Vinhos de Lisboa elegeram os melhores da região

Vinhos Lisboa

O Concurso de Vinhos de Lisboa 2023 revelou, recentemente, os seus vencedores, numa cerimónia que teve lugar na Quinta da Pimenteira. Houve medalhas de Excelência, de Ouro e de Prata, e ainda medalha para o Melhor Arinto e para o Melhor Vital. Nos prémios de Excelência, o Azulejo 2022, da Casa Santos Lima, foi o […]

O Concurso de Vinhos de Lisboa 2023 revelou, recentemente, os seus vencedores, numa cerimónia que teve lugar na Quinta da Pimenteira.

Houve medalhas de Excelência, de Ouro e de Prata, e ainda medalha para o Melhor Arinto e para o Melhor Vital. Nos prémios de Excelência, o Azulejo 2022, da Casa Santos Lima, foi o Melhor Branco; Nevão Leve rosé 2021, da Adega Cooperativa da Labrujeira, o Melhor Leve; Quinta do Gradil Tannat 2021, o Melhor Tinto; Quinta do Rol VSOP, a Melhor Aguardente Vínica DOP Lourinhã; e Empatia Vital branco 2022, da Adega da Labrujeira, foi o Melhor DOP de Lisboa. A lista completa dos vencedores e medalhas pode ser consultada AQUI.

A entrega de prémios contou com a presença do Vereador Ângelo Pereira, da Câmara Municipal de Lisboa, Instituto da Vinha e do Vinho, Confrarias da região, Direcção Regional de Agricultura de Lisboa e Vale do Tejo, autarcas e CIM Oeste, Turismo de Portugal, jornalistas e enófilos convidados e produtores da região vitivinícola de Lisboa.

“Com este evento celebrámos, mais uma vez, o trabalho dos viticultores de Lisboa e o sucesso da Região Demarcada, bem como projectos que primam pela excelência na promoção, divulgação e serviço dos vinhos da região, e homenageámos, com o prémio de Mérito de Carreira, o Enólogo João Melícias”, comenta a Comissão Vitivinícola da Região de Lisboa, organizadora do Concurso dos Vinhos de Lisboa.

Quinta do Carvalhido – Paixão e razão: duelo de titãs

Quinta do Carvalhido

Os primeiros registos documentais da Quinta do Carvalhido datam de 1909, com assinatura de Sancha Augusta Almada Menezes Pimentel, Viscondessa de Barcel e trisavó dos actuais proprietários, Maria de Fátima Drummond Borges, herdeira da quinta em 2013, e o seu marido Pedro Drummond Borges. A pequena propriedade, que até ao início dos anos 70 tinha […]

Os primeiros registos documentais da Quinta do Carvalhido datam de 1909, com assinatura de Sancha Augusta Almada Menezes Pimentel, Viscondessa de Barcel e trisavó dos actuais proprietários, Maria de Fátima Drummond Borges, herdeira da quinta em 2013, e o seu marido Pedro Drummond Borges. A pequena propriedade, que até ao início dos anos 70 tinha produzido vinho do Porto para outras casas, estava nessa altura em estado de abandono, mas Pedro Drummond Borges, toda a vida gestor de empresas tecnológicas, viu para além da cabeleira — neste caso vinha — despenteada, e apaixonou-se assolapadamente. “Pus-me a pensar no que poderia fazer daquilo, porque ter a quinta em mau estado não era hipótese para mim”, diz-nos o empresário, com o entusiasmo de quem conta as peripécias de uma aventura que acabou em bem. Para tomar a decisão mais informada e perceber o real potencial das vinhas, que totalizavam apenas cinco hectares (só um aproveitável no momento), chamou o viticólogo José Miguel Teles. “Ele disse-me que teríamos de reconverter a maioria das parcelas, mas que conseguiríamos fazer, inicialmente, umas seis mil garrafas de tinto DOC Douro”. Assim, entre 2014 e 2015, começaram a tratar de reconverter 2,7 hectares, concluindo uma plantação em 2017 e outra em 2018, “já com castas estudadas e a pensar no nosso projecto”, revela Pedro Drummond Borges. “Mas estava a fazer tudo isto sem ter a noção exacta ou certeza de qual seria meu objectivo… Não poderia ser só eu a dedicar-me ao projecto, se era para o levar adiante. Tenho cinco filhos, e na altura decidi colocar a família a par do esforço que estava a fazer, sobretudo financeiro…”, recorda.

O passo seguinte foi contratar um enólogo. “Um bom enólogo, para fazer vinhos de topo”, sublinha Pedro Drummond Borges, “não sei fazer as coisas de forma amadora”, atira. O escolhido foi Francisco Baptista, sócio e responsável de enologia no projecto Lua Cheia-Saven, cuja adega serviu, até 2022, inclusive, para produção dos vinhos da Quinta do Carvalhido. Estavam as condições criadas para avançar com o primeiro vinho, Carvalhido tinto 2017, que viria a ser lançado em 2020, com imagem da autoria de Rita Rivotti. “O negócio do vinho, falando em linguagem de gestor, é um negócio de “cash flow”, e se não o tivermos, estamos tramados. Antes do nosso primeiro vinho sair para o mercado, tive produzir fazer também em 2018 e 2019… E pensei ‘agora tenho este bebé de 1500 garrafas nas mãos, o que faço com ele?’, mas a verdade é que as vendi num ápice”, confessa o produtor. Devagar, devagarinho, foi mantendo essa quantidade de produção, até que em 2021 começou a perceber que a aventura tinha pernas para andar. Depois de tomar a grande decisão de recuperar toda a quinta, incluindo os edifícios, chamou o filho Tiago, que deixou o seu trabalho na Tabaqueira para se dedicar à Quinta do Carvalhido no início de 2022, altura em que o projecto arrancou em força. Em 2022, produziram-se ali 13500 garrafas, e o objectivo é crescer rapidamente para as 25 mil. O gestor é assertivo nas palavras: “Não quero ficar com vinho por vender e dizer que vendo tudo. Sou muito cuidadoso nestas coisas. Ou faço segundo os cânones, ou não faço. Um passo de cada vez, tudo muito bem analisado”.

Quinta do Carvalhido

 

Os primeiros meses de 2022 foram também o momento em que a recuperação da antiga adega ficou finalizada, um empreendimento pessoal de Pedro Drummond Borges. “Achei que era uma grande mais-valia, não económico-financeira, mas de imagem, porque a adega é lindíssima. Ainda não pudemos vinificar lá em 2022 por falta de equipamento, pois tinha apenas uns pipos muito velhos, que ainda cheiravam a vinho”, explica. Já em 2023, a Quinta do Carvalhido começa a produzir na sua adega reabilitada e devidamente equipada. Por agora, estão no mercado cinco vinhos — Carvalhido branco, rosé e tinto; e Quinta do Carvalhido branco e tinto — e depois da prova percebemos que, quando disse que não fazia coisas amadoras, Pedro Drummond Borges não estava a mentir: elegância, frescura e complexidade não lhes falta, com os topo de gama Quinta do Carvalhido a deixar uma fortíssima impressão, surpreendente dada a juventude do projecto. O branco, lote de Viosinho, Rabigato e Arinto, fez doze horas de maceração pré-fermentativa e acabou a fermentação em barricas de 300 litros de carvalho francês, de 4º e 5º uso, onde estagiou nove meses sobre borras finas, com bâtonnage. O tinto, por sua vez, junta Touriga Nacional e Touriga Franca e estagiou doze meses em barricas novas. Estas três castas brancas e duas tintas são, actualmente, as predominantes na quinta.

No sentido de aumentar a produção, a família comprou, recentemente, mais duas propriedades com vinha, também no rio Tua, tal como a Quinta do Carvalhido. Estão as duas prontas a produzir, mas uma delas terá de ser, em parte, reconvertida. Com estas aquisições, o projecto duplicou a área de vinha, totalizando agora doze hectares. Segundo Pedro Drummond Borges, poderá haver novidades também ao nível dos métodos de vinificação, mas o produtor não revela mais. Não quer atrair má sorte nem garantir o que ainda não está garantido, mas os olhos brilham enquanto nos deixa o “teaser”. É a voz do gestor racional a falar, e deixamos que assim seja.

(Artigo publicado na edição de Outubro de 2023)

Quinta da Boeira: Onde “small is beautiful”

Nascida em 1850, pela mão de um abastado emigrante regressado do Brasil, a Quinta da Boeira procurou sempre aliar a comercialização e exportação a um ideal de exclusividade, associado a um produto único e de rara singularidade, o vinho do Porto. O palacete que se ergue no interior dos 3 hectares da propriedade, no centro […]

Nascida em 1850, pela mão de um abastado emigrante regressado do Brasil, a Quinta da Boeira procurou sempre aliar a comercialização e exportação a um ideal de exclusividade, associado a um produto único e de rara singularidade, o vinho do Porto.

O palacete que se ergue no interior dos 3 hectares da propriedade, no centro de Vila Nova de Gaia, é o ícone de um modo de estar no negócio, que nunca dissocia da atividade principal o bom gosto pela arte e cultura. A consciência de marca está bem presente em todas as ações de charme realizadas nos 25 mercados internacionais onde a Boeira marca presença, com principal destaque para a Dinamarca, Estados Unidos e China.

Após a aquisição da empresa e propriedade, em 1999, por um grupo de 10 investidores, onde figurava Albino Jorge, actual CEO, o investimento na valorização da marca no sector “premium” conheceu a recuperação do Palacete e a instalação, aí, de um restaurante de luxo e a construção da maior garrafa do mundo (32 metros de comprimento), que, no primeiro ano, trouxe mais de 74 mil visitantes ao espaço. O regresso à actividade pioneira da empresa original deu-se em 2017, com o registo no IVDP como marca exportadora de vinhos do Porto.  Em 2019, e com um investimento que rondou os 17,5 milhões de euros, foi edificado o Boeira Garden Hotel, unidade de 5 estrelas, que possui 119 quartos e 5 suítes, alienado, entretanto, ao grupo israelita Taga Urbanic, mantendo-se a Quinta da Boeira como parceiro estratégico. Mais recentemente, o grupo adquire a moradia da família C. da Silva, que será objeto de um projeto de requalificação para ali criar o “Boeira Port Club”, cujo investimento total rondará os 2,2 milhões de euros, tendo abertura já programada para meados do próximo ano.

“Small is Beautiful”, vale como lema da Quinta da Boeira, projecto que Albino Jorge apresenta como pequeno e tradicional, mas que, no espaço de 3 anos, pretende estabelecer como meta uma facturação de 4 milhões de euros anuais.

Quinta da Boeira

 

 

 

 

Helena Teixeira, enóloga responsável, assina o Quinta da Boeira Vintage 2021 e é fiel guardiã dos balseiros onde repousou o Very Old Tawny.

 

Retornando ao foco principal, os vinhos, onde os vinhos do Porto detêm quota de cerca de 90% da produção anual da empresa, que ronda as 500 mil garrafas, há ainda uma aposta fundamental nas vinhas que, actualmente, se cifram em 17 hectares dos 30 totais da propriedade. Fomentando a estratégia de valorização da marca “Port/Porto”, a Quinta da Boeira adquiriu recentemente uma parcela relevante de vinha velha, também em Alijó, donde pretende colher uvas que trarão maior densidade e complexidade aos vinhos do futuro, criando produtos cada vez mais exigentes e procurados pelos mercados mais relevantes, como mostram as mais recentes vendas de várias dezenas de garrafas da edição especial do “Boeira Very Old Tawny 2017” para o mercado dinamarquês e canadiano.

A altitude e climatologia do planalto de Alijó, no Cima Corgo, vincam forte influência nos vinhos do Porto da Quinta da Boeira, traduzindo-se numa marca muito própria de frescura e estrutura. Quem o afirma é Helena Teixeira, a enóloga responsável, que assina o “Quinta da Boeira Vintage 2021” e é fiel guardiã dos balseiros onde repousou o “Very Old Tawny 50 anos”

(Artigo publicado na edição de Outubro de 2023)

Vinhos do Alentejo elegeram novo embaixador no Brasil

Concurso sommelier

O concurso decorreu como habitualmente em duas etapas. Previamente seleccionados após um conjunto de exigentes provas teóricas e práticas ainda em solo brasileiro, começaram por ser apurados seis sommeliers finalistas que tinham como prémio uma viagem de estudo e trabalho ao Alentejo e onde decorreria a fase final do concurso. Foram assim apurados Bruno Margulhano […]

O concurso decorreu como habitualmente em duas etapas. Previamente seleccionados após um conjunto de exigentes provas teóricas e práticas ainda em solo brasileiro, começaram por ser apurados seis sommeliers finalistas que tinham como prémio uma viagem de estudo e trabalho ao Alentejo e onde decorreria a fase final do concurso.

Foram assim apurados Bruno Margulhano (SC), representante da Florence Vinhos; Diego Arrebola (SP), consultor, palestrante e embaixador, sócio da Arya Wines; Marcus Vinicius Mezadri (ES), professor de certificações internacionais (IWC e AWC) pela ISG e proprietário da Theu Vinho; Pedro Barcellos (RJ), professor na ABS-RJ; Vinicius Conde (SP), director estadual da sommelier school; Vinicius Santiago (RS), professor de WSET, FWS, formador e director de degustação na ABS-RS.

Na verdade, só cinco deles acabaram por poder aproveitar a viagem, porque Marcus Mezadri ficou retido no Brasil devido a um problema familiar de última hora, mas os cinco sommeliers aproveitaram bem a visita e tiveram oportunidade de mergulhar a fundo no mundo dos vinhos do Alentejo, visitar algumas das mais destacadas herdades da região, provar os seus vinhos e conhecer as vinhas, castas e processos de produção no Alentejo.

Concurso sommelier
Vincius Santiago, o Melhor Sommelier Brasileiro do Alentejo no Brasil 2023

Depois de uma semana intensa de experiências e de contacto com os agentes da região, decorreu a prova finalíssima na sede da rota dos Vinhos do Alentejo, em Évora. Esta foi constituída por uma prova escrita para testar conhecimentos e uma prova oral e prática para observação do serviço. O júri constituído por João Geirinhas, representando a Grandes Escolhas, Tiago Caravana, director de marketing da CVR do Alentejo, Domingos Meireles director da Exponor Brasil e dois premiados sommeliers portugueses, Marc Pinto, Wine Director do Fifty Seconds e Ivo Peralta Head Sommelier do JNcQUOI Club, pôde apreciar o alto nível demonstrados por todos os concorrentes e enfrentar a dificuldade de escolher o vencedor perante tão elevados desempenhos.

Apesar disso, foi unânime na consagração de Vinicius Santiago que revelou muita segurança em todos os momentos da prova. É, no entanto, convicção dos responsáveis da CVR do Alentejo que todos os sommeliers concorrentes serão para sempre grandes entusiastas e divulgadores dos vinhos do Alentejo no país irmão.

Uma aguardente “divinal” da Moldova

aguardente moldova

Nos tempos em que a Moldova fazia parte da União Soviética, qualquer aguardente vínica chamava-se “Cognac”, a ser entendido como um tipo de bebida e não uma denominação de origem. Depois de se tornar num estado independente e à procura de novos mercados, a República da Moldova começou a trabalhar no sentido de respeitar as […]

Nos tempos em que a Moldova fazia parte da União Soviética, qualquer aguardente vínica chamava-se “Cognac”, a ser entendido como um tipo de bebida e não uma denominação de origem. Depois de se tornar num estado independente e à procura de novos mercados, a República da Moldova começou a trabalhar no sentido de respeitar as regras do jogo e juntou-se ao Acordo de Lisboa, que visa assegurar a protecção das denominações de origem, como é o caso do vinho do Porto ou Champagne, por exemplo. Lançou-se, assim, no desafio de arranjar um novo nome para as aguardentes produzidas no país.
A primeira sugestão para substituir o habitual “Cognac” foi “Distvin” juntando as palavras “Distilat de Vin” (destilado de vinho) até que foi proposto um tuning mais sonante, transformando “Distivin” em “Divin”, o que na língua romena/moldava significa “divinal”. E desde 1993, este ficou o termo oficial para aguardente vínica produzida na Moldova. Em 2012 foi assinado o Caderno de Encargos que estabeleceu as regras de elaboração de Divin.
A área geográfica delimitada para a produção de aguardentes vínicas abrange todo o território do país, mas insere-se, praticamente toda, na zona continental localizada nos planaltos dos Cárpatos, no Norte, e inclui a área de Codru, no Centro, e as estepes de Bugeac, no Sul.
Entre as castas autorizadas para a produção de Divin, constam as variedades locais como a Fetească Alba, Alb de Onitcani, Alb de Suruceni, Riton e Luminita; as do Cáucaso como a Rkatsiteli e de países territorialmente próximos da Moldova, como Bianca, Pervenet Magaracea, Suholimanski belii; e castas internacionais, entre elas Chardonnay, Sauvignon Blanc, Riesling, grupo Pinot, Ugni Blanc, Silvaner e Aligote. Para os Divin em prova, foram utilizadas as castas Aligote, Chardonnay, Sauvignon, Fetească e Rkatsiteli.
A destilação é permitida em sistemas contínuos ou descontínuos. O tempo mínimo de estágio é de 3 anos para V.S. (Very Special); 5 anos para V.S.O.P. (Very Super Old Pale); 7 anos para X.O. (Extra Old) e 20 anos para X.X.O. (Extra Extra Old). O teor alcoólico mínimo do produto final deve ser 40%.
A Molddavshii Standart é um dos maiores produtores de aguardentes na Moldova, que iniciou a sua actividade em 1998. A gama de produtos destilados é vasta, entre os quais se destaca “Legenda Moldovei” que significa “Lenda da Moldova”, baseado numa lenda relacionada com a criação do Principado da Moldova no século XIV. Reza a história que o príncipe Dragoș andava à caça nas montanhas. Ao perseguir um bisonte, o seu cão, Molda, caiu nas águas de um rio e não sobreviveu, enquanto a presa foi morta pelas flechas dos caçadores. Em homenagem ao seu cão, o príncipe nomeou o rio de Moldova e o nome extendeu-se ao principado.

(Artigo publicado na edição de Outubro de 2023)

Vesúvio: 200 anos de erupção

vesúvio

A Quinta do Vesúvio tem uma situação geográfica única no Douro. Fica na margem Sul, perto de Numão, em frente a Carrazeda de Ansiães, na zona onde desagua a Ribeira da Teja. Tem uma enorme frente de rio, e foi uma quinta decisiva no avanço da Região Demarcada do Douro para o Douro Superior, área […]

A Quinta do Vesúvio tem uma situação geográfica única no Douro. Fica na margem Sul, perto de Numão, em frente a Carrazeda de Ansiães, na zona onde desagua a Ribeira da Teja. Tem uma enorme frente de rio, e foi uma quinta decisiva no avanço da Região Demarcada do Douro para o Douro Superior, área que anteriormente não era zona de vinho.

Rupert Symington, CEO da Symington Family Estates, explicou a história da quinta. Logo a abrir disse “2023 porquê? Porque nós queremos.” Realmente, a quinta já tinha registos desde 1565, e era conhecida pela produção de citrinos, amêndoas e figos. No Douro Superior praticamente não havia produção de vinho. Enormes maciços de granito dificultavam a construção dos terraços. Só no século XVIII começou a produção de vinho, graças à utilização de dinamite. Também a navegabilidade do rio foi construída a pulso, e os acessos ao Douro Superior transformaram-se decisivamente. Todos nos lembramos das imagens de barcos rabelos puxados em zonas rasas por carros de bois a partir da margem.
António Bernardo Ferreira, tio e sogro de D. Antónia “a Ferreirinha” comprou a quinta em 1823 e já com a visão e decisão de plantar vinha. Isto foi mesmo depois das invasões francesas e num período de grande instabilidade política. A revolução liberal ocorreu em 1820 e culminou em 1822 com a ratificação e implementação da primeira Constituição Portuguesa. Foi também em 1822 que foram retiradas algumas das limitações da Região Demarcada do Douro. António Bernardo Ferreira plantou em 1823 nada menos que 150ha de vinha, o que implicou a construção de milhares de muros. Em 1827 foi construída a casa, e em 1830 mudou o nome para Quinta do Vesúvio. A obra demorou 13 anos, e chegou a ter diariamente 500 trabalhadores envolvidos. Ainda não se chamavam “colaboradores.” Esta adega de 1827 permanece operacional e na essência igual à que foi construída. Mais tarde, D. Antónia construiu a escola expandiu a capela e a casa. O marido e primo de D. Antónia, António Bernardo Ferreira Filho, morreu em 1844 e ela assumiu a liderança. Durante a filoxera, para não ter de despedir os trabalhadores, ordenou a construção de um muro a toda a volta da propriedade, e plantou amendoais, laranjais e olivais. O Vesúvio foi das primeiras quintas a engarrafar Vinho do Porto com marca própria, em 1863. A estação de comboios foi inaugurada em 1887, facilitando a viagem, que era difícil e demorada.

vesúvio
Rupert Symigton, CEO da Symington Family Estates, explicou a história da Quinta. Logo a abrir, disse: “2023 porquê? Porque nós queremos”.

Mais ou menos na mesma altura, 1890, a família Symington comprou uma quinta mesmo em frente ao Vesúvio, a Quinta da Senhora da Ribeira. A razão envolve o Vesúvio: havia a estação dos comboios a facilitar imenso a viagem desde o Porto, depois bastava atravessar o rio. Rupert Symington riu-se: “estivemos 100 anos a olhar o Vesúvio desde o outro lado do rio.” Os Symington têm a sua história bem documentada no seu website, que convido a visitar. Conta como Andrew James Symington chegou a Portugal em 1882, o que faz com que a actual administração seja a quarta geração à frente do grupo, com a quinta já a apontar-se para a sucessão. Mas através da herança da esposa de AJ, Beatrice Atkinson, são já 14 gerações que atravessam toda a história do Vinho do Porto, desde 1652. Os Symingtons acarinham este passado e também a sua ligação ao Douro e à terra. Os vários membros da família foram comprando quintas e casas no Douro. Quando, na sequência da II Guerra Mundial tiveram de vender a Quinta da Senhora da Ribeira, foi uma dor de alma, ferida que só foi curada em 1998, quando a recompraram para a Dow’s, uma das marcas do grupo. Entretanto, já tinham adquirido a Quinta do Vesúvio, em 1989. A venda do Vintage 1985 correu muito bem nos USA e no UK, e pela primeira vez em 30 anos havia alguma folga financeira.

Após séculos de lotes de diferentes sítios, o vinho do Porto explora agora o conceito de terroir. O do Vesúvio é único.

Os Symingtons tinham relativamente poucos terrenos próprios. Quando soube que o Vesúvio estava à venda, Ian disse à família “não podemos perder esta oportunidade, é a quinta com mais história do Douro.” Era a ocasião para garantir fornecimento de uvas de grande qualidade. O Vesúvio foi das primeiras quintas a ter plantação por castas e tinha uma adega de boa qualidade. Mas na época tinha 56 accionistas, foi preciso ganhar um leilão por carta fechada, na segunda ronda, e a assinatura dos documentos demorou mais de um longo dia. A adega ficou como estava, na vinha foram replantadas grandes parcelas. A vinha assegurou logo vinhos de nível superior para as marcas do grupo, Graham’s, Dow’s, etc. Logo em 1989 engarrafaram um Vintage de quinta, sendo assim um dos primeiros Single Quintas, em particular, um dos primeiros a serem lançados todos os anos, em vez de apenas nos anos “não-clássicos.”

UM ASSOMBRO DURIENSE

O Vesúvio produzia anualmente já na altura 20 a 30 mil caixas (de 12 garrafas, 9 litros) de vinho, mas só engarrafava 2 a 3 mil. Era assim possível todos os anos engarrafar um vinho da melhor qualidade, permitindo focar a produção no conceito de terroir, fortíssimo em outras grandes regiões vinícolas do mundo, mas não a primeira prioridade na DOP Porto, que preferia enfatizar a virtude dos lotes (várias localizações, por vezes vários anos). O terroir foi assim espreitando devagar nas motivações dos enólogos do vinho do Porto, e as duas frentes vão ainda hoje avançando lado a lado. Até 2007 foi sempre assim. Charles Symington, o actual enólogo, fez ali o seu primeiro vintage em 1995. Mais tarde introduziu a refrigeração nos lagares, depois o desengaçador, mas a pisa a pé foi mantida até hoje. Em 1989 havia 60 hectares de vinha, hoje são 128ha. A quinta tem no total 326ha. No fim dos anos 1990, o novo Douro apareceu em força, com as mesmas vinhas a produzir Porto e DOC Douro. As novas plantações procuraram lugares mais frescos, com maior altitude, para possibilitar a produção de DOC Douro. Depois de anos de experiência, em 2007 foram lançados o primeiro tinto Quinta do Vesúvio e o seu irmão Pombal do Vesúvio, há dois anos foi lançado o primeiro Comboio do Vesúvio, um tinto sem madeira, para beber mais jovem. O Vintage continuou sempre a ser produzido a não ser em anos mesmo trágicos em qualidade (1993 e 2002). Os primeiros vintages, dos anos 1990, mostram ainda hoje muita envolvência e encanto, tal como os primeiros tintos se mostram jovens e voluptuosos, filhos do seu sítio, maduros e poderosos, mas cheios de juventude e frescura. São vinhos para envelhecer e apreciar com calma.

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O enólogo Charles Symington fez, na Quinta do Vesúvio, o seu primeiro Vintage, em 1995.

O lançamento do Quinta do Vesúvio Douro tinto de 2021 foi pontuado por esta efeméride, 200 anos de produção de vinho na quinta. Aqui faz-se uma viticultura heróica, há muito pouca água, apesar do rio logo ali ao lado. O ano de 2021 ajudou do ponto de vista climático, os vinhos têm frescura, com aroma levantado, e o estágio na madeira foi feito de forma equilibrada, subtil, de forma a mostrar a propriedade, as castas, o Douro. As barricas foram de 400 litros, 80% madeira nova, incorporação cuidadosa. São vinhos ainda na sua infância, precisam de tempo e paciência.

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Emblemática propriedade que pertenceu a D. Antónia “Ferreirinha”, a Quinta do Vesúvio foi comprada pela família Symington em 1989 a 56 diferentes accionistas.

 

200 anos não é brincadeira, e durante dois dias viajei acima-abaixo no rio Douro, apreciando o Vesúvio a partir da água, como em outras ocasiões apreciei a exploração dos seus caminhos em terra. Visitar o Douro é sempre suster a respiração em assombro, e não me canso de apreciar cada detalhe: é um muro, é um mortório, um recanto inóspito do rio que a força humana ao longo de muitos anos conquistou e domou, é um tomate provado acabado de apanhar, em sua época perfeita, como mais tarde será uma laranja que hoje aparece ainda como uma bola de golfe pequena e compacta de verde. E são as pessoas, o brilho nos olhos quando falam da sua herança com um misto de orgulho, responsabilidade e determinação. Não é só terra, é a vinha, são os vinhos, são as quintas, são as marcas, são as pessoas, que passam gerações, preenchem posições, permanecem. Os visitantes, como eu, ganham também carinho por estes sítios, procuram a sombra, provam um canapé do sempre excelente Pedro Lemos, dão uma bicada nos novos vinhos, aparecem agora muitos brancos, pequenas experiências que prevejo desaguem em breve em novas marcas fortes. Tenho a sorte de ter acompanhado este projecto do Vesúvio desde o seu princípio, logo em 1989, e tenho um sereno orgulho alheio no que os bravos Symington conseguiram. Agora, venham mais 200…

(Artigo publicado na edição de Outubro de 2023)

Chryseia 2021: A excelência de um ano fresco no Douro

Chryseia

Numa aliança que se iniciou em 1999, unindo o produtor de Bordéus e enólogo Bruno Prats (antigo proprietário do Château Cos d’Estournel) aos maiores proprietários de vinhas no Douro, a família Symington, nasceu a Prats & Symington. Esta parceria única, de conhecimentos e tradições de duas grandes regiões vitivinícolas mundiais, resultou na criação de um […]

Numa aliança que se iniciou em 1999, unindo o produtor de Bordéus e enólogo Bruno Prats (antigo proprietário do Château Cos d’Estournel) aos maiores proprietários de vinhas no Douro, a família Symington, nasceu a Prats & Symington. Esta parceria única, de conhecimentos e tradições de duas grandes regiões vitivinícolas mundiais, resultou na criação de um grande tinto do Douro, que ecoa além-fronteiras: o Chryseia.
A Prats & Symington é, ao dia de hoje, proprietária de duas quintas no Douro: a Quinta de Roriz (na fotografia) e a Quinta da Perdiz, ambas localizadas no Cima Corgo e a operar em modo de Produção Integrada. As uvas do Chryseia provêm das duas quintas, e também da vinha vizinha de Roriz, Quinta da Vila Velha, propriedade particular de Rupert Symington. A Quinta de Roriz foi adquirida pelas duas famílias em 2009 com foco neste vinho, um passo importante para a obtenção da qualidade e da consistência que hoje nele encontramos. Em solos de xisto, a propriedade tem exposição maioritariamente a Norte e totaliza 95 hectares, cerca de 43 de vinha. Aqui, as duas castas que compõem o lote do Chryseia são dominantes — Touriga Nacional e Touriga Franca — mas também estão presentes Tinta Roriz, Sousão, Tinto Cão e outras tradicionais da região.
A apresentação da colheita de 2021 do Chryseia (com estágio de 15 meses em barricas de carvalho francês de 400L), mas também do entrada de gama Prazo de Roriz (6 meses em barrica) e do tinto Post Scriptum (12 meses em barrica), teve lugar no restaurante do chef Pedro Lemos, no Porto, e foi conduzida por Rupert Symington, Bruno Prats e Miguel Bessa, enólogo residente do projecto. “O que fizemos aqui não foi propriamente ir à procura do sucesso do vinho, foi acreditar que os vinhos apresentados hoje podem ser pedidos todos os dias aqui e colocados no pairing sem limitações, e isso é conseguido pela elegância e grandiosidade dos vinhos”, comentou Pedro Lemos, sobre a harmonização com pratos da sua autoria.

Chryseia

Bruno Prats — que actualmente residente em Genebra e se mantém ligado a duas empresas, Klein Constantia, na África do Sul, e Prats & Symington — destacou a capacidade de envelhecimento destes vinhos do Douro, referindo que até mesmo um Prazo de Roriz 2012, recentemente provado, estava delicioso. “O Post Scriptum é o segundo vinho do Chryseia. Ao fazer o lote final deste, seleccionamos o melhor dos melhores. O que resta, e que é feito com igual cuidado e qualidade, e das mesmas vinhas, origina o Post Scriptum”, referiu o enólogo. “Lembro que, em geral na Europa, 2021 foi um ano muito quente, com ondas de calor horríveis, mesmo no Reino Unido. Mas não no Douro, onde tivemos um ano fresco. Isso foi bom para nós, que procuramos elegância e finesse. Pudemos aproveitar um longo período de noites frescas que mantiveram a acidez e frescura, e boas condições durante a vindima, com pouca chuva. Foi um ano de colheita muito semelhante às minhas memórias de Bordéus. Uma colheita que elevou, sem dúvida, as características do Chryseia, que são a elegância, finesse, ‘drinkability’ e frescura. Queremos continuar a fazer o Chryseia assim, no seu espírito muito próprio. A magia do Douro é que permite fazer vinhos com enorme potencial de guarda, mas muito acessíveis, em perfil, enquanto jovens”, comentou Bruno Prats.
Já Miguel Bessa, enólogo residente da Prats & Symington, confessou que, para si, “o dia de lançamento destes vinhos é como o dia em que levamos pela primeira vez os filhos à escola, pela mão. O ano 2021, no meio de dois anos muito quentes, foi para nós um ano fácil, que veio ao nosso encontro: fresco, com maturações muito lentas, transportando-nos no vinho para os bosques da quinta, num lado mentolado e de frescura. Estou muito satisfeito…”, rematou.

(Artigo publicado na edição de Outubro de 2023)

Fraga do Calvo: O retomar de um sonho adiado

Fraga do calvo

Em 1951, José Marinho era apenas um jovem quando iniciou a aventura da emigração, longe das suas origens, do outro lado do Atlântico. As razões foram as mesmas de muitos conterrâneos e compatriotas: a busca de uma vida melhor. As longas horas de trabalho muito duro no Brasil não obstaculizaram alguns períodos de ócio que […]

Em 1951, José Marinho era apenas um jovem quando iniciou a aventura da emigração, longe das suas origens, do outro lado do Atlântico. As razões foram as mesmas de muitos conterrâneos e compatriotas: a busca de uma vida melhor. As longas horas de trabalho muito duro no Brasil não obstaculizaram alguns períodos de ócio que permitiram desenvolver ligações sociais. Num desses momentos de descontracção, conheceu Etelvina Alves, a mulher que o encantou e com a qual regressou a Portugal, na década de 60, para casar e constituir família.
Com o dinheiro amealhado resolveu retomar um velho sonho e comprou a Fraguita, uma propriedade no Douro com três hectares, situada em Cabeda, no concelho de Alijó, na qual desenvolveu com grande entusiasmo a produção de vinho, que depois vendia na movimentada taberna do centro da povoação, por onde passava a Estrada Nacional 15, sendo na altura a única ligação entre a cidade do Porto e os territórios situados para lá da Serra do Marão. Contudo, a finitude da vida colocaria um ponto final na sua paixão.
Em 2014, um dos netos quis dar continuidade ao legado do seu avô. “Foi preciso tempo e algumas pessoas para que o meu desejo de colocar as mãos na terra ganhasse a força necessária para eu recomeçar uma história e dar continuidade a um sonho antigo, o sonho adiado de José Marinho”. Refere Gil Taveira, o actual mentor e enólogo do projecto.

Uma nova fase de expansão

Como seria de esperar, os novos empreendimentos vínicos não estão isentos de numerosos desafios e dificuldades. “O meu projecto de vida é pautado por muitos episódios de luta e persistência, que desaguam em singulares momentos de felicidade”, diz Gil Taveira.
Um dos maiores constrangimentos que teve de ultrapassar foi o arrendamento de novos vinhedos, com características semelhantes aos originais, que oferecessem garantias de qualidade. Actualmente, o projecto apresenta um total de cinco hectares de vinha, compostos pelas castas brancas Códega do Larinho, Gouveio e Viosinho. Relativamente às castas tintas, o encepamento passa por Touriga Franca, Touriga Nacional e Tinta Roriz.
Ano após ano, tudo foi crescendo, e o que começou com uma pequena vinha no Douro transformou-se num projecto vínico viável, que inclui uma parceria com viticultores na região da Beira Interior, iniciada em 2018, dando início a uma nova marca e a vários vinhos.
O sonho não acaba aqui porque, ao que parece, haverá novos desenvolvimentos. Diz o enólogo, “hoje sei que a emoção e o amor são duas das mais valiosas ferramentas que utilizarei para que este sonho não mais seja adiado. O futuro não está planeado, mas… é inevitável”.

(Artigo publicado na edição de Outubro de 2023)