BAGA FRIENDS: Em nome da casta rainha da Bairrada

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O Dia Internacional da Baga “recorda uma vez por ano a grandeza desta casta”. Assim começa esta peça, com palavras de Luís Pato, o produtor da Bairrada mais reconhecido dentro e fora de portas, graças ao trabalho que tem vindo a realizar no âmbito dos vinhos produzidos no referido território vitivinícola, mais concretamente em relação […]

O Dia Internacional da Baga “recorda uma vez por ano a grandeza desta casta”. Assim começa esta peça, com palavras de Luís Pato, o produtor da Bairrada mais reconhecido dentro e fora de portas, graças ao trabalho que tem vindo a realizar no âmbito dos vinhos produzidos no referido território vitivinícola, mais concretamente em relação à casta tinta rainha da região. Essa data, assinalou-se no primeiro sábado de maio,  motivo pelo qual os oito produtores da edição de 2026 prepararam as respectivas adegas, para se manterem abertas das 10h00 às 18h00. São eles Giz by Luís Gomes, Filipa Pato, Luís Pato, Quinta da Vacariça, Quinta das Bágeiras, Quinta de Baixo – Niepoort, Vinhos Sidónio de Sousa e Vadio Wines. Na lista de ações, constam provas de vinhos, petiscos tradicionais e variados momentos, incluindo um arraial no Centro Social, Recreativo e Cultural da Poutena, em Vilarinho do Bairro, no concelho de Anadia.

Parcela, a alma de cada vinho

Por que razão a Baga está intrinsecamente ligada à Bairrada? Será que a região possui as condições ideais para esta casta? François Chasans, produtor francês proprietário da Quinta da Vacariça, em Tamengos, no concelho de Anadia, frisa o seguinte: “no contexto climático atual, a Bairrada apresenta uma das melhores oportunidades de se tornar uma das melhores regiões do mundo. A sua razão principal é a acidez dos vinhos.” Tal atributo resulta da amplitude térmica registada na região e da proximidade ao oceano Atlântico. “Por exemplo, devido a estas condições a Bairrada apresenta uma temperatura média mais baixa 8 ºC do que a região de Bordéus.” Acresce a humidade, que impõe uma atenção redobrada face à viticultura orgânica e biodinâmica. François Chasans refere ainda a complexidade geológica heterogénea, ponto assente na diferença de estilos de cada casa vinhateira.

Mas de que forma podemos aferir o potencial da Baga, sobretudo quando é feita a partir de uvas colhidas em vinhas velhas? A resposta foi dada por Paulo de Sousa, da Vinhos Sidónio de Sousa, que, no evento da apresentação do Dia Internacional da Baga, em Lisboa, esteve representado pelo filho, Afonso de Sousa: “a vinha velha de Baga revela-se pela elegância e harmonia que proporciona no copo de quem degusta. As suas raízes profundas e os seus troncos grossos e desalinhados são testemunho de outro tempo, levando a que, no copo, estejamos perante um verdadeiro museu. Antigo, mas nunca ultrapassado pois a acidez e frescura da casta imprimem longevidade e juventude.” A plasticidade desta variedade tinta autóctone da Bairrada também foi analisada, pois dá corpo a “rosés frescos e jovens, rosés de guarda e gastronómicos, rosés base para espumante rosé de variados estilos, base para espumante tinto, vinhos tintos para se beberem jovens ou néctares longevos”, acrescenta. Apesar da agressividade dos primeiros anos, estes vinhos têm o tempo como aliado, revelando “uma grandiosidade que muito poucos conseguem alcançar”.

Daniel Niepoort, rosto da sexta geração da Niepoort, reforça a versatilidade da Baga, “porque é uma grande casta do mundo” e revela a capacidade que tem em expressar o terroir, ou seja, “traduz o local onde são plantadas e cultivadas as vinhas”. A respeito desta matéria, François Chasans engloba solo, clima, “as pessoas e os empirismos das mesmas”, características que “revelam a alma da parcela através da visão de cada vinhateiro”, realça o produtor da Quinta da Vacariça. O resultado sente-se por meio “de vinhos com características tão díspares”, continua Daniel Niepoort. Até mesmo particularidades, como as que estão associadas aos vinhos Giz, de Luís Gomes, para quem os solos de natureza calcária das vinhas centenárias e o clima atlântico da Bairrada “são cruciais na obtenção do perfil característico dos vinhos Giz, repletos de frescura, tensão e mineralidade, plenos de individualidade e carácter”. Sem descurar a “elegância” e “o perfil de fruta vermelha fresca e de grande concentração e complexidade que a Baga das vinhas velhas proporciona”, enaltece.

Luís Patrão, da Vadio Wines, dá como exemplo o trabalho que tem vindo a desenvolver com a Baga: “no caso do Vadio Espumante Branco Perpetuum, a base vem de uma solera que integra, atualmente, cerca de 18 colheitas. A Baga entra nessas soleras, sobretudo para bases de espumante, tanto no Perpetuum, como no Finuum, onde normalmente cerca de 30% do lote é Baga.” Para o efeito, o produtor bairradino vindima as uvas “relativamente cedo”, com o intuito de obter uma matéria-prima com “boa acidez natural e pH mais baixo. Isso ajuda bastante a manter os vinhos estáveis ao longo do tempo e a controlar melhor um eventual aumento de acidez volátil, que é sempre um dos riscos quando se trabalha com soleras”.

Tempo é, portanto, um factor preponderante na feitura de um tinto feito a partir de Baga que, conforme François Chasans, “é um vinho que transmite emoção ao nível de uma grande pintura ou música, mas para exprimir o seu potencial total é preciso dois anos no mínimo em tonel e 12 anos em garrafa”.

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Passado e presente na comunicação

“Historicamente, a Baga é uma casta difícil”, afirma Mário Sérgio Nuno, nome inteiramente ligado à Quinta das Bágeiras, localizada em Sangalhos, no concelho da Anadia. Segundo Luís Pato, na década de 90 do século XX, a Baga era vista como “uma casta que só criava grandes vinhos de cinco em cinco anos, esquecendo-se que criava grandes vinhos. Logo a culpa não era da casta, mas de quem a trabalhava”. Com a passagem do tempo, a casta tinta tem vindo a conquistar o consumidor, ação reforçada pelos Baga Friends, na opinião de Luís Pato, que, graças à fundação deste grupo de produtores da região, em 2012, se tornou respeitada. Para o produtor da Quinta das Bágeiras, a crescente importância da casta tem a ver com a escolha “do sítio certo, bem como o acompanhamento e o carinho certos tornam o trabalho de elevar a casta possível”. Graças a esta dedicação, o vinho feito a partir de Baga tem vindo a traduzir-se em um produto gastronómico e “com uma grande diversidade de perfis”, na opinião de Luís Pato, dando como exemplo os vinhos produzidos pelos Baga Friends: “vinhos elegantes, que sobrevivem ao tempo”, a mostrar “como são os grandes vinhos do mundo”, enfatiza o decano da produção vitivinícola da Bairrada. Mário Sérgio Nuno partilha da mesma opinião no que ao papel desempenhado pelos Baga Friends diz respeito.

Além-fronteiras, e com a mais-valia de os vinhos monovarietais serem mais facilmente comunicados, Filipa Pato acredita: “quando uma casta está profundamente ligada a um lugar, ela própria se torna a melhor intérprete desse território”. Tal acontece com a Baga da referida produtora bairradina, proprietária de 20 hectares de vinha em Óis do Bairro e em Silvã, no concelho de Anadia, divididos em 37 parcelas trabalhadas em modo biodinâmico e cujos solos são calcários e de origem jurássica. Para facilitar a informação fora de portas, a produtora dá como exemplo comparativo a italiana Nebbiolo, de Piemonte, ou a francesa Pinot Noir, em Borgonha. “Curiosamente, são também regiões onde os solos calcários desempenham um papel fundamental, permitindo às castas alcançar um equilíbrio notável entre estrutura, frescura e longevidade”, acrescenta. Apesar da identidade forte, “na adega, a Baga pede delicadeza”, daí que o casal Filipa Pato e William Wouters opte por “extrações suaves, intervenção mínima e recipientes que respeitam o vinho, como ânforas, pipas de carvalho usadas ou tonéis de grande capacidade, evitando o excesso de madeira”.

Espreite as notas de provas que aqui lhe deixamos, para acicatar a curiosidade…

Luís Pato Vinha Pan tinto 2021 – rubi aberto, no nariz uma expressão típica da Baga, com elegância e sedosidade, fruta vermelha, como framboesa e morango selvagem, em combinação com mentol e caruma, apontamento de aneto; estrutura flexível, denso, nada pesado, com a sua frescura intrínseca, longo e sedoso. (18,5);

Giz Vinha das Cavaleiras tinto 2021 – Baga das vinhas velhas, resultou num vinho impressionante, muito bonito e complexo, com fruta vermelha, abrunhos, caruma, resina e folha de louro, uma nota cítrica e noz-moscada; densidade fluida, tanino bem presente e certamente polido, textura aveludada (18,5);

Quinta das Bágeiras Garrafeira tinto 2021 – fiel a si próprio, com fruta austera, balsâmico e resinoso, com algum musgo, não propriamente encorpado, mas denso; Baga no seu estilo clássico, com grande estrutura e acidez a manter a frescura (18,5);

Sidónio de Sousa Baga Especial Cuvée Espumante rosé 2022 – interessante no nariz, com notas de menta e morango e mais fruta vermelha, muito vivo e suculento, ligeiramente amargo que lhe confere certa garra, com final saboroso (17);

Niepoort Água Viva Baga Espumante Bruto 2020 – cor de rosa muito leve, aroma delicado e bonito, muito bem traçado, com profundidade e complexidade delicada a revelar caroço de cereja, brioche, amêndoa torrada e apontamento vegetal; bolha finíssima, muita cremosidade e frescura (17,5);

Vadio Baga Espumante rosé 2023 – proveniente de uma zona mais húmida, de barro, fermenta em barrica usada, 18 meses de estágio sobre borras; rosa salmão, fruta quase madura a lembrar morango fresco, menta, manjericão, uma nota de gengibre também, fresco, mas cremoso, com bolha bastante fina, delicado no trato, com apontamento mineral e de framboesa (17);

Filipa Pato Post-Quercus Baga tinto 2024, com fermentação e estágio em ânforas; aromático, cativa imediatamente pela fruta nítida, notas de framboesa, morango selvagem e um floral delicado; fino e guloso, apetece beber sem parar (18).

Quinta da Vacariça Baga tinto 2016 – cheira a Baga, pouco corpo e muita estrutura, pouca fruta e muito tanino, denso e directo, carácter vincado, cheio de vida, a chamar à mesa (17).

(Artigo publicado na edição de Abril de 2026)

PICOWINES: Em jeito de comemoração

PICOWINES

Tempo houve em que a vinha era a monocultura da Ilha do Puco. Aqui estamos em terras vulcânicas, pois a Ilha do Pico é a mais recente das ilhas, com “apenas” 300.000 anos, onde a humidade é muita, a influência do mar uma certeza e o crescimento da vinha uma incerteza. Ainda assim, e segundo […]

Tempo houve em que a vinha era a monocultura da Ilha do Puco. Aqui estamos em terras vulcânicas, pois a Ilha do Pico é a mais recente das ilhas, com “apenas” 300.000 anos, onde a humidade é muita, a influência do mar uma certeza e o crescimento da vinha uma incerteza. Ainda assim, e segundo nos informa o enólogo Bernardo Cabral que orientou esta apresentação, a produção chegou a atingir, em tempos pré-filoxéricos, os nove milhões de litros. Com a filoxera, a produção baixou para os residuais 28.000 litros. Resultado? Vinhas abandonadas, currais a ficarem cobertos de mata, mudança de profissão. Na altura, ganhou a baleia e assim foi durante quase todo o século XX.

O reconhecimento por parte da Unesco, em 2004, ajudou e subsidiou o renascimento das vinhas, que ocupam, hoje, nos Açores – com a ilha do Pico à cabeça – o dobro da área de vinha da Madeira. O renascimento do vinho do Pico, agora assente mais em vinhos secos e já não tanto em generosos, levou a que a procura das castas tradicionais aumentasse o suficiente, para se terem pago, este ano, a Arinto e a Verdelho a quatro euros o quilo e a Terrantez do Pico a cinco euros o quilo.

Aqui a vinha vai até à beira-mar, muito fustigada pelo vento, o que ajuda a secar as folhas da videira e obriga a que os muros dos currais sejam suficientemente abertos (apenas pedra sobre pedra), para que o vento possa circular. A produção tem sido diminuta e só em 2025 o Pico voltou a ter uma produção equivalente à de 2019, ajudando a repor os stocks. Os dois vinhos apresentados têm perfis diferenciados. O Arcos Vulcânicos é um Verdelho que tem origem na zona conhecida como Arcos de Santa Luzia (não muito longe da Madalena, a principal cidade da ilha), onde o solo vulcânico de pedra preta é ainda muito evidente; já o licoroso, que é uma edição limitada e comemorativa, com 25 anos de casco, apresenta uma secura interessante (apenas 41 gramas de açúcar por litro) e é tributário da fama antiga dos licorosos do Pico, agora com uma excelente apresentação.

A Cooperativa Vitivinícola da Ilha do Pico dispõe de um elevado stock de vinhos velhos que irão assegurar outros lançamentos no futuro. Ainda não há qualquer decisão sobre uma nova edição. E o portefólio dos vinhos brancos secos, que não foram agora objecto de prova, são em quantidade interessante.

(Artigo publicado na edição de Março de 2026)

MIGUEL LOURO WINES: “Arigato” pela vida

Miguel Louro

De nome e apelido, Miguel Louro é o homónimo do seu pai, produtor de vinhos, bem conhecido no Alentejo. Miguel (filho) nasceu em Lisboa, mas com dois ou três anos mudou, com a família, para Estremoz. Foi lá que desenvolveu um enorme gosto pelo campo. Tendo crescido no meio dos vinhedos, desde cedo se habituou […]

De nome e apelido, Miguel Louro é o homónimo do seu pai, produtor de vinhos, bem conhecido no Alentejo. Miguel (filho) nasceu em Lisboa, mas com dois ou três anos mudou, com a família, para Estremoz. Foi lá que desenvolveu um enorme gosto pelo campo. Tendo crescido no meio dos vinhedos, desde cedo se habituou aos ritmos da vinha e à presença constante do vinho na sua vida. O produtor recorda que ir a Lisboa era um castigo, pois foi “pouco amigo de confusão” e nunca se sentiu atraído pelas grandes cidades. Em contrapartida, sempre gostou de caça, pesca e vinhas. Em miúdo, queria ser taberneiro. “Gosto de vinho, provas, sensações e emoções”, explica. Não foi esse o seu destino: ficou na origem, na produção de vinhos, onde provas, sensações e emoções também não faltam.

Em 2011 plantou a primeira vinha, com um hectare de Touriga Franca e quatro hectares de sete castas brancas (Arinto, Alvarinho, Verdelho, Verdelho da Madeira, Gouveio, Roupeiro e Rabigato), coisa que, confessa, hoje já não teria feito. “Naquela altura achei que sabia tudo, agora não sinto isto”, admite o produtor com humildade. Mas foi uma aprendizagem importante. Das sete variedades que selecionou, plantaria, agora, apenas duas: Arinto e Rabigato. Não é por acaso que são protagonistas de um dos vinhos mais recentes e ambiciosos, e que, claramente, estiveram na origem do nome “Arigato”.

As vinhas ficam em Estremoz e, em termos de solo, variam entre xisto, nas encostas, onde estão plantadas a Gouveio, a Rabigato e a Alvarinho, e solos mais pesados, com bastante argila, no vale, onde estão a Arinto e a Verdelho. O primeiro vinho foi lançado em 2013. “Naquela altura, os típicos vinhos brancos do Alentejo eram fruta tropical, pouco ácidos e chatos”, recorda Miguel Louro. Os vinhos do jovem produtor eram tudo menos “chatos” e “tropicais”: tinham fruta contida e acidez bem pronunciada. Alguns distribuidores até mostraram o seu desagrado. “Fui apelidado de ‘água com ácido’”, recorda Miguel com um sorriso, “mas continuei na minha”. Até hoje mantém a sua convicção, mas já não choca ninguém; é, aliás, um estilo bastante apreciado na restauração e entre enófilos esclarecidos.

A partir de 2024, começou a usar uva tinta de uma vinha nova, com oito hectares, onde tem três castas – Alicante Bouschet, Aragonez e Trincadeira. Miguel Louro está a pensar reenxertar uma parte desta vinha com Rabigato e Arinto.

 

Entre Portugal e a Alemanha

Em paralelo, desenvolveu outro ramo da sua vida profissional. Depois do Instituto Superior de Agronomia, em 2013, Miguel foi fazer o estágio profissional na Alemanha e, em 2016, foi convidado pela mesma empresa para desempenhar as funções de enólogo da casa onde tinha estagiado, a S.A. Prüm. Alguns anos mais tarde, em 2020, iniciou a sua colaboração com a empresa familiar Willems Willems, localizada na parte sul de Mosel, na sub-região do Saar. “Sou Director-Geral, mas faço tudo: viticultura, enologia e vendas”, explica. Têm oito hectares de vinha, distribuídos por 32 parcelas, todas com a casta rainha daquela zona, a Riesling.

Mesmo a viver entre dois países – Alemanha e Portugal –, consegue gerir as duas vindimas, graças à diferença entre elas de seis a oito semanas. Somando as duas propriedades, 80% do vinho que Miguel Louro faz é branco.

Miguel Louro

 

Do Apelido, Primeiro Nome e Alcunha ao Arigato

A produção total da Miguel Louro Wines ronda entre as 20 e as 25 mil garrafas, das quais 50% são de branco e 50% são de tinto. A gama sempre esteve cheia de significados. Começa no Apelido – vinhos de blend, jovens e descomplicados. O Primeiro Nome tem mais identidade do produtor, sendo também de lote, mas com algum estágio e complexidade. Já o nome Alcunha é reservado para os vinhos monovarietais de colheitas especiais e carácter vincado.

A esta família de vinhos juntaram-se agora dois Arigato apresentados em primeira mão. São lotes únicos de edições limitadas com muita personalidade. Miguel explica: “se eu faço um blend e gosto, engarrafo, mesmo que sejam apenas 300 garrafas”. É a vantagem de ser um pequeno produtor. Como o nome remete para o japonês, o símbolo no rótulo também foi inspirado na cultura nipónica. Representa “casa”, conceito que tem muito significado para o produtor.

O Arigato branco 2022 combina a acidez do Arinto com a austeridade e a frescura do Rabigato. Antes da fermentação, foi realizada uma maceração pelicular a frio durante 24 horas; depois, as castas tiveram tratamentos distintos: o Arinto fermentou em barricas de carvalho francês de 500 litros e o Rabigato em barricas de carvalho nacional de 300 litros. O estágio decorreu durante nove meses sobre borras totais, sem bâtonnage. “É o meu perfil. Se tivesse que fazer só um vinho, seria este”, declara Miguel Louro. Foram produzidas 924 garrafas.

O Arigato tinto de colheita 2020 é um 100% Trincadeira. “Acho que comecei a entender esta casta”, partilha o produtor. A maceração pré-fermentativa ocorreu em lagar com pisa a pé. Ao completar o primeiro terço da fermentação, o mosto foi transferido para barricas de 225 litros de carvalho francês de terceiro uso, onde também fez a fermentação maloláctica. “Depois do primeiro ano do estágio, provei o vinho e achei que precisava mais. Ficou 42 meses em barrica, sobre borras totais”, explicou. Depois de engarrafado em 2024, passou mais um ano e meio em garrafa até o produtor sentir que o vinho estava pronto para entrar no mercado. Foram produzidas 504 garrafas.

(Artigo publicado na edição de Março de 2026)

Escolha do Mercado Experience: Um prolongamento natural de um concurso único

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No dia 18 de Maio de 2026, a partir das 15h, apresenta-se em Lisboa o Escolha do Mercado Experience. O evento, exclusivo para profissionais, nasce como um prolongamento natural de um concurso – o Escolha do Mercado – já reconhecido por inverter a lógica tradicional: aqui, quem avalia são os decisores reais do mercado. Num […]

No dia 18 de Maio de 2026, a partir das 15h, apresenta-se em Lisboa o Escolha do Mercado Experience.

O evento, exclusivo para profissionais, nasce como um prolongamento natural de um concurso – o Escolha do Mercado – já reconhecido por inverter a lógica tradicional: aqui, quem avalia são os decisores reais do mercado.

Num conceito simples, mas de impacto concreto, o evento abre ao público profissional a possibilidade única de provar todos os vinhos — Brancos, Rosés e Espumantes — que estiveram a concurso anteriormente.

Da avaliação à experiência – Mais do que uma prova, pretende ser uma ferramenta de negócio.

Durante a manhã, o concurso – dentro das suas regras e regulamento – decorre com um painel único de jurados seleccionados entre compradores que definem tendências de consumo: restauração, hotelaria, distribuição e retalho especializado.

À tarde, o espaço transforma-se e, a partir das 15h, nasce o Escolha do Mercado Experience — uma mostra profissional onde o sector pode provar, comparar e identificar os vinhos a concurso, numa optica verdadeiramente de mercado.

Os vinhos presentes são na sua maioria vinhos em processo de lançamento, organizados segundo a lógica real de mercado (preço), num ambiente de prova livre, sem pressões nem constrangimentos, e com acesso imediato aos contactos comerciais do produtor/ distribuidor.

O concurso Escolha do Mercado distingue-se por colocar o mercado no centro da decisão.

O Experience leva essa lógica mais longe: transforma avaliação em contacto directo, reputação em relação comercial e um evento em negócio real.

Porque, no fim, não basta ser bom — é preciso fazer sentido no mercado. Aqui, a prova não é um fim — é o início de uma relação comercial.

 

Informação do evento:

Escolha do Mercado Experience

(Acesso: exclusivo a profissionais do sector do vinho e media)

Data: 18 de maio de 2026

Horário: 15h00 – 18h00

Local: Hotel Vila Galé Ópera, Lisboa

JOÃO TIQUE: O culto do vinho do Alentejo

João Tique

João Tique há muito que cultiva uma relação, direta e indiretamente, com o vinho. Inicialmente, através da indústria de preparação da cortiça e, mais tarde, o sector da distribuição, em Macau. O fascínio pelo mercado asiático determinou a criação da empresa Portuguese Topwines, com o objetivo de levar, para outras latitudes, vinhos produzidos. No âmbito […]

João Tique há muito que cultiva uma relação, direta e indiretamente, com o vinho. Inicialmente, através da indústria de preparação da cortiça e, mais tarde, o sector da distribuição, em Macau. O fascínio pelo mercado asiático determinou a criação da empresa Portuguese Topwines, com o objetivo de levar, para outras latitudes, vinhos produzidos. No âmbito deste negócio lidou, ao longo de alguns anos, com diversas especificidades, como seleção de referências vínicas nacionais, logística, fichas técnicas, compra e venda, e feiras internacionais em Hong Kong, Tóquio, Singapura e Xangai, em prol da produção nacional e com a audácia de colocar de parte o chamado mercado da saudade.

Ao regressar definitivamente ao Alentejo, João Tique decide avançar, em 2019, com o projeto próprio associado ao vinho produzido “como antigamente”, expressão repetida vezes sem conta. A comercialização começou um ano depois. São “vinhos que não se repetem”, garante, assumindo-se como o responsável pelas funções de viticultor de cinco hectares de vinha na Casa do Governador, na Quinta Alta da Queimada, propriedade localizado a norte da cidade de Évora. A composição varietal restringe-se a apenas três castas tintas: Alicante Bouschet, Syrah e Petit Verdot. “Ali só se consegue trabalhar à mão”, continua o produtor, referindo-se às tarefas que envolvem este pedaço de terra, no qual não entram herbicidas. A vindima decorre em outubro, à semelhança do que se fazia outrora. A finalidade consiste em “salvaguardar a qualidade e garantir a longevidade do vinho”, enaltece.

Produto de luxo

A vinificação das uvas tem lugar na Quinta da Plansel, produtor vitivinícola localizado no concelho de Montemor-o-Novo, distrito de Évora. É feita “sem leveduras selecionadas, sem sulfuroso na fermentação e sem correções de acidez ou de cor”, com o intuito de cada vinho deixar transparecer “a expressão mais honesta da terra e do tempo”, declara João Tique, que assegura a própria enologia. “Fui aprendendo a fazer vinho de maneira artesanal”, revela, com os ensinamentos transmitidos pelo Professor Francisco Colaço do Rosário, figura incontornável no mundo dos vinhos alentejanos.

Tratando-se de um projeto pequeno, a produção divide-se num trio de referências, com nomes em latim, em homenagem à era romana da cidade de Évora: Suavis, Bellus e Cultus. O primeiro é atribuído a “vinhos simples, consensuais”, enquanto o segundo é dado aos que se querem “memoráveis”. A produção de ambos restringe-se às cubas de inox, uma vez que João Tique prefere “defender a pureza” das castas. Já os Cultus “primam pela finesse. Têm lá tudo e em nada são exagerados”, esclarece o produtor, e, como “antigamente, as barricas eram utilizadas em vinhos excecionais”, o uso destas é igualmente limitado a esta terceira gama. A produção anual varia muito e a maior de todas foi de 3.000 garrafas.

Mas vamos por partes, até porque a prova realizada num reconhecido restaurante em Lisboa incluiu as gamas Bellus e Cultus. Na degustação entrou o Bellus branco 2024, um DOC Alentejo de curtimenta feito a partir “das uvas do ti João Menino” vindimadas numa vinha de 60 anos, localizada no Redondo. “Tem tudo a ver com os vinhos alentejanos de antigamente”, frisa João Tique. O Bellus Petit Verdot rosé 2024, com uma cor reveladora de grande extração pelicular, também foi incluído na prova, assim como o Bellus tinto 2023, o Bellus Alicante Bouschet tinto 2023, o mais consensual, e o Bellus Syrah tinto 2024, com os taninos ainda bem presentes. Para finalizar, houve o Cultus Grande Reserva Petit Verdot tinto 2021, vinho engarrafado em 2025.

Para João Tique, os vinhos “são um produto de luxo” e “só devem entrar no mercado quando estão no ponto”. Eis os motivos pelos quais se foca, sobretudo, na restauração, mais concretamente em mais de 150 restaurantes do país. O fornecimento é feito por via direta em aproximadamente 90% dos casos.

(Artigo publicado na edição de Março de 2026)

VINEADOURO: Vinhas antigas, a herança da terra

VINEADOURO

O local escolhido para o lançamento não é comum entre os produtores de vinho, mas fazia todo o sentido no contexto da Vineadouro. A apresentação teve lugar numa sala do Laboratory for Sustainable Land Use and Ecosystem Services (TERRA), do Instituto Superior de Agronomia, em Lisboa. Trata-se de um laboratório associado dedicado à produção de conhecimento científico e evidência socioecológica aplicada à gestão […]

O local escolhido para o lançamento não é comum entre os produtores de vinho, mas fazia todo o sentido no contexto da Vineadouro. A apresentação teve lugar numa sala do Laboratory for Sustainable Land Use and Ecosystem Services (TERRA), do Instituto Superior de Agronomia, em Lisboa. Trata-se de um laboratório associado dedicado à produção de conhecimento científico e evidência socioecológica aplicada à gestão sustentável do território.

A Quinta da Vineadouro localiza-se em Numão, uma pequena povoação com cerca de 200 habitantes, no concelho de Vila Nova de Foz Côa. A paisagem envolvente é marcada por vinhas e olivais, áreas de mato e pelo Castelo de Numão, implantado no topo de uma longa crista xistosa que, durante séculos, funcionou como ponto de controlo visual do território. Vista à distância, essa crista ondulante, rodeada por uma muralha, faz lembrar a silhueta de um dragão adormecido.

A presença da família Moutinho de Gouveia em Numão remonta ao século XVIII, estando documentada a produção de vinho na quinta desde o final do século XIX, com a conclusão da adega datada em 1890. O edifício funcionava como solar, com a família a residir no piso superior e a adega instalada no piso térreo, sendo as uvas da propriedade destinadas à produção de Vinho do Porto. Actualmente, é a sétima geração da família que explora os 140 hectares da propriedade e que, a partir de 2014, assumiu a recuperação do património edificado e das vinhas. A escala vitícola mantém-se reduzida: pouco mais de quatro hectares, distribuídos por quatro parcelas, onde a vinha mais jovem tem cerca de 50 anos e a mais velha é centenária.

Em 2019, nasceu a marca Vineadouro. O nome deriva da junção de duas palavras em latim: vinea, que significa “vinha”, e douro, que remete a algo precioso. Em 2020, foram lançados os primeiros vinhos: um tinto de 2017 e um branco de 2019. A enologia está a cargo de Manuel Malfeito Ferreira e Virgílio Loureiro, nomes com longa ligação ao ensino e à investigação vitivinícola e microbiológica, o que explica a abordagem técnica rigorosa. A consciência de sustentabilidade leva a aplicarem práticas ambientais sempre que possível, incluindo a implementação da gestão cuidadosa de água, energia e resíduos, promovendo a biodiversidade. Em setembro de 2024, abriram um pequeno hotel vínico, as Casas da Vinha, o primeiro EchoTech Resort sustentável dedicado ao enoturismo.

A família é representada pelo casal Teresa e Carlos Correia de Lacerda e as três filhas-gémeas. Apesar de todos terem outras profissões, estão profundamente envolvidos no projecto. Por este motivo, o lançamento do Vineadouro Grande Reserva é um acontecimento de grande importância para a família, reforçando a herança em prol da continuidade.

O vinho nasceu na parcela chamada Vinha da Coitadinha, plantada em socalcos tradicionais, a cerca de 450 metros de altitude. Trata-se de uma vinha centenária, constituída por castas misturadas, com presença de Rufete, Touriga Franca, Casculho, Tinta Amarela, Bastardo e Tinta Roriz, num conjunto mais vasto de variedades, difícil de quantificar com precisão. A fermentação decorreu em lagares de granito com leveduras indígenas; seguiu-se maceração prolongada e estágio de 18 meses em barricas novas de carvalho francês de tosta média. Foram produzidas cerca de 3.000 garrafas. Ao mesmo tempo foi apresentada a nova colheita do branco Vineadouro Vinhas Antigas, da mesma vinha, o qual inclui Síria, Folgazão, Gouveio, Trincadeira Branca, Malvasia Fina, Malvasia Rei, Rabigato e Carrega Branco. Vinificado só em inox para realçar a delicadeza das vinhas velhas.

(Artigo publicado na edição de Março de 2026)

 

O Prémio de Viticultura do ano é….Lusovini

Lusovini

O projeto desenvolvido pela Lusovini em torno do estudo e recuperação de castas autóctones do Dão é um bom exemplo da ligação profunda entre viticultura, conhecimento adquirido e visão estratégica. Esta iniciativa nasce de uma inquietação antiga de Casimiro Gomes, fundador da Lusovini, e da constatação de que muitas castas históricas da região existiam apenas […]

O projeto desenvolvido pela Lusovini em torno do estudo e recuperação de castas autóctones do Dão é um bom exemplo da ligação profunda entre viticultura, conhecimento adquirido e visão estratégica. Esta iniciativa nasce de uma inquietação antiga de Casimiro Gomes, fundador da Lusovini, e da constatação de que muitas castas históricas da região existiam apenas na memória dos viticultores, sem caracterização agronómica consistente nem expressão enológica que permitisse avaliar o seu real potencial. Desde os anos 1980, quando fundou a empresa no Dão, ouviu falar repetidamente dessas variedades quase desaparecidas. Em vez de esperar por estudos oficiais, decidiu avançar e criar as condições para as conhecer no terreno.

A oportunidade surgiu em 2015, com a aquisição da Vinha da Fidalga, em Carregal do Sal, uma propriedade com origem no século XVIII. Instalou-se ali uma vinha experimental de cerca de 3,5 hectares dedicada a castas minoritárias e em risco de extinção, tendo envolvido, inicialmente, 22 castas, com aproximadamente mil plantas de cada uma. Ao longo dos anos, o acompanhamento rigoroso em vinha permitiu observar o ciclo vegetativo, a resistência a doenças, a adaptação ao solo e ao clima e definir práticas de condução adequadas, num contexto em que praticamente não existia informação técnica disponível.

Lusovini

Deste trabalho resultaram 12 castas mantidas em estudo, entre as quais Barcelo, Uva Cão, Douradinha, Luzidio, Malvasia Preta, Monvedro, entre outras pouco conhecidas. Entre 2020 e 2023 realizaram-se microvinificações, com uma abordagem enológica deliberadamente neutra, pensada para revelar as uvas no seu estado mais direto. O objetivo foi gerar conhecimento: compreender perfis sensoriais, níveis de acidez, equilíbrio e potencial de evolução. Nos últimos dois anos foram apresentados alguns dos vinhos, já na vertente comercial, mas em edições muito limitadas.

Este investimento excede a dimensão patrimonial. Ao criar conhecimento vitícola consistente, a Lusovini contribui para o seu próprio futuro e para o futuro da região, assegurando que estas castas deixam de ser apenas memória, para voltarem a ter um papel ativo na viticultura de amanhã. V.Z.

O Prémio Viticultura do ano é patrocinado por: Vieirinox

(Artigo publicado na edição de Março de 2026)

ESPECIARIAS: Caril, açafrão e outras orientalidades

ESPECIARIAS

Por muitas voltas que demos ao assunto, haverá sempre quem tenha dúvidas acerca do caril, e de praticamente todas as outras especiarias, e o tempo que passou provocou uma total miscigenação. Troca as voltas a todos os aparentes donos da verdade e torna humildes os mais poderosos. Certo é que desde 1498, quando chegámos à […]

Por muitas voltas que demos ao assunto, haverá sempre quem tenha dúvidas acerca do caril, e de praticamente todas as outras especiarias, e o tempo que passou provocou uma total miscigenação. Troca as voltas a todos os aparentes donos da verdade e torna humildes os mais poderosos. Certo é que desde 1498, quando chegámos à Índia, assentámos praça. Por efeito do Tratado de Tordesilhas, o Brasil passou para o lado português, e a intensidade das relações com a gigante península indiana fortaleceu-se enormemente. Na segunda década do séc. XVI, os portugueses dominavam inteiramente a origem de todas as especiarias, sobrepondo-se à rota até então estabelecida. Dispenso-me do rigor estritamente histórico, para dar um salto gigante até Goa, pelo reduto culinário e gastronómico que representa toda a Índia. Jamais se deixou “invadir” pela restante Índia. Levámos o funcho da Madeira, que encontrou acolhimento junto do anis indiano. Também da América do Sul, via Brasil, fizemos chegar tomate, ananás e batatas, entre outros produtos. E Portugal conseguiu o feito notável de interferir na enorme tradição indiana de cozinhar. O pão e as açordas criaram raízes fortes nessa praça distante. E as massalas – leia-se misturas de especiarias em pó – começaram a viajar com força e aceitação total entre o cantinho luso e o magnífico mundo novo e rico que Goa representava. A malagueta só entrou nos nossos costumes no século XIX. Era “coisa do diabo”. Mesmo assim, influenciou fortemente as bases da cozinha alentejana, tal como a conhecemos e praticamos hoje.

ESPECIARIAS

 

O fabuloso mundo das especiarias

Historicamente, é da Índia que vem a mais abundante e rica utilização de ervas aromáticas e especiarias que conhecemos. No domínio das ervas, sobressaem duas: a folha de coentros, que nós, felizardos ocidentais, conhecemos simplesmente como coentros; e a hortelã pimenta. O grosso da coluna provém da prodigiosa oferta de especiarias que a Índia encerra. As especiarias são, ao fim e ao cabo, uma diversidade grande de elementos secos. Sementes, bagos, vagens, cápsulas, cascas, folhas, botões, pétalas, estigmas ou estames, configuram especiarias que podem valer mais do que ouro. Olhemos para os casos mais comuns, exercício que raramente fazemos.

Folha de louro. Nasce de um arbusto e dá-se bem em toda a parte. Funciona em diversas aplicações, mormente em conjunto com azeite e alho, no caso do inefável bife à portuguesa.

Cardamomo. É uma semente que é indissociável do sabor indiano autêntico. Dá-se bem no sul da Índia, em Ceilão, Tailândia e Guatemala, e confere um sabor forte e ligeiramente balsâmico a todas as aplicações. Produz um óleo viscoso de sabor intenso, um cineol flexível em termos de aplicação. Esta semente tem uma de duas configurações possíveis: cardamomo negro, componente nuclear da massala garam, e cardamomo verde, também conhecida como a rainha das especiarias. Esta última é uma das mais caras e aromáticas especiarias do mundo. É muito utilizado em doçaria.

Cássia e canela. A cássia e a canela são, por assim dizer, as cascas das respetivas árvores. Infelizmente, o consumidor é frequentemente levando a consumir uma e outra indistintamente, mas não pode haver maior logro. A cássia provém da China, enquanto a canela é originária do Ceilão. Claro que há muitas semelhanças e, claro, que uma e outra especiarias podem vir de outras partes do globo. No entanto, atentando à forma mais pura e valiosa, o sistema é este. Ilhas Seycheles, Brasil e Indonésia produzem excelente canela, mas o ideal é mesmo conseguir chegar ao nível máximo.

Malagueta. Da família capsicum, provém originalmente da América do Sul e viajou para toda a parte, ganhando forma e função entre os diferentes povos. Oscila entre veneração e condenação, e é estruturante na cozinha indiana. Na Tailândia também é muito importante. Utilizado como intensificador de sabor, é mais saudável do que o sal. E entre outras virtudes, permite uma certa profilaxia geral em relação a algumas doenças. Nos piripiris que faço, jamais retiro as sementes; elas fazem parte.

Cravinho. Provém de uma árvore, toda ela muito aromática. Consumimos o cravinho seco e o nome que lhe damos decorre da configuração de prego. É fundamental utilizar com moderação nos cozinhados, pois tende a dominar todo o sabor. Um dente de cravinho é suficiente para um tacho médio de ensopado de borrego, por exemplo.

Sementes de coentros. É a especiaria mais abundante da Índia, da qual o país exporta mais de 80 mil toneladas por ano. Secas e passadas pelo almofariz, exala impressões cítricas impressionantes. É, por isso, um excecional intensificador de sabor. Utilizo juntamente com um pouco de cardamomo, para produzir um substituto doméstico do sal. Passadas pelo forno quente, ganham uma dimensão exótica muito saborosa.

Cominhos. Utilizamo-los na produção de vários enchidos tradicionais, em particular de morcelas e chouriços de sangue. São especiarias muito antigas. Há mais de 4.500 anos que a Síria e o Egito a produzem com abundância e proveito. É duradoura: há relatos de sementes presentes nos túmulos dos faraós que estavam ainda em boas condições de consumo. São excelentes como componentes  de marinadas diversas.

Folha de caril. Em termos aromáticos, a semelhança com o pó de caril é muito grande e, como pasta, chega a fazer as vezes. Funciona muito bem com peixe fresco; gosto particularmente de utilizar com ovas grelhadas ou cozidas. Fresca, a folha de caril pode utilizar-se até com manteiga. É impressionante a sua flexibilidade.

Funcho. Especiaria de raiz eminentemente europeia. É doce e fortemente aromática. Além disso, é hiperabundante, encontramo-la pelas bordas dos caminhos de campo. Temos rebuçados e mezinhas diversas à base de funcho. Quando seco, integra muito bem misturas de especiarias como o caril. Tem de ser utilizado em pequenas proporções.

Feno-grego. Utilizada com abundância no norte da Índia, é uma especiaria de que se aproveita tanto as sementes, como as folhas. Nas províncias do Gujarate e Punjab, tem diversas aplicações na saúde e é considerada como fundamental em estufados longos de carne. Rogan Josh, por exemplo, não vive sem esta especiaria.

Levístico. Provém de uma planta de flores vermelhas e perfume intenso, semelhante ao tomilho. Não convivemos muito com a planta, mas seguramente já lhe sentimos o cheiro em marinadas, molhos e pratos cozinhados.

Noz moscada. Está presente em todas as configurações de caril e damos-lhe uso muito frequente em purés e massas. Na doçaria nacional, também tem as suas utilizações usuais.

Sementes de mostarda. Também se chama grãos de mostarda e é, nas variantes amarela e branca, utilizada para produzir o condimento de mostarda. Pode ser mais ou menos pungente, consoante os acrescentos que lhe damos.

Pimenta. É a especiaria das especiarias na cozinha indiana. O mundo inteiro utiliza a pimenta a par com o sal nas suas cozinhas domésticas. Ombreia com a malagueta na popularidade e ainda é fonte importante de rendimento para a Índia. Há diversos sucedâneos e todos eles fazem parte dos ingredientes fundamentais das nossas casas.

Açafrão. Ingrediente chave e nobre nas melhores misturas de especiarias. Obtém-se em quantidades muito reduzidas a partir dos filamentos da flor crocus sativus. Para ter a noção da raridade, são precisas 70 mil flores para obter meio quilo de açafrão. É mais cara e mais exótica do que a trufa branca, por exemplo. Custa oito euros por grama. Apesar de tradicional na culinária portuguesa, espanhola, italiana e indiana, caiu em desuso, optando-se pela curcuma. Mas, claro, que não é a mesma coisa.

Sementes de sésamo. Utiliza-se muito em óleo, farinha e diretamente. Na utilização direta, vale a pena aquecê-la no forno ou numa sertã seca. Tem um poder aromático forte.

Vamos ao caril?

Posto que entendemos que um caril é feito a partir de massalas ou misturas de especiarias, podemos passar a algumas configurações frequentes. Percorremos, numa primeira instância, as formas mais frequentes de caril indiano. O tikka masala é um dos mais populares e consiste de pedaços grelhados de frango, com um molho cremoso e suave. Tem um sabor cítrico e não é normalmente picante. Um branco de Fernão Pires do Tejo pode resolver bem a contenda.

Já o vindaloo é um prato goês, feito com vinagre, malagueta e alho. O nome decorre de uma corruptela de vinha de alhos, uma preparação bem portuguesa, que pode ser picante. Aqui pode ser instrumental um Castelão da Península de Setúbal. A questão do picante leva-nos a ter algumas precauções quanto à harmonização vínica. Mas, basicamente, quando intensificamos o picante, devemos também aumentar o grau alcoólico do vinho, isto porque a perceção do picante na boca resulta em micro-feridas e o álcool vai permitir sará-las de imediato. A água nada resolve e até pode ser contraproducente.

A preparação korma é suave, cremosa e aromática, e utiliza iogurte, natas ou nozes na sua base. Regressamos, por isso, ao vinho branco, para chegar à harmonização feliz. Deve ter estágio em madeira e, de preferência, ser jovem. Um Arinto de Bucelas fermentado em barrica pode ser uma excelente ideia. Importante é que espevite a selva aromática que está no prato.

O caril de Madras é vermelho e é feito com malagueta, cominhos e sementes de coentros. Pode ser muito picante, e cabe ao vinho debelar esse capital avassalador. Sugiro um Cabernet Sauvignon de Lisboa, as experiências que tenho feito com os vinhos da Quinta do Sanguinhal têm resultado. Denotam, além disso, um perfil balsâmico que tem muito a ver com a cozinha indiana. O caril goês de frango é feito com leite de coco, pode ser ou não picante e é delicioso. É, de resto, o que se faz nos lares portugueses com mais frequência. A solução vínica que melhor funciona é um Touriga Nacional jovem do Dão. Frescura e de novo a selva aromática de que precisamos.

O Rogan Josh, que já referi, é um prato complexo e profundo da região de Caxemira. É feito com borrego e tem a particularidade de incluir feno-grego na composição. Aprendi com um grande mestre indiano, que produziu a mistura à minha frente, e depois cozinhou-o na perfeição. É normalmente picante, dependendo da tolerância dos comensais. Aconselho um tinto do Douro com madeira, com alguma idade. A ligação é garantida. O caril Saag é quase vegan e tem por base folhas verdes de espinafres, pelo que aconselho vivamente um vinho branco da casta Fonte Cal. Alguns produtores da Beira Interior estão a fazer vinhos que parecem ter sido concebidos para este caril. O caril Dhamsala, de forte influência peruana, é outro grande prato e é feito com lentilhas e vegetais. Este sim, é inteiramente vegano e curiosamente gosta de vinho tinto. Um Jaen novo do Dão faz uma excelente harmonização.

ESPECIARIAS

Um pulo até à Tailândia

Na grande e estreita língua de território que é a Tailândia, o caril é um caso muito sério. Aliás, todo o país é um caso muito sério. Leite de coco e erva-príncipe estão na base de quase todos, o que, do ponto de vista da harmonização, é um tremendo desafio. O caril verde é o mais rico em especiarias e é feito com malaguetas verdes, manjericão e sementes de coentros. Não é demasiado picante, mas temos de estar preparados para o caso – quase sempre – de isso acontecer. Dado o património aromático contido no caril verde, optamos por um Sauvignon Blanc de Colares. Complexidade e exotismo garantidos e, além disso, o toque salino, que é sempre bem vindo.

Um caril tailandês é altamente calórico. O caril vermelho é o mais picante de todos e, na base, encontramos malaguetas vermelhas fortes, erva-príncipe e gengibre. Precisa, por isso, de um tinto bem copioso, pelo que o Alentejo é a opção correta. A casta Alicante Bouschet pode ser um bom caminho. O segredo é, como sempre, provar e medir forças com a solução encontrada. Boas experiências!

(Artigo publicado na edição de Março de 2026)