de uma evolução ininterrupta dos métodos de fabrico e de conservação. O vinho da natureza não é o vinho dos homens. Este último é fabricado. Com sabor, gosto, lutas e mercado; com sonhos, riqueza, coragem e pobreza; com arte e ciência, com técnica e sofrimento.

No Douro, que produz um vinho complexo, um vinho mais feito e mais “fabricado” do que outros, os homens desbravaram o mato, subiram as encostas, aterraram e surribaram. Desfizeram a pedra, fabricaram terra, levantaram muros, construíram milhares de quilómetros de socalcos, serra acima e vale adentro. Quebraram a rocha, cavaram a terra, saltaram os rios, procuraram água e marcaram sítios para viver. Plantaram, enxertaram, podaram as vides, colheram as uvas, pisaram, trasfegaram, transportaram e fizeram o vinho. Conservaram, armazenaram, fizeram lotes, misturaram aguardente, envelheceram e apuraram.

Lavradores de Feitoria
Paulo Ruão comanda os destinos da enologia da Lavradores desde 2005

E o vinho fez uma região, fez os solares, as quintas e os casebres. Fez os lagares e os cardenhos; as pipas e os rabelos; os ricos e os pobres. Nada de importante, no Douro, é independente do vinho. Nem as Igrejas e os mosteiros, que o vinho fez e que vinho fizeram.

Foi o vinho que fez o Douro, porque o Douro, antes do vinho, era muito pouco o que é hoje. Até as montanhas são diferentes. Não foi o Douro que fez o vinho. Foi o homem que fez o vinho. O homem, as suas técnicas e o mercado. De volta, o vinho fez o Duriense. Condicionou‑o, influenciou‑o.

A história do vinho é a história do Douro e marcou a história dos Durienses. Por isso é possível dizer, com Orlando Ribeiro, que “…foi o homem que trouxe o maior reforço à meridionalidade da região”. E, com Virgílio Taborda, que “foi a vinha, o fabrico e o comércio do vinho do Porto que fizeram o Alto Douro”. O Douro de que aqui se fala é tão só o Alto Douro. Mas quase nem é preciso dizê‑lo.

A história e o vinho confiscaram o nome e expropriaram as outras regiões que dele se podiam reclamar. Da Régua ou de Barqueiros até ao Porto, até à Foz do Douro, para ser mais preciso, também é Douro, mas, para se saber de que se trata, é necessário acrescentar “Litoral”. De Barca d’Alva até Miranda, dir‑se‑á que é o Douro “internacional” e faz fronteira entre Portugal e a Espanha há séculos. O Douro demarcado, o Douro do vinho, Alto Douro para os geógrafos, é o Douro fidalgo, o que tem morgadio. Dentro dele, poder‑se‑á falar de Baixo Corgo, de Cima Corgo e de Douro Superior, mas isso já é nomenclatura técnica. Douro é Douro, é o Alto Douro e mais nenhum.»

 

Nenhuma destas palavras acima são minhas, não. Tomara eu. São palavras superiores, de uma mente superior, como a de António Barreto, sociólogo português, duriense e Presidente da Assembleia Geral de Lavradores de Feitoria entre 2002 a 2020. Mas quem escreve assim sobre o Douro, com este conhecimento, com esta crueza narrativa, com sentido de lugar e profundidade emocional, tem de ser, de forma inelutável, um dos principais responsáveis, senão o principal mesmo, pelo sucesso e pelos 25 anos de duração do projecto Lavradores de Feitoria. Esta é a pequena homenagem que aqui lhe presto.

A responsabilidade que ficou para quem veio a seguir, e para os que virão no futuro, é, certamente, enorme de igual modo, mas a parte mais difícil do trabalho ficou praticamente feita, como se António Barreto, em vez de ensinar só a pescar, tivesse também ensinado os peixes a morder o anzol, tornando a pesca e o trabalho das gerações seguintes de pescadores muito mais fácil e prazeirosa. E, assim, pode dizer-se que o vinho fez o Douro, fez o duriense e fez a Lavradores de Feitoria.

Lavradores de Feitoria
Alvarelhão é a casta vindimada numa parcela de 0,6 hectares de uma vinha plantada, em 1920, na Casa de Mateus

O início do projecto

O nome Lavradores de Feitoria tem a sua origem remota nos vinhos de feitoria da época Pombalina, uma suposta selecção dos melhores vinhos da região do Douro, que, a posteriori, o Marquês de Pombal destinava aos apreciadores mais exigentes do nosso país e do mundo, como forma de promover a ‘sua’ recém demarcada região do Douro.

Nascida no ano 2000, a Lavradores de Feitoria resulta inicialmente da união de 15 lavradores do Douro, proprietários de 19 quintas, sob um modelo de gestão e produção unificado, como forma de obter sinergias e ganhos de escala em todas as etapas da produção de vinho. Mas esta era, sobretudo, uma ideia e uma visão para o futuro – actualmente, é constituída por 51 accionistas, 15 dos quais possuem 20 propriedades na região.

A aquisição pela Lavradores de Feitoria, em 2008, da Quinta do Medronheiro, em Sabrosa, mesmo ao lado do Palácio de Mateus, com fundos exclusivamente próprios, marcou o início da produção de uva própria. Este feito culminou em 2021, com a conclusão da nova adega, transportando definitivamente o projecto para um patamar evolutivo e de qualidade superiores.

Paulo Ruão, comanda os destinos da enologia da Lavradores desde 2005. Conhecedor profundo de cada vinha, cada parcela, cada exposição, cada altitude e de cada lavrador, faz os vinhos, privilegiando sempre a frescura, a elegância e o equilíbrio, com o cunho do carácter único e vincado da região do Douro.

Boal, Códega, Gouveio, Malvasia, Sauvignon Blanc e Viosinho são as castas brancas, enquanto nas tintas, algumas de vinhas com mais de 80 anos, podemos encontrar Tinta Amarela, Tinta Barroca, Tinta Roriz, Tinto Cão, Touriga Francesa, Touriga Nacional e Alvarelhão.

Foi, em particular, o Alvarelhão que fomos provar. Proveniente de uma pequena parcela de 0,6 hectares de uma vinha plantada em 1920, na vizinha Casa de Mateus, esta casta nativa, ancestral e rara, impõe grandes desafios na viticultura, mas recompensa largamente pela sua extraordinária finesse. E é claro que não nos ficámos só pelo Alvarelhão. Afinal, são quase cinco horas de viagem de Lisboa até Sabrosa e a Lavradores de Feitoria tem sempre algo mais para mostrar.

(Artigo publicado na edição de Junho de 2026)

 

ERVIDEIRA: Operação Invisível

Ervideira

No ano de 2010, quando o boom dos vinhos brancos ainda nem sequer tinha começado e sobre o branco de uvas tintas ainda não se ouvia falar, a Ervideira lançou o seu primeiro Invisível 2009, o vinho branco feito de Aragonez. Parecia mentira. Como se não bastasse, o lançamento foi marcado para o dia 1 […]

No ano de 2010, quando o boom dos vinhos brancos ainda nem sequer tinha começado e sobre o branco de uvas tintas ainda não se ouvia falar, a Ervideira lançou o seu primeiro Invisível 2009, o vinho branco feito de Aragonez. Parecia mentira. Como se não bastasse, o lançamento foi marcado para o dia 1 de Abril. Tal como hoje, mas há 16 anos, tornou-se uma tradição.

A surpresa do consumidor era grande e a curiosidade também. As 9000 garrafas esgotaram rapidamente e não era um vinho barato. À época, custava cerca de oito euros. O sucesso era absoluto e crescia de ano para ano. E, por muito que a produção aumentasse, a procura foi sempre superior, de maneira que em Julho todo o Invisível ficava mesmo invisível, demonstrando a apetência do mercado para absorver mais.

A curiosidade é um bom estímulo para experimentar um vinho. Uma vez. Não é suficiente para manter o nível de procura apenas com marketing adequado; o vinho tem que ter argumentos próprios, para manter o interesse do consumidor, como foi o caso. Assim, a edição de 2025 atingiu 180 000 garrafas. É o vinho mais vendido da Ervideira e não é o mais barato, custando agora 14,50 euros. Pela informação que conseguiram apurar na empresa no que toca aos vinhos tranquilos, o Invisível é o Blanc de Noirs mais vendido do mundo. Nada mau para um vinho de nicho. É um autêntico case study. 90% do Invisível é vendido no mercado nacional, 5% no Brasil e 5% em alguns países europeus.

 

É o vinho mais vendido da Ervideira e não é o mais barato

Ervideira

Um percurso Invisível

Recuando no tempo para lá do primeiro lançamento, estamos antes da vindima de 2008. A ideia foi, como sempre, de Duarte Leal da Costa, administrador da Ervideira, que trouxe, entusiasmado, vários Blanc de Noirs estrangeiros, para convencer o responsável de enologia, Nelson Rolo, a criar algo semelhante na Ervideira. O enólogo não partilhou o entusiasmo e disse que os vinhos que provou eram “uma treta”. “Então, vamos fazer um vinho que não seja uma treta”, concluiu Duarte.

E qual seria a casta escolhida para um papel tão importante? Várias foram as opções, no entanto, todas apresentavam algumas fraquezas. A Touriga Nacional era boa, mas precisavam dela para os vinhos tintos; Cabernet Sauvignon conferiu um aroma muito vegetal, enquanto os ensaios com a Trincadeira e a Moreto não tinham graça. A única casta que passou no casting com todos os requisitos foi a Aragonez.

Desde então, plantaram três vinhas novas e aumentaram a adega por três vezes para dar resposta ao aumento da produção do Invisível especialmente para a produção do Invisível. Actualmente estão a planear uma quarta alteração.

Paralelamente, o estilo também foi-se alterando um pouco ao longo dos anos, de acordo com o gosto do consumidor. Os primeiros vinhos tinham mais álcool (13-13,5%) e cerca de cinco gramas por litro de açúcar residual; agora são secos e não ultrapassam os 12,5%.

É um vinho muito exigente em termos técnicos, sobretudo a nível de frio, para não extrair a cor. Têm as vinhas em duas zonas do Alentejo: em Reguengos e na Vidigueira. Vindima-se tudo à máquina e à noite. A uva da Vidigueira vai logo para uma câmara frigorífica. Em Reguengos, como a vinha fica muito perto da adega, circulam dois tractores, a transportar rapidamente a uva até à adega, sempre de madrugada. A uva segue logo para a prensa, para minimizar o contacto com as películas.

Fazer o Invisível é como construir um puzzle, pois trata-se de um lote de Aragonez não só de várias parcelas, mas também apanhado em alturas diferentes. A vindima começa no final de Julho, ainda antes das uvas destinadas para a base de espumantes. As primeiras uvas que entram, asseguram a acidez. Nesta altura, os aromas ainda não estão desenvolvidos. Por isso, é preciso ir construindo as camadas do vinho, incluindo as uvas vindimadas mais tarde, por vezes quase com um mês de diferença. Há várias fermentações separadas e o lote final é construído a partir de múltiplos ingredientes, com cuidado especial e o objectivo bem definido, rejeitando aqueles em que ou há cor a mais ou acidez a mais, ou sabem a verde.

 

Fazer o Invisível é como construir um puzzle, pois trata-se de um lote de Aragonez

Ervideira

Invisível com bolhas

Estas são bem visíveis, já que se trata da versão espumante bruto natural, ou seja, sem adição de açúcar no licor de expedição. Aqui, à Aragonez juntou-se a Syrah e até em quantidade superior, pois não sobra muito do Invisível original. É feito por método clássico, com segunda fermentação em garrafa durante nove meses. As 12 000 garrafas produzidas do primeiro espumante esgotaram-se na empresa em cinco semanas. A segunda edição, que ainda está em cave a estagiar, já conta com 30 000 garrafas.

(Artigo publicado na edição de Maio de 2026)

 

ETHOS WINES: De Homero, de Aristóteles, de Heidegger e da Beira Interior

Ethos Wines

Sendo eu Jurista de formação, as Humanidades e a Filosofia sempre fizeram parte do meu currículo e aprendizagem. Para escrever sobre o Ethos fui matar saudades e rever os meus velhos livros de liceu e de curso, e, só por isso, já valeu a pena escrever este artigo. Encontrada pela primeira vez em Homero (928 […]

Sendo eu Jurista de formação, as Humanidades e a Filosofia sempre fizeram parte do meu currículo e aprendizagem. Para escrever sobre o Ethos fui matar saudades e rever os meus velhos livros de liceu e de curso, e, só por isso, já valeu a pena escrever este artigo. Encontrada pela primeira vez em Homero (928 – 898 a.C.), a palavra do grego ethos significa originalmente morada, seja o habitat dos animais, seja a morada do homem, lugar onde ele se sente acolhido e abrigado. Séculos mais tarde Martin Heidegger (1958) recupera e aprofunda os ensinamentos de Homero, defendendo que o ethos é o campo aberto da morada do homem, onde o Dasein (o ser humano) se relaciona com o Ser.

A célebre frase de Heidegger “a linguagem é a casa do Ser” completa o sentido de ethos. O homem mora habitando essa casa através do pensamento e da poesia… e não houve alguém que disse um dia que “um bom vinho é poesia engarrafada”?

Muito resumidamente, no pensamento de Heidegger, o ethos é a dimensão existencial e poética em que o ser humano habita e protege o Ser, situando-se autenticamente no mundo. O segundo sentido, proveniente deste, é costume, modo ou estilo habitual de ser. A morada, vista metaforicamente, indica justamente que, a partir do ethos, o espaço do mundo torna-se habitável para o homem. Assim, o espaço do ethos enquanto espaço humano, não é dado ao homem, mas por ele construído ou incessantemente reconstruído.

Para os filósofos gregos, especialmente Aristóteles, o ethos está diretamente relacionado ao nosso modo de ser, enquanto na cultura romana, a ideia de moral vem de moralis, que significa costume. Desta maneira, ethos é o nosso carácter e moral é um conjunto de normas de convivência que regulam o nosso comportamento. A partir da ideia de ethos estabelece-se a base da ideia de ética, ou seja, a reflexão sobre o nosso modo de vida. Enquanto a moral tem uma dimensão normativa e se baseia num conjunto de regras concretas, a ética é uma avaliação ou reflexão sobre as questões morais.

Na cultura grega, o ethos individual pode ser forjado com disciplina, já que vamos formando um ethos com os nossos hábitos. Em compensação, a ideia de phatos refere-se à paixão e à emoção; por outro lado, o termo logos faz referência à ideia de razão e linguagem.

Para Aristóteles, os três elementos intervêm na comunicação, a célebre retórica aristotélica, concebida como aperfeiçoamento da tese platónica de que a simples exposição ao conhecimento seria suficiente para conquistar uma audiência. Em discordância com o seu mentor Platão, Aristóteles acreditava que a retórica seria fundamental para conquistar o público.

É, pois, deste modo, que surgem o ethos, o pathos e o logos como meios de potenciar a capacidade de persuasão de um público. O primeiro refere-se à capacidade de o atingir, com base na ética, integridade e credibilidade do orador; o segundo alude à capacidade de apelar às emoções e à criação de empatia entre o orador e a audiência; e o terceiro sugere a utilização de argumentos racionais, de evidências e do raciocínio lógico.

Assim, muito resumidamente, transmitimos ideias com o nosso modo de ser, enquanto através do pathos individual expressamos emoções, e tudo está articulado pela razão e pela linguagem.

Família e herança

Da mesma forma, numa obra de arte, podemos encontrar um ethos, um pathos e um logos, isto é, uma personalidade, uma emoção e uma linguagem. É precisamente o que encontramos nos vinhos Ethos, da Beira Interior. A Ethos Wines é sobre vinho, mas também é sobre família, herança e sobrevivência nesta região selvagem e remota do centro de Portugal. Desde 2018, que Tiago Mendonça cultiva 12 hectares de vinha no concelho da Guarda, pertencente à região vitivinícola da Beira Interior.

Este é mais do que um projecto para Tiago Mendonça. É um verdadeiro trabalho de paixão e tradição. Tem raízes familiares profundas que o ligam a esta terra, pois os pais eram naturais da região. As férias de infância eram passadas com a família materna, na Quinta de São Lourenço, inserida no magnífico Vale do Mondego, dentro do Parque Natural da Serra da Estrela, na região da Guarda. Hoje, é frequentemente acompanhado pelo seu filho mais novo, Francisco Mendonça, que tem um gosto especial por trabalhar ao lado do pai.

As vinhas da Ethos Wines estão plantadas numa encosta voltada a nascente, com solos graníticos pobres, a uma altitude entre os 480 e os 520 metros. A vida das videiras aqui é exigente, com grandes amplitudes térmicas diurnas e níveis elevados de precipitação. Mais de 70% das vinhas têm mais de 60 anos, tendo algumas sido replantadas em 2012; e cerca de 50% está em co-plantação de castas tradicionais, a par com o decurso do trabalho de identificação das várias variedades presentes.

As castas são as tradicionais da região. Nos brancos encontramos Síria, Arinto, Tamarez, Malvasia Fina, Gouveio, Cerceal e Ferral. Nos tintos destacam-se a Rufete, a Mourisco, a Jaen, a Baga, a Trincadeira, entre outras. A viticultura está nas mãos do agrónomo Carlos Veiga, enquanto na adega, a enologia é acompanhada pela enóloga Mariana Salvador, cuja missão é interpretar as uvas de forma a reflectirem verdadeiramente a identidade da Beira Interior. A função de Mariana Salvador consiste em equilibrar o acompanhamento rigoroso da vinificação e do estágio. As leveduras são indígenas e os níveis de sulfuroso são mantidos no mínimo indispensável.

As vinhas estão certificadas em modo biológico desde 2020. A certificação biológica dos vinhos está prevista a partir da colheita de 2025. O trabalho na vinha e na adega é o que dá origem aos brancos minerais intensos e frescos, bem como aos tintos elegantes, gastronómicos e com excelente capacidade de envelhecimento.

Mas Ethos não é só vinho, também é azeite. Há mais de 20 anos que a família é proprietária de um lagar onde são produzidos alguns dos melhores azeites não só da região, mas do mundo, tal como comprovam os múltiplos e variadíssimos prémios obtidos. As azeitonas são colhidas de oliveiras com idades até 100 anos, incluindo variedades locais.

Ethos Wines

As vinhas estão plantadas numa encosta voltada a nascente, com solos graníticos pobres e mais de 70% ultrapassam os 60 anos

 

Acima de tudo, o projeto Ethos assenta num profundo respeito pela tradição e pelo terroir. A equipa demonstra-o e disso mesmo nos deu conta – uma determinação firme em revelar o potencial da Beira Interior, uma pequena região emergente que tem vindo a conquistar cada vez mais reconhecimento através da produção de vinhos distintivos e de azeite de classe mundial.

E Ethos é igualmente arte… por fora. O rótulo do Ethos Rufete tinto 2023 e do Ethos Vinho de Parcela tinto 2023 comprova este preâmbulo, através da assinatura de Ana Malta, artista plástica com formação académica em pintura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa e um mestrado em Gestão de Indústrias Criativas pela Universidade Católica do Porto. Ambos os rótulos denotam a prática artística associada à estética, onde as cores e os padrões se cruzam com contrastes e a inquietante expressão visual da artista. Personalidade, emoção, linguagem. Ethos, pathos, logos. Beira Interior, Tiago Mendonça, Ethos Wines.

(Artigo publicado na edição de Maio de 2026)

QUINTA DA VACARIA: Na margem certa do Douro

Quinta da Vacaria

A eterna discussão entre a margem esquerda e a direita de Bordéus, que apaixona enófilos por este mundo fora, e sobre qual nelas se produzem os melhores vinhos, não tem grande paralelo no Douro. Na margem esquerda do rio Garonne e do Estuário de Gironde, o solo é rico em cascalho e os vinhos são […]

A eterna discussão entre a margem esquerda e a direita de Bordéus, que apaixona enófilos por este mundo fora, e sobre qual nelas se produzem os melhores vinhos, não tem grande paralelo no Douro. Na margem esquerda do rio Garonne e do Estuário de Gironde, o solo é rico em cascalho e os vinhos são mais austeros, estruturados e potentes, com grande capacidade de guarda; são elaborados a partir da casta predominante, a Cabernet Sauvignon, logo seguida pela Merlot, sendo as principais apelações Margaux, Pauillac, Saint-Julien, Saint-Estèphe entre outras. Na Margem Direita, por seu turno, os solos são predominantemente argilo-calcários. Ali produzem-se vinhos mais macios, frutados e sedosos, talvez mais sedutores e fáceis de beber quando jovens, com a predominância das castas Merlot e Cabernet Franc. Saint-Émilion e Pomerol são, neste caso, as cabeças de cartaz.

Já a escolha entre a margem direita (Norte) e a margem esquerda (Sul) do Douro depende mais do objectivo a que nos propomos, do que propriamente por ter uma influência directa nos vinhos produzidos. Por outras palavras, a margem direita, com mais sol, é tradicionalmente mais vinícola e turística, enquanto a esquerda oferece paisagens mais rurais, históricas e íngremes. No entanto, ambas são verdadeiramente deslumbrantes.

Geralmente mais ensolarada, a margem direita, alberga muitas das quintas mais famosas da região e a zona histórica de Peso da Régua; é onde o Sol incide com mais intensidade durante o dia, factor ideal para a maturação das uvas. Além disso, é ainda marcada por afluentes importantes, como o Corgo, o Tua e o Sabor. Já a margem esquerda oferece vistas incríveis sobre a margem direita e áreas rurais muito cénicas, com declives acentuados em xisto.

À direita do rio

A Quinta da Vacaria está situada na margem direita do Rio Douro. Localizada no coração do Baixo Corgo, próximo de Peso da Régua, a propriedade estende-se na confluência dos rios Corgo e Douro e apresenta altitudes que variam entre os 50 e os 300 metros. Beneficia de um clima ameno, favorável para o desenvolvimento gradual e maturação da uva, de um solo inclinado, difícil e agreste, repleto de pedras lascadas em consequência da degradação do xisto. A parte vegetativa da videira tira partido desta rocha xistosa, já que o subsolo é permeável, permitindo que as raízes das videiras consigam encontrar, a uma grande profundidade, os nutrientes e a humidade essenciais ao vigor e à produtividade da planta. Com 42 hectares, é constituída por inúmeras parcelas de vinha. Há duas muito antigas na Vinha do Corgo e do Vale Bastardo. Ainda sobre a primeira e nas encostas suaves, estão as novas vinhas instaladas em fileiras verticais sob a técnica de “vinha ao alto”, enquanto nas encostas mais íngremes, a implantação das videiras foi feita de acordo com a técnica do chamado novo modelo de socalco. Junto à nova adega, optou-se pelo modelo de patamares estreitos de 1,5 metros, no seguimento de uma viticultura sustentável.

Planear a viticultura para o futuro é um dos objectivos traçados pela equipa desta casa, daí a necessidade de se implementar uma estratégia de reconversão do encepamento, no sentido de se seleccionar castas mais resistentes à seca e/ou às doenças resultantes das actuais condições climáticas. A viticultura sustentável regida pelas boas práticas agrícolas e em prol do ecossistema, por forma a se atingir a harmonia entre produção e território.

Quanto à enologia, esta arte está sob a responsabilidade de Jean-Hugues Gros, francês radicado no Douro desde 1999 e que dispensa apresentações, e de João Menezes. Ambos assumem o objectivo de consolidar um projecto que quer elevar o reconhecimento do Douro enquanto região vitivinícola, através das melhores práticas agrícolas e de vinificação, tendo como inspiração a diversidade deste vetusto terroir.

Mais de 400 anos de história

A Quinta da Vacaria colocou no mercado os primeiros tintos da colheita de 2022, com destaque para o Reserva tinto, com 18 mil garrafas e grandes formatos até 27 litros, e o Touriga Nacional, com 2500 garrafas e formatos de até aos cinco litros. Num ano vitivinícola marcado por temperaturas elevadas no Douro, a colheita de 2022 resultou em vinhos de “maior concentração de fruta”, mantendo “elegância, frescura e equilíbrio”, explica Miguel Esteves, gestor de negócio da Quinta da Vacaria. “São tintos que revelam intensidade com precisão e tensão, refletindo uma leitura contemporânea da região”, acrescenta. As restantes referências da colheita 2022, deverão chegar ao mercado em breve, reforçando o portefólio da Quinta da Vacaria no segmento premium, assente na “autenticidade, tipicidade e expressão fiel do Douro”.

Sobre a história da Quinta da Vacaria, aquela tem sido contada a partir de 1616, ano em que foi incorporada no património da Companhia de Jesus, por intermédio de D. Frei Luís Álvares de Távora, que mandou erigir uma casa com cinco salas, no piso superior, e três lagares e duas adegas, no térreo. Cerca de 150 anos depois, por volta de 1760, a memória descritiva da propriedade revela a existência de vinhas, oliveiras, montes, ribeiras, azenhas, uma casa e adega, lagares de vinho e azeite, cardanho para os trabalhadores e, próximo deste, uma capela da invocação de Nossa Senhora do Bom Sucesso, com retábulo dourado. O património edificado era complementado por um armazém de sal e casas de recolha dos barqueiros.

Volvidos mais de quatro séculos desde o início da história contada sobre a propriedade, decorre a abertura da unidade hoteleira Torel Quinta da Vacaria, em 2024, marco importante nesta narrativa, tornando este um local de referência, não apenas para a produção de vinhos, mas também para a hospitalidade e o turismo de excelência na região do Douro, com a mais-valia de o restaurante de fine dining, o Schistó, ao comando do Chef Vítor Matos, ter sido distinguido com uma estrela Michelin na edição 2026 do Guia Michelin Portugal.

Em suma, a Quinta da Vacaria é mais do que uma propriedade, é um símbolo de permanência no coração da mais antiga região demarcada do mundo. A qualidade excepcional e o reconhecimento no universo vitivinícola não acontecem da noite para o dia, exigem séculos de aprimoramento. Afinal, “produzir vinho é relativamente simples, só os primeiros 200 anos são difíceis” foi a frase mais célebre da Baronesa Philippine de Rothschild. Pois na Vacaria já lá moram mais de 400 anos!

(Artigo publicado na edição de Maio de 2026)

POÇAS: Da história se faz o vinho

Poças

Em tempos idos, quando os barcos Rabelo, carregados de pipas com vinho, desciam o rio que empresta o nome à região, o sável, abundante, subia o Douro, para ali desovar. A necessidade de se alimentar fez do tanoeiro pescador e cozinheiro. Já depois de amanhado e limpo, dispunha o peixe migratório, proveniente do mar, numa […]

Em tempos idos, quando os barcos Rabelo, carregados de pipas com vinho, desciam o rio que empresta o nome à região, o sável, abundante, subia o Douro, para ali desovar. A necessidade de se alimentar fez do tanoeiro pescador e cozinheiro. Já depois de amanhado e limpo, dispunha o peixe migratório, proveniente do mar, numa grelha de arames antecipadamente atravessada no interior de uma barrica de carvalho sem fundo e suspensa em quatro pés, para deixar o ar entrar e onde colocava o serrim, para defumar o sável.

Inspirada nesta história, a Poças tem vindo a desenvolver um trabalho muito interessante no tocante à recuperação da tradição de fumar o sável em barricas de Vinho do Porto. “Antigamente, o processo era muito mais moroso porque o rio era completamente diferente, não havia barragens e, por isso, faziam várias viagens. Era uma altura de muita dificuldade e aproveitavam exatamente esse momento, já que estavam no barco, para tentar a sua sorte e ir pescar, e assim que apanhavam esses peixes para comer, era também uma forma de os preservar, para poder levar para casa no final da viagem e alimentar as suas famílias. Atualmente a receita mudou um pouco. Nós fizemos a nossa interpretação e, hoje, vamos ver o resultado”, conta o enólogo André Barbosa. Trata-se do “Sável à Poças”, que, para além da importância histórica, também assume uma excecional importância social e económica pela variedade e relevo das atividades que lhe estão ligadas.

Poças

Vinhos Fora da Série

Da preparação do sável, nasce o rosé Fora da Série Cold Smoke 2025, como nos explica o enólogo: “Cold Smoke pretende expressar uma fumagem a frio, ou seja, depois de uma muito leve prensagem das uvas, o líquido resultante vai para umas cubas isotérmicas, onde faz uma estabilização a frio por mais de 11 dias, o que ajuda a concentrar aromas. Após esse período, ainda com uma temperatura muito baixa (cerca de 5 ºC, entra nas barricas de carvalho francês, acácia e cerejeira, onde a temperatura sobe gradualmente até ao ponto de ser inoculado para fermentação. Este processo faz com que o mosto receba os aromas da tosta ainda a frio (cold smoke), que é muito semelhante à fumagem do sável a frio, sem brasa. Desta forma, os aromas ficam mais concentrados no mosto, mais delicados e bem integrados. Fermenta e estagia nessas barricas por seis meses.”

A utilização de barricas de carvalho francês, feitas a partir de cerejeira e acácia, complexificou ainda mais o conjunto deste rosé, uma das estrelas do almoço. Agora, faz parte dos mais de 20 exemplares da gama Fora da série, uma espécie de “jardim da criatividade do enólogo”, que tem carta branca para lançar vinhos diferenciados, edições especiais, experiências, por vezes, únicas e, noutros casos, que vieram para ficar, como, pensamos, virá a ser o caso deste rosé ou do Vinho da Roga, entre outros, entretanto repetidos.

A gama Fora da Série está assente em três pilares: alterações climáticas, sustentabilidade e o cliente final. André Barbosa explica: “por um lado, as alterações do clima, a falta de água, a incerteza que hoje temos (parece que nem temos estações do ano), afetam a maturação das uvas e, por consequência, o perfil dos vinhos; por outro lado, é muito importante sermos uma empresa mais sustentável e, finalmente, o consumidor que, hoje, procura vinhos mais versáteis (para diferentes tipos de harmonização), com menos teor alcoólico, mais complexos e com personalidade.  A gama Fora da Série tenta abranger todos estes temas”.

Valorizar o produto local

O que mais impressiona no trabalho de André Barbosa é a mesma consistência que aplica nos Colheita, nos Reserva e nos Grande Reserva da casa, bem como na criação de vinhos diferenciadores, expressões de grande personalidade da referida gama Fora da Série. No total, são produzidas entre 1.5 a 1.8 milhões de garrafas de vinhos do Porto e DOC Douro num universo constituído por três propriedades vinhateiras, uma em cada uma das sub-regiões do Douro. Trata-se da Quinta das Quartas, localizada no Baixo Corgo, que passou a integrar o património da Poças em 1932 e onde se encontra localizado o centro de vinificação, bem como o primeiro armazém de envelhecimento; da Quinta de Vale de Cavalos, em Numão, no Douro Superior, adquirida em 1987; e da Quinta de Santa Bárbara, em Ervedosa do Douro, no Cima Corgo, adquirida nos anos 90 do século XX.

“Vale de Cavalos é onde temos maior altitude e solos de transição de xisto para granito; Santa Bárbara é a zona mais quente, com vinha velha, onde vou buscar concentração e estrutura; a Quinta das Quartas tem mostrado um perfil muito elegante e equilibrado, sempre com uma frescura incrível onde vou buscar o ingrediente secreto para equilibrar alguns lotes. Esta diversidade, esta multiplicidade de terroirs permite-nos ter o portefólio que temos atualmente, incluindo os Fora da Série. O projeto vive muito da interpretação de vários locais do Douro”, remata André Barbosa.

Em curso está a implementação da vertente de enoturismo na Quinta das Quartas, com o objetivo de levar as pessoas ao Douro. “Esta abertura ao turismo na Quinta das Quartas também passa por valorizar mais os produtos da própria região, ou seja, olhar para o território e não apenas para o vinho. O Douro produz azeite – que já deu um salto enorme, mas também tem amêndoas, tem laranjas, tem figos. Enfim, transmitir um pouco dessa história e achamos que será mais fácil fazê-lo lá, pois quem vai ao Douro, também já vai mais com essa abertura”, salienta Pedro Pintão, presidente do Conselho de Administração da Poças e um dos quatro primos à frente desta empresa secular e familiar, que já se faz representar pela quarta geração.

À mesa tivemos oportunidade de provar um desses exemplos, o azeite de bordadura Fora da Série, feito a partir de azeitona apanhada no olival tradicional que rodeia a vinha. Foram ainda apresentadas as novas colheitas do Poças Reserva branco 2025 e do Poças Branco da Ribeira 2024, que, juntamente com o rosé, acompanharam na perfeição o delicioso menu preparado pelo chef Pedro Braga, do restaurante Mito, no Porto. A refeição fechou em grande com o Poças Vintage 2024, um Vinho do Porto de grande nível, para celebrar os 100 anos do lagar da Quinta das Quartas. Que bela experiência!

(Artigo publicado na edição de Maio de 2026)

QUEVEDO WINES: Friendology forever e o Legado de 1986

QUEVEDO WINES

Durante mais de cinco gerações, os antepassados de Óscar e Cláudia Quevedo – representantes da quinta geração e que estão, hoje, à frente do projeto –, dedicaram-se ao cultivo da vinha. As primeiras terão sido plantadas em 1889, em Valongo dos Azeites, no concelho de São João da Pesqueira, onde se encontra a sede e a […]

Durante mais de cinco gerações, os antepassados de Óscar e Cláudia Quevedo – representantes da quinta geração e que estão, hoje, à frente do projeto –, dedicaram-se ao cultivo da vinha. As primeiras terão sido plantadas em 1889, em Valongo dos Azeites, no concelho de São João da Pesqueira, onde se encontra a sede e a adega desta empresa familiar. Até meados da década de 80 do século passado, produziam uva e vinho a granel, que posteriormente era vendido às grandes companhias exportadoras sediadas em Vila Nova de Gaia. Sobretudo Vinho do Porto.

Ao longo dos anos, a família cultivou 100 hectares de vinha e 25 hectares de olival biológico, legado preservado amiúde. Só em 1993 é que a marca Quevedo foi oficialmente fundada, marcando uma nova era para a família, que começou a engarrafar vinhos do Porto com o próprio rótulo, graças à entrada do país, em 1986, na então Comunidade Económica Europeia (atual União Europeia). “É a União Europeia [UE] que obriga Portugal a alterar a legislação. Uma lei que vem da demarcação da região instituída pelo Marquês de Pombal, em 1776! Portanto, quando Portugal adere à UE, tudo se altera. Aparece um grande grupo de pequenos produtores – nós inclusive –, que muda para sempre a região e está, hoje, a produzir em nome próprio, e a levar o nome do Douro e a marca Vinho do Porto por este mundo fora” afirma Óscar Quevedo.

QUEVEDO WINES

De facto, este marco histórico traz consigo uma enorme mudança legislativa para a região: o fim do “Entreposto de Gaia”. Até então, qualquer Vinho do Porto destinado à exportação tinha de ser obrigatoriamente armazenado e expedido a partir de Vila Nova de Gaia. Com a nova legislação, os produtores do Douro passaram a poder engarrafar e exportar os vinhos com identidade própria, dando início a toda uma nova fase de independência para muitas casas familiares.

A quinta geração

Foi este sopro de autonomia que impulsionou Óscar e Beatriz Quevedo (pais de Óscar Jr. e Cláudia Quevedo) a fundarem a marca com o próprio nome. Em 1991, a empresa foi constituída e, em 1993, os primeiros vinhos com o rótulo Quevedo chegaram ao mercado, assinalando o princípio de uma nova era de orgulho familiar.

Por conseguinte, atualmente, a empresa é conduzida pela quinta geração da família: Cláudia Quevedo é enóloga e responsável pela produção dos vinhos, enquanto Óscar Quevedo lidera o desenvolvimento internacional da marca. Há cerca de um ano juntou-se, à equipa, Cristina Azevedo, para desenvolver o mercado nacional. “A partir de 2009, comigo a 100% na empresa, continuamos muito esta linha de exportação que, de certa forma, vinha do passado. Com a vinda da Cristina quisemos [re]conquistar o mercado nacional”, refere Óscar Quevedo.

A Quevedo gere, no presente, um património vitícola de cerca de 114 hectares distribuídos por cinco quintas com características geológicas e climáticas distintas. Esta diversidade é a “caixa de ferramentas” da enologia da casa. Quinta Senhora do Rosário, a mais antiga das propriedades da Quevedo e onde se localiza a adega; Quinta Vale D’ Agodinho, excelente para os melhores Portos; Quinta da Trovisca, o campo experimental das novas variedades ou processos de viticultura; Quinta da Valeira, com vinhas a uma altitude de cerca de 500 metros; Quinta da Alegria, com vinha e pomar, e uma frente ribeirinha com mais de 700 metros de comprimento. Sobre esta última, acresce o facto de estar dividida pelo caminho-de-ferro que liga o Porto ao Pocinho.

 

Produção própria e viticultores selecionados

O portefólio vínico é extenso, sobretudo no que diz respeito aos vinhos do Porto, génese da empresa, com colheitas de praticamente todos os anos e de variadíssimos estilos – Tawny, Ruby, Crusted, LBV, Colheita, Vintage –, graças a um enorme espólio de inegável qualidade. Os vinhos DOC Douro, embora sejam uma aposta mais recente, apresentam uma imagem renovada e um perfil moderno, como Óscar Quevedo passa a explicar: “os vinhos que produzimos são todos de produção própria ou de viticultores selecionados da zona de São João da Pesqueira. Queremos produzir vinhos mais frescos, com menos extração, menos álcool e tanino”. Vinhos que se enquadram na filosofia friendology forever, e que a empresa defende: “é, basicamente, um estado de espírito. Achamos que o convívio, a amizade, as portas abertas são uma forma de estar. E o vinho sabe muito melhor com companhia. E com partilha!”

A gama DOC douro está distribuída pelas referências Truques, nas versões branco, tinto e rosé, são vinhos frescos e não são submetidos a barrica; Alegra, em branco e tinto, traduzidos nos reserva da casa, com barrica, mas num perfil de grande equilíbrio e frescura; a gama Q.Lab, que consiste em vinhos mais experimentais, como o  extraordinário branco 100% Folgazão, um curtimenta feito a partir da casta Gouveio ou um inusitado e delicioso clarete 100% Tinta Amarela e, finalmente, os Grande Reserva Q, um branco e um tinto com um perfil duriense mais clássico.

 

A empresa foi constituída em 1991 e, em 1993, chegaram ao mercado os primeiros vinhos com o rótulo Quevedo

A joia da coroa

Todos os DOC Douro estiveram disponíveis ao longo do almoço servido na Quevedo Lodge, espaço da Quevedo Wines instalado numa antiga tanoaria convertida em centro de visitas e eventos, localizado em Vila Nova de Gaia, onde é possível provar todos os vinhos, mergulhar em degustações e harmonizações, e participar em workshops. A refeição preparada com produtos locais pelo restaurante Toca da Raposa, de São João da Pesqueira, onde a comida tradicional prima pela excelência, foi irrepreensível. Tratou-se de um almoço que serviu de mote para o lançamento de um vinho muito especial, o Quevedo White Colheita 1986, produzido no referido ano que tanta simbologia trouxe à região do Douro; evoluiu lentamente em casco de castanho, ganhando concentração, complexidade aromática e uma textura envolvente.

Cláudia Quevedo foi quem acompanhou esta “joia da coroa” de perto, com o propósito de assegurar a sua estabilidade e preservar o equilíbrio entre frescura e maturidade. Com o conhecimento de quem o viu evoluir ao longo do tempo, a enóloga indicou o momento certo para o revelar. “Este vinho é muito especial para mim: tinha 10 anos quando foi feito e acompanhá-lo ao longo do tempo deu-lhe ainda mais significado. Impressiona pela riqueza aromática, pelo volume que preenche a boca e, sobretudo, pela forma como permanece – longo, persistente – muito depois de ser provado. É um vinho que pede tempo, para ser apreciado com calma”, explica Cláudia Quevedo, com evidente comoção. Um vinho que é uma homenagem ao ano da “independência” da família, além de que preserva e enobrece o legado de séculos de um produtor familiar.

(Artigo publicado na edição de Abril de 2026)

QUINTA DE SÃO SEBASTIÃO: 1755 é símbolo de vinhos distintos

Quinta de São Sebastião

Há muito que não parava ali, apesar de passar à porta de vez em quando nas minhas deambulações de carro pelos arredores de Lisboa, em escapadas de um dia da grande cidade, que fazem sempre bem ao corpo e à alma. A propriedade fica a meia encosta, numa das colinas do concelho de Arruda dos […]

Há muito que não parava ali, apesar de passar à porta de vez em quando nas minhas deambulações de carro pelos arredores de Lisboa, em escapadas de um dia da grande cidade, que fazem sempre bem ao corpo e à alma. A propriedade fica a meia encosta, numa das colinas do concelho de Arruda dos Vinhos, com vista sedutora pelos campos afora e com as suas quintas e quintinhas. Neste território, pertença da região vitivinícola de Lisboa, estão a grande casa do proprietário, António Parente, os estábulos e o picadeiro dos cavalos que tanto gosta e a antiga adega, hoje garrafeira, onde permanecem algumas das suas preciosidades. Foi lá que decorreu a apresentação dos primeiros dois vinhos da 1755, a nova gama da Quinta de São Sebastião.

Data histórica

Trata-se, como é do conhecimento de muitos portugueses, da data histórica do grande terramoto que assolou Lisboa, seguido de maremoto (ou tsunami, na versão japonesa, como os apresentadores das nossas televisões o gostam de apelidar) que ceifou muitos milhares de vidas da cidade e não só. Do lado positivo, deu impulso à reconstrução da urbe, de forma mais organizada, como se pode ver hoje na baixa pombalina, e ao uso de métodos de construção antissísmica padronizados e inovadores, usados durante os 100 anos seguintes e que, ainda hoje, existem em alguns dos edifícios mais antigos.

Paralelamente, o ano de 1755 data a criação da Quinta de São Sebastião, propriedade histórica do concelho de Arruda dos Vinhos. “Desde a sua fundação, tem estado associada a alguns momentos históricos da região e também ao poder local, à igreja e a serviços militares, pois estamos inseridos nas Linhas de Torres e o forte de S. Sebastião da Arruda, ou do Cego, que fica por cima da propriedade e defendia o vale de Arruda, prova isso”, apresenta Filipe Sevinate Pinto, enólogo na casa desde 2011.

 

A nova gama ostenta uma imagem alusiva ao terramoto de 1755 e engloba um produto fora da caixa da Quinta de São Sebastião

 

Uvas de exposições e altitudes diversas

Original de Viana do Castelo, o proprietário, António Parente, vive nela há cerca de 40 anos. Desde essa altura, “pretendeu contribuir para dinamizar a região em várias áreas, sobretudo uma que lhe era muito cara, a da vitivinicultura”, esclarece o enólogo. Por isso, o projecto que começou a desenvolver passou pela privatização da Adega Cooperativa de Arruda dos Vinhos, na altura a atravessar momentos difíceis, e foi evoluindo por um caminho que, através do alargamento da produção e da venda dos vinhos apenas da Quinta de São Sebastião, evoluiu para um negócio muito mais vasto. “Representava, há 15 anos, cerca de 80 mil garrafas de vinho e, hoje, é um projecto internacional, que vende para mais de 50 países e absorve, não só as uvas da propriedade, como as de outras parcelas que foram sendo adquiridas e incorporadas num negócio que tem, hoje, um total de 45 hectares de vinhas próprias”, informa Filipe Sevinate Pinto, acrescentando que “os 200 hectares de outros viticultores da região contribuem para enriquecer um projecto que tem uvas de diversas origens, com altitudes e exposições diferentes”.

 

Dois tintos sedutores

Os vinhos da nova gama 1755, lançados este ano, pretendem dar espaço ao que a empresa produz e não tem enquadramento nas suas outras referências, “que são muito definidas e apresentam alguma maturidade no mercado”, explica o enólogo. São 14 marcas, entre as quais destacam-se Quinta de S. Sebastião, S. Sebastião, Forte de S. Sebastião ou Fonte das Setas. Saliento a QSS Rare, que “inclui vinhos mais modernos, e tem tido grande sucesso nos Estados Unidos”, porque parte das receitas das vendas reverte para a Liga para a Protecção da Natureza, Organização Não Governamental de Ambiente (ONGA) de âmbito nacional, fundada em 1948. É hoje a associação mais antiga do género da Península Ibérica. Portanto, não é de estranhar que os vinhos desta gama tenham, no rótulo, imagens de espécies em perigo de extinção, como o Cavalo Marinho ou o Lobo e o Lince Ibéricos.

A empresa produz e comercializa também a marca internacional Angry Duck, “um Cabernet Sauvignon que vendemos para todo o mundo”, afirma Filipe Sevinate Pinto. Segundo o enólogo, “todas as gamas da empresa estão muito definidas e, por isso, fazia sentido dar este passo para coisas que não se enquadram nelas”. Foi assim que surgiu a nova marca, que tem uma imagem enigmática, do terramoto, para englobar um produto fora da caixa produzido pela Quinta de São Sebastião. Inclui “pequenas séries, que não têm uma sequência lógica, de vinhos para comida”, que poderão ser, ou não, repetidos

As primeiras referências lançadas, um vinho da casta Castelão, “mais aberto, com 12 graus, fresco, com tensão, e um Reserva, um vinho mais quente, por ser extraído, mais concentrado, opulento, com uma fruta fresca”, foram apreciados na antiga sala da adega, com a sua garrafeira empoeirada, na companhia de comida pensada e elaborada pelo Chef de cozinha do Hotel Eva, no Algarve, Alberto Carvalho depois da visita às propriedades e às suas instalações. Dois grandes vinhos e um bom momento com a comida.

(Artigo publicado na edição de Abril de 2026)