Adega de Penalva: Um exemplo diferenciador

Adega de Penalva

Olhando para um passado com quase 65 anos cumpridos, a Adega de Penalva podia ser apenas mais uma das cooperativas surgidas com o eclodir do fenómeno, no final dos anos 50 do século passado. Fundada em 1960 por 43 associados, conta atualmente com mais de 950 sócios e uma capacidade de vinificar mais de 12 […]

Olhando para um passado com quase 65 anos cumpridos, a Adega de Penalva podia ser apenas mais uma das cooperativas surgidas com o eclodir do fenómeno, no final dos anos 50 do século passado. Fundada em 1960 por 43 associados, conta atualmente com mais de 950 sócios e uma capacidade de vinificar mais de 12 milhões de litros, processando, por ora e em média, sete milhões de quilos de uva por ano. O crescimento nos vinhos engarrafados ganha cada vez maior preponderância na economia desta Adega, correspondendo hoje a mais de dois milhões de garrafas/ano, com um crescimento anual de cerca de 10%, algo notável e em contraciclo com a realidade atual do setor. A única quebra sentida pela cooperativa nos anos mais recentes é no bag-in-box, crendo-se que por influência malévola da entrada em Portugal de vinhos oriundos da UE, especialmente de Espanha, a preços absolutamente incomportáveis para uma cooperativa que privilegia a qualidade no mercado.

Perante a dimensão destes números, podíamos ser tentados a imaginar que nesta Adega vale sobretudo o grande volume. Contudo, tal como nos produtores médios ou de menor dimensão, todo o processo inicia-se com um cuidado muito especial na vinha, sendo a sua permanente vigilância e peregrinação quase diária, prática perfeitamente enraizada no diretor de enologia da Adega, António Pina.

A dimensão média das propriedades por associado rondará os cinco e sete hectares, havendo, entre destes, alguns com mais de 15 ou 20 hectares. Não descurando ninguém, a Adega também recebe uva daqueles que não possuem mais de três ou quatro mil metros quadrados. Na campanha de 2024 foram cerca de 650 os associados que entregaram uva, estando muitos em processo de renovação das vinhas.

No total, a Adega recebe uva de uma área correspondente a 1100 hectares de vinha, estendidas entre os municípios de Penalva do Castelo, Satão e Mangualde.

De todo o modo, mais de 80% das vinhas situam-se no concelho de Penalva do Castelo. Em Satão, em parcelas de maior altitude e, consequentemente, mais frescas, predominam as castas brancas, com principal destaque para o Encruzado, que beneficia da composição dos solos mais graníticos, alcançando ali uma maior acidez e frescura. No concelho de Mangualde já não predomina tanto o granito. Os solos caracterizam-se por serem mais vermelhos, maioritariamente argilosos, ideais para tintos robustos e concentrados, nomeadamente de Touriga Nacional, que ali encontra condições para uma maior maturação.

QUINTA DA VINHA VELHA

Com cerca de 12 hectares, a Quinta da Vinha Velha bem pode ser apresentada como o “andar modelo” das propriedades com que trabalha a Adega. É nela que existe uma das mais significativas áreas de vinhas velhas, muitas delas com mais de 50 anos, tendo as parcelas mais recentes já cerca de 40 anos. O notável, nesta belíssima propriedade, foi mesmo o modo como se segmentaram, há mais de cinco décadas, as parcelas por castas, plantando-se cada uma delas tendo em conta a composição do solo, a maior ou menor exposição e, naturalmente, a sua aptidão para mais precoces ou tardias maturações. A exposição é encantadora, com toda a vinha a beneficiar dos dias soalheiros do nascer ao pôr do sol.

É aqui e nas áreas limítrofes, numa zona que forma um anfiteatro voltado a Sul, para a serra da Estrela, que se encontra o coração das vinhas que abastecem a Adega de Penalva, numa manta de retalhos e parcelas monovarietais rodeadas de florestas e mato, elemento da paisagem que confere, aos vinhos, uma marca de identidade muito própria, muito Dão no seu estado mais puro.

AS CASTAS DE PENALVA

Neste lado do Dão, Jaen e Tinta Roriz levam a dianteira na área de vinha, logo seguidas da Touriga Nacional, Tinta Pinheira e Alfrocheiro, esta com tendência a diminuir.

A Touriga Nacional é a casta que mais cresce no plantio na região do Dão. Nas vinhas da região e nas propriedades dos associados da Adega, as tintas ainda são quem mais ordena, superando com larga vantagem as uvas brancas, cabendo, às primeiras, 80% do encepamento e apenas 20% às brancas. Nas preferências de vinificação, pela sua enorme identidade varietal e expressão da região, surgem a Tinta Pinheira e o Alfrocheiro, curiosamente as mais sensíveis à podridão e, por isso, nem todos os anos possuem a qualidade que se exige à coleção dos monovarietais da Adega. As brancas são escassas. O mercado pede-as cada vez mais, e há necessidade de incentivar a produção, aumentando-a, pelo menos, em 10%, como refere José Clemente, presidente da Adega e ele próprio viticultor, cuja experiência e conhecimento muito têm beneficiado a cooperativa.

O classicismo, e até algum conservadorismo da região, provoca o receio nos produtores de plantar mais uva branca, presumindo que a tendência que hoje se verifica possa ser tão-somente uma moda e, como todas as modas, meramente passageira. Como o Encruzado não é uma casta muito produtiva e, por isso, não muito apetecível para o agricultor, a Adega bonifica a uva, pagando um valor mais elevado ao quilo. Nas tintas há também uma maior bonificação da Tinta Pinheira, Alfrocheiro e Touriga Nacional, desde que atinjam os níveis de cor desejados e grau alcoólico. A Adega regozija-se de pagar a uva a preços acima da média, como refere José Clemente com justificado orgulho e, em contrapartida, os associados tratam a vinha com denodo, entregando a matéria-prima de qualidade que permite criar os vinhos mais diferenciados da Adega, como são os monovarietais brancos e tintos.

A Baga é um curioso caso no universo da Adega de Penalva. De casta mais plantada no Dão no século XIX, tornou-se cada vez mais rara na região, sendo hoje residual e surgindo somente nas vinhas muito velhas, algumas centenárias. O cadastro das vinhas inicia-se a partir de 1930. E é a partir desses registos que se constata que, à data, a Baga compunha cerca de 20% de todo o encepamento do Dão. O seu arranque foi uma inevitabilidade provocada pela alteração do critério de pagamento ao viticultor. Se antes era pela quantidade e, aí, a Baga mostrava-se apetecível porque era muito produtiva, aquando da alteração para o pagamento por teor alcoólico, deixou de ser tão atrativa porque apresentava sérios problemas de maturação quando era deixada uma carga muito elevada na videira. É nessa altura que se dá o despontar da Touriga Nacional, antes conhecida como Tourigo ou Touriga Antiga, muito mais atraente às boas maturações e produções substanciais, sobretudo a partir da sua seleção clonal, ocorrida nos anos 80. A partir daí a Baga começa a ser arrancada e substituída por castas tintas de maturação equilibrada para vindima mais precoce. Não está fora das cogitações da Adega fomentar o plantio da Baga, não obstante a sua fragilidade à podridão, equacionando-a na elaboração de espumantes, uma vez que a Malvasia Fina, com que são elaborados os topos de gama em Método Clássico da Adega, começa a sofrer de uma constante e gradual perda significativa de acidez, razão pela qual os mais recentes espumantes já beneficiam da introdução do Encruzado e Uva-Cão.

Outra casta que está a merecer especial atenção da enologia é o Cerceal-Branco, que traz uma frescura muito surpreendente, revelando um comportamento que, quase sempre, se superlativiza em relação ao Encruzado. Do mesmo modo, assiste-se a um renascimento do Bical, no Dão conhecida como Borrado das Moscas, cuja potenciação é realizada através de novos conceitos de vindima e vinificação.  Esta é, já hoje, vindimada em duas fases: uma mais precoce, com cerca de 11% de teor alcoólico provável e, mais tarde, uma segunda vindima com índices de maturação mais elevados, criando-se, a partir daí, um blend que beneficia da frescura incisiva do mosto da primeira vindima e da exuberância aromática e doçura da segunda, encontrando o vinho o melhor de dois mundos.

ESTUDAR CASTAS AUTÓCTONES

A vertente do estudo profundo das castas é uma prática deixada pelo antecessor de António Pina, o Prof. Virgílio Loureiro, que criou, no seu pupilo, essa vontade de elevar o conhecimento. Pina é natural de Penalva do Castelo, tendo realizado o seu primeiro estágio na Adega em 2008. Seguiu-se depois a passagem por projetos de menor dimensão e, já em 2017, é convidado a regressar à Adega. A par dos vinhos de maior envergadura que constituem o grosso da produção da Adega, é seduzido pelo exaustivo estudo dos solos, parcelas e castas, numa constante busca pela afirmação de cada uma delas, gostando de as trabalhar isolada e parcelarmente, de modo a descobrir o local mais perfeito para a maturação qualitativa de cada uma. A mesma casta tem, em solos distintos e altitudes diferentes, um comportamento diferente. Encontrar o local ideal para cada uma demorou vários anos e há sempre novas descobertas e conclusões vindima após vindima.

O projeto dos monovarietais Adega de Penalva nasce em 2016. E, desde aí, tem-se desenvolvido e ampliado, com diferentes castas a surgirem em novas referências.

Essencial para a produção de uva de qualidade e elaborar os vinhos monovarietais que tanta notoriedade têm trazido à Adega, é a equipa de monitorização. É aqui que também surgem reticências de alguns viticultores, avessos a novas tendências e ao controlo, por parte de terceiros, do modo como promovem os cuidados e tratamentos das suas vinhas. Mas a maioria dos viticultores já está recetiva a seguir as demandas da Adega, consciente que o resultado de um maior acompanhamento técnico, e de base mais científica, é benéfico para alcançar a produção de uva mais sã. Tem sido fundamental a colaboração de proximidade, até a nível da própria sustentabilidade, eliminando-se tudo o que é nocivo para os solos. Naturalmente, isso tem custos acrescidos e a Adega cumpre essa responsabilidade ambiental com a valorização dessa uva. Dentro dos associados já há cerca de 60 hectares em produção biológica, outra das bandeiras hasteadas por José Clemente e António Pina.

O dia-a-dia da Adega de Penalva também é feito de novidades! Tinta Amarela e Tinta Carvalha são as mais recentes descobertas no encepamento da Quinta da Vinha Velha e já estão em curso experiências de vinificação, podendo sair delas novas e boas surpresas. Provado foi ainda um rosado de Malvasia Roxa, casta existente em ínfimas quantidades nas vinhas velhas que possui, como característica, uma uva de cor roxa esbatida. Dá origem a mostos naturalmente rosados, mesmo após prensagem e maceração. Um aturado e exaustivo processo de pesquisa deu também origem a uma curiosidade traduzida em 1000 litros de vinho, vinificado ao longo de quatro anos. É isto que, hoje, melhor caracteriza uma Adega que se desprendeu de um passado monolítico para se afirmar numa contemporaneidade que deve ser um exemplo nacional.

Nota: o autor escreve segundo o novo acordo ortográfico.

(Artigo publicado na edição de Abril de 2025)

Millèsime: A grande festa dos espumantes

Millesime

A Câmara Municipal de Anadia, como organizadora do Millèsime, que mais uma vez contou com a colaboração da Grandes Escolhas, está de parabéns e presta um serviço assinalável aos vinhos portugueses! Dificilmente se encontra uma simbiose mais perfeita entre localização, cenários, ambiente, festa e o objecto do evento, neste caso os espumantes, do que aqui. […]

A Câmara Municipal de Anadia, como organizadora do Millèsime, que mais uma vez contou com a colaboração da Grandes Escolhas, está de parabéns e presta um serviço assinalável aos vinhos portugueses!

Dificilmente se encontra uma simbiose mais perfeita entre localização, cenários, ambiente, festa e o objecto do evento, neste caso os espumantes, do que aqui. Pelo terceiro ano consecutivo no emblemático Hotel Palace da Curia, que evoca em cada um dos seus traços a época gloriosa do turismo termal das primeiras décadas do século XX, os espumantes portugueses encontraram o seu lugar de afirmação e demonstraram, aos milhares de visitantes que ocorreram à Curia, uma qualidade já transversal a muitas regiões do país.

Millesime

Esta será, talvez, a primeira constatação que o visitante pode verificar in loco, perante a exposição de mais de uma centena e meia de referências que os 49 expositores (record absoluto) deram a provar.

Produzem-se hoje, em Portugal, espumantes de grande qualidade em quase todas regiões vitivinícolas. É verdade que a Bairrada continua a dominar em número produtores e em volume e jogava em casa e aproveitou a oportunidade para mostrar uma pluralidade de estilos e apostas que demonstram uma vitalidade crescente. É também verdade que Távora-Varosa não perdeu o ensejo de confirmar que tem um terroir único para a produção de grandes espumantes. Mas por todo o lado, do Minho ao Alentejo, das Beiras ao Tejo, do Dão à Península de Setúbal, o Millesime comprovou o interesse maior que os espumantes nacionais têm despertado nos consumidores, com o consequente aumento sustentável do seu consumo e a afirmação consistente da sua qualidade.

O Millèsime é festa, espalha uma alegria contagiante e consegue a proeza de comunicar e satisfazer as espectativas dos vários públicos que o visitam, sejam consumidores ou profissionais. Tem visitas institucionais de peso, como o Ministro Adjunto e Coesão Territorial, o Secretário de Estado do Turismo e outras individualidades. Tem diversão, animação e evocação do passado charmoso, entretendo os que se deixam seduzir pelo lado lúdico da festa. Tem boa oferta gastronómica, provando que os espumantes são dos vinhos mais transversais em termos de harmonização, e também provas comentadas de vinhos e harmonizações para os que querem saber mais e experimentar novos sabores e sensações. E tem um lado profissional que ficou patente no seu prolongamento a segunda feira de manhã (uma novidade desta edição), período exclusivamente reservado a compradores, e no almoço de convívio que se seguiu e na conversa entre enólogos e produtores proporcionada pelo convite a Marta Lourenço, enóloga da Murganheira e da Raposeira, que partilhou a sua experiência e saber na produção de espumantes com alguns dos seus colegas.

Duas conclusões se podem tirar desta edição 2025 do Millèsime: os espumantes portugueses estão a vencer a velha batalha contra a sazonalidade do seu consumo e têm um futuro auspicioso pela frente. Tchiiim!

12º Festival do Vinho do Douro Superior: 23, 24 e 25 de Maio

O programa da 12ª edição do evento inclui, para além do reconhecido Concurso de Vinhos do Douro Superior, provas comentadas de vinhos e azeites, um colóquio e mostras de produtos regionais do Douro, Trás os Montes e Beira Interior. A abertura do Festival do Vinho do Douro Superior está marcada para as 17:00 horas do […]

O programa da 12ª edição do evento inclui, para além do reconhecido Concurso de Vinhos do Douro Superior, provas comentadas de vinhos e azeites, um colóquio e mostras de produtos regionais do Douro, Trás os Montes e Beira Interior.

A abertura do Festival do Vinho do Douro Superior está marcada para as 17:00 horas do dia 23 de Maio, sexta-feira, sendo a abertura oficial com a presença do Presidente da Câmara Municipal de Foz Côa, João Paulo Sousa às 18:00h.  Neste primeiro dia, os visitantes poderão assistir à prova comentada dos “Grandes tintos do Douro Superior”, por Valéria Zeferino, crítica da revista Grandes Escolhas, e ainda ao espetáculo David Antunes e The Midnight Band (22h00).

No sábado, dia 24, o destaque vai para o Concurso de Vinhos do Douro Superior, que reúne, durante a manhã, especialistas e outros profissionais reconhecidos, incluindo importadores dos Paises Baixos e Alemanha. Este é um concurso que se tem revelado importante para a afirmação dos vinhos da região, com a participação  de grandes, médios e, sobretudo, pequenos produtores.

Em simultâneo ao concurso de vinhos, no dia 24, às 10:00 horas, decorrerá um Colóquio dirigido aos produtores da região e outros interessados com o tema “A hora dos vinhos brancos: o potencial do Douro Superior e as repostas na vinha e na adega”. Participam com intervenções e com a prova de alguns dos seus vinhos os enólogos Alvaro Van Zeller, Duarte da Costa, João Perry Vidal, Luciano Madureira e Mateus Nicolau de Almeida

No sábado dia 24, a feira abre portas para a população em geral pelas 15h00, estando reservadas, para este dia, duas provas comentadas, uma de “Azeites do Douro Superior e Trás-os-Montes”, por Francisco Pavão, Presidente da Associação dos Produtores em Proteção Integrada de Trás-os-Montes e Alto Douro (APPITAD), e outra dedicada aos “Grandes brancos do Douro Superior”, pelo crítico Luis Antunes da Grandes Escolhas. Matias Damásioe e Mickael Carreira fecham a noite, com um concerto às 22h00.

No último dia do evento será possível assistir ao anúncio dos resultados do Concurso de Vinhos do Douro Superior e à última prova comentada, desta vez sobre “Vinho do Porto”, por Luís Antunes. A complementar o programa de atividades, os visitantes do festival poderão provar e comprar os diversos vinhos e produtos locais na zona dos expositores, onde também se encontram tasquinhas com diferentes opções gastronómicas.

O Festival do Vinho do Douro Superior é organizado pela Câmara Municipal de Foz Côa e pela revista Grandes Escolhas, com o objectivo apoiar os produtores e mostrar o trabalho desenvolvido na região.

Cas’Amaro: Perfumes do Alentejo

Cas’Amaro

O lançamento dos tintos da Cas’Amaro do Alentejo, com a marca Implante, decorreu no Casal da Vinha Grande, em Alenquer, a primeira propriedade que Paulo Amaro, o fundador desta casa, empresário com negócios na área do imobiliário e da distribuição de instrumentos médicos e hospitalares, adquiriu. Nesse dia foram apresentados, à imprensa, o Implante Tinto […]

O lançamento dos tintos da Cas’Amaro do Alentejo, com a marca Implante, decorreu no Casal da Vinha Grande, em Alenquer, a primeira propriedade que Paulo Amaro, o fundador desta casa, empresário com negócios na área do imobiliário e da distribuição de instrumentos médicos e hospitalares, adquiriu. Nesse dia foram apresentados, à imprensa, o Implante Tinto de 2023, um monovarietal de Tinta Caiada e o Implante Tinto de 2022, um vinho produzido com uvas das castas Aragonês, Castelão e Trincadeira, todas plantadas na Herdade do Monte do Castelête, no Alentejo, a segunda propriedade que Paulo Amaro adquiriu, após ter decidido investir no sector vitivinícola. Com 70 hectares, dos quais 48 de montado e 22 de vinha com mais de 30 anos, fica perto de Estremoz e tem um monte que a empresa está a transformar numa unidade de enoturismo com alojamento, que deverá estar pronta no final deste ano.

 

 

Aposta no enoturismo

O projecto Cas’Amaro começou a ser construído há nove anos, com a aquisição do Casal da Vinha Grande. Depois foram compradas mais quatro propriedades em outras tantas regiões vitivinícolas portuguesas: Alentejo, Dão, Vinhos Verdes e Douro. “Uma das condicionantes por detrás destas aquisições foi as propriedades terem, para além de vinha, edifícios atractivos com potencialidade para serem reconvertidos em unidades de enoturismo explicou Rui Costa, director geral da Cas’Amaro, durante o evento. Foi essa a filosofia base seguida na aquisição da herdade alentejana, da Quinta da Fontalta, no concelho de Santa Comba Dão, que inclui um solar e 16 hectares de vinha, e também na propriedade da Região dos Vinhos Verdes, com 40 hectares, que integra um solar antigo. No Douro, a Cas’Amaro adquiriu as Quintas de S. João e S. Joaquim, com 18 hectares de vinha e socalcos virados uma para a outra. Apesar de uma das propriedades possuir uma adega, não tinha condições para se vinificar. Por isso, os primeiros vinhos do Douro e Porto produzidos nesta região foram vinificados em Cheleiros. Mas já está a ser pensada a construção de uma adega em Armamar.

Perfil definido

Até hoje, apenas está terminado o projecto de enoturismo da empresa na região de Lisboa, que inclui um restaurante e a unidade de alojamento em Alenquer, com três quartos. E como a empresa só tem adega na região de Lisboa, vinifica em instalações de parceiros nas outras. No Dão, na Adega das Boas Quintas, de Nuno Cancela de Abreu; no Alentejo, na Adega do Monte Branco, de Luís Louro; no Douro, na Adega Dona Matilde, com o apoio do seu enólogo, João Pissarra e, na Região dos Vinhos Verdes, na AB Valley Wines, de António Sousa. “São as mais próximas das nossas vinhas e são geridas por pessoas com quem nos conseguimos identificar, com as quais criámos métodos de trabalho”, explicou o gestor, salientando que, assim, é possível Ricardo Santos, o director de enologia, acompanhar de forma mais próxima de todo o processo, o que é essencial para se produzir, todos os anos, o perfil de vinho definido pela sua equipa para cada região.

(Artigo publicado na edição de Março de 2025)

A Torre de Anselmo

Anselmo Mendes

Anselmo Mendes trabalha a casta há mais de 30 anos, estudando os diferentes solos, exposições e técnicas de vinificação, projetando, como ninguém e de forma pioneira, os vinhos monovarietais de Alvarinho, da sub-região de Monção e Melgaço, quer nacional quer internacionalmente. Consultor de enologia, enveredou pela produção própria em 1997, com a compra de uma […]

Anselmo Mendes trabalha a casta há mais de 30 anos, estudando os diferentes solos, exposições e técnicas de vinificação, projetando, como ninguém e de forma pioneira, os vinhos monovarietais de Alvarinho, da sub-região de Monção e Melgaço, quer nacional quer internacionalmente. Consultor de enologia, enveredou pela produção própria em 1997, com a compra de uma quinta. “Comprei uma pequena quinta em Melgaço, toda em patamares, e comecei a fazer vinho de garagem”, conta.

Um ano depois lança o icónico Muros de Melgaço, fermentado em barrica, uma novidade na região, com uma garrafa troncocónica que o identifica imediatamente. Seguiram-se as experiências com curtimenta, “outra heresia, fermentar um branco como se fosse um tinto”, refere, ou a maceração pelicular – deixar em contacto com película da uva sem deixar que fermente. O seu crescimento enquanto produtor coincidiu com o da notoriedade da sub-região. Monção e Melgaço é diferente das outras sub-regiões do Vinho Verde porque está protegida por montanhas, o que cria uma barreira ao Atlântico e lhe dá uma certa continentalidade climática. A casta Alvarinho sente-se ali em casa. Com a disponibilidade da vinha da Quinta da Torre, o portefólio Anselmo Mendes foi também aumentando e, hoje, há vários vinhos num patamar de preço médio-alto, referências como Expressões, Parcela Única, Tempo ou Private que evidenciam o melhor que esta variedade é capaz de oferecer.

Nos últimos 15 anos, o enólogo dedicou-se a estudar a diversidade de solos desta quinta. tendo identificado oito parcelas associadas a esses diferentes tipos de solo.

 

A LIGAÇÃO À TERRA

Anselmo Mendes é um homem da terra, dos solos, e hoje explora vários hectares de vinha em duas sub-regiões dos Vinhos Verdes – Monção e Melgaço e Lima. Em Melgaço, onde tudo começou, situa-se a adega. Mas é na Quinta da Torre, em Monção, que se encontram localizados 50 hectares de vinha da casta Alvarinho, a maior área contínua da região (e de Portugal). Não muito distante da Torre localiza-se Rabo de Cuco, com sete hectares de uvas tintas, castas antigas como o Alvarelhão (5ha), Pedral (1ha) e Verdelho-Feijão (1ha), que terão estado na origem dos primeiros vinhos portugueses exportados para Inglaterra, que Anselmo pretende resgatar. “Estas castas tintas dão vinhos claretes muito finos, elegantíssimos. É um tributo ao passado glorioso dos tintos”.

Na propriedade do vale do Lima, a Loureiro tem grande preponderância e representa 55 hectares, sendo os restantes 15 ha da casta Alvarinho. “Esta é a sub-região com maior influência atlântica de toda a região dos Vinhos Verdes, na qual a casta Loureiro se exprime de forma única. É também uma casta fascinante, capaz de produzir brancos de eleição”, refere o enólogo. Fortemente ligado à região e à terra, Anselmo dá grande importância ao estudo dos solos e suas texturas: “neste momento utilizamos o método de condutividade elétrica para estudarmos os solos. Identificamos oito texturas diferentes de solo na Quinta da Torre e este método permite-nos obter mais dados, mais rapidamente, tirando assim melhor partido do terroir” explica. Ao seu lado e na gestão da empresa desde sempre, está a esposa, Fernanda Grilo, a que se junta o filho Tiago Mendes. Anselmo sempre foi alguém que gosta de ensinar, transmitir conhecimento e dar liberdade a quem trabalha consigo, pelo que conta na enologia com a colaboração de duas jovens e promissoras enólogas Ângela Silva e Joana Moutinho. Inovação continua a ser o caminho – sempre.

Anselmo Mendes

Ao seu lado e na gestão da empresa desde sempre, está a esposa, Fernanda Grilo, a que se junta o filho Tiago Mendes.

 

QUINTA COM HISTÓRIA

A Quinta da Torre, localizada em Monção, conta uma história de seis séculos, por onde passaram várias famílias nobres com ligações reais, cujos registos atestam a presença de vinhas na propriedade. Após várias sucessões na família, a partir dos séculos XVII e XVIII, a casa intensificou a produção de vinho, cultivo do milho, do linho e do azeite. Em 2008, Anselmo Mendes começa por tratar os 12 hectares de vinhas desta quinta algo abandonada pelos proprietários da altura e, de imediato, apaixona-se, reconvertendo-a em seguida, e plantando mais 30 hectares de vinha ao longo dos anos seguintes. É só em 2016, porém, que concretiza a sua aquisição, para a renovar depois profundamente, mantendo os seus traços históricos e distintivos.

O enoturismo está a funcionar em pleno, e quem quiser ficar a conhecer melhor este espaço rodeado de espigueiros, camélias, oliveiras milenares e uma paisagem de cortar a respiração, poderá pernoitar numa das cinco suites disponibilizadas para o efeito. Com um total de 50 hectares de vinha da casta Alvarinho, com o rio Gadanha, afluente do rio Minho, a passar na quinta e uma grande diversidade e riqueza de solos, é o berço dos grandes vinhos da casta Alvarinho de Anselmo Mendes. As vinhas estão entre os 50 e os 100 metros de altitude e os solos, de origem granítica e de texturas de aluvião e terraços fluviais, têm provas dadas, ao longo dos anos, pois exprimem a finura e elegância da casta Alvarinho.
Nos últimos 15 anos, o enólogo dedicou-se a estudar a diversidade de solos desta quinta. tendo identificado oito parcelas associadas a esses diferentes tipos de solo. O seu “centro de experiências”, com oito cubas, uma por cada parcela, e duas barricas por parcela, permite-lhe estudar as expressões diferentes da casta. “O conhecimento de cada parcela é importantíssimo.

A triagem e escolha dos melhores cachos deve ser feita na vinha. Tudo conjugado, resultará num vinho de elevada qualidade”, defende.
Apenas a título de curiosidade, o vinho Parcela Única resulta exclusivamente da vinha do Paço. O vinho A Torre é, no fundo, o resultado do melhor de cada parcela da Quinta da Torre, com predominância das parcelas Olival, Paço, Torre e Rainha. Um vinho que apenas sairá para o mercado em anos considerados excecionais, como foi 2019. O Crème de la crème! Hoje, a Quinta da Torre é um símbolo na história de Monção, pelo seu passado e seu terroir de excelência. Aqui nasce o vinho A Torre, que presta homenagem à memória secular deste lugar e ao apaixonado e visionário que não a deixou perder-se no tempo.

Nota: O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

(Artigo publicado na edição de Março de 2025)

Real Companhia Velha: Real de inspiração asiática

Real Companhia Velha

A apresentação destes vinhos esteve a cargo de Pedro Silva Reis (filho) e do enólogo Jorge Moreira. A ideia era provar especialidades, algumas delas com castas estrangeiras. O tema, hoje mais pacífico do que já foi, foi abordado por Silva Reis, que relembrou alguns factos históricos. Até 1960, a Real Companhia Velha não tinha um […]

A apresentação destes vinhos esteve a cargo de Pedro Silva Reis (filho) e do enólogo Jorge Moreira. A ideia era provar especialidades, algumas delas com castas estrangeiras. O tema, hoje mais pacífico do que já foi, foi abordado por Silva Reis, que relembrou alguns factos históricos. Até 1960, a Real Companhia Velha não tinha um pé de vinha e as melhores uvas iram sempre para Vinho do Porto. Foi com a chegada de Jerry Luper, enólogo americano com quem Jorge Moreira começou a trabalhar, que se fizeram as primeiras plantações de castas francesas, sempre naquele balanço de dúvida entre porquê? e porque não? Luper defendia que também seria possível fazer grandes vinhos tranquilos, além do Vinho do Porto, e Silva Reis sente-se à vontade no assunto porque, recordou, “ninguém tem feito mais do que a Real Companhia Velha para a recuperação e valorização das antigas castas do Douro e ignorar estas castas de fora também poderia ser um absurdo”.

Com 30 anos de experiência no Douro, hoje já se sabe onde estão as melhores vinhas em função da exposição e altitude, onde cada casta dá melhores resultados, onde se podem fazer vinhos mais leves e que vão ao encontro das tendências da moda, e onde estão as melhores parcelas para Porto. Agora é não estragar e não inventar onde não é preciso.

Real Companhia Velha

Tensão e austeridade

Os espumantes apresentados incluíram uma estreia, o Blanc de Blancs de 2019, um vinho que teve três anos de estágio antes do dégorgement. O facto de ser Chardonnay, dizem-nos, permite fazer um vinho com oito gramas de acidez e um pH de 3.1, “algo muito difícil, se estivéssemos a falar de Gouveio”, referiu o enólogo. O Grande Reserva, sendo de 2014, incluiu, na cuvée, vinhos de reserva, de 2011 e 2012. A base são vinhas velhas e faz-se uma vindima precoce para espumante, conseguindo-se, assim, mostos de menor graduação e acidez mais elevada, mas com boa tensão e austeridade (de inspiração Krug, confessaram…), algo que a madeira também ajudou.

O Marquis branco é feito com Sauvignon Blanc, variedade plantada em 1993 que, segundo Jorge Moreira, requer solos azotados. Isso obriga a um mapeamento da vinha, linha a linha, e só as melhores são vindimadas para este vinho. Ano após ano têm sido sempre as mesmas as usadas. O vinho estagiou por oito meses em barricas usadas e teve anteriores edições em 2014 e 2018. O Cabernet Sauvignon que entra no tinto foi plantado pela primeira vez em 1993. Esta marca é a sucessora da Grantom, essa sim uma marca muito antiga na casa. Esta nova versão, em ligação com a Touriga Nacional, teve a primeira edição em 2001. Anteriormente existia um Marquis de Soveral tinto, que fazia parte do portefólio da Real Vinícola.

O Grandjó Late Harvest é um vinho branco cuja produção, apesar da boa vontade e investimento da empresa, está sempre totalmente dependente das condições climáticas, as que permitem que se forme uma podridão que não seja acética. Fala-se em investimento, porque se deixam cerca de 2 ha de vinhedos por vindimar à espera de que o tal “milagre” se opere. Como se pode ver pelas edições que teve, houve muitos anos em que os tais 2 ha produziram uvas para deitar fora. A nova era do Grandjó Late Harvest, nascido na quinta da Granja, iniciou-se com a colheita de 2002 e, de lá para cá, foi editado em 2004, 05, 06, 07, 08, 12, 13 e, agora, com a colheita de 2021. É feito a partir da casta Boal, por coincidência a mesma casta que em Sauternes (França) se chama Sémillon, e daí este poder ser um DOC Douro.

Real Companhia Velha

Balanço perfeito

À mesa pudemos provar Quinta do Cidrô Marquis branco 2014, a mostrar-se ainda em boa forma. Por curiosidade, provámos também um Marquis de Soveral (era então o nome que ostentava no rótulo) de 1964, que se revelou uma boa surpresa apesar de ter sido preciso abrir várias garrafas até encontrar algumas ainda com saúde. Nos tintos provámos ainda um Marquis de 2001, que se bateu muito bem com a carne Wagyu.

De salientar o excelente trabalho de sommelerie feito com estes vinhos em relação ao menu, com o perfeito balanço que foi encontrado entre texturas e aromas. Pode parecer fácil mas dá trabalho. Muito trabalho.

(Artigo publicado na edição de Março de 2025)

 

Herdade do Freixo: Elegância e longevidade

Herdade do Freixo

A Herdade do Freixo nasceu da paixão dos irmãos Pedro e José Luís Vasconcelos e Sousa, de desenvolver um projecto de vinhos diferente na região. Hoje já não estão ligados à empresa, mas foi isso que comunicaram, num jantar de amigos, alguns deles potenciais investidores, proposta que originou o interesse dos comensais. “Acreditava-se que existia, […]

A Herdade do Freixo nasceu da paixão dos irmãos Pedro e José Luís Vasconcelos e Sousa, de desenvolver um projecto de vinhos diferente na região. Hoje já não estão ligados à empresa, mas foi isso que comunicaram, num jantar de amigos, alguns deles potenciais investidores, proposta que originou o interesse dos comensais. “Acreditava-se que existia, ali, um terroir diferenciador”, conta Carolina Tomé, 50 anos, directora de Marketing e Comercial da Herdade do Freixo.

Um toque inovador

O posicionamento da herdade em relação à Serra de Ossa, a localização do vale onde hoje se desenvolvem as vinhas das castas brancas e fica a adega, o monte que fica em frente, com os seus 450 metros de altitude no topo, onde estão plantadas castas tintas “com exposições diferentes que permitem equilibrar a frescura com a concentração, são alguns dos contributos para a existência deste terroir distinto. O mesmo acontece com o seu microclima, que contribui para a ocorrência de maturações mais lentas e vinhos mais frescos, e os seus solos de origem xistosa e granítica. Na sua plantação foram selecionadas, para além de castas tradicionais da região, outras que podiam contribuir, com a tecnologia certa usada na adega, para originar vinhos mais frescos e elegantes, com maior capacidade de evolução positiva em garrafa com o tempo. No fundo, o melhor de dois mundos: a concentração e a alma típica do Alentejo com mais frescura, elegância, longevidade em garrafa e maior apetência gastronómica, algo que o enólogo consultor desta casa, Diogo Lopes, procura fazer reflectir nos vinhos de cada colheita.

Depois de ter sido estudado o local, as vinhas começaram a ser plantadas, a partir de 2010, com esse objectivo, e também com o potencial de dar um toque inovador aos vinhos produzidos pela herdade, alguma diferença em relação ao habitual do Alentejo. Foi, por isso, que foi introduzido o Alvarinho, “que se dá muito bem no Freixo”, mas também Sauvignon Blanc, Chardonnay, Riesling, “que só foi lançado há dois anos”. A casta branca Arinto foi plantada para potenciar longevidade nos brancos. Nas tintas, a base é a Touriga Nacional. Mas também há Cabernet Sauvignon de clones seleccionados para o tipo de solos da propriedade, Alicante Bouschet e Petit Verdot, “para trazer frescura e capacidade evolutiva aos vinhos” e Petite Syrah, da qual foi lançado o primeiro vinho há pouco tempo. “Também plantámos Syrah, que está a ser conduzida no modo biológico, a pensar no lançamento de um futuro vinho biológico da herdade”, diz Carolina, revelando, depois, que toda a vinha está a ser conduzida no modo de protecção integrada. “É evidente que o modo de produção biológico pode ser interessante, mas é essencial garantir a produção de vinhos com um perfil de frescura, concentração e longevidade, estrutura e elegância”, defende. Todos os anos há uvas, e é preciso produzir e vender vinhos que sejam apreciados pelo mercado, ou seja, nenhum negócio persiste sem sustentabilidade económica. Para garantir a sua qualidade e consistência ao longo dos anos, “a vindima é feita no ponto óptimo de maturação”, de forma manual, quando há mão de obra disponível, ou à máquina, quando não há.

Herdade do Freixo
Carolina Tomé, directora de Marketing e Comercial da Herdade do Freixo.

Paisagem intocada

A propriedade tem 300 hectares, que estavam intocados, sem terem sido sujeitos a agricultura intensiva, na altura em que o projecto começou a ser desenvolvido “Era e é um eden paisagístico, onde passam e poisam aves migratórias e se podem ver lebres ou raposas, cuja natureza era preciso preservar”, conta Carolina Tomé. Por isso, a adega integra-se quase na perfeição nesta paisagem. Para além de ter condições para potenciar a produção de vinhos com longevidade em garrafa, mais frescos e elegantes, é conceptualmente interessante de visitar, o que incentiva a procura do seu enoturismo e ajuda a promover o seu vinho. “O objetivo é que as pessoas percorram as vinhas, sintam a paisagem e entrem na adega, numa outra realidade que seja uma novidade para os sentidos, para conhecer um pouco do processo de produção, se quiserem, e terminarem a experiência com a prova de vinhos coerentes com as sensações tidas durante a visita”, explica a gestora.

Para a sua construção foi feito um concurso, ganho pelo atelier do arquitecto Frederico Valsassina com a proposta de uma adega totalmente enterrada, qua alberga escritórios, zona de fermentação, estágio em barricas e em inox, armazenamento e laboratórios. Todo o seu interior, que é iluminado com luz natural, pode ser visitado 365 dias por ano sem haver interferências entre os visitantes e a produção.

A adega demorou dois anos e meio a ser construída e o projecto terminou em Outubro de 2015. Assim nasceu um edifício que foi premiado pela publicação especializada ArqDaily, de Nova Iorque, em 2018, um par de anos após ter aberto. Em Maio/Junho foram lançados os primeiros vinhos.
Além de preservar a paisagem rural e permitir o contacto dos visitantes com o vinho, numa experiência sensorial completa, a adega da Herdade do Freixo possibilita o controlo do efeito das amplitudes térmicas do interior do Alentejo, sobretudo as extremas do verão, quando as máximas podem chegar aos 50 ºC, e as mínimas aos 20 ºC. Isso é essencial durante o processo de produção, estágio em barrica ou inox, engarrafamento e repouso das garrafas até irem para os clientes, para a manutenção da frescura e evitar a evolução antecipada dos vinhos.

O desafio do mercado

Desde o início que a Herdade do Freixo privilegia as vendas para a restauração e lojas da especialidade, “porque os nossos produtos têm de se ser apresentados, explicados, e beneficiam quando são provados com comida”, diz Carolina Tomé. Conta também que foi um desafio lançar, no início do trajecto da empresa, vinhos distintos, de nicho, com origem no Alentejo, região conhecida, na altura em que começou a trabalhar, pelas suas marcas de volume. Foi necessário abrir muitas garrafas, fazer a formação das equipas de vendas, muitas masterclasses e muitas conversas pessoais com os clientes para mudar a perspectiva do mercado em relação à sua casa. “Nas primeiras apresentações ouvíamos dizer que os vinhos eram interessantes, frescos, mas não pareciam do Alentejo”, conta, salientando que hoje isso já não acontece, não só porque os vinhos do Freixo já são conhecidos em Portugal e nos mercados para onde a casa exporta, mas também porque surgiram mais produtores com vinhos semelhantes aos seus, mais frescos, longevos e elegantes, com origem no Alentejo. Hoje a Herdade do Freixo exporta 20% dos seus vinhos para a Suíça, “mas também um pouco para a Holanda, Bélgica e Suécia, e Brasil, China e Angola, mais recentemente”, revela ainda a responsável. Em Portugal, para além dos restaurantes e lojas da especialidade, estão disponíveis nos supermercados Apolónia e no El Corte Inglés.

(Artigo publicado na edição de Março de 2025)

S. Salvador da Torre: Emancipação do Loureiro

Granvinhos

Analisando os dados referentes às exportações de vinhos oriundos da região dos Vinhos Verdes, em relação logo ao primeiro semestre do ano transato, compreendemos porque motivo esta se mostra cada vez mais atrativa para investimentos de longo prazo. O ano de 2023 havia terminado com um crescimento, em volume, na ordem dos 8%, contabilizando 35 […]

Analisando os dados referentes às exportações de vinhos oriundos da região dos Vinhos Verdes, em relação logo ao primeiro semestre do ano transato, compreendemos porque motivo esta se mostra cada vez mais atrativa para investimentos de longo prazo. O ano de 2023 havia terminado com um crescimento, em volume, na ordem dos 8%, contabilizando 35 milhões de litros, de um total de 90 milhões de litros exportados, e cerca de 11% em valor. O primeiro semestre de 2024 surpreendeu com números pouco usuais para a conjuntura atual, representando, apenas nos dois primeiros meses do ano, um acréscimo de 30% no volume de exportações, o que mostra como a região se encontra dinâmica. Aparte isso, há uma toda uma nova conjuntura de consumo mundial que traz uma evidente vantagem competitiva à região.

 

Granvinhos

 

O interesse da Granvinhos pela expansão além da sua zona de conforto, o Douro, já viria de há uns seis ou sete anos.

 

Perfil mais leve

Aliada à quebra do consumo mundial, há hoje uma busca mais premente por vinhos brancos, com um perfil mais leve e de mais reduzido teor alcoólico, algo que assenta como uma luva aos Vinhos Verdes.

Contudo, para Jorge Dias, CEO da Granvinhos, as decisões nem sempre se movem pela estrita e absoluta racionalidade. A aquisição da Quinta de São Salvador da Torre possuí essa mesma premissa.

O interesse da Granvinhos pela expansão além da sua zona de conforto, o Douro, já viria de há uns seis ou sete anos atrás, buscando novos projetos para alargar a sua área de influência. Inicialmente, o Alentejo foi aventado como uma hipótese, logo colocada de parte por se entender que não acrescentaria valor e diferenciação ao negócio. Numa perspetiva que alia a racionalidade à emoção, para Jorge Dias apenas duas regiões preenchiam, para si, as virtudes e características que pretendia acrescentar ao grupo: a Bairrada e os Vinhos Verdes. Colocada, por ora, de parte a Bairrada, com um negócio que não chegou a bom porto, o foco passou a incidir sobre os Verdes e, em 2022, surge a hipótese da Quinta de S. Salvador da Torre.

Alguns meses de negociações com o Grupo Soja de Portugal, proprietário da Quinta, e o negócio fez-se, mais uma vez com uma forte carga emocional pelo meio. Jorge Dias mantém, há mais de 30 anos, uma amizade forte com Anselmo Mendes, o enólogo e produtor que, à data, era o consultor do grupo agroalimentar, tendo sido já ele quem, em 2015, planeou a plantação das vinhas na vasta propriedade de Viana do Castelo.

No modelo para o futuro risonho desta quinta, o Loureiro é peça fulcral da engrenagem idealizada pela Granvinhos.

 

Cinco séculos preservados

É um extenso manto verde que envolve a quinta, cuja história remonta a 1512. São cerca de 37 hectares, 30 deles de vinhedos, que compõem uma propriedade totalmente murada, situada na margem direita do rio Lima e apenas 10 km de distância do Atlântico. No centro, e no seu ponto mais alto, ergue-se uma imponente casa senhorial, cuja edificação original remonta às primeiras décadas do séc. XVI, tendo, ao longo dos séculos, sido objeto de diversas intervenções e ampliações, remontando a última a 1925.

Percebendo a singularidade do património que ali se ergue, Jorge Dias entregou a sua reabilitação ao gabinete de arquitetura de Luis Pedro Silva, o autor da conceção do arrojado Terminal de Leixões. Com ele trouxe uma equipa de especialistas de arquitetura de reabilitação e história, vincando a pretensão de seguir, com rigor, uma obra que mantenha uma forte linha de coerência com um passado de cinco séculos.

É ainda na Idade Média que surgem as primeiras referências à Quinta, inicialmente parte integrante do Mosteiro Beneditino de S. Salvador da Torre, que recebeu carta de couto de D. Afonso Henriques em 1129. Ao longo dos séculos foram vários os proprietários que promoveram modificações de monta ao edificado original, destacando-se a família Rocha Brandão, que manteve a quinta na sua posse durante cerca de 400 anos, tendo sido, da sua lavra, a construção do solar, e a capela em devoção a Santo Isidoro, no século XVII, por Bula do Papa Júlio III.

Já no século XX, a quinta é adquirida pelo banqueiro José Carreira de Sousa, que, consigo, traz o arquiteto que, em 1912, ganhou o Prémio Valmor, pela “mais bela casa de Lisboa”, Villa Sousa. Manuel Joaquim Norte Júnior era o mais brilhante arquiteto da sua geração, representando um estilo eclético, com influências do geometrismo e do modernismo inspirado na Arte Nova. Em 1925, o solar acolhe, agora, a sua mais importante e recente obra de reabilitação, mantendo intacta a beleza das suas fachadas. Durante todo o século XX é desenvolvida, de forma mais sistemática e intensiva, a viticultura na Quinta, que chegou a produzir cerca de 120 pipas de vinho branco de qualidade admirada.

Em 1980, é adquirida pela Soja de Portugal, empresa que expande a atividade agrícola à pecuária, transformando a quinta num campo de ensaios nas suas áreas de atuação, tendo-a alienado à Granvinhos em 2022.

A consagração do Loureiro

No modelo para o futuro risonho desta quinta, o Loureiro é a peça fulcral da engrenagem idealizada pela Granvinhos para a sua entrada, com pompa, na região dos Vinhos Verdes. As condições naturais são perfeitas para qualquer modelo, seja ele de maximizar produções ou, como é o objetivo do grupo proprietário, criar vinhos de quinta, de absoluta diferenciação e produções que nunca ultrapassarão os 120 mil litros anuais.

A contiguidade ao Rio Lima e a abundância de água marcaram, durante séculos, o retrato da propriedade murada, com as suas charcas e fonte de mergulho medieval, dona da identidade que acaba por dar cor ao figurativo da marca. A água tem aqui duas vertentes umbilicalmente ligadas pela religião e pelas suas propriedades curativas.

A vinha domina a paisagem, cobrindo 30 hectares contínuos, cabendo ao Loureiro a maior mancha do vinhedo, com 14 hectares, sobretudo nas cotas mais elevadas da quinta, aí se encontrando também a parcela mais exclusiva, a Vinha dos Castanheiros, de onde são oriundas as melhores uvas da casta. Os solos estratificados permitem uma melhor avaliação da aptidão das suas diversas dimensões e composições – xisto, granito e aluvião – a cada uma das castas ali plantadas. Anselmo Mendes, que já desempenhava funções de consultoria há uma dezena de anos na propriedade, e foi o responsável pela plantação das vinhas atuais em 2015, desenhou-as de modo a delas extrair a máxima qualidade e identidade.

Os resultados começaram a surgir logo em 2023, tendo sido, recentemente, lançado o primeiro vinho com a chancela Quinta de S. Salvador da Torre, um Loureiro estreme, casta que, segundo Anselmo Mendes, encontra ali as condições ótimas para uma expressão de elegância e personalidade muito vincadas. Há, em Jorge Dias, uma crença muito elevada de que a Quinta se transformará, muito em breve, num referencial na região dos Vinhos Verdes. Para tal, afastaram-se ideias de volume, estando apenas a apostar-se na singularidade qualitativa, ensaiada numa componente de sustentabilidade ambiental muito forte que, por ora, passa pela produção integrada.

“Acredito no futuro do Vinho Verde e, em particular, nas castas Alvarinho e Loureiro. É um produto muito bem-adaptado aos novos tempos e hábitos de consumo, que necessita, contudo, de ser valorizado pela ligação às respetivas zonas de produção, bem como à dieta atlântica, na qual Portugal tem uma oferta ímpar”, refere Jorge Dias, Diretor-Geral da Granvinhos.

Para um futuro próximo, está planificada a construção de uma adega para vinificação própria, uma vez que, atualmente, os vinhos são elaborados numa adega externa, crendo-se que esteja concluída em 2027. Para a casa senhorial, cuja reabilitação segue a bom ritmo, ainda não há planos específicos, sendo certo que constituirá peça fundamental para o projeto de enoturismo que o grupo almeja para a Quinta.

Projetos de médio prazo, sob uma orientação disciplinada, mas apaixonada de Jorge Dias, homem cuja dimensão para sonhar e concretizar em nome da valorização do vinho português parece não ter limites.

(Artigo publicado na edição de Março de 2025)