Monte Xisto: a ciência encontra a tradição

O Cais Novo, no Porto, foi o sítio ideal para o lançamento de um vinho com o selo Nicolau de Almeida. Debaixo de abóbadas de pedra maciça que encerram em si tempos idílicos, conhecemos o Quinta do Monte Xisto tinto 2015. TEXTO Mariana Lopes NOTA DE PROVA Luís Lopes FOTOS Anabela Trindade “O nascimento […]
O Cais Novo, no Porto, foi o sítio ideal para o lançamento de um vinho com o selo Nicolau de Almeida. Debaixo de abóbadas de pedra maciça que encerram em si tempos idílicos, conhecemos o Quinta do Monte Xisto tinto 2015.
TEXTO Mariana Lopes NOTA DE PROVA Luís Lopes FOTOS Anabela Trindade
“O nascimento do nosso vinho é como a eleição do Papa: fechamo-nos todos numa sala e, se sair fumo branco, vamos em frente!” As palavras de João Nicolau de Almeida descortinam a seriedade que a sua família coloca em cada projecto, desde a criação do grande Barca Velha, pelo seu pai Fernando Nicolau de Almeida, passando pela enologia e administração da Casa Ramos Pinto pelo próprio, até à Quinta do Monte Xisto, criação conjunta com a sua esposa os seus três filhos. Este “fumo branco” refere-se à nova colheita, 2015, do tinto Quinta do Monte Xisto, quinto da sua linhagem, lançado agora para o mercado.
Os 40 hectares da Quinta do Monte Xisto começaram a ganhar forma em 1993, mas só em 2004 se encetava o processo de plantação dos 10 hectares de vinha da propriedade. Numa grande mancha de cereal em Vila Nova de Foz Côa, no Douro Superior, o solo era virgem e pronto para explorar. Por esta altura, os filhos de João Nicolau de Almeida, Mateus e João, estavam prestes a acabar os estudos em enologia e viticultura e foram, desde logo, incluídos no seu desafio: plantar as vinhas em altitude (entre 200 e 300 metros), numa área bastante reduzida. A filha Mafalda, por sua vez, assumiu a comunicação e a imagem do projecto.
Dizer que foi fácil seria mentir. O patriarca vinha com o seu próprio método e com o hábito de muitos anos e de umas quantas revoluções vitivinícolas na região do Douro, e os filhos frescos e com novas abordagens… mas a convergência era inevitável. “Algumas coisas foram feitas às minhas escondidas!”, confessou João Nicolau de Almeida em tom de brincadeira e, simultaneamente, de ternura. Imediatamente, Mateus repeliu: “É verdade, mas o meu pai sempre se interessou pela descoberta de novas aproximações à vinha. É muito gira, esta constante procura.”
Esta relação tão especial, entre eles e com a própria vinha, levou-os a enveredar pelo regime biológico com princípios de biodinâmica. “Quanto mais tempo passamos na vinha, melhor percebemos o que ela quer”, explicou Mateus, enquanto mostrava fotografias das parcelas. A biodiversidade era óbvia nas imagens, com os tons de lilás e vermelho das flores a sobressaírem entre os verdes e castanhos das videiras.
O novo Quinta do Monte Xisto tinto 2015 é a expressão disto mesmo, da terra e das pessoas. De Touriga Nacional, Touriga Franca e um pouco de Sousão, o vinho foi fermentado em lagares com pisa muito leve. Referindo-se aos seus filhos, Mateus Nicolau de Almeida brincou: “Para este efeito utilizamos crianças, é mais barato, mais leve e levanta menos problemas”, e todos nos rimos. O estágio foi feito em barricas, por 18 meses, na cave de rocha e ferro, debaixo do chão. Pelo semblante francamente feliz e descontraído de João Nicolau de Almeida, percebemos a sua sensação de dever cumprido. “O que pretendemos aqui é aplicar a ciência aos valores tradicionais. Acho que, com este vinho, cumprimos o objectivo que tínhamos: um vinho firme, que se aguentasse muitos anos, fácil de beber mas que contivesse em si todos os bons atributos.” Acho que “mestre João” até foi modesto…
Quinta do Monte d’Oiro: vinho, uma paixão de pai para filho

Os vinte anos de um projecto vitivinícola são idade suficiente para uma comemoração. E quando, chegados a esta idade, se percebe que a nova geração já está com a genica e a paixão necessárias para levar o projecto para o futuro, então há motivos para sorrir. Foi assim que encontrámos José Bento dos Santos sorridente […]
Os vinte anos de um projecto vitivinícola são idade suficiente para uma comemoração. E quando, chegados a esta idade, se percebe que a nova geração já está com a genica e a paixão necessárias para levar o projecto para o futuro, então há motivos para sorrir. Foi assim que encontrámos José Bento dos Santos sorridente na sua quinta, no momento em que Francisco se assumiu como anfitrião. Bonito de ver, ao lado de vinhos bons de beber.
TEXTO João Paulo Martins FOTOS Ricardo Palma Veiga
LEMBRO-ME de um livro de culinária que comprei em França, num restaurante estrelado Michelin onde decorreu um workshop para um grupo de portugueses e que se chamava “La cuisine – une passion de père en fils”, de Michel et Jean Michel Lorain, pai e filho. Foi nesse livro que pensei quando escrevi o título deste texto. Há aqui de facto algo de semelhante e não é só porque Jean Michel Lorain é grande amigo de José Bento dos Santos; é porque esta transmissão de testemunho pode ser um momento de grande alegria, seguramente comemorável.
Quando cheguei à quinta para a jornada comemorativa dos 20 anos do Monte d’Oiro, confesso que estranhei a ausência José Bento, produtor, mentor, ideólogo e desenhador do projecto. Após a chegada fomos presenteados com uma ventania muitíssimo competente – como que a recordar-nos que o termo Ventosa aplicado a terras da região tem toda a razão de ser – e rapidamente fomos para a adega, para a prova. Aí tudo se tornou claro: o produtor não estava atrasado nem estava na cozinha de volta do menu de almoço; quem ali estava para apresentar e conduzir a prova era Francisco, o produtor ele mesmo, a nova geração à frente dos destinos do projecto. E assim foi durante toda a conversa.
O pai José só apareceu mesmo quando estávamos preparados para o almoço. Intencional? Creio que sim, Francisco conduziu a prova, partilhou com os presentes as ideias que tem para os vinhos da quinta e foi-nos apresentando a história evolutiva dos vinhos, hoje naturalmente com desenho diferente de quando nasceram. De 1997 para cá mudou muita coisa no modus operandi do vinho, mudaram modas, mudaram alguns métodos, castas e técnicas. Por esta razão uma prova mais alargada dá-nos a noção da forma como se faziam então os vinhos, dos perfis que então se pretendiam, da trajectória feita até hoje e que contou em momentos-chave com a colaboração dos amigos das Côtes-du-Rhône, sobretudo Michel Chapoutier.
Permanências e mudanças
A quinta começou por ser produtora de tinto. O primeiro em 1997, quando se julgou que a vinha já tinha a maturidade suficiente para produzir um vinho que pudesse ser uma referência. E começou-se com o pé direito mostrando este vinho que está, em 2017, em muito boa forma – os 20 anos não lhe retiraram qualidades. A aposta no Syrah é inquestionável mas a quinta tem outras castas plantadas, como a Touriga Nacional e Tinta Roriz ou Petit Verdot.
Hoje sabe-se mais sobre as particularidades da quinta, está feito o mapeamento e identificadas as parcelas que melhor produzem, sendo por isso possível organizar o portefólio de acordo com as características das uvas. São inovações destas que fazem
os projectos avançar, eliminando o que já não se enquadra na nova filosofia (desapareceu assim a marca Vinha da Nora), alterando o tempo de uso das barricas (menos barrica nova e fim do “estilo” 200% de barrica nova), menos barrica também nos brancos, procura mais assertiva de vinhos que expressem o terroir, sem artifícios. Para isso também contribuiu o caminho que se continua a fazer numa agricultura biológica, mais respeitadora do ambiente.
Não é só o Syrah que continua a ser a bandeira, também o Viognier, que aqui deu os primeiros passos, continua a receber a atenção que merece, o que as colheitas de 2015, 13 e 08 amplamente demonstraram. A marca Madrigal nasceu em 2004 e foi mudando um pouco de perfil ao longo do tempo. Actualmente 55% do mosto fermenta em inox e o resto em barrica, parte dela nova. O vinho tem tudo a ganhar com o tempo de cave e o melhor conselho que se pode dar ao consumidor é que deverá bebê-lo a partir dos 2 a 3 anos após a colheita. O tinto Ex-Aequo – que incorpora, além do Syrah, cerca de 25% de Touriga
Nacional – reflecte exactamente essa ligação com Michel Chapoutier e é um dos vinhos emblemáticos da casa. As colheitas de 2011 e 2008 que aqui foram provadas mostram a enorme saúde que os vinhos apresentam, sempre num patamar de excelência.
A marca-âncora continua a ser o Quinta do Monte d’Oiro Reserva. Também este usa agora menos barrica nova (cerca de 45%) quando o 1º, feito em 1997, tinha 100% barrica nova. Além do 2013, provaram-se também o 2009 e o 2004, ambos a mostrarem a enorme classe que o Syrah consegue atingir nesta propriedade.
“O vinho é um estado de espírito”, lembrou José Bento no almoço que fechou a jornada. O gosto que tem na reunião de amigos à volta da mesa, a atenção que o vinho lhe merece no mais ínfimo pormenor e o rigor que soube transmitir a Francisco, leva-nos a acreditar que aquela frase faz todo o sentido.
AdegaMãe, em boa forma

O projecto deu os seus primeiros frutos em 2010, numa altura em que o mercado já dava sinais claros de saturação. Mas cedo mostrou querer singrar, fruto de uma boa estrutura financeira e de uma cuidada estrutura agrícola-enológica. Hoje, oito anos depois, a Adega Mãe já dá lucros e continua a lançar belíssimos vinhos. […]
O projecto deu os seus primeiros frutos em 2010, numa altura em que o mercado já dava sinais claros de saturação. Mas cedo mostrou querer singrar, fruto de uma boa estrutura financeira e de uma cuidada estrutura agrícola-enológica. Hoje, oito anos depois, a Adega Mãe já dá lucros e continua a lançar belíssimos vinhos.
TEXTO António Falcão NOTAS DE PROVA Valeria Zeferino e Dirceu Vianna FOTOS Cortesia Adega Mãe
FOI com indisfarçável orgulho que Bernardo Alves, o CEO da Adega Mãe, se dirigiu a uma plateia de jornalistas da especialidade, reunida na caprichada sala de provas da adega, localizada a uma boa meia dúzia de quilómetros a sul de Torres Vedras. E tem razões para isso: a empresa, com oito vindimas de existência, registou “um percurso sempre ascendente, a nível nacional e internacional, e está a atingir a maturidade”. Em 2017, a empresa superou o milhão de garrafas e superou os 2,5 milhões de euros de facturação. Melhor ainda, as finanças não só entraram em equilíbrio como já se ganha dinheiro. Isto apesar dos vultuosos investimentos efectuados, incluindo a bonita e espaçosa adega, uma das mais visitadas do país. Uma parte dos visitantes vem da restauração lisboeta e não é por acaso. A equipa comercial da Adega Mãe tem apostado no segmento da restauração da capital, convidando proprietários e equipas de sala e cozinha para visitas à adega. O intuito é sensibilizá-los para o vinho de Lisboa e, depois, passar esse sentimento aos turistas que passam pela capital. A estratégia parece ter resultado, porque o crescimento de vendas na capital foi de 30% em 2017 (cerca de 200 mil garrafas). O turismo deve ter ajudado muito ao crescimento, como nos disse Bernardo Alves: “o turista não tem preconceitos quanto às regiões e, por outro lado, gosta de provar monocastas”. A Adega Mãe tem onze, seis brancos e cinco tintos. Os brancos têm recebido uma atenção especial, até porque, diz o gestor da Adega Mãe, “a região é de excelência para este tipo de vinho”. Ainda assim, a produção actual contempla apenas 35% de brancos, contra 65% de tintos.

O maior mercado, contudo, é a exportação. Cerca de 60% das garrafas vão para o mercado externo e o Brasil é o maior cliente, recebendo tantas garrafas como Portugal inteiro. Ásia e Estados Unidos estão logo a seguir. Bernardo é um fiel apaixonado da região onde opera e vive, e acredita que o sucesso da empresa não é apenas bom para a Adega Mãe: a região de Lisboa também usufrui.
A estratégia para o futuro mais próximo é a de conseguir fazer subir o preço médio de venda, tarefa que vai ser alicerçada na constante melhoria da qualidade dos vinhos.
A opinião dos técnicos
Terminada a parte do negócio em si, foi a vez do enólogo consultor, Anselmo Mendes, falar do projecto e dos vinhos. Presente desde o início, Anselmo começou por estudar o planeamento da adega, tarefa que durou dois anos: “Foi a adega mais bem pensada onde estive”.
A enologia veio a seguir, em parceria com Diogo Lopes, enólogo residente. Esta dupla, e o resto da equipa, ainda não pararam de fazer experiências. Havia pouco ou nenhum histórico na região e por isso a equipa optou por plantar uma multiplicidade de castas. Alvarinho, Arinto e Viosinho, por exemplo, já deram provas da sua excelente adaptação ao terroir da quinta, com clima relativamente fresco e com marcada influência atlântica. Nas tintas destacou-se a Touriga Nacional e, de certa maneira, o Pinot Noir. Mas existem ainda opções em aberto, até porque Anselmo considera que “os taninos aqui são completamente diferentes [leia-se, aguerridos] e por vezes temos que os corrigir na adega”.
A experimentação não ficou só pela vinha. O branco Terroir 2014, por exemplo, estagia 12 meses em barrica de 400 litros. Mas escolher a barrica certa – o tipo de carvalho e inclusive a floresta de onde veio – levou sete anos a afinar! Enologicamente, este vinho (e outros brancos) estão a sofrer experiências de vinificação, especialmente sobre a relação entre borras finas e o oxigénio: “há ainda muito para descobrir”, salienta o técnico.
Muitas experiências e histórias correram por estas paredes e vinhas, a grande maioria de cariz feliz. O futuro deverá continuar assim e apostamos que a casa dos Alves vai continuar a brindar os enófilos com vinhos cada vez melhores.
Teixuga, de betão à vista

Nova adega, novos vinhos, novos caminhos. A Caminhos Cruzados está no Dão com a promessa de que a região não se esgota em si mesma, com Lígia Santos aos comandos. Só faltava uma adega à altura… TEXTO Mariana Lopes NOTAS DE PROVA Luís Lopes FOTOS Ricardo Palma Veiga A Caminhos Cruzados vinificou a primeira […]
Nova adega, novos vinhos, novos caminhos. A Caminhos Cruzados está no Dão com a promessa de que a região não se esgota em si mesma, com Lígia Santos aos comandos. Só faltava uma adega à altura…
TEXTO Mariana Lopes NOTAS DE PROVA Luís Lopes FOTOS Ricardo Palma Veiga
A Caminhos Cruzados vinificou a primeira vez em 2012 e lançou-se ao mercado com a marca Titular. De regresso à Nelas do avô Coelho dos Santos, as duas gerações mais recentes da família saíram do Porto com vontade de fazer vinho no Dão, e fundar uma empresa de cara fresca, moderna. Paulo, empresário industrial de têxteis, e Lígia, advogada, pai e filha juntos numa actividade que esta viria a assumir a tempo inteiro como CEO. Em 2014, com a chegada dos tarimbados enólogos Carlos Magalhães e Manuel Vieira e com o inevitável crescimento do negócio, foi tempo de investir. A Quinta da Teixuga e os seus trinta hectares, quinze de vinha, já eram explorados pela Caminhos Cruzados desde o ano anterior. Com algumas parcelas de cerca de 50 anos de idade, a propriedade de Vilar Seco foi escolhida para cenário de um projecto de dois milhões de euros com arquitectura de Nuno Pinto Cardoso. Agora, a nova adega está pronta e já recebeu as uvas de 2017. O edifício, de linha super-moderna e a expor o betão ao mundo, é composto por dois blocos que se cruzam sobre um arco (a lembrar o logótipo da empresa) e está perfeitamente integrado no ambiente, sem qualquer efeito postiço. As parcelas de vinha que o rodeiam parecem recebê-lo com carinho, fazendo a cama ao piso assente numa espécie de “lombo de bacalhau”, mais alto no centro e descendente nas laterais.

Porque o Novo Dão não é só vinhos diferentes. É consciente na estética e também na sustentabilidade, factor presente na construção – a adega, de baixa manutenção, tem um reservatório no seu núcleo que recolhe a água da chuva para tratamento e reutilização. Mas o conceito de modernidade não fica por aqui: a estrutura não tem pilares, foi construída com o mesmo método das pontes, em suspensão. No seu interior, encontra-mos uma perfeita harmonia entre o belo e o funcional, com a particularidade de o caminho entre as salas ser quase labiríntico, com micro-divisões nos entretantos e uma vista privilegiada para as vinhas.
Durante a visita, Paulo Santos confessou: “Vou afastar-me de vez e a Lígia vai passar a gerir tudo.” E continuou: “Ela mereceu essa responsabilidade e tem conhecimentos nesta área, que eu não tenho.” Quando ouvimos a jovem produtora a receber-nos na sua nova adega e a explicar o percurso da Caminhos Cruzados, foi fácil perceber o seu papel na região. “Bem-vindos à nossa casa, uma casa informal e moderna.” Lígia representa a rebeldia do sector, o desprendimento dos poderes instituídos e das amarras sociais e políticas que muitas vezes o toldam. Uma lufada de ar fresco no Dão.

Nesta apresentação provámos duas novidades, Caminhos Cruzados Family Edition branco 2015 e tinto 2014. Dois vinhos para comemorar a nova fase da família e da empresa, exclusivamente em tamanho magnum. A base do tinto é Touriga Nacional, com Jaen, Alfrocheiro e Tinta Roriz. Referindo-se ao branco, de Encruzado, Bical, Cerceal-Branco e Malvasia Fina, Manuel Vieira brincou: “Gosto muito de deixar brancos a estagiar à conta do patrão…” Todos nos rimos e a lareira fez-nos companhia até ao regresso a casa.
Chocapalha: uma família na Aldeia Galega

Os Tavares da Silva compraram a Quinta de Chocapalha em meados dos anos 80. Foi em leilão de partilhas e a partir daí a vida mudou. Ficaram para trás outras vidas, mas não se perdeu o essencial: a unidade do núcleo familiar. Hoje continua a ser de família que falamos. E não há aplausos que […]
Os Tavares da Silva compraram a Quinta de Chocapalha em meados dos anos 80. Foi em leilão de partilhas e a partir daí a vida mudou. Ficaram para trás outras vidas, mas não se perdeu o essencial: a unidade do núcleo familiar. Hoje continua a ser de família que falamos. E não há aplausos que cheguem para apoiar projectos destes.
TEXTO João Paulo Martins FOTOS João Cutileiro
PASSOU uma dúzia de anos desde a última vez que tinha estado em Chocapalha. E como a memória às vezes é fraca, dei comigo a voltar para trás no carro pensando que me tinha enganado na estrada, porque se tratava de uma estrada de terra, pormenor que não me tinha ficado na memória. Dir-se-ia que este regresso à terra da família Tavares da Silva não obrigava a tanta fidelidade à ruralidade de outrora, mas registamos com apreço este pormenor. E é de pormenor que falamos quando entramos na casa bem antiga e de traça rural portuguesa, no cuidado em manter o que é de manter, apesar do que isso implica de frio a entrar por baixo da porta. É que isolamentos térmicos nunca foram o forte das casas portuguesas e, à conta disso, o número de lareiras e aquecedores acaba por ser enorme.
O pai, Paulo, ex-oficial da Marinha, abandonou as lides marítimas e instalou-se, perto mas sem mar à vista, sendo agora as vinhas, as pêras (9 hectares) e as maçãs (em modo de gradual substituição) que lhe tomam todo o dia. E ao passear com ele nas vinhas – 50ha, num total de 70ha da propriedade – ficamos a saber onde há videiras com esca (doença de lenho), onde há pegadas de javalis (já os viu em bandos de 15…), onde se escondem as perdizes, qual a parcela em que há uma melhor adaptação da casta ao solo e à exposição e onde vamos ter de substituir isto por aquilo. Conhece cada palmo do terreno, todo ele muito argiloso, o que mantém a humidade do solo e permite ter vinhas sem rega. Por aqui stress hídrico não é assunto…
Ao seu lado andam duas filhas: Sandra e Andrea. Sandra, sempre em trânsito entre o Douro e Chocapalha, a responsável técnica dos vinhos e quem mais mudança e confusão traz à família – pelas opções de castas, pelas decisões do planta e do arranca, pelas compras dos equipamentos, pelos lotes e pela “cara” que tem que dar pelos vinhos, enquanto enóloga responsável. Mas não está sozinha e Miguel Cavaco, enólogo residente, segura este barco (passe a expressão em família de marinheiro…) que não tem parado de crescer e já longe vai a primeira vindima (em 2000). E foi esse crescimento que obrigou à construção de uma adega, uma obra notável pela inserção na paisagem e que permite um trabalho bem mais profissional do que a velhinha e antiga adega que conheci na minha primeira visita à quinta.
São as dores do crescimento, mas isso apenas reflecte a consistência do projecto com a permanente supervisão da folha Excel por parte da irmã Andrea, que controla o backoffice da empresa e que não tem de percorrer o país de lés-a-lés porque o trajecto é apenas desde Lisboa. É essa curta distância que entusiasmou Alice, a mãe, o elo agregador do núcleo familiar, que se sente bem porque não estar assim tão longe da vida urbana e ter uma pacatez bucólica de fazer inveja a qualquer citadino inveterado.
Quando se decidiu plantar vinhas, as opções e orientações da então Comissão Vitivinícola iam para as castas tradicionais da região, como a Tinta Miúda, o Castelão, a que se poderiam juntar a Preto Martinho, Seminário e muitas outras que por aqui eram usadas. Mas esses tempos mudaram e Paulo orgulha-se de ter plantado aqui há 30 anos – na altura com os conselhos de Luiz Carvalho – a Touriga Nacional, com garfos do Dão que trouxe do Centro de Estudos de Nelas. Datando da mesma época temos vinhas de Arinto, que agora passará a ser sempre um vinho varietal, tendo deixado de entrar na quase totalidade dos outros brancos. É a casta mais tardia, com maturações muito lentas, “a última das brancas a ser vindimada e já quando as tintas vão a meio”.
Nas opções iniciais contaram-se castas estrangeiras brancas, como Chardonnay e Sauvignon Blanc, algo que Sandra justifica: “Eram importantes para conseguirmos entrar nos mercados externos mas, de há 10 anos para cá, deu-se uma inversão e agora lá fora só querem as castas portuguesas. Por ironia, as castas estrangeiras continuam a vender-se bem por cá.” Também aqui existe a mal amada Tinta Roriz, mas Sandra não desarma: “Se plantada nos locais certos – mais pobres, que induzam pouca produção, e mais arejados, onde as doenças fúngicas ataquem menos –, dá grandes vinhos, eu gosto muito.”
Pelos vistos mudaram os gostos dos importadores mas mudou também o perfil que se pretende para os vinhos. Outrora havia aqui brancos muito marcados pela madeira nova e hoje as barricas novas entram em percentagem muito pequena. Continua a usar-se a fermentação e estágio nas barricas mas agora pretende-se uma maior complexidade que deriva do estágio e da bâtonnage e menos das notas de tosta. Torna-se assim obrigatório manter ensaios permanentes (dores de cabeça para quem investe…) sobre que tipos de madeiras, com que capacidade, que quantidade se tem de comprar anualmente, qual o tempo de estágio em garrafa após o engarrafamento, etc, etc.
Indo ao encontro das novas tendências, alguns brancos, como o Reserva e o CH, estão a chegar mais tarde ao mercado, dando-lhes mais tempo de garrafa, e por isso de um deles é a colheita de 2015 que começa agora a ser comercializada. Numa região tendencialmente geradora de vinhos com alta acidez, não há razão nenhuma para que os vinhos não vivam bem em garrafa e isso foi bem evidente nos vinhos mais antigos que provámos: um Arinto de 2009 anda austero e com leves notas apetroladas, complexo e que mais uma vez vem dar razão aos que acham que (talvez com um antepassado comum) a casta Arinto tem algum parentesco com o Riesling alemão. Não confirmamos nem desmentimos. Já o Chocapalha Reserva branco 2010, ainda herdeiro da época em que a barrica nova impunha a sua lei, não deixou de se mostrar muito bem, carregado na cor, com notas de compota e fruta em calda, mas ao qual o tempo conferiu um perfil acetinado, gordo e cheio de classe, daqueles que seguramente serão grandes companheiros de queijos de pasta mole.
O conceito de agricultura é o chamado modo orgânico, muito próximo por isso do modo biológico. “Fazemos uma intervenção mínima na vinha mas não queremos fazer vinhos naturais; são vinhos que viajam mal e que duram pouco; provados no próprio local da produção até podem ser interessantes mas no fim da viagem já perderam qualidades” diz-
nos Sandra.
O dia estava calmo e sem vento, coisa rara por aqui. E na Aldeia Galega por lá andavam alguns dos muitos estrangeiros que se têm vindo instalar por aqui, dando crédito à tese que diz que Portugal está na moda. Diz-se nos mentideros que por aqui “montaram tenda” para estarem mais perto da fonte. “Palha quê? No, no, mim querer blanco, usted tiene? Rojo tiene? Pur supuesto, benga…”
Modernização na Vidigueira

Na sub-região da Vidigueira, dois produtores de referência decidiram mudar um pouco a tradição da região e optaram por investir em novas uvas para fazer os seus vinhos. Não abandonaram a tradição; apenas a modernizaram. Os vinhos já aí estão… TEXTO António Falcão NOTAS DE PROVA Valeria Zeferino e Luís Lopes FOTOS Ricardo Palma […]
Na sub-região da Vidigueira, dois produtores de referência decidiram mudar um pouco a tradição da região e optaram por investir em novas uvas para fazer os seus vinhos. Não abandonaram a tradição; apenas a modernizaram. Os vinhos já aí estão…
TEXTO António Falcão NOTAS DE PROVA Valeria Zeferino e Luís Lopes FOTOS Ricardo Palma Veiga
NO Baixo Alentejo, a sub-região da Vidigueira – uma das oito existentes – é das mais tradicionais na produção de vinhos. Um bom conjunto de produtores faz aqui a sua vida, lançando, ano após ano, vinhos de grande qualidade média. O terroir ajuda, é verdade. A Vidigueira fica numa zona do Alentejo com particulares características edafoclimáticas.
Expliquemos: dizem os especialistas que esta zona, graças à protecção da Serra de Portel, usufrui de um clima mais ameno do que regiões mais desprotegidas. A Serra de Portel estende-se por cerca de 50 quilómetros numa orientação Este-Oeste e faz a divisão do Alto com o Baixo Alentejo. Francisco Mata, o secretário executivo da ATEVA (Associação Técnica para o Melhoramento da Viticultura do Alentejo), disse-nos em tempos que “este clima proporciona maturações mais completas e homogéneas, o que, por sua vez, dá origem a uvas que dão mostos mais equilibrados e a vinhos mais frescos e aromáticos”.
A casta rainha da região é a branca Antão Vaz, uma variedade com grandes qualidades e que tem dado muitas alegrias aos produtores da Vidigueira. No entanto, não é perfeita (e existe alguma que o seja?). Talvez por isso está a acontecer um outro fenómeno que tem vindo a ganhar peso nos últimos anos. Falamos da plantação de outras castas brancas, que vários enólogos e viticultores têm vindo a introduzir. Falamos de Alvarinho ou Viognier, por exemplo. Nas tintas acontece o mesmo: Petit Verdot, Touriga Franca ou Tinta Miúda. Os segredos são dois: melhorar a frescura dos vinhos com castas que melhor mantêm os ácidos com o calor e, ao mesmo tempo, dar alternativas aos produtores, que têm que se confrontar com clientes cada vez mais ávidos de novidades.
Um pouco neste sentido, fomos procurar dois exemplos onde isto tem vindo a acontecer na zona da Vidigueira: a Casa Agrícola HMR e a Herdade Grande. Estes dois produtores acumulam o facto de serem já clássicos na zona, com décadas nos vinhos engarrafados. E, por outro lado, cedo manifestaram a intenção de produzirem vinhos de muita qualidade, com respeito ao terroir, mas sem fazerem excessivas concessões ao que poderia ser considerado tradicional.
Casa Agrícola HMR
A Herdade do Monte da Ribeira – e daí o H.M.R do nome da empresa – está numa das franjas da região da Vidigueira, no caminho em direcção a leste, antes de se chegar à gigantesca albufeira do Alqueva. Adquirida pelo industrial Victor Carmona e Costa em 1987 e hoje propriedade da Fundação Carmona e Costa, a herdade tem mais de 1.000 hectares e acede-se a ela depois de passarmos a povoação de Marmelar. Desde 1991 que a empresa produz vinhos, um histórico pouco comum nos produtores não-cooperativos do Alentejo.
O terroir dos 47 hectares de vinha possui uma morfologia do terreno em planície, mas com encostas íngremes logo ao lado. Esta é uma zona mais quente do que a Vidigueira e por isso a herdade possui 3 barragens para armazenamento de água, para rega da vinha e do olival. Na nossa visita, todas estavam praticamente vazias, que a seca extrema deste ano não deu tréguas. Infelizmente, não existem ainda canais de abastecimento do Alqueva, planeados para daqui a uns anos. E está só a uns meros 5 quilómetros de distância…
A empresa tem passado por várias fases mas nos últimos anos, com gestão de António Nora e consultoria do enólogo Luís Duarte e do enólogo residente Nuno Elias, privilegiou a qualidade nos seus vinhos, reformulando a estratégia de marcas e a filosofia comercial. Algumas marcas ficaram em banho-maria (Quatro Caminhos e Varal, por exemplo),
enquanto a marca Pousio ganhou especial destaque. Em 2012 surgiu na adega o primeiro vinho icónico da casa, há anos planeado: o Marmelar tinto, que sai apenas quando a qualidade o justifica. Saiu só em 2015 e a colheita de 2014 avançou agora para o mercado. Estes vinhos são planeados na vinha, mas as coisas nem sempre funcionam como os enólogos querem. Por isso, a equipa não sabe ainda qual será a próxima edição e só o comportamento dos vinhos em estágio o dirá.
Como é óbvio, a mudança de estratégia não ficou apenas pelo marketing: no campo nasceram novas vinhas nos últimos anos, com novas castas a fazer complemento às mais tradicionais do Alentejo. O que era bom e provou bem, ficou. Outras castas, com menor interesse enológico, foram substituídas para dar lugar a variedades que conseguem dar uma mais-valia qualitativa aos vinhos. Falamos, por exemplo, da Baga, do Petit Verdot e do Petit Syrah. Nos brancos entraram Verdelho e Alvarinho. O mercado parece ter aceite bem esta estratégia (que envolveu uma subida dos preços médios) e os provadores também, com a marca Pousio a ganhar boas classificações em provas e concursos. A gama Pousio pende mais para um estilo moderno, com exuberância (sem excessos) e alguma elegância. O Marmelar é um portento de força e estrutura, com taninos ainda bem presentes, mas com frescura a contribuir para dar longevidade ao vinho.
A casa tem uma loja on-line que vende toda a gama de vinhos e os azeites Pousio, a preços simpáticos. Aponte para www.casaagricolahmr.pt.
Vinhos provados
• Pousio (Reg. Alentejano branco 2016)
Casa Agr. HMR
16 valores
PVP € 4,60
• Pousio (Reg. Alentejano Escolha tinto 2014)
Casa Agr. HMR
16,5 valores
PVP € 7,95
• Pousio (Reg. Alentejano Reserva branco 2015)
Casa Agr. HMR
16,5 valores
PVP € 11,50
• Marmelar (Reg. Alentejano tinto 2014)
Casa Agr. HMR
18 valores
PVP € 30
Sabia que…
De todo o Alentejo, a sub-região da Vidigueira – com 1029 hectares – é a que tem a maior área de vinha branca aprovada para vinhos DOC
Herdade Grande
António Lança é uma das personagens no panorama vínico da Vidigueira. Engenheiro agrícola de formação, com passado familiar na vinha e vinho, já tinha investido em vinha desde 1980, mas as uvas eram, entretanto, vendidas para a adega cooperativa local, de que o pai tinha sido fundador. Lança estava na actividade bancária, mas decidiu, em meados dos anos 90, iniciar a sua própria produção. A primeira colheita data de 1997, vinificada na adega entretanto criada.
Aqui não houve grande critério estético no investimento e, desde essa altura, as mudanças não foram muitas. Apenas existiram nos equipamentos, na modernização. Afinal, a adega é para vinificar e não para encher o olho. António Lança gostaria certamente de ter uma adega de prestígio arquitectónico, mas privilegiou a funcionalidade. O empresário agrícola vai querer, em contrapartida, criar uma pequena unidade hoteleira na herdade, numa encosta com bonita vista sobre a planície. Até este sonho ser realizado, o enoturismo está presente na Herdade Grande, não só com uma loja aberta ao público, mas também através de visitas guiadas.
A Herdade Grande é de facto ‘grande’ para a zona da Vidigueira, mais conhecida pela pulverização da propriedade, factor quase único no Alentejo. Possui cerca de 350 hectares de terra, dos quais 70 hectares estão em vinha e 40 hectares em olival. A área de olival vai crescer, mas são sobretudo as mudanças na vinha que nos interessam. De facto, nos últimos anos entraram novas castas na herdade, em grande parte graças aos esforços de Mariana Lança, filha do proprietário e enóloga de formação. Chegaram assim novidades como Petit Verdot ou Tinta Miúda e ampliou-se a área de Cabernet Sauvignon e Alicante Bouschet. Nos brancos, os vinhos passaram a ter mais Verdelho e Arinto, mas também Viosinho, Rabigato, Chardonnay, Semillon, Viognier e Alvarinho.
A mudança – ou evolução – não deixou de ter os seus engulhos. Por exemplo, a casta Rabigato, que António Lança trouxe do Douro, levou dois anos a adaptar-se. “Pouco passava dos 10 graus de álcool, mas depois, como por milagre, harmonizou-se com o terreno”, diz-nos Mariana Lança. A Touriga Franca, pelo contrário, assentou que nem uma luva nestes terrenos e hoje faz parte dos melhores lotes de tinto. O professor de viticultura Rogério de Castro, amigo da casa, deu o seu aval a estas plantações.
A tradição não foi esquecida: O núcleo dos brancos continua na omnipresente Antão Vaz, a casta mais conotada com a Vidigueira e a principal responsável pela fama que os vinhos brancos conseguiram nestas últimas décadas, com prémios assinaláveis durante este período. O enólogo Luís Duarte, que acompanha a Herdade Grande desde o início (moderno) não pode ser esquecido, muito pelo contrário. Ele é, seguramente, uma espécie de ‘arquitecto’ dos vinhos da casa. Está, como muitas vezes, ‘na sombra’, como o faz, aliás, na Casa Agrícola HMR. Mas a experiência e o conhecimento estão lá…
O aquecimento global esteve nos temas das conversas ao almoço e é algo que preocupa os proprietários, como aliás acontece por todo o país. No entanto, a Herdade Grande está escudada (ou quase) da seca porque recebe água da barragem do Alqueva, através de uma albufeira ali próxima, que serve de depósito. É uma bênção em anos de seca, como este de 2017.
Vinhos provados
• Herdade Grande (Reg. Alentejo Colheita Seleccionada branco 2016)
Herdade Grande
15,5 valores
PVP € 5,49
• Herdade Grande (Reg. Alentejo Gerações Colheita Seleccionada branco 2015)
Herdade Grande
16 valores
PVP € 7
• Herdade Grande (Reg. Alentejo Reserva branco 2014)
Herdade Grande
17 valores
PVP € 14,50
• Herdade Grande (Reg. Alentejo tinto 2014)
Herdade Grande
15,5 valores
PVP € 6,80
• Herdade Grande (Reg. Alentejo Gerações Colheita Seleccionada tinto 2012)
Herdade Grande
16 valores
PVP € 12
• Herdade Grande (Reg. Alentejo Grande Reserva tinto 2012)
Herdade Grande
17 valores
PVP € 23
Procurar outros caminhos
A tradição é quase sempre bonita, mas pode ser espartilhante na altura de um produtor, por curiosidade e/ou opções de estratégia comercial, decidir fazer um pequeno desvio na sua viticultura. Na sub-região da Vidigueira, estas duas casas fizeram isso mesmo: sem abandonarem o bom que a tradição lhes foi trazendo, escolheram plantar castas ‘fora do baralho’ que trouxessem mais-valias e diversidade aos seus portefólios. E obrigou os produtores, por outro lado, a sair da sua zona de conforto. Em ambos os casos a estratégia funcionou e os vinhos que daí resultaram estão já por cá, a provar da justeza das decisões.
Quinta da Boavista: o ano da confirmação

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Se alguém tinha dúvidas sobre a qualidade dos vinhos que se seguiriam à colheita inaugural de 2013, o lançamento dos vinhos de 2014 confirmou a excelência de um projeto que, apesar de muito recente, já alcançou o estrelato.
TEXTO Nuno de Oliveira Garcia FOTOS Cortesia do produtor
A Quinta da Boavista é uma propriedade de 80 hectares – 40 dos quais de vinha, com benefício de letra A (a melhor designação para a produção de vinhos do Porto) –, sita em pleno Cima-Corgo, não muito longe do Pinhão, na margem direita do rio Douro junto a Chanceleiros. A par das vinhas velhas, com castas misturadas, existem na propriedade Touriga Franca, Touriga Nacional, Tinto Cão, Tinta Roriz, Tinta Barroca e Sousão, mas também um pouco de Alicante Bouschet e Donzelinho Tinto. Na casa da quinta pernoitava e trabalhava o Barão de Forrester, uma das mais célebres personalidades do Douro e do Vinho do Porto, facto histórico que, em conjunto com a beleza dos seus vinhedos, contribuiu para a grande fama da propriedade.
Segundo Rui Cunha, o enólogo responsável pelo projeto em conjunto com Jean-Claude Berrouet (enólogo-consultor, que durante mais de quatro décadas foi o criador do Château Pétrus), as suas vinhas velhas, que se espalham por um deslumbrante cenário geométrico de socalcos em xisto, e condições climatéricas especificas sentidas na propriedade, fazem da Boavista um terroir único. Adquirida pela empresa Lima Smith apenas alguns meses antes da vindima de 2013, os primeiros vinhos, feitos com uvas dos 10 hectares de vinhas velhas da propriedade, foram lançados em Setembro de 2016.
Para Tony Smith, proprietário, cada nova colheita é (ainda) um momento de enorme expectativa e entusiasmo. Isto apesar de os tintos de 2013 terem recebido o melhor feedback possível por parte da crítica e do mercado. Para 2014, primeiro ano em que a empresa acompanhou todo o ano agrícola, o foco manteve-se na produção de um fantástico tinto Reserva que o produtor pretende que se torne num dos tintos de referência do Douro. Ao portfolio somou-se, contudo, mais um novo monovarietal, desta feita de Tinto Cão.
Este tinto e o Touriga Nacional (que já tinha tido uma edição em 2013) são os únicos monovarietais disponíveis, e o produtor faz questão de dizer que apenas são produzidos uma vez que o lote do Reserva não precisava das respetivas uvas. São, nas palavras de Rui Cunha, a parte restante que não entrou no lote do Reserva, ou seja, são vinhos quase residuais. A qualidade de ambos, todavia, comprova que as uvas da Quinta da Boavista só servem para fazer grandes vinhos, e a marca da barrica nos vinhos (sendo que nos monocastas a dimensão das barricas é, por regra, superior à do Reserva) mantém-se a um nível excelso.
Quanto ao ano de 2014, Tony Smith ‘joga à defesa’ e diz apenas que houve muita qualidade, ainda que menos quantidade. Aqui e ali faz já elogios à colheita seguinte (2015), mas sabe bem que, por agora, é preciso vender a de 2014. Quanto a nós, 2014 é um ano que não se deve desvalorizar, sobretudo em relação a produtores – como é o caso da Quinta da Boavista – que vindimaram antes das chuvas. De resto, a par do Reserva e dos monovarietais de Tinto Cão e Touriga Nacional, serão também lançados, tal como sucedeu em 2013, dois vinhos de vinhas diferentes, os fantásticos Vinha do Ujo e Vinha do Oratório.
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Eliminar nódoas de vinho, like a pro

Nódoas de vinho? De arrepiar, só de pensar, principalmente de vinho tinto. Felizmente, um pouco de sabedoria popular, misturada com alguns produtos da modernidade e uma pitada de sal (literalmente), podem acabar com o pesadelo. Qualquer que seja o método escolhido, há uma regra imperativa: ser muito rápido. Adereçar imediatamente a questão é garantir que […]
Nódoas de vinho? De arrepiar, só de pensar, principalmente de vinho tinto. Felizmente, um pouco de sabedoria popular, misturada com alguns produtos da modernidade e uma pitada de sal (literalmente), podem acabar com o pesadelo. Qualquer que seja o método escolhido, há uma regra imperativa: ser muito rápido. Adereçar imediatamente a questão é garantir que a nódoa sai civilizadamente, ao passo que deixá-la secar é meio caminho andado para o fracasso.
TEXTO Mariana Lopes FOTO Ricardo Palma Veiga
Para manchas ainda húmidas:
1. Sal
Pulverize uma camada espessa de sal sobre a totalidade da zona manchada. O sal absorve o vinho e é fácil de retirar depois. Esta técnica é ideal para “acidentes” durante aqueles jantares fora de casa, onde os recursos são diminutos e a paciência também. É eficaz nos dois primeiros minutos, pois o vinho ainda não foi totalmente absorvido pelo tecido.
2. Água com gás
A ideia é ir despejando, aos poucos, a água com gás para cima da nódoa, até a cor desta desvanecer quase por completo. A carbonatação e o baixo ph deste tipo de bebida são características conhecidas por ajudar a levantar os pigmentos das manchas frescas. Mas não utilize água com gás com sabores, essa contém açúcar, o que pode piorar a situação.
3. Sal e água com gás, em conjunto
Primeiro o sal, depois a água, pelos mesmos processos descritos acima. Quanto utilizados em sinergia, a eficácia é dobrada.
4. Leite
Mais demorado, o leite demora cerca de uma hora a actuar. Entorne o líquido copiosamente sobre a nódoa e cubra com papel de cozinha, deixando ensopar. Não esfregue o papel sobre a mancha, isso iria alargá-la. Outra opção é colocar o tecido numa taça com leite, submergindo-o, no caso de a nódoa ser muito grande.
5. Areia de gato
Sim, areia de gato. Deite uma camada de cerca de 1,20 cm sobre a mancha. Faça pressão com os dedos sobre a areia para que esta absorva o vinho. Remova com um aspirador. A areia de gato contém químicos altamente absorventes e, tal como o sal, deve utilizar-se nos primeiros dois minutos. Este método também funciona bem a nível psicológico, pois o leitor (caso tenha um gato) vai sentir-se muito melhor perante a elevada renda mensal que este produto representa.
6. Água a ferver
Se não tiver nenhuma das opções acima, use água a ferver. Coloque o tecido dentro do lava-louça, suba para um banco ou uma cadeira e vá despejando a água a ferver na mancha, de uma altura de aproximadamente um metro. Depois lave a peça. Este procedimento não é aconselhado em lã ou seda.
Para manchas já secas:
1. Espuma de barbear
Pulverize a espuma sobre a nódoa e achate com a parte de trás de uma colher, antes de lavar o tecido normalmente. A textura espessa e espumosa, combinada com os componentes de limpeza do produto, funciona muito bem, saturando e levantando a nódoa.
2. Vodka ou gin
Deite uma destas bebidas sobre a mancha, cubra com um pano e entorne mais um pouco. Lave depois. As antocianinas, os pigmentos de cor presentes no vinho tinto, são dissolvidas pelo elevado volume de álcool.
3. Bicarbonato de sódio e vinho branco
Em bruto ou na forma de sais de fruto (Eno, por exemplo), o bicarbonato de sódio é eficaz quando utilizado em conjunto com vinho branco. Primeiro, ensope a nódoa com o vinho branco, para diluir a cor do tinto e prevenir que este assente novamente. Depois, misture três partes de bicarbonato de sódio com uma de água até se formar uma pasta. Coloque essa pasta na nódoa e espere uma hora, pulverizando-a periodicamente com água para manter a mistura húmida. De seguida, lave normalmente a peça.
Existem produtos próprios para o efeito, como o Wine Away, à venda em Portugal, mas não são tão fáceis de encontrar. Algumas garrafeiras online têm-no em stock, como a Garrafeira Tio Pepe, a um preço de €7,50. Apesar de, estatisticamente, estas “receitas” terem provado funcionar, a Grandes Escolhas não se responsabiliza por camisas ou tapetes definitivamente escangalhados. É a vida de um enófilo, meus senhores.