Editorial: O valor da comunicação

Editorial da edição nrº 108 (Abril de 2026) Num recente podcast com Luís Gradíssimo surgiu uma reflexão que me parece pertinente e oportuna para partilhar: qual é, hoje, o papel de uma revista especializada na comunicação do vinho? Hoje em dia, todo o sector comunica com mais ou menos regularidade, com maior ou menor criatividade […]
Editorial da edição nrº 108 (Abril de 2026)
Num recente podcast com Luís Gradíssimo surgiu uma reflexão que me parece pertinente e oportuna para partilhar: qual é, hoje, o papel de uma revista especializada na comunicação do vinho?
Hoje em dia, todo o sector comunica com mais ou menos regularidade, com maior ou menor criatividade e com diferentes níveis de seriedade. Produtores contam as suas histórias, visão e princípios; agências de comunicação anunciam novas colheitas, mudanças de imagem e outros acontecimentos; garrafeiras apresentam novidades e organizam provas; bloggers e influencers promovem o vinho através do lifestyle. Tudo faz parte do ecossistema e tudo tem o seu alcance, e o seu propósito.
As redes sociais vieram dinamizar a mensagem e trouxeram uma enorme democratização da conversa sobre vinho. Hoje, qualquer pessoa pode partilhar livremente as suas experiências vínicas. Isso é positivo e ajuda o sector: o vinho é, por natureza, uma bebida social e faz todo o sentido que seja falado e apreciado em conjunto, tal como acontece com o cinema ou a música.
Mas, com a abundância de informação também aumenta a necessidade de fontes em que se possa confiar. A fragmentação e a rapidez com que a informação circula nem sempre favorecem a profundidade e a verificação de factos. É precisamente aqui que reside o valor de uma revista especializada: rigor, contexto e continuidade.
O nosso trabalho não se resume à divulgação de notícias (embora também haja espaço para isso no nosso site) nem a arbitragens baseadas em gosto pessoal. Ajuda a filtrar informação, a dar profundidade aos temas e a manter uma narrativa consistente sobre o que está a acontecer no sector. Contudo, não devemos ter a ilusão de que conseguimos convencer alguém que não quer, de todo, consumir vinho, seja porque não gosta do sabor ou porque acredita que uma vida saudável o exclui por completo. Tentar alcançar estas pessoas seria tão inútil como insistir em levar um agnóstico à igreja.
O que podemos fazer é ajudar a compreender o vinho a quem já se interessa por este tema, alimentando a sua vontade de saber mais. Não se trata de ditar o que escolher para beber, mas de encorajar escolhas conscientes, com base na informação e na análise que proporcionamos.
Não pretendemos dizer o que é bom ou mau, mas, sim, mostrar a ligação entre causas e consequências das diferentes abordagens enológicas, desmistificar certas noções e tendências, e fazer crítica comparativa, oferecendo contexto, retrospectiva e perspetiva. Cabe ao leitor tirar as suas próprias conclusões.
Se tivesse que resumir a nossa linha editorial numa pirâmide, diria que, na base, estão valores fundamentais, como conhecimento, credibilidade, rigor, consistência e isenção – aquilo que sustenta a confiança dos nossos leitores. No nível seguinte surge o nosso trabalho editorial: reportagens, análise, contexto e interpretação do que acontece no mundo do vinho. No topo fica a dimensão lifestyle: o prazer, a cultura, a descoberta e a experiência que o vinho proporciona; é a parte que aproxima as pessoas do vinho. Esta dimensão ganha vida nos eventos que a Grandes Escolhas organiza e que promovem o contacto directo com produtores, provas especiais e temáticas, experiências sensoriais e harmonizações gastronómicas.
Por fim, o melhor comunicador é o próprio vinho que está no copo a cada momento, independentemente do storytelling do produtor, da nossa pontuação ou do gosto de qualquer outra pessoa à mesa. V.Z.
Editorial: Os Melhores do Ano

Editorial da edição nrº 107 (Março de 2026) Março é o mês dos prémios Grandes Escolhas, este ano na sua 9ª edição. Na verdade, para vários dos membros desta equipa redactorial, em particular os mais antigos, esta é a 29ª vez que passamos por este momento, sempre tão especial, em que escolhemos vinhos, pessoas, empresas […]
Editorial da edição nrº 107 (Março de 2026)
Março é o mês dos prémios Grandes Escolhas, este ano na sua 9ª edição. Na verdade, para vários dos membros desta equipa redactorial, em particular os mais antigos, esta é a 29ª vez que passamos por este momento, sempre tão especial, em que escolhemos vinhos, pessoas, empresas e projectos, premiando o talento, a iniciativa, o pioneirismo, a visão, o saber fazer.
Os muitos anos que já levamos a desempenhar esta tarefa não atenuam, longe disso, a dificuldade da escolha. Pelo contrário: parece que é cada vez mais complicado destacar este em detrimento daquele; parece que, no final, apurados os vencedores, ficam cada vez mais nomes de fora, nomes para os quais olhamos com a sensação de que a sua ausência da lista de premiados é, de alguma forma, injusta. Resta-nos o conforto de saber que isso se deve à abundância de qualidade no sector do vinho em Portugal. E a consciência de que, dentro da subjectividade da escolha, demos o nosso melhor, com rigor e independência.
Entre os muitos milhares de vinhos provados em 2025 destacamos o já habitual Top30. E aos provadores foi dada a tarefa adicional de propor e votar os vencedores em cada categoria. Ficaram cinco nomes em quase cinco mil! Nomes inquestionáveis, sem dúvida, pela sua qualidade e personalidade: o espumante Quinta das Bágeiras Grande Reserva 2020; o branco Anselmo Mendes A Torre 2019; o rosé Phenomena 2024; o tinto Casa da Passarella Vindima 2014; o fortificado Kopke Tawny 80 anos.
Vinhos que ganham em ser servidos a uma boa mesa e por mãos sabedoras. Mesas como as dos restaurantes SÁLA, em Lisboa, Colmeia, na Guarda, ou Amassa, em Santarém, vencedores nas suas categorias. E mãos como as da somellière Nádia Desidério, que faz do serviço de vinhos uma arte. A garrafeira A Casa, em Alcobaça, acentua a descentralização dos espaços de excelência dedicados aos apreciadores, enquanto a loja Mercearia Criativa e o wine bar Prova mantêm Lisboa e Porto no mapa das coisas boas.
A investigadora Olga Cavaleiro viu o seu vasto trabalho em torno da cozinha portuguesa merecedor do prémio “David Lopes Ramos”. Já a Rota da Bairrada colocou uma região a pensar o enoturismo de forma integrada e o grupo Vignerons de Portugal passou uma mensagem de grande impacto: fazer vinhos apenas com as nossas uvas, na nossa adega, faz diferença. Diferença também evidente nos vinhos açorianos Materramenta, prémio Singularidade. Pelo trabalho de recuperação das castas antigas do Dão (já provaram o branco de Luzidio ou o tinto de Coração de Galo?) foi destacada a Lusovini.
No que a produtores respeita, em apenas dois anos, a família Leitão Machado trouxe Altas Quintas de regresso à ribalta; a Quinta da Rede revelou-nos o lado mais “atlântico” do Douro, fresco e vibrante; a histórica Borges reafirmou-se com uma dinâmica e consistência invejáveis; com o projecto Raízes, a CARMIM revelou ambição e posicionamento invulgares numa adega cooperativa; e a Real Companhia Velha apresentou um notável portefólio de tawnies.
Por fim, aqueles que fazem acontecer os vinhos. Pessoas como a enóloga Marta Lourenço, que faz a ponte entre o passado e o futuro nas emblemáticas Murganheira e Raposeira; ou Francisco Albuquerque, criador e guardião de inesquecíveis Madeira; ou o grande, enorme Senhor do Vinho, pelo conhecimento, responsabilidade, forma de estar na vida, que é António Ventura.
Termino com uma nota pessoal.
Este é o meu último editorial, enquanto director de uma publicação de vinhos. Como apontamento curioso, tem o número 433, correspondendo a outros tantos meses. Terei agora mais tempo para escrever crónicas, artigos de opinião, reportagens, notas de prova, entrevistas. Vai saber-me muito bem. L.L.
Sua excelência a batata

É assunto tranquilo e estabelecido que este tubérculo veio da América do Sul. Numa história que começa 12 milénios antes da era cristã, tudo se cruza com tudo e a ausência de certezas absolutas é a única certeza que podemos ter. É, contudo, assunto apaixonante e tem mesmo muito que se lhe diga. A batata […]
É assunto tranquilo e estabelecido que este tubérculo veio da América do Sul. Numa história que começa 12 milénios antes da era cristã, tudo se cruza com tudo e a ausência de certezas absolutas é a única certeza que podemos ter. É, contudo, assunto apaixonante e tem mesmo muito que se lhe diga.
A batata tem uma história longa para contar. São mais de oito mil anos, desde que os primeiros exemplares medraram e eclodiram nos planaltos da grande cordilheira dos Andes, na América do Sul. É um tubérculo, pois cresce enterrada até ser colhida. Assim retém e acumula o máximo de nutrientes e de água. É fonte importante de energia e podemos compará-la com alimentos da mesma categoria. Um quilo de batatas fornece-nos 73,6 kcal e contém 14,8 gramas de hidratos de carbono. Destes, 14,1 gramas são de amido e 0,7 gramas são de fibra. E há outros dados importantes, distintivos e diferenciadores da batata em relação aos restantes tubérculos e rizomas. Nesse mesmo quilo de produto, obtemos 2,3 gramas de proteínas e 0,11 gramas de gordura. Em termos de minerais, a vitamina C contabiliza 17 miligramas e o cálcio 6,9 miligramas. A cenoura mostra-nos um cenário diferente. O conteúdo energético é de 39,5 kcal, cerca de metade da batata, 6,9 gramas de hidratos de carbono, dos quais 4,3 gramas de amido e 2,6 gramas de fibra. Já a batata doce apresenta 114 kcal e 24,1 gramas de hidratos de carbono. O conteúdo aproximado de hidratos de carbono é de 24,1 gramas. Destes, 19,5 gramas são amido e 3,1 gramas são fibra.
É impossível não deitar o olho à cherovia ou pastinaca. O conteúdo energético é de 70,1 kcal, semelhante à batata, enquanto tem apenas 11,1 gramas de hidratos de carbono, e uns parcos 5,6 gramas de amido. São as pequenas diferenças que fazem da batata um alimento único e, quando cozinhado e consumido com contenção, é bastante saudável. O teor de amido é o elemento diferenciador das variedades de batata entre si e, deste modo, lhes damos destinos culinários distintos. Os oito mil anos iniciais da batata devem ser 12 mil, se tivermos em conta que foi no Chile tudo começou. A adopção do tubérculo no estado selvagem terá acontecido com os índios mapuches e araucanos.
A domesticação da batata, tal como a conhecemos, dá-se aproximadamente dois mil anos antes da era cristã. Aconteceu nos planaltos dos Andes. A flor da batata do Perú e da Bolívia é cor de rosa, enquanto a do Chile é branca. O assunto não é despiciendo, porque a maioria da carreira da batata ao serviço dos humanos aconteceu enquanto planta ornamental. Que, diga-se, tem os seus encantos.
Bem-vinda à humanidade!
A batata chegou à Europa no século XVI pela mão dos conquistadores espanhóis. O primeiro registo foi feito por Pedro de Cieza de León, numa obra exaustiva dedicada à história do Peru. Trabalhou intensamente com Francisco Pizarro, conhecido como o feroz conquistador espanhol, anotando, descrevendo e levantando costumes, técnicas e produtos. Dedicou parte significativa da sua obra à batata. Conta, em particular, que o consumo no Perú terá começado em 1538 e como se secavam ao sol, para aumentar a sua longevidade. As primeiras batatas foram inicialmente enviadas a Filipe II, rei de Espanha, em 1834, que, por sua vez, as enviou para o Papa Pio IV. E foi assim que se iniciou a epopeia deste tubérculo em Espanha e em Itália. E não só. Um enviado do Vaticano levou amostras do tubérculo a Philippe de Sivry, governador belga em Sivry, que o passou, em 1588, ao reputado botânico Charles de l’Écluse, também conhecido como Clusius. Em 1601, este publica a primeira descrição científica da papas peruanorum, o que difundiu este tubérculo por toda a Europa, incluindo Portugal.
Entretanto, em 1580, tinham já chegado as primeiras batatas a Inglaterra, provenientes da província americana da Virgínia, trazida pelos primeiros colonos. A proveniência mais provável terá sido do México. Dali terá migrado para a América do Norte, donde transpôs o Atlântico rumo a Inglaterra e à Irlanda, e, depois, o resto da Europa. A que conhecemos como batata é, provavelmente, resultado do cruzamento dos tubérculos da Virgínia e do Perú.
O termo batata surge da designação em espanhol “patata”. Curiosamente, vem da batata doce, variedade Ipomea batatas. O país vizinho concatenou “papa” – da língua nativa Quechua – com “batata”, que, numa língua ainda mais ancestral, queria dizer batata doce. O batismo definitivo de batata, patata e patate, respetivamente, em português, espanhol e francês, aconteceu nos relatos escritos da grande viagem de Fernão de Magalhães.
Eis que surge Parmentier
Mesmo após ganhar reconhecimento de iguaria comestível e interessante, a evolução da batata tardou a penetrar no quotidiano. Em França, gozava de má reputação, principalmente por não se conseguir panificar – imagine-se! – e também por apresentar parco sabor. Pior ainda, eram-lhe atribuídas diversas doenças graves, algumas mortais. As coisas não foram, de facto, fáceis para o pequeno tubérculo. Porém, tudo mudou com Antoine Augustin Parmentier. O consagrado especialista conseguiu impor as virtudes deste produto hortícola. Ele próprio foi prisioneiro das tropas prussianas, que lhe deram batata para comer, com o fim de o torturar, mas espantosamente sobreviveu. Uma coisa leva à outra e, em 1785, acontece o momento mais feliz da epopeia da batata: o rei Luís XVI foi convencido por Parmentier a plantar os primeiros botões de flor deste tubérculo.
Grandes vultos da época, como Benjamim Franklin, Vilmorin, Lavoisier e até mesmo o próprio Voltaire, renderam-se aos encantos da batata. França, famosa pela vanguarda culinária e agrícola, adoptou com força e apego a batata. Num golpe de génio, Parmentier decide plantar batatas em Paris, em hortas vigiadas pelo exército. Conhecedor profundo do género humano, sabia que isso iria despoletar a migração imediata para as hortas da periferia. O fenómeno contagiou todo o continente europeu e o tubérculo ganhou grande popularidade, para nunca mais a perder.
Nós, por cá, ainda oferecemos alguma resistência à adopção estrita da batata enquanto acompanhamento preferencial. São vários os pratos da grande tradição nacional que ainda apresentam este tubérculo com arroz e, muitas vezes, com castanhas. Ainda estamos a atravessar um período de transição, para o qual ainda não se vê nem se prevê o fim. Por outro lado, os nutricionistas parecem estar contra a batata na alimentação diária. Dizem, demonstram e provam que engorda.
O mítico chef francês Joel Robuchon trocou as voltas à ciência ao criar o puré de batata que veio a receber o seu nome. Fê-lo com base em batatas da variedade Ratte, originárias da província de Ardeche, em França. Trata-se de uma batata pequena e alongada, com pele muito fina e sabor evocativo da castanha. A receita é incrivelmente simples e o resultado é sempre brilhante. Um quilo de batata Ratte, 300 gramas de manteiga e 30 centilitros de leite gordo são os ingredientes de que precisamos para chegar ao puré genial do grande mestre. As batatas são cozidas com casca e, quando amornam, pelam-se com cuidado e passam-se pelo passevite. A manteiga, bem fria, corta-se em pequenos cubos, que se vão juntando, um a um, ao preparado do puré, batendo à mão devagar. O leite morno vai-se juntando e homogeneizando. Ao fim de cerca de uma hora, está feito o puré. E, em princípio, ficamos sem forças no braço. A verdade é que é um grande desafio. Tentei várias vezes fazê-lo com a varinha mágica e o resultado foi medíocre. Na Bimby, ainda foi pior. Tem mesmo de ser batido à mão, com varas.
Quando se consegue o primeiro, nunca mais se quer outro. Nem aqueles para quem cozinhamos habitualmente. Confesso que não sou tão kafkiano, mas dou razão a quem fica viciado. O puré deixa de ser acompanhamento para passar a ingrediente primordial. É mesmo uma delícia! Só consegui fazer com Ratte uma vez, porque trouxe de França, mas normalmente faço com a variedade de batata Agria, que tem bastante amido, característica muito favorável no que concerne ao processamento do puré. Curiosamente, também gosta da fritura, fica estaladiça por fora e impecável por dentro. Há apenas que fazer alguns testes por sua conta, para afinar a técnica.
Uma batata rica em amido é a melhor para fritar ou assar. Já o baixo teor de amido aponta mais para cozer. Mas as que têm um nível de amido médio são flexíveis. Por isso, vale a pena sistematizar um pouco e escolher a que melhor se adapta ao objetivo pretendido.
Sucesso mundial
Quando por terras de Annecy, na Alta Sabóia francesa, provei o primeiro gratin dauphinois vieram-me as lágrimas aos olhos. As batatas cortadas bem fininhas na mandolina e montadas com molho branco em camadas, alternadas com três queijos, e levadas ao forno, são gloriosas e acompanhamento universal de um prato de carne forte e apurado. Raramente, faço ensopado de borrego sem o gratin a acompanhar. Curiosamente, liga melhor com um branco de Arinto de três ou quatro anos, do que com um tinto. Se for um bom Sauvignon Blanc, ainda melhor. É o céu!
Uma outra preparação favorita de batata é o rosti. A batata é moída e ligada com legumes à escolha; por exemplo, cenoura. Junta-se-lhe queijo São Jorge novo moído, montam-se os pastéis achatados e fritam-se na sertã, em óleo bem quente. Quando se utiliza presunto no rosti, um tinto sem madeira pode funcionar bem, mas se optarmos, por exemplo, por feijão verde ou brócolos – fica delicioso, já agora –, há que chegar-lhe um Alvarinho jovem. A batata rosti recebe, muitas vezes, a designação de batata suíça, justamente pela utilização forte de queijos diversos. É das mais flexíveis e não enjeita um tinto jovem aromático pouco extraído. Merlot é casta amiga da empreitada.
A batata frita é uma extraordinária invenção e configura perdição, quando bem aplicada. Chamamos batata frita à belga, aquela de que mais gostamos, e passa por duas frituras. A primeira a cerca de 150º C e a segunda a 180º C. Há que ter o cuidado de as demolhar por meia hora antes de todo o processo, para libertar o máximo de amido possível. Caso contrário, uma batata rica em amido carameliza e perde o interesse enquanto alimento. No intervalo das duas frituras, é importante escorrer bem e passar por papel absorvente.
A tortilha de batata à espanhola é a delícia de que todos gostamos e é parente próxima da batata suíça, de que falámos atrás. As batatas poutine, muito populares no Canadá, são fritas e consomem-se com pasta de queijo derretido e um molho de carne assada por cima. Já os gnocchi, italianos de gema, são feitos de batata cozida amassada com queijo e posteriormente processados como se de uma massa se tratasse. A preparação aloo gobi, popular na Índia, para mim deliciosa, utiliza um método semelhante ao dos gnocchi e é feita com couve-flor e batata. Excelente com rosé. Prove-a com Mateus rosé e vai ver como se converte em três tempos ao nosso campeão mundial. Mais canónico é o aligot, que se faz por terras de França. É uma esmagada de batata com queijo. Aqui vale a pena ensaiar o mágico e infalível Cabernet Sauvignon. Surpresa garantida!
Nos países da Europa de Leste, as latkes, pequenas panquecas de batata, são fascinantes bases de uma refeição. Pode acrescentar vários ingredientes à vez ou fazer experiências à vontade. Gosto muito das batatas Hasselback. Pegue numa batata grande, coza-a com casca, faça-lhe incisões com uma faca quase até ao fundo e leve-a ao forno quente por algum tempo. Mostarda de Dijon bem picante faz desta iguaria uma delícia dos deuses. Não se esqueça, contudo, da nossa batata assada a murro. Não há igual no mundo para acompanhar o bacalhau ou o polvo à lagareiro.
A viagem que fizemos pela excelente e rainha batata não nos coloca propriamente na crista da onda da história, no tocante à alimentação. Mas temos as nossas boas recompensas e mil receitas históricas, que adoramos e não dispensamos. E, à boa maneira portuguesa, temos todo o direito a fazer iscas com batatas fritas. Ou empadões de quase tudo, que harmonizamos com combinações de purés e legumes, e nos fazem viajar mentalmente, esvoaçando pelo mundo. Entre considerações e efabulações, não toquei nos pratos da cozinha peruana, nem na diversidade incrível das batatas ainda em produção pelas escarpas altas do Perú. Fica para uma próxima. Boas experiências!
(Artigo publicado na edição de Janeiro de 2026)
Editorial da edição nrº 106 (Fevereiro de 2026) Imaginem o mundo sem vinho. Um mundo onde séculos de cultura, economia e conhecimento agrícola e enológico seriam descartados em prol de um zelo sanitário. Nada de brindes ou convívios, nada de partilha ou harmonização de vinho e comida. Apenas uma sensação de satisfação de que conseguimos […]Editorial: Vinho? Nem vê-lo!

Editorial da edição nrº 106 (Fevereiro de 2026)
Imaginem o mundo sem vinho. Um mundo onde séculos de cultura, economia e conhecimento agrícola e enológico seriam descartados em prol de um zelo sanitário. Nada de brindes ou convívios, nada de partilha ou harmonização de vinho e comida. Apenas uma sensação de satisfação de que conseguimos reduzir um ou dois por cento de risco estatístico comunicado pelas instituições oficiais, incluindo a Organização Mundial da Saúde, que tanto se preocupam com o nosso bem-estar. Nesta realidade, eu ficaria sem trabalho, é certo, mas será que o mundo realmente se tornaria mais saudável?
O “tsunami” de campanhas anti-álcool, que atingiu a indústria vitivinícola no último ano, promove uma narrativa que demoniza o vinho ao colocá-lo indiscriminadamente no mesmo saco de todas as bebidas alcoólicas, como se fosse o responsável directo por uma extensa lista de doenças, ignorando contextos culturais, padrões de consumo e diferenças entre produtos.
Longe vai o tempo em que beber vinho era, em termos sanitários, menos arriscado do que beber água (embora, em alguns países, ainda seja verdade). Hoje, o vinho é tratado como inimigo da saúde pública; ao mesmo tempo, a cannabis é reabilitada e ressurge quase como uma nova panaceia da indústria do bem-estar. Não sou apologista de teorias de conspiração, mas não posso ignorar a realidade: as vendas do vinho continuam a descer a nível mundial, enquanto a indústria legal da cannabis movimenta quase 70 mil milhões de dólares por ano, alimentada por grandes investidores, farmacêuticas e multinacionais de bebidas. Os setores tradicionais, como a vitivinicultura, tornam-se alvos convenientes para campanhas alarmistas. E como normalmente acontece com temas polémicos, poucos se dão ao trabalho de ir além dos títulos sensacionalistas. Leem na diagonal, veem os bonecos de infográfica e retêm os slogans do género “o vinho provoca cancro”, que depois se propagam como fogo nas redes sociais. Raramente alguém lê os estudos originais, que muitas vezes nem estão disponíveis ao público. Mas o que está sempre ao alcance são artigos anti-álcool repletos de números assustadores que, muitas vezes, distorcem a realidade pela forma como os riscos estão apresentados. A maior parte das publicações que relacionam vinho e doenças apoia-se em estudos que identificam correlações estatísticas, mas não demonstram a causalidade directa. Estes estudos não controlam de forma suficiente variáveis como dieta, sedentarismo, fatores socioeconómicos, poluição, estilo de vida, outras doenças ou medicação associada. A medicina não é uma ciência exacta, como física ou matemática, porque o corpo humano é complexo e nem sempre previsível. O conhecimento evolui à medida que novas investigações surgem, muitas vezes para corrigir ou contrariar conclusões anteriores. As organizações governamentais e reguladoras, com as suas agendas políticas, acabam inevitavelmente por influenciar a forma como estes estudos são comunicados.
Não quero negar o óbvio: o vinho contém álcool, cujo consumo abusivo é, realmente, prejudicial à saúde, tal como o consumo abusivo de açúcar, sal e até água. Existe uma diferença abismal entre beber vodka, para cair redondo no sofá, e desfrutar uma experiência enogastronómica, em que o vinho é um elemento cultural, social, sensorial e intelectual, se quiserem, e não um atalho para a embriaguez. A moderação é essencial e tem raízes na cultura gastronómica e vínica, que pode e deve ser ensinada. Neste mundo – ainda com vinho, felizmente – continuamos a precisar de bom senso e, ocasionalmente, de um bom copo para enfrentar a realidade. Aliás, alguém já se lembrou de estudar o impacto do vinho na felicidade humana? V.Z.
Novo ciclo

No final do passado mês de Dezembro, deixei as funções executivas na Grande Escolhas, como gerente da sociedade, director de negócios e publisher. Foi uma opção livre, ponderada e pensada, para coincidir com a chegada aos meus 70 anos. Gostaria, contudo, de esclarecer que com esta decisão não estou propriamente a despedir-me. Continuarei ligado ao […]
No final do passado mês de Dezembro, deixei as funções executivas na Grande Escolhas, como gerente da sociedade, director de negócios e publisher. Foi uma opção livre, ponderada e pensada, para coincidir com a chegada aos meus 70 anos. Gostaria, contudo, de esclarecer que com esta decisão não estou propriamente a despedir-me. Continuarei ligado ao projecto como sócio, com uma quota relevante na sociedade proprietária da revista e terei, a partir de agora, se para tanto tiver vida e saúde, bem mais tempo para fazer aquilo que mais gosto: viajar, desfrutar e escrever livremente, sem pressão e compromissos de agenda, sobre vinhos e gastronomia, afinal as áreas a que dediquei a minha vida.
Nesta hora de mudança, quero deixar aqui duas notas. A primeira é que foi um orgulho imenso fundar com o meu amigo Luis Lopes e a companhia dos meus colegas, a Grandes Escolhas no ano já longínquo de 2017. Este foi verdadeiramente o meu grande projecto de vida profissional, finalmente realizado já numa fase bem madura, depois de mais 30 anos a trabalhar nesta área. Ao contrário do que ingenuamente pensei na altura, não foi de todo fácil. Os pressupostos sobre os quais tínhamos planeado o projecto Grandes Escolhas ficaram subitamente alterados e, como quase sempre acontece, dificuldades de conjuntura foram semeando obstáculos inesperados. Vieram depois os anos terríveis da pandemia, em que tudo esteve em jogo, mas que permitiram por à prova uma resiliência que até a mim me surpreendeu.
A outra nota que gostava de sublinhar é que deixo estas funções de coração cheio. As relações que ao longo de tantos anos pude estabelecer com tanta gente nesta área, colegas, parceiros, clientes, fornecedores, leitores, consumidores, frequentadores de eventos e tantos outros, constituiu um capital riquíssimo que só posso dar graças de ter acumulado. Não tenho a pretensão de ter agradado a todos os que comigo se cruzaram, mas guardo a convicção gratificante que com a grande maioria conseguimos construir relações de respeito mútuo e em muitos casos de amizade que ultrapassam em muito as meras relações profissionais.
Uma das coisas que a vida me ensinou é que as pessoas não se devem eternizar nos cargos e que sangue novo, novas dinâmicas, ideias inovadoras e, muitas vezes, disruptivas são o fermento que as organizações precisam para continuar a crescer. É o que espero que aconteça com a Grandes Escolhas.
Como todos sabemos, os tempos não estão fáceis e muitas incertezas se advinham no horizonte. Mas tenho a plena confiança que os meus sócios e todos os colegas na Grandes Escolhas continuarão este trabalho e farão certamente mais e melhor. O futuro está à porta e nós continuaremos a vermo-nos por aí.
Um sentido abraço!
João Geirinhas
Editorial: 2026

Editorial da edição nrº 105 (Janeiro de 2026) O primeiro editorial do ano é, normalmente, dedicado àquele exercício de adivinhação que os cronistas adoram fazer, apontando padrões e tendências para os 12 meses que se seguem. Para não fugir à tradição, aqui fica a minha antevisão do mercado do vinho em Portugal, sabendo bem que, […]
Editorial da edição nrº 105 (Janeiro de 2026)
O primeiro editorial do ano é, normalmente, dedicado àquele exercício de adivinhação que os cronistas adoram fazer, apontando padrões e tendências para os 12 meses que se seguem. Para não fugir à tradição, aqui fica a minha antevisão do mercado do vinho em Portugal, sabendo bem que, como dizia um conceituado futebolista, os prognósticos mais acertados são feitos no final do jogo.
O consumo – o vinho, em termos gerais, está a ficar menos “cool”, em Portugal e no mundo, e a tendência parece ser para continuar. Não é tanto o álcool (perguntem aos jovens da tão falada geração Z que, nas noites de sexta-feira, bebem qualquer zurrapa que os desiniba), é mesmo o vinho. O preço nos restaurantes é desmotivador, claro, mas olhem para as mesas cheias de jarros de sangria a €25…
As cores – ainda assim, a quebra não acontece por igual. É mais acentuada nos vinhos tintos, tendo os rosés estabilizado (quem pensava que ia vender rosé aos contentores, desiluda-se) e os brancos estão em franco crescimento. De tal forma que a queda de produção nesta vindima levou, em algumas regiões, à procura desenfreada de uva branca e de brancos a granel, com os preços a atingir valores recorde.
Os perfis – tirando vinho mau, vale quase tudo. É evidente que nos segmentos de entrada, coisas como acidez, vegetal ou taninos mais ríspidos continuam a ser inaceitáveis. Mas mesmo nos vinhos de €2,99 podemos ter estilos diversos, desde os super docinhos aos secos (mas macios, claro, e, de preferência, com 14% álcool). A partir dos €15, a tolerância à acidez e ao tanino é muito maior, mas, ainda assim, não tenhamos dúvidas: a procura de vinhos tintos abertos, com pouco álcool e bastante acidez continuará a ser um super nicho. A esmagadora maioria dos consumidores que paga €30 numa loja por uma garrafa de tinto quer um vinho encorpado e poderoso, que impressione os amigos.
Espumantes – há 30 anos, um bairradino, infelizmente já desaparecido, dizia-me muitas vezes: “um dia, o espumante vai conquistar o mundo”. E o mundo veio a dar-lhe razão, a categoria continua e continuará em alta. Na verdade, tem tudo para dar certo: é leve, é fresco, é alegre, é sexy. Dos mais simples pet-nat aos mais sofisticados “método clássico”, com vários anos de cave, as bolhas estão na moda.
“Naturais” – o balão parece estar a esvaziar-se. Lojistas e sommeliers dizem que a onda grande passou e que, num tempo em que cada euro conta, os clientes procuram marcas de confiança, não querem surpresas desagradáveis. E não querem pagar por algo que não lhes sabe bem só porque alguém, supostamente mais entendido, lhes diz que aquilo é suposto ser assim.
Amadores – se isto está difícil para os profissionais, o que dizer dos amadores? E amadores são todos aqueles que investiram numa empresa de vinho sem lhe poderem entregar dedicação total (a sua vida é outra), nem possuem escala para montar uma estrutura profissional. São muitos, muitos mesmo, e ou a sua actividade principal aguenta o prejuízo da acessória, ou grande parte vai fechar ou vender a loja nos próximos anos.
Turismo – 2025 foi, de novo, ano recorde para o turismo em Portugal. Mais de 30 mil milhões de euros entraram nos cofres, euros que, para a economia nacional, valem o dobro, porque vieram de fora. E só as gargantas sedentas dos turistas explicam que Portugal tenha o maior consumo per capita do mundo. Aproveitar este fluxo de pessoas para os levar aos locais de produção, é fundamental. O enoturismo justifica, cada vez mais, a mesma atenção e investimento do que a vinha ou a adega. Em condições ideais, a loja da marca deverá ser o principal e mais rentável ponto de venda do produtor. Não perceber isto, é não perceber nada.
Queremos gelados o ano inteiro!

É certo que é indispensável no Verão, mas também é verdade que é um regalo ao longo de todo o ano. Na refeição, tem lugar primordial quando a empreitada se aproxima do seu termo, mas cada vez mais marca presença em todas as fases. O universo gastronómico é vasto e diversificado, sabemo-lo bem. E quanto […]
É certo que é indispensável no Verão, mas também é verdade que é um regalo ao longo de todo o ano. Na refeição, tem lugar primordial quando a empreitada se aproxima do seu termo, mas cada vez mais marca presença em todas as fases.
O universo gastronómico é vasto e diversificado, sabemo-lo bem. E quanto mais nos interessamos por determinado assunto, mais ele se bifurca em mil outros. O grande capítulo dos gelados abarca muito mais do que o simples cone, copo ou pau que povoou a nossa infância. É um alimento autónomo particularmente nutritivo e particular amigo do vinho. A minha experiência nesta faixa do conhecimento é uma acumulação sustentada de perplexidades. Algumas aconteceram cedo na minha vida e começo por essas, em jeito de convite à leitura de coisas menos comuns. Estamos perante uma explosão combinatorial, por isso escolho os momentos que melhor ilustram o caso.
O mundo em forma de gelado foi-me mostrado em momentos fortes e marcantes. Vem-me sempre à memória uma das muitas vezes em que fui a Espanha, para acompanhar os meus tios em viagens de negócios. Em 1979, com a ETA a impor o estado de sítio em Bilbau, tinha eu 14 anos apenas. Nas ruas, passavam militares de metralhadora em riste, com o dedo no gatilho e não havia pessoas entre o anoitecer e a alvorada. Havia muita tensão e medo portanto, que me fez, na altura, pensar seriamente na gravidade do momento. Foram buscar-nos, a mim e às minhas primas, ao hotel e seguimos para o clube náutico. Estava fechado, por efeito do estado de sítio que referi.
O indivíduo que nos convidou era acionista de referência do Banco de Bilbau, que decidiu mudar o nosso jantar para a exclusivíssima Sociedad Bilbaina. Experiência memorável. Fomos acomodados num salão fantástico, barroco em todos os aspetos, da decoração aos empregados, em trajes dignos de Luís XIV. Refeição impecável, com vários pratos e requinte a toda a prova. No momento final, vem a última sobremesa, com o simpático nome de souffle do Alasca. Uma imensa bola de gelado a flutuar em rum, a vir em chamas para a mesa. A dita grande bola foi cortada em fatias iguais, ainda em chamas, e finalmente servida em pratos individuais. Sabores que nunca mais esqueci. Sabia a pêssego e desfazia-se no contacto com a língua. Tinha, além disso, uma crocância assinalável e pequenos pedaços de frutos secos no corpo gelado da incrível sobremesa.
À maneira de Virgínia Woolf, puxo o fio da consciência e vem-me à memória uma conversa que já tinha tido antes com o imponente e bem disposto senhor Atílio Santini, na geladaria de Cascais, onde existe ainda hoje. Italiano, casado com uma espanhola, casal exemplar. Devo ter sido metediço. Estava ele a mexer um gelado num dos muitos potes gelados que compunham a geladaria e quis explicar-me como eram feitos. Aquele, em particular, era de baunilha e explicou-me que o segredo principal estava na matéria-prima propriamente dita. Deve ter sido a primeira vez que ouvi que se tratava de uma vagem delicada. Muito potente, mesmo quando utilizada em doses homeopáticas. A seguir perguntou-me qual era o gelado Santini de que mais gostava. A resposta era óbvia: limão. E ele explicou-me que os limões vinham de um pomar especial. Senti-me enganado, nesse tempo da minha vida achava que era feito com sumo de limão e que podia ser congelado. Sorriu, divertido, garantindo-me que o gelado de que eu era fã era mesmo feito com limões autênticos.
Muitas décadas mais tarde, conheci, na Bairrada, o grande mestre italiano da destilação Vittorio Capovilla, que me revelou o fascínio que tinha por alguns frutos portugueses. Um deles era o limão, outro a pêra rocha e outro ainda o pêssego. Enquanto me dizia isso, eu recordava a instrução recebida em criança do grande Santini. Autêntica epifania. Aprendi na mesma altura a diferença abissal entre gelado e sorvete. A principal é a presença ou não de proteína animal, normalmente na forma de natas ou outros derivados do leite. Importante é, neste caso, conseguir emulsionar uma gordura. Havendo emulsão, em princípio, conseguimos ter um gelado. É certo que a cozinha molecular tem aberto novas galerias de conhecimento e os gelados beneficiaram muito de todas elas. Quando temos apenas fruta ou uma qualquer essência a que juntamos água e açúcar, aí temos um sorvete.
Quase tudo o que sabemos sobre cozinha e ingredientes pode ter versões em gelado fascinantes e sápidas. O chamado trou normand, originalmente feito com a aguardente Calvados (de maçã), é, hoje, um sorvete feito a partir de ingredientes diversos, os quais têm como função fundamental limpar o palato. Outrora, era utilizado nas refeições para separar entre si os pratos de peixe dos de carne. A tecnologia entretanto desenvolvida veio facilitar muito a produção na cozinha, a ponto de permitir a inclusão de sorvetes em vários momentos da degustação. A máquina Paco Jet, com frio integrado, permite fazer uma quenelle de sorvete num par de minutos. Como se vê, o gelado chega a todo o lado.
Havia uma pequena fábrica de gelados por detrás da Igreja do Santo Condestável, em Campo de Ourique, Lisboa, onde o meu pai me levava. Tinha menos de sete anos e não tenho memórias geladas mais antigas que essa. Servia-se em pequenos copos de plástico e comia-se com uma colher ridiculamente pequena também feita a partir do mesmo material. Os cones eram muito frágeis. Desfaziam-se em três tempos, deixando as mãos cheias de gelado. Vistas bem as coisas, nesses meus verdes anos, o gelado em cone era uma fonte de problemas. O assunto só ficou resolvido quando apareceram os cones reforçados, que já conseguiam aguentar um gelado composto por cima. Foi um deserto relativamente difícil de ultrapassar. Houve um ponto intermédio na escala de aprendizagem, que me proporcionou muito prazer. Inicialmente, era feito com gelado básico, mas, com o tempo, ganhou consistência e qualidade. Falo da sandes de gelado. Não dura muito na mão, mas é fresca e saborosa. Gosto muito de a acompanhar com um Chardonnay sem madeira. As notas de pastelaria e panificação típicas da casta entroncam bem com a bolacha da sandes. O todo é maior que a soma das partes, sem dúvida. Tenho pena que seja uma raridade nas melhores gelatarias. Para mim, representa uma certa universalidade, embora saiba que não faz parte das preferências da maioria.
Foram os chineses?
É difícil estabelecer uma cronologia para a história do gelado. Isto porque adoçar a boca com uma preparação gelada ou semi-fria faz parte da humanidade desde sempre. Há dois mil anos, na Pérsia era prática corrente pegar em neve e deitar-lhe sumo de uva por cima, para criar uma sobremesa muito popular, ligada à própria história do vinho. Alexandre Magno, Rei da Macedónia, gostava de uma preparação semelhante, mas enriquecida com mel. Entre os séculos VII e X, na dinastia Tang, os chineses elevaram aos píncaros a arte da cozinha fria. Utilizavam, por exemplo, leite de búfala, para produzir gelados exóticos juntamente com farinha e cânfora. Seguramente influenciaram a vulgarização do sorvete e, depois, os gelados, tal como os conhecemos hoje.
Por outro lado, temos de atender ao facto de terem sido os árabes os primeiros a combinar leite, açúcar e sabores naturais entre si. Fizeram-no inicialmente com bebidas refrigeradas com neve, passando, a posteriori, a técnicas mais elaboradas, tocando no gelado actual. A abertura das rotas do Oriente trouxe a novidade total para Itália, França e a Europa em geral. Basicamente, raspava-se um gelo com uma ferramenta especial, que depois se impregnava e batia, mantendo a temperatura baixa. A cremosidade foi bem acolhida e foi-se criando um padrão universal, servindo o Velho Mundo por toda a parte.
No século XVI, os ovos entraram na dança culinária gelada pelas mãos dos chefs italianos e franceses. As custardas ganhavam assim notoriedade rápida e os gelados que se produziam eram deliciosos. No início do século XVIII, o gelado chega à América e rapidamente ganha força industrial, permitindo a todos o acesso à nova pequena maravilha. O resto é conhecido. Não terão sido, por isso, apenas os chineses, nem os ingleses, muito menos os franceses, a inventar o gelado. Mas, no fundo, e em termos práticos, o assunto não nos tira o sono.
O drama do chocolate
Enquanto nas frutas e compotas o gelado tem, desde cedo, parceiro firme e vantajoso, o chocolate tem, para mim, mistério diferente, nem sempre brilhante. Mesmo já na idade adulta e supostamente resolvida, não consegui albergar o gelado de chocolate no coração. E, no entanto, desde miúdo era cultor do chocolate quente da Mexicana, assim como do que se fazia na desaparecida pastelaria Suíça, no Rossio, ambas em Lisboa. A vida tem destas coisas, inexplicáveis. Ou talvez nem tanto.
O gelado de chocolate, para saber ao dito, não pode geralmente ser feito sem a chamada parte branca da fava do cacau. A redução ao frio extremo exacerba ainda mais essa separação clara entre doce e amargo. O chocolate de leite, de que nunca fui fã, é mais simpático e reage positivamente ao estímulo chocolateiro. Por isso, o mundo inteiro aplaude o Ferrero Rocher e diz um tremendo não à semente amarga contida na fava. Quando se trata de chocolate branco, a conversa muda completamente. Damos-lhe esse nome, mas nada tem de chocolate e, tradicionalmente, conhecemo-lo por manteiga de cacau. Ao contrário do chocolate negro, com 70% ou mais de cacau, é rico em gordura, pelo que emulsiona com total eficácia. É utilizado em abundância em bombons, coberturas de pastelaria e gelados. Um emulsionante eficaz pode fazer as vezes, mas não sabe a chocolate. É um drama com o qual temos de conviver. Eu prefiro, como em criança, continuar a evitar o gelado de chocolate. É apenas um parti pris, mas é muito real.
Uma refeição completa
Um gelado pode ser uma refeição completa. Acidez, polifenóis, amargos e doces tornam-no numa iguaria apetecível e até nutritiva. Para nós, “povo tuga”, conservador por natureza, vai demorar muito até que isso aconteça por cá. Faz falta ir até ao Lago Como, nos arredores de Milão, para acompanhar amigos ao almoço na época certa. É absolutamente vulgar e tradicional irmos até essas paragens para saborear um grande gelado. Está a conversa feita. É ver para crer e eu, não só vi como provei. Até repeti. E voltarei, sempre que me for possível. Não é preciso o exotismo da paisagem maravilhosa ao alcance dos milaneses. Nos restaurantes de Milão também se pratica este saudável costume. Nunca cheguei a ver, com os meus olhos, os milaneses a beber vinho com os seus gelados, mas curiosamente é exercício que faço abundantemente. Naturalmente, recomendo a todos que ponham de parte o preconceito e se atrevam a maridar um gelado… com vinho! A experiência é gratificante e dessa nem o senhor Santini se lembrou, senão tinha-nos sentado às suas mesas felizes com um copo de vinho.
A verdade é que uma bola ou quenelle de gelado pode fazer uma enorme diferença no prato. Aperitivos, entradas, pratos de peixe, pratos de carne, pratos vegetarianos e sobremesas, todos podem ser mais equilibrados se contarem com um apontamento gelado. A cozinha japonesa habituou-nos ao gelado de chá verde com feijão e é das melhores recompensas que podemos ter à mesa; o de melancia complementa na perfeição o estufado tipicamente transmontano de feijão verde, tomate e cebola, e harmoniza bem com um branco de Arinto com três anos. Um gelado de ameixa no prato ao lado de melanzana à Parmigiana – prato de beringela e queijo – é a redefinição da palavra delícia. E tantas outras maridagens são possíveis, a maioria das quais ainda por descobrir.
Experiências felizes
Certo dia, por iniciativa do Instituto dos Vinhos do Douro e Porto (IVDP), rumei até ao triplamente estrelado Can Roca, na Catalunha. Almoço memorável, que ainda perdura na minha memória. Pratos de incrível rasgo criativo e técnico, sempre em sucessão surpreendente e até pedagógica. A boa mesa é uma grande oportunidade para crescer e aprender. De repente, como última sobremesa, vem um copo grande com várias gulodices dentro, todas geladas. Alcaçuz, caramelo, framboesa e baunilha, todas com a forma de outras gulodices, servidas com um Porto 40 Anos.
A sequência de toda a refeição foi, por isso, terminada com o chef Jordi Roca, o mais jovem dos três irmãos Roca e o que habitualmente trata da doçaria da casa. A explicação do chef pasteleiro caiu como uma bomba para mim: era de que se tinha recriado o copo de gomas e rebuçados que o pai de Jordi lhe comprava em miúdo, quando iam ao parque de diversões. Felicidade suprema, partilhada com simplicidade por um dos melhores do mundo. Vivam o gelado e as boas memórias!
(Artigo publicado na edição de Novembro de 2025)
Editorial: My precious

Editorial da edição nrº 104 (Dezembro de 2025) Serão as festividades o momento certo para abrir grandes vinhos? Chega a época festiva e instala-se o habitual desfile: produtores com “sugestões imperdíveis”, supermercados e garrafeiras com caixas de “oportunidades únicas” e revistas a apresentarem os vinhos mais pontuados. E lá vamos nós revistar a garrafeira, à […]
Editorial da edição nrº 104 (Dezembro de 2025)
Serão as festividades o momento certo para abrir grandes vinhos?
Chega a época festiva e instala-se o habitual desfile: produtores com “sugestões imperdíveis”, supermercados e garrafeiras com caixas de “oportunidades únicas” e revistas a apresentarem os vinhos mais pontuados. E lá vamos nós revistar a garrafeira, à procura daquele tesouro esquecido que, supostamente, só deve ser aberto quando os astros se alinham. É grande a tentação de provar, finalmente, aquela garrafa rara, guardada cuidadosamente durante anos à espera do momento perfeito.
Ora o que pode acontecer. Entre confirmar se há guardanapos suficientes e se a carne está no ponto, resolver as últimas tarefas e responder às dúvidas existenciais das crianças sobre o Pai Natal, é difícil controlar a temperatura a que o vinho é servido e, sobretudo, a que é realmente consumido. A conversa anima-se, soltam-se as gargalhadas e o vinho vai aquecenddo no copo, a não ser que festeje o Natal num convento medieval, onde a temperatura ambiente não ultrapassa 12-14ºC.
A azáfama de uma festa raramente permite prestar a atenção desejada ao que está no copo. Um vinho mítico pode acabar por perder todo o protagonismo e, quando damos por ele, resta apenas um gole no fundo do copo e nem nos lembramos bem de como era. Eu própria caí nesse erro há muitos anos, num almoço em minha casa: tinha amigos de Moscovo a visitar-me e, por coincidência, os meus pais estavam de férias em Portugal. Os amigos apareceram com uma garrafa de Quinta do Ribeirinho, de Luís Pato (compraram o vinho mais caro que havia numa loja) e eu coloquei-a na mesa. No turbilhão do almoço, mal tive oportunidade de parar e desfrutar o vinho. Acabei por ter de marcar um novo encontro com este grande Baga para o conhecer como merecia. Valeu muito a pena, mas isto dará uma outra história.
Desde então, estou convencida que um vinho excepcional deve ter um momento próprio, só para ele, fora de qualquer outro contexto.
Este ano, vi, na Netflix, uma minissérie norueguesa chamada La Palma. Retrata um desastre natural na ilha com o mesmo nome, no arquipélago das Canárias: um sismo que desencadeia um tsunami e uma erupção vulcânica. Há um momento particularmente marcante, pouco antes de um tsunami devastar o arquipélago, em que Álvaro Pérez, o chefe do observatório sísmico (interpretado por Jorge de Juan), partilha com um colega uma garrafa de Pingus 2013, que lhe foi oferecido no aniversário e ficou guardado. “As pessoas acham que precisam de uma ocasião especial para abrir um grande vinho. Estão enganadas. O vinho é a ocasião”, diz ele e eu subscrevo por completo. Na iminência de morrer na catástrofe, os dois saboreiam o vinho, o último prazer genuíno no meio do dramatismo. E, numa das cenas finais, os sismólogos, em fatos à prova de fogo, aproximam-se da cratera em erupção. Um deles leva a garrafa para acabar o vinho e ambos desaparecem na lava, a desfrutar o derradeiro gole de Pingus.
Não é preciso esperar pelo fim do mundo para abrir uma tal garrafa, mas também não vale a pena desperdiçá-la numa festa agitada. Para uma celebração em casa, costumo abrir vinhos que conheço bem e que garantidamente me darão prazer, mesmo quando a atenção está dividida, deixando os mais raros e especiais que não conheço para momentos em que realmente posso apreciá-los. Porque estes não precisam de um motivo especial, eles próprios o são. V.Z.









