Maceração

Fase determinante na feitura do vinho. É o verdadeiro “trabalhar o vinho”. Da sua eficácia depende a passagem de todo o potencial qualitativo da uva para o vinho feito. TEXTO João Afonso FOTO Ricardo Palma Veiga Maceração É a diluição num líquido de compostos que estão contidos em partes sólidas do fruto ou planta. A […]
Fase determinante na feitura do vinho. É o verdadeiro “trabalhar o vinho”. Da sua eficácia depende a passagem de todo o potencial qualitativo da uva para o vinho feito.
TEXTO João Afonso
FOTO Ricardo Palma Veiga
Maceração
É a diluição num líquido de compostos que estão contidos em partes sólidas do fruto ou planta. A preparação de chá é um bom exemplo de maceração. No vinho procuramos diluir no mosto da uva os compostos contidos nas suas partes sólidas (películas, grainhas e, por vezes, engaços). É o tempo de contacto entre partes sólidas e liquidas que toma o nome de maceração. É usada fundamentalmente em vinhos tintos e generosos (Porto e Moscatel).
Maceração é Extracção
A maceração ocorre ao mesmo tempo que a fermentação alcoólica. O aumento de temperatura do mosto, a crescente presença de álcool e o trabalho físico da manta (partes sólidas que flutuam no mosto em fermentação), que é mergulhada ou regada com o próprio mosto, aumentam o nível de extracção dos compostos fenólicos (cor e taninos). Existe uma relação directa entre a qualidade da uva e o tempo de maceração.
Macerações pré e pós-fermentativas
A pré-fermentativa ou pelicular, a temperaturas baixas e sem presença de álcool, usa-se fundamentalmente em brancos (mas também em rosé e tinto). Consegue vinhos mais finos e complexos, mesmo nos casos de maturações menos conseguidas.
As macerações pós-fermentativas são utilizadas nos tintos de guarda, produzidos com uvas bem maduras e completamente sãs. Permite extrair mais taninos, assim como a polimerização e afinamento dos mesmos. É usada também no fabrico de Moscatel de Setúbal. Procura-se sempre mais e melhor extracção.
Maceração Carbónica
Existe ainda a maceração carbónica, que consiste numa técnica especial de fermentação usada nos tintos Beaujolais (França) e nalguns vinhos da Rioja (Espanha). Produz vinhos intensos de fruto com taninos macios.
A opinião de António Ventura
A maceração é uma das etapas mais importantes na vinificação. Sempre o foi, mas hoje ainda o é mais. No caso dos tintos, vai permitir definir o corpo e a estrutura do vinho que queremos ter; nos brancos, com a maceração pré-fermentativa, define a mineralidade de cada vinho. A mineralidade do vinho existe realmente, só que não está relacionada com os solos e pode ser conduzida com esta maceração, seguida de fermentação em ambiente redutor, sempre a temperatura baixa. E agora no caso dos vinhos “Orange”, que são brancos feitos como tintos, é a maceração que lhes define o estilo e o carácter.
Edição nº12, Abril 2018
Alentejo, à descoberta do terroir

No vasto Alentejo do vinho, os produtores começam a criar os seus próprios estilos e a procurar a diferença tirando partido de cada terroir específico. Mas a aposta nas castas tradicionais para combater as alterações climáticas e o reforço da identidade de cada sub-região serão essenciais para garantir o futuro. TEXTO Dirceu Vianna Junior MW […]
No vasto Alentejo do vinho, os produtores começam a criar os seus próprios estilos e a procurar a diferença tirando partido de cada terroir específico. Mas a aposta nas castas tradicionais para combater as alterações climáticas e o reforço da identidade de cada sub-região serão essenciais para garantir o futuro.
TEXTO Dirceu Vianna Junior MW
FOTOS Ricardo Palma Veiga
O Alentejo é imenso. As suas oito sub-regiões estão distribuídas à volta de 23.375ha, de acordo com dados de 2017 do Instituto da Vinha e do Vinho. Devido ao seu tamanho e fatores climáticos, o Alentejo compartilha certas características que se assemelham mais com uma região produtora de vinhos do Novo Mundo do que com uma região tradicional do Velho Mundo. Além disso, os próprios vinhos tintos refletem um estilo mais frutado, redondo e fácil de entender. De um modo geral a qualidade é confiável. O clima previsível, quente e seco contribui para minimizar doenças, ajudar na maturação da fruta e conferir aos vinhos certa consistência.
O estilo dos vinhos, aliado à sua consistência, ajuda a construir na mente do consumidor uma percepção positiva e fácil de entender. Isto traduz-se em vendas fortes, elevando a região do Alentejo para a liderança no mercado doméstico e mostrando desempenho saudável nas exportações. Os ícones da região, como Pêra Manca e Mouchão, contribuem para fortalecer e consolidar a ideia de que o Alentejo possui todo o potencial para fazer grandes vinhos.
Tal como acontece com algumas regiões do Novo Mundo, o Alentejo parece estar a mudar e a caminhar, gradual e seguramente, no sentido da descoberta do terroir e diferenciação. Da mesma forma que a região do Vale do Maule, cerca de 250km sul de Santiago no Chile, onde parcelas de vinhedos velhos em lugares mais frios, antes destinadas a vinhos menos nobres ou desperdiçados em lotes menores, hoje são altamente procuradas, apreciadas e responsáveis por alguns dos melhores vinhos da região. Ou na região de Swartland, 100km norte da Cidade do Cabo, onde vinhedos que antes serviam para abastecer cooperativas locais hoje são transformados em excelentes vinhos por enólogos de grande reputação, como Marc Kent, Eben Sadie e Adi Badenhorst.
Similarmente o Alentejo já há tempo vem mostrando essa tendência de valorizar vinhedos velhos e sítios mais frescos, bem como reconhecer enólogos responsáveis por trás de projetos interessantes, como são os casos de Paulo Laureano, Rui Reguinga ou Susana Esteban.
Esses talentosos profissionais contribuem para o crescimento da reputação do Alentejo. Investimentos que vêm de fora da região, como a entrada do grupo Symington através da compra da Quinta da Queijeirinha, deverão trazer outras vantagens, incluindo um influxo de conhecimento, profissionais competentes e tecnologia moderna que certamente resultará em bons vinhos e consequentemente dará mais foco à região.
Com certeza esse não será o ultimo investimento sério na região, pois o Alentejo oferece, além das vantagens descritas acima, a capacidade de estabelecer projetos de maior dimensão facilitando economia de escala, o que significa uma vantagem importante dentro de uma indústria notoriamente competitiva.
Sabemos que o Alentejo é capaz de fazer brancos, rosés e tintos de vários estilos para satisfazer consumidores que buscam alternativas em várias faixas de preço. Além disso a região é responsável por outros tipos de vinhos, incluindo belos espumantes como o Cartuxa Reserva Bruto 2011 e até mesmo excelentes exemplos de vinhos fortificados cuja qualidade é capaz de chamar a atenção de apreciadores de bons vinhos do Porto – prove-se o Monte da Ravasqueira Licoroso colheita 2015, que provém de um lote entre Tinta Roriz (40%), Touriga Franca (30%) e Touriga Nacional (30%).
Soluções dentro e fora de casa
O vento parece estar realmente soprando a favor e a região fortalece-se a cada ano que passa. No entanto, há que estar atento a alguns problemas potenciais. Certas mudanças climáticas parecem estar a manifestar-se na região com muita intensidade. A falta de água preocupa. Além disso, doenças nas vinhas – principalmente, doenças do lenho como a esca – perturbam o sono de vários produtores. Esses problemas não vão desaparecer por si. Será necessário juntar recursos, focar e trabalhar em conjunto. Adoptar novas técnicas e tecnologias modernas, tanto no campo como na adega, para superar esses desafios e ao mesmo tempo demonstrar responsabilidade social através do conceito de sustentabilidade. Existem técnicas de irrigação adotadas nas regiões mais quentes da Austrália capazes de diminuir o uso de água entre 50% e 70%. Várias outras alternativas que poderiam contribuir na luta contra mudanças climáticas existem, incluindo explorar castas mais adequadas ao clima quente e seco da região.
Lembro a reação de certos produtores da região do Douro, há cerca de duas décadas, quando algumas castas que naquela época não eram bem conceituadas entravam na conversa. Eram imediatamente descartadas. Hoje essas variedades não apenas são apreciadas pelas características positivas que contribuem aos lotes, mas estão sendo replantadas e em certos casos já se destacam em vinhos varietais de excelente qualidade. Um bom exemplo é o Sousão, cujos bons exemplos incluem Domingos Alves de Sousa e Horta Osório. Outro exemplo seria o Tinta Francisca da Real Companhia Velha.
Também por esse motivo, produtores do Alentejo que hoje buscam variedades internacionais sem considerar as castas locais que se adaptam muito bem ao clima seco, deveriam refletir sobre a mudança de atitude no Douro, aprender com essa experiência e não descartar certas variedades tão cedo a favor de castas internacionais. A decisão do que plantar deve ser tomada pensando nas condições e resultados que apenas serão evidentes ao longo prazo. Um exemplo de variedade local que parece não receber atenção suficiente é a Trincadeira. Para quem duvida da sua capacidade de fazer bons vinhos recomendo a prova dos Cortes de Cima Trincadeira 2014 e Alexandre Relvas Trincadeira 2014.
Usando a experiência de outras regiões, e voltando ao Novo Mundo, existe a tendência cada vez maior de criar, manter e refinar o conceito de regionalidade. Basta olhar para a Argentina, onde uma boa parte dos vinhos Malbec de alto nível deixou de adoptar a identidade da sua maior região, Mendoza, e passou assumir uma identidade de origem mais precisa e definida como, por exemplo, Gualtallary. Essa sub-região de solos calcáreos situada a 1200 metros de altitude e a cerca de 80 km a sul da cidade de Mendoza, é responsável por vinhos de um perfil distinto. O consumidor é capaz de distinguir com certa facilidade um Malbec de Gualtallary – que é mais leve, exibe mais acidez, mineralidade, taninos finos e frutas vermelhas – em comparação com um Malbec de Luján de Cuyo, onde os solos são aluviais com superfícies arenosas e pedregosas em substratos de argila. A região tem uma altitude média de 1000 metros e fica situada a poucos quilómetros a sul do centro da cidade de Mendoza. Os vinhos de Luján são mais encorpados, com menos acidez e desenvolvem um perfil de frutas mais escuras e taninos mais firmes.
Entender e comunicar a sub-região
De um certo modo o Alentejo já está indo ao encontro dessa tendência com oito sub-regiões demarcadas. É possível perceber diferenças marcantes dos aspectos físicos de algumas sub-regiões como, por exemplo, os solos graníticos e pedregosos aliado a um clima mais quente de Reguengos em comparação aos solos com depósitos de mármore de Borba, onde a sub-região recebe níveis de insolação ligeiramente inferiores em relação ao resto da região. A sub-região de Portalegre é um caso a parte devido, principalmente, à sua altitude, que resulta em temperaturas inferiores e consequentemente os vinhos exibem certa elegância e mais frescor em comparação aos vinhos de outras sub-regiões.
Entretanto, de um modo geral, as diferenças edafoclimáticas dessas sub-regiões ainda não se manifestam nitidamente e não é fácil hoje em dia conectar a origem com o produto que está no copo, do mesmo modo que distinguimos um Bordéus de Paulliac de um Pessac-Leognan ou Margaux, por exemplo.
Para o Alentejo se aproximar dessas grandes regiões produtoras como Bordéus, Borgonha, Champanhe ou Piemonte existe um trabalho mais detalhado e científico a fazer, com o objetivo de obter um processo de zonagem mais preciso e específico para que esta vasta região continue o seu desenvolvimento nas próximas décadas.
Entender melhor os factores físicos da região, refinar o conceito de terroir e perceber o comportamento de determinadas castas em locais específicos resultará em maior número de grandes vinhos. Nesse processo, ajudaria mudar a percepção de que o Alentejo é uma região de grande dimensão, capaz de fazer vinhos confiáveis e consistentes, a exemplo do Vale Central no Chile, para se tornar uma região que faz grandes vinhos de terroir, onde o clima, solo e vários outros factores contribuem para seu perfil, como é o caso de Napa Valley, onde sub-regiões como Los Carneros e Stags Leap District não estão somente associadas a estilos e variedades especificas, mas também carregam um valor agregado que o consumidor está disposto a pagar.
O Alentejo já deixou bem patente a qualidade; o próximo passo seria refinar o conceito de regionalidade. Um antigo provérbio grego diz-nos que a sociedade se torna grande quando as pessoas plantam árvores cujas sombras jamais irão ver. Não há dúvida que o trabalho será árduo e longo. Mas a região conta com pessoas dinâmicas, positivas e talentosas que, aceitando este desafio, estariam iniciando um processo que deixaria um legado extraordinário.
Vinhos recomendados:
-

Monte da Peceguina
Tinto - 2016 -

Herdade do Sobroso Barrique Select
Tinto - 2015 -

Ravasqueira Reserva da Família
Tinto - 2015 -

Conde d’Ervideira
Tinto - 2016 -

Dona Maria Amantis
Tinto - 2015 -

Paulo Laureano Vinhas Velhas Seleção Privada
Tinto - 2015 -

Esporão
Tinto - 2015 -

Cortes de Cima
Tinto - 2014 -

Cartuxa
Tinto - 2014
Edição nº12, Abril 2018
As novas colheitas da Quinta Dona Matilde

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Projecto da família Barros desde o início, esta quinta duriense apresentou quatro novos vinhos e um azeite. E, ao mesmo tempo, estuda as direcções para aliviar os desafios impostos pelas alterações climáticas.
TEXTO António Falcão
NOTAS DE PROVA João Paulo Martins
FOTOGRAFIAS Luísa Ferreira
A Quinta Dona Matilde situa-se na margem norte do rio Douro, na marginal entre a Régua e o Pinhão, na zona da barragem de Bagaúste. Está na posse da família Barros há 91 anos. Os 90 hectares de terra, dos quais 28 são de vinha, pertencem a Manuel Ângelo Barros, homem com grande experiência no Vinho do Porto. A propriedade chegou a pertencer à Sogevinus, mas retornou à família Barros. Há cerca de uma década, o filho Filipe juntou-se ao pai e os dois têm levado o projecto adiante, com o auxílio do viticólogo José Carlos Oliveira e do enólogo João Pissarra. Todos estiveram presentes no evento de lançamento das mais recentes edições da casa.
Filipe Barros explicou desde logo que todos os vinhos são resultantes do chamado ‘Field Blend’, ou seja, os lotes são feitos na vinha e as diferentes uvas são vinificadas em simultâneo. Esta não é uma tarefa nada fácil, porque a maior parte da vinha está virada a sul, a exposição mais inclemente no Douro, em especial nos anos quentes e secos. Mas João Pissarra é um adepto fervoroso da frescura dos vinhos e, juntamente com José Carlos, monitoriza a vinha com frequência para acertar as datas de vindima.
Só assim se conseguiu um belo branco do difícil ano de 2017. A prova continuou com dois tintos de 2015 – colheita e reserva – e Porto Colheita 2010. Todos estão em prova mais à frente, mas, podemos dizê-lo, apresentaram-se, sem excepção, a muito bom nível. A ocasião foi ainda aproveitada para se lançar um azeite da quinta, a segunda edição. “O azeite é a afirmação da qualidade dos produtos da quinta e acreditamos que no futuro vai ser um complemento interessante da nossa actividade”, disse a propósito Manuel Barros.

Deste lançamento destacamos ainda as preocupações da equipa com os indícios trazidos pelo ano de 2017. A Quinta de Dona Matilde, apesar de situada no Baixo Corgo, a sub-região do Douro mais temperada, e de estar junto ao rio, sofreu com uma seca extrema. A situação foi de tal maneira grave que, disse-nos José Carlos Oliveira, “tememos pela própria sobrevivência das plantas”. A produtividade acusou o golpe, o que pode não só afectar a qualidade/harmonia das uvas como vai influenciar o negócio do vinho. De facto, é muito diferente para o negócio se o produtor conseguir 7 ou 8 toneladas por hectare de uva ou metade disso (e sem garantias de melhorar a qualidade…). Soluções? José Carlos fala em duas: primeiro, ter instalado um sistema de rega, para estes anos extremos (e conseguir autorização para regar…). E, depois, procurar castas/porta-enxertos que tolerem melhor os anos secos. Mesmo que se tenham de ir buscar fora do Douro…
Em prova:[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row][vc_row type=”in_container” full_screen_row_position=”middle” scene_position=”center” text_color=”dark” text_align=”left” overlay_strength=”0.3″ shape_divider_position=”bottom”][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/1″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][vc_column_text]
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Edição nº12, Abril 2018
Um projecto de família “Pouco Comum”

A família Meireles tem feito um percurso notável no mundo do vinho. Desde os inícios, na década de 90, até agora, a Quinta da Lixa tem registado constantes aumentos na produção e nos investimentos. Ou seja, sempre a subir… TEXTO António Falcão | NOTAS DE PROVA João Paulo Martins FOTOS Cortesia Quinta da Lixa […]
A família Meireles tem feito um percurso notável no mundo do vinho. Desde os inícios, na década de 90, até agora, a Quinta da Lixa tem registado constantes aumentos na produção e nos investimentos. Ou seja, sempre a subir…
TEXTO António Falcão | NOTAS DE PROVA João Paulo Martins
FOTOS Cortesia Quinta da Lixa
Neste momento, a Quinta da Lixa deverá ser o quinto maior produtor de vinhos certificados na região dos Vinhos Verdes, lançando todos os anos cerca de 4,2 milhões de garrafas para o mercado. O seu património de vinha ronda os 105 hectares, uma quantidade assinalável numa região de minifúndio. Em 2005, era menos de metade disto. E no início, em 1986, eram apenas uns quantos vinhedos para produção de vinho a granel, ao redor da Vila da Lixa. As coisas ficaram mais sérias em 1992 com a aquisição da Quinta da Lixa, que dá o nome à empresa, e a plantação da primeira vinha.
Para atingir a meta actual, a família Meireles investiu, nos últimos anos, mais de 6 milhões de euros em mais vinhas, na adega e no magnífico hotel vínico, o Monverde. Estes vultuosos investimentos foram possíveis porque a operação tem corrido bem. No ano passado, por exemplo, a Quinta da Lixa cresceu 16% na exportação e 6% no mercado nacional, isto em termos de facturação.
No concelho de Felgueiras, os solos são predominantemente graníticos, mas também existe algum xisto. Afinal, o Douro não está assim tão longe…. Climatologicamente, esta região destaca-se pela pluviosidade. A média anda pelos 1200 mm/ano e Carlos Teixeira disse-nos que “é uma das regiões vinícolas mais pluviosas do mundo”. A boa viticultura é por isso fundamental para evitar doenças e, mais tarde, conseguir maturações completas.

Vamos provar
Óscar Meireles é o líder da operação e foi ele que nos recebeu no Monverde para apresentar as últimas colheitas da casa. Com ele estava a filha, Diana, que trabalha na área enológica, e o enólogo Carlos Teixeira, na casa desde o inicio (ou quase).
A apresentação começou com uma prova vertical da marca Pouco Comum, o Alvarinho da casa e um dos primeiros Alvarinhos a aparecer fora de Monção e Melgaço. Uma curiosidade desde logo: até 2017, estes Alvarinhos resultavam de lotes de 4 vinhos, vinificados de diferentes maneiras. Um com leveduras indígenas – para dar rusticidade – e os outros três com outros tipos de leveduras – para o vinho ir buscar outros componentes. Em 2017, o lote passou a levar apenas três vinhos, de três anos diferentes. Nenhum dos vinhos levou madeira. O portefólio provado começou em 2010 e foi até ao mais recente 2017. Resumindo o que foi uma longa prova, todos estavam em boa forma. Nenhum dos vinhos mais antigos mostrava os tradicionais toques apetrolados dos brancos com idade. E o 2010 e 2011 exibiam uma juventude invejável, a mostrar que estes vinhos ganham muito com a idade.
A mesma conclusão se pode tirar dos restantes vinhos, provados durante o jantar confeccionado pelo chefe Carlos Silva e a sua equipa (em muito bom nível, diga-se). Apesar de usarem várias castas e técnicas de vinificação, a frescura é a nota dominante destes vinhos. Apesar dos preços comedidos, estes vinhos possuem grande longevidade e até agradecem mais algum tempo de garrafa. Outras duas constatações vão para o grau alcoólico moderado em quase todos e a grande capacidade de acompanharem comida. São decididamente vinhos muito gastronómicos.
Edição nº12, Abril 2018
Maritávora, um dos melhores brancos portugueses

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TEXTO João Paulo Martins
FOTOS Anabela Trindade e Ricardo Palma Veiga
Será preciso recuar a 1870 para termos a primeira referência da Quinta da Maritávora, adquirida por José Junqueiro Júnior, pai de Guerra Junqueiro, poeta. Terá pertencido anteriormente a alguma Távora chamada Maria? Talvez, mas não há registos. Passaram-se cinco gerações até chegarmos ao actual proprietário, que é descendente directo do fundador.
Felizmente, dizemos agora, desde a fundação até hoje manteve-se uma vinha de uvas brancas (replantada após a filoxera, em 1890) que sobreviveu a tudo e uma adega de lagares que ainda hoje é utilizada. A vinha, hoje muito velha, ocupa pouco menos de um hectare dos 14 que o total da vinha ocupa na propriedade. Esta é a jóia da coroa da empresa, a vinha que faz a diferença e que tem sido acarinhada quer por Manuel Gomes Mota quer por Jorge Borges, que, como enólogo, está no projecto dos DOC Douro desde o início, em 2004.

Uma tese antiga: o que fazer?
Esta é a pergunta que muito produtor que tem uma vinha muito velha coloca com frequência. Vamos manter? Vamos replantar? Vamos aproveitar para reenxertar? Como vamos tratar da vinha se nem o tractor lá entra? A produtividade justifica o trabalho? O preço a que se vende é compensador? Com demasiada frequência a resposta a estas questões leva ao arranque da vinha. Com a vinha velha vai-se embora muito património genético, muita variedade clonal e muita casta que pode não existir em colecções ampelográficas. E, mais grave, vai-se a originalidade e a diferença que podem ser determinantes para a visibilidade do produtor e dos vinhos que produz.
Quase apetece dizer que nestes casos seria quase obrigatório (num modelo ideal…) que o produtor, caso mantivesse a vinha velha, tivesse uma qualquer compensação pela perda de valor e de retorno pela exploração de uma vinha muito velha. Como tal não existe, a decisão está sempre do lado do produtor. No caso presente, Manuel Gomes Mota teve o bom senso de conservar a tal vinha velha, onde pontificam as castas da região mas também outras quase desconhecidas como Uva-Salsa, Évora e Chasselas. E, disse-nos, quando visitámos a vinha, que havia alguns pés por identificar, uma vez que os classificadores não os conheciam. Isto é história!
A quinta, como sempre aconteceu na história do Douro, era produtora de uvas que entregava a uma empresa de Vinho do Porto, no caso vertente, a Cockburn Smithes. Assim aconteceu por mais de 130 anos. A localização das vinhas, a cerca de 500m de altitude, já não aconselha a que as uvas sejam indicadas para vintage, mas podem ser usadas para fazer tawnies. Em 2004 foi decidido terminar com a relação comercial com a Cockburn e iniciar a produção de DOC Douro. Apesar de haver outros vinhos, nomeadamente tintos, é o branco da vinha velha que aqui nos prende a atenção. Entre 2004 e 2009 tinha o designativo de Reserva e a partir da colheita de 2010 passou a ser Grande Reserva Vinhas Velhas.
Ao leitor fica sempre a dúvida sobre a razão de ser da qualidade destes vinhos de vinha velha. No fundo é saber qual a razão fundamental para o sucesso, mas não existe uma, trata-se da conjugação de várias razões. O facto de a vinha ser velha é uma delas (tese controversa…) porque, aliada à pouca produção, temos uma maior concentração e riqueza que derivam do complexo sistema radicular que a cepa desenvolveu com o tempo; a localização da vinha, neste caso com a altitude suficiente para gerar noites mais frescas (mesmo muito frias, na afirmação do produtor) e não sofrer tanto com o calor diurno; o solo onde está implantada; a saúde da própria vinha e a forma como foi mantida de geração em geração. Este passa por ser o factor fundamental porque uma vinha velha só é boa se foi bem cuidada. Por fim, vem a acção do produtor e enólogo, que se pode traduzir assim: intervir pouco, não estragar, antes amparar e colocar dentro da garrafa aquilo que a vinha deu, sem mais artifícios.

Produção biológica
Conjugar todos estes factores pode ser o sonho de qualquer produtor e nem sempre é fácil de conseguir. Jorge Borges optou pela fermentação em barrica – totalmente nova em 2004 – mas agora apenas parcialmente nova, com a percentagem a variar em função da colheita. No final, após 6 meses de estágio em barrica e mais 18 em garrafa, resultam poucas garrafas, com grande variação de ano para ano ou, como nos informou o produtor, de 1300 a 2850 garrafas. Muito pouco, mesmo muito pouco.
A partir de 2009 a vinha iniciou o seu caminho em direcção à produção biológica com a certificação a chegar em 2012. Segundo Manuel G. Mota, foi um processo simples, uma vez que, pela sua idade, “a vinha viveu toda a vida sem pesticidas e outros produtos químicos; foi apenas um regresso às práticas antigas”. Já Jorge Borges acrescentou que quem mais sofreu com a reconversão para o biológico foi a vinha nova (quebra de produção), uma vez que na vinha velha, mais defendida, pouca diferença se notou. Pela pequena dimensão que tem, toda esta vinha velha é vindimada num dia, curiosamente em 2017 foi a 18 de Agosto e no ano anterior tinha sido em 18 de Setembro. Coisas do clima…
Em virtude das poucas garrafas existentes das colheitas mais antigas, o produtor afirmou que esta foi a última vertical do Grande Reserva branco. Por esta razão registamos todas as notas de prova e não queremos deixar de dar uma opinião global: estes são dos melhores brancos portugueses, por muito pequena que seja a short list que se queira fazer. Para que conste!
Em relação à prova, algumas notas: as colheitas de 2016 e 2015 ainda não estão a ser comercializadas, é a colheita de 2014 que está à venda e assim deverá continuar até ao final do ano. Por isso reservamos as notas das colheitas mais recentes para um momento posterior. O produtor resolveu também comercializar uma caixa (edição limitada a 300 exemplares) com três colheitas do Grande Reserva: 2010, 2011 e 2012, com um PVP recomendado de €130. Encontram-se ainda disponíveis no mercado várias colheitas desde 2008. Com preços diferentes, que a seguir indicamos.
Em prova:[/vc_column_text][/vc_column][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/1″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][/vc_column][/vc_row][vc_row type=”in_container” full_screen_row_position=”middle” scene_position=”center” text_color=”dark” text_align=”left” overlay_strength=”0.3″ shape_divider_position=”bottom”][vc_column column_padding=”no-extra-padding” column_padding_position=”all” background_color_opacity=”1″ background_hover_color_opacity=”1″ column_shadow=”none” column_border_radius=”none” width=”1/1″ tablet_text_alignment=”default” phone_text_alignment=”default” column_border_width=”none” column_border_style=”solid”][vc_column_text]
As minhas alterações climáticas

Os anos passam e a memória engrandece. E aquela que tenho permite-me olhar para as notícias sobre alterações climáticas com algum distanciamento. Um Natal, algures entre final dos anos 60 e principio dos 70, em casa da minha avó materna, na aldeia de Souropires (Pinhel). Eramos 22, entre pais, avó, irmãos, tios e primos. Dias […]
Os anos passam e a memória engrandece. E aquela que tenho permite-me olhar para as notícias sobre alterações climáticas com algum distanciamento.
Um Natal, algures entre final dos anos 60 e principio dos 70, em casa da minha avó materna, na aldeia de Souropires (Pinhel). Eramos 22, entre pais, avó, irmãos, tios e primos. Dias soalheiros secos e muito frios. Dentro de casa, com lareira acesa e braseiras de brasas em duas salas, conseguíamos uns fantásticos 2º Celsius. Da boca só saía fumo de cada vez que falávamos. Sempre vestidos com os sobretudos, samarras, chapéus e gorros. Lá fora o sincelo dava aspecto glaciar a toda a paisagem. De noite temperaturas abaixo de 10º negativos.
Com falta de espaço, eu e meu irmão fomos dormir a casa do tio Zé Madeira, à vizinha aldeia das Freixedas. Quase não conseguíamos voltar-nos na cama com o peso de tantos cobertores de “papas”. Ao raiar da aurora, e com o pensamento nas prendas do menino Jesus (tinha sonhado toda a noite com elas), tirei a custo um braço debaixo dos cobertores, e deixei-o cair sobre os cobertores. Ouvi um “tchhh” gélido. Desloquei um pouco o braço para a esquerda e para a direita, … novamente “chhh”, “chhh”,… levantei assustado a cabeça do travesseiro e olhei atónito o espesso manto de gelo que cobria os nossos cobertores.
“Pedro vamos embora” – gritei em surdina ao meu irmão mais novo. Vestimos-mos à pressa, quebramos com um murro o gelo que cobria a água do jarro, e com um pouco de água na bacia junto à janela de vidros cobertos de espesso gelo, tirámos com as pontas molhadas dos indicadores a remela dos olhos. E lá fomos a correr por entre uma paisagem totalmente petrificada de branco para a lareira da avó, onde pequenos sapatitos, debaixo da luz baça que descia pela chaminé da lareira da cozinha, tinham por cima uma única e fantástica prenda e um rolinho de bombons de chocolate enfiado sapatito a dentro.
Calores
Poucos anos depois, o Outono/Inverno de 1977 foi tão quente que no dia de Natal toda a família foi fazer um almoço/piquenique para a mata do Bussaco. Os noticiários tinham à época objectivos totalmente diferentes dos de hoje, e todos achamos a ocasião estranha, mas muito divertida.
No dia anterior, o de consoada (24 de Dezembro de 1977), montados numa espectacular Suzuki 125cc que o meu pai tinha acabado de comprar ao meu irmão, fomos de Coimbra à Figueira da Foz, num fantástico passeio depois de almoço, em mangas de camisa arregaçadas e sem capacete (à época não era ainda obrigatório). Um dia espectacular, e uma história inesquecível.
Dois anos mais tarde, em 1979, nas últimas férias que passei com meus pais antes de me lançar na constituição de família própria, fiquei surpreso quando arrendaram uma casa no Algarve para a primeira quinzena de Outubro. Talvez seja um pouco tarde – pensei! Mas fomos todos os dias à praia, com muito, mas mais suave calor, e foram 15 dias de praia fantásticos.
“O tempo”, ou o clima, sempre foi um assunto recorrente numa família em que a geração viva e mais velha estava ainda ligada à lavoura (e o ser humano receia o clima desde que criou a agricultura). Recordo, sempre que havia, nos tempos mais recentes, um Outono /Inverno seco, a minha mãe a lembrar-nos que “em 1980, nem os lameiros da Souropires rebentaram”, ou seja, os lameiros sadios e verdejantes da várzea ribeirinha da aldeia de minha avó, que drena parte das águas do altiplano de Pinhel (600 a 800 metros de altitude) permaneceram todo o Inverno castanhos, ou com a cor que lhes deixou o Verão (que recordo sempre desmesuravelmente quente, em particular por terras de Castelo Branco, onde o meu pai foi médico depois de 1963).
Em 1990, já pai de filhos e mais preocupado e pessimista do que na adolescência, iniciou-se um novo ciclo de anos secos que me marcaram imenso (o último tinha sido 1980/1983). A viver em Lisboa e a trabalhar em ambiente de alta erudição cultural e intelectual, sofria, como ninguém mais, a falta de água sentida nas terras do país. A minha costela rural começava a engrossar, ainda que a sua função fosse a da arte da dança. Durante cinco longos anos muito pouco choveu em Portugal. Este quinquénio extremamente seco teve quatro excelentes anos vitícolas. No caso do Vinho do Porto, duas declarações generalizadas (1992 e 1994) e mais duas fantásticas colheitas de 1991 e 1995. E todos estes anos produziram excelente vinho de mesa de Norte a Sul numa época em que ainda não se falava de rega na vinha, sendo esta então (e firmemente) proibida pelos regulamentos certificadores.
O meu diário
A partir daqui nunca mais deixei de seguir atentamente (ou doentiamente) o clima de cada ano. Tenho inclusivamente uma espécie de diário a que chamo “Ano Agrícola”, onde vou assentando tudo aquilo que me parece relevante em termos climatéricos ao longo do ano. A minha mulher diz-me que já ando um pouco melhor. A fase aguda foram os primeiros anos da década de 90…
Ainda por cima nesta época ligava-se tão pouco ao clima que os noticiários televisivos deixaram de ter o meu imprescindível Boletim Meteorológico. Tinham acabado com o Anthímio de Azevedo precisamente em 1990. Em casa dos meus pais havia sempre um “chiu” de cada vez que aparecia o Anthímio. E eu habituei-me a estar calado enquanto se ouvia o boletim meteorológico. Depois de a televisão fazer desaparecer o Anthímio, desesperei a tentar adivinhar sozinho quando terminava a seca. O curioso é que antes de aparecerem as “app” que hoje nos indicam as previsões meteorológicas a cada 3 horas, lá em casa quem dizia “chiu” sempre que aparecia o boletim meteorológico (que, entretanto, voltaram à televisão, já não recordo em que ano), eram os meus filhos. Entre outras consciências, leguei à descendência a minha preocupação com o clima.
Hoje, com 61 anos de idade, continuo a preocupar-me com o clima, e em particular com as secas que regular e periodicamente atingem o nosso mundo mediterrânico – “A Seca: a praga do Mediterrâneo”, como lhe chamam ilustres geógrafos e historiadores.
Espero, muito em breve, voltar ao contacto para vos falar do nosso clima, sob o prisma erudito de vários e respeitados autores, que contraria fortemente o alarmismo mediático a que quase diariamente nos sujeitam.
Edição nº12, Abril 2018
A Beyra de Rui Madeira

Do Mundo para o Douro, do Douro para a Beira Interior. O percurso de Rui Roboredo Madeira é internacional, tecnológico e inovador. Mas também tem um lado clássico, e esse está na Beyra, com os “Vinhos de Altitude”. TEXTO Mariana Lopes FOTOS Anabela Trindade Desde o estágio na espanhola Codorníu ao título italiano de Provador Profissional […]
Do Mundo para o Douro, do Douro para a Beira Interior. O percurso de Rui Roboredo Madeira é internacional, tecnológico e inovador. Mas também tem um lado clássico, e esse está na Beyra, com os “Vinhos de Altitude”.
TEXTO Mariana Lopes
FOTOS Anabela Trindade
Desde o estágio na espanhola Codorníu ao título italiano de Provador Profissional de Azeites, passando pela consultadoria enológica da Perdomini na Argentina e na África do Sul e acabando no Douro, com a fundação de uma empresa de inovações na área da enologia (Wine Tech Solutions), pelo meio. Rui Madeira passou de lançar os primeiros vinhos e azeites da quinta da família no Douro Superior, Casa Agrícola Roboredo Madeira (CARM), a criar a sua empresa de projectos pessoais, actualmente com nome Rui Roboredo Madeira – Vinhos do Vale do Douro (vinhos Castello D’Alba e Quinta da Pedra Escrita), e a encetar a aventura Beyra, tudo num período de 12 anos.
Foi em 2011 que começou a reconstruir uma adega na Vermiosa, em Figueira de Castelo Rodrigo, onde em 1987 fez a sua primeira vindima, edifício que deu corpo ao novo empreendimento vitivinícola. É certo que até aí estava exclusivamente focado no Douro, mas o “bichinho”, que sempre teve, dos vinhos de altitude, levou-o a aceitar a oportunidade que surgiu na Beira Interior. Assim, a cerca de 750 metros de altitude, plantou dez hectares de vinha, seis de uvas brancas (Alvarinho, Fonte Cal e Moscatel) e quatro de castas tintas (Jaen e Pinot Noir), e a essas videiras pode chamar suas, enquanto mantém mais cem hectares em regime contratual. Os solos, de natureza granítica e xistosa, têm na sua constituição laivos de quartzo, o que, segundo Rui Madeira, origina “melhor insolação devido à reflexão da luz solar pelo quartzo, o que favorece as maturações”.
O seu objectivo com os vinhos Beyra é bastante díspar do trabalho que faz no Douro. Se os seus vinhos durienses são mais modernos, na Beira Interior procura fazer o mais clássico possível: “Tentar reflectir no vinho aquilo que é a região em absoluto”, diz Rui Madeira. “A Fonte Cal é a minha preferida para fazer brancos mais ambiciosos”, contou o enólogo, explicando também que a eleita para os melhores tintos é a Tinta Roriz. Os vinhos tintos, fermentados em betão, estagiam em barricas de carvalho e os brancos, que começaram por incluir madeira no processo, são agora “unoaked”.
Em 2017, a produção total do universo Beyra foi de 350 mil garrafas (no Douro, mais de um milhão e meio) e “o objectivo é chegar a meio milhão”, adiantou Madeira. Desse número, 40% é exportado, com os Estados Unidos a representarem o mercado número um.
Vinhos novos, saberes antigos
As primeiras sete novidades de 2018 já estão no mercado. O Beyra branco 2017, de partes iguais de Síria e Fonte Cal, junta-se ao Beyra tinto 2016, feito maioritariamente de Tinta Roriz e 25% de Jaen, para formar a frente de entrada. Também há rosé, mas à data da prova ainda não estava pronto para ser lançado. Depois, os Beyra Reserva branco e tinto de 2016, sendo que o primeiro tem na sua origem vinhas velhas de Fonte Cal, Síria e Rabo de Ovelha, e o segundo nasce de 80% de Tinta Roriz e Jaen com estágio de oito meses em barricas novas de carvalho francês e americano. Uma atractiva curiosidade é o Beyra Altitude Riesling 2016. São 6300 garrafas de um branco diferente, com leve doçura, que estagia em garrafa cinco meses.
O Beyra Grande Reserva tinto 2015 é coisa séria, de Tinta Roriz e Touriga Nacional, estagiando um terço em barricas novas, outro terço em madeira de dois anos de idade e o resto de três anos, durante doze meses. Nas cubas de betão faz a maceração, é sujeito à “delestage”, técnica clássica que consiste em extrair os componentes fenólicos gentilmente através da oxigenação, para reduzir a concentração de taninos e aumentar a de ésteres, elemento chave para um carácter frutado.
Finalmente, o vinho Rui Roboredo Madeira tinto 2015 que, palavras do enólogo, “é um vinho das melhores colheitas da Beira Interior, em que a altitude em anos quentes permite combinar frescura e acidez com grande concentração”. Tem Tinta Roriz (90%) e Touriga Nacional e estagia durante três anos, dois em barricas francesas e americanas e um em garrafa. Com apenas 3929 garrafas, é um vinho bem ao estilo “Rioja clássico”, em que a madeira nova está bem presente e a elegância ainda mais…
Quinta Vale D. Maria

Martim Guedes, Francisca Van Zeller, António Guedes e Cristiano Van Zeller Edição nº12, Abril 2018 Douro 20 anos intensos TEXTO Luís Lopes São duas décadas de história de um dos nomes mais representativos do “novo Douro”. Com a integração na Aveleda, realizada há menos de um ano, a Quinta Vale D. Maria ganhou impulso […]
Martim Guedes, Francisca Van Zeller, António Guedes e Cristiano Van Zeller
Edição nº12, Abril 2018
Douro
20 anos intensos
TEXTO Luís Lopes
São duas décadas de história de um dos nomes mais representativos do “novo Douro”. Com a integração na Aveleda, realizada há menos de um ano, a Quinta Vale D. Maria ganhou impulso para ir ainda mais longe nos seus ambiciosos objectivos.
Relembrar o passado, através de vinte colheitas de Quinta Vale D. Maria, e mostrar as novidades das últimas vindimas, foi o propósito do encontro promovido no Douro pelas famílias Van Zeller e Guedes (Aveleda). Um evento em que ficou bem patente a cumplicidade familiar (afinal de contas, são primos…) e o empenho em tornar esta quinta, suas marcas e vinhos, em sólidas referências internacionais.
Cristiano van Zeller sabe muito de Douro, dos seus vinhos e de como os comunicar. Afinal de contas, para além de membro da família proprietária da Noval, ajudou a conceber e implementar, entre outros, dois grandes projectos vínicos durienses, a Quinta do Crasto e a Quinta do Vallado. A estas duas empresas, Cristiano juntaria mais tarde a sua Quinta Vale D. Maria para, em conjunto com a Niepoort e a Quinta do Vale Meão, fundarem a associação Douro Boys, que tanto contribuiu para a afirmação mundial da região.
A Quinta Vale D. Maria, no entanto, foi sempre o “seu” projecto. Seu e da sua mulher Joana, a cuja família adquiriram em 1996 esta propriedade com 45 hectares de vinha, localizada no vale do rio Torto. Com origens que remontam ao século XVIII, a quinta tem uma grande diversidade de vinhas, algumas plantadas há pouco mais de uma dúzia de anos, outras praticamente centenárias. A diversidade é imensa, contribuindo para ela sobretudo as vinhas antigas, com dezenas de castas misturadas, e as diferentes exposições solares a que cada parcela está submetida. Não surpreende, por isso, que os vinhos de vinha e os vinhos de parcela assumam um papel de relevo nos topos de gama da casa.
As vinhas que dão nome aos vinhos
Em propriedades como a Quinta Vale D. Maria, cada parcela tem a sua própria identidade, que transmite naturalmente aos vinhos que origina. Nem todas essas identidades são positivas, como é óbvio, e por isso as vinhas/parcelas de excelência foram sendo identificadas logo a partir da primeira colheita de 1996, e vindima após vindima esse conhecimento foi sendo aprofundado e confirmado. Com o tempo, Cristiano van Zeller, com o apoio da enóloga Joana Pinhão (que ali fez o primeiro estágio em 2007) e da sua filha Joana van Zeller, decidiu engarrafar separadamente as uvas de duas vinhas muito distintas na idade e composição de castas: a Vinha do Rio e a Vinha da Francisca.
A Vinha do Rio é a vinha mais antiga da propriedade, e também, como o nome indica, a mais próxima do rio Torto, a cerca de 160 metros de altitude. Foi a primeira a ver os seus vinhos engarrafados à parte, na vindima de 2009. São quase 30 as castas ali misturadas, predominando, no entanto, a Tinta Barroca, com cerca de 48% do total.
Já a Vinha da Francisca, com 4,5 hectares, exposta a sul, foi plantada em 2004, para assinalar o 18º aniversário de Francisca van Zeller. Vinha mais jovem, portanto, plantada com cerca de 50% de Sousão, mais Touriga Nacional, Touriga Franca e ainda algumas castas antigas menos “comuns”, como Tinta Francisca e Rufete.
Nem todos os vinhos de topo produzidos na Quinta Vale D. Maria são oriundos de vinhas da propriedade. O conhecimento que Cristiano e a sua equipa possuem da região leva-os a descobrir noutras zonas do Douro autênticos tesouros. É o caso das uvas que deram origem ao Vale D. Maria Vinha de Martim e que vêm de uma vinha situada em Martim, Murça. É uma vinha muito especial que a empresa explora desde a colheita de 2015. Virada a norte, plantada a 450 metros de altitude, esta vinha com mais de 80 anos tem muitas castas brancas misturadas, predominando Rabigato, Viosinho, Gouveio e Códega do Larinho.
Outra marca assente em uvas durienses de diferentes terroirs e que passou a integrar desde 2014 o portefólio da empresa é o Vale D. Maria VVV Valleys, branco e tinto. Os três “V” simbolizam três vales, os vales dos rios Pinhão, Torto e Douro, onde 15 gerações da família Van Zeller trabalharam ao longo de séculos. No caso do VVV Valleys tinto de 2015, por exemplo, juntam-se uvas de vinhas velhas da Quinta Vale D. Maria e mais duas parcelas maioritariamente plantadas com Touriga Franca.
Para além destas, a empresa tem no mercado outras marcas em diferentes segmentos de preço, desde o entrada de gama Rufus (com excelente relação qualidade-preço) ao raro (e caro!) CV, no patamar superior da excelência, passando pela linha Van Zellers e VZ.

A história que o vinho conta
A história de uma marca conta-se através dos vinhos. Infelizmente, nem sempre os vinhos resistem ao tempo ou, mais frequentemente ainda, nem sempre os produtores conservam em sua posse os vinhos de cada colheita. Não foi o caso da família Van Zeller, que manteve esse património vivo que são os vinhos, ao longo de 20 vindimas.
Todos os Quinta Vale D. Maria foram e são pisados a pé nos lagares de granito da propriedade, indo depois o vinho para barricas de carvalho francês. Com o tempo, as barricas 100% novas foram partilhando o espaço com barricas de segundo ano, até chegar ao actual modelo de 60% nova, 40% usada. A complexidade das vinhas velhas e das dezenas de castas que as compõem estão bem patentes nestes vinhos, bem como o perfil próprio de cada ano de colheita:
1996– Foi ano de grande produção e pouca concentração (o vinho tem 12% de álcool), corpo médio, mas revela-se ainda hoje muito leve, muito fresco, bonito e elegante. 17
1997– Complexo de aroma, alguns fumados, frutos secos, especiarias, envolvente e fresco no longo final. 17,5
1998– Sente-se um ano de baixa produção, com volume, complexidade, taninos sólidos, sempre com frescura e equilíbrio. O tanino presente revela que o vinho ainda tem muito para dar. Está super equilibrado, com muito sabor e final fantástico. 18
1999– Tem concentração e profundidade aromática, mas alguma “brett” e as suas notas menos limpas de couro molhado prejudicam-no. Na boca está sólido e cheio, ainda que com taninos um pouco secos. 16,5
2000– Maduro, profundo, sumarento, nota de ameixa e muitas especiarias num estilo vibrante, longo, profundo. Excelente equilíbrio entre álcool e acidez. 17,5
2001– Sente-se a partir daqui um salto enológico face às colheitas anteriores. Os vinhos são mais polidos e afinados, sem perderem autenticidade. Tem grande presença aromática, muito profundo, muito complexo, cacau, especiaria. Sabor rico, ainda jovem, com taninos perfeitos, pleno de brilho e presença. Excelente evolução. 18
2002– Nota-se uma evolução evidente no aroma, mas ainda com fruto bonito. Cremoso na boca, com corpo médio (sente-se a vindima chuvosa) mas muito boa acidez, um tom vegetal no final apimentado. 16,5
2003– Ano de calor evidente, patente no fruto bem maduro, uva passa, ameixa. No entanto, as vinhas velhas aguentaram a acidez, e mantiveram o vinho fresco e vivo, graças também aos taninos poderosos. Final longo e fumado. 17
2004– Sério, austero, firme, com muito boa presença, apontamentos de esteva e ervas do campo, tabaco, balsâmicos. Taninos muito sólidos, sabor cheio mas sempre com um fino traço de frescura. Impositivo. 18
2005– Encorpado, envolvente, com taninos firmes mas sedosos, um estilo potente e harmonioso ao mesmo tempo. Sério e maduro, mas fresco. 17,5
2006– Apontamentos fumados no primeiro impacto aromático, balsâmicos, especiarias. Bastante frescura assente numa acidez vincada, conjunto muito equilibrado e harmonioso. 17,5
2007– Espantoso nariz, com uma frescura de fruta surpreendente para a idade. Enorme equilíbrio de boca, com corpo, sólida estrutura de taninos, cheio de sabor e complexidade, muita vibração, final interminável. Grande vinho. 18,5
2008– O aroma assenta no fruto bem maduro e nas especiarias. Perfeita harmonia na boca, com taninos sedosos, num conjunto muito cremoso, muito bonito, em excelente forma. 18
2009– Morno e maduro, ameixa e compotas de bagas silvestres. Profundo, encorpado, sólido, envolvente, sensação de fruta madura e doce no final longo. 17
2010– Muito bonito e elegante, de aroma fino, com fruto expressivo e puro. A boca de corpo médio deixa os taninos um pouco a descoberto, mas o conjunto é elegante, perfumado, muito apelativo. 17,5
2011– O ano de 2011 está bem patente. O vinho tem tudo, concentração mas frescura, profundidade mas austeridade. Está ainda super jovem, fechado, com enorme estrutura de taninos, solidez de cimento, tudo ainda a precisar de tempo. Um monumento. 18,5
2012– Grande nariz, excelente fruto, enorme equilíbrio, leves amargos, bastante frescura, muita firmeza, muita elegância, equilíbrio total, um belíssimo vinho. 18
2013– Sério, ainda bastante jovem, com taninos ainda muito evidentes, fruto bem fresco no aroma. Encorpado, vigoroso mas elegante, potente mas domado. 17,5
2014 – Mostra o carácter do ano no estilo mais leve, com fruto muito bonito e delicado. Corpo médio, mas mais do que suficiente para envolver bem os taninos, a fruta é muito expressiva, um tom de frescura e elegância atravessa todo o vinho. 17,5
Apesar de a empresa produzir várias marcas, o tinto Quinta Vale D. Maria é a grande bandeira da casa, o vinho mais significativo, quer no impacto no mercado quer, acredito, no espaço que ocupa no coração da família Van Zeller e, agora, no da família Guedes. A prova de 20 colheitas desta marca revela um percurso de grande consistência qualitativa, assente no respeito pelo carácter de cada parcela de vinha e no conhecimento do seu contributo para o lote final. São vinhos sentidos, vinhos de terroir, cada um deles contando uma estória e contribuindo individualmente para fazer a história de uma grande marca duriense.










