Editorial: 2026

Editorial da edição nrº 105 (Janeiro de 2026) O primeiro editorial do ano é, normalmente, dedicado àquele exercício de adivinhação que os cronistas adoram fazer, apontando padrões e tendências para os 12 meses que se seguem. Para não fugir à tradição, aqui fica a minha antevisão do mercado do vinho em Portugal, sabendo bem que, […]
Editorial da edição nrº 105 (Janeiro de 2026)
O primeiro editorial do ano é, normalmente, dedicado àquele exercício de adivinhação que os cronistas adoram fazer, apontando padrões e tendências para os 12 meses que se seguem. Para não fugir à tradição, aqui fica a minha antevisão do mercado do vinho em Portugal, sabendo bem que, como dizia um conceituado futebolista, os prognósticos mais acertados são feitos no final do jogo.
O consumo – o vinho, em termos gerais, está a ficar menos “cool”, em Portugal e no mundo, e a tendência parece ser para continuar. Não é tanto o álcool (perguntem aos jovens da tão falada geração Z que, nas noites de sexta-feira, bebem qualquer zurrapa que os desiniba), é mesmo o vinho. O preço nos restaurantes é desmotivador, claro, mas olhem para as mesas cheias de jarros de sangria a €25…
As cores – ainda assim, a quebra não acontece por igual. É mais acentuada nos vinhos tintos, tendo os rosés estabilizado (quem pensava que ia vender rosé aos contentores, desiluda-se) e os brancos estão em franco crescimento. De tal forma que a queda de produção nesta vindima levou, em algumas regiões, à procura desenfreada de uva branca e de brancos a granel, com os preços a atingir valores recorde.
Os perfis – tirando vinho mau, vale quase tudo. É evidente que nos segmentos de entrada, coisas como acidez, vegetal ou taninos mais ríspidos continuam a ser inaceitáveis. Mas mesmo nos vinhos de €2,99 podemos ter estilos diversos, desde os super docinhos aos secos (mas macios, claro, e, de preferência, com 14% álcool). A partir dos €15, a tolerância à acidez e ao tanino é muito maior, mas, ainda assim, não tenhamos dúvidas: a procura de vinhos tintos abertos, com pouco álcool e bastante acidez continuará a ser um super nicho. A esmagadora maioria dos consumidores que paga €30 numa loja por uma garrafa de tinto quer um vinho encorpado e poderoso, que impressione os amigos.
Espumantes – há 30 anos, um bairradino, infelizmente já desaparecido, dizia-me muitas vezes: “um dia, o espumante vai conquistar o mundo”. E o mundo veio a dar-lhe razão, a categoria continua e continuará em alta. Na verdade, tem tudo para dar certo: é leve, é fresco, é alegre, é sexy. Dos mais simples pet-nat aos mais sofisticados “método clássico”, com vários anos de cave, as bolhas estão na moda.
“Naturais” – o balão parece estar a esvaziar-se. Lojistas e sommeliers dizem que a onda grande passou e que, num tempo em que cada euro conta, os clientes procuram marcas de confiança, não querem surpresas desagradáveis. E não querem pagar por algo que não lhes sabe bem só porque alguém, supostamente mais entendido, lhes diz que aquilo é suposto ser assim.
Amadores – se isto está difícil para os profissionais, o que dizer dos amadores? E amadores são todos aqueles que investiram numa empresa de vinho sem lhe poderem entregar dedicação total (a sua vida é outra), nem possuem escala para montar uma estrutura profissional. São muitos, muitos mesmo, e ou a sua actividade principal aguenta o prejuízo da acessória, ou grande parte vai fechar ou vender a loja nos próximos anos.
Turismo – 2025 foi, de novo, ano recorde para o turismo em Portugal. Mais de 30 mil milhões de euros entraram nos cofres, euros que, para a economia nacional, valem o dobro, porque vieram de fora. E só as gargantas sedentas dos turistas explicam que Portugal tenha o maior consumo per capita do mundo. Aproveitar este fluxo de pessoas para os levar aos locais de produção, é fundamental. O enoturismo justifica, cada vez mais, a mesma atenção e investimento do que a vinha ou a adega. Em condições ideais, a loja da marca deverá ser o principal e mais rentável ponto de venda do produtor. Não perceber isto, é não perceber nada.
Editorial: Renovar

Editorial da edição nrº 103 (Novembro de 2025) A renovação é essencial ao desenvolvimento e à própria sobrevivência das organizações. O que é válido para o mundo académico ou empresarial, é-o mais ainda para os media em geral e para a imprensa em particular, onde novas e diferentes formas de experienciar e comunicar o […]
Editorial da edição nrº 103 (Novembro de 2025)
A renovação é essencial ao desenvolvimento e à própria sobrevivência das organizações. O que é válido para o mundo académico ou empresarial, é-o mais ainda para os media em geral e para a imprensa em particular, onde novas e diferentes formas de experienciar e comunicar o mundo são condição de sucesso.
A entrada, no passado mês de julho, da jornalista Patrícia Serrado para a chefia de redacção da Grandes Escolhas, marca o início de um processo de renovação que teve, em outubro, um outro momento determinante, com a nomeação de Valéria Zeferino, colaboradora desta revista desde a primeira hora, para sub-directora. São duas profissionais de grande gabarito, que encaram com entusiasmo o desafio que têm pela frente e que, para o superar, contam com um quadro de colaboradores sem paralelo em termos de experiência e conhecimento da temática do vinho. Pretende-se, assim, uma transição suave, sem sobressaltos, que conduza a uma revista mais abrangente em termos de público-alvo, dando resposta às necessidades de informação quer dos leitores mais clássicos, quer daqueles que privilegiam o ecrã do telemóvel como transmissor de conteúdos.
Fui contratado como director de publicações periódicas aos 23 anos, ainda a concluir a universidade. Durante cinco anos dirigi, simultaneamente, revistas especializadas em diversas áreas (com destaque para informática e automóveis) até lançar a Revista de Vinhos em 1989, nascendo aí uma paixão pelo tema, que me obrigou a abandonar tudo o resto. Com 64 anos de idade, atingi 41 anos de direcção ininterrupta de revistas mensais. Acho eu, acham a minha família e os meus amigos, que já é suficiente. Quando, dentro de alguns meses, o processo de transição estiver concluído na Grandes Escolhas, poderei fazer finalmente o que há muito ambiciono: escrever e falar sobre o vinho e o seu mundo, sem qualquer outra responsabilidade, além daquela que o rigor e a consciência me ditam.
Luís Lopes
Pretende-se uma transição suave, sem sobressaltos, que conduza a uma revista mais abrangente em termos de público-alvo, dando resposta às necessidades quer dos leitores mais clássicos quer daqueles que privilegiam o ecrã do telemóvel como transmissor de conteúdos.
Com origens moscovitas, passei quase metade da minha vida em Portugal. Sou formada em Gestão e trabalhei nessa área até descobrir o melhor que este país tem: o vinho. E, quando gosto de alguma coisa, dedico-me profundamente ao tema. Estou ligada ao mundo dos vinhos desde 2012 e, com a primeira edição da Grandes Escolhas, em maio de 2017, comecei a minha colaboração com a revista. Antes disso, era assinante e fiel leitora da Revista de Vinhos, de onde toda a equipa saiu naquela altura, para fundar um novo projeto.
Tenho a sorte de trabalhar com colegas que admiro e com quem aprendi muito: João Paulo Martins, o grande guru e “papa dos vinhos”, com a sua visão crítica e impressionante consistência na prova; Nuno Oliveira Garcia, com nariz apurado e afiado sentido de humor; e Luís Antunes, que escreve maravilhosamente bem. E, claro, Luís Lopes, que considero o meu mentor e tem sido a minha referência em tudo o que faço profissionalmente.
Sem estas pessoas, eu não seria quem sou hoje. Mas também o sou porque nunca deixei de aprender. Tirei o Diploma da WSET, em Londres, que me abriu horizontes. Mas quis ir mais a fundo. Fiz o Mestrado em Viticultura e Enologia no ISA. A área a que mais me dedico é a análise sensorial, tema da minha tese, que espero concluir em breve.
O desafio é grande. Enorme, mesmo. E farei tudo para estar à altura. Nunca serei como o Luís Lopes – é impossível. Serei, sim, diferente, mas trarei as minhas qualidades, competências e dedicação à revista e aos nossos leitores, para que as escolhas sempre sejam grandes. Este é o meu novo começo, que, no fundo, é uma continuidade do caminho que me trouxe até aqui. Valéria Zeferino
Editorial: Atreva-se a descobrir

Editorial da edição nrº 102 (Outubro de 2025) No meu círculo de amigos serei, certamente, um dos que menos recorre às chamadas redes sociais. Utilizo apenas Instagram, onde publico uma foto por mês, se tanto, e nunca sobre vinhos. Os temas que me apetece fotografar/comentar têm quase sempre a ver com carros, cães, pesca, caça […]
Editorial da edição nrº 102 (Outubro de 2025)
No meu círculo de amigos serei, certamente, um dos que menos recorre às chamadas redes sociais. Utilizo apenas Instagram, onde publico uma foto por mês, se tanto, e nunca sobre vinhos. Os temas que me apetece fotografar/comentar têm quase sempre a ver com carros, cães, pesca, caça e, tirando raríssimas excepções (e sempre com autorização prévia) família e amigos nunca são envolvidos nos conteúdos. Serve isto unicamente para dizer que estou muito longe de poder ser considerado um especialista em redes sociais, e bem assim da linguagem, regras, códigos, que lhes são inerentes.
No entanto, e por dever de ofício, ao longo dos últimos anos tenho acompanhado bastante mais de perto as plataformas digitais e redes sociais das empresas ligadas ao mundo do vinho. Estou atento ao desempenho, à forma, ao conteúdo, e reconheço a crescente importância que as redes sociais têm na estratégia de comunicação de uma marca, operando como complemento dos outros formatos e modelos.
Ao visualizar as publicações de dezenas de empresas, distintas nos seus perfis, conceitos e cliente alvo, é impossível não reparar em, pelo menos, dois denominadores comuns: primeiro, o desconhecimento generalizado do tema (vinha, vinho, mercado) e também da cultura e especificidades do proprietário da conta, originando arrepiantes “gaffes”, sobretudo quando se fala de castas, vindima, vinificação ou consumo (a excepção está, naturalmente, nas raras ocasiões em que é o produtor a encarregar-se do conteúdo); segundo, a absurda quantidade de lugares comuns, clichés, verbos, advérbios e adjectivos repetidos até à exaustão, amontoados de palavras sem significado algum, formando frases surreais.
Assim, pelo que leio nas redes sociais, não posso, simplesmente, querer beber um vinho. Tenho de me “atrever” a isso. E, de preferência, ficar “surpreendido” com o resultado. E como não, se todos os vinhos são “únicos” e “prometem” coisas? Além de que estão cheios de “segredos desafiantes” para “descobrir”. De tal forma “fascinantes” e “inesquecíveis” que deixam de ser uma bebida e se transformam numa “experiência”, feita de “aromas de partilha” e “sabores de tradição”. Apetece “brindar” pois então, “à vida, aos amigos, ao verão”.
Sei perfeitamente que uma publicação deste tipo se quer curta e apelativa, numa linguagem simples, acessível, sem complicações, de apreensão imediata. Mas tantas e tantas vezes, o que leio é algo como isto: “Atreva-se a experienciar o nosso terroir único. Convidamo-lo a mergulhar num momento fascinante e inesquecível, juntando paixão e tradição. Descubra os segredos de vinhos que prometem surpreender pela sua frescura e brinde à amizade num ambiente repleto de natureza”.
Não pretendo, de modo algum, ver numa conta empresarial do Facebook ou Instagram a linguagem de um jornalista ou romancista. Mas gostaria de deparar-me com uma escrita um pouco mais criativa, inteligente e conhecedora. A verdade é que, após ler as mesmas frases replicadas de marca para marca, fico com a sensação de que a esmagadora maioria das pessoas que escreve estes conteúdos nem sequer bebe ou gosta de vinho. O que, convenhamos, não será o melhor cartão de visita, se o propósito da publicação for levar um potencial consumidor a “atrever-se” a abrir uma garrafa… L.L.
Editorial: Então é assim

Editorial da edição nrº 101 (Setembro de 2025) É uma das mais clássicas interrogações do jornalismo: até que ponto a isenção é condicionada pelos gostos ou preferências de quem escreve? A deontologia profissional exige que o jornalista seja independente e isento. Mas o jornalista não deixa de ser uma pessoa. E podendo e devendo salvaguardar, […]
Editorial da edição nrº 101 (Setembro de 2025)
É uma das mais clássicas interrogações do jornalismo: até que ponto a isenção é condicionada pelos gostos ou preferências de quem escreve? A deontologia profissional exige que o jornalista seja independente e isento. Mas o jornalista não deixa de ser uma pessoa. E podendo e devendo salvaguardar, com afinco, a sua independência, dificilmente consegue assegurar a completa isenção.
Os jornalistas escondem, sempre, as suas preferências. Na tradição europeia, os que escrevem sobre política nunca dirão em quem votam nem apelarão a um sentido de voto. E, no entanto, enquanto apaixonados pelo tema, é certo que se identificam com determinadas ideias, pessoas e partidos. E rejeitam outras e outros. Pode então a sua análise aos méritos deste ou daquele político, ou desta ou daquela proposta, ser inteiramente isenta?
Algo quase impossível no jornalismo desportivo, sobretudo no futebol, onde o adepto é irracional por natureza. Não existe uma razão para se ser deste ou daquele clube. É-se, simplesmente. Sendo os jornalistas desportivos também adeptos, com que isenção avaliam um jogo ou um jogador?
Já quem escreve sobre gastronomia (ou vinhos) não vê o mundo a duas cores. É normal apreciar sabores muito distintos ou estilos bem diversos. Ainda assim, terá favoritos e ódios de estimação. Se um jornalista detestar abóbora (é o meu caso…) com que rigor vai avaliar um prato baseado naquele fruto?
Felizmente, não escrevo sobre comida. Mas escrevo sobre vinhos. E tal como os jornalistas de outras áreas, tenho as minhas preferências. E tal como eles (ou, acredito, a maioria deles) esforço-me ao máximo por impedir que os meus gostos influenciem o meu julgamento. Sei que, conscientemente, não beneficio ou prejudico um vinho em função de apreciar mais este ou aquele estilo ou região. Mas não posso garantir, com toda a certeza, que nunca o faça sem dar por isso. Essa garantia, nenhum ser humano pode dar.
Um crítico de vinhos (ou comentador político) não é suposto ser isento. Mas um crítico de vinhos que seja, ao mesmo tempo, jornalista, tem a obrigação de, a todo o custo, procurar sê-lo. E embora entenda que a exposição pública possa ser mal interpretada, seria bem melhor para o profissional do jornalismo, qualquer que seja a sua área, se os seus leitores soubessem para onde o seu coração (ou cabeça, ou estômago…) se inclina.
Não me importo de dar o primeiro passo. Então é assim. Sou bastante eclético, aprecio vinhos muito distintos no perfil. Mas nos tintos, gosto de garra tânica, estrutura e boa acidez. E nos brancos, sou pela untuosidade, elegância e frescura crocante. Não sou fã da fruta exuberante, prefiro os aromas e sabores vegetais de bosque ou frutos citrinos, às framboesas, groselhas e frutos tropicais. Entre vinhos de igual qualidade, escolho beber os menos alcoólicos. Mas detesto vinhos de uvas verdes (uma moda ridícula que, espero, passe depressa). A barrica em nada me incomoda se for boa e discreta. Nos varietais tranquilos, vou nos Encruzado, Baga, Alvarinho, Loureiro, Alicante Bouschet e Cabernet e passo Viognier, Merlot, Moscatel, Pinot e Gewurztraminer. Adoro espumantes “bruto zero” e com longo estágio em cave (aqui o Pinot é muito bem-vindo) e dispenso Pet Nat, Late Harvest e destilados.
Regiões? Na minha garrafeira estão todas bem representadas. Mas se fosse possível aferir as favoritas pelas garrafas que espreitam nas prateleiras, poderia dizer que, em tintos, prevalecem Bairrada, Douro e Alentejo, em partes quase iguais. E em brancos, Monção e Melgaço (dominante), Bairrada e Dão. Nos licorosos, Porto (bem maioritário), Madeira e Setúbal. Para terminar esta declaração de interesses, devo acrescentar que gosto imenso de tintos Barolo e Bordeaux e brancos Mosel, Bourgogne e Jerez mas, infelizmente, não abundam cá em casa… L.L.
Editorial: Nº 100

Editorial da edição nrº 100 (Agosto de 2025) 100 meses, 100 edições. Um número bem redondinho que assinala um percurso bonito, iniciado em maio de 2017, recheado de desafios (um covid 19 pelo meio, parece que foi há um século…) e superações. Foram também 100 editoriais, publicados nesta página. Revisito aqui alguns deles, abrindo […]
Editorial da edição nrº 100 (Agosto de 2025)
100 meses, 100 edições. Um número bem redondinho que assinala um percurso bonito, iniciado em maio de 2017, recheado de desafios (um covid 19 pelo meio, parece que foi há um século…) e superações. Foram também 100 editoriais, publicados nesta página. Revisito aqui alguns deles, abrindo uma cápsula do tempo de memórias vínicas destes quase oito anos e meio.
“Número 1. Gosto deste algarismo e dos seus múltiplos significados. Pode querer dizer o primeiro, no sentido qualitativo do termo, mas também início e único. Acredito que todos eles se aplicam à revista que agora apresentamos. V Grandes Escolhas, é o seu nome.” (Maio 2017)
“A viticultura sustentável não é uma moda ou uma tendência, antes uma necessidade. E uma necessidade de que muitos produtores estão conscientes, sobretudo aqueles que querem deixar algo para as gerações vindouras (as suas e as dos outros).” (Dezembro 2017)
“Fico zangado com a rolha quando esta me deixa ficar mal, quando frustra as minhas expectativas, quando mata um vinho que acarinhei durante anos para um momento de glória que afinal não foi. Mais do que arruinar o vinho, o TCA destrói o momento.” (Dezembro 2018)
“A Touriga Nacional é a minha casta favorita? Não, de todo. Mas é a melhor que temos e a mais bem colocada para representar a grandeza vinícola de Portugal. É exuberante, vaidosa, impositiva, egocêntrica? Sim, claro. O Cristiano Ronaldo também.” (Maio 2019)
“Existem muitas definições para o chamado factor X. Aquela de que mais gosto explica-o desta forma: “Uma variável, numa dada situação, que pode vir a ter o impacto mais significativo no resultado”. No caso do vinho, não tenho qualquer dúvida: a variável principal, o factor X, é o factor humano.” (Setembro 2019)
“O salto digital foi gigantesco para todos. Veio para ficar? Vai ser assim de agora em diante? Vai substituir a conversa cara a cara, o aperto de mão, o abraço, o tocar dos copos? O take-away e a venda online não salva restaurantes, lojistas e produtores, tal como o WhatsApp não resolve as saudades da família e dos amigos. É um compromisso pífio e frustrante. Mas ajuda.” (Maio 2020)
“Só quem sabe muito de viticultura e enologia se pode dar ao luxo de abdicar da segurança e correr riscos. Mas só correndo riscos se criam vinhos que nos seduzem e impressionam pela sua qualidade, originalidade, personalidade. E mesmo com todo o conhecimento, talento e atenção, quem caminha na linha vermelha, sabe que, por vezes, as coisas correm mal.” (Fevereiro 2021)
“Gosto discute-se, qualidade não. A qualidade é imediatamente reconhecível, mesmo por quem não é especialista ou conhecedor. Se um vinho cheira mal, não há quem me convença de que cheira bem. Uma couve podre é uma couve podre, um guisado queimado é um guisado queimado. Não há volta a dar.” (Janeiro 2022)
“Agora que toda a gente sabe o que é Vinho de Talha Alentejo, seria bom não esquecermos os amadores (no verdadeiro sentido da palavra, ‘aqueles que amam’) que, teimosamente, ao longo das últimas décadas, mantiveram vivos não apenas a tradição como o conhecimento, o saber fazer.” (Julho 2023)
“Aqueles que se intitulam ‘fora da caixa’ (sem perceberem que assim se inserem, desde logo, numa caixa e num rótulo) são, frequentemente, os que mais se esforçam por colocar todos os outros vinhos e produtores em caixinhas muito bem fechadas, catalogadas e arrumadas num canto, de preferência escuro e longínquo. Como se o mundo do vinho se resumisse a ‘nós’ e ‘outros’.” (Dezembro 2023)
“Quantas vezes assisti, em sessões de prova, ao arrasar de um vinho com o singular argumento de que se ‘sente a madeira’. (…) Curiosamente, quem diaboliza a mais leve sugestão de fumado ou especiaria da barrica, é capaz de acolher embevecido e lacrimejante de prazer o aroma a pez da talha ou o sabor taninoso do engaço verde no lagar.” (Junho 2024)”
“Melhores vinhos. De todos os ‘prognósticos’ para 2025, este é o que podemos tomar como garantido. A cada ano que passa, nascem em Portugal melhores vinhos, brancos, rosados e tintos. Não sei quando o mundo vai verdadeiramente reconhecer (e pagar) a grandeza destes vinhos. Mas pouco importa, eu sei onde os encontrar.” (Janeiro 2025) L.L.
Editorial: A eleita

Editorial da edição nrº 99 (Julho de 2025) A pequenina sub-região de Monção e Melgaço tem uma concentração sem igual de vinhos brancos de superior qualidade e longevidade. Para descobrir ali um vinho menor, só se o produtor fez asneira da grossa. A Grande Prova de Alvarinho de Monção e Melgaço que publicamos […]
Editorial da edição nrº 99 (Julho de 2025)
A pequenina sub-região de Monção e Melgaço tem uma concentração sem igual de vinhos brancos de superior qualidade e longevidade. Para descobrir ali um vinho menor, só se o produtor fez asneira da grossa.
A Grande Prova de Alvarinho de Monção e Melgaço que publicamos nesta edição da GE, e o excelente desempenho protagonizado por estes vinhos, traduzido numa muito elevada classificação média, traz à liça a eterna questão sobre qual é a melhor casta branca de Portugal. A utilização da palavra “melhor”, para classificar algo ou alguém, enferma, desde logo, de elevada carga de subjectividade. Mas tentemos ser rigorosos, olhando de forma imparcial para as principais uvas brancas nacionais, independentemente do apreço que possamos ter por cada uma. Ainda assim, é fundamental definir o âmbito da avaliação. Ou seja: a melhor casta é aquela que, numa ou mais regiões de Portugal, consegue, ano após ano, originar elevado número de vinhos estremes com enorme qualidade e longevidade? Ou a melhor casta é aquela que, na generalidade das regiões portuguesas, em diferentes condições de solo e clima consegue, de forma consistente, estreme ou em blend, contribuir positivamente para a elaboração de grandes vinhos?
Se o critério fosse este último, em minha opinião, só existiria uma resposta possível: Arinto. Nenhuma outra variedade portuguesa consegue fazer tanto, em tantos locais distintos e de tantas e tão diversas formas. Junto ao mar ou no interior, com mais ou menos água, em qualquer tipo de solo, a Arinto contribui para melhorar todos os blends e adapta-se a todos os modelos e ferramentas de vinificação: inox, barro, cimento, barrica, curtimenta, espumante. É a variedade mais útil de Portugal. Infelizmente, os grandes brancos estremes de Arinto não são, ainda, em número suficiente para que a casta se torne bandeira do país. Não sei se por culpa nossa, se por insuficiência dela.
Mas é evidente que o critério não pode ser esse. Quando alguém diz “melhor casta”, refere-se àquela que, sozinha, faz os melhores e mais reputados vinhos, ponto. Felizmente, neste Portugal que, não há muitos anos, classificávamos como país de tintos, há muitas variedades brancas capazes de, a solo, fazer vinhos de primeira grandeza. Porém, boa parte delas tem área (geográfica) de actuação bastante limitada, perdendo mais valias quando saem da zona de conforto. Lembro-me desde logo de Antão Vaz, Rabigato, Verdelho (o verdadeiro, das ilhas). Relativamente a outras, conhecemos o potencial, mas não há massa crítica (vinhos de topo) suficientes: Fernão Pires, Loureiro, Gouveio, Bical, são exemplos óbvios.
Assim, capazes de cumprir os requisitos acima enunciados, restam duas castas: Alvarinho e Encruzado. Colocadas lado a lado, Alvarinho é imbatível. A pequenina sub-região de Monção e Melgaço tem uma concentração sem igual de vinhos brancos de superior qualidade e longevidade. Para descobrir ali um vinho menor, só se o produtor fez asneira da grossa. Por outro lado, ainda que não atingindo o esplendor que obtém no vale do Minho, a Alvarinho mostra quase sempre elevado desempenho nas muitas outras regiões de Portugal onde está plantada, de Lisboa ao Alentejo. Por extraordinária que seja a Encruzado (e é) não consegue acompanhar estes resultados. E no entanto…
Facilmente esquecemos que o primeiro Encruzado com marca comercial nasceu somente na vindima de 1992. O Alvarinho leva, portanto, 50 anos de avanço. O Dão ainda está a estudar o Encruzado, a perceber a uva na vinha e na adega, a buscar o máximo do seu potencial. E a conseguir, já, vinhos notáveis. Mas isso não é tudo. As ainda poucas plantações de Encruzado fora da região do Dão têm originado brancos surpreendentes. Significa que, ao contrário do Alvarinho, no Encruzado há muito por fazer e descobrir. Uma coisa é certa: os vinhos brancos portugueses que vão nascer nos próximos anos têm tudo para ser entusiasmantes. L.L.
Editorial: Uma fezada

Editorial da edição nrº 98 (Junho de 2025) Um amigo de há bem mais de uma década, oriundo destas andanças dos vinhos, norte-americano, master sommelier e formador nesta área, chamou-me a atenção, durante o nosso mais recente encontro, para algo em que, confesso, nunca tinha pensado ou, melhor, não tinha pensado nesses termos. Disse-me […]
Editorial da edição nrº 98 (Junho de 2025)
Um amigo de há bem mais de uma década, oriundo destas andanças dos vinhos, norte-americano, master sommelier e formador nesta área, chamou-me a atenção, durante o nosso mais recente encontro, para algo em que, confesso, nunca tinha pensado ou, melhor, não tinha pensado nesses termos. Disse-me ele: “Já pensaste que quando um produtor coloca o seu vinho numa caixa e deixa essa caixa partir para o mundo, perdeu de imediato o controlo sobre o produto que leva o seu nome? É que o resultado do seu investimento e do seu esforço fica a partir daí dependente de um imenso conjunto de factores que não domina e que não dependem de si: comportamento da rolha, condições de transporte e armazenagem, temperatura de serviço, momento de consumo, harmonia com a comida. Acreditar que vai tudo correr bem e que o destinatário do vinho vai apreciá-lo na sua plenitude é um verdadeiro ‘salto de fé’.” Aqui ele utilizou a expressão da língua inglesa “leap of faith”, que significa, basicamente, acreditar em algo sem ter qualquer motivo racional para o fazer. Ou seja, portuguesmente falando, “uma fezada”.
Certo é que o meu amigo tem inteira razão. Quantas vezes um ou vários destes factores arruínam ou desvirtuam o fruto do trabalho de um produtor e de todos aqueles que, da vinha à adega, contribuíram para colocar dentro da garrafa algo de tão especial? Curiosamente, o factor de risco habitualmente mais mencionado, a rolha, é o menos culpado. Todos os profissionais que, como eu, provam uma ou duas centenas de vinhos por mês, sabem que os defeitos imputáveis ao TCA diminuíram drasticamente nos últimos quatro ou cinco anos. Já dos problemas no transporte e, sobretudo, na armazenagem no ponto de venda, não se pode dizer o mesmo.
Mas o mais grave, para mim, é o tratamento dado ao vinho em tantos restaurantes, gravidade que parece aumentar nos pontos turísticos das grandes cidades. Nunca deixo de ficar horrorizado com aquilo a que assisto nos restaurantes da zona ribeirinha da cidade do Porto. Desconhecimento total sobre o vinho do Porto, péssima armazenagem, vinhos servidos quentes, maus copos, garrafas abertas há séculos, preços super inflacionados para uma oferta básica. Como é possível que ali, num local privilegiado, com vista para as caves de Gaia, o vinho que dá o nome à cidade seja tão maltratado? E como é que autarcas e organismos certificadores assistem a isto com tanta complacência? Alguém imagina o vinho de Bordéus a ser tratado com tamanha ignorância e desinteresse nos cafés e restaurantes da Place du Marché, em St. Emilion?
Verdade seja dita, nem sempre os próprios produtores respeitam o vinho que fizeram nascer. Por vezes torturado na adega, deixado oxidar em nome de uma suposta tendência minimalista. Por vezes mal apresentado ou comunicado. Ou pior ainda, sacrificado no altar do “cool”. Até há pouco, havia uma absurda moda na fotografia do tema vínico que exigia que o produtor atirasse vinho ao ar, o despejasse em cima da cabeça ou nele tomasse banho. Que coisa tão provinciana, à custa de tanto querer ser moderna!
Nesta matéria, convenhamos, franceses e italianos dão-nos lições. Ali a cultura do vinho de qualidade é muito antiga e alicerçada noutros valores, onde sobressai um público respeito pelo vinho, sempre encarado como algo de especial (mesmo que seja vulgar!). Gostava de ver um fotógrafo atrever-se a sugerir a um produtor borgonhês ou toscano que abrisse a torneira de uma cuba para se encharcar em vinho, com o argumento de que dava uma boa foto. Gostava de assistir ao escândalo que um produtor bordalês ou piemontês faria ao ver o seu vinho tratado ao pontapé num restaurante. Nestas e noutras coisas, não há nada como aprender com quem sabe. L.L.
Editorial Maio: Hard Times

Editorial da edição nrº 97 (Maio de 2025) Um amigo enviou-me cópia de um artigo publicado na revista Time, a 14 de abril último. O título diz praticamente tudo: “Como relaxar e espairecer sem beber álcool”. O artigo assenta na premissa de que a bebida alcoólica é o meio mais utilizado para libertar a mente […]
Editorial da edição nrº 97 (Maio de 2025)
Um amigo enviou-me cópia de um artigo publicado na revista Time, a 14 de abril último. O título diz praticamente tudo: “Como relaxar e espairecer sem beber álcool”. O artigo assenta na premissa de que a bebida alcoólica é o meio mais utilizado para libertar a mente e a tensão após um dia difícil no trabalho. Antes de retorquirmos que isto é coisa de americano e de bebidas espirituosas, pensemos melhor. Mesmo para quem não conhece intimamente a sociedade norte-americana, sobretudo a mais urbana, basta ver um filme ou ler um livro para perceber que o vinho é, naquele e noutros países, (alguns do norte da Europa, por exemplo), mais utilizado neste contexto de “relaxante”, do que como complemento de uma refeição.
“Historicamente assim tem sido”, diz o artigo assinado por Angela Haupt, “mas a maré está a mudar”. Um dos pontos de viragem foi o relatório do Surgeon General (o Director Geral de Saúde lá do sítio), de janeiro passado, afirmando que mesmo pequenas quantidades de álcool podem causar cancro. A peça da Time refere uma recente sondagem que indica que metade dos americanos está a cortar no consumo de álcool, mais 44% do que em 2023.
Contextualizado o “problema”, surge a pergunta: “O que é que podemos fazer para relaxar e espairecer sem beber álcool? Há uma maneira mais saudável de libertar a mente?” Os psicólogos e académicos consultados concordam que é difícil – “pegar num copo de vinho é tão mais fácil do que fazer caminhada ou ir a uma aula de yoga”, diz um – mas que depois de encontrada a “alternativa saudável” – recuperar hobbies antigos, ginásio, meditação, spa, escolher amigos que “não nos pressionam a beber”, são algumas das apontadas – “há um enorme sentimento de libertação”.
Colocar o vinho ao nível das chamadas “drogas recreativas” é algo tremendamente estranho para um consumidor português, espanhol, francês ou italiano. Para o apreciador, o vinho não é um meio para atingir um fim, seja o relaxamento ou, no limite, o oblívio. Nós bebemos vinho porque seus aromas e sabores nos dão prazer. Apreciamos vinho porque nele descobrimos incontáveis nuances e uma complexidade sensorial semelhante à que obtemos ao admirar uma obra de arte ou uma paisagem natural. E não apenas gostamos de o beber, como também de aprender e falar sobre ele, uma forma de enriquecimento cultural. Acontece que o chamado “americano médio” não compreende isto. Nem o compreendem muitos europeus, sobretudo das gerações mais jovens.
O relatório do OIV (o regulador internacional da vinha e do vinho, reunindo 51 países), apresentado no passado dia 16 de abril, mostra o efeito da crescente cruzada contra o álcool e o vinho. Deixo alguns dados relevantes: em 2024 o consumo global de vinho manteve tendência de descida, caindo 3,3% face a 2023 (total de 214 milhões de hectolitros), o valor mais baixo desde 1961; nos Estados Unidos, o maior mercado, o consumo baixou 5,8%; na base do decréscimo geral estarão “factores económicos e geopolíticos que geram inflação e incerteza” (ou seja, o vinho está mais caro – e ainda não chegaram as tarifas de Trump!); também mercados tradicionais caíram “devido à evolução das preferências de estilo de vida, mudanças de hábitos sociais e mudanças geracionais no comportamento do consumidor”. Há boas notícias? Talvez duas: vários países combinam “forte consumo global e muito grande população, oferecendo enorme margem de crescimento”; e, na Europa, Espanha (+1,2%) e Portugal (+0,5%) contrariaram a tendência de queda (haja turismo!). A estes juntaria um outro aspecto positivo, não mencionado no relatório: a comprovada resiliência do sector do vinho europeu, em geral, e português em particular. Vai ser decisiva nos tempos que se avizinham. L.L.
