34 ouros lusos no Concurso Vinalies 2018

Vinalies Internationales 2018, Quinta do Grifo Porto Vintage 2015

Já terminou mais um concurso Vinalies Internationales, organizado em Paris pela associação Enólogos de França. O número de amostras em prova superou as 3.500, de dezenas de países diferentes. Um jurado com cerca de 130 elementos (enólogos, jornalistas e enófilos esclarecidos) elegeu durante cinco dias, em prova cega, os vinhos destinados às medalhas de Ouro […]

Já terminou mais um concurso Vinalies Internationales, organizado em Paris pela associação Enólogos de França. O número de amostras em prova superou as 3.500, de dezenas de países diferentes. Um jurado com cerca de 130 elementos (enólogos, jornalistas e enófilos esclarecidos) elegeu durante cinco dias, em prova cega, os vinhos destinados às medalhas de Ouro e Prata. O melhor em cada uma das 8 categorias levou ainda um troféu. Este ano, o concurso outorgou 1.035 medalhas. Portugal trouxe 34 medalhas de Ouro, uma das quais teve direito a troféu para o melhor vinho licoroso. Foi ele o Quinta do Grifo Porto Vintage 2015, da Rozès. Medalhas de Prata foram 63. O concurso não dá medalhas de Bronze. A nível de empresas, destaque para a Casa Santos Lima e a Sogrape Vinhos, que trouxeram 7 Ouros cada; a Rozès trouxe 5.

Pode consultar os resultados completos em https://vinalies-internationales.com

Um país de Boas Escolhas

Boa Escolha 2017

O Selo Boa Escolha é atribuído pela VINHO Grandes Escolhas para destacar os vinhos que conseguem uma determinada avaliação dentro do escalão de preço em que se inserem. A tabela interna, definida no início de cada ano, diz-nos, por exemplo, que um vinho tranquilo pontuado com 16,5 valores será considerado Boa Escolha se o seu […]

O Selo Boa Escolha é atribuído pela VINHO Grandes Escolhas para destacar os vinhos que conseguem uma determinada avaliação dentro do escalão de preço em que se inserem. A tabela interna, definida no início de cada ano, diz-nos, por exemplo, que um vinho tranquilo pontuado com 16,5 valores será considerado Boa Escolha se o seu preço não for superior a oito euros. Esta grelha é diferente para os vinhos tranquilos, espumantes e generosos, de forma a ter em conta as especificidades de cada produto. A boa relação qualidade/preço é, quase sempre, o segredo para o sucesso comercial e não espanta, por isso, que os produtores acarinhem particularmente esta distinção e se esforcem para a alcançar. No ano de 2017 – incompleto, uma vez que o primeiro número da revista VINHO Grandes Escolhas saiu em Maio – o painel de provadores (Fernando Melo, João Paulo Martins, João Afonso, Luís Lopes, Nuno de Oliveira Garcia e Valéria Zeferino) destacou 520 vinhos e uma aguardente como excelentes propostas para o consumidor. O Alentejo, com 113 selos, foi a região mais representada nesta lista, seguido do Douro (77) e de Lisboa (76). Mas as boas propostas surgem de todo o país: Vinho Verde e Regional Minho (63), Tejo (57), Dão (37), Espumantes (24), Monção e Melgaço (17), Península de Setúbal (15), Bairrada (13), Trás-os-Montes (5), Vinho do Porto (5), Sem DO/IG (3), Algarve (2), Açores (1), Licoroso (1), Aguardentes (1). No total, são 521 produtos particularmente apetecíveis para os consumidores, oferecendo qualidade a bom preço. Brindemos a isso.

NOTA: o ficheiro anexo, em formato PDF, está ordenado de duas formas. Primeiro por estilos de vinho (por exº “Espumantes”) e/ou regiões. Neste último caso, a ordenação é de norte para sul. Dentro de cada região ou estilo de vinho, a ordenação é alfabética.

Pode puxar o ficheiro clicando no texto já abaixo. O download é automático.

Revista VINHO Grandes Escolhas -Lista Boa Escolhas 2017

Correção do Grau Alcoólico

As regiões de clima frio e húmido limitam a concentração de açúcar na uva madura. Neste caso é muitas vezes necessário recorrer ao aumento do grau alcoólico no vinho. TEXTO João Afonso O Grau Alcoólico e o Clima Climas quentes, com estio prolongado e muitas horas de sol, produzem vinhos alcoólicos e escuros que, por […]

As regiões de clima frio e húmido limitam a concentração de açúcar na uva madura. Neste caso é muitas vezes necessário recorrer ao aumento do grau alcoólico no vinho.

TEXTO João Afonso

O Grau Alcoólico e o Clima
Climas quentes, com estio prolongado e muitas horas de sol, produzem vinhos alcoólicos e escuros que, por norma, necessitam de correção da acidez. Pelo contrário, climas frios, húmidos, de estio curto e com poucas horas de sol produzem vinhos de cor aberta, com elevada acidez, que necessitam de correção do grau alcoólico.

O Grau Alcoólico e o Vinho
Há três métodos de aumento do grau alcoólico no vinho: Chaptalização, Adição de mosto concentrado e Adição de aguardente vínica ao mosto em fermentação.

A Chaptalização
Criada pelo químico e ministro de Napoleão Jean Antoine Chaptal, consiste na adição de açúcar de beterraba ao mosto. Por cada 17 gramas de açúcar aumenta-se 1% Vol. de álcool provável no vinho final. A prática não é permitida em Portugal.

Adição de Mosto Concentrado
Esta prática é permitida no nosso país e é totalmente neutra na formação dos aromas finais do vinho feito. Um litro de mosto concentrado tem cerca de 800 gramas de açúcar, ou seja, um potencial alcoólico de 47% Vol.

Adição de Aguardente ou Fortificação
Método usado no fabrico de vinhos generosos. Consiste na adição de aguardente a um pré-estabelecido momento da fermentação alcoólica com o propósito de a interromper e parar, de modo a produzir um vinho doce (com maior ou menor teor de açúcar residual) e com elevada graduação alcoólica.

Os 4 passos da correção de grau alcoólico
Se 17 g/l de açúcar equivalem à formação de 1% Vol. de álcool e 1 litro de mosto concentrado contém 800 gramas de açúcar ou 47% Vol. de álcool potencial, então subtraímos o grau inicial ao grau final pretendido; multiplicamos este valor pelo volume de vinho a corrigir em litros; e dividimos o resultado pela diferença entre o grau do mosto concentrado e o grau final pretendido.

Exemplo de 2.000 litros de vinho com 12% Vol. que queremos aumentar para 13,5% Vol.
13,5 – 12 = 1,5
1,5 x 2.000 = 3.000
47 – 13,5 = 33,5
3000 ÷ 33,5 = 89,55 litros de mosto concentrado que devemos adicionar aos 2.000 litros do nosso vinho.

O primeiro Grande Reserva da Comenda Grande

Com a vinha plantada em 2002 e os primeiros vinhos cá fora poucos depois, a família Noronha Lopes viu finalmente chegar a altura de lançar o seu primeiro Grande Reserva. Só porque o ano permitiu…   TEXTO António Falcão NOTAS DE PROVA Luís Lopes FOTOS Ricardo Palma Veiga FOI preciso esperar quase uma década para […]

Com a vinha plantada em 2002 e os primeiros vinhos cá fora poucos depois, a família Noronha Lopes viu finalmente chegar a altura de lançar o seu primeiro Grande Reserva. Só porque o ano permitiu…

 

TEXTO António Falcão NOTAS DE PROVA Luís Lopes FOTOS Ricardo Palma Veiga

FOI preciso esperar quase uma década para a equipa Herdade da Comenda Grande decidir que finalmente tinha um vinho tinto que estivesse à altura da qualidade que um Grande Reserva da casa merece. Não que os vinhos até aí não fossem bons. Porque eram. Mas, seja pela idade da vinha, seja pelo histórico, ou pela qualidade do ano de 2013 pelas paragens de Arraiolos, onde a herdade se situa, o que é facto é que as circunstâncias se conjugaram para a realização deste sonho.

A maior responsabilidade coube a Francisco Pimenta, o enólogo da casa desde o início. Trabalha sobretudo com António Lopes, gestor agrícola, e com o irmão Nuno, mais ligado à área comercial e de marketing. O pai de ambos, António Lopes, empresta a sabedoria de uma vida vivida junto à terra. Há muitas décadas que aqui se faz vinho, na altura nas tradicionais talhas de barro, resultando numa produção pequena, para consumo interno e para venda às gentes da região. Por isso, a experiência de António Lopes reside especialmente nas culturas tradicionais (cereais, olival, por exemplo) e gado. Como nos disse em tempos: “Despejei para aqui o bolso e agora serão os meus filhos a seguir o projecto.”

Quem segue a empresa desde o início não pode deixar de notar o afinamento ao longo dos tempos. É natural que assim seja: Francisco Pimenta vai conhecendo cada vez melhor a vinha de 42 hectares e as respectivas uvas, e está “a fazer a mão aos vinhos”. “Temos estado a redefinir o estilo, mais elegante e com menos álcool”, garante o técnico. Por outro lado, as duas maiores referências em volume – o colheita Comenda Grande e o bagin-box Comendinha – têm levado uma parte das melhores uvas. António Lopes disse-nos que já têm “sacrificado lotes especiais para manter a qualid de do colheita”. Em anos especiais, como o de 2013, quando a qualidade da uva é muita alta, tal não é necessário. Nesse ano, três castas tiveram um comportamento extraordinário: Alicante Bouschet, Syrah e Touriga Nacional.

As melhores uvas foram a vinificar em separado e fez-se o lote para o Grande Reserva, que estagiou 12 meses em barricas de carvalho francês. Foram apenas feitas 2.000 garrafas. O preço da garrafa reflecte a exclusividade. Para o futuro mais próximo é intenção dos proprietários ampliar a adega, instalada num antigo armazém.

A apresentação do Grande Reserva decorreu no restaurante Carnealentejana, na Praça de Touros do Campo Pequeno, em Lisboa. Comida bem feita e carne de alta qualidade, a fazer jus aos vinhos bebidos.

Paulo Laureano: novos vinhos, acto único

O momento foi escolhido para apresentar dois novos topos de gama da empresa. Mas também para anunciar mudanças na forma de os comercializar.   TEXTO João Paulo Martins FOTOS DR DE Paulo Laureano já todos sabemos os gostos: pelas castas portuguesas, pela Vidigueira, pelas tradições regionais e… pela República, apesar do look de monárquico queirosiano. […]

O momento foi escolhido para apresentar dois novos topos de gama da empresa. Mas também para anunciar mudanças na forma de os comercializar.

 

TEXTO João Paulo Martins FOTOS DR

DE Paulo Laureano já todos sabemos os gostos: pelas castas portuguesas, pela Vidigueira, pelas tradições regionais e… pela República, apesar do look de monárquico queirosiano. E também lhe conhecemos as irritações: as castas estrangeiras e… o queijo, ainda que, como acontece com tantos outros, “se for disfarçado e eu não der por isso, até posso comer”. Ficamos esclarecidos.

Quanto às castas estrangeiras, o “divórcio” deu-se há uns anos quando deixou de usar o Cabernet Sauvignon que utilizava em alguns vinhos. É claro que, assim, lhe passa ao lado a moda do Syrah que, todos dizem, veio para ficar e não é apenas uma moda passageira. Mas, nesta luta, Paulo jogou um trunfo interessante e desconhecido de quase todos: a Tinta Grossa, casta tradicional da Vidigueira. Foi mais uma que esteve à beira da extinção e que, tanto quanto sabemos, está já a interessar outros produtores daquela zona do Baixo Alentejo. E quanto ao Syrah, é peremptório: “Não há que ceder à facilidade do Syrah, antes há que apostar mais no Aragonez, na Trincadeira e no Alfrocheiro.”

O negócio da Paulo Laureano Vinus tem crescido significativamente e o produtor/enólogo entendeu que estava na hora de criar dois vinhos emblemáticos, que servissem de topo de gama em branco e tinto e que pudessem mostrar o que de melhor se consegue fazer com as uvas disponíveis. Renascem assim os vinhos da marca Dolium em branco e tinto. É a marca mais antiga deste produtor, criada em 1999 (tinto) e 2000 (branco), com origem em vinhas antigas. No entanto elas não são eternas e a renovação das vinhas está a ser levada a cabo com varas das vinhas velhas, conseguindo-se a diversidade genética que se pretende manter, assegurando-se desta forma a continuidade do estilo e complexidade dos vinhos.

Do branco apenas se produziram 2.135 garrafas e 54 de 3 litros. Provém de uma vinha de Antão Vaz com 70 anos. O mosto fermentou um mês em madeira e depois esteve mais 8 meses em barrica. O tinto resulta de um field blend da vinha Julieta, dominando aí o Alicante Bouschet, Tinta Grossa e Alfrocheiro, acrescidas de sete castas não identificadas. A marca Vinha Julieta foi descontinuada. Foi vinificado em lagares com pisa mecânica e estagiou 12 meses em barrica nova de carvalho. Deste tinto fizeram-se 8.400 garrafas.

As outras marcas do produtor dispersam-se pelas marcas Paulo Laureano Selectio, Clássico e Vinhas Velhas; a que vende mais é o Clássico, a que mais tem crescido é o Vinhas Velhas. O mercado angolano continua a ser o mais importante para a empresa, mas os EUA e o Brasil estão em crescimento. No total falamos de 1,2 milhões de garrafas, mas já foram 2 milhões, quando o mercado angolano estava em alta.

Estes “renascidos” Dolium serão vendidos de uma única vez, um acto único para o qual serão convocados todos os compradores tradicionais. O que não for alocado nesse momento será depois disponibilizado aos sócios do clube Privilégio (que apenas terá 200 sócios) e haverá sempre uma venda anual com parte dos lucros a serem entregues a uma instituição de beneficência.

Na altura provámos também duas raridades: o branco de 2006 (Antão Vaz) e o tinto de 2001 (Aragonez e Cabernet Sauvignon). Os dois mostraram muita saúde, a demonstrar que o Alentejo também pode originar brancos com capacidade de envelhecimento (ver Da Cave) e tintos que dão boa conta de si passados quase 20 anos (apesar, ou por causa, do Cabernet Sauvignon).

Regressar às origens, em Borba

A Sovibor vai comemorar, em 2018, 50 anos de idade. Foi empresa conhecida na região desde os anos 80, com sede no centro da cidade. Como aconteceu com tantas outras empresas, esteve à beira da morte até que foi adquirida por Fernando Tavares, actual proprietário, um entusiasta dos vinhos de talha. Com os resultados que […]

A Sovibor vai comemorar, em 2018, 50 anos de idade. Foi empresa conhecida na região desde os anos 80, com sede no centro da cidade. Como aconteceu com tantas outras empresas, esteve à beira da morte até que foi adquirida por Fernando Tavares, actual proprietário, um entusiasta dos vinhos de talha. Com os resultados que aqui apresentamos.

 

TEXTO João Paulo Martins FOTOS Cortesia Sovibor

AO visitar a adega deparámo-nos com uma nave com imensas talhas de barro, mas logo se perceber o porquê de tão grande número. Explica Fernando Tavares, proprietário da Sovibor: “Corri a região toda à procura e o que encontrei, comprei; não é fácil e quem for agora começar a procurar vai ter muita dificuldade.” Apesar deste entusiasmo, as talhas só são usadas para fazer alguns dos vinhos da empresa, uma vez que a maioria é feita de forma convencional em adega própria, a partir das uvas adquiridas a lavradores.

A Sovibor não dispõe de vinhas próprias, mas herdou, e fez questão de manter, os contratos com os antigos fornecedores da empresa. Tem assim tem à sua disposição 170 hectares de vinha, podendo desta maneira ensaiar vários tipos diferentes de combinações de castas e perfis de vinhos. Um exemplo dessa variedade são as vinhas de Alfrocheiro e Syrah que têm agora 50 anos e das quais se fizeram dois vinhos varietais com a marca Passo de Terceiros. São duas parcelas contíguas com apenas 2 ha e destas parcelas fazem-se cerca de 3.000 garrafas das duas variedades. O portefólio está agora muito alargado e inclui vinhos de entrada de gama com a marca Borba, mas onde sobressaem, como seria de esperar, os vinhos de talha.

“As talhas são uma dor de cabeça”
Disso nos deram conta a equipa de enologia (António Ventura, Rafael Neuparth e Rita Tavares) e o próprio Fernando Tavares, que as comprou. Essa dor de cabeça deriva da imprevisibilidade, já que “só num dia se partiram três”. A razão para tais acidentes está na forma como deve ser conduzida a fermentação dos vinhos na talha. Durante a fermentação, a manta tem de ser mergulhada com regularidade para homogeneizar a temperatura. Recordemos que não existe controlo de temperatura e que as talhas podem ter uma dimensão grande, gerando um “clima” que pode fazer a talha rachar/rebentar, perdendo-se assim o vinho.

Nunca se sabe tudo e é a experiência que vai afinando os procedimentos. Na preparação das talhas segue-se aqui a receita mais antiga e tradicional: pez-louro, cera de abelha e azeite. Esta mistura é aquecida e depois deita-se a talha no chão e o preparado é colocado dentro da talha (após terem sido retirados os resíduos antigos) e a talha roda no chão com o preparado a ficar agarrado às paredes. “Se assim não for feito e se se usarem resinas modernas, não tem qualquer interesse fazer vinhos em talha”, diz, conclusivo, Fernando Tavares.

E para que o estilo seja tão próximo quanto possível das práticas antigas, usaram-se aqui, para fazer os vinhos, sobretudo as castas antigas da região, como o Moreto e a Carignan nos tintos e a Rabo de Ovelha nos brancos. A fermentação decorre com as películas e com um pouco de engaço, quer no branco quer no tinto. Se a fermentação arrancar normalmente de forma espontânea não são usadas outras leveduras. Só no final da fermentação se utiliza uma levedura que permite que o processo decorra até ao m, não se correndo assim o perigo do vinho car com açúcar por desdobrar. Os riscos de refermentação posterior na garrafa são demasiados para que tudo se deixe correr de forma natural, deitando o trabalho e o esforço a perder. Após a renovação da adega, a equipa da Sovibor vai apostar numa melhor relação com o turismo, tirando partido das centenárias instalações que ocupa, bem no centro de Borba. O empenho e a vontade parecem ter vindo para ficar e a qualidade dos vinhos é um bálsamo para todos.

BLANDY’S: novo fôlego na Madeira

Já se sabe que a ilha da Madeira produz alguns dos melhores néctares nacionais. E já se sabe também que a casa Madeira Wine Company é um dos principais players da região. Não satisfeita, a empresa reforça a sua posição com investimentos, principalmente na aquisição de vinhas.   TEXTO Nuno de Oliveira Garcia FOTOS Ricardo […]

Já se sabe que a ilha da Madeira produz alguns dos melhores néctares nacionais. E já se sabe também que a casa Madeira Wine Company é um dos principais players da região. Não satisfeita, a empresa reforça a sua posição com investimentos, principalmente na aquisição de vinhas.

 

TEXTO Nuno de Oliveira Garcia FOTOS Ricardo Palma Veiga

A produção de Vinho da Madeira tem várias especificidades. Uma delas é o facto de as principais casas produtoras não serem proprietárias de vinhas, mantendo contratos de aluguer com centenas de pequenos agricultores por toda a ilha, o que implica um inegável esforço de gestão de toda a produção. Todos os anos, a partir de Março, a equipa de viticultura da empresa efetua controlos regulares das vinhas, aconselhando e apoiando os produtores com o intuito de garantir a melhor qualidade da produção.

Com uma crescente procura por vinhos de categorias superior, em especial no mercado nacional (fenómeno recente), a Madeira Wine Company, liderada por Chris Blandy e que agrega várias marcas, enceta uma revolução e aposta num marketing mais agressivo que o habitual, o que se justifica pelo facto de o Madeira ser ainda um tipo de vinho com pouca divulgação. A par do marketing – que implica também uma nova imagem dos vinhos –, houve um processo de aquisição de vinhas, de renovação de adegas, e uma maior aposta no turismo (só nas instalações do Funchal, a empresa recebe cerca de 150 mil pessoas por ano). No total, são mais de 7 milhões de euros de investimento.

O que não baixou foi a qualidade dos néctares, que se mantém muito alta. Já no que respeita ao estilo dos vinhos, sente-se uma ligeira alteração, privilegiando-se um estilo mais no e fresco, e em alguns casos mais seco. A responsabilidade enológica está a cargo do técnico Francisco Albuquerque.

Os três vinhos agora lançados são todos, à sua maneira, imperdíveis, diferentes entre si no estilo e na casta (o Vinho da Madeira é tipicamente um vinho mono-varietal), desde o seco Sercial (conhecida no Continente por Esgana Cão) ao mais doce Bual, passando pelo Verdelho no seu característico estilo meio-seco.

Fulgor lisboeta

O percurso da Casa Santos Lima é, no mínimo, brilhante. Graças a uma gestão cuidada e rigorosa, vem crescendo desde a sua fundação nos tempos modernos, há menos de 30 anos. Com muitos, muitos prémios à mistura…   TEXTO António Falcão NOTAS DE PROVA João Paulo Martins FOTOS Ricardo Palma Veiga QUANDO chegámos à Quinta […]

O percurso da Casa Santos Lima é, no mínimo, brilhante. Graças a uma gestão cuidada e rigorosa, vem crescendo desde a sua fundação nos tempos modernos, há menos de 30 anos. Com muitos, muitos prémios à mistura…

 

TEXTO António Falcão NOTAS DE PROVA João Paulo Martins FOTOS Ricardo Palma Veiga

QUANDO chegámos à Quinta da Boavista, a cerca de 15 quilómetros a leste de Torres Vedras, a azáfama estava no auge, por causa das vindimas. A sede da Casa Santos Lima (CSL) exibe um alargado conjunto de edifícios, onde pontua a recente adega que contrasta, de forma elegante, com os imóveis de traça mais antiga que quase a rodeiam.

José Luís Oliveira da Silva não estava mas chega pouco depois, montado numa moto 4. Tinha acabado de vir das vinhas, controlando trabalhos e verificando maturações.

Ninguém suspeitaria de que estamos a falar de um ex-executivo, com trabalho internacional, transformado em produtor de vinhos. Até 1990, o mundo profissional deste gestor girava à volta da finança. Em grande parte localizado em Londres, uma das maiores praças financeiras mundiais. A partir desse ano, José Luís e uma tia ficaram com esta quinta e o gestor decide mudar de vida.

Do património constavam 60 hectares de vinha, usada sobretudo para fazer vinhos a granel, que por aqui eram produzidos por familiares desde o século XIX. O encepamento tinha pouco interesse para quem quisesse fazer vinhos mais ambiciosos. José Luís ficou assim com um problema: o que fazer? Estudar foi uma das vias, mas a outra foi ouvir quem já estava no mercado há muitos anos. O experiente e pragmático Luís Pato foi, por exemplo, um grande auxílio, que José Luís ainda hoje agradece.

Uma das primeiras resoluções foi assim a completa reestruturação da vinha, com a entrada de novas castas, consideradas mais nobres e com maior interesse enológico. Muitas experiências foram feitas, umas com grande sucesso, outras nem por isso. Mas a filtragem gerou a qualidade.

A área de vinha foi também crescendo e, com ela, foi-se alargando o portefólio ampelográfico. A CSL chegou a ter a maior colecção de monovarietais do país. Hoje a quinta tem 250 hectares e um larguíssimo leque de castas, tintas e brancas. A área de terra também cresceu, claro, e a última ‘grande’ aquisição foi na freguesia da Bemposta, em direcção ao Atlântico. A propriedade não tinha vinha e por isso foram plantados mais 40 hectares. Se tal não fosse suficiente, nestes últimos anos a empresa foi produzindo vinhos em outras regiões do país, através de compra ou parcerias com famílias locais. Hoje, para além de Lisboa, a Casa Santos Lima produz e vinifica no Alentejo, Douro e Vinhos Verdes. E também no Algarve, um dos projectos mais recentes, mas que tem sido dos mais bem-sucedidos. No total, explora directamente cerca de 400 hectares de vinha!

A aposta na internacionalização
Pelo caminho, a Casa Santos Lima foi lançando novos vinhos, abraçando outros mercados. “As coisas foram acontecendo sem qualquer plano”, revelou-nos o homem forte da CSL. Mas começaram bem, com o mercado londrino, onde o gestor fez as primeiras vendas. Rapidamente se estendeu a outros países, conquistando consumidores como poucas empresas do sector. Hoje o portefólio de marcas supera a centena e as vendas os milhões de garrafas. A esmagadora maioria dos vinhos (cerca de 90%) vai para exportação, para perto de 50 países nos 5 continentes. E a Casa Santos Lima é hoje a empresa que mais vinhos certifica na CVR de Lisboa.

Talvez a sua marca principal seja a qualidade geral que os néctares ostentam, apesar de, na sua maioria, serem vinhos de preços bastante acessíveis. A amostra que avaliamos em baixo constitui uma pequena parte do portefólio total e estão todos dentro de segmentos superiores em termos de preço.

A nível internacional, poucos produtores portugueses podem ombrear com a notoriedade que a CSL possui. O sucesso dos vinhos não é o único factor aqui em consideração. A aposta é muito forte em concursos internacionais (milhares de euros anuais) e a CSL tem conseguido ocupar lugares cimeiros no único ranking conhecido de empresas de vinhos de todo o mundo. Em 2016 ficou em 3º lugar, este ano em 2º!

Em termos de vinhos, a CSL tem também lugar de destaque: o seu tinto Valcatrina 2014 ficou em 15º lugar da lista dos 100 mais medalhados, o melhor entre os portugueses e alcançando o primeiro lugar mundial se apenas considerarmos tintos de lote. Outro vinho da casa, o Colossal Reserva tinto 2014, ficou em 25º lugar.

Um feito impressionante se considerarmos que o ranking World Ranking Wines and Spirits é elaborado com base nos resultados dos concursos internacionais de vinhos ocorridos durante o respectivo ano. Quantas mais e melhores medalhas recebem os vinhos de um produtor, mais sobe a posição no ranking desse mesmo produtor. O ranking é elaborado pela Associação Mundial de Jornalistas e Escritores de Vinhos e Licorosos.

Pode argumentar-se que a constante presença nos concursos ajuda (e muito) a esta posição. Ou pode ainda considerar-se que muitos e prestigiados produtores não enviam vinhos para concursos e/ou que alguns que o fazem não enviam os seus melhores e mais caros vinhos. É verdade e abundam esses casos. Mas, não havendo um ranking mais fiável, este é o melhor indicador que conhecemos sobre a valia vínica de uma empresa…

Avançar passo-a-passo
Nada foi feito com grandiosidade ou ostentação. Tanto a(s) adega(s), como a vinha (área e encepamento) foram crescendo à medida das necessidades. Ou seja, não foram feitos investimentos desnecessários. Só em 2014 foi construída a nova adega na Quinta da Boavista e nesta altura está a ser terminado um generoso espaço de armazenamento, com muitos milhares de metros quadrados de área coberta. Pelo meio, José Luís foi usando antigos espaços de armazenamento na região, que levaram remodelações para acomodar muitos milhares de litros de vinho.

A enologia na região de Lisboa está a cargo Diogo Sepúlveda, um jovem técnico que, a julgar pelos produtos, está a liderar uma equipa de adega de grande qualidade. A equipa de campo é também bastante jovem, tal como quase toda a restante equipa, incluindo a bonita e completa loja de vinhos.

Usar o que está bem
Tentamos resumir em pouco espaço uma história com quase 30 anos. Muito mais haveria para contar e certamente muito mais existirá para a frente. Com crescimentos constantes, ano após ano, a Casa Santos Lima ainda irá dar muito que falar. O mercado nacional, outrora pouco relevante na organização, vai ser alvo de maior atenção para o futuro, uma boa notícia para os enófilos nacionais. A ingressão comercial nos Estados Unidos está a correr tão bem que o mercado americano será já este ano o maior da casa. Há por isso ainda muito espaço para crescer. Nada que faça José Luís Oliveira da Silva ficar com mais alguns cabelos brancos: o líder de toda esta operação já está habituado a desafios complicados e provou que sabe como os conseguir superar. Mas, refere ele, “há mais de 20 anos, não imaginava estar onde estamos hoje. Foi acontecendo…”

Os Corvos de Lisboa
Às oito da manhã do passado dia 24 de Agosto, pudemos assistir a uma das vindimas mais ‘sui generis’ deste país. Presentes o vereador da Câmara Municipal de Lisboa (CML) José Sá Fernandes, de tesoura na mão, e o líder da Casa Santos Lima, José Luís Oliveira da Silva, representando, respectivamente, a entidade proprietária da vinha (a CML) e a empresa que a explora. Estamos na chamada Vinha do Aeroporto e o vinho que dela sairá também já tem nome: Corvos de Lisboa.

Os próprios vindimadores estavam surpresos com a actividade constante dos aviões que aterravam ali ao pé, a menos de um quilómetro de distância. Mais perto ainda, o trânsito da congestionada 2ª Circular ajudava a criar um ruído ambiente que certamente contrasta com a calma a que estão habituados os vindimadores presentes, vindos da zona de Alenquer.

Toda a uva foi apanhada nesse dia, recolhendo-se cerca de 15 toneladas de Arinto, Tinta Roriz e Touriga Nacional, dos dois hectares de vinha. “E até poderia ser mais, mas a passarada (pombos bravos, rolas, estorninhos, entre outros) fartou-se de comer uvas”, dizia-nos José Vicente, um dos dois jovens técnicos que orientavam os trabalhos de vindima, realizados por uma equipa de 20 pessoas. João Duarte era o outro.

As uvas foram para a adega da Casa Santos Lima, ao pé da Aldeia Galega da Merceana, onde foram vinificadas. Esta é a segunda vindima e o vinho proveniente da primeira estará prestes a sair para o mercado (e para CML, que vai ficar com uma parte). Esta vinha tem ainda sido usada como educação para crianças e idosos. Neste último grupo, por exemplo, têm surgido reacções muito interessantes de gente que há muitas décadas não pisava uma vinha e ali teve hipótese de regressar, nem que seja por momentos, a felizes tarefas de infância em outros lugares do país. Só isso já faz valer a pena ter plantado esta vinha…

6 perguntas a José Luís Oliveira da Silva
A Casa Santos Lima tem vindo a crescer ano após ano. Quais são os factores chave para conseguir singrar em mercados tão competitivos?

Procuramos surpreender o cliente pela positiva, entregando uma qualidade acima do que ele esperaria pagar. Isto foi acompanhado de uma política multimarca e multi-região, que suscita mais oportunidades de negócio. Por exemplo, um consumidor que quer provar um vinho do Algarve acaba por provar também outros do portefólio. Depois temos vinhos muito diferentes, graças a mais de 50 castas (só aqui, em Alenquer). Finalmente, a imagem também contribuiu: temos da mais clássica à mais moderna, do popular ao sofisticado. E assim muitas pessoas não se apercebem de que duas garrafas nossas, lado-a-lado, vêm do mesmo produtor.

Que importância tem a viticultura na criação dos preços? E na qualidade dos vinhos?
Muita. Precisamos de escala na viticultura. Para além da área, que é grande, a região de Alenquer tem condições extraordinárias para a produção de uvas de qualidade, com vales que mantêm humidade para a devolver à planta ao longo do ano. E isso permite-nos, por exemplo, não precisar de rega, o que, logo à partida, é uma economia de custos. Esta vantagem é transferida, em termos de preço, para o consumidor final.

A enorme variedade de marcas e vinhos leva a que alguém já tenha dito que “é tudo igual”. Como reage a essas críticas?
Ignoro ou não dou muita importância. Ficaria preocupado se os nossos importadores e consumidores tivessem essa opinião. Pelo número de castas e de operações de adega – altura de vindima, método de vinificação, o tempo e o tipo de estágio (madeira nova ou usada, por exemplo), lote final, etc – fazemos vinhos diferentes, mesmo que o estilo possa ser semelhante. Isso tem sido confirmado em muitos concursos internacionais e em críticas de revistas especializadas. E várias vezes contra vinhos que à partida seriam bem mais prestigiados… Por outro lado, o cliente não gosta de ser enganado e se puder comprar qualidade por 10, não vai para o de 20. E se foi enganado uma vez, não volta lá.

No meio do portefólio, onde é que se ganha dinheiro?
Em cada garrafa, da maior produção à mais pequena. Será que eu poderia comercializar milhões de garrafas a 10 euros cada? Poderia, mas não ia vender. Esses vinhos chegam às prateleiras a preços fora do alcance da generalidade dos consumidores. Nós também produzimos vinhos para momentos mais especiais, mas produzimos sobretudo para consumo diário; ora, existem muitos mais dias ‘normais’ do que ‘especiais’. Repare ainda que a imagem de Portugal nos vinhos ainda não é a que desejaríamos. Por isso parto logo em desvantagem. A solução é oferecer melhores vinhos do que os meus concorrentes internacionais, ao mesmo preço.

Se a Quinta da Boavista estivesse em outra região, acha que a sua vida seria mais fácil?
Se a minha estrutura de clientes fosse nacional, seria uma mais-valia. Mas como é sobretudo estrangeira, os nomes das regiões não têm o peso que têm aqui. Nos mercados nórdicos, por exemplo, o vinho português que mais vende não é do Alentejo ou do Douro.

Se o consumidor estrangeiro não liga às regiões, porquê estender-se a outras fora de Lisboa?
Porque muitos dos nossos importadores (e eles sabem) nos pediam vinhos de outras regiões. Mas a única que surgiu de minha iniciativa foi o Algarve, por questões pessoais e familiares. As outras foram-me propostas. E posso dizer que somos regularmente confrontados com ofertas em outras regiões, mas não podemos fazer tudo ao mesmo tempo…