Grande ProvaVinho

Tintos de raça, à beira Tejo

O rio marca a região e os seus vinhos, tal como marca a gastronomia, os hábitos e costumes. Com um Tejo meio adormecido nas suas calmas águas, os vinhos têm de se mostrar com energia, com carácter e com personalidade. Os melhores têm tudo isso e ainda prometem crescer na garrafa.

 

TEXTO João Paulo Martins FOTOS Ricardo Palma Veiga

AO entrar numa das velhas adegas das grandes empresas da região percebemos que o mundo do vinho já foi nestas terras de uma dimensão grandiosa; se quisermos, gigantesca. Percebemos que por aqui passaram muitos milhões de litros de vinho, que este já foi negócio de um volume que hoje nos faz confusão. Isso conclui-se de uma visita à Casa Cadaval, à Quinta da Alorna, à Fiuza, à Lagoalva, ao Casal Branco ou à DFJ mas, se prolongarmos a visita aos outros produtores da zona, ficamos com uma ideia de quanto o país (e suas colónias de então) foram tributários dos vinhos ribatejanos.

Hoje falamos de um Tejo diferente, de um rio que já não transborda como outrora e de vinhos feitos com mais cuidado e com outros horizontes. No entanto, as mudanças operadas a partir dos anos 90 não retiraram à região algumas das suas características fundadoras, sendo que a mais significativa é a percentagem elevada de brancos que produz e, em segundo lugar, a permanência da casta Fernão Pires como a mais emblemática da região. De facto, com a verdadeira invasão de castas de fora, seja do estrangeiro seja de outras regiões nacionais, é de destacar que algumas das variedades mais significativas ainda por aqui marquem forte presença. O mesmo acontece nos tintos com a Castelão e a Trincadeira, além da Alicante Bouschet que – ainda hoje presente em vinhas quase centenárias – tem mais tradição do que poderíamos supor.

A área de vinha tem tido grandes flutuações nas estatísticas, sendo que tal não se fica a dever a arranques de vinha ou grandes plantios mas apenas a um levantamento deficiente e à inexistência de um cadastro actualizado. Tal lamento foi expresso por Luís Castro, presidente da Comissão Vitivinícola Regional (CVR), que avançou com uma estimativa da área de vinha de toda a região que deverá rondar os 12.874 hectares – quando, nos documentos da própria CVR, se dizia que no ano 2000 existiria uma área de perto de 30.000 hectares. Esta diferença não resulta do arranque, mas do facto de os dados de 2000 “não estarem correctos”, como nos disse.

De resto, e seguindo ainda o presidente da CVR, tem havido mais interesse dos lavradores no plantio de vinhas, porque o valor médio está a subir e os vinhos estão a conseguir uma boa projecção internacional. Desta forma, a produção de vinhos com Denominação de Origem passou de um pouco mais de 5,5 milhões de litros em 2009 para 7,8 milhões em 2017, enquanto os Vinhos Regionais passaram de 10,5 milhões de litros em 2009 para 23 milhões em 2017.

Mercado interno em crescendo
Quem bebe os vinhos do Tejo? A pergunta tem sentido e a resposta pode ser inesperada: é cada vez mais o mercado interno o responsável por aquele crescimento. Isso conclui-se também da diminuição das exportações e consequente aumento do peso da procura interna. A venda para o exterior já representou, em 2012, 44% do negócio e no lapso de 5 anos baixou para 33%. Como é habitual neste tipo de produto, existem flutuações nos mercados de destino, que não são sempre os mesmos. O Brasil tem crescido muito nos anos mais recentes, acompanhado aqui pela China e Polónia, ao lado de uma baixa do mercado americano, inglês e alemão.

A produção está dispersa pelas grandes casas agrícolas acima referenciadas e que têm tradição antiga na região, por duas adegas cooperativas muito activas (Almeirim e Cartaxo), ao lado de outras de muito pequena expressão mas ainda a operar, como Alcanhões, Alpiarça e Benfica do Ribatejo. Várias outras encerraram portas, num movimento que tem tido expressão em muitas outras regiões do país.

Uma das grandes casas com tradições que tem sabido criar e inovar é Quinta da Alorna, onde Martta Simões, enóloga, nos disse quais são, na sua opinião, os pontos fortes e fracos da região. Como valor mais positivo Martta acentua a frescura e elegância dos vinhos, tanto em brancos como em tintos; o ponto fraco é mais difícil de erradicar, a “conotação com os vinhos baratos e com o vinho a granel”, algo que tarda em modificar-se. A região tem uma bandeira, a casta Fernão Pires, mas há outras que são igualmente desafiantes, como a Castelão, referindo-se em especial a uma parcela de vinha muito velha existente na Alorna e que “dá vinhos extraordinários, de cor, de concentração, tudo aquilo que nem sempre associamos à casta”, disse.

Além das castas tradicionais que ainda por aqui têm grande expressão, as novas variedades trazidas de fora têm-se mostrado bem, como é o caso do Sauvignon Blanc, que “não deve ser vindimado cedo de mais porque a falta de maturação dá-lhe um carácter muito verde”, diz Martta. Nos tintos a enóloga tem duas apostas, a Touriga Franca, que pode ser difícil de trabalhar mas com resultados excelentes, e a Alicante Bouschet, que pode ser excelente “desde que não se deixe produzir em demasia, o que com esta casta é muito fácil e muito tentador”.

Não faltam desafios à região e muito bons vinhos também já cá moram, como a nossa prova o demonstra. Mais massa crítica, mais afirmação dos trunfos da região, mais visibilidade junto do consumidor e mais trabalho conjunto de produtores ou enólogos da região são assuntos na agenda de trabalhos.

Sabia que…
A região do Tejo produz mais brancos do que tintos e, neste aspecto, só têm em Portugal paralelo na região Vinhos Verdes.

Pouca certificação, mas…
Olhando para as estatísticas da região do Tejo, verificamos que a percentagem de vinhos certificados é pequena. De facto, embora ela tenha vindo a crescer nos últimos anos, a certificação como DOC ou Regional ainda não chega aos 50% do total produzido. Os resultados podem considerar-se hoje bem melhores que há 10 anos, quando o vinho sem certificação, vendido sobretudo a granel, chegava aos 70%. Há algumas razões que explicam esta situação. Temos de ter em consideração que a adega cooperativa de Almeirim, que é de longe o maior produtor da região do Tejo (30% da produção de toda a região é da sua responsabilidade), comparativamente, certifica muito pouco do que produz, apenas cerca de 6%. Ora, com este dado, e apesar de a maioria dos produtores certificar bem mais de 50% do que produzem, as estatísticas finais são sempre algo enganadoras. A intensa procura do vinho a granel, a possibilidade que a região tem de produzir 25 a 30 toneladas por hectare com algumas castas (Alicante Bouschet, por exemplo, mas também Arinto) e os preços atractivos que se estão a praticar neste segmento levam a que seja difícil alterar a situação a breve prazo.

18 €30

Companhia das Lezírias 1836

DOC do Tejo Grande Reserva tinto 2015

Muita azeitona e eucalipto na primeira impressão, balsâmico e químico, concentrado e muito rico no aroma. Denso e bastante cheio na boca, compacto, muito sólido, a mostrar grande estrutura e classe mas a precisar de muito tempo em garrafa para revelar tudo. Um vinho de futuro. (14%)

17,5 €25

Falcoaria

DOC do Tejo Grande Reserva tinto 2015
Casal Branco

No aroma pressentem-se notas de madeira, caramelo e tosta de barrica, tudo com excelente impacto e com a fruta em segundo plano. Com tempo, o vinho abre no copo, assente em firme estrutura, belo equilíbrio de taninos e acidez. Muito rico, muito promissor. (14%)

17,5 €21

Marquesa da Alorna

DOC do Tejo Grande Reserva tinto 2013
Soc. Agríc. Qta. da Alorna

Notas de casca de árvore, com alguns balsâmicos e leve eucalipto à mistura, resinas, conjunto a mostrar um tom sério e com evidente personalidade. Muito volume na boca, com tanino ainda bem presente, ainda que fino, é claramente tinto de guarda. (14%)